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O VIOLÃO E A VIDA, OU A VIDA E O VIOLÃO?

UM PASSEIO PELO
PIONEIRISMO DIDÁTICO DO PROFESSOR JOSÉ MÁRIO DE ARAÚJO NO
CIRCUITO VIOLONÍSTICO DO CEARÁ

Cláudio Ferreira Mesquita


claudiomesquita2005@gmail.com
UECE

RESUMO: O presente artigo discorre sobre o pioneirismo didático do professor José


Mário de Araújo no ensino de violão no Estado do Ceará. O nosso percurso inicia-se
ressaltando as particularidades do ofício didático do mestre, a importância do
Conservatório de Música Alberto Nepomuceno como campo de sua ação didática, o
Seminário Internacional de Violão de Porto Alegre em sua sólida formação musical,
enfocando também sua obra de Preservação da Cultura Violonística, e seu relevante
papel na formação dos futuros discípulos. A pesquisa junto às fontes, os depoimentos
dados pelo professor José Mário, bem como algumas considerações gerais,
ampararam a metodologia empregada neste trabalho. Conclui-se que o esforço
empreendido pelo professor, foi de grande relevância para a história do violão
cearense como um todo.

Palavras-chave: Ensino de Violão; Pioneirismo Didático; Violonistas Cearenses;


Preservação da Cultura Violonística.

ABSTRACT: This article discusses the teaching pioneering teacher José Mário de
Araújo in guitar education in the state of Ceará. Our route starts highlighting the
particularities of the teaching of the master craft, the importance of the Music
Conservatory Alberto Nepomuceno as field its didactic action, the International
Seminar Porto Alegre Guitar on its solid musical training, also focusing on his work
Preservation guitaristic of Culture, and its important role in the formation of future
disciples. The survey to sources, the statements given by teacher José Mario, as well
as some general considerations, bolstered the methodology employed in this work. It
concludes that the effort made by the teacher, was of great importance for the history
of Ceará guitar as a whole.

Keywords: Guitar teaching; Pioneering Didactic; Guitarists Cearenses; Preservation of


Culture guitaristic.
1. O OFÍCIO DE MESTRE
Ao adentrarmos o 1Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, nos
deparamos depois de poucos passos, com a cantina da escola, e ao lado a
escada que dá acesso ao auditório. Depois de poucos degraus de subida, se
vê a frente à pequena sala que abrigou por mais de 40 anos a trajetória
marcante do ensino de violão de nossa cidade. Incontáveis são os alunos que
fizeram esse trajeto, o ir e vir de discípulos das mais diversas idades em busca
de aperfeiçoamento na arte das 06 cordas.
Ao chegarmos a frente à sala do professor Zé Mário, (como
carinhosamente era chamado), encontrava-se a porta quase sempre trancada,
pois era necessária a máxima concentração do professor com cada aluno que
a ele se apresentava. Quando se adentrava, encontrava-se sentado, um
senhor sempre impecavelmente trajado, de voz calma e serena, ouvidos mais
que atentos e coração aberto para passar seus conhecimentos, adquiridos
através de anos de experiência no ensino do violão de concerto. A esse relato
confirma a Diretora do Conservatório, Mirian Carlos:
De imediato, chamou-nos a atenção a seriedade com que
encarava o magistério. Chegava sempre antes das aulas
iniciarem e detinha-se longo tempo após seus términos. [...]
José Mário como pessoa é de uma convivência tão harmoniosa
quanto sua vida. Fala mansa, gestos simples, sorriso tímido,
vestir elegante, atributos que sempre elevaram seu conceito e
bem querer entre seus alunos e o respeito e admiração de
seus colegas. (DIÁRIO DO NORDESTE, 2011)
A ele o aluno deveria apresentar as peças e exercícios deixados na aula
anterior. Nesse momento duas facetas se apresentavam: ou o aluno, tendo
feito o dever de casa mostrava ao professor, que atentamente fazia as devidas
correções e observações dos estudos, ou do contrário, um rosário de
desculpas poderiam ser historiadas ao mestre que prontamente prostrava-se a
ouvir cuidadosamente o discípulo. No final, certamente, o aluno receberia um
sábio conselho do mestre, fazendo-nos acreditar que aquela pequena sala,
com um birô no canto e uma estante repleta de partituras, livros e vinis, tinha
uma atmosfera que ia além da música e do ensino de violão, corroborando com
o que nos diz Fernandes:
Educar, portanto, é muito mais importante do que transmitir
conhecimentos. Implica de um lado que o desenvolvimento
profissional do professor é algo em elaboração; de outro lado,
pela complexidade do ofício de educar, há uma dimensão ética
da atividade docente preconizada pelo compromisso político de
sempre buscar o aperfeiçoamento, a informação e o
estabelecimento de um vínculo com os alunos sob sua
influência direta. (FERNANDES, 2009, p.183)
O mestre geralmente guiava seus discípulos sobre a bibliografia de
Isaías Sávio, compreendido por oito volumes, cada um com dois cadernos, um

1
Criado em 1919 pela iniciativa pioneira do maestro Henrique Jorge, a escola depois de alguns anos
fechada com o falecimento do mesmo, retorna suas atividades em 1938 pelas pianistas Branca Rangel,
Nadir Parente e Éster Salgado Studart. Levando o nome do cearense pai do nacionalismo brasileiro,
Alberto Nepomuceno a Instituição forma até hoje, músicos e professores para o cenário nacional e
internacional.
com estudos e outro com peças para cada grau de dificuldade proposto. Além
dos cadernos perfaziam seu material didático, peças e estudos de outros
grandes nomes do violão de concerto, como: Mauro Giulianni, Matteo Carcassi,
Fernando Sor, Ferdinando Carulli, Francisco Tárrega, Dionísio Aguado, entre
outros, além das peças e estudos de Villa-Lobos e João Pernambuco, e os
livros de sua pesquisa sobre a Preservação Violonística do Ceará, com choros
e valsas dos nomes do violão solista da terra.

2. O CONSERVATÓRIO DE MÚSICA ALBERTO NEPOMUCENO: A


CASA DO MESTRE
Criado pela iniciativa pioneira do maestro Henrique Jorge em 1919,
prosseguida por Nadir Parente e Esther Salgado da Fonseca, que em 1938
retornam as atividades da escola, o Conservatório nasce como a principal casa
formadora de músicos do Estado, sendo também determinante na criação do
primeiro Curso Superior de Música do Norte e Nordeste.
Somente em 1938, com a direção de Paurilo Barroso, e o apoio
de Esther Salgado da Fonseca, sua prima, e Nadir Parente, a
escola volta a tomar ritmo funcionando basicamente com aulas
de piano. Nas décadas de 50 e 60 a escola passaria
novamente por um processo de reestruturação criando o
primeiro Curso Superior de Música da região Norte e Nordeste
[...] (SCHRADER, 2002, P.29 Apud FREITAS E ROGÉRIO)
No Conservatório Alberto Nepomuceno até metade da década de 60,
não havia professores de violão em seu quadro didático, sendo o piano, o
principal instrumento lecionado na escola. O surgimento das sociedades
artísticas difusoras da prática violonística como o 2Violão Clube do Ceará e o
3
Circulo Violonístico Villa Lobos, reforçaram a necessidade da inclusão do
violão, junto à nova demanda que se apresentava, como nos diz Freitas e
Rogério:
Na consulta junto às fontes, ficou constatado que nesse
período não havia professor de violão no Conservatório de
Música Alberto Nepomuceno. Para que esse quadro se
modificasse, seria necessária a presença de agentes dentro do
campo musical, dispostos a inserir o ensino de violão em um
contexto institucional. Para isso o instrumento precisaria
ganhar espaço no campo, e nessa perspectiva, alguns fatos
relevantes aconteceram como: O surgimento de sociedades
artísticas voltadas para a difusão da prática violonística como o
Violão Clube do Ceará e o Círculo Violonístico Villa Lobos [...]
(FREITAS & ROGÉRIO, 2013)
Juntamente com as sociedades artísticas que desenhavam um novo
panorama para o acolhimento do violão no Ceará, surgiam os Cursos Livres de
Violão, como aponta (FREITAS & ROGÉRIO, 2013) sendo os mesmos
responsáveis pela formação de muitos violonistas, dentre eles, aquele que

2
No período de 1945 a 1962, um grupo de violonistas, formou o Violão Clube do Ceará, com o intuito
exclusivo de executar músicas ao violão.
3
Foi uma sociedade criada após o término do Clube do Violão, contribuindo para afirmar o violão como
instrumento de concerto na cidade de Fortaleza.
seria o primeiro professor de violão da principal escola de música do período, o
professor José Mário de Araújo.
O professor em 1965, (ano de seu início como professor da cadeira de
violão clássico), organizou os primeiros programas do curso de violão do
Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, como aponta Costa:
É provável que esse processo escolar de formação mais
academicista do violão tenha tido seu começo a partir de 1965,
ano em que o professor José Mário de Araújo veio a compor o
quadro de professores do Conservatório de Música Alberto
Nepomuceno e passou a organizar as primeiras matrizes
curriculares desse instrumento. (COSTA, 2010, p.57)
Neste cenário onde preponderava no Conservatório o ensino de piano,
destacamos a iniciativa do professor José Mário à frente da cadeira de violão
clássico, possibilitando como destacam (FREITAS & ROGÉRIO, 2013), aos
violonistas tomarem posse de um capital institucionalizado, permitindo inclusive
a interação entre os agentes do campo.

3. A SÓLIDA FORMAÇÃO MUSICAL DO MESTRE


O professor José Mário após assumir a cadeira de violão clássico do
Conservatório de Música tinha em mente a preocupação em intensificar seus
conhecimentos, e, sobretudo estar alinhado ao discurso do violão erudito e
seus mestres.
A convite de Antônio Crivelaro, Presidente do Seminário Internacional de
violão da Faculdade de Música Palestrina de Porto alegre, que segundo o
Jornal (O POVO, 1977), já conhecia de nome o cearense, principalmente pelas
informações do maestro Vitor Neves, o professor integrou o júri do IX
Seminário Internacional ao lado do compositor e concertista Marlos Nobre.
O professor Miranda Colignac, também faz referência a sólida formação
pedagógica do mestre em sua apresentação no livro: Preservação da Cultura
Violonística do Ceará.
José Mário leciona violão há mais de vinte anos em nossa
capital e já fez curso de aperfeiçoamento na famosa faculdade
de Música Palestrina, de Porto Alegre, local onde, anualmente,
se realiza Seminário Violonístico, no mais alto nível,
apresentando recitalistas e professores de conceito
internacional [...] (ARAÚJO, 1986, p.15)

No mesmo festival, o mestre participou de vários cursos e minicursos,


com o intuito de atualizar sua didática com os maiores expoentes do violão
atual, revolucionários da técnica erudita.
“Participei de todos os cursos ministrados durante o seminário:
cursos do seminário menor, seminário maior e seminário
pedagógico. Com esses novos conhecimentos, pretendo
desenvolver um trabalho mais atualizado com os meus alunos
do Conservatório de Música Alberto Nepomuceno”. (O POVO,
1977)
No ano seguinte, o professor levou consigo, 05 de seus alunos de maior
destaque para participarem do X Seminário Internacional de Violão de Porto
Alegre, foram eles: Marcos Maia, Paulo Góes, Gerson filho, Marcelo da Justa e
Lecy Praciano, formando assim uma delegação que representou o Ceará,
dando-lhes a oportunidade de conviver com renomados mestres internacionais
do violão, como conta o mestre em entrevista ao Jornal O POVO.
“Para eles, a participação neste Seminário Internacional da
Faculdade Palestrina será de maior importância no crescimento
de sua vida musical violonística, se assim digo é porque já
conheço a importância deste seminário, participei do IX como
convidado e é importante que apareçam mais jovens
executando violão clássico”. (O POVO, 1978)
Portanto, a participação do professor José Mário nos seminários de
violão, seja como júri, convidado ou integrante do corpo docente, foi de grande
importância para o ensino do instrumento na cidade, colocando o mestre em
contato com os conceitos mais atuais de técnica e interpretação violonística, o
que ampliou significativamente o número de alunos do Conservatório
interessados em aprender os segredos da arte das 06 cordas.

4. A OBRA
O professor José Mário deixou como registro para a difusão da música
cearense para violão, dois volumes intitulados: Preservação da Cultura
Violonística do Ceará I e II, sendo um importante resgate de obras que
possivelmente estariam perdidas no tempo.
A primeira edição da obra impressa foi lançada pela então
Imprensa Oficial do Ceará, IOCE, em 1986, dedicada para as
valsas e choros. Nela, o estudioso resgatou para a 4pauta, 14
partituras de composições de sua autoria e de outros autores
5
alencarinos, como Pedro Ventura, Miranda Colignac,
Francisco Soares, Luís Nóbrega, Zivaldo Maia, e Euclides
Lemos, este último carioca, mas, muito ligado ao Ceará e
também amigo dos outros instrumentistas incluídos no livro.
(DIÁRIO DO NORDESTE, 2011)
No prefácio dessa primeira obra, o professor José Mário justifica sua
dedicação a esse trabalho de preservação para a cultura do violão cearense.
Existe na literatura musical violonística, uma considerável
escassez de obras feitas originalmente para esse belíssimo,
exuberante e mágico instrumento – o violão. Pensando nisso e
sentido essa iniquidade, foi que decidi fazer esta pesquisa de
preservação para evitar que músicas como estas, verdadeiras
obras primas, desapareçam no tempo. (ARAÚJO, 1986, p.13)
A primeira edição da pesquisa foi lançada no dia 29 de abril de 1986, no
Auditório Castelo Branco – Reitoria da UFC, onde foi apresentado um recital
comentado das obras do livro.

4
É o conjunto de 5 linhas horizontais, paralelas e equidistantes que formam, entre si, 4 espaços, onde
são escritas as notas musicais.
5
Tudo que refere-se a obra de José de Alencar, assim como todas as pessoas naturais da cidade de
Fortaleza, devido a ser a terra natal do mesmo.
O mestre em algumas conversas sobre sua obra, em sala de aula,
comentou como tinha sido o processo de recolhimento deste acervo musical
para o violão cearense. “Eu saía à procura desses compositores de violão,
frenquentava suas casas (e olha que muitos deles residiam no interior do
Estado). Levava comigo o gravador portátil e pedia que executassem suas
composições ao violão. O mais interessante é que depois de gravar a primeira
vez, pedia que o autor repetisse a música, no entanto, ela saía bem diferente
da execução gravada, aí eu privilegiava a primeira gravação. Depois de escrita
a música e ao executar para o compositor, alguns deles questionavam que sua
composição não era daquele jeito... aí eu prontamente lhes mostrava o áudio
gravado por eles”.
Logo em seguida o professor enaltece o talento e potencial autodidata
dos músicos cearenses e a riqueza de suas canções.
O Ceará é rico de potenciais musicais natos que a despeito da
ausência de qualquer conhecimento musical, possuem um
manancial de obras bem moduladas. Cada cearense que
nasce, traz no próprio sangue a música que é a poesia dos
sons, e que se perderá irremediavelmente, por nada ficar
escrito. (ARAÚJO, 1986, p.13)
O mestre fala também das dificuldades de se recolher o material de
pesquisa, o mesmo cita em entrevista, a árdua missão do contato permanente
com a 6métrica de cada compositor, para se conseguir o produto final da
pesquisa.
“Vale salientar o esforço e as dificuldades que o pesquisador
enfrenta num trabalho desse gênero, onde tem de usar toda
sua habilidade, destreza e conhecimento para conseguir
realizar a contento aquilo a que se propôs. A maioria desses
compositores desconhece qualquer teoria musical, o que faz
que o trabalho seja árduo e moroso, obrigando o pesquisador,
pela necessidade de uma convivência com o compositor,
dedicar muitas horas ao seu lado, para sentir bem a métrica e a
maneira de apreciar sua música e só daí passar a escrevê-la”.
(DIÁRIO DO NORDESTE, 2011)
No prefácio da obra, o professor faz referência ao legado musical para o
violão cearense e relata sua dedicação e trabalho de recolhimento da pesquisa
desprendida a essa publicação.
“Pelo total desconhecimento da sua intectualidade musical e
por não saber sequer escrever partituras, esses compositores
iriam permanecer no anonimato e igual destino teriam as suas
composições, não fossem a tenacidade, a garra, o
desprendimento do lazer, a renúncia da família e a dedicação
integral dessa jornada a que me propus, para salvar esse
importante acervo”. (DIÁRIO DO NORDESTE, 2011)
Após a primeira etapa da catalogação de sua obra, o professor descreve
o árduo trabalho dispensado na pesquisa e enfatiza a necessidade de fazer
justiça ao violão pela extraordinária capacidade de expressar os mais

6
É a divisão de uma linha musical em compassos marcados por tempos fortes e fracos, representada na
notação musical ocidental por um símbolo chamado de fórmula de compasso.
surpreendentes efeitos sonoros destacando suas características de 7timbre,
8
melodia e 9harmonia, por vezes despercebidas do grande público.
‘“Depois dessa longa e trabalhosa pesquisa, torno realidade
este anseio de fazer justiça ao violão, instrumento que, apesar
de aparentemente não demonstrar a sua extraordinária
capacidade timbrística, melódica e harmônica, é capaz de
produzir através de sua complexidade, os mais surpreendentes
efeitos na execução de uma partitura”. (DIÁRIO DO
NORDESTE, 2011)
Aqui fazemos referência ao repertório da primeira obra, composto
inicialmente de duas composições de sua autoria: Estudo (dedicado ao
violonista Turíbio Santos, que como frisa o autor: a composição deve ser
interpretada a primeira vez 10scherzando e da segunda vez em forma de
chorinho), e Canção para Cleomar (linda melodia em forma de canção que
homenageia sua esposa Cleomar), seguido de duas composições dos
violonistas: Pedro Ventura, Miranda Colignac, Francisco Soares, Luís Nóbrega,
Zivaldo Maia e Euclides Lemos.
O volume II é composto por 10 músicas também com ênfase para valsas
e choros, ressaltando a obra de compositores do volume I como: Francisco
Soares, Miranda Colignac, Luís Nóbrega, e outros nomes como: João Lima e
Maciel Neto.
O projeto, a princípio pensado para sair em três volumes,
completa mais um passo esta semana. Após quatro anos,
época em que lançou o volume I, José Mário mostrará ao
público hoje, no espaço cultural da AABB, a segunda parte de
seu trabalho. Às 21 horas, ele estará lançando o livro:
Preservação da Cultura Violonística do Ceará – Coleção de
Partituras. (DIÁRIO DO NORDESTE, 1992)
Por tudo, devemos reconhecer, o belo pioneirismo de resgate de nossa
música violonística cearense feito pelo professor José Mário, que agora pode
repousar sem remorsos de ter sido esquecida, e de compositores que fizeram
sua história e que agora tornam-se eternizados por seu registro bibliográfico.

5. O PERCURSO DIDÁTICO

O professor José Mário sempre destacou em suas aulas, como


prioridade para um bom desempenho do violonista, o conceito de técnica. A
esse conceito está intrinsecamente ligado o aprimoramento da sonoridade e
formação da execução musical, sendo preponderante na expressão musical do
violonista.
Ao pensarmos que a qualidade do som produzido pelo
instrumentista é um dos meios para executar uma determinada

7
Característica sonora que nos permite diferenciar cada som, ou seja, a cor ou identidade de cada
elemento sonoro.
8
É uma sucessão coerente de sons e silêncios, que se desenvolvem em uma sequência linear com
identidade própria.
9
É o campo que estuda as relações de encadeamento dos sons simultâneos.
10
Anotação musical que indica que determinada passagem deve ser executada de maneira chistosa ou
graciosa.
obra musical, podemos entender a sonoridade como formadora
da sua execução musical, de modo que a expressividade
artística passará obrigatoriamente pela sonoridade produzida
pelo instrumento. (PIRES, 2006, p.24)
O mestre em vários momentos em que sentia a ausência do recurso de
sonoridade e técnica para uma boa projeção sonora nos dizia: “Vocês ao se
apresentarem em público, devem sempre se lembrar daquela pessoa que está
na última fila do auditório e quer ouvir o seu violão...”. Esse conselho nos
encorajava na difícil missão de extrair sonoridade de um instrumento acústico e
doce como o violão.
Em relação ao toque da mão direita (mão que pinça as cordas) o
professor tendia para o método da escola de Dionísio Aguado, que privilegiava
os seguintes conceitos:
a) Uso das unhas:
Condição fundamental para se obter uma boa sonoridade na execução
nas cordas pinçadas. O uso das unhas na mão direita torna as variações e o
colorido tonais mais equilibrados, possibilitando alcançar uma dinâmica
desejável.
Embora você não tenha de começar com as unhas da mão
direita longas, mais ou mais tarde precisará deixá-las crescer e
mantê-las para conseguir efetuar as variações tonais
necessárias para tocar violão. Todos os violonistas concordam
que combinar a unha com a parte carnuda do dedo para tocar
a corda é essencial para alcançar todo o espectro de cores
tonais e atingir a vasta dinâmica necessária para músicas no
violão. (Phillips & Mark, 2012, p.32)
b) Combinação de toque com unha e polpa:
O toque inicia-se na polpa que resvala para a unha, resultando na
sonoridade. O controle da combinação do toque da unha com a polpa do dedo
permite ao violonista uma vasta riqueza de sons.
Ser capaz de usar a unha com a carne curvando o dedo para
que a ponta e a unha toquem a corda, em combinações que
permitem graus quase infinitos de sombreamento tonal, é o que
torna a paleta de sons com a mão esquerda do violonista tão
rica. (Phillips & Mark, 2012, p.33)
c) Intensidade e ângulos de ataque:
Variando o ângulo de ataque também se varia a intensidade. O ângulo
de ataque do violonista determina o timbre que o mesmo deseja extrair de seu
instrumento, a simples mudança de posição da mão em relação ao braço e
corpo do instrumento, altera completamente sua sonoridade, modificando,
como nos diz (PINTO, 1999) os timbres que são caracterizados pelos vários
ângulos de ataque ou pulsações, como o toque frontal, ou lateral, ou deixando-
se os dedos recurvados, com e sem apoio.
d) Região de toque e gama de timbres:
Possibilita ao violonista extrair os mais surpreendentes efeitos e até
imitação de outros timbres. Ao violonista compete conhecer e manusear as
diferentes possibilidades timbrísticas que o violão oferece. Essas variações
resultam da mais simples mudança de posição em relação à região do braço
do instrumento, até técnicas específicas como: 11harmônicos, 12vibratos,
13
pizzicatos e 14tremolos.
e) Digitação da mão direita:
A alternância da qualidade sonora em relação à região no braço do
instrumento é conseguida quando variamos a digitação de uma música. A
digitação também proporciona ao violonista, informações fundamentais para a
execução fidedigna de uma peça musical. Ajudando o mesmo na interpretação
e facilitando a leitura da grafia musical.
Aliado a esses conceitos acima listados, o violonista e professor
Henrique Pinto, (ao que o professor José Mário, utilizava frequentemente o
material didático em suas aulas), nos enumera também um conjunto de
elementos que julga serem imprescindíveis ao melhor desempenho do
violonista como um todo.
a) Conceito de Técnica:
O conceito de técnica está intrinsecamente ligado à inteligência musical,
facilitando o intérprete (detentor da técnica) na organização dos complexos,
dando condições ao violonista executor de adapta-se as obras com as mais
variadas linguagens, aliada a memória auditiva e a análise musical.
Portanto, “inteligência musical” é o estado de equilíbrio a que
tendem todas as estruturas: desde os princípios mecânicos,
toda a gama sonora inerente ao instrumento, a memória
auditiva adquirida e todo o conjunto de elementos para a
análise de uma obra. (PINTO, 1999, p.7)
b) Concentração:
Para que o violonista consiga o desempenho esperado com o menor
esforço muscular possível, é necessário ao mesmo concentrar-se e envolver-se
pelo que se está executando.
Estar disperso, somente dedilhando as notas, é um desgaste
de energia muito grande, não trazendo o resultado final
desejado e, portanto, obteremos apenas uma “memorização
muscular” da obra. O controle total de determinada peça
depende do fator “concentração” para que haja uma plena
assimilação. (PINTO, 1999, p.7)
c) Relaxamento:
É fundamental ao violonista, ter consciência de que tocar exige esforço
muscular gerando tensões em várias regiões do corpo, o que pode resultar em
desconforto e desestímulo em prosseguir os estudos.

11
São componentes de um tom harmônico cujo som é multiplicado por um número inteiro, ou adicionado
com uma nota tocada em um instrumento musical.
12
Consiste na oscilação de uma corda de um instrumento musical, utilizando-se um dedo, produzindo
assim um som diferenciado “vibrante” como sugere o nome.
13
É o modo de tocar os instrumentos de corda, pinçando as cordas com os dedos.
14
É a repetição rápida de uma nota ou uma alternância rápida entre duas ou mais notas musicais.
Como o trabalho com o instrumento naturalmente leva a uma
certa tensão, aconselho a fazer alongamentos nos músculos
das costas, ombros, braços e dedos, antes e depois do estudo.
O relaxamento deve ser um comando de dentro para fora do
corpo, a consciência da tensão ou relaxamento deve fazer
parte da natureza do estudante. (PINTO, 1999, p.8)
d) Leitura à primeira vista:
A leitura de um texto musical para o instrumento é um processo de
intimidade do violonista com o seu instrumento, dotando o estudante de
liberdade e agilidade em um primeiro contato com a música.
A decodificação de um texto musical e sua tradução imediata
para o instrumento é um estágio de liberdade, pois resolvemos
com agilidade este primeiro momento de contato com a obra,
para em seguida trabalharmos seus detalhes inerentes.
(PINTO, 1999, p.8)

Os conceitos ressaltados acima eram trabalhados na execução contínua


de exercícios passados pelo professor, que culminavam em uma perfeita
harmonização com os livros de estudos e peças da escola dos violonistas
clássicos, tornando cada violonista apto a interpretar qualquer música, seja ela
clássica ou popular.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa junto às fontes possibilitou apresentamos, além dos detalhes
didáticos, a matéria: O ofício das cordas, entrevista feita quando do
afastamento do professor José Mário da cadeira de violão clássico no
Conservatório por conta de uma enfermidade.
O Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, (casa que acolheu o
mestre por mais de 40 anos de ofício dedicados ao violão) como mencionado,
era uma escola onde prevalecia o ensino do piano, passando a incorporar o
ensino de violão em seu currículo graças à iniciativa pioneira do professor José
Mário na criação da cadeira de violão clássico, possibilitando posteriormente a
levar o violão para o Ensino Superior.
Enfocamos a importância dos Seminários Internacionais de Violão da
Faculdade de Música Palestrina em Porto Alegre, como sendo de grande
relevância para a formação musical do professor José Mário, sua trajetória
nesse seminário, seja como convidado, membro do júri ou professor, o que
marcou definitivamente o ensino de violão em nossa cidade.
Destacamos também a importância da pesquisa do professor José Mário
em seus dois livros intitulados: Preservação da Cultura Violonística do Ceará,
com o registro das obras dos violonistas cearenses, e seu esforço para salvar
esse importante acervo patrimonial do violão cearense, sem o qual, esses
importantes compositores e suas melodias perder-se-iam no passado. As
fontes para a pesquisa giram em torno do prefácio dos próprios livros e
depoimentos dados pelo professor durante as aulas.
Por fim, mencionamos o percurso didático do mestre, e sua influência na
escola clássica de Dionísio Aguado, iniciando pela importância do uso das
unhas para a sonoridade do violonista, a combinação do toque de unha e polpa
e no controle da combinação entre as mesmas, resultando assim na riqueza de
combinações e possibilidades, seguindo para os ângulos de ataque usados
para variar o toque, e a gama de timbres com o uso de harmônicos, vibratos,
pizzicatos, tremolos, bem como, a digitação da mão direita do violonista,
fundamental para a fidelidade aos arranjos interpretados.
Em seguida apresentamos os elementos que formam o complexo campo
intelectual do violonista, à luz do professor Henrique Pinto, destacando os
conceitos de técnica violonística, concentração, relaxamento e leitura à
primeira vista, que formam o que o mestre chama de inteligência musical, o
qual o professor José Mário muito destacava como elemento fundamental para
a boa execução do violonista.
Por tudo, consideramos que a pesquisa empreitada, nos levou a
compreender o esforço e dedicação dispensados pelo professor José Mário
nesses muitos anos dedicados à formação dos violonistas de nosso Estado,
sendo um pioneiro na didática do violão de concerto e um mestre que sempre
ia além do conhecimento musical, o que nos leva a crer na intrínseca
convergência: o violão e a vida, ou a vida e o violão?

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, José Mário. Preservação da cultura violonística do Ceará - Volume I.


Fortaleza: IOCE, 1986.

___________________. Preservação da cultura violonística do Ceará - Volume II.


Fortaleza: IOCE, 1992.

COSTA, Marco Túlio Ferreira. O violão clube do Ceará: hábitus e formação


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Faculdade de Educação, Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira,
Fortaleza – CE, 2010.

DIÁRIO DO NORDESTE. O melhor do violão no Ceará. Caderno 3, p.01. Fortaleza


26 mar. 1992.

FERNANDES, Zenilda Botti. Metodologia pedagógica e suas implicações no contexto


escolar. Docência e Formação de Professores: novos olhares sobre temáticas
contemporâneas. SALES, J. A. M.;BARRETO, M. C.; FARIAS, I. M. S. (Org.) –
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FREITAS, Eddy Lincolln, ROGÉRIO, Pedro. O percurso da prática violonística no
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Ensino Superior do Estado. Anais do XXIII Congresso da ANPPOM – Natal – 2013.
Disponível em:
http://www.anppom.com.br/congressos/index.php/ANPPOM2013/Escritos2013/paper/vi
ew/2256/474 Acesso em: 06 de julho de 2015.

O POVO. Cearense no IX Seminário Internacional de Violão. Fortaleza, p.06, 04


ago.1977.

________. Ceará presente no seminário internacional de violão. Fortaleza, p.08,


03 jul. 1978.

PHILLIPS, Mark. Violão para leigos/por Mark Phillips e Jon Chapell; (tradução:
Silvia Fernanda), - Rio de Janeiro: Alta Books, 2012.

PINTO, Henrique. Iniciação ao violão – Volume II. São Paulo: Ricordi, 1999

PIRES, Aristóteles de Almeida. A sonoridade do violão na execução musical: um


estudo sobre os seus aspectos formadores e a análise de duas gravações das
quatro peças breves de Frank Martin. Porto Alegre 2006. Dissertação (Mestrado em
Educação Musical) – Programa de Pós-Graduação em Música, Universidade Federal
do rio Grande do Sul.

Portal do Diário do Nordeste. O ofício das cordas. Disponível em:


http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/caderno-3/o-oficio-das-cordas-
1.318324 Acesso em: 02 de julho de 2015.

Cláudio Ferreira Mesquita

Graduado pelo Curso de Extensão em Música da UFC, Bacharel em Música pela


UECE e Especialista em Arte-Educação pela Faculdade 7 de setembro. Leciona no
Conservatório de Música Alberto Nepomuceno Violão Clássico e Popular. Regente do
Coral Vozes da UECE. Membro do Grupo de Pesquisa da UECE /IARTEH.
http://lattes.cnpq.br/3788828293515634