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DIDI-HUBERMAN, G. Falenas. Lisboa: Imago, 2015.

1. A IMAGEM-SULCO

A ínfima duração do fenômeno [de repente] – em um só golpe. Uma porta abre-se.

Uma ideia nunca será tão flexível quanto as coisas

Afterimage – o relâmpago já não rasga o céu, mas continuará por muito tempo a rasgar meu
campo visual. (imagem remanescente; duplo virtual; imagem sobrevivente; seu sulco; seu
rastro em movimento)

“A filosofia só é ela mesma quando ultrapassa o conceito ou quando se liberta dos conceitos
rígidos e já prontos para criar conceitos bem diferentes daqueles que normalmente
manejamos, quero dizer, para criar representações flexíveis, móveis, quase fluidas, sempre
prontas a se moldarem pelas formas fugidias” Bergson

Conhecer por imagens é, por isso, aproximar o aparecer das coisas aquém do facto observável.

“uma folha de grama [erva] não se assemelha mais a outra folha da grama do que um Rafael
de um Rembrand” Begson.

O botânico pode classificar a identidade de duas folhas de grama, enquanto um filósofo


bergsoniano preferirá refletir sobre sua singularidade, sobre o jogo das suas semelhanças e
dissemelhanças.

Conhecer por imagens é renunciar à síntese do “resolvido” e aventurar-se à intuição do “se


fazendo”.

Pensar intuitivamente é pensar em duração.

Não temos sob os nossos olhos senão coisas moventes: o mundo é movente. Mas como
conhecer os próprios movimentos do movente?

Uma imagem “alarga a percepção” das coisas, mas o preço a pagar prende-se com a
singularidade, portanto com a fragilidade e com a própria transitoriedade da imagem (p.75)

“a inteligência, tal como os sentidos, limita-se a dar de vez em quando, sobre o devir da
matéria, relances instantâneos, e por isso mesmo imóveis [...] assim se destacam da duração
os momentos que nos interessam e que colhemos ao longo do seu percurso. Só a eles retemos
[tornando-nos] incapazes de ver a verdadeira evolução, o devir radical. Do devir só captamos
estados, da duração apenas instantes, e até quando e falamos da duração e do devir é noutra
coisa que pensamos.[...] acreditamos que é possível pensar o instável por intermédio do
estável, o movente por intermédio do imóvel.” (bergson; a evolução criadora)

Forma – movimento – mudança de forma......mas o corpo está sempre a mudar de


forma...forma não existe pois é do domínio do imóvel, ao passo que a realidade é movimento.

“a forma é apenas um instantâneo tirado durante uma transição” Bergson

“a nossa percepção arranja maneira de solidificar em imagens descontinuas a continuidade


fluida do real” Bergson (p.82)
A imagem dura: sulco

A indeterminação do ritmo fluido do meio abre um sulco – uma movência fluida acompanhada
do seu rastro – na ordem das coisas supostamente estáveis.

“a duração real é aquela que morde as coisas e nela deixa a marca dos dentes [...] a
inteligência repugna-lhe o fluente, e solidifica tudo aquilo que toca” Bergson

Imagem-movencia; imagem-cauda; imagem-filete: imagem que dura, se prolonga, sobrevive,


nos compele ao desejo de a reter ou à expectativa de a rever, quando não vemos mais do que
as franjas que se perdem na noite.

Bergson – desconfia do espaço; mas não é a imagem espaço feito de tempo, tempo feito
espaço, heterogeneidade em ato?

14. A IMAGEM ARDE

Se fica em brasa é porque é verdadeira.

A verdade não se manifesta no desvelamento, mas antes num processo que, por analogia,
poderíamos designar por abrasamento do véu.

Kant: “o que é orientar-se no pensamento?”

Jamais a imagem se impôs com tanta força no nosso universo estético, técnico, cotidiano,
político, histórico. Jamais ela mostrou tantas verdades tão cruas, jamais nos mentiu tanto,
jamais foi objeto de tantas censuras...

Como orientar-se diante de todas essas bifurcações, potenciais armadilhas?

A imagem pode dar origem a que tipo de conhecimento?

Falena = borboleta  apenas passa...tem mais a ver com o acidente do que com a substância.

(muita gente acha que aquilo que não perdura é menos verdadeiro do que o que dura ou do
que o que é duro)

O movimento é mais real que a imobilidade. A transformação das coisas nos ensina mais que
as próprias coisas.

É quando podemos enfim vê-la, em toda sua beleza, formas e cores, que ela bate as asas
(borboleta); queremos possui-la. Assim possuímos as imagens, colecionamo-las, mas logo
percebemos sua falta de vida, falta dos movimentos, batimentos, percursos imprevisíveis...

Admiramos na imagem precisamente o que nos escapa: o batimento das asas, os padrões
impossíveis de fixar.

Não podemos falar de imagens sem falar de cinzas.

Cada vez q olhamos uma imagem deveríamos pensar nas condições que impediram sua
destruição, o seu desaparecimento.

O próprio do arquivo é a sua lacuna, a sua natureza esburacada.


O arquivo é muitas vezes cinzento, não só por causa do tempo que passou, mas também por
causa das cinzas de tudo o que o rodeava e que ardeu.

As imagens não estão “no presente” e justamente por isso são capazes de tornar visíveis
relações entre tempos mais complexas que implicam a memória na história.

Imagem dialética – Benjamin

Analfabetismo da imagem – Benjamin