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Alexander Lowen

CIP-Brasil. C a t a l o g a ç ã o - n a - P u b k c a ç ã o
C â m a r a Brasileira do Livro, SP

Lowen, Alexander, 1910-


L953b Bioenergética / Alexander Lowen ; t r a d u ç ã o de
M a r i a Sílvia M o u r ã o Netto ; d i r e ç ã o da coleção Paulo
Eliézer F e r r i de Barros |. — São Paulo : Summus, 1982.
(Novas buscas em psicoterapia ; v. 15)

1. Bioenergética 2. Psicoterapia bioenergética


I . Título.

17. CDD-616.891
18. -616.8914
17. -612.014
82-0650 18. -612.01421

Índices para catálogo s i s t e m á t i c o :


1. Bioenergética humana : Ciências m é d i c a s
612.014 (17.) 612.01421 (18.)
2. Homem : Bioenergética : Ciências m é d i c a s
612.014 (17.) 612.01421 (18.)
3. Psicoterapia bioenergética 616.891 (17.)
616.8914 (18.)
D o origina] em língua inglesa
Bioenergetics
Copyright © Alexander L ö w e n , M . D . , 1975

T r a d u ç ã o de:
Maria Sílvia Mourão Netto

D i r e ç ã o da coleção:
Paulo Eliézer Ferri de Barros
Novas Buscas em Psicoterapia

Capa de:
Marilena P i n i
Esta coleção tem como intuito colocar ao alcance do público
interessado as novas formas de psicoterapia que v ê m se desen-
volvendo mais recentemente em outros continentes.
Tais desenvolvimentos t ê m suas origens, por um lado, na
grande fertilidade que caracteriza o trabalho no campo da psico-
terapia nas últimas d é c a d a s , e, por outro, na a m p l i a ç ã o das soli-
citações a que está sujeito o psicólogo, por parte dos clientes que
o procuram.
Proibida a r e p r o d u ç ã o total o u parcial É cada vez maior o n ú m e r o de pessoas interessadas em ampliar
deste l i v r o , por qualquer meio e sistema, suas possibilidades de experiência, em desenvolver novos sentidos
sem o p r é v i o consentimento da Editora.
para suas vidas, em aumentar sua capacidade de contato consigo
mesmas, com os outros e com os acontecimentos.
Estas novas solicitações, ao lado das f r u s t r a ç õ e s impostas
pelas limitações do trabalho clínico tradicional, inspiram a busca
de novas formas de atuar junto ao cliente.
Embora seja dedicada à s novas g e r a ç õ e s de psicólogos e
psiquiatras em f o r m a ç ã o , e represente enriquecimento e atuali-
z a ç ã o para os profissionais filiados a outras orientações em
psicoterapia, esta coleção vem suprir o interesse crescente do
público em geral pelas contribuições que este ramo da Psicologia
tem a oferecer à vida do homem atual.

Direitos para o Brasil


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desta t r a d u ç ã o .

Impresso no Brasil
A meus pais
cuja devoção a mim tornou possível
enfrentar e trabalhar os conflitos
da minha personalidade.
índice

I. DE R E I C H À B I O E N E R G É T I C A
Terapia reichiana, 1940-1945 13
Meu trabalho como terapeuta reichiano, 1945-1953 — 23
O desenvolvimento da bioenergética 31

II. O CONCEITO DE ENERGIA


Carga, descarga, fluxo e movimento 40
Você é o seu corpo 47
Mente, espírito e alma 53
A vida do corpo: exercícios bioenergéticos 60
III. A L I N G U A G E M DO CORPO
O c o r a ç ã o da vida: o cerne da q u e s t ã o 72
I n t e r a ç ã o com a vida 77
Sinais e expressões corporais 86

IV. TERAPIA- B I O E N E R G É T I C A
A viagem da autodescoberta 92
E s s ê n c i a da terapia 103
Ansiedade 109
V. O P R A Z E R : U M A ORIENTAÇÃO P R I M Á R I A
P r i n c í p i o do prazer 118
Ego e corpo 124
Caracterologia 131
Estrutura de c a r á t e r esquizoide 132
Estrutura de c a r á t e r oral 136

9
Estrutura de c a r á t e r psicopática 139
Estrutura de c a r á t e r masoquista 142
Estrutura de c a r á t e r rígida 146
Hierarquia dos tipos de c a r á t e r e uma declaração
de direitos 149
VI. R E A L I D A D E : U M A DIREÇÃO SECUNDÁRIA
Realidade e ilusão 153
Obsessões (hang-ups) 160
"Grounding" 169
VII. ANSIEDADE DE CAIR
Medo de alturas 174
Exercício de cair 178
Causas da ansiedade de cair 186
T r ê s almas, t r ê s preces:
Apaixonar-se 190
Sou um arco em suas m ã o s , Senhor.
VIII. TENSÃO E SEXO F a ç a uso de m i m , senão a p o d r e ç o .
Não abuse de m i m , Senhor, s e n ã o me p a r t i r e i ao meio.
Gravidade: visão geral da t e n s ã o 197 Abuse de m i m , Senhor, pois não me importo de partir ao meio.
Dor na r e g i ã o inferior das costas 203
L i b e r a ç ã o sexual 213 Nikos K a z a n t z á k i s , Report to Greco
IX. AUTO-EXPRESSIVIDADE E SOBREVIVÊNCIA
Auto-expressividade e espontaneidade 228
Som e personalidade 235
Os olhos são o espelho da alma 244
Olhos e personalidade 248
Problemas de c a b e ç a e olhos e a bioenergética 252
Dores de c a b e ç a 261
X. CONSCIÊNCIA: U N I D A D E E D U A L I D A D E
E x p a n s ã o da consciência 266
Palavras e a a g u d i z a ç ã o da consciência 279
Princípios e c a r á t e r 287

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I . De Reich à Bioenergética

Terapia reichiana, 1940-1945

A bioenergética é baseada no trabalho de Wilhelm Reich. Ele


foi meu professor de 1940 a 1952, e meu analista, de 1942 a 1945.
Conheci-o em 1940, na New School for Social Research, em Nova
York, onde ministrava um curso sobre Análise do C a r á t e r . Fiquei
intrigado com a d e s c r i ç ã o c a t a l o g r á f i c a deste curso, pois fazia
r e f e r ê n c i a à identidade funcional do c a r á t e r de uma pessoa com
sua atitude corporal ou c o u r a ç a muscular. Esta c o u r a ç a se refere
ao p a d r ã o geral das tensões musculares crónicas do corpo. São
assim definidas pois servem para proteger o indivíduo contra expe-
r i ê n c i a s emocionais dolorosas e a m e a ç a d o r a s . São como um escudo
que o protege contra impulsos perigosos oriundos de sua p r ó p r i a
personalidade, assim como das investidas de terceiros.
Durante alguns anos anteriores ao meu encontro com Reich,
eu vinha desenvolvendo um estudo sobre o relacionamento mente-
corpo. Este interesse nasceu de minha experiência pessoal com
atividades físicas em esportes e calistenia. Durante os anos 30 fui
diretor de esportes em diversos acampamentos de v e r ã o e des-
cobri que um programa regular de atividades físicas não só melho-
rou minha s a ú d e , como t a m b é m teve resultados positivos em meu
estado mental. No decurso de meus estudos examinei os conceitos de
Emile Jacques-Dalcroze denominados Eurritmia, e o conceito de
Edmund Jacobson de R e l a x a ç ã o Progressiva e Ioga. Estudos estes
que confirmaram minha forte i m p r e s s ã o de que o indivíduo poderia
influenciar suas atitudes mentais a t r a v é s de um trabalho com o
corpo, p o r é m , suas propostas n ã o me satisfizeram inteiramente.
Reich foi direto à s minhas ideias logo na sua primeira p r e l e ç ã o .
Introduziu o curso com uma discussão sobre o problema da his-
teria. A psicanálise, ressaltou Reich, tinha sido capaz de elucidar
o fator histórico na s í n d r o m e de c o n v e r s ã o h i s t é r i c a . Comprovou-se

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que esse fator vem a ser um trauma sexual sofrido pelo indivíduo Meu interesse por Reich crescia na medida em que ele ia
na sua primeira infância e que nos anos posteriores foi inteiramente esclarecendo suas ideias e o b s e r v a ç õ e s . A diferença entre economia
reprimido e esquecido. A r e p r e s s ã o e a subsequente c o n v e r s ã o das sexual s a u d á v e l e economia neurótica não estava ligada à q u e s t ã o
ideias e sentimentos reprimidos na s í n d r o m e de c o n v e r s ã o histérica de equilíbrio. Neste ponto, Reich tratava mais da economia sexual
constituíam o fator dinâmico da doença. Apesar de os conceitos que da economia de energia; em sua mente, entretanto, estes ter-
de r e p r e s s ã o e c o n v e r s ã o serem, naquele tempo, dogmas esta- mos eram sinónimos. U m indivíduo neurótico m a n t é m um equilí-
belecidos pela teoria da psicanálise, o processo a t r a v é s do qual brio ao reter sua energia em tensões musculares e ao limitar sua
uma ideia reprimida era convertida em um sintoma físico n ã o era" e x c i t a ç ã o sexual. U m indivíduo s a u d á v e l não possui limites, e
de todo compreendido. O que faltava na teoria da psicanálise era, sua energia n ã o fica confinada na c o u r a ç a muscular. Toda sua
de acordo com Reich, o entendimento do fator temporal. Reich energia e s t á consequentemente disponível para o prazer sexual
questionou. "Por que o sintoma se desenvolveu em um determinado ou para qualquer outro tipo de e x p r e s s ã o criativa. Sua economia
período e n ã o antes, nem depois?" Para responder a esta questão, de energia funciona em um alto nível. U m baixo nível de economia
seria preciso saber o que aconteceu na vida do paciente durante de energia é c a r a c t e r í s t i c a comum à maioria das pessoas e é res-
esse meio tempo. Como conduzia suas s e n s a ç õ e s sexuais durante ponsável pela t e n d ê n c i a à d e p r e s s ã o , o que vem a ser um fator
este período? Reich acreditava que a repressão do trauma originai endémico em nossa c u l t u r a . (1)

era mantida por uma supressão das sensações sexuais. Esta supres- Apesar de Reich ter apresentado suas ideias de maneira clara
são constituía a predisposição ao sintoma histérico, transformado e lógica, permaneci um tanto quanto cético durante a primeira
mais tarde em algo concreto por um incidente sexual posterior. metade do curso. Esta atitude, pude ver, é típica de minha per-
Para Reich a s u p r e s s ã o das s e n s a ç õ e s sexuais mais a atitude sonalidade. Creio que devo creditar a ela minha capacidade de
c a r a c t e r o l ó g i c a concomitante constituíam a verdadeira neurose; o imaginar as coisas por m i m mesmo. Meu ceticismo em r e l a ç ã o a
sintoma em si não passava de uma e x p r e s s ã o o b s e r v á v e l . A con- Reich concentrou-se na aparente s u p e r v a l o r i z a ç ã o do papel do sexo
s i d e r a ç ã o desse elemento, mais precisamente, o comportamento e a nos problemas emocionais. O sexo não é a chave do problema, pen-
atitude do paciente em r e l a ç ã o à sexualidade, introduziu um fator sei. E n t ã o , sem que eu me desse conta, esse ceticismo repentina-
" e c o n ó m i c o " no problema da neurose. O termo " e c o n ó m i c o " se mente desapareceu. No decurso das palestras, senti-me inteira-
refere à s forças que p r e d i s p õ e m um indivíduo para o desenvolvi- mente convencido da validade da posição de Reich.
mento de sintomas neuróticos.
A r a z ã o dessa m u d a n ç a tornou-se clara para m i m cerca de dois
Fiquei por demais impressionado com a p e r s p i c á c i a de Reich. anos depois, quando tive a oportunidade de fazer uma curta tera-
Tendo lido alguns livros de Freud, estava de um modo geral fami- pia com Reich. O que aconteceu é que n ã o havia terminado de
liarizado com o pensamento psicanalítico, mas n ã o me lembro de ler um dos livros relacionados por Reich na bibliografia de seu
ter lido qualquer discussão a respeito deste assunto. Sentia que curso, um livro de Freud chamado Três Ensaios sobre a Teoria da
Reich estava me introduzindo em uma nova forma de pensamento Sexualidade. E u havia chegado apenas à metade do segundo en-
sobre os problemas humanos, o que me fascinou de imediato. O saio, intitulado "Sexualidade I n f a n t i l " , quando parei de ler. Che-
significado total dessa nova descoberta foi se tornando evidente guei então à conclusão de que este ensaio havia tocado em minha
em m i m apenas gradualmente, na medida em que Reich ia desen- ansiedade inconsciente a respeito de minha p r ó p r i a sexualidade
volvendo suas ideias durante o curso. Percebi que o fator econó- infantil, e como eu n ã o estivesse preparado para encarar tal ansie-
mico era uma chave importante para a c o m p r e e n s ã o da persona- dade, n ã o pude continuar mantendo meu ceticismo acerca da
lidade, pois está ligado à forma de o indivíduo conduzir sua energia i m p o r t â n c i a da sexualidade.
sexual e sua energia de um modo geral. Quanta energia possui uma O curso de Reich sobre análise do c a r á t e r terminou em ja-
pessoa, e que parcela é utilizada na atividade sexual? A economia neiro de 1941. No período que se interpôs ao t é r m i n o do curso e
de energia ou economia sexual de um indivíduo diz respeito ao equi- início da minha p r ó p r i a terapia, permaneci em contato com ele.
líbrio mantido entre a carga e a descarga de energia ou entre a Participei de alguns encontros em sua casa de Forest Hills, onde
e x c i t a ç ã o sexual e sua respectiva l i b e r a ç ã o . Apenas quando essa discutíamos as implicações sociais dos seus conceitos sexuais-
economia ou equilíbrio é perturbado é que se desenvolve o sintoma econômicos e desenvolvemos um projeto para utilizar tais con-
:
de c o n v e r s ã o h i s t é r i c a . Á c o u r a ç a muscular ou as tensões mus-
culares c r ó n i c a s servem para manter a economia em equilíbrio, 1) Alexander L o w e n , Depression and the Body (Nova Y o r k , Coward, McCann
retendo a energia que não pode ser descarregada. & Geoghegan, Inc., 1972), O Corpo em Depressão, a ser lançado por esta Editora.

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ceitos em um programa de s a ú d e mental c o m u n i t á r i a . Reich foi pois não me pareceu tê-lo feito. Simplesmente me aconteceu.
pioneiro nessa á r e a na Europa. (Esse aspecto do seu trabalho Novamente n ã o havia sentido contato com o som. Deixei a ses-
e minha ligação com ele s e r á explorado mais intensamente em são com a i m p r e s s ã o de que eu n ã o estava t ã o bem quanto ima-
um l i v r o que escreverei sobre Reich.) ginara. Existiam "coisas" (imagens, emoções) na minha perso-
Iniciei minha terapia pessoal com Reich na primavera de nalidade que n ã o me eram conscientes e e n t ã o compreendi que
1942. Durante o ano anterior, fui frequentador assíduo do labo- elas haveriam de v i r à tona.
r a t ó r i o de Reich. Ele mostrou-me alguns dos trabalhos que esta- Nesse tempo, Reich chamava sua terapia de Vegetoterapia
va desenvolvendo com biopreparados e tecidos cancerosos. U m c a r a c t e r o - a n a l í t i c a . A a n á l i s e do c a r á t e r havia sido sua grande con-
dia, então, ele me disse: "Lowen, se você está interessado neste tribuição à teoria psicanalítica, motivo pelo qual tem sido muito
trabalho, só existe uma forma de se introduzir nele, que é a t r a v é s considerado por todos os analistas. A Vegetoterapia se refere à
da terapia". Essa a f i r m a ç ã o me surpreendeu, pois eu n ã o espe- mobilização dos sentimentos e s e n s a ç õ e s a t r a v é s da r e s p i r a ç ã o e
rava por isso. E lhe disse: " E u estou interessado, mas quero de outras t é c n i c a s corporais que ativam os centros vegetativos
me tornar famoso". Reich levou a sério essa minha ressalva, (os ganglios do sistema nervoso autónomo) e liberam energias
tendo respondido: " E u o farei famoso". Por todos esses anos, tive "vegetativas".
a a f i r m a ç ã o de Reich como uma profecia. Era o impulso de que A Vegetoterapia representou uma ruptura radical da a n á l i s e
eu precisava para superar minha r e s i s t ê n c i a e iniciar o trabalho verbal pura, encaminhando o trabalho para um confronto direto
para o qual consagrei toda a minha vida.
com o corpo. Ocorreu pela primeira vez uns nove anos antes,
Minha primeira s e s s ã o de terapia com Reich foi uma expe- durante uma sessão analítica. Reich assim a descreveu:
r i ê n c i a da qual jamais me esquecerei. Cheguei com a ingénua
suposição de que não havia nada de errado comigo. Deveria " E m Copenhague, no ano de 1933, tratei de um homem
ser apenas uma análise didática. Deitei-me na cama e estava que opunha uma r e s i s t ê n c i a especial ao desmascara-
usando um calção de banho. Reich n ã o utilizou o divã, pois essa mento de suas fantasias homossexuais passivas. Essa
era uma terapia orientada para o corpo. Eu deveria dobrar os r e s i s t ê n c i a se manifestava numa atitude extrema de
joelhos, relaxar, respirar com a boca aberta e o maxilar rela- tensão do pescoço ('pescoço-duro'). Após um ataque
xado. Segui tais instruções e aguardei para ver o que acontecia. enérgico contra sua resistência, finalmente ele cedeu,
Depois de algum tempo, Reich disse: "Lowen, você n ã o está res-
mas de forma bastante alarmante. A cor de seu rosto
pirando". Respondi: " É claro que estou, do c o n t r á r i o estaria
mudava rapidamente do branco para o amarelo ou
morto''. Ele então respondeu: "Seu t ó r a x n ã o se move. Sinta
para o azul; sua pele estava manchada de v á r i a s cores;
o meu". Coloquei minha m ã o sobre o seu t ó r a x e senti que subia
tinha fortes dores no pescoço e no occipital; teve diar-
e descia com cada r e s p i r a ç ã o . Eu certamente n ã o estava respi-
reia, sentiu-se abatido e parecia ter perdido o equi-
rando do mesmo modo. 2
líbrio."< >
Deitei novamente e voltei a respirar, desta vez cuidando que
meu t ó r a x se enchesse com a i n s p i r a ç ã o e se esvaziasse com a O "ataque e n é r g i c o " foi apenas verbal, mas foi direto à
e x p i r a ç ã o . Nada aconteceu. Minha r e s p i r a ç ã o ' continuou fácil e atitude de " p e s c o ç o - d u r o " do paciente. Os sentimentos manifes-
forte. Depois de alguns instantes, Reich disse: "Lowen, jogue taram-se somaticamente após o paciente ter abandonado uma
sua c a b e ç a para t r á s e abra bem os olhos". Fiz o que me foi atitude de defesa psíquica. Nesse ponto, Reich chegou à con-
pedido e... um grito irrompeu da minha garganta. clusão de que a "energia poderia ser contida por tensões mus-
Era um dia bonito de início da primavera e as janelas do 3
culares c r ó n i c a s " * ' . A partir daí, Reich passou a estudar as ati-
quarto se abriam em d i r e ç ã o à rua. Para evitar qualquer emba- tudes do corpo de seus pacientes. Assim, observou: " N ã o existe
r a ç o com os vizinhos, o Dr. Reich me pediu que levantasse a um indivíduo neurótico que n ã o apresente t e n s ã o a b d o m i n a l " . (4)

c a b e ç a , o que deteve o grito. Voltei a respirar profundamente. Notou uma t e n d ê n c i a comum a todos os seus pacientes de reter
Pode parecer estranho, mas o grito não me incomodou. Eu não
estava ligado a ele emocionalmente. N ã o senti medo. Depois que
respirei por mais algum tempo, o D r . Reich me pediu que repe- 2) W i l h e l m Reich, The Function of Orgasm (Nova Y o r k , Orgone I n s t i t u t e
Press, págs. 239-240, 1942). A Função do Orgasmo, em edição brasileira.
tisse o procedimento: jogar a c a b e ç a para t r á s e abrir bem os
3) Idem, p á g . 240.
olhos. Mais uma vez me veio um grito. Hesito em dizer que gritei, 4) Ibid., p á g . 273.

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a r e s p i r a ç ã o e inibir a e x a l a ç ã o , correspondendo a um controle infância. Vi-me como um garoto de cinco anos caminhando pelo
de seus sentimentos e s e n s a ç õ e s . Concluiu que o fato de reter a apartamento onde morava, urinando no chão. Meus pais n ã o esta-
r e s p i r a ç ã o serviu para diminuir a energia do organismo ao reduzir vam em casa. Sabia que estava fazendo isso para me vingar de
suas atividades m e t a b ó l i c a s , o que, por sua vez, reduzia a for- meu pai que, no dia anterior, havia me recriminado por estar
m a ç ã o da ansiedade. segurando o pênis.
P a r a Reich, então, o primeiro passo no procedimento tera- Levei mais ou menos nove meses de terapia para descobrir
pêutico era conseguir com que o paciente respirasse mais fácil o que havia causado o grito da primeira s e s s ã o . Desde aquele
e profundamente. O segundo seria mobilizar qualquer e x p r e s s ã o dia eu n ã o havia gritado mais. Com o passar do tempo, pensei
emocional que fosse mais evidente na face ou no comportamento ter a clara i m p r e s s ã o de que existia uma imagem que eu teria
do paciente. E m meu caso, essa e x p r e s s ã o era o medo. Pude- medo de fitar. Contemplando o teto na minha posição deitada,
mos ver que efeito poderoso esse procedimento teve sobre m i m . sentia que a imagem um dia me surgiria. F o i o que aconteceu,
As sessões que se sucederam a esta seguiram o mesmo p a d r ã o e era minha m ã e olhando-me de cima para baixo com uma expres-
geral. E u me deitava e respirava o mais livremente possível, s ã o de intensa r a i v a em seus olhos. E u soube de imediato que
tentando permitir que ocorresse uma profunda e x p i r a ç ã o . Foi-me esse era o rosto que me tinha amedrontado. Revivi a e x p e r i ê n c i a
dito que me entregasse a meu corpo, n ã o controlando qualquer como se estivesse acontecendo no presente. E u era um b e b é de
e x p r e s s ã o ou impulso que surgisse. Aconteceu uma série de mais ou menos nove meses de idade, deitado no b e r ç o do lado
coisas que gradualmente me puseram em contato com antigas de fora da minha casa. E u estivera chorando muito alto, que-
r e c o r d a ç õ e s e e x p e r i ê n c i a s . De início, a r e s p i r a ç ã o mais pro- rendo minha m ã e . Obviamente, ela estava ocupada com a casa,
funda à qual eu n ã o estava acostumado, produziu em minhas m ã o s e meu choro persistente a enervou. Ela veio para fora, furiosa
s e n s a ç õ e s fortes de formigamento que, em duas ocasiões, se trans- comigo. Deitado a l i , na cama de Reich, com a idade de trinta
formaram num espasmo carpopedal, com uma forte c â i m b r a nas e t r ê s anos, olhei para sua imagem, e usando palavras que n ã o
m ã o s . Essa r e a ç ã o desapareceu na medida em que meu corpo poderia ter conhecido quando c r i a n ç a , disse: "Por que você e s t á
se acostumou com o aumento de energia provocado pela respira- tão zangada comigo? Eu só estou chorando porque quero v o c ê " .
ç ã o profunda. Houve um ligeiro tremor em meus lábios e em
Naquela fase, Reich usava uma outra técnica para aper-
minhas pernas quando movi ligeiramente meus joelhos juntos ou
feiçoar a terapia. No início das s e s s õ e s , ele pedia aos seus
isoladamente, ao ter seguido um impulso de esticar minha boca.
pacientes que lhe dissessem todos os pensamentos negativos que
Seguiram-se v á r i a s irrupções emocionais e l e m b r a n ç a s a elas tinham tido sobre ele. Acreditava que todos os pacientes p o s s u í a m
relacionadas. Uma vez, estava eu deitado, respirando, e meu uma t r a n s f e r ê n c i a negativa para com ele, assim como uma posi-
corpo começou a se b a l a n ç a r involuntariamente. O b a l a n ç o tiva, e ele n ã o acreditaria nesta a menos que a negativa fosse
aumentou a t é que resolvi me sentar. E n t ã o , sem que eu me desse expressa antes. Achei esta tarefa extremamente difícil. Uma vez
conta, s a í da cama, olhei em sua direção e comecei a e s m u r r á - l a que me comprometera com Reich e com a terapia, expulsei todos
com ambos os punhos. Nisso, apareceu o rosto de meu pai estam- os pensamentos negativos de minha mente. E u achava que n ã o
pado no lençol e, de repente, entendi que estava batendo nele por havia nada de que me queixar. Reich havia sido bastante gene-
uma surra que ele me dera quando eu era garotinho. Alguns roso comigo, e eu n ã o tinha dúvidas a respeito da sua sinceridade,
anos depois, perguntei a ele sobre esse incidente. Disse-me que da sua integridade e da validade de seus conceitos. De modo
havia sido a única surra que me dera em toda minha vida e expli- c a r a c t e r í s t i c o , eu estava determinado a fazer com que a terapia
cou que eu tinha chegado em casa muito tarde e que minha m ã e fosse bem-sucedida, e só quando ela estava quase fracassando é
tinha ficado muito nervosa e preocupada. Ele me surrara para que resolvi me abrir para Reich.
que eu n ã o voltasse a fazer o que fiz. A parte interessante
dessa experiência, como o grito, é sua natureza inteiramente E m seguida à experiência do medo, quando v i a face de
e s p o n t â n e a e involuntária. F u i impelido a socar a cama como o minha m ã e , atravessei longos meses durante os quais n ã o tive
fora a gritar, não por qualquer pensamento consciente, mas por nenhum progresso. Nessa época eu encontrava com Reich t r ê s
uma força interna que me sobreveio e dominou. vezes por semana, mas estava bloqueado, pois n ã o conseguia
dizer-lhe como me sentia a seu respeito. Queria que ele tivesse
E m outra ocasião, enquanto estava deitado e respirando, um interesse paternal por m i m , n ã o apenas um interesse tera-
comecei a sentir uma e r e ç ã o . Tive um impulso para tocar meu pêutico mas, por saber que essa n ã o era uma exigência r a z o á v e l ,
pênis mas o inibi. Aí lembrei de um episódio interessante da minha n ã o conseguia e x p r e s s á - l a . Minha luta interna com o problema

18 19
n ã o me levou a lugar algum. Reich parecia desconhecer o meu movimentos rítmicos e convulsivos. O mesmo tipo de movimento
conflito. Tentar o mais que eu pudesse para deixar minha res- pode t a m b é m ocorrer quando a r e s p i r a ç ã o é inteiramente livre e
p i r a ç ã o se tornar mais profunda e plena simplesmente n ã o o indivíduo se entrega a seu corpo. Nesse caso, não existe clímax
funcionava. ou descarga de e x c i t a ç ã o sexual desde que não houve o a c ú m u l o
Eu havia estado em terapia durante um ano quando esse desse tipo de e x c i t a ç ã o . O que acontece é que a pelve se move
impasse se desenvolveu. Quando parecia que iria se propagar espontaneamente para a frente a cada e x p i r a ç ã o e para t r á s a
indefinidamente, Reich me pediu que desistisse. "Lowen, você cada i n s p i r a ç ã o . Esses movimentos s ã o produzidos pela onda res-
é incapaz de se dar a seus sentimentos. Por que você n ã o piratória conforme for circulando para cima e para baixo, movida
desiste?" Suas palavras eram como uma s e n t e n ç a de morte. pela i n s p i r a ç ã o e pela e x p i r a ç ã o . Ao mesmo tempo, a c a b e ç a
Desistir significava o fracasso de todos os meus sonhos. E u executa movimentos similares aos da pelve com a d i f e r e n ç a de
me deixei cair e chorei profundamente. E r a a primeira vez que que se move para t r á s na fase e x p i r a t ó r i a e para a frente na
soluçava desde que eu era c r i a n ç a . N ã o mais consegui esconder fase de i n s p i r a ç ã o . Teoricamente, o paciente cujo corpo e s t á
os meus sentimentos e disse a Reich o que queria dele, no que suficientemente livre para ter esse tipo de reflexo durante a
fui ouvido com simpatia. s e s s ã o de terapia, t a m b é m estaria capacitado a experimentar o
Não sei se Reich pretendera findar a terapia ou se sua suges- orgasmo total no ato sexual. T a l paciente deve ser considerado
t ã o de terminar o tratamento fora um artifício para romper a emocionalmente s a u d á v e l .
minha r e s i s t ê n c i a , mas tive a forte i m p r e s s ã o de que ele falara Para muitos dos que leram A Função do Orgasmo , 0)
de Reich,
a sério. Qualquer que tenha sido o caso, contudo, s u a . a ç ã o pro- estas ideias devem ter parecido fruto de i m a g i n a ç õ e s f a n t á s t i c a s
duziu o resultado desejado. Comecei a progredir outra vez na de uma mente obcecada pelo sexo. F o r a m expressas pela pri-
terapia. meira vez, entretanto, quando Reich j á era um professor de psica-
Para Reich, o objetivo do tratamento era o desenvolvimento nálise altamente considerado, cuja f o r m u l a ç ã o do conceito e da
no paciente de sua capacidade de se entregar totalmente aos técnica analítica do c a r á t e r foi vista como uma das maiores con-
movimentos espontâneos e involuntários do corpo, os quais fazem tribuições à teoria analítica. Nessa ocasião, ela ainda n ã o era
parte do processo r e s p i r a t ó r i o . Consequentemente, a ênfase aceita pela maioria dos psicanalistas, e mesmo hoje ela é desco-
r e c a í a em deixar que a r e s p i r a ç ã o se processasse o mais plena nhecida ou ignorada pela maioria dos que pesquisam na á r e a do
e profundamente possível. Se isso fosse feito, as ondas respira- sexo. Os conceitos de Reich trazem, entretanto, um realismo con-
tórias produziriam um movimento de ondulação do corpo cha- vincente quando se experimenta com o próprio corpo, como eu
mado, por Reich, de reflexo do orgasmo. o fiz. Essa convicção, baseada em e x p e r i ê n c i a s pessoais, é res-
No decurso do seu trabalho psicanalítico anterior, Reich havia ponsável pelo fato de que muitos dos psiquiatras e outros que
chegado à conclusão de que a s a ú d e emocional estava relacionada trabalham com Reich se tornaram, ao menos por algum tempo,
com a capacidade de se entregar inteiramente no ato sexual, seus entusiasmados seguidores.
ou o que ele chamava de potência o r g á s t i c a . Reich descobriu Depois do episódio da explosão de choro e da r e v e l a ç ã o de
que n ã o existe um indivíduo neurótico que possua tal capacidade. meus sentimentos a Reich, minha r e s p i r a ç ã o foi se tornando mais
A neurose não só bloqueia essa entrega, como t a m b é m , ao reter livre e fácil, minha resposta sexual mais plena e profunda. Ocor-
a energia em tensões musculares c r ó n i c a s , evita que esta esteja reram v á r i a s m u d a n ç a s em minha vida. Casei-me com a mulher
disponível para a descarga sexual. Reich t a m b é m descobriu que por quem estava apaixonado. O compromisso de casamento era
os pacientes que chegaram à capacidade de a l c a n ç a r a plena um grande passo para m i m . Além disso, me preparava ativamente
s a t i s f a ç ã o o r g á s t i c a no ato sexual, libertaram-se de qualquer com- para me tornar um terapeuta reichiano. Durante esse ano, parti-
promisso ou atitude n e u r ó t i c a , mantendo-se livres dela continua- cipei de um s e m i n á r i o clínico sobre análise do c a r á t e r dirigido
mente. O orgasmo pleno, segundo Reich, descarrega todo o exces- pelo D r . Theodore P. Wolfe, que era o amigo mais próximo dè
so de energia do organismo, n ã o restando, portanto, nenhuma Reich nos Estados Unidos e tradutor de suas publicações para a
energia para suportar ou manter um sintoma ou comportamento língua inglesa. Tendo completado recentemente meus estudos pro-
neurótico. medíeos, estava buscando, pela segunda vez, ingressar em alguma
É importante compreender que Reich definia o orgasmo como
sendo diferente de e j a c u l a ç ã o ou c l í m a x . Representava uma
5) Estas ideias foram publicadas pela primeira vez n u m l i v r o anterior a este,
r e a ç ã o involuntária do corpo como um todo, manifestada em Die Funktion Des Orgasmus (Internationaler Psychoanalytischer Verlag, 1927).

20 21
faculdade de Medicina. Minha terapia progredia regular e vaga- ção dos meus objetivos. Aprofundou e intensificou meu compro-
rosamente. Apesar de n ã o ter havido nenhuma i r r u p ç ã o d r a m á - misso com o corpo, a base da personalidade, além de ter-me
tica de sentimentos, ou l e m b r a n ç a s nas sessões, eu sentia que proporcionado uma identificação positiva com minha sexualidade,
estava chegando mais perto da capacidade de me entregar aos que se revelou como a pedra angular de minha vida.
meus sentimentos sexuais. Sentia-me t a m b é m mais próximo a
Reich.
Meu trabalho como terapeuta reichiano, 1945-1953
Neste ano, Reich tirou longas férias de v e r ã o . Terminou o
período de aulas em junho e r e c o m e ç o u no meio de setembro. E m 1945, atendi ao meu primeiro paciente. Apesar de ainda
Quando a terapia anual estava chegando ao f i m , Reich sugeriu não ter cursado uma escola de Medicina, Reich encorajou-me nesse
interromper o tratamento por um ano. Entretanto, eu ainda n ã o procedimento com base em minha f o r m a ç ã o educacional e no meu
havia terminado. O reflexo do orgasmo n ã o havia se desenvolvido treinamento com ele, incluindo aí minha terapia pessoal. Esse
de forma consistente, apesar de eu estar me sentindo bem pró- treinamento envolvia a p a r t i c i p a ç ã o contínua nos seminários clí-
ximo a isso. Estava me esforçando arduamente, e justamente
nicos sobre vegetoterapia c a r a c t e r o - a n a l í t i c a , sob a d i r e ç ã o do
era esse o impedimento para conseguir meu objetivo. A ideia
Dr. Theodore Wolfe, e em seminários dirigidos pelo próprio Reich
de t i r a r umas férias me pareceu boa e eu aceitei a s u g e s t ã o
em sua residência, onde discutiam-se as bases teóricas das suas
de Reich. Existiam t a m b é m razões pessoais para a minha decisão.
propostas, enfatizando os conceitos biológicos e energéticos que
Incapaz de me matricular numa escola de Medicina à q u e l a altura,
explicavam seu trabalho com o corpo.
fiz um curso de anatomia humana em 1944, na New York
University. O interesse pela terapia reichiana crescia progressivamente,
na medida em que aumentava o n ú m e r o de pessoas que tomava
Minha terapia com Reich foi retomada em 1945, com sessões conhecimento das suas ideias. A publicação de The Function of
semanais. E m pouco tempo, consegui desenvolver o reflexo do Orgasm, em 1941, acelerou essa procura, apesar de o livro n ã o
orgasmo de forma consistente. Existiram v á r i a s razões para ter ter tido uma resposta f a v o r á v e l da crítica, a l é m de m á distri-
a l c a n ç a d o esse progresso. Durante o ano em que não estive em buição. Reich montou sua p r ó p r i a editora, a Orgone Institute
terapia, tive a oportunidade de deixar de lado o esforço para Press, que não tinha nenhum vendedor e n ã o fazia qualquer tipo
satisfazer Reich e para obter s a ú d e sexual, tendo condições de de divulgação. A p r o m o ç ã o de seus livros e ideias era feita apenas
integrar e de assimilar meu trabalho anterior feito junto a Reich. verbalmente. Contudo, suas concepções se difundiram, apesar
T a m b é m , nesse período, atendi ao meu primeiro paciente como de vagarosamente, e assim aumentou o n ú m e r o de interessados na
terapeuta reichiano, o que me encorajou enormemente. Senti-me terapia reichiana. Existiam, p o r é m , poucos analistas do c a r á t e r
muito à vontade e tinha a consciência de me sentir bastante segu- treinados e disponíveis e esse fato, juntamente com a minha
ro com r e l a ç ã o à minha vida. Entregar-me ao meu corpo, o que disposição pessoal, foram os r e s p o n s á v e i s pela minha iniciação no
t a m b é m significava me entregar a Reich, tornou-se uma tarefa
campo da terapia.
fácil. E m poucos meses ficou claro para nós dois que minha
Por dois anos antes de partir para a Suíça, trabalhei como
terapia tinha sido, pelos seus critérios, bem-sucedida. Anos mais
terapeuta reichiano. E m setembro de 1947, deixei Nova York e
tarde, contudo, dei-me conta de que permaneceram sem solução
muitos dos principais problemas de minha personalidade. Meu fui com minha esposa para a Universidade de Genebra, a f i m
* medo de pedir o que queria, mesmo que fosse um medo infundado, de fazer o curso de Medicina, de onde sai formado em junho de
n ã o tinha sido inteiramente discutido. Meu medo de falhar e a 1951, com o título de Doutor em Medicina ( M . D . ) . Enquanto estive
minha necessidade de me sair bem n ã o tinham sido superados. na Suíça, fiz algumas terapias com pessoas que tinham ouvido
Minha incapacidade de chorar, a menos que eu fosse encostado falar no trabalho do Reich e que estavam ansiosas por conhecer
na parede, não havia sido explorada. Estes problemas foram essa nova técnica t e r a p ê u t i c a . Como tantos outros jovens tera-
finalmente resolvidos muitos anos depois, a t r a v é s da bioenergética. peutas, comecei com a ingénua p r e t e n s ã o de que conhecia algo a
respeito dos problemas emocionais das pessoas, com uma certeza
N ã o quero dizer com isso que a terapia com Reich n ã o teve mais baseada em entusiasmo do que em e x p e r i ê n c i a . Voltando àque-
efeito algum. Se n ã o resolveu inteiramente todos os meus pro- les anos, posso ver minhas limitações tanto em c o m p r e e n s ã o quan-
blemas, ao menos me tornou mais consciente de sua existência. to em capacidade. Contudo, acredito ter ajudado algumas pessoas.
Mais importante do que isso, entretanto, é o fato de me ter aberto Meu entusiasmo era uma força positiva, e a ênfase dada à res-
caminho para a auto-realização, ajudando-me a a v a n ç a r na dire- p i r a ç ã o e à "entrega" era uma direção correta.

22 23
Antes de deixar esse p a í s , ocorreu um importante progresso época. Mas, essa atmosfera mudou enormemente, nos últimos
na terapia reichiana: o uso do contato direto com o corpo do trinta anos, no que diz respeito tanto à sexualidade quanto ao
paciente para relaxar as tensões musculares, que s ã o um obstá- loque. A i m p o r t â n c i a do toque tem sido vista ultimamente como
culo à capacidade de se entregar aos sentimentos e s e n s a ç õ e s e 6)
uma forma primária de contato< , e a sua validade na terapia é
de permitir que o reflexo do orgasmo se desenvolva. Durante inquestionável. Obviamente, qualquer contato físico entre tera-
o seu trabalho comigo Reich, ocasionalmente, aplicava uma certa peuta e paciente d á àquele a responsabilidade de respeitar a rela-
p r e s s ã o com suas m ã o s em alguns dos músculos tensos do meu ção t e r a p ê u t i c a , evitando qualquer envolvimento sexual com o
corpo para ajudar a relaxá-los. Normalmente, em m i m e nos paciente.
outros, essa p r e s s ã o era aplicada ao maxilar. E m muitas pessoas Devo acrescentar que os terapeutas da bioenergética s ã o trei-
os músculos da r e g i ã o maxilar s ã o extremamente tensos; o queixo nados para utilizar suas mãos no intuito de palpar e de sentir
se m a n t é m firme em uma atitude de d e t e r m i n a ç ã o que tende à espasmos ou bloqueios musculares; para aplicar a p r e s s ã o neces-
austeridade, ou é impelido para adiante em posição de desafio, s á r i a ao relaxamento ou à r e d u ç ã o da t e n s ã o muscular, atentando
ou é anormalmente r e t r a í d o . E m todos os casos, n ã o é inteira-
para a t o l e r â n c i a do paciente à dor; para estabelecer contato
mente flexível, e a sua posição fixa denota uma atitude j á estru-
a t r a v é s de um toque suave e tranquilizador, que forneça apoio
turada. Sob p r e s s ã o , os músculos da r e g i ã o maxilar ficam cansa-
e calor. Hoje em dia é difícil compreender a amplitude do passo
dos e "deixam-se l e v a r " . Como resultado disso, a r e s p i r a ç ã o tor-
dado por Reich em 1943.
na-se mais livre e profunda, e ocorrem frequentes tremores invo-
luntários no corpo e nas pernas. Outras regiões de tensão mus- O uso da p r e s s ã o física facilitou a i r r u p ç ã o de s e n s a ç õ e s e
cular, onde foi aplicada p r e s s ã o , foram a parte posterior do pes- sentimentos e a consequente retomada de l e m b r a n ç a s . Serviu
coço, a r e g i ã o inferior das costas e os músculos adutores das coxas. t a m b é m para acelerar o processo t e r a p ê u t i c o , fator n e c e s s á r i o
E m todos os casos, a p r e s s ã o era aplicada seletivamente apenas quando a frequência à s sessões foi reduzida para uma vez por
naquelas á r e a s onde as tensões poderiam ser palpadas. semana. Nessa época, Reich havia desenvolvido uma notável
habilidade para ler o corpo e para saber como aplicar as p r e s s õ e s
A colocação das m ã o s se constitui num importante desvio da que i r i a m relaxar as tensões musculares, fazendo fluir pelo corpo
p r á t i c a analítica tradicional. Nas análises freudianas, qualquer 7
uma s e n s a ç ã o chamada por ele de v i b r a ç õ e s ' ' . Por volta de 1947,
contato físico entre o analista e o paciente era estritamente Reich era capaz de desenvolver o reflexo do orgasmo em certos
proibido. O analista sentava-se a t r á s do paciente, sem ser visto, pacientes, dentro de seis meses. Pode-se avaliar esta f a ç a n h a
e funcionava ostensivamente como uma tela na qual o paciente comparando-a com o fato de eu ter estado em terapia com ele
poderia projetar todos os seus pensamentos. N ã o era inteira- por cerca de t r ê s anos, com sessões t r ê s vezes por semana, antes
mente inativo, desde que suas respostas guturais e i n t e r p r e t a ç õ e s que tivesse desenvolvido em m i m o reflexo do orgasmo.
faladas das ideias expressas pelo paciente se constituíam em
Devo enfatizar que o reflexo do orgasmo n ã o é, na realidade,
importante influência sobre o pensamento do próprio. Reich trans-
um orgasmo. O aparelho genital n ã o e s t á envolvido nele; n ã o
formou o analista numa força mais direta no procedimento tera-
existe a f o r m a ç ã o e, consequentemente, a descarga da e x c i t a ç ã o
pêutico. Sentava-se num ponto de onde pudesse encarar o paciente
sexual. Apenas indica que e s t á aberto o caminho para tanto, se
e, ao mesmo tempo, ser visto e estabelecer contatos físicos quando
a entrega ou abandono for transposta para uma situação sexual.
fosse n e c e s s á r i o e oportuno. Reich era um homem alto, de calmos
Mas essa t r a n s f e r ê n c i a n ã o ocorre necessariamente. As duas
olhos castanhos e de m ã o s fortes e c á l i d a s ; essa é a l e m b r a n ç a
situações, a sexual e a t e r a p ê u t i c a , s ã o diferentes. A primeira
que guardo dele, do tempo de nossas sessões.
é muito mais carregada emocional e energeticamente. Além disso,
Não podemos avaliar hoje o a v a n ç o revolucionário que essa na situação t e r a p ê u t i c a , o indivíduo tem a vantagem de contar
terapia representou na época ou as suspeitas e hostilidades que com o apoio do terapeuta que, no caso de um homem como Reich,
chegou a evocar. Pela sua forte p r e o c u p a ç ã o com a sexualidade de personalidade muito forte, pode ser um fator importante. De
e uso do contato físico entre terapeuta e paciente, os praticantes todo modo, na a u s ê n c i a do reflexo do orgasmo, é i m p r o v á v e l que
da terapia reichiana eram acusados de utilizar a e s t i m u l a ç ã o o indivíduo venha a permitir que os movimentos pélvicos invo-
sexual para promover a potência o r g á s t i c a .
Diziam que Reich masturbava seus pacientes. Nada poderia
6) Ashley Montagu, Touching: The Human Significance of the Skin (Nova
estar mais longe da verdade. A d i f a m a ç ã o revela o grau de medo Y o r k , Columbia University Press, 1971).
que existia em torno da sexualidade e do contato físico, naquela 7) Streamings, no original ( N . da T . ) .

24 25
luntários ocorram no clímax do ato sexual. Esses movimentos os instintos do ego e os instintos sexuais. Os primeiros buscam
s ã o a base da resposta de um orgasmo total. Devemos lembrar a p r e s e r v a ç ã o do indivíduo; os segundos, a p r e s e r v a ç ã o da espé-
que, na teoria de Reich, é a resposta o r g á s t i c a ao sexo, e não cie. Isso implica num conflito entre o indivíduo e a sociedade, que
o reflexo do orgasmo, o critério de s a ú d e emocional. sabemos ser verdadeiro para a nossa cultura. Outro conflito ine-
Apesar disso, o reflexo do orgasmo t a m b é m possui alguns rente à antítese é o existente entre a luta pelo poder ( m o t i v a ç ã o
efeitos positivos na personalidade. Mesmo ocorrendo na atmos- egóica) e a luta pelo prazer (motivação sexual). A s u p e r ê n f a s e
fera segura da situação t e r a p ê u t i c a , é uma experiência que con- dada ao poder em nossa cultura coloca o ego contra o corpo e a
fere alegria e liberdade. O indivíduo sente-se como estando livre sua sexualidade, criando um antagonismo entre ambas as motiva-
de inibições. Ao mesmo tempo, sente-se ligado e integrado com ções, quando o ideal seria o apoio e o r e f o r ç o comum entre elas.
o seu corpo e, a t r a v é s dele, com o meio ambiente. Adquire uma Não se pode, p o r é m , i r ao extremo oposto e focalizar apenas a
s e n s a ç ã o de bem-estar e de paz interior. Sabe que a vida do sexualidade. Isto tornou-se claro para m i m depois de ter perse-
corpo está no seu aspecto involuntário. Digo isso a partir de guido sem sucesso um único objetivo que era a r e a l i z a ç ã o sexual
minha experiência pessoal e de c o m e n t á r i o s de pacientes a t r a v é s de meus pacientes, à s e m e l h a n ç a de Reich. O ego existe para o
dos anos. homem ocidental como uma força poderosa que n ã o pode ser posta
Infelizmente, esses belos sentimentos nem sempre se m a n t ê m de lado ou ignorada. O objetivo t e r a p ê u t i c o é integrar o ego ao
sob a tensão causada pela vivência d i á r i a em nossa cultura corpo e à sua busca de prazer e r e a l i z a ç ã o sexual.
moderna. O ritmo, a p r e s s ã o e a filosofia de nossos tempos s ã o Apenas depois de anos de á r d u o trabalho e com a minha
antitéticos à vida. Muitas vezes o reflexo se perde quando o parcela de erros é que v i m a aprender essa verdade. Ninguém é
paciente n ã o aprende a lidar com suas tensões d i á r i a s sem recor- exceção à regra de que o aprendizado ocorre a t r a v é s do reco-
rer aos p a d r õ e s neuróticos de comportamento. Isso foi o que nhecimento dos erros. P o r é m , sem a d e t e r m i n a ç ã o de atingir
sucedeu com dois dos pacientes de Reich nesse período. Vários o objetivo da s a t i s f a ç ã o sexual e potência o r g á s t i c a , eu n ã o teria
meses depois do aparentemente bem-sucedido t é r m i n o de seus tra- compreendido a energia da d i n â m i c a da personalidade. E sem
tamentos, eles vieram pedir-me uma terapia adicional, pois n ã o o critério do reflexo do orgasmo n ã o se pode entender os movi-
haviam sido capazes de manter o nível de progresso a l c a n ç a d o mentos involuntários e as r e a ç õ e s do organismo humano.
nas terapias com Reich. Compreendi e n t ã o que não poderia haver
atalho algum para a s a ú d e emocional e que o trabalho consistente
a t r a v é s de todos os problemas do indivíduo é a única forma de
assegurar o seu funcionamento ótimo. De todo modo, eu ainda
estava convencido de que a sexualidade era a chave para a solu- Existem ainda vários elementos misteriosos no funcionamento
ção dos problemas neuróticos do indivíduo. e comportamento humanos, que estão fora do alcance da mente
É fácil criticar Reich pela ênfase dada à i m p o r t â n c i a central racional. Por exemplo, cerca de um ano antes de deixar Nova
da sexualidade, mas eu n ã o faria isso. A sexualidade foi e é a York, tratei de um jovem que sofria de sérios problemas. Sentia,
chave de todos os problemas emocionais, mas os distúrbios de uma profunda ansiedade cada vez que se aproximava de uma
funcionamento sexual só podem ser compreendidos, de um lado, moça. Sentia-se inferior, inadequado, e tinha muitas outras ten-
a partir da estrutura total da personalidade e, de outro, dentro dências masoquistas. Muitas vezes tinha a alucinação de que o
da estrutura das condições de vida social. Depois de anos relu- diabo espreitava-o à s escondidas. No decurso de sua terapia,
tando em admiti-lo, cheguei à conclusão de que n ã o existe apenas melhorou um pouco em r e l a ç ã o aos sintomas, mas estes não fica-
uma saída que desvende todos os mistérios da condição humana. ram solucionados em absoluto. Desenvolveu, entretanto, um rela-
Minha r e l u t â n c i a originava-se de um profundo desejo de acre- cionamento e s t á v e l com uma moça, tendo experimentado pequeno
ditar que existe uma resposta única. Agora penso em termos de prazer no clímax sexual.
polaridades e de seus inevitáveis conflitos e soluções t e m p o r á r i a s . Encontrei-o cinco anos mais tarde, após meu retorno a este
Uma visão da personalidade que vê o sexo como única chave para país. Contou-me uma estória fascinante. Tendo ficado sem tera-
a personalidade é por demais restrita, mas ignorar o papel do peuta depois de minha partida, decidiu continuar a terapia por
sexo na d e t e r m i n a ç ã o da personalidade do indivíduo é desprezar conta p r ó p r i a . Isso incluía os exercícios básicos de r e s p i r a ç ã o
uma das mais importantes f o r ç a s da natureza. que u s á v a m o s em nosso tratamento. Todos os dias, à volta do
Numa de suas primeiras formulações, antes mesmo do seu trabalho, deitava-se na cama e tentava respirar profunda e plena-
conceito de instinto de morte, Freud propôs uma antítese entre mente, como fazia comigo. E n t ã o , um dia, o milagre aconteceu.

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Toda sua ansiedade desapareceu. Ele se sentiu seguro de si, dade absoluta a respeito dos seres humanos e de sua sexualidade.
pondo f i m à a u t o d e p r e c i a ç ã o ; o mais importante, no entanto f o i Suas ideias tinham um sabor revolucionário. Tenho a certeza de
o aparecimento do nível total da potência o r g á s t i c a no ato sexual. que esse meu paciente foi envolvido por essa atmosfera que, junta-
Seus orgasmos eram plenos e satisfatórios. Tornou-se uma pessoa mente com sua r e s p i r a ç ã o mais profunda, produziu o efeito mar-
diferente. cante acima descrito.
Quando o reencontrei, ele me disse tristemente: "Tudo aquilo Sair de seu próprio mundo ou de seu próprio ser constitui
só durou um m ê s " . T ã o r á p i d o como veio, a m u d a n ç a desapa- uma experiência transcendental. Muitas pessoas tiveram expe-
receu, e ele foi jogado de volta à sua pobre condição anterior. riências similares de maior ou menor d u r a ç ã o . Comum a todas é o
Encontrou-se depois com outro terapeuta reichiano, com quem sentimento de soltura, a s e n s a ç ã o de liberdade e a descoberta,
se tratou vários anos, só conseguindo ligeiros progressos. Quando dentro de si, de um ser inteiramente vivo e dotado de respostas
voltei a trabalhar, ele me procurou novamente para retomar seu e s p o n t â n e a s . Tais t r a n s f o r m a ç õ e s , entretanto, ocorrem inespera-
tratamento comigo. Trabalhei com ele por mais t r ê s anos, aju- damente e não podem ser planejadas ou programadas. Infeliz-
dando-o a superar muitas de suas deficiências. Mas o milagre mente, muitas vezes retomam o matiz original t ã o r á p i d o quanto
jamais voltou a se repetir. Nunca mais conseguiu atingir o nível mudam e a carruagem resplandescente se transforma da noite
de progresso sexual e emocional que havia atingido no breve para o dia na abóbora que sempre fora. Ficamos, então, com
período que se seguiu à minha partida. uma certa curiosidade de saber qual s e r á a verdadeira realidade
Como podemos explicar o inesperado aparecimento da s a ú d e de nossa existência," Por que n ã o podemos permanecer no estado
que pareceu surgir por si só e seu subsequente desaparecimento? de liberdade?
A e x p e r i ê n c i a desse meu paciente fez-me lembrar de Lost Horizon, A maioria de meus pacientes teve algum tipo de e x p e r i ê n c i a
de James Hilton, que era popular nessa época. Nesta estória, o transcendental no decurso de sua terapia. Cada um deles descobre
herói, Conway, foi raptado juntamente com alguns companheiros de um horizonte anteriormente encoberto por uma densa névoa e que,
viagem e foram levados de avião a um vale secreto no alto dos mon- repentinamente, se torna claramente visível. Apesar de a n é v o a
tes do Himalaia, chamado Shangri-Lá, uma montanha literalmente adensar-se de novo, resta a m e m ó r i a que fornece m o t i v a ç ã o para
"do outro mundo". Para aqueles que viviam neste vale n ã o exis- um compromisso contínuo com o objetivo de mudar e de crescer.
tia a morte e nem a velhice. O sistema governamental era mode- Se buscamos a t r a n s c e n d ê n c i a , haveremos de ter muitas visões
rado, o que t a m b é m não se pode dizer que seja deste mundo. mas, certamente, acabaremos no próprio ponto de partida. Se
Conway se sente tentado a ficar em Shangri-Lá; achou extre- optamos pelo crescimento, haveremos de ter nossos momentos de
mamente a g r a d á v e l aquele modo de vida sereno e racional. É con- t r a n s c e n d ê n c i a , mas estes s e r ã o picos de experiência dentro de
vidado a ser o líder da comunidade do vale, mas deixa que seu uma caminhada mais plana em busca de um eu mais rico e seguro.
i r m ã o o convença de que tudo não passa de fantasia. Seu i r m ã o ,
A vida em si é um processo de desenvolvimento que se inicia
que se apaixonou por uma jovem chinesa, induz Conway a esca-
par com eles para a "realidade". Eles partem mas, uma vez com o crescimento do corpo e de seus órgãos, passando pelo
fora do vale, Conway fica horrorizado ao ver a m o ç a se trans- desenvolvimento das habilidades motoras, pela aquisição do conhe-
formar numa velha e, em seguida, morrer. Qual das realidades cimento, pela e x t e n s ã o dos relacionamentos, e terminando num
é mais válida? Conway decide voltar para Shangri-Lá e, no f i m resumo da experiência que denominamos saber. Esses aspectos
da estória, o vemos revirando as montanhas em busca do seu do crescimento se j u s t a p õ e m , desde que a vida e o crescimento
horizonte perdido. ocorrem num meio ambiente cultural e social legítimo. E embora
o processo de crescimento seja contínuo, nunca é regular. Exis-
A súbita t r a n s f o r m a ç ã o ocorrida em meu paciente pode ser
tem períodos de desnivelamento quando ocorre a a s s i m i l a ç ã o de
julgada sobre o princípio de uma m u d a n ç a no senso de realidade
uma experiência, preparando o indivíduo para uma nova a s c e n s ã o .
de uma pessoa. Durante um m ê s ele t a m b é m viveu "fora deste
mundo", deixando de lado todas as suas ansiedades, culpas e Cada a s c e n s ã o conduz a um novo cume, criando o que chamamos
inibições advindas de sua vivência nesse mundo. Sem dúvida, de pico de e x p e r i ê n c i a . Cada um desses, por sua vez, deve ser
muitos fatores c o n t r i b u í r a m para produzir este efeito. Existia integrado à personalidade para que ocorra um novo crescimento,
um estado de euforia e de e x c i t a ç ã o entre as pessoas envolvidas c para que o indivíduo chegue à sabedoria. Uma vez eu disse a
com o trabalho de Reich nessa época, tanto estudantes quanto Reich que tinha uma definição para a felicidade. Ele ergueu as
pacientes. Reich era tido como aquele que proclamara uma ver- sobrancelhas, olhou-me zombeteiramente e perguntou-me qual era.

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Respondi: " A felicidade é a consciência do crescimento". Suas que ajude a pessoa a relaxar as espasticidades musculares cró-
sO sobrancelhas baixaram ao responder-me: "Nada m a l " . nicas que inibem sua liberdade e l i m i t a m a sua vida. A nível
social, deve haver uma m u d a n ç a evolutiva nas atitudes do homem
Se a minha definição for válida, sugere que a maioria das
para consigo mesmo, para com o seu ambiente e para com a
pessoas que procura terapia sente que seu crescimento se deteve.
comunidade.
Certamente, muitos pacientes recorrem ao tratamento para resta-
belecer o processo de crescimento. A terapia pode conseguir isso E m ambos os níveis, Reich forneceu grandes contribuições.
fornecendo novas e x p e r i ê n c i a s e ajudando a remover ou reduzir Sua explicação da natureza da estrutura do c a r á t e r e a demons-
os bloqueios e obstáculos à a s s i m i l a ç ã o das e x p e r i ê n c i a s . Esses t r a ç ã o da sua identidade funcional com as atitudes do corpo
bloqueios se constituem em p a d r õ e s estruturados de comporta- representaram importantes a v a n ç o s no nosso conhecimento sobre
mento que representam uma solução insatisfatória, resultante de o comportamento humano. Ele introduziu o conceito de potência
j conflitos da infância. Criam o eu neurótico e limitado do qual se o r g á s t i c a como critério de s a ú d e emocional, que certamente o é,
<' procura escapar ou liberar. A t r a v é s do trabalho com o passado, demonstrando que a sua base física é o reflexo do orgasmo no
o paciente em terapia descobre os seus conflitos originais e novas corpo. Ele ampliou os nossos conhecimentos a respeito dos pro-
formas de lidar com situações de r e j e i ç ã o e a m e a ç a à vida que cessos do corpo humano ao descobrir o significado das r e a ç õ e s
o f o r ç a r a m a se " e n c o u r a ç a r " como forma de s o b r e v i v ê n c i a . involuntárias do corpo. Desenvolveu t a m b é m uma t é c n i c a rela-
A única maneira de conseguir o verdadeiro crescimento no pre- tivamente eficiente para o tratamento dos distúrbios emocionais
sente é reviver o passado. Se o passado for eliminado, n ã o e x i s t i r á (involuntários) da vida de um indivíduo.
o futuro. Reich frisou muito bem como a estrutura da sociedade se
O crescimento é um processo natural; n ã o se pode provocá-lo. reflete na estrutura do c a r á t e r dos seus membros individualmente,
Sua lei é comum a todos os seres vivos. Uma á r v o r e , por exem- explicação que esclareceu os aspectos irracionais da política.
plo, cresce para cima apenas se sua raiz se desenvolve em dire- Aventou a possibilidade da existência humana livre de inibições e
ção ao centro da terra. Nós aprendemos com o estudo do pas- r e p r e s s õ e s que estrangulam os impulsos de vida. Na minha opi-
sado. Sendo assim, uma pessoa só pode crescer se firmar suas n i ã o , se essa visão vier a se realizar, h á de v i r seguindo o cami-
raízes em seu próprio passado. E o passado de uma pessoa é nho t r a ç a d o por Reich.
o seu corpo. A maior contribuição de Reich para a nossa presente proposta
foi a sua delineação do papel principal que o corpo deve desem-
penhar em qualquer teoria da personalidade. Seu trabalho
Forneceu as bases sobre as quais foi construído o edifício da
Voltando àqueles anos de entusiasmo e e x c i t a ç ã o , vejo o quan- bioenergética.
to ingénuo era esperar que os problemas profundamente estru-
turados de uma pessoa moderna fossem facilmente solucionados
por qualquer tipo de técnica. N ã o quero dizer que Reich tenha O desenvolvimento da bioenergética
tido ilusões em face da sua imensa tarefa. Ele esteve bem cons-
ciente da s i t u a ç ã o . Sua busca de formas mais efetivas de lidar As pessoas sempre me perguntam: "Qual a diferença entre
com esses problemas advinha diretamente dessa consciência. a bioenergética e a terapia reichiana?" A melhor forma de
responder a esta q u e s t ã o é continuar com o nosso relato histórico
Essa busca levou-o a investigar a natureza da energia utili-
«obre o desenvolvimento da bioenergética.
zada no trabalho pelos organismos vivos. Ele reivindicava para
si, como se sabe, a descoberta de uma nova energia, à qual deno- Em 1952, quando terminei o período de interno como médico,
minou orgone, palavra derivada dos termos orgânico e organismo. tendo voltado da Europa no ano anterior, fiquei conhecendo algu-
Ele inventou um mecanismo que poderia acumular essa energia e mas m u d a n ç a s nas atitudes de Reich e de seus seguidores. O entu-
carregar o corpo de qualquer indivíduo que nele se sentasse. Eu siasmo e a e x c i t a ç ã o t ã o evidentes dos anos de 1945 a 47 foram
mesmo construí um desses acumuladores, utilizando-o pessoal- h .msformados em sentimentos de p e r s e g u i ç ã o e de d e s â n i m o .
mente. E m algumas situações, esse engenho se mostrou útil, mas Reich parou com todas as terapias individuais e mudou-se para
não tinha nenhum efeito sobre os problemas da personalidade. Kingeley, Maine, onde se dedicou à física orgônica. O termo
A nível individual, esses ainda requerem, como solução, uma com- fototerapia c a r a c t e r o - a n a l í t i c a " deu lugar à d e n o m i n a ç ã o "te-
b i n a ç ã o de cuidadoso trabalho analítico e de a p r o x i m a ç ã o física u p i a o r g ô n i c a " . Isso resultou numa perda de interesse na arte

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consciência de ainda haver muitas tensões musculares c r ó n i c a s i- não na prona, usada por Reich. Eu esticava as pernas, v i r a v a
em meu corpo que n ã o me deixavam experimentar o prazer que . . . m e u s dedos para dentro, dobrava os joelhos e arqueava as
eu tanto esperava. Podia sentir a sua influência limitadora na costas numa tentativa de mobilizar a r e g i ã o inferior do meu corpo.
minha personalidade. E eu almejava uma ainda mais rica e com- ECu me mantinha nessa posição por v á r i o s minutos, pois ela me
pleta ex p er i ên ci a sexual, uma experiênc ia que eu sabia ser fnzia sentir mais próximo do solo. Este procedimento tinha o
possível. i feito adicional de fazer-me respirar mais profundamente com o
Minha solução era iniciar a terapia mais uma vez. N ã o podia . d u l o m e . Pelo fato de essa posição produzir uma certa p r e s s ã o
voltar a Reich, como t a m b é m n ã o tinha confiança em nenhum na parte inferior das minhas costas, eu a invertia ao pender para
outro terapeuta reichiano. Eu estava convencido de que a abor- I frente e tocar o solo levemente com as pontas dos dedos, man-
dagem deveria ser corporal, e resolvi optar por um trabalho com t< ndo os meus joelhos levemente dobrados. A partir d a í , comecei
meu colega John Pierrakos, numa união arriscada, desde que ii sentir mais minhas pernas que, aos poucos, c o m e ç a r a m a vibrar.
eu era mais velho e tinha mais experiênc ia do que ele. F o i a Esses dois simples exercícios vieram a tornar-se o conceito de
partir deste trabalho conjunto sobre meu próprio corpo que a groundingW, único à bioenergética. Este conceito desenvolveu-se
bioenergética foi concebida. Os exercícios básicos por nós utili- v ir.ilusamente a t r a v é s dos anos, na medida em que se tornou
zados foram primeiramente testados por m i m , pois minha expe- . Idente que todos os pacientes sentiam a falta de ter seus p é s
riência pessoal ensinou-me como eles poderiam ser manipulados e firmemente plantados no c h ã o . Esta falta correspondia à sua
que efeitos poderiam produzir. Por todos esses anos desenvolvi ondição de estar "voando nas nuvens", e fora de contato com
a técnica de experimentar com meu próprio corpo tudo que pedia i realidade. Grounding, ou seja, fazer com que o paciente tenha
a meus pacientes, pois n ã o acredito que seja um direito nosso OOntato com a realidade, com o solo onde pisa, com seu corpo
pedir a outras pessoas o que nós mesmos n ã o estamos prepa- . .11.1 sexualidade, tornou-se uma das pedras fundamentais da
rados para pedir de nosso corpo. Por outro lado, n ã o acredito e n e r g é t i c a . No capítulo 6, apresento uma e l a b o r a ç ã o completa
que possamos fazer pelos outros o que n ã o podemos fazer por In conceito de grounding e de sua r e l a ç ã o com a realidade e a
nós mesmos.
Ilusão. Neste capítulo t a m b é m s ã o descritos vários exercícios utili-
Minha terapia com Pierrakos durou cerca de t r ê s anos. Esta nliis para a l c a n ç a r grounding.
teve um c a r á t e r completamente diferente da que fiz com Reich. Outra das inovações por nós desenvolvida no decurso desse
Existia nela um menor n ú m e r o de e x p e r i ê n c i a s que fossem espon- trabalho foi o uso da "cadeirinha para respirar". A r e s p i r a ç ã o é
taneamente emocionantes. Isso se dava principalmente porque i M U i.il para a b i o e n e r g é t i c a , assim como o é para a terapia rei-
eu dirigia em grande parte o trabalho com o corpo, mas t a m b é m . In.ma. Contudo, tem sido um constante problema conseguir com
porque esse trabalho se concentrava mais na r e l a x a ç ã o das ten- que os pacientes respirem profunda e plenamente. Ainda mais
Vsões musculares do que na entrega aos sentimentos sexuais. E u difícil e conseguir que essa r e s p i r a ç ã o torne-se livre e espontâ-
estava plenamente consciente de n ã o querer tentar novamente. iH i A ideia de uma "cadeirinha" veio da o b s e r v a ç ã o da tendên-
Queria que a l g u é m tomasse a dianteira e o fizesse por m i m . . I . I comum à s pessoas de se inclinarem no encosto da cadeira
Tentar e controlar s ã o aspectos de meu c a r á t e r neurótico, e n ã o quando, após terem estado sentadas durante algum tempo, sentem
me é fácil uma entrega total. F u i capaz de fazê-lo com Reich por i necessidade de se esticar e respirar. Eu mesmo desenvolvi
meu respeito ao seu conhecimento e autoridade, mas a minha . . i hábito durante o trabalho com meus pacientes. O fato de
entrega se limitava àquele relacionamento. O conflito se resolveu i n i . i r numa poltrona fazia com que minha r e s p i r a ç ã o fosse debi-
por meio de um compromisso. Na primeira metade da s e s s ã o , hi ida e eu costumava recostar-me e esticar meu corpo para fazer
eu trabalhava comigo mesmo, descrevendo as s e n s a ç õ e s do meu i u m que minha r e s p i r a ç ã o voltasse a se tornar profunda. O
corpo a Pierrakos. Na segunda metade da s e s s ã o , ele pressio- primeiro modelo da cadeirinha por nós utilizada foi uma escada
nava os músculos tensos com suas m ã o s fortes e quentes, rela-
iii madeira de cozinha, de 60 cm de altura, na qual um cobertor
xando-os de modo a permitir que ocorressem as vibrações de (9)
• l i 1'ortemente enrolado e a m a r r a d o . Encostando-se nesse
energia.
Trabalhando com meu próprio corpo, desenvolvi as posições
8) ( i r o u n d = solo, c h ã o . O termo grounding implica a dinâmica de estar no
e exercícios básicos que hoje s ã o considerados p a d r õ e s da bio- .In... cm contato com a terra; por e x t r a p o l a ç ã o , as noções de solidez, de firmeza,
e n e r g é t i c a . Notava que precisava sentir mais inteiramente as dl ..i.n com os p é s na terra". ( N . da T.)
minhas pernas e resolvi iniciar a sessão numa posição vertical 9) Alexander L o w e n , Pleasure (Nova Y o r k , Coward-McCann, Inc., 1970).

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assento, o indivíduo conseguia o efeito de estimular a r e s p i r a ç ã o de The Physical Dynamics of Character Structure^ ). 10
Apesar de
sem que houvesse a necessidade do uso de exercícios específicos. incompleto em r e l a ç ã o aos tipos de c a r á t e r , é esta a base de todo
Eu pessoalmente explorei o uso desse assento durante a minha 0 trabalho sobre o c a r á t e r feito na bioenergética.
terapia com Pierrakos e, a partir d a í , tenho utilizado regular-
Eu tinha terminado meu trabalho com Pierrakos muitos
mente o aparato.
s antes, e sentia-me muito satisfeito com as nossas realiza-
Os resultados do meu segundo período de terapia foram mar- 1 Ses. Contudo, se a l g u é m me perguntasse: "Você resolveu todos
cadamente diferentes. Nessa oportunidade, tive maior contato 01 seus problemas, completou seu crescimento, realizou todo o
com a tristeza e a r a i v a que em qualquer outra ocasião, especial- .cu potencial como pessoa e relaxou todas as suas tensões mus-
mente com r e l a ç ã o à minha m ã e . A l i b e r a ç ã o desses sentimentos i ulares?" Minha resposta ainda teria sido " N ã o " . Existe um
tinha um efeito divertido. Houve ocasiões em que meu c o r a ç ã o ponto no qual o indivíduo n ã o sente que seja n e c e s s á r i o ou dese-
se abria e eu me sentia radiante e animado. Mais importante j/ivel continuar a terapia, e então a abandona. Se a terapia foi
do que isso, entretanto, era o constante senso de bem-estar que bem sucedida, a pessoa se sente capaz de tomar para si a inteira
eu sentia. Meu corpo foi gradualmente se tornando mais relaxado responsabilidade sobre seu bem-estar e crescimento ininterrupto.
e forte. Lembro-me de ter deixado de lado o sentimento de fragili- Alguma coisa em minha personalidade sempre me inclinou a essa
dade. Sentia que, apesar de poder ser ferido, eu não me partiria direção, de alguma forma. Deixar a terapia não significou que
em pedaços. T a m b é m perdi o medo irracional da dor. A dor, eu tenha parado de trabalhar com o meu corpo. Continuei a
aprendi, vinha da t e n s ã o e descobri que, me entregando à dor, fazer os exercícios bioenergéticos que usava com os meus pacien-
poderia descobrir a t e n s ã o que a tinha causado, e esse procedi- les tanto isoladamente quanto em grupo. Acredito que esse com-
mento invariavelmente t r a r i a o relaxamento. promisso com o meu corpo é em parte r e s p o n s á v e l pelo fato de
Durante essa terapia, o reflexo do orgasmo só ocorria ocasio- que tenham continuado a ocorrer muitas m u d a n ç a s positivas na
nalmente. Eu não estava preocupado com essa a u s ê n c i a pois me minha personalidade. Essas m u d a n ç a s geralmente foram prece-
concentrava nas minhas tensões musculares, e esse trabalho inten- . In las de uma c o m p r e e n s ã o mais profunda da minha pessoa, tanto
so tirou-me a a t e n ç ã o do trabalho pela entrega a sentimentos • i n termos do meu passado quanto em r e l a ç ã o ao meu corpo.
sexuais. A minha t e n d ê n c i a à e j a c u l a ç ã o prematura, que persistia Nesse momento, s ã o passados mais de trinta e quatro anos des-
apesar do meu aparente sucesso com a terapia com Reich, dimi- ile |ue me encontrei com Reich pela primeira vez, e mais de trinta
(

nuiu grandemente, e a minha resposta ao c l í m a x sexual tornou-se e dois desde que iniciei minha terapia com ele. Trabalhei com
mais s a t i s f a t ó r i a . Esse progresso conduziu-me à c o m p r e e n s ã o pacientes por mais de vinte e sete anos. Trabalhando, pensando
de que o caminho mais eficiente para chegar ao centro das difi- e escrevendo sobre as minhas e x p e r i ê n c i a s pessoais e as de meus
culdades sexuais do paciente e s t á em trabalhar a t r a v é s dos seus
pacientes, pude chegar a uma conclusão: a vida de um indivíduo
problemas de personalidade, problemas esses que incluem neces-
t- a vida de seu corpo. Desde que o corpo com vida inclui a
sariamente os sentimentos de culpa em r e l a ç ã o ao sexo e à s
mente, o espírito e a alma, viver a vida do corpo inteiramente
ansiedades. A ê n f a s e dada por Reich à sexualidade, apesar de
Hignifica ser atento, espiritual e nobre. Se tivermos alguma defi-
teoricamente válida, raramente produzia resultados que pudessem
ser mantidos sob as condições da vida moderna. ciência em qualquer um destes aspectos do nosso ser, significa
que t a m b é m não estamos inteiramente com nosso corpo. Costu-
Como analista, Reich enfatizou a i m p o r t â n c i a da análise do mamos tratar o corpo como instrumento ou m á q u i n a . Sabemos
c a r á t e r . No meu tratamento com ele, esse aspecto da terapia que, se ele falhar, nós estaremos em apuros. Mas o mesmo se
foi de alguma forma minimizado. F o i ainda mais reduzido quando pode dizer de um automóvel do qual somos t ã o dependentes. Nós
a vegetoterapia c a r a c t e r o - a n a l í t i c a f o i transformada em terapia não estamos identificados com o nosso corpo; na realidade, nós
orgônica. Apesar de que o trabalho de análise do c a r á t e r tome (11)
o traímos como ressaltei num livro a n t e r i o r . Todas as nossas
muito tempo e p a c i ê n c i a , este me parece indispensável para um
sólido resultado. Decidi a esse respeito que, independente da
i m p o r t â n c i a dada ao trabalho com tensões musculares, uma aná- 10) Alexander L o w e n , The Physical Dynamics of Character Structure (Nova
lise do modo habitual de uma pessoa ser e comportar-se merece Ifork, G r u ñ e & Stratton, 1958). T a m b é m d i s p o n í v e l em l i v r o de bolso, sob o
igual a t e n ç ã o . Fiz um estudo intensivo sobre tipos de c a r á t e r , mulo The Language of the Body (Nova Y o r k , Macmillan, 1971). E m p o r t u g u ê s ,
O Corpo em Terapia (São Paulo, Summus Editorial, 1977). ( N . da T.)
relacionando as d i n â m i c a s físicas e psicológicas dos p a d r õ e s do
I I ) Alexander L o w e n , The Betrayal of the Body (Nova Y o r k , Macmillan,
comportamento. Esse estudo foi publicado em 1958 sob o título r n . / l . b m p o r t u g u ê s , O Corpo Traído (São Paulo, Summus Editorial, 1979).

36 37
dificuldades pessoais a d v ê m dessa t r a i ç ã o , e acredito que a 6 os caminhos que levam a ele estão fortemente defendidos, tanto
maioria dos nossos problemas sociais t ê m a mesma origem. física quanto psicologicamente. Essa defesa deve ser entendida e
A bioenergética é uma técnica t e r a p ê u t i c a que ajuda o indi- irabalhada para que possamos a l c a n ç a r o objetivo descrito. Mas
víduo a reencontrar-se com o seu corpo, e a t i r a r o mais alto grau 16 este não for atingido, o resultado é t r á g i c o . Atravessar a vida
de proveito possível da vida que h á nele. Essa ênfase dada ao Com o c o r a ç ã o encarcerado é como fazer uma viagem transo-
corpo inclui a sexualidade, que é uma das suas funções b á s i c a s . ceânica trancado no porão de um navio. Todo o significado, a
Mas inclui t a m b é m as mais elementares funções de r e s p i r a ç ã o , iventura, a e x c i t a ç ã o e a glória de viver estão longe de poderem
movimento, sentimento e auto-expressão. O indivíduo que não res- .sor vistos e tocados.
pira corretamente reduz a vida do seu corpo. Se não se movi- A bioenergética é uma aventura de autodescoberta. Ela difere
menta livremente, limita a vida de seu corpo. Se n ã o se sente de formas similares de e x p l o r a ç ã o da natureza do ser por tentar
inteiramente, estreita a vida de seu corpo e, se sua auto-expressão e perseguir o objetivo de compreender a personalidade humana
é reduzida, o indivíduo t e r á a vida de seu corpo restringida. (iri termos de corpo humano. A maioria das explorações ante-
Na verdade, essas r e s t r i ç õ e s à vida n ã o s ã o imposições volun- r i o r e s concentrava-se em investigações sobre a mente. Estas nos
t á r i a s . Desenvolvem-se como forma de sobrevivência no meio forneceram informações valiosas, mas me parece que não che-
familiar e cultural que nega os valores do corpo em favor do caram a questionar o mais importante domínio da personalidade,
poder, de prestígio e de bens materiais. Apesar disso, aceitamos que é precisamente sua base nos processos do corpo. P o d e r í a m o s
tais r e s t r i ç õ e s em nossas vidas pelo simples fato de não as ques- afirmar com facilidade que o que acontece com o corpo neces-
tionarmos e, consequentemente, t r a í m o s nossos corpos. Nesse sariamente afeta a mente, mas isso n ã o se constitui em nenhuma
processo, destruímos t a m b é m o ambiente natural do qual o nosso novidade. Minha posição é que os processos energéticos do
corpo depende para seu bem-estar. É igualmente verdadeiro que Corpo determinam o que acontece na mente, da mesma forma
a maioria das pessoas n ã o tem consciência de determinadas defi- que determinam o que acontece no corpo.
ciências de seu corpo, deficiências estas que acabaram se tornan-
do sua segunda natureza, compondo sua forma habitual de viver
no mundo. O que é certo é que a maioria das pessoas atravessa
a vida utilizando apenas uma pequena parcela do seu potencial
de energia e sentimento.
O objetivo da bioenergética é ajudar o indivíduo a retomar
sua natureza p r i m á r i a que se constitui na sua condição de ser
livre, seu estado de ser gracioso e sua qualidade de ser belo.
A liberdade, a g r a ç a e a beleza s ã o atributos naturais a qualquer
organismo animal. A liberdade é a a u s ê n c i a de qualquer restri-
ção ao fluxo de sentimentos e s e n s a ç õ e s , a g r a ç a é a e x p r e s s ã o
desse fluir em movimentos, enquanto a beleza é a m a n i f e s t a ç ã o
da harmonia interna que tal fluir provoca. Esses fatores deno-
tam um corpo s a u d á v e l e, portanto, uma mente s a u d á v e l .
A natureza p r i m á r i a de um ser humano é ser aberto à vida e
ao amor. Estar resguardado, e n c o u r a ç a d o , descrente e fechado
vem a ser a segunda natureza da nossa cultura. Essa é a forma
que adotamos para nos proteger de sofrimentos, mas quando tais
atitudes tornam-se c a r a c t e r o l ó g i c a s ou estruturais em nossa per-
sonalidade, passam a constituir-se em uma dor ainda mais s é r i a ,
provocando uma m u t i l a ç ã o ainda mais grave que aquela sofrida
originalmente.
A bioenergética tem como objetivo ajudar o indivíduo a abrir
o seu c o r a ç ã o para a vida e para o amor. Essa n ã o é uma tarefa
fácil. O c o r a ç ã o está muito bem protegido em sua caixa óssea,

38 39
Forma t ã o severa que poderia inclusive sobrevir a morte; um corte
n,i entrada do oxigénio n e c e s s á r i o ao organismo interfere no
processo normal da r e s p i r a ç ã o , conduzindo o indivíduo à morte.
I Is venenos que bloqueiam as atividades metabólicas do corpo,
reduzindo assim sua energia, provocam o mesmo efeito.
É um fato comumente aceito que a energia de um organismo
animal a d v é m da combustão dos alimentos. As plantas, por outro
lado, possuem a capacidade de capturar e utilizar a energia do sol
nos seus processos vitais, assimilando-a e transformando-a nos
tecidos da planta, ficando, desse modo, disponível como alimento
I I . O Conceito de Energia p u a animais herbívoros. O processo de transformar o alimento
eio energia livre que o animal pode utilizar em suas necessidades
Vitais é um procedimento químico complexo, que envolve, em
última instância, o uso do oxigénio. A combustão do alimento n ã o
i diferente da combustão que ocorre numa fogueira, pois ambas
necessitam de oxigénio para manter seu processo. E m ambos os
Carga, descarga, fluxo e movimento
casos, o nível de combustão está ligado à quantidade de oxigénio
disponível.
A bioenergética, como venho enfatizando, é o estudo da per- Essa simples analogia não explica o complicado fenómeno da
sonalidade humana em termos dos processos energéticos do corpo. vida. As chamas do fogo apagam-se quando a fonte de com-
O termo é igualmente utilizado na bioquímica para definir uma bustível se esgota; a l é m disso, a chama arde indiscriminadamente,
á r e a de pesquisas que lida com os processos energéticos nos níveis • ni levar em conta a energia liberada pela combustão. E m
molecular e submolecular. Como foi ressaltado por Albert contrapartida, o organismo vivo é como um fogo autocontido, auto-
1
Szent-Gyorgyi' ', é preciso energia para movimentar a m á q u i n a rcgulado e automantenedor. A forma utilizada para que este
vital. Na realidade, a energia está envolvida no movimento de milagre ocorra — queimar sem que se destrua — é ainda um
todas as coisas, tanto vivas quanto inertes. No pensamento cien- grande mistério. Enquanto n ã o estivermos capacitados a solu-
tífico corrente, essa energia é tida como sendo de natureza elé-
c i o n a r este enigma, é importante que tentemos compreender alguns
trica. Existem, entretanto, outros pontos de vista a respeito de
dos fatores nele envolvidos, dado que todos nós desejamos manter
sua natureza, especialmente quando aplicada a organismos vivos.
a c e s a a chama da vida, para que arda forte e ininterruptamente
Reich afirmou que a energia cósmica por ele denominada de
dentro de nós.
orgone n ã o tinha natureza elétrica. A filosofia chinesa admite
Não estamos acostumados a pensar na personalidade em
duas energias com r e l a ç ã o de polaridade entre si, chamadas de
termos de energia, mas a verdade é que ambas não podem exis-
yin e yang. Essas energias formam a base da p r á t i c a m é d i c a
tir isoladamente. A quantidade de energia que um indivíduo possui
chinesa chamada acupuntura, cujos resultados t ê m surpreendido
e como ele a usa i r á determinar e refletir em sua personalidade.
os médicos ocidentais.
Algumas pessoas t ê m mais energia que as outras; algumas s ã o
Não acredito que seja importante para o estudo presente mais debilitadas. Uma pessoa impulsiva, por exemplo, n ã o con-
determinar com p r e c i s ã o o c a r á t e r real da energia da vida. Cada segue conter qualquer aumento no seu nível de excitação ou ener-
um desses pontos de vista tem sua validade e eu n ã o consegui gia; d e v e r á d e s c a r r e g á - l o o mais r á p i d o possível. O indivíduo
ajustar as diferenças existentes entre eles. Podemos, p o r é m , compulsivo emprega sua energia de modo diferente: sua exci-
aceitar a proposta fundamental de que a energia está envolvida t a ç ã o s e r á descarregada t a m b é m , mas segundo p a d r õ e s de movi-
em todos os processos da vida, nos movimentos, sentimentos e m e n t o e de comportamento rigidamente estruturados.
pensamentos, e que os mesmos chegariam ao f i m se a fonte de A r e l a ç ã o da energia com a personalidade manifesta-se de
energia para o organismo se esgotasse. Uma falta de alimentos, nnulo inequívoco no indivíduo deprimido. Apesar de a r e a ç ã o
por exemplo, haveria de esgotar a energia do organismo de uma e a tendência depressivas resultarem de uma i n t e r a ç ã o de com-
2
plicados fatores físicos e psicológicos* *, um ponto não admite

1) A l b e r t Szent-Gyorgyi, Bioenergetics (Nova Y o r k , Academic Press, 1957). 2) Lowen, Depression and the Body, op. cit.

40 41
dúvidas: a pessoa deprimida está também energeticamente tunda possa ser experimentado e tornado evidente imediatamente,
deprimida. não chega a ser a cura para o estado depressivo. Nem é certo
Estudos cinemáticos mostram que tal pessoa desempenha que esse efeito d u r a r á , j á que a p r ó p r i a pessoa n ã o consegue
apenas cerca da metade dos movimentos espontâneos normais manter espontaneamente este estado de r e s p i r a ç ã o mais profunda.
que um indivíduo n ã o deprimido. E m alguns casos mais graves, Kssa incapacidade é o problema central da d e p r e s s ã o , pois n ã o
é p r o v á v e l que a pessoa fique parada, sem mover-se de modo pode ser superado a menos que se f a ç a uma análise radical de
algum, como se n ã o tivesse a energia n e c e s s á r i a para fazê-lo. lodos os fatores que c o n t r i b u í r a m para a f o r m a ç ã o de um corpo
Seu estado subjetivo geralmente corresponde à sua imagem obje- relativamente amortecido e de uma personalidade deprimida. Mas
t i v a : é a pessoa que sempre sente faltar em si a energia para i análise em si n ã o i r á ajudar muito se n ã o vier acompanhada
dar vida a qualquer movimento. Pode queixar-se de estar ner- de um esforço consistente para aumentar o nível de energia
vosa sem, contudo, estar cansada. A d e p r e s s ã o em seu nível de dessa pessoa, carregando o seu corpo energeticamente.
energia pode ser vista no rebaixamento de todas as suas funções O conceito de carga de energia n ã o pode ser discutido sem
e n e r g é t i c a s : a r e s p i r a ç ã o está diminuída, o apetite e o impulso que se leve em conta a descarga e n e r g é t i c a . O organismo vivo
sexual debilitados. O indivíduo neste estado dificilmente i r á reagir só pode existir se houver um equilíbrio entre a carga e descarga
aos nossos conselhos de que procure algo em que se interesse; de energia. É n e c e s s á r i o que mantenha o nível de energia coe-
literalmente, não possui a energia para desenvolver qualquer rente à s suas necessidades e oportunidades. Uma c r i a n ç a em
interesse. idade de crescimento t e r á sempre um maior influxo de energia
Tive a oportunidade de tratar de muitos pacientes depri- do que uma descarga, utilizando essa energia extra no seu cres-
midos, j á que este é um dos problemas mais comuns à s pessoas cimento. O mesmo se d á com a c o n v a l e s c e n ç a ou com o desen-
que recorrem à terapia. Após escutar a história de um paciente, volvimento da personalidade. O crescimento consome energia.
revê-la e avaliar sua condição, tento ajudá-lo a reerguer o nível Além disso, geralmente a quantidade de energia absorvida por
de sua energia. A maneira mais imediata de consegui-lo é uma pessoa corresponde à quantidade de energia que t a l pessoa
aumentando o seu influxo de oxigénio, isto é, fazendo com que pode descarregar em qualquer atividade.
consiga respirar mais profunda e plenamente. Existe um grande Todas as atividades requerem e utilizam energias — das
n ú m e r o de formas a t r a v é s das quais o indivíduo pode ser aju- batidas do c o r a ç ã o aos movimentos peristálticos dos intestinos,
dado a mobilizar sua r e s p i r a ç ã o ; s e r ã o descritas nos capítulos ao caminhar, falar, trabalhar e ao sexo. Contudo, nenhum orga-
subsequentes. Parto da suposição de que o indivíduo n ã o pode nismo vivo é uma m á q u i n a . Suas atividades b á s i c a s n ã o se desen-
fazê-lo por si, caso c o n t r á r i o n ã o teria recorrido a m i m . Isso volvem mecanicamente sendo, sim, e x p r e s s õ e s do seu ser. Uma
implica que devo usar a minha energia para conseguir que a pessoa se expressa em suas ações e movimentos e, quando sua
dele comece a fluir livremente. Esse processo envolve a intro- auto-expressão é livre e apropriada à realidade da sua s i t u a ç ã o ,
d u ç ã o do paciente em algumas atividades simples que vagaro- e x p e r i m e n t a r á uma s e n s a ç ã o de s a t i s f a ç ã o e prazer produzida
samente i r ã o aprofundando sua r e s p i r a ç ã o , assim como o uso da pela descarga da energia. Esse prazer e s a t i s f a ç ã o , por sua vez,
p r e s s ã o física e do toque para estimulá-lo. O que h á de impor- estimulam o organismo a-aumentar a sua atividade metabólica,
tante em tudo isso é que na medida em que a r e s p i r a ç ã o do indi- que imediatamente se reflete em uma r e s p i r a ç ã o mais profunda
víduo se torna mais ativa, seu nível de energia aumenta. Quan- • plena. No estado de s a t i s f a ç ã o , as atividades r í t m i c a s e invo-
do a pessoa está recarregada, d e v e r á ocorrer nas suas pernas l u n t á r i a s da vida funcionam no seu nível ótimo.
um leve e involuntário tremor ou v i b r a ç ã o . Isso se interpreta
como um sinal de que existe alguma corrente ou e x c i t a ç ã o no O prazer e a s a t i s f a ç ã o s ã o , como tenho dito, o resultado
corpo, especificamente na sua parte inferior. A sua voz d e v e r á imediato das e x p e r i ê n c i a s de a u t o - e x p r e s s ã o . Limite o direito de
se tornar mais ressonante, desde que existe agora uma maior uma pessoa à sua a u t o - e x p r e s s ã o e você e s t a r á limitando suas
quantidade de ar fluindo a t r a v é s da laringe; a face t a m b é m deve- oportunidades de prazer e de vivência criativa. Justamente por
r á se tornar mais viva. É comum que n ã o se passe mais que vinte esse motivo, se a capacidade de um indivíduo expressar suas
ou t r i n t a minutos para que ocorra esta m u d a n ç a , fazendo com ideias e sentimentos for limitada por forças internas (inibições ou
que o paciente se sinta como que "levitando". Na realidade, ele Iensões musculares c r ó n i c a s ) , sua capacidade de sentir prazer
foi suspenso temporariamente do seu estado depressivo. i r,i t a m b é m reduzida. Nesse caso, o indivíduo i r á reduzir o seu
influxo de energia (inconscientemente, é claro) para manter um
Apesar de que o efeito de uma r e s p i r a ç ã o mais plena e pro- equilíbrio e n e r g é t i c o no seu corpo.

42 43
pode fazer com que o indivíduo fique com uma a p a r ê n c i a branca ponente involuntário, componente esse que não e s t á sujeito ao
e fria devido à vasoconstrição p e r i f é r i c a que não deixa o sangue controle consciente. A fusão dos elementos conscientes e incons-
a l c a n ç a r a superfície. Existe ainda o intenso furor no qual a • lentes ou dos componentes voluntários e involuntários faz surgir
raiva é encoberta por uma negra nuvem de ódio. vi mentos que t ê m uma ligação emocional e que se constituem
cm ações coordenadas e eficientes.
O fluxo de sangue em d i r e ç ã o à c a b e ç a e a e x c i t a ç ã o podem
produzir uma emoção inteiramente diferente quando seguem dife- A vida emocional de um indivíduo depende da motilidade do
rentes canais e excitam diferentes ó r g ã o s . O fluxo de e x c i t a ç ã o •iru corpo, que por sua vez é uma função do fluxo de e x c i t a ç ã o
que percorre a parte anterior do corpo, do c o r a ç ã o à boca, olhos •través dele. Os distúrbios nesse fluxo ocorrem em forma de
e m ã o s , i r á fazer com que o indivíduo se sinta comunicativo e bloqueios, que se manifestam em á r e a s onde a motilidade do corpo
expansivo. O fluxo de r a i v a percorre principalmente a parte pos- c reduzida. Nessas á r e a s podemos facilmente apalpar e sentir
terior do corpo. O sangue e e x c i t a ç ã o que se dirigem à parte 00m os nossos dedos a espasticidade da musculatura. Desse modo,
inferior do corpo p o d e r ã o produzir algumas s e n s a ç õ e s interes- 01 lermos "bloqueio", "insensibilidade" e " t e n s ã o muscular cro-
santes. Essas podem ser experimentadas quando andamos num m e , V se referem ao mesmo fenómeno. Geralmente pode-se infe-
v a g ã o de montanha russa ou nas ligeiras subidas e descidas de i i r a existência de um bloqueio pela c o n s t a t a ç ã o de uma á r e a
um elevador. As c r i a n ç a s costumam gostar dessa s e n s a ç ã o , que de insensibilidade ou por sentir a c o n t r a ç ã o muscular que o
pode ser experimentada em brinquedos como o b a l a n ç o . São mais mantém.
intensas e provocam maior prazer quando ocorrem em forma de Desde que o corpo é um sistema energético, está em cons-
suaves s e n s a ç õ e s de derretimento no ventre, acompanhadas de uma tante inter a ç ã o e n e r g é t i c a com seu meio ambiente. Além da ener-
forte carga sexual. O mesmo fluxo, entretanto, pode v i r ligado à gia derivada da c o m b u s t ã o do alimento, o indivíduo se torna exci-
ansiedade, dando ao indivíduo a s e n s a ç ã o de ter o ventre afundado. i.ido ou carregado pelo contato com f o r ç a s positivas. U m dia
brilhante e claro, uma bela cena, uma pessoa feliz s ã o fatos que
Quando nos damos conta de que 99% (noventa e nove por
l e m um efeito estimulador. Os dias escuros- e pesados, assim
cento) do corpo é composto de á g u a , parte da qual estruturada,
Como pessoas feias e deprimidas, possuem um impacto negativo
sendo a maioria fluida, podemos imaginar s e n s a ç õ e s , sentimentos ¡
nas nossas energias, exercendo uma influência desanimadora.
e emoções como sendo correntes ou ondas desse corpo líquido.
Todos nós somos sensíveis à s forças ou energias que nos rodeiam,
Estas s ã o p e r c e p ç õ e s de movimentos internos do corpo relativa-
m a s o seu impacto n ã o é o mesmo para todas as pessoas. Uma
mente fluido. Os nervos medeiam tais p e r c e p ç õ e s e coordenam as
pessoa que está altamente carregada é mais resistente à s influên-
r e a ç õ e s , mas os impulsos e movimentos subjacentes s ã o inerentes
cias negativas, tornando-se, ao mesmo tempo, uma influência posi-
à carga e n e r g é t i c a do corpo, ao seu ritmo e p u l s a ç ã o naturais.
tiva para outras pessoas, especialmente quando o fluxo de exci-
Esses movimentos internos representam a motilidade do corpo, dis-
tação em seu corpo é livre e pleno. O contato com tais indi-
tinguindo-se dos movimentos voluntários que estão sujeitos a um
víduos nos causa prazer, e podemos sentir isso intuitivamente.
controle consciente. Eles s ã o mais evidentes nos indivíduos mais
jovens. Ao olhar para o corpo de um b e b é , podemos ver o seu
constante movimentar, assim como as ondas de um lago, movi- Você é o seu corpo
mentos estes provocados por forças internas. Na medida em
que o indivíduo se torna mais velho, sua motilidade tende a dimi- A bioenergética se apoia na simples proposição de que cada
nuir. Torna-se mais estruturada e r i j a , a t é que, finalmente, com ser é o seu corpo. Nenhuma pessoa existe fora do corpo vivo,
a morte, toda a motilidade cessa. a t r a v é s do qual se expressa e se relaciona com o mundo à sua
E m todos os nossos movimentos voluntários existe um compo- volta. Seria tolo argumentar contra essa proposição, pois pode-
nente involuntário, que representa a motilidade essencial do orga- ríamos estar tentados a mencionar partes de nós mesmos que n ã o
nismo. O componente involuntário, integrado à a ç ã o voluntária, fazem parte do nosso corpo. A mente, o espírito e a alma s ã o
responde pela vivacidade e espontaneidade de nossas ações e aspectos de qualquer corpo vivo. U m corpo morto n ã o possui
movimentos. Quando está ausente ou reduzido, os movimentos do mente, perdeu seu espírito e sua alma t a m b é m o deixou.
corpo t ê m um c a r á t e r m e c â n i c o e sem vida. Os movimentos pura- Se você é seu corpo e seu corpo é você, este p o d e r á expressar
mente voluntários ou conscientes dão lugar a poucas outras sen- quem você é. É a sua forma de estar no mundo. Quanto mais
sações que não a s e n s a ç ã o cinestésica de deslocamento no e s p a ç o . vivo for o seu corpo, mais vivamente você e s t a r á no mundo. Quan-
O tom de sentimento dos movimentos expressivos a d v é m do com- do o seu corpo perde parte de sua vivacidade, num momento de

46 47
e x a u s t ã o , por exemplo, a t e n d ê n c i a é retrair-se. A doença possui tempo a t r á s , tratei de um indivíduo cujo corpo era grande, gordo
o mesmo efeito, produzindo t a m b é m um estado de retraimento. É e disforme. Dizia sentir tanta vergonha que se recusava a mos-
possível que você sinta que o mundo e s t á a uma certa distância, liar-se em trajes de banho, na praia. Sentia-se t a m b é m sexual-
ou inclusive que você o esteja vendo como que a t r a v é s de um mente inadequado. Por muitos anos lutou para superar suas defi-
nevoeiro. Por outro lado, existem dias em que você se sente vivo i u n c í a s físicas com dietas e exercícios, p o r é m sem sucesso. No
e radiante e o mundo que o cerca parece mais claro, mais pró- decimo da terapia, deu-se conta de que sua a p a r ê n c i a física
ximo e real. Todos nós g o s t a r í a m o s de ser e de nos sentir mais exprimia um aspecto de sua personalidade que a t é então ele não
vivos, e a bioenergética pode ajudar-nos a a l c a n ç a r este objetivo. tivera condições de admitir: uma parte dele identificava-se com
Dado que o seu corpo expressa quem você é, ele t a m b é m indica ser grande, gordo, mais bebé do que homem. Isso era obser-
a intensidade de sua p r e s e n ç a no mundo. N ã o é à-toa que usamos vável em sua forma desajeitada de sentar-se numa cadeira, como
termos como " n i n g u é m " para indicar uma pessoa que n ã o nos diz também pelo desmazelo das roupas. F o i quando percebeu que ser
nada com a sua existência, ou como " a l g u é m " , indicando uma pes- um bebé gordo, grande e sujo era uma atitude inconsciente que
5
soa que nos transmite uma forte i m p r e s s ã o * ' . Isso é apenas a tle tinha adotado para resistir à s contínuas exigências dé seus
linguagem do corpo. Do mesmo modo, as pessoas podem sentir p u s para que crescesse, se tornasse um homem e se projetasse
quando você está r e t r a í d o , assim como sentem o seu c a n s a ç o ou como t a l . Seus conflitos reais eram mais sérios do que o indicam
qualquer outro mal do qual esteja sofrendo. O c a n s a ç o se expressa t u s a f i r m a ç õ e s , mas todos resumiam-se nessa atitude corporal.
a t r a v é s de sinais visuais e auditivos diferentes: ombros descaídos, A nível consciente ou egóico, ele seguia as instruções dos pais,
aparente abatimento na face, falta de brilho nos olhos, movimen- mas a r e s i s t ê n c i a inconsciente de seu corpo não se submetia aos
tos vagarosos e pesados, voz mais grave ou sem r e s s o n â n c i a . •eus esforços voluntários. Uma pessoa não pode ser bem-suce-
Mesmo o esforço para encobrir o sentimento t r a i a si próprio, dida na vida se tentar lutar contra si p r ó p r i a O esforço para
revelando o c a r á t e r de uma tentativa f o r ç a d a . superar o corpo e s t á fadado ao insucesso.

O que um indivíduo sente t a m b é m pode ser definido pela Devemos reconhecer tanto a identidade quanto as d i f e r e n ç a s
e x p r e s s ã o de seu corpo. As emoções s ã o eventos corporais; lite- •ntre os processos físicos e psíquicos. M e u paciente n ã o era
ralmente, s ã o movimentos ou impulsos dentro do corpo que geral- •penas um homem grande, gordo, infantil e desajeitado; estava
mente resultam em alguma a ç ã o externa. A r a i v a produz t e n s ã o também seriamente empenhado em funcionar a esse nível. Con-
e, como pudemos ver, provoca uma carga na metade superior do tudo, não era totalmente um homem, dado que seu inconsciente
corpo, onde e s t ã o localizados os principais veículos de ataque, a e seu corpo mantinham-se firmes no nível infantil. E r a um homem
saber: dentes e b r a ç o s . Podemos reconhecer uma pessoa que e s t á que tentava realizar seu potencial, sem obter êxito. Seu corpo
sentindo r a i v a por seu rosto corado, punhos cerrados e pequenos dmunciava, de forma d r a m á t i c a , ambos os lados de sua persona-
ruídos emitidos pela boca. E m certos animais, o e r i ç a m e n t o de lidade, pois era grande como o corpo de um homem, mas apre-
pêlos ao longo de suas costas e pescoço é um outro tipo de mani- sentava anéis de gordura como os que t ê m os b e b é s .
f e s t a ç ã o emocional. A afeição ou o amor suavizam todas as feições, Muitas pessoas t ê m defeitos semelhantes devidos a conflitos
tornando a pele e olhos cálidos. A tristeza d á ao indivíduo uma inconscientes entre vários aspectos da personalidade. O mais
a p a r ê n c i a enternecedora, sugerindo sempre que a qualquer mo- l omum é o existente entre necessidades e e x i g ê n c i a s insatisfeitas,
mento vá irromper em l á g r i m a s . da fase infantil, e os anseios e esforços da fase adulta. A condi-
O corpo revela muito mais do que tudo isso. A atitude do indi- ção de adulto requer que a pessoa seja independente, se apoie
víduo em r e l a ç ã o à vida ou seu estilo pessoal refletem-se no sobre seus p é s e que assuma a responsabilidade de satisfazer
seu comportamento, em sua postura e no modo como se movi- «eus desejos e c a r ê n c i a s . Os que estão em conflito, p o r é m , sofrem
menta. O que possui um comportamento nobre, e cujo porte é Oom os seus esforços para se tornarem independentes e responsá-
imponente, se distingue muito bem de um outro cujas costas veis; ficam debilitados por desejos inconscientes de que alguém
arqueadas, ombros curvados e c a b e ç a ligeiramente inclinada lhes dê apoio e que assuma por eles os cuidados n e c e s s á r i o s .
indicam s u b m i s s ã o a uma forte carga que pesa sobre si. H á algum O resultado s ã o pessoas confusas tanto física quanto psicologica-
mente. E m seu comportamento, m o s t r a r ã o uma i n d e p e n d ê n c i a
exagerada, ao lado do medo de ficarem sós e à incapacidade de
5) N o original, o autor utilizou nobody e somebody, respectivamente. O
jogo de palavras é de difícil t r a d u ç ã o , pois body significa corpo e, literalmente,
l n i n a r e m decisões. Pode-se notar a mesma figura confusa em
teríamos de empregar "corpo algum" e "certo corpo" ( N . da T . ) . seus corpos. Os aspectos i n í a n t i s da personalidade podem mani-

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festar-se em mãos e p é s pequenos, em pernas longas e finas que
parecem n ã o ser o suporte adequado, ou em sistema muscular
subdesenvolvido que não tem o potencial agressivo para conseguir
o que o indivíduo necessita ou deseja.
Em outros casos, o conflito dá-se entre o ludismo da fase
infantil e o realismo da fase adulta da personalidade. Superficial-
mente, a pessoa dá a i m p r e s s ã o de ser s é r i a , inflexível, rígida,
diligente e moralista. Se tentar relaxar e descontrair-se, tornar -
se-á infantil. Isto se evidencia francamente quando uma pessoa
desse tipo bebe um pouco mais. A c r i a n ç a aí existente costuma
aparecer em brincadeiras e piadas de mau gosto. A a p a r ê n c i a
da face e do corpo é de c a n s a ç o , de dureza e abatimento, o que
faz com que p a r e ç a mais velha. Por instantes, nota-se no rosto
uma e x p r e s s ã o moleca, acompanhada de um sorriso furtivo e
malicioso, manifestando a imaturidade.
O conflito acontece quando o ludismo natural à c r i a n ç a n ã o
tem p e r m i s s ã o para se manifestar livre e plenamente. A supres-
são da curiosidade sexual da c r i a n ç a e da sua tendência a brincar
com assuntos ligados à p r á t i c a do amor n ã o elimina estas incli-
n a ç õ e s . Podem ser enterradas na consciência ou removidas de
lá, mas permanecem nas camadas s u b t e r r â n e a s da personalidade,
emergindo quando h á oportunidade na forma de p e r v e r s õ e s das As qualidades que cada uma das camadas adiciona à vida
t e n d ê n c i a s naturais. Neste caso, as qualidades infantis n ã o foram lindem ser resumidas na forma que se segue:
integradas à personalidade, tendo permanecido isoladas e encap-
suladas, formando corpos estranhos ao ego. Bebé a» amor e prazer
Criança = criatividade e i m a g i n a ç ã o
Uma pessoa é a soma total das suas e x p e r i ê n c i a s de vida,
cada uma das quais é registrada na sua personalidade e estrutu- Menino ou menina = divertimento e ludismo
rada em seu corpo. Assim como um lenhador pode ler a história Adolescente = romance e aventura
da vida de uma á r v o r e a t r a v é s de um corte transversal no tronco, Adulto = realidade e responsabilidade
mostrando os anéis de crescimento anual, t a m b é m é possível
para o terapeuta da b i o e n e r g é t i c a ler a história da vida de uma Km se falando de qualidades, talvez fosse melhor dizer que
pessoa a t r a v é s de seu corpo. Ambos os estudos requerem o conhe- 0 I i escimento aqui considerado é o desenvolvimento e e x p a n s ã o da
cimento e a e x p e r i ê n c i a , mas baseiam-se nos mesmos princípios. consciência. Cada camada representa, portanto, um novo sentido
de ser e de suas potencialidades, uma nova consciência do ser
Na medida em que o organismo humano v a i crescendo, vai
p da sua r e l a ç ã o com o mundo. A consciência, contudo, n ã o é
adicionando camadas à personalidade, cada uma das quais per-
Uma unidade distinta ou isolada da personalidade. É uma função
manece viva e em funcionamento, na fase adulta. Quando são
do organismo, um aspecto do corpo vivo. Desenvolve-se em rela-
acessíveis ao indivíduo, constituem uma personalidade integrada
< i " à evolução física, emocional e psicológica do corpo. Depende
e livre de conflitos. Se qualquer camada, ou seja, qualquer
da e x p e r i ê n c i a ; a l c a n ç a profundidade a t r a v é s da aquisição de
experiência, for reprimida ou deixar de estar disponível, a per-
habilidades; confirma-se com a constância de atividades.
sonalidade entra em conflito e, portanto, se limita. A figura
a seguir mostra um diagrama e s q u e m á t i c o da f o r m a ç ã o dessas Ao igualar as camadas à s qualidades da consciência, não quero
camadas. h c r que cada nova d i m e n s ã o do ser surja j á inteiramente for-
mada dentro de um certo período de idade. O ludismo vem real-
mente na infância, mas a l c a n ç a o seu total desenvolvimento a p ó s
a passagem dessa fase. Acredito que a real consciência da brin-
cadeira e do divertimento s ã o c a r a c t e r í s t i c o s a meninos e meninas

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mais do que à s c r i a n ç a s mais novas. Uma exposição completa de ' i ' romance e aventura, combinados ao forte prazer do contato
cada camada e suas qualidades t o r n a r á mais significativa a Inl com outras pessoas, à i m a g i n a ç ã o e criatividade mental
e q u a ç ã o proposta: f l M I , i n ç a e aos desafios e divertimentos dos mais jovens. O
O bebé se caracteriza pelo desejo de intimidade e aproxima- IH de adulto é a l c a n ç a d o quando as c o n s e q u ê n c i a s possíveis
ç ã o , principalmente com a m ã e . Quer ser carregado, afagado, i' I H n lato t ê m uma realidade s é r i a , cuja responsabilidade é
bem-vindo e aceito. O amor, como ressaltei em um livro anterior, i lumida pelo indivíduo.
pode ser definido como um desejo de proximidade mais íntima. I i i i i adulto é uma pessoa consciente das possíveis conseqúên-
Quando a necessidade de proximidade é satisfeita, o b e b é e s t á do seu comportamento e que assume a responsabilidade sobre
em estado de prazer. A p r i v a ç ã o desta n e c e s s á r i a proximidade • ii Knlretanto, se o adulto perde o contato com o sentimento de
resulta num estado de dor. IH intimidade que ele conheceu enquanto c r i a n ç a , com a
Qualquer sentimento de amor num adulto a d v é m dessa cama- [inação criativa da infância, com suas brincadeiras e diver-
da de sua personalidade. O sentimento de amor num adulto n ã o timentos e com o espírito de aventura e romance que marcou a
é necessariamente diferente daquele de um b e b é , apesar de que U i M i v c n t u d e , ele s e r á uma pessoa estéril, r í g i d a e i n t r a t á v e l .
possa variar a sua forma de e x p r e s s ã o . O desejo de contato ínti-
1
I H udulto s a u d á v e l é um b e b é , uma c r i a n ç a , um menino ou menina
mo subjaz a todas as formas de sentir amor. O indivíduo em I mu j o v e m . Seu senso de realidade e responsabilidade incluem a
contato com o bebé que ele foi e que ainda faz parte dele, conhece ssidade e o desejo de intimidade e amor, a capacidade de ser
o sentimento de amor, além de estar em contato com o seu cora- i i i i i v n , a liberdade para se divertir e o espírito de aventura.
ção. No momento em que o indivíduo se isola do seu c o r a ç ã o I >i . .1- modo, ele é um ser humano integrado e totalmente consciente.
ou da sua p r i m e i r a infância, j á n ã o pode experimentar o amor em Para compreender o corpo vivo, devemos descartar os con-
sua totalidade. • i iios m e c â n i c o s . Os mecanismos do funcionamento do corpo s ã o
A infância soma à vida uma nova d i m e n s ã o e qualidade. A Importantes, mas n ã o explicam esse funcionamento. U m olho, por
necessidade de uma contínua intimidade d á lugar a nova neces- i mplo, n ã o funciona apenas como uma c â m a r a ; é um ó r g ã o
sidade de explorar o mundo; necessidade esta facilitada pela I n sentidos que percebe e um ó r g ã o de e x p r e s s ã o que reage.
melhor c o o r d e n a ç ã o motora na c r i a n ç a . A t r a v é s da e x p l o r a ç ã o
1
> i m a ç ã o n ã o é apenas uma bomba; é um ó r g ã o que sente o que
iIHii b o m b a n ã o pode sentir. Nós somos seres sensíveis, o que
de pessoas e coisas, de e s p a ç o e tempo, a c r i a n ç a cria o mundo
i o l i c a que temos o poder de sentir ou perceber e de experi-
em sua mente. Dado que ela n ã o e s t á e m b a r a ç a d a pelo senso de
realidade estruturado, sua i m a g i n a ç ã o é livre. Durante essa fase, mentar s e n s a ç õ e s e sentimentos. A p e r c e p ç ã o é u m a função da
a c r i a n ç a t a m b é m cria a nível consciente seu senso de ser, no mente que, por sua vez, é um aspecto do corpo. O corpo vivo
decurso do qual explora imaginativamente a possibilidade de ser possui uma mente, tem um espírito e c o n t é m uma alma. Como
outras pessoas, como a sua m ã e , por exemplo. podemos compreender esses conceitos bioenergeticamente?

Acredito que a infância termine quando o indivíduo j á con-


segue fazer uma imagem coerente do seu mundo pessoal e do seu w, / i í e , espirito e alma
ser. Tendo dado esse passo, o menino ou menina desafia o seu
mundo pessoal com as suas brincadeiras. O crescente domínio Nos dias de hoje é hábito dizer que a dicotomia mente-corpo
das habilidades motoras e os jogos com outras c r i a n ç a s consti- e um produto da i m a g i n a ç ã o humana e que, na realidade, a mente
tuem uma forma de atividade lúdica divertida por ser l i v r e e e o corpo s ã o uma só coisa. Por muito tempo tivemos a ambos
ricamente recompensadora. Existe um grau mais alto de exci- I " i n o entidades isoladas, influenciando uma à outra mas n ã o dire-
t a ç ã o nas brincadeiras dos meninos ou meninas que naquelas das I.Imente relacionadas. Essa atitude ainda n ã o mudou por com-
c r i a n ç a s mais jovens, fato que se soma ao sentimento de alegria pleto. Nosso processo educacional ainda se divide em e d u c a ç ã o
experimentado durante essa fase da vida. Existe ainda um maior física e mental, coisas que nada t ê m em comum. Uns poucos pro-
senso de liberdade derivado de uma i n d e p e n d ê n c i a ainda livre fessores de E d u c a ç ã o F í s i c a acreditam que podem afetar a capa-
de responsabilidades. • H l.ide de aprendizado da c r i a n ç a a t r a v é s de seus programas
A adolescência é marcada por um aumento ainda maior no ginásticos e atléticos, o que, na verdade, raramente conseguem.
nível de possibilidade de e x c i t a ç ã o , relacionado com o interesse Be é certo que a mente e o corpo s ã o uma só coisa, uma verda-
emergente pelo sexo oposto e com a crescente intensidade do d e i r a e d u c a ç ã o física deveria ser, ao mesmo tempo, uma e d u c a ç ã o
desejo sexual. A imagem ideal da a d o l e s c ê n c i a é a de um tempo mental apropriada e vice-versa.

52 53
afastem e percam o contato entre si. Devem mantê-las nessa
Acredito que o problema se deva ao fato de teoricamente
• ão de h i p e r e x t e n s ã o por um minuto, enquanto a r e s p i r a ç ã o
sermos a favor do conceito de unidade, sem o aplicarmos ao nosso
Dorre livremente. Ao f i m de um minuto, as m ã o s e s t a r ã o relaxadas
cotidiano. Achamos que podemos educar a mente de uma c r i a n ç a
I iinuxamente suspensas. Mais uma vez você p o d e r á sentir o tre-
sem dar a t e n ç ã o ao seu corpo. Sob a m e a ç a s de punição ou de
Rior, a carga, o latejar e a v i b r a ç ã o . Se você fizer esse exercício de
fracasso podemos meter à força alguma i n f o r m a ç ã o na sua cabe-
i periência com o corpo, você i r á notar que a a t e n ç ã o está con-
ça. Infelizmente, a i n f o r m a ç ã o não se torna conhecimento, a
< «til rada em suas m ã o s devido ao aumento de carga que acon-
menos que possa ser aplicada relativamente a t r a v é s de expe-
r i ê n c i a . Sempre negligenciamos o fato de ser a experiência um leeeu a í . Suas m ã o s e s t ã o num estado de crescente t e n s ã o ou
fenómeno do corpo, ou seja, só podemos experimentar aquilo que •a que pode ser deslocada, na medida em que s ã o a a t e n ç ã o .
ocorre no ou com o corpo. A e x p e r i ê n c i a t e r á mais ou menos vida, Ne você aproximar vagarosamente suas m ã o s a t é que suas palmas
conforme o corpo tiver maior ou menor vivacidade. Quando fato- cMejam a cerca de cinco a dez c e n t í m e t r o s de distância uma da
res do mundo externo afetam o corpo, o indivíduo tem condição de OUtra, em seu estado de total relaxamento e ainda carregadas, você
senti-los, mas o que sente é o efeito deles no seu corpo. poderá sentir uma carga entre elas dando mesmo a i m p r e s s ã o
de possuir m a t é r i a e corpo.
A falha da técnica psicanalítica é ignorar o corpo na tenta-
tiva de ajudar o paciente a superar seus conflitos emocionais. Des-
de que não forneça qualquer experiência importante ao corpo,
as ideias que emergem no decurso do tratamento s ã o incapazes
de produzir maiores m u d a n ç a s na personalidade. Tenho visto,
frequentemente, pacientes que, a t r a v é s de anos de psicanálise,
conseguiram muitas informações e um pouco de conhecimentos
sobre a sua condição, mas cujos problemas básicos permaneceram
intocados. O conhecimento se torna c o m p r e e n s ã o quando aliado
ao sentimento. Apenas uma profunda c o m p r e e n s ã o , aliada a um
forte sentimento, é capaz de modificar p a d r õ e s estruturados de
comportamento.
E m livros anteriores explorei o problema mente-corpo com
alguma profundidade. Aqui eu gostaria de destacar determinadas
funções mentais que desempenham importantes papéis na bioener-
gética. E m primeiro lugar, a mente tem uma posição de coman-
do sobre o corpo. A t r a v é s da sua mente o indivíduo pode dirigir
sua a t e n ç ã o para diferentes partes do corpo, tornando-as então
mais nítidas. Posso sugerir uma simples e x p e r i ê n c i a . Estique
sua m ã o para o alto e em frente ao seu rosto, mantendo o b r a ç o
relaxado, e ponha nela toda a sua a t e n ç ã o . Focalize-a por cerca
de um minuto, respirando livremente, e p o d e r á sentir nela algo
diferente. D e v e r á sentir um ligeiro tremor na m ã o , que agora
está carregada e latejante. É possível que vibre ou balance um
pouco. Se você chegar a ter tais s e n s a ç õ e s , s a b e r á que t e r á diri-
gido uma corrente de e x c i t a ç ã o ou energia para a sua m ã o .
Nos laboratórios de bioenergética, costumo utilizar uma varia-
ção dessa experiência para torná-la mais intensa.
P e ç o que as pessoas pressionem os dedos esticados de uma
das mãos contra os dedos da outra m ã o , mantendo as palmas e os
punhos o mais afastados possível. E m seguida, mantendo o mesmo
contato, peço que girem as mãos para dentro, de forma que elas
apontem para o peito, girando depois as mãos para fora sem que

54
A mente pode dirigir a a t e n ç ã o do indivíduo tanto para o i">i não poder suportá-la. A s u p r e s s ã o do sentimento diminui o
corpo quanto para os objetos externos. De fato, podemos concen- • .1.1 do de e x c i t a ç ã o do corpo, o mesmo ocorrendo com a capa-
trar nossa energia tanto em nós mesmos quanto no mundo externo. l Idade de c o n c e n t r a ç ã o da mente. Essa é a principal causa de
Uma pessoa s a u d á v e l pode alternar tais pontos de c o n c e n t r a ç ã o perda do poder da mente. Nossas mentes e s t ã o basicamente preo-
fácil e rapidamente, de forma que quase ao mesmo tempo tenha Upadaa com a necessidade de ter controle à s custas de ser e estar
consciência do seu corpo e do mundo que o envolve. Tal pessoa rada vez mais vivo.
pode, assim, ter consciência ao mesmo tempo do que acontece con- A mente e o espírito t a m b é m possuem uma ligação. O mon-
sigo e com as outras pessoas. P o r é m , nem todos t ê m essa capa- tante de espírito de uma pessoa é determinado por seu grau de
cidade. Algumas pessoas tornam-se t ã o conscientes de si p r ó p r i a s vivacidade e v i b r a ç ã o ; ou seja, literalmente, por quanta energia
que desenvolvem uma constrangedora autoconsciência. Outras ela tem. A l i g a ç ã o entre energia e espírito é imediata. Quando
ficam t ã o conscientes do que acontece ao seu redor que perdem i pessoa e s t á excitada e seu nível de energia aumenta, seu espí-
a noção de si. Isso se d á , frequentemente, com indivíduos n i o se eleva. É nesse sentido que dizemos que uma pessoa é
hipersensíveis. <7)
espirituosa, que é um cavalo esperto . Desse modo, eu definiria
Ter consciência do seu corpo é um dos dogmas da bioener- impírito como sendo a força vital do organismo manifestada na
8)
gética, pois essa é a única maneira de descobrir quem você é, luto e x p r e s s ã o do indivíduo* . A qualidade do espírito de uma
isto é, o que é a sua mente. E m r e l a ç ã o a isso, a mente funciona pessoa a caracteriza como indivíduo e quando esta é forte, faz
como ó r g ã o perceptivo e reflexivo, sentindo e definindo o ânimo, I om que se sobressaia dentre os demais.
os sentimentos e os anseios do indivíduo. Conhecer realmente a A força de vida ou espírito de um organismo tem sido sempre
sua mente significa saber o que você quer e o que você sente. associada à r e s p i r a ç ã o . Na Bíblia existe uma a f i r m a ç ã o de que
Se você não possui sentimentos, n ã o h á nada em que concentrar Deus exalou o Seu espírito sobre um monte de argila, dando-lhe
( 6 )
a atenção e, portanto, n ã o h á uma mente. Quando as ações de Ida. E m Teologia, o E s p í r i t o de Deus ou E s p í r i t o Santo é cha-
uma pessoa s ã o influenciadas por outras pessoas e n ã o por seus Riado de pneuma, palavra definida pelo dicionário como "a alma
próprios sentimentos, este indivíduo não possui uma mente p r ó p r i a . Vital ou o e s p í r i t o " . A palavra pneuma vem do grego, que signi-
Quando um indivíduo não consegue tomar decisões, significa i i ca vento, sopro ou espírito, sendo semelhante ao termo grego
que tem consciência de dois sentimentos opostos, de igual força. phein, que significa soprar, respirar. Muitas religiões orientais
E m tais casos, uma decisão torna-se impossível, a menos que d/lo ê n f a s e especial à r e s p i r a ç ã o como forma de comunhão com
um dos sentimentos torne-se mais forte e p r e v a l e ç a . Perder a 0 universo. A r e s p i r a ç ã o desempenha importante papel na bio-
c a b e ç a , como no caso de uma insanidade, é n ã o saber o que se energética, pois apenas a t r a v é s de uma r e s p i r a ç ã o profunda e
e s t á sentindo. Isso acontece quando a mente se v ê subjugada plena é que podemos conseguir energia para uma vida mais espi-
por sentimentos que n ã o pode aceitar ou nos quais não ousa con- 1 Ituosa e espiritual.
centrar a a t e n ç ã o . Nesse caso, o indivíduo elimina ou isola de A alma é um conceito ainda mais difícil de ser trabalhado
seu corpo a p e r c e p ç ã o consciente. P o d e r á tornar-se uma pessoa QUe o de mente ou espírito. Seu significado p r i m á r i o é de " p r i n -
despersonalizada, indisciplinada e sem p r e s e n ç a de espírito. I [pio de vida, sentimento, pensamento e a ç ã o do homem, tida
(9>

Se o indivíduo n ã o e s t á atento ao seu corpo, é porque tem i orno entidade distinta e isolada do c o r p o " . E s t á ligada à vida
medo de perceber ou experimentar os seus sentimentos. Se os após a morte, com c é u e inferno, ideias hoje rejeitadas por pessoas
i o . o s sofisticadas. Na realidade, a p r ó p r i a m e n ç ã o feita a este
sentimentos t ê m um c a r á t e r a m e a ç a d o r , geralmente s ã o suprimi-
dos. Isso se processa a t r a v é s de tensões musculares c r ó n i c a s que i i i m o em um livro como esse, que afirma ter uma validade obje-
não permitem que qualquer fluxo de e x c i t a ç ã o ou movimento i i va, pode afastar algumas pessoas da sua leitura. Tais pessoas
espontâneo se desenvolva nas á r e a s relevantes. As pessoas nor- nfio conseguem conciliar a ideia de uma entidade isolada do corpo
malmente suprimem o medo, pois este tem um efeito entorpecedor; com o conceito de unidade representado pela bioenergética. Nesse
sua fúria, por ser demasiadamente perigosa e seu desespero, por ponto, nem mesmo eu posso a l c a n ç a r t a l conciliação. Felizmente,
ser por demais desencorajador. T a m b é m é comum suprimirem
sua consciência da dor, como a dor de um desejo n ã o satisfeito, / ) No original, spirited person or a spirited house.
K) Vcr Lowen, Depression and the Body, op. cit., para uma exposição mais
iplrlii desse conceito. . .
i
6) No original o autor utiliza a expressão " . . . there is nothing to mind i) lhe Random House Dictionary of the English Language, edição integral,
(pay attention to)... (N. da T . ) . (Nov* Y o r k , 1970).

57
todos v ê e m a alma como estando no corpo a t é a morte. O que Ifive, que se torna a sua comunidade no instante em que ele se
acontece com a alma no instante da morte e depois dela eu n ã o torna seu membro. E assim continua com o aumento da idade.
sei. Mas essa q u e s t ã o n ã o me incomoda desde que o meu inte- Sr não for eliminado, i r á se sentir como pertencente à grande
resse principal e s t á no corpo em vida. ordem natural da Terra. Ambos se pertencem. E m outro nível
O corpo vivo possui alma? Isso depende de como defini- <le pensamento, a pequena comunidade se expande para incluir a
mos o termo " a l m a " . The Random House Dictionary nos fornece nação e depois o mundo humano. Mais além, estão as estrelas
um quarto significado da palavra: "a parte emocional da natu- e o universo. Os olhos das pessoas mais velhas t ê m à s vezes
reza humana; sítio dos sentimentos ou e m o ç õ e s " . Seus sinónimos uma a p a r ê n c i a distante, como se a sua visão estivesse focalizada
são espírito e c o r a ç ã o . Isso n ã o ajuda muito, pois p o d e r í a m o s nos céus. É como se, ao final da vida, a alma entrasse em
simplesmente dispensar tal termo. Mas ele tem um significado OOntato com o lugar do descanso eterno.
inteiramente diferente para m i m , que me auxilia na c o m p r e e n s ã o No diagrama seguinte é demonstrada a e x p a n s ã o dos relacio-
do ser humano. n.imentos de uma pessoa a t r a v é s de um conjunto de círculos
Vejo a alma como um senso ou sentimento pessoal de fazer I oncéntricos. Esse diagrama é semelhante ao da s e ç ã o anterior,
parte de uma ordem mais ampla ou universal. Esse sentimento que ilustra dentro de um outro contexto, os níveis de desenvol-
deve advir da e x p e r i ê n c i a real de fazer parte ou estar em con- vimento da consciência do indivíduo. Na medida em que a cons-
tato com o universo de alguma forma v i t a l ou espiritual. Utilizo l lência se expande, v a i incorporando um maior n ú m e r o de ele-
o termo "espiritual" n ã o na sua conotação mental ou abstrata, mentos do mundo externo à psique e à personalidade do indi-
mas no sentido do espírito, pneuma ou energia. Acredito que a v [duo. Tanto e n e r g é t i c a quanto fisicamente, o organismo r e c é m -
energia do nosso corpo e s t á em contato e interage com a energia nascido é como uma flor que vagarosamente desabrocha e se
do mundo e universo que nos envolve. Nós n ã o somos um fenó- abre para o mundo. Nesse sentido, a alma está presente ao
meno isolado. Entretanto, nem todos sentem essa c o n e x ã o ou nascimento, mas de forma incoativa. Por ser um aspecto do orga-
contato. Minha i m p r e s s ã o sobre as pessoas é a de que um indivíduo nismo, a alma t a m b é m é submetida ao processo natural de cres-
isolado, alienado e fora de contato vive como se n ã o tivesse cimento e m a t u r a ç ã o , no final do qual torna-se totalmente iden-
alma, de forma diferente daqueles indivíduos que se sentem parte
iifiçada com o cosmos e perde a sua qualidade individualista,
de algo maior que eles próprios.
rodemos conceber a possibilidade de que, no instante da morte,
Nós nascemos conectados, apesar de que a mais evidente a energia l i v r e do organismo deixa o corpo para se fundir com
conexão, que é o c o r d ã o umbilical, seja desfeita no ato do nasci- a energia cósmica ou universal. Dizemos que a alma deixa o corpo
mento. Enquanto esse cordão funcionou, o b e b é era, em certo na hora da morte.
sentido, parte de sua m ã e e, apesar de que desde o nascimento A vida chega ao mundo como ser (estar e m ) 1 1 0 1
, apesar de
venha sendo conduzido para ter uma existência totalmente inde- que ser n ã o d á o sentido exato de r e a l i z a ç ã o . Isso ficou claro
pendente, ainda e s t á ligado a ela emocional e energeticamente. para m i m quando um de meus pacientes disse-me: "Ser n ã o é o
Reage à sua e x c i t a ç ã o e é afetado pelo seu ânimo. N ã o tenho 1
suficiente; eu quero pertencer (ser no tempo)* " e n ã o sinto isso".
dúvidas de que o b e b é sente essa ligação e sabe que pertence
A e x t e n s ã o do ser/estar dentro do mundo a t r a v é s de identifica-
à m ã e . Ele tem uma alma, e seu olhar tem, naquela a p a r ê n c i a ,
ções e relacionamentos faz surgir o senso de pertinência, o ser
profunda c a r a c t e r í s t i c a dos seres que t ê m alma. (l2)
adequado a esta e x t e n s ã o ou fazer parte . Sentir desejo de
O crescimento significa e x p a n s ã o em diversos níveis. Novas algo, anelar por uma coisa, um dos mais importante sentimentos
conexões s ã o formadas e experimentadas. A p r i m e i r a é em rela- do organismo, reflete a necessidade de contato com o meio
ç ã o a outros membros da família. Uma vez feita t a l conexão, ambiente e com o mundo. Ao pertencer, a alma ultrapassa os
ocorre um i n t e r c â m b i o de energia entre o b e b é e cada membro
estreitos limites de si mesma, sem perder o sentido de seu indi-
da família, além do i n t e r c â m b i o com a família como um todo.
vidualismo ou de ser, que é exatamente o sentido da nossa exis-
As pessoas tornam-se parte do seu mundo t a l como o b e b é tor-
téncia individual.
na-se parte do mundo da família.
À medida em que cresce a consciência e aumenta o contato,
a pessoa desenvolve ainda maiores círculos de relacionamento. 10) N o original, "Life comes into the world as being = be-ing.. ." ( N . da T . ) .
Nesses se incluem o mundo das plantas e animais no qual é intro- 11) N o original, " . . .1 w a n t t o belong (be-long), and. . . " ( N . da T . ) .
duzido e com o qual se identifica. H á t a m b é m a comunidade onde 12) N o original, " . . . B e i n g longs for this extension, to belong". ( N . da T . ) .

58 59
Esse problema n ã o é de minha exclusividade, evidentemente. A
maioria das pessoas que vive dentro de culturas civilizadas sofre
da mesma dicotomia. E a maior parte das culturas teve que
ESTRELAS E COSMOS i|)iimorar formas de manter a vida do corpo vibrante e fluente
perante as exigências c o n t r a d i t ó r i a s da vida intelectual. Nas
culturas ocidentais, um dos principais caminhos para mobilizar e
desafiar conscientemente o corpo tem sido os esportes. Os gre-
gOS, que estiveram entre os primeiros a reconhecer a importân-
cia da vida do corpo, davam uma a t e n ç ã o especial aos exercícios
i Isicos.
A necessidade de atividades especiais para engajar e mobi-
lizar o corpo aumenta em p r o p o r ç ã o direta ao afastamento (ou
total falta de contato) da cultura com a natureza e a vida do
corpo. Desse modo, atualmente podemos presenciar um inte-
i e s s e cada vez maior pelos esportes, junto a uma c o m p r e e n s ã o
sempre crescente da i m p o r t â n c i a de exercícios programados e
regulares para a s a ú d e física. Vários sistemas de exercícios
obtiveram grande popularidade na d é c a d a passada, entre eles,
os da Real F o r ç a A é r e a Canadense e os exercícios aeróbicos, cujo
movimento básico é a corrida controlada, com r e s p i r a ç ã o ritmada.
Infelizmente, a atitude dos americanos em r e l a ç ã o ao corpo é
francamente tecida pelas considerações do ego. O resultado
dessa posição é que, para a maioria das pessoas, o prazer e a
s a t i s f a ç ã o corporal que v ê m dos esportes estão em plano secun-
dário à s a t i s f a ç ã o do ego de vencer as competições. A preocupa-
ção de vencer traz à atividade um grau de tensão que nega dire-
tamente o seu valor no sentido de estimular e liberar o corpo.
Todos conhecemos a s i t u a ç ã o do jogador de golfe que v ê sua
m a n h ã arruinada por uma m á tacada. Nossos programas de exer-
cícios s ã o guiados pelo ego que sempre busca o sucesso e luta
UNIVERSO por n ã o ficar para t r á s . Participamos deles para melhorar nossa
a p a r ê n c i a , para a p e r f e i ç o a r nossa imagem de s a ú d e ou para
desenvolver nossos músculos. Nosso ideal de corpo tem as qua-
lidades de um cavalo de r a ç a : liso, macio, boa condição física,
disposição e aptidão para vencer.
A vida do corpo: exercícios bioenergéticos
A vida do corpo é sentimento: sentir-se vivo, vibrante, bem,
No primeiro capítulo mencionei que antes de conhecer Reich excitado, furioso, triste, alegre e, finalmente, contente. É a falta
havia trabalhado com esportes e calistenia. A vida do corpo de sentimentos ou a confusão acerca deles que traz as pessoas à
sempre exerceu uma a t r a ç ã o especial sobre m i m , o que normal- terapia. Percebi que os atletas, bailarinos e os viciados em
mente ter-me-ia conduzido a uma existência ao ar livre. Mas esportes sofrem dessa mesma c a r ê n c i a ou confusão tanto quanto
estava igualmente envolvido com a vida da mente, de modo que qualquer outra pessoa, tal como aconteceu comigo, a despeito de
n ã o conseguia entregar-me totalmente a um ou outro aspecto da meu envolvimento com os esportes e a calistenia. A t r a v é s da
minha personalidade. Sentia-me dividido entre essas necessidades
terapia f u i capaz de a l c a n ç a r e desvendar meus sentimentos,
conflitantes, tentando encontrar uma solução adequada p a i a
minha vida. retomando, assim, parte da vida de meu corpo. Tanto a terapia
reichiana quanto a bioenergética visam esse objetivo.
60
61
Apesar de tudo, permaneceu um problema: como manter a Mais recentemente, tornaram-se populares neste país outras
vida do corpo fluente e vibrante depois de finda a terapia? Nossa • h .uplinas orientais do corpo. A mais importante delas é a que
cultura, que tem como um de seus aspectos a n e g a ç ã o da vida, preende os exercícios de t'ai chi ch'uan utilizados pelos chine-
não fornece nenhuma ajuda a esse respeito. Essa foi uma q u e s t ã o s e s . Tanto a ioga quanto o t'ai chi enfatizam a i m p o r t â n c i a de
que Reich nunca examinou. Ele acreditava que uma pessoa i ni ii- o corpo, de a l c a n ç a r a c o o r d e n a ç ã o , a g r a ç a e o senti-
pudesse obter satisfação apenas por externar as suas energias. iiii•nlo espiritual a t r a v é s de uma identificação com o corpo.
Sua filosofia se expressava no ditado: "Amor, trabalho e conhe- i te sentido, contrastam frontalmente com os programas de
cimento s ã o a fonte da vida. Deveriam t a m b é m g o v e r n á - l a " . , i n í c i o s ocidentais que almejam o poder e o controle.
Essa a f i r m a ç ã o coloca que a atividade sexual apenas seria o Como podemos situar os exercícios bioenergéticos dentro
caminho para a m a n i f e s t a ç ã o da vida do corpo, linha esta de desse panorama? Representam uma i n t e g r a ç ã o das atitudes oci-
pensamento demasiadamente limitada e restrita. dentais e orientais. Como as disciplinas orientais, abstêm-se do
Minha solução pessoal foi utilizar os exercícios bioenergéticos, p u d e r e do controle em favor da g r a ç a e da c o o r d e n a ç ã o , além
desenvolvidos inicialmente para promover a terapia, como rotina da espiritualidade do corpo. Mas t a m b é m procuram promover a
regular em casa. Faço-os h á cerca de vinte anos. Eles n ã o só .11 Mo e x p r e s s ã o e a sexualidade. Consequentemente, servem para
me permitem estar em contato com o meu corpo e manter a sua explorar a vida interna do corpo tanto quanto para auxiliar na
vida, como t a m b é m a p e r f e i ç o a m o crescimento instituído pela niipliação da vida no mundo. T ê m como único propósito ajudar as
terapia. Percebi que s ã o t ã o úteis que encorajei meus pacientes pessoas a manter contato com as tensões que inibem a vida do cor-
a praticá-los em casa como suplemento à terapia. Sua validade po. A s e m e l h a n ç a das p r á t i c a s orientais, contudo, funcionarão se se
tem sido confirmada por todos que os praticam. Agora estabele- i n i n a r e m uma disciplina, isentas da p r á t i c a m e c â n i c a e compul-
cemos aulas regulares de exercícios bioenergéticos para pacien- liva, dotadas de sentimento de prazer e senso de sua significação.
tes ou quaisquer outras pessoas que tenham algum tipo de com- Não posso apresentar aqui o r e p e r t ó r i o completo dos exer-
promisso com a vida do corpo. Dado que esse compromisso é Oicios utilizados na bioenergética, mas espero poder concretizar
vitalício, supomos que o indivíduo i r á comprometer-se igualmente esse plano num outro livro. Devo acrescentar que estes n ã o s ã o
com os exercícios. lui malizados e que podem ser improvisados de modo a se ajus-
A decepção perante a atitude antivida da cultura ocidental tarem à necessidade e à situação do indivíduo. Descreverei um
levou muitas pessoas a se interessarem pela religião, filosofia e i m mero suficiente dos mesmos para demonstrar os dogmas bási-
disciplinas orientais. Muitas dessas pessoas reconhecem a impor- • 08 e seus objetivos. U m dos exercícios fundamentais foi por m i m
t â n c i a essencial de algum tipo de programa de exercícios físicos desenvolvido logo no início, como auxílio para uma maior entrega
para o desenvolvimento espiritual. O interesse muito difundido das pernas e p é s , e para sentir-me mais firmemente apoiado no
pela ioga é uma d e m o n s t r a ç ã o d r a m á t i c a desse ponto. Estive i Ii.io. É chamado de arco ou curvatura e é t a m b é m tido como
fazendo ioga antes do meu encontro com Reich, mas n ã o me
posição fundamental de t e n s ã o .
sentia muito a t r a í d o com essa minha mentalidade ocidental.
A t r a v é s do trabalho com este cientista, contudo, fui-me conscien- A linha sobreposta à figura indica o arco ou curvatura cor-
tizando de algumas s e m e l h a n ç a s existentes entre a p r á t i c a da roía do corpo. O ponto médio dos ombros está posicionado dire-
ioga e a terapia reichiana. E m ambos os sistemas, a ê n f a s e i a mente acima do ponto médio dos p é s , e. a linha que une esses
principal recai na r e s p i r a ç ã o . A diferença entre as duas escolas pontos é um arco quase perfeito que passa a t r a v é s do ponto
de pensamento está nas suas direções; na ioga, a direção é para central da a r t i c u l a ç ã o do quadril.
dentro, visando o desenvolvimento espiritual; a terapia reichiana
Quando um corpo está nesta posição, suas partes estão em
dirige-se para fora, objetivando a criatividade e o prazer. N ã o
perfeito equilíbrio. Dinamicamente, a curvatura (arco) está for-
h á dúvida de que seja n e c e s s á r i a uma r e c o n c i l i a ç ã o dessas duas
correntes e a minha e s p e r a n ç a é que a b i o e n e r g é t i c a possa pro- mada e pronta para agir. Energeticamente, o corpo e s t á car-
movê-la. Muitos dos mais notáveis professores de ioga deste regado da c a b e ç a aos p é s . Isso significa que existe um fluxo
p a í s t ê m demonstrado pessoalmente sua a d m i r a ç ã o pela com- de e x c i t a ç ã o a t r a v é s do corpo. Pode-se sentir os p é s no chão e a
p r e e n s ã o do corpo promovida pela bioenergética, c o m p r e e n s ã o cabeça no ar, ao mesmo tempo em que h á a p e r c e p ç ã o de uma
esta que os tem capacitado a adaptar as técnicas da ioga à s total i n t e g r a ç ã o e conexão. Por ser uma posição de t e n s ã o ener-
necessidades ocidentais. geticamente carregada, as pernas c o m e ç a r ã o a vibrar.

62 63
Utilizamos esta posição para fazer com que as pessoas sin-
tam-se integradas e conectadas, seus p é s firmemente plantados
e sua c a b e ç a levantada. Mas usamo-la t a m b é m diagnostica-
mente, pois que revela, de imediato, a falta de i n t e g r a ç ã o do corpo,
indicando com p r e c i s ã o o local e a natureza das principais tensões
musculares. Descreverei a seguir como estas tensões podem afetar
o arco. Este é o desenho da fotografia que mostra chineses praticando
a chamada "Curvatura taoísta". Diz a legenda: "Três residentes
Temos utilizado esta posição e este exercício em nossos tra-
balhos h á mais de dezoito anos. Imaginem a minha surpresa de Xangai praticam a calistenia chinesa do t'ai chi ch'uan. O
quando um paciente mostrou-me uma foto da AP (Associated exercício tem origem na filosofia taoísta e busca alcançar a
Press), de chineses praticando exatamente o mesmo exercício harmonia com o universo através de uma combinação de movi-
(foi publicada a 4 de m a r ç o de 1972). mentos do corpo com a técnica da respiração".

65
64
A legenda e o c o m e n t á r i o é o que h á de mais importante.
O caminho do too é a t r a v é s da harmonia, tanto dentro do ser i > oposição de que n ã o possuíam maiores distúrbios corporais
quanto com o meio ambiente e o universo. A harmonia com o •. impedissem de praticar os exercícios corretamente. J á os
mundo externo depende, na realidade, da harmonia com o meio Ir hl, b s não podem pressupor algo semelhante e h á margem
interno, que pode ser a l c a n ç a d a a t r a v é s da " c o m b i n a ç ã o dos movi- i n i i l i é m para questionar se tal pressuposto se aplicaria aos chi-
mentos do corpo com a t é c n i c a da r e s p i r a ç ã o " . A bioenergética • . de hoje em dia.
busca a mesma harmonia a t r a v é s dos mesmos meios. Muitos de 11ni problema que venho comumente encontrando nas pessoas
nossos pacientes utilizaram os vários exercícios de t'ai chi con- • uma rigidez que domina todo o corpo e que não as deixa cur-
comitantemente à bioenergética. Os chineses, entretanto, p a r t i r a m ii se. A linha que liga o ponto médio dos ombros ao ponto médio
' I n ' , pés é uma linha reta (ver i l u s t r a ç ã o à p á g i n a 66). Existe
i notória inflexibilidade das pernas, o indivíduo é incapaz de
H. In- completamente o tornozelo. Uma tensão na r e g i ã o inferior
i l i . costas impede a sua curvatura e a pelve fica ligeiramente
retraída.
A condição oposta é a hiperflexibilidade das costas que se
inclinam em demasia, indicando uma fraqueza nos músculos das
costas. Relacione este fato com a falta do sentimento de fir-
meza e d e t e r m i n a ç ã o . Enquanto o corpo e a personalidade rígi-
dos s ã o excessivamente inflexíveis, esse tipo de corpo e persona-
lidade s ã o por demais m a l e á v e i s . E m ambos os casos, a cur-
vatura é feita de maneira i m p r ó p r i a , de modo que n ã o existe
qualquer senso de i n t e g r a ç ã o ou fluxo e nenhuma harmonia
Interna ou externa. A linha do arco se inclina para o ponto de
ruptura. A r e g i ã o inferior das costas não funciona como suporte
para o corpo; essa função é assumida pelos músculos abdominais
que se contraem muito (vide figura abaixo).

67
C m U m 6 U m a r u p t u r a n a
SP n í a ° ""ha do arco que Nessa condição, se a pessoa empurra sua pelve para a
se deve a uma severa retração da pelve. Esse exemolo cnn fronte, seus joelhos tornam à posição vertical. Pode-se dobrar
trasta com a condição anterior na qual a pelve H S i d a à loclhos apenas se as n á d e g a s forem jogadas para t r á s . Existe
2 . d
-C m a S Í
P° a
visto Z «gur^
E S S e d i s t ú r b i 0 d e
" u m a marcante t e n s ã o na r e g i ã o inferior das costas, assim
pomo ao longo da parte posterior das pernas.
c,uando vemos o corpo de frente, à s vezes é possível notar
iir.iimas rupturas nos segmentos do corpo. As principais partes,
u ieja, a c a b e ç a , o pescoço, o tronco e as pernas simplesmente
11,111 c alinham. A c a b e ç a e o pescoço fazem um ângulo anormal
pura a direita ou para a esquerda, o tronco inclina-se na d i r e ç ã o
aposta e as pernas acabam por i r em sentido c o n t r á r i o ao do
tronco. Esbocei esta posição no desenho abaixo, por meio da linha
que mostra as a n g u l a ç õ e s .

68
I.IIIKI.H exercícios bioenergéticos, alguns dos quais s e r ã o descritos
Essas angulações revelam que o corpo n ã o flui simultanea-
IH capítulos subsequentes deste livro.
mente. Representam uma f r a g m e n t a ç ã o da integridade da per-
Náo hesito nem vacilo quando digo que uma pessoa que pra-
sonalidade, típica do esquizoide ou do esquizofrénico. O termo
onetamente a curvatura está em harmonia com o universo;
esquizoide significa ruptura, cisão. Se a cisão incide na perso-
i i.11..i•. vi alguém com um sério problema emocional que fosse
nalidade, deve existir t a m b é m a nível corporal, energético. A
• upa/, de executá-la corretamente. N ã o é uma q u e s t ã o de p r á t i c a ,
pessoa é seu corpo.
i ' tal posição n ã o pode ser aprendida. N ã o é uma posição está-
H á alguns anos a t r á s , meus colegas e eu fomos convidados i " i . pois nela a pessoa deve respirar profunda e plenamente.
a fazer uma palestra e uma d e m o n s t r a ç ã o da bioenergética para i se ser capaz de manter o funcionamento e a integridade do
um grupo de médicos e estudantes do National Institute of Mental noruo sob p r e s s ã o . A p r á t i c a regular do exercício, entretanto,
Health (Instituto Nacional de Saúde Mental). E m minha palestra, n Inda bastante no sentido de manter a pessoa em contato com
discuti a r e l a ç ã o íntima existente entre o corpo e a personalidade. I u corpo, de fazê-la sentir seus distúrbios, compreendendo-lhes o
Após as palestras, fomos solicitados a demonstrar nossa capa- >r1111 irado. Além disso, ajuda-a a manter a s e n s a ç ã o de har-
cidade de fazer um diagnóstico psiquiátrico do corpo, sem conhe- itia com o universo, uma vez que realmente a tenha a l c a n ç a d o .
cer coisa alguma a respeito do indivíduo. Fomos apresentados
i r . ,«• é um grande desafio numa cultura tecnológica.
sucessivamente a v á r i a s pessoas que estavam sendo estudadas
pelo grupo de N I M H . Pedi a cada uma delas que assumisse a
posição de t e n s ã o fundamental descrita acima, para que pudesse
avaliar a forma de alinhamento do seu corpo. Após ter observado
o corpo por um breve período de tempo, meus companheiros e eu
fomos colocados em salas separadas, e chamados um por vez,
para fornecer o diagnóstico, de modo que não podíamos nos
consultar.
Todos nós fizemos o mesmo diagnóstico o que, por sua vez,
coincidiu com os dados dos grupos do N I M H . E m dois dos pacien-
tes, a ruptura das linhas do corpo era t ã o clara que a diagnose
de personalidade esquizoide fora uma q u e s t ã o simples. No ter-
ceiro caso, uma rigidez excessiva fora a qualidade predominante.
U m dos indivíduos esquizoides tinha uma condição estranha: os
olhos eram de cores diferentes. Quando ressaltei esse fato,
fiquei surpreso ao ver que nenhuma das pessoas da sala o havia
notado. Como tantos outros psicólogos e psiquiatras, haviam
sido treinados para ouvir e n ã o para ver. Estavam interessados
na mente e na história do paciente, n ã o no seu corpo e na sua
e x p r e s s ã o . Ainda n ã o haviam aprendido a ler a linguagem do
corpo.
Os distúrbios do corpo, t a l qual foram esboçados acima, for-
mam a base dos sintomas que fazem com que o indivíduo busque
a terapia. O indivíduo rígido s e r á inflexível e fechado em situa-
ções que pedem brandura e generosidade. Ao indivíduo cujas
costas s ã o excessivamente moles f a l t a r á a agressividade neces-
s á r i a a certas situações. Todos os pacientes sentem uma falta de
harmonia consigo mesmos e com o mundo. Nestes casos, a p r á t i c a
do exercício da curvatura n ã o i r á restaurar t a l harmonia, dado
que n ã o podem praticá-lo corretamente, mas i r á ajudar a fazer
com que sintam as tensões do corpo que n ã o permitem uma exe-
cução correta. Tais tensões podem ser relaxadas a t r a v é s de
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70
lijn r a ç ã o de motores a vapor. Estas e x p r e s s õ e s fazem parte da
Ii .ida linguagem da m á q u i n a . N ã o sabemos quantas dessas
pressões tornaram-se parte da nossa forma de m a n i f e s t a ç ã o
| portanto, de pensamento. Podemos antecipar que nosso a v a n ç o
tecnológico i r á introduzir no nosso v o c a b u l á r i o muitos termos
iuivos que e s t ã o longe da linguagem do corpo.
Todas as m á q u i n a s s ã o , num certo sentido, extensões do
Corpo humano e funcionam segundo princípios que o governam,
i a é fácil de ser comprovado se tomarmos como exemplo fer-
I I I . A Linguagem do Corpo • Imentas tais como o forcado, que é uma e x t e n s ã o das m ã o s e
dedos; a p á , uma grande m ã o abaulada, a marreta, prolonga-
mento do punho. Mas as m á q u i n a s mais complicadas possuem
• i relação com o corpo; o telescópio é um prolongamento do olho
I o o como o computador o é do c é r e b r o . Contudo, sempre menos-
prezamos esse fato, e tendemos a pensar no corpo como ope-
O coração da vida: o cerne da questão i n u l o dentro dos princípios das m á q u i n a s e n ã o ao c o n t r á r i o ,
l i i nl ilicamo-nos com as m á q u i n a s que, em seu limitado funcio-
namento, s ã o instrumentos mais poderosos que o corpo. Termi-
A linguagem corporal possui duas partes: uma lida com os
namos por ver o corpo como uma m á q u i n a e e n t ã o perdemos o
sinais e e x p r e s s õ e s do corpo que transmitem informações sobre
I • mi,ilo com seus aspectos vitais e sensitivos.
o indivíduo e a segunda lida com as e x p r e s s õ e s verbais que, por
seu significado, se referem à s funções corporais. Neste capítulo, A bioenergética n ã o vê o corpo como uma m á q u i n a , nem
abordarei ambas as partes da chamada linguagem do corpo, a nu m o como a mais complexa e bela das m á q u i n a s jamais criada.
c o m e ç a r pela segunda. Por exemplo, a e x p r e s s ã o "apoiar-se em i 11 idade que podemos comparar certos aspectos do funcionamen-
seus p r ó p r i o s p é s " faz parte da linguagem do corpo. Significa i " do corpo com os de uma m á q u i n a . O c o r a ç ã o , por exemplo,
ser independente, e a d v é m da nossa e x p e r i ê n c i a comum. Quan- p o d e ser visto como uma bomba; isolado do corpo, o c o r a ç ã o é
do b e b é s e em estado de d e p e n d ê n c i a , somos carregados e levados n u i i homba ou, em outras palavras, se o c o r a ç ã o n ã o estivesse
ao colo. Quando crescemos, aprendemos a ser independentes e • n \ olvido na vida total do corpo, seria apenas uma m á q u i n a . Mas
a nos apoiar em nossos p r ó p r i o s p é s . Muitas dessas e x p r e s s õ e s ' l ' e s t á envolvido e isso é o que faz com que ele seja um c o r a ç ã o
fazem parte da nossa linguagem cotidiana. Podemos chamar uma e não uma bomba. A diferença entre uma m á q u i n a e o cora-
pessoa de " c a b e ç a - d u r a " , querendo dizer inflexível, "mão-fe- ção é que a p r i m e i r a possui uma função limitada. Uma bomba
chada", significando mesquinha, ou "boca-estreita", no sentido i>"inl>eia e nada mais. O c o r a ç ã o t a m b é m bombeia e, nessa ope-
de inexpressividade. Para expressar nossas atitudes psicológi- r a ç ã o , funciona como uma m á q u i n a . Mas o c o r a ç ã o é t a m b é m
cas, usamos termos como "carregar nossas responsabilidades ao Uma parte integral do corpo e, nesse aspecto de seu funciona-
ombro", "manter a c a b e ç a erguida", "manter-se f i r m e " . m e n t o , faz mais do que bombear sangue: faz parte e contribui
para a vida do corpo. A linguagem do corpo reconhece essa dife-
Sandor Rado sugeriu que a linguagem tem origem na sensa-
r e n ç a e é por este motivo que é t ã o importante.
ç ã o proprioceptiva, isto é, que a base de todas as linguagens é
a linguagem do corpo. Creio que essa p r o p o s i ç ã o f a ç a sentido, A riqueza de e x p r e s s ã o que envolve a palavra c o r a ç ã o demons-
j á que a c o m u n i c a ç ã o é, antes de mais nada, uma troca de expe- ii i o q u ã o importantes s ã o para as pessoas os seus aspectos extra-
r i ê n c i a s , que por sua vez s ã o r e a ç õ e s do corpo a situações e even- oieeànicos. Aqui apresento alguns deles. Na e x p r e s s ã o " i r ao
tos. N u m mundo onde h á outros modelos importantes de referên- Coração da q u e s t ã o " , igualamos o c o r a ç ã o com o conceito de
cia, entretanto, a linguagem i r á incorporar termos desses siste- e s s ê n c i a . T a m b é m na e x p r e s s ã o " v o c ê tocou o fundo do meu
mas. Por exemplo, a e x p r e s s ã o "mover-se em alta velocidade" c o r a ç ã o " , o termo tem uma conotação de centro ou núcleo, pois,
é oriunda da nossa e x p e r i ê n c i a com m á q u i n a s automotivas e tem para nós significa o aspecto mais central e profundo de um indi-
significado apenas para pessoas familiarizadas com tais sistemas. \ n l i i o . "De todo o c o r a ç ã o " indica compromisso total, dado que
Um outro exemplo é a e x p r e s s ã o "a todo vapor", que se refere à envolve o que h á de mais profundo numa pessoa.

72 73
Todos sabem que o sentimento de amor e s t á associado ao i. no depende de estar aberto ou fechado o canal de c o m u n i c a ç ã o
c o r a ç ã o . "Perder o c o r a ç ã o " ou "perdido de amor" significa estar entre a boca e o c o r a ç ã o . Uma garganta fechada e um pescoço
apaixonado; " a b r i r o c o r a ç ã o " é o mesmo que acolher o amor de contraído podem realmente bloquear a passagem de qualquer
outra pessoa e "em busca de um c o r a ç ã o " denota a procura sentimento. E m tais casos, o c o r a ç ã o está relativamente isolado,
de um amor. O termo é bastante usado t a m b é m simbolicamente. encerrado.
Mas o c o r a ç ã o não se associa apenas ao sentimento; de acordo O segundo canal de c o m u n i c a ç ã o do c o r a ç ã o s ã o os b r a ç o s e
com nossa linguagem, é um órgão dos sentidos. Quando dize- ns mãos, na medida em que esses membros buscam o contato.
mos "meu c o r a ç ã o encolheu dentro do peito", transmitimos a sen- Nesse caso, a imagem do amor é o toque doce, suave e acariciante
s a ç ã o proprioceptiva que o interlocutor t a m b é m pode sentir em das mãos da m ã e . Aqui t a m b é m , para que a a ç ã o se constitua
si mesmo, significado de extrema ansiedade e desapontamento. n d mente numa e x p r e s s ã o de amor e sentimento, d e v e r á ter ori-
O c o r a ç ã o se dilata com a alegria e essa n ã o é apenas uma afir- gem no c o r a ç ã o e fluir para as m ã o s . Na realidade, mãos que con-
m a ç ã o figurativa, mas sim literal. Se esse é o caso, a e x p r e s s ã o duzem amor s ã o altamente carregadas de energia. Trazem um
" v o c ê partiu meu c o r a ç ã o " denota um trauma físico real? Tendo I c r i o poder de cura no seu toque. O fluxo de sentimento ou ener-
mais a acreditar que sim e penso que os c o r a ç õ e s partidos repa- i i . i para as mãos pode ser bloqueado por tensões na r e g i ã o dos
ram-se sozinhos. A palavra " p a r t i r " n ã o significa necessaria- o m b r o s ou por espasticidades dos músculos das m ã o s . As tensões
mente " p a r t i r em dois ou mais p e d a ç o s " ; poderia significar uma ombros desenvolvem-se quando existe o modo de se entregar
quebra no sentido da conexão existente entre o c o r a ç ã o e a peri- Hi de se l a n ç a r à vida. As tensões nos pequenos músculos das
feria do corpo. 0 sentimento de amor deixa de fluir livremente
Rllos resultam da r e p r e s s ã o de impulsos para pegar ou agarrar,
do c o r a ç ã o para o mundo.
rusgar ou ferir. Acredito que tais tensões sejam r e s p o n s á v e i s
A bioenergética e s t á interessada pela forma como o indivíduo pela artrite r e u m á t i c a das m ã o s . E m alguns casos, percebi que
conduz o sentimento de amor. A pessoa tem um c o r a ç ã o aberto a p r á t i c a do exercício descrito no primeiro capítulo (quando as
ou fechado? Sua atitude pode ser determinada a partir da o i i o s se pressionam em posição de h i p e r e x t e n s ã o ) ajudou algu-
e x p r e s s ã o do seu corpo, mas para que possamos fazer essa deter- m a s pessoas a superarem ataques de artrite r e u m á t i c a .
m i n a ç ã o é preciso compreender a linguagem do corpo. Um terceiro canal de comunicação do c o r a ç ã o com o mundo é
O c o r a ç ã o e s t á encerrado numa caixa óssea, a caixa torá 0 que desce da cintura e pelve para os ó r g ã o s genitais. O sexo
cica, a qual pode ser rígida ou maleável, imóvel ou flexível. Sua e um ato de amor, mas se é exclusivamente uma exibição ou se
qualidade pode ser avaliada pelo toque, pela p a l p a ç ã o , pois pode- c uma e x p r e s s ã o de sentimento sincera, mais uma vez, é a ques-
mos notar que os músculos s ã o rijos e que a parede do t ó r a x não lAo de o c o r a ç ã o estar envolvido ou n ã o . Quando o sentimento
cede à p r e s s ã o nele aplicada. A mobilidade do t ó r a x pode ser de amor pelo companheiro é forte, a experiência sexual possui
vista na r e s p i r a ç ã o . Num grande n ú m e r o de pessoas, a parede Uma intensidade e a l c a n ç a um nível de e x c i t a ç ã o que faz do
do t ó r a x n ã o se movimenta com a r e s p i r a ç ã o . Podemos notar que, 1 i i m a x ou orgasmo um momento de real ê x t a s e . Ressaltei ante-
15
em tais pessoas, os movimentos r e s p i r a t ó r i o s s ã o principalmente i iminente* que o orgasmo total e satisfatório só é possível quando
d i a f r a g m á t i c o s , com leve p a r t i c i p a ç ã o do abdome. O t ó r a x está 0 indivíduo está totalmente entregue. Nesse caso, podemos real-
repleto de ar e m a n t é m - s e na posição i n s p i r a t ó r i a . E m alguns mente sentir o c o r a ç ã o pular (pular de alegria) no momento do
indivíduos, o esterno forma uma p r o t u b e r â n c i a como que para 1 I m i a x . Mas t a m b é m esse canal pode ser cortado ou fechado a
manter as outras pessoas longe do seu c o r a ç ã o . Salientar o tórax \.uios níveis por tensões na metade inferior do corpo.
é uma forma de desafio. Se você o faz deliberadamente, poderá Sexo sem sentimento é como fazer uma r e f e i ç ã o sem apetite.
senti-lo dizer " n ã o vou deixar que você se aproxime de m i m " . • »b\ iamente, a maioria das pessoas tem algum tipo de sentimento;
O canal de c o m u n i c a ç ã o p r i m á r i o para o c o r a ç ã o é através n q u e s t ã o é quanto sentimento existe e qual a qualidade de aber-
da boca e da garganta. É o primeiro canal do b e b é , j á que com t u r a do canal de c o m u n i c a ç ã o . U m dos distúrbios mais comuns
os lábios e a boca chega ao seio da m ã e . Entretanto, não o faz In ser humano é a dissociação das metades superior e inferior
somente com os lábios e boca, mas t a m b é m com o c o r a ç ã o . Temo do corpo. Às vezes a t é parece que as duas metades n ã o per-
consciência, pelo beijo, de que este movimento é uma e x p r e s s ã o tencem à mesma pessoa. E m algumas, a metade superior é bem
de amor. Mas um beijo pode ser u m gesto f o r ç a d o de amor ou desenvolvida, enquanto que a pelve e as pernas s ã o pequenas
uma e x p r e s s ã o amorosa real e a diferença reside no fato de haver
ou n ã o a p a r t i c i p a ç ã o do c o r a ç ã o ; por sua vez, esta participa- 1) Alexander L o w e n , Love and Orgasm (Nova Y o r k , Macmillan, 1965).

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e de a p a r ê n c i a imatura, como se pertencessem a uma c r i a n ç a . 1 fluxo de sentimentos que v a i do c o r a ç ã o ao seio pode ser
E m outras, a pelve é cheia e arredondada, p o r é m a metade de 'itinirritado ou reduzido.
cima é pequena, estreita e de a p a r ê n c i a infantil. E m qualquer
Kstudei um pouco a discussão acerca do c o r a ç ã o por ser ele
um dos casos, os sentimentos de uma metade n ã o se integram
liindamental a toda terapia. As pessoas chegam à terapia com
aos sentimentos da outra. Algumas vezes, a metade superior
diferentes queixas: d e p r e s s ã o , ansiedade, sentimento de inade-
do corpo é firme, r í g i d a e agressiva e a inferior parece branda,
ao, de fracasso, etc. Mas junto a cada queixa existe uma
passiva e masoquista. Onde quer que exista um grau de dis-
i ilta de prazer e de s a t i s f a ç ã o no viver. É comum hoje em dia
sociação, os movimentos r e s p i r a t ó r i o s naturais n ã o fluem livre-
'i Irmos falar em auto-realização e em potencial humano. Mas
mente a t r a v é s do corpo. A r e s p i r a ç ã o ou é t o r á c i c a (envolvendo
i || termos carecem de sentido, a menos que se pergunte: poten-
ligeiramente o abdome) ou d i a f r a g m á t i c a (com poucos movimen-
• i.d para quê? Se a l g u é m deseja viver mais plena e ricamente,
tos do t ó r a x ) . Se o indivíduo for solicitado a arquear suas costas
dl e abrir seu c o r a ç ã o para a vida e para o amor. Sem amor
para fazer a curvatura segundo o modelo do t'ai chi descrito ante-
• i próprio, aos demais, à natureza e ao universo, o indivíduo é
riormente, a linha do corpo n ã o i r á formar um verdadeiro arco.
li I H , alienado e desanimado. Dos nossos c o r a ç õ e s flui o calor que
A pelve e s t a r á mais para diante ou mais para t r á s , provocando
1101 une ao mundo em que vivemos. Essa quentura é o senti-
uma ruptura na linha e na unidade do corpo. Uma falta de
mento de amor. O objetivo de toda terapia é ajudar a pessoa a
unidade indica que a c a b e ç a , o c o r a ç ã o e os ó r g ã o s genitais n ã o
lUmentar sua capacidade de dar e receber amor, de ampliar e
e s t ã o integrados.
desenvolver o c o r a ç ã o , e n ã o só sua mente.
' As tensões musculares c r ó n i c a s que bloqueiam o livre fluxo
de e x c i t a ç ã o e sentimentos s ã o frequentemente encontradas no dia- iai,Tacão com a vida
fragma, nos músculos que circundam a pelve e nas coxas. O rela-
xamento desses m ú s c u l o s por métodos físicos e psicológicos faz A medida que nos deslocamos do c o r a ç ã o para a periferia
com' que as pessoas comecem a se sentir "ligadas". Essa é a
• In corpo, vamos nos deparando com os ó r g ã o s que interagem
palavra que mais usam. A p a r t i r d a í , c a b e ç a , c o r a ç ã o e órgãos
Oom o meio ambiente. A linguagem do corpo e s t á repleta de
genitais, ou pensamento, sentimentos e sexo n ã o s ã o mais partes
expressões derivadas da consciência proprioceptiva das suas
ou funções isoladas. O sexo torna-se cada vez mais uma expres-
s ã o de amor, com um aumento correspondente de prazer. Cessa funções. Tais e x p r e s s õ e s s ã o t ã o ricas em imagens e signifi-
assim, invariavelmente, qualquer comportamento p r o m í s c u o ante- cados que nenhum estudioso da personalidade humana pode per-
riormente existente. imi ir-se ignorá-las.
C o m e ç a r e m o s pela face, j á que essa é a parte do corpo que
Nas mulheres, o c o r a ç ã o tem uma l i g a ç ã o direta e imediata KC apresenta abertamente para o mundo. É t a m b é m a p r i m e i r a
com os seios, que reagem erótica e glandularmente aos impulsos parte examinada quando uma pessoa olha para outra. T a l como a
oriundos do c o r a ç ã o . Com a e s t i m u l a ç ã o sexual, os mamilos ficam palavra coração significa centro ou e s s ê n c i a , o termo face esten-
eretos e cheios de sangue; na a m a m e n t a ç ã o , as g l â n d u l a s segre- deu se de modo a incluir a a p a r ê n c i a externa de objetos e situa-
gam leite. Desse modo, o ato de amamentar normalmente é ções. Sendo assim, falamos da face de um edifício, ou de uma
uma das mais claras e x p r e s s õ e s de amor maternal. Pelo mesmo paisagem. Quando comentamos que "estes problemas s ã o velhos
motivo, é difícil imaginar que o leite de uma m ã e n ã o seja ade- mas e s t ã o de cara nova" referimo-nos a uma m u d a n ç a na apa-
quado a seu filho. A c r i a n ç a foi concebida e desenvolveu-se no rência externa de situações sem a correspondente a l t e r a ç ã o em
mesmo meio em que foi produzido o leite. Apesar disso, alguns nua essência.
pacientes a f i r m a r a m ter experimentado um certo gosto amargo A palavra face é igualmente empregada para fazer r e f e r ê n c i a
no leite materno. A despeito de levar tais a f i r m a ç õ e s a sério, n imagem de uma pessoa que se relaciona ao conceito de face do
ego, na medida em que o ego, num dos aspectos de seu funcio-
n ã o creio que o leite em si fosse imperfeito. Parece-me mais
namento, e s t á envolvido com a imagem projetada pela pessoa.
p r o v á v e l que a m ã e estivesse ressentida e desgostosa com a res-
"Kicar com a cara no c h ã o " é sofrer um golpe a nível de ego;
ponsabilidade que a c r i a n ç a representava, ressentimento perce- portanto, a maior parte das pessoas se esforça "para manter as
bido pela c r i a n ç a e objeto de sua r e a ç ã o . A a m a m e n t a ç ã o , como a p a r ê n c i a s " . Se "escondemos a cara", estamos denunciando um
o sexo, é mais do que uma r e a ç ã o fisiológica. É uma r e a ç ã o emo Hcnso de vergonha no qual o ego sente h u m i l h a ç ã o . A pessoa
cional e, assim sendo, e s t á sujeita ao â n i m o e à s atitudes da m ã e . de ego forte "encara" as s i t u a ç õ e s , ao passo que a mais fraca

76 77
normalmente "desvia o rosto". A auto-expressividade envolve I a longe" n ã o só a l c a n ç a com os olhos um ponto mais distante
face, e o tipo de e x p r e s s ã o facial que adotamos, indica muit 0OR1O t a m b é m entende mais que os outros. Olhos brilhantes s ã o
do tipo de pessoa que somos e de como nos sentimos. H á a fac Inal e símbolo de e x u b e r â n c i a . Na função de órgãos expres-
sorridente, a face deprimida, a face iluminada, a tristonha, etc. IVOS, os olhos desempenham um papel crucial na linguagem do
Infelizmente, a maioria das pessoas n ã o tem consciência de sua | "i i>o. U m olhar pode transmitir uma t a l gama e intensidade de
e x p r e s s ã o facial e, neste sentido, e s t ã o fora de contato com se i n d i c a d o s que muitas vezes aferimos as respostas dos outros
ser e com seu modo de sentir. meio de seus olhos. Com respeito à boca, há e x p r e s s õ e s
I mui) "linguarudo", "o fala-manso", " c a l a d ã o " , etc. A função
Estas considerações permitem-nos avaliar o ego da pessoa
ilos dentes é rica em m e t á f o r a s ; "dar uma bela dentada" em
a p a r t i r de seu rosto. O de um esquizoide tem geralmente um
llguma coisa é uma e x p r e s s ã o mais forte do que "chegar à s vias
c a r á t e r de m á s c a r a , que é justamente um dos sinais diagnósti ( 2 )

cos deste distúrbio, na medida em que indica o estado p r e c á r i o de fato". A pessoa que " e s t á por um t r i z " , está em desespero,
<3

de seu ego. À medida que v a i melhorando dentro do trata ha íamos de um "petisco saboroso" > para indicar algo que d á
mento, seu rosto vai assumindo um tom mais expressivo. Um prazer. Por último, h á a e x p r e s s ã o inglesa "queixo levantado",
i|iie significa manter o autocontrole face a acontecimentos adver-
rosto grande, cheio, denota um ego forte (esta é a linguagem
do corpo), mas n ã o raro vemos uma c a b e ç a e um rosto volumosos sos. Deixar cair o queixo é o movimento inicial da pessoa que
sobre um corpo de pequenas dimensões ou então o contrário, KC deixa levar pelos soluços do choro. Isto se observa com cla-
um corpo grande dotado de c a b e ç a e rosto diminutos. Pode-se reza nos bebés cujos queixos caem e c o m e ç a m a tremer ime-
presumir nestes casos, um certo grau de dissociação entre ego dlatamente antes de c o m e ç a r e m a chorar. Na terapia bioener-
e corpo. gética, à s vezes, é preciso fazer com que o paciente deixe seu
queixo cair antes que consiga entregar-se ao choro.
Outra o b s e r v a ç ã o interessante é a t e n d ê n c i a de muitos rapazes
A voz humana é o meio de maior expressividade ao alcance
e m o ç a s com cabelos longos ocultarem seus rostos a t r á s dos
do homem. Paul J. Moses em seu livro The Voice of Neurosis
cabelos. Parece-me ser este fato uma m a n i f e s t a ç ã o de sua falta 1
I Voz da Neurose) descreve os elementos sônicos da voz e
de vontade de encarar o mundo. Pode ser t a m b é m interpretado
como rejeição de nossa cultura que valoriza excessivamente a demonstra sua r e l a ç ã o com a personalidade. Discutirei num
imagem. Muitos dos jovens de hoje abrigam em suas persona- • apitulo mais à frente os conceitos subjacentes que nos permitem
lidade um viés anti-ego, j á que prestígio, status, posição e os ler a personalidade a t r a v é s da voz. A linguagem corporal reco-
sinais materiais de poder e influência lhes s ã o repugnantes. nhece a significância da voz; se uma pessoa " n ã o tem voz" com
Podemos compreender esta atitude como uma r e a ç ã o despropo- respeito a certo assunto, quer dizer que n ã o tem i m p o r t â n c i a ,
sital à i m p o r t â n c i a da a p a r ê n c i a externa que seus pais d ã o , à s "não tem o que dizer". Perder a voz p r ó p r i a poderia, então,
custas de outros valores, como a verdade interior, e outros significar a perda da p r ó p r i a posição.
valores n ã o visíveis. A função dos ombros, b r a ç o s e m ã o s contribui para a l i n -
Todos os ó r g ã o s e t r a ç o s do rosto t ê m sua p r ó p r i a língua guagem corporal. A pessoa que assume suas responsabilidades
gem corporal. Os olhos, as sobrancelhas, as m a ç ã s do rosto, a "leva-as ao ombro". Aquele que abre caminho "no cotovelo" é
boca e o queixo s ã o usados para denotar muitas qualidades ou agressivo; quando "prepara o muque" enfrenta a briga. Se é
t r a ç o s . Consideremos algumas das e x p r e s s õ e s que envolvem alguém que "maneja bem a p r ó p r i a v i d a " , temos orgulho dessa
estes segmentos a n a t ó m i c o s . Sobrancelhas erguidas indicam refi pessoa. Descreve-se a p a r t i c i p a ç ã o do indivíduo no aconteci-
namento ou intelectualidade o oposto, quer dizer, sobrancelhas mento dizendo-se que "deu uma m ã o z i n h a " .
baixas, pertencem a indivíduos broncos. Diz-se da pessoa huno A m ã o é o instrumento p r i m á r i o do toque, contendo mais cor-
lhada (de sobrancelhas murchas) quando está d e s a c o r ç o a d a poi púsculos táteis que qualquer outra parte do corpo. Portanto,
força da intimidação feita pelas palavras ou olhares dominadores tocar é basicamente uma função do contato manual, sem no
do interlocutor. As sobrancelhas caem de fato. Quando a pessoa entanto, ser m e c â n i c o . E m termos humanos, tocar é um contato
é ingénua e imprudente, diz-se que é "cara-dura"; as m a ç ã s de de sensibilidades entre pessoas. A e x p r e s s ã o " v o c ê me tocou",
seu rosto projetam-se literalmente para o alto à medida que •< neste sentido, é outro modo de dizer que a l g u é m evocou dentro
enchem de sangue e sentimentos.
A função da visão é de tal i m p o r t â n c i a para a consciência que 2) N o original, by the skin of his teeth ( N . d a T . ) .
igualamos o verbo " v e r " com "compreender". A pessoa "que en 3) N o original, toothsome morsel ( N . d a T . ) .

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comigo capacita-o caria vez mais a entrar em contato consigo idr ( a ç ã o do joelho). N ã o é esta a postura natural e, quando
mesmo, que é exatamente o objetivo de todo empreendimento sabemos a partir dela que a pessoa está precisando de
terapêutico.
i x I r a de apoio. A postura informa-nos, consequentemente,
Um terceiro campo principal de i n t e r a ç ã o reside na r e l a ç ã o i r r s c i i ç a de uma certa s e n s a ç ã o de i n s e g u r a n ç a na personali-
da pessoa com o chão. Toda postura que adotamos, cada passo n ã o por que a necessidade de apoio-extra?) independente
dado, envolvem essa r e l a ç ã o . Diferentemente dos p á s s a r o s e dos li i i i onsciente ou n ã o essa s e n s a ç ã o de i n s e g u r a n ç a . Se pedir-
peixes, somos mais de terra firme e, ao c o n t r á r i o de outros mamí- i t a l pessoa que fique de pé com os joelhos levemente fleti-
feros, ficamos de p é e movemo-nos sobre duas pernas. Esta pos- .1" i i n i i i u m que haja uma indução de v i b r a ç ã o nas pernas capaz
tura libera os b r a ç o s , na medida em que a função de suportar • ii . i r a s e n s a ç ã o de que "minhas pernas n ã o aguentam meu
o peso se desloca para a coluna vertebral e para as pernas. A
H Mo
m u d a n ç a para a posição ereta coloca a t e n s ã o nos músculos das
Para ter uma boa postura quando em p é , a pessoa deve estar
costas, em especial na r e g i ã o lombo-sacra. Discutirei num capí-
• pés bem plantados no chão (grounded). Estes d e v e r ã o
tulo subsequente a natureza desta t e n s ã o e sua r e l a ç ã o com os
i o lotalmente apoiados no solo e os arcos, conquanto descon-
problemas da r e g i ã o inferior das costas. Neste momento, o inte-
Ins, n ã o d e v e r ã o estar caídos. Aquilo que normalmente cha-
resse volta-se mais para a r e l a ç ã o das funções das extremidades
I O S d e p é chato é um problema de queda do arco, em resul-
inferiores com a personalidade, na medida em que as refletem
do que o peso é deslocado para a face interna do p é . U m
na linguagem corporal.
alto, por outro lado, é um sinal de espasticidade ou de con-
Por exemplo, podemos descrever uma pessoa dizendo-se que li i '..10 nos músculos do p é . O arco alto diminui o contato entre
tem ou n ã o " p o s i ç ã o " dentro da comunidade. No caso de n ã o ter, pi • chão e denota n ã o estarem bem plantados os p é s dessa pes-
não conta como pessoa. Podemos perguntar t a m b é m : "Qual é K interessante notar que um arco alto vem tradicionalmente
a sua p o s i ç ã o ? " com respeito a algum acontecimento. Sua postura i" considerado como algo mais s a u d á v e l e de melhor quali-
d e n u n c i a r á sua posição. Pode-se "ficar ao lado" de uma proposi- i ide Muitos se lembram quando um policial era chamado
ção, ou contra ela. Se a pessoa " n ã o assume uma p o s i ç ã o " , "fica i chato" porque, suponho, seus p é s tinham se tornado chatos
de f o r a " . Se assume, pode-se falar de uma "posição s ó l i d a " , ili lanto "amansar a fera a p o n t a p é s " , como ainda dizemos.
em cujo caso a pessoa " n ã o arreda p é " . H á uma noção de força i ' chato" era uma e x p r e s s ã o depreciativa que denotava uma
no manter-se de p é , evidente em a f i r m a ç õ e s como "fazer-se
i i'.ao inferior na escala social.
frente" a ataques, d e s t r u i ç õ e s ou perdas, e "suportar c r í t i c a s " .
Quando eu era menor, minha m ã e ficava constantemente se
O antônimo de "ficar de p é " , enquanto verbo, n ã o é "sentar" preocupando com meus pés chatos. Opunha a mais tenaz das
por tratar-se de um tipo diferente de a ç ã o , mas sim "estar de p é • lências a eu usar ténis porque tinha medo de que esse tipo
negligentemente, despencar-se, mover-se de uma para outra posi- di ' a l ç a d o fosse acentuar a t e n d ê n c i a de meus p é s a ficarem
ç ã o " . Uma pessoa " i n s t á v e l " n ã o finca p é em nada, a pessoa chatos. J á eu desejava ardentemente usar os ténis porque seria
que "escorrega" n ã o consegue manter sua posição e a que é deslei- uma maravilha para correr e para jogar bola como f a z í a m o s .
xada, abre m ã o de sua posição. Estes termos s ã o metafóricos quan- l " d o s os outros meninos usavam-nos e assim entrei na briga com
do empregados para a d e s c r i ç ã o de condutas mas, ao serem apli- • i i para valer e, no final, ganhei os t é n i s . Contudo, minha m ã e
cados à personalidade, adotam um sentido literal. H á pessoas lia para que eu usasse palmilhas o r t o p é d i c a s nos sapatos, e
cujos corpos exibem uma negligente postura comum; outras que i|iic era uma tortura; levei mais algum tempo para me l i v r a r
têm corpos despencados, ou manifestando algum tipo de queda. li . . o . E r a uma aflição porque, durante toda minha infância,
Alguns indivíduos n ã o t ê m condições de ficar em p é sem que " i n a de calos por causa de sapatos duros e apertados. Jamais
constantemente transfiram o peso de um p é para o outro. Quan- tive pés chatos, apesar de n ã o ter o arco t ã o alto que fizesse
do termos como estes descrevem uma atitude típica do corpo, minha m ã e plenamente feliz. Na verdade, meus p é s n ã o eram
e s t ã o descrevendo a pessoa.
i to chatos e, ao longo dos anos, venho trabalhando bioener-
O modo como o indivíduo fica perante a vida, ou seja, sua c.ciicamente comigo para ver se meus pés entram mais em con-
postura b á s i c a como ser humano, revela-se de modo d r a m á t i c o i.do com o c h ã o , achatando-os mais. Tenho certeza de que, em
em seu corpo. Tomemos u m exemplo comum, a t e n d ê n c i a de resultado de um trabalho desse tipo, n ã o tenho mais calos, calo-
muitas pessoas de trancarem o joelho. O efeito desta postura é i'lides, olhos-de-peixe e quaisquer outros problemas de p é s
transformar a perna num suporte rígido à s custas de sua flexi-
COIMO naquela época.
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A r e l a ç ã o do p é com a posição física no e s p a ç o e com a posi- Ivel entre p é s e c h ã o . Este contato acontece quando f l u i
ç ã o social é ilustrada pelo antigo costume chinês de amarrar os ii . I H ou energia para os p é s , criando uma condição de t e n s ã o
pés das meninas para que permanecessem pequenos e relativa • • i • •. 1111»•, semelhante à descrita para as m ã o s , no momento em
mente inúteis. Esta p r á t i c a apoiava-se em dois motivos; os péfl ie focaliza a a t e n ç ã o ou se dirige a energia para elas. A
pequenos eram um sinal de uma posição social mais elevada, pois na toma consciência dos pés e torna-se capaz de equilibrar-se
todas as mulheres da nobreza, na China, tinham pés pequenos.
Milequadamente sobre eles.
Significava isto que tais mulheres n ã o tinham que fazer serviços
K comum falar-se que o indivíduo de hoje em dia e s t á alie-
pesados ou andar longas distâncias, sendo carregadas em palan-
n ido mi isolado. É mais raro ouvir-se dizer que ele n ã o tem base,
quins. As camponesas, sem condições de se darem a tais luxos,
tinham p é s grandes, largos e chatos. O segundo motivo para a stá desenraizado. James Michener caracterizou um segmen-
imobilização dos pés das mulheres era prendê-las à casa, cas- kn . I . I juventude c o n t e m p o r â n e a com o termo The Drifters (os que
trando-as em sua independência. Uma vez, p o r é m , que esta prá- à deriva). Enquanto fenómeno cultural, trata-se de um
tica era limitada a certas classes, deve ser vista mais como um i nnio para uma i n v e s t i g a ç ã o sociológica, mas t a m b é m é um
reflexo das perspectivas culturais e sociais dos chineses. O estudo i nu no bioenergético: a falta do senso de ter r a í z e s deve advir
de como as atitudes culturais se manifestam nas expressões cor- di ilgum distúrbio no funcionamento do corpo, localizado nas
porais é chamado cinética. Na bioenergética estudamos o efeito i ' m a s , pois estas s ã o nossas r a í z e s (suportes) móveis. À seme-
da cultura sobre o próprio corpo. lli inça das r a í z e s de uma á r v o r e , nossas pernas e p é s interagem
c.ot icamente com o solo. Podemos sentir os p é s tornando-se
Durante muitos anos tivemos uma estorinha h u m o r í s t i c a no M I ogados e alertas quando andamos descalços na grama molhada
boletim do Instituto de Análises B i o e n e r g é t i c a s , no qual retrata- "o ua areia aquecida. A mesma s e n s a ç ã o pode ser vivida fazen-
va-se um professor de anatomia, em p é , diante de um mapa do pé llu o um exercício bioenergético de e x p e r i ê n c i a corporal. O que
humano, segurando uma varinha, e olhando para uma classe de i mprego geralmente para este propósito é fazer a pessoa curvar-se
estudantes de Medicina. A legenda dizia o seguinte: "Tenho cer- i • ii • i a frente, tocando o chão levemente com as pontas dos
teza que aqueles que e s t ã o pensando em tornar-se psiquiatras não i i i l o s . Os p é s d e v e r ã o estar a 30 cm um do outro, com os arte-
t e r ã o o menor interesse no que tenho a dizer". Talvez o que ele i i i " . ligeiramente voltados para dentro. Inicia-se o movimento
fosse colocar a respeito do p é fosse irrelevante para a psiquiatria. • "tu os joelhos dobrados e vai-se esticando-os a t é surgir uma ten-
Nós, da bioenergética, sempre acreditamos que os p é s do indiví-
| o nos tendões das pernas. Os joelhos nunca d e v e r ã o estirar-se
duo nos dizem muito de sua personalidade, à s e m e l h a n ç a de sua
i ooipletamente. Esta posição é mantida por um minuto ou mais,
c a b e ç a . Antes de fazer o diagnóstico de um problema de perso-
• nquanto a pessoa continua a respirar fácil e profundamente. Se
nalidade, gosto de ver como é que a pessoa fica de p é e, para
"iitimento descer a t é à s pernas, estas c o m e ç a r ã o a v i b r a r ;
tanto, olho para seus p é s .
In cando aos p é s , estes c o m e ç a r ã o a formigar. Os pacientes que
Uma pessoa equilibrada está com os p é s em bom equilíbrio, i ' r u t a r a m este exercício relatam algumas vezes terem se sen-
o peso sendo distribuído igualmente entre os calcanhares e a parte i u l o "enraizados", a partir dessas v i v ê n c i a s ; chegam, inclusive,
arredondada perto dos dedos. Quando o peso se situa nos cal- it sentir os pés entrando pela terra.
canhares, algo que acontece se a postura é mantida com os joelhos Ter " r a í z e s " , estar "plantado no c h ã o " , ter " p o s i ç ã o " , ou
trancados, a pessoa e s t á fora de equilíbrio. U m leve e m p u r r ã o pusicionar-se a f a v o r " de algo s ã o , na minha opinião, qualida-
no peito s e r á o bastante para fazê-la oscilar para t r á s , principal- des raras nas pessoas de hoje. O carro privou-nos do uso inte-
mente se estiver desatenta ao movimento. Demonstrei este aspecto gral de nossas pernas e p é s . A viagem de a v i ã o tirou-nos comple-
v á r i a s vezes ao longo de nossos l a b o r a t ó r i o s . Pode-se dizer que tamente do solo. Os principais efeitos sobre o funcionamento cor-
uma pessoa assim é "maria-vai-com-as-outras". A postura é pas- poral, contudo, s ã o mais indiretos do que diretos. O impacto cul-
siva. A t r a n s f e r ê n c i a do peso para a parte redonda da planta lural de mais r e l e v â n c i a para nós é a m u d a n ç a na natureza da
do p é prepara o início de um movimento de a v a n ç o , o qual é uma r e l a ç ã o m ã e - c r i a n ç a , principalmente no que diz respeito ao de-
postura agressiva. Dado que o equilíbrio n ã o é um fenómeno réscimo do íntimo contato corporal entre a m ã e e seu filho. Dis-
estático, sua m a n u t e n ç ã o requer ajustes constantes da posição i i i i i em meu último l i v r o este problema mais detalhadamente* '.
5

ereta a l é m de consciência dos próprios p é s . \ m ã e é o primeiro c h ã o do b e b é , ou em outras palavras, o b e b é


O c o m e n t á r i o "aquela pessoa tem os p é s no c h ã o " pode ser
considerado literalmente, apenas no sentido de existir um contato 5) Lowen, Depression an the Body, op. cit.

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conquista suas raízes a t r a v é s do corpo da m ã e . Terra e chão iden de ressonância e os movimentos animados. Na a u s ê n c i a destes
tificam-se simbolicamente com a m ã e , representante do solo e da in IIS físicos, coloco suas a f i r m a ç õ e s na berlinda. Pode-se fazer
casa. É interessante observar que a palavra "enraizar" é empre n mesmo tipo de considerações a respeito de c o m e n t á r i o s sobre
gada t a m b é m para descrever os movimentos instintivos da crianci n responsividade sexual. Quando o corpo do indivíduo demons-
nha em busca do bico do seio. Os pacientes que tive n ã o tinham ii i, por meio de seu p a d r ã o de t e n s ã o muscular, que ele oculta
desenvolvido um senso adequado de terem r a í z e s , de terem base, «eus sentimentos — n á d e g a s tensas e pescoço encolhido — é im-
por terem sofrido a falta de um contato suficientemente agra possível que tenha uma vida sexual "sensacional", j á que é inca-
dável com o corpo de suas m ã e s . Sem dúvida estas mesmas não p n / de deixar-se levar por uma e x c i t a ç ã o sexual forte.
haviam se desenvolvido como pessoas completamente dotadas de
0 corpo n ã o mente. Mesmo que a pessoa procure omitir seus
base. A m ã e sem base firme n ã o pode transmitir uma s e n s a ç ã o
• idadeiros sentimentos a t r á s de atitudes ou posturas artificiais,
de s e g u r a n ç a e de p e r t i n ê n c i a como a que precisa um b e b é . Se
»eu corpo d e n u n c i a r á a impostura pelo estado de tensão criado.
deixarmos de considerar estes fatos bioenergéticos, n ã o estaremos
Ninguém controla seu corpo completamente e por este motivo é
em condições de prevenir os efeitos desastrosos de uma cultura
que os detectores de mentira s ã o t ã o eficientes quando usados
altamente mecanizada e tecnológica sobre a vida humana.
p a r a distinguir a verdade da mentira. Quando se conta uma men-
i n . i , ocorre o tensionamento refletido na p r e s s ã o s a n g u í n e a , na
Sinais e expressões corporais 1 de batimentos c a r d í a c o s e na capacidade de condução elé-
i da pele. Uma técnica mais recente consiste na análise da
A linguagem do corpo é chamada de c o m u n i c a ç ã o não-verbal. própria voz, para distinguir o joio do trigo. Seu tom e r e s s o n â n c i a
Há, hoje em dia, um investimento considerável de a t e n ç ã o nesse lelletem todos os sentimentos que a pessoa abriga. É lógico,
problema depois que se percebeu a enorme quantidade de infor- então, que possa ser empregada nas sessões de d e t e c ç ã o de
m a ç õ e s que é transmitida ou pode ser obtida pela e x p r e s s ã o cor- mentiras.
poral. O tom de voz ou o olhar de uma pessoa t ê m , em geral, listamos familiarizados com o uso da escrita manual para
um impacto maior do que as palavras pronunciadas. As c r i a n ç a s determinar t r a ç o s de personalidade. H á algumas pessoas que se
de meu tempo costumavam cantar o r e f r ã o "paus e pedras que- declaram capazes de ler o c a r á t e r dos outros a partir do modo
bram-me as pernas, mas palavras n ã o me atingem", sugerindo como andam. Se cada aspecto da e x p r e s s ã o corporal revela
com isso serem invulneráveis a ataques verbais. Mas t a m b é m Quem somos, então, sem dúvida, nosso corpo como um todo deve
temos o seguinte ditado: "Olhares podem matar". Se a m ã e se ner ainda mais esclarecedor e completo.
dirigir ao filho com um olhar assassino, dificilmente este s e r á Na realidade, todos nós respondemos a outras pessoas em
esquecido. As c r i a n ç a s estão mais cônscias da linguagem cor- termos de sua e x p r e s s ã o corporal. Comparamos constantemente
poral do que os adultos que, após anos e anos de escolarização, todo mundo a nível de seus corpos, avaliando rapidamente sua
aprenderam a dar mais a t e n ç ã o à s palavras e a ignorar a expres- força ou fraqueza, sua vivacidade ou morosidade, sua idade,
s ã o do corpo. nua a t r a ç ã o sexual, etc. A partir da e x p r e s s ã o corporal, muitas
Todo estudioso inteligente e dedicado ao exame do compor- Vezes decidimos se podemos ou n ã o confiar naquele indivíduo,
tamento humano sabe que pode-se empregar palavras para percebemos qual é seu estado de espírito e quais atitudes suas
contar uma mentira. É comum n ã o se ter meios para discernir, perante a vida lhe s ã o mais c a r a c t e r í s t i c a s . Os jovens de hoje em
a partir das p r ó p r i a s palavras, se a i n f o r m a ç ã o apresentada é dia lalam das v i b r a ç õ e s da pessoa, boas ou m á s , dependendo de
verdadeira ou falsa. Isto acontece principalmente quando se trata I omo seu corpo afeta o observador. Especialmente na psiquiatria,
de a f i r m a ç õ e s pessoais. Quando o paciente diz, por exemplo: as impressões subjetivas formadas a partir das e x p r e s s õ e s do
"Sinto-me bem", ou "Minha vida sexual é ótima, nada de errado • Hipo do paciente s ã o dados dos mais relevantes para o trabalho
a í " , n ã o se sabe, pelas palavras proferidas, se essas colocações «• quase todos os terapeutas usam estas informações constante-
s ã o reais ou n ã o . Mais frequentemente dizemos as coisas que m e n t e . Há, no entanto, alguma r e l u t â n c i a nos meios psiquiátricos,
queremos que os outros acreditem. Por seu turno, a linguagem e no público em geral, em considerar estas informações como
corporal n ã o pode ser empregada para enganar, se o observador válidas e confiáveis, na medida em que n ã o s ã o passíveis de uma
souber lê-la. Se o paciente realmente se sente bem, seu corpo verificação objetiva imediata. Penso que o problema é mais
d e v e r á refletir seu estado; nesse caso, é de esperar que seu u m a q u e s t ã o de quanto a pessoa acredita em sua sensibilidade
semblante brilhe, que os olhos sejam luminosos, sua voz dotada e ó r g ã o s dos sentidos. As c r i a n ç a s , por terem poucos motivos para

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pôr em dúvida seus sentidos, confiam mais cegamente neste> tipo »in.. Bata pessoa, p o r é m , talvez não esteja sentindo medo a despeito
de i n f o r m a ç ã o do que os adultos. É o caso da estória sob., de estar exprimindo-o; neste caso, significa que está fora de conta-
"A roupa nova do imperador". Hoje em dia, frente à t e n d ê n c i l i ' com a e x p r e s s ã o de seu corpo. Isto acontece, geralmente, quando
tão acentuada de manipular o pensamento e o comportamento dai n atitude vem sendo assumida h á tanto tempo que passou a ser
pessoas a t r a v é s de palavras e imagens, esta fonte informativa parte da p r ó p r i a estrutura do organismo. A contenção c r ó n i c a
e de i m p o r t â n c i a crucial. • MI padrões de tensão crónicos perdem sua carga efetiva ou ener-
gética, sendo afastados da consciência. Deixam de ser percebidos
DU .equer vivenciados. Esta atitude corporal torna-se "uma se-
c u n d a natureza" para a pessoa em questão, a um tal ponto que
Quando apresento os conceitos bioenergéticos a profissionais, dizemos ser esta parte de seu c a r á t e r . Pode-se, inclusive, chegar
sou geralmente confrontado com exigências de estatística, de a reconhecê-la por sua postura, apesar de a i m p r e s s ã o inicial
curvas, com fatos i r r e c u s á v e i s . Posso compreender o desejo de ter mticar como algo estranho. As primeiras impressões que temos
este tipo de i n f o r m a ç ã o , mas n ã o d e v e r í a m o s deixar totalmente das pessoas s ã o respostas corporais que aos poucos vamos igno-
de lado, por insignificantes, as evidências de nossos sentidos. Es ' indo, à medida em que formos dando mais a t e n ç ã o à s palavras
tamos biologicamente capacitados com receptores de distância t> utos.
— olhos, ouvidos, nariz — que nos possibilitam avaliar uma situa- Tanto as palavras quanto os atos e s t ã o , em grande medida,
ção antes de darmos com o nariz na porta. Se n ã o confiarmos em lUbmetidos ao controle voluntário. Podem ambos ser usados para
nossos sentidos, estaremos aniquilando nossa capacidade de sentir transmitir impressões que contradigam a e x p r e s s ã o do corpo.
e de fazer sentido. Ao sentirmos outras pessoas, podemos enten- Assim é que a pessoa cuja e x p r e s s ã o corporal denota medo, pode-
der, a p a r t i r do que falam, o que é sua vida, suas lutas e desa- rá falar e agir exibindo ousadia; esta atitude exterior é vivida
tinos. Podemos então entendê-las como seres humanos, sendo esta pela pessoa como algo de identificação mais próxima, com o nível
a condição b á s i c a para sermos capazes de ajudá-las. do <go do que o próprio medo declarado pelo corpo. Descrevemos
Sentir uma outra pessoa é um processo e m p á t i c o . A empatia n atitude consciente como c o m p e n s a t ó r i a , ou seja, como esforço
é uma função da identificação, quer dizer, ao identificarmo-nos com para superar o medo latente. Quando a pessoa atinge os extremos
a e x p r e s s ã o corporal de uma pessoa, podemos sentir seu signi- da mistificação para negar o medo manifesto pelo corpo, seu com-
ficado, apreender seu sentido. Pode-se sentir t a m b é m como é ser imi lamento s e r á rotulado de contrafóbico. A linguagem do corpo
a outra pessoa, embora não se consiga sentir o que esta sente. mio mente e usa uma fala t a l , que apenas um outro corpo pode
Os sentimentos de cada pessoa s ã o privados, subjetivos; sente cniiipreendê-la.
aquilo que v a i sucedendo dentro de seu corpo e você sente o que A duplicação da e x p r e s s ã o corporal de outra pessoa só é neces-
ocorre dentro de você. N ã o obstante, na medida em que todos os s á r i a para tornar claro seu sentido, a princípio, mas depois que
corpos humanos s ã o semelhantes no que tange a suas funções bási- seu significado foi estabelecido, é associado à e x p r e s s ã o toda vez
cas, os corpos encontram uma r e s s o n â n c i a r e c í p r o c a quando ope- que se manifestar. É assim que sabemos que lábios apertados,
ram no mesmo comprimento de onda. Quando acontece isto, os • "mprimidos, expressam d e s a p r o v a ç ã o ; que a posição projetada
sentimentos de um corpo s ã o parecidos aos de outro. do queixo à frente exprime desafio e que os olhos arregalados
Em termos p r á t i c o s , isto quer dizer que, ao se assumir a denotam medo. Para nos convencermos da validade de nossas
atitude corporal de uma pessoa, pode-se captar o sentido ou ter interpretações podemos assumir tais e x p r e s s õ e s . Pediria agora ao
os sentimentos relativos à q u e l a e x p r e s s ã o . Suponhamos que você leitor que assumisse a seguinte posição, verificando se consegue
vê a l g u é m com o peito erguido, com ombros levantados e sobran- acompanhar a i n t e r p r e t a ç ã o que proponho. Fique em p é , empurre
celhas arqueadas para cima; você sabe t a m b é m qual o signifi- para a frente as n á d e g a s com os músculos c o n t r a í d o s . D e v e r ã o
cado dessa atitude. Assuma-a. Inspire, erga os ombros, suspenda ser sentidos dois efeitos: 1) a metade de cima do corpo t e n d e r á
as sobrancelhas. Se você estiver ligado a seu corpo, p e r c e b e r á a cair na r e g i ã o do diafragma; 2) o p a d r ã o de t e n s ã o da r e g i ã o
imediatamente ter adotado uma e x p r e s s ã o de medo. Pode ser que pélvica é do tipo de c o n t e n ç ã o ou " r e t e n ç ã o " . A queda é a perda
você sinta medo ou n ã o , isto v a i depender de a posição ter evo- dii estatura corporal e, portanto, da a u t o - a f i r m a ç ã o . Se pudés-
cado ou n ã o o medo mas, sem dúvida, você identificará precisa- semos visualizar um ser humano com cauda, a imagem seria
mente a e x p r e s s ã o . E c o m p r e e n d e r á a seguir que, no universo deste ó r g ã o enfiado, como rabo, no meio das pernas. O c ã o que
da linguagem corporal, a outra pessoa e s t á dizendo "Sinto medo". leva uma surra adota a mesma posição. Acredito termos r a z õ e s

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de sobra, então, para interpretar esta postura corporal como a de desta c r i a n ç a , n ã o tendo condições de ser modificada a n ã o ser
a l g u é m que foi espancado, derrotado, humilhado. a t r a v é s da r e c u p e r a ç ã o da primeira natureza. Vale mesmo para
A r e t e n ç ã o é sentida como um enrijecimento e urna constri lodos os demais p a d r õ e s de conduta.
ção dos canais pélvicos de saída, anal, u r i n á r i o e genital. Muitos A e x p r e s s ã o "segunda natureza" é muitas vezes aplicada na
estudos psicológicos t ê m demonstrado que s ã o típicos ao individuo descrição de atitudes físicas e psicológicas que, conquanto " n ã o
com tendências masoquistas o colapso do ego com a s e n s a ç ã o con naturais", passaram de tal modo a participar da pessoa que Lhe
comitante de ter sido humilhado e derrotado, ao lado da tendel! parecem naturais. O termo implica a existência de uma "primeira
cia a reter os próprios sentimentos. O passo seguinte aborda a natureza", isenta destas atitudes estruturadas. Podemos definir
c o r r e l a ç ã o desta c o n s t e l a ç ã o de t r a ç o s psicológicos com uma tanto positiva quanto negativamente esta primeira natureza; po-
determinada atitude física. Assim que se estabelece uma cor demos colocá-la como a a u s ê n c i a , a nível corporal, de tensões
r e l a ç ã o deste género, passa-se a verificá-la repetidamente pela musculares c r ó n i c a s que restringem sentimentos e movimentos e,
o b s e r v a ç ã o de outros pacientes e, finalmente, a estrutura do c a r á i nível psicológico, de racionalizações, negativas e projeções.
ter torna-se identificada com uma postura corporal definida. Segundo uma perspectiva positiva, dir-se-ia ser uma natureza que
Quando vejo a l g u é m de n á d e g a s c o n t r a í d a s à frente e de mús reteve a beleza e a g r a ç a que todos os animais normalmente com-
culos tensos nessa r e g i ã o , sei da p r e s e n ç a de um elemento maso- portam ao nascer. É vital reconhecermos a distinção entre as duas
quista em sua personalidade. etapas da natureza de cada um de nós, pois muitos aceitam as
A leitura da e x p r e s s ã o do corpo é geralmente dificultada pela tensões e distorções corporais como "naturais", deixando de per-
p r e s e n ç a daquilo que denominamos de atitudes corporais compen ceber que s ã o elementos pertinentes à segunda e que só s ã o vivi-
s a t ó r i a s . Por exemplo, alguns indivíduos cujas posturas denun dos como tais por força de longos anos de hábito. Tenho a mais
ciam tendências masoquistas ( n á d e g a s c o n t r a í d a s ) , adotam com- profunda convicção de que a vida s a u d á v e l e a cultura sadia só
pensatoriamente uma atitude de desafio na metade superior do podem apoiar-se na primeira natureza humana.
corpo (queixo projetado à frente, t ó r a x estufado) na tentativa
de superarem a submissividade masoquista declarada pela metade
inferior do corpo.
Da mesma forma, uma agressividade exagerada poderia servir
para encobrir uma passividade e uma a n u ê n c i a excessivas subja
centes. A crueldade ocultaria a s e n s a ç ã o de ter sido espancado
enquanto que uma insensibilidade acentuada estaria negando a
h u m i l h a ç ã o sofrida. Falamos, nestes casos, de sadomasoquismo,
j á que o comportamento c o m p e n s a t ó r i o chama justamente a aten-
ção para a fraqueza que teria por f i m ocultar.
Para lermos a linguagem do corpo é preciso estarmos em
contato com nosso próprio corpo e sermos sensíveis à s suas
e x p r e s s õ e s . Os próprios terapeutas da bioenergética, submetem-
se a um programa de treinamento destinado a pô-los em contato
com seus corpos. Poucas s ã o as pessoas na nossa cultura,
isentas de tensões musculares r e s p o n s á v e i s pela e s t r u t u r a ç ã o de
suas respostas e pela definição dos papéis que d e s e m p e n h a r ã o na
vida. Estes p a d r õ e s tensionais refletem os traumas vividos durante
o crescimento, todas as rejeições, p r i v a ç õ e s , seduções, supressões e
f r u s t r a ç õ e s . Cada um de nós passa por estes sofrimentos em
intensidades diferentes. Quando a r e j e i ç ã o foi a experiência de
vida predominante de uma c r i a n ç a , por exemplo, sua tendência
s e r á o desenvolvimento de um p a d r ã o esquizoide de comporta-
mento, que se e s t r u t u r a r á tanto física quanto psicologicamente
em sua personalidade. Este p a d r ã o tornar-se-á a segunda natureza

90 91
de sobra, então, para interpretar esta postura corporal como a de desta c r i a n ç a , n ã o tendo condições de ser modificada a n ã o ser
a l g u é m que foi espancado, derrotado, humilhado. a t r a v é s da r e c u p e r a ç ã o da primeira natureza. Vale mesmo para
A r e t e n ç ã o é sentida como um enrijecimento e urna constri lodos os demais p a d r õ e s de conduta.
ção dos canais pélvicos de saída, anal, u r i n á r i o e genital. Muitos A e x p r e s s ã o "segunda natureza" é muitas vezes aplicada na
estudos psicológicos t ê m demonstrado que s ã o típicos ao individuo descrição de atitudes físicas e psicológicas que, conquanto " n ã o
com tendências masoquistas o colapso do ego com a s e n s a ç ã o con naturais", passaram de tal modo a participar da pessoa que lhe
comitante de ter sido humilhado e derrotado, ao lado da tendeo parecem naturais. O termo implica a existência de uma "primeira
cia a reter os próprios sentimentos. O passo seguinte aborda a natureza", isenta destas atitudes estruturadas. Podemos definir
c o r r e l a ç ã o desta c o n s t e l a ç ã o de t r a ç o s psicológicos com uma tanto positiva quanto negativamente esta primeira natureza; po-
determinada atitude física. Assim que se estabelece uma cor demos colocá-la como a ausência, a nível corporal, de tensões
r e l a ç ã o deste género, passa-se a verificá-la repetidamente p e l a musculares c r ó n i c a s que restringem sentimentos e movimentos e,
o b s e r v a ç ã o de outros pacientes e, finalmente, a estrutura do cará- i nível psicológico, de racionalizações, negativas e projeções.
ter torna-se identificada com uma postura corporal definida. Segundo uma perspectiva positiva, dir-se-ia ser uma natureza que
Quando vejo a l g u é m de n á d e g a s c o n t r a í d a s à frente e de mús releve a beleza e a g r a ç a que todos os animais normalmente com-
culos tensos nessa r e g i ã o , sei da p r e s e n ç a de um elemento maso- portam ao nascer. É vital reconhecermos a distinção entre as duas
quista em sua personalidade. dapas da natureza de cada um de nós, pois muitos aceitam as
A leitura da e x p r e s s ã o do corpo é geralmente dificultada pela iensões e distorções corporais como "naturais", deixando de per-
p r e s e n ç a daquilo que denominamos de atitudes corporais compen ceber que s ã o elementos pertinentes à segunda e que só s ã o vivi-
s a t ó r i a s . Por exemplo, alguns indivíduos cujas posturas denun dos como tais por força de longos anos de hábito. Tenho a mais
ciam tendências masoquistas ( n á d e g a s c o n t r a í d a s ) , adotam com- profunda convicção de que a vida s a u d á v e l e a cultura sadia só
pensatoriamente uma atitude de desafio na metade superior do podem apoiar-se na primeira natureza humana.
corpo (queixo projetado à frente, t ó r a x estufado) na tentativa
de superarem a submissividade masoquista declarada pela metade
inferior do corpo.
Da mesma forma, uma agressividade exagerada poderia servir
para encobrir uma passividade e uma a n u ê n c i a excessivas subja
centes. A crueldade ocultaria a s e n s a ç ã o de ter sido espancado
enquanto que uma insensibilidade acentuada estaria negando a
h u m i l h a ç ã o sofrida. Falamos, nestes casos, de sadomasoquismo,
j á que o comportamento c o m p e n s a t ó r i o chama justamente a aten-
ção para a fraqueza que teria por f i m ocultar.
Para lermos a linguagem do corpo é preciso estarmos em
contato com nosso próprio corpo e sermos sensíveis à s suas
e x p r e s s õ e s . Os próprios terapeutas da bioenergética, submetem-
se a um programa de treinamento destinado a pô-los em contato
com seus corpos. Poucas s ã o as pessoas na nossa cultura,
isentas de tensões musculares r e s p o n s á v e i s pela e s t r u t u r a ç ã o de
suas respostas e pela definição dos papéis que d e s e m p e n h a r ã o na
vida. Estes p a d r õ e s tensionais refletem os traumas vividos durante
o crescimento, todas as rejeições, p r i v a ç õ e s , seduções, supressões e
f r u s t r a ç õ e s . Cada um de nós passa por estes sofrimentos em
intensidades diferentes. Quando a r e j e i ç ã o foi a experiência de
vida predominante de uma c r i a n ç a , por exemplo, sua tendência
s e r á o desenvolvimento de um p a d r ã o esquizoide de comporta-
mento, que se e s t r u t u r a r á tanto física quanto psicologicamente
em sua personalidade. Este p a d r ã o tornar-se-á a segunda natureza

90 91
É n e c e s s á r i o que o terapeuta bioenergético tenha feito a sua
viagem pessoal ou que esteja a meio caminho e com um nível sufi-
Oiente de experiências armazenadas, para poder j á ter construído
um senso sólido de si mesmo. Como dizemos, tem que estar sufi-
. Hiitemente preso à realidade (grounded) de sua p r ó p r i a pessoa
para que possa servir de perto ao cliente, nos momentos em que
- i | á g u a s tornarem-se excessivamente revoltas. H á alguns pontos
que s ã o requisitos indispensáveis para quem deseja trabalhar como
terapeuta: a pessoa tem de dominar o conhecimento da teoria da
personalidade suficientemente bem, para saber como enfrentar pro-
IV. Terapia Bioenergética blemas como r e s i s t ê n c i a e t r a n s f e r ê n c i a ; a l é m disso, o terapeuta
iimonergético deve ter "sensibilidade" para o nível corporal, de
do a ser capaz de ler sua linguagem com p r e c i s ã o . N ã o é,
porém, um ser humano perfeito (e acaso o seria a l g u é m ? ) e seria
n i c a l esperar que estivesse totalmente livre de problemas parti-
culares. Este aspecto leva-me a uma c o n s i d e r a ç ã o importante.
A viagem da autodescoberta
A viagem da autodescoberta n ã o acaba nunca; n ã o h á a terra
prometida onde, finalmente, podemos chegar e ficar. Nossa pri-
A bioenergética n ã o e s t á apenas voltada para a terapia, da
meira natureza nos e s c a p a r á continuamente, conquanto chegue-
mesma forma que a p s i c a n á l i s e n ã o lida exclusivamente com o
m o s mais perto dela a cada momento. U m dos motivos para este
tratamento analítico de distúrbios emocionais. Ambas as discipli
paradoxo é o fato de vivermos numa sociedade altamente civili-
nas interessam-se pelo desenvolvimento da personalidade humana,
z a d a e técnica, que v a i nos levando, a alta velocidade, para cada
buscando compreender t a l processo em termos das situações vez mais longe do ambiente em que se desenvolveu nossa primeira
sociais nas quais ocorre. N ã o obstante, a terapia e a análise s ã o natureza. Mesmo quando a terapia é bem-sucedida n ã o ficamos
as pedras angulares sobre as quais apóia-se esta c o m p r e e n s ã o , livres de todas as tensões musculares, dadas as condições que a
na medida em que é a t r a v é s de um cuidadoso trabalho com todos vida moderna nos impõe constantemente e que nos impelem para
os problemas individuais da pessoa que se pode atingir algum novas tensões. O poder que as terapias se advogam de eliminar
tipo de esclarecimento a respeito do desenvolvimento de sua per- por completo os efeitos de todos os traumas vividos durante o
sonalidade. Além disto, a terapia se constitui numa base eficaz desenvolvimento e o crescimento é algo a ser questionado. Mes-
para testar a validade dos dados obtidos a respeito do indivíduo, mo quando todas as feridas saram, permanecem as cicatrizes como
sem o que poderiam n ã o passar de mera e s p e c u l a ç ã o . Portanto,' efeitos indeléveis.
a bioenergética n ã o pode ser dissociada da terapia bioenergética.
É de se perguntar, então, o que é que se ganha fazendo terapia
A terapia, a meu ver, é uma viagem de autodescoberta. N ã o
.já que n ã o h á uma l i b e r a ç ã o completa das tensões e nem um tér-
uma jornada curta e simples, nem tampouco livre das dores e dos
mino para a viagem. Felizmente, a maior parte dos que buscam
tropeços. H á perigos, h á riscos e nem a p r ó p r i a vida passa sem eles,
e s s e tratamento n ã o e s t á a t r á s de nirvanas nem de jardins de
j á que em si constitui uma viagem para o desconhecido, que é o
éden. As pessoas estão confusas, desesperadas à s vezes, e pre-
futuro. A terapia retoma o passado esquecido e esta n ã o é uma
c i s a m de ajuda para continuar a jornada da vida. F a z ê - l a s remon-
época segura e tranquila, pois se o fosse n ã o t e r í a m o s vindo dela tar a épocas anteriores pode provê-las dessa força se houver uma
marcados pelas cicatrizes das batalhas e defendidos pela impene- melhoria em sua autoconsciência, se puderem passar a exprimir-se
t r á v e l c o u r a ç a das tensões musculares. Esta n ã o é uma viagem melhor e se seu autodomínio aperfeiçoar-se. E s t a r ã o melhor equi-
que eu poderia recomendar a a l g u é m fazer sozinho, apesar da cer- padas para lutar se tiverem um senso mais forte de si mesmas.
teza de que houve os corajosos que a empreenderam por si. O tera- A terapia pode ajudá-las neste sentido, pois libera-as de suas
peuta funciona como guia ou navegador; seu treino levou-o a reco- restrições e distorções inerentes à segunda natureza, trazendo-as
nhecer perigos e a aprender como enfrentá-los; a l é m disso, s e r á mais perto de suas primeiras naturezas, fonte de sua força e
o amigo que o f e r e c e r á a m ã o compreensiva e encorajadora quando de sua fé.
vier o mau tempo. Se a terapia n ã o tem condições de nos fazer voltar à primeira

92 93
natureza, ou estado de g r a ç a , pode colocar-nos mais próximos i< i IMOS, quando achar que pode continuar a viagem sem outro
dela, diminuindo a a l i e n a ç ã o da qual sofremos tantos de nós. i'iiia.
Alienação, melhor do que qualquer outra palavra, descreve todo O movimento é a e s s ê n c i a da vida; crescimento e declínio s ã o
o suor do homem c o n t e m p o r â n e o . Este é como o "estranho numa dois aspectos do movimento. Não h á , em verdade, o platô, a para-
terra desconhecida" sempre frente a perguntas tais como: "Por que lisação. Se cessar o crescimento no que respeita à evolução da
v i v e r ? " , "O que é tudo isto?" Luta contra a falta de sentido de personalidade, instalar-se-á o declínio que, imperceptível a prin-
sua existência, sentindo vaga a irrealidade de tudo, tantalizado I Ipio, logo mais tornar-se-á patente. O verdadeiro critério de tera-
pela insidiosa s e n s a ç ã o de isolamento que vem tentando desespe- i'i.i bem-sucedida é fazer com que o cliente d ê início e mantenha
radamente superar ou e n t ã o negar, preso do medo abissal de que um processo de desenvolvimento que se perpetue, independente
sua vida lhe escape por entre os dedos, antes de ter tido sua chance dos préstimos t e r a p ê u t i c o s .
de vivê-la. Embora como psiquiatra focalize minha a t e n ç ã o nos Recordei, no primeiro capítulo, algumas de minhas experiên-
sintomas ou queixas que o paciente traz no momento, n ã o encaro laa pessoais com a terapia feita com Reich e com a subsequente,
tão limitadamente o objetivo t e r a p ê u t i c o em r e l a ç ã o apenas a essa < mpreendida com John Pierrakos r e s p o n s á v e l esta última pelo lan-
p r o b l e m á t i c a . Se n ã o consigo ajudá-lo a entrar mais em contato
..imonto das bases do m é t o d o bioenergético. Conquanto tenha am-
consigo mesmo (ou seja, com seu corpo e, a t r a v é s deste, com o
pliado incomensuravelmente meu senso de m i m mesmo (auto-
mundo que o circunda) sinto que meus esforços para superar sua
illacepção, auto-expressividade e autodomínio), acho que ainda n ã o
a l i e n a ç ã o n ã o tiveram êxito e que a terapia acabou mal.
Oheguei ao f i m de minha viagem. Naqueles tempos meu barqui-
Apesar de falarmos em a l i e n a ç ã o como um distanciamento nho navegava tranquilo e n ã o havia qualquer expectativa de pro-
que o homem vive tanto da natureza quanto dos demais seres hu- blemas e dificuldades; p o r é m , esta p r e v i s ã o n ã o perdurou indefini-
manos, a base desse problema é o distanciamento que a pessoa damente. No curso dos anos seguintes atravessei algumas crises
vive de seu próprio corpo. Discuti mais extensamente este ponto pessoais que tive condições de enfrentar positivamente devido à
1
num outro l i v r o ' ' e, se o recoloco neste ponto, é por ser central minha terapia. Ocorre uma crise pessoal somente quando alguma
à b i o e n e r g é t i c a . Apenas por intermédio de seu corpo é que você rigidez na personalidade entra em excessiva t e n s ã o . Portanto, é
e x p e r i ê n c i a a vida que anima e sua existência no mundo. Mas um momento igualmente arriscado e oportuno para uma ainda
isto n ã o é bastante para a tomada de contato com o corpo. A maior soltura e posterior evolução. Conforme minha vida foi se
pessoa deve manter-se em contato e isto representa um compro- desenrolando, felizmente provou-se ser o crescimento a consequên-
misso com a via do corpo. Tal compromisso n ã o deve excluir a c i a do sofrimento. Sem entrar nos detalhes das crises em si, des-
mente, mas exclui o compromisso com um intelecto dissociado, creverei um conjunto de e x p e r i ê n c i a s pessoais pertinentes ao tema
com a mente desatenta ao corpo. O compromisso com a vida do da terapia.
corpo é o único seguro de que a viagem v á terminar bem, desco-
Há aproximadamente cinco anos a t r á s , tomei consciência de
brindo-se a pessoa a si mesma.
uma dor no pescoço. A princípio percebi que vinha apenas de
Considerar a terapia como um processo i n t e r m i n á v e l levanta vez em quando mas, com o passar do tempo, foi ficando cada vez
uma q u e s t ã o de ordem p r á t i c a : "Quanto tempo vou ter que v i r mais evidente toda vez que eu virasse a c a b e ç a repentinamente.
v ê - l o ? " , perguntam-me os pacientes. Uma resposta p r á t i c a : "Você Não é que tivesse ignorado meu corpo durante o tempo que decor-
f i c a r á em terapia tanto tempo quanto sentir que vale a pena em rera após o t é r m i n o da terapia ativa, j á que fazia com certa regu-
termos de tempo, de esforço e de dinheiro". É igualmente uma laridade os exercícios bioenergéticos que uso com meus pacientes.
q u e s t ã o de ordem p r á t i c a indicar o fato de que muitas terapias Embora me ajudassem tremendamente, n ã o conseguiam ser efica-
terminam por causa de fatores que ultrapassam o controle do tera- zes com a dor, que eu suspeitava ser uma artrite cervical. Jamais
peuta ou do cliente, como sejam m u d a n ç a de domicílio interesta- fui confirmar minhas suspeitas com raios-x, de modo que a t é hoje
dual, por exemplo. Posso igualmente interromper uma terapia se a coisa permanece a nível de hipótese.
sentir que n ã o está levando a nada, no sentido de impedir o pa-
Independente de ser ou n ã o d e c o r r ê n c i a da artrite, consegui
ciente de usá-la como muleta existencial. J á o cliente t e r m i n a r á
palpar alguns músculos relativamente tensos no pescoço, os quais
o vínculo t e r a p ê u t i c o quando sentir-se capaz de assumir por si
estavam envolvidos com a dor. Havia t a m b é m outras tensões mus-
a responsabilidade pela continuidade de sua evolução ou, em outros
culares no t e r ç o superior das costas e nos ombros. Percebi igual-
mente, pelos filmes realizados sobre m i m em trabalho com os
1) L o w e n , Betrayal of the Body, op. cit. pacientes, que à s vezes deixava a c a b e ç a pender para a frente.

94 95
Esta postura dava margem a um ligeiro encurvamento das costas, brar as correntes que atavam minhas pernas; fê-lo com suas m ã o s
entre as e s p á d u a s . porque as correntes que envolviam meu tornozelo eram feitas de
Durante cerca de um ano e meio pratiquei regularmente alguns um arame muito fininho; de súbito percebi que eu mesmo poderia
exercícios destinados a aliviar a dor e a endireitar as costas. lo lo feito, e acordei em seguida. T a m b é m este sonho n ã o pro-
Submetia-me igualmente a massagens regulares com um terapeuta vocou qualquer ansiedade a despeito de minha morte iminente.
bioenergético. Este s e n t í a t a m b é m os músculos tensos, nos quais Face à a u s ê n c i a de ansiedade, senti que ambos os sonhos
trabalhava porfiadamente para induzir um pouco de descontra- Imham um significado positivo. Portanto, n ã o fiz grandes esforços
ção. As massagens e exercícios foram proveitosos por algum tem- para interpretá-los. O primeiro quase que dispensava uma inter-
po, sentindo-me mais livre e melhor depois das sessões, apesar p r e t a ç ã o . Antes dele, havia considerado por algum tempo a pos-
da p e r s i s t ê n c i a da dor e da r e c o r r ê n c i a das tensões. sibilidade de ter um ataque c a r d í a c o . Estava chegando perto dos
Durante este período tive uma outra e x p e r i ê n c i a que, creio, .essenta anos e nesse período os ataques n ã o s ã o raros; sabia
teve um papel determinante na resolução do problema. Ao final t a m b é m ser este meu ponto de maior vulnerabilidade. J á havia
de um laboratório para profissionais, dois dos participantes (tera- tomado consciência da rigidez de meu peito desde a minha pri-
peutas bioenergéticos j á treinados) disseram que agora era a mi- meira sessão t e r a p ê u t i c a com Reich e nunca fora capaz de liber-
nha vez e ofereceram-se para trabalhar comigo. Esta n ã o é uma tá-la por completo. Era t a m b é m um fumante inveterado de ca-
p r á t i c a que eu adotei rotineiramente mas, nesse momento, cedi à ebimbo, conquanto n ã o tragasse. O sonho não me confortava a
t e n t a ç ã o . U m deles trabalhou uma t e n s ã o na garganta e o outro respeito da impossibilidade de um ataque c a r d í a c o , tornando-o, ao
foi para os p é s . Subitamente senti uma dor aguda, como se alguém contrário, num acontecimento de segunda i m p o r t â n c i a . O ponto
tivesse cortado minha garganta com uma faca. Tive a s e n s a ç ã o importante era morrer com dignidade, mas isto t a m b é m signifi-
imediata de que havia sido minha m ã e que fizera algo, psicoló- cava, como percebi de imediato, viver dignamente. Essa percep-
gica e n ã o literalmente. Percebi que o efeito era impedir-me de ção parecia apagar o medo da morte dentro de m i m .
falar com franqueza ou de lastimar-me. Sempre tive dificuldade
Inicialmente não comuniquei a ninguém estes sonhos. Alguns
em dar voz a meus sentimentos, apesar de o problema atenuar-se
acentuadamente com o passar dos anos. E m certas situações, esse meses mais tarde, p o r é m , contei-os a um grupo de terapeutas
bloqueio chegou a fazer com que eu ficasse com dor de garganta, bioenergéticos, durante um l a b o r a t ó r i o na Califórnia. Era um en-
principalmente quando eu estava cansado. Quando sentia a dor, contro destinado a tratar de sonhos, o daquela noite. Nessa oca-
dispensava todos os terapeutas e gritava de dor, depois do que sião, n ã o nos aprofundamos muito na i n t e r p r e t a ç ã o do segundo
sentia um profundo alívio. sonho. E u tinha a s e n s a ç ã o de ter me subordinado durante muito
tempo a um aspecto infantil de minha personalidade, que só me
Logo depois deste incidente, tive dois sonhos que levaram o Iraria dificuldades. Eu tinha que assumir meu lugar de direito
problema n ú m e r o um ao seu ponto m á x i m o . Ocorreram em duas como governador de meus domínios (minha personalidade, meu
noites sucessivas. No primeiro, estava seguro de que iria morrer trabalho) j á que era o r e s p o n s á v e l por eles. Senti-me bem ao
de um ataque do c o r a ç ã o ; sentia então que isto estava certo por- tomar tal decisão.
que eu iria morrer dignamente; era estranho, mas eu não senti
Cerca de um m ê s e meio depois, encontrei-me com outro grupo
a m í n i m a ansiedade durante o sonho, nem na m a n h ã seguinte
quando, acordado, recordei-o. de terapeutas bioenergéticos da Costa Leste e novamente contei os
sonhos. Neste í n t e r i m , tivera mais algumas ideias referentes ao se-
Na noite seguinte, sonhei que era um conselheiro admirado de gundo deles. Achava que existia algum tipo de ligação entre este
um r e i c r i a n ç a , que pensava que eu o havia t r a í d o . Sua ordem era
sonho e a dor no pescoço. No sonho eu deveria ser decapitado e o
decapitar-me. No sonho, eu sabia n ã o havê-lo t r a í d o e tinha con-
machado estava perto de cair no meu pescoço. A partir desse
fiança que ele descobrisse o erro, que eu fosse absolvido e final-
mente devolvido a meu posto. Conforme ia se aproximando a data referencial, comecei a descrever a dor c r ó n i c a do meu pescoço, que
da e x e c u ç ã o , eu ainda continuava confiante de ser absolvido. Quan- e n t ã o sentia como ligada, de certo modo, ao fato de eu n ã o sus-
do chegou o dia e me conduziram a t é o cadafalso, continuava certo tentar a c a b e ç a ereta. E quando adotei realmente essa posição,
de que a absolvição chegaria, talvez no último minuto. No sonho a dor desapareceu. Entretanto, t a m b é m sabia que n ã o tinha con-
sentia o carrasco de p é , ao meu lado, segurando um enorme ma- dições de fazê-lo conscientemente, a t r a v é s do uso de minha von-
chado. Sua figura n ã o estava nítida. Apesar de tudo, continuava tade, j á que iria parecer artificial e eu n ã o seria capaz de sus-
esperando minha absolvição. E n t ã o o algoz inclinou-se para que- tentá-la na posição. Portar a c a b e ç a erguida deveria ser uma

96 97
e x p r e s s ã o da dignidade que o primeiro sonho apontava como I n . m a s devidas a um reconhecimento que eu mesmo n ã o
interpretação. i i i Agora não havia mais qualquer necessidade de lutar.
Depois de relatar meus sonhos, recordei algumas impressões t Iquel muito feliz com este desenlace, mas isto n ã o significava
da época da meninice. F u i o primogénito e o único v a r ã o da famí- i'" t i v e s s e concluído minha viagem. E m seguida à l i b e r a ç ã o da
lia. Minha m ã e era-me muito devota; eu era a menina de seus • oi meu pescoço, tomei ainda mais consciência da t e n s ã o
olhos. De muitos modos ela expressava sua maneira de ver-me • o m b r o s e peito. E r a m tensões que n ã o chegavam ao nível
como um pequeno príncipe. Por outro lado, sempre insistia que i I dm Independente deste fato, continuei meus exercícios bio-
sabia mais do que eu e mostrava-se muitas vezes cruel quando i Ileos de r e s p i r a ç ã o , com os exercícios de grounáing e dando
me comportava de modo turbulento. Era uma mulher ambiciosa e num saco de areia, para soltar os ombros. Grounding se
transferiu para m i m esta atitude. Meu pai t a m b é m era muito ape-
referi n liberar sentimentos a t é os p é s . Conforme meu sonho, eu
gado a m i m . Sua personalidade era praticamente oposta à de
itado pelos tornozelos.
minha m ã e . Era de fácil convivência e amante do prazer. Apesar 1

de trabalhar muito, tinha uma t e n d ê n c i a a fracassar em seus negó- o ia outra e x p e r i ê n c i a tem r e l e v â n c i a para esta e s t ó r i a . H á
cios, os quais não eram de vulto. Eu costumava ajudá-lo com as nonos dois anos, conheci uma professora de canto fami-
escritas, pois fazia as contas rapidamente. Ao longo de toda a ada com conceitos de b i o e n e r g é t i c a e com o papel que a
minha meninice, meu pai e minha m ã e brigavam um com o outro, ii desempenha em termos de auto-expressividade. Mencionei h á
em geral por causa de dinheiro e, não raro, me punham no meio i meu que tinha a s e n s a ç ã o de que minha m ã e havia cortado
da discussão. De certo modo, sentia-me superior a meu pai mas, ba garganta. Isto me criava problemas ao falar, chorar e,
por outro lado, ele era maior e mais forte e eu tinha medo dele. i" un i pal mente, cantar. Sempre tinha desejado cantar, mas ja-
Não creio que ter medo dele tivesse sido obra sua; n ã o era cruel o 1'izera. Tinha medo de que minha voz fraquejasse e que
e havia batido em m i m apenas numa o c a s i ã o . Minha m ã e , porém, m e ç a s s e a chorar. Ninguém em minha família cantava quan-
conseguira pôr-me em posição de competir com ele e isto é algo i " eu era c r i a n ç a . Assim, decidi tomar aulas de canto com esta
que nenhum menino pode realizar a contento. pl " l o ' . M i r a para ver o que seria possível. Ela assegurou-me de com-
i " ' ' nder meus problemas e, j á que as aulas seriam particulares,
Percebi que nunca conseguira resolver completamente esta " i " haveria o menor problema em chorar caso sentisse vontade.
s i t u a ç ã o edípica pois, sem dúvida, tratava-se dela. Meu pai era o
Pui para a aula com uma e x c i t a ç ã o considerável. Começou
rei c r i a n ç a que eu n ã o conseguia destronar, de modo que me res-
i ' 'iido me emitir um som qualquer, espontâneo, livre. Depois
tava permanecer como o pequeno príncipe, pleno de promessas,
i .mb'i uma palavra — "diabolo" — algo que permitiu-me abrir
mas inexoravelmente preso a um papel s e c u n d á r i o .
ha garganta e vocalizar plenamente. Deixei-me i r sem reser-
Quando relatei a s i t u a ç ã o e descrevi-me nestes termos, soube I l i Comecei a andar pela sala e a encenar o canto. Minha voz
de repente que a coisa tinha acabado. E r a o passado. Tudo que In "ii mais solta. Num certo momento, emiti um som que saiu t ã o
eu precisava para me libertar era desamarrar aquele arame que naturalmente, t ã o cheio, que parecia que eu era o som, que o som
unia meus tornozelos. Meu pai falecera j á h á vários anos. Sem e r a eu. O som reverberou a t r a v é s de todo meu ser. Meu corpo
que tivesse pensado a esse respeito, sabia que, daquele momento permaneceu num estado contínuo de v i b r a ç ã o .
em diante, eu era o r e i e, como é natural para reis, eu poderia
tranquilamente andar de c a b e ç a erguida. Para minha surpresa, n ã o senti vontade de chorar nem uma
Simplesmente me abri e deixei a coisa acontecer. Eu sabia
A i n t e r p r e t a ç ã o terminava nesse ponto, e n ã o dei mais a t e n ç ã o Que poderia cantar, pois alguns sons tinham uma qualidade musi-
ao assunto porque agora eu sabia onde tinha os p é s . Sem t a m b é m cal muito bonita. Quando deixei a aula, senti uma alegria intensa
pensar mais nisso, descobri um dia que a dor no pescoço tinha " vivida em muito poucas ocasiões. Evidentemente, continuei fre-
desaparecido, e nunca mais voltou. quentando as aulas. Menciono esta e x p e r i ê n c i a porque estou certo
A partir daquela época tomei consciência de ter uma atitude de ter tido um papel relevante para o p r ó x i m o passo. No decurso
diferente nas r e l a ç õ e s com as pessoas. Algumas pessoas comen- do ano seguinte, n ã o dei muita a t e n ç ã o a meus sonhos, apesar de
taram a t é sobre m u d a n ç a s . Segundo eles, tornei-me mais delicado, não estarem muito afastados do nível de minha consciência.
mais fácil de tratar, menos desafiador, menos insistente para que Pensava neles apenas de vez em quando e t a m b é m em meus pais.
minhas ideia fossem aceitas. Antes desse tempo, minha luta era por Então, certo dia, aconteceu: soube quem era o r e i c r i a n ç a . E r a
reconhecimento; queria ser reconhecido como homem, n ã o como O meu c o r a ç ã o . O segundo sonho assumiu um significado inteira-
menino; como rei, n ã o como príncipe. Mas n i n g u é m poderia pres- mente diverso: eu t r a í r a meu c o r a ç ã o . Deixando de confiar nele,

98 99
havia encerrado este ó r g ã o dentro de uma r í g i d a caixa t o r á c i c a . i ' p a r t e s de meu corpo que s ã o aspectos da minha personali-
0 " e u " de meu sonho era meu ego, minha mente consciente, meu llitdi A i n t e r p r e t a ç ã o anterior era de tendência mais freudiana,
intelecto. Sendo assim, "eu", o intelecto, era o conselheiro sábio i mi ideio a m b a s corretas, só que a última é mais abrangente que
que organizava tudo para o benefício do rei aprisionado, infantil. I primeira. Reconheço e admito que os sonhos encontram-se sub-
Quando entendi que era o r e i , n ã o tive mais dúvidas da cor- llii lidos a v á r i a s i n t e r p r e t a ç õ e s e que todas s ã o válidas na medida
r e ç ã o desta i n t e r p r e t a ç ã o . É óbvio que o c o r a ç ã o é o r e i , ou de- • MI que esclarecem o s comportamentos e as atitudes do sonhador.
veria sê-lo. Durante anos eu advogara a ideia de que devemos o insight derivado de meus s o n h o s deixou-me ainda com o pro-
ouvir nosso c o r a ç ã o e segui-lo. O c o r a ç ã o é o centro ou essência lili m a d a rigidez do peito. As tensões musculares tinham de ser
da vida e sua regra principal é o amor. É t a m b é m um b e b é , pois tli i o n t r a í d a s para que eu pudesse soltar meu c o r a ç ã o . O insight
o c o r a ç ã o n ã o envelhece. Os sentimentos do c o r a ç ã o de um b e b é decorrente do sonho n ã o abriu meu c o r a ç ã o mas, sem dúvida,
e os do c o r a ç ã o de uma pessoa mais velha s ã o os mesmos — o di inlistruiu o caminho para t a l m u d a n ç a .
amor, ou a dor de ser incapaz de amar. Mas, apesar de eu pro-
Trata-se de uma tese importante, dentro da bioenergética, a
clamar este princípio, eu mesmo n ã o o seguia completamente.
til que m u d a n ç a s na personalidade s ã o condicionadas pelas mudan-
Tinha usado a e x p r e s s ã o " r e i c r i a n ç a " com uma qualidade de-
• nus funções corporais, a saber: r e s p i r a ç ã o mais profunda, mo-
preciativa, como se a maturidade fosse a função do intelecto.
n i i i l i d e acentuada, expressividade mais solta e mais integral.
Além disso, ainda n ã o tinha perdoado a minha m ã e pela dor que I

me havia causado e que meu c o r a ç ã o teria desculpado sem hesi- 'In r e s p e i t o a estas funções, a rigidez de meu peito representava
t a ç õ e s . Sem dúvida, eu tinha t r a í d o o r e i e ele havia assumido iiin.i limitação de minha pessoa. Tinha tido consciência dessa
toda sua autoridade: " F o r a com este c o r a ç ã o " , ordenou, " n ã o rigidez j á h á algum tempo e inclusive a trabalhara. O meu mas-
preciso de um conselheiro falso como este". Ista, a l é m disso, era treinado em b i o e n e r g é t i c a e tinha tentado
ultar os músculos da caixa t o r á c i c a . Os resultados tinham sido
Até certo ponto, t a m b é m , eu estava certo. N ã o havia real- I I I . I e nulos. M e u peito tensionava-se à menor p r e s s ã o que lhe
mente t r a í d o meu c o r a ç ã o , pois o protegia e agia em seu melhor fosse aplicada; independente de toda a minha vontade de ceder,
interesse. Como isto lembrava-me minha m ã e , naquele momento. ennseguia render-me. Esta s i t u a ç ã o começou a mudar no
H á , p o r é m , uma verdade nisso tudo. Tinha provado a dor do cora-
• Urio do último ano.
ç ã o partido por causa de uma t r a i ç ã o quando era ainda c r i a n ç a .
Esta m u d a n ç a consistia numa p e r c e p ç ã o da diminuição da
V i minha m ã e voltar-se para m i m cheia de r a i v a , quando tudo que
II r , i n i c i a . Sentia que se a p r e s s ã o fosse exercida agora, eu teria
eu lhe pedia era ficar a seu lado. Estivera e n t ã o protegendo meu
• IHiilições de entregar-me. Sendo orientado por esta s e n s a ç ã o , por-
c o r a ç ã o para que n ã o ficasse sendo magoado outras vezes, com
ia nio, pedi a um terapeuta bioenergético que fizesse uma p r e s s ã o
tanta intensidade. Infelizmente, essa p r o t e ç ã o assumiu a forma
de um aprisionamento, de um fechamento no canal de comuni- ligeira, r í t m i c a , sobre a parede t o r á c i c a , enquanto eu me inclinava
c a ç ã o entre o c o r a ç ã o e o mundo, e meu pobre c o r a ç ã o estava obre a cadeirinha de respirar. Quando ele procedeu conforme a s
definhando a t é morrer. Estava destinado a sofrer um ataque Instruções, comecei a chorar; o choro foi gradualmente se apro-
cardíaco. i l i n d a n d o a t é tornar-se um som agonizante que saía cheio pela
M a r g a r i t a . Senti que este som estava vindo da dor de meu c o r a ç ã o ,
Minha c a b e ç a n ã o entrou em pane e meu c o r a ç ã o n ã o sofreu de desejo de amar e de ser amado que, ao longo de todos esses
um ataque. Fiquei l i v r e quando percebi, no sonho, que a barra s, eu viera controlando. Para minha surpresa, os soluços ago-
de ferro n ã o era s e n ã o um arame muito fino, que apenas uma I I I antes n ã o duraram muito tempo. Subitamente comecei a r i r e
ilusão me atava pelos p é s . J á poderia ter-me libertado quando
um sentimento alegre espalhou-se por todo meu corpo. Esta expe-
quisesse. Mas a t é que eu tivesse ficado a par de n ã o ser mais
i H ncia fez-me sentir t o d a a proximidade existente entre as lágri-
que uma ilusão e distinguir daí a realidade, a ilusão agiu com toda
m a s e o riso. Esta alegria representava o f a t o de que, naquele
a f o r ç a e se sobrepôs ao real.
Instante p e l o menos, meu peito estava solto e meu c o r a ç ã o aberto.
Todo r e i precisa de conselheiros. Todo c o r a ç ã o precisa de Contudo, n ã o é uma única e x p e r i ê n c i a que nos transforma
uma c a b e ç a que lhe d ê os olhos e os ouvidos, de modo a poder e m pessoas novas. O processo teve de ser repetido muitas e
entrar em contato com a realidade. Mas n ã o permita que a cabe- muitas vezes. Pouco tempo depois desta e x p e r i ê n c i a , tive uma
ç a assuma o governo; isto é t r a i r o seu c o r a ç ã o . n a ç ã o semelhante a um outro procedimento. Minha esposa e eu
Esta nova i n t e r p r e t a ç ã o de meus sonhos pode ser denominada e s t á v a m o s praticando alguns exercícios de b i o e n e r g é t i c a , certo
de interpretação bioenergética, pois refere-se à i n t e r a ç ã o d i n â m i c a domingo pela m a n h ã ; meus ombros estavam presos, e n t ã o pedi a

100 101
ela que trabalhasse neles um pouco. A á r e a mais dolorosa era i para viver uma vida mais cheia de energia, com senti-
a situada no ângulo entre o pescoço e os ombros, perto do ponto em iiii ni os e sensações mais poderosos e com uma maior e mais
que os músculos escalenos inserem-se nas costelas superiores. i i capacidade de a u t o - e x p r e s s ã o .
Estava sentado no chão e ela d e b r u ç a v a - s e sobre m i m . Pressionou
nesta á r e a com os punhos e a dor era insuportável. Rompi em
' cncia da terapia
soluço de profunda intensidade. E, novamente, depois de um
minuto mais ou menos, irrompeu a risada da d e s c o n t r a ç ã o , tendo
voltado o sentimento muito alegre da outra e x p e r i ê n c i a . Minha e x p e r i ê n c i a pessoal de autodescobrimento, desde a é p o c a
• ni que tive minha primeira sessão t e r a p ê u t i c a com Reich a t é o
No resumo das minhas e x p e r i ê n c i a s dos últimos cinco anos, |M'i ente, abrange um período de trinta anos. À vista das expe-
sou levado a t i r a r algumas conclusões. A primeira confirma a is descritas no capítulo antecedente, poderia dizer que levei
ideia j á expressa de que a terapia é um processo de crescimento i c r e a de trinta anos para atingir meu c o r a ç ã o . Isto, contudo, n ã o
e de desenvolvimento i n t e r m i n á v e l . O trabalho com o terapeuta | i pura verdade. M e u c o r a ç ã o foi atingido muitas vezes no de-
l a n ç a as bases deste evoluir constante, ao mesmo tempo em que • ni n desse período. Estive profundamente enamorado e, na ver-
põe em marcha forças i n t r í n s e c a s à personalidade, cuja função .1 u l e , ainda estou. V i v i a e x p e r i ê n c i a da alegria amorosa ante-
é ampliar e expandir todos os aspectos do self (autopercepção, plormente. Havia, entretanto, uma diferença, no final dos trinta
auto-expressividade e autodomínio). Estas forças operam tanto a mos. No passado, meu c o r a ç ã o fora atingido por a l g u é m ou por
nível consciente quanto inconsciente. Os sonhos s ã o uma mani- • li nina coisa fora de m i m : uma pessoa, uma c a n ç ã o , uma e s t ó r i a ,
f e s t a ç ã o da o p e r a ç ã o destas forças a nível inconsciente. A nível i ' Sinfonia de Beethoven e assim por diante. Meu c o r a ç ã o se
consciente, a pessoa tem de comprometer-se com as m u d a n ç a s , ou
ibl ia mas tornava a se fechar em seguida, pois eu sentia medo e
seja, manter-se crescendo e evoluindo.
li hava que devia protegê-lo. Agora este temor desapareceu e meu
Uma segunda conclusão é a de que o compromisso de crescer OOração permanece relativamente aberto.
envolve uma compromisso com o corpo. Muitas pessoas hoje em I Jurante os trinta anos em que venho praticando terapia bio-
dia estão fascinadas pelo ideia de crescer; o movimento a favor • nergetica, t a m b é m aprendi bastante a respeito das pessoas, sobre-
do potencial humano baseia-se nesta ideia e adota um grande tudo ao trabalhar com pessoas. De algum modo, suas lutas pessoais
n ú m e r o de atividades que t ê m por objetivo a evolução da perso- • oiiiclhavam-se à s minhas e, ajudando-as, estava igualmente aju-
nalidade. Estas atividades podem ser benéficas mas, ignorando-se dando a mim mesmo. E s t á v a m o s em busca de um mesmo objetivo,
o corpo, podem igualmente transformar-se em jogos talvez inte- apesar de poucos de nós termos ciência dele. F a l á v a m o s de nossos
ressantes, mesmo divertidos, mas n ã o processos sérios de cresci- temores, de nossos problemas e de nossos bloqueios sexuais, mas
mento. O self n ã o pode divorciar-se do corpo e a a u t o p e r c e p ç ã o nao fazíamos qualquer m e n ç ã o ao nosso medo de abrir os cora-
não pode separar-se da consciência corporal. Para m i m , pelo " . e assim mantê-los. Minhas perspectivas reichianas orienta-
menos, o caminho do crescimento é estar em contato com meu yi ne no sentido de atingir a potência o r g á s t i c a — algo válido,
corpo e entender o que ele diz. nem dúvida — mas as ligações entre um c o r a ç ã o aberto, a capa-
A terceira conclusão introduz uma nota de humildade a esta ' idade de amar profundamente e a potência o r g á s t i c a n ã o eram
discussão. N ã o podemos nos transformar por um esforço da von- enfatizadas.
tade. Seria o mesmo que tentarmos sair do c h ã o puxando-nos pelos Estas conexões, p o r é m , j á me eram conhecidas por algum
cordões dos sapatos. A m u d a n ç a a c o n t e c e r á quando estivermos ii o i p o . A tese central de Love and Orgasm ("Amor e Orgasmo"),
prontos para t a l , desejosos e capazes de mudarmos. N ã o pode publicado em 1965, é a de que o amor é a condição sine qua non
ser algo forçado. O processo de m u d a n ç a c o m e ç a pela auto- p u a uma resposta o r g á s t i c a plena. Amor e sexo eram e n t ã o igua-
2
a c e i t a ç ã o ' ' e pela a u t o p e r c e p ç ã o e, evidentemente, com o desejo l a d o s , na medida em que o sexo é entendido como uma demons-
de mudar. E, no entanto, portentoso o medo de mudar. Por exem- i i a ç ã o de amor. N ã o obstante, este livro abordava especifica-
plo, meu medo de morrer de um ataque do c o r a ç ã o . Devemos m e n t e problemas sexuais e apenas de maneira incidental tocava
aprender a ser pacientes e a adquirir t o l e r â n c i a ; estes s ã o fenó- nus medos das pessoas e nas suas incapacidades para abrir o cora-
menos corporais. O corpo v a i desenvolvendo gradualmente a tole- ç ã o ao amor. N ã o tenho d ú v i d a s de que fosse meu p r ó p r i o medo
0 motivo de eu n ã o ter tratado esse tema de modo mais extenso,
2) L o w e n Pleasure, op. cit., explica a i m p o r t â n c i a da auto-aceitação para o '"'inente depois de ter solucionado meu próprio medo pude chegar
processo t e r a p ê u t i c o . a o â m a g o do problema t e r a p ê u t i c o .

1Ò2 103
A essência é o c o r a ç ã o . E m latim, cor significa c o r a ç ã o . 0 i i i . . amadas podem ser resumidas como segue, a partir da
termo " c o r o n á r i a s " reflete este significado. a In mais externamente: camada do ego, contendo as defesas
Devemos admitir que o c o r a ç ã o é, talvez, o órgão mais sensí- .1, i . constituindo a camada mais aparente da personali-
vel do corpo. Nossa existência está dependente de sua atividade i nli \ . defesas típicas do ego s ã o :
estável, r í t m i c a . Quando este ritmo sofre uma a l t e r a ç ã o mesmo
que m o m e n t â n e a , por exemplo, uma breve parada c a r d í a c a ou n ni'gur
uma taquicardia, sentimos ansiedade no centro de nosso ser. Uma
pessoa que j á passou pela experiência de uma t a l ansiedade i. desconfiar
no início de sua vida d e s e n v o l v e r á um "grande n ú m e r o de defesas i culpar
para proteger o c o r a ç ã o dos perigos de outro distúrbio de seu fun
cionamento. N ã o i r á p e r m i t i r que seu c o r a ç ã o seja atingido fácil d projetar
mente e n ã o r e s p o n d e r á ao mundo com base no seu c o r a ç ã o . Estas
racionalizar e intelectualizar.
defesas v ã o se tornando elaboradas no decurso da vida a t é for-
marem, finalmente, uma poderosa barreira contra qualquer
tentativa de vê-lo tocado. Dentro de uma terapia levada a bom \ rumada muscular, onde se encontram as tensões muscu-
termo, estas defesas s ã o estudadas, analisadas em suas relações nuas suportivas e justificadoras das defesas do ego, pro-
à s e x p e r i ê n c i a s individuais daquela vida e cuidadosamente traba 10 mesmo tempo, a pessoa contra a camada subjacente dos
lhadas em toda sua extensão, a t é que o c o r a ç ã o da pessoa seja por mentos e s e n s a ç õ e s reprimidas, que n ã o ousa expressar.
fim alcançado. \ minada emocional de sentimentos inclui as emoções reprimi-
P a r a tanto, as defesas t ê m de ser entendidas como um pro i i de raiva, pânico ou terror, desespero, tristeza e dor.
cesso de desenvolvimento. Pode-se explicar bem este pormenor
• i centro ou coração, do qual decorrem os sentimentos de amar
a t r a v é s de um diagrama que evidencia a deposição de camadas
defensivas como círculos concêntricos: • de ser amado.

A abordagem t e r a p ê u t i c a n ã o pode limitar-se apenas à p r i -


a camada, conquanto ela seja importante. Embora possamos
lar o indivíduo a tomar consciência de suas t e n d ê n c i a s a negar,
projetar, culpar e racionalizar, esta consciência a nível inte-
lectual dificilmente a f e t a r á as tensões musculares ou l i b e r t a r á
enlimentos reprimidos. Esta é exatamente a fraqueza de uma
lagem meramente verbal, dado que, por sua natureza, limi-
i i o exclusivamente à primeira camada. Se as tensões muscu-
I H . S não s ã o afetadas, a p e r c e p ç ã o consciente pode degenerar
, lo rápido num tipo diferente de r a c i o n a l i z a ç ã o , com uma forma
i oncomitante e alterada de n e g a ç õ e s e projeções.
0 fracasso de terapias verbais para produzir a l t e r a ç õ e s sig-
ini nativas na personalidade é r e s p o n s á v e l por um interesse cada
. maior pelas abordagens não-verbais e corporais. A t e n d ê n c i a
comum a muitas destas novas formas de terapia é evocar e libe-
i o sentimentos reprimidos. A ênfase, geralmente, é conseguir
o paciente se estoure de gritar. N ã o é muito r a r o t a m b é m
.1 indivíduo sentir sua tristeza, sua raiva e exprimir seus dese-
jos mais secretos.
Gritar é algo com um efeito poderoso, sobre a personalidade,
mu lermos de catarse. Durante muito tempo foi a t é c n i c a - p a d r ã o

105
da bioenergética. O grito é como uma explosão dentro da pessoa, . sfio condicionadas pela c o u r a ç a ou rigidez do corpo. E, nos
em sua personalidade, que por um momento põe por terra a rigi- oportunos, pode-se atingir e dar v a z ã o aos sentimentos
dez criada pelas tensões musculares c r ó n i c a s e que invalida as l<ii| los ao mobilizar os músculos contraídos que restringem
defesas do ego, a nível da primeira camada. Chorar e soluçar I hl n a m sua m a n i f e s t a ç ã o . Por exemplo, tensões musculares
profundamente produzem efeitos semelhantes conforme suavizem nrganta estão impedindo a pessoa de gritar; aplicando-se
e d e s f a ç a m a rigidez do corpo. A l i b e r a ç ã o da r a i v a é t a m b é m pressão firme, com os dedos, aos músculos escalenos ante-
positiva quando está sob controle e na s i t u a ç ã o t e r a p ê u t i c a . Nestas l'Iiin que correm ao longo do pescoço, enquanto a pessoa emite
condições, n ã o é uma r e a ç ã o destrutiva, mas pode ser integrada alto, é frequente que esse som transforme-se num grito.
ao ego do indivíduo, ou seja, pode tornar-se um sintoma do ego. i h c m cerai, se m a n t é m mesmo depois que a p r e s s ã o j á foi
J á o medo é mais difícil de evocar e mais importante para ser irompida, principalmente quando h á necessidade de g r i t a r .
eliciado. Se o pânico e o terror n ã o forem trazidos à luz e tra Depois do grito, deve-se pesquisar a primeira camada para se
balhados extensamente, o efeito c a t á r t i c o da soltura dos gritos, ili o a que se relacionava esse grito e por que havia sido
da raiva e da tristeza t e r á curta d u r a ç ã o . Enquanto o paciente m reprimi-lo. Deste modo, todas as t r ê s camadas ficam
não conseguir enfrentar o medo e entender as r a z õ e s para tanto, ilvidas na a n á l i s e e na e l a b o r a ç ã o da posição defensiva. Ao
c o n t i n u a r á a gritar, a chorar e a ter raiva, pouco mudando em i manter o foco sobre o problema corporal, neste caso uma gar-
sua personalidade. T e r á e n t ã o substituído um processo c a t á r t i c o n i -i tensa e c o n t r a í d a , o procedimento muda de uma manobra
por outro de natureza inibidora, sem ter alterado seus rumos de imente c a t á r t i c a para um processo de abertura dirigida para
maneira significativa na d i r e ç ã o do crescimento. P e r m a n e c e r á •• • i • saimento.
aprisionado entre as forças inibidoras — que n ã o t e r á compre-
N.io é n e c e s s á r i o que eu acentue o fato de que trabalhar com
endido e muito menos elaborado — e o desejo de obter uma libe-
. h H . o r s musculares exclusivamente, sem a análise das defesas
ração catártica momentânea.
liiicas o sem a e v o c a ç ã o dos sentimentos reprimidos, n ã o
N ã o obstante, é importante para a terapia que os sentimentos i oinpoc um processo t e r a p ê u t i c o . Trabalhos corporais como mas-
reprimidos tenham p e r m i s s ã o para se exprimir. Os leitores fami e ioga t ê m um valor positivo mas n ã o s ã o especificamente
liarizados com meus outros textos sobre b i o e n e r g é t i c a sabem que h i ipêuticos em si. No entanto, a nosso ver, é t ã o importante que
uma de nossas políticas constantes é pôr a nu e ventilar tais sen- nl i pessoa se mantenha em contato com seu corpo e reduza seu
timentos, uma vez que sua l i b e r a ç ã o deixa disponível a energia cl de tensão que encorajamos todos os nossos pacientes a pra-
n e c e s s á r i a para o processo de m u d a n ç a . Tem-se de retomar tais I . m os exercícios bioenergéticos individualmente ou em grupo,
sentimentos repetidamente para tornar disponível a energia neces- • i inibém a submeterem-se a massagens.
s á r i a ao crescimento. Assumamos, para os propósitos desta discussão, que é pos-
No meu ponto de vista, trabalhar apenas com a terceira cama i I eliminar todas as posições defensivas da personalidade.
da n ã o i r á produzir os resultados desejados. O fato de n ã o su i i m m é que viveria um indivíduo s a u d á v e l ? Como é que nosso
analisar as duas primeiras n ã o as tira de cena, pois e s t a r ã o ino HM Ï u n a ficaria?
per antes enquanto durar o efeito c a t á r t i c o . No entanto, quando Continuariam existindo as quatro camadas, com a d i f e r e n ç a
a pessoa tiver voltado outra vez ao mundo e novamente agir como i. une agora n ã o seriam mais defensivas e sim coordenadas e
adulto r e s p o n s á v e l , r e a t i v a r á suas defesas. N ã o h á outro meio dt i pressivas. Todos os impulsos fluiriam a partir do c o r a ç ã o , ou
a ç ã o , posto que o modo regressivo ou c a t á r t i c o é inapropriado além i i i a pessoa poria o c o r a ç ã o em tudo o que fizesse. Significa
da s i t u a ç ã o t e r a p ê u t i c a . Poderia parecer lógico trabalhar a pri que gostaria de fazer tudo que fizesse, fosse trabalho, diverti-
meira e a terceira camadas, dado que se complementam — a iii. ni o ou sexo. Responderia assim, emocionalmente, a todas as
primeira lidando com as defesas intelectuais e a terceira com as a n u oes e estas respostas sempre t e r i a m uma base sentimental.
defesas emocionais. Mas esse a m á l g a m a é de difícil obtenção, 1'oderia mostrar-se zangada, amedrontada ou alegre, dependendo
dado que apenas a t r a v é s da camada das tensões musculares é ï. situação. Estes sentimentos representariam respostas genuí-
que se pode conseguir uma ligação direta entre elas. ii i u m a vez que estariam isentos da c o n t i n u a ç ã o provocada por
Se o trabalho for empreendido a nível da segunda camada, . n . reprimidas e derivadas das e x p e r i ê n c i a s da meninice.
pode-se entrar pela p r i m e i r a ou pela terceira toda vez que n c c e s I uma vez que a camada muscular estaria livre das tensões cró-
sário. Sendo assim, o trabalho com as tensões musculares |>ode n i c a s , a s a ç o e s e movimentos seriam graciosos e eficientes. Por
auxiliar a pessoa a entender como é que suas atitudes . . i < .>l<> (
, , lado, reflctiriam os sentimentos e, p o r outro, estariam subme
m
tidos ao controle do ego. Seriam, portanto, tanto apropriados Ansiedade
quanto coordenados. A qualidade b á s i c a de uma pessoa assim
seria de bem-estar e n ã o de mal-estar; o estado de espírito básico A s defesas psíquicas e s o m á t i c a s , discutidas na s e ç ã o pre-
seria o bem-humorado. Seria uma pessoa alegre ou triste, con i edente, t ê m a função primordial de resguardar a pessoa dos
forme ditassem as c i r c u n s t â n c i a s , mas todas as suas manifes- • i i o ues d e ansiedade. A ansiedade mais severa e s t á associada
t a ç õ e s reativas teriam alguma coisa sentimental. M algum distúrbio no funcionamento do c o r a ç ã o . J á mencionei
o i i o s que qualquer irregularidade do ritmo c a r d í a c o em geral,
i - ni o s l e efeito. É igualmente verdade que qualquer o b s t r u ç ã o
(lo processo r e s p i r a t ó r i o produzirá ansiedade. Aquele que j á ob-
irvou uma pessoa a s m á t i c a lutando para tomar ar pode ava-
l i o a ansiedade extrema resultante de alguma dificuldade respi-
I CAMADA DO EGO-CONSCIENTE IMPULSO i iiona. Podemos postular, em termos amplos, o conceito de que
qualquer conjunto de c i r c u n s t â n c i a s que interfira na o p e r a ç ã o das
i unções vitais a um organismo d a r á margem à ansiedade. A res-
o n a ç ã o é praticamente t ã o importante para o organismo quanto
• II CAMADA MUSCULAR
i ou-culação.
A conexão entre dificuldade r e s p i r a t ó r i a e ansiedade j á era
III CAMADA do conhecimento de Freud. E m meu último livro, Depression and
EMOCIONAL ())
ih*- ltody , cito uma o b s e r v a ç ã o de Ernest Jones, o biógrafo de
Freud, que assinala essa p e r c e p ç ã o por parte deste: " N u m a
• /IV CENTROv l o l a feita um ano depois, Freud t a m b é m comentava que a ansie-
d a d e , na qualidade de resposta a obstáculos à r e s p i r a ç ã o — ati-
, % AMOR I p l a d o esta que n ã o tem e l a b o r a ç ã o psíquica alguma — poderia
• * V » I £ • tornar-se a m a n i f e s t a ç ã o de qualquer a c ú m u l o de t e n s ã o " . Tra-
• luz indo a linguagem t é c n i c a da p s i c a n á l i s e , isto quer dizer que
\ a % \ CORAÇÃO / § g i
0 acúmulo de t e n s ã o produziria um obstáculo à r e s p i r a ç ã o e pro-
\ * # ' I p i c i a r i a ansiedade. Infelizmente, nem Freud nem os psicanalistas
tradicionais t r i l h a r a m esse caminho que poderia ter conduzido a
\ PRAZER ^ '
u n i a c o m p r e e n s ã o biológica da personalidade conturbada. Esta
v
ALEGRIA
, " / c o n e x ã o , descoberta por Reich e por ele apenas estudada, tor-
v AÇAO EFICAZ COORDENADA / nou se a base da abordagem t e r a p ê u t i c a que levou à b i o e n e r g é t i c a .
x
N GRACIOSA Uma outra pista a respeito da natureza da ansiedade foi
Fornecida por Rollo M a y , que remontou as origens da palavra
1. AUTOPERCEPÇAO
2. AUTO-ASSERTIVIDADE ansiedade" à raiz g e r m â n i c a Angst, que significa " u m a p e r t ã o
3. AUTODOMÍNIO nos estreitos". Os estreitos podem ser, por exemplo, o p r ó p r i o
parto pelo qual ninguém deixa de passar para uma existência
independente. Pode ser uma passagem feita sob o peso de uma
forte ansiedade, dado que representa a t r a n s i ç ã o para a respi-
• o a o independente, por parte do novo organismo. Qualquer difi-
Falo de um ideal quando descrevo a l g u é m assim. Embora culdade que um m a m í f e r o tenha para o estabelecimento de uma
ninguém consiga atingir esse estado, n ã o estamos assim t ã o embu- r e s p i r a ç ã o independente põe sua vida em risco e produz um estado
tidos em nós mesmos que nossos c o r a ç õ e s n ã o possam ter um ii aológico de ansiedade. Os estreitos podem referir-se, por outro
momento de alegria quando e s t ã o abertos e livres. Quando o cora- lado, ao pescoço, esta estreita passagem entre a c a b e ç a e o resto
ç ã o está absolutamente fechado para o mundo, p a r a r á de bater
e a pessoa m o r r e r á . É uma pena observarmos a quantidade de 3) Será brevemente publicado pela Summus, com o título O Corpo em
c a d á v e r e s que perambulam à nossa volta. i opressão. ( N . da T . )

108 109
do corpo, passagem pela qual veicula-se o ar para os pulmões e i i diafragma e s t á disposto exatamente acima da cintura, isto
o sangue para a c a b e ç a . U m estrangulamento na r e g i ã o é tam- li Ima de outra passagem ou estreito. A cintura por sua vez,
b é m uma a m e a ç a direta à vida e resulta em ansiedade. tórax ao a b d ó m e n e este à pelve. Os impulsos passam atra-
Tive oportunidade de presenciar um incidente d r a m á t i c o de lieste estreito para a metade inferior do corpo. Qualquer
estrangulamento e s p o n t â n e o e de verificar a ansiedade extrema ..i, ,10 dessa á r e a estancaria o fluxo de sangue e de senti-
por ele eliciada. Aconteceu durante a primeira consulta de uma itos para o aparelho genital e para as pernas, produzindo ansie-
paciente; estava deitada sobre a cadeirinha de respirar e dei- i ide e o medo de cair e a r e s p i r a ç ã o fica em suspenso.
xando que sua r e s p i r a ç ã o fosse se tornando cada vez mais pro- \ questão que surge é a seguinte: quais s ã o os impulsos blo-
funda e plena. De repente ela se sentou de um pulo só, em esta- • i ui udos a nível da cintura? A resposta, naturalmente, é: os im-
do de pânico absoluto, dizendo com voz sufocada: " n ã o consigo i ni os sexuais. As c r i a n ç a s aprendem a controlá-los contraindo a
respirar, n ã o consigo respirar". Assegurei-a de que ela voltaria barriga e erguendo o diafragma. As mulheres da era vitoriana
a ficar bem e em menos de um minuto ela irrompeu em soluços • .o eguiam o mesmo objetivo vestindo espartilhos, que compri-
profundos e torturados. No momento em que começou a chorar, inInm a cintura e impediam os movimentos d i a f r a g m á t i c o s . A
sua r e s p i r a ç ã o voltou a ficar fácil. E r a óbvio para m i m o que oi iledade sexual, assim, está intimamente relacionada a uma obs-
havia acontecido. Sem que houvesse antecipado uma liberação |,i ' i< .10 da r e s p i r a ç ã o , ou nas palavras de Rollo May, a " u m
de emoções, a m o ç a havia relaxado seu peito e aberto sua gar- iperfão nos estreitos".
ganta, o que teve por resultado um poderoso impulso para chorar
Tratava-se de uma proposição b á s i c a de Reich a de que a
que se avolumou no local. Este impulso provinha de uma pro-
.o H idade sexual está presente em todos os problemas neuróticos.
funda tristeza encerrada no t ó r a x . Sua r e a ç ã o inconsciente fora
Nn bioenergética, temos encontrado fatos que validam esta pro-
a de tentar sufocá-lo, que acabou sendo um sufocar de sua
I. ão em inúmeros casos. Numa época de sofisticação sexual
respiração.
esta, não s ã o poucos os pacientes que buscam terapia quei-
No primeiro capítulo, mencionei como libertei um grito, sob iiHlo s e de ansiedade sexual. No entanto, os distúrbios sexuais
c i r c u n s t â n c i a s similares, em minha terapia pessoal com Reich. ... u n i a queixa comum. Subjacente a tais problemas, manifesta-se
Se tivesse procurado, naquela ocasião, bloquear o grito, tenho cer- n i n a profunda ansiedade que n ã o chega ao nível da consciência,
teza de que teria me estrangulado com isso e entrado em pro- nos que seja reduzida a t e n s ã o que circunda a cintura. Da
funda ansiedade. Após a l i b e r a ç ã o do choro da minha paciente, mesma forma, a maioria dos pacientes n ã o tem consciência de
que persistiu por um certo tempo, sua r e s p i r a ç ã o ficou mais pro- n i ansiedade r e s p i r a t ó r i a . O que descrevi antes; o paciente não
funda e solta do que antes do incidente. Tenho visto muitos I n i b a percebido que a ansiedade relacionava-se à r e s p i r a ç ã o . O
pacientes sufocando sentimentos que se avolumam quando suas paciente tinha conseguido manter a ansiedade abaixo do nível da
gargantas se abrem e sua r e s p i r a ç ã o torna-se mais profunda. i onsciência na medida em que n ã o abria sua garganta e nem res-
Essa s u f o c a ç ã o sempre vem acompanhada pela definição dada pirava completamente. F o i só no momento em que tentou fazê-lo
por M a y à ansiedade, demonstrando ao mesmo tempo o meca- aue a ansiedade apareceu. As pessoas em geral defendem-se
nismo a t r a v é s do qual as tensões do pescoço e garganta criam dessa mesma forma da ansiedade sexual, na medida em que n ã o
obstruções à r e s p i r a ç ã o que terminam em ansiedade. permitem que os sentimentos sexuais inundem a pelve. Por inter-
Um conjunto semelhante de tensões musculares localizado no médio de uma constrição a nível da cintura, l i m i t a m o senti-
diafragma e ao redor da cintura pode obstruir eficientemente a m e n t o do amor ao c o r a ç ã o , impedindo que venha a estabelecer
r e s p i r a ç ã o , na medida em que limita o movimento do diafragma. . i in la to direto com a e x c i t a ç ã o dos ó r g ã o s genitais. Os sentimen-
Este aspecto está amplamente documentado em estudos radio- toi de natureza sexual limitam-se aos genitais e a dissociação
(4)
l ó g i c o s . O diafragma é o principal músculo r e s p i r a t ó r i o e sua sofre o processo de r a c i o n a l i z a ç ã o a nível de ego, formando o con-
a ç ã o está em grande medida submetida à t e n s ã o emocional; ceito de que o sexo deve ser divorciado do amor.
reage a situações de medo a t r a v é s de c o n t r a ç õ e s . Quando estas
Acontece esporadicamente que sentimentos sexuais fortes,
passam a ser c r ó n i c a s , e s t á criada a p r e d i s p o s i ç ã o para a ansie-
oriundos do c o r a ç ã o , desenvolvam-se de modo espontâneo, ao passo
dade. Identifico esta ansiedade como ansiedade de cair, da qual
q u e as defesas ainda estão aparentemente intactas, tanto numa
tornarei a falar depois.
ai nação t e r a p ê u t i c a quanto fora dela. No primeiro capítulo indi-
q u e i que, em c i r c u n s t â n c i a s e x t r a o r d i n á r i a s , a pessoa pode pisar
4)_Carl Strough, Breath (Nova Y o r k , W i l l i a m M o r r o w , 1970). C o n t é m uma
discussão aprofundada do papel da tensão do diafragma nos d i s t ú r b i o s respiratórios noutro mundo" ou "sair fora de s i " . Essa i r r u p ç ã o de senti-

110 111
i pi Ivo cslão voltados para a entrega, a saber, a elimi-
• d' c \ i i . inontos e descarga sexual. Dentro da visão bio-
i i niisidcramos as pernas como ó r g ã o s de descarga na
M U que movimentam o organismo ou dão-lhe base de
i i i polaridade do funcionamento corporal é a e s s ê n c i a
i i " i l " (pic a extremidade cefálica e s t á à s voltas com pro-
cu conduzem ao incremento da carga ou e x c i t a ç ã o ener-
i" p.isso que a extremidade inferior volta-se para processos
in a descarga de energia.
o o Menção da vida depende tanto de um constante influxo
0 (na forma de alimento, exigência e e s t i m u l a ç ã o ) quanto
i equivalente de energia. Enfatizo agora que a
m o estado de equilíbrio relativo, dotado justamente de
1 i lose extra de energia gasta em crescimento e para as
i epindutoras. A ingestão insuficiente de alimentos pro-
¡\ azi a mento das reservas e n e r g é t i c a s a l é m de um retar-
on, processos vitais. Por outro lado, quando o nível de
o adequado, o resultado que se obtém logo é a ansie-
I i " pode eventualmente suceder na terapia, quando — em
lo di u n i a r e s p i r a ç ã o mais profunda — a energia ou e x c i t a ç ã o
uno cresce a um ponto t a l , que a pessoa teria de descar-
ii o i a . n a o tem condições de fazê-lo devido a inibições da
i \ idade que criam obstáculos à descarga emocional. A
irá nervosa e inquieta; este estado desaparece, p o r é m ,
sa soltar eficientemente o excesso de energia a t r a v é s
m do acesso de raiva. Quando a pessoa confronta a
ipm uladc de efetuar essa descarga, acaba por restringir sua
'• i ao
i ' " i a maioria das pessoas, a ansiedade é uma condição pas-
• produzida por uma certa s i t u a ç ã o que excite desmesu-
i le o corpo. Infelizmente, o nível de energia deste estado
ili equilibrio é muito baixo, daí a maioria das pessoas queixar-se
i i fadiga e de um c a n s a ç o crónicos. Elevar o nível da ener-
en o surgimento da ansiedade, intolerável para o indivíduo
mil i oí o auxílio de alguma forma de terapia. Essa ajuda
• h c m auxiliar a pessoa a compreender sua ansiedade e a
" i c g a r a e x c i t a ç ã o , por meio da e x p r e s s ã o dos sentimentos.
i aminho da auto-expressividade está desobstruído, o
i energético pode ser mantido num alto teor de e x c i t a ç ã o ,
I ni H I no resultado um corpo com uma vibrante vivacidade e
1
il iliui n i e responsável à vida.
i preciso enfatizarmos aqui um outro aspecto. A vida n ã o é
p e r a ç ã o passiva. U m organismo tem de se abrir e sair em
• i daquilo que precisa para poder obtê-lo. Isto vale tanto
oxigénio quanto para a a l i m e n t a ç ã o . No b e b é , ambas as
( r e s p i r a ç ã o e ingestão de alimento) utilizam o mesmo

115
i di d m Quando s ã o muito severas estas tensões, torna-se
mecanismo fisiológico: a s u c ç ã o . O b e b é suga o ar para os pui possível a pessoa chorar. Encontram-se tensões seme-
mões do mesmo modo que suga o leite para a boca e depois para lli n u . ombros, as quais dificultam igualmente uma e x t e n s ã o
o aparelho digestivo. Portanto, valendo-se de ambas as funções de i iln braços No nível emocional mais profundo, encontram-se
um só mecanismo, qualquer distúrbio numa delas a f e t a r á a outra. ilni uiiiimidos de tristeza, de desespero, de r a i v a , de
Considere o que acontece ao b e b é que é desmamado do seio "• lado de impulsos para morder, do medo e dos anseios
muito precocemente. A maioria dos b e b é s n ã o aceita de bom íntimos, Todas estas constelações t ê m de ser elaboradas antes
grado a perda de seu primeiro objeto de amor. Choram e pro- ii H IH da pessoa consiga abrir-se de novo completamente.
curam pelo seio tanto com as m ã o s quanto com a boca. É assim \iii MI disso tudo, a pessoa n ã o e s t á morta; seu c o r a ç ã o anseia
que expressam amor. Na medida em que s e r ã o frustrados nesta ii seus sentimentos exigem exprimir-se, seu corpo quer
tentativa, ficarão inquietos e caprichosos, chorando com raiva. II i Knzendo, p o r é m , qualquer movimento mais decidido neste
Este comportamento do b e b é evoca uma r e a ç ã o hostil na m ã e ; Ido mas defesas i r ã o estrangular os impulsos e lançá-la na
rapidamente, o b e b é percebe que deve restringir seus desejos. Essa li il i l i Na maioria dos casos, a ansiedade é t ã o aguda que
r e s t r i ç ã o é concretizada pela sufocação do impulso de sair em o i foge e se encerra no seu interior, mesmo que isso custe
busca do seio e do impulso de chorar. Os músculos do pescoço i' IIHixamento no nível de energia, a m a n u t e n ç ã o de seus dese-
e da garganta tornam-se contraídos a f i m de conter a abertura iii nível mínimo, e o levar uma vida p a r a l í t i c a . Viver com
e assim bloqueiam o impulso. A seguir, a r e s p i r a ç ã o fica com- In io estar totalmente vivo é o estado natural da grande
prometida, dado que a garganta fechada bloqueia igualmente o
impulso de sair em busca do ar e de sugá-lo. A íntima r e l a ç ã o
entre distúrbios da a m a m e n t a ç ã o e da r e s p i r a ç ã o foi documen-
tada por Margaret Ribble em seu livro intitulado The Rights o/
(i)
Infants (Os Direitos dos B e b é s ) .
Usei a s i t u a ç ã o da a m a m e n t a ç ã o como exemplo do processo
ativo de descoberta e de a c r i a n ç a sair em busca de algo a ser
ingerido. Descobrir e i r em busca de algo s ã o dois movimentos
de natureza expansiva por parte do organismo, em d i r e ç ã o a uma
fonte de energia ou de prazer. É a mesma a ç ã o que subjaz aos
movimentos de uma criancinha que busca contato com a m ã e ,
com um brinquedo quando for um pouco mais velha, com o ser
amado, j á na fase adulta. U m beijo afetuoso é uma a ç ã o de
mesmo teor. Quando a c r i a n ç a se vê f o r ç a d a a obstruir estas
ações, forma defesas a nível psíquico e muscular que inibem tais
impulsos. Com o passar do tempo, estas defesas tornam-se estru-
turadas no corpo formando tensões musculares c r ó n i c a s , e na
psique configurando as atitudes c a r a c t e r o l ó g i c a s . Ao mesmo
tempo, a l e m b r a n ç a da e x p e r i ê n c i a é reprimida, sendo criado um
ego ideal que coloca a pessoa acima do desejo de contato, de
intimidade, de s u c ç ã o e de amor.
Podemos ver, a t r a v é s deste exemplo, a conexão existente
entre os diversos níveis da personalidade. A nível do ego, a defe-
sa assume a forma de um ego ideal que diz: "Homem n ã o chora"
e de uma n e g a ç ã o : " N ã o quero isso de jeito nenhum". Este tipo
de defesa e s t á intimamente vinculado à s tensões musculares da
garganta e dos b r a ç o s , as quais impedem a abertura e o ir em

5) Margaret Ribble, The Rights of Infants (Nova Y o r k , Columbia Univer-


sity Press, 1948).
117
116
UM a esse tipo de dilema originam-se na infância, entre
i hlbos. As c r i a n ç a s consideram os pais como fonte de pra-
i i i o o nos com amor. Este é o p a d r ã o biológico normal na
ii que os pais s ã o a fonte de comida, de contato e de
o > s e n s o r i a l de que os filhos necessitam. Enquanto n ã o se
iri oi com f r u s t r a ç õ e s e sofrerem p r i v a ç õ e s , os b e b é s t e r ã o
IH', ou seja, t e r ã o a sua e s s ê n c i a pessoal. Isto, p o r é m ,
i loi .1 m i o l o em nossa cultura, na qual a p r i v a ç ã o do contato
d e us f r u s t r a ç õ e s s ã o elementos comuns, e onde o cres-
geralmente acompanhado de punições e de a m e a ç a s .
V. O Prazer: Uma Orientação Primária n l e , os pais n ã o s ã o apenas uma fonte de prazer; em
u i e i o | i o passam a estar vinculados, na mente da c r i a n ç a , à
i • i i i i l i d a d e d a dor. A ansiedade decorrente é, segundo minha
" i d o ver, o elemento r e s p o n s á v e l pela inquietude e pela
i . i l i v i d a d e demonstradas por tantas c r i a n ç a s . Cedo ou tarde,

Princípio do prazer io ativadas para abafar a ansiedade; o problema é


defesas diminuem t a m b é m a intensidade da vida e a
II illilade do corpo.
A meta essencial da vida é o prazer e nunca a dor. Esta é
i i i s e q u ê n c i a : busca do prazer p r i v a ç ã o , f r u s t r a ç ã o ou
uma o r i e n t a ç ã o biológica porque, a nível corporal, o prazer pro-
porciona o bem-estar do organismo, e a p r ó p r i a vida. Como sabe- ansiedade e, depois, defesa, é um esquema geral
| i i i n i i i In ir todos os problemas da personalidade. Quando se
mos, a dor é vivida como a m e a ç a à integridade do organismo e 1

e n t ã o nos abrimos e s a í m o s em busca de algo, espontaneamente, • di entender um caso individual, este paradigma deve ser
cuja natureza é o prazer. Contraímo-nos e fugimos de situações 1'leinentado com o conhecimento das situações específicas que
dolorosas e quando a s i t u a ç ã o contém uma promessa de prazer, In/iram a ansiedade e as defesas criadas para enfrentá-la.
associada a uma a m e a ç a de dor, sentimos ansiedade. iiiilro fator importante é o tempo, pois quanto mais cedo, na
Ida di uma pessoa, tiver surgido a ansiedade, mais insidiosa s e r á
Este conceito de ansiedade n ã o viola nossa colocação anterior,
i .1 ol lindamente estruturadas s e r ã o suas defesas. A natu-
pois a promessa de prazer evoca um impulso para fora do orga-
ii intensidade da dor esperada desempenham um fator i m -
nismo em d i r e ç ã o da sua fonte, enquanto a a m e a ç a da dor força
n i i e na d e t e r m i n a ç ã o da posição defensiva.
o organismo a sufocar este impulso, criando um estado de ansie-
dade. O trabalho de Pavlov sobre os reflexos condicionados em i .o todas as pessoas desenvolvem defesas em r e l a ç ã o à
c ã e s demonstrou claramente como é que a ansiedade pode ser Im i n do prazer, visto que este está associado à causa de seve-
produzida pela c o m b i n a ç ã o de uma e s t i m u l a ç ã o dolorosa com outra iodados no passado. A defesa n ã o bloqueia totalmente
de prazer, na mesma s i t u a ç ã o . O experimento de Pavlov era mui- i " ' i " . 01 impulsos de busca do prazer, j á que, se o fizesse, pro-
to simples: primeiramente ele condicionou o c ã o a responder a uma i i i i a morte do organismo. E m última instância, a morte é a
campainha oferecendo-lhe comida logo depois do r u í d o . E m pouco i total contra a ansiedade. Dado, p o r é m , que toda defesa
tempo, o som da campainha sozinho conseguia fazer com que o • m o a limitação da vida, é t a m b é m uma morte parcial e permite
cão se excitasse e salivasse, na a n t e c i p a ç ã o do prazer da comida. i a certa quantidade de impulsos passe pela barreira, a t é
Quando este reflexo estava bem-estabelecido. Pavlov alterou ponto e sob determinadas c i r c u n s t â n c i a s . Mas, como j á
a s i t u a ç ã o ao dar um choque elétrico no c ã o toda vez que a cam- defesas variam de um indivíduo para outro, apesar de
painha tocasse. Na mente do c ã o , o toque da campainha associou- 'lerem ser agrupadas em vários tipos.
se à promessa de comida e à a m e a ç a da dor. O c ã o estava num • n i H l o a b i o e n e r g é t i c a , os diversos tipos de defesas s ã o reu-
beco sem saída, querendo aproximarse do alimento e temendo DI) o titulo de "estruturas de c a r á t e r " . C a r á t e r é definido
fazê-lo, ficando assim num estado de severa ansiedade. nino u m p a d r ã o fixo de comportamento, como o modo típico de
Este p a d r ã o de sentir-se submetido a um dilema formado por i pi na conduzir sua busca pelo prazer. O c a r á t e r estrutu-
sinais contraditórios é a causa da ansiedade latente em todos os lii NI i uivei corporal na forma de tensões musculares em geral
distúrbios neuróticos e psicóticos da personalidade. As situações o n icntes, e c r ó n i c a s , as quais bloqueiam ou l i m i t a m os im-

118 119
pulsos em seu trajeto a t é o objeto ou fonte. 0 c a r á t e r é t a m b é m | ao vimonto ou impulso do corpo de natureza expan-
uma atitude psíquica que se escora num sistema de n e g a ç õ e s , de n i i i l ui-'.a A a u s ê n c i a de tais sinais revela que a pessoa
r a c i o n a l i z a ç õ e s e de projeções, voltada ainda para concretização odo prazer e sim dor, podendo a pessoa perceber
de um ego ideal que confirme seu valor. A identidade funcional i io n u o livro Pleasure, assinalei que a dor é a a u s ê n c i a
do c a r á t e r psíquico com a estrutura corporal ou atitude musculai M i a n a i s corporais que confirmam esta tese. O endu-
é a chave da c o m p r e e n s ã o da personalidade, j á que nos permite do o l b a r indica a perda dos sentimentos nesses ó r g ã o s .
ler o c a r á t e r a p a r t i r do corpo e explicar uma atitude corporal • i e s b r a n q u i ç a d a , denota a c o n s t r i ç ã o dos capilares e
por meio de seus representantes psíquicos e vice-versa. i n d i c a n d o que o sangue e s t á sendo retido a q u é m da
do c o r p o . Tanto a rigidez quanto a falta de espon-
Nós, na b i o e n e r g é t i c a , n ã o abordamos os pacientes como exem
i M oi que a carga e n e r g é t i c a n ã o e s t á fluindo livre-
piares deste ou daquele tipo de c a r á t e r . Vemo-los como indivi
duos peculiares cuja busca do prazer é o b s t r u í d a pela ansiedade i lo sistema muscular. Esta s i t u a ç ã o soma-se ao
contra a qual montou um sistema defensivo todo seu. Ao deter i' ' " i i i r a ç ã o do organismo, ou seja, ao aspecto s o m á t i c o
minarmos sua estrutura de c a r á t e r podemos encarar sua proble MN M U I
m á t i c a mais profunda e, assim, ajudá-los a se soltarem das amar I assinalar aqui que alguns corpos apresentam r e a ç õ e s
ras impostas pelas e x p e r i ê n c i a s da vida passada. Antes de des- . "quanto uma parte é quente, suave e brilhante, a outra
crever os vários tipos de c a r á t e r , segundo o modelo físico e tam i c sem cor. A linha de d e m a r c a ç ã o nem sempre é
b é m segundo o psicológico, gostaria de discutir a natureza dfl la mas pode-se sentir e perceber a diferença. Uma
prazer e de preparar a natureza teórica do referencial descritivo. ia i<pieira dessa disfunção é a metade superior do corpo
Pode-se definir o prazer de v á r i o s modos. O funcionamento ' oi.o boa cor e bom tônus muscular, ao passo que a metade
suave e harmonioso do corpo produz prazer, da mesma forma que • i ioi d " . o i p o apresenta uma a p a r ê n c i a oposta: cor feia (tona-
aparecem dor ou ansiedade quando esse funcionamento do corpo I m i a d a ) , tônus muscular p r e c á r i o e um peso despropor-
ilmi n l c maior que o da parte de cima. O significado desse
sofre alguma a m e a ç a ou desequilíbrio. Uma outra s i t u a ç ã o que
' i i p o i a l é a existência de um bloqueio ao fluxo de senti-
nos confere uma s e n s a ç ã o de prazer é a busca de algo. Natu
ralmente, buscamos algo que nos possa proporcionar prazer mas, nII metade inferior do corpo, principalmente de sentimen-
na minha opinião, sustento que o ato de buscar algo é a base da i. i n r a t e r sexual, e que t a l r e g i ã o e s t á num estado de con-
e x p e r i ê n c i a de prazer e representa uma e x p a n s ã o de todo o orga M retenção. Outra figura que se observa com relativa
l l i d a d e é um corpo quente com p é s e m ã o s frios. Esta condição
nismo, um fluxo de sentimentos e de energia a t é a periferia do
i i i n s ã o ou c o n t e n ç ã o das estruturas p e r i f é r i c a s , daque-
corpo. E m última a n á l i s e , os sentimentos s ã o p e r c e p ç õ e s de movi
mentos no organismo. Assim sendo, quando dizemos que alguém 11111 papel é fazer contato com o meio ambiente. O ditado
e s t á sentindo prazer, percebemos que os movimentos de seu corpo, frias, c o r a ç ã o quente" apoia esta i n t e r p r e t a ç ã o .
principalmente os internos, s ã o r í t m i c o s , soltos e fluentes. o objetivo fundamental, ao considerarmos um corpo, é
II n o grau de e x p a n s ã o ou de r e a l i z a ç ã o a uma resposta
Podemos definir o sentimento de prazer, consequentemente, c r ao meio presente naquele organismo. Como j á men-
como a p e r c e p ç ã o de um movimento expansivo dentro do corpo: ioia tal resposta d á margem ao fluxo de sentimentos, exci-
abertura, busca de algo, estabelecimento de um contato. Fecha- i energia, a partir do c o r a ç ã o da pessoa, em d i r e ç ã o dos
mento, retraimento, c o n t e n ç ã o ou r e t e n ç ã o n ã o s ã o experiências 11 estruturas p e r i f é r i c a s . A resposta de prazer é t a m b é m
de prazer, podendo inclusive chegar a provocar dor ou ansiedade posta quente e amorosa, uma vez que o c o r a ç ã o e s t a r á ,
A dor seria o resultado de uma p r e s s ã o criada pela energia de MI c o m u n i c a ç ã o direta com o mundo exterior. A pessoa
um impulso que enfrenta um bloqueio. O único modo de evitar i la p e l a p r e s e n ç a de tensões musculares c r ó n i c a s , que blo-
a dor ou a ansiedade é opor uma defesa ao impulso. Se este for os canais de c o m u n i c a ç ã o do c o r a ç ã o e que l i m i t a m o fluxo
suprimido, a pessoa n ã o s e n t i r á nem ansiedade nem dor mas tam- IH i cia a t é a periferia do corpo, sofre de vários modos; sofre
b é m n ã o e x p e r i m e n t a r á o prazer. Pode-se determinar pela expres- mi II i l u s t r a ç ã o e com a i n s a t i s f a ç ã o de sua vida, sente ansie-
s ã o do corpo o que e s t á acontecendo. i nli c o l o se deprimida, sente-se r e t r a í d a e alienada, podendo a t é
Quando a pessoa sente prazer, seus olhos tornam-se brilhantes, li envolver alguns distúrbios s o m á t i c o s . Dado que estas s ã o as
a pele rosada e quente, os gestos fáceis e vivos, toda sua postura que mais comumente se apresentam ao psiquiatra, dever-
fica suave e solta. Estes sinais visíveis s ã o as m a n i f e s t a ç õ e s de • i admitir que, para eliminá-las, seria preciso recuperar a capa-
fluxo de sangue e de energia a t é à periferia do corpo, contra- nli total de prazer daquele organismo.

120 121
O corpo humano tem seis á r e a s principais de contato com o pousáveis pelo contato básico com o chão, e o 6, o
mundo exterior: rosto, incluindo os ó r g ã o s sensoriais aí local! mini, ó r g ã o principal de contato e de relacionamento
zados; as m ã o s , o aparato genital e os p é s . H á á r e a s de impoi III II NO HO opOStO.
t â n c i a s e c u n d á r i a como, na mulher, os seios, a pele em geral c
as n á d e g a s . Estas seis á r e a s principais configuram uma forma
interessante que se visualiza bem quando a pessoa está em pé
com pernas e p é s distantes um do outro e b r a ç o s e m ã o s abertos
e estendidos. A figura do corpo assemelha-se à do seguinte esboço,
ilustrando os seis pontos mencionados.
Convertendo-se essa figura num diagrama dinâmico, como o
que v i r á a seguir, as seis á r e a s representam as partes mais
extensas do corpo, energeticamente falando.

GENITAIS
A resposta de prazer ou de e x p a n s ã o envolve um fluxo de
i ilo centro do organismo para todos os seis pontos; estes
in ser entendidos como extensões do organismo, à s e m e l h a n ç a
i |im udópodos fixos da ameba. A despeito do fato de serem
i Imitiras fixas, é possível um certo nível de e x t e n s ã o . Os l á b i o ,
i ilem estirar-se ou retrair-se, os b r a ç o s encompridar-se ou encur-
lopendendo da amplitude da e x t e n s ã o daquele corpo e,
loiítemente, os genitais tanto do homem quanto da mulher fun-
mi como verdadeiras extensões do organismo quando estão
repletos de sangue, carregados de sentimento e dilatados. Os
b i o s inferiores s ã o menos móveis e demonstram uma varia
i e I a t i v ã m e n t e diminuta. Na medida em que o pescoço é URI
i «mento flexível, a c a b e ç a pode estar enterrada dentro d e l e ,
erguida ou ter um ar insolente. Quando o contato com o m e i o
iinlilcnte é forte, é intenso o i n t e r c â m b i o energético nestes pontoa
exemplo, quando se estabelece um contato ocular entre doil
No diagrama, o ponto 1 representa a c a b e ç a , local das fun- Indivíduos excitados, pode-se sentir a carga que passa entre os
ções egóicas e que inclui os ó r g ã o s sensoriais de audição, gusta o l h o s . Da mesma forma, quando a l g u é m é tocado por mãos que
ção, visão e olfação; os pontos 2 e 3 representam as m ã o s que • i ã o carregadas, a diferença de ser tocado por mãos frias, sei i
tocam e manipulam o meio ambiente; os pontos 4 e 5 representam •o tensas é enorme. A i n t e r a ç ã o e n e r g é t i c a no sexo é, evidente

122 123
mente, a forma mais intensa de todos os contatos, mas a qual opoi e à luta corporal em busca do prazer. Estes
dade e o teor dessa troca dependem de quanta energia e s t á fluind Mu derivam do papel do ego como agente sintetizador. Esta
para essa á r e a de contato. liadora entre os mundos interior e exterior, entre
Sua função de síntese origina-se de sua posição à
11« ii d o • orpo e à superfície da mente* , elabora uma ima-
Ego e corpo i o d o exterior à qual o organismo deve conformar-se e,
molda a auto-imagem daquela pessoa. Por seu turno,
O adulto atua simultaneamente em dois níveis: no mental ou iimiKom determina quais s ã o os sentimentos e impulsos
psíquico, e no físico ou somático. Isto n ã o significa que esteja oi« .laiem. No contexto da personalidade, o ego é o
mos negando a unidade o r g a n í s m i c a . Trata-se de uma tese fun eiilimte da realidade.
damental à bioenergética a que adotamos de Reich: todos os pro que 6 a realidade? A imagem que temos da realidade
cessos biológicos, sem e x c e ç ã o , s ã o caracterizados pela antítese mento nem sempre corresponde à s i t u a ç ã o real. Fomos
e pela unidade. A dualidade e a unidade integram-se em con lo lai imagem no decurso de nosso processo de cres-
ceitos dialéticos como o que ilustra o diagrama seguinte. i.> lendo ela refletido o mundo de nossa meninice e vida
iinllln mais do que o de nossa fase adulta e social. Estes
MENTAL FÍSICO
los não s ã o totalmente diferentes, uma vez que o mundo
PSIQUE i o reflete a vida mais ampla da sociedade mas, de qualquer
SOMA
EGO CORPO
li > a diferença consiste no fato de o mundo social oferecer
ia de escolhas de relacionamentos mais vasta que a apre-
ii l " familiar. Por exemplo, quando c r i a n ç a s podemos ter
lillilu que pedir ajuda é um sinal de fraqueza e de depen-
,i Se esse ensinamento veio associado ao ridículo de sen-
di amparado e dependente, dificilmente conseguiremos pedir
m o em situações nas quais esse p r é s t i m o esteja à
dl posição. O indivíduo desenvolve uma imagem do ego
min n qual ele deve ser independente e fazer as coisas sem-
iho, sentindo-se ridicularizado e humilhado se t r a i r essa
I in I o<'onscientemente, e s c o l h e r á ainda aquelas r e l a ç õ e s em
n i falsa i n d e p e n d ê n c i a s e r á admirada e estimulada, refor-
PROCESSOS ENERGÉTICOS ' sim uma auto-imagem relativamente irreal,
i i a podermos compreender a f o r m a ç ã o do c a r á t e r , devemos
Num indivíduo de personalidade s a u d á v e l , os níveis físico e I" ' d i existência de um processo dialético ativo envolvendo o
mental do funcionamento cooperam para a p r o m o ç ã o do bem-estar. i orpo. A imagem egóica molda o corpo por meio do con-
Na pessoa conturbada, h á á r e a s de sentimento e de comportamento ili • nercido pelo ego, sobre os m ú s c u l o s voluntários. Inibimos,
nas quais estes dois níveis de funcionamento, ou aspectos da per- " • •> mplo, o impulso de chorar impelindo o queixo, contraindo
sonalidade, estão em conflito, e á r e a s de conflito criam bloqueios r o| .mia, segurando a r e s p i r a ç ã o e enrijecendo a b a r r i g a . A
à l i v r e m a n i f e s t a ç ã o de impulsos e de sentimentos. N ã o estou me | | M M infesta em socos, pode ser inibida contraindo-se os m ú s -
referindo à inibição v o l u n t á r i a de algumas m a n i f e s t a ç õ e s , sujei i la cintura escapular, o que empurra os ombros para t r á s .
tas ao controle consciente. Estou, antes, referindo-me à s restri Illli I H . estas inibições podem ser conscientes e t ê m por f i m
ções inconscientes de movimentos e de m a n i f e s t a ç õ e s . Estes bio • o a pessoa de mais conflitos e dores. P o r é m , a c o n t r a ç ã o
queios l i m i t a m a capacidade da pessoa para buscar no mundo à Hl • lente e v o l u n t á r i a demanda um investimento de energia que
sua volta a s a t i s f a ç ã o de suas necessidades; nesta medida, os i " pode ser mantido por tempo indeterminado. Se é n e c e s s á r i o
bloqueios representam uma r e d u ç ã o da capacidade de sentir prazer. ' l o os sentimentos, indefinidamente, dado que exprimi-los é
Coloquemos agora a a n t í t e s e em termos de ego e corpo, ao i•'. Inaceitável pelo mundo da c r i a n ç a , o ego abandona o controle
invés de entre os aspectos mental e físico, pois isto nos permitira
introduzir os conceitos de ego ideal e de auto-imagem, como forças
I I l.owcn, The Physical Dynamics of Character Structure, op. cit.

124 125
da situação sobre o ato proibido e r e t i r a a energia do impulso llulin m, a nível do ego, com seus ajustamentos e c o m p e n s a ç õ e s ,
A r e t e n ç ã o do impulso passa a ser inconsciente e os músculos m que não consegue chorar considera esta incapacidade
devem permanecer contraídos pela falta de energia necessária i m a l de força e de coragem, podendo inclusive ridicularizar
à sua e x p a n s ã o e d e s c o n t r a ç ã o . A energia liberada por este meca i>" i i i i i n e n s e meninos que choram com facilidade, promovendo
nismo pode, a seguir, ser investida em outros atos que sejam ii |no| traço neurótico a nível de uma virtude. O indivíduo
aceitáveis e este é o processo que dá nascimento à imagem do ego, • onsegue zangar-se nem ser agressivo em seus gestos
Sucedem duas coisas em d e c o r r ê n c i a desta r e n d i ç ã o : a parlo i 11/•. ir esta deficiência em virtude, afirmando que é razoá-
da musculatura da qual retirou-se a energia entra em c o n t r a ç ã o i o i ilo de uma pessoa enxergar sempre o lado da outra pessoa.
crónica ou espasticidade, a qual impossibilita a e x p r e s s ã o dos sen l i " i que não consegue i r abertamente em busca do amor
timentos inibidos. Deste modo, estes s ã o suprimidos de modo oxo e da s u b m i s s ã o como um meio de obter o contato
eficaz e a pessoa n ã o sente mais o desejo inibido. Mas o impulso iim, o sentir-se-à como a l g u é m particularmente sensual e
suprimido n ã o desapareceu; e s t á apenas adormecido abaixo da lloloa
superfície do corpo, no ponto em que n ã o venha a incomodar a i Ian as tensões musculares bloqueiam a busca direta da
consciência. Sob condições de tensão extrema ou de uma pro lireção do prazer existente fora de s i . Frente a tais
vocação suficiente, o impulso pode tornar-se novamente t ã o car- ., o ego i r á manipular o meio ambiente, acentuando assim
regado que irrompa a t r a v é s da inibição ou bloqueio. Por exemplo, i i d a d e de contato e de prazer sentida pelo corpo. Essa
acontece isto em ataques histéricos ou num acesso de r a i v a assas- I a ç r t o s e r á posteriormente justificada como n e c e s s á r i a e
sina. A outra consequência é uma diminuição no metabolismo de uni, pois t e r á perdido o contato com o conflito emocional que
energia dentro do organismo. As tensões musculares crónicas o a existência de t a l posição. Este conflito tornou-se estru-
impedem uma r e s p i r a ç ã o naturalmente cheia, decrescendo assim
o nível energético. A pessoa talvez consiga obter oxigénio sufi-
ciente a partir de suas atividades normais, de modo que seu meta
bolismo basal pode parecer normal. Suas dificuldades respira-
tórias, p o r é m , evidenciar-se-ão em s i t u a ç ã o de tensão, seja na
forma de uma incapacidade de sugar ar em quantidade suficiente,
seja, mais provavelmente, na forma de uma incapacidade de
enfrentar a t e n s ã o .
Nestas c i r c u n s t â n c i a s , a condição corporal força o processo
dialético em o p e r a ç ã o a inverter seus pólos. A s i t u a ç ã o física é
que molda o pensamento e a auto-imagem da pessoa. U m baixo
nível de energia força-a a realizar alguns ajustamentos em seu
estilo de vida, passando a evitar necessariamente as situações que
possam chegar a evocar os sentimentos suprimidos. O ato de
evitar s e r á justificado a t r a v é s do desenvolvimento de racionali-
zações relativas à natureza da realidade. Estas manobras todas
s ã o mecanismos do ego para evitar que conflitos emocionais
inconscientes tornem-se conscientes, daí serem chamadas de defe-
sas egóicas. H á outras t a m b é m : n e g a ç ã o , p r o j e ç ã o , p r o v o c a ç ã o e
culpa. Estas recebem o apoio da energia e x t r a í d a do conflito. MEIO AMBIENTE NATURAL
O indivíduo, agora, está caracterologicamente protegido por uma
c o u r a ç a , dos ataques dos impulsos suprimidos. A nível físico,
e s t a r á guardado por tensões musculares c r ó n i c a s . Este processo In dentro do corpo, estando além do alcance do ego. A pessoa
leva-o a viver por d e t r á s de um muro alto, permitindo-lhe tão- i, . a a l o dar alguma a t e n ç ã o à ideia de mudar mas, enquanto
-somente viver e agir de modo limitado e sobre uma á r e a bastante uno enfrentar seu problema a nível corporal, é altamente impro-
restrita. . .1 q u e as m u d a n ç a s sejam profundas.
Pura podermos compreender os complexos inter-relacionamen-
Depois de ter a l c a n ç a d o um certo teor de estabilidade e de
s e g u r a n ç a , o ego orgulha-se de suas r e a l i z a ç õ e s . A pessoa obtém i q u e envolvem ego e corpo, devemos integrar dois pontos de

126 127
(2)
vista opostos, concernentes à personalidade h u m a n a . O primeiro o iodo impas, mas em benefício delas, e n ã o pela glória
sai da base e, segundo este, a hierarquia das funções da peno l o i i o s . Da mesma forma, t a m b é m o ego pode ter per-
nalidade aparece como a p i r â m i d e do diagrama anterior. i .la o lato de que é o corpo o importante e n ã o a imagem
A base da p i r â m i d e consiste em processos corporais qui • •• IMINI I apresentar dele.
m a n t ê m a vida e apoiam a personalidade; e s t ã o descansando r 11" ponto de vista do general, a hierarquia normal de auto-
em contato com a terra ou meio ambiente natural. Estes processo! ilrnt.ro de um exército deve ser invertida. N ã o h á general
dão surgimento a sentimentos e emoções que, por seu turno, con ih dlio sozinho, a menos que se sinta o todo-poderoso. Vale
duzem aos processos de pensamento. No cume acha-se o ego luando se t r a t a de ego e corpo. Segundo este último
que e s t á identificado com a c a b e ç a , dentro da óptica bioenergé na ou seja, do ponto de vista do ego, a p i r â m i d e das fun-
tica. As linhas pontilhadas demonstram que todas as funções estão i ' personalidade deve ser invertida. A perspectiva superior
vinculadas umas à s outras, numa r e l a ç ã o de interdependência i.rau de consciência ou de controle e o ego recebe o
Ego e corpo podem ser comparados ao relacionamento exil iiivcsiimento de consciência, em c o m p a r a ç ã o à s demais
tente entre um general e suas tropas. Sem o general ou um oficial Portanto, temos uma consciência correspondentemente
encarregado em dar ordens, as tropas formam uma multidão, nio nossos pensamentos que de nossos sentimentos; as a ç õ e s
um e x é r c i t o . Sem as tropas, o general é n ã o mais do que um sós corpos desenvolvem nos parecem quase despercebidas.
" c a r t o l a " . Quando general e tropas funcionam juntos, em hat D ponto de vista do general a respeito da hierarquia dentro
monia, em contato com a realidade, temos um exército eficientl i . iio, em termos de poder. Pode-se equacioná-lo à posição
e de ações bem coordenadas. Quando e s t ã o em conflito, h á u lo a qual vêem-se as funções da personalidade em termos
desordem e os problemas. Isto pode acontecer se o general con • liei amento, ou seja, em termos de uma o p e r a ç ã o do ego.
siderar as tropas como n ú m e r o s ou peões num jogo de guerra que i i o l a d o , o corpo tem uma sabedoria particular anterior ao
estiver jogando. Ele p o d e r á ter esquecido que na guerra se luta iinliroinicnto em tempo e e s p a ç o .
\oil)us as formas de considerar a personalidade humana
• • I . I H . c r integradas pela s u p e r p o s i ç ã o de ambos os t r i â n g u l o s ,
u n i d o , deste modo, uma figura de seis pontas, usada j á
ao anterior para representar o corpo todo. A linha pon-
II i IH In i c r v e para indicar em que ponto o conflito é mais intenso:
I.IO do diafragma ou cintura, onde se encontram as duas
l i i l m l r N d o corpo.
1 1
d . a s triângulos podem representar ainda muitas outras
• de polaridade na vida: céu e inferno, dia e noite, macho
l o g o e á g u a . O s chineses usam um diagrama interes-

2) E m meu l i v r o The Physical Dynamics of Character Structure, op cit hi


uma discussão mais completa deste relacionamento.

128 129
santemente diverso para retratar a dualidade das forças vitail CABEÇA-EGO
que, segundo sua filosofia, s ã o chamadas yin e yang. A diferem |
entre ambos os diagramas sugere dois diferentes estilos de vida
O diagrama circular dos chineses aponta o equilíbrio, a estrell
de seis ângulos, t a m b é m conhecida como estrela de David, assinala
a interação.
Estas forças n ã o só interagem dentro do organismo para pro
duzir o ímpeto c a r a c t e r í s t i c o das atividades ocidentais como tam
b é m compelem o organismo a interagir agressivamente com o
meio circundante. N ã o estou empregando o termo "agressivo"
em seu sentido destrutivo mas, antes, em sua oposição "passiva".
A agressividade ocidental tem tanto o aspecto positivo quanto o
negativo. Seja então qual for o aspecto predominante, seu obje
tivo é uma m u d a n ç a , em contraste com a atitude oriental, cujo
objetivo é a estabilidade. Para simplificar, divido as atividadeí
humanas em quatro grupos: intelectual, social, criativo e físico,
que inclui a vida sexual. O conceito de i n t e r a ç ã o torna-se claro GENITAIS
se localizarmos estes grupos nos quatro lados de nossa figura, FÍSICO
como veremos abaixo.
,i dos impulsos que constituem forças centrífugas na
In m i r r a r ã o de uma pessoa com seu mundo depende da
i' i ossos bioenergéticos de seu corpo. Além disto, a
INTELECTUAL • . • (In Impulsos para obter a s a t i s f a ç ã o das necessidades
li di sua liberdade para expressá-los. P a d r õ e s reprimidos
musculares c r ó n i c a s que bloqueiam o fluxo de impulsos
l i n r n l o s não só enfraquecem a eficiência da pessoa em si
i m i.unbém seu contato e suas i n t e r a ç õ e s com o mundo
lulu o sentido de pertinência e de p a r t i c i p a ç ã o do mundo,
Itflndo, e m última análise, o grau de espiritualidade.
n i o l i a intenção argumentar contra ou a favor do modo
a . i i de v i v e r . Ao sermos excessivamente agressivos, ou seja,
irl indo r o m o exploradores e manipuladores, perdemos um
Importante, o do equilíbrio. Permitimos que nossos egos
ili io n o s s o s corpos e vimos usando o conhecimento para
i o a sabedoria do corpo. Necessitamos recuperar um
In lo adequado tanto dentro de nós mesmos quanto em nossas
o mundo em que vivemos. Duvido, contudo, de que
qulllbrio tenha oportunidades de ser reconquistado pela
no das atitudes ocidentais e a d o ç ã o das orientais. Deve-
I insciência de que o Oriente e s t á atualmente tentando
MEIO AMBIENTE FÍSICO ii In maneiras adotar alguns dos caminhos ocidentais.

In nlogid
Agora, se combinarmos este diagrama com o outro, semelhante
a este, da s e ç ã o precedente, teremos uma imagem das forças ,,. lo a bioenergética, os diversos tipos de estrutura de
d i n â m i c a s envolvidas na personalidade humana .. classificados em cinco tipos básicos. Cada um deles

130 131
tem um p a d r ã o peculiar de defesas tanto a nível psicológico qu l N M U »
to muscular, p a d r ã o este que o distingue dos demais. É imp
tante observarmos que esta classificação n ã o abrange pesso i i r e t i d a a q u é m das estruturas p e r i f é r i c a s do
mas sim posições de defesa. Admitimos que ninguém é um tl liei longe dos ó r g ã o s que fazem contato com o mundo
puro e que qualquer elemento dentro de nossa cultura combin mAos, genitais e p é s . Estes encontram-se, em par-
em graus variados dentro de sua personalidade, algumas ou tod i MI In In centro, em termos energéticos, pois a exci-
as posições defensivas. A personalidade de um indivíduo, enqu H . M I l l u i direto para estes membros e ó r g ã o s , sendo
to algo distinto de sua estrutura de c a r á t e r , é determinada p ics musculares c r ó n i c a s situadas na base da
sua vitalidade, ou seja, pela força dos impulsos e pelas defes Iiros, na pelve e nas a r t i c u l a ç õ e s dos quadris. As
levantadas no sentido de controlá-los. N ã o h á duas pessoas se IH/mos desempenham tornam-se, portanto, dis-
lhantes no que tange à vitalidade inerente de seus organismos
ION >o alimentos existentes no centro da pessoa.
sequer no que tange aos p a d r õ e s de defesa erguidos a partir
l u i e i i i a tende a endurecer-se na á r e a central. E m
suas experiências de vida. É n e c e s s á r i o , n ã o obstante, falarm
é fraca a f o r m a ç ã o de impulsos. N ã o obs-
em termos dos tipos, para resguardarmos alguma clareza dr
é de matiz explosivo (dada sua c o m p r e s s ã o ) ,
c o m u n i c a ç ã o e de entendimento.
per violentamente ou na forma de mortes. Isto
Os cinco tipos s ã o : esquizoide, oral, psicopático, masoqm i > i di l e s a s não conseguem conter o corpo e este vê-se
e rígido. Utilizamos tais termos por serem conhecidos e aceito i a quantidade de energia que n ã o consegue mani-
como definições de distúrbios da personalidade no meio psiquiá • a l i d a d e se cinde e desenvolve-se um estado esqui-
trico. Nossa classificação n ã o viola os critérios estabelecidos. • iAo raros os assassinatos nestas condições.
A d e s c r i ç ã o seguinte destes tipos n ã o apresenta mais do qUJ M a l e e m um p a d r ã o de tensões musculares que
um esboço, dado que é impossível dentro de uma colocação mal ••oalidade unida, a t r a v é s de um impedimento sobre
generalizada da bioenergética, entrar em detalhes ao discutirmoi i pi i d ó r i c a s para que n ã o se encham de sangue ou
cada distúrbio. Na medida em que os tipos de c a r á t e r s ã o bal i 1
' i e o s õ e s musculares s ã o as mesmas que as ante-
tante complexos, s e r ã o mencionados apenas os aspectos mais am li rllas como sendo as r e s p o n s á v e i s pelo fato de os
pios de cada tipo. i estarem isolados do contato com o centro. A
III Ao, ' o problema.
II Kr Uca mente, uma cisão do corpo na altura da cin-
E S T R U T U R A D E CARÁTER E S Q U I Z O I D E ' dai uma falta de i n t e g r a ç ã o entre as partes superior

ibiuxo a representação diagramática desta análise


DESCRIÇÃO •, • i > • i

O termo esquizoide deriva de esquizofrenia e denota um


indivíduo em cuja personalidade encontram-se t e n d ê n c i a s à for
m a ç ã o do estado esquizofrénico. Estas t e n d ê n c i a s s ã o as seguintes A linha dupla indica os limites
(1) cisão no funcionamento unitário da personalidade. Por exem e n e r g é t i c o s c o n t r a í d o s do cará-
pio, o pensamento tende a dissociar-se dos sentimentos; o que a ter esquizoide. A s linhas ponti-
pessoa pensa parece ser uma pequena ligação com aquilo que lhadas indicam a falta de carga
sente ou com o modo pelo qual se comporta; (2) refúgio dentro e n e r g é t i c a dos ó r g ã o s periféri-
de si mesmo, rompendo ou perdendo o contato com a realidade cos e sua falta de contato com
externa. O indivíduo esquizoide n ã o é esquizofrénico e poderá o centro. A linha pontilhada no
mesmo nunca v i r a sê-lo, mas estas t e n d ê n c i a s estão a l i , em sua centro da estrutura esquizoide
personalidade, e em geral bem sedimentadas. indica a c i s ã o das duas partes
O termo esquizoide descreve a pessoa cujo senso de si mesmi do corpo.
e s t á diminuído, cujo ego é fraco e cujo contato com seu corpo
e sentimentos e s t á reduzido em grande parte.

132 133
ASPECTOS FÍSICOS • di i a r g a periférica. Esta fraqueza reduz a resis-
\ mdas de fora, f o r ç a n d o a pessoa a refugiar-se
Na maioria dos casos, o corpo é estreito e contraído. Fren
à existência de elementos p a r a n ó i d e s na personalidade, o corpa i i"i<|iii/.úide, a l é m disso, apresenta uma pronunciada
fica mais cheio e mais atlético. n relacionamentos íntimos e afetuosos. Estes s ã o ,
As principais á r e a s de t e n s ã o localizam-se na base do crânio i M difíceis de serem estabelecidos por causa da
nas a r t i c u l a ç õ e s dos ombros, nas a r t i c u l a ç õ e s pélvicas e ao redoi ia das estruturas p e r i f é r i c a s de contato.
do diagrama. Esta última é normalmente t ã o severa que tendi li de motivar as a ç õ e s d á ao comportamento do
a cindir o corpo em duas partes. As espasticidades predominan i I r uma tonalidade a r t i f i c i a l ; trata-se do assim
tes e s t ã o situadas nos pequenos músculos que circundam t i i a lamento "como se", quer dizer, como se esti-
a r t i c u l a ç õ e s . Pode-se ver neste tipo de c a r á t e r , tanto uma i iilu em sentimentos, mas as ações em si n ã o os
trema inflexibilidade como uma excessiva maleabilidade n i
articulações.
A face tem uma a p a r ê n c i a de m á s c a r a . Os olhos, embor|
não sejam vagos como os dos esquizofrénicos, n ã o t ê m a v i v i |m 111 n I' illKO.h K ETIOLÓGICOS
cidade normal e nem contatuam como os demais. Os braçol
pendem como a p ê n d i c e s mais do que como extremidades exten Innle apresentarmos aqui alguns dados históricos a
sivas do corpo. Os p é s e s t ã o c o n t r a í d o s e frios; é comum os pól
i n'i iii do tipo de estrutura esquizóide. Os c o m e n t á r i o s
serem revirados; o peso do corpo e s t á jogado nas bordas externan
dos mesmos. i j V p I Seguir resumem o b s e r v a ç õ e s de estudiosos deste pio
ipii trataram e analisaram muitas pessoas portadoras
Frequentemente, h á uma d i s c r e p â n c i a marcante entre as dual
metades do corpo. E m muitos casos, n ã o parece pertencerem a N IIIHIIII lini
mesma pessoa. rasos, h á uma evidência inequívoca de ter ocor-
E m situações de t e n s ã o , por exemplo, quando a pessoa assumi iiuii n |in.ao logo no início da vida da pessoa, por parte da
uma posição recurvada, a linha do corpo parece muitas vi foi lentida como a m e a ç a à sua vida. A r e j e i ç ã o acom-
estar quebrada. A c a b e ç a , o tronco e as pernas ficam então di uma hostilidade encoberta e muitas vezes t a m b é m
formando ângulos entre si, t a l como o ilustramos no capítulo II > por parte da m ã e .
h "' r a hostilidade criam o medo, no paciente, de que
ioda tentativa de a u t o - a f i r m a ç ã o , conduzam a este
CORRELATOS PSICOLÓGICOS
"l Ill o
lit i iia revela a falta de um sentimento positivo cheio de
O senso de si mesmo é inadequado face à falta de identifi ii ir alegria. São comuns, durante a infância, os
c a ç ã o com o corpo. A pessoa n ã o se sente conectada nem
integrada . (3)
ooliirnos.
ilpnos a conduta não-emocional e retraimento, as crises
A t e n d ê n c i a à dissociação, representada a nível corporal pell
falta de conexão s o m á t i c a entre a c a b e ç a e o resto do corpo, i ii i|iie se denomina comportamento autista,
produz uma divisão na personalidade na forma de atitudes anta- n dos pais tiver protegido em excesso a c r i a n ç a , duran-
g ó n i c a s . Pode-se, assim, encontrar uma atitude de a r r o g â n c i a e |II i lodo edípico, por motivos sexuais — algo que é comum —
mesmo de a b j e ç ã o , a atitude da virgem ao lado do comportamento r um elemento p a r a n ó i c o à personalidade. Esta situa-
de uma prostituta. Estas atitudes refletem t a m b é m a cisão do n n a um pouco de "acting-out" (4)
no final da meninice
corpo em duas metades, superior e inferior.
ii fase adulta.
O c a r á t e r esquizoide apresenta-se h i p e r s e n s í v e l devido a um
limite p r e c á r i o em torno do ego, o qual é a contrapartida psico .unos o termo que aparece no original americano por ser por
| i o iiido cm Psicologia. Originariamente, significa atuação ou o ato
" i atenção exageradamente, o que ocorre, em especial, com as crianças
3) R. D . Laing, The Divided Self (Nova York, Pantheon, 1969).

134 135
, ,i te ilustra a condição:
Dada esta história, a c r i a n ç a não tem outra alternativa scnAn
dissociar-se da realidade (intensa vida de fantasia) e de seu corp*
(inteligência abstrata) a f i m de sobreviver. Dado que os senil
mentos predominantes foram terror e uma fúria assassina |
c r i a n ç a encarcerou seus sentimentos todos, para se defendei
a si mesma.

E S T R U T U R A DE CARÁTER ORAL

DESCRIÇÃO

Descrevemos como estrutura de c a r á t e r oral a personalidade


que contém muitos t r a ç o s típicos da primeira infância. Estes tru
ços s ã o uma fraqueza, denotando uma t e n d ê n c i a em dependi i
dos outros, uma agressividade p r e c á r i a e uma s e n s a ç ã o i n t e r n a
de precisar ser carregado, apoiado, cuidado. Estes t r a ç o s contêm
uma falta de s a t i s f a ç ã o no período da infância, representam!.,
t a m b é m um grau de fixação a esse nível de desenvolvimento. Em
certas pessoas, estes t r a ç o s s ã o d i s f a r ç a d o s pela a ç ã o de a t i t u d e
conscientemente c o m p e n s a t ó r i a s . Algumas personalidades, d o t a d a
deste tipo de estrutura, demonstram uma independência ex ... i IH r. i p a r AS
rada que, no entanto, n ã o se sustenta em situações de tensão
A experiência b á s i c a do c a r á t e r oral é a c a r ê n c i a afetiva, BO •i b m i e a ser esguio e fino, correspondendo ao tipo ecto-
passo que a experiência correspondente do esquizóide é a rejeição i Difere do corpo esquizóide no sentido de n ã o
iieidiin.
a In extraordinariamente.
i i a l m a é subdesenvolvida mas n ã o fibrosa como no

CONDIÇÃO BIOENERGÉTICA
ólde. A falta de desenvolvimento evidenciase mais
leilli nos b r a ç o s e pernas. Pernas compridas e magricelas
il comum deste tipo de estrutura. Os p é s s ã o t a m b é m
A estrutura oral é um estado de baixa carga e n e r g é t i c a . A
i pequenos. As pernas n ã o dão a i m p r e s s ã o de susten-
energia n ã o está fixada no centro, como na condição esquizóide,
I' idamente o corpo todo. Os joelhos e s t ã o normalmente
p o r é m , flui a t é a periferia do corpo, de modo minguado.
i fornecendo o apoio-extra representado pela rigidez.
Por motivos ainda n ã o totalmente conhecidos, o crescimenti Oiirpo evidencia uma t e n d ê n c i a a escorregar devido, em
linear é favorecido, tendo como resultado um corpo longo e esguio
• fraqueza de todo o sistema muscular,
Uma explicação possível é que o retardamento da m a t u r a ç ã o per
mite aos ossos de grande comprimento crescerem mais do q u e o frequente encontrarmos sinais físicos de imaturidade. A
normal. Outro fator pode ser a incapacidade do crescimenin U M I H a do que o normal, tanto para homens quanto para
dos ossos, tendo-se músculos subdesenvolvidos. 11 pêlo do corpo é esparso. E m algumas mulheres, todo
de crescimento é retardado, conferindo-lhes corpos de
A falta de energia e de força é mais notória na parte inferioj
do corpo, dado que o desenvolvimento do organismo infantil se i
processa em d i r e ç ã o céfalo-caudal. ri iplração é superficial, o que explica o baixo nível ener-
• n i i ii corpo. A c a r ê n c i a sofrida durante a fase oral redu-
Todos os pontos de contato com o meio ambiente têm u m a
do impulso de sugar (uma boa r e s p i r a ç ã o depende da
carga menor do que a n e c e s s á r i a . A vista é fraca e tende h
l u d e d e sugar o a r ) .
miopia, e o nível de e x c i t a ç ã o genital é reduzido.
137
136
mental; daí resulta uma contínua a t e n ç ã o aos meios de consenti
controlar e dominar as situações. di .< onectada. Ambos apresentam uma espasticidade
• I " diafragma.
Os olhos s ã o atentos e desconfiados e n ã o e s t ã o abertos p i nl tensões nítidas no segmento ocular, o qual inclui
ver os inter-relacionamentos. Este fechamento dos olhos em ri i i i i r g i ã o occipital.
ção à c o m p r e e n s ã o e p e r c e p ç ã o da natureza das coisas é i ni i forma, pode-se perceber tensões musculares graves
marca distintiva de todas as personalidades psicopáticas. i IIIIMI' do crânio, na r e g i ã o do segmento oral, represen-
ili nina inibição do impulso de sucção.

In 1 III (ILÓGICOS

i duo de personalidade psicopática precisa de alguém


i a s e e, embora aparentemente alguém possa con-
ii d e p e n d e dele t a m b é m . Portanto, h á uma certa dose de
Hll todos os indivíduos psicopáticos. Dentro da litera-
i i i | i i i a i i n a , descrevem-nos como portadores de uma fixa-

uladc de controle está de perto vinculada ao medo


ii nl a do e ser controlado significa ser usado. Podemos
-..is histórias de indivíduos com esta estrutura de c a r á -
i i de uma disputa pelo domínio entre pais e filhos,
a ç ã o para estar por cima, para ter êxito, é t ã o impe-
i pessoa n ã o pode admitir nem permitir a o c o r r ê n c i a
a s s o , pois coloca-a na posição da vítima; portanto, tem

6 S 6 e C n t r o l e d i r i e s e t a m b
pinpre a vencedora de todas as disputas.
A CÍP f í ° S - é m contra si mesmo
A c a b e ç a fica muito erguida (não é possível perder a c l i a l i d a d e é invariavelmente empregada neste jogo pelo
V e Z m a n t é m C r p o r Í s 0 p licopata é sedutor com seus ares de comando ou então
A " ' ° ° J° ™ limitesTe e í conín
• vitima de modo insidioso e amaneirado. O prazer dentro
enerlétas. a g F a m a
^ P a r a U m a i l u s t r a 0
< * desta» r S ç , , , ' Inile tem i m p o r t â n c i a s e c u n d á r i a em r e l a ç ã o ao desem-
. • p i n p r i o o u à conquista.
. ã o dos sentimentos é basicamente uma n e g a ç ã o das
CARACTERÍSTICAS FÍSICAS
idades. A e s t r a t é g i a do psicopata é fazer com que os outros
ii dele, para que ele n ã o precise expressar esta neces-
O corpo do tipo tirânico mostra um desenvolvimento despro 1
i deste modo e s t á sempre acima dos demais.
porcional da metade superior, dando a i m p r e s s ã o de estar cheio
de ar; isto corresponde à imagem de ego da pessoa, toda cheil
de si. Pode-se dizer que a estrutura pesa no topo, sendo t a m b é m 1
mi i i iiilOGICOS E HISTÓRICOS
rígida. A parte de baixo do corpo é mais estreita e p o d e r á evl
denciar a fraqueza típica da estrutura oral de car ater. in qualquer outra estrutura de c a r á t e r , a história da
O corpo do segundo tipo, que denominei de sedutor ou debill .plica seu comportamento. Adianto inclusive a genera-
tador, é mais regular e n ã o apresenta a a p a r ê n c i a inflada. Em ni f j ( u i n t e : n ã o se pode compreender uma conduta a menos
geral, as costas são hiper flexíveis. nheça a história pregressa do organismo. Sendo assim,
Iuri principais tarefas de toda terapia é elucidar as expe-
E m ambos os casos h á um distúrbio do fluxo entre as duas
metades do corpo. No primeiro tipo, a pelve tem uma carga redu de vida do paciente. E m geral isto é muito difícil, dentro
zida e é sustentada de maneira r í g i d a ; no segundo, a carga é ' > • de psicopatia, porque a t e n d ê n c i a destes pacientes é
'i sentimentos, o que inclui a n e g a ç ã o de e x p e r i ê n c i a s .
140
141
Apesar deste obstáculo, a bioenergética j á conseguiu aprendi i i i r v e aqueleque sofre e lamenta-se, que se queixa
muitas coisas a respeito das origens deste problema. ilniiisso. A tendência masoquista predominante é
O mais importante dos fatores etiológicos desta condir,
p r e s e n ç a de um pai sexualmente sedutor. A s e d u ç ã o é encohi ri • • Individuo de c a r á t e r masoquista exibe uma atitude
e realizada para satisfazer à s necessidades narcisistas do mes IH l u l a externalizada, por dentro ocorre justamente
tendo por objetivo vincular a c r i a n ç a ao pai (ou m ã e ) sedutoi i i No nivel emocional mais profundo, a pessoa acolhe
O pai sedutor é sempre alguém que rejeita a c r i a n ç a , a nivlj Intonsos de despeito, de negatividade, de hostilidade
de suas necessidades de apoio e de contato físico. A ausêm I i hindi Contudo, estes sentimentos estão fortemente
deste preenchimento das necessidades b á s i c a s é o elemento 11 li i q u e s de medo, que explodiria num violento compor -
ponsável pelo t r a ç o oral desta estrutura de c a r á t e r . i(ilai 0 m e d o de explodir é contraposto a um padrão
O relacionamento sedutor cria um triângulo, onde a cri i . o , ao. Músculos densos e poderosos restringem
está em posição de desafio frente ao pai de mesmo sexo. Cri IH ilireta de si, permitindo somente as queixas,
assim uma barreira à identificação n e c e s s á r i a com o genitm ili
mesmo sexo, aprofundando ainda mais a identificação coi
genitor sedutor.
Nesta situação, qualquer tentativa de sair em busca de con (Ali lllol< NKII0KT1CA
tato coloca a c r i a n ç a em posição de extrema vulnerabilidade \
c r i a n ç a d e s p r e z a r á a necessidade (deslocamento ascendente), pau Iraste à estrutura de c a r á t e r oral, a masoquista é dota-
sando por cima dela, ou a s a t i s f a r á a t r a v é s da manipulação du Ho nível de energia que, no entanto, está fortemente
pais (tipo sedutor). i r u u s m o , mas n ã o sedimentada.
A personalidade psicopática apresenta ainda um t r a ç o mano i vera contenção interna, os órgãos periféricos estão
quista, resultante da submissão ao genitor sedutor. A criança nAii e l o s , o que impede tanto a descarga quanto a libe-
tinha, na ocasião, condições de revoltar-se ou de sair dos limlli éliea, ou seja, as ações expressivas s ã o limitadas,
da s i t u a ç ã o ; suas defesas eram unicamente internas. A submissão ina r e p r e s e n t a ç ã o d i a g r a m á t i c a do corpo masoquista:
é apenas aparente; n ã o obstante, quanto mais abertamente a cri
a n ç a submeter-se, mais perto do genitor conseguirá ficar.
O elemento masoquista é mais poderoso na variante seduim |
desta estrutura de c a r á t e r . A jogada inicial é partir para uni
relacionamento onde assumir um papel masoquista de submissão
é a regra. Depois, quando tiver funcionado a sedução e estivei
firme o vínculo com a outra pessoa, o papel é invertido e emergi
o sadismo.

E S T R U T U R A DE CARÁTER MASOQUISTA

DESCRIÇÃO

N O conceito popular, a palavra masoquismo significa o desi |<i


de sofrer. N ã o creio que esta condição seja verdadeira de uma
pessoa que tenha esta estrutura de c a r á t e r . Ela realmente sofri
e, dado que é incapaz de alterar a s i t u a ç ã o , deduz-se que deseju
permanecer nela. N ã o estou falando de uma pessoa com uma
p e r v e r s ã o masoquista, aquela que procura ser espancada pura
que consiga sentir prazer sexualmente. A estrutura masoqui 1.1

142 143
A contenção interna é t ã o severa que resulta uma comp( A i i\id.ide, h á a conduta provocativa cujo objetivo é
liou ii | . . . . i a poderosa o suficiente por parte da outra
s ã o e o colapso do organismo. O colapso se d á na cintura,
que o corpo se verga sob o peso de suas t e n s õ e s ' . 5) asoquista tenha, sobretudo, condições de rea-
Os impulsos que se movem para cima e para baixo são c IMIIU • • plo-.ivnmente em s i t u a ç õ e s sexuais.
guiados no pescoço e na cintura, o que é r e s p o n s á v e l por uma lm la i ua;a e n e r g é t i c a provocada pela violenta con-
tendência desta personalidade a experimentar ansiedade. i ii.iio do sentimento de "estar preso num atolei-
A e x t e n s ã o do corpo, no senso de ampliar-se ou de l>u piista incapaz de movimentar-se livremente.
algo fora de si, está severamente limitada. A r e d u ç ã o da exten di submissão e de cordialidade s ã o t r a ç o s carac-
produz um encurtamento da estrutura descrita acima. i nu lamento masoquista. A nível consciente, h á a
• la iiiilat.iva de agradar mas, a nível inconsciente,
I H r a d a por despeito, por negativismo e por hostili-
CARACTERÍSTICAS FÍSICAS " o i o o o n t o s reprimidos devem ser liberados antes
• p o r parte do masoquista, uma resposta descon-
O corpo típico do masoquista é curto, grosso, musculosa I i I H n s variadas s i t u a ç õ e s da vida.
motivos ainda desconhecidos h á , em geral, um crescimento nc
tuado de pêlos no corpo.
É particularmente c a r a c t e r í s t i c o um pescoço curto e grei s K HISTÓRICOS

que denota um atarracamento da c a b e ç a . Semelhantem<.ni <


cintura é mais curta e mais grossa t a m b é m . MI i d e c a r á t e r masoquista é fruto de um lar onde haja
i n ç l o , ao lado de uma r e p r e s s ã o severa. A m ã e é
Outra marca importante é a p r o j e ç ã o da pelve à frente,
• . s a e r i f i c a - s e ; o pai é passivo e submisso.
seria mais precisamente descrita como um encurtamento
cima e um achatamento das n á d e g a s . A postura recorda a Fi * i uidora e capaz de sacrificar-se sufoca literal-
do c ã o com o rabo entre as pernas. que é levada a sentir-se extremamente culpada
. ' 11 ni.itiva de declarar sua liberdade ou de afirmar
O enrugamento e encurtamento para cima das n á d e g a s ,
como o peso da t e n s ã o logo acima, s ã o os r e s p o n s á v e i s pela i. quando negativa.
d u ç ã o de uma dobra na cintura. uma ê n f a s e exagerada à a l i m e n t a ç ã o e à defe-
que se soma à p r e s s ã o j á mencionada: "Seja um
Vê-se em algumas mulheres uma c o m b i n a ç ã o de rigidez
loja bonzinho para sua m ã e . Coma toda a sua
metade superior do corpo com masoquismo na metade inferi
demonstrado por n á d e g a s e coxas pesadas, por um soalho pélvj i iça coco direitinho. Deixe a m a m ã e v e r " , e assim
encolhido para cima e pela tonalidade escura da pele, decorren
da e s t a g n a ç ã o da carga e n e r g é t i c a . UK investidas de resistência, inclusive os acessos de
esmagadas. Todas as pessoas portadoras de uma
A pele de todas as pessoas de estruturas masoquistas teu
ao tom acastanhado devido à e s t a g n a ç ã o da energia. i di ' .• irá ter masoquista tiveram acessos de b i r r a quando
I " posteriormente que deixá-los de lado.
II eiillinentos de ser ludibriado formam um grupo de expe-
CORRELATOS PSICOLÓGICOS unis, aos quais só é possível reagir com despeito que,
e/., acaba na a u t o d e s t r u i ç ã o . N ã o h á possibilidade de
Devido ao fato de a contenção ser severa, a agressão e | tio ponto de vista da c r i a n ç a .
a u t o - a f i r m a ç ã o s ã o bastante reduzidas. II i o l é , quando c r i a n ç a , lutava consigo mesmo, com u m
Ao invés de auto-assertividade, a pessoa masoquista api < In • nliincnto de h u m i l h a ç ã o toda vez que deixava-se soltar
queixumes e lamentos. Estes s ã o a ú n i c a e x p r e s s ã o vocal q 11ii nli na forma de vómitos, de desafios, de fazer x i x i e
consegue sair com facilidade de uma garganta estrangulada. I nnn c a l ç a s .
H m a s o q u i s t a tem medo de meter-se em situações delicadas
" "ino u m pé só) ou dc intrometer-se (espichar o p e s c o ç o ;
5) Uma outra perspectiva para a explicação de como estas forças energét
operam na estrutura masoquista pode ser lida em meu livro The Physical Dym
ano para os genitais) por medo de ser rejeitado. A
of Character Structure, op. cit., pág. 191. te de c a s t r a ç ã o , nestes tipos de estrutura, é muito acen-

144 145
tuada. O medo mais significativo é o de ser afastado do,'. 11 i ||l há vários graus de rigidez; quando a con-
cionamentos familiares, provocadores de amor, embora sob ctfi „ i . a personalidade é ativa e vibrante.
condições. Na s e ç ã o seguinte examinaremos melhor o signifii I , ibaixo ilustra esta condição b i o e n e r g é t i c a :
deste aspecto.

E S T R U T U R A DE CARÁTER RÍGIDA

DESCRIÇÃO

O conceito de rigidez deriva da t e n d ê n c i a , destas pessoa


se manterem eretas, de orgulho. A c a b e ç a , portanto, é portada
bem erguida, a coluna reta. Estes t r a ç o s seriam em si positlvoi!
não fosse o fato de ser o orgulho um sentimento defensivo, i .
rigidez algo n ã o flexível. O indivíduo de c a r á t e r rígido tem meda
de ceder, pois iguala o ato de submeter-se com perder-se compli
tamente. A rigidez torna-se uma defesa contra uma tendencial
masoquista subjacente.
O indivíduo de c a r á t e r rígido e s t á sempre alerta contra situa
ções onde possam aproveitar-se dele, onde possa ser usado mi
enganado. Suas e s t r a t é g i a s defensivas assumem a forma de AM KtSICAS
contenção de todos os impulsos de sair em busca exterior, de
abrir-se. A contenção significa ainda "segurar-se nas cosi l| do individuo de c a r á t e r rígido é proporcional e mostra
daí a rigidez. A capacidade de se conter deriva de uma fortÉjj entre as partes. A pessoa se sente integrada e conec-
posição do ego ao lado de um elevado teor de controle compot u disso, pode-se verificar a p r e s e n ç a de alguns aspec-
tamental. Essa r e t e n ç ã o é t a m b é m defendida por uma posiçrtu b i o s o distorções descritos acima para os outros tipos.
genital igualmente forte, que consegue então encarar a persona» lei istica importante é a vivacidade do corpo: olhos
lidade em ambas as extremidades do corpo, permitindo Ilie um 1
or de pele, leveza de gestos e movimentos.
bom contato com a realidade. Infelizmente, a ênfase na realidade • i i r i . l i / for grave, h a v e r á uma r e d u ç ã o correspondente
é empregada como meio de defesa contra os impulsos que bim li elementos positivos notados acima; a c o o r d e n a ç ã o
cam o prazer — ceder — e este é justamente o conflito básico .1. los movimentos s e r ã o diminuídas, os olhos p e r d e r ã o
sua personalidade. li o u brilho e a pele a d o t a r á uma tonalidade p á l i d a
llJcnliidn

CONDIÇÃO BIOENERGÉTICA

lio 1'NIOOI.ÓGICOS
H á uma carga razoavelmente poderosa, nesta estrutura de
c a r á t e r , em todos os pontos periféricos de contato com o melo Iduos com esta estrutura de c a r á t e r s ã o geralmente
ambiente. Isto favorece a capacidade de testar a realidade anti ambiciosos, competitivos e agressivos. A passividade
de agir. i a da como vulnerabilidade.
A contenção é p e r i f é r i c a ; sendo assim, os sentimentos p o d e m a assim pode ser teimosa, mas dificilmente s e r á des-
fluir, mas sua m a n i f e s t a ç ã o é limitada. | t ta teimosia vem, em certa medida, de seu orgulho:
As principais á r e a s de t e n s ã o s ã o os músculos longos do coi pQ n i l o de, cedendo, parecer imbecil, de modo que se contém,

As espasticidades dos extensores e dos flexores combinam NP oh., l a d o , tem medo de que a submissão acarrete uma
para produzir a rigidez. Hi' Hiia liberdade.
147
146
O termo " c a r á t e r r í g i d o " foi adotado, na bioenergética, i MU n 0 ia is um c o m e n t á r i o f i n a l . N ã o discuti o tra-
descrever o fator comum a varias personalidades diversai t II
. M e n i n s j á que os terapeutas n ã o t r a t a m de
denominadas. Sendo assim, inclui os tipos fálicos, narcisnim no de pessoas. A terapia centraliza-se na
(masculinos) — nos quais o elemento central é a potência c f l j a relacionamentos imediatos: com o corpo, com
tiva — e o tipo vitoriano da mulher h i s t é r i c a , como o desoí . M U i i mu os indivíduos com quem está envolvido,
Reich em seu Character Analysis, a qual usa o sexo como dHi m 1 l o s elementos c o m p õ e m a p r i m e i r a linha de
contra a sexualidade. O c a r á t e r compulsivo j á bem conhn ii|n lliotilagem t e r a p ê u t i c a . Ao fundo, no entanto, (

t a m b é m faz parte desta ampla categoria. iln i Um oio do c a r á t e r daquela pessoa em particular,
A rigidez deste c a r á t e r é extremamente forte e é igualan <nl| • n a possível compreender a pessoa e sua pro-
encontrada nas estruturas esquizoides nas quais, dado o cstnM ... terapeuta treinado e habilidoso pode movimen-
enrijecido de seu sistema e n e r g é t i c o , assemelha-se ao gelo, i mu i otaguarda para a vanguarda, sem perder de
sua mesma natureza q u e b r a d i ç a . O indivíduo de c a r á t e r n o l i i oi outra.
em geral, enfrenta de modo bem-sucedido seu meio amlnenh

/•" (/<• caráter e uma declaração de direitos


F A T O R E S HISTÓRICOS E ETIOLÓGICOS
II a d e i ir.íter define o modo pelo qual a pessoa conduz
A história que d á as bases deste tipo de estrutura é i n f e r e * IIIIMII de amar, sua procura de intimidade e proximi-
sante no sentido de n ã o ter fornecido à pessoa as situações s e v l i i do prazer. Segundo esta perspectiva, os diver-
ramente t r a u m á t i c a s que deram margem a posições defensivim ii iioi formam um espectro ou hierarquia; num
mais complexas. • a posição esquizóide, que é a fuga da intimidade
O trauma relevante deste caso é a e x p e r i ê n c i a de uma Ir u> a.' i"'i n e m muito a m e a ç a d o r e s e, no outro, a s a ú d e
t r a ç ã o na busca da g r a t i f i c a ç ã o erótica, principalmente a uivei li prevalece a a u s ê n c i a de contenções dos impulsos
genital. Essa f r u s t r a ç ã o acontece a t r a v é s da proibição da maM oh e m busca de amor, do contato, da intimidade.
t u r b a ç ã o infantil e t a m b é m em r e l a ç ã o ao pai do sexo oposto,] de c a r á t e r encaixam-se nesta hierarquia, segundo
A r e j e i ç ã o das suas buscas de prazer erótico e sexual é con ' idade e contato que se permitem ter. Usarei uma
siderada pela c r i a n ç a como uma t r a i ç ã o de sua â n s i a de amar, i i i a empregada para a a p r e s e n t a ç ã o dos tipos de
O prazer erótico, a sexualidade e o amor s ã o termos sinonimou
em sua mentalidade infantil. ll . l o " d e caráter esquizóide evita a proximidade í n t i m a .
Devido ao forte desenvolvimento egóico da pessoa, o c a i u . i Ilill Idno de caráter oral pode entrar em intimidades somen-
r í g i d o n ã o abandona sua consciência. Conforme ilustrado pelo i sua necessidade de ter calor humano e apoio, ou
diagrama, o c o r a ç ã o n ã o e s t á isolado da periferia. A pessoa . i i ICM infantis.
r í g i d a age com o c o r a ç ã o , mas debaixo de r e s t r i ç õ e s e sob o cofl»l Ilidi' nl Ic caráter psicopático s ó consegue relacionar-se
trole do ego. O estado desejável seria render o controle e deixai* precisam dele. Enquanto for a l g u é m n e c e s s á r i o e
o c o r a ç ã o assumir a d i r e ç ã o da vida. li u m a posição de controle sobre os relacionamentos,
Dado que a m a n i f e s t a ç ã o d e s c o n t r a í d a do amor como desejo lli um grau limitado de intimidade.
de intimidade física e de prazer erótico defrontou-se com uma Ilill idoo <lo caráter masoquista, surpreendentemente, é ca-
1

r e j e i ç ã o pronunciada nos pais, o c a r á t e r rígido move-se de modo ' i " lecer um relacionamento íntimo, com base em sua
indireto e dentro dos limites de sua guarda para obter este fim. .a. É óbvio que essa r e l a ç ã o só pode ser vista
N ã o usa da m a n i p u l a ç ã o central ao c a r á t e r psicopático; suas ai, mas é mais íntima que qualquer outra r e l a ç ã o
manobras objetivam a proximidade. |l Ida p e l o s t r ê s tipos anteriores. A ansiedade do indivíduo
I il asoquista, afirmando qualquer sentimento negativo
A i m p o r t â n c i a de seu orgulho reside no fato de a pessoa estai
ndo sua liberdade, p r o v o c a r á a perda de qualquer
vinculada ao sentimento de amor. A r e j e i ç ã o do seu amor s e x u a l
é um ataque ao seu orgulho e, da mesma forma, a r e j e i ç ã o d* o nto.
seu amor insulta seu orgulho. Individuo de caráter rígido estabelece relacionamentos ra-
iili Íntimos, pois m a n t é m - s e alerta, apesar da aparente
IH II i " e compromisso com outras pessoas.
148 149
Toda estrutura de c a r á t e r apresenta um conflito inerentfl lo c a r á t e r rígido é relativamente l i v r e ,
que h á , em sua personalidade, ao mesmo tempo, a necessl Iemente guardando sua liberdade dos ataques;
de intimidade, de a p r o x i m a ç ã o , de a u t o - e x p r e s s ã o e o mt • ni nao deixar que os sentimentos p r e v a l e ç a m
que estas necessidades sejam mutuamente exclusivas. A < nllito poderia ser descrito nos seguintes
tura de c a r á t e r é o melhor arranjo que a pessoa teve condi • i l u r o se n ã o perder minha c a b e ç a e se n ã o
de propor-se no início de sua s i t u a ç ã o existencial. InfelizH] ile ao amor". P a r a t a l pessoa, entregar-se
a pessoa fica acorrentada a essa s i t u a ç ã o , apesar de o meio i nl lei se; a submissão, por sua vez, reduziria
modificado, quando j á na fase adulta. Vejamos tais conflitos nquismo. Portanto, seus desejos e amor estão
de perto e t a m b é m , a p a r t i r desta a n á l i s e , como foi que cada e»
l iliidoH.
tura de c a r á t e r tornou-se uma defesa contra a posição imedl
mente abaixo na hierarquia dos tipos de c a r á t e r . i id i . . o ainda mais esta colocação dos tipos de
i destacando seus conflitos do seguinte modo:
Esquizóide: Se eu expressar minha necessidade de estai I
ximo de a l g u é m , minha existência entra em perigo. Invertd . i i i n c i a x necessidades
os termos da r e l a ç ã o , t e r í a m o s : "Só posso existir se não 111 Id ides x i n d e p e n d ê n c i a
necessidade da intimidade". Portanto, a pessoa esquizóide I ll \ • independência X intimidade
permanecer em estado de isolamento. i midade X liberdade
Oral: O conflito poderia ser expresso do seguinte modo: " I I In munindo / ceder ao amor.
eu sou independente, devo desistir de toda necessidade de upOfl li nl IH I H do qualquer um destes conflitos significa que
e calor humano". Contudo, esta colocação força a pessoa a |ii«r< laconismo entre os dois conjuntos de valores.
manecer na posição de dependência, sofrendo uma modificacM de descobre que existir e ter necessidades n ã o
para: "Posso exprimir minhas necessidades na medida em qUi elusivos, pois pode-se ter as duas premissas. A
não sou independente". Se esta pessoa abandonar sua necessuliii!»
id i mal descobre que é possível sentir necessidades
de amor e a p r o x i m a ç ã o , c a i r á na esquizoidia, que é ainda
iiu e r independente (apoiar-se sobre seus dois p é s ) ,
antitética à vida. fjllll illanle
Psicopata: Nesta estrutura de c a r á t e r , o conflito reside entra i e o desenvolvimento pessoais s ã o processos nos
os pólos da i n d e p e n d ê n c i a ou autonomia, de um lado, e ml mil i o cada vez mais tomando consciência de seus
dade, de outro. Poderia ser expresso da seguinte maneira: " P i m i i São estes: o direito de existir, ou seja, de estar
aproximar-me se eu deixar você me controlar ou usar-me". Ifjfl rganismo individual. Este direito é normalmente
n ã o é permitido na medida em que envolve a entrega total dou i i i i i . i o l e os primeiros meses de vida. Se este direito
sentimentos p r ó p r i o s ; por outro lado, o psicopata n ã o pode deixnl liei o . i.ilielecido nessa época, cria-se, pelo seu fracasso,
de lado sua necessidade de estar perto, da maneira como o esqui o a o para a estrutura esquizóide. No entanto, toda
1
zóide o faz, nem tampouco arriscar-se a ser independeu! i direito for seriamente a m e a ç a d o a ponto de a pessoa
maneira do oral. A c r i a n ç a , presa dentro deste círculo viciosa, iieza de seu direito, s u r g i r á a t e n d ê n c i a esquizóide.
é f o r ç a d a a inverter os p a p é i s e, nos relacionamentos posterioi • li» ler segurança nas próprias necessidades, derivado
torna-se a parte controladora e sedutora (como o fora um de seu l i d n fonte nutritiva da m ã e durante os primeiros anos
genitores) quando em contato frontal com outra pessoa, que m U m a i n s e g u r a n ç a b á s i c a a este nível determina uma
v ê reduzida a uma posição oral. Mantendo então o controle sobft
o outro, pode permitir-se uma certa intimidade. P o d e r í a m o s dizei (e ser autónomo e independente, ou seja, de n ã o estar
do seguinte modo: " V o c ê pode ficar a meu lado enquanto olhai nu
In i necessidades dos outros. Este é um direito perdido
de baixo para c i m a " . O elemento psicopático vê de forma invci
segue ser estabelecido quando o pai do sexo oposto
" V o c ê pode ficar perto de m i m " , em lugar de: " E u preciso cslm
| render-se a esta s e d u ç ã o coloca a c r i a n ç a dentro
perto de v o c ê " .
i de p o d e r deste genitor. A c r i a n ç a rebate a a m e a ç a sendo
Masoquista: O conflito neste caso é entre amor, proximid.nl. por sua vez, para ter poder sobre aquele. E m geral, a
e liberdade. E m poucas palavras: "Se eu for livre, você n ã o m a l e i o p o r resultado a estrutura psicopática de c a r á t e r .
a m a r á " . Frente ao conflito, diz o masoquista: "Serei seu mcnl líii ile ser independente, que a c r i a n ç a estabelece por meio
ninho bem comportado e você, em troca, me a m a r á " . a f i r m a ç ã o e oposição ao pai ou m ã e . Se estas ten-

150 151
tativas forem abortadas, a pessoa d e s e n v o l v e r á uma p< i
dade masoquista. A a u t o - a f i r m a ç ã o c o m e ç a normalmenii
18 meses de idade, em que a c r i a n ç a aprende a dizer ná<>, •
nuando seu desenvolvimento pelo ano seguinte. Este p e r í o d o |
cide com a e d u c a ç ã o de hábitos de higiene e o problema criiidn i
um treino forçado associa-se ao problema da auto-afirmaç;
oposição.
Direito de ter desejos e de fazer esforços no sentido de nil
fazê-los direta e abertamente. Este direito tem um tri mel
componente egóico, sendo o último idos direitos naturais a ser l A j
rido. Relaciono-o, quanto à e m e r g ê n c i a e desenvolvimento. •
lllrimlc: Uma Direção Secundária
ou menos ao período entre 3 e 6 anos de idade e e s t á fortemi
vinculado aos primeiros sentimentos sexuais da c r i a n ç a .
Quando estes direitos básicos e essenciais n ã o s ã o conven
temente estabelecidos, ocorre uma fixação na idade e na sitUI
causadora do bloqueio ao desenvolvimento bem-sucedido. . i/inrto
Dado que todos t ê m um certo nível de fixação em cadl
destes estágios ou períodos, cada um dos conflitos precisara i i leçflo sobre os tipos de c a r á t e r , mencionei que
uma certa e l a b o r a ç ã o . Neste momento, desconheço se há a l | nítidos como pano de fundo para o terapeuta,
ordem para a r e a l i z a ç ã o deste processo t e r a p ê u t i c o . P a r e c i lo com o paciente. E m primeiro plano, coloca-se
o melhor procedimento seria acompanhar o paciente na m lli n de vida do paciente. Esta inclui as queixas
em que for enfrentando cada um dos dilemas de sua vida. Qu o modo segundo o qual a pessoa se vê no mundo
isto é feito de modo correto, o paciente termina sua terapia o relacionamento entre sua personalidade e suas
consciência de ter o direito de ser e estar no mundo, com n 1
lo que grau relaciona-se com seu corpo (nível de
sidades e independência, e livre, mas igualmente amoroso, "a 1
mel tensões musculares que possam contribuir para
r á v e l " e comprometido. i particular), quais s ã o suas expectativas da terapia
lo, como está se relacionando com o terapeuta
cr humano. O foco inicial centraliza-se sobre
dentro da realidade. Devo acrescentar que
pi nli de vista este aspecto, no decurso da terapia, ape-
lo ampliado continuamente, conforme forem sen-
1
mais e mais aspectos de sua vida pessoal.
foco inicial deva incidir sobre a realidade, con-
I n . . . i o s e c u n d á r i a , s e c u n d á r i a num sentido tempo-
I n o ç ã o da pessoa dentro da realidade desenvol-
... conforme for chegando mais perto da maturi-
que a o r i e n t a ç ã o para o prazer e s t á presente desde
i • Ida Quanto melhor orientado dentro da realidade
Individuo, mais eficientemente suas a ç õ e s s a t i s f a r ã o
l i l a d e s do prazer. É inconcebível, na minha opinião,
nsiga atingir o prazer, a s a t i s f a ç ã o e a r e a l i z a ç ã o
oi lusamente, quando fora da sua p r ó p r i a realidade.
n realidade? Como é que podemos dizer de a l g u é m
.1. ta ou n ã o a respeito da p r ó p r i a vida? P a r a a p r i -
1 0 1 0 1 . i o.lo creio que tenha uma resposta s a t i s f a t ó r i a . Há
i i n l e s que penso serem fundadas na realidade, tais

152 153
como a i m p o r t â n c i a de uma boa r e s p i r a ç ã o , o valor de s e .lido esquizoide força-o a criar ilusões que sus-
liberto de tensões musculares c r ó n i c a s , a necessidade de onl il alivo na luta pela s o b r e v i v ê n c i a . Numa situa-
identificado com seu próprio corpo, o potencial criativo do | i r | | i i - oa se sente incapaz de mudar ou escapar de
e assim por diante. A propósito de algumas coisas portei mi • a r a d o r a , o recurso das ilusões impede que esta
modo irreal. Achava que poderia lucrar sem muito c s f n i i i • mi u m desespero total. Todo indivíduo esquizoide
perdi dinheiro no mercado de valores. E h á t a m b é m certos n l M arrotas por ele cuidadas com todo o carinho
tos assuntos a respeito dos quais estou confuso. Até que puni retizar. Quando sente que é rejeitado em sua
realista eu ver tantos pacientes assim? E carregar uma c a r « n 'I desenvolve a ilusão de ser superior aos seres
responsabilidades t ã o pesada? N ã o creio que alguém oooin por meio de virtudes especiais; é o mais nobre
todas as respostas para a primeira questão, de modo que min ia o a mais pura das mulheres. Estas ilusões
mo-nos para a segunda. • poem à s e x p e r i ê n c i a s da vida real daquelas pes-
Felizmente, a pessoa que vem à terapia admite eslai • m p l o , a jovem cujo comportamento sexual é des-
apuros, que h á algo em sua vida que n ã o saiu do jeito que do\ei|| ml e i i o , acredita ser pura e virtuosa. A idéia sub-
e que tem dúvidas acerca da realidade de suas expeelaie n
I
i IIIMAO é a de que um dia seria descoberta por um
Dados estes conhecidos problemas e o fato de que é mais f | l e r g a ria a t r a v é s de sua imagem externa, vendo
1 11
ser objetivo a respeito de outra pessoa, o terapeuta pode, em r.i i u ç ã o de ouro.
discernir os aspectos do pensamento e da conduta daquela pi mui i ilusão, p o r é m , é perpetuar o desespero. Cito,
que parecem irreais; pode dizer que s ã o baseados mais em ilmnm II |ioi q u e , este trecho de O Corpo Traído.
do que em realidade.
Por exemplo, f u i consultado por uma jovem que estava <<•••*I \ iurdidaque uma ilusão ganha força, ela passa a
mida devido à dissolução de seu casamento. Havia descai n
i o n c r e t i z a ç ã o , forçando desta maneira o indi-
que seu marido tinha outra mulher e esta descoberta quebrara m liliio n entrar em conflito com a realidade, o que pro-
m i l p e d a ç o s a imagem que fazia de si mesma como a "pequem ilu i na conduta desesperada. A busca da realiza-
e perfeita esposa". Os dois adjetivos que ela empregou esl om i ilusão requer o sacrifício de sentimentos
adequados. E r a uma mulher vivaz, pequena, que acreditava deill 1
no presente, e a pessoa que vive na ilusão é, por
car-se ao marido e ser-lhe indispensável ao sucesso profisstoifcj
É fácil imaginar seu choque quando v i u que ele se interessava |in| i pio, incapaz de fazer exigências de prazer. E m
outra mulher. Quem poderia oferecer mais ao seu marido do qm eu di e s p e r o ela está disposta a ignorar o prazer e
a p r ó p r i a esposa? o ii v i d a em estado de l a t ê n c i a , na e s p e r a n ç a de
3
qm m a i l u s ã o a ser realizada a l i v r a r á do desespero' '.
Fica evidente, a p a r t i r dessa história, que minha pacieni
a vida de modo irreal. A ideia de que se possa ser a "esi i
ih ' pacientes expressou claramente esta idéia quando
ideal" é certamente uma ilusão, sendo a p r ó p r i a natureza liuu
algo ainda longe da p e r f e i ç ã o . Acreditar que um homem pir i
agradecer sua esposa por torná-lo bem-sucedido n ã o se fundainea
n a s estabelecem para si p r ó p r i a s metas irreais
ta t a m b é m na realidade, uma vez que o efeito de uma tal atiludi
é negar o homem e c a s t r á - l o . O colapso das ilusões sempi•< • di pois s e conservam em constante estado de deses-
(4)
( 1 ) |iero na tentativa de c o n c r e t i z á - l a s . "
em d e p r e s s ã o ; esta oferece à pessoa a oportunidade de i |
nu suas ilusões e de restabelecer seu pensamento e raciocín
bases mais sólidas. h ohjetivos irreais novamente veio à tona quando eu
i d e p r e s s ã o . U m dado essencial era o de que toda
O que primeiro chamou minha a t e n ç ã o para o papel das llii
21 ilepi l i n l i l a tem ilusões que se colocam como um aspecto,
soes foi meu estudo sobre a personalidade esquizoide' . A eun
. l o iodas as ações e condutas. A partir deste dado
q u e a r e a ç ã o depressiva segue invariavelmente
n 0 o p q u e s e r á l a n ç a d s
com 'd í t X ò ^ r ; : t p i t í ^ - ° * *
i i ni/in / i.ii.In, pág. 119 da edição brasileira.
|iit|l 114 da edição brasileira.

154 155
a perda de alguma ilusão. E m meu livro Depression and l/in M ni o • nperior. Na realidade, ele é um príncipe
h á um p a r á g r a f o significativo que gostaria de citar: o.a i c n c e mesmo aos pais que tem. Alguns
lo a v e a imaginar que foram adotados. U m
A pessoa que sofreu uma perda ou trauma e r n l por exemplo, disse-me: "De repente, percebi
i infância, suficiente para abalar seu sentimento 1 o lo uma imagem de m i m como sendo um prín-
s e g u r a n ç a e de auto-aceitação, projeta para sim I 1
e s t a imagem ao sonho e que, um dia, meu
gem futura o requisito existencial de que esta luvjl dissesse que eu era seu único h e r d e i r o . . .
as e x p e r i ê n c i a s do passado. Por exemplo, o indlyfl i... místenlo a ilusão de v i r a ser descoberto um
que passou pela s e n s a ç ã o de rejeição, quando cr l a i l e n l i o que manter minhas ' p r e t e n s õ e s ' . U m prin-
configura o futuro como pleno de promessas dp • . ili i . n o s e fazendo serviços comuns. Tenho que
t a c ã o e a p r o v a ç ã o . Se tiver enfrentado em sua um Intui natureza especial".
nice o desespero e a impotência, t e n t a r á naturaliiaj tremo que uma pessoa pode atingir para ser
compensar em sua mente este insulto ao ego alniyi
.ni de sua natureza humana, é tornando-se
da e l a b o r a ç ã o de uma imagem de futuro em q U i l
ili ii i . ÍUI/O descompensado do c a r á t e r esquizoide). É
torne poderoso e no controle das situações. As fantéfl
m esquizofrénicos que c r ê e m ser Jesus Cristo,
e devaneios que a mente tece buscam invertei o na
i íaia, e assim por diante. No estado esquizo-
tido de uma realidade d e s f a v o r á v e l e rejeitadorn, 1
imo o c a r á t e r de delírio. A pessoa n ã o tem
ando imagens e sonhos. Este indivíduo perde o conH
com a origem infantil de suas e x p e r i ê n c i a s e s a o r f l lo discernir realidade e fantasia.
todo o s e u presente à s a t i s f a ç ã o daquelas. Estai fl i> i ranina sofrido pela pessoa com este tipo de
gens s ã o objetivos irreais e sua concretização é I ' • . p e i d a do direito de ter necessidades e de, conse-
(5)
fim i n a t i n g í v e l . - lili acifazer o estado desequilibrado de seu organismo.
|in desenvolve compensatoriamente é a imagem de a
A significância d e s t e p a r a g r a f o reside no fato de a m p l i a i il o In ni de vigor e repleta de energia e sentimentos,
papel da ilusão para todos os tipos de c a r á t e r . Toda cslrulilf
i onsirangimento. Quando o humor do indivíduo
de c a r á t e r é o resultado de e x p e r i ê n c i a s d a meninice qui
i . . i da para o pólo da e l a ç ã o , algo que é típico de
certo ponto, abalaram os sentimentos pessoais de "seguran
li luaão é viabilizada. A pessoa torna-se e x c i t á v e l ,
de a u t o - a c e i t a ç ã o " . E m qualquer estrutura de c a r á t e r , p o i t a u h
encontraremos imagens, ilusões ou ego ideais que compensam t| i li, .mio lurbilhões de pensamentos e ideias dentro de
m e n t o s . Este é seu ego ideal: constituir-se no
danos causados ao self (si mesmo). Quanto maior tiver NIIIII
trauma, maior s e r á o investimento de energia na i m a g e m ou ih il • como a l g u é m que se dedica por inteiro ao
s ã o ; em todos os casos, porém, este é um investimento cnnlifl i i ' lação, todavia, n ã o é muito mais sólida do que
r á v e l . Toda parcela de energia que for desviada para a tlnnl i . oa c n ã o tem condições de ser defendida, dada
ou para os objetivos i n a l c a n ç á v e i s , a pessoa não f i c a r a dlipil igia que seria preciso para tanto. Desestruturam-se
nível para viver o presente, o cotidiano. Encontra-se, assim, • n aiei oral entra num estado depressivo, igualmente
desvantagem esta pessoa, com uma capacidade deficunu I
enfrentar a sua p r ó p r i a realidade. i ili um paciente durante certo tempo, h á muitos anos, e
A ilusão ou ego ideal de cada pessoa lhe é tão peculiar quait|| i . , relevante. Certo dia, propôs-me dispor completa-
sua personalidade. A título de aprofundar nossos conhec ui... i . i i . . t|ue eu tinha porque estava preparado para fazer
a respeito de cada estrutura de c a r á t e r , podemos tentar uma d f l "Tenho vontade de compartilhar tudo que tenho",
c r i ç ã o ampla dos tipos de ilusões ou ego ideais mais típico i | | ..i que você n ã o faz o mesmo?" Perguntei-lhe quanto
cada um. p e n d e n me: "Dois d ó l a r e s " . Dado que eu possuía muito
le, a coisa não me parecia que fosse real. N ã o
Caráter esquizoide: Mencionei o fato de que o indivíduo t | > li e s l a v a convencido da generosidade que permeava
quizóide sente-se rejeitado como ser humano. A resposta dmla |

| psicopático: O indivíduo tem uma ilusão a respeito


5) Lowen, Depression and the Body, op. ctt., que será lançado pela SiiniimM
Editorial, com o t í t u l o O Corpo em Depressão. 'ditando tê-lo em segredo e que é todo-poderoso. Com-

156 157
a perda de alguma ilusão. E m meu l i v r o Depression and thi porior. Na realidade, ele é um príncipe
h á um p a r á g r a f o significativo que gostaria de c i t a r : i " 1 1 e n e » - mesmo aos pais que tem. Alguns
o u inclusive a imaginar que foram adotados. U m
A pessoa que sofreu uma perda ou trauma M xemplo, disse-me: "De repente, percebi
i infância, suficiente para abalar seu sentina ni o lo uma imagem de m i m como sendo um prín-
s e g u r a n ç a e de auto-aceitação, projeta para sua I Hi i i esta imagem ao sonho e que, um dia, meu
gem futura o requisito existencial de que esta | | • • d i s s e s s e que eu era seu único h e r d e i r o . . .
as e x p e r i ê n c i a s do passado. Por exemplo, o Indi amiento a ilusão de v i r a ser descoberto um
que passou pela s e n s a ç ã o de rejeição, quando 01 li tio MIO manter minhas ' p r e t e n s õ e s ' . U m prin-
configura o futuro como pleno de promessas dl |imli . i . o s a r s e fazendo serviços comuns. Tenho que
t a c ã o e a p r o v a ç ã o . Se tiver enfrentado em sua d liilin natureza especial".
nice o desespero e a impotência, t e n t a r á naturalinl
UM extremo que uma pessoa pode atingir para ser
compensar em sua mente este insulto ao ego alnii
11 telçAo de sua natureza humana, é tornando-se
da e l a b o r a ç ã o de uma imagem de futuro em mu
ilescompensado do c a r á t e r esquizoide). É
torne poderoso e no controle das situações. As Cantai
esquizofrénicos que c r ê e m ser Jesus Cristo,
e devaneios que a mente tece buscam inverter o f
tido de uma realidade d e s f a v o r á v e l e rejeitadora, ( ' ii i i is, e assim por diante. No estado esquizo-
ando imagens e sonhos. Este indivíduo perde o cojfl ' aune o c a r á t e r de delírio. A pessoa n ã o tem
com a origem infantil de suas e x p e r i ê n c i a s e saeilfj ili discernir realidade e fantasia.
' todo o seu presente à s a t i s f a ç ã o daquelas. Estas | l mi/ O trauma sofrido pela pessoa com este tipo de
gens s ã o objetivos irreais e sua concretização é 1 la do direito de ter necessidades e de, conse-
(5)
fim i n a t i n g í v e l . iti i i i i o estado desequilibrado de seu organismo,
mu a desenvolve compensatoriamente é a imagem de a
A significância deste p a r á g r a f o reside no fato de amplio
• l a i • in i i de vigor e repleta de energia e sentimentos,
papel da ilusão para todos os tipos de c a r á t e r . Toda estrulj
nsi.rangimento. Quando o humor do indivíduo
de c a r á t e r é o resultado de e x p e r i ê n c i a s da meninice que, i
til il o i ila para o pólo da e l a ç ã o , algo que é típico de
certo ponto, abalaram os sentimentos pessoais de " s e g u r a n ç a
• • i ilusão é viabilizada. A pessoa torna-se excitável,
de a u t o - a c e i t a ç ã o " . E m qualquer estrutura de c a r á t e r , portan
iiii indo turbilhões de pensamentos e ideias dentro de
encontraremos imagens, ilusões ou ego ideais que compensam
'oimientos. Este é seu ego ideal: constituir-se no
danos causados ao self (si mesmo). Quanto maior tiver ildji
iles como a l g u é m que se dedica por inteiro ao
trauma, maior s e r á o investimento de energia na imagem ou I
| • ' i a. ao, todavia, n ã o é muito mais sólida do que
são; em todos os casos, p o r é m , este é um investimento cniisll
oa e n ã o tem condições de ser defendida, dada
r á v e l . Toda parcela de energia que for desviada para a ilui
ou para os objetivos i n a l c a n ç á v e i s , a pessoa não ficara dai i ui que seria preciso para tanto. Desestruturam-se
nível para viver o presente, o cotidiano. Encontra-se, as ii i i c r oral entra num estado depressivo, igualmente
desvantagem esta pessoa, com uma capacidade deficiente
enfrentar a sua p r ó p r i a realidade. ili a o paciente durante certo tempo, h á muitos anos, e
A ilusão ou ego ideal de cada pessoa lhe é t ã o peculiar m i m Un i relevante. Certo dia, propôs-me dispor completa-
sua personalidade. A título de aprofundar nossos conhccimenl lllilu que eu tinha porque estava preparado para fazer
a respeito de cada estrutura de c a r á t e r , podemos tentar uma d "Tenho vontade de compartilhar tudo que tenho",
c r i ç ã o ampla dos tipos de ilusões ou ego ideais mais típicos que você n ã o faz o mesmo?" Perguntei-lhe quanto
cada um. Id ipondou-me: "Dois d ó l a r e s " . Dado que eu possuía muito
• I H ele, a coisa n ã o me parecia que fosse real. N ã o
Caráter esquizoide: Mencionei o fato de que o individuo li lava convencido da generosidade que permeava
quizóide sente-se rejeitado como ser humano. A resposta dada

" ' c impático: O indivíduo tem uma ilusão a respeito


litando tê-lo em segredo e que é todo-poderoso. Com-

156 157
pensa, deste modo, a experiência de ter sido desampara d., i III Individuo de c a r á t e r rígido suscita um pensa-
força, inerte nas m ã o s de um genitor sedutor e manipulador, inli i i. é uma pessoa amorosa; seu c o r a ç ã o e s t á
intuito, p o r é m , de concretizar a ilusão em sua mente, tei n e x p r e s s ã o deste sentimento é que e s t á blo-
de mostrar-se como pessoa detentora de riquezas ou podei 1 iii o. lo retém a e x p r e s s ã o de amor, seu valor
do o psicopata tem poderes, como acontece n ã o poucas i ii Iduo rígido, portanto, é a l g u é m amoroso a
s i t u a ç ã o torna-se perigosa, na medida em que não tem i| m a s não das condutas. O ponto interes-
de ser poderoso. Sendo assim, o poder de que dispõe não será III n ã o é falsa de modo algum; h á nela um
pregado de modo construtivo, mas no melhor interesse di li que nos leva a indagar: " S e r á que todas as
imagem egóica. Kmbora n ã o tenha pensado muito a fundo
1
i. i resposta imediata é positiva. Deve existir
Um paciente comentou comigo que, durante anos, tivera
ili r e a l i d a d e ou de verdade em toda ilusão, que
a imagem de a l g u é m que carregava uma mala contend
|h| ider p o r que a l g u é m se aferra t ã o tenazmente
dólares e a imagem fazia com que se sentisse poderoso i I
i l r u n s exemplos:
tante. Quando veio tratar-se comigo j á havia amealhai In
milhões de dólares e c o m e ç a r a a cogitar da falta de imp<>i n l a d e no fato de a imagem do indivíduo
e de poder que caracterizava tanto dinheiro. A palavra "pi f| lo como um ser especial. Alguns deles tor-
(realizar) denota um certo sentido de enfrentar a reahil.nl nte especiais e notórios, durante suas vidas.
ilusão do poder — daquilo que o poder faz por alguém ó , e s t á t ã o distante da insanidade, como bem o
comum em nossa cultura. No livro Pleasure discuto a mil livel dizermos que o serem rejeitados pela
poder-prazer. • r e l a ç ã o com o fato de serem especiais aos
i i . . haver uma certa validade nesta posição,
Caráter masoquista: Todo indivíduo de c a r á t e r mumiq di e a r á t e r oral é generoso. Infelizmente, pouco,
sente-se inferior. Trata-se de uma pessoa humilhada e envT portanto, considerar que sua ilusão funda-
nhada durante sua infância mas que, no fundo, sente .< . oi n i o s e não nos comportamentos. No universo
rior em r e l a ç ã o aos demais. Esta imagem é consubstanciai In lutas se revestem de valor de realidade.
sentimentos suprimidos de desprezo pelo terapeuta, pelo p i t t f l | dl c a r á t e r psicopático teve algo desejado pelo
por todos os que, na realidade, estão numa posição superlul rio não teria sido objeto de sedução e de mani-
Um dos motivos pelos quais é t ã o difícil tratar deste prohl i i n i i ' c r i a n ç a , deve ter percebido este jogo e dele
é o fato de que o paciente com esta estrutura de c a r á t e r mio MI desgosto de poder. Verdade que era real-
condições de permitir que a terapia seja bem-sucedida. Se a di . a m p a r a d o e o poder era então algo que só exis-
pia tiver êxito, prova-se que o terapeuta é mais compefent >.!• A p r e n d e u , contudo, algo sobre a vida que usou
que o paciente. Que círculo vicioso! Esta ilusão explica em Poda vez que a l g u é m precisar de você para alguma
por que motivo o masoquista investe tanto em seus I r a . a li p o d e r sobre essa pessoa".
Estes s ã o negligentemente explicados com base na falta de esf n i r . a r as bases da ilusão de superioridade do
suficiente para sair-se bem em alguma s i t u a ç ã o , o que quci pi -ar d e haver ao menos uma. O único pensa-
que, se quisesse, teria bons resultados. De modo p a r a d o u i , • • I H a c a b e ç a , e que proponho com algumas reser-
fracasso apoia esta ilusão de superioridade. masoquista é superior em sua capacidade de
ai n a ç ã o dolorosa. " N i n g u é m aguenta uma coisa
Caráter rígido: Esta estrutura decorre da r e j e i ç ã o uprwf aquista mesmo", é o que se diz normalmente. Ele
tada por um dos pais ao amor demonstrado pela criança ilmla s i t u a ç ã o e m a n t é m uma r e l a ç ã o social que
sente-se t r a í d a e com o c o r a ç ã o partido. Sua autodefesa i n i i leriam h á muito abandonado. H á alguma vir-
tui-se no processo de e n c o u r a ç a m e n t o ou de e l a b o r a ç ã o di ado ' 1'ode haver, em algumas c i r c u n s t â n c i a s . Quan-
defesa contra a m a n i f e s t a ç ã o inequívoca do amor, por m e d o ili l tistá numa s i t u a ç ã o de absoluta dependência em
novamente t r a í d a . Seu amor e s t á resguardado. Apesar-, por , o fato de você submeter-se a esta situação p o d e r á
de ser esta a realidade de seu modo de vida no mundo, a pcut ' iuspeita-se que tenha sido esta a e x p e r i ê n c i a do
de c a r á t e r rígido n ã o se enxerga deste modo. Sua ilusnu i i e l a ç ã o ao vínculo com a m ã e , o que acabou fa-
auto-imagem, é a de que ela é quem ama sem ser amada I u m pouco valioso."

158 159
!• m.mdas da realidade, de um lado, e as tenta-
O perigo de uma ilusão ou imagem de ego é o fato d l
mf *Mit Ilusão, de outro. A pessoa não está disposta a
a pessoa em termos de realidade. O indivíduo de c a r á t e r
limio .1, lado, visto que isto significaria um golpe para
quista n ã o pode dizer quando é nobre submeter-se a
tempo, a pessoa n ã o pode eximir-se totalmente
; ã o dolorosa e quando isto tem o c a r á t e r de uma autoflag( l
' i n e i a s da realidade. E , na medida em que
Da mesmo forma, a pessoa r í g i d a n ã o pode discernir |Uj|
duta amorosa de uma não amorosa. O que nos cega n a u » com a realidade, esta assume um aspecto
ilusões; somos obcecados pelas imagens egóicas que elas m i l içador e atemorizante. Esta é a imagem que
Estando obcecados, n ã o conseguimos pôr os p é s no c h ã o i In \ ista pelos olhos de uma c r i a n ç a desesperada,
temos condições de descobrir nosso verdadeiro íntimo. •.presenta ainda uma outra complicação pelo
li rem uma vida secreta, ou, em outras pala-
mWÊt e 01 devaneios fazerem parte da vida secreta
Obsessões (hang-ups) i a s . Dizer que raramente esta vida secreta é
a de modo e s p o n t â n e o p o d e r á surpreender
Diz-se que a l g u é m está "obcecado" quando se vê premi i i a tem sido minha experiência e n ã o creio
conflito emocional que o imobiliza e impede toda ação tfj lo creio t a m b é m que o fato de ocultar estas
no sentido de transformar a s i t u a ç ã o . Estes s ã o conflii• >•• i il< liberado; é que a maioria dos pacientes sim-
postos por dois sentimentos opostos que se bloqueiam mutuai ii.i r e l e v â n c i a . Concentram-se no problema
quanto à m a n i f e s t a ç ã o . A m o ç a que está extremamente un levou a buscar auxílio e não pensam que suas
nada por um rapaz é um exemplo adequado. De um lado, sen i ml.isias tenham alguma i m p o r t â n c i a . Assumi-
a t r a í d a por ele e sente que precisa dele; por outro lado, i - lencia de uma n e g a ç ã o inconsciente, operando
rejeição e sente que vai se magoar se aproximar-se dele. Ino lei a informação oculta. Cedo ou tarde, todavia,
de i r avante por causa do medo e de recuar por causa do d ulla deve aparecer.
e s t á completamente perdida, obcecada. A pessoa pode fli n •t npaz que sofria de uma d e p r e s s ã o h á muito em
mesma s i t u a ç ã o com seu emprego, quando n ã o está envol apia consistia num intensivo trabalho de corpo,
com ele mas teme deixá-lo devido à s e g u r a n ç a que o mesinn M a ç ã o e m a n i f e s t a ç ã o de sentimentos, aos
proporciona. Fica-se perdido em qualquer s i t u a ç ã o na quitl I do favorável. Expressava, ao mesmo tempo,
timentos contraditórios impedem um movimento eficiente paru a respeito de sua infância, que aparentemente
solucionamento. adição. A d e p r e s s ã o , no entanto, perdurava
Estas obsessões podem ser conscientes ou inconsciente* sessão haver uma leve melhora em suas atitudes.
a pessoa tem consciência do conflito mas não consegue r e s o l v * II por v A rios anos. O paciente acreditava firmemente
sente-se presa interiormente. N ã o obstante, o indivíduo p o d o r * o. r«élica o ajudaria e eu estava preparado para ficar
entalado em conflitos que surgiram na infância e que não
se recorda. Neste caso, a pessoa não tem consciência d l significativos de sua meninice foi a morte de
"obcecada". lo ele tinha nove anos. Ela morreu de c â n c e r e,
Toda obsessão, tanto consciente quanto inconsciente, l i m U | i ficado vários anos presa à cama. Quando de
liberdade da pessoa em seu movimento pelos diversos sotorc* i i " i i i " disse o paciente, pouco havia se emocionado,
vida, n ã o apenas na á r e a de conflito. A moça que esta i' m i n a s s e de que a m ã e havia sido muito dedicada a
nada por um rapaz v e r i f i c a r á que seu trabalho ou estudo e | l i qualquer sofrimento, o que era difícil de entender,
r e l a ç õ e s familiares t a m b é m s o f r e r ã o . Isto t a m b é m acontece, qiii esta n e g a ç ã o era a causa de sua posterior depres-
bora em menor p r o p o r ç ã o , com as obsessões inconsciente! • i o u i r a que isto representava era i m p e n e t r á v e l .
à maneira de todos os conflitos emocionais ainda não solucions
assumem uma estrutura corporal na forma de tensões mu 'iilo das comportas deu-se num s e m i n á r i o clínico
c r ó n i c a s . São estas que efetivamente m a n t ê m o corpo em Itf i|ir< sentei o rapaz para os colegas presentes. Durante a
penso, configurando certas formas que passarei a descrevei do caso, analisamos seu problema usando a lingua-
brevemente. i e revimos sua história. A d m i t i u que ainda sentia-se
ubito, uma das minhas associadas fez uma obser-
E m geral, n ã o se leva em c o n s i d e r a ç ã o que toda ilusão delsl
a pessoa obcecada. Fica enredada nas malhas de um conflito nM i IH leni o: "Você acreditava poder fazer com que sua

161
160
lambem é experienciada por pessoas esqui-
m ã e voltasse do reino' dos mortos". Meu paciente olhou |
iii está em seu meio ambiente sem um con-
uma e x p r e s s ã o acovardada em seu rosto, como se dj
iue a cerca, dizemos que e s t á "desligada".
"Como é que você sabe?" e depois respondeu: " S i m " .
l i o bioenergética deste fato é a m o v i m e n t a ç ã o ascen-
Não sei como é que ela percebeu isso. F o i uma intuiçflti afiiftlando-se dos p é s e das pernas. Quanto mais
vilhosa e pôs a nu uma ilusão que h á mais de vinte anOfl | i mento, mais alto parece que a pessoa subiu,
mantendo meu paciente em suspenso. N ã o creio que i || energéticos ou sensíveis, a pessoa e s t á mais
revelar essa ilusão voluntariamente. Pode ser que tivtl I
i do chão. Quando ficamos "altos" por causa
tado ocultá-la de si mesmo, talvez por medo da vergonha • >
de tal problema ter vindo à tona, no entanto, constituiu M la • ••• limite - por exemplo, a consecução de um
ponto de significativa t r a n s f o r m a ç ã o no curso de seu traiam b a subida da energia dos pés para a c a b e ç a
fcfia onda ascendente de e x c i t a ç ã o e de energia
Toda terapia precisa de insights intuitivos por parte do i l efálica. A onda é acompanhada por u m fluxo
peuta, bem como de sua c o m p r e e n s ã o a respeito do m l uigue que colore o rosto de rosado e de
existencial do paciente. Se n ã o conseguimos descobrir qufl iiido a pessoa toda. A " a l t a " por droga, por
ilusão de um paciente, embora alguns a exponham sem • IIINI lia umaalmente o mesmo fluxo ascendente que,
mas, podemos pelo menos determinar que a pessoa esta \ a energia sai tanto da c a b e ç a quanto da
numa obsessão, verificando uma certa parcela de seu i [ i|n empo. O rosto perde a cor, os olhos ficam para-
mento. Isso temos condições de fazer pelo fato de a otf 1
há uma diminuição na vivacidade. N ã o obstante,
manifestar-se na e x p r e s s ã o física da pessoa. Quando v i io de a pessoa estar " a l t a " devido à movimenta-
obsessão, podemos inferir a ilusão, sabendo ou n ã o qual Ali la energia, do c h ã o para cima. Na outra extre-
natureza exata. III po i descida de energia da c a b e ç a para a parte
H á dois modos de se determinar, a partir da expressão ¡ 1'inp" produz um estado dissociado a nível mental,
r a l , se a pessoa e s t á ou n ã o subordinada a uma ilusão: prlttl Mutuar livre de seus limites corporais.
verificando a t é que ponto está em contato com o chão (grmiih ira pela qual podemos visualizar fisicamente
Este contato com os próprios p é s , com o chão, é o oposto no I il postura da metade superior do corpo. H á v á r i a s
em suspenso, preso por uma ilusão. Estar com os dois p< de se ficar obcecado por uma ilusão; a que v i
chão é uma linguagem corporal que revela o fato de a pi Hi de casos é a que chamo de "cabide". Pratica-
estar em contato com a realidade, agindo sem a p r e s s ã o du II i II os apresentam este tipo: os ombros erguidos
tanto consciente quanto inconsciente. E m sentido literal, i . IH halados, o pescoço e a c a b e ç a inclinados à frente,
temos os p é s no chãos mas, em nível energético, isto nem uni ilidem oitos desde a a r t i c u l a ç ã o escapular e o peito
, u

acontece. Se a energia da pessoa n ã o flui vigorosamente al , , , i , ,,, olios aesue- d < u « - ' " v » » „ v,ir-lp
a

, ,, |o Tem-se a i m p r e s s ã o de que existe um cabide


pés, o contato sensitivo ou energético com o chão fica ¿eriain
, |,i po do indivíduo:
limitado. U m contato superficial, como nos circuitos elelt
nem sempre é suficiente para assegurar o fluxo da c o r n o
A f i m de observarmos devidamente a perspectiva energl
consideremos o que se passa quando a pessoa está embriag
por exemplo. H á muitos tipos de a pessoa estar " a l t a " e 0
mento c a r a c t e r í s t i c o comum a todos eles é a s e n s a ç ã o de tl
pés fora do c h ã o . Quando o indivíduo e s t á embriagado, por e
pio, sente dificuldade de perceber a t e r r a embaixo dos pél
contato com o c h ã o é francamente instável. Poderia ser rei
sabilizada sua falta de c o o r d e n a ç ã o , determinada pela Ingl
de álcool. Apesar desse fato, ocorre a mesma s e n s a ç ã o qui
a l g u é m sente-se " a l t o " por causa de notícias muito excitan
A pessoa parece que está flutuando e, quando apaixonada, dl
sozinha, leve, seus p é s tocam o solo apenas o indispensável l
" a l t a " por causa da ingestão de drogas confere uma sensação

162
Uma análise da e x p r e s s ã o deste corpo denuncia a dinàim< quando as examinei, estavam tensas e rígidas,
conteúdo que o m a n t é m em suspenso. Os ombros erguido h Uguiua dificuldade em dobrar os joelhos. Os pés reve-
uma e x p r e s s ã o de medo; isto se prova pedindo-se a alguém 1 ii m e u t o q u e e, aparentemente, destituídos de carga
fique como se estivesse com medo. Observe como os ombros lev liuli t J u a n d o tentou realizar a postura do arco, sua
tam-se automaticamente ao mesmo tempo em que o peito enchi iiu e, quebrando a curvatura normal. Senti que a
de ar. Quando a e x p r e s s ã o é de amor, normalmente os omh < ni i i i í c n t o s que desciam para a metade inferior do
abaixam-se. Ombros que estão habitualmente erguidos revtjj 111 nu ndamente reduzidos, o que j á explicava seus
uma pessoa trancada dentro de uma atitude de medo que | i d e m sexual. O rapaz admitia sentir falta de sen-
consegue se l i v r a r , uma vez que não tem consciência do fato idi ii i p e r n a s . Devo acrescentar ainda que sua r e s p i r a ç ã o
estar atemorizada. E m geral, está fora do alcance da memo l i m i e superficial sem praticamente qualquer envolvimento
a s i t u a ç ã o provocadora do medo, e a t é mesmo a r e m o ç ã o foi su i nos movimentos r e s p i r a t ó r i o s ,
mida. Estas posturas habituais não se desenvolvem a partir iiIn .eus problemas pessoais, pode parecer surpreendente
uma única experiência, representando uma contínua exposição IH q u e este rapaz tenha depois desistido de se tratar. Con-
situações a m e a ç a d o r a s . Poderia, por exemplo, ser a experiên i os discutindo sua p r o b l e m á t i c a , tornou-se evidente para
de um menino que sentisse medo do pai por muito tempo. que ele estava demasiadamente envolvido pela obsessão do
A c o m p e n s a ç ã o para esta atitude de medo é o ato de coloca i iiiieiiiu estudantil para descer o suficiente para encarar a
c a b e ç a à frente, como que para enfrentar a m e a ç a s ou, pelo men le de sua situação pessoal. Jamais fiquei sabendo quais
ver se h á alguma a m e a ç a . Dado que pôr a c a b e ç a à frente ,t.. iin u e s que mantinha a respeito de como suas dificuldades
corpo é perigoso do ponto de vista físico num confronto c . o poderiam ser resolvidas com esse envolvimento estudantil.
outro homem, este detalhe da postura é, para todos os efeit i i i n v o c o , contudo, ter ele transferido para o âmbito social
uma n e g a ç ã o de medo, pois diz: " N ã o tenho nada a temer". E i lula por sua liberdade e dignidade pessoal; nesse nível, teria
postura afeta necessariamente a região inferior do corpo, pois .di. ues de sustentar a imagem de macho agressivo na com-
quando a pessoa sente medo, pisa muito de leve; o medo tira a i 10 de seu fracasso como pessoa.
pessoa do c h ã o . N.is mulheres, um problema comum que as m a n t é m em sus-
|n uso e o que se configura como a "corcunda da v i ú v a " , massa
Estar com medo e negar este sentimento é uma s i t u a ç ã o que
lie t e c i d o que vai se acumulando exatamente abaixo da sétima
provoca uma obsessão. A pessoa n ã o consegue mexer-se por
i i b r a cervical, na j u n ç ã o do pescoço, ombros e tronco. Esta
causa do medo e nem fugir porque negou-o. E s t á imobilizada
i.i ni uberância deriva seu nome do fato de ser raramente encon-
emocionalmente, ou seja, presa e em suspenso.
ii ida nas mulheres jovens e de ser mais comum nas de mais
A s u p r e s s ã o do medo resulta na supressão da raiva que acom- ni ide. Dada sua a p a r ê n c i a , denomino este formato no corpo de
panha o indivíduo. Uma vez que n ã o h á o que temer, t a m b é m n ã o nicho de carne", porque parece-me que um gancho de açou-
h á com o que se zangar. Os sentimentos suprimidos, p o r é m , t ê m
qoo produziria essa figura.
um modo todo seu de indiretamente virem à tona. H á algum
tempo fui procurado por um rapaz que era líder do movimento
ativista estudantil. Queixava-se de estar insatisfeito consigo
mesmo, n ã o ficava à vontade na p r e s e n ç a de moças. V á r i a s vezes
havia perdido sua e r e ç ã o quando no meio de uma r e l a ç ã o sexual,
o que muito o e m b a r a ç a r a . Disse t a m b é m ter muitas dificuldades
quanto a decidir sobre uma carreira.
O exame do corpo deste jovem revelou que seus ombros e
peito estavam erguidos e como que desencaixados, o a b d ó m e n con-
t r a í d o , a pelve inclinada à frente e fortemente c o n t r a í d a , a cabe-
ç a d e s c a í d a para diante sobre um pescoço encurtado. A postura
fazia com que a metade superior de seu corpo parecesse estar
inclinada para a frente. Seus olhos eram alertas e o queixo tenso,
duro e desafiante.

164 165
i. sexual a m b í g u a : quando é colocada num
A localização da corcunda é o ponto onde o senti h • aso em Depression and the Body. O ato
raiva sai pelos b r a ç o s e sobe pela c a b e ç a . Nos animal i" destal eleva a mulher acima do nível do
gatos, por exemplo, a raiva se expõe pelo eriçamenM IIM malquer outro tipo de " o b s e s s ã o " . No caso
ao longo da coluna e pelo arqueamento das costas. D | | i iln paciente, da pelve para baixo parecia u m
assinalara isto em seu livro intitulado The Expressam iiyido imóvel, e dava a s e n s a ç ã o de só servir
{(,)
Emotions in Man and Animals . lado superior do corpo.
E m minha leitura deste corpo aprendo que esta COS
decorrente da c o n t e n ç ã o e do acúmulo de raiva bloqueada
de acontecer com frequência nas mulheres mais velhas i
gradual e l a b o r a ç ã o de uma grande quantidade de raiva e
resultante das f r u s t r a ç õ e s de uma vida inteira. Muita njj
mais velhas t ê m a tendência de ficar mais baixas e mail
à medida que vão passando os anos.
Devo esclarecer que o elemento bloqueado é a manai
física da r a i v a por meio de socos e n ã o sua expressão
É notório como s ã o mordazes certas viúvas.
A análise que faço do problema representado por uma pn
corcunda é a seguinte: está aí envolvido um conflito e n t f T
atitude de s u b m i s s ã o — ou seja, ser uma boa menina p u a
dar o papai e toda a família — e outra de raiva por c |
f r u s t r a ç ã o sexual que essa atitude acarreta. O problenl
suas raízes na s i t u a ç ã o edípica, em que a menina vê-se pre
sentimentos conflitantes relativos aos genitores: de um lado.
e sentimentos sexuais, por outro lado, raiva e frustração
situação dá margem a uma " o b s e s s ã o " , posto que a meninfl
tem condições de exprimir sua raiva dado o medo de reflT
d e s a p r o v a ç ã o e a perda do amor parental, nem tampoiu
aproximar-se do pai, sentindo a sexualidade do contato, poli
implica em r e j e i ç ã o e d e s g r a ç a . N ã o estou me referindo |
contato sexual com o pai, mas sim do a g r a d á v e l contato eri
que faz parte de uma m a n i f e s t a ç ã o natural de afeto. Trai
neste caso, de o pai aceitar a sexualidade de sua filha. A siill uniras "obsessões" que merecem ser mencio-
s ã o à exigência de que a filha seja uma boa menina que, evl oeiuda à estrutura esquizoide de c a r á t e r e
temente, implica a a c e i t a ç ã o de uma moralidade ambígua fim aioi o i o " porque a postura do corpo faz lembrar
respeito à sexualidade, imobiliza na mulher a busca de prn/.el • o. i ii in que acaba de ser enforcado. A c a b e ç a
xual, forçando-a a adotar o papel passivo. Podemos ima I H Mi para o lado, como se estivesse rompida a cone-
ilusões que uma m o ç a desenvolve no sentido de compensai • i " do corpo. Na estrutura esquizoide de c a r á t e r ,
perda de agressividade sexual. iptura na conexão entre a c a b e ç a e suas funções
Há outro caminho para a mulher ficar confusa dentro d> pau 1 a ar pendurado pelo pescoço levanta a pes-
1 1
indivíduo de personalidade esquizoide n ã o se
oíalo deste indivíduo com a realidade é super-
6) Charles D a r w i n , The Expression of the Emotions in Man and H m.n . importante, p o r é m , é o fato de a principal
(Londres, W a t t s & Co., 1934). D a r w i n diz o seguinte: " V i o pelo dos l.,il
A n ú b i s , quando zangados, eriçar-se ao longo das costas, do pescoço no lot
iftn delta estrutura de c a r á t e r localizarse na base do
Com os c a r n í v o r o s , observa D a r w i n , que esta ação "parece sn piiilim i n lamente esta t e n s ã o que cinde a unidade da per-
universal, sendo muitas vezes acompanhada de movimentos ameaçador™, ila N« ri alidade, as tensões musculares desta r e g i ã o con-
sentação das presas e da emissão de grunhidos selvagens", págs. 40 i II i
tivamente. 167

166
le lermos energéticos, tem uma " o b s e s s ã o "
a . não solucionados. A pessoa que n ã o está
. .1 min lambem n ã o está em contato com a reali-
prnporção. É com base nesta i n f o r m a ç ã o que
u-tem com r e l a ç ã o a um paciente, dado que
1 entrar mais firmemente em contato com o
. .pectos de sua realidade. Cedo ou tarde,
1 1 os conflitos subjacentes v ê m à superfície
o b s e s s ã o " daquela pessoa, ao lado das ilusões
nirapartida psíquica, tornam-se evidentes
Í a terapeuta.

a, firounding significa fazer a pessoa entrar


Imo. Estar em contato com o chão é o oposto a
a estar no ar. À s e m e l h a n ç a , porém, de uma
b i o e n e r g é t i c a , este termo t a m b é m tem um sentido
figuram um anel na a r t i c u l a ç ã o da c a b e ç a com o pescoço. >
funciona como um laço para enforcar. Trabalha-se con 1 1 1 1 o de estabelecer um contato adequado com o
mente, na bioenergética, exatamente nestas tensões, no I al le s e pisa.
de restabelecer a unidade da personalidade. pessoas pensa que tem seus pés no chão e, em
oie.ino. Podemos dizer que as pessoas t ê m
Finalmente, h á uma " o b s e s s ã o " que eventualmente sc vel 111I1 o c o m o chão, mas n ã o sensitivo nem energé-
nos esquizofrénicos limítrofes e que denomino de "cruz" I
s a b e qual é a diferença enquanto n ã o se a tiver
pede a um destes indivíduos que abra os b r a ç o s na altura
11 1 alguns anos a t r á s , em Esalen, numa de minhas
ombros, fica-se impressionado com a forte imagem que a i >• >•>
corporal apresenta, mostrando Cristo crucificado ou logo a p ò | p a r a lecionar b i o e n e r g é t i c a , fui procurado por
sido baixado da cruz. Muitos esquizofrénicos identificam i Itu d a v a aulas de t'ai chi para residentes e convida-
fundamente com Jesus Cristo e alguns chegam inclusive .1 Ine q u e , apesar de ter experimentado os exercícios
volver o delírio de serem Cristo. É contundente ver come o lli 1 m i m a conseguira chegar a sentir vibrações em
concretiza esta identificação. 11 II11 via visto a o c o r r ê n c i a destas vibrações nas per-
1'llclpanlc.s de meus workshops e se perguntava por
Estas atitudes corporais que revelam as " o b s e s s õ e s " H acontecia o mesmo com ela. Devo acrescentar
pessoa n ã o t ê m a intenção de compor uma r e l a ç ã o rum |i ei professora de t'ai chi, havia sido bailarina,
J á v i v á r i a s pessoas cujos corpos e e x p r e s s õ e s faciais ai
llflquei me a trabalhar com ela, aceitou a proposta
lhavam-se extraordinariamente aos quadros de Moisés que 1
1 ia três exercícios. O primeiro foi a posição do
comumente. Tenho certeza de que isto indica uma "obse
na personalidade mas ainda n ã o me detive o suficiente para 1 1 no Capítulo I I ; pretendia pôr seu corpo em linha
f u n d a r m e no problema, para poder adiantar alguma afirma" H 1 r e s p i r a ç ã o . Algumas pessoas respondem à t e n s ã o
1 m \ 0 . 1 n d o - s e levemente, mas ela n ã o . Suas pernas
c a t e g ó r i c a a respeito. P o d e r ã o inclusive surgir outras "oh
soes" a nível corporal no futuro. h usas e r í g i d a s e precisavam de uma tensão ainda
1 - n i romper a rigidez para que os movimentos vibra-
É de grande ajuda para a pessoa podermos compreende la li ' m manifestar-se. Fiz com que ela ficasse em pé
suas " o b s e s s õ e s " a p a r t i r da leitura de seu corpo. Apcsai c o m o joelho dobrado e b a l a n ç a n d o de um lado
não podermos descrever uma " o b s e s s ã o " apenas olhando p n r i 1 . oipiirrando-se com o auxílio de uma cadeira. Todo
corpo, Se sua e x p r e s s ã o n ã o for muito clara, podemos senipn 1 . o ' m po localizava-se na perna dobrada e a i n s t r u ç ã o
certeza de que toda pessoa cujos p é s n ã o estejam firmcmi nl 1 antivesse a postura o quanto aguentasse e, depois,
168 dn 1 n a s s e intolerável, que c a í s s e sobre um cobertor

169
dobrado no c h ã o à sua frente Pi« r o ,r
• •• sensações e p e r c e p ç õ e s das pernas e p é s .
n i a s vezes, dizem: "Realmente estou sen-
e pés. Nunca tive essa s e n s a ç ã o antes",
i u m a noção do que seja o grounding e tam-
• el enlir-se mais em contato com a p r ó p r i a base

i cicios, todavia, n ã o s ã o suficientes para dar


Tcm-se de trabalhar regularmente com eles
nanlcr a s e n s a ç ã o de s e g u r a n ç a e de ter r a í z e s ,
p n s i ç ã o bem situada. No sonho retomado no Ca-
ano estive atado por um fio fraco de arame,
• li i o/.clo e que eu poderia ter facilmente removi-
p n s i s a v a curvar-me e rompê-lo. Mas o que é
i, n a realidade? Num trabalho mais recente com
i n i i c o m o meus tornozelos estavam enrijecidos.
i ã o extremamente tensos quanto a maioria
n a s t a m b é m n ã o s ã o t ã o descontraídos quanto
l i e m notei tensões nos meus p é s . Por exemplo,
i c o sentar nos calcanhares com os p é s à frente,
loi m c os arcos dos p é s entram em espasmo.
orna aula de exercícios bioenergéticos, condu-
posa, minhas pernas c o m e ç a r a m a tremer t ã o
achei que elas n ã o i r i a m mais sustentar-me.
uno aconteceu, mas a experiência era nova para
IN »1 nlmil ,i minha idade estes problemas, mais de
MIOS hoje, mas prefiro pensar que ainda tenho
O resultado dos dois primeiros exercícios f o i o apro imento que poderia desenvolver se me tornasse
to de sua r e s p i r a ç ã o , que t a m b é m ficou mais cheia la e com um contato ainda maior com o chão.
fazia o terceiro exercício, cujo ponto de t e n s ã o excluso., Mil i n no trabalhando comigo.
t e n d õ e s de t r á s dos joelhos, suas pernas c o m e ç a r a m a Mi H io,. Mie falando, grounding serve para o sistema
Ela sustentou a posição durante algum tempo, atenta à *e iii MM .mo da mesma forma que para um circuito
Quando se ergueu, disse: "Estive em cima de minhas li nsfto e é constituído de uma válvula de segu-
vida toda. Esta é a primeira vez que estive dentro delas", • ili carga de excessos de e x c i t a ç ã o . Num sistema
dito que t a l a f i r m a ç ã o se aplique a muitas pessoas. mio súbito de carga pode queimar uma parte da
ar um incêndio. Na personalidade humana,
E m pessoas muito conturbadas, pode ser que seus pós o'
| ia t a m b é m p o d e r á ser perigoso caso a pessoa
a t é à insensibilidade. Lembro-me de outra m o ç a que In
nl ilo cciin o c h ã o . A pessoa pode fragmentar-se,
estado esquizofrénico. Tinha vindo para a consulta usan
nas um par de ténis, apesar de ser um dia chuvoso, de • oi u ansiedade ou entrar em d e p r e s s ã o . O perigo
em Nova Iorque. Quando tirou os sapatos, v i que seus pés imli IH In indivíduos cujo contato com o chão é p r e c á r i o ,
azuis de frio mas, ao perguntar-lhe se estavam frios, dl • qulzofrênicos limítrofes. Meus colegas e eu em-
*''' 1111 u 1111c*111e, com tais pessoas, uma alternância
n ã o . N ã o os sentia frios, simplesmente, n ã o os senha
Iis* e l e v a m o teor de carga ( r e s p i r a ç ã o ) com
Quando demonstro algumas das t é c n i c a s da bioencrgi lli n
profissionais, depois de explicar-lhes o conceito de descarregam a carga e n e r g é t i c a (manifesta-
faço-os realizar alguns dos exercícios fundamentais, p a i a .1 l o s ) , além de exercícios que d ã o à pessoa uma
volverem as v i b r a ç õ e s em suas p r ó p r i a s pernas. O li |."i.o ido a pessoa sai da s e s s ã o ou de um workshop
i " , há uma grande probabilidade de sofrer uma
170
171
ilidade; é a sexualidade, o medo de se derreter
ruptura. Isto n ã o é sério quando se consegue pri f ae afundar no fogo da p a i x ã o que queima a bar-
enfrentá-lo. No entanto, quando a pessoa sai senti
sólida, as probabilidades de v i r a sustentar a 11.i a ansiedade de se ficar em pé sobre seus dois
maiores. ala o estado de a pessoa permanecer só. Quando
No atual estado do nosso conhecimento, n a u e n l e u i l mos s ó s ; é esta a realidade de nossa existência.
completo a conexão e n e r g é t i c a entre p é s e chão IN ttll i i i que a maioria das pessoas reluta em aceitar t a l
contudo, da existência dessa ligação. O que sei, • iu i Ignifica para elas ficarem sozinhas. Por t r á s
dúvida, é que quanto mais a pessoa sente seu contai o l i a . l a de independência, apegam-se a relacionamentos
mais consegue pôr-se em seu lugar, mais carga eme i a l a s por estes. Quando ficam dependentes de uma
tar e mais sentimentos consegue manipular. Isto la dj i i o e n i seu valor e, n ã o obstante, temem deixá-la
de grounding um objetivo p r i m á r i o da bioenergética, q ia .o o então serem r e s p o n s á v e i s por si mesmas. Mas,
em que implica que a maior a t e n ç ã o do trabalho devi M I n a i n surpresas por descobrirem que n ã o estão sozi-
para baixo, ou seja, fazer com que a pessoa adentre per ledlda em que a r e l a ç ã o melhora a ponto de tornar-se
Pode-se questionar por que motivo isto é t ã o difíi U niiii dl p r a z e r para ambos os lados. A dificuldade reside
que o movimento descendente sempre assusta mais qua 0 IH pois no intervalo de tempo que decorre entre aban-
dente. Por exemplo, a aterrissagem de um avião assusta • ã o e sentir os p é s firmemente plantados no c h ã o
que a subida. A descida suscita, num grande número de p • p e l a s e n s a ç ã o de cair e pela ansiedade assim evocada.
o medo de cair que é de ordinário uma emoção repr i i
próximo capítulo discutirei a ansiedade associada à ideia dl
que, segundo o que pude apurar, é uma das mais profundn
termos de personalidade humana. Nesta altura, gostaria de
crever alguns dos problemas enfrentados pela pessoa que pet
à energia e aos sentimentos que possui fluírem por seu i
em d i r e ç ã o à terra.
E m geral, uma das primeiras e x p e r i ê n c i a s quando se dei
" i r para baixo" é a tristeza. Se a pessoa puder aceitar e ced
a este sentimento, c o m e ç a r á a chorar. Dizemos que "rompi nu
em l á g r i m a s . H á em todas as pessoas uma tristeza muita H
funda e em suspenso ( " o b s e s s ã o " ) e muitos prefeririam conluia
em suspenso a enfrentar tal sentimento, dado que estão prest
ao desespero, em muitos casos. Pode-se enfrentar o desespein
suportar a tristeza se se contar com a ajuda de um terapia
compreensivo, mas preciso acrescentar que esta não é uma tarefa
fácil. A tristeza e o choro estão contidos na barriga que também
é a c â m a r a onde acumula-se a energia para a i r r u p ç ã o da des-
carga sexual e da s a t i s f a ç ã o . O caminho para a alegria invaria
7
velmente atravessa o desespero' '.
Sensações sexuais pélvicas profundas t a m b é m a m e a ç a m mui-
tas pessoas. Estas conseguem suportar a excitação limitada da
carga genital que é superficial e facilmente descarregada, dado
que n ã o exige uma entrega total à s convulsões o r g á s t i c a s . As
sensações doces e ternas da sexualidade pélvica levam a este tipo
de r e n d i ç ã o , evocando o medo de perder o controle, um dos aspec-
tos da ansiedade de cair. O problema por nós enfrentado na tera-

7) Lowen, Pleasure, op. cit.


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172
liara aqueles que aparentam s e g u r a n ç a e
te de cair. Como os índios americanos, alguns
bem presos ao chão pelos p é s ; s ã o os solda-
i empregam em primeiro lugar para as cons-
!• i li I H a. Outros negaram este medo inconscien-
<> ('<>rpo Traído relato o caso de um rapaz
pernas eram extremamente tensas e r í g i d a s ,
ições. Sofria de uma s é r i a d e p r e s s ã o acom-
[l lensação de que " n ã o acontecia nada" para ele
VII. Ansiedade de Cair lyoin. i t i v o , emocionante. Apesar disso tudo, n ã o sentia

liiii era alpinista; dos melhores, segundo ele próprio


afirmou. Fizera muitas escaladas em rochedos íngre-
iio ., .nu qualquer temor ou h e s i t a ç ã o . N ã o tinha
Medo de alturas lilemente qualquer medo de alturas ou de cair.
i linha medo porque um dos lados da sua persona-
l i d a d e n ã o se importava de cair. Relatou um incidente
A ansiedade de cair e s t á geralmente vinculada ao mnrio
alturas e a maioria das pessoas sente tais emoções quando di lebre uma vez que estava escalando sozinho, e perdeu
à beira de u m penhasco. Independente do fato de seus pós seu pé de apoio. Por alguns momentos ficou depen-
rem bem pregados no c h ã o e de n ã o haver perigo real de catj durado, segurando-se com as m ã o s a uma estreita sa-
as pessoas ficam tontas e sentem a perda de seu equilíbrio liência. Enquanto buscava um apoio para o p é , sua
ansiedade de cair deve ser uma e x p e r i ê n c i a exclusivamente h l mente se desligou. Ele perguntou-se: "O que aconte-
1

na, dado que todos os animais de quatro patas, em situações se ceria se eu c a í s s e ? " E n ã o houve qualquer p â n i c o ' ' .
lhantes, sentem-se bastante seguros pelos p é s . E m certas
soas, esta ansiedade atinge t a l intensidade que simplesmente Min nao sentia medo por ter seccionado todas as comunica-
gir um carro sobre uma ponte chega a causar a mesma sensaçfl • oin os sentimentos e este t a m b é m era o motivo pelo qual
trata-se e n t ã o de um caso evidentemente patológico. do emocionalmente interessante lhe acontecia. Ao mesmo
H á indivíduos que parecem estranhamente isentos desta anil D, contudo, buscava desesperadamente algo que abrisse as
dade. J á fiquei observando, preso de estupefação e horror, i i daquela vontade impessoal, de ferro, que o envolvia como
pessoal que trabalha em andaimes, movimentando-se com tod na crisálida. Queria que algo atingisse seu c o r a ç ã o , mas a
facilidade sobre superfícies exíguas, muito acima do tumulto d i i t iiid.i teria de ser d e s t r u í d a antes. Sentia fortes tentações
cidade. N ã o poderia imaginar-me l á em cima porque minha ansi o sentido: tinha impulsos para tocar em fios elétricos de alta
dade seria excessiva e j á é de muitos anos o medo que sinto d i c i i i a o e para parar na frente de carros em alta velocidade,
alturas. Lembro-me de quando tinha oito anos de idade; fui su o que gostaria de saltar de um precipício se pudesse fazê-lo
penso para que ficasse nos ombros de meu pai para ver um des e g u r a n ç a . Queria cair, tal como Humpty Dumpty, de tal
file, e me sentia aterrorizado. T a m b é m nesta época ficava co lo que sua concha quebrasse; sentia medo, p o r é m , de que
muito medo de andar de tobogã, quando meu pai queria levar-m lato viesse a representar seu f i m .
ao parque. Mais tarde, superei este medo andando num daquele Bill era um alpinista com todas as implicações que isto repre-
carrinhos todo dia, numa época em que trabalhava num parquinh senta. Parecia ter apenas duas chances: pendurar-se ou soltar-se.
de d i v e r s õ e s . Ao longo dos anos, meu medo de altitude vem dimi E soltar-se significava morrer, algo para o qual B i l l n ã o estava
nuindo gradativamente, fato qufe atribuo ao trabalho realizad
ainda preparado. Enquanto pendurava-se, ficava em suspenso,
com minhas pernas no sentido de ficarem mais seguras e em con
obcecado (hung up) e nada lhe acontecia.
tato com o c h ã o . Posso agora trabalhar numa escada bem alt
Há pouco tempo v i uma moça que me disse n ã o ter sentido
ou olhar para baixo, estando num local elevado, sem sentir muita
ansiedade.
1) Alexander L o w e n , O Corpo Traído, op. cit., p á g . 103.

174 175
absolutamente nenhuma ansiedade de cair, quando menlfl i pedir lhe que me segurasse no colo, pois
que posteriormente esta s e n s a ç ã o havia emergido na f o r i n f m m poderia cair. Mas fiquei indeciso depois.
puro terror. Tinha fantasias atemorizantes de cair e estl I >< sozinho, mas n ã o completamente seguro.
ç a havia coincidido com uma t r a n s f o r m a ç ã o em sua vul.i Ir aterrorizante",
manchara um casamento r u i m e trabalhava bastante p a r i i ' com facilidade por que este sonho seria t ã o
p é s no c h ã o , tanto em termos de sua vida quanto de sua i a i . passam pelo mesmo terror num terremoto
N ã o conseguia entender por que tinha passado a sentir nu ' a perder sua estabilidade. A s e n s a ç ã o de
cair, tendo perguntado a m i m o motivo. Expliquei-lhe qui (•i reno sólido destrói nossa o r i e n t a ç ã o como
cara a "soltar-se" e que n ã o estava se pendurando e api \ pessoa sente-se "perdida no e s p a ç o " e, a menos
Qiang on), de modo que o medo reprimido de cair havia enu n In por um treinamento rigoroso para enfrentar
numa intensidade assustadora. l a s sao t e r r í v e i s . Os sentidos ruem e a inte-
iinalldade fica temporariamente a m e a ç a d a ,
O medo de cair é um e s t á g i o i n t e r m e d i á r i o entre fiel
tipos de c a r á t e r , o medo de cair t a m b é m se rela-
suspenso e ter os p é s firmes no c h ã o . Neste último estagia,
Hpii di aias estruturas. P a r a o indivíduo de caráter oral,
parece o medo de cair; no primeiro, o medo de cair enconl
oculto por uma ilusão. Se aceitarmos uma a n á l i s e assim, i i nu vem seguido de outra ansiedade, a de ficar só,
paciente que principia seu processo de deixar as ilusões de ii.r. Se suas pernas se soltarem, fica como uma
e que c o m e ç a a voltar para o confronto com a realidade paj n na que senta de repente porque as pernas n ã o
pela ansiedade de cair, em intensidades v a r i á v e i s . O mesm i logo descobre que os pais j á s a í r a m dali e n ã o
aplica à ansiedade de sufocação que só faz seu aparecirc
11ii a coloque no colo.
quando é sufocado ou abafado, um impulso para sair em l>
i o i l i v i d u o de caráter psicopático, o medo de cair é o
de algo. Na medida em que este impulso for manifesto ap
i s s o . Enquanto fica em p é , domina o mundo à sua
dentro dos confinados limites impostos pela estrutura de cari
n ã o h á a menor ansiedade; é a t r a n s g r e s s ã o desses limites I i ,i .o e s t á o fracasso, que o deixa entregue à possibili-
d á origem à ansiedade.
^ H t de ol>jeto de abuso.
Na discussão geral da ansiedade, feita no Capítulo I V , ob i masoquista, cair significa que a parte de baixo ( n á d e -
vei que o grau geral de ansiedade em a l g u é m é equivalente ili c o m p õ e , o que poderia acarretar o f i m do mundo, o
grau de ansiedade de sufocação. Isto quer dizer que, aquele .1. n i r e l a ç õ e s . H á t a m b é m um elemento anal nesta ati-
tem ansiedade de s u f o c a ç ã o tem t a m b é m uma igual quantid (|iii> d e f e c a r , por exemplo, f i c a r á todo sujo, o que p o r á f i m
de ansiedade de cair e vice-versa. Este raciocínio fundamenta-» 0 papel de menino bonzinho.
no fato de que o fluxo de e x c i t a ç ã o para todos os pontos periférico] i o i o indivíduo de caráter rígido, cair é perder o orgulho,
ou ó r g ã o s do corpo é aproximadamente o mesmo. i I n ia c a i r de cara no c h ã o e assim seu ego seria rudemente
a ,i M|O Quando a personalidade da pessoa e s t á fortemente vin-
E m nosso estudo sobre as diversas estruturas de c a r á t e r veri- 1 i a o sentimento de i n d e p e n d ê n c i a e de liberdade, esta ansie-
ficamos que cada tipo de c a r á t e r relacionava-se a uma certa moda
iliule nao é pequena.
lidade da ansiedade de cair, apesar de este termo n ã o ter sido Portanto, para todo e qualquer paciente cair representa uma
e n t ã o empregado. A estrutura de c a r á t e r esquizoide representava lição ou d e s i s t ê n c i a de sua posição defensiva. Dado, contudo,
um manter junto determinado pelo medo de que a soltura signi- • sta posição originou-se da necessidade de um mecanismo de
ficasse fragmentação. Se o termo "fragmentar" for entendido • la ovivência e que garantisse os contatos, alguma i n d e p e n d ê n c i a
literalmente, implica que, a nível de uma estrutura esquizoide, • uma certa liberdade, a b a n d o n á - l a suscita toda a ansiedade que,
de c a r á t e r , o ato de cair leva à f r a g m e n t a ç ã o ou à e x t i n ç ã o do ni igmalmente, determinou sua f o r m a ç ã o . Pode-se pedir a u m
indivíduo. Seria, portanto, de se esperar por uma poderosa ansie- paciente que se arrisque a fazê-lo, p o r é m , na medida em que
dade de cair nesta estrutura de c a r á t e r . Isto é o que ocorre quan- sua s i t u a ç ã o de adulto é diferente da de sua i n f â n c i a . E m termos
do esta ansiedade vem eventualmente à tona, nos sonhos. realísticos, o esquizoide n ã o v a i cair em p e d a ç o s se se soltar,
Disse-me um paciente esquizoide: "Costumava sonhar que c a í a nem tampouco s e r á objeto de a n i q u i l a ç ã o se afirmar sua p r ó p r i a
e um sonho foi muito r u i m . Sonhei que onde quer que eu ficasse, pessoa. Se n ó s , enquanto terapeutas, conseguirmos ajudá-lo a
de p é , o c h ã o cedia. Mudava de lugar, e o outro t a m b é m cedia. passar pela ansiedade do estágio de t r a n s i ç ã o , ele p o d e r á perceber
Subia escadas e estas t a m b é m se desmoronavam. Assim, decidi que o c h ã o é sólido e que ele possui a capacidade de pisá-lo. U m
177
dos procedimentos que emprego neste sentido é um , . exercício é p ô r a nu as " o b s e s s õ e s " qu>
cair.
10 aispenso e que d ã o origem à ansiedade d
la o contato que aquela pessoa tem com 1
Exercício de cair niplo, houve uma m o ç a que, em p é , em frent
d i s s e sentir-se quilómetros acima da l e n ,

Preciso dizer, no início, que este exercício, que con i como se estivesse dentro de um a v i ã o . Cair d
eficaz, é apenas uma das i n ú m e r a s possibilidade:. >u < M I mesmo aterrorizante e ela estava com med
t a c ã o corporal utilizada pela bioenergética. finalmente, quando caiu, deu um grito imenso
Ninli alívio e uma s e n s a ç ã o de soltura. O chão l
Coloco um cobertor bem macio dobrado, ou ui ||
chão, pedindo ao paciente que fique em pé à frenb lunetros. Fiz com que repetisse o exercíci
que, ao cair, faça-o sobre a superfície macia. Ningui afim e desta vez n ã o se sentiu mais t ã o longe do chãc
ca com este exercício e a t é hoje n ã o aconteceu acídcnll ai coisas diferentes ao olharem para o cobertoi
Enquanto a pessoa fica em p é à minha frente, tento rol Ni o terreno rochoso contra o qual v ã o se estn
imagem de sua atitude, do modo como se coloca no i ali Outros enxergam uma massa líquida n
modo como fica em pé no mundo. A e l a b o r a ç ã o di ita tanto o cair quanto a á g u a assumem um
requer habilidade na leitura da linguagem corporal, expi " d que mais tarde irei investigar. J á outros vêei
com tipos diversos de pessoas e uma boa imaginai lu ou do pai; para tais indivíduos, cair represenl
momento, em geral, j á consigo formar alguma ideia da p 11 1 1 d e r aos pais.
seus problemas e história. Mas quando n ã o consigo obl
i m p r e s s ã o nítida da atitude da pessoa, valho-me desti i » ' Lorna-se mais eficiente quando a pessoa deix
1 tli n i n i o n e no c h ã o enquanto e s t á apoiado n u n
para que revele qual o problema que a m a n t é m em
obcecada. Ário encorajar a pessoa para que deixe o peii
• livremente, para deixar que os sentimentos ap
A seguir, p e ç o para que a pessoa desloque todo s e u |0 também para que repita em voz alta: " V o u cair
uma das pernas, dobrando totalmente o joelho. O outro pi iui o acontecer. De início, quando pronuncia ta
de leve o chão, sendo usado para equilíbrio. As instrui uno tem qualquer tonalidade emocional, mas,
muito simples. A pessoa tem de ficar nessa posição ali 1 || a doi vai aumentando e torna-se mais claro que
não deve deixar-se cair. Deixar-se abaixar conscientemafl ante, a voz fica mais alta e aguda, cheia de medo.
é cair porque a pessoa controla a descida. A queda p i " 1 pessoa afirmar espontaneamente: "Não v<
eficiente, deve comportar um c a r á t e r involuntário. . li | 1 ' i dito com d e t e r m i n a ç ã o , à s vezes a t é com
estiver voltada para a m a n u t e n ç ã o da postura, a queda !•. Nesse momento, a batalha c o m e ç a a ser fra
presentar a l i b e r a ç ã o do corpo de seu controle conscienti " i 1 Pergunto à pessoa: "O que é que cair repr
que a maioria das pessoas tem medo de perder o controli 1 Km geral, a resposta é "fracassar", ou: "N.
corpos, esta é uma prova evocadora de ansiedade. Uma jovem lutou dramaticamente fazendo qu
E m certo sentido este exercício lembra um koan Ani nu • 1 cicio, duas com cada perna. Estas foram s
o ego ou a vontade enfrenta um desafio, sendo ao mesmo 1
transformado em algo inócuo. N ã o se pode permam •> > 1 11
" N ã o vou c a i r " .
postura indefinidamente e, no entanto, a pessoa é obrigada *
toda a vontade disponível para n ã o deixar-se cair. No tina Vim fracassar."
d e t e r m i n a ç ã o da vontade deve perder n ã o por força de uma |H I r a i assei." E , depois deste c o m e n t á r i o , caiu e con

v o l u n t á r i a mas pelo impacto da força mais poderosa da n a o . 11'ar profundamente.


ou seja, da gravidade, no caso. Aprende-se que cedei anti
nf! " N ã o vou c a i r " .
superiores da natureza n ã o tem c a r á t e r destrutivo c qui nau
necessidade de se empregar constantemente nossa vontmli Vim fracassar."
c o m b a t ê - l a s . Qualquer que seja sua origem, todo padrio 1 " fracasso. Sempre i r e i fracassar." Caiu e chot
t e n ç ã o representa, no presente, o uso inconsciente d l
1 0 ecz: "Mas eu n ã o quero fracassar. N ã o precisa
em c o n t r a p o s i ç ã o à s forças naturais da vida.
' 1 ler ficado em p é para sempre".
178
" N ã o vou c a i r . " Mas, à medida que a dor aumanl ha a fantasia de que minha m ã e era uma cobra.
a p e r c e p ç ã o de que i r i a cair. IIMIM uni
sc enrolou em redor de minha cintura, e
" N ã o posso ficar de p é para sempre. Mas uno a < c a b e ç a estava em meu pênis, sugando-o.
depois deste c o m e n t á r i o , caiu e começou a chorar 11<i< quando eu era b e b é , era t ã o e n g r a ç a d i n h o
Quarta vez: " N ã o vou fracassar". • oi lodo o corpo, inclusive no pênis. Enquanto
"Toda vez que eu tento, fracasso." i ficando estonteado, perdido; estou suando."
" N ã o vou tentar." 0 i x e r c í c i o de cair, que revelou a intensidade
"Mas eu tenho que tentar." Depois caiu e percebi ll WH, Misse: "Parece que estou desistindo, mas n ã o
que acabar em fracasso. anter-me assim para sempre. N ã o vou c a i r " .
Por que tem que acabar assim? Perguntei lhe 0 I | h / i a : " J i m , você v a i ficar o resto da vida
ela estava tentando conseguir, e ela respondeu: "Ser nq
outros esperam que eu seja". Esta tarefa é impossível para m i m : "Se eu cair, vou entrar num
ficar em p é para sempre. Se se pensa em levar à frenli 01 i undo. Sabe, aquela s e n s a ç ã o de cair quando
de empreendimento, a pessoa e s t á fadada ao ins i i i n l u r e c e e você n ã o consegue respirar. Quando
g u é m pode ser s e n ã o aquilo que é. N i n g u é m dana i i iioli i i i i i i a a a s de voar como um passarinho. Cheguei
a uma tarefa t ã o sem sentido — e que consome tanta n i a . c a í . Meus pais chegaram perto e me deram
vital — a menos que o ego (superego, em termo. h. • li los feito passar medo".
estivesse conduzindo a pessoa nesta d i r e ç ã o . A fim di i i capaz de me sustentar. Essa ideia é muito
tal tirania e de libertar-se da irrealidade dos objetivos i otéfl H t y l i d< n i i i n . Fico zangado comigo quando me solto,
que seria concretizá-los, a pessoa tem de chegai- a o i o il Sou um covarde, um fujão, um b e b ê - c h o r ã o .
conscientização de sua impossibilidade. É a isto que .. i . i i i uni que cu me sentisse um fracassado quando
se destina e o que acaba por acontecer. • mlrolar me. Dizia a toda hora: 'O difícil faze-
Todo paciente e s t á envolvido num conflito neurótico pai lo. ia o impossível leva um pouco mais'."
nar-se diferente do que é, uma vez que e s t á provado qui .1 io. .Jim n ã o estava pronto para abandonar o con-
jeito os pais n ã o o aceitam. Quando a pessoa inicia sua i .. do d e cair era enorme. Tanto ele quanto eu tive-
espera que o terapeuta a ajude a atingir um tal oli.iellvii • momento que então v i v i a e continuar traba-
h á dúvidas de que a pessoa esteja necessitando de alguma» « i i i pi n l . l e m a . Dei-lhe uma toalha que começou a torcer
m u l a ç õ e s em sua personalidade, mas a d i r e ç ã o desta m Inln i is u m a cobra. Tenho que segurar firme ou isto
e s t á voltada para a autoconscientização e auto-aceitaçAu > «nl.ia que aqui referia-se a sua m ã e ) v a i me pegar."
para a c o n c r e t i z a ç ã o da imagem citada. A direção i II M H l i i i n l i é i n u m psicoterapeuta, de modo que pouca neces-
dente, na m i r a do c h ã o e da realidade. Enquanto, porém I • I. ou oferecer-lhe i n t e r p r e t a ç õ e s para seus sonhos
estiver à s voltas com este conflito neurótico para sali i i d. o". , i e sabia que sua m ã e era sedutora e que ceder
e x i g ê n c i a s dos outros, continua obcecada e mantida em mi I i i i n l a r s e no sentimento sexual por ela. Se tivesse
por este problema da infância. N ã o h á como sair desti l In c r i a n ç a , ela o teria engolido, n ã o literalmente,
s e n ã o cedendo. nl 11 It• de que ela o faria consumir-se em sua p a i x ã o , à s
Este problema do conflito neurótico é claramente de n i. qo i i q u e r sentimento de i n d e p e n d ê n c i a . Sua defesa foi
pelo seguinte caso. J i m veio para a s e s s ã o relatando osti .. n | i a e abolir seus sentimentos de ordem sexual. Esta
"Na noite passada eu sonhei que estava tentando ai ia In lefi i psicopática, mas J i m n ã o tinha alternativa. Mes-
pelo chão com pernas mortas, completamente duras. Tivi ili i | i n i . i i p o ç a da terapia, n ã o poderia arriscar-se a sair de
a metade de cima de meu corpo para me mexer". Dopo! > i • m se de ser tolerante com o paciente enquanto ele
centou: "No passado, eu tinha sonhos de flutuar" \ o, mio estes conflitos muito profundamente estruturados.
inferior de seu corpo estava muito tensa e rígida. Havia | | ... posterior, J i m voltou ao seu medo de cair. Quan-
1
uma fusão espinal na r e g i ã o lombossacra devido a g r a v e pi m e : "Enquanto dirigia, percebi-me batendo o cal-
mas da r e g i ã o inferior das costas. Seu sonho demonstrai i i . i " i ii o arnente. D e i ao gesto algumas palavras e saiu
modo inequívoco qual era sua condição e n e r g é t i c a . i II i mi te m a t a r ' . "
Imediatamente após lembrar-se do sonho, .Jim c o o u o .li c o m e ç a m o s pelo exercício de cair e J i m disse:
IH uei ingeriu que eu dissesse 'Vou cair', a s e n s a ç ã o que
180
181
me deu é que eu ia morrer. Sinto a coisa como i i irpo, caso desistisse de guiá-lo, tinham de ser
luta de vida ou morte. Se eu me soltar, vou ser morto M oeiadas e analisadas. Ao mesmo tempo,
matar, e n t ã o t a m b é m serei morto". i|in nder a confiar em seu corpo e em seus senti-
"O modo como isto se d á dentro de m i m é mullii stA conscientemente preparado para aceitar
N ã o posso suportar situações intensas por muito tempo i po e suas s e n s a ç õ e s sexuais, mas o fato de
ficar uma eternidade apenas me segurando. Quaini" ai depender de um conjunto inteiramente
j á desistiu, continuo a l i a t é ter êxito ou conseguir fazei j orporais que podem ser proporcionadas pela
Ao dizer isto, cerrou os pulsos. " É uma viagem lonn i *
pondo um p é à frente do outro, com grande esforço • peelfico t a m b é m ajuda a fornecer tais expe-
"O modo que minha m ã e tinha de me aborreci i • o i pé sobre uma perna só faz uma p r e s s ã o sufi-
era uma maneira de me t r i t u r a r a t é eu virar p ó . I ulos desta perna para cansá-los. E m estado de
comigo e com todo mundo. F o r ç o , forço e luto depois " i ulos n ã o podem manter sua t e n s ã o ou contra-
acredito que sou um fulano que foge. Digo a m i o lo ceder e, gradualmente, surge uma vibra-
se n ã o fosse pelo fato de ser fujão conseguiria fazei ffl
coisas." l l n a ç ã o acentua as s e n s a ç õ e s da perna de modo
i irece mais " u m a perna morta, completamente
Este conflito é, a seguir, transposto para o exeri l i m p o , a r e s p i r a ç ã o se aprofunda. O corpo
que J i m e s t á realizando. Ele fala: " V o u cair. Vou frui i ido por tremores, a pessoa n ã o cai e J i m se
tenho que ganhar. Tenho que me sair bem". Depois i | ' i i l i o . i r que sua perna continua aguentando seu
faz sua p r e s e n ç a e ele comenta: " É lógico: me sai mal i | | 0 do o controle consciente de seu corpo estar
Jim, contudo, n ã o tem condições de aceitar agora 1
I H nlo, quando a perna acaba cedendo e a pessoa
lidade. Bate com os punhos cerrados e diz: "Vou mi 1
adorável ao saber que n ã o somos feitos de
n ã o conseguir me aguentar. Mas se conseguir, vou i ii rá cair quando n ã o conseguir mais sustentar
medo de ficar com c â n c e r nos p u l m õ e s . Mas quanto m u MI ul i, com a p e r c e p ç ã o ineludível de que cair n ã o
n ã o fumar, mais eu fumo". 1
i d e s l r u i ç ã o da pessoa e o corpo pode novamente
No decurso deste monólogo, J i m caiu e chorou i
carga era muito pequena. Depois ele repetiu o exeri a i " subjacente a este exercício de cair merece ser
outra perna e continuou externalizando seus medo. \ j terra é um símbolo da m ã e . M ã e e t e r r a - m ã e s ã o
t a c ã o de ansiedade, deste modo, ao lado de sentimentoi i • l o i ç a . Numa das i n ú m e r a s batalhas que H é r -
é um procedimento altamente t e r a p ê u t i c o . Depois de m | i' i o11ii-la em que se bateu com Anteus. Na batalha,
exercício de cair, J i m lembrou-se de um episódio de sui eu oponente v á r i a s vezes mas, ao invés de ganhar
bastante revelador. final • ia quase perdendo. Estava ficando cansado,
1
"Tenho medo de que assim que tudo ficar melhoi i II i ornava mais forte depois de cada queda, de
Só sobrevivo à s custas de lutas. Se eu parar de lutar, i i)U l o a terra. F o i quando H é r c u l e s percebeu que
Tive septicemia com febre alta quando c r i a n ç a c fiquei filho da l e r r a - m ã e e que, toda vez em que a ela retor-
vindo de hospitais por mais ou menos u m ano. Enti | 1 se e ficava mais poderoso. H é r c u l e s então segu-
algumas vezes. Tinha que passar por drenagens o li 111 llu b r a ç o s , deixou-o suspenso no ar e segurou-o a t é
Quase m o r r i . Mas me agarrei à vida, usando toda a Il|
de vontade. Sei como viver quando a situação es In o filhos da t e r r a - m ã e e de m ã e s que deveriam
Quando v a i tudo bem n ã o sei como e x i s t i r . " mi fonte de força para n ó s . Infelizmente, como
À vista desta e x p e r i ê n c i a , n ã o é difícil ver o m o i n o pi I io invés disso, a m ã e pode ser uma a m e a ç a para
J i m associava cair com morrer. As duas ações p a r e c i a m lln . • p o r t a n t o , a l g u é m a quem opor r e s i s t ê n c i a mais do
ver a r e n d i ç ã o de sua vontade. Mas seria tolo pensai ipl m quem anuir. N ã o se pode, por conseguinte,
estava em condições de fazer uma escolha consciente di ri n sem a pessoa sentir uma profunda ansiedade.
e confiar em seu corpo. Esta escolha baseia-se no U N O H i a o o estado de " o b s e s s ã o " c r i a uma s i t u a ç ã o peri-
d e t e r m i n a ç ã o que nega a vontade destituída de objetivu d i ç a d o r a para a e x i s t ê n c i a do indivíduo devido aos
de morrer, a morte de seu espírito, que ele se r e n d e s s e a i • t i c o s do corpo, enquanto cair p o d e r á evocar o

182 183
medo de morrer, apesar de n ã o apresentar nenhum las c pesadas t ê m uma dificuldade particular
A r e a l i z a ç ã o do exercício de cair suscita o conflito 1
• O deate exercício. J á v i essas pessoas tentando
que pode, nessas c i r c u n s t â n c i a s , ser analisado e enffl In In K como se tivessem perdido a capacidade
mitindo à pessoa ceder ou cair com uma s e n s a ç ã o dl In que resignar-se psicologicamente a um nível
L á e s t á a terra, à nossa disposição. o 1 1 , mais do que o correr e o brincar, é o
Recebi recentemente uma carta de um hon alo de interesse e de s a t i s f a ç ã o . Considero que
mendara a um colega, o D r . F r e d Sypher, de Toronto em si limitáneamente em dois níveis: no nível
tamento de uma severa dor na r e g i ã o inferior das 1 iml 1 vontade que os capacita a ficarem em p é e
irradiava para a perna direita. " U m dos aspectos m . • H e III) uivei infantil, em que s ã o c a r a c t e r í s t i c o s o comer
santes do tratamento com o D r . Sypher — escreveu 0 di o o p a r a d o (principalmente no que tange à comida).
com o c h ã o . O c h ã o torna-se um amigo, um elementu mi o constituem um par de funções a n t i t é t i c a s que
apoio que e s t á sempre lá, que evita machucarmo nos
•iii li pendentemente. Se n ã o se consegue cair, n ã o se
mesmo que doa. Você n ã o pode cair se j á estiver no l
I s t o fica muito claro no fenómeno do sono,
mos enfrentar uma s é r i e de coisas que poderiam sei
te cair no sono e de levantar-se no dia seguinte.
ser enfrentadas se acharmos que vamos cair. O contatu
1 ;óes naturais de cair e levantar, as pessoas que
possível soltar uma boa parte do terror que existe dentro
k^HÕ mi" Torça de vontade deixai' se-ão ir abaixo e pôr
E m muitos casos, depois do exercício de cair, 1. m pé, ou e n t ã o deitar-se-ão e a c o r d a r ã o . Se a
de levantar. Ouvi muitos pacientes expressando o m e d o 1I1 | liSn Itu mobilizada, como ocorre nos primeiros instantes
de c a í r e m , n ã o serem mais capazes de se levantar K õltvl 11 ii 1 pi la m a n h ã , estas pessoas t e r ã o uma enorme dificul-
sabem que, com força de vontade, podem aprumai si 1I1 111 • 1 no s a i r da cama. O problema subjacente a esta
mas o que eles n ã o t ê m certeza é de poderem sulm imoui o icdade de cair, a incapacidade de i r cedo para
Subir é como crescer. Uma planta, por exemplo. levai se cair no sono com facilidade. Como resul-
do solo, não se apruma simplesmente. No processo de \m 1 pessoas j á acordam cansadas e n ã o t ê m energia
as forças v ê m de baixo; no de aprumar-se, as forças v e m I.
0 .1 s e m problemas.
O exemplo clássico de levantar é o de um foguete <n 1 < oln
porcionalmente à força da energia que e s t á sendo d e s c a i u |in o paciente tiver passado pelo exercício de cair,
abaixo. E m geral, andar pertence a este tipo de mm i n n t i l i l 1111 1 M I alo mais solto. E m geral, o que faço é deixá-lo
...-i ido no banquinho. É comum a r e s p i r a ç ã o assumir
medida em que cada passo dado à frente implica cm cm| 1
• involuntário, depois da r e a l i z a ç ã o destes exer-
o c h ã o que nos devolve a p r e s s ã o , impelindo-nos a I n n l i
1. . produção de tremores corporais que eventualmente
princípio físico aqui envolvido é o da a ç ã o - r e a ç ã o .
1 em soluços e choro. Sempre estimulo a pessoa a
No exercício de levantar, a pessoa e s t á de joelhos mim
0 p o r estes movimentos corporais involuntários na
tor dobrado no c h ã o . Os p é s apóiam-se no c h ã o . A pessoa il
pn representam um esforço espontâneo, por parte
e n t ã o um dos p é s para a frente e t a m b é m se inclina para i |
pouco do peso seja transferido para esse p é . P e ç o que 11 | i para liberar-se da t e n s ã o .
sinta seu p é no c h ã o e que se balance de t r á s para a 1'renli li . o l i a r no problema de como surge a ansiedade de
este p é , a f i m de incrementar as s e n s a ç õ e s . A seguir, o iui|| la de apresentar mais um caso: M a r k era um homos-
ergue-se ligeiramente e apoia todo o peso na perna que « t a .to 111 quarenta e poucos anos, cujo problema b á s i c o era o
da à frente. Se empurrar para baixo com força sufi» li lllii 1 1 solidão devidos à incapacidade de expressar aber-
c o b r i r á que e s t á levantando. Quando o exercício é reall nln || M U iciitimentos. Seu corpo tinha um c a r á t e r c e r á c e o ,
retamente, a pessoa sente realmente uma força que m m In ia uma c r i a n ç a assustada incapaz de mostrar-se.
corpo desde o c h ã o e o faz levantar. Este, contudo. nau 1 para uma das sessões relatando o seguinte sonho e
exercício fácil de fazer e a maioria das pessoas tem que 11 1 Kiiintc c o m e n t á r i o : " N a noite passada eu sonhei que
mar um pouco para ajudar no processo. Com a prática lul imitar e meus convidados eram o Sr. C a b e ç a e o
mais fácil e aprende-se como dirigir a energia para haUil 1 '1 m a \ c i m e n t e isto era uma p r e p a r a ç ã o para minha
perna, para se poder subir. E m geral, o exercício é relia ia 1I1 h o j e . Os dois eram pequenos, musculosos, empeder-
vezes em cada perna para desenvolver a s e n s a ç ã o de ¡ . 1 nió., apresentava um peito duro e projetado à frente,
o c h ã o e depois subir. 1 .pendentes. E r a como se n ã o conseguissem se jun-

184 185
tar. O jantar n ã o era assim t ã o importante. Eu q fato razoavelmente aceito pela Antropologia
mas n ã o conseguimos ficar juntos nessa noite. A f i In n l o humano vivia na floresta antes de aventurar-se
mente n ã o c o m e ç o u " . In I n i s c a de alimento. E m seu l i v r o The Emergence
A seguir, M a r k preparou-se para o e x e r c í c i o de loliii Is Pfeiffer descreve o que significava viver em
1
ficou em p é à frente do cobertor, disse: "Vejo um lun i. i i i l e m e n t o ainda mais significativo foi o fato de a vida
estar sendo tragado pelo buraco. É muito fundo, 0 0 1 ii i introduzido um c a r á t e r único, ou seja, uma nova
Uma de minhas fantasias é tentar interminavelmente a suln o u incerteza psicológica c r ô n i c a " . A i n s e g u r a n ç a
( 2 )

fora. P a r e ç o ser capaz de fazê-lo mas toda vez que vou M I I i .i a d a ao perigo de cair. E as quedas eram freqúen-
1
que ponto estou verifico que ainda estou tentando sai] u i i i a s s i n a l a que os estudos de gibões, primatas habitan-
"Tive sonhos de cair durante minha vida inteira Co a e s , mostram que mais ou menos um em quatro adultos
sonhar que caía de um lance de escada: atualmente soulin f f l i i. ti d u r a de um osso pelo menos. Havia algumas vantagens
caio de lugares muito mais altos. No v e r ã o deste a n o , • o , e,,„ i a r n a s á r v o r e s , pois havia comida em quantidade, a
na Europa, e meu quarto no hotel ficava num andar liem il • e i . i t i v ã m e n t e segura em r e l a ç ã o aos predadores e havia
apesar de estar completamente acordado, tinha a fantasia . 1 • mie
seria puxado para fora da cama, l a n ç a d o contra a sacada . d< e i a t o no desenvolvimento das m ã o s .
jogado no e s p a ç o . r.o de cair fica extremamente reduzido pela capacidade
num ramo ou galho de á r v o r e . Os macacos b e b é s se
"Quando c r i a n ç a eu subia em á r v o r e s e me segurava a m ã e com b r a ç o s e pernas e apertam-se a ela, enquanto
galhos, parecia que n ã o tinha medo de altura enquanto lumo . . desloca pelas á r v o r e s . Ela t a m b é m garante um pouco de
alguma coisa a que me segurar. Quando tinha oito anos, algi mi um dos b r a ç o s , quando e s t á desocupado. P a r a um
desafiou-me a andar num trilho de 60 cm x 2,4 m, colocado «>III a a bebé, por conseguinte, a perda do contato com o corpo da
cima de uma torre a cerca de 30 metros do chão. A distância i a . c i t a a perspectiva imediata de cair e de machucar-se,
ida e volta chegava a 60 metros. F u i e voltei. Mais tarde, quauilu l o não de morrer. Os roedores, tais como os esquilos, que
estava na faculdade, ainda n ã o ousava aproximar-me da t o m
min I H habitam as á r v o r e s , erguem seus filhotes dos ninhos,
"Por volta t a m b é m dos seis, sete ou oito anos costumo a
i i • i i a n d o - o s em ocos de á r v o r e onde e s t a r ã o a salvo mesmo na
sonhar que conseguia voar. A coisa era t ã o real que pm
.o' ia de sua m ã e . Os macacos que vivem nas á r v o r e s e os
mesmo que ia acontecer. Cheguei inclusive a tentar na presença
Mlmios e m geral levam seus filhotes consigo e a única s e g u r a n ç a
de outras pessoas. Tentava levantar vôo mas acabava atei
i l a r agarrado ao corpo da m ã e .
rissando de c a r a . "
No r e c é m - n a s c i d o humano, o instinto de agarrar e segurar
Depois que M a r k caiu e estava deitado no cobertor, disse! l á presente desde o nascimento, e é h e r a n ç a de sua h i s t ó r i a
"Sinto alívio quando caio. Sinto que sou feito de tijolos, todo.
filogenética. Quando suspensos no ar, alguns b e b é s conseguem
muito instáveis. Sinto-me em cima de uma estrutura muito inse-
gura e que estou melhor deitado no c h ã o " . iiportar seu peso apenas com a p r e e n s ã o manual. Esta, p o r é m ,
. apenas uma capacidade vestigial, pois os b e b é s humanos pre-
. i a m ser carregados para sentirem-se seguros. Quando este apoio
Causas da ansiedade de cair é lhes subitamente retirado, os b e b é s caem e ficam assustados e
ansiosos. H á duas condições que parecem amedrontar o b e b é :
A f i r m e i h á pouco que o ser humano talvez seja o único animal a incapacidade de respirar d á margem à ansiedade de s u f o c a ç ã o
a experimentar a ansiedade de cair. Evidentemente, todos os ani- e um tom de voz elevado e repentino produz o que se conhece
mais estão sujeitos à ansiedade quando caem de verdade. J á v i como r e a ç ã o de alarme.
meu papagaio ficar ansioso quando perde o equilíbrio em seu galho, A história filogenética do animal humano, tal como se reflete
durante o sono. Ele acorda no primeiro momento de desequilíbrio, na necessidade de o b e b é ser carregado para sentir s e g u r a n ç a , é
fica desorientado por u m instante, depois recupera seu domínio. a causa que p r e d i s p õ e à ansiedade de cair. O motivo eficiente
J á os seres humanos s ã o suscetíveis à ansiedade de cair mesmo
dessa ansiedade é a falta de colo e de contato físico suficiente
quando firmes sobre um terreno sólido. Esta ansiedade pode ser
entendida à luz de antigas r a í z e s , em nossa história evolutiva, na com a m ã e .
época em que nossos antepassados v i v i a m nas á r v o r e s , como
^ T E . Pfeiffer, The Emergence of Man (Nova Y o r k , Harper & Son,
alguns dos macacos.
1969, pag. 21).

186 187
Em 1945, Reich publicou o que tinha observado l • i i • «tudo a o c o r r ê n c i a de uma certa falta de con-
ansiedade de cair num b e b é de t r ê s semanas. Este cxeiti ln i a m ã e . O bebé estava sendo alimentado segun-
va incluído em seu estudo da ansiedade de cair em pn< i> n cessidades e este contato com a m ã e era agra-
cerosos nos quais esta ansiedade é muito forte e profu Mas quando n ã o estava mamando, o b e b é
estruturada. Este artigo causou uma profunda impressão i b e r ç o ou carrinho, perto da m ã e , enquanto
1
apesar de ter levado vinte e cinco anos a t é eu I n oi sua m á q u i n a de escrever. Segundo Reich, a
enfrentá-lo, no escopo de meu p r ó p r i o trabalho. i luto físico demonstrado pela c r i a n ç a n ã o estava
pois n ã o ficava no colo suficientemente. Antes
Olhando o b e b é , Reich escreveu o seguinte: In h a v i a exibido uma r e a ç ã o particularmente inten-
io, à qual Reich chamou de orgasmo oral, mani-
"No final da terceira semana havia uma mm. i e o n t r a ç õ e s da boca e rosto. E m suas pala-,
cair aguda. Isso acontecia quando o bebe u n lou ainda mais a necessidade de contato". Como
do banho e colocado de costas na mesa. Nim oio e o b e b é foi colocado na mesa, deu-se um
claro de imediato se o movimento de deita lo o em seu organismo,
fora feito muito apressadamente ou se o resfi n l i e s t é c n i c a s para superar, nesta c r i a n ç a , a ten-
de sua pele havia precipitado a ansiedade d< . ull tule de cair: " A criança tinha de ser carregada
qualquer modo, a c r i a n ç a começava a chim» lo i horasse. Isto a ajudava". Acho pessoalmente que
lamente, jogava os braços para trás como se pu
segurar a c r i a n ç a mais vezes, do mesmo modo
rar-se em alguma coisa, tentava erguer a caiu ui
ia unitivas, usando um " p o r t a - b e b ê s " tipo sacola,
sentava uma poderosa ansiedade em seus ollnm
i • MU;» ser delicadamente trazidos à frente, movi-
conseguia acalmar-se. Na tentativa seguinte de
' i i I unção na posição de recuo", no sentido de pre-
lo de novo na mesa, a ansiedade de cair reapni
li f o r m a ç ã o de c o u r a ç a c a r a c t e r o l ó g i c a . Reich fez
mesma intensidade. O b e b é só se acalmava (pis
(3) ' u n o uma brincadeira, durante dois meses. " E r a
levado ao c o l o . "
n f . ineciso 'deixar a criança cair' a fim de acostu-
ii " I/I uma queda. Isto também foi bem-sucedido."
Depois deste incidente, Reich observou que o ombro IH dida era t a m b é m realizada de maneira delicada
da c r i a n ç a f o i repuxado para t r á s . "Durante o ataque J| nleirn, e a c r i a n ç a aprendeu a gostar daquele jogo.
dade, a criança retraiu os ombros, como se para segurai
iue, em determinadas pessoas, esta ansiedade se
algo." Esta atitude pareceu persistir na a u s ê n c i a da aniltfl"
I I ' O de sua vida? A resposta e s t á no fato de os pais
E r a evidente para Reich que a c r i a n ç a n ã o tinha um
• i problema e de, consequentemente, nada faze-
consciente de cair. O ataque de ansiedade só poderia M I
lo de alterar a s i t u a ç ã o . A necessidade do b e b é de
cado pelo desaparecimento da carga dos pontos poriferli
corpo e, por força disto, a perda do senso de equilíbrio Ki i o não é objeto de nosso desconhecimento. O impul-
se a c r i a n ç a tivesse entrado num ligeiro estado de elioqui »111 i i de algo exterior persiste, mas associa-se a um
Reich denominou anorgonia. No estado de choque, o sane.111 i n ivamente maior de n ã o haver qualquer fundamento
carga e n e r g é t i c a distanciam-se da periferia do corpo, | i i " nu por uma resposta, à incerteza total de se ter o
perde sua noção de equilíbrio e sente que v a i cair, ou ti ' oio ir as p r ó p r i a s necessidades e, por último, à inexis-
cai. As mesmas r e a ç õ e s aconteceriam em qualquer ore ponto no e s p a ç o onde situar-se.
animal que entrasse em choque. Enquanto a pessoa pci ' • l o i í n i i o caso de outro b e b é cujo desenvolvimento
estado, é difícil ficar em cima das p r ó p r i a s pernas e contra • mio acompanhado no Centro Orgone de Pesquisas com
à força da gravidade. Reich interessava-se em saber | i Depois de um c o m e ç o promissor, onde foi indo bem
c r i a n ç a estava experimentando um estado que parecia m i • m a n a s , a c r i a n ç a apresentou sinais de bronquite na
choque. • oi.in.i Seu peito ficou sensível, a r e s p i r a ç ã o irregular
parecia inquieta, manhosa e insatisfeita. Uma inves-

at
1949), M : ^ ^ ^ B'°P by (Nova Y o r k , O r g o „ e ,,, illu l i n , Armortng in a Newborn Infant, Orgone Energy B u l l e t i n
4) Ibid., p á g . 330. .1 i Ifgone Institute Press, 1951), v o l . 8, n.° 3, págs. 120-38.

188 189
t i g a ç ã o demonstrou a p r e s e n ç a de alguns distúrbio! o seriam apenas l i t e r á r i a s . De que modo
entre a m ã e e a c r i a n ç a . A mãe parecia sentir-se culpa a o da vigília para o sono lembra o ato de
de não ser uma mãe saudável e de não satisfazer todii . i 101 poial encontrarmos um paralelo entre as
tativas que tinha. Admitia ressentir-se da quantidndi • l i e m o s compreender por que é que tantas
e de energia que tinha que dedicar ao bebé, ficand i lo para dormir e precisam tomar sedativos
supercarregada com as e x i g ê n c i a s da situação. O bebi >| a i ansiedade e facilitar a passagem da cons-
ansiedade e ao desconforto da m ã e , tornando o s i lencia.
ansioso. npo que esta passagem vem sendo considerada
O relato deste caso é ilustrado por diversos moino nln que se dirige para baixo. Na realidade, se
meiro lugar, Reich observou que a r e g i ã o do diafragm > uno enquanto e s t á em p é , acaba caindo no
sresponder em primeiro lugar e mais fortemente ao d f j n q u e desmaia e perde a consciência. Todavia,
emocional b i o e n e r g é t i c o " . Segundo este, outros bloqm lo i" I H em p é ; fazemo-lo deitados e, neste caso,
decorriam deste problema inicial, difundindo-se em amlm o i o do corpo no espaço. Portanto, a s e n s a ç ã o
ções. A t e n s ã o do diafragma e s t á francamente asson.nl > 0 de um movimento interno, de um aconteci-
dade de cair, na medida em que reduz o fluxo de exi II | I pn conforme o sono for envolvendo a pessoa.
se encaminha para a metade inferior do corpo. Em sei i erdade na e x p r e s s ã o "cair no sono" e, na
e s t á claro que um bom contato envolve mais do que slnijil mo que uma "queda" no processo de en-
segurar ou tocar. É importante a qualidade deste segurai 1 l o começa por uma s e n s a ç ã o de tontura. Re-
tocar. P a r a que o b e b é beneficie-se do contato, o corpo o i p o 1'ica pesado. Sente-se isto nos olhos, c a b e ç a
deve estar quente, suave e cheio de vida. Qualquer teu: m i 111 coiso um esforço para uma pessoa sonolenta
corpo envolve a c r i a n ç a . E m terceiro lugar, Reich .1 Hm abortos ou ficar de c a b e ç a erguida. Se esti-
aquilo que penso ser o elemento essencial do relacionai i de sono, a c a b e ç a e s t a r á pendurada. Os mem-
c r i a n ç a : "Deixe as m ã e s simplesmente 'curtirem' soo. li uno vão mais sustentar o corpo. Cair no sono
o contato se d e s e n v o l v e r á espontaneamente". to . n o c h ã o . 0 desejo de deitar e de desistir da
A ansiedade de cair e os distúrbios respiratório niii i i is da gravidade é enorme.
aspectos de um único processo. Numa sessão anterl oiio vem r á p i d o ; num determinado momento, a
descrevia a ansiedade de cair como aquela em que "o i a acordada e, no seguinte, j á e s t á inconsciente,
se endurece e a gente n ã o consegue respirar". A uni li o vai aumentando devagar e pode-se perceber
cair, conforme Reich, " e s t á vinculada a r á p i d a s contl i perda progressiva da sensibilidade em certas par-
aparato vital, sendo, na realidade, produzida por cios i > i i 1
ibsorvei, quando me deito ao lado de minha esposa
forma que uma queda concreta produz uma c o n t r a r i o b| m em seu corpo, que perco primeiro a consciência
a c o n t r a ç ã o , por seu turno, d á margem à sensação di i depois a de minha p r ó p r i a m ã o . P o r é m , se eu
A perda da energia nas pernas e p é s produz uma perda ili
lo demasiada a t e n ç ã o a minhas s e n s a ç õ e s , torno
com o chão, e esta s e n s a ç ã o é aquela mesma de o rhAtl
i i ç o c ã o é uma função da consciência que a torna
debaixo de nossos p é s .
d. isso acontece comigo num intervalo de tempo
1
> • untes de dar-me conta do que e s t á se passando,
In lo profundamente. É lógico que n ã o se pode saber
Apaixonar-se
pois a função de cognição é abolida pelo sono.
i iilurmecemos, h á uma r e t r a ç ã o da energia, da exci-
A ansiedade de cair leva n ã o só ao medo das ,li„,
- h e i o do corpo e da mente para o interior do orga-
t a m b é m ao medo de qualquer s i t u a ç ã o que evo, ,o
mesmo movimento energético no processo de
s e n s a ç ã o de cair. Nossa linguagemidíZZlTn^ m i o , ambas as situações s ã o energeticamente equiva-
cair no sono e apa onar-se (cair de amores). ,»,„,,, .
1X
li o que, a nível p r á t i c o , as situações s ã o diferentes,
hão implica a possibilidade de machucar-s,e, ao
IH de sono na cama é um ato seguro. N ã o obstante,
Indi vinculada ao cair pode associar-se ao processo de

190 191
adormecer por força da igualdade do mecanismo É Inde para adormecer. Cair no sono é um pro-
q u e s t ã o é a capacidade da pessoa em ceder seu COAI uu assustador somente quando se percebe o afas-
que e s t á envolvido na r e t r a ç ã o da energia tanto da u i a da superfície para o centro do corpo. Quando
corpo quanto da superfície da mente. Nos casos c m i | associadas à t r a n s i ç ã o da consciência para o
trole do ego e s t á identificado com a sobrevivência, i 1 ansiedade n ã o é evocada.
indivíduos que agem primariamente pelo exercício da não é, em si, assustadora, podendo ser vivida
tade, a r e n d i ç ã o de um t a l controle é objeto do Mas se for a m e a ç a d o r a , é porque a s a í d a da
inconsciente. n 1 a o ao centro do corpo e o consequente obscure-
A ansiedade n e u r ó t i c a deriva de um conflito inte ncia equivalem à morte. O mesmo movimento
movimento de energia no corpo e um controle ou bl d* 1 i " rgia acontece na morte, exceto que, nesta situa-
1

ciente acionado para limitar ou deter esse movimento n i e e e inversão. Se a l g u é m perceber, em algum
queios s ã o as tensões musculares c r ó n i c a s presenti 10 existente entre cair no sono e morrer, torna-se
mente na musculatura voluntária ou estriada, sul i< dei o controle do ego ao processo natural.
trole de ego consciente, normalmente. O controle COM i 1 l o " Corpo Traído relato o caso de uma jovem que
ego desaparece quando a t e n s ã o muscular torna s e i J J ansiedade. Relatou um sonho em que disse: " E u
n ã o significa que tenha acontecido a r e n d i ç ã o complel I 1 11 lamente a realidade da morte — o que significa
trole mas, sim, que o controle tornou-se inconsciente O eu| 1 • | i o a dentro do c h ã o e ficar a l i a t é desintegrar".
ego inconsciente é como um guarda sobre o qual o ci 11 T I contou: " E u compreendi que isso v a i acontecer
sonalidade perdeu o controle. Funciona como uma cnllilaitt • acontece com todo mundo. Quando era menina eu
pendente, dentro da personalidade, adquirindo podei á| 1 adormecer por causa da minha ansiedade de que
proporcionalmente direto ao teor da t e n s ã o corporal J$t durante o sono e acordar dentro de um c a i x ã o . E u
Carga, descarga, fluxo e movimento s ã o a vida do eoipii ' 1 limada, sem s a í d a " .( 7 )

vigilante tem de reprimi-la e limitá-la no interesse d< alocução comporta uma c o n t r a d i ç ã o estranha. Se al-
vivência. A pessoa deseja soltar-se e fluir, mas o r i enquanto e s t á dormindo, n ã o acorda dentro de um
" N ã o , é muito perigoso". Quando é r a m o s criança 11 sente medo de morrer mas tem igualmente medo
o mesmo tipo de r e s t r i ç ã o , ao sermos a m e a ç a d o s ou |in 1, lolhida, o que significa morrer, dado que vida é
causa de fazermos muito barulho, sermos muito atlvo i
Morrer é estar amarrado, incapaz de fazer movi-
muita vida.
estar amarrado t a m b é m é morrer. Para esta pacien-
Sabemos que a queda é menos perigosa se nos nilli du de vigília é mais do que consciência: é um estado
ou abandonamos qualquer tentativa de exercer o controli ij • acerbado contra a possibilidade de ficar amarrada,
Na realidade, se a pessoa tenta ansiosamente controlai | uno envolve uma r e n d i ç ã o deste alerta e coloca, por-
p o d e r á verificar que acaba quebrando um osso anl e i 1 Igo de ser preso ou de morrer.
de ter chegado no chão. A fratura é provocada p< posterior i n t e r p r e t a ç ã o de seu c o m e n t á r i o , relaciono o
• 1 11 c o r p o . Normalmente, quando a l g u é m acorda, a p r i -
1
c o n t r a ç ã o muscular. As c r i a n ç a s , cujo controle de ouu
e os a l c o ó l a t r a s , nos quais este controle foi aboluln 1 1 de consciência é a do corpo. A consciência retorna
caem sem machucar-se demais. O segredo de cair 1 d f | I H 1 .eqiíència em que desapareceu: primeiro, a do corpo,
cair, permitindo à s correntes fluírem livremente pcl rpll 1 iindo exterior. Por conseguinte, uma grande parte
medo destas s e n s a ç õ e s . Por este motivo, alguns alicia» aja de como a pessoa sente seu corpo. Se este estiver sem
jogadores de futebol, treinam quedas, a f i m de evib il i> o e e c r um c a i x ã o que aprisiona a pessoa. Estaria ainda
graves que poderiam ocorrer. 1 d e c a d ê n c i a e à d e s i n t e g r a ç ã o , que t a m b é m ocorrem ape-
Nem todos os neuróticos sofrem de ansiedade de cali rpos mortos. Acordar com u m corpo cheio de vida,
cionei anteriormente que, caso se consiga bloqueai- os 1 II uni se sentem as v i b r a ç õ e s da energia v i t a l , é algo t ã o cheio
tos, a pessoa n ã o sente ansiedade. Isto se a p l i c a v a | I 1 quanto entregar-se ao c a n s a ç o e dar ao corpo o repouso
alpinista. É a s e n s a ç ã o que amedronta. Se se consegui 1
fluxo de e x c i t a ç ã o ou impedir-se de percebê-lo, o medo i
rece. Isto facilita entender por que é que nem todos
í,iiwrn, O Corpo Traído, p á g . 184.
192 193
Acontece algo muito bonito com o corpo quando aii es erótica e sensual do sexo. Defini amor
mos levar pelo sono; as p r e o c u p a ç õ e s do dia s ã o pOflí 10 do prazer* , mas é particularmente o prazer
8)

e o corpo se recolhe, fugindo do mundo, para u m 0 indivíduo a cair de amores por outra pessoa.
repouso e quietude. A m u d a n ç a do estado de vigílil j • ia envolvida uma entrega do ego ao objeto
se evidencia mais claramente na r e s p i r a ç ã o . Sempl a s e r mais importante para o self do que o ego.
quando a pessoa deitada ao nosso lado adormeceu pelo i D p o r é m , acarreta um movimento descendente
rente em qualidade e ritmo como respira. A rospin l i o do corpo, um fluxo descendente de e x c i t a ç ã o
profunda e audível, o ritmo mais lento, mais honioi i do abdómen e da pelve. Este fluxo descendente
m u d a n ç a resulta da d e s c o n t r a ç ã o do diafragma di dl ln I O S O S e s e n s a ç õ e s de derretimento. Literal-
de t e n s ã o em que durante as atividades d i á r i a s nnu | de amor. Acontecem as mesmas s e n s a ç õ e s amo-
manter. No sono, entregamo-nos a centros inferiores di > lação sexual da pessoa é elevada e n ã o se
no corpo. Ocorre a mesma d e s c o n t r a ç ã o do diafrnuni i m i a i ; precede toda descarga o r g á s t i c a completa.
nos apaixonamos ( c a í m o s de amores) ou temos um < u itiiaji 1 o ato de cair d á lugar a s e n s a ç õ e s semelhantes
A filosofia antiga dividia o corpo em duas zona-, uni de as c r i a n ç a s sentirem tanto prazer em balan-
era localizada a partir do diafragma, esse músculo i mu c i o à queda do movimento de b a l a n ç a r produz
de cúpula que lembra o contorno da Terra. A regi i . correntes de energia. Alguns de nós talvez
diafragma estava relacionada à consciência e ao din UU di .os sentimentos a d o r á v e i s . Podem ser vividos
região da luz. A á r e a inferior pertencia ao inconscienir êmm las do carrinho de montanha russa que, tenho
era considerada a r e g i ã o da e s c u r i d ã o . A conscicm u liil I a p e l o qual essa d i v e r s ã o é t ã o popular. Muitas
lada ao sol. O aparecimento do sol acima da linha do louli • " uivem o cair garantem um prazer semelhante,
terrestre c seu contínuo a v a n ç a r , trazendo a luz do d | H l n l h a i , pular do trampolim, e assim por diante,
responderia a um aumento de e x c i t a ç ã o no corpo, du ili ile fenómeno e s t á na soltura do diafragma, que
• I..I
abdominais para os torácicos e cefálicos. Esse fluxo | M MH
| | ' descarga de fluxo e n e r g é t i c o para a metade
de sentimentos e s e n s a ç õ e s resultaria no despertar di Ill 1
i I lo fica muito claro para nós quando notamos
No sono, acontece o inverso. O abaixar do sol na linl pu n ã o durante estas atividades introduz a ansie-
mento, sua queda no oceano, segundo a perspccliv. i " p r a z e r . Acontece a mesma coisa no sexo. Se a
antigos para esta descida, corresponderiam ao fluxo d< m IH do d e s e entregar à queda e segura a r e s p i r a ç ã o , as
da e x c i t a ç ã o no corpo, para a r e g i ã o abaixo do dinl'raa.m Él li M I J I m e n t o n ã o acontecem e o clímax só é parcial-
A barriga é simbolicamente equivalente à terra l*f til
r e g i õ e s de e s c u r i d ã o . Mas é destas á r e a s , como da Iwtrriij MI d e amores" (apaixonar-se) pode parecer con-
surge a vida. São o ninho das misteriosas forças e n v o l v i ! e i i l u l o de o sentimento de estar amando ser uma sen-
processos de vida e morte. S ã o t a m b é m a morada do I il lo. Como é possível cair num estado de alta?
da escuridão, habitantes das r e g i õ e s de baixo. Quando i i | m i c o meio de a l c a n ç a r um alto estado de exci-
primitivas vieram associar-se ao Cristianismo, as regiões dl 0 praticante de saltos ornamentais cai antes de
foram destinadas ao diabo, o p r í n c i p e da escuridão l \ i . liad n trampolim para baixo para tomar impulso sufi-
os homens à d e c a d ê n c i a por meio de atrativos sexuall Q • i i l n d a . A subida permite, por sua vez, uma nova
mora embaixo da terra e t a m b é m embaixo da barrilla | a llllliutí. n d u u i u u ... — - L _ _ . . „ j „ ,',H;_

onde queima o fogo da sexualidade. O entregar-se a In IN p. I i i In. .o a outra subida. Se o orgasmo é a queda últi-
• dia vivida depois de um ato sexual altamente satis-
poderia levar a pessoa ao orgasmo, durante o qual n
natural da descarga. Andamos nas nuvens,
se obscurece e o ego se dissolve, fenómeno chamado di o
a m a n d o , mas isto só acontece porque antes per-
do ego". A á g u a t a m b é m e s t á vinculada ao sexo, provnvelll
pelo fato de a vida c o m e ç a r no mar. O medo di oipi fendermos por que a queda tem um efeito t ã o
muitos pacientes demonstram estar associado ao medo ia s pensar que a vida é movimento. A a u s ê n c i a
pode relacionar-se ao medo de ceder à s sensações sexun i morte. Mas este movimento não é basicamente
Idealizamos tanto o amor que deixamos de dar a devi
ção ao seu relacionamento íntimo e direto com o sexo p
MM 1'lftiure, op. cit.

194 195
o deslocamento horizontal pelo e s p a ç o em que nos cnvulV
tanto tempo. Trata-se mais do ritmo pulsátil de sulihl I
cida da e x c i t a ç ã o dentro do corpo, manifesto em sallo
em ficar em p é e deitar, em buscar atingir inchmivi
maiores, mas sempre precisando retornar ao chào s o l a i
e à realidade de nossa existência terrestre. Gastamon i I
gia no esforço de subir mais alto e de atingir maia i |
muitas vezes achamos difícil abaixarmo-nos ou cedi i
tolhidos pela obsessão e com medo de cair. Se temo
cair, procuramos subir cada vez mais alto, como si u
nos assegurar deste modo. As c r i a n ç a s que j á vêm o Sexo
com a ansiedade de cair devem, necessariamente, tornai i
cujo objetivo na vida é subir cada vez mais. Se sul um
na i m a g i n a ç ã o que podemos chegar na Lua, h á o per lua
tismo (da loucura): desolação, vazio, isolamento, Qunnilii
cendemos a atmosfera terrestre ficamos perdidos no i o n
gregados. O efeito salutar da gravidade, da contínua alia MV» ijeral da tensão
terra sobre nosso corpo, fica perdido e podemos faellm
desorientar. ia tensão e do sexo num mesmo capítulo n ã o nos
inli > pelo fato de ser a descarga sexual, como todos
Sono e sexo e s t ã o intimamente relacionados, dado >pii | ml (|ue funciona como descarga de t e n s ã o . Por-
lhor sono sempre vem depois de um bom relacionai 1
UPINAO de t e n s ã o deve incluir uma análise do orgas-
Do mesmo modo, como todos sabemos, o sexo é o melliui N i tarefa inicial, nesta medida, é apresentar uma
para a ansiedade. Mas, para que o sexo consiga esli I iln natureza da t e n s ã o .
pessoa deve ser capaz de ceder aos sentimentos e • l*i lilla da imposição de uma força ou p r e s s ã o sobre
sexuais. Infelizmente, a ansiedade de cair v a i vinculai i i m .o c o n t r a p õ e à p r ó p r i a força pela mobilização
limitando sua função natural de principal canal de di i óbvio que, se o organismo consegue escapar
t e n s ã o e da e x c i t a ç ã o . Podemos ainda realizar o ato
verá sujeito à tensão. H á , naturalmente, f o r ç a s
não sai de um nível horizontal, falando energctir.m pressionam e à s quais n ã o podemos escapar mas,
havendo nem a queda que descontrai nem a subida qui |
equipados o bastante para enfrentá-las. E m
Somos obrigados a ajudar nossos pacientes a vencerem KU
is pressões decorrentes das condições de vida
dades de cair para que possam aproveitar plenamente d
i que variam de acordo com a s i t u a ç ã o cultural da
sono, emergindo de ambos renovados e rejuvenescido
i o i p l o disto é dirigir em uma autopista congestio-
se terem entregue.
I i. m que permanecer num estado de alerta constante
acidente perigoso. Numa sociedade altamente com-
i n o s s a , estas pressões s ã o por demais numerosas
• detalhemos. Os relacionamentos interpessoais s ã o
ios devidos à s exigências à s quais nos vemos sub-
llldi q u e r que haja a m e a ç a de violência, a pessoa e s t á
ili tensão. H á , finalmente, as tensões das limitações
j| q u e agem a nível do corpo do mesmo modo que
«li i nos.
nh • naturais que criam t e n s ã o , a mais universal é a
I'odemos temporariamente escapar a ela deitando-nos
0 io. ficamos em p é ou nos movemos, voltamos a nos
1 • i i A posição ereta e a m o v i m e n t a ç ã o exigem a mobi-
gia para fazer frente à força da gravidade. F i c a r

196 197
em p é n ã o é um processo m e c â n i c o . Embora o alinhai ii i lo importante é que a energia flui ao longo do
tural de nossos ossos nos facilite a tarefa, nosso. RJ una e para baixo, dentro do ser humano,
de efetuar um trabalho c o n s i d e r á v e l para a manutajj rosa pulsação é o fato de ambos os pólos do
tura. Quando ficamos cansados ou nos falta energia, | nte excitados e tornarem-se intensos centros
cil, quando n ã o impossível, ficar em p é . Os soldado
ficarem em p é e imóveis durante muito tempo caem i | i o m a d o s a pensar que o domínio exercido pelo
energia se exaure. O colapso acontece t a m b é m quando l i n Um o a , c m ú l t i m a i n s t â n c i a , do desenvolvimento
recebe um choque físico ou psicológico, que resulto i | in '' ia o Isto certamente é verdade. Mas igual-
mento da energia em d i r e ç ã o ao centro do corpo, ufa ' i i n f o r m e diversos antropólogos, é o fato de ser
de sua periferia.
, . i i a ç a humana ter-se tornado a espécie dominan-
Cair é uma defesa natural contra o perigo do i l l f l j do d a c a ç a cooperativa, da sociedade de par-
i r r e m e d i á v e l . H á uma certa quantidade de tens.io ipii i olo, hirtes entre machos e f ê m e a s . Numa a n á l i s e
consegue suportar antes de se desestruturar. Soldado | l a d e do homem é um reflexo de sua sexuali-
deram seu próprio limite, enquanto em pé, acabaram ll| ili a sexualidade humana feminina ter-se liber-
T a m b é m sabemos de casos de falecimento por causa de *aj ilo d e ciclo reprodutivo desempenhou um papel
por calor, quando falha a capacidade do corpo de faxar • • ia In I i d a d e da sociedade humana na medida em
tensão de altas temperaturas. Mesmo nestas c i r c u n d a i , •M a «mi uni ir uma oportunidade de prazer e s a t i s f a ç ã o
via, cair ou deitar reduz em muito o perigo de .sínw, , • l e o i í o da s i t u a ç ã o familiar. Isto permitiu ao
n a ç ã o da força da gravidade. o in comprometimento com a f ê m e a e seus des-
Em geral, a t e n s ã o pode ser entendida como uma fdjffl olo essencial à s e g u r a n ç a das c r i a n ç a s .
empurra a pessoa de cima para baixo, ou que a puxa p a i a I é que o desenvolvimento de um c é r e b r o grande,
As cargas pesam sobre nós, pressionando-nos para balxu sexual e uma atividade mais intensa do animal
vidade age no mesmo sentido de nos puxar para bai sua postura ereta, s ã o o resultado de uma maior
p r e s s õ e s respondemos com nossa energia aplicada numa i rganismo. Esta carga maior é t a m b é m res-
de vetor c o n t r á r i o , exercida sobre o c h ã o . Segundo o pi i i i po i m a ereta do homem. M u d a n ç a s a n a t ó m i c a s e
físico de que a a ç ã o é igual à r e a ç ã o , se pressionamos a h • ipanharam necessariamente o aumento da carga
nos devolve a p r e s s ã o , mantendo-nos em p é . Do m o a •i N em que a carga e n e r g é t i c a tenha precedido
dizemos que uma pessoa " e s t á em p é " quando "enfrenta, pois i o d a s estas atividades humanas especiais exi-
s i t u a ç ã o tensionante ou difícil.
li e x c i t a ç ã o ou um teor de energia que n ã o e s t á
Ficar em p é de modo ereto é uma posição llp Hiin m i l r o s animais.
humana. O homem é o único animal para quem esta 6 U M qualidades humanas que valem a pena mencionar t ê m
tura natural. N ã o obstante, essa posição requer o di i 0 a t r i b u í d a s à postura ereta da nossa e s p é c i e . A
uma energia considerável. Apesar do fato de o c o r p o I a m mportante é a l i b e r a ç ã o dos membros superiores
anatomicamente adequado para esta postura, não a ç u nein à s funções de apoio e locomoção, permitindo
possamos explicar sua posição espacial sobre ambas as peia io ia aços e das m ã o s . Podemos segurar e manipular
termos puramente m e c â n i c o s . Devemos reconhecer q M I O instrumentos ou armas. Temos um grau extre-
nismo humano é um sistema e n e r g é t i c o mais carregado ipin Mlei ido de sensibilidade na ponta de nossos dedos,
quer outro sistema animal e que é, no homem, maioi U i in locar algo de modo discriminativo, e temos uma
energia ou nível superior de e x c i t a ç ã o que capacitou o l i j mentos dos b r a ç o s e m ã o s que enriqueceram nossa
e manter sua postura ereta. idade a t r a v é s dos gestos. U m segundo resultado
Praticamente dispensamos as provas que documeiiii ni | amiúdo, é que o homem enfrenta o mundo de
organismo humano o sistema de energia mais altamenb i u ulnerável em r e l a ç ã o ao seu corpo exposto, ou seja,
O registro das atividades e consequências das ações human
tituem prova suficiente. Neste momento, n ã o temos nc< i i i . I ilinn-, lhe Human Animal (Chicago, The University of Chicago
de decidir se esta energia e s t á dotada de uma qualidade i i n l l l i i i livro c o n t é m uma discussão excelente da i m p o r t â n c i a do corpo
tacional, como o queria Reich, ou se é utilizada para l i 1. .. .. «nulidade para os relacionamentos sociais.

198 199
seu ventre. Portanto, o peito, o c o r a ç ã o , a barriga o uafl • 1 o a s i t u a ç ã o pressionante, o masoquista se
e s t ã o mais acessíveis ao toque e menos protegidos do atafl 11 1 perante a p r e s s ã o . Este p a d r ã o de persona-
concebível que a qualidade de ternura relacione se n s f l l mana s i t u a ç ã o em que n ã o se consegue esca-
de estar no mundo. E m terceiro lugar, o fato d e a u f f l 1 o 1 loica opressora.
homem estar situada acima do resto de seu corpo é purtfH p a d r ã o se estabelece cedo na infância, quan-
r e s p o n s á v e l , creio, pela i n t r o d u ç ã o e estabelecimento M
o i a lidar com as p r e s s õ e s dos pais e das auto-
hierarquia de valores em seu raciocínio.
JHÍHII determinando como é que virá a enfrentar a
Freud a t r i b u í a a origem do nojo ao fato de .1 1 il . 0 . adulta. Vimos que, na estrutura de c a r á t e r
erguida do c h ã o . Na grande maioria dos outros I o p i n h ã o o de s u b m i s s ã o , ao lado do desenvolvimento
nariz e s t á no mesmo nível que as s a í d a s excretora e •.. M-.I 11 1 exagerada para suportar a t e n s ã o . No en-
animais e s t ã o isentos do sentimento de repulsa a n t e 1 1 1 imi 10 for exercida no início da vida, durante o p r i -
sentimento este típico do homem. Não estou p r e p n r . n l . • 1 . . * poMsível uma submissão porque o b e b é n ã o con-
cutir este ponto que Freud acreditava ter contribui.I.. .u ( desenvolvimento n e c e s s á r i o de musculatura
modo para a p r e d i s p o s i ç ã o humana à neurose. S e m .1.. . tolerância. U m distanciamento físico da s i t u a ç ã o
buímos valores mais altos à s funções da extremidadi . . 1 ai avel. E, lógico, enfrentar a t e n s ã o nesta idade
nosso corpo do que à s funções da extremidade anal. Nau a j 11 a .10. U m distanciamento psicológico torna-se
dizer de modo lógico " f i n a l traseiro" dado que as ii.nl. /1 11 b e b é dissocia-se da s i t u a ç ã o e da realidade.
na realidade, na extremidade inferior do corpo. S e n d o 1. alo de fantasia, sonha em voar — negando a t e n s ã o
civilizado, aceitei este sistema de valores que creio l e i ou escapa para o autismo. Mais tarde, este p a d r ã o
tos, posto que n ã o f a ç a com que nos voltemos contra o.. 1 1 II quando a pessoa estiver envolvida em qualquer
reza animal b á s i c a , t ã o intimamente identificada coo I li usão for excessiva. Se a p r e s s ã o for exercida
da extremidade inferior de nosso organismo. lerior da meninice, como acontece com o indi-
P o r é m , se quisermos entender os problemas q u e po.l. i' 1 1 Igido, ele e n f r e n t a r á a s i t u a ç ã o de t e n s ã o mas,
rer da postura ereta submetida a tensão, devemos <• .1 ninterrupta, o ato de enfrentar t o r n a r - s e - á
m e c â n i c a . Neste sentido, as n á d e g a s rebaixadas .1. ..menti n I urológica, provocando a rigidez do corpo e da
um papel importante. Anatomicamente, concordi o II.1 pi 0 1 com estrutura r í g i d a de c a r á t e r encara todas
Ardrey, segundo o qual a modificação que estabilizou a pn«| ltn as d e s n e c e s s á r i a s e as perigosas. E , dado
ereta f o i o desenvolvimento das n á d e g a s . Estas dual -^M irado deste modo, a c a b a r á inclusive procuran-
massas musculares, atuando juntas com a i n c l i n a ç ã o pai • tensão para provar como consegue suportá-las bem.
da pelve, garantem o apoio estrutural do corpo c r e i o ora claro ao leitor que estes p a d r õ e s de rea-
O motivo que me faz concordar com Ardrey é minha. iilMM 1 luram-se no corpo e s ã o parte de uma atitude
ç ã o de que, quando as n á d e g a s e s t ã o c o n t r a í d a s c a pel lerológica. E n t ã o , a pessoa e s t á efetivamente
nada para a frente, o corpo entra num estado de q u e d a pK*f usão mesmo quando n ã o se lhe impõe nenhuma
Isto se apresenta na estrutura de c a r á t e r masoquista ileBjf 111 1 Neste caso, podemos falar de p r e s s õ e s auto-
anteriormente. É um fato interessante o de que, n e s t a . II 1 a (ou o que Freud denominava de superego) incor-
o corpo assume uma a p a r ê n c i a que lembra os m a c a c o : . , 1 1110 uma condição de vida n e c e s s á r i a .
devido à postura d e c a í d a e em parte devido a u m a 11. aso de uma pessoa com ombros erguidos e acha-
hirsuta que t a m b é m pode aparecer. A estrutura d e c a i a i 1 lo seus sentimentos, onde levar suas responsabi-
quista é determinada por uma t e n s ã o interminável b i o s o uma coisa de "macho". Este indivíduo
e de baixo — que a c r i a n ç a n ã o conseguia evitar n e m cnliniiti li oh a consciência de seus sentimentos ou de sua ati-
A única alternativa era a s u b m i s s ã o . A f i m de t o l e r a i . um II que seu corpo e s t á dizendo. Se assumimos, hipo-
contínua, a musculatura do masoquista desenvolveu .. . llUi a quantidade de t e n s ã o muscular em seus om-
mente, que é um dos sinais físicos desta estrutura.
.. d e n l e ao exigido para carregar duzentos quilos nos
O masoquismo é uma terceira modalidade de que ua pajjH l e u deduzir que esteja submetido a uma p r e s s ã o
l a n ç a m m ã o para combater a t e n s ã o . Incapazes t a n t o .1. . . ia corporal, a pessoa e s t á agindo como se houvesse
dela por um distanciamento da s i t u a ç ã o tensionante q u a n l i i 1 ipurrando-a para baixo. Seria melhor para ela

200 201
se estivesse carregando mesmo um peso porque estaria vftW a ao pessoal. O segredo de enfrentar tensões é simples-
consciente de sua carga e cedo ou tarde a colocaria de Imln ' energia suficiente para esse encontro, mas isto só é
Do mudo como a coisa é, o indivíduo vive sob uma tensão odB h 11 e o corpo da pessoa estiver relativamente livre de t e n s õ e s .
tante sem perceber o que lhe ocorre e, portanto, incapaz 1 I o, M a m i o , descreveria a s i t u a ç ã o da maioria das pessoas do
deixá-la cair.
i lo: estão trabalhando sob uma t e n s ã o incrível e, n ã o
Toda t e n s ã o muscular c r ó n i c a é uma t e n s ã o contínua solir( sentem que se n ã o conseguirem suportá-la, isto repre-
o corpo. Este pensamento é assustador. A tensão contínua. n n i i a admissão de sua fraqueza, de seu fracasso, de sua inu-
j á o apontou Hans Selye , tem um efeito deletério sobre o • i , . . .
(2)
• li i omo seres humanos. No desespero desta condição, as
Pouco importa a natureza da t e n s ã o ; o corpo reage a e l a i aai n i endurecem ainda mais os maxilares, tensionam as pernas,
uma s í n d r o m e geral de a d a p t a ç ã o . Esta síndrome consisii . a , Melam os joelhos e lutam com uma tenacidade que à s vezes
t r ê s fases. A primeira é chamada de r e a ç ã o de alarme. O c o i u j • Militavel. Como dizia J i m , um paciente meu: " V o c ê n ã o
reage a uma t e n s ã o aguda jorrando hormônios medulares adra i i um fujão". Em muitos sentidos, a vontade de pros-
nais que mobilizam a energia do corpo para enfrentá-la. Qu, i e uma qualidade digna de a d m i r a ç ã o , mas à s vezes tem
a tensão consiste num insulto físico ao corpo, a r e a ç ã o de a l a • . !• Ho desastroso sobre o corpo.
toma a forma de um processo inflamatório. Se a r e a ç ã o for b t f l
sucedida na s u p e r a ç ã o da lesão e na r e m o ç ã o da t e n s ã o , o corpa
se acalma e retoma sua condição h o m e o s t á t i c a natural. M a li... na i catão inferior das costas
a t e n s ã o continuar, inicia-se a fase dois. Nesta, o corpo t c n t l
adaptar-se à tensão, o que envolve hormônios adrenais c o r t i c o j
1
m a dor na parte debaixo das costas que imobilize a pes-
teróides, cuja a ç ã o é a n t i i n f l a m a t ó r i a . O processo de adaptaçAflJ miii asvezes mandando-a para a cama por algum tempo, é muitas
contudo, t a m b é m consome energia que deve ser mobilizada a parlll ii resultado direto e imediato de t e n s ã o . A pessoa levanta
das reservas o r g â n i c a s . A fase dois é como uma guerra fria, mi um objeto pesado quando subitamente sente uma dor aguda na
qual o corpo tenta controlar o agente causador da tensão, dado lombossacral e percebe que n ã o consegue mais endirei-
que n ã o consegue eliminá-lo. Esta segunda etapa pode durar indM liu .. Diz se que as costas entraram em espasmo. U m ou mais
finidamente, a t é que o corpo acabe adoecendo. A fase t r ê s é i ilos, geralmente de um lado, entram efetivamente numa
mada de fase da e x a u s t ã o . O corpo não tem mais energia paru '• s i t u a ç ã o espasmódica que torna qualquer movimento das
controlar a t e n s ã o e c o m e ç a a desorganizar-se. insuportavelmente doloroso. Ocasionalmente, como resul-
do espasmo, ocorre um processo de h é r n i a em algum disco
Esta resumida a p r e s e n t a ç ã o do conceito de Selye a respeito
llil c r vertebral, pressionando alguma raiz nervosa, o que causa
da r e a ç ã o do corpo à tensão faz pouca j u s t i ç a à i m p o r t â n c i a de
lima dor que se irradia para uma das pernas. H é r n i a de disco
sua contribuição para nosso entendimento do funcionamento do
' e comum; a pressão sobre o nervo pode advir do próprio
organismo. O largo â m b i t o de nosso tema torna impossível dai
ao seu trabalho a merecida a t e n ç ã o . Por outro lado, n ã o se podi iculo espástico.
ignorar este ponto de vista em qualquer discussão de t e n s ã o . P a i a Embora eu seja psiquiatra, t r a t e i de v á r i a s pessoas que
nós é de significado particular a fase t r ê s , ou estágio da exaustão afriam deste problema. Alguns eram pacientes em terapia bio-
Se a traduzirmos para fadiga ou c a n s a ç o crónico, encontraren m, u'.ética que apresentavam t e n d ê n c i a a dores na parte debaixo
provavelmente a queixa mais comum desta nossa civilização i i costas e que tinham espasmos. Outros consultaram-se porque
Interpreto-a como sinal de que muitas pessoas e s t ã o à beira d a l , iciapia bioenergética lida, com t e n s ã o muscular. De início,
e x a u s t ã o , em resultado de tensões c o n t í n u a s à s quais s ã o subme ' preciso ressaltar que não tenho nenhuma cura r á p i d a ou fácil
tidas por suas tensões musculares c r ó n i c a s . 0 o a este problema. Se uma pessoa e s t á imobilizada pela dor,
A existência destas tensões corporais l i m i t a a energia que, se pnlão é preciso que fique de repouso na cama a t é a dor ceder.
1

não fosse por isso, estaria disponível para enfrentar as pressões | • repouso serve para remover a t e n s ã o da gravidade e, aos
da vida d i á r i a . Quando se reduzem as tensões musculares de uma i os, o músculo começa a relaxar. Neste momento, e s t a b e l e ç o
pessoa, no decurso de uma terapia bioenergética, ela descobre um programa de exercícios de b i o e n e r g é t i c a destinados a apro-
que consegue encarar muito mais eficientemente as tensões de 1 lindar o estado de relaxamento dos m ú s c u l o s tensos e a impedir
o reaparecimento do espasmo.
Para compreender estes exercícios, tem-se de indagar por que
2) Hans Selye, The Stress of Ufe (Nova Y o r k , M c G r a w - H i l l , 1956).
acontecem estes espasmos, qual é o p a d r ã o de postura que torna
202 203
a pessoa v u l n e r á v e l a problemas nas costas. E c r i a i In | M ni is costas entraram em espasmo enquanto dormia
as pessoas s ã o suscetíveis a problemas na p a r i r m i , u m lula por uma p r e s s ã o c o n s i d e r á v e l naquela ocasião,
costas por causa de uma postura errada. E e r r a d o ai a mui i costas tinham c o m e ç a d o a incomodá-la. Havia
seja normal ter este problema. Esta condição é i In i( lodo, d e uma tarefa para outra, mas observara que
dida e comum em nossa cultura, mas t a m b é m o s ã o pHHM seguia ficar em p é corretamente. Havia tido
c a r d í a c o s e miopia. D e v e r í a m o s dizer que as p e s s o a pie a havia posto na cama por uma semana
tíveis a problemas c a r d í a c o s por terem um c o r a ç ã o mi ata In p m t . m t o , os sintomas, mas, mesmo assim pensou:
cetíveis à miopia por terem olhos? Há culturas n a s q m o « • i nanar, vou para casa descansar, sair de cima
conhecem-se problemas da parte inferior das c o s t a : . , nmli i d . o o H que tinha que fazer, foi para casa e descan-
o problema do c o r a ç ã o e onde a miopia n ã o existe. A iHfÉ oms isto evidentemente n ã o bastou. Quando o espas-
n ã o e s t á nas pessoas, dado que estas t a m b é m a n d a m a pi | 10 ï , , , m sentindo-se mal durante uma semana.
c o r a ç ã o e olhos. As pessoas n ã o estão, porém, s u l | Mm i q u e o espasmo acontece justamente na r e g i ã o infe-
tipo e ao grau de tensões que s ã o o dote daquele que • I a n n i 1
• ' l ' o r que é que esta á r e a mostra-se t ã o parti-
de homem ocidental. -nii • ulneràvel à t e n s ã o ? A resposta é que a parte debaixo
É verdade que a t e n s ã o é r e s p o n s á v e l por p r o b l e m a s n a rf • , o o l o c a l onde se encontram duas f o r ç a s c o n t r á r i a s
inferior das costas? Até aqui só indiquei a c o n e x A o êm ï , , a o : uma é a gravidade, ao lado de todas as pres-
pessoa erguer um objeto pesado e a dor. Mas multnn fjfl 10 o b r e a pessoa de cima para baixo (exigências
desenvolveram espasmos na parte baixa das c o s t a s e m NIIIM iid.idi eiilpa, deveres, cargas físicas e psicológicas).
aparentemente i n ó c u a s . Alguém se dobra para p e g a i u m nl Il H loiça de sentido ascendente que sobe pelas pernas
pequeno e as costas entram em espasmo. Isto é comum Ní n i a a pessoa em p é na postura ereta, mantendo-a
um caso em que o espasmo aconteceu quando a p e s s o a . • d a s exigências e obrigações que lhe s ã o colocadas,
dormindo. Evidentemente, n ã o é sempre a t e n s ã o n a ilme i . a . a s encontram-se na r e g i ã o lombossacral.
provoca o espasmo, embora haja uma t e n s ã o em c a d a um >\>
J0 io l u a mais claro se estudarmos a força da gra-
casos. I
i t o r n a se insuportável se a pessoa for obrigada a
U m rapaz cujas costas entraram num espasmo g r a v i i no i s i n a posição durante muito tempo. A pergunta
nos preparativos de sua m u d a n ç a para um apartainenl o u He "Quanto tempo as pernas de uma pessoa
namorada. Durante dois dias estivera ocupado f a z e n d o o pai H É mui peso?" Cedo ou tarde elas cedem mas, quando
e estava quase terminando quando inclinou-se para p t ( H i m i i e e e , nalvam-se as costas. O perigo surge quando as per-
l i v r o e terminou dando entrada num hospital. A estóru i< !• m ai a s costas sofrem.
contou-me quando fui vê-lo, era que estava em c o n f l i l o a i e « | un i n a r uma condição na qual a pessoa pode manter-se
de sua m u d a n ç a . Seu relacionamento com a moça e r a bom • i i no p e r í o d o i n a c r e d i t á v e l de tempo, um dia, dois, ou
raramente l i v r e de discussões, ciúmes e incertezas. I m i m | • l l . Hl curioso, mas nesta condição nem as pernas nem as
dúvidas a respeito de mudar-se e sentia-se p r e s s i o n a d o IIII m i e m . A condição é a catatonia, uma modalidade
m u d a n ç a a f i m de manter o relacionamento. A n a t u r e z a Inlfj Ouando pensamos a respeito de catatonia, per-
e ele nunca se mudou. Sentiu que n ã o podia "dar p i a Ir/m • i i>cssoa é que saiu de cena, ou seja, sumiu. J á
entanto, foram suas costas que cederam. Acredito q u e l o m i q u e a dissociação é uma das formas que as pes-
plesmente isso. A t e n s ã o ficou insuportável e s u a s . . .
h lidar com uma t e n s ã o i n s u p o r t á v e l . O c a t a t ô n i c o é
aguentaram.
ido. Espírito, mente e corpo n ã o mais e s t ã o inte-
Outro caso envolvia uma atriz que participava d e um I I
corpo lransformou-se numa e s t á t u a e os catatônicos
do qual queria retirar-se j á h á algum tempo. N a u onlai
•' na posição de e s t á t u a s .
dando bem com o diretor e com alguns membros do ele
pernas s ã o estruturadas naturalmente para enfren-
disso, estava muito perto da e x a u s t ã o por c a u s a dos m
> i " c não lutam contra ela mas, sim, respondem à
ensaios e horas extras. Queria sair mas n ã o consegui i i
• i i a capacidade é uma função do joelho; é a a ç ã o do
fez aquilo que se pode chamar de "passo em f a l s o ' .
ni o r e ao corpo sua flexibilidade. Este t a m b é m é o
abruptamente no c h ã o . Saiu do show sobre uma m a c a , p u l l
|l ilmorção dos choques que o organismo sofre. Se a pres-
corpo simplesmente a havia deixado na m ã o . T a m b é m tulun
oi de cima for muito grande, o joelho se fletirá e,
caso eu diria que a t e n s ã o estava i n s u p o r t á v e l .
i pi i ao for insuportável, o joelho se dobra e a pessoa cai.
204 205
1
Quando o indivíduo apresenta ansiedade de |
perde sua função. A pessoa f i c a r á em p é com joelho Ifl ipiorda mostra uma postura razoavelmente nor-
para r e f o r ç a r - s e frente à p r e s s ã o e t e n s i o n a r á os 111 1 a . dobrados e a pelve está solta, ou seja,
pernas para fazê-las funcionar como suportes rígid 1 posição fixa. Esta postura do corpo permite
sente medo da flexibilidade porque esta implica nu 1 | • iransmitida aos joelhos, que s ã o os elementos
de ceder. il ao do choque. Se a p r e s s ã o for excessiva,
I H 1 l o , contudo, acontece raramente. Dado que
Se as pernas s ã o m a l e á v e i s e flexíveis, a p r c s s a n • I•
' p o s l u r a não tem medo de cair, n ã o tem medo
1

transmitida a t r a v é s das pernas e descarregada no KOIH


se a pessoa bloqueia os joelhos e tensiona as perna luando a p r e s s ã o torna-se insuportável, a pessoa
frente à p r e s s ã o , a rigidez se amplia para cima, inch 1 a o . permitindo que o relacionamento termine
1 p o a c a b e caindo.
e a pelve. Toda a p r e s s ã o torna-se localizada na j i i m in
sacra que se torna v u l n e r á v e l a lesões. 'ii stra a postura de uma pessoa que está em
Usarei a seguir t r ê s figuras simplificadas do c o r p o IIMI iil01 picados.
Neste caso, a parte inferior do
para ilustrar:
iin lusive, funciona como uma base imóvel. Esta
1 ipie a pessoa é muito insegura, a ponto de pre-
i i c rígido para apoiar-se. O efeito desta posi-
o 101 In a p r e s s ã o na r e g i ã o lombossacra, forçando,
lllo desta á r e a a tornarem-se extremamente ten-
1 pessoa sofre uma p r e s s ã o contínua, qualquer
' ii.lvu na tensão pode resultar na queda do corpo,
1 a , Uma outra consequência do estado de con-
iilns lombossacrais é o fato de causar o desgaste
li Idos dos ligamentos e dos ossos das a r t i c u l a ç õ e s
il i|in p o d e , com o tempo, dar lutar a uma artrite.

la lucila mostra uma postura diferente. A parte de


está recurvada, como que provinda da neces-
IIIIIMI de carregar uma pesada carga ou responsabi-
1... Ha, e s t ã o dobrados, mas sua flexão é determinada
p n . | i 1 i d a da pelve à frente. Nesta postura, as costas
1 deram à tensão, o que poupa a região lombos-
* 1 postura típica do indivíduo de c a r á t e r masoquista,
a p r e s s ã o ao invés de fazer frente a ela. A pro-
ide dá à parte de baixo das costas é conseguida
1 1 personalidade. Essa p r o t e ç ã o s e r á inutilizada se a
1 esforço considerável para erguer-se e enfrentar a
1
lo i s t o acontece, como, por exemplo, no decurso da
. pi oa s e n t e dores na parte de baixo das costas. Sem-
b pacientes de que p a s s a r ã o por esta fase. Este
pontudo, jamais fica agudo por estar o paciente j á
o. realização de exercícios bioenergéticos destinados
eive e a reduzir a t e n s ã o da r e g i ã o lombossacral.
1.1 vo o fato de as glândulas adrenais, r e s p o n s á v e i s
I11 do hormônios que mobilizam a energia do corpo
iiuações de tensão, estejam localizadas na r e g i ã o
a o i . i a s acima dos rins e contra a parede posterior do
1 o u l u l a s estão, portanto, em posição de avaliarem o
B C ' a que e s t á submetido o corpo. O modo como o
206
207
fazem, porém, é uma pergunta que n ã o consigo rtfl li o. i a s de sua infância. Assim que esta atitude
creio, no entanto, que possamos considerar sua loi ftlj ala em seu organismo, Kennedy estaria predis-
mente casual. i esponsabilidades, independente do quanto lhe
Seu significado, para m i m , é o de demonstra É is pessoais e ele tinha essa personalidade.
e s t á organizado sobre princípios bioenergéticos. Ist |m a lambem da doença de Addison, ou seja, a
mado t a m b é m pela localização de uma outra importtH iiopleta do funcionamento adrenal devido à exaus-
endócrina, a tireóide. 1
. i ai minha opinião, isto poderia acontecer se a
u i e i t a a uma t e n s ã o contínua que, de início, pro-
A glândula tireóide regula o metabolismo d I 1

seja, o processo pelo qual a comida é oxidada pato I I intividade da g l â n d u l a e por f i m acabasse na
energia. P o d e r í a m o s dizer que a glândula tireóide
d u ç ã o de energia, pela p r o d u ç ã o de um hormona, i h i. i a d a pessoa e a s a ú d e emocional sofrem um
tiroxina, o qual circula na corrente s a n g u í n e a estimulan da l e n s ã o . Dado que vivemos numa época extre-
d a ç ã o dos metabolitos nas células. Pouca quantid.nl. .1. Ion o de, devemos aprender como resguardar nossos
nos faz sentir morosos por falta de energia; o o x c o i l i i l o e n l c s dos efeitos prejudiciais desta t e n s ã o . Deve-
uma hiperatividade nervosa. O hormônio em si nao i i. iiuipletamente — e descontrair — as defesas físicas
gia; esta é diretamente determinada pela quantidade . I l | | | i livuluo contra "deixar c a i r " , para se reduzir
mida que ingerimos, pela quantidade de ar que r e s p a i i i .de à t e n s ã o . Esta n ã o é uma tarefa fácil em
energia de que o corpo precisa. O hormônio coordeu i | Indi que valoriza desproporcionalmente o sucesso e
ç ã o da energia com sua demanda. • o lato de se conquistar status. Nossos egos n ã o
A glândula tireóide circunda a traqueia cm l i . I...I lia lante para aceitarem o fracasso e, assim, força-
diatamente abaixo da cartilagem tireoidiana e e s l a I... . ii po a fazerem frente a situações lesivas à nossa
estreitamento do pescoço, do mesmo modo q u e | final, n o s s o sucesso é t e m p o r á r i o e vazio, pois nossos
adrenais e s t ã o situadas no estreitamento da cintura. R , | | I H s o b o peso de uma t e n s ã o ininterrupta. Mas
l h a n ç a destas últimas que estão posicionadas d e moda fim a .o é t ã o grande que, a t é a o c o r r ê n c i a do colapso
sensíveis à tensão, a tireóide está colocada para s e r *«•' i ie a entregar-se ao corpo. N u m nível mais pro-
r e s p i r a ç ã o . Desenvolve-se e m b r i o l ó g i c a m e n t e como u m laill ii i. isso identifica-se com a r e n d i ç ã o . As defesas
emerge da faringe, como os pulmões. O que s e s u g e r i . a em na cuidadosamente analisadas, em cada caso, como
é que a s e c r e ç ã o da tiroxina está diretamente relacionad» A Ipla.
tidade de ar inspirado. A medicina j á conhece e l a i . l . u o, os idementos físicos ou estruturais do corpo que
muito tempo, tendo-a usado para testar a taxa de nu i l l | i di • oni r a ç ã o devem ser objeto de u m trabalho con-
basal da pessoa. A m e n s u r a ç ã o da r e s p i r a ç ã o da p e s s o a pi negamos dois conjuntos de exercícios na terapia
dades de tempo, em estado de repouso, fornece u m a m.i i p a r a ajudarmos a pessoa a entrar em contato com
da s e c r e ç ã o de tiroxina. N ã o se assumira, contudo, ipn | musculares e descontraí-las, para liberar a descarga
ç ã o da glândula tivesse qualquer coisa a ver c o m • li .. da t e n s ã o . O primeiro inclui todos os exercícios
namento. Acredito n ã o ser fortuito mas, devido à posn m ili i nli e j a proporcionar uma base ao indivíduo (ground),
gem embriológica, a glândula faz parte ou então respondi i i | e i pernas no chão, e superar sua ansiedade de cair
c o n t r a ç ã o - e x p a n s ã o da traqueia, que sucede com a ri |||| .. . l á descrevi antes alguns destes exercícios e farei
sendo deste modo capaz de coordenar as atividades ih llli tefi rèneia a eles. O segundo conjunto tem o objetivo
com a i n s p i r a ç ã o de oxigénio. i ih i . l l a r a pelve e de abrir a pessoa para sentimentos
Voltemos agora à tensão, à região lombossacral i D o d. Alguns destes s e r ã o descritos na s e ç ã o seguinte,
dula adrenal. É de conhecimento público que o r a l é e n l o I i u g a sexual. Deve ficar claro, a partir do que eu disse
Kennedy sofria de sérios problemas na r e g i ã o inferior d . .. , pelve e s t á imóvel e se m a n t é m rígida numa posição
Lembramo-nos de que seus ombros estavam semi . impedindo a passagem para baixo de toda p r e s s ã o
achatados, como que carregando enormes responsabilidad) i i a , que n ã o a t i n g i r á as pernas pelas quais a t e n s ã o
atitude corporal desenvolveu-se, não obstante, muil.. anb i I ih i u regada. A tensão, portanto, f i c a r á centralizada na
entrado na vida pública. As origens desta posição devem MH* M i a i , com as c o n s e q u ê n c i a s que j á discutimos.

208 209
Um joelho flexível é o ponto básico a todo LriiliN u de arounding. É empregado sempre que a
com a parte inferior do corpo. Quando estão p r e s o ii i espirando com o auxílio da cadeirinha de
impedem a e x c i t a ç ã o ou os sentimentos de fluírem ill ter usado a posição da curvatura,
pernas a t é os p é s . Uma das primeiras recomend, i o. Caço de problemas da parte de baixo das
bioenergética é: "conserve os joelhos fletidos o tempo* a d i , m a n e i a entre as posições da curvatura e de
apenas mais umas poucas injunções desta nature i ou lindo ao paciente dobrar-se para t r á s e
deixar os ombros soltos e n ã o contrair a barriga. K i a quanto consiga, sem provocar uma dor exces-
sugestões podem auxiliar muito na melhoria da n a d e flexões descontrai a musculatura das
maior fluxo de sentimentos, podendo ser recomendado | i 1
i adualmente empregada como se a pessoa
as pessoas interessadas em terem um corpo mais a i o o upi r a n d o de um agudo episódio de problema lom-
sivo. Tais r e c o m e n d a ç õ e s s ã o n e c e s s á r i a s para conlrali e o s l a s estiverem então relativamente livres de
ditado: "Ombros para t r á s , peito para fora, barriga parti que a pessoa se deite no c h ã o em cima de
O propósito deste ditado é o de ajudar a pessoa ido e colocado na curva das costas. Isto pode
mas, na realidade, força-a a ficar em p é de maneira i i oa é i n s t r u í d a a ceder à dor e n ã o a tensionar
A a d v e r t ê n c i a de manter os joelhos d o b r a d o , i ia e l a . Se puder fazê-lo, os músculos das costas
como importante para se levantar um objeto pesado 0 ri M a s não devemos f o r ç a r nem obrigar a reali-
pode provocar um espasmo na r e g i ã o inferior d a s . ,, i . • 1
qualquer outro exercício. O ato de f o r ç a r cria
um instrutor de g i n á s t i c a dar o mesmo tipo de a v i s o I I U I I I H
q u e e s t á v a m o s tentando reduzir. Depois que o
jogo de futebol profissional, dizendo que correr de i onlH
ah/ando este exercício com alguma facilidade,
estar com os joelhos encurvados é perder a força e o i a
cadeirinha de respirar de modo que a p r e s s ã o
a uma lesão s é r i a . E por que isto n ã o aconteceria c •ida n i parte de baixo das costas. A cadeirinha deve
quando ficamos em p é , que é uma posição provocadm a i|< i li u m a cama, de modo que a c a b e ç a se apoie a í .
Os pacientes que n ã o ficam normalmente d e s s e |clh • MI i i ução t a m b é m é no sentido de a pessoa dei-
falta de naturalidade de início, podendo a t é chegar a s e n i l » iioi a t é conseguir relaxar. Descobre-se que, t ã o
g u r a n ç a . Os joelhos bloqueados, contudo, só criam i à dor, esta desaparece,
de s e g u r a n ç a , e é esta a ilusão que se desvanece c a n o | plllu ii ia is sério para superar a dor na parte de baixo
do joelho fletido. Para desenvolvermos o hábito de fli Ml do d a dor. Temos que ajudar o paciente a supe-
com joelhos fletidos precisaremos, a princípio, de U I I I M p u a que consiga isentar-se completamente da dor.
consciente; podemos desenvolver este h á b i t o enquanlo i i l i a l e u ao o esta causa dor. O paciente fica preso num
barba, lavamos a louça ou esperamos na esquina qui 0 do qual n ã o h á meio possível de escapar, s e n ã o
para nosso lado. Depois de algum tempo, sentim , n lai a Nunca aconselho uma i n t e r v e n ç ã o deste tipo, dado
nessa posição nova e aí passa a ser artificial e estr.min. h , la auxilia a t e n s ã o muscular, que é a origem do pro-
p é com os joelhos bloqueados. Tornamo-nos t a m b é m I lin isAo nas costas pode remover a dor pela r e d u ç ã o
das nossas pernas e de nossa maneira de ficar em pi I I • d e s t a á r e a , mas conheci pessoas que passaram por
nos sentir t a m b é m mais cansados mas, ao invés de lutai i o p e r a ç ã o sem benefícios significativos. Com a terapia
essa s e n s a ç ã o , cedemos a ela e repousamos.
1 i i a s mesmas pessoas tiveram melhoras sensíveis,
O passo seguinte é produzir v i b r a ç õ e s nas [ n i n a i
da i c o o p e r a ç ã o da motilidade da parte inferior das
o objetivo de reduzir-lhes a rigidez. A v i b r a ç ã o é o camlnl
ii i ondições de se eliminar a dor. No entanto, para
para contrair a t e n s ã o muscular. Quando a pessoa se sol! i |
n, é preciso se trabalhar o medo. As pessoas n ã o
vibra como uma mola livre do parto. Nossas pernas MAu
medo da dor: t ê m medo t a m b é m daquilo que a dor
molas, e quando as mantemos tensas por muito t e m p o . i i
dor é um sinal perigoso. As pessoas t ê m medo
r e c é m e enrijecem, perdendo sua elasticidade.
i i o ias venham realmente a se quebrar. Este medo
H á v á r i a s maneiras de se fazer as pernas vibran 111 1 1

l,, deitam-se na cadeirinha de respirar sobre essa


cicio que usamos mais constantemente na bioenergi I n n i | o,las, Se pergunto a essas pessoas do que é que t ê m
ç ã o de flexão à frente, com as m ã o s tocando o chão i< ni i o i moça a doer, a resposta invariavelmente é a se-
levemente fletidos. Descrevi anteriormente este exen í
loiíiu medo de que minhas costas se quebrem".
210 211
11 pela vida sentindo que ela i r á acabar conosco
E m minha longa experiência ninguém machucou i
ih l u , o s , pois de outro modo, realmente conse-
ao fazer os exercícios de bioenergética, tendo-os folia
mente. Fazer corretamente os exercícios n ã o quer d f lllilai
ver dramaticamente um problema e, sim, tomai i m I • 1 1 i i noia de vários caminhos de fazer com que
a nível corporal. Nunca se deve f o r ç a r a execução d* lliei 1 m a vibrar. Talvez o exercício mais simples seja
cicio além do ponto de perigo, que é quando a pessoa 11 doitar-se de costas na cama e erguer ambas
drontada. Quando isto acontece, é preciso uma análl i 11 Se os tornozelos estiverem fletidos e os calca-
Pode-se fazer perguntas, como: "Como é que você riu i mi llii para o alto, a t e n s ã o colocada sobre os músculos
que suas costas iam quebrar?" e "O que é que faz ¡1 pernas geralmente c a u s a r á a v i b r a ç ã o nelas,
br ar em?" Mais cedo ou mais tarde, torna-se possível < lu corpo tem uma outra função importante a l é m
te associar seu medo da fratura a uma situação da 1 1 l e n s ã o : permite à pessoa experienciar e usufruir
Pode, por exemplo, lembrar-se da a m e a ç a de um doi p ia voluntários do corpo, que s ã o uma e x p r e s s ã o
te pegar, te quebro as costas". Isto poderia ter sido 1
n a força vibrante. Se a pessoa sente medo desses
c r i a n ç a rebelde em cujo caso a a m e a ç a significai 11 a liando que deve estar no controle dos mesmos o
poderia quebrar o espírito da c r i a n ç a ou o eixo de III p e i d e a espontaneidade e acaba como uma pessoa
cia. Diante desta a m e a ç a a c r i a n ç a p o d e r á reagir pui • 1 ' i r idamente contida.
cimento das costas, como se dissesse: "Você n a u vnl o 1 s i t u a ç ã o em termos ainda mais fortes. Os movi-
b r a r " . Mas, assim que as costas tensionaram se ,1, luiii o os d o corpo s ã o a essência de sua vida. O bati-
crónica, o medo de quebrar fica estruturado dentro o c i c l o r e s p i r a t ó r i o , os movimentos peristálticos
como parte da defesa. o i o d o s ações i n v o l u n t á r i a s . Mas mesmo a nível
Uma a m e a ç a verbal claramente expressa nem sempi 11 n todo, estes movimentos involuntários s ã o os
' l e m o s convulsões quando rimos, choramos de
s á r i a para se produzir costas tensas. É mais comum
conflito aberto entre desejos e, nesta situação, a QfJ I rememos de raiva, saltamos de alegria, pula-
enrijecer as costas inconscientemente para mantn 10 e sorrimos de prazer. Dado que estas ações s ã o
dade. E m todos os casos, o tensionamento das costua d iiflo planejadas e i n v o l u n t á r i a s , tocam-nos de modo
r e s i s t ê n c i a inconsciente, uma c o n t e n ç ã o oposta ao solta uficativo. E a resposta mais satisfatória, mais
ato de ceder. Embora a contenção tenha seu aspecto p npletar e mais significativa dentre todas as res-
seja, a m a n u t e n ç ã o da integridade, sugere t a m b é m mn 1 ias é aquela do orgasmo, em que a pelve move-se
tivo de opor-se à s necessidades, aos desejos e ao ; H o i e o o corpo todo entra numa convulsão com o ê x t a s e
impede o entregar-se ao choro e a ocasião de cedei |
sexuais. Quando as pessoas choram, dizemos que mm
l á g r i m a s e soluços. O medo de quebrar-se é fundanu
II I llilí
um medo de romper em p e d a ç o s , de ceder e render si 1
tante para o paciente fazer as associações que o capaelleni 1I1 iiga sexual s a t i s f a t ó r i a e l i m i n a r á o excesso de exci-
preender a origem de seu medo. iirpo, reduzindo em grande medida o nível geral de
Uma pessoa n ã o pode se quebrar a menos que flqni • I, a e x c i t a ç ã o excessiva torna-se centralizada no
como as c r i a n ç a s que e s t ã o presas em seu relacioiuiinonlH ii o e descarregada no momento do clímax. A expe-
1

os pais. Os pacientes n ã o estão nesta posição. Todo Dl 11 descarga sexual s a t i s f a t ó r i a deixa a pessoa sen-
sabe que e s t á livre para fazer ou n ã o o exerciom, e u ' relaxada, frequentemente sonolenta. A experiên-
livre para abandonar a s i t u a ç ã o assim que desejai Mm • 1 nulamente a g r a d á v e l e s a t i s f a t ó r i a . P o d e r á dar
cientes e as pessoas em geral e s t ã o presas por sua nglili in eguinte pensamento: " A h ! E n t ã o é disso que a vida
suas tensões musculares c r ó n i c a s , projetando estes senlll bom, t ã o certo!"
em suas r e l a ç õ e s . Os exercícios jamais devem ser feitos dl que h á e x p e r i ê n c i a s ou i n t e r a ç õ e s sexuais que
compulsivo, pois isto aumenta o sentimento de estar pri 111 Ml l a i n i i a s e que n ã o levam a esta conclusão. Pode-se
soa deveria realizá-los como um meio de sentir aquilo qui um contato sexual insatisfatório no qual haja um
tece dentro de seu corpo e por que acontece. Não podcim cilação mas n ã o se atinja o clímax, onde a energia

212 213
deveria ser descarregada. Quando isto acontece, .1 i " utilizar a palavra "orgasmo" para descrever
tas vezes presa de um estado de f r u s t r a ç ã o , de ¡111 0 1 I oa qual h á movimentos involuntários e con-
irritabilidade. Mas a falta de clímax n ã o leva m 1 a g r a d á v e i s no corpo e na pelve, sentidos
à f r u s t r a ç ã o . Quando o nível de e x c i t a ç ã o sexual ó lutl Quando apenas o aparato genital e s t á com-
de n ã o conseguir atingir o c l í m a x n ã o incomoda u nsação de descarga e l i b e r a ç ã o , diria que se
falta de c l í m a x p o d e r á c r i a r um desconforto psíquico n 1 o 1,1 muito limitada para ser chamada de orgas-
mos o fracasso como um sinal de impotência. í'odi 1 1 1 1I1 .nala como e j a c u l a ç ã o , no homem, e c l í m a x ,
desconforto psíquico pelo reconhecimento de que a 1'nllfl que a resposta m e r e ç a ser chamada de orgasmo,
é provocada pelo baixo nível de e x c i t a ç ã o sexual 1 ri • > I I aiopliar-se para outras partes do corpo: pelve
o contato sexual — se ocorre entre indivíduos que , devendo acontecer alguns movimentos invo-
mutuamente p o d e r á ser a g r a d á v e l t a m b é m . 111/ei pelo corpo. O orgasmo deve ser uma expe-
s tocados por ele. Se todo nosso corpo é
Além disso, nem todo c l í m a x é completanienii 1
H á descargas parciais, em que apenas uma fraçAo li iti locado e o c o r a ç ã o responde, e n t ã o estamos tendo
acumulada é descarregada. Pode-se falar de uma sal isl'ai pleto. É isto que esperamos que a c o n t e ç a em
mas esta é, em termos, uma c o n t r a d i ç ã o . A sati ide sexual.
a totalidade e, no entanto, uma t a l c o n t r a d i ç ã o pode 1 1 • 'ia ele completo ou parcial em termos de
de fato existe) a nível dos sentimentos das pess. 1 1 po, libera a t e n s ã o naquelas partes, as quais
satisfeito com uma descarga e n e r g é t i c a de oitenta poi uente. No entanto, a l i b e r a ç ã o n ã o é permanente,
esta é a melhor que a pessoa consegue a l c a n ç a r , pu unos sendo diariamente submetidos a t e n s õ e s ,
psíquicos afetam os sentimentos e os modificam. UIIIH J | onílar se de novo. É n e c e s s á r i o uma vida sexual
que nunca atingiu o clímax durante o ato sexual 1 . • it
11 apenas de uma ú n i c a e x p e r i ê n c i a para nos
consegue atingi-lo, e x p e r i m e n t a r á a s i t u a ç ã o coma 1
sadora e gratificante, independente do nível da d, . umu o nível de t e n s ã o em nosso corpo.
xual. Podemos descrever um sentimento apenas pela 1 ar uma mística em torno do orgasmo, apesar
ç ã o do mesmo com uma s i t u a ç ã o anterior; neste caiu |iie esta função seja particularmente impossível.
p a r a ç ã o é muito f a v o r á v e l . 10. 10 de liberar a t e n s ã o e nem deveria ser cons-
mpregado para este propósito. N ã o choramos para
Até este momento tenho evitado o termo "orgasmo pn mas por estarmos tristes e, no entanto, o choro
muito mal-empregado e mal-entendido. Dizer, como AH ml h de descarregar a t e n s ã o . Mesmo se o orgasmo
que um "orgasmo é um orgasmo" é jogar com as pnlin 1111 1 cosmo de descarga mais satisfatório e eficiente,
iguala orgasmo ao clímax, o que é erróneo, e não cslaln 1 1 dl ' i que sexo sem esse orgasmo, ou a união sexual
t i n ç ã o entre os graus de descarga e de satisfação em sentido e destituído de prazer. Envolvemo-nos
deveriam saber, n ã o h á duas i n t e r a ç õ e s sexuais (pie n prazer, e este tem que ser o principal critério para
ticas em termos de sentimentos e de e x p e r i ê n c i a s . Nenhum exual. O que estou defendendo é que o orgasmo
é igual a outro. As coisas e os acontecimentos são . mais prazer, tanto mais na medida em que pode
apenas quando h á uma a u s ê n c i a de sentimentos. Quunilll ito o ê x t a s e . Contudo, dado que o g r a u de prazer
e s t ã o envolvidos, toda e x p e r i ê n c i a é única. . quantidade de e x c i t a ç ã o preliminar, algo a q u é m de
Reich empregava o termo "orgasmo" em sentido nmiln l i . o u controle, devemos ser gratos por qualquer pra-
ciai, para fazer r e f e r ê n c i a à entrega completa à exciln 11I1 1 o a is experienciar.
com o envolvimento completo do corpo nos movimento 1 li 1 0 1 enfrentado pela maioria das pessoas é que as
sivos da descarga. O orgasmo, conforme a descia.ao relo) 1 o corpo e s t ã o t ã o profundamente estruturadas que
acontece à s vezes e é uma e x p e r i ê n c i a de ê x t a s e . M a 1 a o 1 a l i b e r a ç ã o o r g á s t i c a . Os movimentos convul-
b é m é outra raridade, como o p r ó p r i o Reich rcconl 1 • 1 s ã o muito a m e a ç a d o r e s e a r e n d i ç ã o é por demais
resposta total a uma s i t u a ç ã o qualquer é incomum ni a Independente do que se diz, a maioria das pessoas
dade, pois estamos envolvidos em uma carga mui tu r a paz de dar-se aos poderosos sentimentos sexuais.
conflitos para nos entregar de modo completo a (piniquei U 1 tos pacientes afirmam, no início de sua terapia,
mento que seja. Ida 1 \ 1 1 a l é s a t i s f a t ó r i a e que n ã o t ê m problemas de

214 215
ordem sexual. E m alguns casos, esses indivíduos n. i
iiada melhor e o pouco prazer de que desfrutam o o ou, ,
ser atividade sexual. E m outros casos, funciona o ui
O ego do homem, em particular, e r i g i r á defesas contra • | H | |
sentimentos de i n a d e q u a ç ã o sexual. À medida em que À f l
a v a n ç a , os dois tipos de pessoas tomam conscicm 1,1 >ln
q u a ç ã o de seu funcionamento sexual. Esta p e r c e p ç ã o vnlHj
quando tais pessoas experimentam uma descai)'..
completa e s a t i s f a t ó r i a . PELVE PARA A FRENTE
,.,„,M,A0 MOVIMENTO DA
E m todos os casos, o corpo da pessoa demonstro o •'
estado de seu funcionamento sexual. A pessoa c u j o cm
tivamente l i v r e de grandes tensões m a n i f e s t a r á o H H M
orgasmo enquanto está deitada na cama respirando t '•
esta resposta corporal no primeiro capítulo, enqunnl
minha terapia pessoal com Reich. É importante rol m ii|||
descrição.
A pessoa está deitada, com os joelhos fletidos, de imiti
os p é s estão em contato com a cama. A cabeça esto |ogadn
t r á s , para tirá-la do caminho, por assim dizer. Os b r a m i
sam ao lado do corpo. Quando a r e s p i r a ç ã o é fácil i
sem tensões musculares bloqueando as ondas rospu ulm I*,
atravessam o corpo, a pelve se move espontaneatneoi.
r e s p i r a ç ã o . O corpo s u b i r á com a e x p i r a ç ã o e cairá na In | i |
A c a b e ç a move-se em sentido oposto, para cima nu lu |i _ MOVIMENTO DA PELVE PARA TRAS
INHPIRAÇAO
e, para t r á s , na e x p i r a ç ã o . No entanto, a garganta i
para a frente com a e x p i r a ç ã o . Isto é mostrado mi i
da p á g i n a seguinte.
Reich descrevia o reflexo como um movimcnli |l
duas extremidades do corpo se aproximam. A cabeça, i II
n ã o toma parte nesse movimento de a p r o x i m a ç ã o \\p\\
para t r á s . " S T a e n T a 7 a u » ï a oa taos.o no corpo.
Olhando-se a figura e imaginando-se que os braçim i i
se estendem à frente e para o alto, o movimento puderl
descrito como uma a ç ã o de fechamento num círculo l . o
a ç ã o de uma ameba que flui ao redor de uma partícula |
mento para englobá-la. O movimento é muito m a i s prlmltl LIBERAÇÃO
que o da s u c ç ã o , no qual a c a b e ç a desempenha o papel p|*|| REFLEXO DO ORGASMO
A sucção está relacionada à i n s p i r a ç ã o . Quando ocorre n In |
a c a b e ç a se adianta à frente e a garganta e a pelve imo
para t r á s . POSIÇÃO DE ARCO OU
CURVATURA
Este movimento é chamado de reflexo do orgasmo i
ocorre sempre que o orgasmo é completo. Num orgasmo pi
t a m b é m se verificam alguns movimentos involuntário. ,i | L I T O DO O R G A S M O = L I B E R A Ç Ã O D A
P O S I Ç Ã O DO A R C O
mas o corpo como um todo n ã o cede completamento a esli •>
mentos. Uma coisa tem de ficar clara: o reflexo do orgn m
é um orgasmo. O reflexo do orgasmo ocorre num niv< l d) 217

216
O desenvolvimento do reflexo do orgasmo na | h ' a g r e s s ã o a menos que exista um objeto em dire-
p ê u t i c a n ã o é garantia de que o paciente t e r á un 11 pessoa se oriente, um objeto de amor no sexo ou
pleto durante a atividade sexual. As duas situam» 1 iniasia na m a s t u r b a ç ã o .
mente diferentes. Na atividade sexual, o nível dl | ill ir novamente que a a g r e s s ã o n ã o tem neces-
muito alto e isto dificulta o ato de ceder. Tem s e i|iu nlenção hostil. A i n t e n ç ã o do movimento pode
a capacidade de tolerar este alto nível de excitar.
tenso ou ansioso. Outra d i f e r e n ç a é que a situação ! Imslil; é o movimento que, propriamente, cons-
é engendrada para fornecer apoio ao paciente, e o t f j i umia a força que nos capacita a enfrentar, a
l á à sua disposição. No relacionamento sexual é dlfl
o parceiro tem um interesse pessoal na r e l a ç ã o a f l manipular a t e n s ã o . Se as diversas estruturas de
N ã o obstante, é verdade que se a pessoa não conil Mimadas de acordo com o teor de a g r e s s ã o dis-
gar-se ao reflexo na atmosfera de apoio da situai (lo nl l u p l i ç a r i a aquela proposta anteriormente como
é pouco p r o v á v e l que o consiga na atmosfera multo llpos de c a r á t e r . T e r í a m o s de compreender que a
regada do encontro sexual. indivíduo de c a r á t e r psicopata é uma pseudo-agres-
Por este motivo, a terapia bioenergética nan enli l e i í a u se dirige n ã o para o que deseja mas para o
i m p o r t â n c i a no reflexo do orgasmo, como Reich o la IH | luininação. Depois que conseguiu atingir o controle,
n ã o seja importante, ou que a terapia n ã o busque .. || luriiii se passivo. Por outro lado, o masoquista n ã o
vimento, mas coloca-se uma ê n f a s e igual na capacidadi i|u ffO quanto parece. Sua a g r e s s ã o e s t á encoberta, e
1 • n i e u s queixumes e l a m e n t a ç õ e s . O indivíduo de
te de enfrentar a t e n s ã o de modo que o reflexo fundi
I il 1 passivo em grande parte por causa de sua mus-
ç ã o sexual. Isto se consegue fazendo-se com que n
lesenvolvida. O indivíduo de c a r á t e r rígido é exces-
para as pernas e p é s em cujo caso o reflexo assui
aessivo para compensar o sentimento interno de
lidade diferente.
Quando a carga e n e r g é t i c a sobe do chão p a i a ipie ,ja temos uma base racional para a p r e s e n ç a da
elemento agressivo se associa a uma a ç ã o terna l • lexo, a terapia tem que ajudar a pessoa a desenvolver
diato que agressivo n ã o quer dizer sádico, brutal ou sofn | a lade sexual, ou seja, o impulso da pelve, tanto em
violento e forte. A g r e s s ã o , segundo o modo con mu 1 111 mulheres. Note que emprego a palavra "impul-
empregado na teoria da personalidade, denota a mipaelil 10 invés de "movimento de i r em busca" (reaching)
ir em busca daquilo que se deseja. É o oposto d e pu I i a empregada para descrever o reflexo.
significa esperar por a l g u é m que s a t i s f a ç a uma ncei Id
desejo. • 1 cecutar um movimento da pelve à frente de t r ê s
de se levá-la à frente pela c o n t r a ç ã o dos músculos abdo-
3)
E m meu primeiro l i v r o * , postulei dois instmie ajj n i i i d i i esta c o n t r a ç ã o tem o efeito de tensionar a parte

de anelar e a g r e s s ã o . O instinto anelar e s t á associado 1 a i p o e de cortar o fluxo de sentimentos ternos e eró-

ternura. Caracteriza-se pelo movimento de excitai 1,1 L u u r a . Na linguagem do corpo esse movimento repre-
da parte anterior do corpo, percebido como terno i n m u laisca de algo sem estar sentindo coisa alguma. O
a g r e s s ã o resulta de um fluxo de e x c i t a ç ã o para o si i I n e contraindo os músculos das n á d e g a s . Esta a ç ã o
cular, especialmente para os grandes músculos das roslm», | 1 11 m i l h o pélvico e l i m i t a a descarga ao aparato genital.
e b r a ç o s . Estes músculos e s t ã o comprometidos c | In is modalidades mais comuns de as pessoas mexerem
ereta e com a locomoção. O significado original d l . durante o ato sexual. As pessoas fazem os mesmos movi-
" a g r e s s ã o " é "mover-se na d i r e ç ã o de". A a ç ã o depi 11 (1 1 terapia quando se pede para que movam a pelve para
movimentos destes m ú s c u l o s .
A a g r e s s ã o é um componente n e c e s s á r i o do ato HI <U u a modo de mover a pelve para a frente é empur-
para homens quanto para mulheres. Na sua ausém ¡11 II 1 Imo com os p é s . Esta a ç ã o d e s l o c a r á a pelve para a
reduz-se à sensualidade, à e s t i m u l a ç ã o erótica sem 1 III is joelhos ficarem fletidos. Quando a p r e s s ã o sobre o
i i i " rada a seguir, a pelve volta para t r á s . Esta a ç ã o
III lodavia, da capacidade da pessoa para dirigir sua ener-
* 2 Z z x K r s s A t e a r a pés. Neste tipo de movimento pélvico, toda a t e n s ã o

218 219
localiza-se nas pernas. A pelve e s t á isenta de tensão o li
invés de ser empurrada ou puxada.
A d i n â m i c a e n e r g é t i c a deste movimento é exibidu
ras seguintes, ilustrativas dos t r ê s movimentos básico
humano em r e l a ç ã o ao c h ã o : andar, levantar-se c o impi
vico. O princípio subjacente a estas ações é o mesmo
quei antes, da a ç ã o - r e a ç ã o . Se empurramos o chão pu
com os p é s , o chão devolve esta p r e s s ã o e a pessoa se I
O mesmo princípio rege o vôo de um foguete. A dcs<
gética do rabo do foguete força-o para a frente. A seguir
como este princípio opera nas t r ê s ações relacionadas i
Andar: Assuma uma posição onde os pés estejam
cerca de quinze c e n t í m e t r o s , os joelhos fletidos e O I
mado. Desloque o peso de seu corpo para a parti rfjf B. INCLINANDO-SE C. LEVANTANDO-SE
calcanhares. Empurre o chão para baixo com o pé dli 1
I l l [IDOS A FRENTE
o pé esquerdo e deixe-o b a l a n ç a r para a frente. Qunui!
tar o calcanhar direito, você t e r á dado um passo a Ir eu iJin p i h n o Assuma a mesma posição de levantar-se,
o p é esquerdo. A r e p e t i ç ã o deste processo com cada pi procedimento do segundo exercício, rnas n ã o
damente, é andar. | | l |oi lho. se endireitarem. Você n ã o vai levantar-se se
" u a r e m dobrados e n ã o a n d a r á para a frente se os
A B. C.
i i n i r e m se firmes no c h ã o . O único movimento
a n n força resultante é impelir a pelve à frente.
i pelve bloqueada, e s t a r á numa s i t u a ç ã o iso-
il a t o r ç a age sobre a musculatura, mas n ã o se
cia de qualquer movimento. O movimento n ã o
i n s ã o das pernas impedir o fluxo ascendente da
a in tampouco se as tensões da pelve bloquearem
uni" diicrn qualquer movimento livre.

nflVICO

DE PÉ EMPURRANDO MOVENDO-SI
PARA BAIXO A FRENTE
Levantar-se: A s s u m a a mesma posição, mas dolin
joelhos. Transfira seu peso para a parte redonda da ,•!
pés e empurre o c h ã o para baixo. Desta feita, porém, nau
p é esquerdo nem tire os calcanhares do c h ã o . Se estou f||
firmes no chão, você n ã o conseguirá mover-se à frente 1 1 d ,
B A L A N Ç O DA PELVE
a f«Tça resultante de sua a ç ã o de empurrar o chão pai i B.
A DE PÉ, PESO PARA PARA A FRENTE
deve ter algum efeito, você d e s c o b r i r á que seus joelhos o»| A FRENTE
endireitando e que você fica em pé, numa perfeita posição
221
220
As tensões da região da pelve s ã o liberadas por meio dl I
variedade de exercícios, massagens e relaxamento dos múli j D... intendo os joelhos fletidos. A p r e s s ã o sobre os calcanha-
tensos. U m músculo tenso pode ser palpado tanto como Uni |iedi a pessoa de andar à frente e os joelhos dobrados
quanto como uma corda tensa. Espero apresentar muilo , IA • i i i e m que ela se levante.
exercícios que usamos na bioenergética num estudo separai In 1 vi I pessoa deve manter-se na posição tanto quanto conseguir
tinado a ser um manual de exercícios de bioenergética. Este li*
i a i , t r a n s f o r m á - l a em teste de autodomínio ou t o l e r â n c i a .
tem o objetivo de proporcionar uma abordagem mais ampll
i a u deve ser abdominal e solta. A barriga deve estar
íntima relação entre personalidade e corpo.
i p e l v e d e s c o n t r a í d a . Quando a pessoa n ã o aguenta mais
U m tipo de exercício que uso para soltar a pelve ta min i i . a . , e a i de frente sobre os joelhos, em cima de um
é o ato de cair. Descrevê-lo-ei aqui para que o leitor po|
experimentá-lo: , i. ,i
Ni ile exercício n ã o é preciso usar nenhuma p r e s s ã o cons-
iii uma vez que o peso da gravidade age como uma p r e s s ã o
MU i n i i d o descendente. Esta é bastante forte e, se os músculos
as estão tensos, a pessoa s e n t i r á uma dor r a z o á v e l nessa
lau Quando tornar-se insuportável, a pessoa cai no c h ã o . E m
il, a s pernas p a s s a r ã o a vibrar antes de a pessoa cair. Se a
i a ação estiver igualmente relaxada e profunda e a pessoa man-
BANCO O U CADEIRA i se tranquila, a v i b r a ç ã o se amplia a t é a pelve que movi-
ui.u• se-á para a frente e para t r á s involuntariamente. F a ç o
i pacientes realizarem duas ou t r ê s vezes este exercício, à
lula em que os movimentos vibratórios tornam-se cada vez
fortes. J á comentaram comigo que este exercício é de
• grande serventia para esquiadores.
• >s exercícios s ã o importantes porque d ã o à pessoa uma sen-
ã o diferente no corpo, ajudando-a t a m b é m a tomar consciência
COBERTOR de bloqueios e tensões, de modo a levá-la a compreender seus
n u d o s e ansiedades. O medo mais comum que os pacientes
expressam é o de serem usados sexualmente se cederem aos
i os sentimentos sexuais. Este medo remonta a uma ou à s duas
figuras parentais, em geral mais a do sexo oposto. "Ser usado"
Cobre uma variedade de pecados, desde a r e l a ç ã o sexual entre
uni genitor e o filho a t é simplesmente divertir-se ou ridiculari-
zar a sexualidade da c r i a n ç a . O medo específico tem que ser
elucidado e isto pode ser feito analiticamente ou de outros modos.
Em certos casos, o uso do exercício de cair o traz à tona.
Fica-se na frente de um banquinho ou cadeira em posição Uma m o ç a estava de p é , apoiando-se numa perna s ó , dobrada,
que deve servir de apoio apenas para o equilíbrio. Os p é s e s t ã o olhando para o cobertor e, quando pensou em cair, v i u a imagem
afastados um do outro cerca de quinze c e n t í m e t r o s e os joelhos de um pênis.. Igualou e n t ã o o medo de cair com o medo da entrega
dobrados quase ao máximo. O corpo deve inclinar-se à frente a t é sexual, aos seus próprios sentimentos. A imagem do pênis a fez
os calcanhares estarem um pouco fora do c h ã o . O peso do corpo recordar seu pai. Ele era um sádico, segundo ela. "Espanca-
deve estar ainda na parte redonda da sola dos p é s e n ã o nos va-me e humilhava-me. Andava nu pela casa, sem a menor con-
artelhos. O corpo deve estar recurvado para t r á s e a pelve lan- s i d e r a ç ã o por meus sentimentos." O que mais a perturbava, dizia,
ç a d a à frente, sem tensão, para formar um arco contínuo. Neste era seu olhar. "Ele me despia com os olhos."
exercício é importante que a pessoa f a ç a p r e s s ã o sobre o c h ã o Para ela era d e s n e c e s s á r i o seu desenvolvimento. E u podia
com ambos os calcanhares, sem no entanto, deixá-los tocar o entender seu problema e simpatizava com ela. Sua única defesa
c h ã o . Pode-se impedir que isto a c o n t e ç a i n c l i n á n d o s e o corpo à • fora eliminar os sentimentos sexuais. O único modo que teve à
m ã o para consegui-lo foi bloqueando o contato com a metade
222

223
n aios apropriados. U m deles é dar à paciente
i a ser torcida com as duas m ã o s . A toalha
superior de seu corpo. Este processo envolvia o tem I
diafragma e o enrijecimento do a b d ó m e n e pelve lai qualquer pessoa. Neste caso, seria o pai da
II i o M a a do atual, ou mesmo qualquer outro elemento
tado disso, ela desenvolveu a ansiedade de c a i r
III liado sexo masculino. Enquanto torce a toalha,
No entanto, a ansiedade de cair n ã o foi a únioi I
| H ili/endo tudo que quer ou gostaria de ter dito
desta a ç ã o defensiva. Quando uma pessoa sofre llflj
a i " homem qualquer: " V o c ê é um bastardo. Odeio
lesão, sua resposta natural é a raiva. E só quando ,
II humilhou e eu te desprezo. E u poderia torcer sua
bloqueada ou é inibida pelo medo uma pessoa ..
enroscar do teu pescoço; a í você i r i a me olhar
raiva inibida transformase em hostilidade e em I) les olhos lascivos." É óbvio que a toalha poderia
A pessoa sente e n t ã o a culpa, e sua postura defonsn u
i l o o pênis. Ao torcê-lo, ela estaria liberando
contra a p r ó p r i a hostilidade e sentimentos negativos,
b é m contra qualquer insulto ou lesão futuras. Por! mil r i . u i d e de hostilidade contra esse ó r g ã o .
suficiente para a pessoa perceber e aceitar o fato de i | nao é realizado rotineiramente. Só tem valor
mais vulnerável ao tipo de insulto ou lesão vivido dui à r e v e l a ç ã o , pelo paciente, de uma e x p e r i ê n c i a
nice. Esta p e r c e p ç ã o n ã o a f e t a r á de modo substaoio [Batan n ã o necessitam ser de cunho sexual. O exer-
defensiva, na medida em que a defesa tem outra fUíl i ' uiili/.ado para descarregar sentimentos de r a i v a
a de ocultar a hostilidade. <i< " i i um li is de alguma injúria ou insulto.
Indiquei no terceiro capítulo que as duas camadas iiecificamente sexual e que deveria ser mais
ficiais da personalidade — defesas do ego e a c I uai contexto é o seguinte: O paciente sobe num
— funcionam como monitoras e controlam a camada alando se sobre os joelhos e cotovelos, enterrando os
id, dentro da personalidade. Toda pessoa nenióla a i nli hão Ksta é, em geral, a posição do macho, duran-
tem medo da intensidade de seus sentimentos e, em • uai Kmão, o paciente (seja qual for seu sexo)
seus sentimentos negativos. Expliquei que estes d e v e m i l i a a cama, fazendo um violento movimento de
tilados ou expressos antes que o sentimento do eenlni ilanhado ou n ã o de vocalizações. Se a pessoa
possa fluir l i v r e e completamente para o mundo. Islo di l'i'anr palavras, estas d e v e r ã o ser necessariamente
tecer na s i t u a ç ã o t e r a p ê u t i c a para prevenir qunlqun alu H luas, dolorosas e vulgares,
mesmos sobre pessoas inocentes. É p r á t i c a correnh UM o paciente deixa-se i r neste exercício, e x p e r i ê n c i a
bioenergética encorajar a e x p r e s s ã o destes sentimenlu n le alivio. Consegue deixar sair por f i m o que
toda vez em que isto for apropriado à situação lenqiéiitl lu, d e um modo que n ã o é destrutivo nem para si
diata. Isto certamente seria verdadeiro para aquela p u I ï m i l r o s . A vulgaridade é apropriada porque a pessoa
descrevi ter experienciado o pai como s á d i c o c humllluui PMrlr o outro, mas sente-se limpa como se tivesse lava-
de podermos esperar que ela se entregue a seus OII na das m ã o s . O sentimento de limpeza que se
sexuais de modo positivo, devemos permitir que se i li a, u m a raiva pura pela pessoa r e s p o n s á v e l pela
lado negativo. ida I s . l a r a i v a pode ser expressa pelo ato de bater
Deve-se reconhecer que esta paciente, como qii ilqtl m u u m a raquete de t é n i s . Bater deste jeito n ã o é
mulher que tenha sofrido um trauma semelhante, len' e n e m punitivo; reafirma o direito do paciente de
mentos ambivalentes a respeito dos homens. Na qual i de . i r r e s p e i t a d o como indivíduo. Ninguém p o d e
menina e mulher, ama os homens, mas estes incluem
•i n ã o consegue n e m ficar zangado quando é p e s
Enquanto c r i a n ç a , foi humilhada e magoada por ||
por isto, odeia todos os homens. Numa parte de o i i i i n d o o u lesado.
dade, gostaria de fazer a eles o que lhe fizeram m i ih i c n r g a desentimentos negativos ou hostis diminui
humilhá-los. Enquanto c r i a n ç a , n ã o ousa expressai i i • de cair. Vale o mesmo para qualquer e x p r e s s ã o
mentos e, agora que é adulta, continua n ã o ousando i i • i i a a n s i e d a d e d e cair n ã o é eliminada apenas
b é m sabe que tais sentimentos s ã o t ã o destrutivos I nia s m. l u a s , p o i s tal a n s i e d a d e existe cm seu d i r e i t o
relacionamento como o foram para ela. Islo a i u d o q u e d e w s e r confrontado ou enfrentado.
s i t u a ç ã o melindrosa, da qual a terapia deve ajuda 1« I • cedei s e m medo, nao c o m p a l a v r a s , m a s fazendo se
único modo de conseguir este intento é fornecendo II i nu ano processo, a p r e n d e se a defendei' o propilo
de s a í d a para seus sentimentos negativos

OIA
m a\po. No entanto,
n e s l e P f ^ ^ ^ ^ p r e s s a r - s e total-
respeito e a p r ó p r i a sexualidade contra todos HM pm ,- s iam f * " 5 Í V a bioener-
terapeuta inclusive. : «VI soWe esta P ^ . " " oral vem
Devo acrescentar que todo exercício libera mio iï b d a
I " ' " "í" " ,,«„ s é í WênUco » ele. E
mentos reprimidos como t a m b é m as tensões num i
isenta as pernas do esforço excessivo de ter que s e l l l f f l
pé por causa do medo. O movimento rotatório da p e l v e Mn t f
para t r á s , para soltar as tensões musculares assomada» I
dismo anal suprimido) reduz as tensões musculares diut e i M H
cintura pélvica. Torcer a toalha e socar a cama têm «'Mtfl
lares sobre outras partes do corpo.
Estes exercícios s ã o típicos para auto-exprcssivulml
s ã o os únicos que usamos na bioenergética, nem I m o l a m *
sentimentos negativos e hostis ou irados. Estendia u • i
em busca de contato, tocar ternamente e a b r a ç a r s ã o m o v i
empregados para demonstrar afeto e desejo. No p n o
tulo discutirei a natureza da auto-expressividade e di i l l
alguns dos modos que temos para tratar de problema i | l
expressividade. São n e c e s s á r i o s , p o r é m , mais d o r .1
para finalizar.
A ênfase em se expor os sentimentos negativo:, lia mu
fato clínico de a pessoa que n ã o consegue dizer raio,
dizer sim. Portanto, é importante que seja capaz de di II III
um sentimento hostil ou de r a i v a quando for apropriado 1
Examinei as implicações filosóficas desta perspectiva WMh
livro Pleasure: A Creative Approach to Life. S e n a 1
ceber-se a personalidade humana como apenas p o s i t i v a , p
da natureza. A vida é positiva, mas a antivida o m , .
Algumas pessoas confundem-se, no entanto, tomando um l
outra, erroneamente. Ambos os tipos de forças e s t ã o p n .. ah
mundo, e é uma ingenuidade pensar de outro m o d o . S e puili
distinguir entre as duas, a negativa a l c a n ç a seu lug.11 pin
dentro do comportamento humano.
A ênfase aparentemente excessiva sobre a linguagem Ul
r a l p o d e r á fazer com que o leitor creia serem as p a l a m i e i
tituídas de i m p o r t â n c i a para a terapia bioenergética I 1I11
tamente não se aplica ao trabalho que eu mesmo r e a l l 11 1
último capítulo, irei abordar o papel das palavras. N a o acr
que demos a t e n ç ã o exagerada à e x p r e s s ã o corporal Kla pj
c o n s i d e r a ç ã o nesta terapia porque, na maioria d a s oulran
pias, é ignorada. As palavras não t ê m condições de s u b
movimento do corpo mas, da mesma forma, os n i o v i í u e n l n *
corpo n ã o s ã o equivalentes à linguagem. Cada uma d a s 11ti 1
seu lugar p r ó p r i o no c e n á r i o t e r a p ê u t i c o , como o têm na |
Muitos de meus pacientes t ê m uma certa dificuldade e m 1 |i
sar-se satisfatoriamente a t r a v é s da linguagem. E, c o m i 227

226
qui fazer coisa alguma para nos expressar. I m -
i i soas simplesmente sendo e, à s vezes, causan-
i s ã o e n ã o fazendo nada mais do que tentando
Neste último caso, arriscamo-nos a criar a
ssoa que está desesperada a t r á s do reconhe-
• . tutu expressividade p o d e r á ficar inibida por nosso
IDUliucnto.
• Idade, não a consciência, é a qualidade essencial
* • A u t o - E x p r e s s i v i d a d e e S o b r e v J v ê n a j
lade. Abraham Maslow, num artigo n ã o publi-
' lie Creative Attitude, diz o seguinte:

I iei.d espontaneidade é a garantia de uma expres-


0 I sla da natureza e do estilo de um organismo
ii n luncionamento, e de sua c a r a c t e r í s t i c a de
Auto-expressividade e espontaneidade
v. palavras, a espontaneidade e a expressivida-
•i p i n a m honestidade, naturalidade, confiabilidade,
A auto-expressividade descreve as atividades livr»f|] IH ia de malícia, não imitatividade, e t c , na medida
e e s p o n t â n e a s do corpo e, como a a u t o p r e s e r v a c ã o , c (I II plicam t a m b é m uma natureza não-instrumen-
lidade inerente a todos os organismos vivos. Toda nllv 1 i iduta, a a u s ê n c i a da "tentativa" v o l u n t á r i a ,
corpo contribui para sua auto-expressão, desde as niai* ia de um esforço consciente ou de um des-
como andar e comer, a t é as mais sofisticadas como | • • •' , niisentido, a falta de uma i n t e r f e r ê n c i a no fluxo
d a n ç a r . O modo como a l g u é m anda, por exemplo, f| d pulsos e a livre e x p r e s s ã o radioativa da pessoa na
define como ser humano (nenhum outro animal iindn ... profundidade.
homem) como t a m b é m define seu sexo, sua idadi npril
sua estrutura de c a r á t e r e sua individualidade. N i m
II Me notar que a espontaneidade é definida em ter-
exatamente igual a outra pessoa, ninguém se parei i i
com outra pessoa, n i n g u é m se comporta exatamente i i.mo a a u s ê n c i a de uma "tentativa v o l u n t á r i a " ,
pessoa. O indivíduo se expressa em qualquer açan <| •i i. m a l í c i a " , "falta de i n t e r f e r ê n c i a " . A espontanei-
ou movimento que seu corpo realiza. i ier ensinada. N ã o se aprende a ser espontâneo e,
terapia não pode ensiná-la, dado que o objetivo da
As a ç õ e s e os movimentos corporais não s ã o as lai a pessoa a tornar-se mais e s p o n t â n e a e mais
lidades de a u t o - e x p r e s s ã o . A forma e o contorno dn levando, por sua vez, a uma s e n s a ç ã o mais inten-
cor, cabelo, olhos e sons identificam a espécie t in i \ tarefa t e r a p ê u t i c a deve destinar-se à r e m o ç ã o
Podemos reconhecer um leão ou um cavalo a partir .1. UM I I 'ai liloqueios no caminho da auto-expressividade.
nho, e n ã o h á movimento algum num retrato. Podomo Lo, necessariamente, entender estes bloqueios. P a r a
nhecer um determinado cavalo em particular vendo o n i i i l n a a abordagem bioenergética ao problema da
grafia, se o conhecermos, do mesmo modo que podemol , i idade inibida.
cer uma pessoa numa fotografia. Os sons e odores i.m.i..
tificam tanto a espécie quanto o indivíduo. i e m p á r a m o s comportamentos espontâneos com corn-
ou end idos, fica clara a r e l a ç ã o dos primeiros com
Segundo esta definição, a a u t o - e x p r e s s ã o n ã o é, em uer
• i\ idade. O comportamento aprendido reflete, em
atividade consciente. Podemos estar nos exprimindo d
lu que ensinaram à pessoa e deveria, por conseguinte,
ciente ou e n t ã o termos consciência de nossa auto expn
i ido como m a n i f e s t a ç ã o do ego ou do superego, mas
Mas tenhamos ou n ã o consciência desse fato, estamo I
i i i mesmo). Esta distinção, todavia, n ã o pode ser
todo nos expressando. Decorrem dois pontos important)
no a a p l i c a ç ã o rigorosa na medida em que a maioria
fato: o primeiro é que o self
(si mesmo) n ã o está limlladii
i . ontem tanto um elemento aprendido quanto um
aspecto consciente, n ã o se identificando com o e i a . 11 .
\ verbalização é um bom exemplo. A s palavras que
228 • i . po.las aprendidas, mas o discurso é mais do que

229
as palavras e frases, pois inclui a inflexão, o t o m , o ninai ima s e n s a ç ã o moderada a t é o ê x t a s e no sexo.
ticulação, que s ã o em grande medida espontâneos e pWT pressividade n ã o depende da resposta do meio
locutor. Estes últimos elementos conferem o c o l o r i d o . s pressividade é a g r a d á v e l em si. Gostaria de
acrescendo-a de riqueza em sua e x p r e s s ã o . Por oulru i . recordasse do prazer que sente quando e s t á
g u é m i r á defender um discurso que distorça o sentid fa i b e r como o prazer da auto-expressividade
palavras e ignore as regras da g r a m á t i c a por can i l | | ...•oes dos outros. Isto n ã o significa que a res-
taneidade. A espontaneidade divorciada do controle dil aio expressividade de uma pessoa seja d e s t i t u í d a
caos e a desordem, independente do fato de, à s v i - a/.cr aumenta ou diminui pela r e a ç ã o dos outros,
dermos os balbucios dos bebés e as r u m i n a ç õ e s dos enq i ulo por estas respostas. N ã o pensamos nos outros
eos. U m equilibrio justo entre controle egóico o e s | ailando no chuveiro e, no entanto, esta é uma
poderja permitir a m a n i f e s t a ç ã o o mais eficiente pos n . i Iiii ava e a g r a d á v e l .
impulso, sem deixar de estar transmitindo intensanu lili a ç ã o naturalmente expressiva de si mesmo,
da pessoa.
tu perde algumas de suas qualidades quando se
Embora a a ç ã o e s p o n t â n e a seja uma e x p r e s s ã o d u . i . i mu exibição, ou seja, quando e s t á faltando parte
impulso e, portanto, uma m a n i f e s t a ç ã o direta do inte nlAnco para cantar. Pode-se a t é derivar uma satis-
soa, nem todos os atos impulsivos s ã o auto-exprcssivo ' ato de cantar mas, quando é baixo o elemento
portamento reativo tem um aspecto espontâneo que Init o prazer sofre uma diminuição proporcional.
na medida em que é condicionado e predeterminado poln | * i a d i ç ã o deste tipo n ã o seria inspiradora nem
cia anterior. As pessoas que perdem a c a b e ç a de tanta • J portanto, deixaria de ser repetida. Vale o mes-
vez que ficam frustradas podem parecer espontânea.'.. Ill | | i para a fala, para a arte de escrever, para a
lidade explosiva de sua resposta nega sua pretensa c i p n para qualquer outra atividade. O desafio do
dade. A explosão deriva do bloqueio dos impulsos e dtl I i o . n i i e r um alto nível de e x e c u ç ã o sem perder o
de energia a t r á s das barreiras, contra as quais irrompi I In di • i laneidade de suas a ç õ e s , que confere vida e
p r o v o c a ç ã o . O comportamento reativo origina-se numa I o i|iu . i l i v e r fazendo.
r ê n c i a com o fluxo de impulsos", sendo uma e x p r e s s ã o I | H s nas quais a pessoa pode mostrar-se sem reser-
de bloqueio no organismo. Contudo, estas reato,
n á o dando nenhuma a t e n ç ã o consciente à s suas
podem s e r estimuladas dentro da s i t u a ç ã o de control!
ii e x p e r i ê n c i a do prazer é muito grande. A ativi-
a t e r a p ê u t i c a , no sentido de remover bloqueios profundl
i ilu ci s u í ç a s tem esta qualidade. A maioria de nossos
estruturados.
unia mistura de espontaneidade e controle, sendo
Às vezes, a b i o e n e r g é t i c a é alvo de c r í t i c a s p o r . . . . • . para garantir aos nossos comportamentos uma maior
a f i r m a ç ã o . H á um pressuposto ingénuo por parte de nattio ' . ' i i . u u l o o controle e a espontaneidade e s t ã o em har-

peutas de que a violência n ã o tem lugar racional a nivel | alo de u n i suplementar o outro ao invés de tolhê-lo, o
duta humana. Pergunto-me como é que tais pessoas rcaglrl p n i / e i é o mais elevado possível. Nestas a ç õ e s , o ego
caso de terem suas vidas a m e a ç a d a s ! Esta a m e a ç a ficou i " o juntos para a p r o d u ç ã o de um nível de coorde-
sobre a c a b e ç a de muitos de meus pacientes quando . . u movlmentos que só pode ser denominado de gracioso.
pequenos. É irrelevante indagar se a a m e a ç a t e r i a s i d o li II prazer com a boa a p a r ê n c i a de nosso corpo porque
termo. As c r i a n ç a s pequenas n ã o podem efetuar tais dl i ' . 11 n-nl somos. Invejamos aquele que tem um belo
Sua resposta imediata e verdadeiramente espontanea . | brilhantes, dentes alvos, pelve limpa, boa postura,
Quando a resposta é bloqueada ou inibida pelo medo de i assim por diante. Sentimos que estas caracte-
s á l i a , estabelece-se a condição interna para uma conduta t lu fonte de prazer para a pessoa, devendo t a m b é m
Este bloqueio s e r á dissolvido n ã o com amor e s i n a i s d. la bioenergética, defendemos a tese de que a s a ú d e
mas quando estes sinais e este amor apoiarem de fato Q llilndi d o corpo refletem-se em sua a p a r ê n c i a . Boa apa-
do paciente de descarregar sua violência no ambiente i ofl i o sentimentos andam juntos,
da terapia, n ã o por meio de a t u a ç õ e s na vida cotidiana ii u n i d a d e é uma função da motilidade do corpo. U m
O prazer é o elemento-chave para a auto-expruilJl i Ic vida nunca e s t á completamente parado, mesmo
Quando estamos nos expressando de fato, sentimos p r a i lili i ilcntemente, as funções vitais nunca cessam e, a l é m

230 231
disso, h á muitos movimentos involuntários que podem | SI M E S M O
durante o sono, sendo mais frequentes quando esl. i|
e em atividade. Esses movimentos v a r i a m em qualidndi *
dade, segundo o grau de e x c i t a ç ã o . Sabe-se que as cnuui
t ã o excitadas que, literalmente, c o m e ç a m a pular
os movimentos involuntários constituem a base de nu
de nossas expressões faciais e de outras ações d
geral, não temos consciência destas atividades que nus .
ainda mais do que nossos atos conscientes. Decorre, fl
guinte, que quanto maior for a motilidade de nosso tím
mais auto-expressivo ele s e r á .
A motilidade de um corpo e s t á diretamente rolai li PERSONALIDADE
seu nível de energia. É preciso energia para inovlin
Quando o nível energético e s t á baixo, a motilidade n
mente decresce. Uma linha direta conecta a energil j
pressividade. Energia motilidade sentimento
taneidade auto-expressividade. Esta sequência l a n a
em seu sentido inverso. Se a auto-expressividade de t
estiver bloqueada, sua espontaneidade e s t a r á reduzida \ AUTO-
EXPRESSIVIDADE
da espontaneidade afeta negativamente o tônus afetivo qu<
vez, decresce a motilidade do corpo e deprime seu nível di WH M
Adolf Portmann, um biólogo eminente, estudioso da aula
sividade nos animais, chega a uma conclusão semelhante a
de seus estudos: " U m a vida interior rica ( . . . ) dependi e m pio de c o m p e n s a ç ã o é visto na pessoa que tem
mente ( . . . ) de um grau de sinceridade que anda lado 11 i m ima casa grande, u m c a r r o dispendioso ou um barco
uma m a n i f e s t a ç ã o rica da auto-expressividade". proporções para superar uma s e n s a ç ã o interna de
l'i queno é o â m b i t o de sua auto-expressividade. P o d e r á
A colocação de Portmann sugere um inter-relacionameHl
la é sua a m b i ç ã o , mas continua sendo pobre em
t r ê s elementos da personalidade: vida interior, e x p i e . . . . ,
e si mesmo. Vejo cada um destes elementos como um v c i l l lui i i espírito) e em sua maneira de a u t o m a n i f e s t a ç ã o .
um triângulo que precisa de todos os t r ê s para manter aia ! norgetica, focalizamos t r ê s á r e a s principais de auto-
li movimento, voz e olhos. Normalmente, as pessoas
Quando a auto-expressividade e s t á bloqueada ou 11mH
•través de cada um destes canais de c o m u n i c a ç ã o ,
pessoa p o d e r á compensá-la projetando uma imagem do
i nie. Se nos sentimos tristes, por exemplo, choramos,
modo mais comum de se fazer isto é a t r a v é s do uso do p.»li
pj • nos sacudimos convulsivamente. A r a i v a é semelhan-
melhor exemplo desta projeção foi Napoleão. Quando la mi
velho, ficou ainda mais baixo, à medida que sua i alie i ousa em movimentos corporais, sons e olhares. Blo-
afundando dentro dos ombros. E r a chamado de "peqi y M U qualquer um destes canais enfraquece e cinde a
e, no entanto, sua imagem avultava por toda a Kuru»| na e x p r e s s ã o .
um imperador que detinha um grande poder. Compn mas precedentes, discuti muitos dos exercícios e
necessidade por tanto poder somente como reflexo di i que asamos para reduzir a t e n s ã o muscular e soltar
inferioridade a nível de si mesmo e de sua auto-expri \\ idi corporal. Gostaria de dizer aqui algo a respeito dos
Se Napoleão pudesse ter cantado e d a n ç a d o , talvez nAii i lu expressivos empregados para o mesmo propósito, na
i i e i o o s os pacientes darem chutes, socos no divã, esten-
precisado fazer exércitos inteiros caminharem cm lautu i
i ia isca de contato, inclusive tocando, sugando, mordendo
para conquistar um sentido de si mesmo que duvido qui ali
hante. Poucos pacientes conseguem executar tais
a l c a n ç a d o algum dia. O poder cria apenas uma imagem m a i o graciosamente e com sentimento. Suas a ç õ e s s ã o des-
um self maior. 233

232
coordenadas ou explosivas. Raramente as pessoa: lornado estruturado no corpo na forma de uma
movimentos com verbalizações apropriadas e com a p r á t i c a , p o r é m , bater passa a ser uma
para torná-las mais expressivas. Os bloqueios conli i (irdenada e eficiente e o paciente c o m e ç a a sentir
mentos expressivos reduzem a mobilidade do corp ill iça o do exercício, sinal de que abriu uma nova
taneidade da pessoa. Os bloqueios podem ser l i b e r a d o *
mudes tacão.
por meio de um trabalho com estes movimentos.
•i i a i i que a terapia requer uma dupla aborda-
Chutar é um bom exemplo. Chutar quer dizer prol i centralize no passado e outra no presente. O
que à maioria das c r i a n ç a s f o i negado o direi lo ili i m s a d o é o lado analítico, que acentua o por
ao ficarem adultas n ã o conseguirão chutar com com li • s i lamento, de uma a ç ã o , dos movimentos da pes-
seus chutes t e r ã o algum efeito real. Precisam de uma || II. o b r e o presente l a n ç a luz sobre o como a l g u é m
para liberar explosivamente esta a ç ã o . Quando nao • \ c o o r d e n a ç ã o e a eficiência da a ç ã o e movi-
vocação, os chutes s ã o aleatórios e descoordenado I m a i o r i a dos animais, s ã o qualidades aprendidas
dizem: " N ã o tenho contra que dar chutes". Mas i I In aicadeira na infância. Mas quando a c r i a n ç a tem
n e g a ç ã o , porque ninguém estaria em terapia se senil i.iis, esta aprendizagem n ã o acontece de modo
sua vida n ã o h á do que reclamar. rui. Até certo ponto, portanto, toda terapia en-
Chutar uma cama, usando uma perna estendida de i * « ipimidizagem e um programa de retreinamento. N a
é uma a ç ã o de surrar que. sendo bem-realizada, coula . i terapia n ã o deveria ser um processo do tipo
ticipação de todo o corpo. As tensões em qualquer pmli du | . a i aprendizagem" — mas sim uma criteriosa combi-
interferem nessa qualidade de surrar. As pernas podi Hllibas
por exemplo, mas a c a b e ç a e o torso mantêm-se ininvi
caso, o movimento da perna é forçado, sem esponta i u|
mos que a pessoa e s t á com medo de "se deixar levai iinlulnrie
a ç ã o . Embora tenha um início voluntário, quando n p
deixa levar pela a ç ã o , esta assume uma qualida i a i i personalidade" tem duas origens em seu radical,
involuntária, tornando-se a g r a d á v e l e satisfatória. 0 u ti a l o i \ a d a palavra persona que se refere à m á s c a r a do
como dizer " N ã o ! " enquanto se d á os chutes, acentua o i nffl a de teatro, definindo seu papel. Portanto, num
so e a descarga. O que vale para os chutes é igualou nli li a l i d a d e é algo condicionado pelo papel que u m
deiro para outros movimentos expressivos mencionado, a. u m e na vida ou pela imagem que oferece ao mundo.
Descobri que é n e c e s s á r i o fazer os pacientes reall uri | iniicado é exatamente o oposto do primeiro. Se
exercícios que envolvem chutar, bater, tocar, muitas vi is a palavra persona em suas partes componentes,
das para soltar os movimentos, de modo que os sentimentos I i teremos uma frase que quer dizer "pelo som". Se-
condições de fluir sem obstáculos para a a ç ã o . T o d a vi i | '. i nilicado, personalidade reflete-se no som da pessoa,
pacientes d ã o um chute ou soco na cama, por exemplo, na é uma coisa inerte e não pode transmitir a qualidade
a ceder mais completamente ao movimento, permitindo D i. mu organismo vivo, ao passo que a voz sim.
elementos de seu corpo sentirem a a ç ã o . Na ma ima a I. dizer: " N ã o preste a t e n ç ã o à m á s c a r a , mas o u ç a
é preciso indicar ao paciente como ele e s t á se reprimir) inl vem dali o que você quer conhecer de uma pessoa".
invés de se deixar levar pelo movimento. Por exemplo, mil o | . Lo o um conselho verdadeiro, mas seria um erro
te estende suas m ã o s à frente, em minha direção, enquanto, i s c a r a . O som nem sempre nos indica o papel que
os ombros para t r á s , inconsciente de estar inibindo sutl • i i i o i u i , apesar de fazê-lo em muitos casos. H á uma
que eu o diga para ele. Socar a cama com os próprios i i. falar especial que pode ser identificada com os p a p é i s ,
com uma raquete de ténis é uma a ç ã o relativamente sim professores, s e r v i ç a i s e sargentos t ê m modos carac-
de serem poucos os que a executam bem. As pessoas nao i I di l a l a r que os identificam com sua profissão ou voca-
os b r a ç o s o suficiente, n ã o curvam as costas, trancam o n a influencia e modifica a voz. Mas h á elementos
todas estas ações as impedem de se l a n ç a r e m sem resei li i m á s c a r a nem sempre toca e que nos d ã o informações
Evidentemente, a maioria das c r i a n ç a s passou pelo tabu dl li moa da personalidade,
A r e m o ç ã o psicológica do ato de bater, no presente, nao ii libo d ú v i d a s quanto ao fato de uma voz r i c a ser uma

234 235
maneira r i c a de a u t o - e x p r e s s ã o , denotativa de uma rli i uiforidade em voz mas, na qualidade de psi-
rior. Creio haver algo que sentimos nas pessoas e esta i 1
a. o. ao muito particular a ela em meu trabalho
s a c ã o válida, mesmo que n ã o recebam as confino; allies Nao só a emprego com fins diagnósticos, usando
de estudos objetivos. O que é que queremos dizei li i habilidades neste sentido, como t a m b é m para
rica? O fator essencial é a p r e s e n ç a de ampla gama l'nra que a pessoa recupere seu potencial com-
subtons que lhe confiram uma riqueza sonora. Outro (f ao, é importante que conquiste o uso pleno
gama de tons. A pessoa que fala num único tom (nu lodos os registros e em todas as suas nuances
uma gama muito limitada de e x p r e s s õ e s e tendi .a m bloqueio de qualquer sentimento a f e t a r á sua
isto com uma personalidade limitada. A voz pode sei i li a, (
1
I'm i.mto, é preciso desbloquear os sentimentos,
sem profundidade ou r e s s o n â n c i a , pode ser baixi ni i • ' discutindo desde o início; contudo, é tam-
faltasse energia, ou fina e desincorporada. Cada ...iii.. trabalharmos especificamente com a p r o d u ç ã o do
qualidades relaciona-se de certo modo com a person illij as tensões que existem em redor do aparato
pessoa.
A voz e s t á t ã o intimamente vinculada à peisuiuillila lupi fendermos o papel da t e n s ã o nos distúrbios da
é possível diagnosticar a neurose do indivíduo e parlli áj H i devemos consider ar cada um dos t r ê s elementos
a n á l i s e de sua voz. Recomendo uma leitura cuidai In i i la emissão do som. S ã o estes: um fluxo de ar
11
The Voice of Neurosis, de Paul Moses' a quem dcs< |ar Ut l Indo nas cordas vocais para produzir uma vibra-
ender a r e l a ç ã o entre voz e personalidade. O estada da I i us que funcionam como instrumentos v i b r a t ó -
progredindo a t é o ponto em que hoje torna-se possível ul
. Idades de r e s s o n â n c i a que magnificam o som. As
para detectar mentiras. Isto é mais sutil do que a dclasj
i lerem na r e s p i r a ç ã o , especialmente as da r e g i ã o
mentiras baseadas no reflexo psicogalvânico da pele mas |
m i i efletir-se-ão por alguma distorção na qualidade
cípio é semelhante em ambos os casos. Quando a pentna
uma mentira, h á um achatamento em sua voz que é pasa| dnde extrema, por exemplo, quando o diafragma
d e t e c ç ã o por um instrumento. Este achatamento, difeieiila i Illa a voz torna-se muito t r é m u l a . E m geral, as cordas
normal da pessoa, indica um bloqueio ou uma contençAu illl i Ião isentas de uma t e n s ã o crónica, mas em pre-
so de falar a verdade. • forço agudo s ã o afetadas e produzem uma certa rou-
I fusões do pescoço e da musculatura da garganta,
O novo detector de mentiras é conhecido como o I " l u| ih iam a r e s s o n â n c i a da voz, provocando tons t o r á -
liador de T e n s ã o Psicológica (Psychological Stress Kv9m i i . fálicos. A voz natural é uma c o m b i n a ç ã o destes
Allan D . Bell, presidente da companhia que comeu iall > |
o variados, dependendo da e m o ç ã o que e s t á em jogo.
duto, descreve seu modo de funcionar: " H á tremores h mi.
In ii in comporta uma voz equilibrada.
inerentes aos m ú s c u l o s do corpo humano e que estão aminil
ininterruptamente enquanto os músculos estão sendo u udiM 0 ma voz equilibrada é uma clara i n d i c a ç ã o de um
t e n s ã o , contudo, diminui a quantidade de tremores. 0 nttl i o i personalidade. Moses descreve dois casos tratados
da voz t a m b é m exibem estes mesmos tremores, bem C O I I K I ipu citarei a seguir, uma vez que ele e s t á falando na
da t e n s ã o . Usando o equipamento eletrônico por mis . H ala | id otorrinolaringologista:
pode examinar uma fita gravada de uma voz para verlfli II
acontece com tais tremores. A e x t e n s ã o dos mesmos é I M 1 hn paciente de 25 anos de idade falava numa voz
mente proporcional à quantidade de t e n s ã o psicológica qtii | 0 m i a e infantil, algo que lhe causava grande emba-
soa e s t á sentindo". 1 o o Tinha cordas vocais completamente normais e
Os tremores s ã o aquilo que eu denomino de vilnairtn el..piadas à p r o d u ç ã o de um tom b a r í t o n o normal
a u s ê n c i a destas denota a t e n s ã o ou a contenção, scj: i na verdade, conseguia cantar nesse tom. Mas man-
111111.1 se lalando em falsete. Outro paciente, um jovem
na voz. Nesta última, a t e n s ã o provoca a perda de su. n|
Os relacionamentos s ã o os seguintes: t e n s ã o = contençAu | .1 migado, queixava-se de r o u q u i d ã o c r ó n i c a . Usava
da v i b r a ç ã o = achatamento do afeto ou sentimento p u a sua p r o d u ç ã o vocal um teor excessivo de registros
torácicos. Este jovem tinha um pai de destaque na
(ida pública, desempenhando um papel importante na
m V 0 k e f N e U r o s i s
19540 P a U l M
' M O S e S
' ° ( N o v a
York, ( | tala do país e o filho tinha que corresponder a um

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elevado ideal. D a í f o r ç a v a o tom para c r l l Ido quando uma paciente esquizofrénica que se
de que assim pudesse encobrir a falta d,, ôlll I por t r á s de uma voz de som seco e odioso,
cesso de identificação com a imagem d e abrir seus bloqueios da garganta, começou a
f e t e uma melodia r i c a e atraente, como uma meni-
ria lZ™' v í P u e n t e do outro'
n a ser explicado remontando suas <„,•,,, a de seis anos . (})

aznda existente à barra da saia de sua


a voz e s t á t ã o intimamente relacionada ao sen-
Moses n ã o descreve o tratamento dispensado a ai i iii.. r a ç ã o envolve a mobilização de sentimentos su-
mas, mas é evidente, a p a r t i r de seus comentário:., <p ile sua m a n i f e s t a ç ã o por meio do som. H á sons
alguma a n á l i s e do passado do paciente. " E m ambos 04 .. , os diversos sentimentos. O medo e o terror s ã o
r a m que voltar a t r á s , reaprender as lições no início , i . i i o s ; a raiva com tom agudo e alto; a tristeza
ridade." Tenho certeza de que todo analista ou terapi | |flinda e soluçante; o prazer e o amor com sons sua-
contar muitos casos, de sua p r ó p r i a p r á t i c a , em que o Km geral, pode-se dizer que uma voz de tona-
mento da voz sucedia a um trabalho bem feito sobro Qf • i i Indica um bloqueio das notas profundas, expres-
da personalidade. - a voz baixa e t o r á c i c a indica a n e g a ç ã o do sen-
IOIIn e a inibição de exprimi-lo num grito. Contudo,
ar que a pessoa que se exprime numa voz apa-
imlilii ada n ã o esteja limitando sua e x p r e s s ã o vocal.
equilíbrio p o d e r á representar controle e medo
liberar os ^ e S Z ^ ' T ^ a ™ - ' .oes violentas se manifestarem por meio de

U m dos modos de enfrentar tais p r o b l e m a . Ipl . laoenergética h á uma ê n f a s e constante na expres-


o polegar da m ã o direita 2,5 cm a b a i x o .1. as palavras s ã o menos importantes. Os melhores
queixo enquanto que o dedo médio esta I m a l i .i aqui lo.s que emergem espontaneamente. Descreverei a
posição correspondente do outro lado do pi i u • lo procedimentos capazes de evocá-los.
músculos escaleno e esternocleidomastónli o ao • capaz, j á ao nascer, de chorar copiosamente e
aprisionados e se aplica uma p r e s s ã o 1'imu au a •• que estabelece a r e s p i r a ç ã o independente do r e c é m -
1

enquanto o paciente vocaliza uma nota ali i i . a desse primeiro grito é uma certa medida da
Repete-se o mesmo procedimento v á r i a s vc/.i ntl i . c r i a n ç a ; algumas gritam vigorosamente, outras
e na base do pescoço, utilizando vários i .o is em pouco tempo a maioria delas aprende a
ros. Muitas vezes, isto provoca gritos d e a I vo bem alta. N ã o muito tempo depois do nascimento,
se transformam em profundos soluços e pi 1111 .iam t a m b é m a capacidade de gritar. O grito é
ouvir um verdadeiro envolvimento emocional a ai. ipais formas de descarregar t e n s ã o , seja esta devi-
r e n d i ç ã o final. A m á g o a é expressa nos nua a lu i raiva ou a uma f r u s t r a ç ã o intensa. Muitas pessoas
clônicos e o corpo todo vibra de emoção \ u i i (III i ilo com este propósito.
vida e pulsa, enquanto que o bloqueio d a r.ai o i . . m o s eu estava num programa de r á d i o , em Boston,
abre. É surpreendente descobrir o que se o, oh> d a plateia ao vivo. U m dos espectadores chamou-
t r á s da fachada de uma voz estereotipada l h o i i> i. Ione para perguntar como superar sua dificuldade de
com uma voz de tonalidade aguda fiam iib i i i . oio das pessoas. Sem saber qual era a causa do
cente, fazendo o papel da menininha c o m seu || . o linha ainda de oferecer-lhe um conselho e e n t ã o
irrompeu numa voz feminina madura e n i e l o d i o . a o. praticasse o ato de g r i t a r . Sabia que só i r i a bene-
homem de voz seca, chata, mudou d e registra o i . Unir lugar para se gritar é dentro de u m carro, na
desta descarga, para uma voz masculina p i o l u n i l is vidros fechados. O barulho do t r â n s i t o é t ã o alto
desafio ao seu "pai opressivo". Fiquei p r o l u
| l'i. rrakos, The Voice and Feeling in Self-Expression (Nova Y o r k ,
2) I d e m , op. cit. i i >. i., i|.,rtic Analysis, 1969, p á g . 11.)

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lalo a l a a meus olhos ao m á x i m o . Mas a a ç ã o volun-
lueixo caído dificilmente reduz de modo signi-
l e s t a á r e a . Como Reich descobriu, era preciso
. . l i p r e s s ã o nos músculos do maxilar para efetivar
a n o t a m b é m elaborar os impulsos reprimidos
... a l a d o s à tensão crónica dos músculos maxilares,
di i r e v e r uma manobra simples e que envolve o
FARINGE m p r e g o para reduzir esta tensão. O paciente
ANEL DE BO(.7\
m i a e eu fico de pé ao seu lado. F a ç o p r e s s ã o
â n g u l o do queixo. Este procedimento é dolo-
TENSÃO 11
nu

Hliid i paciente é estimulado a protestar. Sugiro que


OS:;, i
noa e grite: "deixe-me sozinho", quando eu fizer
OKI
ESÓFAGO dor, sua resposta é normalmente genuína e ele
apresa a v e e m ê n c i a de seus protestos. A maioria
leve oportunidade de ser "deixado sozinho"
TRA( i i / i • . a d oi almente, tendo sido submetida a uma dose con-
I I ) . E n ã o teve t a m b é m a p e r m i s s ã o para pro-
i objeções. Para muitos pacientes, esta é uma
• n, a de deixar a voz e os atos exprimirem senti-
insie anel de t e n s ã o n ã o é uma unidade anatómica, infla
cional. Muitos músculos participam de sua f o r m a ç ã o i io d a r a i m p r e s s ã o de que a dor seja uma parte
seu funcionamento, entram v á r i a s estruturas como o ipiiuu In I r n l i a l h o bioenergético. Muitos destes procedimentos
língua. O maxilar inferior desempenha um papel espci lid ao H i.adáveis mas n ã o se pode evitar a dor se a
dida em que, endurecendo o queixo, esta t e n s ã o instala I i ' hl a Ttar-se de tensões c r ó n i c a s . Como aponta Arthur
eficiente no local. Seja qual for a p o s i ç ã o em que o QU I'n mal Scream, o paciente j á tem dor. Chorar e
imobilizado, a mensagem é " n ã o v ã o passar". A este real 11lii das maneiras de se liberar a dor. A p r e s s ã o que
ciona como a ponte l e v a d i ç a do castelo que deixa do Ian seulo tenso, em si, n ã o é dolorosa. Sua capacidade
os indesejáveis, mas m a n t é m enclausurados os de dentl i é mínima quando comparada à tensão do músculo
o organismo necessita de mais energia, como nos estadl o 1.1, Un i perimentada como dolorosa pela pessoa cujos m ú s -
saco ou sono, o portal tem que se a b r i r em toda sua extl i c m d e s c o n t r a í d o s . A p r e s s ã o que faço, em cima da
p e r m i t i r uma i n s p i r a ç ã o mais profunda e é isso que lei.