Você está na página 1de 72

FUNDAÇÃO EDITORA DA UNESP

Presidente do Conselho Curador


Mário Sérgio Vasconcelos
Diretor-Presidente
José Castilho Marques Neto
Editor-Executivo
Jézio Hernani Bomfim Gutierre
Assessor Editorial
João Luís Ceccantini
Bent Greve
Conselho Editorial Acadêmico
Alberto Tsuyoshi Ikeda
Áureo Busetto
Célia Aparecida Ferreira Tolentino
Eda Maria Góes
Elisabete Maniglia FELICIDADE
Elisabeth Criscuolo Urbinati
Ildeberto Muniz de Almeida
Maria de Lourdes Ortiz Gandini Baldan
Nilson Ghirardello
Vicente Pleitez
Editores-Assistentes
Anderson Nobara
Jorge Pereira Filho
Leandro Rodrigues
Tradução
Pedro Barros

~
editora
unesp
© 2012 Bent Greve . Todos os direitos reservados.
Tradução autorizada da edição em inglês publicada pela
Routledge, membro do Taylor & Francis Group .
© 2012 Editora Unesp
Título original: Happiness
Direitos de publicação reservados à:
SuMÁRIO
Fundação Editora da Unesp (FEU)
Praça da Sé, 108
O1001-900 - São Paulo - SP
Te!.: (Oxx11) 3242-7171
Fax: (Oxxll) 3242-7172
www.editoraunesp.com.br
www.livrariaunesp.com.br
feu@editora.unesp.br

CIP - Brasil. Catalogação na publicação


Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
Lista de ilustrações 9
G857f
Prefácio 11
Greve, Bent
Felicidade I Bent Greve; tradução Pedro Barros.- 1.ed.- São
Paulo: Editora Unesp, 2013.
1 Introdução 15
Tradução de: Happiness Por que um livro sobre felicidade? 15
ISBN 978-85-393-0465-3
Felicidade é sempre igual? 21
1. Felicidade -Aspectos sociais. 2. Filosofia. I. Título.
Diferentes abordagens da felicidade 28
13-02765 CDD: 152.42
Delineação do livro 30
CDU: 159.947

2 O que é felicidade? 35
Introdução 35
Editora afiliada: A boa sociedade e felicidade 39
O que é felicidade? 41
Felicidade e bem-estar 68
Aaodación de Edltortalea UnJven.ttanaa Assoctaçlo BruUelra de
de Amtrlca LaUna y d Ca.r1be Editoras Unlversltártas Em síntese 76
FELICIDADE
BENT GREVE

3 Podemos medir felicidade? 79 Novas medidas do desenvolvimento de


uma sociedade 179
Introdução 79
Em síntese 185
Podemos medir felicidade? 85
Felicidade: alguns exemplos empíricos 93 6 Conclusões 189
Em síntese 107 Introdução 189
Apêndice: informações sobre o European O que sabemos? 190
Social Survey (http:/I ess.nsd. uib.no/ Sobre o que precisamos saber mais a
index.html) 109 fundo? 194
Em síntese 195
4 Felicidade e políticas públicas: alguma
Referências bibliográficas 199
ligação? 113
Introdução 113 Índice remissivo 213
Felicidade e renda 123
Felicidade, relacionamentos sociais e
outros elementos importantes 129
Felicidade e o mercado de trabalho 13 7
Felicidade e saúde 144
Felicidade e desenvolvimento social 156
Em síntese 165

5 Por que precisamos de novas medidas


para o bem-estar? 169
Introdução 1~9

Por que o PIB não é suficiente? 171


Outros elementos que devem ser incluídos
na análise 17 5

6 7
BENT GREVE

importantes que influenciam a felicidade


de indivíduos e de sociedades. E mais; a
felicidade varia no decorrer da vida, e um 3
momento de felicidade pode ser importante
para se compreender a vida toda. PODEMOS MEDIR FELICIDADE?

Introdução

Este capítulo adotará um ponto de vista


metodológico para discutir se tem valia
(e se é possível) analisar e medir felici-
dade. Isso está relacionado à forma como
perguntas são feitas, ao contexto em que
são feitas e também ao fato de que pode
haver diferenças entre indivíduos quanto
ao modo como percebem a felicidade e ao
que tem impacto nessa felicidade. Ademais,
tentaram-se análises e coleta de dados, o
que mostrou que a resposta para questões
sobre felicidade se relaciona com mudanças
no cérebro. Dessa forma, os dados parecem
78
FELICIDADE
BENT GREVE

indicar que, ao menos quando se pergunta no mercado de trabalho, saúde, residência e


a um número representativo de pessoas, é relações sociais" (Anand e Clark, 2006). A
possível avaliar seus conceitos de felicidade saúde também tem impacto (Lelkes, 2006a) .
e também como isso pode estar relacionado Elementos como trabalho e participação
a outras interpretações de desenvolvimento no mercado de trabalho, saúde, atividades
da sociedade. Além disso, o capítulo apre- voluntárias e coesão social são, portanto,
senta uma série de dados sobre a felicidade fundamentais, embora ainda exista um foco
e sua relação com parâmetros fundamentais, em como e se uma sociedade pode ajudar a
na Europa e nos Estados Unidos. produzir maior felicidade (ver também o
Muitos estudos sobre o que afeta o bem- Capítulo 4). A maior parte desses elemen-
-estar indicam que 80% das diferenças tos já foi apontada por Wilson em 1967, que
de felicidade entre nações e entre indiví- argumentou que a felicidade estava relacio-
duos podem ser explicadas por seis fato- nada a "pessoas jovens, saudáveis, bem edu-
res: divórcio, desemprego, confiança, ser cadas, bem pagas, extrovertidas, otimistas,
membro de uma organização religiosa, fé sem preocupações, religiosas e casadas, que
em Deus e a qualidade do governo. Além têm alta autoestima, ética de trabalho, aspi-
disso, há uma ligação entre o nível de feli- rações modestas, são de ambos os sexos e de
cidade e o de igualdade (Layard, 2005). O uma ampla variedade de inteligência" (Wil-
divórcio é negativamente correlacionado à son, 1967, apud Helliwell, 2003, p.333).
felicidade, enquanto o casamento, a edu- Ao se analisar a diferença entre países, o
cação, a boa saúde e a religião são relacio- que afeta a felicidade em um país não neces-
nados positivamente à felicidade (Argyle, sariamente tem relação com os fatores que
1999; Clark e Oswald, 2002; Diener et agem em outro. Uma análise sugere, por
al, 1999; Frey e Stutzer, 2002a). Outra aná- exemplo, que o ambiente econômico, o fim
lise mostra que há evidências de uma corre- do comunismo, o número de cadeiras no
lação entre proveito, felicidade e a boa vida, parlamento, estabilidade política e morta-
uma vez que existem "indícios de ligações lidade infantil impactam no nível de satis-
entre satisfação de vida e renda, participação fação. Pesquisas mostraram também que,

80 81
FELICIDADE
BENT GREVE

como indicado anteriormente, a vida fami- A verdade é que felicidade pode ser
liar é importante. encontrada em vários níveis e tem diferentes
Ainda que não seja possível inferir com relações e impactos. Três níveis diferentes
suficiente precisão, a partir das pesquisas, podem ser definidos (Nettle, 2005, p.18):
que a vida familiar representa a maior con-
tribuição para uma maior felicidade, em 44 1. Felicidade instantânea;

países analisados as pessoas casadas vivem 2. Avaliação da felicidade (satisfação, bem-estar);

em média três anos a mais e têm melhor 3. Qualidade de vida (atingir objetivos de vida, pagar

saúde física e mental do que pessoas não despesas etc.).

casadas. O foco aqui será basicamente na


direção e na consistência, mais do que no Essa classificação pode ajudar a expli-
tamanho real da direção, já que a incer- car a felicidade de alguém que viveu uma
teza quanto a isso é grande. Correlação, em mudança passageira de bem-estar no pri-
outras palavras, é um indicador com o qual meiro nível. Pode ter sido apenas um breve
se avalia a situação, uma espécie de bússola, momento de felicidade, obtido, por exem-
mas que não é capaz de descrever a veloci- plo, ao encontrar um cheque de SOO euros
dade ou os meios de transporte para se pas- na rua ou ao ganhar na loteria. Mas é outra
sar de uma situação para outra melhor. Além questão saber se, segundo esse exemplo,
disso, não é certeza que todas as pessoas seria possível concluir que seria bom para
necessitam se mover na mesma direção, a sociedade ter mais ganhadores assim. O
já que um indivíduo pode ter e tem prefe- segundo nível é mais emotivo e baseado em
rências diferentes, mesmo que a média da uma avaliação geral da situação, enquanto
sociedade possa se tornar mais feliz ao se o terceiro nível está mais profundamente
mover em determinada direção. Não está enraizado.
incluída nesta análise uma discussão sobre No terceiro nível, as aspirações e os dese-
impacto relativo, e sobre se iniciativas só jos individuais são substancialmente reali-
podem ser adotadas se satisfizerem o clás- zados. Assim, o nível em que o indivíduo
sico critério de Pareto. está, ao ser perguntado sobre sua felicidade,

82 83
BENT GREVE FELICIDADE

afeta a resposta, mas isso também pode Podemos medir felicidade?


valer para vários outros estudos. Ao mesmo
tempo, uma série de momentos de sucesso Fundamental, certamente, é definir se
imediato contribuirá, presume-se, para uma é possível medir a felicidade. Seria possí-
avaliação mais positiva do nível de felici- vel descobrir que a alegação de que eu e
dade geral. você somos felizes, com base unicamente
Questões relacionadas à adaptação e seu em nossa avaliação subjetiva, é necessaria-
impacto na felicidade também serão incluí- mente uma expressão da verdade?
das nessa apresentação. Um problema das enquetes, e também
O foco será especialmente nos Esta- das pesquisas como aquelas usadas para
dos Unidos e na Europa tomados como estudar a felicidade, é que as respostas
uma entidade. Para a Europa, o European podem ser influenciadas por fatores con-
Social Survey será usado basicamente para textuais, como o sol estar brilhando no
apresentar dados sobre a felicidade e seu dia em que nos fizeram a pergunta ou ter-
desenvolvimento, e também serão fei- mos acabado de ganhar 100 euros. A ques-
tas referências à pesquisa mundial. Para tão é, portanto, definir se é possível medir
os Estados Unidos, a principal base de a felicidade e o que se pode concluir a par-
dados usada foi o General Social Survey, já tir dessas respostas. Claramente, a medição
que também inclui dados sobre felicidade, é uma abordagem que se baseia nas pre-
embora com menos detalhes (muito feliz, ferências expressadas em vez de nas prefe-
feliz e não muito feliz) do que a pesquisa rências reveladas pelo comportamento real
europeia (na próxima seção). Para informa- (Graham, 2009). Isso também destaca a
ções sobre o European Social Survey, veja o necessidade de se estar atento ao fato de que
Apêndice ao fim deste capítulo. Os dados e até comportamentos reais - por exemplo,
a relação com questões sociais foram esco- fazer compras -podem ser manipulados, e,
lhidos com base no conhecimento de onde portanto, mesmo que revelem preferências,
pode haver impacto - e, ao mesmo tempo, podem, mais tarde, ser entendidos ou redu-
influência- na vida dos indivíduos. zidos a um sentimento negativo, visto que o

84 85
BENT GREVE FELICIDADE

dinheiro que estava sendo gasto poderia ter de felicidade , o que também ajuda a expli-
sido mais bem usado para pagar uma conta. car por que é possível, por exemplo, anali-
A maioria das medições de felicidade é sar e discutir o Paradoxo de Easterlin. Nos
realizada simplesmente perguntando-se a Estados Unidos, existe até conhecimento
cada pessoa como ela se sente em relação à cumulativo sobre o período de 1972 a 2006.
felicidade. O processo consiste em pergun- A medição da felicidade costuma se
tar como as pessoas se sentem ao levar todos basear na seguinte pergunta: "Quão feliz
os aspectos da vida em consideração. Em você está?" . A escala vai de O a 10, em que
uma base mundial, é possível obter infor- O é extremamente infeliz e 10 é extrema-
mações pelo World Values Survey (http:/I mente feliz. A escala a seguir é a que cos-
www.worldvaluessurvey.org), e também há tuma ser apresentada aos participantes da
um site com informações sobre a felicidade pesquisa europeia:
no mundo. Os estudos europeus apresen-
Cartão 18
tados no European Social Survey também Extremamente feliz
Extremamente infeliz
são úteis para avaliar o progresso da feli- o 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
cidade, em anos pontuais ou ao longo do
tempo, e na Europa em geral ou em paí- No entanto, é possível medir a felicidade,
ses individualmente. Hoje, estão disponi- como descrito acima, pedindo às pessoas
bilizados estudos de 2002, 2004, 2006 e que deem uma nota para o seu nível de feli-
2008. Em particular, os dados do European cidade? Essa abordagem atraiu muitas críti-
Social Survey serão utilizados para ilustrar cas, que apontam para diferentes aspectos.
relações entre felicidade e outros aspectos O primeiro problema é se é possível ou
da vida, com base nas médias de todos os não julgar quanto se está feliz utilizando
europeus que participaram dos estudos. uma escala. Um indivíduo pode definir seu
Assim, quanto às diferenças entre países, nível de felicidade? Estudos sugerem que
a análise fornecerá apenas um olhar limi- existe, de fato, uma relação entre as respos-
tado. Nos Estados Unidos, o General Social tas que os participantes oferecem quando,
Survey tem há muitos anos medido o nível ao mesmo tempo, o pesquisador observa

86 87
BENT GREVE
FELICIDADE

quão felizes eles são. Assim, é possível usar impactam países isolados, como um súbito
esse tipo de estudo e questões para com- aumento da renda, distúrbios políticos no
parar e agregar a felicidade de cada pessoa passado do Leste europeu etc. Culturas
(Frey e Stutzer, 2002a). Da mesma forma, diferentes podem não ter percepções simi-
não é difícil solicitar a percepção subjetiva lares sobre o que é felicidade. Entretanto,
das pessoas em relação a seu nível de satis- . quando observamos as respostas das pes-
I
fação, felicidade ou opinião sobre outros soas, este é um problema menor, também
aspectos. Sempre haverá alguma incerteza devido mais ao enfoque na felicidade dos
associada à realização desse tipo de análise, indivíduos do que se são felizes da mesma
que depende dos pontos de vista subjetivos forma que outros.
de cada indivíduo, mas isso não altera o qua- De modo geral, não há indicação de que
dro geral desses estudos e pesquisas, que o problema seja grande, além de que deve
fornecem uma avaliação de como os indiví- ser metodologicamente mais difícil medir
duos se sentem. A validade da maioria dos a felicidade do que as respostas em outros
estudos sobre satisfação e felicidade é, por- tipos de pesquisa e do que analisar outras
tanto, geralmente alta (Hoorn, 2008). mudanças sociais e da própria sociedade.
Classificar é outro problema. Contesta-se Outro problema metodológico é que,
se isso é possível, especialmente na compa- quando as pessoas avaliam se são felizes
ração entre países, mas é o menor problema ou não, a resposta pode depender de uma
quando se usa o mesmo método para com- experiência positiva ou negativa que tenha
parar os países. Além disso, também se dis- acabado de ocorrer, ou mesmo se o sol está
cute a importância da classificação, visto que brilhando ou se está chovendo naquele dia.
existe uma distância relativa entre as dife- Um estudo mostrou que, se o entrevistador
rentes respostas. começar perguntando sobre o clima, ou se
Um terceiro problema é o risco de uma for afirmado que o clima está bom naquele
pergunta sobre a felicidade ser entendi- dia, isso pode afetar a percepção das pes-
da diferentemente em países distintos, soas sobre serem felizes ou não (Nettle,
e de poder haver fatores específicos que 2005). Isso leva a uma incerteza a respeito
88
89
BENT GREVE FELICIDADE

do resultado. Talvez se deva também incluir conjunto, formam um padrão coerente de


uma pergunta sobre com que frequência conhecimento sobre o que afeta a felicidade
esses indivíduos experimentaram situações da sociedade e de cada pessoa.
positivas e/ ou emoções negativas (Prycker, A análise, no decorrer deste livro, bus-
2010). No entanto, isso não altera o fato de cará de forma particularmente crítica a exis-
que, ao conduzir um estudo sob condições tência, ou não, de uma correlação entre
uniformes, as pessoas, no final, fornecem a medição da felicidade e alguns fatores.
uma imagem do que é a percepção subje- Metodologicamente, é difícil estabelecer
tiva de felicidade. relações causais, pois a felicidade pode ser
Análises sobre a possibilidade de estudos influenciada por muitos e variados fatores,
mostrarem uma correlação entre a opinião especialmente quando se analisam tendên-
real de indivíduos e seus níveis de satisfa- cias ao longo do tempo. Particularmente
ção mostram que é provável que exista um em relação à medição e à evolução da feli-
alto grau de fidedignidade, mesmo quando cidade ao longo do tempo, uma das críti-
se observam expressões faciais, quando se cas é que se trata de uma escala absoluta
mede a atividade cerebral etc. (Kacapyr, Oohns e Ormerod, 2007) . Estes argumen-
2008). Assim, números obtidos em diver- tam que alcançamos um nível tão elevado,
sos tipos de investigações também podem que seria difícil atingir níveis ainda maiores,
ser usados como indicadores do desenvol- já que fica cada vez pior, e isso pode resul-
vimento geral de uma sociedade, em uma tar em uma avaliação mais negativa da felici-
direção ou em outra. dade geral de uma comunidade. É certo que
Isso significa que números e medidas a utilização de uma escala absoluta limita
para o sucesso devem ser interpretados o nível que uma média pode alcançar, mas
com cautela. Ainda, medições da felicidade haverá formas de contornar esse problema.
podem ter tornado possível, em um nível Um meio seria atribuir valor extra ao fato de
mais elevado do que antes, analisar as ava- que alguns indivíduos estão no ponto mais
liações individuais de suas situações de vida alto da escala, e, assim, torna-se um objetivo
e, por fim, também fazer medições que, em específico que várias pessoas alcancem e/ou

90 91
FELICIDADE
BENT GREVE

mantenham os maiores níveis de felicidade podem ser comparados em termos de deci-


para que, em seguida, respondam que são béis" (Layard, 2003).
extremamente felizes. Daí, examinar a ten- Pode haver muitos e variados tipos de cál-
dência ao longo do tempo para as mesmas culos da correlação entre felicidade, condi-
• pessoas - e, portanto, não apenas obter ções sociais e os fatores que particularmente
dados com base em um momento específico, afetam o nível de felicidade de uma socie-
mas também avaliar tendências ao longo do dade. A próxima seção apresentará alguns
tempo para um grupo de pessoas - forne- exemplos empíricos das possíveis relações
cerá informações sobre padrões e evoluções. entre aspectos centrais da vida social e a feli-
Ao mesmo tempo, análises sugerem que cidade, já que são importantes para enten-
a maioria das pessoas, ao responder à per- der a relação entre felicidade e áreas centrais
gunta, dará uma resposta que se relaciona da política do bem-estar social.
não a curto prazo, mas a uma avaliação a
longo prazo de como sua vida é (Layard,
2005) . As pessoas são, então, capazes tam- Felicidade: alguns exemplos empíricos
bém de reconhecer que a vida tem altos
e baixos. Pode-se, portanto, entender a Ficamos muito felizes ao fazer sexo, ao
medição da felicidade como complementar socializar depois do trabalho, ao jantar ou
a atividades, particularmente em relação a relaxar, e menos felizes ao nos locomo-
avaliações de bem-estar em uma sociedade. ver de casa para o trabalho ou ao trabalhar,
Além disso, "avaliações de felicidade são como demonstrou um estudo feito com mil
sujeitas a caprichos e volubilidade. Por mulheres trabalhadoras do Texas (citado
outro lado, também o são todas as coisas em Layard, 2003). Os mesmos dados foram
interessantes que se quer medir" (Nettle, obtidos em estudos da OCDE (2009). O
2005, p.68). Outra forma de descrever isso estudo texano baseou-se em uma tentativa
é dizer que "felicidade é como um ruído. de explicar a flutuação de humor dos indi-
O caráter de um ruído varia muito, de um víduos. A foco aqui será mais na aborda-
trombone a um miado. Mas todos os ruídos gem geral do nível de felicidade, incluindo

92 93
FELICIDADE
BENT GREVE

8,5
alguns aspectos relacionados ao desenvol- Dinamarca
vimento ao longo do tempo. 8,0 Fo () ~0.'~>
Jnfândia. ~~Canadá
Allstr 'I' O () Suíça
Nesta seção, portanto, serão apresenta- "'7,5 Nova Zelândia () a la, (?>h". <5 o,
Bélo ,v ,o~ Estados ) Noruega
-o
o> Espan h a vA.gica S\}e Unidos
dos alguns dados sobre felicidade . Serão v 7,0 México França 0 ~

Austria Luxemburgo
-o <) Islândia ~ <>
trazidos muitos exemplos da relação entre o República Tcheca ()O Alemanha Grã-Bretanha
'e-6, 5 O () Japão (Reino Unido,
~
felicidade e outros fatores. Outros exem- <I)
op Grécia UK)
~ 6,0 Polônia/c O Irlanda
plos serão dados no Capítulo 4. Um aspecto <> Coreia do Su1
~ () Organização para
a Cooperação e
difícil de medir é se são os elementos ] 5, 5 o oO Portugal Desenvolvimento
z Hu?gr~a--9 Itália
Econômico (OCDE 30)
intrínsecos, como relações sociais e desen- 5,0 EslovaqUia
Turquia
()
/ ;-
volvimento pessoal, ou os extrínsecos, como 4, 5
riqueza, posição social etc., aqueles que 4,0+---,------r- ---r---,..-----r-----,
possuem uma função (Ng, 2002)- e, além o 100000 200000 30o000 400000 500000 600000
Renda líquida nacional per capita, em paridades em dólar
disso, são importantes por poderem refletir de poder de compra

o passado, o presente e o futuro. Entretanto, Figura 301 Renda e satisfação de vida em determinados
aproveitar e observar elementos como rela- países, 2006
Fonte: OCDE (2009) , que se baseou em World Happiness Data-
cionamento com outras pessoas nos informa base, 2006, e PIB per capita, 20060
sobre aspectos intrínsecos e sobre os tipos
de diferença que isso pode determinar. alto de satisfação de vida, embora, como
Uma questão central na análise da felici- sempre, existam exceções. Itália e Luxem-
dade foi a relação entre renda e felicidade . burgo têm um nível mais baixo de felici-
Na Figura 3.1 é mostrada a posição de deter- dade do que os dados teriam que indicar; e
minados países no que se refere a renda e a Dinamarca, um nível mais alto.
nível de felicidade. A Tabela 3.1 mostra, entre os países da
A Figura 3.1 é uma indicação clara da União Europeia (participantes do European
relação entre satisfação de vida e renda. De Social Survey), o nível médio de felicidade
modo geral, a satisfação de vida é relacio- e sua evolução desde 2002, quando a pes-
nada positivamente com a renda, de forma quisa começou, incluindo ainda as quatro
que uma renda maior implica um nível mais rodadas de pesquisa até então.

94 95
BENT GREVE
FELICIDADE

Tabela 3.1
A Tabela 3.2 mostra a relação entre feli-
2008
Felicidade média 7,2
cidade e a percepção subjetiva de cada pes-
Fonte: European Social Survey, rodadas 1-4 (http://nesstar.ess. soa sobre sua própria saúde, já que estudos
nsd.uib.no/ webview/).
Nota: A média é calculada usando-se Opara extremamente infe- demonstraram que parece existir uma rela-
liz e 10 para extremamente feliz. Existe uma ligeira diferença no ção entre saúde e felicidade.
número de países envolvidos (foi aumentando, até chegar a 31
países na rodada de 2008) .

Tabela 3.2 Felicidade e avaliação subjetiva da saúde, 2008


A Tabela 3.1 mostra que, em geral, o nível Nível da avaliação subjetiva Nível médio
de felicidade na Europa é alto e relativamente sobre a saúde de felicidade
Muito bom 7,9
estável. A queda sutil pode ser explicada pelo
Bom 7,2
fato de que muitos dos novos países pes- Normal 6.4
quisados são de regiões menos afluentes, Ruim 5.4
Muito ruim 4.4
com um nível mais baixo de felicidade. O Todos os entrevistados 6,9
World Database on Happiness mostra que, Fonte: European Social Survey, 2008 (http:/ / nesstar.ess.nsd.uib.
no/webview/) e cálculos próprios (ver Tabela 3.1).
de 1945 a 2005, houve um aumento sutil no
nível de felicidade, apesar de esse período
ter sido de aumento da riqueza e da renda. A Tabela 3.2 é uma indicação clara de que
Os dados para os Estados Unidos e a Europa ao menos a avaliação subjetiva da saúde tem
são parte do motivo para se afirmar que não um impacto significativo no nível de felici-
existe relação clara entre renda e felicidade. dade, de forma que quem considera ter um
Uma análise do período entre 1995 e 2007 nível muito ruim de saúde tem também
mostrou, entretanto, uma relação com o PIB um nível de felicidade significativamente
(cinco anos antes da pesquisa) , com países menor. Isso implica, como discutido no
da América Latina acima da média e paí- Capítulo 4, que aumentar e melhorar o nível
ses ex-comunistas abaixo da média, e com de saúde pode ser um aspecto importante
a maioria dos países da OCDE que estão na para aumentar o nível de felicidade de uma
média com uma relação estável entre renda sociedade. Apesar de ser subjetivo, existe
e felicidade (Inglehart et al., 2008). uma ênfase clara de que é importante ter
96 97
BENT GREVE FELICIDADE

boa saúde. Se isso também implica a neces- 8,5

sidade de uma política para igualar a felici- 8,0 <>Dinamarca


Finlândia Noruega
dade, já é outra questão. <> Bélgica ;-<;
Suíça Suécia
~ 7,5 0
A Figura 3.2 mostra como desigualdade ·:;: Holanda ~ /~ Estados Unidos

e felicidade podem estar relacionadas, pois


67,o Canadá França t
Grã-Bretanha
<>Espanha

o
u
.~ 6,5
(Reino Unido, UK) JfJ ') México
_"-
apresenta uma clara relação entre o nível Alemanha
Japao '-
<> República Tcheca
~ Organização para Irlanda <>
de desigualdade e o de satisfação com a -~ 6,0 a Cooperação e • . <>
(J) Desenvolvimento Poloma
vida, indicando que os níveis de desigual- ~ 5,5 Económico (OCDE 20) Portugal <>

dade têm impacto no nível de felicidade de ] Hungria <>


z 5,0
uma sociedade. Os dados na figura estão
4,5
alinhados com os de outros estudos nos
4,0
quais se concluiu que a desigualdade tem 1,0 1,5 2,0 2,5
Desigualdade - desvio padrão
um impacto negativo na felicidade (Schim-
Figura3.2 A relação entre satisfação com a vida e desi-
mel, 2007). No European Social Survey, há
gualdade
também uma relação positiva entre felici- Fonte: OCDE, 2009.
dade e a opinião de que devem ser peque-
nas as diferenças em padrões de vida. Esse
também é um tópico ao qual retornaremos
no Capítulo 4.
A Figura 3.3 mostra a relação entre feli-
7
~I ' '
~.-,
"
..
~ 6
cidade e confiança nos políticos na Europa. ~ 5
;g 4
Pessoas que confiam nos políticos são, na ~ 3
2
maioria dos casos, mais felizes do que as
outras. Isso confirma a expectativa de que a 1 I' I ''" li I I I I , kl, H ,li , li , 1-1, 1 I, I I,
o '
2• 3' 4' 5 6 7 8 9 Total
confiança nos outros, incluindo no sistema Nenhuma confiança Total confiança

político, aumenta o nível de felicidade. Uma Figura 3.3


Confiança em políticos e nível médio de felici-
sociedade que confia, portanto, parece ser dade em 2008
Fonte: Baseado no European Social Survey (http://nesstar.ess.
uma sociedade feliz. nsd.uib.no/ webview/ ) e cálculos próprios.

98 99
BENT G RE VE FELICIDADE

A confiança é um fator relacionado não envolvimento social ou trabalho voluntário.


apenas ao sistema político, mas também a Aqueles que nos últimos doze meses traba-
outras pessoas, de maneira geral. A Tabela lharam em organizações voluntárias são sig-
3.3 mostra a relação, nos Estados Unidos, nificativamente mais felizes do que aqueles
entre a possibilidade de se confiar nas pes- que não o fizeram.
soas e o nível de felicidade. Sentir-se seguro ao andar em uma vizi-
nhança depois de escurecer também tem um
Tabela 3.3 A relação entre confiança e felicidade nos Esta- impacto visível no nível de felicidade, como
dos Unidos
mostra a Figura 3.4.
Confiança (%)
Felicidade geral Pode Não pode Depende Sentir-se inseguro em sua própria região,
confiar confiar então, tem um impacto claro e negativo
Muito feliz 45,7 49,9 4,4
Feliz 38,5 56,7 4,8
no nível de felicidade. Além disso, como
Não muito feliz 22,5 73,4 4,1 será discutido no Capítulo 4, políticas que
Todos os entrevistados 38,8 56,6 4,6 aumentam a sensação de segurança podem
Fonte: General Social Surveys, 1972-2006, arquivo cumulativo.
Nota: A tabela é baseada em 31.745 respostas.
8

A Tabela 3.3 é também mais um indica- 7

tivo da relação em perspectiva a longo prazo 6

entre confiança e felicidade. Nos Estados


-g"' 5
Unidos, entre os que não são muito felizes, :g 4
~
cerca de três entre quatro pessoas acreditam IJ.. 3
que não podem confiar em outras pessoas, 2
enquanto aqueles que são felizes demons-
tram um equilíbrio maior entre confiança 0+------r------.-----.------r----~

e não confiança. O fato de que as pessoas Muito Seguro Inseguro Muito Total
seguro inseguro
que têm confiança em maior escala são
Figura 3.4 Felicidade e sensação de segurança em 2008
mais felizes que outras é parecido com o Fonte: Baseado no European Social Survey (http:// nesstar.ess.
que acontece na relação entre felicidade e nsd.uib.no/ webview/) e cálculos próprios.

100 101
BENT GREVE
fELICIDADE

aumentar a felicidade. Isso se dá apesar do


Uma possível razão para essa relação ser
fato de que talvez, por exemplo, um maior menos clara talvez seja que, em alguns paí-
número de policiais na rua não aumentará ses, um número maior de horas de trabalho
a capacidade de solucionar a criminalidade, é importante para assegurar um padrão de
mas o aumento na sensação de segurança vida "decente". Além disso, os países têm
pode ser um importante elemento para estruturas institucionais diferentes para o
melhorar o nível de felicidade (Frey, Leu- mercado de trabalho e contratos de trabalho
chinger e Stutzer, 2007). distintos. Também há diferenças nas estru-
Aqueles que nunca ficaram desemprega- turas e tradições familiares, com alguns
dos também são, de modo geral, mais felizes países sendo mais orientados ao ganha-
do que aqueles que já estiveram desempre- -pão masculino, enquanto, por exemplo,
gados e aqueles que estão ativamente pro- em países nórdicos, o modelo familiar é o
curando um emprego. Isso indica que ter do ganha-pão mais dividido.
um trabalho é um aspecto importante para
indivíduos e também para sociedades. Pode 9
ser importante ter muitas horas de trabalho, 8
embora isso nem sempre aconteça, como 7

demonstra a Figura 3.5. 6


~
A Figura 3.5 não apresenta uma única e .fl 5
·o
clara resposta para a pergunta sobre quantas ~ 4
3
horas uma pessoa deseja trabalhar, embora
2
pareça trazer uma sutil indicação de que é
bom ter um trabalho, mas não de muitas
o
horas. A variação também mostra implici- 20303234353637383940414243444546474850
Horas trabalhadas por semana
tamente - sendo os empregos de 4 7 horas Figura 3.5 Número de horas trabalhadas e felicidade na
por semana uma exceção- que uma quanti- Europa
dade menor de horas tem impacto positivo. Fonte: Baseado no European Social Survey (http:// nesstar.ess.
nsd.uib.no/ webview/) e cálculos próprios.

102
103
BENT GREVE FELIC I DADE

Em geral, um nível maior de educação no entanto, pelo fato de que alguns países
implicará um nível maior de felicidade. estão em transição, e mudanças, especial-
Entretanto, isso pode não valer para todos mente as inesperadas, geralmente têm um
os países, como demonstram os dados impacto negativo no nível de felicidade.
norte-americanos, nos quais as pessoas com
diploma universitário ou educação superior, 9,0
8,0
ou que entraram na faculdade mas não têm
7,0
um diploma, têm um nível menor de felici- 6,0
dade e, ao mesmo tempo, aquelas que com- <lJ
11 5,0
-a
pletaram a educação elementar compulsória :g 4,0
QJ
t.L. 3,0
têm um nível maior de felicidade do que as
2,0
com Ensino Médio incompleto (Value Sur- 1,0
veys Databank). Isso parece indicar que o 0,0 111,1 1,1 1,11,1 1,11,11,11,11,11,11,11,11,11,1 1,1 1,1 1,11,11,11,11,11,11,11,11,1 1,11,11,
.,c.,"'~'"''{!t 'I,'""' <.(.,"' ::s-"' ~(( é"' i..'"' .i:-'"' lt ~ ;,'"' . ~~ ,$-"'.J-"'
importante não é o nível educacional em <ç'V-"'d~o,; c," «,O' ,f>"' "Ç.'i>'. -«5 0<: •.,_.::,~""',}·~o<."' 0<."" «."'"~o"'-\.$-~6
~ • c.,'bo
..;:;.."<
r.,,<:>
v
<;;; y "> ~ <v"
si, mas também a capacidade de usufruí-lo. ~v
«;-'I,Ç.
Contudo, nos Estados Unidos, os membros
Figura 3.6 Nível médio de felicidade em 2008
da classe média alta são claramente mais Fonte: European Social Survey, 4• rodada, 2008 (http:/ / nesstar.
felizes do que os da classe média baixa e os ess.nsd.uib.no/ webview/) e cálculos próprios.

da classe trabalhadora.
A Figura 3.6 mostra uma comparação Em 2008, havia uma relação positiva, e
entre o nível de felicidade médio em dife- significativa, entre o nível de felicidade e a
rentes países em 2008. Apresenta uma di- frequência com que o indivíduo se encon-
ferença clara, com a Dinamarca tendo o nível tra com amigos, parentes e colegas; e uma
mais alto, e a Bulgária e a Ucrânia, o mais
.
I
I
relação negativa, e significativa, se a pessoa
baixo. A figura, assim, confirma o senso I. não tem ninguém com quem discutir assun-
comum de que nações mais ricas possuem tos íntimos e pessoais. Isso é mostrado na
maior nível de felicidade do que as mais Figura 3. 7, que traz a relação entre relações
pobres. O quadro pode ser influenciado, sociais e felicidade.
104 105
8ENT GREVE
FELICIDADE

8,0
informação, muito embora as questões fos-
7.0, ~7.3 7,4
Q)
6,0 sem sobre a importância da família em suas
] 5,o I 5,1
:g 4,0 vidas. Aqueles que consideram a família
~ 3,0 menos importante também eram menos feli-
2,0
1,0 zes (World Values Surveys Databank, http:/I
0,0
Nunca Menos de Uma Várias Uma Várias Todo
www. worldvaluessurvey.orgl).
uma vez vez por vezes
por mês mês por mês
vez por vezes por
semana semana
dia
Pesquisas sobre a felicidade também
Figura 3.7 Relações sociais e felicidade na Europa, 2008
podem ser usadas como uma forma de ten-
Fonte: European Social Survey (http:/ / nesstar.ess.nsd.uib.no/ tar medir outros tipos de desenvolvimento
webview/).
social. Isso foi feito, por exemplo, na inter-
pretação de que o fato de pessoas negras
nos Estados Unidos parecerem menos feli-
A Figura 3. 7 demonstra uma relação clara zes do queas brancas é uma indicação da
e muito precisa entre o nível de felicidade existência de discriminação (Blanchflower
médio e os encontros com amigos, parentes e Oswald, 2002).
e colegas. Aqueles que nunca se encontram
com ninguém são claramente menos felizes
do que aqueles que têm contato frequente Em síntese
com outras pessoas. As diferenças são menos
claras, entretanto, ao se atingir um mínimo Somos capazes de medir a felicidade.
de várias vezes no decorrer do mês. Esse Apesar de que existem e existirão proble-
dado é confirmado em outros estudos em mas metodológicos quando se tenta estudar
que o capital social é considerado impor- o nível de felicidade das pessoas, essas difi-
tante para a felicidade (Leung et al., 2010), culdades não são maiores do que as enfren-
o que também pode ser explicado pelo fato tadas em outros tipos de coleta de dados e
de que a soma de um grupo é maior do que análises que tentam retratar situações indi-
os indivíduos (Haidt et al., 2008). Dados viduais . A capacidade de precisão pode, na
norte-americanos também confirmam essa verdade, ser maior do que em entrevistas
106
107
8ENT GREVE FELICIDADE

qualitativas, embora estas forneçam outros uma relação entre vários aspectos importan-
tipos de informação. tes da vida cotidiana dos indivíduos e o nível
Uma questão central não resolvida é a de felicidade. Isso se verifica entre desigual-
atuação da causalidade. Isso acontece, por dade e satisfação com a vida, confiança em
exemplo, quanto se tenta definir se as pes- outras pessoas, relações sociais e, como
soas mais felizes são mais saudáveis ou se mencionado acima, a renda, de forma geral.
pessoas saudáveis é que são mais felizes. O nível educacional também tem impacto
Isso ainda é impossível de deduzir. A rela- na maioria dos casos, assim como também
ção está aberta a discussão. No entanto, ter um emprego ou estar desempregado.
outros estudos parecem indicar (ver também A questão central será, então, se o conhe-
o Capítulo 4) que as pessoas felizes vivem cimento sobre os níveis de felicidade pode
mais e por isso, também, implicitamente, ou terá influência no nosso entendimento-
têm melhores condições de saúde. Apesar e necessidade - de mudanças na legislação.
da causalidade nem sempre ser clara e pre- Essa será a questão central do Capítulo 4.
cisa, podemos usar os dados sobre felicidade
para ter uma indicação do porquê de as pes-
soas serem felizes ou, talvez, de não o serem. Apêndice: informações sobre o
Assim, como demonstrado neste capí- European Social Survey (http://ess.nsd.
tulo, um nível maior de renda, ao menos até uib.no/index.html)
certo patamar, melhorará o nível de felici-
dade, o que se observa na comparação entre O European Social Survey (ESS) é uma
países. Dentro dos países, também pode pesquisa bienal realizada em trinta países. A
haver uma relação com a renda de outras primeira rodada aconteceu em 2002/ 2003,
pessoas, implicando que importam não ape- e a quarta, em 2008/ 2009, vindo daí o uso
nas as mudanças na renda do indivíduo, mas de 2002, 2004, 2006 e 2008 na apresenta-
também sua posição relativa. ção de dados.
Os dados e números apresentados neste O questionário utilizado incluiu duas
capítulo também nos informam que existe seções principais, cada uma consistindo de

108 109
BENT GREVE FELICIDADE

aproximadamente 120 itens. Há um módulo leste e o oeste europeus. Portanto, os dados


"central", que se mantém relativamente médios, conforme usados neste livro - tam-
constante em todas as rodadas, com dois bém devido ao grande número de respon-
ou mais módulos "rotativas", repetidos de dentes -, implicam um bom conhecimento
tempos em tempos. O módulo central busca da situação média da Europa. Estudos nacio-
monitorar mudanças e continuidades em nais mais detalhados são necessários caso se
diversas variáveis sociais: confiança social queira verificar situações e evoluções nacio-
e pública; interesse e participação na polí- nais (ver, por exemplo, Greve, 2010).
tica; orientação sociopolítica; governança e
eficácia; valores morais, políticos e sociais;
exclusão social, nacional, étnica e afiliações
religiosas; bem-estar; saúde e segurança;
valores humanos; demografia; e socioeco-
nomia. As mudanças em módulos implicam
que não é possível analisar e combinar a feli-
cidade com todos os parâmetros em todos
os anos, e que cada turno costuma ter um
ou dois módulos especiais que dificultam
ainda mais as comparações.
A quarta rodada realizou-se nos seguintes
países: Alemanha, Bélgica, Bulgária, Croá-
cia, Chipre, Dinamarca, Eslováquia, Eslo-
vênia, Espanha, Estônia, Finlândia, França,
Grécia, Holanda, Hungria, Israel, Letô-
nia, Noruega, Polônia, Portugal, República
Tcheca, Romênia, Rússia, Suécia, Suíça,
Turquia, Ucrânia e Reino Unido. Essa lista
de países cobre o norte, o sul, o centro, o

110 111
4

FELICIDADE E POLÍTICAS PÚBLICAS:


ALGUMA LIGAÇÃO?

Introdução .

Não é novidade que a felicidade está rela-


cionada com as políticas públicas. Isso foi
formulado, por exemplo, no relatório de
Beveridge de 1942, que lidou com o que
deveria ser feito com as políticas públicas
do Reino Unido depois da Segunda Guerra
Mundial. No relatório, estava descrito da
seguinte forma: "O objetivo de governar
em tempos de paz e de guerra não é a gló-
ria de governantes ou de raças, mas a feli-
cidade dos homens comuns". O Butão quer
combinar intervenção com uma sociedade
feliz. O presidente da França Sarkozy pediu
BENT GREVE FELICIDADE

a estudiosos que escrevessem sobre felici- por outras pessoas, e, com isso, aumentar
dade; e o primeiro-ministro do Reino Unido, o impacto e o possível uso de intervenção
David Cameron, apenas para mencionar um pública (Layard, 2008). Todos os elementos,
exemplo, também quer encontrar maneiras em graus variados, implicam que a inter-
além do PIB e do crescimento econômico venção pública possa ser capaz de aumentar
para compreender o desenvolvimento social. o nível de felicidade da sociedade, embora
Isso indica a necessidade de se saber mais uma análise aponte para o fato de que os
sobre a existência de uma relação entre polí- gastos do governo não têm impacto signi-
ticas públicas e felicidade, e como ela pode ficativo na satisfação com a vida (Bj0rnskov
ser interpretada. et al., 2007a). Parece existir, pelo menos
Em geral, a literatura sobre felicidade nos Estados Unidos, uma correlação nega-
concorda que fatores como saúde, idade e tiva entre etnia e felicidade. "Negros conti-
estado civil estão fortemente relacionados nuam consideravelmente menos satisfeitos
com o nível de felicidade, enquanto a renda com suas vidas do que brancos, embora a
tem um impacto de menor escala, embora diferença tenha diminuído mais da metade
nações mais ricas pareçam mais felizes do nos últimos trinta anos e pareça diminuir
que países pobres, ao menos até certo nível com a idade" (Bok, 2010, p.16).
(o Paradoxo de Easterlin) (Argyle, 1999; A relação entre idade e felicidade tem
Diener et al., 1999; Fischer, 2009; Frey e forma deU (Helliwell, 2003; Oswald, 1997;
Stutzer, 2002a; Leung et al., 2010; Tella Peiro, 2006), e parte do motivo para isso
et al., 2003; ver também os dados forne- tem ligação com a adaptação de estilos de
cidos pelo Capítulo 3) . Nos Estados Uni- vida e o fato de que o passado, olhado em
dos, a relação com a idade parece ser menos retrospectiva, frequentemente parece um
pronunciada do que na Europa. Socieda- período feliz, embora um estudo recente
des mais igualitárias também tendem a ser (Fischer, 2009) indique variações nesse
mais felizes, embora possa haver diferen- padrão. Idade e felicidade são exemplos de
ças entre países. Os níveis individuais de como a relação entre variáveis pode mudar
felicidade também podem ser influenciados entre cada país, já que a felicidade também é

114 115
BENT GREVE FELICIDADE

influenciada por outros fatores contextuais. mas em muitos países se questiona se essa
Pessoas mais jovens no Leste Europeu, é uma opção com a qual a política pública
por exemplo, estão muito mais satisfei- deve lidar (Clapham, 2010).
tas do que cidadãos mais velhos, o que é Um paradoxo claro que foi apontado é
o contrário do que ocorre em outros paí- que, às vezes, diz-se que o Estado de bem-
ses. Aparentemente, também é importante -estar social é responsável por, entre outras
compreender a diferença do nível de felici- coisas, altas taxas de divórcio, estresse emo-
dade ao longo do ciclo de vida e como isso cional e culturas de dependência (Pacek e
impacta nas políticas públicas. Radcliff, 2008). O aumento de suicídios foi
Ter um emprego parece ser importante, apontado como um impacto negativo nas
mas ter tempo livre também. Nos Estados sociedades modernas e, portanto, como um
Unidos, por exemplo, atividades de lazer são obstáculo ao desenvolvimento de uma socie-
mais apreciadas do que o trabalho (OCDE, dade feliz. De que maneira, então, pode o
2009). Em alguns países, a religião tem Estado aumentar a felicidade por meio de
um papel importante, assim como o rela- intervenções se estamos testemunhando
cionamento com família e amigos. Uma estresse, ansiedade e pessoas desafortu-
boa saúde também parece ser importante. nadas (Rothstein, 2010)? Aparentemente,
Outros aspectos de política pública relacio- essa é a falácia do senso comum e a dife-
nados à felicidade são o modo de atuação rença entre desenvolvimento em micronível
do governo, o nível de corrupção e a efeti- e o aspecto macrossocial. Como os dados
vidade e a estabilidade do governo, isto é, apresentados no Capítulo 3 e na maioria
a confiança no sistema político e adminis- dos estudos apontam para um nível maior
trativo. Um baixo nível de corrupção com- de conforto devido ao Estado de bem-estar
binado a um amplo programa de bem-estar social, existe, provavelmente, espaço para
social podem, então, ter forte influência. intervenção social, embora seja preciso uma
Além disso, pode-se incluir o impacto do análise cuidadosa.
trabalho voluntário e da sociedade civil na Este capítulo discutirá uma variedade de
felicidade. Moradia pode ser importante, parâmetros e suas possíveis influências no

116 117
BENT GREVE FELICIDADE

nível de felicidade das nações, e também se 2010). Entretanto, neste e em outros aspec-
a felicidade pode ser usada como parâmetro tos, pode claramente existir um conflito
para decisões políticas nos Estados de bem- entre a felicidade como objetivo e outros
-estar social. Isso ocorre mesmo que exista objetivos da sociedade.
a possibilidade de a adaptação implicar que O foco deste capítulo será no que sabe-
políticos tenham de enfrentar uma rotina mos a respeito da relação entre aspectos
hedônica. Ademais, ainda há o fato de que, centrais das sociedades modernas e Esta-
se apenas uma renda maior não é mais capaz dos de bem-estar social, incluindo uma dis-
de aumentar o nível de felicidade, é preciso cussão sobre como podemos entender esse
buscar outras opções. Contudo, a passagem tipo de relação. Isso porque um desafio-
da pesquisa à prática pode ser muito difícil -chave para as políticas públicas é que a feli-
(Duncan, 2010). Apesar disso, ainda pode cidade das pessoas depende do que outras
ser positivo informar políticos sobre o que possuem, sendo, portanto, influenciada por
deixa as pessoas felizes ou, ao menos, mais decisões públicas (Layard, 2008).
felizes (Diener e Seligman, 2004). Os parâ- O Quadro 4.1 apresenta os principais
metros escolhidos refletem conceitos obti- argumentos a favor e contra intervenções
dos nos estudos e dados apresentados no políticas baseadas no uso do conceito de feli-
Capítulo 3. cidade. Esses diferentes argumentos podem
Um exemplo de instrumento político ser vistos como aspectos centrais da dificul-
que pode ser discutido é a arrecadação de dade de se usar a felicidade como parte de
taxas e impostos. A taxação dos mais ricos intervenções políticas que visam ao aumento
para aumentar o bem-estar dos pobres pode da felicidade. Assim, pode-se discutir se
ser vista como uma ideia baseada na teo- se deve ou não utilizar isso como parâmetro
ria moral de utilitarismo (Brülde e Bykvist, para políticas públicas, mas talvez seja certo
201 O; Layard, 2005), embora possa ser dizer que as políticas públicas "devem visar
usada como argumento para taxar os países ao aumento da felicidade ou do bem-estar
desenvolvidos a fim de transferir renda ao das pessoas, agora e no futuro" (Ng e Ho,
mundo em desenvolvimento (Cullis et ai. , 2006, p.l). Outra razão para se usar e medir

118 -,19
BENT GREVE FELICIDADE

a felicidade como um instrumento para o ao se fazer políticas, porque o desejo de


monitoramento da evolução dos Estados de aumentar a felicidade pode ocorrer à custa
bem-estar social é que essa medição não é de outros objetivos sociais. Ademais, como
elitista, já que se baseia na própria percep- indicado no Quadro 4.1, agora sabemos
ção e avaliação do indivíduo do que é uma muito sobre felicidade. Além disso, outros
boa vida (Rothstein, 2010, p.2). Rothstein tipos de indicadores usados ao definir polí-
aponta que nem todos os Estados de bem- ticas podem conter falhas.
-estar social que parecem ser capazes de Outra questão para os responsáveis por
fazê-lo produzem felicidade a seus cidadãos. políticas públicas será descobrir se é possí-
vel provar que felicidade tem um valor para
Quadro 4.1 Argumentos a favor e contra uma política de indivíduos e sociedades. Entretanto, como
felicidade
já observado, pode haver, por exemplo, uma
A favor Contra
• Conhecimento • A medição da felicidade é
relação entre saúde e felicidade, que será
suficiente sobre as suscetível a distorções explorada mais a fundo em "Felicidade e
condições de felicidade • Não há consenso sobre a
saúde" mais à frente neste capítulo. Uma
• A felicidade pode ser definição de felicidade
medida com bastante • Conhecimento insuficiente discussão sobre se existe ou não relação
exatidão sobre qual política com a renda será apresentada com detalhes
• A felicidade tem valor aumentaria a felicidade
para nós, como fim e • A promoção da felicidade em "Felicidade e renda", na próxima seção.
como instrumento pode ter efeitos negativos No entanto, parece claro que, ao menos no
• Já se provou que é para a sociedade e para os
possível aumentar a cidadãos
nível individual, para algumas pessoas, um
felicidade das nações aumento de renda pode ter impacto posi-
tivo em seus níveis de felicidade.
Muitos desses problemas foram discuti- Alguns dos principais argumentos con-
dos no Capítulo 1: por exemplo, se é possí- tra o uso da felicidade no desenvolvimento
vel medir felicidade e as armadilhas desse de políticas se relacionam com o fato de
tipo de medição, incluindo o "efeito teta". que a felicidade é um sentimento subje-
Naturalmente, pode haver freios e contra- tivo e que, consequentemente, não há con-
pesos sobre como incluir e usar a felicidade senso sobre sua definição. Ademais, como

120 121
BENT GREVE FELICIDADE

está relacionada ao indivíduo, seria difícil Felicidade e renda


esperar uma única definição, já que conteria
muitos e vários entendimentos diferentes. Uma questão fundamental para uma polí-
Como é de se presumir, tivemos até agora tica da felicidade é saber como um aumento
um conhecimento bastante limitado sobre na renda (seja por meio dos cofres públicos
os tipos de políticas que poderiam aumen- ou do mercado de trabalho ou outros tipos
tar a felicidade, mas, como se verá neste de renda) aumentará o nível de felicidade.
capítulo, nos últimos tempos esse conheci- Se isso também implica que esse aumento
mento vem crescendo, ajudando a mostrar tem uma função diminutiva, poderia indi-
onde pelo menos algumas iniciativas podem car que a redistribuição deve ser feita dos
ser realizadas. Que uma política para a feli- ricos para os pobres?
cidade tenha de ser paternalista, isso não a A questão a ser analisada é, então, se
difere, em princípio, de outros tipos de polí- existe uma relação entre renda e felicidade e,
ticas, e talvez o enfoque principal esteja em caso exista, se um aumento da renda aumen-
medidas paternalistas libertárias (Thaler e taria também o nível de felicidade. Como
Sunstein, 2008). Assim, é possível persuadir indicado previamente neste livro, o chamado
pessoas a tomarem decisões que melhora- Paradoxo de Easterlin atesta que, em muitos
riam sua saúde, e uma melhor saúde clara- países, mesmo com aumentos na renda, a
mente parece aumentar a felicidade. felicidade não aumentou. Essa tese foi muito
O argumento de que uma promoção da discutida. A posição relativa da renda tam-
felicidade necessariamente terá implica- bém será levada em consideração, ·enquanto
ções negativas apoia-se na suposição de que a questão da igualdade será deixada princi-
melhoras para alguns terão consequências palmente para "Felicidade e desenvolvimento
negativas para outros, por causa, por exem- da sociedade", mais ao fim deste capítulo.
plo, de ambições ou de inveja. Isso é difícil Vimos no Capítulo 3 que, aparentemente,
de estimar e demonstrar, e, como se disse existe uma relação entre renda e felici-
anteriormente, é difícil a comparação entre dade. Países com renda alta, em geral, têm
os níveis de felicidade dos indivíduos. um nível maior de felicidade do que países

122 123

II
BENT GREVE FELICIDADE

com renda baixa. Mesmo assim, há tam- 2007) . Esses três elementos, embora pos-
bém exemplos de que não existe relação. Na sam atuar na mesma direção, possibilitam
Nigéria, a felicidade média está no mesmo que o aumento de renda não aumente a feli-
patamar em que se encontram Itália e Japão cidade de cada pessoa.
(Layard, 2005). É o mesmo caso de Gana, Ao longo da história, as pessoas se com-
comparada ao Reino Unido e à Suécia (Dela- pararam com outras. Essa comparação pode
mothe, 2005). Ainda, os membros antigos sugerir que, às vezes, as pessoas até preferi-
da União Europeia estão mais satisfeitos do rão ter renda menor do que poderiam. Isso
que os novos Estados-membros (European ocorre quando elas ainda estão entre aque-
Foundation for the Improvement of Living les que têm o nível mais alto de renda. Uma
and Working Conditions, 2004a). Essa com- experiência na Universidade de Harvard
paração se encontra no âmbito da sociedade. mostrou que os estudantes estavam dis-
Outra análise demonstrou, em um micro- postos a receber e preferiam um nível mais
nível, que a satisfação com a vida em Cal- baixo de renda se essa renda fosse maior
cutá é maior (embora apenas brevemente) que a de outros (Layard, 2005). Isso pode
entre os ricos do que entre pessoas pobres, ajudar a explicar por que, por exemplo, pes··
as quais ficavam em situação melhor quando soas que poderiam ganhar mais migrando
se analisavam os relacionamentos sociais para outros países não o fazem por teme-
(Seligman, 2002a). Isso pode ser simplifi- rem arriscar sair de uma posição melhor
cado como o paradoxo dos camponeses feli- que a de outros para uma pior (Clark et al.,
zes e milionários tristes (Graham, 2009). 2008). Portanto, apesar de a teoria econô-
A implicação é que pode haver diferen- mica predizer que haverá migração com base
ças entre o macronível e o micronível, o que em diferenciais de salário, não necessaria-
implicitamente ajuda a explicar por que ren- mente é isso que ocorre. Migrantes podem
das maiores não necessariamente aumen- até preferir retornar para casa, não apenas
tam o nível de felicidade. Na literatura, isso para se reunirem com familiares, amigos e
é descrito como tendo relação com com- parentes, mas também para mostrar que
paração, adaptação e ambição (Schimmel, têm uma renda relativamente alta.

124 125
BENT GREVE
FELICIDADE

Comparações com outros, muitas vezes, Aspirações que não são realizadas, apesar
foram vistas como pertencentes à teoria do de um aumento nas possibilidades de con-
consumo: se outros possuem bens de con- sumo econômico, podem levar a um redu-
sumo, é preciso também possuí-los. Gru- zido nível de felicidade. De certa forma, isso
pos de referência, portanto, são importantes reflete o que Hirsch originalmente chamou
quando o indivíduo tenta descrever seu de "bens posicionais" (Hirsch, 1977). Ali-
nível de felicidade (Smith, 2008). Valores nhada com a aspiração está a adaptação.
referenciais da renda alheia podem, assim, Uma pessoa se acostuma a ter um nível
ter impacto (Caporale et al., 2007), e uma específico de bens e serviços, os quais, aos
distribuição desigual do aumento médio na poucos, deixam de ser novos, tornando-se
renda pode explicar o declínio ou o estan- iguais, o que reduz seu valor intrínseco.
camento do nível de felicidade, mesmo em Esse fato pode ter uma influência negativa
períodos de aumento da renda média veri- na felicidade. A consequência disso pode ser,
ficado pelo crescimento do PIB. por exemplo, que um aumento constante de
Comparações podem levar a urna expec- gastos todos os anos leve a uma expectativa
tativa de se obter maior renda e, com isso, de de que esse processo continuará. Uma redu-
ser capaz de comprar outros bens e serviços; ção sutil do aumento irá, portanto, reduzir
por exemplo, a aspirar possuir novos equi- o nível de felicidade, ainda que represente
pamentos, música, roupas etc. Um aumento um aumento na renda líquida.
na renda, portanto, pode fazer os indivíduos Mesmo que exista uma relação entre feli-
acreditarem que é possível melhorar conti- cidade e renda, a questão é se isso também
nuadamente as condições de vida, incluindo vale quanto a felicidade e desigualdade de
a aquisição de mais bens materiais (Clark renda. Ao opiniões divergem, desde aque-
et al., 2008; Easterlin, 2001). Isso pode, às las baseadas em dados, como no Capítulo 3,
vezes, ser rotulado como "rotina hedônica", até o argumento de que há uma relação ou
na qual adquirir um novo bem fará com que a visão de que tal relação não existe (Berg
se tenha a expectativa de ser capaz de adqui- e Veenhoven, 2010). Alguns defenderam,
rir outro novo bem.
baseados em uma ampla pesquisa, que "os
126
127
BENT GREVE FELICIDADE

indivíduos têm uma tendência menor de diferentes tipos de impacto. Isso, em prin-
se declarar felizes quando a desigualdade cípio, é uma questão para análise empírica,
é alta, mesmo depois de definir grupos embora seja muito difícil de realizar.
de controle para renda individual, uma
grande quantidade de características pes-
soais, e ano e país" (Alesina et al., 2004, Felicidade, relacionamentos sociais
2009). Um problema pode ser a existência e outros elementos importantes
de diferentes perspectivas sobre a maneira
de lidar com desigualdade ao redor do Nesta seção, o ponto principal será a
mundo. Em alguns países, acredita-se que possível ligação entre felicidade e elemen-
todos podem ser ricos, enquanto em outros tos como idade, casamento, visitar e ver
essa tese pode ser menos pronunciada. amigos e família e a sensação de segurança
Europeus, por exemplo, podem ser mais do indivíduo. Mais à frente, será incluída a
afetados pela desigualdade do que norte- possível ligação entre religião e felicidade,
-americanos. É isso que acontece quando como já abordado anteriormente. A relação
a igualdade é considerada um bem de luxo entre felicidade e trabalho voluntário tam-
(Ale sina et al., 2004). Aparentemente, bém será vista, pois parece ter um impacto
defende-se que, havendo um mínimo de na felicidade (Konow e Earley, 2008).
redistribuição, o nível de felicidade é aumen- Como já indicado pelos números do
tado, pois um nível reduzido de desigual- Capítulo 3, há um indício claro de que rela-
dade aumenta a coesão social nos países, e ções sociais têm impacto no nível de felici-
os relacionamentos sociais também têm um dade (Argyle e Martin, 19 91; Blanchflower
impacto positivo (ver "Felicidade, relaciona- e Oswald, 2002; Lee et al., 1999). Aparen-
mentos sociais e outros elementos impor- temente, a razão é que ter contatos sociais
tantes", a seguir). Entretanto, isso não nos aumenta a probabilidade de não se estar
diz nada sobre o tamanho da redistribuição, sozinho, de ter sentimentos positivos por
nem diz que níveis diferentes de mudança outros e de ser valorizado como um indi-
de renda e riqueza entre grupos podem ter víduo. Assim, a capacidade de estabelecer
128 129
BENT GREVE FELICIDADE

redes sociais, ou seja, capital social, é um ou tornando mais fácil que as pessoas se
aspecto importante de uma sociedade feliz encontrem e participem de atividades que
(Helliwell, 2003) . envolvem contato social. Defende-se que o
Pessoas casadas em geral parecem mais apoio ao esporte, por exemplo, é importante
felizes do que as solteiras e as divorciadas. não apenas para ajudar a se ter uma saúde
A relação causal não é totalmente clara- se melhor, mas também como uma forma de
pessoas felizes são mais propensas a casa- promover contato interacional. Portanto, se
rem do que pessoas não felizes, ou se é o satisfizerem vários propósitos, atividades
casamento que torna as pessoas mais feli- que podem não parecer naturalmente dignas
zes. Apesar de não se saber isso, é possível de apoio do governo, visto que o mercado, a
imaginar um bônus para o casamento: por princípio, pode oferecê-la- e nenhuma falha
exemplo, pagando-se algo a um casal ou do mercado até hoje justificou tal apoio -,
dando-lhe um desconto fiscal a cada ano podem ser úteis para elevar o nível de felici-
em que permanecerem casados (Weisbach, dade. Contatos sociais parecem ter impacto
2007). Naturalmente, isso pode implicar positivo nos ganhos (European Commis-
uma alta perda de sobrecarga, já que alguns sion, 2009), embora a causalidade não seja
casais permaneceriam juntos de qualquer algo sobre o que se tem certeza.
forma. Entretanto, é um indício de que polí- A relação entre idade e felicidade parece
ticas para garantir a felicidade são viáveis. ter a forma deU: alta no grupo etário jovem,
Visitar amigos e familiares e ter relacio- declinando na meia-idade e, então, aumen-
namentos pessoais têm impacto positivo na tando novamente na velhice. Especialmente
pessoa. Estabelecer relações pessoais, pre- ao se ajustar à variável renda, a forma de U
sumidamente, não era visto como um obje- fica visível. Além disso, "não é o envelhe-
tivo do Estado de bem-estar social; outra cimento em si que ocasiona o declínio da
questão é ele ajudar a encorajar o contato felicidade, mas sim as circunstâncias asso-
social apoiando trabalho voluntário de diver- ciadas ao envelhecimento" (Lelkes, 2008,
sas formas (ver também, a seguir, o possí- p.l). Quando jovem, o mundo ainda está
vel impacto positivo disso em si mesmo) aberto; e, quando se alcança a idade da

130 131
BENT GREVE FELICIDADE

aposentadoria, tem-se um conhecimento do que aqueles que participam com menos


mais claro do que é possível e do que não frequência. Quase metade é muito feliz,
é, impactando no nível de felicidade. O enquanto é feliz apenas um entre cada qua-
formato pode ser diferente, e uma análise tro ou cinco daqueles que só participam em
recente da OCDE indica que a curva pode dias especiais e menos do que uma vez por
ser ligeiramente diferente (Fischer, 2009). ano (World Values Surveys Databank, 2006,
Muitas defendem que pessoas religiosas http:/ / www.worldvaluessurvey.org/). Esse
têm, em geral, um nível de felicidade maior é um indicador de como diferentes socie-
do que pessoas não religiosas. Entretanto, dades podem reagir e apresentar diferentes
o último European Social Survey indica que relações entre felicidade e aspectos impor-
aqueles que não pertencem a um grupo reli- tantes da sociedade.
gioso são um pouco mais felizes do que aque- Uma questão em aberto é se aqueles que
les que pertencem (7,1 pontos contra 6,9). realizam trabalho voluntário são mais felizes
Mesmo quando se perguntou de forma dife- do que outros ou não. Pode-se argumentar
rente se as pessoas eram muito religiosas ou que, ao realizá-lo, cria-se uma ligação com
não, o resultado foi o mesmo. Aqueles que outras pessoas, o que propicia um aumento
dizem que não são nem um pouco religiosos da "sensação de fazer bem". Na verdade,
são ligeiramente mais felizes do que aqueles existe uma diferença bem grande: em média,
que são muito religiosos (mais uma vez, 7,1 aqueles que estiveram trabalhando em outra
pontos contra 6,9). A diferença, no entanto, organização nos últimos doze meses alcan-
não é significativa. Isso revela que a religião, çam um valor de 7, 7 pontos, contra 6,8
pelo menos, ao que parece, na Europa atual, daqueles que não o fizeram. Isso indica que
tem papel menos claro e menos significativo realizar trabalho voluntário pode influenciar
do que se demonstrou em análises mais clás- o nível de felicidade de cada pessoa. Nova-
sicas da felicidade (Lelkes, 2006b). A situa- mente, a pergunta pode ser: "Qual é a causa,
ção é diferente nos Estados Unidos: aqueles e qual é o efeito?". Seria o caso de o traba-
que frequentam uma cerimônia religiosa ao lhador voluntário elevar seu nível de felici-
menos uma vez por semana são mais felizes dade porque isso implica um propósito na

132 133
BENT GREVE
FELICIDADE

vida, por exemplo, ter algo para fazer? Veja a ligação pode seguir caminhos diferentes.
também "Felicidade e o mercado de traba- Divorciados ou solteiros podem ter um nível
lho" (na próxima seção), sobre a "síndrome de felicidade reduzido, seja por terem per-
do lobo mau"; ou seria o caso de pessoas dido uma pessoa próxima ou por sentirem-
felizes terem mais energia e realizarem mais -se abandonados após o divórcio. Como a
atividades? função da felicidade no decorrer da vida tem
Altruísmo é positivamente relacionado forma deU, parece ocorrer uma recupera-
com saúde, para as mulheres, e com bem- ção do nível de felicidade.
-estar, para homens e mulheres, e, apa- "O vencedor leva tudo" é um senso
rentemente, "adultos que se engajam em comum hoje em dia, assim como o título
experiências de comportamento altruísta de uma famosa música do grupo pop sueco
com fins sociais melhoram a saúde men- ABBA, "The Winner Takes It All". A litera-
tal e têm taxas de mortalidade menores do tura mostra que os vencedores são felizes,
que adultos não altruístas" (Schwartz et al., ao menos por um curto período de tempo.
2008, p.l). Todavia, essa é uma indicação de Entretanto, ganhar uma medalha de prata
que trabalho voluntário pode ter um valor pode não gerar o mesmo aumento do nível
intrínseco mesmo que seja por ajudar ape- de felicidade, já que o indivíduo/time só
nas aqueles que estão de fato realizando o esteve perto de ser o melhor, o que pode
trabalho voluntário. gerar um sentimento de derrota. Ficar em
Pessoas casadas são, em geral, mais feli- terceiro lugar e ganhar a medalha de bronze
zes do que as divorciadas ou solteiras, o que frequentemente implica um nível de felici-
pode ser explicado, ao menos parcialmente, dade maior do que ganhar a de prata.
pelo fato de que ser casado engloba relações Outra questão é saber se o fato de que
sociais mais próximas do que ser solteiro. perdedores têm um nível de felicidade redu-
É impossível concluir se são as pessoas zido sugere que devemos reduzir o número
felizes que têm mais propensão a se casar de pessoas perdedoras. Um jogo de fute-
ou se o motivo são as relações sociais que bol sem ganhadores pode, às vezes, ser um
envolvem a pessoa casada. Provavelmente, bom jogo para um espectador; entretanto,
134
135
BENT GREVE
FELICIDADE

as pessoas em geral preferem que haja um Early, 2008). Outra explicação para o fato
vencedor. Assim, será difícil para a socie- de que ganhar tem impacto apenas tempo-
dade intervir nesse tipo de situação, embora rário na felicidade é, como descrito no Capí-
haja uma necessidade de enfatizar que nem tulo 2, que nos adaptamos a nosso nível, que
todas as pessoas podem ser vencedoras ao é o que acontece com um súbito aumento
mesmo tempo. de renda.
A ânsia de ser vencedor ajuda a expli-
car por que tantas loterias têm um grande
número de prêmios pequenos. Elas sabem Felicidade e o mercado de trabalho
que as pessoas preferem o ganho certo à
perda incerta, mesmo que isso signifique A seguir, o foco será discutir se ter um
a diminuição de sua chance de obter uma trabalho aumentará nossa felicidade ou se
renda maior. Perder tem um impacto mais seremos mais felizes estando fora do mer-
negativo em indivíduos do que ganhar, o que cado de trabalho. A relação entre desem-
é chamado de teoria da perspectiva (Frey e prego e felicidade é, assim, parte da análise
Stutzer, 2002b). Portanto, reduzir o risco desta seção. Além disso, mesmo o fato de
de perder, mesmo que seja uma pequena ter ou não ter um trabalho pode não repre-
quantia de dinheiro, é importante para o sentar a totalidade da situação. As pessoas
indivíduo. podem querer um emprego, mas não querer
A razão para que algumas pessoas conti- trabalhar mais horas, e também pode haver
nuem a jogar com a esperança de ganhar um uma relação entre bem-estar e satisfação
prêmio grande é que o sonho de ser capaz de com o trabalho. Se for esse o caso, isso pode
fazer tudo que elas quiserem deixa as pes- interferir em nossa compreensão do motivo
soas felizes. Às vezes, parece que o sonho para as políticas visando a melhoria do tra-
é melhor do que o próprio prêmio. Isso balho serem importantes para indivíduos e
pode ajudar a explicar por que ganhadores empresas, e também para a sociedade.
de loteria não são mais felizes do que aque- Naturalmente, é possível que a relação
les que não conseguiram ganhar (Konow e entre felicidade e o mercado de trabalho
136 137
BENT GREVE
FELICIDADE

não seja a mesma em todos os países, Estados Unidos, em 2006 (dados do World
dependendo da estrutura dos empregos e Values Surveys Databank, 2006, http:/I
do próprio mercado de trabalho. Aparente- www.worldvaluessurvey.org/). Os dados
mente, existem diferenças, ao menos entre para os empregos de meio período são, no
a Europa e os Estados Unidos (Okulicz- entanto, baseados em um número de res-
-Kozaryn, 2010) . postas bastante limitado e, portanto, não
Entretanto, a percepção geral é de que os significativos.
europeus- assim como os norte-america- A comparação entre países mostra a
nos - que possuem um emprego são mais mesma relação, da forma como se apresen-
felizes do que aqueles que não possuem ta, na comparação feita pela OCDE entre
(Tella e MacCulloch, 2008). Estar desem- os países da União Europeia (Alesina et
pregado parece ter um impacto negativo no al. , 2004; European Foundation for the
grau de felicidade (Clark e Oswald, 1994), lmprovement of Living and Working Con-
e pode-se dizer que "desemprego parece ser ditions, 2004a, 2004b; OCDE, 2006). Um
a fonte primeira da infelicidade" (Oswald, estudo indica que nenhum efeito signi-
1997, p.l.828). Existe até um estudo que ficativo pode ser demonstrado, mas faz
afirma que quem não está empregado tem referência a diversos estudos que mos-
tram que a relação existe (Peiro, 2006) .
um risco doze vezes maior de tentar se
Em uma escala mais ampla, pessoas feli-
suicidar, especialmente aqueles que estão
zes têm "mais chance de manter um traba-
desempregados há muito tempo (Oswald,
lho, têm mais chances de receber avaliações
1997). Nos Estados Unidos, quem traba-
favoráveis de seus supervisores, têm mais
lha em tempo integral é mais feliz do que
chance de considerar importante seu em-
quem trabalha meio período, embora não
prego, têm menos chance de perder os
seja significativa a diferença de felicidade empregos e são mais facilmente recoloca-
entre trabalhadores de tempo integral e das se os perdem" (Kesebir e Diener, 2008,
desempregados. Além disso, aqueles que já p.71).
haviam se aposentado foram os que apre- Ao mesmo tempo, as pessoas, espe-
sentaram maiores índices de felicidade nos cialmente em sociedades mais afluentes,
138
139
BENT GREVE FELICIDADE

valorizam muito seu tempo livre. Nos Esta- mais será menor do que em países com um
dos Unidos, trabalhar está na 1 F posição padrão de vida mais baixo. O tempo livre e
entre 13 atividades. A comparação incluía a capacidade de optar por como empregá-lo
relaxar, comer, socializar (no trabalho e pode, então, impactar no nível de felicidade.
depois dele), e trabalhar só estava à frente O trabalho é importante não apenas
dos atos de ir e voltar do trabalho (OCDE, como um meio de obter renda, mas tam-
2009). Esse é um importante lembrete de bém para se obter status social e ligações
que, apesar da importância de se ter um com outras pessoas, ter amigos, fazer algo
emprego, também outros domínios da vida, importante (talvez para outros) , ou ape-
ao menos em sociedades mais afluentes, são nas ter algo para fazer. Isso foi classificado
importantes. como "síndrome do lobo mau" (Hylland
Portanto, apesar de pessoas empregadas Eriksen, 2008). O lobo mau nos contos de
serem mais felizes do que as outras, não se fada sempre quis perseguir o três porqui-
pode deduzir, a partir disso, que trabalhar nhos para comê-los. Um dia, ele o conse-
mais as tornará ainda mais felizes . Pelo con- guiu, mas, quando estava prestes a cozinhar
trário, a história de todos os países ociden- os três porquinhos, o lobinho perguntou-
tais parece indicar que, quando se enriquece, -lhe o que faria no dia seguinte. Ao perceber
uma riqueza maior implica menos trabalho, que seu projeto de vida era descobrir formas
o que talvez também ajude a explicar por de pegar os três porquinhos, o lobo os liber-
que sociedades mais ricas são mais felizes tou - embora, talvez, arrependendo-se,
do que as menos ricas; e pode até ser que depois de pensar que poderia achar outros
o número de horas trabalhadas tenha um projetes de vida. Mesmo assim, esse é um
efeito significativo e negativo na felicidade indicador de que precisamos e gostamos de
(Tella e MacCulloch, 2008). Os dados no ter um propósito de vida.
Capítulo 3 indicam que pode haver variação O impacto negativo do desemprego é
entre países, o que pode ser explicado pela reduzido se o nível de desemprego geral
diferença no nível de riqueza, de forma que está alto (Winkelmann, 2008), já que mais
nos países mais ricos a vontade de trabalhar pessoas estarão na mesma situação, e,

140 141
BENT GREVE FELICIDADE

portanto, o desemprego será mais um pro- Pessoas felizes são supostamente mais
blema social do que individual. O impacto eficientes, pois se defende que um "maior
negativo do desemprego só pode ser com- bem-estar do empregado é associado a
pensado por "uma enorme quantidade de melhor desempenho no trabalho, menos fal-
renda extra" (Oswald, 1997, p.1.821). Isso tas e rotatividade reduzida, sendo, portanto,
pode ser explicado pelo fato de que traba- de particular interesse para firmas e outras
lhar não serve apenas para se obter renda, organizações" (Frey e Stutzer, 2002b, p.29).
mas, como descrito acima, também implica A relação entre bem-estar e produtividade
relações sociais, as quais, como mostrado na também implica que a qualidade dos empre-
seção "Felicidade, relacionamentos sociais e gos "pode ser usada para guiar decisões de
outros elementos importantes", são impor- negócios visando à melhoria do desempe-
tantes para o indivíduo. nho, da produtividade e da rentabilidade"
Um problema relacionado ao mercado (Diener et al., 2009, p.168). Isso não será
de trabalho, como já abordado na seção explorado em detalhes aqui, mas, diante do
sobre renda, é que nosso bem-estar pode grande número de empresas que possuem
ser reduzido se outras pessoas receberem departamento de recursos humanos, este é
um aumento de salário que achamos que um indicador da importância desse aspecto
nós deveríamos ter tido. Comparações rela- e de que a boa qualidade dos empregos
tivas, portanto, têm relevância no mercado pode ser uma situação duplamente bené-
de trabalho. Assim, a negociação de aumen- fica para indivíduos, para a sociedade e para
tos de salário em nível local pode ser con- as empresas.
traproducente para uma sociedade feliz, e A relação entre bem-estar e emprego,
é muito importante o equilíbrio entre salá- assim, não apenas se dá com fatores extrín-
rios para diferentes grupos. Mesmo ter secos (como salário, status, número de
renda menor - embora isso, como se possa horas trabalhadas), mas também com fato-
imaginar, seja uma exceção - pode repre- res intrínsecos (como qualidade de traba-
sentar um nível mais alto de satisfação se lho, estresse, oportunidades de trabalho
outras pessoas receberem menos. interessantes etc.). Os fatores intrínsecos
142 143
BENT GREVE FELICIDADE

supostamente têm um grande impacto na (Anand e Clark, 2006; Feiro, 2006; Schim-
felicidade (Waterman et al., 2008) . Se pes- mel, 2007; Veenhoven, 1991, 2008b). Ela
soas mais felizes são mais eficientes, como pode ser expressada da seguinte forma: ''A
indicado acima, então será duplamente saúde é um componente importante no bem-
benéfico garantir mais trabalhadores felizes, -estar subjetivo de um indivíduo" (Lelkes,
já que eles serão, ao mesmo tempo, mais t 2006a, p.290). De acordo com dados de 49
produtivos e mais felizes. "Trabalhadores países e de três rodadas do World Values
felizes são cidadãos mais importantes para Survey (http://www.worldvaluessurvey.
a organização, ou seja, eles ajudam outras org!), ter uma saúde muito boa, comparado
pessoas no trabalho de várias formas." (Die- a apenas ter boa saúde, aumenta o nível de
ner e Seligman, 2004, p.l.) Para a sociedade, felicidade em 0,52. Ter saúde muito ruim,
isso aumentará a riqueza, e os campos em em vez de apenas uma saúde ruim, parece
que o governo tiver capacidade de interfe- reduzir o nível de felicidade em 0,46. Na
rir podem ser, portanto, áreas políticas em escala de 1O pontos que se costuma usar,
que ele deve atuar. isso significa uma diferença de 2,46 pontos
percentuais entre o melhor e o pior nível de
saúde avaliado subjetivamente (Helliwell,
Felicidade e saúde 2003). Outro estudo demonstrou que existe
uma correlação entre pressão arterial e
Irão as pessoas felizes viver mais e serão felicidade, e concluiu que "nações mais feli-
mais saudáveis do que pessoas infelizes, ou zes registram menos problemas de pres-
seriam os mais saudáveis também os mais são arterial" (Blanchflower e Oswald, 2008,
felizes? A relação de causalidade é impor- p.220). Isso foi mostrado nos dados utiliza-
tante. Entretanto, primeiro é fundamental dos no Capítulo 3, que sugerem que pes-
tentar descobrir se se pode traçar alguma soas com uma avaliação subjetiva positiva de
relação. Muitos estudos parecem indicar que sua saúde eram mais felizes do que outras.
pessoas felizes vivem mais. A saúde tem uma Apesar disso, quase todos os estudos
clara e sistemática relação com a felicidade mostram que felicidade e idade apresentam

144 145
FELICIDADE
8ENT GREVE

uma relação em forma deU, como já men- ao longo da vida e de os indivíduos conse-
cionado. Somos mais afortunados durante guirem fazer menos do que quando mais
a adolescência e a velhice, e menos nesse jovens, o maior nível de felicidade pode
ínterim, embora possa haver variações ter ligação com o entendimento da vida
dependendo do contexto específico e do e da sociedade (e o entendimento de si
desenvolvimento histórico/ econômico. Isso mesmo, do entorno e das oportunidades),
significa que, mesmo em uma fase de vida o que aumenta durante o ciclo de vida. Esse
em que a saúde é menor, o indivíduo está aumento da autocompreensão ajuda a expli-
fundamentalmente mais satisfeito com sua car por que as pessoas acreditam ter uma
vida do que em tempos em que sua saúde qualidade de vida maior (Yang, 2008). Ou-
era objetivamente melhor. Muitas razões tra forma de interpretar isso é que não se
podem explicar esse tipo de relação. trata necessariamente de envelhecer, o que
Um tipo de explicação diz respeito ao para alguns pode causar uma ligeira di mi-
problema da medição da saúde, já que pes- nuição do nível de satisfação, mas, sim,
soas otimistas podem ter uma tendência das circunstâncias associadas a envelhecer,
de avaliar sua saúde mais positivamente do por exemplo, menos opções e a capacidade
que realmente é (Helliwell, 2003). Outra reduzida de viver o dia a dia sem obstáculos.
explicação para a correlação entre idade e Estudos demonstraram que, mesmo pa-
felicidade supostamente tem ligação com a ra pessoas que foram vítimas de acidentes
capacidade das pessoas de se adaptar ao seu sérios e que, portanto, ficaram gravemente
entorno. Existe, assim como com a renda, incapacitadas, é possível que a felicidade
certa melhoria nos níveis de felicidade de retorne ao nível anterior (Frey e Stutzer,
acordo com o número de anos de vida, e 2002b; Kacapyr, 2008). Isso ocorre apesar
isso talvez também explique por que uma de a maioria das pessoas certamente não
saúde fraca em um período mais tardio da desejar estar nesse tipo de situação. Outra
vida tem impacto menor. pesquisa descobriu, no entanto, que doen-
Outra possível explicação é que, apesar ças sérias ou incapacitações permanentes
de a saúde da maioria das pessoas piorar têm efeitos negativos e duradouros sobre a

147
146
BENT GREVE rELI CIDADE

felicidade (Graham, 2008). Existe uma dife- não se aplique a pessoas com mais de 84
rença na severidade das mudanças. A proba- anos (Diener e Seligman, 2004).
bilidade de retornar a um nível de felicidade Quando se incluem todos os diversos
anterior é maior se as mudanças forem fatores que podem afetar a duração da vida,
relativamente moderadas . Por outro lado, é difícil avaliar a correlação entre felicidade e
mudanças grandes devidas a uma enorme longevidade, mas se enfatiza que pode exis-
incapacitação, por exemplo, diminuem a tir uma correlação entre os níveis de felici-
dade, longevidade e saúde. É possível que
probabilidade de se retornar ao nível ante-
pessoas felizes vivam de forma mais sau-
rior (Oswald e Powdthavee, 2006).
dável, sejam mais receptivas a informações
É difícil avaliar se a saúde é o fator que
públicas, mais conscientes de sintomas de
deixa algumas pessoas mais otimistas do
doenças, ou que haja inúmeras outras pos-
que outras, mas, aparentemente, otimistas
síveis interações com outros fatores.
vivem mais do que outros: "A vida do oti-
Uma pesquisa (Quadro 4.2), no entanto,
mista é cerca de oito anos mais longa do
parece enfatizar que pessoas com emoções
que a [do] pessimista" (Schimmel, 2007, mais positivas vivem mais, mesmo caso
p.lO). Pessoas mais felizes, portanto, con- se assuma que elas tenham o mesmo tipo
seguirão viver mais e ter vidas mais felizes. de vida, a mesma nutrição etc. Ainda não
Segundo diversos estudos, o efeito posi- existe nenhum estudo que examine se
tivo sobre as expectativas de vida de pes- diferenças em fatores genéticos podem ter
soas felizes é estável e representa entre algum impacto.
7,5 e 10 anos. Pode ser difícil determinar Pessoas com alto nível de capital social
se são sete ou dez anos a mais que as pes- (ver também a seção sobre relacionamen-
soas felizes vivem, e nem sempre é possí- tos sociais) parecem viver mais do que as
vel observar se pessoas felizes vivem tantos com baixo nível (Field, 2008) . Portanto,
anos a mais (Veenhoven, 2008b). A satisfa- há um risco de que os fatores que contri-
ção com a vida entre as pessoas de 75 a 84 buem para a diminuição dos relacionamen-
anos prediz sua mortalidade, embora isso tos sociais tenham um impacto negativo

148 149
FELICIDADE
BENT GREVE

Quadro 4.2 Estudo sobre freiras - relação entre emoções


rede social contribua para um estilo de vida
positivas e uma vida longa mais saudável, incluindo maior atenção de
O famoso estudo sobre as freiras baseia-se na leitura outros, o que incentiva a pessoa a se sub-
de autobiografias de 180 freiras de Milwaukee, Wisconsin
meter a exames preventivos necessários. Ao
e Baltimore, Maryland, nos Estados Unidos. Elas foram
escritas quando as freiras tinham, em média, 22 anos. Todas mesmo tempo, redes sociais podem colocar
as autobiografias foram redigidas no início da década de pessoas em situações melhores para pres-
1930, e, por isso, a análise é baseada em dados históricos e
não é afetada pela racionalização de como foi o ciclo de vida. sionar pela implantação de exames e trata-
Comparações entre expectativa de vida média e emoções mentos necessários para a boa saúde. Outro
positivas mostraram-se significativas nessas autobiografias.
Constatou-se na análise da mortalidade das freiras, iniciada
fator pode ser que grupos com capital social
pelos pesquisadores sessenta anos depois da redação das alto geralmente parecem ter renda maior. A
autobiografias, que as freiras mais positivas viveram mais
interação entre alguns fatores pode, assim,
do que as outras (Danner, Snowdon e Friesen, 2001).
As freiras tiveram o mesmo tipo de vida, o mesmo tipo de influenciar o resultado, e o acúmulo de fato-
alimentação etc., portanto essa foi uma boa oportunidade res pode ter grande importância na avalia-
para se fazer comparações, havendo menos risco de que
fatores externos, exceto possíveis diferenças genéticas, ção de saúde e felicidade.
tenham afetado o resultado da investigação. Deve-se presumir que pessoas felizes
são menos propensas a desenvolver depres-
são. Um estudo mostrou que alterações
na felicidade. Um estudo descobriu que,
no número de suicídios - tanto para mais
por exemplo, assistir a mais televisão pode
quanto para menos- são inversamente pro-
reduzir os relacionamentos sociais ("bens
porcionais às tendências de felicidade (Tella
relacionais") e, assim, afetar desfavoravel-
et al., 2003). Em outras palavras, a evolu-
mente a felicidade do indivíduo. Assistir à
ção da felicidade de uma sociedade afeta o
televisão, aparentemente, afastou contatos
número de suicídios; e a correlação posi-
sociais ou os tornou menos frequentes do
tiva entre felicidade e saúde é mais forte
que antes e, dessa forma, diminuiu o nível
em relação à saúde mental (Graham, 2008).
de felicidade (Bruni e Stanca, 2008).
Contudo, não se pode afirmar se é possível
A relação entre capital social e melhor
alterar o número de pessoas com depres-
saúde pode ser influenciada por diversos
são oferecendo-se treinamento sobre o que
fatores. Um fator pode ser que a própria
151
150
BENT GREVE FELICIDADE

deixa as pessoas mais felizes, embora haja por exemplo, não existe nenhuma ligação
quem acredite que a depressão possa ser clara e não ambígua entre felicidade e esse
afetada dessa forma. Como exemplo, uma tipo de doença (Field, 2008).
experiência que convidou pessoas a preen- Um problema desses estudos é definir se
cherem um exercício na internet (chamado é o comportamento atual que afeta a felici-
Três Bênçãos) fez com que 94% dos muito dade ou se são os fatores de longo prazo que
depressivos ficassem menos deprimidos, e têm impacto maior. Por exemplo, um estudo
92% mais felizes - mesmo comparados a norte-americano mostrou que "91% dos
um grupo de controle, eles estavam menos participantes que afirmaram não haverem
deprimidos do que um ano antes (http:/ I tido relações carinhosas com as mães tive-
newsvote.bbc.co.uk/mpapps). A alegação ram doenças de meia-idade diagnosticadas
é que falar sobre emoções positivas e focar (doença arterial coronariana, pressão arterial
nas forças (em vez de conversar sobre pro- elevada, úlcera no duodeno e alcoolismo)"
blemas) é importante. Isso pode ser refle- (Post, 2005, p.67). Apesar de ser um estudo
tido na administração moderna, que se volta único, com um número limitado de parti-
a desafios em vez de problemas. cipantes, concluiu-se que ele foi baseado
Apesar de pessoas felizes serem menos em um "modelo biopsicológico, altamente
depressivas do que outras, isso não significa aceito, de que ser amado, cuidado e apoiado
que o Estado de bem-estar social moderno por outros é criticamente importante para a
não apresente risco de suicídios ou aumento saúde e a eficácia dos tratamentos" (ibid.).
do número de pessoas vivendo sob estresse. Isso salienta, ainda, a necessidade de se ava-
A média pode melhorar e, ao mesmo tempo, liar intervenções a longo prazo, e não ape-
para algumas pessoas, pode haver aumento nas a felicidade a curto prazo, para se criar
da pressão diária. maior satisfação e vida mais longa em uma
Outros descobriram, no entanto, que, comunidade.Concluindo, isso mostra que
apesar de redes sociais poderem reduzir o "a felicidade, consequentemente, parece
estresse e talvez também o risco de doenças acrescentar anos à vida, assim como vida
mentais, isso não parece estar documentado - aos anos" (Delamothe, 2005, p.l.490). De
152 153
FELICIDADE
BENT GREVE

forma geral, esse pode ser um argumento com a saúde. Se a relação for contrária,
para a intervenção pública, para tentar aju- então, uma melhora na saúde alcançada
dar pessoas a se tornarem mais felizes e para por políticas de intervenção aumentará a
se observar o número de anos felizes como felicidade. Dessa forma, proibir o cigarro
um indicador de como os países se parecem pode aumentar a felicidade de forma geral,
e se desenvolvem. Uma definição é: mesmo que reduza a de fumantes invete-
rados. Persuadir pessoas a comer de forma
Número de anos felizes = expectativa de vida ao nas- mais saudável defendendo itens saudáveis
cer x (0-1) nível de felicidade. (Veenhoven, 2008c.) primeiro em mercados e lanchonetes pode
causar uma situação benéfica para os dois
Observação: 0-1 é a conversão da medida lados (Thaler e Sunstein, 2008). Se o lugar
de felicidade, e o nível de felicidade é de trabalho puder ser mais seguro ou se for
baseado em respostas a pesquisas. possível reduzir a pressão sobre as pessoas,
Se, por exemplo, usa-se uma escala de 1 isso também pode indicar um nível maior
a 10, como em muitos estudos apresenta- de felicidade.
dos neste livro, o valor 6 é igual àquele que Há implicações no sistema educacional,
é multiplicado por 0,6, e um valor de 8, por assumindo-se que um aumento nos exercí-
0,8 . Por exemplo, o número de anos felizes cios físicos e esportes traga uma vida mais
calculados dessa forma, na Suíça, é 62,9 e, satisfatória (Bok, 2010) e, ao mesmo tempo,
no Zimbábue, apenas 12,5. Em um país rico uma vida mais ativa acarreta uma saúde
como o Japão, a expectativa de vida é grande, melhor. Assim, o suporte oferecido por (ou
mas o nível de felicidade das pessoas não é a inserção de) elementos físicos no sistema
alto (Veenhoven, 2008c). educacional pode aumentar o nível de feli-
A relação entre felicidade e saúde, assim, cidade de uma sociedade.
implica que, se for possível descobrir quais Cada vez mais, tem-se a consciência
instrumentos aumentam a felicidade, isso de que uma abordagem delicada e pater-
terá um impacto positivo na saúde e, por- nalista - especialmente ao se definir as
tanto, supostamente no custo de cuidados opções padrão para que decisões boas para

154 155
BENT GREVE FELICIDADE

a sociedade e as pessoas sejam tomadas sem social nos dias de hoje parece, mais do que
nenhum tipo relevante de intervenção para nunca, influenciado pelo nível de educação
que sejam alcançadas- pode ter um impacto e pela capacidade de propiciar aprendizado
positivo (Loewenstein e Ubel, 2008). contínuo. Uma questão, portanto, é defi-
Aparentemente, pessoas felizes vivem nir se a educação pode impactar no nível de
mais por serem felizes. Por isso, pode valer felicidade, o que implicaria uma situação
a pena buscar leis que visem a uma vida duplamente benéfica ao se investir em edu-
feliz, embora elas tenham de competir pelos cação. A consequência pode ser uma socie-
escassos recursos econômicos disponíveis dade mais rica e mais feliz. Também será
para intervenções do setor público. incluída a possível relação entre benefícios
de bem-estar e felicidade.
Uma análise, por exemplo, verificou
Felicidade e desenvolvimento social que seguros-desemprego mais generosos
aumentam o riível de felicidade (Tella e Mac-
Esta seção irá se aprofundar na relação Culloch, 2008). Essa é uma clara indicação
entre felicidade e a maneira como uma socie- de como políticas sociais têm impacto no
dade se desenvolve, incluindo a confiança no nível de felicidade da sociedade. A razão por
sistema político (ver dados do Capítulo 3). trás disso é que o indivíduo, ao ter direito
Colocando de outra forma, a confiança pode a benefícios mais generosos, terá um maior
substituir a suspeita e o medo e, assim, ter nível de segurança econômica caso, por
um impacto positivo na felicidade (Bok, exemplo, seu trabalho se torne desneces-
2010; Helliwell, 2003). Esta análise não sário; assim, mesmo que não reduza com-
incluirá renda, pois ela já foi discutida ante- pletamente o impacto negativo de estar
riormente neste capítulo, na seção "Felici- desempregado, uma taxa maior de recolo-
dade e renda". Mas discutirá se o objetivo de cação pode ajudar.
igualar a renda é importante ou não para uma O bem-estar nacional pode ser promovido
sociedade que almeja aumentar seus níveis de diversas formas, e uma dessas podem
de felicidade. Ademais, o desenvolvimento ser eventos esportivos internacionais. Um

156 157
BENT GREVE
FELICIDADE

estudo encontrou apenas um impacto posi- • Alto nível de felicidade e baixo nível de
tivo significativo em sediar eventos de fute- desigualdade na felicidade foram en-
bol; entretanto, os autores também apontam contrados na Holanda.
que a análise é com base nas nações euro- • Baixo nível de felicidade e baixo nível
peias onde o futebol é o esporte dominante de desigualdade na felicidade foram en-
(Kavetsos e Szymanski, 2010). Esse é ape- contrados no Paquistão.
nas um lembrete de como o bem-estar pode • Alto nível de felicidade e alto nível de
ser promovido não apenas com bens tra- desigualdade na felicidade foram en-
dicionais, mas também com o desenvolvi- contrados na África do Sul.
mento de atividades que nos façam sentir • Baixo nível de felicidade e alto nível de
bem. desigualdade na felicidade foram en-
As sociedades têm instrumentos que contrados na Rússia.
podem melhorar o nível de felicidade. Este
Ademais, o papel do setor público pode
capítulo não tentou avaliar e julgar as vá-
ter apenas uma natureza limitada em rela-
rias opções, mas meramente apontar algu-
ção à desigualdade na felicidade, a não ser
mas opções possíveis. Haverá necessidade
que intervenções que melhorem a felici-
de avaliar o potencial aumento no nível de
dade ou a igualdade de forma geral tam-
felicidade e o custo associado, inclusive se o
bém impliquem uma mudança no nível de
aumento será às custas da felicidade alheia,
desigualdade na felicidade. Isso poderia ser,
já que o capítulo não discutiu detalhada-
por exemplo, uma melhora nas condições
mente as desigualdades na felicidade, mas
de saúde nas sociedades, assim como um
apenas sua relação geral.
nível mais alto de segurança econômica, já
Desigualdade na felicidade pode (mas que maior segurança econômica (por meio
não necessariamente) estar relacionada ao de benefícios de bem-estar generosos) e
nível de igualdade em um país. Uma aná- maior expectativa de vida parecem aumen-
lise baseada em 78 nações por volta dos tar o nível de felicidade.
anos 2000 (Ott, 2005) mostrou, por exem- A confiança foi mencionada como um
plo, que:
elemento para melhorar a felicidade, e esse
158
159
BENT GREVE FELICIDADE

também parece ser o caso quando existe esta- opções e oportunidades que os outros pos-
bilidade política (Argyle, 1987; Frey e Stut- suem. Existem argumentos morais e psi-
zer, 2002a, 2002b). A redução da corrupção cológicos relacionados à discussão sobre
e ter um sistema democrático estável- com igualdade e desigualdade que não serão
informações claras a respeito (e estabilidade) incluídos aqui. Além disso, poder-se-ia dis-
para se tomar decisões - podem impactar a cutir desigualdade no nível de felicidade e
vida dos indivíduos. Dessa forma, um Estado se políticas públicas têm mesmo um papel
que garante que a corrupção esteja no menor a cumprir na tentativa de garantir uma dis-
nível possível aumenta o bem-estar dos tribuição justa do nível de felicidade. No
cidadãos (Bok, 2010). Uma possível expli- entanto, diante da natureza variada daquilo
cação para a importância do impacto que que torna um indivíduo feliz, é difícil
a confiança pode ter é que um nível alto de alcançá-la e regulá-la, como mostra a com-
confiança social aparentemente tem uma paração interpessoal mencionada no Capí-
relação com fatores como "tolerância para tulo 2. Entretanto, se o Estado de bem-estar
com as minorias, participação na vida pú- social puder garantir oportunidades de vida
blica, educação, saúde e bem-estar subje- mais justas e impactar na felicidade, daí
tivo" (Rothstein, 2010, p.19). poderá haver uma relação entre políticas de
O nível de desigualdade é, na maioria dos intervenção do Estado de bem-estar social e
casos, considerado um elemento que tem o nível de igualdade na felicidade.
impacto na felicidade (para uma exceção, ver Desigualdades têm impactos negati-
Veenhoven, 201 O). Entretanto, pode haver vos em vários problemas sociais e podem,
diferenças entre países, como, por exem- assim, ser importantes para o nível de feli-
plo, "europeus têm uma aversão à desigual- cidade, mesmo que não seja possível dis-
dade maior do que norte-americanos" (Frey cernir se existe uma relação simples a partir
e Stutzer, 2002a, p.412). A principal razão de seu impacto em outros elementos do
para essa relação está ligada a elementos desenvolvimento social. A saúde, por exem-
como comparações, conforme descrito no plo, é aparentemente melhor em socieda-
Capítulo 2, mas também à aspiração por des mais igualitárias, e as relações sociais
160 161
BENT GREVE FELICIDADE

são melhores e o crime, menos frequente (especialmente para adultos) aumenta a


(Wilkinson, 2006). chance de se ter amigos e pessoas com quem
Os dados da European Union Statistics on conversar, e eleva-se a quantidade de intera-
Incarne and Living Conditions (EU-SILC), ções sociais, embora aqui também seja difí-
que possui elementos que permitem a esti- cil estabelecer a direção causal.
mativa do capital social, possibilitam que O capital social pode melhorar o desem-
se veja que o capital social tem um impacto penho de um governo garantindo maior
importante no desenvolvimento social e que, cooperação e consenso e, portanto, aju-
portanto, há necessidade de medi-lo. Um dando a aumentar a confiança na socie-
dos elementos é baseado em contato com dade, como demonstrado, por exemplo,
parentes, outro no contato com amigos, e para os Estados Unidos (Knack, 2000). Por
também no número de organizações, clu- fim, como o capital social pode ser influen-
bes etc., a que a pessoa pertence. A relação ciado por burocracias efetivas e imparciais
baseada nesses dados confirma que os países (Rothstein e Stolle, 2007), isso implica um
nórdicos, especialmente, estão em melhor impacto da administração pública sobre
situação do que outros países da União a felicidade. Uma administração pública
Europeia (European Comission, 2009) . baseada em justiça, inexistência de discri-
O capital social tem relação com o nível minação e menos corrupção produzirá um
de educação, e, além disso, "é muito pode- movimento em direção a maiores níveis de
rosa a evidência de que aprender promove o felicidade para a sociedade. Então, uma vez
bem-estar" (Field, 2009, p.S) -embora não mais, isso implica que o estado e sua forma
no mesmo nível em todos os países (ver, de funcionamento possuem impacto no
por exemplo, no Capítulo 3, os dados para nível de felicidade da sociedade.
os Estados Unidos). Aprendizado e educa- O Estado de bem-estar social e políticas
ção, assim, promovem a felicidade, e pro- de intervenção social podem ser importan-
vavelmente o fazem de várias formas. Uma tes para o desenvolvimento da sociedade, e,
delas é que participar do processo educativo assim, pode ser relevante analisar o impacto

162 163
FELICIDADE
BENT GREVE

dos gastos em políticas sociais. Uma análise Em síntese

costuma argumentar que gastos sociais não


têm impacto significativo na satisfação com Os governantes têm um papel a cumprir
em relação ao nível de felicidade das socie-
a vida (Bj0rnskov et al., 2007a); entretanto,
dades modernas. Nem sempre é algo fácil,
os dados utilizados não incluem subsídios
visto que as pessoas se adaptam, impli-
e transferências, e, por isso, esse resultado
cando, então, um risco de esses políti cos
pode ser questionado. Além do mais, pode-
acabarem em uma rotina hedônica, cons-
-se questionar se o foco único deve estar nos
tantemente tentando dar mais às pessoas,
gastos, em vez de nos possíveis impactos
as quais irão esperar cada vez mais.
em questões como desigualdade, emprego No entanto, pode haver elementos que
e melhor saúde. Baseando-se na análise de são mais importantes do que outros. Mel ho-
nove países europeus, parece que políticas rar a saúde dos cidadãos pode, por exem-
sociais impactam positivamente na feli- plo, ser um elemento importante. Assegurar
cidade (Greve, 2010), ou, como expresso um nível maior de segurança social pode ser
em um dos artigos deste livro (Greve, outro, já que a segurança (tanto econômica
2010): "O melhor argumento em favor do como pessoal) é importante para o nível
Estado de bem-estar social parece ser seu de felicidade de cada pessoa. Obviamente,
efeito positivo nos níveis gerais de felici- governantes encontram-se diante do dilema
dade" (Fors, 2010, com referência a Pacek e de definir prioridades, já que os cidadãos
Radcliff, 2008). também preferem ter uma abordagem mais
Outra razão pode ser, na verdade, como individualizada. Isso implica um equilíbrio
indicado implicitamente por Barr, que o entre intervenções e opções para o cida-
Estado de bem-estar social é o meio mais dão escolher. Além disso, meios de melho-
efetivo de assegurar o bem-estar coletivo, já rar empregos e a segurança do trabalho são
que o custo de programas universais pode importantes para a maioria das pessoas e
ser menor do que o de programas baseados podem, portanto, aumentar a felicidade.
na segurança individual (Barr, 2001). Isso significa que uma taxa de recolocação

165
164
BENT GREVE FELICIDADE

"razoável" em casos de desemprego pode formas. Uma deve-se ao fato de que pessoas
ser importante como parte do processo de educadas parecem mais felizes, mas tam-
tornar uma sociedade mais feliz. bém elas têm menor risco de desemprego
O sentimento de segurança pode não e são, em geral, mais saudáveis do que as
ter relação apenas com segurança econô- outras. A educação parece produzir maior
mica. A sensação de segurança na rua ou contato social e uma melhor rede de rela-
em casa impacta no nível de felicidade. Ape- cionamentos. O aprendizado contínuo não
sar de, por exemplo, mais policiais na rua é mais apenas necessário para se melhorar
não produzirem nenhum efeito nos núme- a correspondência entre demanda e oferta
ros do crime, a presença deles pode ter um no mercado de trabalho, mas também para
impacto positivo no nível de felicidade. melhorar a felicidade.
Assim, se aumentar o nível de felicidade é Considerando que ser casado e ter um
o objetivo de políticas públicas, essa pode emprego tornam as pessoas mais felizes,
ser uma razão para se aumentar a presença esse é um argumento para apoiar a capa-
visível de policiais. cidade de conciliar trabalho e família. Por
Relações sociais são importantes para exemplo, a ideia da União Europeia de haver
muitas pessoas. O Estado de bem-estar creches acessíveis e de alta qualidade pode
social não pode garanti-las, mas pode apoiar ser justificada não apenas pelo aumento da
estruturas na sociedade que as tornem mais oferta no mercado de trabalho e da igual-
fáceis de se alcançar, para, assim, aumentar dade entre homens e mulheres em relação
o nível de felicidade. Além disso, pode ser ao acesso ao mercado de trabalho, mas tam-
uma razão para se apoiar o trabalho voluntá- bém por aumentar a felicidade na sociedade.
rio, visto que aumenta as relações sociais -e Gastos com o bem-estar, analisados sob essa ~ I

o apoio não precisa ser baseado na expecta- luz, são um investimento para uma socie-
tiva de que o trabalho voluntário em si seja dade mais feliz.
importante. Entretanto, pode haver um risco de que
Investir na educação e em seus níveis a forma de melhorar a felicidade em um
mais avançados pode impactar de várias nível mais amplo seja usar a força em vez
166 167
BENT GREVE

do paternalismo libertário, e alguns dizem


que "as pessoas devem ser capazes de facil-
mente dizer não a novas políticas" (Haidt 5
et al., 2008). Esse pode ser um problema
POR QUE PRECISAMOS DE NOVAS
ao se decidir a respeito de aspectos impor-
tantes para o desenvolvimento da sociedade MEDIDAS PARA O BEM,ESTAR
que sejam conflitantes com as preferências
individuais. No entanto, há muito tempo
isso representa um problema para o desen-
volvimento das sociedades.
Os Estados de bem-estar social podem,
ao menos até certo ponto, ajudar a melho-
rar a felicidade com uma combinação de
políticas sociais, enquanto , ao mesmo Introd uçã o
tempo, aumentam o nível geral de riqueza
da sociedade. Já que uma renda maior, até Os Estados de bem-estar social modernos
certo nível, aumenta o nível de felicidade, frequentemente foram avaliados tomando
os governantes deparam com o desafio de o PIB per capita como o melhor indicador
desenvolver e ter uma política de cresci- da posição dos diferentes países na ordem
mento econômico que aumente o bem- econômica mundial e no nível de bem-estar.
-estar. Há dúvidas se o bem-estar pode ser O aumento do PIB é visto como parâmetro
medido pelo aumento de fatores econômi- central de desenvolvimento econômico.
cos, como o PIB, e isso implica a necessi- Houve sérias críticas que consideraram
dade de novas medições . Esse é o assunto falha a medição pelo PIB (Frey e Stutzer,
do próximo capítulo. i
J
2002b). Isso talvez explique por que alguns
dizem que "a pesquisa sobre a felicidade é
meramente a última na longa lista de críti-
cas ao conceito de PIB" Qohns e Ormerod,

168
BENT GREVE FELICIDADE

2007, p.S2). Este capítulo discutirá se é As Nações Unidas desenvolveram outros


possível incluir a felicidade no conceito de tipos de índices, como o Índice de Pobreza
desenvolvimento econômico e social dos Humana, o Índice de Desigualdade de
países e indicar como comparar o resultado Gênero e o Índice de Desenvolvimento
de tal medição de diferentes países. Humano. O último inclui elementos como
Novos tipos de medição de progresso, expectativa de vida e analfabetismo, assim
como, por exemplo, o cálculo nacional do como o PIB. Essa é apenas outra evidên-
bem-estar, serão incluídos na apresenta- cia de como, ao medir e entender o desen-
ção. Isso pode ser importante, para que, ao volvimento social, é importante analisar de
se tomarem decisões, não se considere ape- uma perspectiva mais ampla. Além disso, a
nas o impacto a curto prazo sobre o sistema OCDE cada vez mais tem usado e apresen-
econômico como parte da decisão, mas tam- tado dados sobre o bem-estar e outros indi-
bém o impacto mais geral sobre o bem-estar. cadores não monetários.
A felicidade interna bruta tem sido um Isso mostra que a discussão não é ape-
tipo alternativo de medida para analisar nas acadêmica, mas também está relacio-
o desenvolvimento de uma sociedade. O nada à tomada de decisões. Este capítulo
Canadá possui até uma lei, o Ato de Medi- explorará, primeiramente, os motivos por
ção do Bem-Estar, que tem como objetivo a que o PIB não é suficiente para medir o
publicação de informações acerca "do bem- bem-estar de uma sociedade e, depois, dis-
-estar econômico, social e ambiental das cutirá se podemos encontrar novas formas
pessoas, das comunidades e dos ecossiste- de medir o desenvolvimento de uma socie-
mas do Canadá" (Tella e MacCulloch, 2008, dade, incluindo a apresentação de algumas
p.23). Na Nova Zelândia, há um ministério formas que surgiram recentemente.
cuja responsabilidade é pesquisar o bem-
-estar da sociedade (Duncan, 2005) . Na
França e no Reino Unido, como indicado Por que o PIB não é suficiente?
anteriormente, tem havido um crescente
interesse por outros tipos de medidas de O PIB é criticado há muito tempo por
desenvolvimento social. não ser suficiente para descrever o de-

17 0 171
FELICIDADE
BENT GREVE

mas não no resultado de diferentes tipos de


senvolvimento social, já que, por exem-
intervenção. Assim, por exemplo, as inter-
plo, um aumento no número de acidentes
venções do setor público para melhorar o
no trânsito aumenta seu valor (pelo menos
meio ambiente ou a saúde de uma popu-
a curto prazo, devido à maior atividade do
lação também incluem na medição o custo
setor de saúde). Esse problema da medição
direto, mas não o impacto a longo prazo
do PIB é conhecido há muito anos (ver, por
na saúde e no meio ambiente, ainda que a
exemplo, Nordhaus e Tobín, 1973). Recen-
saúde tenha um impacto positivo na felici-
temente, tem havido maior interesse sobre
dade. Em outras palavras: "O pior de tudo
como combinar crescimento econômico e
é que o PIB aumenta quando a reciproci-
desenvolvimento sustentável. O PIB, por-
dade de convivência é substituída por rela-
tanto, parece precisar de uma mudança em
ções anônimas de mercado e quando o crime
relação às medições clássicas do bem-estar
crescente, a poluição, catástrofes ou riscos
de uma sociedade. Ele descreve o desenvol-
à saúde acionam medidas defensivas ou de
vimento apenas em um nível macro e, por
reparação" (Fleurbaey, 2009, p.l.029).
isso, tem baixa validade externa (Diener e
Muitas atividades da sociedade que não
Seligman, 2004), e não é capaz de medir
fazem parte do mercado ou não são governa-
a satisfação ou a felicidade do indivíduo.
mentais não são incluídas na análise. A eco-
Alguns também argumentam que o PIB ao
nomia oculta e seu tamanho, que pode ser
menos serve como um bom ponto de par-
grande em alguns países, não são incluídos
tida para a avaliação de uma sociedade e
nessas medições. Intervenções econômicas
seu desenvolvimento, e que existe consis-
que movem atividades da economia oculta
tência nas diferentes abordagens para medir
para a economia aberta podem parecer, para
o desenvolvimento de uma sociedade (Boa-
a estatística, um aumento da riqueza no ní-
rini et al., 2006; OCDE, 2006).
vel macro, mas não mudarão a renda no
O tamanho do PIB em relação às inter-
nível micro. Serviços domésticos, trabalho
venções do setor público é medido com base
social voluntário e interações entre amigos
no insumo (por exemplo, a quantidade de
não são incluídos nas medições clássicas,
dinheiro gasta em questões de bem-estar),
173

l
172
BENT GREVE FELICIDADE

como observado por Frey e Stutzer (2002a), analisará isso, mas destacará os motivos
os quais também afirmam que o nível do pelos quais a medição da felicidade é uma
PIB per capita não mostra a distribuição da área que tem crescido, visto que, até certo
renda ou, como descrito no Capítulo 2, a ponto, pode nos explicar e informar sobre
posição relativa, a aspiração e a adaptação o desenvolvimento e a situação de outros
dos indivíduos. Esses fatores têm implica- elementos e aspectos dos valores centrais
ções no nível de felicidade e, portanto, ser- da sociedade.
vem como argumentos para se afirmar que o
PIB per capita não é uma medição suficiente
para ser utilizada quando se quer descrever Outros elementos que devem
o desenvolvimento de uma sociedade. ser incluídos na análise
Essa foi a base da recomendação do rela-
tório para o presidente francês de que havia Historicamente, cientistas sociais se inte-
uma necessidade de "mudar a ênfase da medi- ressaram em medir aspectos da vida social
ção da produção econômica para a medição do além do desenvolvimento econômico. Nos
bem-estar das pessoas" [grifos originais do anos 1960 e 1970, a pesquisa de indicado-
relatório] (Stiglitz et al., 2009, p.12). Robert res sociais foi uma tentativa de incluir no
F. Kennedy é muitas vezes citado por ter conceito de desenvolvimento de sociedade
dito a respeito do Produto Nacional Bruto aspectos não apenas relacionados a meios
(PNB): "Em suma, ele mede tudo, com exce- objetivos - e, portanto, relativamente sim-
ção daquilo que faz a vida valer a pena". ples - de medir bem-estar, mas também
No entanto, mesmo que concordemos como medir e analisar o bem-estar subje-
que o PNB, assim como o PIB, não são sufi- tivo (Allardt, 2003).
cientes, nem instrumentos precisos, para Pesquisas sobre o bem-estar subje-
medir o desenvolvimento de uma socie- tivo tentaram estabelecer indicadores que
dade, essa informação em si não nos diz o pudessem medir novas áreas. Isso incluía
que deve ser incluído na medição e que tipo elementos como satisfação, acesso a recur-
de falhas tal medição terá. A próxima seção sos sociais, relacionamentos sociais e o
174 175
FELICIDADE
BENT GREVE

entendimento de como as sociedades fun- educação e governo - incluindo medições


cionam (European Foundation for the Im- como taxa de crimes violentos, nível de
provement of Living and Working Condi- dióxido de enxofre no ar, participação em
esportes organizados, índices de volunta-
tions, 2003). A renovação de indicadores
• riado, público total em espetáculos de artes
sociais se deu com o trabalho da OCDE
cênicas, casa própria, registro nas áreas de
(2005), entre outros estudos, e regular-
ciência e de engenharia, taxa de gravidez
mente na série de livros Societies at a Glance
na adolescência e participação na força de
[Sociedades em um relance]. Esses livros
trabalho (Diener et al., 2009, p.24). Die-
centram-se em autossuficiência, igualdade,
ner e colegas também apontam para vários
saúde e coesão social, e a pesquisa de indi- domínios em que poderia ser importante
cadores sociais, da forma desenvolvida pela usar e implementar medições de indica-
OCDE, aumentou a consciência de que dores, como em relação a bens materiais,
outros aspectos além dos clássicos mone- saúde, produtividade, segurança, intimi-
tários são importantes. Dados sobre expec- dade, comunidade e espiritualidade.
tativa de vida são apenas um exemplo, mas Isso sem mencionar que não existem pro-
a capacidade de financiar e pagar por ser- blemas relacionados ao uso e à medição de
viços básicos é outro, e os relacionamentos indicadores subjetivos (Hoorn, 2008). Agre-
sociais são outra questão central a ser con- gar - conforme discutido anteriormente em
siderada. O foco na pesquisa de indicadores relação a felicidade - e escolher indicado-
sociais mostra por que não apenas fatores res não são problemas. É por isso que pode
objetivos importam na medição e na descri- haver opiniões divergentes sobre que tipo de
ção de como um país está se desenvolvendo. índice utilizar, muito embora possa existir
Também é importante saber e ter consciên- convergência entre várias abordagens, impli-
cia de como os indivíduos analisam e se sen- cando que "alternativas sérias ao PIB estão
tem a respeito das situações de suas vidas. bem próximas" (Fleurbaey, 2009, p.l.070).
Nos Estados Unidos, indicadores ali- Argumentou-se que elas são importantes,
nhados com essa ideia estão presentes em mas não porque serão objetivas (Diener et
áreas cruciais, como crime, meio ambiente, al., 2009) .
177
176
BENT GREVE FELICIDADE

Entretanto, a nova abordagem para ten- e felicidade. Ainda, a percepção individual


tar integrar aspectos não monetários para de suas vidas é um importante indicador da
se retratar o desenvolvimento da sociedade sociedade, como discutido no Capítulo 2.
pode ser entendida como uma técnica que Sociedades coerentes são vistas como
transmite informações a respeito de elemen- mais produtivas, e isso mais uma vez enfa-
tos importantes para a vida cotidiana e, pre- tiza a necessidade de integrar esses aspec-
sumidamente, do desenvolvimento a longo tos ao se descrever o desenvolvimento da
prazo da sociedade (ver também "Felici- sociedade.
dade, relacionamentos sociais e outros ele-
mentos importantes", no Capítulo 4).
Novas medidas do desenvolvimento
Recentemente, viu-se um interesse cres-
de uma sociedade
cente em capital social, como mencionado
anteriormente, e também em como alcan-
No Butão, foi desenvolvido um índice de
çar sociedades coerentes. O capital social, "felicidade nacional bruta". Na maioria dos
medido pela relação com outros, é, assim, países, isso não é visto como uma opção, já
um exemplo de indicador que pode ser que talvez seja estritamente focado em um
utilizado. Um problema de alguns indi- único aspecto da vida humana. Portanto,
cadores sociais é que se voltam ao enten- podem-se fazer esforços para integrar con-
dimento subjetivo que cada pessoa tem ceitos mais clássicos de bem-estar a novos
de sua vida; por exemplo, se conseguem tipos de índices. É isso que o grupo de refle-
arcar com suas despesas. Esse pode ser xão britânico New Economics Foundation
um problema mesmo se alguém que, do (NEF) fez ao criar um cálculo nacional do
ponto de vista objetivo, seja rico ou relati- bem-estar (o qual será descrito na p.l80).
vamente rico disser não ser capaz de arcar Também a seguir, haverá uma curta apresen-
com suas despesas, ou se declarar como tação do Índice de Prosperidade Legatum,
vivendo em pobreza. No entanto, pode-se criado por outro grupo de reflexão.
também defender que esse é um problema Uma crítica a esses tipos de índices é que
quando se quer medir confiança, ansiedade eles ignoram os aspectos mais tradicionais,

178 179
BENT GR EVE FELICIDADE

1
como crescimento econômico, e, portanto, A sugestão do NEF a respeito do bem-
voltam-se pouco a aspectos econômicos da -estar pessoal (ver a Figura 5.1) está divi-
sociedade moderna, embora, por exemplo, o dida em cinco seções diferentes, sendo que
Índice Legatum combine renda e bem-estar três delas têm subdivisões. O bem-estar
(Legatum Institute, 2010). emocional está dividido em sentimentos
Novos meios de medir o desenvolvi- positivos e ausência de sentimentos negati-
mento de uma sociedade podem incluir vos, enquanto resiliência e autoestima estão
uma variedade mais ampla de indicadores. divididas em autoestima, otimismo e resi-
O NEF inclui o bem-estar pessoal, o bem- liência. Funcionamento positivo tem qua-
-estar social e a satisfação no trabalho. O tro subcategorias: competência, autonomia,
bem-estar social está dividido em relaciona- comprometimento e importância e propó-
mentos incentivadores, confiança e perten- sito (NEF, 2008). Este livro não é o lugar
cimento, mas existe apenas um indicador de para uma discussão detalhada sobre cada
satisfação no trabalho. O bem-estar pessoal um dos componentes ou subcategorias, já
será descrito a seguir. Os dados usados para que o objetivo principal é sondar e indicar
a construção dos valores nos cálculos foram que existem outras opções além das medi-
retirados do European Social Survey (ver o das tradicionais para uma análise.
Capítulo 3), que utilizou a mesma pesquisa O índice calculado mostrou a Dinamarca,
como principal fonte de dados para a aná- a Suíça e a Noruega no topo, e a Ucrânia, a
lise deste livro. Bulgária e a Eslováquia na parte mais baixa.
Dessa forma, em grande medida, lembra os
resultados baseados no uso de uma única
pergunta sobre felicidade. A questão sobre
a felicidade está de fato incluída, já que duas
questões relacionadas ao bem-estar emo-
Figura 5.1 Bem-estar pessoal e cinco subcategorias
Nota: O Apêndice 3 do relatório apresenta as questões relaciona- cional são: "Levando tudo em considera-
das a cada um dos componentes descritos, e, assim, um compo- ção, quão feliz você afirmaria ser?" e "Na
nente pode ser baseado em várias perguntas. Vida satisfatória, por
exemplo, está baseada em quatro perguntas (NEF, 2008, p.21). semana passada, por quanto tempo você se

180 181
FELICIDADE
BENT GREVE

peso deve ser dado aos aspectos monetários


considerou feliz?". Visto dessa forma, esse
e aos não monetários da medição.
cálculo e essa medição podem originar qua-
Outra abordagem dos grupos de reflexão
dros de países que nos informam a respeito
é o índice de prosperidade, que combina
de mais aspectos do que abordagens econô-
micas clássicas. oito subíndices relacionados aos seguintes
Entretanto, também pode sofrer críti- elementos: economia, empreendedorismo e
cas, porque, de fato, não integra à análise oportunidade, governança, educação, saúde, .
elementos econômicos como o desenvol- proteção e segurança, liberdade pessoal e
vimento da renda e das possibilidades de capital social. Para cada um deles, existe
consumo, a relação com outros países e a um componente de renda e de bem-estar, de
sustentabilidade a longo prazo nos setores forma que, no total, combinam-se 89 variá-
públicos. Diante da discussão sobre "bem- veis, e, pelo que se diz, todas têm impacto
-estar" (ver "Felicidade e bem-estar", Capí- no crescimento econômico ou no bem-estar
tulo 2), pode ser útil articular esses índices pessoal. Bem-estar é usado de forma equiva-
para formar uma combinação em que este- lente a satisfação com a vida e a felicidade,
jam incluídos não apenas elementos subjeti- e alguns dizem, como já mencionado várias
vos relacionados ao bem-estar e à felicidade, vezes neste livro, que existe uma relação
mas também o desenvolvimento econô- entre esses elementos. O Legatum combina
mico da sociedade como um todo. Isso se de outra forma, argumentando: "Riqueza
deve ainda ao fato de que a renda, ao menos material não pode ser explicada apenas por
até certo ponto, tem impacto na percepção fatores econômicos, e a felicidade não pode
individual sobre o cotidiano e a felicidade a ser explicada apenas por emoções subje-
longo prazo. Uma rápida mudança nas con-
tivas" (Legatum Institute, 2010, p.9). Os
dições econômicas também pode ter um
dados da análise assemelham-se a muitos
impacto negativo no nível de felicidade de
dos apresentados anteriormente, e esse
uma pessoa. A discussão aqui será sobre
índice articula-se usando coeficientes calcu-
;~
como combinar os elementos. É, em grande
lados para chegar-se a um resultado. ·
medida, uma questão normativa de quanto
183
182
B E NT GREV E

Apenas para exemplificar, o subíndice


FE LI C IDADE

Tabela 5.1 Elementos de um índice de subeconomia


Renda !:Sem-estar
'I
economia é calculado utilizando os elemen-
Políticas macroeconômicas:
tos apresentados na Tabela 5.1 . Poupança doméstica bruta Inflação
A Tabela 5.1 mostra a necessidade de se Taxa de desemprego Poupança doméstica bru~a

combinar meios mais clássicos de medir Inflação


o desenvolvimento de uma sociedade e os Alicerce para o crescimento:
novos tipos de indicadores. Satisfação com Capital por trabalhador Satisfação e expectativas
econômicas
a vida e felicidade, portanto, têm um impor- Tamanho do mercado
Exportação de alta tecnologia \ Satisfação com padrão de
tante papel para se gerar quadros mais clás- vida
Investimento estrangeiro
sicos do desenvolvimento de uma sociedade. direto (IED) e volatilidade
Alimentação e moradia
adequadas
Os resultados de análises colocam os paí-
Percepção da
ses nórdicos da Europa, a Austrália, a Nova disponibilidade de
Zelândia e o Canadá no topo. Nas posições empregos
mais baixas entre os 110 países estão o Expectativas sobre a
economia
Zimbábue, o Paquistão e a República Cen-
Taxa de crescimento em
tro-Africana. Países africanos, em geral, cinco anos
encontram-se nas posições mais baixas. Eficiência do setor
Mesmo podendo haver críticas em relação financeiro:
ao modo como isso é realizado, trata-se de Empréstimos improdutivos \ Confiança em instituições
financeiras
um claro indicador de que são importantes Fonte: Legatum Institute, 2010, p.27.
novas formas de entendimento e medição
do desenvolvimento dos Estados de bem-
-estar social, levando-se em consideração
que as abordagens clássicas apresentam ape- Em síntese

nas um panorama - embora seja um pano-


O uso de medições econômicas clássicas
rama importante - do desenvolvimento. Um
problema central pode ser os muitos e varia- não é suficiente para nos informar sobre o
dos dados - e também sua validade que, ao desenvolvimento do bem-estar, nem sobre
menos em alguns países, não é muito alta. a sustentabilidade de uma sociedade. O PIB

184 185
FELICIDADE
BENT GREVE

vida melhor não apenas a curto prazo, mas


tem várias falhas e problemas, relacionados
também de forma mais duradoura.
não apenas a como medir renda e riqueza,
No entanto, corre-se o risco de esses
mas também ao que não está incluído,
novos índices tornarem-se tão complicados
como relacionamentos pessoais e trabalhos
e detalhados, que as árvores serão confun-
domésticos e a redução da sustentabilidade didas com a floresta. A implicação disso é
econômica e ecológica a longo prazo. Ao que a utilização de dados sobre a felicidade
mesmo tempo, quase sempre parece exis- pode ser um instrumento simples e rela-
tir uma boa relação entre desenvolvimento tivamente preciso e um bom suplemento
econômico e muitos indicadores subjeti- aos dados econômicos clássicos sobre
vos de bem -estar. Medir a renda e a riqueza desenvolvimento.
médias não nos informa netn sobre a distri-
buição do resultado nem sobre os elemen-
tos mais complexos da medição.
Portanto, pode ser importante desenvol-
ver novos índices combinados nos quais
não se está apenas tentando descrever e
demonstrar como são os dias atuais utili-
zando-se indicadores econômicos, mas tam-
bém incluir a percepção e o entendimento
individual da própria felicidade. Portanto,
não é suficientemente preciso o argumento,
de um ponto de vista utilitário, de que os
resultados do mercado já bastam para nos
informarmos bem sobre a felicidade das
pessoas. Precisamos incluir uma medição
mais equilibrada e precisa para termos cer-
teza de que sabemos o que indicará uma
187
186
~
6

CONCLUSÕES

Introdução

Este capítulo resumirá os argumen-


tos expostos e mostrará como descrever e
entender os desenvolvimentos recentes nas
pesquisas e nos conhecimentos sobre feli-
cidade. Concluirá defendendo que os estu-
dos sobre felicidade são importantes para
o desenvolvimento de uma boa sociedade e
mostrando meios para que o conceito seja
utilizado visando a aumentar nosso conhe-
cimento em disciplinas centrais das ciên-
cias sociais e como eles podem nos capacitar
a entender melhor as sociedades atuais.
Também destacará o que ainda pode estar
BENT GREVE
FELICIDADE

faltando na análise e no uso do conceito de pessoas felizes são mais saudáveis e vivem
felicidade. mais. Também sabemos que ganhar produ-
Para muitos pesquisadores e pessoas zirá apenas um breve aumento no nível de
nas sociedades, as perguntas sobre felici- felicidade.
dade costumam ser vistas como problemá- As pessoas, na verdade, são capazes de
ticas. O argumento diz que é exatamente a responder sobre o que entendem por felici-
opção dos indivíduos o que mostra como dade não apenas a curto prazo, mas também
suas vidas são e o que é melhor para eles, e a longo prazo. A implicação é, por exemplo,
ao se juntarem esses elementos descobre- que, mesmo que uma pessoa tenha sofrido
-se como um alto nível de felicidade pode um acidente, ficado doente ou perdido o
ser alcançado por um libertário. Esse, no cônjuge - embora isso tenha um impacto
entanto, não parece ser o caso. negativo em seu nível real de felicidade -,
é possível retornar ao nível anterior, ou
pelo menos próximo dele, e também refle-
O que sabemos? tir sobre a felicidade no decorrer da vida.
Isso ajuda a explicar por que a relação entre
Sabemos que em várias áreas existe uma felicidade e idade, na maioria das análises,
relação clara entre felicidade e aspectos cen- tem forma deU - mais alta quando jovem
trais e importantes para o desenvolvimento ou idoso (ainda que por razões distintas).
dos Estados de bem-estar social. Uma pes- Na maioria dos sistemas de Estados de
soa feliz muitas vezes será alguém que está bem-estar social, ter um emprego é impor-
empregado, casado, tem religião, tem bons tante para o nível de felicidade, embora tra-
relacionamentos sociais, é otimista e confia balhar mais horas possa ser negativo para o
em outras pessoas. O tamanho e o impacto nível de felicidade individual. Isso depende ·,·~
variam entre cada país, devido às estrutu- do desempenho econômico do país. As ·~
ras históricas e institucionais. pessoas preferem ter alguma coisa que as
Sabemos que a renda tem um impacto, motive a acordar, e para muitos isso prova-
ao menos até atingir certo patamar, e que velmente significa ter um emprego. Tendo
190 191
tHNT GREVE FELICIDADE

em vista o impacto da educação na parti- levando em consideração as análises, os


cipação na sociedade e o aumento da pos- governantes que desejam uma sociedade
sibilidade de se ter um emprego, um nível mais feliz deveriam pensar em como alcan-
educacional mais alto e o aprendizado con- çar mais igualdade sem perder eficiência.
tinuado podem ser elementos centrais a Não fica claro na análise se isso também
se desenvolver caso uma sociedade queira implica uma necessidade por níveis iguais
aumentar sua felicidade; ainda que o tempo de felicidade.
livre, incluindo momentos com família e Políticas sociais e os Estados de bem-
amigos, seja muito importante para mui- -estar social têm um papel no nível de feli-
tas pessoas. cidade. Portanto, se os governantes desejam
Confiar em outras pessoas e no sistema uma nação mais feliz, eles terão de observar
político e ter bons relacionamentos sociais o papel do Estado de bem-estar social. Isso
pode ser considerado fundamental para o pode incluir, entre outras coisas, segurança
nível de felicidade de muitas pessoas. Parti- de renda, garantia de empregos, alto nível de
cipar de trabalho voluntário, e com isso ter igualdade, um bom sistema de saúde, gover-
bons relacionamentos, aumenta o nível de nança estável e uma sociedade confiável e
felicidade. Talvez não seja o trabalho volun- coerente.
tário em si que aumente a felicidade, mas Governantes podem fazer uso das pes-
realizá-lo propicia ao indivíduo relaciona- quisas sobre felicidade como guias diferen-
mentos sociais e contato com outros. tes das medições clássicas de efetividade, de
Sociedades mais igualitárias são, segundo forma que, se, por exemplo, dois tipos de
a maior parte das análises, mais felizes do intervenção tiverem a mesma eficácia em ter-
que as menos igualitárias. No entanto, mos de custo, eles possam escolher aquele
isso não nos diz exatamente qual deveria que garante uma melhoria mais substancial
ser o nível de igualdade, comparando com no nível de felicidade. Às vezes, se a felici-
o debate sobre igualdade e sobre como as dade figura no topo da lista de prioridades
pessoas reagem a incentivos para realizar da sociedade, é possível que sejam impor-
mais e melhor para a sociedade. Entretanto, tantes intervenções visando à melhoria da
192 193
BENT GREVE FELICIDADE

felicidade. Um bom exemplo pode ser que a fundo para garantir que conselhos sobre
capacidade de andar com segurança nas ruas políticas, baseados nas pesquisas sobre feli-
à noite requeira mais policiais fazendo ronda, cidade, façam o equilíbrio entre o que tem
mesmo que do ponto de vista econômico um impacto na felicidade e os resultados de
isso não seja eficiente. Um problema pode outros tipos de relação. É preciso explorar
ser que, como será detalhado na próxima mais o possível intercâmbio entre diferen-
seção, nem sempre sabemos o que tornará as tes aspectos da felicidade e do desenvolvi-
pessoas mais felizes, especialmente quando mento da sociedade.
elas precisam escolher entre diferentes tipos Precisamos saber mais sobre como evitar
de intervenção. Além disso, é importante o risco da rotina hedônica, em que, mesmo
encontrar uma maneira de estabelecer pos- quando alguma coisa é melhorada, haverá
síveis opções e informar as pessoas. uma busca constante por bens e serviços
melhores e maiores. Ou, colocando de outra
forma: estaria uma política visando a maior
Sobre o que precisamos saber mais a felicidade condenada desde o início, pois,
fundo? mesmo que os níveis subam brevemente,
eles voltarão a cair se não houver mais
Um problema central para a pesquisa aumentos de renda ou de diferentes tipos de
sobre felicidade é que a relação causal nem bens e serviços? Como manter a felicidade
sempre é clara. Ela pode ser questionada em também é uma questão em aberto.
diversas áreas. Estariam as pessoas felizes
mais propensas a viver de forma saudável e
ter um emprego, ou seria o inverso? As pes- Em síntese
soas felizes costumam ser mais extroverti-
das e, portanto, ter mais relacionamentos Saber o que torna as pessoas mais felizes
sociais, ou, mais uma vez, seria o inverso? pode ser muito importante e central para
Essas certamente são algumas das ques- o desenvolvimento de sociedades. Precisa-
tões que precisam ser conhecidas mais a mos, ao menos, de algumas informações

194 195
rELICIOAOE
BENT GREVE

séculos, em alguns casos, têm demonstrado


novas e atualizações constantes sobre ele-
mentos que não foram considerados na interesse sobre o que cria uma boa socie-
dade, e uma boa sociedade é muitas vezes
análise econômica tradicional e seus dados -
vista como uma sociedade feliz. O conheci-
como o PIB, a inflação e a taxa de desem-
mento sobre felicidade abre caminhos para
prego - se quisermos julgar o desenvolvi-
outros tipos de entendimento dos motivos
mento do bem-estar de uma sociedade.
para pessoas e sociedades alcançarem um
A felicidade e a pesquisa sobre felicidade
nível específico de felicidade, inclusive pos-
podem ajudar a preencher a lacuna decor-
sibilitando analisar a maneira como isso se
rente da abordagem econômica mais clássica
desenvolve. Se podemos nos tornar mais
do bem-estar. Saber o que gera felicidade,
felizes , às vezes só por pouco tempo, pode-
como indicado em "O que sabemos?", é um
ríamos escolher essa solução em vez de deci-
ponto de partida para a tentativa de mostrar
sões racionais por uma perspectiva a longo
o que pode ser importante para o desenvol-
prazo. A busca pela felicidade sem dúvida
vimento da sociedade.
continuará, e, portanto, será sempre impor-
Quando, por exemplo, sabemos que a
tante a forma como Estados, mercados e a
felicidade melhora a saúde e que pessoas
sociedade civil podem ajudar a alcançá-la.
felizes vivem mais, isso pode implicar uma
situação de duplo ganho, tanto para os gas-
tos do setor público como para a economia
doméstica privada. Reduzir o desemprego
é outro exemplo semelhante: melhorará a
economia da sociedade e também seu nível
de felicidade. Ao mesmo tempo, presume-
-se que não haja necessidade de aumentar
as horas que uma pessoa gasta no trabalho.
A felicidade e a pesquisa sobre felicidade
estão aqui para ficar. Estudos econômicos,
sociológicos, filosóficos e psicológicos, há
197
196
A , l
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS

ALESINA, A.; TELLAB, R. & MACCULLOCH, R.


Inequality and happiness: are Europeans and
Americans different? ]ournal of Public Economics,
88. p.2.009-42. 2004.
ALLARDT, E. On the relationship between objec-
tive and subjective predicaments. Research Reports,
n.16. Helsinque: Research Grcup for Comparative
Sociology, University ofHelsinki, 1977.
- - · Den sociala rapportening tidstypiska fórank-
ring. Working Paper, 14. Bergen: Stein Rokkan Cen-
tre for Social Studies, 2003.
ANAND, P. & CLARK, A. Symposium introduction:
life satisfaction and welfare economics. The ]our-
nal ofSocio-Economics, 35. p.177-9. 2006.
ARGYLE, M. The psychology of happiness. Nova York:
Methuen, 1987.
_ _ . Causes and correlates of happiness. ln:
KAHNEMAN, 0.; DIENER, E. & SCHWARZ,
N. (eds.). Well-being: The foundations of hedonic
BENT GREVE
FELICIDADE

psychology. Nova York: Russell Sage Foundation,


BLANCHFLOWER, D. & OSWALD, A. Hyperten-
1999. p.353-73.
sion and happiness across nations.journal ofHealth
ARGYLE, M. The psychology of happiness. Londres e Economics, 27 (2). p.218-33. 2008.
Nova York: Routledge, 2001. BOARINI, R;]OHANSSON,A. &MIRAD'ERCOLE,A.
ARGYLE, M. & MARTIN, M. The psychological Alternative measures of well-being. OECD Eco-
causes of happiness. ln: STRACK, F.; ARGYLE, nomics Department Working Papers, n.476. Paris:
M. & SCHWARZ, N. Subjective Well-being. Oxford: OECD, 2006.
Pergamon Press, 1991. BOK, D. The Politics of Happiness . What government
ARISTÓTELES. Nicomachean Ethics. Tradução e orga- can learn from the new research on well-being.
nização: Roger Crisp. Cambridge: Cambridge Uni- Princeton e Oxford: Princeton University Press,
versity Press, 2000. 2010.
ARROW, K.]. A difficulty in the concept of social BRÜLDE, B. & BYKVIST, K. Happiness, ethics, and
welfare. The ]ournal of Politicai Economy, 58 (4). politics: introduction, history and conceptual
p.328-46. 1950. framework. journal of Happiness Studies, 2010.
BRUNI, L. & STANCA, L. Watching alone: relational
BARR, N. The Welfare State as Piggy Bank. Informa-
goods, television and happiness. journal of Eco-
tion, risk, uncertainty and the role of the state. Oxford:
nomic Behavior and Organization, 65 (3-4). p.506-
Oxford University Press, 2001.
28. 2008 . .
BERG, M. & VEENHOVEN, R. Income inequality CAPORALE, G. M.; GEORGELLIS, Y; TSITSIANIS,
and happiness in 119 nations: in search for an N. & YA PING YIN. Income and happiness across
optimum that does not exist. ln: GREVE, B. (ed.) Europe: do reference values matter? CESifo
Happiness and Social Policy in Europe. Cheltenham: Working Paper, n.2146. Munique, 2007.
Edward Elgar, 2010. CLAPHAM, D. Happiness, well-being and housing
BESHEARS, ]. et al. How are preferences revealed? policy. Policy & Politics, 38 (2). p.253-67. 2010.
]ournal ofPublic Economics, 92. p.l.787-94. 2008. CLARK, A. E. Born to be mild? Cohort effects don't
BJ0RNSKOV, C.; DREHER, A. & FISCHER,]. The (fully) explain why well-being is U-shaped in age.
bigger the better? Evidence of government size of IZA Working Paper, n.3.170. 2007.
life satisfaction around the world. Public Choice, CLARK, A. E. & OSWALD, A.]. A simple statisti-
130. p.267-92. 2007a. cal method for measuring how life events affect
BJ0RNSKOV, C.; GUPTA, N. D. & PEDERSEN, P. happiness. International]ourna[ ofEpidemiology, 31.
]. Analyzing trends in subjective well-being in 15 p.l.l39-44. 2002.
European countries, 1973-2002. journal of Happi- CLARK, A. E.; FRI]TERS, P. & SHIELDS, M. A. Rela-
ness Studies, 9. p.317-30. 2007b. tive income, happiness, and utility: an explanation
for the Easterlin Paradox and other puzzles. jour-
BLANCHFLOWER, D. & OSWALD, A. Well-being
nal of Economic Literature, 46 (1). p.95-144. 2008.
over time in Britain and the USA. journal of Public
COLEMAN,]. Social capital in the creation ofhuman
Economics, 88 (7-8). p. l.359-86. 2004.
capital. journal of Sociology, 94. p.95-120. 1988.
200
201
FELICIDAD E
BENT GREVE

EASTERLIN, R. A. Income and happiness: towards


CULLIS, ].; HUDSON,]. & ]ONES, P. A different
rationale for redistribution: pursuit of happiness a unified theory. The Economic ]ournal, 111. p.465-
in the European Union. ]ournal of Happiness Stu- 84. 2001.
dies, 2010. EES ROUND 3; JOWELL, R. & THE CENTRAL
DANNER, D.; SNOWDON, D. & FRIESEN, W. Pos- CO-ORDINATING TEAM. European Social Sur-
itive emotions in early life and longevity: findings vey 2006/ 2007: Technical Report. Londres: Centre
from the Nun Study.]ournal ofPersonality and Social for Comparative Social Surveys, City University,
Psychology, 80 (5). p.804-13. 2001. 2007.
DELAMOTHE, T. Happiness. Get happy- it's good EUROPEAN COMMISSION. The Social Situation
for you. BM], 331. p.l.489-90. 2005. in the European Union 2008. Bruxelas: European
DIENER, E. & SELIGMAN, M. Beyond money. Comission, 2009 .
Toward an economy of well-being. Psychological EUROPEAN FOUNDATION FOR THE IMPROVE-
Science in the Public Interest, 5 (1). p.1-31. 2004. MENT OF LIVING AND WORKING CONDI-
DIENER, E.; SANDVIK, E.; SEIDLITZ, L. & DIE- TIONS. First European Quality of Life Survey: Life
NER, M. Recent findings on subjective well-be- satisfaction, happiness and sense of belonging. Dub-
ing. Indian ]ournal of Clinical Psychology, 24 (1). lin: Eurofound, 2003. Disponível em: www.euro-
p.25-41. 1997. found.eu.int.
DIENER, E.; SUH, E.; LUCAS, R. & SMITH, H. L. - -· Quality of Life in Europe. Resumé. Dublin:
Subjective wellbeing: three decades of progress. Eurofound, 2004a. Disponível em: www.euro-
Psychological Bulletin, 125 (2). p.276-303. 1999. found.eu.int.
DIENER, E.; SCHIMMACK, U. & HELLIWELL, ]. - - · Quality of life in Europe: an illustrative report.
Well-beingfor Public Policy. Oxford: Oxford Univer- Summary. Dublin: Eurofound, 2004b. Disponível
sity Press, 2009. em: www.eurofound.eu.int.
DUNCAN, G. What do we mean by 'Happiness'? FIELD, ]. Social Capital. Londres e Nova York: Rout-
The relevance of subjective well-being to social
!edge, 2008.
policy. Social Policy ]ournal ofNew Zeland, 25. p.16- - · Well-being and happiness. IFLL Thematic
31. 2005.
Paper, 4. Leicester: NIACE, 2009.
- - · Should happiness-maximization be the goal
FISCHER, ]. Happiness and age cycles - return to
of government? ]ournal of Happiness Studies, 11.
start? On the functional relationship between sub-
p.163-78 . 2010.
jective well-being and age. OECD Social, Employ-
DURAYAPPAH, A. The 3P model: a general theory
ment and Migration Working Papers, n.99. Paris:
of subjective well-being. ]ournal of Happiness Stu-
dies, 2010. OCDE, 2009 .
FLEURBAEY, M. Beyond GDP: the quest for a mea-
EASTERLIN, R. A. Will raising the income of all
sure of social welfare. ]ournal of Economic Litera-
increase the happiness of ali? ]ournal of Economic
Behavior and Organization, 27. p.35-47. 1995. ture, 47 (4). p.l.029-l.075. 2009.

203
202
FELICIDADE

'
BENT GREVE

HlRSCH, F. Social Limits to Growth. Londres: Rout-


FORS, F. Happiness in the extensive welfare state:
Sweden in a comparative European perspective. ledge, 1977.
HO, L. S. Happiness and Public Policy. Hong Kong : Eco-
ln: GREVE, B. (ed.). Happiness and Social Policy in
nomics Department and Centre for Public Policy
Europe. Cheltenham: Edward Elgar, 2010.
FREY, B. S. & STUTZER, A. What can economists Studies, Lingnan University, 2010.
learn from happiness research? journal of Econo- HOORN, A. van. A short introduction to sub jective
mic Literature, XL (2). p.402-35. 2002a. well-being: its measurement, correlates and policy
- -· Happiness and Economics. How the economy and uses. OCDE. Statistics, Knowledge and Policy 2007,
institutions affect well-being. Princeton: Princeton Paris: OCDE, 2008.
University Press, 2002b. HYLLAND ERIKSEN, T. jakten pa lycka i overflodssa-
GOERNE, A. The capability approach in social pol- mhiillet. Nora: Bokforlaget Nya Doxa, 2008.
icy analysis. Yet another concept? Recwowe Working lNGLEHART, R.; FOA, R.; PETERSON, C. & WEL-
Paper on the Reconciliation of work and welfare in ZEL, C. Development, freedom, and risin g hap-
Europe. Edimburgo: University ofEdinburgh, 2010. piness. Perspectives on Psychological Science, 3 (4) .
GRAHAM, C. Happiness and health: lessons - and p.264-85. 2008.
questions- for public policy. HealthAffairs , 27 (1). ]OHNS, H. & ORMEROD, P. Happiness, Economics
p.72-87. 2008. and Public Policy. Londres: The lnstitute of Eco-
_ _ . Happiness around the World: The paradox of nomic Affairs, 2007.
happy peasants and miserable millionaires. Oxford: JORDAN, B. Welfare and Well-being. Social Value in
Oxford University Press, 2009 . Public Policy. Bristol: Policy Press, 2008.
GREVE, B. What is welfare? Central Europeanjournal KACAPYR, E. Cross-country determinants of satis-
ofPublic Policy, 2 (1) . p.52-75, 2008. faction with life. International ]ournal of Social Eco-
_ _ . Can choice in welfare states be equitable? nomics, 35 (6). p.400-16. 2008 .
Social Policy & Administration, 43 (6) . p.543-56. KAVETSOS, G. & SZYMANSKI, S. National well-be-
2009. ing and international sports events.]ournal ofEco-
___ (ed.). Happiness and Social Policy in Europe. nomic Psychology, 31. p.158-71. 2010.
Cheltenham: Edward Elgar, 2010. KESEBIR, P. & DIENER, E. ln defence ofhappiness:
HAIDT, ]. The Happiness Hypothesis . Londres: Arrow why policymakers should care about subjective
Books, 2006. well-being. ln: BRUNI, L.; COMIN, F. & PUGNO,
HAIDT, ].; SEDER, P. & KESEBIR, S. Hive psychol- M. Capabilities and Happiness. Oxford: Oxford Uni-
ogy, happiness, and public policy. journal of Legal
versity Press, 2008 .
Studies, 37. p.l33-56. 2008.
KNACK, S. Social capital and the quality of gov-
HELLIWELL, ]. How' s life? Combining indivi-
ernment. Evidence from the United States. Policy
dual and national variables to explain subjective
Research Working Paper, 2.504. Washington: The
well-being. Economic Modelling, 20 (2). p.331-60.
2003. World Bank, 2000.

205
204
FELICIDADE
BENT GREVE

KONOW, ]. & EARLEY, ]. The hedonistic paradox: LITTLE, I. M. O. Ethics, Economics and Politics. Prin-
is homo economicus happier? ]ournal ofPublic Econo- cipies of public policy. Oxford: Oxford University
mics, 92. p.1-33 . 2008 . Press, 2002.
LOEWENSTEIN, G. & UBEL, P. Hedonic adapta-
KÓSZEDI, B. Choices, situations, and happiness .
tion and the role of decision and experience util-
]ournal ofPublic Economics, 92. p.1821-32. 2008.
ity in public policy. ]ournal of Public Economics, 92.
KROLL, C. Social Capital and the Happiness ofNations.
Frankfurt: Peter Lang, 2008. p.l.795-810. 2008.
MCMAHAN, E. & ESTES, O. Measuring lay concep-
LAYARD, R. Lionel Robbins Memorial Lectures
tions of well-being: the beliefs about well-being
2002/ 3: Happiness . Has social science a clue?
scale. ]ournal of Happiness Studies. 2010.
RL348b. Proferido em 3-5 mar. na London School MAU, S. & VERWIEBE, R. European Societies. Map-
of Economics. 2003 . ping structure and change. Bristol: Policy Press, 2010.
- -· Happiness. Lessons from a new science. Londres: MYERS, O. Psychology. Nova York: Worth, 2004.
Penguin, 2005 . NEF. National Accounts of Well-being: Bringing real
- -· Introduction. ]ournal of Public Economics, 92. wealth onto the balance sheet. 2008. Disponível em:
p.l.773-6 . 2008. www.nationalaccountsofwellbeing.org.
LEE, O. Y.; PARK, S. H.; UHLEMANN, M. R. & PAT- NETTLE, O. Happiness. The Science behind your smile.
SULA, P. What makes you happy? A comparison Oxford: Oxford University Press, 2005.
of self-reported criteria of happiness between NG, Y. The East-Asian happiness gap: speculating on
two cultures . Social Indicators Research, 50. p.351- causes and implications. Pacific Economic Review, 7
62. 1999 . (1). p.51-63. 2002.
LEGATUM INSTITUTE. The 201 OLegatum Prosperity NG, Y. & HO, L. (eds.). Happiness and Public Policy:
Index. 2010. Disponível em: www.prosperity.com. Theory, case studies and implications. Houndmills:
LELKES, O. Knowing what is good for you. Empirical Palgrave Macmillan, 2006.
analysis of personal preferences and the 'objective NORDHAUS, W. & TOBIN, ]. Is growth obsolete?
good' . The ]ournal of Socio-Economics, 35 . p .285- Cowles Foundation Paper, 398 . p.509-64. New
307. 2006a. Haven: Yale University, 1973. Reimpresso a par-
- - · Tasting Freedom: happiness, religion and tir de MOSS, M. (ed.). The measurement of eco-
economic transition. ]ournal of Economic History, nomic and social performance, studies in incarne
59. p.173-94. 2006b. and wealth. ln: National Bureau ofEconomic Research
- - · Happiness across the life-cycle: exploring age- (NBER), 38.
-specific preferences . Policy Brief, 2. Viena: Euro- OCDE. Society ata Glance, 2005 . OECD Social Indica-
pean Centre, 2008 . tors. Paris: OCDE, 2005 .
LEUNG, A.; ]lER, C.; FUNG, T.; FUNG, L. & _ _ . Society ata Glance, 2006. Paris: OCDE, 2006.
SPROULE, R. Searching for happiness: the impor- _ _ . Statistics, Knowledge and Policy 2007: Mea-
tance of social capital. ]ournal of Happiness Stu- suring and fostering the progress of societies. Paris:
dies. 2010. OCDE, 2007.

206 207
rELICIOAOE
BENT GREVE

PRYCKER, V. Happiness on the political agenda?


OCDE. Society ata Glance 2009. Paris: OCDE, 2009.
PROS and CONS. ]ournal of Happiness Studies, 11
OKULICZ-KOZARYN, A. Europeans work to live
and Americans live to work (who is happy to work (5). p.585-603. 2010.
ROTHSTEIN, B. Happiness and the welfare s tate.
more: Americans or Europeans?) . ]ournal of Hap-
Social Research, 77 (2). p.1-28. 2010.
piness Studies. 2010. ROTHSTEIN, B. & STOLLE, D. The quality of gov-
OORSCHOT, W. van & ARTS, W. The social capi- ernment and social capital: a theory of political
tal of European welfare states: the crowding out institutions and generalized trust. QoG Working
hypothesis revisited. ]ournal of European Social Paper Series 2007, 2. Gotemburgo: Gõteborgs Uni-
Policy, 15 (1). p.5-26. 2005. versitet, 2007.
OSWALD, A. ]. Happiness and economic per- SCHIMMEL, J. Development as happiness: the sub-
formance. The Economic ]ournal, 107 (445) . jective perception ofhappiness and UNDP's analy-
p.l.815-3 1.1997. sis of poverty, wealth and development. journal of
OSWALD, A.]. & POWDTHAVEE, N. Does happi- Happiness Studies. 2007.
ness adapt? A longitudinal study of disability with SCHUMAKER, J. F. ln Search of Happiness. Unders-
implications for economist and judges. IZA Dis- tanding an endangered state of mind. Londres: Prae-
cussion Paper, 2.208. Londres: University of Lon- ger, 2007.
don, 2006. SCHWARTZ, C. E.; KEYL, P. M.; MARCUM, J. P. &
BOD, R. Helping others shows differential bene-
OTT,]. Level and inequality of happiness in nations:
fits on health and well-being for mal e and female
does greater happiness of a greater number imply
teens. journal of Happiness Studies, 10 (4). p.431 -
greater inequality in happiness? journal of Happi-
ness Studies, 6. p.397-420. 2005. 48. 2008.
SELIGMAN, M. Authentic Happiness. Using the new
- - · Limited experienced happiness or unlimited positive psychology to realize your potential for lasting
expected utility, What about the differences?]our- fulfilment. Nova York: Free Press, 2002a.
nal ofHappiness Studies. 2010. SEN, A. The economics ofhappiness and capability.
PACEK, A. & RADCLIFF, B. Assessing the welfare ln: BRUNI, L.; COMIN, F. & PUGNO M. (eds.).
state: the politics ofhappiness. Perspectives on Poli- Capabilities and Happiness. Oxford: Oxford Univer-
tics, 6. p.267-77. 2008 . sity Press, 2008.
PEIRO, A. Happiness, satisfaction and socio-eco- - · The Idea ofjustice. Londres: Allen Lane, 2009.
nomic conditions: some international evidence. SLESNICK, D. Empirical approaches to the measure-
Thejournal ofSocio-Economics, 35. p.348-65. 2006. ment of welfare. journal of Economic Literature, 36
POLLOCK, F. Happiness or welfare. Mind, 2 (6) . (4) . p.2.1 08-65. 1998.
p.269-72. 1877. SMITH, K. Reflections on the literature. Review of
POST, G. S. Altruism, happiness and health: it's good Environmental Economics and Policy, 1. p.1-17. 2008.
to be good. International ]ournal of Behavioral Medi- STIGLITZ, ]. E.; SEN, A. & FITOUSSI, J. P. (eds.).
Report by the Commission on the Measurement of
cine, 12 (2) . p.66-77. 2005.
209
208
FELICIDADE
BENT GREVE

WATERMAN, A.; SCHWARTZ, S. & CONTI, R.


Economic Performance and Social Progress . Paris:
The implications of two conceptions of happi-
Commission on the Measurement of Economic
ness (hedonic enjoyment and eudaimonia) for the
Performance and Social Progress, 2009.
understanding of intrinsic motivation. ]ournal of
SUMNER, L. W. Welfare, Happiness, and Ethics. Oxford:
Happiness Studies, 9. p.41-79. 2008 .
Clarendon Press, 2003. WEISBACH, D. A. What Does Happiness Research Tell
TELLA, R. DI & MACCULLOCH, R. J. Gross national Us about Taxation? Chicago: The University of Chi-
happiness as an answer to the Easterlin Paradox?
cago Law School, 2007.
]ournal ofDevelopment Economics, 86. p.22-42. 2008. WILKINSON, N. An Introduction to Behavioral Econo-
TELLA, R. DI, MACCULLOCH, R.]. & OSWALD, mics. Nova York: Palgrave Macmillan, 2008.
A. ] . The macroeconomics of happiness. Review WILKINSON, R. G. The impact of inequality. Social
ofEconomics and Statistics, 85 (4). p.809-27. 2003 . Research, 73 (2) . p.711-32. 2006.
THALER, R. H. & SUNSTEIN, C. R. Nudge. Improving WINKELMANN, R. Unemployment, social capital,
Decisions about Health, Wealth, and Happiness. New and subjective well-being.]ournal ofHappiness Stu-
Haven e Londres : Yale University Press, 2008. dies. 2008 .
VAN PRAAG, B. M. S. The relativity of the welfare YANG, Y. Social inequalities in happiness in the
concept. ln: SEN, A. & M. NUSSBAUM (eds.). United States, 1972 to 2004: An Age-Period-Co-
Quality of Life. Oxford: Clarence Press, 1993. hort Analysis . American Sociological Review, 73.
VEENHOVEN, R. Is happiness relative? Social Indi- p.204-26. 2008 .
cators Research, 24 (1). p.1-34. 1991.
- - · False promise of happiness. ]ournal of Hap-
piness Studies, 10. p.385-6. 2008a.
- - · Healthy happiness: Effects of happiness on
physical health and the consequences for pre-
ventive health care. ]ournal of Happiness Studies, 9.
p.449-69. 2008b.
- - · Measures of gross national happiness. ln:
OCDE. Statistics, Knowledge and Policy 2007. Ca-
pítulo 16. Paris: OCDE, 2008c.
- - · Greater happiness for a greater number. Is
that possible and desirable? ]ournal of Happiness
Studies , DOI 10.1007/sl 0902-01-0-9204-z. 2010.
WALKER, A. Whither welfare? ln : BALLARD,
C.; GUBBAY, ]. & MIDDLETON, C. (eds.). The
Student's Companion to Sociology. Oxford: Black-
well, 1997.
211
210