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MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO - MAPA

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa

4 INDICADORES DE COMBATE À DESERTIFICAÇÃO E


CONVIVÊNCIA COM A SECA

Para tratar do problema complexo da desertificação, 5 com muitas e variadas causa e diversas
consequências, em geral inter-relacionadas, é preciso dispor de grande quantidade de dados e
informações consistentes, valiosas e úteis; de uma metodologia “adequada” de abordagem
interdisciplinar e enfoque sistêmico para analisar interações, inter-relações, estruturações (...) de
fatores; e ainda dispor de técnicas e métodos para calcular, no contexto sistêmico, conexões
socioculturais, econômicas e ambientais de causalidades e outras associações que contribuem ou
definem esse problema. Trata-se de um assunto ainda sem um adequado tratamento 6 metodológico
e operacional.
Apesar de tais limitações não é possível esperar dispor do todos os dados necessários e das
técnicas e padrões metodológicos de tratamentos e soluções generalizadas, até porque tais padrões
e soluções poderão não existir, serem irrelevantes e/ou apenas, ao final, constituírem-se simples
referências.
Nos casos em que seja necessário promover a prevenção e recuperação de áreas afetadas pela
desertificação; realizar o planejamento e gestão integrada de recursos água – solo – vegetação no
contexto da bacia hidrográfica; empreender o monitoramento e controle de áreas sujeitas à
desertificação; e incentivar a participação e a educação ambiental das comunidades afetadas pela
desertificação (…) poderão se utilizar as experiências e conhecimentos locais aliados às novas
informações e tecnologias disponíveis.
Isto implica realizar, previamente, diferentes atividades, entre outras as de compilar,
sintetizar, analisar consistências de dados e informações do saber das comunidades. Implica em
selecionar, testar e ajustar às condições locais procedimentos metodológicos.

5
O conceito de degradação é complexo não apenas pela variedade e complexidade de componentes que ali
convergem, interagem (...), mas própria pela complexidade de elementos e interações de cada um dos
componentes. Pelos componentes, compreende as degradações do solo e dos recursos hídricos (aspecto
abiótico), da flora e fauna (aspecto biótico) e da qualidade de vida humana (aspecto econômico e
sociocultural). São aspectos diferentes que, em geral, demandam metodologias diferentes com uma exigência
comum de integração, sem superposições e apenas com aspectos relevantes e integráveis. Isto coloca em
destaque a necessidade de indicadores que sintetizem dados das diversas dimensões e possibilitem um
tratamento conjunto.
6
No International Symposium and Workhop on Desertification: connectin sciene with community action,
realizado na Universidade de Arizona (USA), em 1977, foram apresentados trabalhos sobre indicadores e
metodologia para tratar e integrar dimensões da desertificação. Alguns deles eram muito específicos e de
valor local, outros muitos gerais ou abrangentes sem aplicação (MATALHO, JÚNIOR, 2001).
Comb at e à de s e rt if ic aç ão e m iti ga ç ão - co nv iv ên ci a co m a s ec a

Implica promover – realizar estudos e pesquisas para “melhor” entender o problema e


desenvolver soluções que possam incluir as comunidades afetadas, os municípios vulneráveis a
desertificação, os centros de ensino em todos os níveis, fontes de financiamentos (…) e, com todos
eles, buscar as “melhores” soluções pela sustentabilidade em várias dimensões e horizontes.
O que tem acontecido, até o início do novo milênio, é a deficiente compreensão do problema
que levou à adoção de inadequadas políticas de combate às “causas” desse fenômeno. Uma das
principais razões dessa falta – inadequada compreensão foi e continua sendo a complexidade e o
simplismo com que se tem pretendido tratar o problema, a omissão de atores imprescindíveis (…).
Para planejadores, gestores, formuladores de políticas (...) é muito difícil (se não impossível)
visualizar, com certa objetividade e precisão, ligações como as existentes entre agricultura,
pecuária, degradação de terras, biodiversidade, demografia, economia, sociocultural (…) e meio
ambiente sem uma base de dados “consistida” e devidamente sintetizada em indicadores.
Sem uma clara e objetiva conexão não é possível definir cenários e “projeções” realistas,
nem estimar tendências para se preparar na pesquisa e gerar soluções. Nesse contexto se tem uma
primeira dificuldade: a inexistência de uma base de dados consistidos e com possibilidades de
gestão “segura” e confiável para especificar o “estado” da arte e os vazios a serem preenchidos pela
pesquisa.
Deve-se acrescentar que há dados em quase todas as dimensões, porém, são dados dispersos
e com diferentes níveis de abrangência, de detalhamento, de qualidade, de fundamentos
metodológicos (…).
Gestores, planejadores, tomadores de decisão e formuladores de políticas desejam que os
dados sejam simplificados e apenas informem-comuniquem o que é essencial e pertinente para
determinados propósitos como os de planejamento, gestão e tomada de decisões. Esse é o sentido e
papel do indicador para representar o cenário abiótico (climático, hidrológico, geomorfológico,
edafológico), biótico (flora e fauna), agronômico (práticas e técnicas agrícolas e pecuárias),
socioeconômico, cultural, institucional (...) em que ocorre a desertificação e para orientar e
estabelecer, com as comunidades afetadas, as condições necessárias (a serem preenchidas) de
convivência com a seca.
Nessa representação a ser informada – comunicada e com propósitos de predição, de alerta
(…) para o gestor, para o tomador de decisão (...), confluem diversas disciplinas em várias
dimensões e escalas, sendo desejável, pelos usuários dos indicadores, a integração -
complementação das sínteses de dados sem, contudo, descaracterizar o conteúdo da disciplina, da
característica ou atributo representado por um indicador: uma representação com a identidade do
representado e com possibilidade para se juntar – complementar com outras representações, afins
ou não.
O indicador é uma estimativa de um parâmetro, atributo ou característica de um fenômeno
ou processo como o da desertificação e a expressão de comportamento humano, de uma
comunidade, como o que se manifesta na convivência com a seca. Essa estimativa deve refletir
algo básico e relevante, fundamental e de valor com um significado próprio e útil para os fins
aplicativos do indicador. Poderá descrever o estado do fenômeno e suas tendências, considerando
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as ações que regulam a dinâmica e afetam o fato objeto de estudo, de monitoramento e controle de
um processo, de informação-comunicação (…), possibilitando, entre outros efeitos, refletir acerca
de uma idéia, problema, solução (…) complexa. Incitar à reflexão é, também, um objetivo de um
indicador ambiental.
É fundamental se ter a representação sintética ou modelada da percepção de um atributo
relevante, da medição com consistência desse atributo, do registro sistemático e da síntese de dados
para simplificar a complexidade do que se representa, por exemplo, da erosão dos solos e dispor de
uma percepção integrada – sistêmica de partes indissociáveis (por vezes) e interativas (quase
sempre) do todo. Esse todo pode ser a unidade produtiva em seu meio físico e com as interações -
desdobramentos sociais, econômicos, urbanos e ambientais que cada caso requeira e seja possível
definir mediante uma matriz de indicadores. Pode ser um processo como o da desertificação.
No processo de observar e medir, de registrar e sintetizar (...), tem-se modernos e valiosos
procedimentos de obtenção e análise de informações primárias como as georeferenciadas ou
verificáveis (equiparáveis: validação – ajuste do que se registra em sensores como os de um satélite
com a feição natural representada) no local e de tecnologias da informação testadas às condições de
sua aplicação. O resultado é uma base de dados. Em função da qualidade, consistência, atualidade,
utilidade (...) dos elementos dessa base, determina-se a qualidade e efetividade do indicador que
dela se calcula.
A relação de variáveis que segue (para fins ilustrativos), entre outras, é fundamental para
definir os indicadores de dimensões da desertificação e convivência com a seca, tais como:
hidrológica (a – e), climática (f), solo (caracterização e uso – manejo: g); biológica (h),
sociocultural (i - j) e econômica (k):
a) Qualidades da água superficial (QlASpi) e qualidade de água subterrânea QlAsbi),
expressas em termos físico, químico e biológico. Quais são esses termos? Exemplos deles
são: temperatura da água, que afeta processos biológicos; e turbidez como sinal de qualidade
alterada; variáveis químicas como: nitrogênio, fósforo, metais pesados e DDT – subprodutos
agrícolas; variáveis microbiológicas como coliformes.
b) Quantidade de água superficial (QdASpi) expressa pelo regime de caudais de rios e
quantidade da água subterrânea (QdASbi) expressa pelo regime de recarga e potencial de
exploração.
c) Caudal ecológico (CEi); estimativa do caudal necessário para a manutenção de ecossistemas e
da biota associada.
d) Eventos hidrológicos críticos (EHcii), tais como os de escassez hídrica (EHce), secas (EHcs),
inundações (EHci) etc., em termos de intensidade e freqüência de ocorrências desses evento.
e) Mudança de regime “natural” ou induzida de mananciais (MRmi) por causa de atividades
humanas, tais como: impermeabilização do solo, canalização, dragagem, represas, diques,
erosão e transposição de caudais de rios.
f) Regime climático (RCxi) definido pela interação de elementos climáticos como chuva (X1:
“normais”, freqüência, intensidade, duração, distribuição – concentração etc.), temperatura
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(X2: “normais”, variações sazonais etc.), evaporação (X3: “normais, variações sazonais etc.)
e mudanças climáticas.
Este grupo de variáveis compreende alguns fatores básicos para a delimitação e
caracterização do problema como, por exemplo, as variáveis evaporação = transpiração e
precipitação pluviométrica, a intensidade media (normal) de chuva e a distribuição ao longo
de um ano hidrológico; a média de chuva e o coeficiente de variação ou relação média e
desvio-padrão; a temperatura e a evaporação.
g) Solo (S): caracterização física (SFi), química (SQi), biológica (SBi), topográfica (...)
agronômica e de uso – manejo: pecuária, agrícola, vulnerável à degradação, degradados, em
processo de desertificação etc.
A caracterização do uso e manejo do solo compreende variáveis importantes no processo de
desertificação; são práticas não-conservacionistas de uso do solo – água – vegetação nativa
que favorecem a erosão e desertificação, observando-se estreitos e diretos efeitos
combinados que precisam de suficiente entendimento como parte básica da definição do
problema.
h) Proteção, conservação – manejo da biodiversidade (PCMbi): tipo / caracterização da biota
inicial, variação dos tipos de cobertura, de habitats e de populações.
i) Estado de desenvolvimento humano (IDHi): população, estruturação e dinâmica; variáveis dos
estados socioculturais: escolaridade; variáveis dos estados de bem-estar: moradia, segurança
alimentar, saneamento básico, saúde etc.; outras variáveis: exclusão social em suas diversas
formas.
j) Econômicas (Econi): PIB regional, investimento em infra-estruturas como estradas, pontes,
armazéns (...), emprego e renda.
k) Convivência (Convi) com a seca: permanência no local, resistência e migração associadas à
seca.
A simples relação de variáveis abióticas, bióticas, socioculturais e econômicas mostra
importantes associações (correlações, causalidades, concentrações – dispersões etc.) que podem
acenar para definir indicadores. Para o caso ilustrativo da relação de variáveis apresentada acima se
tem, também, como exemplo ilustrativo, o Quadro 2, com indicações qualitativas de
relacionamentos. Essas indicações podem ser expressas mediante valores calculados entre
correlações (  ) de variáveis e/ou entre associações de causalidade de variáveis ( r ) que
apresentem tais comportamentos. Em outros casos as indicações podem ser expressas em termos
descritivos em escalas e agrupamentos convenientes.
Entre a variável “qualidade da água superficial” definida por condições físicas, químicas e
biológicas para usos – consumos múltiplos e “qualidade da água subterrânea” também definida por
condições físicas, químicas e biológicas, observa-se e se pode quantificar uma forte e direta relação
(neste documento básico e simples se omitem os ordenamentos escalares e as estimativas
estatísticas de cada caso).
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Entre a “quantidade de água superficial” definida pelo regime do caudal do rio sob
determinadas condições de espaço, tempo (…) e a “quantidade de água subterrânea”, definida pelo
regime de recarga e potencial de exploração, pode-se observar e quantificar – medir uma relação
moderada e indireta. Enquanto que entre a “quantidade de água subterrânea” e a “mudança no
regime natural dos mananciais” a relação poderá ser forte e inversa; isto, porque uma maior
atividade antrópica que leva à mudança no regime do caudal de água se traduz em menor poder de
recarga e vice-versa.
Ainda dentro de variáveis é possível estabelecer – quantificar relações como é o caso, por
exemplo, entre “saneamento básico” e “estado de saúde”; entre a valoração de bens e serviços
ambientais (a água, por exemplo) e o preço (como disposição a pagar) desses bens e serviços.

Quadro 2 Escala de inter-relacionamentos forte (f), moderado (m) e leve (l) entre variáveis
COORELAÇÕES (  ) REGRESSÕES CAUSA – EFEITOS ( r ) ENTRE VARIÁVEIS
QlASpi QdASpi CEi EHcii MRmi RCxi SF/Q/B PCMbi IDHi Econi Convi
QlASpi

QdASpi f
CEi f f
EHcii -f -f -f
MRmi - l /-m - l / m -f -f
RCxi m m m m m
SF/Q/B l l l l m -l
PCMbi f f l l -m -l f
IDHi f f m f -m -m f f
Econi f f f f -m -m f f f
Convi f f f f -m -f f f f f

Essa disposição, em determinado estado de “normais” de escassez da água, por sua vez,
poderá estar associada com a disposição para construir cisternas (construção de placas e cisterna
construída) para armazenar água, conforme se ilustra na Figura 16. Em outros termos, essa
disposição poderá se associar com a cobrança pelo uso da água.
Nos exemplos anteriores, ainda que simplistas, foram relacionadas muitas variáveis
carregadas de conteúdos valiosos, porém que precisam de simplificações para que tais conteúdos
sejam devidamente direcionados com certa facilidade e necessária objetividade.
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Figura 16 Construção de uma cisterna com placas e cisterna construída para captação de água

Mediante diversos procedimentos e técnicas de simplificações de dados (propositadamente


omitidos neste documento) se chega ao indicador, a um índice (...) que poderá relacionar duas ou
mais variáveis para definir (representar) um atributo.
Os indicadores são úteis para observar, descrever e avaliar, numa perspectiva limitada e em
foco, estados, condições, relações (...) atuais; para formular estados (...) desejados; para comparar
um estado (...) atual com um estado (...) desejado no futuro, para subsidiar à tomada de decisões,
para definir plano, projetos e instrumentos de controle como os legais.
Os indicadores podem ser descritivos ou numéricos, ilustrativos como o apresentado na
Figura 12; podem ser quantitativos ou qualitativos e podem (ou não) serem aplicáveis a distintas
dimensões temporais e espaciais (WWAP, 2003; complementado).
Indicadores de Desenvolvimento Sustentável: Brasil 2004 (IBGE, 2004) apresenta, na
dimensão ambiental, indicadores de uso dos recursos naturais e de degradação ambiental;
indicadores orientados para atingir os objetivos de preservação e de conservação do meio ambiente.
Nesta dimensão se destaca a desertificação e arenização. 7
Por convenção, considera-se que a “desertificação é de uso restrito ao processo de
degradação de terras, com danos generalizados ao solo, que ocorrem em áreas de clima árido, semi-

7
Arenização; transformação de um solo muito arenoso com uma cobertura vegetal fraca, em uma área com
areia e sem nenhuma ou muito pouca vegetação; um exemplo dessa transformação se encontra no sudoeste
do Estado do Rio Grande do Sul, onde 10 municípios e 3,67 mil ha foram afetados até 1989. A transformação
é a “resultante tanto de variações climáticas quanto de atividades antrópicas”.
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árido e sub-úmido seco, mesmo que o processo seja similar, em causas e conseqüências, àqueles
que ocorrem em áreas mais úmidas”. Destaca o IBGE (op. cit.) que “os solos e as paisagens, dois
dos maiores patrimônios que um país tem, ainda não são como tal percebidos no Brasil. O processo
de degradação de terras (…), independentemente do clima das áreas afetadas, é dentre os
problemas ambientais do País, aquele que menos atenção tem recebido da sociedade, apesar das
graves conseqüências ambientais, sociais e econômicas que pode ocasionar”. Um fator importante
para conhecer a dimensão do problema e a necessidade de solução do mesmo é o indicador.
A seleção e aplicação criteriosa de indicadores para informar – comunicar, alertar – avaliar,
auxiliar à tomada de decisão (…) acerca de ações e estratégias de combate à desertificação e de
convivência com a seca, considerando as diversas dimensões e disciplinas que esses processos
compreendem e a necessidade de integrá-las, deve obedecer a certas condições, princípios e
fundamentos. A parte que segue sintetiza alguns deles:
a) Pertinência política e utilidade – aplicabilidade prática para os usuários, planejadores e
gestores, tomadores de decisão e administradores (...). Os valores numéricos de indicadores
devem ser relevantes do grau de medição que representam. Os indicadores devem, quanto
possível:
a.1) Representar, de forma confiável e como efeito da fiel interpretação - representação da
realidade (refletir o estado), as condições ou os estados do meio ambiente em termos de
pressões a que tem sido submetido, impactos provocados por essas pressões e
intervenções (…) e respostas, efeitos ou conseqüências que definem o estado a ser
fielmente representado por indicadores.
a.2) Simples, sem o exagero do simplismo e à despeito da complexidade que o indicador
representa, tanto no entendimento, lógico e intuitivo, por todos os usuários como na
interpretação–aplicação, capaz de simular e prever tendências.
a.3) Servir de referências para comparações (pressupondo-se que as situações, condições
etc., sejam comparáveis: semelhantes atributos, qualidade, processos etc.) como, por
exemplo, entre estados de ambientes distintos (locais diferentes) em um mesmo período e
entre períodos distintos de um mesmo local.
a.4) Ter uma base uma base de documentação acessível e completa e um conjunto de valores
de significados consistentes e práticos de fácil compreensão de todos os interessados.
a.5) Ser claro e objetivo; a ambigüidade e arbitrariedade – subjetividade devem ser excluídas
da medição com um indicador: ter uma finalidade específica.
b) As necessárias: exatidão: precisão, conforme o propósito ou aplicação do indicador;
consistência: solidez no sentido de estabilidade e segurança; coerência: lógica conexão e
necessária continuidade ao acompanhar a disponibilidade de dados consistidos e informações
coerentes, em que consistência e coerência tenham o necessário alcance histórico e regional;
e possibilidade de análise. Os indicadores devem:
b.1) Ter fundamentação teórica consistente, coerente, pertinente e atualizada em termos
científicos, técnicos, econômicos, sociocultural e ambiental.
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b.2) Ser aceito pela comunidade técnico-científica nacional e internacional pela sua validade
e aplicabilidade.
b.3) Podem reportar-se e combinar modelos (processos) econômicos de estados presentes
(diagnósticos), retrospectivos (históricos) e prospectivos (evoluções, tendências, cenários)
de atributos que possam ser utilizados em análises e tomadas de decisões estratégicas.
c) Mensurabilidade; os procedimentos e unidades de medida devem ser adequados e
consistentes. O indicador deve ser:
c.1) Medível; mensurável com unidades de medidas atualizadas aplicáveis ao caso. À
observação do fato relevante segue a medição acessível, disponível e que possa resultar
de uma relação custo / benefício favorável.
c.2) Ter validade institucional, social e econômica.
c.3) Possibilitar a sua avaliação, revisão e atualização em intervalos regulares ou quando
necessário, acompanhando o aprimoramento de sistemas de dados e informações e à
dinâmica – exigências da gestão ambiental.
c.4) A medição deve trazer um benefício social.
Os propósitos e usos freqüentes dos indicadores estão diretamente relacionados com a
complexidade de problemas e a grande quantidade de dados em diversas dimensões – disciplinas.
Os usos – aplicações dos indicadores, para o caso considerado neste documento, são:
a) Os descritivos de estados, pressões e respostas com a utilização de gráficos (Figuras 18 e
19), mapas (Figura 20) e ilustrações (tabelas, quadros, figuras, mapas etc.).
b) As indicações de alertas, tendências, projeções (...) com base na síntese e tratamento
estatístico ou outro dos dados de séries históricas como as de degradação ambiental, quedas
de produtividade e aumento de um fator ou causa da desertificação em um período.
c) Os indicadores são meios eficientes para informar – comunicar, alertar – prevenir, auxiliar à
tomada de decisões e o planejamento – gestão e, em especial, para refletir, treinar,
conscientizar e servir de base na educação ambiental.
d) Os indicadores para monitorar um processo como os de erosão na desertificação. Estes
indicadores compreendem – sintetizam importantes fontes de dados como as do sistema de
informação geográfica SIG (informações georeferenciadas) para acompanhar e avaliar
processos em escalas como os de uma bacia hidrográfica.
e) Indicadores para a gestão ambiental com várias fontes de dados como os de ecossistemas e
socioculturais
A construção de descritores e índices de degradação ambiental precisa de muitos dados; nem
sempre é possível dispor dados com a qualidade e quantidade necessárias, além de outras
dificuldades para se integrarem informações primárias de várias fontes, em geral, com
procedimentos de obtenção, propósitos de uso e escalas (níveis de detalhamento), períodos (...)
diferentes.
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A Figura 17 ilustra uma possível disposição de descritores (grupo de indicadores) que


possam delimitar e caracterizar o problema da desertificação e as condições de susceptibilidade
desse processo. Trata-se de uma disposição simples que serve de referência para o agrupamento de
indicadores como os utilizados no processo de degradação do solo.
O processo de desertificação ocorre por fenômenos físicos, químicos e biológicos que agem
de forma isolada (raramente) ou conjunta (freqüentemente), com o resultado de perdas ou reduções
da camada superficial do solo e queda na produtividade agrícola, entre outros.
No lado do processo natural (Figura 17), ao considerar a degradação natural do solo,
relacionam-se causas, tais como:
a) aumento de escoamento (run-off: perdas de nutrientes com as enxurradas que arrastam a
camada superficial de um lugar agricultável, com valor e as depositam em outros, com
prejuízos pelo assoreamento de barreiros, açudes);
b) condições climáticas “adversas” como altas temperaturas, evaporação elevada, chuvas
erosivas e períodos de secas, entre outras;
c) presença de horizontes genéticos do solo, endurecidos ou que provocam perdas ou redução
da permeabilidade e dificuldades na penetração de raízes: o solo, conforme seja a sua
natureza, é exposto ao intemperismo;
d) salinização e sodificação de áreas assoreadas; e redução da atividade biológica.
Quaisquer que sejam as ações e estratégias de combate à desertificação e convivência com a
seca é, repetindo, imprescindível compreender as comunidades e com esse engajamento efetivo,
resgatar lições e experiências (dados e informações do local, da região), valorizando-as e
complementado-as com novos processos, ações e estratégias (novas informações e tecnologias
testadas às condições locais) sintetizáveis por indicadores.
Isto pressupõe compilar, ordenar, avaliar e gerenciar “todos” os dados e informações
disponíveis no local, na região (…) para, depois de adequado tratamento (validação,
complementação etc.), classificação, ordenamento, armazenamento (...), disponibilizá-los em
programas e planos como os de educação ambiental, conscientização pública, divulgação de
informações consistidas e valiosas – úteis.
O esquema pode ser sintetizado na Figura 18, com início na obtenção, avaliação,
classificação, armazenamento (...) de dados e informações disponíveis no local, na região (...):
várias e diferentes fontes de dados que poderão ser avaliadas para definir o estado de
conhecimento, resgatá-lo, valorizá-lo e difundi-lo.
Esse estado de informação é complementado com dados e informações de estudos,
pesquisas, diagnósticos, registros sistemáticos de postos de observações (...) em áreas como as
abióticas, bióticas, socioculturais, econômicas e político-institucionais.
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DESERTIFICAÇÃO

Susceptibilidade

Processo Processo
Natural Antrópico

Climático: Indicadores Indicadores Indicadores


- Precipitação
Sociais Econômicos Outros
- Insolação
- Evapotranspiração

Hidrológico run-off Q1 Z1 W1
- Qualidade - quantidade
Q2 Z2 W2
Solo:
- Propriedades físicas (...)
- Geomorfologia (...) Q3 Z3 Z3
- Erodibilidade-erosividade
Q1: Dinâmica populacional; Indicadores dos efeitos da
desertificação sobre população
Vegetação Nativa: Q2 Indicadores sobre educação
- Tipologia – cobertura (...) Q3 Indicadores sobre migração por causa da desertificação
- Risco fogo (...) Z1 Indicadores sobre emprego, nível de renda (...)
Z2: Valor da produção (agrícola ou por produto; pecuária ou por
produto) do município em relação ao valor da produção do
Estado
Evapotranspiração (Ev) Z3: Índice de aridez
Chuva (P) W1: Índice de erosão: erodibilidade, erosividade
W2: Índice da vegetação nativa: risco ao fogo, adensamento etc.
W3: Outros índices
ÍNDICE
Ev / P

Figura 17 Processo de desertificação e exemplos de indicadores desse processo


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VARIÁVEL
Observar, mediar, registrar
A → xi/1
B → xj/2 INDICADOR
Dados e informações: I1= f(a, b, c) ÍNDICE
C→ xj/3
- abióticos: clima, água e solo:  Xij I2= f(a, q) J1=g(I1, I3)
- bióticos: flora, fauna, ambientes:  Yij D→ yi / 1
I3= f(b, z) J2=g(I2, I5)
- sociocultural:  Qij E→ yi / 3
I4= f(d, z) J3=g(I3, I6)
- econômicos:  Zij F→ yi / 3
I5= f(f, g, w) ...
- político-institucionais:  Wij G→ zj)
H→ wj ...
...

Da pesquisa, da ciência (...) para A política (...) para A gestão (...) para O bem-estar
Descrever, demonstrar incorporar fundamentar informar-comunicar

Figura 18 Política de informação: relações entre dado, variável, indicador e índice.

Na Figura 18 se indica uma seqüência do dado (observação, medição e registro tradicionais


e os levantados por meios sistematizados como os de pesquisa e registros de postos de observações
meteorológicas) para a variável, um conceito lógico e matemático para denotar objetos de um dado
domínio de aplicação (…); da variável para o indicador e do indicador para o índice. Na fase inicial
se tem a pesquisa para o levantamento do dado (postos de observações – registros sistemáticos,
experimentos, diagnósticos, estudos prospectivos, sensoriamento remoto / SIG etc.), para definir
uma base de dados, uma base com elementos consistidos, atualizados e de valor – utilidade. Essa
base deve ser a referência necessária para calcular os indicadores descritivos, para monitorar, para
planejar – gerir (...).
Parte desse acervo é constituída por indicadores de desertificação, com fieis representações
de fatos e processos, com sensibilidade para acusar (informar – comunicar, alertar etc.) a
degradação ambiental, para monitorar e avaliar – agir com oportunidade.
O Quadro 3 sintetiza alguns indicadores que podem ser utilizados (adequados - ajustados,
servir de referência para calcular outros etc.) para informar – comunicar, monitorar – avaliar,
auxiliar ao planejamento e gestão (...) da desertificação e convivência com a seca.
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Quadro 3 Exemplo de indicadores e de índice da desertificação e convivência com a seca

INDICADOR VARIÁVEIS E ESPECIFICAÇÕES CRITÉRIO


FÍSICOS:
Chuva: quantidade e distribuição (mm)
Água Superficial: quantidade e qualidade
Subterrânea: quantidade e qualidade:
Temperatura
Clima Insolação
Ventos
Profundidade efetiva superior à camada que inibe o
crescimento – penetração de raízes das plantas (cm)
Tipologia relacionada com a erosão / desertificação
Solo
Nível de salinização e alcalinização
Declividade
Quantidade de matéria orgânica
BIOLÓGICOS

Desmatamento Porcentual desmatado (fig. 2)


Cobertura vegetal Percentual da cobertura (fig. 3)
Erosão Percentual (ou calculo) de solo erodido
Produtividade (kg/ha)|t1 / (kg/ha)|to: comparação entre períodos
Disponibilidade Vazões sazonais e temporais entre períodos
água
Qualidade da água Conteúdo salino: comparação entre períodos
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Renda relativa entre períodos


Econômicos
Excedentes comercializáveis entre períodos
Migração (dinâmica demográfica)
Sociais
Saúde

Razão entre precipitação anual (mm) e


Índice de aridez
evapotranspiração potencial anual (mm)
Definido em função de variáveis como: horizonte
Índice de superficial do solo, permeabilidade, drenagem,
qualidade do solo declividade, pedregosidade e estabilidade da estrutura
do solo
Índice de
erosividade
Índice de
erodibilidade
Índice de Definido em função de variáveis como risco de
susceptibilidade incêndio, resistência a seca, nível de cobertura da
da vegetação à vegetação, proximidade ao clímax
desertificação

Indicadores de força motriz


Considerou-se para a definição dos indicadores de força motriz da desertificação na região, o
processo de construção do espaço e seus impactos; os projetos que possibilitaram o
desenvolvimento da atividade ceramista como alternativa econômica e a relação de dependência
das famílias com o setor produtivo ceramista. Selecionou-se como indicador a percentagem da
ocupação principal na indústria cerâmica, ou seja, a dependência das famílias em relação à
atividade ceramista. Verificou-se que 38,3% das famílias entrevistadas possuem como atividade
principal a cerâmica, o que mostra o grau de dependência das comunidades em relação à cadeia
produtiva ceramista e o peso dessa atividade na conjuntura sócio-econômica local.
O principal motivo para o exercício da atividade ceramista é a falta de opção de emprego e renda
na agricultura. Ao se referir à indústria cerâmica os entrevistados enfatizam o seu impacto na
geração de emprego e renda para as famílias e na melhoria das condições de vida da população.
Enumeram vários benefícios trazidos pela atividade, destacando o maior acesso aos bens de
consumo duráveis e a construção ou reforma da casa própria. Comentam que houve o retorno de
algumas famílias às comunidades, porém já demonstram uma preocupação com a questão
ambiental.
Indicadores de pressão
Uma vez identificada a atividade produtiva ceramista como o principal elemento condutor das
alterações no ambiente (força impulsionante do processo de desertificação), buscou-se os principais
Comb at e à de s e rt if ic aç ão e m iti ga ç ão - co nv iv ên ci a co m a s ec a

elementos de pressão sobre os recursos naturais. Tais elementos estão relacionados à atividade
ceramista e à condição do uso das fontes de energia pela população. Foram selecionados os
seguintes indicadores:
a) percentual da população que usa lenha e carvão como combustível doméstico;
b) consumo total estimado de lenha para uso doméstico;
c) quantidade de lenha usada na atividade ceramista;
d) quantidade de matéria-prima usada na atividade ceramista.
Em relação ao primeiro indicador, verificou-se que 75% dos domicílios das três comunidades
pesquisadas utilizam os recursos florestais (lenha ou carvão vegetal) como fonte de energia
doméstica parcial ou integralmente, apesar do uso do gás de cozinha ser comum na maioria dos
domicílios. A lenha que é utilizada como combustível doméstico no dia-a-dia é retirada nos
arredores das próprias comunidades. Em relação ao indicador consumo total estimado de lenha para
uso doméstico, utilizou-se como base para o cálculo do indicador o índice de consumo médio de
lenha de 2,67 estéreo (st)/ano por habitante (de interior rural)2. A partir da informação de que a
população total das três comunidades é de 1.606 habitantes, verificou-se que o consumo total
estimado de lenha para uso doméstico é de 4.288,02 estéreo/ano (st/ano)3.
O indicador percentual da população que usa lenha ou carvão e o indicador consumo total estimado
de lenha para uso doméstico corroboram com os resultados apresentados pelo Relatório Técnico do
Projeto de Indicadores de Desertificação no Seridó do Rio Grande do Norte (FGEB, 2002)
referentes à intensidade do desmatamento na escala municipal. Segundo esse relatório,
Parelhas é um dos municípios do Seridó que perdeu nos últimos 14 anos cerca de 40% de sua área
com cobertura original de vegetação densa e semi-densa, justamente os estratos com maior
potencial lenhoso e mais sujeitos à exploração para a produção de energéticos florestais.
2 PAREYN & RIEGLHAUPT apud FGEB, 2002:14.
3 Estéreo: medida unitária que engloba a altura, a profundidade e a largura da madeira retirada

Em relação ao indicador quantidade de lenha usada na atividade ceramista verificou-se que há uma
necessidade crescente e continuada de grandes volumes para a produção dos artefatos cerâmicos.
As cinco cerâmicas pesquisadas consomem juntas 20.160 m3/ano de lenha para produzir uma
média de 33.576 telhas/ano. A retirada indiscriminada da lenha da vegetação nativa para atender a
demanda energética do setor ceramista local, que funciona efetivamente há mais de dez anos,
provocou a escassez da mata nativa. A cobertura vegetal atual de Parelhas apresenta uma
“desproteção muito forte” e o estoque lenhoso existente será incapaz de regenerar-se nos próximos
20 anos (FGEB, 2002) o que inclui Parelhas na categoria de municípios “em condições de extremo
comprometimento da sustentabilidade ambiental e econômica” (FGEB, 2002:11).
Em relação ao indicador quantidade de matéria-prima usada na atividade ceramista local, verificou-
se que são extraídas por mês 2.568 toneladas de argila. Esse volume é retirado de várzeas dos rios,
lagoas, riachos e açudes. Não havendo planejamento da lavra e nenhuma preocupação com a
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recuperação da área explorada, a matéria-prima foi ficando escassa, e, hoje, a indústria ceramista
importa grande parte desse insumo que é básico para seu funcionamento.
Esse nível de dependência econômica dos recursos naturais, retirados de um ecossistema com
baixíssima capacidade de recuperação e mediante a utilização de práticas totalmente inadequadas
de manejo, está conduzindo a região pesquisada a uma grave situação de desertificação.
Indicadores de estado
Identificados os principais elementos de pressão sobre os recursos naturais, foram selecionados os
seguintes indicadores de clima:
a) precipitação;
b) insolação e;
c) evapotranspiração.
Tendo em vista a não existência de dados climáticos para o âmbito local, apresentam-se os
indicadores com base nas informações sobre a região do Seridó e o município de Parelhas, de
forma a determinar a situação de suscetibilidade da área em estudo à desertificação.
De acordo com o PAN-Brasil (MMA, 2004), a região semi-árida caracteriza-se como área
suscetível à desertificação, apresentando evapotranspiração elevada e ocorrência de períodos de
seca. As comunidades rurais de Cachoeira, Juazeiro e Santo Antônio da Cobra, situam-se na região
semi-árida, apresentando o índice de aridez de 0,4, precipitação pluviométrica anual média da
ordem de 400 e 600 mm, curto período chuvoso de 3 a 5 meses (janeiro a maio) e uma estação seca
de 7 a 9 meses de duração. A temperatura média das máximas é de 33ºC e a das mínimas de 22ºC.
As baixas latitudes condicionam a região à forte incidência solar sobre a superfície do solo, quase
3.000 horas de luz solar/ano (DUQUE, 2004). Para descrever o estado do meio ambiente e detectar
os atuais níveis de qualidade de vida das famílias das três comunidades rurais foram tomados como
base os resultados da pesquisa nos quais os seguintes indicadores socioeconômicos foram
selecionados:
a) renda da atividade principal /renda total por família;
b) densidade demográfica;
c) percentual de residências que possuem esgoto/total de residências;
d) percentual de residências com água encanada/total de residências e;
e) número de pessoas com ensino fundamental incompleto/total de pessoas.
Observou-se que a renda da atividade principal representa 35,3% em relação à renda total por
família. Esse indicador mostra a predominância da indústria cerâmica em relação às principais
atividades geradoras de renda monetária nas comunidades e também à condição ocupacional não
agrária. Nas Comunidades de Cachoeira e Juazeiro, a ocupação principal é a ceramista,
respectivamente, 41,87% e 48,91%, entretanto, na comunidade de Santo Antônio da Cobra há um
diferencial que merece ser destacado – a renda principal das famílias é proveniente do benefício da
aposentadoria rural (50%), seguida da atividade ceramista (16%). Presente nas três comunidades,
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por meio do associativismo e da microempresa, o setor ceramista é o maior empregador local. Em


regra, mais de um dos membros das famílias entrevistadas tem nesta atividade sua ocupação
principal.
A densidade demográfica considerada como fator de pressão sobre o meio ambiente no semi-árido
é de 20 hab/km2 (MATALLO, 2003:77). As comunidades estudadas apresentam densidade
demográfica de 10,16 hab/km2. Nesse caso, o indicador densidade demográfica contribui para a
descrição do estado do meio ambiente e do nível de qualidade de vida das populações.
Observou-se que as condições de infra-estrutura são precárias fato que pode estar correlacionado
com a densidade demográfica. Os indicadores % de residências com esgoto/total de residências e %
de residências com água encanada/total de residências foram identificados como relevantes para a
caracterização das condições de vida da população local e da fragilidade dessa população frente às
doenças pela falta de água e de rede de esgoto. Registrou-se o precário acesso da população aos
serviços de saneamento.
O propósito do indicador número de pessoas com ensino fundamental incompleto/ total de pessoas
é mostrar o nível educacional dos moradores das comunidades, tendo como base o entendimento de
que o aumento da escolaridade é uma condição fundamental (embora, talvez não suficiente) para a
superação da pobreza. O dado indica também a disponibilidade dessa população para aceitar novas
informações. Constatou-se nas comunidades estudadas que 56,87% dos entrevistados têm apenas o
ensino fundamental incompleto.
Indicadores de impacto
Os indicadores de impacto descrevem os efeitos finais das mudanças de estado, são os elementos
que indicam as conseqüências da degradação dos recursos naturais, ou seja, de que forma a
desertificação impacta o sistema social. Para estabelecer e analisar os indicadores de impacto foram
obtidas informações sobre quais seriam os problemas prioritários dos habitantes das comunidades
em relação à condição de degradação do ambiente (conseqüências) e a extensão desses problemas,
por exemplo, se a renda das atividades produtivas é suficiente para o sustento da família. Para
análise dos dados coletados foram selecionados os seguintes indicadores:
a) % de famílias com renda per capita ≤ a . salário mínimo (Linha de Pobreza) e;
b) % de famílias com renda per capita ≤ a . salário mínimo (Linha de Indigência).
Para definir o indicador % de famílias com renda per capita ≤a . salário mínimo (Linha de Pobreza)
e o indicador % de famílias com renda per capita ≤ a . salário mínimo (Linha de Indigência) foram
tomadas como referência as definições do PNUD para linha de pobreza e de indigência. Esse
Programa considera como abaixo da linha da pobreza a família cuja renda per capita é inferior a .
salário mínimo e abaixo da linha de indigência aquela com renda inferior a . salário mínimo. A
linha de indigência corresponde à estrutura de custos de uma cesta alimentar, definida
regionalmente, que cubra as necessidades de consumo calórico mínimo de um indivíduo, enquanto
a linha de pobreza inclui um mínimo de outros gastos essenciais, como vestuário, habitação e
transportes.
No universo das três comunidades rurais estudadas verificou-se que 35% das famílias apresentam
renda per capita inferior ou igual à metade de um salário mínimo, portanto, abaixo da linha de
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pobreza e 8,3% das famílias vivem com . do salário mínimo (R$ 65,00 em fevereiro de 2005), ou
seja, abaixo da linha de indigência4. Esses indicadores expressam uma realidade de pobreza na área
em estudo, apesar da existência de oportunidade de emprego e renda, mesmo que de forma indireta
(trabalhos eventuais). Segundo os entrevistados, a inexistência das cerâmicas traria impactos
maiores para a população tais como: a delinqüência, a prostituição, o uso de drogas, especialmente
entre os jovens. Os valores apresentados – pobreza e indigência – têm um significado maior no
contexto analisado quando se observa que há uma estreita relação entre a pobreza e o avanço dos
processos de desertificação. A pobreza é identificada como fator que, naturalmente, limita
investimentos e tende a sobre-utilizar os recursos naturais. Na área estudada, esses elementos são
potencializados pelas características físico-ambientais e pela ocorrência de secas que levam a
perdas significativas e recorrentes de produção e de renda.
Indicadores de resposta
Foram também identificados os elementos de resposta da sociedade aos indicadores de impacto, ou
seja, as medidas concretas tomadas frente ao problema da desertificação, os esforços da sociedade
(políticos e tomadores de decisão) para minimizar a problemática evidenciada. São os seguintes os
indicadores de resposta identificados:
a) % da população que recebe assistência técnica;
b) estudos técnico-científicos sobre a temática da desertificação voltados para a região;
c) políticas públicas de combate à desertificação e;
d) organizações sociais comunitárias.
Observou-se que 73,3% dos entrevistados recebem, ou a comunidade recebe algum tipo de
assistência técnica. Constatou-se que o Programa de Combate à Pobreza Rural (PCPR) é o
principal agente a atuar no espaço das comunidades (40,5%), seguido do Serviço de Apoio aos
Projetos Alternativos Comunitários (SEAPAC), 21,6%, e da Empresa de Assistência Técnica e
Extensão Rural (EMATER), 17,6%. Os demais agentes identificados foram: o Instituto de 4 Em
fevereiro de 2005 o valor do salário mínimo era de R$ 260,00 (duzentos e sessenta reais), portanto,
a metade desse salário correspondia a R$ 130,00 (cento e trinta reais) e ¼ a R$ 65,00 (sessenta e
cinco reais).
Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (IDEMA) 5,4%; o
Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR), 2,7%; o NUDES e a Secretaria de Estado dos Recursos
Hídricos, 1,4%. Evidenciou-se que a temática da desertificação vem sendo objeto de preocupação
por parte dos especialistas regionais há mais de duas décadas.
Alguns trabalhos foram publicados e várias iniciativas tomadas no sentido de se discutir e
direcionar ações para o combate à desertificação no âmbito local5. O processo de elaboração do
PAN-Brasil, em 2004, pela sua forma participativa, propiciou, no estado a ampliação do debate em
relação à problemática. Algumas ações de combate à desertificação foram observadas, com
destaque para a criação do NUDES em 2004, constituído pelas comunidades de Santo Antônio da
Cobra, Juazeiro e Cachoeira. Esta área piloto foi estabelecida pelo governo estadual em parceria
com órgãos federais e a sociedade civil, para ações de prevenção e controle da desertificação.
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Dentre os instrumentos políticos de desenvolvimento sustentável para a região do Seridó destaca-se


Plano de Desenvolvimento Sustentável do Seridó que apresenta uma abordagem integrada sobre o
tema da desertificação e, concretamente, originou a criação da Agência de Desenvolvimento do
Seridó (ADESE), entidade que vem atuando nessa área. Além disso, as comunidades estudadas
estão inseridas no Programa de Desenvolvimento Sustentável e Convivência com o Semi-árido
Potiguar que contempla a construção de adutoras, a interligação de bacias hidrográficas,
organização do plano emergencial para situações de calamidade pública e atualização do plano
estadual de recursos hídricos.Observou-se ainda que um importante elemento de resposta é o fato
das comunidades se organizarem em associações rurais e, assim, atuarem como atores sociais,
gestores de seus próprios projetos de melhoria de qualidade de vida.
Em referência aos elementos apresentados na estrutura DPSIR, o presente estudo enfatiza que os
indicadores aqui apresentados e discutidos têm validade quando utilizados em combinação, numa
abordagem integrada, buscando o entendimento da inter-relação existente entre as ações antrópicas
e o meio ambiente. Nesse sentido, a análise dos indicadores gerou um panorama da ocupação nas
comunidades de Cachoeira, Juazeiro e Santo Antônio da Cobra e permitiu a verificação do
processo de desertificação na sua forma atual.
Conclusão
Os resultados alcançados, a partir do desenvolvimento desse estudo permitem que sejam
apresentadas algumas conclusões: a) historicamente, a região do Seridó/RN, na qual se inserem as
comunidades rurais em foco, vem sendo explorada por atividades de baixo nível tecnológico e
manejo inadequado, resultando numa relação extrema de dependência dos recursos naturais; b) as
formas predatórias de exploração (pecuária extensiva, agricultura de sequeiro, mineração,
derrubada e uso energético dos recursos florestais), associadas às condições naturais de alto
potencial de risco (clima, solo, vegetação), produziram áreas de grande suscetibilidade ao
desenvolvimento de processos de desertificação; c) a área mais atingida por processos de
desertificação no estado do Rio Grande do Norte, situa-se na Microrregião Homogênea do Seridó,
no chamado Núcleo de Desertificação do Seridó que é composto por seis municípios, dentre esses,
o município de Parelhas e, conseqüentemente, as comunidades rurais estudadas; d) os efeitos das
alterações ambientais observadas na região, somados aos períodos de seca, relacionam-se à
eliminação da cobertura vegetal nativa, à destruição dos solos (processos erosivos), à diminuição
do armazenamento de água nos aluviões, à salinização das águas, à perda da diversidade biológica,
à redução de alternativas de desenvolvimento; e) no contexto da crise econômica (anos 1980 e
meados da década de 1990) surgiram novas formas de ocupação e de geração de emprego e renda,
sendo introduzida na região a atividade ceramista. Por meio do associativismo formal as
comunidades rurais investigadas implantaram projetos de produção cerâmica como alternativa de
emprego e renda; f) o processo produtivo na indústria de cerâmica vermelha local tem como
insumos básicos a lenha (matriz energética) e a argila dos aluviões (matéria-prima) o que tem
promovido . a escassez da vegetação de caatinga na área das comunidades, o mesmo ocorre com a
matéria-prima; g) os indicadores analisados expressaram as forças condutoras das alterações no
ambiente das comunidades e as precárias condições de sobrevivência da população pesquisada;
sinalizaram a predominância de um estado de sobre-exploração do ecossistema, mostraram os 5 A
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referência dos trabalhos publicados é citada no documento “Diretrizes para política de controle da
desertificação no Rio Grande do Norte”(IDEMA, 2004).
níveis de pobreza da população local e a relação de dependência das famílias com o setor produtivo
ceramista; h) esse nível de dependência econômica dos recursos naturais retirados de um
ecossistema com baixa capacidade de recuperação e mediante a utilização de práticas inadequadas
de manejo, vem conduzindo a região pesquisada para uma grave situação de desertificação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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aspectos ambientais de atividades produtivas. Fortaleza, 1999.
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IDEMA Política estadual de controle da desertificação. Rio Grande do Norte. Natal. IDEC, 2000b.
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