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Copyright ©2005 by Peincton Unies Pres aul rg Balhe cap pre grin Vicor Baron ' I ara Joan, de verdade Dinas Fernanda Gara Pps Ley Conkso { Nar Ho Mora Mara shel Sampaio Newlands Todos dirt desta ego ceserados 3 Fditora Inerinscea Lida ua Viconde de is 407,704 22410-003 - Ipanema Rode frweo~ RJ Teefoae (21) 204 9205, Fae @) 2512498 svn comb SOBRE FALAR MERDA 1m dos tragos mais notaveis de nos U 2 cultura é que se fale anta merda “Todos sabem disso, Cada um de nés contribui com sua parte. Mas tendemos a nao perceber essa situaga 9, A maioria das pessoas confia muito em sua capacidade de reconhe cer quando se esti falando merda e de evitar se envolver. Assim, 0 fenémeno nunca des- pertou preocupagSes especiais nem induziu uma investigagio sistematica, Por causa disso, no temos uma idéia cla- rado que é falar merda, da razdo para que se fale tanta ow para que serve. E nos falta tam bém uma avaliaglo conscienciosa do que is- so significa para nds. Em outras palavras, ndo dispomos de uma teoria. Proponho iniciar 0 desenvolvimento de uma compreensio teéri- cado que significa falar merda, oferecendo al ‘gumas analises experimentais ¢ explorato 9 vou considerar seus usos ¢ abusos reté: ricos. Meu objetivo é apenas fornecer uma descrigo aproximada do que ¢ falar merda e do que nao é ~ ou (em outros termos) arti cular, de uma forma mais ou menos resumi da, a estrutura desse conceito Qualquer sugestio sobre as condigdes logicamex necessarias ¢ suficientes para constituir 0 ato de falar merda esta destina. daa ser arbitraria, Por um lado, a expressio falar merda é empregada livremente ~- como ‘um termo ofensivo genérico, sem um signi ficado literal muito especifico. Por outro, 0 fendmeno é tio vasto ¢ amorfo que nenhuma anilise concisa ¢ perspicaz de scu conceito consegue deixar de ser procustiana, Entre tanto, deve ser possivel dizer algo de iii ‘mesmo sem muita probabilidade de que se ja conclusive. Até as questies mais bisicas e 10 preliminares sobre o que é falar merda nao apenas permanecem sem resposta como nem sequer so perguntadas. Até onde sei, pouquissimos trabalhos foram desenvolvidos sobre o assunto. Nao empreendi um levantamento sobre sua lite ranura, em geande parte porque nio saberia como fazé-lo. E certo que ha um lugar mui- to obvio para se dar uma olhada — 0 Oxford Englh Dictionary. OED tem um verbete pa xa falagao de merda, nos volumes res, ¢ também outros para virios usos perti rentes de filgdo e de outros termos relacio- sobre alguns desses verbetes no devido momento. Nao, plementa- nnados. Farei_ consideragées consultei diciondrios de outras linguas que nnio 0 inglés, porque nfo conheso as pala vras para falagio de merda ou falagio em qual quer outro idioma Outra fonte importante €0 titulo do ensaio The Prevalence of Humbug [A predominncia ds imposturd]. de Max Black Nao estou seguro quanto a proximidade de significado entre a palavea impostura © a ex- pressdo falar meda, claro que essas palavras ‘no so completa e livremente intercambia- veis; sito com certeza usadas de formas dife- rentes, Poréi, essa diferenga parece tet, no todo, mais a ver com questdes de boas ma- neiras, ¢ com alguns outros parimetros re toricos, do que com as formas estritamente literais de significado nas quais estou inte~ ressado E mais educado, ¢ menos pesado, dizer “impostura” do que “merda’, No caso desta discussio, vou supor que ndo ha ne- nhuma outra diferenga importante entre os dois termos " Mac ack, The elf Hamby (hac: Corn University Pres. 1985) 2 Black sugere umas ede sinénimos pa- +a impostar, como os seguintes: embuste,de- turpasao, lengalenga, conversa fads, lorota, tapea do ¢charlatanice. Essa lista singular de equi- valentes nio é muito util. Entretanto, Black cenfrenta mais diretamente o problema de estabelecer o conceito do que ¢ impostura e oferece a seguinte definigao formal: IMPOSTURA: embuste enganador préximo da mentira, em especial por meio de palavra ou ato pretensioso, em relacio aos préprios pensamen: tos, sentimentos ou atirudes? ‘Uma formulacio bastante similar poderia ser plausivelmente oferecida para enunciar as caracteristicas essenciais de falar merda. 2 ib pus B Como uma preliminar para o desenvolvi mento de uma descrigio independente des- sas caracteristicas, vou comentar os varios elementos da definigio de Black Embuste enganador: Isso pode soar pleonas- tico, Sem diivida, o que Black tem em men- te € que a impostura pretende ou tenciona necessariamente enganar, que seu embuste nao € algo inadvertido. Em outras palavras trata-se de uma coisa delerada. Assim, se, por uma questio de necessidade conceitual, a intengio de enganar ¢ uma caracteristica invariavel da impostura, entio a qualidade de ser impostura depende, a0 menos em parte, do estado de espirito de seu perpetra- dor: Esse estado de espirito nao pode, por- tanto, ser idéntico a qualquer propriedade seja inerente ou relacional ~- do discurso por meio do qual a impostura ¢ perpetrada 4 Sob esse aspecto, a propriedade de ser im postura é semelhante a da mentira, que no € idéntica nem a falsidade nem a nenhuma clas outras propriedades contidas na afirma: G40 do mentiroso, mas que requer que ele a faca num determinado estado de espitito a saber, com a intengio de enganar. Uma questio adicional é se ha alguma caracteristica essencial A impostura ou a ‘mentira que nde dependa das intengoes ¢ das crengas da pess se, pelo contritio, é possivel que algum tipo responsive por ambas, ot uma ver que 0 fa- rminado estado um yeiculo para a impostura de afirmagao se torne lante se encontre num det de espirito ou a mentira. Em certas descrigdes do ato de mentir, nao existe mentira nenhuma a menos que uma declaracio falsa seja feita em outras, 0 individuo pode estar mentindo 15 mesmo que sua afirmacio seja verdadeira, contanto que ele acredite que a mesma éin- veridica e que pretenda, ao fazé-la, enganar. E sobre criar imposturas e falar merda? Pode alguma espécie de afirmacio ser qualificada como impostura ou merda, desde que (por assim dizer) 0 estado de espitito do falante seja 0 correto, ou o enunciado deve também proprias? Proxima da mentira: Tem de ser parte do ter caracterist argumento dizer que a impostura encontra~ se “proxima da mentira”, que, embora ten- do algumas de suas caracteristicas eminen tes, hd outras que Ihe faltam. Contudo, isso no pode constituir-se no todo do argu: mento. Afinal de contas, qualquer uso da linguagem, sem exeecio, revela no todos mas alguns dos tracos_caracteristicos da mentira~ nem que seja 20 menos 0 aspecto 16 dle ser um uso da linguagem. Entretanto, se- ria certamente incorreto descrever qual- quer uso da linguagem como préximo da m o de Black evoca a no- tira. A expre 20 de algum tipo de continuo, em que a mentira se situa num certo segmento en- quanto a impostura esta localizada exclusi- ‘vamente em posigdes anteriores. Que con- tino poderia ser esse, a0 longo do qual a impostura s6 fosse encontrada antes da mentira? Ambas sio formas de embuste. Num primeiro olhar, nao fica claro como a diferenca entre essas variedades de embus- te poderia ser interpretada como uma dife- renga de geau. Emespecal por meio de palavra ow ato pretension. Existem dois pontos a serem observados aqui, Primeiro, Black identifica a impostura nao apenas como uma categoria do discurso, 7 mas da agao também; ela pode dar-se tanto por palavras quanto por atos. Segundo, seu. uso do qualificativo “em especial” indica que Black nao considera a pretensio como ca: racteristica essencial, ou totalmente indis pensivel, da impostura. Sem diwvida, muitas imposturas slo pretensiosas. Alem do mais, no que concerne a falar merda, “pretensio de merda” encontra-se muito peéximo de ser um lugar-comum. Contudo, inclino-me a pensar que, quando a merda ¢ pretensiosa, isso acontece porque a pretensio é mais um motivo que um elemento constitutive de sua esséncia. © fato de uma pessoa compor- tar-se pretensiosamente nao 6, parece-me parte do que € exigido para tornar seu dis curso uma ocorréncia de falar merda. Isso 60 que justfica, muitas vezes, a enunciagio des- se discurso. Todavia, niio se deve presumir 18 que falar merda tenha sempre e necessaria~ mente a pretensio como motivo. Embuste (.) em relagdo aos proprios pensar {0s sentimentosou atitudes: Essa clausula de que 0 perpetrador da impostura esta eriando uma deturpagio de si levanta algumas questoes muito centrais. Para comegar, toda vez que uma pessoa deturpa de moto proprio qualquer coisa, ela estd inevitavelmente deturpando 0 proprio estado de espirito. E possivel para tuma pessoa deturpar apenas este tiltimo por exemplo, fingindo experimentar um des jo ou um sentimento que na verdade io tem, Mas suponhamos que o individuo, seja a0 contar uma mentira ou de outta for ma qualquer, deturpe alguma outra coisa Nesse caso, ele esti neces iamente detur- pando duas td dizendo — ou 0 que a. 0 estado de coisas que & 0 t6pico ou 0 19 referente do seu discurso — ¢, ao fazer isso, rio pode imped de deturpar 0 proprio espirito também. Assim, alguém que mente sobre quanto dinheiro tem no bolso ao mes- mo tempo dé essa informagio ¢ transmite a ideia de acreditar nela, Se a mentira funcio- nna a vitima 6 entio duas vezes enganada, a0 acreditar falsamente no contetido do bolso do mentiroso ¢ no que vai em sua mente Ora, nao é provaivel que Black deseje que o referente da impostura seja, em todos os