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Nelson Pimenta FDL 24761

FACULDADE DE DIREITO DE LISBOA

Direito Comercial

Apontamentos com base nos manuais do Pedro Vasconcelos, aulas teóricas e


práticas do Prof. João Espirito Santo

Não dispensa a consulta do manual de referência

Ano letivo de 2015/2016

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Nelson Pimenta FDL 24761

1- O Direito Comercial geral

 Noção geral; Direito privado

O Direito comercial é correntemente definido como o Direito privado especial do comércio ou dos comerciantes.
O Direito Comercial é Direito privado.

Trata-se de uma área normativa dominada por vetores de igualdade e de liberdade: os diversos sujeitos
apresentam-se sem poderes de autoridade e podem, em princípio desenvolver todas as atividades que a lei não
proíba.

 Direito especial

O Direito comercial é considerado especial. Assim se distinguiria do Direito Civil: Direito comum.

A relação de especialidade ocorre quando, perante um complexo normativo que se dirija a uma generalidade de
situações jurídicas, um segundo complexo, mais restrito mas mais intenso, complete uma situação que, de outro
modo, respeitaria ao primeiro, dispensando-lhe um tratamento particularmente adequado.

Podemos afirmar que a especialidade é relativa: impõe-se quando, perante duas áreas normativas, seja possível
estabelecer uma relação geral/especial.

O Direito Comercial seria especial em relação ao civil, mas surgirá geral em relação ao Direito bancário, ainda mais
especial.

 Direito do comércio ou dos comerciantes

O direito comercial será por fim, o Direito do comércio ou dos comerciantes.

Tecnicamente, o comércio – que engloba em Direito a indústria – é atividade lucrativa da produção, distribuição e
venda de bens. O termo “comércio” pode, com propriedade, aplicar-se a qualquer dos segmentos do circuito que
une produtores a consumidores finais e ainda, às atividades conexas e acessórias.

A questão de saber se está perante um Direito do comércio- conceção objetiva- ou dos comerciantes- conceção
subjetiva-corresponde a uma colocação do problema que se pode considerar superada desde os anos 30 do séc.
XX.
Qualquer ramo jurídico, para mais especial, pode ser sempre configurado num sistema subjetivo: regulando o
comércio, regulam-se os comerciantes.

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A origem do Direito Comercial

O direito comercial teve origem na Idade média, devido às trocas comerciais que a classe mercantil italiana levava
a cabo, por insuficiência do direito civil até então vigente.

Na época, os comerciantes reuniam-se em associações e com como a classe burguesa já detinha um grande poder
económico, o que os levou a ocupar o poder local.

Reunidos em associações, a classe mercantil acabou por criar um corpo de normas que regulavam as trocas
comerciais entre si, o denominado ius mercatore, um direito de carater fragmentário que regulava as trocas
comerciais e só na falta deste, é que se aplicava o direito civil a título subsidiário.

 Características do direito comercial Medieval

Dto de carater profissional: pois foi criado pela classe mercantil para satisfazer os seus interesses e necessidades

Dto de matriz subjetiva: os critérios de aplicação do D. Com. É a qualidade do sujeito jurídico – o comerciante- e o
exercício do comércio por parte dele.

Dto estatutário (estatuto): organizados em associações profissionais para defender os seus interesses
profissionais, os comerciantes detinham estatutos próprios onde além de contemplarem as regras jurídicas
elaboradas pelos seus próprios órgãos, compilavam ainda toda a jurisprudência dos tribunais consulares (trib.
Comercio da época),

Dto consular: era aplicado pelos cônsules (juízes) das cidades, cujas decisões geravam jurisprudência que era
compilada nos Estatutos das associações dos comerciantes

O D. Com regulava todas as relações jurídicas entre os comerciantes, desde os locais, aos de outras cidades e
países que com eles levavam a cabo atos de comércio.

Assim, o D. com tinha um vetor de internacionalidade, ao ponto de terem criado um corpo normativo que
regulava o comércio marítimo a nível internacional, onde constavam os “julgamentos” que mais não eram
decisões dos tribunais marítimos que eram aceites como normas jurídicas.

Do período medieval, ainda existem alguns legados atualmente, tais como:


- A sociedade em nome coletivo
- A sociedade em comandita
- Letra de câmbio
- Contrato de seguro
- Registo comercial
- Escrituração comercial

 Características do D. Com na época Moderna

O direito dos comerciantes que havia irrompido nas cidades medievais como corpo normativo que regulava as
relações sociais alheias ao exercício do comércio, veio a ser apropriado pelas monarquias absolutistas territoriais
criadas no antigo Império, e pelos demais territórios do Sacro Império Romano-Germânico.

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Como consequência, a classe mercantil burguesa desapareceu, passando a ser súbditos do poder absolutista, o
que levou a que o D. Com deixa-se de ser um direito de matriz subjetiva-autónoma (feita pelos comerciantes)
para passar a ser de matriz subjetiva-heterónima (criada pelo rei para os comerciantes).

Ainda assim, continuou a ser um direito profissional e corporativo, contudo como cada monarca criava o seu
próprio dto comercial, perdeu-se o carater de internacionalização que o caraterizava, para passar a ser um direito
de aplicação local ou regional.

Mais tarde, com a expansão marítima, verificaram-se algumas consequências, tais como:
- A deslocação do principal eixo comercial do Mediterrâneo para o Atlântico

- Criaram-se grandes companhias coloniais, durante o séc. XVI e XVII, denominadas companhias
privilegiadas ou majestáticas, que se caraterizavam por possuírem privilégios de comercio em certos territórios a
título exclusivo, por concessão do monarca.

Estas companhias estiveram na origem das sociedades anónimas, que na altura permaneceram no domínio do
direito público as questões da responsabilidade limitada, dando origem às ações de responsabilidade limitada
emitidas pelo monarca para o público em geral para financiar as expansões e as grandes obras.
Pela primeira vez a História, verificou-se a inversão do risco dos investidores para o credor, correndo por conta
dos primeiros.

Esta solução acabou por estar na origem das sociedades anónimas como instituto de direito privado, no C. Com
francês de 1807.

Durante o período da Idade Moderna, forma criados vários corpos de legislação comercial
Ex: Ordonnances de Colbert (considerado pai do dto comercial) de 1673 e 1681.

A propósito das características originárias do direito comercial, este ramo do direito teve uma matriz subjetiva (O
Ius mercatorum foi criado pelos mercadores com vista à satisfação das suas necessidades).

Marginalmente podia ser aplicado a não comerciantes. Podiam também ser produtores, operadores
económicos.

Situações das relações sociais do tipo misto, onde intervêm comerciantes, consumidores, produtores, a hibridez
da situação social, não foi um óbice a que o direito Comercial pretendesse regular (Pretensão hegemónica). A
classe mercantil pretendia impor o direito a quem não é comerciante, pretensão que passava por o direito
comercial regular mesmo as situações juridicamente privadas.

Ex: Caso do art. 99 do C. Comercial. Percurso histórico até ao séc. XIX.


O ato pode ter uma natureza hibrido (ex: compra e venda – contém um ato comercial e um ato civil), que a lei
permite separar ambas, contudo o C. Comercial regulava as duas situações.

Com a Revolução Francesa, como não era aceitável o classicismo, a estratificação social e as corporações
profissionais, a situação veio a alterar-se.

Assim, a matriz subjetiva do D. Comercial tradicional é substituída por uma matriz objetiva: ato de comércio.

Em toda a zona europeia continental, com exceção da Alemanha, aquilo que vai prevalecer é o triunfo da
conceção objetiva.

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A diferença é que numa perspetiva central, regulando os atos de comércio, deixa de incidir sobre a natureza da
razão profissional de ser comerciante, para o facto de ser praticado um ato de comércio, aplicando-se deste
modo, a todos os sujeitos independentemente da sua classe.

Art. 1 do C. Comercial
"A lei comercial rege os atos de comércio, sejam ou não comerciantes as pessoas que nele intervêm."
(Codificação de 1.a geração na europa ocidental.)
Ou seja, quer aos comerciantes, quer aos não comerciantes, desde que pratiquem atos de comércio, é-lhes
aplicado o D. Comercial.

O ideal revolucionário FR rejeitava uma classificação do direito por classes. O 1º C. Comercial é o de Napoleão-
Code de Commerce.
O C. Comercial francês abre com a definição jurídica de comerciantes (matriz subjetiva).
A doutrina francesa posterior trabalhou numa perspetiva objetiva que acabou por influenciar os restantes
códigos europeus.
Assim, pode concluir-se que quem criou o lastro doutrinário da objetivação do D. Comercial foi a doutrina
francesa, não o Código. O Code Francês antes de 2000 é de matriz subjetiva.

A compra é comercial se o objetivo da compra tiver como objetivo a sua revenda.

Apesar do movimento de objetivação, os códigos comerciais europeus continuaram a reconhecer a necessidade


de um conjunto de regras especiais para quem exerce o comércio profissionalmente.

Ex: Art.2 do C. Comercial, onde é visível a confluência entre o critério objetivo e subjetivo do D. Comercial
Assim, com base neste preceito, podemos concluir que o âmbito de aplicação do D. Comercial abrange:

- Atos de comércio objetivo: “atos de comércio ….neste Código”


Abrange todos os atos de comercio regulados no C. Comercial (remete art. 96º e ss), e são considerados atos de
comercio independentemente da natureza subjetiva de quem os pratica (comerciante ou não comerciante).
“e”
- Atos de comércio objetivo: “Além destes….não resultar”
Engloba todos os atos cuja comercialidade é emprestada pelo estatuto profissional do sujeito, ou seja, é a
qualidade do sujeito que empresta a comercialidade ao ato.

No art. 2º do C. Comercial é possível verificar a confluência entre o critério objetivo e subjetivo do ato comercial.

Em suma: O C. Comercial é de matriz objetiva, mas faz sempre considerações subjetivas tais como a dos art. 2 e:
- Art. 13º e ss (define comerciante), e
- Art. 18º: define o estatuto particular do comerciante (estatuto de "prejuízo" - obrigações que oneram os
comerciantes, mas que não oneram os não comerciantes.). Obrigações de origem medieval.
Obrigações tais como adotar uma firma (nome comercial), inscrição, balanço, etc.

 Após o ano de 1789, até à atualidade, tem-se verificado um movimento codificador

O primeiro código comercial a surgir foi o Code civil de 1804 que contemplava a legislação comercial

Em Portugal:
- Em 1833 surge o primeiro Código comercial português
O CC só apareceu em 1867

- Em 1888 surge o segundo e ainda atual, Código Comercial

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Só a título de curiosidade, apenas em Italiana é que não existe um Cod. Comercial, uma vez que o CC italiano
engloba os dois ramos de direito privado.

 Em 1942, com a aprovação de um novo C. Comercial Italiano, dá-se um ponto de viragem no direito
comercial

Este C. Comercial acabou com a dualidade dos ramos de direito privado,

Assim, ficaram reunidos num único Código (Cod. Civil italiano) dois ramos do direito, o CC e C. Comercial.

Foi Introduzida uma nova chave para disciplinar a matéria do D. Comercial, que consistiu na expressão “A
Empresa”

Assim, com estas alterações, desapareceu um D. Comercial materialmente autónomo, mas a doutrina manteve-o
materialmente vivo no interior do CC, através da figura do empresário, estando os comerciantes sujeitos a um
corpo normativo próprio, o que explica a relação entre as matrizes objetiva e subjetiva do D. Comercial.

Dificuldades de um primeiro contacto com o D. Comercial

É um ramo de direito especial que regula algumas matérias reguladas o livro das Obrigações do CC, mas de uma
forma diferente, aplicado ao comércio, apenas se aplicando o CC a título subsidiário.

O comércio em sentido económico é compreendido como a atividade económica de compra e venda de produtos
e a sua revenda.

A atividade de troca de produtos, mediada ou não, pela moeda, com o objetivo de lucrar a diferença, entre o
valor da aquisição e o da alienação, é inquestionavelmente o mais antigo núcleo histórico-cultural do comercio.

A nível jurídico, o comércio em sentido económico pode definir-se como uma atividade de intermediários, mais
ou menos vasta, entre o produtor de um bem que o não consome, e o destina a ser alienado e o consumidor do
bem, o que implica a transmissão da propriedade do bem para o intermediário, e este visa a obtenção de um
lucro.

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Direito comercial e enciclopédia jurídica.

Objeto (essencial): a atividade económica privada, produtiva, especulativa, de intermediação e de prestação de


serviços (=comércio em sentido jurídico, que não corresponde à aceção restrita de comércio em sentido
económico)

Ex: a atividade industrial não é comércio em sentido económico e, todavia, sempre foi o objeto do direito
comercial.

O D. Comercial não abrange tudo o que é comércio em sentido económico, porque não é (nunca foi) um sistema
normativo autossuficiente (i.e.: nunca prescindiu o D. Civil como substrutura normativa de apoio)

O D. Comercial abrange mais do que o comércio em sentido económico, por que sempre abrangeu a atividade
industrial (extração, transformação, agropecuária, pescas, etc..).

A força agregadora das normas que compõem o seu conjunto é constituída (como em qualquer outro ramo) por
princípios e institutos próprios e diversos dos de outros ramos de direito, designadamente do D. Civil
(=autonomia material).

O D. Civil apresenta historicamente uma notável força expansiva do D. Comercial a pontes de alguns autores
qualificarem tal fenómeno como de comercialização do D. Privado (D. Civil).
Alguns dos institutos e princípios que nasceram no D. Comercial foram depois adaptados pelo D. Civil
(Apropriação do D. Civil de regras que nasceram no D. Comercial. Ex: cheque. Meio de pagamento. )

(há um conjunto de relações jurídicas que não pertencem ao universo mercantil.)

Quando se dá a passagem da chave subjetiva para a chave objetiva, deixa de ser um ramo de direito centrado na
figura do comerciante como se pode aplicar a qualquer pessoa, no sentido que se aplica a atos de comércio.
Inventividade da vida comercial. Os comerciantes procuram novos "esquemas" adaptados à sua característica
especulativa que nem sempre o legislador acompanha. Crescendo de relações sociais a que se aplica o D.
Comercial. A quase totalidade dos contratos foi inventada pela sociedade não pelo legislador. O legislador quando
reconhecia perigosidade daria cobertura legal a certos tipos de contratos para assegurar os direitos.

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A autonomia material do D. Comercial

O D. Com é formado por princípios ético-jurídicos e técnico-jurídicos que desenvolveu e lhe são próprios;
construiu institutos, modelos e técnicas de decisão, regras e um sentido que lhe são também característicos.
Todos conferem ao D. Comercial autonomia em sentido material, que faz dele um ramo autónomo do Dto Privado
com um conteúdo e sentido próprios.

1 - Cosmopolitismo e internacionalidade: o D. Comercial da origem e a forte tendência para a uniformização


internacional verificada a partir dos finais do séc. XIX.
Ex: Leis uniformes Letra, livrança, Cheque, disciplina da atividade transportadora (D. Internacional vigente em
todo o mundo por influência do D. Europeu).

O D. Comercial é transnacional e regula as relações entre todos os comerciantes, quer nacionais quer
estrangeiros, tal como consta dos art. 4º a 6º.

Em áreas como transportes, terrestres, marítimos e aéreos, o Dto comercial português é fundamentalmente
direito internacional vigente em todo o mundo.

2 - Defesa do crédito e o "favore creditoris": A captação do capital pela empresa como forma da sua
multiplicação, a obtenção do capital "aforrado" para aplicação em atividade produtiva, que permita a sua
multiplicação, o fornecimento de capital só é atrativo em condições de boa remuneração e de boa cobrabilidade,
este último aspeto exige o estabelecimento de mecanismos jurídicos reforçados e facilitadores da recuperação do
crédito concedido.

Característico do D. Comercial é, pois o favor creditoris, um principio de orientação da solução normativa ao


reforço da recuperação de crédito, que favorece, em geral, o desenvolvimento da própria atividade mercantil.
(Proteção do credor).

O favor creditoris não é um privilégio da classe mercantil, mas antes um meio imprescindível para facilitar e
incentivar a concessão de crédito, sem a qual a economia privada fica gravemente dificultada.

O "favor creditoris" diverge do "favor debitoris" do D. Civil e aflora em soluções do D. Comercial.


Ex: regime supletivo da solidariedade das obrigações comerciais co tituladas, regime da solidariedade, fixação das
taxas de juro comerciais superiores às civis (art. 100, 101 e 102 do C. Comercial)

3 - Profissionalidade: (na perspetiva do comerciante): meio de vida/objetivo de ganho, não exige, em


princípio exclusividade; parte significativa do agrupamento normativo que compõe o D. Comercial funda-se nessa
característica (ex.: art. 18 C. Comercial).

4 - Centralidade do mercado e da concorrência: o mercado é paradigma central de toda a história do D.


Comercial; a livre concorrência e o paradigma central das sociedades comerciais, industriais e pós-industriais; o D.
Comercial não é o direito do mercado ou dos mercados, mas abrange os seus regimes jurídicos.

Mercado em sentido económico: processo de encontro (pode não ser físico) entre quem tem a pretensão de
adquirir um certo produto e quem tem a pretensão de fornecer certo produto ou serviço.

Concorrência: (paradigma moderno do D. Comercial) Até ao surgimento da sociedade industrial a concorrência


era malvista, pois significava a ruina em mercados mais pequenos.
Ate ao final do séc. XIX a generalidade das legislações disciplinava a concorrência por forma a não se tornar
perigosa.

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No momento em que se identifica a concorrência como um bem público, a partir deste momento em que isto é
identificado no final do séc. XIX passa a ser vista como uma coisa boa, defensora da eficiência e motor de
dinamização da economia.

5- Insolvência, execução universal, “par conditio creditoris”: uma inovação do Dt.Com na idade média,
adotado, depois pelo D. Civil.

O D. Comercial foi o inventor da execução coletiva e universal.


No CC, cada credor satisfazia o seu crédito junto do devedor à medida que este tinha património, sendo que os
últimos credores muitas vezes deparavam-se com patrimónios vazios.

Foram os comerciantes que, no seio do seu direito próprio, perante uma situação em que o devedor não
conseguia satisfazer todos as suas obrigações, convocavam-se todos os credores e o património era partilhado
proporcionalmente por entre todos os credores.

6- Equidade: utilização frequente como critério de decisão de litígios, em alternativa ao direito estrito (lex
stricta); prende-se com o carácter internacional originário e com a busca de soluções maleáveis e rápidas;
frequentemente a estipulação de cláusulas arbitrais com recurso à equidade como critério de solução.

7- Tutela da aparência: "Tempo é dinheiro", a rápida circulação de bens e do crédito significa mais e mais
rápidos ciclos de frutificação do capital; não se compadece com o tempo perdido em investigação sobre a certeza
das coisas (v.g.: com a legitimidade do portador de um título ou vendedor de uma coisa; com a capacidade para
prática de um ato de comércio, etc), sob pena de total ineficiência económica.

Procura a eficiência e rápida circulação do capital. A aparência vale sobre a substância.

Caracterização:
-No comércio, a eficiência económica exige que a certeza seja substituída pela convicção razoável e
suficiente, propiciada pela aparência, que, com este enquadramento deve ser juridicamente protegida.

- Sistema de legitimação indiciária: posse vale título.


Quem se apresenta no mercado tendo em seu poder algo que quer transacionar, é tido como seu proprietário, ou
pelo menos legitimado a fazê-lo.

O adquirente ou o terceiro que razoavelmente tenha confiado na aparência, não podem ser prejudicados se
àquela aparência não corresponder a realidade.
Ex: art. 467º nº2 C. Com. (que protege o terceiro adquirente), a venda de coisa alheia é lícita, ficando o vendedor
obrigado a adquirir a coisa que vendeu para a entregar ao comprador. (regime diverso da nulidade civil na venda
de coisa alheia (art. 882º + 291º do CC))

Como é que funciona a aparência? Por um lado, é necessária para a livre e rápida fomentação do mercado.
Por outro lado, a boa-fé ajuda, no sentido de que, quem abusar da aparência, deixam de merecer fé e crédito,
sendo ostracizados do mercado.

8- Boa fé: na contratação comercial, a boa-fé não tem um sentido diverso do princípio da boa-fé do direito
civil;
Por um lado, a fé significa a confiança (a confiança nas pessoas e nas coisas como pressuposto da existência do
comercio – são pessoas de confiança as que cumprem os seus compromissos sempre, ou seja, têm uma imagem e
reputação) e por outro a probidade.

Também as coisas, as mercadorias e os serviços que são objeto do comércio devem ser de confiança.

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Ex: a confiança de um produto tem as características anunciadas pelo produtor. ...

Por fim, os comportamentos contratuais, na negociação e na negociação, regem-se pela boa-fé, isto é, por
exigências de lisura, probidade e seriedade.

9- Relevância dos usos e dos costumes: a importância histórica como fonte do D. Com, ainda é, hoje, visível
no conteúdo comercial que é povoado por usos e costumes.

Ainda hoje, existem muitos contratos e operações comerciais que não estão legalmente tipificados, que são
tipificados como soft law.

Os usos são modos extremamente modernos de estabelecer critérios de ação e modelos de decisão.
Ex: Código de governos de sociedade (corporate governance)
Ex: Códigos deontológicos ou de melhores práticas de setores empresariais ou mesmo de empresas específicas.

Todos eles, tratam-se de usos e costumes que, sem constituírem formalmente lei, dão conteúdo e critério
axiológico ao agir e julgar, no âmbito do comercio.

A questão da autonomia do D. Comercial

 Autonomia metódica

O D. Com não é hoje um dto civil especial.


É muito diferente, tem um sentido próprio que é, por vezes, mesmo contrário ao dto civil.

No D. Com, ao contrário do que se sucede no Dto Civil, a praticabilidade deve sobrevaler à dogmaticidade.

Segundo Martin Kriele, podemos distinguir entre o direito como scientia, em que se procura sobretudo a
teorização, e o direito como prudentia, em que se busca a justiça, a justeza e a adequação práticas.

Uma das características dominantes no D. Com é a praticabilidade, muito mais que a dogmaticidade.
O direito comercial tem de funcionar com bons resultados práticos, logo uma solução dogmaticamente rigorosa
mas praticamente inconveniente, deve ser preferida uma concretização pragmaticamente adequada.

Segundo Kriele, no D. Com a prudentia deve ser preferida à scientia, ou seja, entre várias soluções
dogmaticamente possíveis, deve ser escolhida aquela que for mais adequada às circunstâncias do caso.

 Autonomia legislativa

O D. Com mantém, o sistema nacional, a dualidade de um CC e um C. Com.

- O primeiro código publicado foi C. Com 1833 (Ferreira Borges)


Entretanto, foi publicado o CC Seabra em 1867

-O segundo C. Com data de 1888 (Veiga Beirão); em vigor

De notar, também, a publicação em 22 de JUN de 1867, da primeira lei portuguesa dedicada a um único tipo
societário (a sociedade anónima), que também é a primeira lei contemporânea sobre a matéria a nível europeu.

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A década de 60 do séc. XX, existiram várias iniciativas de reforma que dão origem ao código das Sociedades
comercias (CSC) (década de 80 do séc. XX, publicado em 1986).

Relativamente à dualidade entre o CC e o C. Com, é necessário analisar o art. 3º do C. que fornece os critérios de
solução de "questões sobre direitos e obrigações comerciais":
Neste sentido, na concretização de questões de natureza mercantil, deve-se:
- Em primeiro lugar – aplicar a letra da lei comercial (primeiro deve-se recorrer ao C. Com)
- Em segundo lugar- recorrer ao espírito da lei comercial;
- Em terceiro lugar – recorrer casos análogos (reclama analogia legis e iuris), dentro do C. Comercial;

- Esgotados todos os meios acima referidos, é que se deve recorrer ao CC. (Assim, o D. Civil será subsidiário
em relação ao D. Comercial)

Esta solução deve-se ao facto de o legislador nacional não ter cumprido o art. 4º da Carta de Lei que publicou o C.
Com, que consagrava que toda a matéria de direito comercial deveria ser alvo de regulação no próprio C. Com.
O objetivo era a pretensão de conter a totalidade do direito comercial.

Contudo, o legislador legislou sem agregar essa legislação ao C Com.


Para efeitos do art. 3º do C. Com, estas leis extravagantes devem ser tidas como integrando materialmente o C.
Com.

 Ramos especiais do D. Com

Pela especificidade, algumas matérias foram ganhando uma certa autonomia funcional e legislativa, no seio do C.
Com, tais como:
- O direito dos serviços financeiros
- O direito da propriedade industrial
- O direito dos transportes

PPV considera que, estes ramos específicos do D. Com continuam sob a égide do ramo geral do D. Com, que
apenas ganharam, na linguagem da prática, designações próprias, pois nesses diplomas, estes regimes jurídicos
não conseguem encontrar um sentido próprio e autónomo se não recorrerem ao C. Com.

A caminho de um D. Comercial europeu

O movimento de integração europeia tem incidido muito intensamente em matérias centrais do D. Comercial,
muito por causa:
- Da criação do mercado comum europeu, ou mercado único: que engloba todas as suas uniões, monetária,
politica, e liberdades de circulação, estabelecimento e pessoas.
- Da atividade legislativa europeia, através de diretivas e regulamentos.

Recentemente, a nível europeu, esta a ser utilizada uma técnica de harmonização consistente na construção e
legislação pelo PE de regimes jurídicos opcionais que se mantêm em vigor paralelamente com o C. Comercial dos
Estados-membros, e podendo as partes optar por uma ou outra.
Ex: contrato de seguro

Atualmente, a doutrina jurídica deve entender que a disciplina jurídico-comercial é uma realidade europeia e não
meramente nacional, o que acarreta uma maior autonomia do D. Com do D. Civil.

PPV acredita que com o aprofundamento da integração europeia e a construção do mercado único europeu, é
possível alcançar um Direito Comercial Europeu a vigorar em todos os Estados-membros a curto prazo.

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2- Os comerciantes, as empresas mercantis e os atos de comércio

O direito comercial como direito dos comerciantes, do comércio (ou atos de comércio), da empresa e
do mercado

Como iremos ver adiante, a delimitação do âmbito de aplicação do D. Comercial faz-se em termos mistos, numa
perspetiva triangular entre ato de comércio, comerciantes e empresa:

- Ato de comércio: definido no art. 2º, do C. Com.


Este critério resulta do movimento de objetivação do séc. XIX.

Esta matriz objetiva, é dominante no C. Com

- O comerciante: resulta do art. 13º do C. Com


Este critério é originário e incide sobre a matriz subjetiva, ou seja, a qualidade do sujeito jurídico enquanto
comerciante.

- A empresa: resulta do art. 230º do C. Com


Matéria que será estudada mais adiante, e na qual há divergência doutrinária.

Esta figura foi recortada do C. Com francês de 1807º, onde constava taxativamente quais os atos realizados pela
empresa que eram considerados atos comerciais.

A determinação da matéria mercantil resulta, desde logo, do art. 2º do C. Com.


- 1ª Parte: atos de comércio qualificados como objetivos, que remete para a tipificação de uma série de
atos de comercio, que sejam de tal modo próprios e característicos da atividade comercial que possam ser tidos
como tipicamente mercantis, independentemente de quem os pratica.

- 2ª Parte: atos de comércio qualificados como subjetivos, como os atos praticados pelos comerciantes no
exercício dos seus comércios.

 Atos de comércio

No seu perfil objetivo, o C. Com determina o seu âmbito de aplicação principalmente no “ato de comercio”, tal
como consta no art. 1º C. Com que define o âmbito material da lei comercial.

O C. Com usa uma tipificação dos atos que considera de comércio, que, nos termos do art. 2º 1ª Parte, “serão
considerados atos de comércio, todos aqueles que se acharem especialmente regulados neste Código”

Contudo, devido ao desrespeito pelo art. 4º da Carta de Lei que aprovou o C. Com de 1888, que obrigava a que
toda a legislação comercial fosse única e exclusivamente regulada no C. Com, é necessário alargar a referência
feita no art. 2º 1ª Parte do C. Com para outra mais ampla, a “legislação comercial”, abarcando assim toda a
legislação comercial extravagante.

Assim, no art. 2º 1ª Parte, deve ler-se “serão considerados atos de comércio, todos aqueles que se acharem
especialmente regulados a legislação comercial”

Ficariam assim abrangidos como atos de comércio objetivos, todos os contratos especiais de comércio contidos
no art. 96º e ss do C. Com e demais matérias comerciais reguladas em legislação avulsa, que substitui ou
desenvolveu matérias que constavam originariamente do C. Com.

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Além destas matérias, PPV considera que deve ser qualificada como comercial a legislação subsequente que, sem
subtrair ou alterar o C. Com, rege sobre matérias novas que devem ser tidas como de natureza comercial
(Doutrina atualista).
Teremos então como atos de comércio objetivos:
- O contrato de agência, contrato de concessão comercial e de mediação – enquadram-se na atividade
prevista no art. 230º nº3 do C. Com.
- A locação financeira (corresponde à previsão da parte final do art. 463º nº1 e 481º C. Com), o “factoring”,
a titularização, a gestão dos patrimónios, os fundos e a sua gestão, são operações bancárias,

Diversamente, apenas poderão ser classificados como atos de comércio subjetivos, o trespasse, a locação de
estabelecimento (cessão de exploração).

NOTA: as duas partes do art. 2º são reciprocamente excludentes, criando assim, duas categorias de atos de
comércio.
Quer isto dizer que o ato é comercial objetivo ou subjetivo, e nunca pode cumular as duas situações.

 Classificação dos atos de comércio

1- Atos de comércio objetivos e subjetivos

- Atos de comercio objetivos, são os referidos o art. 2º 1ª Parte: os atos que estão especialmente previstos
como atos de comércio no C. Com, nas leis extravagantes que substituíram as partes revogadas do C. Com e na
demais legislação mercantil.

Estes atos mantêm a qualificação mercantil, independentemente de serem praticados por comerciantes ou não
comerciantes e dentro ou fora do exercício do comércio.
Ex: o do Regente comprar uns computadores em Portugal para vender em Angola.

O Regente João Espirito Santo, refere que um ato de comércio é objetivo quando o seu carater comercial decorre
das suas características próprias, ou seja, a sua comercialidade não é emprestada pela qualidade do sujeito que o
pratica.
Consequência: o ato será comercial, quer seja praticado por um comerciante ou por um não comerciante.

- São atos de comércio subjetivos, os previstos no art. 2º 2ª Parte do C. Com, “todos os contratos….não
resultar” .

O Regente João Espirito Santo, refere que um ato de comércio é subjetivo quando o seu carater comercial
decorre da qualidade de comerciante do sujeito que o pratica.
Consequência: o ato será comercial, quer seja praticado por um comerciante/ o ato será civil se for praticado por
um sujeito não comerciante.

Esta formula contida na 2ª Parte do art. 2º deve ser cuidadosamente interpretada, daí a divisão do estudo em 3
partes:

A. “Todos os contratos e obrigações dos comerciantes”

A referência a “contratos” deve ser entendida de um modo não literal nem restritivo, de modo a abranger
também os negócios unilaterais e outros atos jurídicos não contratuais.

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Relativamente à expressão “todos os contratos e obrigações”, significa que, em princípio, e salva as limitações
subsequentes, todos os atos e responsabilidades dos comerciantes são comerciais.

B. “Que não sejam de natureza exclusivamente civil”

Nem todo o agir jurídico e nem todas as responsabilidades dos comerciantes podem ter natureza mercantil.
Existem atos e responsabilidades que têm natureza exclusivamente civil.

Assim, é preciso verificar se o ato ou a responsabilidade em questão pertence a um género que tenha, ou não
tenha, uma espécie com natureza mercantil.

Ex: o mandato tem duas espécies, a comercial (231º e ss) e a civil, logo não sendo um ato exclusivamente civil,
pode ser considerado um ato de comércio subjetivo.

Ex: o casamento, não tendo um género direito comercial, conclui-se que é um ato exclusivamente civil, logo
nunca poderá ser considerado um ato de comércio.

Assim, não são considerados atos de comércio, todos os atos e responsabilidades cujo género não comporte
uma espécie comercial, mas apenas uma natureza exclusivamente comercial.
´
C. “Se o contrário do próprio ato não resultar”

Como os comerciantes têm uma vida pessoal além do seu comércio e fora dele, a ultima frase do art. 2º do C.
Com deve ler-se: “salvo se do próprio ato, nas suas circunstâncias concretas, resultar que foi praticado pelo
comerciante fora do exercício do seu comércio”

A 2ª parte do art. 2º estabelece uma presunção de que os atos e responsabilidades do comerciante se inserem
no seu comércio; mas esta presunção é ilidível, sendo admitida a prova em contrário.

O resultado contrário é o resultado de que, ao contrário do presumido, aquele ato ou aquela responsabilidade
afinal não foram do comerciante no seu exercício comercial, mas exteriores a esse exercício, ou seja, foram do
seu âmbito pessoal.

O ónus da prova cabe ao próprio comerciante, tendo que provar que aqueles atos foram praticados fora do
exercício do seu comércio.
Se não o conseguir provar, os atos e responsabilidades em questão, são tidos como subjetivamente comerciais.

Na prática, em princípio, todos os atos e responsabilidades dos comerciantes são subjetivamente comerciais.
Excluem-se aqueles que forem exclusivamente civis, e ainda aqueles que o comerciante consiga provar que forma
exteriores ao exercício do seu comercio e

Ex: contrato de trabalho (civil e comercial (257º e ss)).


Se o comerciante conseguir provar que o funcionário foi contratado para exercer funções domésticas em sua
casa, então o ato é civil.
Caso contrário, o ato será subjetivamente comercial.

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2- Atos de comércio absolutos e por conexão

Esta classificação assenta num critérios distintivo que consiste em o ato ser de comércio autonomamente, ou a
sua qualificação enquanto ato de comércio, depender duma especial conexão com o comerciante (conexão
subjetiva) ou com outro ato de comércio (conexão objetiva).

- Atos de comércio absolutos: aqueles cuja comercialidade, não depende nem de terem sido praticados
por comerciantes nem de terem uma especial ligação com outro ato de comércio.

Ex: a compra e venda mercantil (463º e ss). Engloba as compras e venda para aluguer ou revenda.
Ex: a conta-corrente (344º)
Estes atos são comerciais per si, ou seja, a qualificação destes contratos como atos de comércio é independente
de serem praticados por comerciantes ou de terem alguma ligação com outro ato de comércio.

- Os atos de comércio por conexão, são aqueles cuja comercialidade depende:

* De terem sido praticados por comerciantes – conexão subjetiva


Ex: todos os atos de comércio subjetivos
ou
*De terem uma especial ligação com outros atos de comércio ou com o próprio comércio –
conexão objetiva
Ex: Mandato (231º); empréstimo (394º); penhor (397º); depósito (403º) mercantis, cuja qualificação depende de
uma especial ligação com outros atos de comércio.

3- Atos de comércio causais e abstratos

Todos os atos e negócios jurídicos têm uma causa.


Há uma longa tradição no direito privado, a invocação da causa, ou de vícios da causa nos litígios sobre a validade
ou eficácia de negócios jurídicos.
A causalidade e a abstração, ou mais corretamente, a invocabilidade ou invocabilidade da causa, são matéria de
regime jurídico.
Para os qualificar como causais ou abstratos, é necessário verificar qual o seu regime jurídico: se a causa for
invocável são causais, se o não for, são abstratos.

Em princípio, os atos e negócios jurídicos são causais; a abstração é um regime jurídico excecional que só vigora
quando e na medida em que a lei o consagrar.

- São atos de comércio causais: todos aqueles em que a causa é relevante e invocável.
São a generalidade dos atos de comércio.

- São atos de comércio abstratos: todos aqueles cuja causa não é invocável.
São poucos, tais como os atos cambiários: saque, aceite, endosso e aval – nas letras, livranças e cheques; a
compra e venda de ações na Bolsa.

4- Atos de comércio puros e mistos

- Os atos de comércio puros: são aqueles que têm carater mercantil a perspetiva de todas as partes.

Ex: a compra de mercadoria de um comerciante para revenda, feita a outro comerciante que os havia comprado
com ao intuito de os revender (ambos estão a praticar um ato de comércio objetivo).

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- Atos de comércio mistos: são aqueles que têm comercialidade na perspetiva de uma das partes, e civil na
perspetiva da outra.

Ex: um comerciante compra a fruta ao produtor que produziu, que pretende revender no mercado. A venda do
agricultor é civil (464º nº2 C. Com) e a compra e venda do comerciante é comercial (463º C. Com)
Ex: o mesmo se sucede com a revenda desses produtos, pelo comerciante, aos consumidores finais

Em ambos os casos, são mercantis de um lado e civis do outro, ou seja tem natureza mercantil de um lado e
natureza civil do outro, sendo qualificado como um contrato de comércio misto.

Nos termos do art. 99º C. Com, o ato de comercio misto não é separado em duas partes (civil e comercial), mas
antes regido unitariamente como um só ato de comercio ao qual é aplicável todo o regime do ato de comercio.

Esta regra contém exceções: não se aplicam aos atos de comércio mistos as regras que só forem aplicáveis às
partes“ por cujo respeito o ato é mercantil”
Ou seja, há preceitos que são aplicados apenas a comerciantes.

Se a revenda ao consumidor final (pessoa dita normal ou comercial fora do exercício do comercio), o ato só é
comercial pelo lado do vendedor.

Assim, aplicam-se as normas dos art. 463º e seguintes, que conformam o tipo da compra e venda
objetivamente comercial, não se aplicando os preceitos cuja aplicação está reservada aos comerciantes, como
por exemplo, a obrigação de usar a firma e de contabilizar o ato na escrituração.

Assim, a regra da solidariedade passiva que consta no art. 100 C. Com, não se aplica aos não comerciantes e, na
opinião do Prof. PPV, também não se aplica aos comerciantes quanto aos contratos que pratiquem fora do
exercício do comércio (não sejam para revenda nem para consumo no estabelecimento) e que, em relação a eles,
não constituam atos de comércio.

 Os comerciantes

Os comerciantes são o suporte subjetivo do comércio.

Embora atualmente os comerciantes tenham perdido o primeiro lugar na determinação do âmbito material do D.
Comercial, não deixou de desempenhar um papel importante.

Do art. 13º C. Com, podemos verificar que é comerciante, o comerciante individual (nº1) e as sociedades
comerciais (nº2).
Analisemos esta dicotomia

 Os comerciantes individuais

O art. 13º nº1 C. Com, tem uma função qualificativa de alguém como comerciante

1- A capacidade para o exercício do comércio – art. 7º C. Com

Existem restrições à capacidade jurídica de gozo quanto ao exercício do comércio, devido aos regimes jurídicos
de incompatibilidades do exercício de certos cargos com o exercício do comércio.
São eles:
- Os titulares de órgãos de soberania e outros políticos

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- Os militares
- Os magistrados judiciais e do MP
Estes não podem ser titulares da qualidade de comerciantes, não podem ter esse status.

Também os insolventes, podem perder temporariamente a capacidade de gozo para o exercício do comércio.

Mas para além da capacidade de gozo, é ainda necessária a capacidade de exercício.

Dificilmente se compreende como pode, um incapaz (menor, interdito ou inabilitado) exercer o comércio por
intermédio de um representante legal ou de um curador.

PPV defende que, apenas os menores, nos termos do art. 1889º nº1, alínea C do CC, podem ver a sua
capacidade de exercício ser suprível pelo poder paternal, embora mediante prévia autorização judicial, no que
respeita à aquisição ou à continuação da exploração daquele de quem o filho tenha recebido por sucessão ou
doação.
Assim, os atos comerciais realizados pelos tutores, refletiam os seus efeitos jurídicos na esfera jurídica do
menor, logo este era considerado como comerciante.

Neste sentido, era apenas necessária a capacidade de gozo.

Esta exceção não se alarga aos interditos e aos inabilitados.


Estes não têm capacidade de exercício para o comércio enquanto a sua incapacidade se mantiver.

O regente tem uma opinião ligeiramente diferente:

- Defende, tal como Coutinho de Albuquerque, que o art. 7º do C. Com alude à capacidade de exercício,
logo todos os incapazes não poderiam adquirir a qualidade de comerciante.

A única exceção a este princípio, é a do art. 1889º nº1 alínea C do CC:

Baixa a capacidade do menor para a capacidade de gozo

Ex: 1 menor vende pastilhas a escola


Não tinha capacidade (art. 125º CC e art. 13º nº1 e 7º do C. Com)

Ex: o menor pratica atos de comércio sem que os pais tenham solicitado autorização do MP nos termos do art.
1889.
O menor não adquiriu a capacidade necessária para ser considerado comerciante

2- O âmbito material do comércio

Em primeiro lugar, trata-se de fazer do comércio profissão.

PPV defende que, a concretização do que seja “o comércio” deve ser feita por referência à própria vida mercantil,
tendo em atenção os atos de comércio e as atividades comerciais previstas no C. Com e demais legislação
extravagante, mas sem se restringir aos seus estreitos limites, alargando sempre que necessário dentro do
mesmo sentido, e sempre tendo presente aquilo que na vida real é considerado o comércio, numa perspetiva
económica e empresarial.

Nesta perspetiva, o comercio é fundamentalmente uma atividade de intermediação entre a produção e o


consumo, de produção e distribuição de bens e de serviços.

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Não é uma atividade que se desenvolve exclusivamente em volta da compra e venda mercantil, mas abrange
ainda outras atividades que lhe são instrumentais, tais como a navegação, o transporte, o seguro, a bolsa e a
banca.

Excluem-se apenas as profissões liberais, dos médicos, dos advogados arquitetos, etc.
As profissões liberais são aquelas que são exercidas no interesse do cliente.
As atividades mercantis são exercidas no interesse de quem as pratica.

PPV entende que, para além das atividades expressamente previstas no art. 230º C. Com (Parág. 1 a 7 – são atos
de comercio/ subparág. 1º a 3º - são exclusões do art. 13º nº1), e dos atos de comércio objetivos, o D. Comercial
deve receber da vida e da cultura económica empresarial, o âmbito material do comércio e deve concretizá-lo
com a “natureza das coisas”

Na opinião do Regente: Excluem-se do art. 13º nº1:


- Prof. liberais
- O exercício profissional da agricultura (existe uma controvérsia doutrinária sobre esta questão que será
abordada posteriormente)
- Artesãos

Em suma, o âmbito material do comércio, para efeitos da qualificação do comerciante, deve ser entendido como
aquele que exerce profissionalmente o comércio.

3- O exercício profissional

O sentido da expressão “façam deste profissão”, exige o exercício comercial do comerciante.


Quer isto dizer que o comerciante fá-lo como o seu meio de vida, de forma interessante e com vista o lucro, mas
não tem que o fazer de forma exclusiva, podendo ter outras profissões ou hobbies. Não tem de ser a única forma,
nem a principal fonte de proveitos do comerciante.
Mas tem que ser exercida como fonte de proveitos.

Na opinião do Regente, a Profissionalidade tem de conter:


- Habitualidade
-Lucro
Ex: 1 não comerciante que realize apenas um ato de comércio objetivo – não será qualificado como comerciante
pois falta-lhe o requisito da habituabilidade

Importante

O art. 13º nº1 não de restringe apenas aos comerciantes individuais, mas a sua aplicação é mais ampla,
abrangendo todas as pessoas jurídicas que, tendo capacidade para exercer o comercio, façam do comercio
profissão.
Assim, estão englobados este preceito, os:
- Agrupamentos complementares de empresas (ACE’s)
- Os agrupamentos europeus de interesse económico
- As cooperativas
- As sociedades comerciais em geral
- As empresas públicas que exerçam atividades comerciais com o intuito lucrativo

Atualmente a designação comerciante é mais conhecida pela figura do “empresário”, mas como nem todas as
empresas são comerciais, pode atualizar-se o art. 13º nº1, no sentido de falar-se em empresários comerciais,
sendo certo que na sua maioria, os empresários serão empresários comerciais.

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As sociedades comerciais

Nos termos do art. 13º nº2, são ainda comerciantes, as sociedades comerciais.

A norma qualificadora das sociedades como comerciais consta do art. 1º do CSC (ler artigo).

Com base neste preceito, conclui-se que para que a sociedade seja qualificada como comercial:

- Além de ter de adotar uns dos tipos enunciados no Nº2,


+
- Tem de ter por objeto a prática de atos de comércio.

Caso não se verifique a prática de atos de comércio, mas antes a prática de atos civis, serão qualificadas como
sociedades civis.

Tal como se sucede na qualificação dos comerciantes individuais, na qualificação das sociedades comerciais
apenas a prática de atos de comércio objetivos e causais é relevante, incluindo-se neste âmbito as atividades
enumeradas como mercantis no art. 230º do C. Com, e os atos que constituem o seu núcleo fundamental.

Tal como a qualificação dos comerciantes individuais, a prática de atos comerciais pela sociedade:

- É Profissional: porque corresponde à prossecução do objeto social da sociedade

- Não tem de ser exclusiva: a sociedade não deixa de ser qualificada como comercial por ter um objeto
social, misto e comercial.

As obrigações dos comerciantes

O art. 18º estabelece obrigações especiais a que os comerciantes estão sujeitos.

1- Obrigação de adotar uma firma:

Firmar significa assinar e sina significa assinatura.

Assim, a obrigação de adotar uma forma significa que o comerciante tem de adotar uma assinatura
especificamente destinada aos atos do seu comércio (o que lhe permite distinguir a assinatura dos atos
comerciais e a assinatura dos atos civis).

Atualmente, a firma identifica o nome comercial do comerciante.

O conceito geral de firma contém 2 espécies:

- A firma-nome ou a firma propriamente dita: composta pelo nome do comerciante, completo ou


abreviado, que pode ou não, ser acrescido de uma referência indicativa do seu comércio (“Vinhos & Petiscos”)

- A firma-denominação ou denominação: indicação do tipo de comércio exercido (ex: “Banco de


Poupança”).

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O art. 19º do C. Com (já revogado) obrigava quer os comerciantes individuais quer as sociedades comerciais a
assinar os seus documentos.
Depois com a prática, era usual firmarem e carimbarem os documentos comerciais.

Atualmente, o regime jurídico da firma está contido no Registo Nacional de Pessoas Coletivas (RNPC), nos art. 32º
e ss do DL 129/98 que veio substituir os antigos art. 189º a 28º do C. com.

Este regime é orientado por 2 princípios:


- Princípio da verdade: orienta a firma no sentido de não induzir em erro quanto ao seu titula e ao
respetivo comercio - art. 32º RNPC.

- Princípio da novidade: o sentido de não permitir a sua confusão com outra firma de outro comerciante -
art. 33º RNPC

A aplicação destes 2 princípios, obriga a uma concretização inteligente de modo a não impedir a atuação de vários
comerciantes em concorrência no mesmo mercado.

Em suma, além da adoção da Firma, no caso das sociedades comerciais podem ainda adotar o restante nome
empresarial consoante cada designação societária:

Art. 177º nº1 CSC


Art. 200º nº1 CSC
- Firma + Art. 275º nº1 CSC
Art. 467º nº1 CSC

2- Dever de escrituração

Está previsto no art. 29º a 44º do C. comercial.

Os comerciantes têm o dever de organizar e manter o registo contabilístico das suas operações.

N aversão original do art. 29º do C. Com, a escrituração tinha um sentido objetivo, onde se exigia que se
reportasse o conjunto de registos relativos às operações comerciais e quanto às sociedades comerciais, também
de registo de liberações ou decisões dos órgãos sociais.

Atualmente, o art. 29º tem um sentido formal, onde se exige apenas a conformidade com a lei.

O regente referiu ainda uma dicotomia quanto ao sentido técnico:

- Do ponto de vista histórico, a escrituração tutelava os interesses do próprio comerciante, em manter o


registo das muitas operações realizadas no âmbito do seu comércio, de modo a que pudessem por ele ser
recordadas e alegadas contra os seus credores e herdeiros.

- Atualmente, a escrituração tem uma utilidade relativamente aos credores e à segurança geral do
comércio jurídico.
Consiste num incentivo a uma gestão cuidada da atividade comercial, com vista à redução da possibilidade de
insolvência.
Caso se verifique a insolvência, a escrituração possibilita a determinação da responsabilidade do comerciante.

Serve ainda de suporte a atividades estaduais de carater fiscal e de supervisão.

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3- A fazer inscrever no registo comercial os atos a ele sujeitos

No que toca aos comerciantes individuais, esta matéria está prevista no art. 2º do CRC (Cód. Reg. Comercial)

No que toca às sociedades comerciais, esta matéria está prevista no art. 3º do CRC (Cód. Reg. Comercial)

4- A obrigação de dar balanço e prestar contas

O comerciante é obrigado a dar balanco anual ao seu ativo e passivo nos 3 primeiros meses do ano imediato - art.
62 C. Com

O balanco é uma demonstração financeira que evidencia o ativo e o passivo do património do comerciante.
A diferença entre o ativo e o passivo corresponde à situação líquida e representa o valor do património num
determinado momento (art. 65 e ss Cod.Soc.Com)

O direito comercial como direito do comércio

Aspeto histórico: A revolução francesa e o movimento de objetivação do D. Com.

- O D. Com deixa de estar concentrado na chave do comerciante (conceção subjetiva), para passar a estar
centrado na chave do “ato de comercio” (conceção objetiva).

- Na verdade, a objetivação deu origem a sistemas comerciais de delimitação mista, predominantemente


objetiva, isto é, partindo do ato de comercio, para delimitar a matéria mercantil perante a civil (art.1º C. Com)
mas sem deixar de reconhecer uma função quantitativa (de atos de comércio) relevante à figura daquele que
exerce o comercio profissionalmente, ou seja ao comerciante.

O elemento delimitador central da matéria comercial no ordenamento jurídico português é o ato de comércio
objetivo.
Assim determina o art. 1.ºC.Com: “A lei comercial rege os atos de comércio, sejam comerciantes ou não as
pessoas que neles intervêm “

Ora, se um ato jurídico é de comércio ainda que o seu autor seja ou não um comerciante, isso tem o significado
básico de que a comercialidade não resulta daí emprestada, mas antes do ato em si.

Esta conclusão vertida no art. 1.º do C. Com. Está vertida na primeira parte do art. 2º do C. Com – são os Atos de
comércio objetivo.

Mas logo na 2.a parte do art.2.º refere "(...) e além deles, todos os contratos e obrigações dos comerciantes (...)".

Ou seja, há uma outra categoria de atos jurídicos (não especialmente regulados no C. Com) que serão comerciais
se (e apenas se) praticados por comerciantes.

Trata-se da categoria dos atos de comércio subjetivo

Consegue agora compreender-se que o C. Com opera uma delimitação da meteria comercial mista,
predominantemente objetiva: parte da figura do ato do comercio (art.1. e art. 2º 1ª parte) mas não prescinde da

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figura do comerciante como fator de qualificação de uma particular categoria de atos de comercio (art. 2º, 2ª
parte ).

 O ato de comercio art. 2 C.Com.

“ Todos os que se acharem especialmente regulados neste código” –é uma enumeração implícita.

Identificados através de uma técnica de enumeração implícita e não de definição.


Numa primeira aproximação encontram-se especialmente regulados no C. Com, os atos negociais que compõem
o Livro II (dos contratos especiais do comercio). São eles:
- Sociedade. (remissão legislação avulsa)
- Conta em participação: remissão para DL 231/81
- Mandato
- Letras, Livranças e Cheques
- Aluguer.
. - etc.

Várias dessas matérias viram a ser objeto de regulação posterior, em termos de (i) desenvolvimento (ii)
descodificação e objeto de legislação extravagante; (iii) descodificação e recodificação autónoma (v.g.: CSC, CVM,
quanto à matéria das bolsas (originários artigos 82-92)

Isto desobedeceu ao art. 4º da Carta de Lei que aprovou o C. Com que estipulava que toda a legislação comercial
deveria ficar contida no C. Com.

Numa interpretação atualista deve ler-se o art. 2º 1ª Parte: “serão atos de comercio todos os atos especialmente
regulados em Legislação comercial “(não só no Código).

Mas a delimitação do que deva entender-se por "legislação comercial" não é isenta de dificuldades...

De todo o modo, "legislação comercial" inclui certamente as matérias que forma descodificadas depois da
publicação do C. Com., tais como:
- Sociedades comerciais (CSC)
- Cooperativas (código cooperativo); a doutrina "cooperativista" é adversa desta perspetiva
(reconhecimento do sector cooperativo na CRP de 1976)
- Associação em participação (estava presente no código comercial de 1888, original.)
- Letras, livranças e cheques (atos cambiais - ainda se incluíam no C. Com. Original - passaram para o direito
civil)
- O C. de Valores Mobiliários e demais legislação sobre Bolsas de Valores, operações de bolsa, mercados
financeiros, atividade bancária, atividade seguradora, serviços financeiros, transporte e direito marítimo. (tinham
origem no C. Com.).

[matérias que estavam reguladas no C. Com. de 1888 original]

Para além do núcleo assinalado, "legislação mercantil" inclui também a que incide sobre matérias novas
(relativamente ao cod.com) que devem considerar-se de natureza comercial:
- Novos tipos contratuais que integram tipicamente o comércio em sentido jurídico como atividade de
intermediação entre a produção e o consumo, com finalidade lucrativa.

Esta conceção é maioritária na doutrina, embora com fundamentação teórica com algumas nuances:

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- Posição adotada por PPV:


- O contrato de agencia,
- O Contrato de concessão comercial, e
- O contrato de mediação
Todos eles são integrados no art. 230/3 C. Com (qualificáveis portanto como Atos de comércio objetivos).

- A Locação financeira (leasing),


- Factoring,
- Titularização,
- Gestão de património e de fundos patrimoniais,
Todos eles são operações de banco ou instituições afins, integrados no art. 362.º (qualificáveis portanto, como
Atos Comerciais Objetivos)

- Trespasse, e
- Locação de estabelecimento comercial (cessão de exploração)
( São contratos legalmente atípicos (embora a lei se lhes refira em termos civis, fiscais e laborais são
nominados mas atípicos), mas socialmente típicos)
PPV considera que não podem ser qualificados como atos de comércio objetivos, contudo poderão ser
qualificados como Atos de comércio subjetivos, se para tanto reunirem os respetivos requisitos.

- A restante doutrina encontra a comparação das características desses contratos com o D. Com.
Não conseguindo enquadrar estes contratos no C. Com, e como leem no art. 2º 1ª Parte, “regulados em
legislação comercial”, consideram estas matérias como comerciais reguladas em legislação comercial
extravagante, logo definem-nos todos como atos de comércio objetivos.

Resumo Geral dos atos de comércio

Atos de Comércio Objetivos e Subjetivos

.Importa apenas precisar a fórmula literal de delimitação do Ato de comércio subjetivo. Artigo 2.º
.(a.) Contratos e obrigações dos comerciantes.
.(b.) Que não sejam de natureza exclusivamente civil
.(c.) Se o contrário do próprio ato não resultar.

O comerciante não é comerciante 24h por dia. Parte do seu tempo é uma “pessoa normal” cujos atos são
tutelados pelo D. Civil, na sua interação, por exemplo, com a sua família.
E outros em que os seus atos são regulados pelo cod.com.
Ex: A, comerciante, faz uma compra. Mas essa compra pode, ou não, ter a ver com a sua vida profissional. A
compra tanto pode ser tutelada pelo D.Com., se este o fizer na qualidade profissional de comerciante, como o D.
Civil se for na qualidade de consumidor para uso próprio.

Qual é a relevância da classificação dos atos jurídicos?


Para saber qual as legislações a aplicar. Porque têm regimes específicos.

-Se o ato de comércio for objetivo nem sequer nos temos que preocupar com a pessoa que o pratica se é,
ou não, comerciante.
Ex: A compra de 20 aquecedores, para revenda. As revendas que faz são comerciais. Art. 463/1 e /3.
Ex: A docente decide vender aquecedores em Angola. Utiliza o mesmo "esquema". Compra ao importador para
revender em angola. O regime jurídico aplicado é o mesmo.

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- Mas se o autor do ato for comerciante e tivermos dificuldade em enquadrar juridicamente o ato,
podemos ir pela 2.a parte do artigo 2º. No pressuposto que se trata de um ato de um comerciante.
Se o ato não for objetivamente comerciante e se não for praticado por um comerciante, não podemos sequer o
qualificar na 2.a parte do artigo 2.º. O ato será, por isso, puramente civil.

Ex: do caso da fiança. É especialmente regulado, não quer dizer que é unicamente regulado. A fiança aparece no
art. 101.º como um ato de comércio objetivo por acessoriedade a outro ato de comércio objetivo.

(a) Contratos e obrigações dos comerciantes.


Fórmula novecentista que abrange todos os atos jurídicos, quer unilaterais quer multilaterais

(b) Que não sejam de natureza exclusivamente civil

Atos, que pela sua natureza da sua essência, não podem relacionar-se com o comércio. Sejam impermeáveis ao
comércio.
Ex: Casamento, perfilhação: atos exclusivamente civis, e exercício de direitos políticos

Todos os atos que têm uma dupla feição: compra e venda, mutuo, depósito, etc., tem uma versão civil e
comercial.
Aparecem também especialmente regulados no C. Comercial.

Ex: A, eletricista, vai à mercearia do vizinho, B, para comprar um kilo de maçãs. Este ato será de comércio, por ser
realizado por um comerciante? É uma compra e venda. Não tem natureza exclusivamente civil. Mas no contexto
da hipótese este ato não tem conexão com o comércio do comerciante.

.(c.) se o contrário do próprio ato não resultar.

Como já ser reafirmou a propósito da firma, o comerciante, por o ser, não deixa de ter um reduto de "vida civil ou
não comercial"; um ato jurídico de um comerciante pode pertencer a este domínio, i.e., não ter conexão com a
sua atividade comercial.

Ex: O comerciante B, foi á loja do comerciante A comprar maçãs.


-Se fosse porque queria oferecer as maças como um brinde à venda dos aquecedores, este ato teria
conexão com o seu ato de comércio, logo seria um ato de comércio subjetivo
- Se fosse para consumir em casa, era um ato civil

Sentido da norma: se do próprio ato, nas suas circunstâncias concretas, resultar que foi praticado pelo
comerciante fora do exercício do seu comércio.

Pode o ato não ter conexão alguma com o comércio do comerciante, mas se tal desconexão não for revelada
pelas declarações das partes, opera a presunção (em sentido não técnico) da comercialidade dos atos jurídicos
dos comerciantes (ou seja, é tido como um ato de comércio objetivo)

Para afastar a presunção tem que se resultar na prática do ato, das declarações das partes de que tal ato não tem
um fim comercial.
Ex: A vai à mercearia de B comprar maçãs e diz que são só aquelas que a sua esposa gosta. Está a declarar
implicitamente que são para uso próprio. Com esta declaração afasta a presunção. O ato é civil

Se A nada dissesse/declarasse poderia pressupor-se o ato comercial estava ligado com a sua atividade comercial,
ou seja, operaria a presunção do art. 2.º in fine, sendo um ato de comercio subjetivo.

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As empresas empresariais

A noção de empresa comercial surge no C. Com, no art. 230º, numa tradição que remonta ao Code de Commerce
(1807) que considerava certas a empresa como ato de comércio.

Esta tradição é alheia àquela que, em 1942, foi inaugurada pelo CC Italiano (vigente), que abandonando o
tradicional dualismo latino de direito privado, unificou os dois códigos num único CC e regula a atividade
económica produtiva com base num núcleo diverso dos tradicionais (comerciante/ato de comércio); trata-se do
empresário.

O art. 230º, não definindo empresa, determina quais, de entre as empresas económicas, são comerciantes e as
que não o são.

A linguagem mercantil, empresa é vista como uma entidade ou organização, uma unidade económica organizada,
que exerce uma atividade económica no mercado.

O direito comercial tanto abrange as empresas privadas como as empresas públicas, e por norma, dado o
contexto europeu, as empresas comerciais privadas atuam no mercado de livre concorrência, embora nada obste
que atuam em monopólio ou oligopólio.

Quanto à questão de saber se a empresa comercial é sujeito, objeto ou atividade, o art. 230º, não contém uma
definição.
A noção de empresa é tradicionalmente entendida em três sentidos:

1- Subjetivo: é o próprio empresário ou o comerciante (evolução semântica do "comerciante")

2- Funcional: a empresa é uma atividade, um empreendimento que se prossegue de um modo sistemático e


organizado com vista a alcançar um objetivo ou à prossecução de um fim. (prosseguida de modo sistemático
e organizado, com vista a alcançar um objetivo ou à prossecução de um fim; é com este sentido que as
empresas se podem distinguir-se, pelo objeto, como comerciais ou não comerciais; o art. 230 desempenha
um papel de delimitação, positiva e negativa, da empresa comercial, qualificando as empresas como
comerciais (1 a 6) e como não comerciais S1 a S3).

O Regente afirmou que é com o sentido funcional que as empresas podem distinguir-se, pelo objeto, como
comerciais ou não comerciais, ou seja, o art. 230º, desempenha um papel de delimitação positiva e negativa da
empresa comercial.

A posição do regente assenta no facto de o Título IV – das empresas, se encontrar sistematizado a par dos demais
atos de comércio objetivos.

3- Patrimonial: a empresa é o estabelecimento, enquanto conjunto de bens, jurídicos e materiais, que suporta
o exercício do comércio e do comerciante.

A referência à empresa surge em vários sentidos e cabe ao intérprete determinar qual é o sentido empregue num
determinado contexto linguístico é, pois, exercício de interpretação.

Atualmente, fala-se de empresário no sentido em que antigamente se falava em comerciante e fala-se de


empresa no sentido em que antigamente se falava em comerciante, no seu comércio, no seu estabelecimento.

Posto isto, importa trabalhar juridicamente o art. 230º do C. Com numa perspetiva atualizada e atualista

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Nelson Pimenta FDL 24761

 O art. 230º do C. Com

Formalmente, o art. 230º contém uma enumeração de atividades que determinam a qualificação como
comerciais, das empresas que se propuserem exercê-las, determinando também quais as empresas que não são
comerciais.

PPV afirma que se deve ler o art. 230º numa perspetiva atualista, tal como manda o art. 9º nº 1do CC, “tendo em
conta a unidade do sistema jurídico, em que a lei foi elaborada e as condições específicas do tempo em que é
aplicada”

Para tal, PPV divide o art. 230º em 3 partes:


- O corpo
- Os 7 números
- Os 3 parágrafos

Quanto ao corpo, “” haver-se-ão por comercias as empresas, singulares ou coletivas, que se propuserem” exercer
as atividades que constam tipificadas nos números seguintes.

A expressão “propuserem” tem o sentido de projeto.


Assim, a empresa, em sentido dinâmico da atividade, incluiu já os atos da sua própria formação, tais como os
estudos iniciais de viabilidade do negócio, as aquisições de equipamentos, a contratação de funcionários, os quais
já são considerados empresa.
Regente: O requisito da comercialidade de uma empresa é, portanto, fixado através do seu objeto (critério da
atividade e da prática reiterada)
Em suma, ainda em estado de projeto, a empresa já o é.

Mesmo quando suspende a sua atividade, a empresa mantém-se enquanto o seu projeto se mantiver vivo e viável
(mais notável nas sociedades que uma vez suspensas podem ser ativadas mais tarde, sem se extinguirem).

Quanto à expressão das empresas como “singulares ou coletivas”, PPV critica a visão interpretativa de estar de
um lado os comerciantes individuais e do outro as sociedades comerciais.
Para PPV, as sociedades comerciais, tendo personalidade jurídica própria, são entes jurídicos individuais.

O sentido da expressão deve ser entendido como abrangendo quer o exercício individual da empresa, quer o
coletivo; quer a sua titularidade individual, quer a coletiva.

Empresas coletivas são aquelas que forme exercidas por mais que uma pessoa individual, ou por mais que uma
sociedade comercial, ou por mais que um ente individual.
O exercício do comércio pode ser feito em compropriedade ou contitularidade por mais que uma pessoa

A doutrina costuma afadigar-se sobre o carater aberto ou fechado da enumeração de atividades contidas no art.
230º, como se de uma tipologia de empresas se tratasse.

PPV, contesta esta ideia, afirmando que o art. 230º não contém uma tipologia de empresas comerciais, mas sim
uma série de índices de qualificação de empresas como comerciais, em que aquelas atividades devem estar
presentes as empresas candidatas a qualificação para que possam ser tidas como mercantis.

Bastará assim a prossecução de uma dessas atividades para que a empresa seja qualificada como mercantil.

O entendimento desses índices tem suscitado dificuldades na Doutrina, admitindo todos que o art. 230º não é
elenco fechado, mas aberto a extensões analógicas.

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Regente: Atualmente, a doutrina manifesta-se favorável à consideração desta tipologia em termos que permitam
a integração de atividades qualificadores de empresas comerciais não expressamente consideradas em 1888.
Analogia legis, não iuris.

Há nesta aceitação, todavia, diversas nuances individuais.

- Os autores mais antigos como OA falam de tipologia delimitativa, i.e., aceitam extensões analógicas a
partir de cada um dos tipos, mas não a construção de um conceito de empresa comercial a partir desses tipos, no
qual pudessem subsumir-se atividades sem analogia com os sete tipos de atividades previstas no art. 230. (não
admite analogia iuris, apenas analogias legis).

PPV, critica essa posição, alegando que se baseava numa interpretação literal, pois a sua ampliação e atualização
caberia ao legislador.
Uma interpretação restritiva só teria sentido se se tivesse respeitado o art. 4º da Carta de Lei e se o C. Com se
mantivesse atualizado de acordo com a evolução do mercado e do comércio com sucessivos aditamentos de
atividades mercantis que a prática fosse criando, o que não aconteceu.

Afirmando que não existe nada no art. 230º que permita concluir que a sua enumeração é fechada, afirma que o
preceito contém uma série tipológica de atividades tipicamente mercantis, tendo de se usar um processo de
concretização topológico assente na analogia.

Para operacionalizar o método tipológico, é assim necessário identificar índices do tipo, do tipo de empresa
comercial, que permita a comparação, os quais devem ser discernidos no conjunto dos números e dos parágrafos
do art. 230º.

A empresarialidade mercantil é indicada pela intermediação, organização, assunção de risco especulativo, e


pela pofissionalidade.

Neste sentido:

 A indústria transformadora

O nº1 do art.230º, abrange, com a limitação do parágrafo 1, a totalidade da indústria transformadora,


englobando todo o setor secundário.

A atividade transformadora assenta na compra de matéria-prima para transformar e vender o produto final.
O produto de uma transformação pode, por sua vez, ser matéria-prima de uma transformação subsequente.

Juridicamente, na transformação, as coisas que constituem a matéria-prima extinguem-se e deixam de existir, e


as coisas transformadas constituem-se originariamente.

A transformação pode ser:


- Direta: quando há aquisição de matéria-prima, procedendo à sua transformação e à venda do produto
final.
- Indireta: a empresa transformadora adquire a matéria-prima, e realiza um contrato de transformação
com outra empresa, recebendo dela o produto transformado para ela própria vender

O contrato de transformação é duplamente comercial:

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- Por um lado, é objetivamente comercial pois constitui o núcleo típico de um das atividades previstas no
art. 230º
- Por outro lado é subjetivamente comercial porque é tipicamente celebrado pelos comerciantes que
exercem a empresa de transformação.

O parágrafo primeiro do art. 230º tem uma origem histórica, pretendendo excluir do comércio a agricultura e as
artes e ofícios artesanais.

Esta limitação encontra fundamento na ausência de intermediação mercantil especulativa nestas atividades.
O proprietário ou explorador agrícola não funciona como intermediário, sendo ele próprio que produz a sua
própria matéria-prima. A transformação que lhe imprime é acessória. A sua atividade principal é a agricultura.
Também os artesões, mestres ou oficiais mecânicos não intermedeiam nas trocas, agem diretamente.

PPV considera que não se deve excluir todo o setor primário (agricultura, silvicultura, pecuária, caça, pesca e
industrias extrativas) com base no parágrafo primeiro.

Entre a indústria transformadora e a indústria extrativa não existe, atualmente, uma diferença tão importante
que justifique o seu afastamento em relação à matéria mercantil.
Assim, há indústrias extrativas, como a mineira, que devem ser consideradas mercantis.

Também a geração de eletricidade deve ser qualificada como uma atividade mercantil por aplicação analógica do
art. 230º nº1.

A aplicação da exclusão do parágrafo primeiro assenta na concretização da relação de acessoriedade.


Só é excluída a comercialidade se a transformação for acessória à atividade agrícola.
Se a atividade agrícola for acessória da transformação deve ser qualificada como comercial.

Mesmo no setor agrícola, uma empresa de transformação de produtos agrícolas, que os produz com o fim de os
transformar, em que seja principal a atividade transformadora e acessória a de produção da matéria-prima,
deve ser qualificada como mercantil.

Quanto aos “artista, industrial, mestre….”, como está totalmente ausente a intermediação e a especulação
mercantil, são excluídos da empresarialidade mercantil.

Deve ainda incluir-se na atividade transformadora a construção de bens móveis, como por exemplo, os meios de
transporte.
Inclui-se ainda os elementos pré-fabricados, como vigas de betão, estruturas metálicas que se usam nas
construções.

 O fornecimento

A atividade de fornecimento (art. 230º nº2, delimitada negativamente pelo parágrafo segundo) insere-se no
núcleo da intermediação mercantil.

O termo “géneros” deve ser entendido como abrangendo tudo o que pode ser fornecido, incluindo géneros
alimentícios e coisas móveis.
Faz parte do comércio, tal como é exercido no mercado, por exemplo, o fornecimento de energia, ou de outros
bens uteis que um comerciante possa comprometer-se a prestar a outrem de modo duradouro e por preço
previamente convencionado, ficando o fornecedor com o respetivo risco.

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PPV acrescenta ainda que a expressão abrange as coisas fungíveis, tais como a energia, frio, software,
consultadoria, informações comerciais.

O fornecimento é uma atividade claramente especulativa, com semelhanças com a compra para venda,
objetivamente comercial, o que diz respeito à intermediação, diferindo apenas dela, uma vez que em vez de atos
isolados, se traduz numa prática reiterada.

O contrato de fornecimento é duplamente comercial:


- Objetivamente comercial pois constitui o núcleo típico da atividade mercantil do art. 230º nº2
- Subjetivamente mercantil por ser tipicamente celebrado por comerciantes no exercício do seu comércio
de fornecimento.

Quanto à restrição do âmbito material do art. 230º, Parágrafo 2º, neste caso não está em causa o critério da
acessoriedade, mas antes a inexistência de intermediação e da assunção especulativa do respeito risco.

 O agenciamento de negócios ou leilões

O nº3 do art. 230º refere-se à atividade dos leiloeiros, dos mediadores, dos agentes, e de todos aqueles que
promovem negócios, não para si mesmos, mas para outrem, que o fazem onerosamente, mediante uma
remuneração previamente acertada e profissionalmente.

É necessário que prestem o seu serviço ao público (que tenham escritório aberto ao público), que sejam um
empresário independente e não que o façam apenas por conta de certa ou certas pessoas.

É uma atividade de pura intermediação, que colocam as partes em contacto, formam o mercado, promovem os
negócios, mas não entram pessoalmente neles.

O âmbito material desta atividade é muito amplo, incluindo no seu núcleo típico vários contratos, tais como o
leilão a agencia, a mediação, a corretagem, entre outros que se traduzam na obtenção de negócios para outrem,
em atividade aberta ao público, onerosamente mediante remuneração previamente estipulada.

 A exploração de espetáculos públicos

O nº4 do art. 230º refere a expressão de quaisquer espetáculos públicos.

O empresário de espetáculos é um intermediário entre o público e os artistas, promovendo e organizando


eventos como concertos, touradas, espetáculos desportivos, etc.

É uma atividade fortemente especulativa, pois assumindo o risco económico do espetáculo, recebendo as receitas
do espetáculo e contratando os artistas e incorrendo nos demais custos, o resultado tanto pode ser lucrativo
como negativo.

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 A edição

Referida no nº5 do art. 230º, esta atividade envolve tipicamente a intermediação entre os autores e o público, e é
especulativa pois convenciona com o autor o quantum do direito de autor que lhe irá pagar e investe no custo da
produção, da impressão e da distribuição.

Abrange a edição de livros, revistas, fonogramas, videogramas e meios análogos de edição.

O editor assume profissionalmente o risco, não sabendo se vai lucrar ou não.

O parágrafo 3 do art. 230º restringe o âmbito material da edição e publicação aos autores sobre as suas próprias
obras, pois neste caso não existe intermediação nem especulação, logo não constitui índice de comercialidade.

Esta restrição não abrange a compra para revenda e correspondente revenda das obras, como fazem, por
exemplo, os alfarrabistas.
Esta atividade é mercantil nos termos do art. 463º.

 A empreitada

Prevista no nº6 do art. 230º, a empreitada constitui uma pura prestação de serviço, sendo a atividade referida
como índice de qualificação da empresa como comercial, que tem como núcleo central a empreitada de lavor e
materiais, aquela em que o empreiteiro, além do trabalho propriamente dito, fornece também os materiais de
construção, mesmo que não sejam a totalidade.
Não afasta a comercialidade da atividade o facto de o dono da obra fornecer alguns materiais, desde eu não
forneça a sua totalidade.

A referência “construir para outrem” engloba as empreitadas puras e ainda as construções das empresas para si
mesmas e que procedem em seguida à venda do que construíram (modo indireto de construir para outrem cuja
diferença, perante o critério ratio legis, não justifica a exclusão)

A referência à construção de “casas” deve ser entendida como abrangendo todo o tipo de construções de
imóveis, desde casas a estradas.

Quanto à construção de bens móveis, como por exemplo, os meios de transporte, deve ser incluída na atividade
transformadora.

As empresas de construção praticam a intermediação entre os donos das obras e os fornecedores de materiais e
por vezes, também os projetistas.
A sua atividade é especulativa.

Tendo diversificados campos de atuação e, embora não sejam muito tipicamente construtivas, não devem ser
excluídas do seu âmbito algumas especialidades que lhes estão indissoluvelmente ligadas, como por exemplo, as
empresas de sondagem de solos ou de impermeabilização, pintura ou proteção das construções ou dos seus
componentes.
Atuam quase sempre por subempreitada, mas não deixam de constituir setores não autónomos da atividade de
construção.

Também as atividades de projeto e de fiscalização de obras, embora exercidas como setores acessórios da
atividade das empresas de construção, devem ser incluídas na atividade pois não são em concreto excluídas por
incompatibilidade com a ratio legis do nº6 do art. 230º.

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Já a fabricação dos elementos pré-fabricados, como vigas de betão, estruturas metálicas, etc, constitui indústria
transformadora.

 O transporte

O transporte para outrem, empresarialmente organizado, é uma das atividades mais tipicamente comerciais.

No nº 7º do art. 230º, deve ainda incluir-se o transporte aéreo, o lançamento de materiais para o espaço,
designadamente satélites, em naves espaciais especializadas ou o transporte de energia elétrica.

Este preceito deve ser lido conjuntamente com o art. 366º - contrato de transporte- como ato de comércio
objetivo.

Da leitura conjunta, ressalta que o transporte, para ser mercantil, deve ser empresarial.
Ou seja, o contrato de transporte só é objetivamente comercial quando se insira num atividade empresarial.

O transporte, como prática acidental ou isolada, não empresarial não é mercantil.

 A pesca

Foi qualificada como atividade ou empresa comercial mais tarde, pelo art. 1º do DL 20.677 de 28DEZ1931, em
desrespeito ao art. 4º da Carta de Lei que aprovou o C. Comercial.

É excluída da qualificação como atividade empresarialmente mercantil a pesca artesanal e a pesca desportiva no
seu parágrafo único.

 A agricultura

Os parágrafos 1 e 2 do art. 230º excluem a agricultura das atividades que podem ser qualificadas como empresas
comerciais.

Esta exclusão em 1888, baseou-se no facto de a atividade ser de subsistência e de autoconsumo, logo não
envolviam nem empresarialidade nem risco especulativo.

Contudo, a realidade atual comprova que certos setores, como a silvicultura, vinicultura, etc, assumem muitas
vezes um cariz empresarial que justificariam a sua qualificação como mercantis, desde que assumissem uma cera
sofisticação e dimensão económica mínimas.

Não tendo havido intervenção legal nesse sentido, PPV defende que a evolução da agricultura já justificaria a
criação de um regime análogo ao da pesca (acima analisada).

Para PPV, seriam então consideradas comerciais as empresas já constituídas ou que de futuro se constituíssem
para o exercício das atividades agrícolas, excluindo o exercício artesanal dessa atividade por agricultores
individuais (ainda que em contitularidade), sem constituição de empresa.

Quanto à forma de formalizar na lei os requisitos da empresarialidade, PPV defende que se deveria recorrer ao
método tipológico que ele defende (atrás exposto).

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Os parágrafos 1 e 2 do art. 230º apenas excluem da qualificação como empresa mercantil, a atividade de mera
fruição, incluindo o fabrico e manufatura dos produtos do terreno que cultiva, “acessoriamente à sua produção
agrícola”, e ainda ao fornecimento desses produtos.

Outras atividades, que forem exercidas conjuntamente com o cultivo e fruição da terra, poderão justificar a
qualificação como empresa comercial.

O agricultor pode exercer na sua propriedade diversas atividades, desde turismo de habitação, caça, golfe, atos
objetivos de compra e venda de animais ou plantas.
Estas atividades, se não forem meramente acessórias ao cultivo e fruição da terra, podem qualificar como
mercantil aquela empresa.
O carater principal ou acessório destas atividades em relação ao cultivo e fruição da terra deve ser aferido
economicamente pelo valor comparativo dos investimentos e proveitos respetivos.

A chamada “agricultura sem terra”, onde se inclui o cultivo em meio artificial com recurso a produtos químicos
sem suporte de solo (hidropónica), a produção intensiva de aves e os viveiros estabulados fechados, sem recurso
à pastorícia, não deve ser considerada atividade agrícola.

PPV defende que poderia ser explorada uma via aberta pela empresarialidade da atividade transportadora que,
em ligação com o art. 366º exige que tenha sido constituída empresa com a estrutura de sociedade comercial.
Poderia então ser qualificada como mercantil, a empresa agrícola constituída como sociedade comercial.

Atualmente, os agricultores mais sofisticados a nível de gestão e estruturas, já se encontram constituídos em


sociedade, quer por quotas quer anónimas.

A exploração por uma sociedade de tipo comercial pode ser um índice de comercialidade suficiente para a
qualificação comercial da empresa mercantil.

Com a lei atual, não pode deixar de ser excluída a comercialidade das atividades económicas consistentes o
simples cultivo e fruição da terra, eventualmente acompanhado, do fabrico ou manufatura ou do fornecimento a
terceiros que acessoriamente for feito dos produtos da terra.

Mas podem ser qualificadas como mercantis, as atividades em que o cultivo e a fruição da terra sejam acessórios
a outras atividades qualificáveis como mercantis, sendo a relação de acessoriedade determinada pela
importância relativa dos respetivos investimentos e proveitos.

Podem ser qualificadas como mercantis outras atividades de “produção sem terra”, de vegetais ou animais,
usualmente cultivados com terra pelo agricultor tradicional, como por exemplo, as culturas hidropónicas ou a
produção industrial de ovos, fungos ou animais.

Pode ainda ser qualificada como comercial a atividade agrícola exercida por sociedades do tipo comercial que
tenham como objeto social essa mesma prática.

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 A empresa e o empresário no direito comercial

A empresa é um termo com 2 sentidos:

- Num sentido amplo: abrange o projeto prosseguido através duma atividade duradoura e finalisticamente
determinada, prosseguida de um modo mais ou menos organizado e com utilização dos meios necessários.

Assim, a empresa não tem de ter um fim económico, mas antes cultural ou científico (Universidade), ou religioso
(Igreja), militar (exercito), assistencial (Misericórdia).

- Num sentido restrito: a empresa com fim económico, que tanto pode ser comercial ou não.

Numa perspetiva jurídico-formal, comerciais seriam as empresas cujos fins ou projetos corresponderiam ao
exercício do comércio, através da prática de atos de comércio ou de algum das atividades referidas no art.230º.

Atualmente, a referência às empresas e aos comerciantes é cada vez mais utilizada para referir os agentes
económicos que atuam no mercado, evoluindo-se assim do mercador/comerciante e da mercancia/do seu
comércio para as figuras do empresário e da sua empresa.

Todo o comerciante, que exerce o comércio como profissão, fá-lo através de uma empresa.

Na dicotomia empresa comercial/empresa civil, no logica do D. Comercial, todas as empresas não comerciais são
empresas civis, que são aquelas cujo fim não é económico nem lucrativo.

A qualificação das empresas comerciais deverá assentar no seu fim económico lucrativo ou na subsunção no art.
230º.

Nos parágrafos 1 a 3 do art. 230º, o que excluiu a qualificação como empresas comerciais das atividades a que se
referem é a falta de empresarialidade, mais do que a comercialidade.

Os números do art. 230º não contêm uma tipologia fechada de empresas comerciais, mas sim uma série de tipos
onde é possível discernir índices de qualificação de empresas que devem servir de base à qualificação das
empresas comerciais.

A sua concretização exige um processo tipológico-analógico que se traduz na comparação entre o caso e o tipo,
no discernimento da semelhança e da diferença e na apreciação da respetiva relevância de acordo com a ratio
juris que fuda a distinção entre empresas comerciais e civis.

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O Estabelecimento Comercial

Em sentido material, empresa tem o significado de estabelecimento comercial.

O estabelecimento comercial corresponde ao conjunto de bens e direitos agregados à atividade do comerciante,


à sua empresa, de modo a poder exerce-la, que são, casuisticamente variáveis.

Essa variabilidade prende-se, antes de mais, com as próprias opções de negócio do comerciante, mais ou menos
extensas, mais ou menos sofisticadas.

Essa variabilidade depende da empresa e do comerciante.


Da empresa porque a atividade a prosseguir exige, pela sua natureza, cetos meios de organização e de atuação
que é necessário ou conveniente por aio seu serviço.
Depende da vontade do comerciante, porque é ele que decide o que precisa de incluir no seu estabelecimento.

Ex: num estabelecimento de "café" serão seus elementos componentes, os balcões de exposição, as máquinas de
registo contabilístico/fiscal, a maquinaria utilizada na atividade (frigoríficos, máquinas de café expresso, etc.), o
imobiliário, etc.

Já um estabelecimento industrial terá diferentes componentes: maquinaria industrial, matérias-primas e já


transformadas, patentes de invenção, direito a uso de marcas, etc.

Há casos em que a lei ou um contrato determinam alguns elementos que devem integrar o estabelecimento.
Ex: contratos de concessão com o Estado ou contrato de agência ou concessão comercial com outro comerciante,
em que é juridicamente obrigado a incluir e manter o seu estabelecimento com certos bens ou direitos.

Normalmente, a composição do estabelecimento comercial é determinada pelo próprio comerciante.

O próprio feirante e o vendedor ambulante têm o seu pequeno estabelecimento.

O estabelecimento pode ser integrado por um leque muito amplo de bens e direitos:

1 - São bens que integram o estabelecimento, todos os bens móveis e imoveis.

Quanto aos bens imóveis, estes podem ser:

- Propriedade do comerciante, caso em que o correspondente direito integra o estabelecimento;

- Não ser propriedade do comerciante, detendo este um título legítimo quanto ao seu uso, como
por exemplo, um contrato de arrendamento ou de integração em centro comercial (é um contrato mercantil, mas
não de arrendamento).
No passado (até 2006) o arrendamento comercial tinha uma regulação específica no âmbito do arrendamento
urbano (arrendamento para comércio, indústria ou exercício de profissão liberal).
Depois da reforma de 2006 do direito do arrendamento, só se distingue entre arrendamento para fim
habitacional e fim comercial - art. 1607 do CC.

2- O estabelecimento comercial integrará, normalmente direitos, em maior ou menor quantidade, o que


varia tendencialmente, em função da maior ou menor sofisticação:

- Os contratos de trabalho com os seus trabalhadores (que normalmente, serão transmitidos ao


adquirente, havendo transmissão do estabelecimento);

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- Os contratos com clientes e fornecedores;


- O direito ao uso do nome do estabelecimento (já sem proteção específica co CPI vigente - DL 36/2003 de 5
de Março, mas continuam a ser protegidos os nomes abrangidos por proteção de legislação anterior)
- Os direitos de propriedade industrial, designadamente ao uso exclusivo de marca.

O titular desses direitos não é (não pode ser) o próprio estabelecimento, que não detém a necessária
personalidade jurídica.

O titular dos direitos é o comerciante (pessoa singular ou socieda.Com - PC), mas estes direitos estão
funcionalmente afetos ao estabelecimento (e, nesse aspeto, diferem de outros, também do comerciante, que não
têm a tal afetação como por Ex: os direitos resultados do arrendamento da casa que habita) e, nessa medida,
podem ser objeto de uma negociabilidade unitária do estabelecimento (Ex: venda do estabelecimento).

Se tal suceder, torna-se importante determinar quais os direitos (do comerciante) funcionalmente afetos ao
estabelecimento, cuja titularidade é transmitida/transferida com o estabelecimento.

O âmbito material do estabelecimento é variável de caso para caso, e fácil de determiná-lo, bastando verificar na
sua escrituração o que constitui o seu estabelecimento, caso ela esteja em ordem, podendo discernir-se, o caso
de um comerciante ter mais do que um estabelecimento, o que pertence a cada um.

A determinação da composição do estabelecimento não deve ser realizada de forma dedutiva, pois cada
comerciante afeta ao seu estabelecimento o que acha necessário, daí a necessidade de verificar na escrituração o
que compõe o estabelecimento.

Tal não impede, que num concreto ato de transmissão do estabelecimento, ou noutro ato negocial que o afete,
seja estipulado quais dos seus elementos são incluídos ou excluídos do negócio.

 O aviamento ou goodwill

Na linguagem contabilística, é entendido como um valor não físico que expressa o valor da empresa para além do
valor contabilístico ou do valor de venda dos seus ativos líquidos e do seu passivo e que revela a capacidade ou a
potencialidade da empresa para gerar lucros, a sua eficiência mercantil.

O goodwill é a diferença entre o valor global do estabelecimento ou da empresa em funcionamento e o valor do


somatório dos valores específicos de cada um desses componentes.

Assim, esse valor pode ser positivo ou negativo, conforme a empresa e o seu estabelecimento tiverem um valor
global em funcionamento superior ou inferior ao valor dos componentes.

O Regente afirmou que esta valorização do estabelecimento expressa a suscetibilidade de gerar lucro, o que
interesse a qualquer potencial comprador ou investidor conhecê-lo.
Ex: a Apple, antes de lançar um produto, já tem muitas reservas

Assim, o aviamento corresponde a uma ideia de que os clientes confiam na marca, o que a valoriza, atraindo o
investimento privado e aumentando a valoração monetária da sua aquisição

 A clientela

O goodwill surge por vezes associado à clientela.

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A clientela não pertence (não constitui um componente) ao estabelecimento nem à empresa, e os clientes são
livres de o ser ou de integrar a clientela de outra empresa concorrente.

Quando se procede à aquisição de um estabelecimento, a clientela contribui relevantemente para a fixação do


seu valor, ou seja, a boa clientela está normalmente acompanhada de um goodwill positivo.
Contudo, os conceitos não devem ser confundidos.

Num contrato de transmissão do estabelecimento, seja transmissão definitiva da sua propriedade – trespasse,
seja de concessão da sua utilização temporária- locação ou cessão da exploração, pode ser estipulado que se
mantenha a clientela ou certa parte dela.
É frequente a estipulação de cláusulas de não concorrência com as quais o adquirente do estabelecimento tenta
impedir o alienante de levar a clientela consigo (a clientela fidelizada ao comerciante) consigo para um novo
estabelecimento, do mesmo ramo do comércio, que venha a criar em concorrência com o anterior.

Atualmente, a doutrina não dá relevância a estas cláusulas, uma vez colocam em causa o direito da concorrência.

 Natureza jurídica do estabelecimento

O estabelecimento é tratado unitariamente como um bem, sendo qualificado como uma “unidade jurídica”

A lei trata unitariamente o estabelecimento comercial, quando permite que este seja objeto de trespasse,
locação, penhora e de penhor e até de hipoteca.

O estabelecimento comercial é um conjunto organizado de bens e direitos afetados a um fim específico, que é o
de suportar o exercício da empresa e que o direito trata unitariamente para certos efeitos, sem prejuízo da
individualidade e autonomia dos seus componentes.

- No trespasse e na locação do estabelecimento, há uma transmissão global unitária para o mesmo ramo
do comércio (1112º CC), sem prejuízo de alguns bens serem excluídos por estipulação das partes.
- O mesmo se sucede com a penhora (862º-A do CPC)

No trespasse (1112º CC), a lei permite a transmissão do estabelecimento comercial, inter vivos, sem dependência
da autorização do senhorio.

A lei só sacrifica o interesse do senhorio em detrimento da integridade do estabelecimento, apenas na medida da


transmissão efetiva do estabelecimento (1112º nº2), desde que não se verifique nenhuma das situações de
delimitação negativa do Nº2.

Assim, é necessário saber o que se deve entender por “outros elementos que integram o estabelecimento”
Tal como acima foi acima dito e reafirmou o Regente, PPV considera que os elementos do estabelecimento são
variantes, não havendo uma composição mínima ou natural.
Para se verificar quais os elementos componentes do estabelecimento comercial é necessário recorrer à
escrituração mercantil de onde constam os elementos, bens e direitos do estabelecimento.

PPV define o estabelecimento comercial como um bem mercantil que engloba o complexo de bens e direitos que
o comerciante afeta à exploração da sua empresa, que tem uma utilidade, uma funcionalidade e um valor
próprios, distintos de cada um dos seus componentes, e que o direito trata unitariamente. (tese da Pluralidade
de elementos unitários afetados a um fim)

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 Nome e insígnia do estabelecimento: o logótipo (remissão)

O estabelecimento era identificado pelo “nome e insígnia do estabelecimento”, que eram direitos privativos da
propriedade industrial, sendo sujeitos a registo, beneficiando da respetiva proteção.

Na última reforma do Código da Propriedade industrial, o “nome do estabelecimento” desapareceu sendo


substituído pelo “logótipo” (art. 304º-A e 304º-S), sendo este o único juridicamente protegido atualmente.

São direitos de propriedade industrial, que identificam uma marca ou um estabelecimento.

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O Estabelecimento individual de responsabilidade limitada - EIRL ( DL 248/86, de 25 de Agosto)

Historicamente, o sistema civil nuca simpatizou com o desejo dos comerciantes de limitarem a responsabilidade
ao investimento e ao negócio, sendo que este deveria responder, na moral civil, perante os credores com todo o
seu património e da sua família, e caso lhe corresse mal o negócio, a consequência era a quebra e a bancarrota.

Mas a economia mercantil exigia que cada autónomo negócio pudesse responder por si próprio e que, em caso
de insucesso, a responsabilidade patrimonial se limitasse aquele negócio, sem se comunicar aos demais negócios,
evitando assim a falência em cadeia e a insolvência de toda a família do comerciante.

A limitação da responsabilidade tem dois inconvenientes fundamentais, que devem ser apreciados em conjunto:
- O risco de fomentar a imprudência dos comerciantes
- O risco de insatisfação dos credores

A limitação da responsabilidade tem uma longa história de avanços e recuos, tendo começado pela constituição
das velhas companhias coloniais.
A limitação da responsabilidade foi tentada, e na prática conseguida, com a constituição de sociedades por
quotas, em que o comerciante subscrevia a quase totalidade do capital, tendo apenas um outro sócio com a
quota mínima.
Estas foram o embrião do estabelecimento unipessoal de responsabilidade limitada.

Por pressão dos interesses do comércio e depois de generalizada a constituição de sociedades por quotas, em
1986, com o DL248/86, o legislador admitiu o Estabelecimento individual de Responsabilidade limitada – EIRL.

O EIRL acabou por não ter êxito uma vez que os comerciantes não o adotaram continuando a preferir a
constituição de sociedades por quotas com um sócio mínimo.

A razão deste inêxito deveu-se à existência de 3 preceitos que constavam no DL:

1- Limitação de um EIRL apenas por cada comerciante- art. 1º nº3,


2- Permitiu que o património pessoal do comerciante respondesse por dívidas do EIRL, em caso de
mistura patrimonial
3- Permitiu que o património do EIRL respondesse pelas dívidas comuns em caso de insolvência pessoal
do dono.

Perante este fracasso, o legislador aprendeu a lição, e introduziu no CSC, através do DL 257/96 de 31 de Dez, nos
artigos. 270º-A a 270º-G, que preveem e regulam a sociedade unipessoal por quotas, que tem sido muito usado
pelos comerciantes.

A relevância da qualificação como comerciantes e como ato, dívida ou obrigação comercial

A qualidade de comerciante do autor é relevante para a sua qualificação como ato de comércio subjetivo.

 Desvios quanto a regras comuns sobre a forma dos atos:

Art. 396º C. Com, Parágrafo único, consagra que o empréstimo mercantil, entre comerciantes, admite "todo o
género de prova", seja qual for o seu valor.

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Nelson Pimenta FDL 24761

Trata-se de um desvio importante em relação ao regime civil do mútuo que exige forma especial, quer para a sua
constituição, quer para a prova. (1143º CC (forma legal) + 364º nº1 do CC (prova);

O empréstimo de fundos (mútuo), sempre sofreu uma forte desconfiança no direito civil.

O mútuo entre comerciantes é banal, é um instrumento corrente da mecânica e não deve ser embaraçado com
formalidades.
Um dos modos de provar o mutuo é a exibição e confronto dos livros e documentos contabilísticos dos
comerciantes, nos termos do art. 44º C. Com.

Também o penhor mercantil entre comerciantes beneficia de um regime de forma menos exigente.

Segundo o art. 400º C. Com o penhor mercantil entre comerciantes de valor superior a 200.00 reis"… basta que
se prove por escrito” (regime do CC espartilhado: cfr. 669º nº1 CC + 681º)

 Fiança mercantil e garantia autónoma

Art. 101 C. Com diverge do regime da execução prévia da fiança civil - art 638º do CC (o fiador pode opor-se à
execução do seu património enquanto não for esgotado o património do afiançado).

A dualidade entre o regime civil e o regime comercial exprime-se na dualidade favor debitoris no CC e favor
creditoris no D. Com.

No D. Com protege-se os interesses do credor sobre o interesse do devedor, e por isso, faculta-se ao credor o
poder de acionar conjuntamente ambos, o fiador e o afiançado, ou um deles, conforme lhe convier mais, o que
aumenta muito relevantemente a facilidade de cobrança do crédito.

Na divida mercantil, vigora assim tipicamente a renuncia ao benefício da execução prévia.

Começaram a surgir casos em que, no próprio texto da fiança, surgia estipulado pelo fiador a renuncia ao
benefício de excussão e de discussão: clausula esta que aumenta a eficácia da proteção da cobrabilidade, pois,
nestes casos, o fiador não pode exigir que seja previamente esgotado o património do devedor e não pode
também discutir se há fundamento para exigir o pagamento do crédito.

Esta cláusula é denominada de garantia autónoma ou “à primeira solicitação” (on first demand) em que o fiador
(garante) tem de pagar mediante a simples solicitação nua (=sem fundamentação) do beneficiário, mesmo que o
afiançado se oponha ao pagamento.

(Regente: A garantia de uma obrigação diz-se autónoma em relação àquela se o garante deve proceder ao
pagamento sem poder discutir se há, ou não, fundamento para exigir o pagamento do crédito do devedor
principal.)

Se o beneficiário de uma garantia autónoma a acionar, exigindo o pagamento injustificadamente, o garante tem
de a pagar, e exerce o seu direito de regresso contra o afiançado.

O afiançado pode exigir do beneficiário a indemnização correspondente ao dano que lhe causou em
consequência do ilícito acionamento da garantia.

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Assim, a responsabilidade do fiador, nesta modalidade, é autónoma em relação à dívida garantida. O fiador-
garante, ao prestar a garantia autónoma, já sabe o risco que corre e, geralmente, assegura-se com uma
contragarantia, frequentemente designada de colateral.

Se o garante é um banco, a garantia denomina-se na prática por bancária, sendo que o Banco tenderá a contra
garantir-se (contragarantia) com um bem do garantido, como por exemplo, o pendor de uma aplicação
financeira.

Situação triangulada entre o Devedor principal, o Garante, e o Devedor/Garantido


A garantia autónoma é diferente da obrigação garantida.
O risco de quem assegura a garantia autónoma é assegurado por uma contragarantia

 Taxa de juros comerciais (102º C. Com)

O D. Civil fixa taxas de juro supletivas para os casos em que é de direito ou convenção o vencimento de juros,
regime dos art. 559º e ss (obrigações de juros).

As taxas de juro aplicáveis a obrigações civis dizem-se civis e são fixadas por Portaria - art. 559º do CC, servindo
para a determinação da taxa quando o vencimento se dê por efeito de uma norma legal ou se for convencionado
o vencimento de juros, mas sem determinação de taxa.

A estipulação de taxas de juro acima dos legais está sujeita aos limites da usura, regime do art. 560º+1146º CC.

Atualmente, o art. 102º C. Com remete a concreta taxa de juro comercial para outros normativos, que vão sendo
atualizados regularmente.

Nos termos do parágrafo 1º, a convenção das partes sobre juros só pode ser estipulada por escrito.

A redação atual do art. 102º, Parágrafo 2 do C. Com manda aplicar aos juros comerciais o art. 559º-A e 1146º do
CC. (redação do DL 62/2013 de 10 de Maio, que estabelece medidas contra os atrasos no pagamento de
transações comerciais, e transpõe a Diretiva n.º 2011/7/UE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 16 de
fevereiro de 2011).

A remissão para os artigos 559º-A e 1146º CC unifica os regimes civil e comercial da usura.
Constitui usura a estipulação de juros que excedam os limites legais de 3% ou 5% consoante haja ou não garantia
real… (1146º CC nº1 e 2). Nos termos do Nº3, as taxas usuárias são reduzidas aos limites legais.
Da remissão do Nº4 para o art. 284º do CC, resulta inda que, sempre que a usura constitua crime, o prazo para a
invocação do seu regime de modificação ou anulação só se extingue quando o crime prescrever.

O Paragrafo 3 e 4, consagra a fixação da taxa de juro legal fixada por Portaria a qual depende da taxa de
refinanciamento do BCE.

Do art. 102º C. Com resulta uma diferença muito marcada no regime dos juros remuneratórios e dos juros
moratórios.

- Os juros remuneratórios correspondem economicamente ao preço do dinheiro ao custo da concessão do


crédito, e é a contrapartida da privação temporária do uso do dinheiro. (1146º nº1 CC)

- Os juros moratórios, correspondem a uma indemnização dos custos induzidos pelo atraso no
recebimento de quantias que deveriam ter sido recebidas em certo tempo e não o foram. (1146º nº2 CC)

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De todo o complexo normativo do art. 102º C. Com e art. 1146º e 559º-A do CC, resulta que a taxa de juros legais
é fixada por Portaria conjunta dos Ministros Finanças e Justiça, num mínimo de 7% acima da taxa de
refinanciamento do BCE, e são usuárias:

- As taxas de juro remuneratório que excedam o juro legal em mais de 3% (com garantia real) ou 5% (sem
garantia real)
E
- As taxas de juros moratórias que excedam a taxa legal em mais de 7% (com garantia real) ou 9% (sem
garantia real)

Regente:
- A taxa de juro moratória e dos juros estabelecidos sem determinação ou quantitativo, relativa a créditos
que sejam titulares empresas comerciais são fixadas por Portaria, atualmente: nº 277/2013 de 26 de Agosto, e
Aviso 7758/2015 da Direção-Geral do Tesouro e das Finanças - estes valores só valem até Dezembro de 2015.

- Havendo atraso no cumprimento da obrigação, vencem-se juros de mora, DL 32/2003, de 17 de Fev.

- Os parágrafos §4 e §5 refletem preocupações da U.E, no atraso do pagamento a empresas e pretende-se


evitar efeitos de dominó, no mercado. Há limites mininos que o Governo terá que observar na determinação das
taxas de juro indexados às taxas do BCE

 Regimes especiais de prescrição para certos créditos comerciais.

O regime jurídico da prescrição é, em regra, igual para os comerciantes e não comerciantes.


Há porém, regimes especiais de prescrição em prazos mais curtos, nuns casos, de prescrição presuntiva, em
outros de prescrição extintiva (art. 316º e 317º do CC).

O art. 316º e 327º estabelecem um regime especial para a prescrição de 6 meses e de 2 anos para certos créditos
dos comerciantes, o interesse dos seus clientes (ler artigos).

No art. 317º alínea B, que excluiu os créditos entre comerciantes no exercício do seu comércio, opera uma
Prescrição presuntiva, dispensa o devedor (demandado) da prova do pagamento, mas não o isenta de alegar que
já cumpriu.

Há uma presunção de que o devedor já cumpriu, que não opera mais do que a inversão do ónus da prova,
colocando assim no demandante (credor) o ónus da prova.
O credor se provar que a dívida não foi paga, terá direito de receber o seu pagamento.

Este regime justifica-se por não ser usual guardar os recibos de pagamento de certos bens e serviços que são
banais no comércio.

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 Regimes especiais de dívidas comerciais dos cônjuges

Nos art. 1691º nº1, alínea D do CC e art. 15º C. Com prevê-se um regime especial de comunicabilidade das
dívidas comerciais.

O art. 15º do C. Com estabelece uma presunção iuris tantum segundo a qual, todas as dívidas comerciais do
comerciante casado se consideram, salvo prova em contrário, contraídas no exercício do comércio.

Sendo uma linha ténue, a que separa as dívidas comerciais das dívidas do foro pessoal do comerciante, quando
não se consiga provar que a dívida foi contraída dentro ou fora do comércio, opera a presunção do art. 15º C.
Com, recaindo sobre o comerciante/devedor provar que aquela dívida foi contraída fora do exercício do seu
comércio.

Do art. 1961º nº1 alínea D, recai também o ónus da prova sobre o devedor/comerciante que a dívida não foi
contraída em proveito comum do casal ou de que vigora entre eles o regime de separação de bens.

A conjugação dos 2 preceitos favorece a posição contratual do credor na ação (principio do favor creditoris), em
que o credor alega os factos presumidos, mas não impede o devedor de provar o contrário, podendo usar os
meios de prova comuns.

Para tal, o devedor/comerciante pode usar a escrituração mercantil (art. 44º C. Com) para provar que a dívida foi
contraída ou não, fora do exercício fora do comércio.

Quanto ao proveito comum do casal, a questão tem de ser vista de 2 perspetivas:


- Perspetiva subjetiva: saber se a dívida contraída se traduziu, no caso concreto, em bem ou mal do casal.
- Perspetiva objetiva: saber se a dívida constituiu como contrapartida, um incremento patrimonial da esfera
jurídica de ambos os membros do casal, ou apenas daquele que contraiu diretamente a dívida.

O critério a aplicar é o critério objetivo, contudo o cônjuge pode sempre provar ou tentar provar que não houve
tal proveito patrimonial, ilidindo assim a presunção de proveito comum.

Segundo o Regente, são da responsabilidade de ambos os cônjuges as dívidas que reúnam cumulativamente:
- Contraídas por comerciante casado
- Que se trate de dívida comercial
- Que se trate de divida contraída no exercício do seu comércio (porque a comercialidade da divida não
conduz necessariamente a esse resultado); o art. 15, presume-o, a elisão da presunção interessa ao outro
cônjuge, para evitar a responsabilização. (é o cônjuge do autor da divida a quem interessa ilidir a presunção).

Análise do aproveitamento comum do casal - vingou, de acordo com a doutrina, a noção objetiva do incremento
patrimonial do casal. Gastos numa viagem, por exemplo não contribuem para este critério de avaliação, por
exemplo.

Resumo: a dívida cambiária é uma dívida objetivamente comercial que, se for contraída por um comerciante, se
presume contraída no exercício do comércio.
Caberá então ao cônjuge, que não for casado em regime de separação de bens, ilidir uma das presunções (uma é
suficiente), alegando e demonstrando que não foi contraída no exercício do comércio ou que não o foi em
proveito comum do casal.

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Segunda Parte
Contratos Mercantis (pág. 139 e ss)

Os contratos mercantis em geral

Os contratos comerciais têm regras próprias, quer em geral (art. 96º a 103º C. Com), quer em especial (nas
disposições que regem os próprios contratos).

 Diferentemente dos demais ramos de direito, o art. 96º admite que os “títulos comerciais” possam ser
expressos em qualquer língua.
Contudo, isto não quer dizer que todos os atos de comercio possam ser licitamente expressos em língua
estrangeira, pois nos termos do art. 42º nº1 do Código do Notariado, os atos sujeitos a registo terão
obrigatoriamente de ser expressos na língua portuguesa (Ex: constituição de sociedade, livros, atas, deliberações,
etc).

 O art. 97º C. Com refere a “admissibilidade da correspondência telegráfica”.


PPV considera que se deve fazer uma interpretação atualista deste preceito, juntamente com o art. 6º do DL 290-
D/1996, para alargar o seu âmbito de aplicação às comunicações por correio eletrónico.

 No que respeita à forma, tal como acontece no direito civil, vigora o princípio da liberdade de forma,
salvas as exceções previstas em cada contrato mercantil.

 O que toca à conclusão do contrato, mantêm-se os tipos de contratação do direito civil.


Desde a proposta aceitação, ao leilão, contratação sobre documento, contratação eletrónica, etc.

 É característica do D. Com a massificação da contratação.


É o caso das atividades do art. 230º.

Não é relevante para a qualificação comercial, a celebração de um contrato isolado de empreitada, ou de edição,
mas sim a sua prática profissional e sistemática.
Quanto ao regime jurídico é o mesmo – aplicação das regras civis da empreitada com a aplicação das regras gerais
aplicáveis a todos os atos e obrigações comerciais.

A contratação em massa levou ao uso das CCG inseridas nos contratos de adesão (Ex: contratos de
abastecimento, agua, luz, gás; ou contratos de seguros, etc.).

 Na contratação mercantil é particularmente relevante a distinção entre contratos celebrados entre


comerciantes e contratos celebrados entre comerciantes e consumidores.

Sendo os consumidores tidos como contraentes ingénuos que carecem de proteção contra si e contra os
comerciantes (contraentes profissionais), o chamado “direito do consumo” aplica-se a todos as relações dos
consumidores (não comerciante ou comerciante que contrato fora do âmbito do seu comercio).

Essa proteção traduz desvios ao princípio da igualdade das partes no contrato.

Na linguagem anglo-americana, a contratação entre comerciantes é designada de B2B (business to business) e a


contratação entre comerciantes e consumidores pelo acrónimo B2C (business to consumer)

 Em sentido contrário, e de acordo com o princípio do Favor creditoris, há normas comerciais que
protegem os comerciantes, tais como:
- Art. 100º e 101º C. Com: o regime da solidariedade passiva dos condevedores e do fiador.

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- Art. 102º C. Com: dívidas comerciais vencem juros mais favoráveis


- Os créditos comerciais, após um curto prazo de mora, beneficiam de um processo especialmente expedito
de cobrança judicial (Injunção)

As sociedades comerciais

Originariamente reguladas no art. 104º a 223º do C. Com, vieram a ser revogados e substituídos pelo atual Código
das Sociedades comerciais e pelo Código Cooperativo.

Esta matéria será apenas estudada no segundo semestre, Volume II do PPV.

Associações em Participação (AeP) DL 231/81 – art. 21º e ss

Originariamente no C.Com (art. 224º a 229º) tinha a designação conta em participação e âmbito mais restrito.

Atualmente está consagrada no DL 231/81 (art. 21º-31º), diploma que regula igualmente o contrato de consórcio.

Definição Regente: Associação de pessoa a uma atividade económica exercida por outra, ficando a primeira
oculta perante terceiros, atuando a primeira em nome próprio, com partilha do resultado nas proporções
acordadas.

PPV: o associante (ou sócio ostensivo (visível)) atua em nome próprio e vincula-se pessoalmente, sem menção do
associado, que se mantém oculto.
O associado financia o negócio do associante, mas não o exerce, e participa no respetivo lucro, se o houver.
Só participa nas perdas quando ambos o hajam convencionado.
A percentagem de participação é estipulada entre ambos, e se não o for, presume-se proporcional se os
contributos de cada um forem avaliados, ou de metade para cada um (50% cada) se não houver a avaliação da
contribuição de cada um.

A atividade economia não tem, portanto, na versão do diploma em vigor, que ser
obrigatoriamente/necessariamente comercial, pois nunca se refere ao “comerciante” como associante e o objeto
da associação passou a ser referido como “uma atividade económica” em vez de aludir a atos de comércio ou
comercio. Logo, a AeP pode ser civil.

- Por isso a AeP pode ter uma versão civil, tratando-se de atividade económica não comercial.
- ….Ou comercial, no caso de se tratar de uma atividade económica comercial.

Na versão comercial trata-se de associar uma pessoa ao negócio do comerciante, ficando o primeiro oculto
perante terceiros, atuando o comerciante em nome próprio, com partilha do resultado nas proporções
acordadas.

 Como deve ser qualificado a AeP? Como objetivamente ou como subjetivamente comercial?

PPV considera que, uma vez que se encontra regulado na legislação comercial, é um ato de comércio objetivo,
mas também poderá ser um ato de comércio subjetivo pois é celebrado no âmbito da atividade comercial de um
comerciante.
Seja como for, e visto que não se pode aludir a uma dupla qualificação, para PPV trata-se de um ato de comercio
objetivo, sempre que o associante seja um comerciante e o objeto seja um ou mais atos de comercio ou uma
atividade inserida no seu comercio.

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Fora destas circunstâncias, a AeP deve ser qualificada como civil.

 Caracteres do Associação em Participação:

1- Oneroso (art . 24º nº1 e nº2; a onerosidade pode limitar-se, para o associado, à participação nas perdas;
(mas nem isso mesmo. O associado pode não participar sequer nas perdas por acordo das partes)
2- Patrimonial
3- Parciário: o associado participa necessariamente nos lucros da atividade (regime dessa participação,
designadamente a proporção: art. 25º; atenção é supletivo).

Tipicamente, o associado participa no risco do negócio, e não na sua gestão.


Quando a participação do associado é em dinheiro, essa participação desempenha a função de financiamento.

Pode contudo, essa participação ser constituída mediante outros bens, desde que adequados ao negócio ou ao
comércio, como o fornecimento de máquinas, bem como constituída mediante bens incorpóreos como as
patentes.

 No art. 22º do DL, a pode existir uma pluralidade de associados.


Neste caso, salvo convenção das partes, não vigora o regime da solidariedade entre eles.

Esta pluralidade de associados pode advir de um contrato do associante com uma parte plural associada, ou
vários contratos com vários associados.

 A AeP não carece de forma legal específica (paralelismo com o art. 219º do CC), salva se for
eventualmente exigida para a entrada do associado (art. 23º DL)

 Nos termos do art. 25º, a participação do associado pode ser convencionada entre as partes.
Contudo, os demais números deste artigo preveem um regime supletivo que PPV afirma não saber como pode
esta regra supletiva ser aplicada na prática, pois o conceito é vago e gerador de conflitos.

 O associante tem diversos deveres, desde a satisfação da participação do associado, está ainda vinculado
ao dever de boa gestão, de diligência, de não concorrência e de informação no que respeita à gestão do
negócio (art. 26º).

A violação destes deveres pelo associante, constitui justa causa de resolução do contrato por parte do associado,
cabendo-lhe ainda a indemnização dos correspondentes prejuízos (art. 30º)

 Quanto à extinção do contrato de AeP, verifica-se nos casos previstos no art. 28º, e ainda por resolução,
nos termos do art. 30º.
Embora não esteja legalmente previsto no DL, pode ainda extinguir-se por denúncia, mediante pré-aviso, nos
termos gerais, quando o contrato for celebrado sem prazo e não tenha por objeto um negócio determinado e
delimitado no tempo.

 A prestação de contas é importante.


Previsto no art. 31º do DL, devem ser prestadas quando convencionado.

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Relativamente ao art. 31º nº2, 2ª Parte, PPV considera que aquela norma não tem qualquer sentido, não
conseguindo encontrar um argumento, limitando-se a afirmar que não deve ser considerada imperativa

O Regente afirmou ainda que:


- A AeP tem natureza puramente negocial, isto é, não configura uma estruturação dotada de
personalidade jurídica diversa dos outorgantes. (não é um ente jurídico diverso, como no caso das Sociedades
Comerciais que são entes jurídicos distintos das PJ que a compõe).
(só produz situações jurídicas para as partes que a outorgam)

O contrato de sociedade é o primeiro em termos históricos a criar, por via de contrato, um novo ente jurídico.

Contrato de consórcio (DL 231/81, de 28 de Julho - art. 1º a 20º)

Definição: contrato pelo qual duas ou mais pessoas, singulares ou coletivas que exercem uma atividade
económica se obrigam entre si a, de forma concertada, realizar certa atividade ou efetuar certa contribuição com
o fim de prosseguir qualquer dos objetos legalmente previstos no art. 2º (Art. 1º e 2º)
(Ou seja, existe uma concertação de 2 ou mais pessoas que de forma associada visam uma determinada atividade
económica).

PPV, concetualmente, o consorcio é um contrato que se carateriza pela associação e por certo fim comum
económico.

Regente: Caracteres do tipo negocial:


1- De associação (com intuito lucrativo);
2- Finalidade económica (o que, de todo o modo, não é caso único), que não tem, tipologicamente, que ser
necessariamente comercial

PPV: O consórcio pode ser comercial ou civil.


Na grande maioria dos casos, o consórcio é celebrado entre comerciantes, quase sempre sem sociedades
comerciais, com um fim comercial. São atos de comércio subjetivos.
Diferentemente, da AeP, como o consórcio não estava inicialmente previsto no C. Com, PPV não o encaixa como
ato de comércio objetivo.

Regente: Se for celebrado por comerciante(s) poderá ser qualificado como Ato Comercio Subjetivo
Ex: Consórcio luso-ponte. Art. 2º, alínea B do DL 231/81, de 28 de Julho, "Execução de determinado
empreendimento".

Se for celebrado entre 2 não comerciantes, é um ato civil.

 Consórcios internos e externos

1- Consórcio interno: - não é evidenciado perante terceiros

Existem 2 modalidades: art. 5º nº1 alíneas A e B: a reunião das duas hipóteses obedece a uma lógica de não
evidenciação do contrato de consórcio perante terceiros.

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2- Consórcio externo: art. 5º nº2 - é o que se evidencia perante terceiros. Declarado ou puramente implícito
perante terceiros.

Ou seja, a diferença entre eles é a de que no consórcio interno, há o carater oculto do consorcio e os externos,
onde os consorciados se revelam externamente com terceiros.

O consórcio externo tem uma densificação de estrutura orgânica, relativamente ao consórcio interno: art. 7.º
"...pode prever um conselho de orientação (administração) e fiscalização" (art. 7º nº1), o que supõe a
determinação de uma relação jurídica entre os consorciados relativamente ao funcionamento do consórcio.

A lei estabelece ainda, para o consórcio externo, a existência de um "chefe de consórcio": art. 12º a 14º (o que
demonstra uma evolução da orgânica)
- Funções internas – art. 13º (do chefe do consórcio) - pode ter representação dos membros, para efeitos
externos (cf. art. 15º nº1, in fine)
- Designação (art. 15º)

O consórcio externo pode ter (facultativo) uma denominação própria, nos termos do art. 15º.
Esta denominação pode ser útil para deixar claro que todos os atos, quer nas relações internas ou externas, são
praticados no âmbito do consórcio.

 Os consórcios não têm personalidade jurídica

Os consórcios têm natureza contratual e não têm personalidade jurídica diversa da dos seus membros.
´
Além do consórcio externo possuir alguma densidade orgânica/estrutural e designação própria, todas as posições
e relações jurídicas que lhe respeitem, são da titularidade dos consorciados.

A responsabilidade civil é dos consorciados a quem os atos ilícitos sejam imputáveis (19º nº3)

Também as receitas e despesas são distribuídas pelos seus consorciados segundo as regras do art. 16º a 18º.

Nas relações com terceiros, não se presume a solidariedade (19º nº1 e 2).

Uma última nota, é a do art. 20º que proíbe a constituição de fundos comuns, o que comprova que estes não
podem possuir uma personalidade jurídica própria.

Regente:
- Tem natureza puramente negocial, isto é, não configura uma estruturação dotada de personalidade
jurídica diversa dos outorgantes.

- Forma art. 3º, em princípio, paralelismo com o art. 219 do CC; salvo no caso dos imóveis

 O consórcio e a autonomia privada:

Fim diverso do art. 2.º ou existência de "fundos comuns" (art. 20º º11) por exemplo: nulidade (art. 294 do CC) ou
atipicidade?

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PPV afirma o seguinte:

- O DL que regula o consórcio foi uma tentativa de regulamentação de uma prática pré-existente.

- Deve fazer-se uma interpretação atualista deste preceito pois o DL não acompanhou a evolução jurídica
da UE nesta matéria.

- Assim, os preceitos do consórcio devem ser entendidos como meramente supletivos sempre que não
exista fundamento de ordem pública para que sejam considerados injuntivos (PPV não consegue encontrar
nenhum fundamento de ordem publica)

- No âmbito da autonomia privada, podem ser celebrados consórcios com um fim diverso dos previstos no
art. 2º, não podendo este ser inválidos, mas apenas ter consequências em tema de qualificação legal, sendo
considerado legalmente atípico, mas nem por isso menos válido.

- Assim, a limitação do art. 2º não é injuntiva, mas apenas simplesmente indicativa.

- O art. 1º nº4 não deve ser interpretado no sentido da proibição imperativa de consórcios diferentes, mas
apenas como limitação material do tipo legal de consorcio.

- Também as regras sobre a orgânica, devem ser tidas como supletivas, tal como a designação,
composição, competências e funções.

- Também se devem considerar supletivas as regras sobre o modo de distribuição das despesas e receitas,
e para os regimes de solidariedade ou não, e até mesmo a proibição do fundo comum.

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Agrupamento Complementar de Empresas (ACE) - Lei 4/73, complementada pelo DL 430/73

O ACE tem como função a cooperação entre empresas, tal como o consórcio, mas com personalidade coletiva,
pretendendo-se assim aproveitar sinergias de cooperação entre empresas ou de uma atuação concertada.

Segundo a Base I, nº1 da Lei 4/73, o ACE tem o fim de “...melhorar as condições de exercício ou de resultado das
atividades económicas..." das pessoas agrupadas

 Personalidade jurídica

Ao contrário do consórcio, o ACE é dotado de personalidade Jurídica (Base IV), “o agrupamento adquire… no
registo comercial”.

Para fins de registo, o ACE é equiparado às sociedades comerciais (art.4º DL 430/73)

O ACE tem uma firma, como elemento gráfico diferenciador do tipo de pessoa jurídica (Base III/2 Lei 4/73;
"agrupamento complementar de empresas" ou do acrónimo ACE

 Capacidade, capital, património e lucro

Tendo personalidade jurídica coletiva, o ACE tem capacidade jurídica, que compreende todos os direitos e
deveres compatíveis com a sua natureza (12ºnº2 CRP), com limitação apenas da propriedade, ou outros direitos
reais sobre imóveis, salvo se destinados para a instalação da sede, delegação ou serviço próprio … (art. 5º DL)

Sendo uma pessoa coletiva, a sua capacidade de direito compreende todas as situações jurídicas ativas e passiveis
compatíveis com a sua natureza de ente coletivo (doutrina que rejeita a existência de um princípio da
especialidade da capacidade das pessoas coletivas ao jeito do art. 160 do CC) e que lhe não sejam vedadas por lei.
(A capacidade jurídica é instrumental. É delimitada. Há um veio doutrinal que recusa esta interpretação do art.
160, nomeadamente MC que encara uma p.c. como uma p.s. na senda do art. 67. Goza de Direitos salvo
disposição legal em contrário)

O ACE pode ou não ter capital próprio (Base II/2), referindo que as partes podem estipular, no contrato
constitutivo do ACE, as contribuições do capital para o ACE.
- A estipulação do capital significa que o ACE tem uma maior densidade como estrutura jurídica de
cooperação. Tem assim uma estrutura mais institucional.
- Se o ACE não tiver capital próprio, tem uma estrutura mais contratual.

O ACE é uma estrutura acessória de cooperação que visa potenciar a realização de lucros no património dos seus
membros – agrupados- mas não do seu próprio património (do património do ACE).
A sua personalidade jurídica coletiva permite-lhe uma esfera jurídica patrimonial que comporta a titularidade de
ativos e passivos, com a limitação apenas da propriedade de imóveis, salvo para a instalação da sede, delegação
ou outro serviço próprio (art. 5º alínea A DL).

O art. 5 do DL 430/73 estabelece limitações à capacidade

O ACE não pode ter como fim principal a realização e partilha de lucros (de outro modo entraria pelo campo do
tipo de pessoa coletiva: sociedade; Base II/1), podendo, todavia, tê-lo como fim acessório, se assim estiver
contratualmente previsto - art. 1º DL 430/73

Ainda que não tenha sido autorizado no contrato, a realização de partilha de lucro, pode acontecer que no seu
exercício, o ACE tenha um saldo positivo que corresponde a um lucro.
Nestes casos, esse lucro pode ser mantido como reserva ou distribuído pelos agrupados.

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Este lucro não é acessório, mas sim um lucro acidental.

 Funcionamento interno do ACE

O contrato constitutivo do ACE pode estipular os poderes e deveres dos agrupados e as suas contribuições para as
despesas ou para o capital.

O ACE pode ter uma administração ou gerência, designada no contrato ou posteriormente (art. 6º do DL 430/73).

Pode ainda ser constituído um sistema de fiscalização.

As deliberações dos agrupados são tomadas em assembleia geral sendo o voto, em princípio, estipulado por
cabeça, salvo convenção em contrário.

São aplicáveis ao ACE o regime subsidiário da sociedade em nome coletivo (particularmente o art. 189º nº1 1 e
nº2 e art.194º CSC) .

 Representação externa

Regulada no nº4 Base III, nas relações com terceiros, o ACE fica obrigado por qualquer dos seus gerentes ou
administradores, agindo nessa qualidade.

São inoponíveis a terceiros de boa fé as limitações de poder de representação dos administradores ou gerentes
do ACE que forem estabelecidas no contrato.

 Admissão, exoneração e exclusão de membros

Os membros que participam no contrato de constituição do ACE são agrupados fundadores.

Contudo, podem ser admitidos agrupados posteriormente, se tal tiver sido estipulado no contrato constitutivo
do ACE ou, nessa falta, por unanimidade dos agrupados (art. 10º DL)

Quanto à exoneração, esta pode ocorrer, nos termos do art. 12º do DL, em 3 situações:
- Nos termos estipulados no contrato constitutivo do ACE
- Quando o contrato seja subsequentemente alterado, não obstante a sua oposição
- Quando o agrupado tiver sido admitido à mais de 10 anos, desde que estejam cumpridas as suas
obrigações

Quanto à exclusão, carece de deliberação da assembleia geral e só pode ocorrer nos 3 termos referidos no art.
13º DL.

Embora a lei não o refira, o contrato constitutivo pode conter outras causas de exclusão.

A parte do agrupado exonerado ou excluído é liquidada nos termos do art. 1021º CC.

Regente:
- Forma: Base III nº1: forma escrita mínima

- Conteúdos: Base III nº2 e nº3

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Agrupamento europeu de interesse económico – AEIE (Regulamento CEE 2137/85 do Conselho de


25/07/1985)

O AEIE é semelhante ao ACE, com a principal diferença de serem constituídas por, pelo menos:
- Duas sociedades ou entidades semelhantes (art. 4º nº1 Reg.), que tenham a sua administração central em
Estados membros diferentes,
Ou
- Duas ou mais pessoas singulares (na aceção do mesmo preceito) que exerçam a sua atividade principal em
Estados membros diferentes da UE.

Tal como o ACE, o AEIE tem a finalidade típica de cooperação entre os seus membros (art. 3º Reg.) e não o
objetivo de realizar lucros para si próprio.

 Regime jurídico

O agrupamento deve usar na sua firma a expressão “Agrupamento europeu de interesse económico” ou o
acrónimo AEIE.

O art. 3º do Reg. é claro no sentido de não permitir que o AEIE seja uma elemento estruturante de um grupo
societário.
Os membros do AEIE devem manter bem clara a sua autonomia, limitando-se a cooperar através dessa
estrutura.

Quanto à orgânica, o art. 16º refere que são órgãos os membros agindo colegialmente e/ou os seus gerentes.

Cada membro tem em regra, um voto, salvo estipulação em contrário, desde que nenhum deles detenha a
maioria dos votos.

Para as deliberações dos membros, o art. 17º consagra a unanimidade, como nas sociedades de pessoas.

O AEIE obriga-se perante terceiros através dos seus gerentes ou perante cada um deles que se apresente a agir
em nome do agrupamento.

De acordo com o que é característico no D. Comercial, o agrupamento só pode opor a terceiros, a falta ou abuso
de poderes do gerente, desde que prove que eles sabiam ou não podiam desconhece-lo, nas circunstâncias.

A cessão da posição de cada membro do AEIE depende dos consentimento dos demais -art. 22º

Os lucros que se apurem na atividade do agrupamento, são considerados lucros dos seus membros.

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Síntese conclusiva sobre os contratos de (i) Consórcio; (ii) ACE; (iii) AEIE

Alguma doutrina insere-os (MC) insere-os em conjunto com o contrato de sociedade, numa qualificação genérica
de contratos associativos, contrapondo-os, assim, a contratos bilaterais-comutativos ou de troca.

Não é todavia doutrina incontestada até porque é uma classificação puramente doutrinária e descritiva, da qual a
lei não extrai nenhuma consequência.

Outro sector doutrinário qualifica-os genericamente como contratos de organização - Regência

Segundo o Regente: No domínio da caracterização do contrato de sociedade, aceita-se a categoria do contrato de


organização, que se caracteriza com o que tem por efeito a constituição de um ordenamento organizativo-
procedimental (igual para todos os contratos).

Integram também essa categoria o contrato constitutivo do agrupamento complementar de empresas, o contrato
de consórcio e o constitutivo de AEIE.

O ato constitutivo tem de ter pelo menos 2 partes, de efeito instantâneo, de constituição de um ordenamento
organizativo-procedimental legal.

Até à dissolução, este regulamento regula as relações entre as partes

O Mandato Mercantil (art. 231º a 237º C. Com)

Definido no art. 231º, o mandato mercantil é um ato objetivamente comercial por conexão: o mandato será
mercantil se for celebrado para o que o mandatário realize um ou mais atos de comércio por conta de outrem (o
mandante).

O contrato de mandato tem tipicamente por objeto a prática de atos jurídicos; a sua essencialidade vem da
qualidade comercial dos atos que constituam o seu objeto.

Se for celebrado para a prática de um ou mais atos civis por conta do mandante será mandato puramente civil.

O regime do mandato civil consta dos art. 1157º a 1184º CC, sendo configurado como um contrato obrigacional
celebrado entre mandante e mandatário, pelo qual o mandatário se vincula perante o mandante a praticar certos
atos por ordem (mandato); cfr. A delimitação do tipo (art. 1157º).
Em termos comuns comporta duas espécies: com e sem representação (art. 1178º e 1180º do CC)

O mandato mercantil tem um regime de conclusão mais sofisticado que o mandato civil:

- O mandato mercantil pode assentar num ato jurídico (declaração unilateral receptícia) unilateral (art.
234º, proémio), pelo qual o mandante ordene ao mandatário a prática de certos atos mercantis.

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Nelson Pimenta FDL 24761

Recebido o mandato, o mandatário pode recusá-lo, mas fica obrigado a comunicar ao mandante essa recusa …..,
até que o mandante proveja sobre elas.

Nestes casos, o mandatário fica vinculado a estes deveres logo que recebe o mandato sem que o tenha
acordado ou que tenha celebrado previamente um contrato de mandato.

Se não recusar e nada disser, o mandatário fica obrigado a executar o mandato.

Assim, diferentemente do mandato civil, o mandato comercial pode ser concluído por ato jurídico unilateral
e/ou celebrado por contrato prévio.

O C. Com não exige que o mandatário tenha a qualidade de comerciante ou que atue no exercício do seu
comercio.
Assim, o mandatário pode ser comerciante, atuando dentro ou fora do exercício do seu comércio, ou não
comerciante.

O mandato unilateral pressupõe uma prévia posição jurídica do mandatário que o constitua numa sujeição (em
sentido técnico), que pode decorrer do status do comerciante e de uma relação de clientela.

PPV considera que se o mandante não for comerciante, que não tenha com o mandatário qualquer prévia relação
jurídica, terá de se constituir um contrato de mandato, pois até ao contrato, o mandatário a nada está obrigado
perante o mandante, não havendo lugar a mandato unilateral.

Mas será que só os comerciantes estão sujeitos ao mandato mercantil unilateral?

Do art. 231º fala em “qualquer pessoa” e o 234º fala em “o comerciante que quiser…”.
Assim, PPV considera que embora o regime do mandato mercantil não pressuponha nem exija a qualidade de
comerciante do mandatário (e também não do mandante), só o mandatário que seja comerciante fica vinculado
ao regime do art. 234º (Mandato Unilateral)

Assim, para existir um mandato unilateral têm de estar reunidos cumulativamente os seguintes elementos:

A. - Que se trate de um comerciante (o mandante)

B. - O mandatário a quem se deu a ordem, esteja previamente vinculado por qualquer relação jurídica
prévia ao mandante

C. - O mandato tem de corresponder ao comércio normal do mandatário

O mandante pode constituir um ou mais mandatários.


Se constituir uma pluralidade de mandatários, o mandante pode estipular que atuem conjuntamente.

- Estipulada a atuação conjunta, se nem todos aceitarem o mandato, este mantém-se para os que o
aceitem, desde que constituam a maioria (244º Parág. Unico)

- Se nada estipular, nos termos do art. 244º C. Com, os mandatários devem agir cada um na falta dos
outros, pela ordem de nomeação (à vez, segundo a ordem de mandato, após o anterior ter cumprido o seu
mandato).

O mandato mercantil é oneroso; o mandato civil é, em princípio, gratuito (art. 234º C. Com e 1158º nº1 do CC)

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Nelson Pimenta FDL 24761

O art. 232º afirma que não se presume gratuito o mandato comercial, tendo o mandatário direito a uma
remuneração pelo seu trabalho, valor esse que é fixado por acordo entre as partes, ou na falta dele, pela praça ou
usos (Parágrafo 1º)

Assim, mesmo no mandato unilateral, havendo recusa, os atos praticados ao abrigo do art. 234º, dá direito a
uma remuneração proporcional ao trabalho que o mandatário teve. (Parágrafo 2º)

Se o mandato cessar antes do seu termo, nos casos do art. 246º, os herdeiros ou representantes legais terão
direito a uma compensação proporcional ao que teriam a receber no caso de execução completa.

Nos termos do art. 243º, o mandante tem a obrigação de fornecer ao mandatário, todos os meios necessários à
execução do mandato.

Para segurança dos seus créditos sobre o mandante, o mandatário goza dos privilégios creditórios mobiliários
especiais previstos no art. 247º.

O mandatário é obrigado a pagar juros pelas quantias pertencentes ao mandante, a contar do dia que, conforme
a ordem, as deveria ter entregue ou expedido (241º).

No que respeita ao âmbito material e ao exercício do mandato, o regime tem alguma elasticidade.

- A exibição do mandato por escrito a terceiros (Art. 242º)


- As situações de extensão do mandato previstas no art. 233º.
- A situação de responsabilidade de inexecução do mandato pelo mandatário (238º), sob pena de
indemnizar o mandante.
- A responsabilidade pela guarda das mercadorias d art. 236º.
- As cautelas relativas a mercadorias deterioradas – art. 235º
- Mais ainda os casos do art. 237º, 239º e 240º.

O mandato extingue-se pela sua completa execução.

Pode haver revogação do mandato por morte do mandante ou renuncia ao mandato por parte do mandatário.
Estas, quando feitas sem justa causa, dão lugar a responsabilidade civil nos termos do art. 245º.

 O mandato dos gerentes, auxiliares e caixeiros: art. 248º a 265º

Neste caso, o que está em causa nesta regulação é a representação do comerciante, independentemente do
contrato que esta na base dos poderes representativos: trabalho ou mandato.

Trata-se do mandato com representação

A doutrina entende estes auxiliares dos comerciantes como seus empregados, com quem o comerciante tem uma
relação jurídica laboral, sem que a qualidade de “patrão” do comerciante não se lhes comunica, logos estes
auxiliares não são qualificados como comerciantes.

PPV considera que o art. 248º a 265º não tem por função a sua qualificação como laboral ou não laboral, mas sim
a função de reger sobre a relação de representação inerentes às respetivas posições jurídicas.

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A letra da lei refere-os como mandatários e trata-os como mandatários com representação, quer na relação
interna com o comerciante proponente, quer na relação externa com terceiros.

Estes não podem praticar por conta própria um comercio concorrente com o do seu proponente, salvo quando
devidamente autorizados (art. 243º).

Embora todos sejam mandatários, estes desempenham funções diferentes e têm estatutos jurídicos diferentes:

- O Gerente do comércio: também designado como “proposto”, é caraterizado pela amplitude do seu
mandato.
O gerente do comércio tem um mandato mais amplo do que o contemplado no art. 231º, podendo ser verbal ou
escrito e enquanto não for registado, “presumindo-se geral e compreensivo de todos os atos… em que
contrataram” – art. 249º.

Os limites do mandato são uma questão interna, entre mandante e gerente do comércio, e não são, em princípio,
oponíveis nas relações externas, isto é, contra terceiros, salvo se os terceiros o conhecessem.

Por norma atua em nome do mandante (250º e 251º), contudo pode praticar atos em nome próprio, ficando
pessoalmente responsável perante terceiros, pelos atos que praticar (art. 252º)

Tem legitimidade processual ativa e passiva (254º)

- Quanto aos auxiliares, tratam apenas do desemprenho de negócios de que são especialmente
encarregados, tendo um mandato especifico nos termos do art. 256º.

O âmbito material do seu mandato abrange apenas um ou mais ramos do comércio do proponente.

Agem ostensivamente em nome e por conta do proponente, mencionado à outra parte que assim sucede.

Quando exercem a sua função no estabelecimento do proponente, estão com ele ligados na maior parte das
vezes, por contrato de trabalho e auferem mensalmente uma remuneração, embora nada obrigue que assim seja.

- Quanto aos caixeiros, são empregados que o comerciante envia a outros lugares nos termos do art. 257º.

São os vulgarmente designados de “caixeiros-viajantes” que percorrem diversas localidades do país ou o


estrangeiro, oferecendo os produtos ou mercadorias do proponente, e contratando em seu nome, no âmbito dos
poderes que lhes forem concedidos.

Podem ter remuneração fixa e/ou por percentagem das suas vendas, podendo ter ou não contrato de trabalho, e
caso não tenham atuam numa simples relação de mandato, como free lancers.

Os atos praticados por caixeiros e auxiliares, só obrigam o proponente no âmbito do mandato que lhes tiver
conferido, o que revela o carater específico do seu mandato – art. 258º.

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O Mandato sem representação: Comissão: ART. 266º a 277º C. Com

O regime do art. 266º a 277º deve ser aplicado com integração do regime geral do mandato, em relação ao qual
constituem especialidade – art. 267º.

As partes denominam-se aqui tecnicamente como comitente (=Mandante) e comissário (=mandatário)

No exercício desta modalidade de mandato, o mandatário/comissário atua perante terceiros sem referência ao
mandate; atua por sua conta mas não em seu nome.

O comissário contrata em nome próprio e fica, como tal, vinculado perante terceiros, art. 266º

Assim, a comissão, ocultando a intervenção do comitente nos negócios, permite-lhe que não seja conhecida a sua
intervenção em todos os negócios ou noutra qualquer posição.

A parte com quem o comissário contrata, não constituiu qualquer relação jurídica com o comitente – art. 268º

Existem assim, duas relações claramente separadas:


- Uma entre o comitente que fica relacionado com o comissário – relação interna
- A segunda entre o comissário e o terceiro com quem contrata – relação externa.

Regra geral, o comissário não garante ao comitente o cumprimento do contrato pelo terceiro com quem contrata,
e não foca por ele responsável.

Contudo, se o comitente e o comissário podem celebrar uma convenção del credere, art. 269º - sendo que aí o
comissário já se responsabiliza pelo cumprimento do contrato pelo terceiro perante o comitente.

Nos termos do art. 270º, o desrespeito das instruções do comitente pelo comissário, fica apenas nas relações
internas, ou seja, não é oponível a terceiros. (ler parágrafos do art. 270º)

As vendas a prazo, empréstimos ou adiantamentos do comissário sem autorização do comitente, correm por
conta do comissário, podendo o comitente exigir o seu pagamento – 271º

Nas vendas a prazo autorizadas pelo comitente, o comissário pode responder se efetuar a venda a certas pessoas-
art. 272º.

Nas vendas a prazo, o comissário deve indicar o nome dos compradores nas contas e avisos, sob pena de as
vendas serem consideradas como realizadas a ”dinheiro de contado” – 273º

Nos termos do art. 274º, nas negociações de títulos ou outras mercadorias cotadas em bolsa, o comissário pode
fazer negócios consigo mesmo, tendo direito à devida remuneração da venda ou compra.

Nestes casos, sempre que o comissário não indicar os nomes das pessoas a quem vendeu ou comprou, o
comitente tem o poder de considerar que esses negócios foram feitos por conta própria do comissário (mesmo
que não tenha sido) podendo-lhe exigir que cumpra a comissão (exigindo-lhe que cumpra o contrato de compra
ou venda).

O comissário tem dos deveres de não confundir as mercadorias (275º), de as descriminar nas faturas (276º) e de
separar os créditos (art. 277º).
O comissário está vinculado a transmitir para o comitente as situações ou posições jurídicas, os direitos e
obrigações em que foi investido, por conta do comitente no exercício do mandato.

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Embora o C.Com não contenha disposições como as do art. 1181º, 1182º, e 1184º do CC, esta solução retira-se do
art. 270º nº3.

A comissão, como mandato mercantil, presume-se onerosa, onde o comissário tem direito a uma remuneração
fixa ou por percentagem, designada por “comissão”, que segundo o art. 232º pode ser designada pelas partes ou
pelos usos da praça.

O comissário tem ainda privilégio creditório nos termos do art. 247º, sobre as mercadorias que tiverem seu
poder e que correspondem àqueles créditos.

CONTRATOS COMERCIAIS EM ESPECIAL: DISTRIBUIÇÃO

O contrato de Agência (DL 178/86 de 3 de Julho)

O contrato de agência é definido no art. 1º do DL: "Agência é o contrato pelo qual uma das partes [agente] se
obriga a promover por conta da outra [principal] a celebração de contratos de modo autónomo e estável
mediante retribuição, podendo ser-lhe atribuída certa zona ou círculo de clientes".

Assim, no contrato intervêm duas partes: o “principal” e o “agente”

Segundo o Regente, o contrato de agencia consiste numa relação contratual entre o principal e o agente
(juridicamente independente), em que o agente se obriga a realizar negócios com terceiros por intermédio do
principal.

O agente atua ao lado do principal e no seu interesse.


A atividade promocional do agente pode ser muito variada, mais simples ou mais complexa, consoante o negócio
que é promovido.

A atuação do agente pode ser limitada a uma certa zona geográfica ou a um certo grupo de pessoas.

A referência da definição legal ao exercício da agência de “modo autónomo” visa distinguir este tipo contratual
do contrato de trabalho.

A atividade de agência é remunerada.

A referência à estabilidade afasta os atos isolados.


A agência é muito mais que um contrato, é uma atividade mercantil que é exercida profissionalmente,
empresarialmente.
O agente tem uma organização, mais simples ou mais sofisticada, que apoia a sua atividade, logo é um
empresário que age no comércio.

Ex: em tempo não muito recuado, as indústrias automóvel e de combustíveis apoiou as suas estruturas
comerciais de distribuição em contratos de agência; hoje, a industria que mais parece recorrer à agência é a
promoção de espetáculos)
(atualmente a industria automóvel parece recorrer mais aos contratos de concessão)

Em princípio, o agente não intervém nos contratos de agência.

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Nelson Pimenta FDL 24761

O agente limita-se a promover a sua formação e deixar a sua celebração ao principal.

Contudo, o agente pode vir a praticar negócios em nome do principal, se este lhe conferir poderes de
representação para tais atos, que a lei exige que sejam redigidos a escrito (art. 2º nº1 DL)

Por estipulação das partes, redigida a escrito, o agente pode cobrar créditos do principal, emergentes do
contrato em cuja promoção tenha participado. (art. 3º nº1 DL)

Estes poderes, nos termos do art. 3º nº2 DL, presumem-se sempre que o agente tenha poderes de
representação do principal.

Também no contrato de agência, nos termos do art. 10º, pode existir (regra geral não existe, salvo esta
convenção) convenção “del credere”, em que o agente garante o cumprimento por parte de terceiros com quem
agencia contratos para o principal.

A agência pode ser exercida em regime de exclusivo, mediante estipulação expressa (art. 4º), e pode ser
subcontratada, salvo convenção em contrário (art. 5º)

Diferentemente do agency, a agência portuguesa é bem diferente, pois o seu campo de aplicação é bem mais
reduzido, e, em princípio, não envolve representação.
Esta situação dificulta a relação entre comerciantes portugueses e ingleses.

 Regime jurídico

No art. 6º a 20º, contem uma listagem muito detalhadamente excessiva de direitos e obrigações das partes que
integram o contrato de agência.

PPV, criticando esta técnica legislativa da época, foca apenas o estudo nos aspetos específicos do contrato de
agência.

É um contrato oneroso (16º a 18º).


Normalmente a remuneração ou “comissão” e estipulada pelas partes ou, na falta dessa, pelos usos tendo em
conta o ramo do comércio e a praça em que a agência se exerce.

A “comissão” incide sobre os contratos que angariou e que tenham sido concluídos durante a vigência do
contrato, ou mesmo depois, quando prove que foi ele a negocia-los ou que a sua conclusão lhe foi devida, desde
que tenham sido celebrados num prazo subsequente razoável ao termo da agência.

O agente tem direito a ser indemnizado nos termos gerais se a outra parte incumprir o contrato.

O agente tem ainda direito a uma “indemnização de clientela” sempre que estejam reunidos cumulativamente os
requisitos do art. 33º nº1 alíneas A a C – art. 33º e 34 DL

A indemnização de clientela deve ser exigida num prazo de um ano a contar da cessação do contrato, e a ação
proposta no ano subsequente à interpelação (Nº4 art. 33º DL)

Esta indemnização só não será devida se a cessação do cotrato for devida a causa imputável ao agente ou se este,
por acordo com a outra parte, tiver cedido a sua posição contratual

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Nelson Pimenta FDL 24761

O Regente acrescentou ainda:

- A matéria do contrato de agência tem incidências de Direito da União Europeia, porquanto a execução
deste contrato implica acordos entre entidades juridicamente autónomas, o agente e o principal, que podem ser
tidos como proibidos pelo Direito da Concorrência.

- O Sentido da evolução do Direito da União Europeia é o de considerar que os distribuidores estão


economicamente integrados na rede comercial do principal e, portanto, aqueles acordos são intraempresa (em
sentido económico) e, portanto, não abrangidos pelas proibições do Direito da Concorrência (art. 101º TFUE)
(para efeitos de concorrência em termos de Direito da UE, uma empresa tem de ser economicamente
independente da outra, ainda que juridicamente autónomas. Se as empresas forem economicamente
independentes não há ilícitos de concorrência. As empresas de distribuição, ainda que juridicamente
independentes, são dependentes economicamente e por isso são excluídos das proibições do Direito da
Concorrência)

- Criam-se esquemas de contratação com outros comerciantes que têm como objeto de negócio a
redistribuição e distribuição dos produtos produzidos por outros comerciantes.
Ex: Concessão de comércio dos automóveis. A Volkswagen concessiona o comércio dos seus automóveis a
representantes Portugueses

- O ganho do comerciante é o de concentrar os seus esforços na produção e desenvolvimento dos seus


produtos e delega os esforços de distribuições a terceiros comerciantes que têm o trabalho de vender depois
esses produtos, em vez de concentrar sobre si mesmo todas essas valências

O Agente: obriga-se perante o principal a promover a celebração de negócios entre o principal e terceiros.
Na promoção da celebração de negócios para o principal, o agente necessariamente age por conta e no interesse
deste.

Contrato de Concessão comercial (sem regulação legal; é um tipo social)

A concessão comercial carateriza-se pela intermediação de um comerciante – cessionário- que intervém na


cadeia de distribuição de um modo típico: compra mercadorias, geralmente por grosso, e revende-as no mercado
a retalho.

Enquanto na agência o agente celebra contratos em nome e por conta do principal, e não adquire juridicamente
posição jurídica nesses contratos, que ficam celebrados diretamente entre o principal e o cliente, na concessão
comercial, o cessionário compra as mercadorias e adquire a sua propriedade, e procede depois à sua
comercialização e venda.

(a diferença é que o cessionário adquire a propriedade das mercadorias e o agente não)

No âmago da concessão comercial está a compra para revenda e a subsequente revenda.


Contudo, não se deve confundir com a compra e venda prevista no art. 463º, pois esta consiste num ato isolado,
enquanto na concessão comercial é uma atividade, em princípio, permanente, ou pelo menos, duradoura,
exercida a título profissional.

Regente: Proximidade à Compra e Venda Mercantil - art. 463º C. Com (por força do art. 3º C. Com); diferença:
implica a contratação massificada e com organização.

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Assim, a compra e venda do art. 463º é um ato objetivamente comercial, mantendo a qualificação mesmo
quando celebrada por não comerciantes, ou por comerciantes fora do seu comércio.

Diversamente, a atividade do cessionário é comercial apenas quando exercida a título profissional, como modo
de vida, ou seja, cessionário comercial é o comerciante cujo comércio consiste na prática da compra e venda
objetivamente mercantil como meio de vida, ou seja, a título profissional.

 Regime jurídico

A concessão comercial encontra o seu regime jurídico no tipo legal da compra mercantil, art. 463º e ss, e (+) no
que for estipulado entre as partes.

- Do tipo da compra e venda mercantil recebe tudo o que respeita propriamente à compra da mercadoria,
na relação entre o cedente e o cessionário, e na subsequente revenda, na relação entre o cessionário e o seu
cliente final.

- Em tudo o que for dispositivo, e no que tange à relação profissional e duradoura entre o cedente e o
cessionário valem as estipulações das partes.

Há algumas características típicas do contrato de concessão comercial, que normalmente estão presentes nos
contratos celebrados:

A. Carater duradouro: é típico da concessão comercial a existência mais ou menos prolongada da


relação entre cedente e cessionário.

Se as partes não estabelecerem prazo, qualquer uma das partes pode denunciar o contrato a qualquer
momento, mediante pré-aviso.

Também é frequente a existência de cláusulas automáticas de renovação, salva prévia denuncia com certa
antecedência.

Outros casos, são estipulados termos fixos, com previsão de renovação mediante novo acordo.

B. Exercício profissional: a concessão comercial é exercida por um comerciante, individual ou


societário, de um modo empresarial, com a utilização de organização e meios adequados.

O concessionário investe os seus capitais na compra da mercadoria e tem de a vender com vista a lucrar, mesmo
que possa por vezes, mediante certas promoções, não lucrar em certas vendas, mas tem de ter um lucro global
positivo, sob pena de entrar em insolvência.

A doutrina entende que apenas com autorização, expressa ou tácita, dos concedentes em causa, é que o
cessionário poderá comercializar no mesmo estabelecimento produtos de marcas concorrentes.

C. Ligação à marca: não é usual, mas é o caso paradigmático dos cessionários dos veículos
automóveis.

D. Territorialidade: normalmente, as concessões estão limitadas a certa área territorial, nacional ou


mesmo nacional.

Esta delimitação é tipicamente social, e não legal, logo a falta de estipulação da territorialidade não impede a
qualificação do contrato como concessão comercial.

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Dentro dessa área, o concessionário pode ou não ter o exclusivo, mas não deve entrar em concorrência com
outros cessionários das mesmas marcas.

E. Exclusivo: pode ser visto em duas perspetivas:

- Como a exclusividade do concessionário que de certa marca ou produtos


- O concessionário que comercializa exclusivamente aqueles produtos ou aquela marca.

Estas duas perspetivas podem cumular-se.

É ainda usual a estipulação de práticas de cooperação, técnica, preços, garantias pagamentos, volumes mínimos,
entre o concessionário e o concedente

A maior parte da doutrina tem aplicado analogicamente a “indemnização de clientela” do contrato de agência,
como tipo modelar de uma categoria denominada "contratos de distribuição”, para que o cedente tivesse de
indemnizar o concessionário.

PPV considera que não se deve aplicar esta solução analógica a todas as concessões.

A aplicação desta solução deve incidir numa ratio juris de semelhança da concessão com a agência.
Assim, só se aplicará esta solução quando, avaliada a concessão em concreto, tenha aspetos que justifiquem a
indemnização de clientela, tais como o caso de o concedente ter ganho a clientela que o cessionário criou e lhe
entregou.
Assim, se o concessionário, com a sua atividade, tiver angariado novos clientes para a outra parte, ou tiver
aumentado substancialmente o volume dos seus negócios, se o concedente vier a beneficiar consideravelmente,
apos a extinção do contrato de concessão, da atividade desenvolvida pelo concessionário, e se este não receber
qualquer retribuição por esse benefício proporcionado ao concedente com esse acréscimo de clientela, será
assim aplicado analogicamente a indemnização de clientela.

Esta indemnização só não será devida se extinção da concessão for imputável ao cessionário ou se este tiver
cedido a sua posição contratual por acordo com o cedente.

Regente:

- "Concessionário" integrado na rede comercial de distribuição do "concedente".

- O concessionário adquire os bens produzidos pelo concedente e comercializa-os, em nome próprio, a


terceiros (diversamente do que sucede no contrato de agência)

- Na cadeia de valor (noção económica), o concessionário é geralmente o comerciante que intervém no


mercado de "retalho"/retalhista

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Contrato de Franquia (sem regulamentação legal; tipo social)

Introduzido na prática nacional a partir do tipo anglo-saxónico de contratação denominada franchising


Não tem tipificação legal, mas apenas social, nos usos do comércio e na literatura jurídica comercial

Na origem histórica anglo-saxónica, era uma forma de construir uma rede de venda de um produto através de
comerciantes independentes do produtor.
Posteriormente a categoria segmentou-se, de modo que, na atualidade, a distribuição corresponde apenas a uma
modalidade do franchising, das quais se destacam:

1 - Franquia de serviços:

Foi adotada jurisprudência do TJUE de 28.01.1986, conhecido por Pronuptia.

Existe quando o franquiado presta um dos serviços sob a insígnia, nome comercial ou marca do franqueador,
conformando-se com as diretrizes deste.
Ex: MacDonald´s; Novotel, Ibis, Pizza Hut, Avis, Europcar, Remax, Era

2- A franquia de produção:

Quando o próprio franqueado fabrica produtos segundo as indicações do franqueador e os vende sob a marca
deste.
Ex. Coca-cola, Pepsi, Danone

3 - A franquia de distribuição.

Embora tenha estado na origem do franchising, atualmente á uma modalidade em que, o franqueado se limita a
vender produtos num estabelecimento com a insígnia do franqueador.
Ex: Pré-natal, Benetton

Partes: "franqueador" e "franquiado": O primeiro (franqueador) convenciona com o segundo (franqueado) que
este venda ou forneça no mercado os produtos ou serviços em estabelecimento do franquiado, usando o logótipo
e marca e, eventualmente processos e características típicas que individualizam ou caracterizam o franqueador,
de modo a criar no mercado (designadamente no consumidor) a convicção de que é o próprio produtor quem
fornece diretamente o produto ou o serviço e não um empresário/empresa juridicamente autónomo, usando os
seus próprios meios económicos.

- Do lado do franqueador, o tipo de contratual evita-lhe o custo e a alocação de recursos materiais e


humanos na construção de uma rede própria de distribuição dos seus produtos ou serviços, em particular no que
refere aos mercados retalhistas.

- Do lado do franquiado, o tipo contratual proporciona-lhe o acesso a um negócio que à partida já terá um
"crédito firmado", uma imagem construída juntos dos mercados, que lhe permite por um lado, evitar a alocação
de recursos na construção de um "conceito empresarial" próprio, e por outro lado, aproveitar economicamente a
exploração comercial dessa imagem, beneficiando da notoriedade do franqueador, da sua experiência,
fornecedores, produtos e serviços, métodos de gestão e comercialização.

O franquiador autoriza o franquiado a "montar e operar no mercado, um estabelecimento igual ao


estabelecimento típico do franquiador, de tal modo que o consumidor não distinga se está perante o franquiador
ou o franquiado" PPV

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Nelson Pimenta FDL 24761

Este caráter indistinto é fundamental para a construção da rede de franquia e para o exercício da atividade pelo
franquiado.
Daí que, para alcançar esse objetivo e, consoante o que foi convencionado:

O franquiador deve facultar os meios necessários à "indistinção" que é suposto criar pelo contrato: uso de
marcas, logotipos, licenças, patentes, manuais de procedimentos, produtos e mercadorias, formação adequada,
estudos de mercado, software informático, etc.

É típico que o franqueador tenha o controlo da franquia, isto é, direitos de controlo de modo como o contrato é
executado, possibilitando, em caso de má execução, a sua resolução: é uma forma de antecipação de
repercussões negativas sobre a imagem e o negócio do franquiador, que o mercado perceciona como sendo a
mesma empresa.
(é a ideia de evitar que a sua imagem fique denegrida por má gestão do franquiado)

A franquia corresponde a um contrato oneroso: o franquiado deve pagar uma remuneração ao franquiador, que
varia consoante o tipo de negócio e a franquia em causa

Normalmente, a remuneração assenta numa quantia fixa acumulável (+) com uma parte variável em função do
volume de vendas em determinado período

Há casos de franchising em que existem os denominados "direitos de entrada" - que varia de franquia para
franquia – que consiste no pagamento de um valor monetário para entrar naquela rede, também por vezes
chamada de “joia de entrada”

Atualmente, existe uma configuração massificada de redes, por vezes internacional, "master franchising" (o
franquiado a nível nacional que depois pode fazer subfranquias) e subfranquia (o contrato de franquia celebrado
com o franquiado nacional).

É usual a estipulação de clausulas de resolução por incumprimento e a sujeiçãoà arbitragem dos litígios
emergentes do contrato de franquia.

Como não é tipificado, naquilo que não for estipulado pelas partes, vale o recurso ao tipo social como portador
dos usos comerciais.

Também no caso da franquia é colocada a questão da aplicação analógica do regime jurídica da indemnização
da clientela consagrada no contrato de agência.

PPV considera que, se deve aplicar nos mesmos moldes que nos contratos de concessão.
(Assim, só se aplicará esta solução quando, avaliada a concessão em concreto, tenha aspetos que justifiquem a indemnização de clientela,
tais como o caso de o concedente ter ganho a clientela que o cessionário criou e lhe entregou.
Assim, se o concessionário, com a sua atividade, tiver angariado novos clientes para a outra parte, ou tiver aumentado substancialmente o
volume dos seus negócios, se o concedente vier a beneficiar consideravelmente, apos a extinção do contrato de concessão, da atividade
desenvolvida pelo concessionário, e se este não receber qualquer retribuição por esse benefício proporcionado ao concedente com esse
acréscimo de clientela, será assim aplicado analogicamente a indemnização de clientela.

Esta indemnização só não será devida se extinção da concessão for imputável ao cessionário ou se este tiver cedido a sua posição
contratual por acordo com o cedente.)

PPV acrescenta que nos contratos de franquia, a indemnização de clientela é de difícil aplicabilidade, pois
nestes casos, é o franquiado que beneficia da clientela do franqueador, pelo menos potencial, e não a inversa.

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Contratos comerciais em especial: os clássicos

A compra e venda comercial – art. 463º a 476º C.Com

A compra e venda legal - art. 874º e ss. do CC

Qualificação comercial – art. 463 C.Com (ato de comércio objetivo: absoluto ou puro)

Qualificação analítica da compra, por um lado, e da venda, por outro

O art. 463º delimita positivamente o âmbito material do tipo da compra e venda mercantil.

O art. 464º delimita negativamente o tipo, enumerando quais as compras e vendas que nele não se incluem
(Regente: semelhantes às exclusões do art. 230º)

As exclusões do art.464º, para PPV, devem-se ao facto de não existir especulação mercantil.

Dos art. 436º e 464º ressalva com clareza que a compra e venda objetivamente mercantil abrange:
- A compra para Revenda
- A Revenda do que for comprado para revenda
- A compra para alugar
- As compras e vendas de ações ou partes sociais de sociedades comerciais

Regente: em geral: é comercial a compra, de bens móveis ou imóveis, com o objetivo da revenda ou para alugar
(no caso de bens móveis); é comercial a venda (= a "revenda") do que se comprou com tal objetivo.

A perspetiva do lucro é componente normal da compra e venda mercantil, mas o lucro efetivo não é elemento
de qualificação. (se alguém compra com o objetivo de (re) vender é objetivamente comercial. A venda também
será objetivamente comercial mas se estes atos gerarem prejuízo o que conta é a intenção, não o lucro adquirido.
Não é do lucro que a lei faz depender a qualificação. O momento para qualificação é o do momento de execução
do ato).
Mesmo que em concreto se venha a verificar prejuízo, o ato não é desqualificado como comercial.
Ex: Se A comprou para vender, mas depois se doou o que se comprou ainda assim a compra é comercial apesar da
doação

O carater especulativo é ainda mais evidente na venda de coisa alheia (467º nº2), que sendo muito banal no
comércio, permite evitar os custos elevadíssimos que decorreria de ter de manter um stock das mercadorias que
vende.
Ex: a venda de livros online pela livraria Almedina
Esta técnica é muito usada, pois o comerciante já sabe qual o preço do bem que pretende vender, que sabê-lo-á
de entre uma de duas formas:
- Já tem o contrato de fornecimento do bem em causa
- Conhece bem o mercado ao ponto de saber calcular o valor do bem.

Todas as coisas no comércio podem ser objeto de compra e venda mercantil (coisas móveis e imóveis, direitos,
títulos de crédito, etc.)

PPV considera que as compras e vendas de partes sociais ou ações de sociedades comerciais referidas no art.
463º, basta a compra ou só a revenda para as qualificar como atos comerciais.

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 Compra e venda objetiva e subjetivamente comercial

Como já foi dito, um mesmo contrato pode ser misto de civil e objetivamente comercial.

Segundo o regime dos atos mistos – art. 99º- deve ser-lhe aplicado o regime do art. 463º e ss quanto a ambos os
contraentes.

Quando a compra e venda for celebrada por um comerciante no exercício do seu comércio, este ato comercial é
objetivamente comercial por força do art. 463º e subjetivamente comercial por força do art.2º 2ª Parte.

Isto sucede muitas vezes sempre que a compra para revenda, ou a revenda, ou a compra ou venda de ações ou
pates sociais de sociedades comerciais for celebrada por um comerciante no exercício do seu comércio.

PPV afirma que o regime é diferente:


- À compra e venda objetivamente comercial aplica-se o regime do art. 463º a 476º

- À compra e venda subjetivamente comercial, tem o regime do CC com as especificidades dos art. 96º a
102º C.Com.

E quanto aos atos mistos objetiva e subjetivamente comerciais?


PPV:
- À compra e venda objetivamente comercial aplica-se o regime do art. 463º a 476º consoante o estipulado

- À compra e venda que apenas é subjetivamente comercial, tem o regime do CC com as especificidades dos art.
96º a 102º C. Com, com exceção do art. 98º.

Segundo o art. 99º, não se aplicam ao contraente não comerciante os preceitos “que só…mercantil”, ou seja,
àquela parte que, ao praticar o ato de comércio no exercício do seu comércio, determinou a sua qualificação
como subjetivamente comercial; a parte não comerciante não fica sujeita ao regime jurídico de aplicação restrita
subjetivamente a comerciantes, como é o caso de adoção de uma firma, ou de manter uma contabilidade
organizada.

A compra e venda por cumular as qualificações subjetiva e objetiva sempre que, preenchendo os requisitos do
art. 463º, seja celebrada por um comerciante ou entre comerciantes no exercício do seu comércio.
Aplica-se-lhes, os art. 96º a 102º e 463º a 476º.

 Natureza jurídica real e obrigacional da compra e venda mercantil

Diferentemente do que se sucede no CC, a compra e venda mercantil tanto pode ter eficácia real como eficácia
obrigacional.

- Tem eficácia real quando a coisa vendida tenha individualidade determinada no momento do contrato,
cuja propriedade se transfere com a conclusão do contrato
Ex: a compra e venda de um imóvel.

- Tem eficácia obrigacional, não se transferindo a propriedade com o fecho do contrato, quando a compra
e venda mercantil cria no vendedor uma obrigação de transferir, no caso de coisas genéricas, de coisas futuras,
de coisas alheias e a venda com reserva de propriedade.

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Regente:
Particularidades do regime: art. 467º do C.Com.
- Venda de coisa futura (art. 880º do CC)
- Venda de coisa alheia (art. 892º do CC)

Nestes dois casos a compra e venda não tem eficácia real (isto é, não transfere imediatamente a propriedade da
coisa vendida, ao contrário do que é a regra do CC - art. 879º alínea A e 408º Nº1 do CC - mas meramente
obrigacional, isto é, cria na esfera jurídica do vendedor uma obrigação de transferir a propriedade para o
comprador nos casos de venda de coisas genéricas, futuras alheias e com reserva de propriedade.

O vendedor comercial tem a obrigação de adquirir a propriedade da coisa vendida e entrega-la ao comprador.

Particularidade de regime: vários pontos de regime da compra e venda mercantil permitem construir a sua
caracterização em torno de uma eficácia obrigacional - a propriedade não se transfere por mero efeito do
contrato, mas apenas com a traditio.

 O regime jurídico próprio da compra e venda objetivamente comercial

Existem vários preceitos no C. Com que contém especificidades:

- Art. 475º- Compra e venda a pronto em feira ou mercado

É uma compra e venda entre presentes que, em princípio, se consuma no momento ou no dia seguinte.

Passado esse prazo de cumprimento, sem que nenhuma das partes tenha exigido esse cumprimento, o contrato
fica sem efeito, sendo que o sinal, se tiver existido, ficará nas mãos de quem o recebeu.

- Art. 645º - Contrato para pessoa a nomear que incida sobre coisa móvel

Não é necessário que as partes sejam determinadas no ato da contratação.

Se a pessoa a nomear já for conhecida, e tem com o contraente uma mandato sem representação (comissão).

Se a pessoa a nomear não for conhecida pelo contratante, este após a celebração do contrato, vai elegê-la e
nomeá-la num momento posterior.

- Art. 466º - Contrato por preço a determinar

Se o preço for indeterminado no momento da celebração do contrato, pode vir a ser fixado posteriormente pelo
meio estipulado pelas partes, podendo ser confiada a um terceiro identificado no contrato.

Se este terceiro não fixar o preço, ou se recusar a fazê-lo, o contrato fica sem efeito, se outra coisa não for
acordada.

- Art. 467º Nº1 – Contrato sobre coisa incerta ou inexistente

As coisas incertas são as coisas que não se sabe ainda se existem, e as esperanças são coisas futuras que se sabe
já que não existem, mas que se compram ou vendem na expetativa de que venham a existir.
Ex: Compra antecipada de um colheita futura, de uma tira de cortiça, de uma pescaria que ainda não ocorreu.

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- Art. 467º Nº2 – contrato sobre coisa alheia

É lícito ao comerciante comercializar coisas alheias, mas terá de adquirir a sua propriedade e entrega-la ao
comprador, sob pena de responder pela perda e danos que lhe cause.

- O contrato estimatório – Compra e venda à consignação

Contrato não tipificado em que um comerciante entrega os seus produtos a outro comerciante para que este os
comercialize.

É muito usual o comércio livreiro, de confeções e roupa, obras de arte e joias.

Ao celebrá-lo estipulam um preço que o segundo comerciante se obriga a pagar ao primeiro pelos bens que, findo
determinado prazo, não lhe devolva.

Juridicamente, trata-se de venda de coisa alheia como própria, autorizada pelo proprietário, pois os produtos
continuam na propriedade do consignante, que autoriza o consignatário a vendê-los me nome próprio.

O consignatário pode fazer o que quiser com os bens, mas se não os devolver, terá de pagar o valor acordado.

- Art. 468º - Falência do comprador antes da entrega

É frequente o crédito (“o fiado”) nas relações comerciais.

Se o vendedor tiver procedido logo à entrega da mercadoria, tem de reclamar o preço via processo executivo.

Se o vendedor não tiver entregue a mercadoria, quando foi convencionado entrega-la mais tarde, ates da data do
pagamento, se o comprador falir, ou se se tiver tornado insolvente ates da entrega, o vendedor fica “exonerado
de tal obrigação”, exceto nos casos em que foi caucionado (garantido) o pagamento do preço.

 Distinção do tipo legal contratual civil da compra e venda.

A CV mercantil, diferentemente da CV civil, é especulativa, envolvendo um risco típico de lucro ou perda que é
próprio da mercancia.
O comerciante quando procede CV objetivamente comercial pode ganhar ou perder, e esse risco é inerente ao
contrato.

A diferença mais clara está na eficácia meramente obrigacional da CV mercantil, da qual resulta para o vendedor
apenas a obrigação de proceder à entrega da coisa alienada, nas condições e com as qualidades convencionadas.

Esta diferença é mais visível na CV de coisa alheia.


Sendo inválido no Dto civil, na D. Com é vista como prática frequente e natural que dispensa o vendedor do
investimento em stock de mercadorias que só compra depois de as ter vendido.

Assim, a venda de coisa alheia é válida na CV comercial, em que a transmissão da propriedade da coisa opera
apenas no momento em que há a traditio da coisa. (art. 467º Parág. Único)

O vendedor tem assim a obrigação de entregar a coisa sob pena de indemnizar o comprador por incumprimento
contratual.

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Este regime da eficácia meramente obrigacional da CV mercantil explica ainda o art. 468º, pois a propriedade da
coisa não chega a entrar na massa insolvente.

Também nas vendas sobre amostra ou mediante determinação de uma qualidade (art. 469º), a propriedade só se
transmite com a entrega da coisa e desde que essa entrega seja aceite comprador.
O mesmo se sucede nos casos do art. 470º - as coisas que não estejam à vista.

O risco só se transfere com a propriedade da coisa, o que torna claro o regime do art. 472º.

Também o regime do art. 473º a 475º confirma a importância da entrega, da “traditio” na CV mercantil: antes de
ocorrer, ou se não se chegar a ocorrer, o comprador não adquire a propriedade da coisa.

Em suma: A CV mercantil tem eficácia obrigacional, ficando o vendedor obrigado apenas a entregar a coisa nas
condições e com as qualidades convencionadas, e sendo a transferência da propriedade operada pela entrega e
aceitação da coisa (traditio).

 A compra e venda do estabelecimento comercial: o trespasse e a cessão de exploração

 Trespasse

A CV do estabelecimento comercial tem tradicionalmente a designação de trespasse.

Negócio nominado (art. 1112º nº1 alínea A CC), mas atípico (i.e., sem regime legal próprio)

Regente: É normalmente, um ato de comércio subjetivo, mesmo para o adquirente que antes não seja
comerciante, uma vez que se encontra em "atividade preparatória" da empresa (Coutinho de Abreu).

Caso sejam trespassados estabelecimentos não mercantis, entre não comerciantes ou fora do exercício do
comércio, o trespasse é civil.

Tem referências no CC, art. 1112 e também no C. Trabalho

É um contrato socialmente típico, que tem origem nos usos e costumes do tráfego comercial.
Elementos socialmente típicos:

1- Transmissão normalmente onerosa e definitiva da titularidade do estabelecimento (mas nada impede,


segundo PPV, que o trespasse seja gratuito, donatário)

2- Abrange a globalidade das situações jurídicas funcionalmente afetas à atividade, mas a autonomia privada
pode ditar exclusões. (1112º nº2 alínea A)

Não pode ser excluído tudo, o estabelecimento ainda deve conter o necessário para que, pelo menos, continue
a funcionar no mesmo ramo de negócio.

Não há trespasse de estabelecimentos vazios, porque se assim for não existe estabelecimento.
(neste caso, tratar-se-ia de transmitir apenas o direito ao arrendamento sem o consentimento do senhorio, o que
a lei não admite) - a lei permite o sacrifício do Senhorio até certo ponto, este ponto.

3- Não há trespasse se o estabelecimento for transmitido para ao exercício de outro ramo de negócio (art.
1112º nº2 alínea B2 CC).

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4- O estabelecimento não tem que estar a funcionar no momento do trespasse, mas tem que estar apto a
funcionar.

5- Pode incluir a posição contratual no contrato de arrendamento, se funcionar em local arrendado: único caso
em que será aplicável o regime do art. 1112º do CC.

6- Funcionando em local que seja propriedade do próprio comerciante, pode incluir, ou não, a propriedade do
imóvel (caso em que terá que obedecer à forma do art. 875º do CC).

7- O trespasse abrange, em princípio, todos os elementos do estabelecimento (1112º nº2, alínea A), salvo
estipulação diversa.

As partes podem ainda estipular cláusulas de limitação de concorrência.


O adquirente pode ter interesse que o alienante, após alienar a sua empresa, não venha a fazer-lhe concorrência.

 Cessão de exploração

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