Você está na página 1de 295
CURSODE _. ORGANIZACAO JUDICIARIA Antonio Alberto Vieira Cura 2.* EDICAO, REVISTA E ACTUALIZADA Coimbra Editora NOTA PREVIA A 2.4 EDICAO ‘Tomna-se cada vex mais dificil mancer actualizado um livro sobre a organi- zacio judicidtia portuguesa, devido & incessante modificacio ou substituigao dos diplomas legais ¢ regulamentares a ela atinentes, manifestacio do fenémeno mais geral da «inflacao legislativay, eraduzida no surgimento de um atimero crescente de leis, em regra deficientemente concebidas ¢ redigidas, que tem determinado a defesa insistente da necessidade de haver «menos leis ¢ melhores leis». Desde que foi dada a estampa a 1.* edicdo, muitas foram as alteragées operadas na disciplina das matérias que nela foram inclufdas, Assinalam-se, em especial, as que ocorteram en: telagdo aos tribunais judiciais, com destaque para as resulvantes da publicagao e entrada em vigor da Lei da Organizacio do Sistema Judicidrio € da respectiva regulamentagio («rectius», da respeitante a0 seu titulo V, 0 tinico que dela carecia), as quais, s6 por si, exigiram uma revi- sto muito extensa da obra. Mas muitos outros diplomas legais que na mesma se convocam foram igualmente objecto de modificagdo, 0 que também deter- minou a realizagio de considerdveis actualizagoes do texto. Numa altura em que, infelizmente, nao é previsivel o cermo da instabili- dade normativa nesce dominio, até porque jé cstio anunciadas novas alteragées legislativas (apenas em parte decorrentes do imperative de harmonizagio de varios preceitos legais com o teor da mencionada lei), esta nova edigio € essen- cialmente pautada pelo desejo de proporcionar aos estudantes ¢ aos demais interessados uma visio integrada da organizacio judicidria existente em Por- tugal no momento da sua publicagio. Ficam para tempos de maior acalmia legislativa os indispensdveis aprofundamentos de algumas matérias. Continua a ser adoptada a «antiga» ortografia. Apenas se exceptuam as cita- Ges de diplomas legais postetiores a 1 de Janeiro de 2012 ou do seu contetido. Coimbra, 23 de Outubro de 2014 Coimbea Editorase NOTA PREVIA A 1.2 EDICAO No ano lectivo de 2008/2009, a Faculdade de Direito de Coimbra decidiu introduzir algumas (pequenas) alteragbes no plano de estudos da Licenciatura em Direito que havia resultado da adequagao do curso aos objectives do «Pro- cesso de Bolonha». Uma delas traduziu-se, precisamente, na inclusio da unidade curricular de Organizagao Judicidria, no 1.° semestre do 4.° ano, com duas horas sema- nais de aulas tedrico-préticas (que, entretanto passaram a trés) ¢ 3 ECTS. O estudo da matéria respeitante & organizacéo judicidria nao constituiu, no entanto, uma novidade na mais antiga Faculdade de Direito portuguesa; tratou-se, antes, de o reintroduzir na mesma, apds um longo interregno (de oitenta anos). Com efeito, tal macéria foi leccionada a partir da Reforma do Plano de Estudos da Faculdade de Direito efectuada em 1865, ainda que sem constituir, de imediato, © objecto de uma disciplina auténoma, pois aparecia associada ao direito processual: com essa Reforma, ficou incluéda no Ambito da 12.* cadeira {pertencente ao 4.° ano), denominada «Organizacio judicial, theoria das acgGes ¢ processo civil ordindtio, comprehendendo a execugdo das sentengas»; na Reforma do ensino universitdrio operada em 1901, pelo Decreto n.° 1, de 24 de Dezembro, aparece integrada na 15.* Cadeira (também do 49 ano), cuja designagéo passou a ser «Qrganizacio judicidtia. Theoria das acgbes. Proceso ordindrio civil e commercial, Prética judicial»; e na Reforma dos estudos juridicos aprovada em 1911, pelo Decreto com fora de lei de 18 de Abril, o seu ensino manteve 0 mesmo enquadramento, na disciplina de «Organizacao judicléria, proceso civil, comercial € penal», Sé com o Decreto n° 3:370-C, de 15 de Setembro de 1917, que aprovou a nova organizacio funcionamento das Faculdades de Direito das Universidades de Coimbra e de Lisboa, o seu ensino passou a ter autonomia, com a introdugao de um «Curso de Organizagio Judicidriay. Mas a situagao anterior haveria de ser restabelecida Coimbra Faltora® omen 2 Gurso de Organizagito Judicitria com a Reforma cfectuada através do Decreto n.° 8:578, de 8 de Janeiro de 1923, que restabeleceu o sew estado em conjunto com o direito processual, na disciplina de «Organizagio Judicidtia ¢ Processo Civil e Comercialb. Com a Reforma de 1928, operada pela Lei Organica das Faculdades de Direito apto- vada pelo Decreto n.° 16:044, a organizagao judicidria deixou de figurar nos respectivos planos de estudos. Por deliberagdo do Conselho Cientifico da Faculdade, tomada na sua reunido ordindria de 15 de Setembro de 2008, fomos incumbido da respectiva regéncia, Logo nesse ano lectivo, fornecemos aos alunos 0 texto «Organizagda Judicidria. Apontamentos sobre a matéria sumariada»; no ano lectivo de 2009/2010, procedemos & reviséo ¢ actualizagio dos referidos apontamentos, em conformidade com as alteracbes introduzidas por diversos diplomas legais € regulamentares, dando-lhes 0 titulo «Organizagao Judicidria (Elementos para umas Ligées)»; ¢ 0 ano lectivo de 2010/2011, sem mudar 0 aludido titulo, cfectudmos nova actualizagio dos mesmos ¢ desenvolvemos alguns dos seus pontos. Todas as vers6es dos mencionados elementos de estudo foram postas a disposicao dos alunos na plaraforma «Web on Campus». O interesse suscitado pelos mencionados elementos de estudo, mesmo fora do Ambito universitétio, encorajou-nos a empreender uma revisio mais profunda do que as anceriormente realizadas, da qual nasceu 0 «Ciusso de Orga- nizagio Judicidrias que agora publicamos, Para além das indispensdveis actua- Hzagies legislativas ¢ bibliograficas, procedemos 4 teformulagdo de muitos pontos, desenvolvemos outros e tratémos de aspectos que nao tinham acolhi- mento no texto que lhe serviu de base. Continuando a ser dirigido, em primeira linha, aos estudantes da referida unidade curricular ¢ a ter como objective contribuit para uma melhor com- preensio das matérias nucleares do respective programa, o presente «Curso de Organizagao Judicidrian comporta ja planos de leitura que poderio satisfazer outros puiblicos. Aveiro, Outubro de 2011 Coimbra Editora® INTRODUCAO 1. CONCEITO E AMBITO DA ORGANIZAGAO JUDICIARIA A organizagao judiciéria, eujo estudo cabe & unidade curricular com a mesma designagao, é constitufda pelo conjunto dos drgios (ou apatelhos) aos quais, nos termos constitucional ¢ legalmente previstos, compete administrar a justiga, quet em matétia constitucional ou financeira, quer em matétia ctvel € criminal, quer em matéria administrativa ¢ fiscal, quer em matéria militar (ou qualquer outra); 0 acervo das normas (constitucionais, legais ou regulamenta- res) que disciplinam tais érgos ou aparelhos pode designar-se como «ordena- mento judiciérion ®, (Sobre a nogio de organizagio judicidria ¢ a sua relagio com o de sordenamento judiciition ou de adiveito judiciérion, vide ASFONSO Costa, Ligies de Organizacdo Judiciaria, Synthese das prelegies do Ex. Sr. Dr. Affonso Costa ao 4.° anno juridico de 1898 a 1899 — Mandada imprimir por José Marques altonno n.2 66 do raesmo curso (Coimbra, 1899). pig. 1s J. J. Gomes CANOTILHO, Direito Constitucional e Teoria da Constituigho, 7. edigio (Coimbra, 2003), pig. 660 — onde o A. fixa o conccito de ordenamento judicidtio, IGNACIO FLORES PRADA, Los modelos de organizacién judicial, in Manual de Organizacién Judicial, Dit. por Victor Moreno Catena, 3.* ed, (Valencia, 2008), pég. 15 — em que o A. define a organiza- 0 judicial como «a conjunto de decisoes relativas & composi¢do, estrutura e funcionamento da adsinistragao da justia numa determinada comunidade politieas (reportando-se, pois, as not mas respeitantes a essa matéria); ¢ GiutuAn© SCARSELLL, Ordinarmento giudiziario ¢ forense, 3. ed, (Milano, 2010), pag. | — onde o A. define 0 «ordinamento giudiziarion (vordenamento judicidcion) com referéncia a tal organizag&o, como «onjunto de norneas que disciplinam a organizagio dos aparelhos ¢ das pessoas designadas para o funcionamento da justigar, ¢ sustenta que nao se pode falar de «Direito judiciétio», uma vez que, actualmente, eno existe wm sistema de institutos gue discipline de mancira organica ¢ coordenada» a actividade dos jutves. Coimbea Editora® Curso de Organieasio Judiciaria Reconduzem-se ao dmbito da organizagao judicidria, enquanto disciplina, designadamente: a determinagdo © enumeragio das categorias de tribunais existentes , da respectiva sede e da Area onde exercem a parcela do poder jurisdicionat que thes € reconhecida; a divisio do territério em ciscunscrigées para efeico do exercicio dessa fatia de jurisdigao; a relagao (de independéncia, como veremos) que intercede entre os tribunais, no seu conjunto, € os outros 6rgios de soberania, assim como a que existe entre as diferentes categorias de tribunais e entre os jutzes de cada um deles; a hieratquizagio dos tribunais para cfeito de recursos os critérios de tepartistio da jutisdigao ¢ da comperén- cia entre as diferentes ordens de tribunais e entre os diferentes tribuinais inte- grados numa mesma categoria, respectivamente; ¢ modo como estes esta organizados ¢ o seu funcionamento (em plendrio, por secgdes ou em pleno de secgées; como tribunal singular, como tribunal colectivo, como tribunal do jdt); a identificagio dos tribunais, juizos ou scegdes de competéncia especia- {0 Na exposigio que se segue trataremos somente dos uibunais portugueses, ¢ nfo, também, dos tribunais intcrnacionais e supranacionais. A tespeito desses tribunals, em particular, do Tilbu- nal Furopeu dos Dizeitos do Homem e dos érgios jutisdicionais da Unio Europeia, com destaque para o Tribunal de Justica ¢ o ‘Tribunal Geral fart. 19.°, n° 1, do Tratado da Unio Buropeta ~— versio consolidada, publicada ne Jornal Oficial da Unio Europeia C83, de 30/03/2010), vide JONaTAS EM. MACHADO, Direito Internacional. Do paradigm cldssico ao pds-L1 de Setembro, 4d, (Coimbra, 2013), pigs. 422-436, 440-442, 452-485 c 692-712, « Dineto da Unita Furapeia, 2 ed. (Coimbra, 2014), pags. 529 e segs; ¢ Raquel, CASTIL.E}O MaNZANARES, Los tribunals spre snacroniles, in Manual de Organizacién judicial, Dit. pot Victor Moreno Catena, cit, pags. 101-126. Saliente-se, no encanto, a imporcincia de que se reveste, também para os tribunals poi tugueses, o insticuto do steenvio prejudicial», para o Tribunal de Justiga da Untio Buropéi (TJUB), previsto no actual art, 267.° do Tiatado sobre o Funcionamento da Unigo Europei (versao consolidida, publicada no referido Jornal Oficial da Unitio Europeia C 83), quie cor- tesponde ao antigo art, 234.° do TCE. O mencionado «reenvio» consiste em o drgio juris! dicional nacional de qualquer Estado-Membro, quando seja suscitada uma questio sobie a sinterpretagdo das Tratados» (a, 4)) ou sobre va validade ¢ a interpretagio dos actos adoptados pelas instituigdes, drgios ou organismos da Union (al, 6)), solicitar ao TJUE que se pronun= cle quanto a ela, ese considerar que uma decisio sobre essa questiio & necessatia a0 julgamenta: da causa», Esse «reenvio» € facultative no caso de as decisées dos tribunais nacionais admit em recurso; mas ¢ obrigatério s¢ 2 questio for suscitada em «ptocesso pendente perante uit orgio jurisdicional nacional cujas decisdes nio sejam susceptiveis de recurso Judicial previsto: no dircito interno». Em qualquer caso, sendo a questéo reenviada ao TJUE, a instaricia fica” Suspensa até este se pronunciar € a sentenga faz caso julgado no processo, devendo set aplicada pelo tribunal nacional ao caso concreto. Para maiores desenvolvimentos sobre este terina; ide” Jowaias E. M. Macuavo, Direito da Unido Europeia, cit., pags. 623-648, Coimbra Editora® Introdugiéo 15 lizada e de competéncia genérica (com a ponderagao das vantagens inerentes administragéo da justiga pelos primeiros); 0 estatuto dos magistrados que exercem as suas fungdes nos diferentes tribunais, em especial, as garantias de que gozam, a forma como sio nomeados ¢ por quem; a composigao ¢ as competéncias das secretarias dos tribunais, 8s quais cabe assegurar o expediente dos tribunais; as fungdes que estéo atribuidas aos funciondrios que prestam servigo nos tribunais. 2. NOCOES FUNDAMENTAIS Ao longo do curso iremos lidar com determinadas nogdes ou conceitos particularmente importantes para a compreensao das matérias leccionadas. Cre- mos justificar-se, por isso, fornect-los (ou, melhor, recordé-los, porque jé’sio conhecidos do processo civil ¢ da justica administrativa) nesta parte introdutéria, Referimo-nos &s nogGes de tribunais, de jurisdigéo, de comperéncia, de instancia € grau de jurisdigao, ¢ de algada, que mencionaremos por esta ordem. 2.1. Tribunais Conjugando 0 disposto nos artigos 202.9, n.° 1, ¢ 203.° da Constituicao da Reptiblica Portuguesa (C.Rep.) ©, parece-nos ser possivel extrair da nossa lei fundamental a seguinte definigdo de tribunais («em sentido estrito» “): sao os drgdos de soberania, dotados de independéncia, aos quats compete «administrar a justia em nome do povon ©. ® Qteor don. 1 do art, 202.9 da C.Rep. encontra-se reprodurido no art. 2.9, n.° 1, da Lei n° 62/2013, de 26 de agosto (Lei da Organizagio do Sistema Judiciatio — LOS), e, quanto aos tribunais administativos ¢ fiscais, no art. 1., 2.° 1, do Estatuto dos Teibunais Administrativos e Fiscais (ETAF) : “Esta designagao usada por CASTRO MENDES (com base no art. 1508.9 do C.PCivil em vigor na alcura em que escrevia, revogado pelo Decreto-Lei n.° 38/2003, de 8 de Margo), para distinguir os tribunais nao arbitrais dos tribunais arbitrais, Cfr. JOA DE Casrso MEN- DES, Direito Processwal Civil, vol. 1 (Lisboa, 1980), pags. 380, 386 ¢ 389. '9 Caso MENDES via no are, 205.° da Constituigéo (na sua primeira versio}, a que agora corresponde 0 n.° 1 do art. 202.°, uma edefinieao de tribunals, Clr. JOAO DE CASTRO MENDES, Direito Processual Civil, cit., pig. 132. Posigo diferente é a assumida por GOMES CANOTILHO/VITAL MOREIRA, perante 0 teor do art, 202.9, n.° J, resultanee da Lei Constitucional n° 1/89, de 8 de Julho (que reproduziu 0 Coimbra Editora® | i } 16 Curso de Organizagdo Judicidria A anilise do teor dessa definigio permite-nos vetificar que sio quatro © 0s elementos caracterizadores da nocio de «ttibunais» que resulta dos mencio- nados preceitos constitucionais: Em primeico lugar, trata-se de érgdos de soberania, a par do Presidente da Repiiblica, da Assembleia da Repiiblica e do Governo (arts, 2.6 © 110%, n° 1, da C.Rep.) ®, qualificaszo que pertence a todos € a cada um dos tribunais, ¢ néo ao seu conjunto ®. anterior art. 205.%), Com efeito, sustentam que a Constituicio «zo define 0 que séa svibunais que 0 respectivo conceito tem de ser ptocurado wem conexdo com o de fuagio jurisdicional (m0 2) ¢ com o de ‘jute’ (art. 216-9». Chi. J. J. GOMES CANOTILHO/Vital. Moreira, Constirus- sito de Repitblica Portuguesa anotada, vol. 11, 4\ edigto revista (Coimbra, 2010), pig. 506. Se exceptuarmos o facto de no nos referiemos, como estes ilustres constitucionalistas, Aadministraczo da justiga pelos jutzes (aos quais esta cometida a Fungo de julgar), mas pelos tribunais, « definigio que apresentamas néo se afasta da fornecida por cles © Como nao inclufa a independéncia na nogio de tribunais, CASTRO MENDES men- cionava somente trés clementos caracterizadores dos mesmos, Cf. JOAO OE CASTRO MENDES, Direito Proceswal Civil, vol. 1, cit. pags. 133-134 Bm viteude de haver outros érgios de soberania, ALFREDO SOVERAL MARTINS qua- lifica os eribunais como sargios de wma sobentnia partilhadar, Cf. ALEREDO SOVERAL MAmFINS, Processo « Direito Processual. Nogées complementares, vol. U (Coimbra, 1986), pig, 195. © A organizagin dos tribunais judiciais portugueses, vol. { (Coimbra, 1990), pag, 16. ® Sendo érgios de soberania, os wibunais sio drgios estaduais sapremos, Assim, os tribunals arbierais — cuja existéncia estd prevista no art. 209.2, n.° 2, CRep. (amas nao mais do que isso, uma ver que a justiga arbitral nao é «objecto directo da organizagito dos tribunais», como salientam J. J. Gomes CANOTILUO/VeraL MOREIRA, Constituicdo da Repiblica Portuguesa anotada, vol. Tt, cit., pig. 552) ¢ também no art. 29, ©, ne 4, eno art. 150.° da LOS] (sem que se veja qualquer motivo valido para tal, em vircude de a Constituigao ja conter as «normas de enquadramenton respeitantes aos tribunais que esta lei tem como objecto, a par da worgae nivagio do sistema judicidcio» — art. 1.¢—, que os tibunais arbitrais nao integram, ¢ de a LOS} deflnir os tribunais como «drgios de soberania com competéncia para administrar a justiga em nome do povo» — art. 2.°, n° 1 ~-, a que, manifestamente, nio é 0 caso dos tibunais arbitrais) —, porque no sio Srgios estaduais, nao constituem tribunais em sentido proprio. Isto mesmo cra afirmado por Gomes CaNoritiio/VitaL Moreina, na 3.* edigto (Coimbra, 1993) da Constisuipao da Repriblica Portuguesa anotada (pig. 791). facto de tal afirmagio nao ser feita na 4.% edigao nao significa, segundo cremos, que os AA. tenham, mudado de opiniao a esse respeito, pois continuam a considerar como tribunais, somente, «os érgitos do Estado (érgiios de soberania’), em que um ou mais jutzes procedem & administra Coimbra Editora® Introdugito 7 4) Em segundo lugar, sio Srgios estaduais dotados de independéncia (art. 203.° da C.Rep.), tanto em face dos outros poderes do Estado (que ndo podem interferir na administracdo da justica) como entre si (em virtude de cada um dos tribunais ser um drgio de soberania), salvo no que respeita as decisdes proferidas em via de recurso por tribunais superiores (como melhor veremos adiante) ) Em tetceiro lugar, tim a seu cargo a fungi jurisdicional (art. 202., epigrafe en. 1, da CRep. ) °), cujo exercicio lhes pertence de modo exclusivo {através dos juizes "), estando vedado aos restantes érgios de soberania (io da justicay. Cf. J. J. Gomes CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituig@o da Republica Portuguesa anotada, vol. I, cic., pgs. 506-507 e $47. Sobre os tribunais arbitrais e as suas espécies, vide, infra, n.° 4.2. e capitulo VII. © Off J. J. Gomes CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigito da Repdblica Portuguesa anotada, vol. II, cit., pags. 506 e 547; ¢ JORGE MiRANDA/RUI MEDEIROS, Constituigita Portu- ‘guesa anotada, tomo IH (Coimbra, 2007), pag. 13. © Sobre a independéncia dos tribunais como «elemento essencial da sua propria defini Gio», vide J. J. GOMES CANOTILEO/VITAL MOREIRA, Constituigio da Repiiblica Portuguesa anotada, vol. Il, cit., pag. 513; € no sentido de que a nivelagio do Poder Judicial aos outros poderes do Estado (por ser dotado de soberania idéntica a destes) constitui «pressupasto da prapria independéncia» ¢ wexplica que a nossa Constituigao anteponha a proclamagio de que os tribunais sito ‘érgios de soberania’(...) & proclamagito de que ‘os tribunais so independentes, vide ALFREDO SOVERAL MARTINS, Processo e Direito Processual, vol. II, cit., pag. 195, © A organizagio dos tribunais judiciais portugueses, vol. 1, cit., pag. 16. 0 Cf, também, 0 art. 2.°, n.° 2, da LOS]. © Como teremos ocasido de ver, nomeadamente, a propésito do ‘Tribunal Constivucional € do ‘Tribunal de Contas, a circunstancia de os tribunais desempenharem a fungao jurisdicional nfo significa que eles nfo exergam, também, fungées de outea natureza. Cir J. J. Gomes Cano- TILHO/VEtAL Monuira, Constituigdto da Republica Portuguesa anotada, vol. Il, cit., pag, 510. (3 Cf, J. J. Gomes CaNOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituicto da Repiiblica Portuguesa anotadé, vol. Th, cit., pig. 308-509 — onde os AA. salientam que «{al anibuigia da fungiio juris. dicional aos tribunais, nox termos do n.? 1, radica no facto de as decisies dos wribunais serem imputadas, (para efeitos externas, a ann tribunal (...) ¢ sudo a tm determinado juiz», mas que isso «do perturba 0 entendimento de gue neste artigo (...) a Constituigio estabelece uma reserva de jutisdigio na sentido de que sb 0s jutzes poderio ser chamados a praticar actos materialmente jurivicionais». 6 Se adoptarmos uma perspectiva que tome em consideragio o «poder soberanor exercido pelos tribunais (como érgios de soberania) —~ 0 qual tem como objecto a actividade destes érgfios —, em vez de aludirmos & fungio estadual por cles desempenhads, devemos referit-nos, antes, a upader jurisdicionab. Sobre 0 conceito de «drgios de soberania», assente na atribuigio que Ihes é feita, pela Constituigio, de «poderes soberanos (que, alids, nao esgotam a organizagio do poder politico), Coimbea Editera® 18 . __ Gitrso de Organizagito Judicidria € a quaisquer outros drgios estaduais ®. © seu exerctcio, segundo a formulagao contida no n.° 2 desse artigo 0 — que se pretende abrangente (embora, porventura, nao o seja suficientemente) —, pode concretizar-se na «defesa dos direitos ¢ interesses legalmente protegidos dos cidadios» (ou seja, em defender os direitos subjectivos dos cidadios ¢ os interesses dos mesmos que a lei protege sem atribuicgao daqueles direitos), em «reprimir as violagdes da legalidade democratica» (isto é, sancionar as condutas que infrinjam as disposigdes legais em vigor) ¢ em «dirimir os conflitos de interesses piiblicos ¢ privados» (quer dizer, julgar os litigios € impor coercivamente o acatamento das decisdes tomadas).. Mas isso no significa que cada uma das categorias de tibunais estaduais, adiante referidas, administre a justiga com vista & prossecugio de todas essas finalidades, nem que a fungao jurisdicional se esgote na realizacio desses fins; e também nao exclui a possibilidade de atribuigio aos tribunais de fangdes de natureza nao jurisdicional ©, d) Em quarto lugar, os uibunais administram a justiga «em nome do povo» “, referéncia que encontra a sua justificagio no facto de nio vide J. J. Goes CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigio da Republica Portuguesa anotada, vol. Il, cit., pags. 39-41 89 A respeito da reserva do exercicio da fungio jurisdicional em proveito exclusive dos tribunals, ¢ no séntido de que essa exclusividade nao significa a negagio do exercicio da fun- 0 jurisdicional pelos tribunais arbiteais, vide J. J. Gomes CaNOTILHO/ViTAL Moreira, Constinuigiio da Repriblica Portuguesa anotada, vol. Il, cit. pags. 506-507; J. J. Gomes CANO- HO, Direito Constitucional, cit., pags. 664-665; JORGE MiRANDA/RUL MEDEROS, Consti- sigdo Portuguesa anotada, tomo UI, cit., pags. 24-25; ¢ PEDRO GONCALVES, Entidades privd- das com poderes piiblices (Coimbra, 2005), pags. 561-565 — onde 0 A. sustenta que 0 art, 202.9, n.° 1, da Constituiggo tem como finalidade primordial wconsagrar uma reserva de jurisdigdo no dmbito das relacées internas entre os udrios poderes do Estado» (referindo-se a reserva de jutisdigao aos tribunais «i jurisdigdo enquanto fiungido do Estado, a jurisdigtio estaduabs) © que, por conseguinte, «a sentido da norma nito é 0 de consagrar 0 'monopélio estadual da fungio jurisdicional om sum sistema de ‘exclusividade da justica ptiblica’n (destacando no ambito da sfuengiéo jurisdicional exercida por particulares», precisamente, os tvibunais arbitrais). 09 O seu teor € reproduzido, quase «ipsis verbim, no art, 2.%, n.° 3, da Lei n.° 62/2013, de 26 de agosto (Lei da Organizagao do Sistema Judicidrio — LOS)). (Cf J. J. Gomes CaNOTILHO/VITAL MOntIRA, Constituigdo da Repriblica Portuguesa anotade, vol. M1, cit., pags. 509-510; € ALFREDO SOVERAL MARTINS, A organizacio dos tribunais judiciais portugueses, vol. I, cit., pags. 18-20. 8A este aspecto refere-se igualmente o art, 2.°, a.° 1, da LOS). Coimbra Editora® Introdugiio 19 serem eles os titulares da soberania (como nao o sao o Presidente da Reptiblica, a Assembleia da Reptiblica e 0 Govern) — pertencendo esta ao povo (arts. 2.9, 3.9, .2 1, € 108.9 C.Rep,) 0 ‘A nogio apresentada vale, como foi referido, somente para os tribunais estaduais ou «tribunais em sentido estrito». Se quisermos englobar também os tribunais arbitrais, que constituem uma jurisdigao nao estadual cuja existéncia ¢ admitida pela prépria Constituicao (art. 209.9, n.° 2), teremos de adoptar um conceito mais amplo. Neste sentido, poderemos definir os tribunais («lato sensi») como drgdos aos quais compete o exercicio da fungdo jurisdicional °", Como salienta Castro MENDES, a soberania exercida pelos tribunais «advém-lhes diree- samente do titular originério da soberania — 0 Povo portugués (...) —~ ¢ ndo indirectamente de ouzro érgio superior. Cli. JOKO DE CASTRO MENDES, Direito Procesual Civil, vol. 1, cit., pig, 134. Nas palaveas de ALFREDO SOVERAL MARTINS, a circunstancia de os tribunais exercerem asoberania (partilhada) «em nome do Povon wransmuda-os em averdadeiros drgdos representativos da soberania popular partilhada». Cfr, ALFREDO SOVERAL MARTINS, Processo ¢ Direito Processual, vol. 1, cit., pag. 195, e A organizagdo dos tribunais judiciais portugueses, vol. 1, cit. pag. 16. ©) Uma vez que, em geral, falta aos julzes uma legitimagio democritica directa, pela via de eleigdes, que lhes assegure uma verdadeira representacio do povo soberano (a excepgio ¢ cons- tituida, como veremos, pelos juizes do ‘Tribunal Constiuucional), Gomes CANOTILHO/VITAL Moreira chegaram a qualificar como «fictio iurisy a referéncia & administragéo da justiga vem nome do povo» (eft, J. J. Gomes CANOTTLHO/VITAL Montina, Comstituigto da Repuiblica Portuguesa ano- tada, 3.4 edicao revista (Coimbra, 1993), pag. 791]. Mas, entretanto, deixaram de fazer tal quali- ficagdo ¢ sustentam, agora, que «(a] jaastiga feita em nome do povo ¢ nito ‘pelo povo' significa que a articulagio com a soberania popular (‘povo') néo se fitz em termos de imediagito popular, através do sufrdgio, mas sim, de forma medliata ou indirecta (‘em nome do pave’) (...)». Clr, J. J. Gomis CANO- TILHOFVITAL MOREIRA, Constituipdo da Repiiblica Portuguesa anotada, vol. Il, cit., pags. 507-508. Cremos, no entanto, que nio deve ser exagerada a «falta de poderes de representagion dos tribunais, por ser a prdpria Constituigéo — expressio de um poder constituinte (cujo titular € 0 povo) ¢ de um «procedimento constituinte representativon (sobre este tema, vide J. J. Gomes CANOTILHO, Direito Constitucional, cit., pigs. 65-66, 75-76 € 78-79) — que thes attibui esse poder de julgar em nome do povo. ® Numa formulagio que ja foi vista como «definigio genérican de tribunal, suscepts- vel de abranger o tribunal arbitral (cft. o Acérdo do Tribunal Constitucional n.® 230/86, de 08-07-1986, pub. in «Didrio da Repiblica», | Série, 0.° 210, de 12-09-1986, ¢ PEDRO Goncatves, Entidades privadas com poderes pilicos, cit., pag. 565), MARCELLO CAETANO considerava tribunal «a drgdo singular ou colegial que, a requerimento de alguém ¢ procedendo com imparcialidade ¢ independéncia, segundo firmulas preestabelecidas, possui autoridade para fixar a versito auténtica dos actos incertos ou controversos de um caso concreto a fim de determinar 0 direito aplicivel a esse caso em decisdo com fora obrigatoria para os interessados». Cie, MAR- Coimbra Editora’ 20 Chase de Organtzagio Judicidria 2.2, Jurisdigéo A jurisdi¢go tanto pode ser referida a todos tribunais portugueses como Teportar-se a uma certa categoria ou ordem de tribunais (por exemplo, os tribu- nais administrativos ¢ fiscais No primeiro caso, a jurisdigio designa o poder de julgar, constitucionalmente atributde ao conjunto dos tribunais existentes na ordem juridica portuguesa (art. 202.°, n.* I 2, da C.Rep.), por contraposicao ao poder dos drgios que exercem as outras fungées do Estado (em especial ao do Governo, enquanto Srgio supremo da Administragio Publica “) e ao dos tribunais de outros paises. Equivale, por conseguinte, a poder jurisdicional, que ¢ exercido pelos 6rgaos que desempenham a fungao jurisdicional (os tribunais). Na segunda hipstese, a jurisdigio indica 0 poder de julgar os conflitos de interesses que a Constituicio e a lei piem a cargo de cada uma das ordens de sribunais, por oposigéo ao poder teconhecido 2 outra categoria de rribunais, Neste sentido, fala-se, nomeadamente, da jurisdigao ctyel e criminal («rectius», dos tribunais judiciais) ¢ da jurisdigéo administrativa ¢ fiscal, Estas duas acepgGes de jurisdigio tém acolhimento implicito no art. 109.9, n.¢ 1, do novo Cédigo de Processo Civil (C.PCivil) ©, que refere as siruacdes CELLO Caetano, Manual de Citncia Politica e Dirito Constitucional, 6 edigho, revista e ampliada por Miguel Galvéo Teles, Tomo 1 — Direito Constitucional Portugués (Lisboa, 1972), Pigs, 663-664. Saliente-se, contudo, que MARCELLO CAETANO no apresentava esse conceit: como definigao genérica de tribunal (apesar de incluir os tribunais arbitrais «no numero dos tribunais especiais» —~ pg. 668). E tanto assim que, a0 proceder & respectiva explicitagzo, qualificava os cribunais como érgios de soberania. Acresce que os tribunais arbitrais (salvo nos , 1.4 Série, n.° 227, de 23-11-2009), que o republicou em anexo, ¢ pela Lei n.° 63/2013, de 27 de agosto. © Entretanto abjecto de muitas alteragées, a tiltima das quais foi introduzida pela Lei n.° 20/2013, de 21 de Fevereiro (rectificada pela Declaragio de Retificagao n.° 21/2013, pub. in «Didrio da Repuiblicar, 1.4 série, n° 7, de 19-04-2013). ® A Iei que aprovou o CPTA foi rectificada pela Declaragio de Rectificagio n° 17/2002, pub. in «Didrio da Repiblican, | Séric-A, n.° 81, de 06-04-2002. Esse cédigo foi entretanto alterado pefa Lei n.° 4-A/2003, de 19 de Fevereiro, pela Lei n.° 59/2008, de 11 de Setembro, e pela Lei n.° 63/2011, de 14 de Dezembro. ©) CPPT foi entretanto objecto de diversas alteragées, introduzidas pelos seguintes diplomas legais: Lei n.° 3-B/2000, de 4 de Abril, Lei n.° 30-G/2000, de 29 de Dezembro, Lei n.2 15/2001, de 5 de Junho (rectificada pela Declaracao de Rectificagio n° 15/2001; Coimbra Editora™ Introdugio 31 — Os arts. 108.° a 117.9 do Cédigo de Justiga Militar, aprovado pela Lei n.° 10/2003, de 15 de Novembro “; — O Estatuto dos Magistrados Judiciais — Lei n.° 21/85, de 30 de Julho — © Estatuto do Ministério Puiblico (inicialmente designado por «Lei Orginica do Ministério Piiblico»), aprovado pela Lei n.2 47/86, de 15 de Outubro ; — A Lei ne 2/2008, de 14 de Janeiro, que define o regime de ingresso nas magistraturas, de formacio inicial ¢ continua de magistrados e a pub. in «Ditrio da Repuiblicay, 1 Sétie-A, n° 190, de 4-8-2001), que republica o CPPT na sua versao actualizada, Lei 109-B/2001, de 27 de Dezembro, Lei n.° 32-B/2002, de 30 dc Dezembro, Decreto-Lei n.° 38/2003, de 8 de Margo, Decreto-Lei n.° 160/203, de 19 de Julho, Let n° 55-B/2004, de 30 de Dezembro, Lei n.° 60-A/2005, de 30 de Dezembro, Decreso-Lei n.2 76-A/2006, de 29 de Marco (rectificado pela Declaracio de Rectificagio 1n.° 28-A/2006, pub. in «Diario da Repiiblicar, 1 Série-A, n.° 102, de 26-5-2006), Decreto-Lei 1. 238/206, de 20 de Dezembro, Lei n.2 53-A/2006, de 29 de Dezembro, Lei n.° 67-A/2007, de 31 de Dezembro, Decreto-Lei n.° 34/2008, de 26 de Fevereiro (rectificado pela Declaragio de Rectificagéo n.° 22/2008, pub. in «Didrio da Repiblica», 1.* Série, n.° 81, de 24-4-2008), Lei n.* 40/2008, de 11 de Agosto, Lei n.2 64-A/2008, de 31 de Dezembro, Lei n.° 3-B/2010, de 28 de Abril, Lei n.° 55-A/2010 de 31 de Dezembro, Lei n.° 64-B/2011, de 30 de Dezembro, Lei n° 66-B/2012, de 31 de dezembro, Decreto-Lei n.° 6/2013, de 17 de janeiro, ¢ Lei n.° 83-C/2013, de 31 de dezembro. ‘® Rectificada pela Declaragio de Rectificagio n.° 2/2004, pub. in «Diario da Repii- blica», Sétie-A, n.° 2, de 3-1-2004. A Lei n.9 21/85 foi alterada pelo Decreto-Lei n.° 342/88, de 29 de Setembro, pela Lei n.® 2/90, de 20 de Janeiro, pela Lei n.° 10/94, de 5 de Maio (rectificads pela Declaragio de Rectificagio n° 16/94, pub. in «Didrio da Repiblicar, I SérienA, n.° 279, de 3-12-1994), pela Lei n.° 44/96, de 3 de Setembro, pela Lei n.° 81/98, de 3 de Dezembro, pela Lei n° 143/99 de 34 de Agosto, pela Lei n.° 3-B/2000, de 4 de Abril, pela Lei n.° 42/2005, de 29 de Agosto, pela Lei n.° 26/2008, de 27 de Junho, pela Lei n.° 52/2008, de 28 de Agosto, pela Lei n,° 63/2008, de 18 de Novembro, pela Lei n.° 37/2009, de 20 de Julho, pela Lei ne 55-A/2010, de 31 de Dezembro, ¢ pela Lei n.° 9/2011, de 12 de Abril. ©) A Lei n.2 47/86 softeu diversas alteragées, introduzidas pela Lei n.° 2/90, de 20 de Janciro, pela Lei n.° 23/92, de 20 de Agosto, pela Lei n.° 10/94, de 5 de Maio, pela Lei n° 60/98, de 27 de Agosto (cectificada pela Declaragio de Rectificagao n.° 20/98, pub. in «Diario da Repitblican, | Sétic-A, n.° 253, de 2-11-1998) — que consagrou a denominagéo de «Estatuto do Ministérie Publico» (art. 2.° dessa lei) —, pela Lei n.° 42/2005, de 29 de Agosto, pela Lei n.? 67/2007, de 31 de Dezembro, pela Lei n.° 52/2008, de 28 de Agosto, pela Lei n.° 37/2009, de 20 de Julho, pela Lei n.° 55-A/2010, de 31 de Dezembro, e pela Lei n° 9/2011, de 12 de Abril. Coimbra Editora® 32 Gurso de Organizacéo Judicidria natureza, estrutura e funcionamento do Centro de Estudos Judicid- rios (9; — O Estatuto dos Juizes Militares ¢ dos Assessores Militares do Minis- tério Ptiblico, aprovado pela Lei n.° 101/2003, de 15 de Novem- bro 6); — A Lei n.2 79/2009, de 13 de Agosto, que regula a forma de interven- ¢ao dos jufzes militares ¢ dos assessores militares do Ministério Publico junto dos tribunais administrativos; — A Lei n° 78/2001, de 13 de Julho, que disciplina a organizacio, comperéncia ¢ funcionamento dos julgados de paz *; — O Decreto-Lei n.° 329/2001, de 20 de Dezembro , 0 Decreto-Lei n.° 9/2004, de 9 de Janeiro, o Decreto-Lei n.° 225/2005, de 28 de Dezembro, o Decreto-Lei n.° 22/2008, de 1 de Fevereiro, o Decreto- -Lei n.° 60/2009, de 4 de Margo, e o Decreto-Lei n.° 289/2009, de 8 de Outubro, que criam diversos julgados de paz; — A Portaria n.° 44/2002, de 11 de Janeiro, a Portaria n.° 72/2002, de 19 de Janeiro, a Portaria n.° 92/2002, de 30 de Janeiro, a Porta- ria n.° 162-A/2002, de 25 de Fevereiro, a Portaria n.° 886/2003, de 25 de Agosto, as Portarias n.* 891/2003 ¢ 892/2003, de 26 de Agosto, as Portarias n.°* 192/2004, 193/2004, 194/2004 ¢ 195/2004, de 28 de Fevereiro, a Portaria n.° 289/2004, de 20 de Marco, a Portaria n.° 324/2004, de 29 de Margo, a Portaria n.° 375/2004, de 13 de Abril, a Portaria n.° 502/2004, de 10 de Maio, as Portarias n.°* 209/2006 ¢ 210/2006, de 3 de Margo, a Portaria n.° 304/2006, de 24 de Margo, a Portaria n.° 1301/2006, de 23 de Novembro, a Portaria n.° 596-A/2008, de 8 de Julho, a Portaria n.° 620/2008, de 16 de Julho, a Portaria n.° 710/2008, de 31 de Julho, as Portarias n.°* 1417-A/2008 e 1417-B/2008, de 5 de Dezembro, a Portaria n.° 334/2009, de 2 de Abril, a Portaria n.° 421/2009, de 20 de Abril, a Portaria n.° 557-A/2009, de 26. (9) Alterada pela Lei n.° 60/2011, de 28 de Novembro, ¢ pela Lei n.° 45/2013, de 3 de julho. ‘ Rectificada pela Declaragao de Rectificacdo n.° 1/2004, pub. in «Didrio da Repi- blican, 1 Série-A, n.° 2, de 3-1-2004, © Alterada ¢ republicada em anexo pela Lei n.° 54/2013, de 31 de julho: ©) Alterado pelo Decreto-Lei n.° 140/2003, de 2 de Julho. Coimbra Editora® 33 de Maio, a Portaria n.° 571/2009, de 29 de Maio, a Portaria n.° 845/2009, de 5 de Agosto, a Portaria n.° 1427/2009, de 21 de Dezembro, a Portaria n.° 300/2010, de 2 de Junho, a Portaria n.° 304/2010, de 8 de Junho, a Portaria n.° 497/2010, de 14 de Julho, a Portaria n.° 883/2010, de 10 de Setembro, a Portaria n° 1168/2010, de 10 de Novembro, a Portaria n.° 1195/2010, de 23 de Novembro, a Portaria n.° 78/2011, de 18 de Fevereiro, a Portaria n.° 90/2011, de 28 de Fevereiro, ¢ a Portaria n.° 154/2011, de 12 de Abril, que declaram instalados diversos julgados de paz, aprovam os respectivos regulamentos ou procedem a sua alteracao; A Lei n° 63/2011, de 14 de Dezembro, que aprova a nova Lei da Arbitragem Voluntdria ; © Decreto-Lei n.? 10/2011, de 20 de Janeiro, que disciplina a arbi- tragem como meio alternativo de resolucio jurisdicional de conflitos em matéria tributdria 9; A Lei n.° 74/2013, de 6 de setembro, que ctia o Tibunal Arbitral do Desporto 7, 4. CATEGORIAS DE TRIBUNAIS PREVISTAS NA CONSTITUICAO DA REPUBLICA ‘A Constituigio da Republica prevé a existéncia de diversas categorias de tribunais estaduais, assim como de tribunais que ndo tem essa natureza. Vejamos quais sio, comegando por aqueles, de longe os mais importantes. 7) Revogow a Lei n.° 31/86, de 29 de Agosto (que havia sido alterada pela Let n.° 38/2003, de 8 de Margo), com excepgdo do disposto no n.° 1 do art. 1,°, que se manteve em vigor para a «arbitragem de litigios emergentes de ou relativos a contratos de trabalho» (art. 5%, n. 1, da Lei n° 63/2011). © © Decreto-Lei n.* 10/2011 foi alterado pela Lei n.° 64-B/2011, de 30 de Dezembro, pela Lei n.° 20/2012, de 14 de maio, € pela Lei n.° 66-B/2012, de 31 de dezembro. © As normas constantes do n.0 1 ¢ don? 2 do art. 82 desta lei, conjugadas com as normas dos arts. 4.° ¢ 5.9, foram declaradas inconstitucionais, com forca obrigatéria geral, pelo Acérdao do Tribunal Constitucional n.° 7781/2013, de 20-11-2013, pub. in «Didrie da Republica», 1.3 série, n.° 243, de 16-12-2013. Na sequéncia disso, a Lei n.® 74/2013 foi alterada pela Lei n.° 33/2014, de 16 de junho. Coimbra Edltora® 34 Curso de Organizagito Judicidria 4.1, Tribunais estaduais ACRep., no seu art. 209.9, além de prever a possibilidade de existirem tribunais marttimos ¢ julgados de paz (n.° 2) — que, entretanto, foram criados (0s tribunais marftimos como tribunais judiciais de comperéncia especializada, 08 julgados de paz como tribunais estaduais dotados de competéncia alternativa em telagio aos tribunais judiciais e de cujas decisées, se o valor da acco 0 permitiz, pode haver recurso para estes) 9 —, e de aludir aos eribunais mili- zares (n.° 4) — cuja constituigéo durante a vigéncia do estado de guerra esté consagrada no art. 213.° C.Rep. “9 —, determina a existéncia das seguintes categorias de tribunais, que acrescem a0 Tribunal Constitucional (n.° 1) 7: © Supremo Tribunal de Justiga ¢ os tribunais judiciais de primeira ¢ de segunda instancia; 0 Supremo Tribunal Administrativo ¢ os demais tribunais adminis- trativos ¢ fiscais; ¢ o Tribunal de Contas (als. a), 6) e ) do n.° 1) %. Nao se Clk. infia, n.° 25. ¢ capitulo VI A circunstincia de os tribunais marftimos serem tribunais judiciais de competéncia especiatizada (de 1.4 insténcia) explica que o art, 29.° da LOS] {que também indica as cate- gotias de tribunais) néo os mencione autonomamente, no niimero em que dude aos julgados de paz (on. 4). &# Osarts, 109.° ¢ 110.° do Cédigo de Justiga Militar indicam os tribunais judiciais competentes para o julgamento dos «crimes estritamente enilicares» em cempo de pa, 0 jul- gamento é da comperéncia dos tribunais judiciais: o Supremo ‘Tribunal de Justica, os Tribunais da Relagio de Lisboa ¢ do Porto (devendo as respectivas dreas de competéncia tezritorial mencionadas no art. 110.°, n.° 1, als. a) € 6), com referencia aos sdisttitos judiciais, ser enten- didas em conformidade com o que agora se acha estabelecido na LOS] ¢ no ROFT]) e as «4.4 ¢ 2.4 Varas Criminais da Comarca de Lisboa» ¢ a «1.2 Vara Criminal da Comarca do Porto» (desde que se iniciou a vigéncia da LOS} ¢ do ROFT], a 1.+ seeg%o criminal da ins- tancia central dos tribunais das comarcas de Lisboa ¢ do Porto — oft. 0 art. 118.9, n° 2, da LOS} ¢ o mapa HII anexo a0 ROETJ), consoante a patente do atguido. — efx, inftay n 23.4.2., 24.4.2. ¢ 25.1.2.1.2. & A formulagio af utilizada («Além do Tribunal Constitucional») explica-se pelo facto de 0 Tribunal Constitucional ser autonomamente disciplinade pela Constituigao (eft. infta; ne 8). Nao se vislumbra qualquer justificagéo para que o n.° I do art, 29.° da LOS] seja redigido nos mesmos termes, pois este diploma legal nao disciptina directamente esse tribunal, limitando-se a remeter para a Constituigao e para a lei (art. 30.°, n.° 2). 9 Sublinhe-se que mio se prevé a existéncia de um auténomo uibunal de conilitos (ou de uma categoria de tribunais de conflitos). Como veremos, sao tribunais pertencentes as categorias acima mencionadas que se podem constituir, separada ou conjuntamente, em tibunais de conflitos (art, 209.°, n° 3, C.Rep.). Coimbra Editora® 35 consagra, por conseguinte, a existéncia de uma tinica jurisdigio, mas a de uma pluralidade de jurisdigdes. Trataremos de cada uma destas categorias de tribunais, assim como dos ~ julgados de paz e do tribunal de (dos) confitos, em capitulos aucénomos (”. 4.2, Tribunais arbitrais ‘Além dos tribunais estaduais, a Constituigéo admite, come vimos, a possi- bilidade de haver tribunais arbitrais (art. 209.°, n.° 2) %; ¢, nos ulrimos anos, alei tem vindo a promover, cada vee mais, o recurso & arbitragem ™, enquanto ncio de resolugio alternativa de liigios ®, Faculta-se aos interessados um mecanismo de realizagdo da justiga mais célere, com um processo mais flexivel ¢ menos formalista do que aquele a que obedece a wjustiga normal», pautado Che. infit, capftulos 1, I, I, IV, Ve VI. © Sao tribunais, mas, como é cvidente (por ndo serem do Estado), néo drgéos de soberania. Sobre a previsio da existéncia dos tribunais arbitrais (também) na LOS), vide, supma, nota ® ™ Dé-se a designagdo de arbitragem & intervencao do tribunal arbicral. Cf. JOAO DE Castro Menves, Direiso Provessual Civil, vol. 1, cit., pig, 388. 9 Cfr. a Resolugao do Conselho de Ministros n.* 175/2001, de 28 de Dezembro (na qual & reafirmado «o fieme propésito de promover ¢ incentivar a resolugio de litigios por meios alternativos, como a mediagiio ou a arbitrage, enquanto formas céleres, informais, econd- micas € justas de administracéo ¢ realizagio da justigay — .° 1), os programas dos XVIT ¢ XVIII Governos Constitucionais, nas quais a promosio dos referidos meios de resolugio alternativa de litigios foi considerada como uma das prioridades, no Ambito da reforma do sector da justiga — € tanto assim que, através do Decreto-Lei n.2 127/207, de 27 de Abril, © Governo criow o «Gabinete para a Resolugio Alternativa de Litigiose, em cujas atribuigdes se encontrar as de «apoiar a criagio e o funcionamento dos meios extrajudiciais de compo- sigio de confflitos, designadamente a mediacio, {a] conciliagio ¢ a arbitragem (art. 2.2, n.° 2, al. 6)) e de eptomover a ctiagéo e apoiar o funcionamento de centros de arbitragem, julgados de paz e sistemas de mediacio» (art. 2.9, n.° 2, al. e)) —, a Resolugéo do Conselho de Minis- ros n* 17/2011, de 4 de Marco, na qual diversas medidas de natuteza legistativa ou regula- mentar (algumas das quais tespeitantes & arbitragem) so consideradas prioritétias «para 0 teforgo da aposta em meios alternativos de resolugio de litigios» (n.° 9) ¢ 0 Programa do XIX Governo Constitucional, que, quanto as medidas a adoprar no Ambito da Justiga, refere o propésito de «desenvolver a justica arbitral», acrescentando que «{n}os campos da justiga civil, comercial, laboral, administrativa e fiscal, o Estado, os cidadaos e as empresas daréo um pass importante se tiverem meios altetnativos aos Tribunals, podendo enttegar a resolugio dos seus Fitigios a0s Tribunais Arbitrais» Coimbra Eaitorare 36 Curso de Organizagite Judicidria pela confidencialidade, ¢ no qual assume particular relevancia a especializagao técnica dos drbitros, a fim de descongestionar os tribunais (em sentido estrito) ®, Dada a importancia que assumem ~~ apesar de nao integrarem o «sistema judiciério» ® —, dedicaremos também um capitulo aos tribtinais arbitrais ©, 5. A INDEPENDENCIA DOS TRIBUNAIS E OS SEUS SENTIDOS A independéncia dos tribunais encontra-se consagrada no art, 203.° da C.Rep., nos tetmos do qual «os cribunais sto independentess e, além disso, «apenas esto sujeitos & lei». E.0 mesmo se estabelece no art, 22.0 da LOSJ, também com referencia a todas as categorias de tribunais estaduais , no art. 2.° do ETAR, para os tribunais administrativos ¢ fiscais —~ «{o]s tribunais da jurisdiggo administrativa ¢ fiscal so independentes ¢ apenas estiio sujeitos & lei» —-, € no art. 7.9, 1,2 I, da LOPTContas — «{o] ‘Tribunal de Contas é independeate», ‘A respeito das vantagens deste meio alternativo de resolugio de litigics, vide PAULA Costa £ SILVA, Os meios de impugnagao de decisdes proferidas em arbitragem voluntdvia no direita interno portugués, in Revista da Order dos Advogados, 1996, pag. 180; José CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, A justiga administrativa — Ligées, 12.4 edigio (Coimbra, 2012), pag. 1255 ¢ CLAUDIA SOFIA MELO FIGUEIRAS, Arbitnagem em matéria tributdria: @ semelbanca do modelo administrative? (Braga, 2012), pags. 71-72. (dispontvel em sspositorium,sdum.uminho.pt). 82 Cf, supra, nota *. 3) Chr, infra, captrulo VIL. 9 Como veremos, a LOSJ, a0 contririo da LOFT] de 1999 ¢ da LOFT] de 2008, que apenas disciplinavam os tribunais judiciais e, por isso, aludiam somente & independéncia destes (no art, 3.° e no art. 4.°, respectivamente) — «(o]s tribunais judiciais so independentes ¢ apenas esto itos & lei» —, porque «estabelece as normas de enquadramento ¢ de organizacio do sistema io» (art, 1.°), refere todas as categorias de tribunais estaduais, consagrando a independéncia de todos eles. E cre mos que apenas a desses tribunais — apesar de a LOS] também mencionar a possivel existéncia de cribunais arbitrais (are. 29.9, n.° 4) e conser wm titulo (0 VII) a eles dedicado, com um tinico artigo (0 art. 150.°), que se limita a consagrar a regra da necessidade de «vontade expressa ¢ inequivoca das partes» para a «submissio de qualquer liuigio & apreciagao de um tribunal arbitral» (n.° 1) ¢ a remeter a definigo da competéneia, da organizagio ¢ do funcionamento dos tribunais arbitrais para «diploma préprio» (n.° 2), uma vex que (como dissemos), por sobre nao cotresponderem & nogo de tribunais fornecida pelo art. 2.°, n.° 1, em virtude de nao serem «rgios de soberanias, nem administrarem a justign «em nome do povo», os tribunais arbitrais ndo fazem parte da organizagio judicidria, Cfr. supra, nota ® Coimbra Editora® ‘Ao contrério do que jé foi sustentado entre nds ©, cremos fazer sentido gludir A independéncia dos préprios iribunais, embora os jutees, que neles administram a justiga, sejam igualmence independentes; a independéncia des- tes parece, aliés, estar implicita na dos tribunais. A dndependéncia dos tribunais» deve ser entendida, em primeira linha, como uma concretizagao do princtpio da separagéo de poderes entre os érgaos de soberania, consagrado no art. 111.9, n.° 1, da C.Rep. ® €, por conseguinte, como auséncia de subordinagao do poder judicial a qualquer outro poder do Estado (independéncia externa). Em relacéo aos tribunais nao tem, alids, cabi- mento a «interdependéncia» referida nessa norma constitucional, na medida em que, nos termos previstos na Constituigao da Repiblica (art. 203.9), eles «apenas esto sujeitos & len — devendo entender-se que esta referéncia & «lei» engloba todas as normas que vigoram na ordem juridica portuguesa, incluindo «as disposigdes dos tratados que regem a Unio Europea», as «emanadas das suas instituigdes, no exercicio das suas competéncias» ” ¢ a prépria Consti- tuicto (enquanto «lei fimdamental da Republican) Castro MeNDes entendia, na verdade, que da norma constitucional na qual se acha plasmada a independéncia dos tribunais (na altura em que esereveu, a do art. 208.° C.Rep,) ¢ da norma cortespondente (art. 3.°) da Lei Orginica dos Tiibunais Judiciais (Lei n.° 82/77, de 6 de Dezembro, entio em vigor) resultava ser na independéncia dos jufzes que o legistador pensava —e tanto assim que o art. 4.° do Estatuto dos Magistrados Judiciais (Lei n.° 85/77, de 13 de Dezembro, em vigor na altura) tratava dessa matéria, precisamente, a propésito das jufzes (magistrados judi- ciais) —, porque ua independéncia 6, na verdade, uma caracterttica dos jutzes e néo mais propriamente dos tribunaise, Cft. JOO DB CASTRO MENDES, Direito Procesual Civil, 1, cit. pags. 379-380. {86 Neste sentido, vide ALFREDO SOVERAL MARTINS, A organizagéo dos tribunais judiciais portugueses, vol. I, cit. pag. 30 —- onde o A. sustenta que a independéncia, concebida «como igarantia orgdnica institucional da imparcialidade heterocompositiva judiciab, nao & mais do que sama tradugio do principio da separacho de poderes, garantinda aos magistrados a sua insergdo em tribunais enquanto érgdos de soberania e, portanto, enquanto drgios de um poder separado dos restantes poderes estaduaisn; ¢ J. J. GOMES CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigito da Repi- blica Portuguesa anotada, vol. U, cit., pag. 513 — onde os AA. afitmam, nomeadamente, que «o principio da independéncia vita defender os tribunais dos demais poderes do Estado (nomea~ damente do Governo e da administragio), pondo-os a coberto das suas ingeréncias ou pressles>. : #9 Cfo art, 8.9, n 4, da C Rep. Sobre a telagdo entre o dircico da Unido Europeia e o direito portugues, wide, supra, nota ™. {No sentido de que o termo elein designa aqui «no apenas as leis em si mesmas (...) mas sambém todas as demais normas que constituem a ordem juridica, a comegar, naturalmente, pela Constituigao, que € a lei fundamental da Repiblica», vide J. J. GOMES CANOTILHO/VITAL Coimbra Bsitora% 38 Curso de Organizagio Judicidria Em segundo lugar, a independéncia dos tribunais tem de ser vista no plano das relagdes entre eles: os tribunais sao, também, «independentes entre sin ©) (independéncia interna), quer no que respeita as diferentes categorias ou ordens de tribunais — cada uma delas goza de independéncia em relagéo 4s outras assim, por exemplo, os tribunais administeativos e fiscais s4o independentes dos tribunais judiciais) — quer dentro de cada uma dessas ordens jurisdicionais — quando a mesma integre varios tribunais, cada um deles é independente dos restantes (nesse sentido, por exemplo, o Tribunal da Comarca de Coimbra & independente do Tribunal da Propriedade Intelectual, 0 Tribunal da Comarca de Leitia € independente do Tribunal da Relagio de Coimbra, o ‘Tribunal da Relacao do Porto € independence do Supremo Tribunal de Justica ¢ o Tribunal Administrativo ¢ Fiscal de Braga € independente do Tribunal Central Admi- nisteativo Norte); ¢ 0 mesmo vale, como ¢ evidente, no modelo de organizacéo dos tribunais de comarca consagrado na LOS], para a relacdo entre as diferen- tes secgGes da instancia central de um desses tribunais, com igual ou diversa especializagdo, entre qualquer delas e a secgao de competéncia genérica de uma instancia local, assim como para a que respeita a secgdes de instdncias locais distintas ©, Nenhum tribunal estd, pois, sujeito a directivas, ordens ou instrugées emitidas por outro, ainda que hierarquicamente superior; as relagdes de hie- rarquia, adiante analisadas, apenas implicam o dever de acatamento, por parte dos tribunais inferiores, no caso concreto, das decisdes proferidas em via de recurso pelos tribunais superiores ©, Moreira, Constituigao da Repuiblica Portuguesa anotada, vol. Hi, cit., pig. 514. A tespeito do entendimento da subordinagéo dos tribunais «a lein, vide, também, JORGE MIRANDA/RUL MEDELROS, Constituigdo Portuguesa anotada, como IIL, cit., pags, 38-40 — onde os AA., entre outros aspectos, aludem & subordinagao dos tribunais ao dircito da Unido Europeia. ©) Chk J. J. Gomes CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituicao da Reptiblica Portugues anotada, vol. Il, cit., 513. © Che, infra, n.e 25.1.2. OD Che. infia, n.° 22,4, A respeito do cargcter impréprio do emprego do termo «hierarguiay, neste dominio, ¢ da nio vinculagio do tribunal «2 quo» (¢ do juiz que nele tomou a decisio), fora do caso conereto, ao teor do aresto proferido pelo tribunal de recurso, vide CARLOS ALBERTO CONDE DA SILVA FRAGA, Sobre a independéncia dos jutzes ¢ magistrados (Lisboa, 2003), pags. 21-23 (€ a bibliografia indicada nas respectivas notas de rodapé). Coimbra Editora® Intredugito 39 6. AINDEPENDENCIA DOS JUIZES E AS SUAS GARANTIAS A «independéncia dos tribunais», nas dimensbes acima referidas, actesce a independéncia dos juézes, que podemos considerar implicita naquela °, na medida em que sio os jufzes que procedem ao julgamento das questées sub- metidas & apteciagio dos twibunais e determinam a execugio das suas decisées; quer dizer, porque so os juizes que administram a justiga (para usarmos a terminologia consagtada nos arts. 202.9, n.* 1 ¢ 2, € 221.9 da C.Rep., bem como no art. 2.9, n.° 1, da LOSJ, no art. 1.9, n.° 1, do ETAF e no art. 3.%, n 1, do EM). ‘A independéncia dos juizes, por sobre decorrer da independéncia dos «i- bunais, esté expressamente consagrada na propria Constituigio (no art. 222.°, n.e 5 ©) para os jutzes do Tribunal Constitucional (sendo reafirmada no art. 22.° da LOFPTConst.). No art. 4.° da LOS] (que tem como epigrafe, precisamente, eindependéncia dos jutzeys) encontra-se estabelecida (no n.° 1) — com autonomia em relacio \ «independéncia dos tribunais» — para os juizes de todas as catego- rias de tribunais estaduais; no art. 4.9, n.° 1, do EMJ esté prevista para os juizes dos tribunais judiciais ¢ no art. 3.° da Lei n.° 101/2003, de 15 de Novembro, para os juizes militares (que integram o quadro dos tribunais judiciais compe- tentes pata o julgamento de crimes estritamente militares !) ®, ©) Neste sentido, vide J. J. Gomes CaNOTILO/ViTaL Moreira, Constitnigiio da Repsiblica Portuguesa anotada, vol. 11, cit., pig. 513 ¢ 586 — onde os AA. sustentam, respectivamente, que, por constituir uma egarantia essencial da independéncia dos tribunaise, a independéncia dos juutzes westdé necesariamente abrangida pela protecgio constisucional daquelan, e que o principio da independéncia dos tibunais «pressupde necessariamente a independéncia dos juizes»; ¢ JORGE Miranoa/Rut MEDEIROS, Constituigio Portuguesa anotada, como IIL, cit., pag, 42. © Nesta norma, a independéncia é mencionada como uma das «garantias» de que gozatn os jutzes do Tribunal Constirucional, a par da inamovibilidade, da imparcialidade e da irresponsabilidade. Mas, como veremos, a inamovibilidade ¢ 0 princ{pio da irresponsabilidade séo garantias da independéncia dos jutzes. 09 Cf, o art. 12.9, n° 1, desse diploma legal. Quanto aos tribunais judiciais compe- tentes para o efeito, vide, infra, n.% 23.3., 23.4.2., 24.3., 24.4.2. € 25.1.2.1.2. ©) Embora nao aluda dircctamente a cindependéncia dos juizes» dos tribunais admi- trativos ¢ fiscais, o arc. 3.° do ETAF consagra as egarantias de independéncia» (cft. a res- pectiva epigeafe), que inequivocamente se reportam aos juizes, referides em todos os ntimeros desse artigo. Como essa disposigio legal ver na sequéncia da que estabelece a indcpendéncia dos referidos tibunais ea sua sujeigio exclusiva a lei, parece-nos que o legislador somou a independéncia dos tribunais como equivalente a independéncia dos juszes. Coimbra Editora® ; 40 - Curso de Organizagio Judicidria Da conjugagéo desses preceitos resulta que a independéncia dos jufzes se traduz no facto de eles julgarem apenas «segundo a Constituigio ea lein ¢, por conseguinte, sem estarem «sujeitos a ordens ou instrugdes» (provenientes dos restantes poderes estaduais ou de outros juizes, posicionados em escalées supe- riores da respectiva magistratura ©) — salvo, como vimos para os préprios tribunais, no que toca ao «dever de acatamento das decisées proferidas em via de recurso por tribunais superiores» ©”), Apesar de na LOPTContas (art. 8.°, n.° 2) — tal como acontecia na LOFT] de 1999 (art. 4.9, n.° 2) e na LOFT] de 2008 (art. 5.°, n.° 2) — se incluir a nfo sujeicao dos juizes a «quaisquer ordens ou instrugGes» nas garan- (9 Cfr. ALFREDO SovERAL Maxtins, A organizacito dos tribunais judiciais portugueses, vol. I, cit., pag, 39 — onde o A. sublinha a necessidade de dotar os jutzes de «um estaruto que, libertando-os, pessoal ¢ concretamente, (das] pressies externas, igualmente os autonomize no seio da pripria hierarquia judiciaby. © A independéncia dos jufzes nfo se confunde com a sua imparcialidade (que, como vimos, se encontra mencionada no n.° 5 do art. 222.9 da C.Rep. como garantia de que gozam ‘os jufzes do Tribunal Constitucional, mas no pode deixar de valer para os juizes em geral ~~ chr. J. J. Gomes CANOTILHO/VITAL Moreira, Constituicio da Republica Portuguesa anotadd, vol. Hl, cit., pag. 620, onde os AA, se referem a «magistrados» para designarem os jutzes), A imparcialidade tem a ver com a posigio (subjectiva e objectiva) que os julzes devem ocupar relativamente aos ticulares dos interesses em conflito, ou seja, as partes no caso usub iudicen: nnas palavras de ALBERTO DOS REIS, o juiz do proceso tem de estar acima das partes ¢ tem de ser «alheio ao conflito de inveresses patticulares que a lide exprime e treduz», com vista a alcan- sat a «usta composicéon da mesma — cfr. JOSE ALBERTO Dos ReIs, Comenrdrio ao Cédigo de Processo Civil, vol. 1.2, cit., pag. 388. A respeito da relagio da imparcialidade com a independéncia dos jutzes (e dos tribunais) ¢ das garantias da imparcialidade do juiz, vide ALFREDO SOVERAL MARTINS, A organizagio dos sribunais judiciais portugueses, vol. I, cit., pigs. 30-32 — onde o A. sustenta, em especial, quie a imparcialidade é condicionada pela independéncia dos jufzes (¢ dos prdprios cribunais), mas nfo € por ela determinada, podendo um juiz independente ser parcial; ANDRES IBANEZ, Imparcialidad judicial ¢ independencia judicial, in «La imparcialidad judicial» (Madrid, 2009), especialmente, pags. 51-54; MICHELE TARUFFO, La cultura de la imparcialidad en los patses del common law y del derecho continental, in «La imparcialidad judicial», cit., em particular, pags. 105-110; ¢ Joser AGUILO REGLA, /mparcialidad e aplicacién de la ley, in «La imparcia- idad judicial», cit., pags. 142-145 ¢ 163-165. Sobre as referidas garantias vide também José Lenre DE FREITAS, Iutrodugio ao Processo Civil, Conceito e princtpios gerais it luz do novo cédigo, 3.* edigao (Coimbra, 2013, pags. 79-80 — para quem a imparcialidade dos juizes vé ganantida positivamente pelas regras de determinagao do juiz nacural e negativamente pela enunciagiio dos casos em que 0 juiz que normalmente seria investido na fiengito jurisdicional fica impedido de a exercer (arts. 115 ¢ 117) ou pode ser afestado por suspeicao (art. 120)». Coimbra Eaitora® © Introdugdo 4 tas de independéncia, ao determinar que «a independéncia dos jufzes é assegurada», ‘inter alia», pot essa nao sujeigéo, parece-nos que ela no reveste tal natureza, repre- sentando, antes, o nileleo da prépria nogéo de independéncia; esta nao existe, na verdade, onde e quando a accuagio deciséria desses magistrados se encontre exposta, de qualquer forma, & possibilidade de ingeréncia de outras entidades (por exemplo, do Ministro da Justiga) ou de outros jufzes (em particular, os de tribunais hierar- quicamente superiores), nomeadamente, através de ordens ou instrugdes que os tenham como destinatérios ©, Este entendimento, que correspondia ao plasmado no art. 4.°, n.° 1, do EMJ (respeitante a independéncia dos magistrados judiciais) ®, acabou por ser acolhido também no art. 4.9, n° 1, da LOS} (, 9 A definigéo de independéncia da magistratura judicial fornecida pelo art. 111.2, al, a), do Estatuto Judiciério, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 44 278, de 14 de Abril de 1962, compreendia, alids, esse elemento ncgativo, ao preceituar que «(al independéncia consiste no facto de 0 magistrado exercer a fangio de julgar segundo a lei, sem sujeigio a ordens ou instrugbes, salvo o dever de acatamento dos tribunais inferiores em relagao as decisdes dos uribunais superiores, proferidas por via de recurso». A este respeito, vide JOAQUIM ROSEIRA FIGUEIREDO/FLAVIO PINTO FrRReina, O poder judicial ¢ a sua independéncia, Lisboa, 1974, pigs. 20-21. © «Os magistrados judiciais julgam apenas segundo a Constituigao ¢ a lei ¢ nao esto sujeitos a ordens ou instrugées, salvo o dever de acatamento pelos tribunais inferiores das decisbes proferidas, em via de recurso, pelos tribunais superioress. ‘00 Saliente-se que a Proposta de Lei n.° 1 14/XII (que den origem a Lei n.2 62/2013), no no 2.do att, 4.°, considerava ainda a no sujeicio dos jufzes a quaisquer ordens ou instrugées como um dos meios destinados a assegurar a sua independéncia. O scu teor cra o seguinte: «fa] inde- pendéncia dos juizes ¢ assegurada pela existéncia de um érgio privativo de gestio c disciplina da magistratuta judicial, pela inamovibilidade ¢ pela nfo sujeicéo a quaisquer ordens ow instrucbes, salvo 0 dever de acatamento das decisées proferidas em via de recurso por tribunais superiores», O entendimento referido em texto acabou por ser acolhido na sequéncia de uma ptoposta de alteraco apresentada pelos grupos parlamentares do PSD ¢ do CDS/PP, datada de 27-05-2013 (posterior & Promincia da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra sobre a referida Proposta de Lei, emitida a convite do Senhor Presidente da Comissio de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, cuja elaboragio foi da nossa res- ponsabilidade — disponivel em www.parlamento.pt —, na qual se propunha a alteragio do n.® 2 do art. 4° em virtude de esse artigo respeitar & independéncia dos juézes em geral ¢ a aluséo a «um érgio privativo de gestio e disciplina da magistratura judicial», como garantia da independéncia dos jufzes, valer apenas para os jufzes dos cribunais judiciais), de que resul- tou a actual redaccdo do art. 4.9, n.2 1: «(o]s jutzes julgam apenas segundo a Constituigio © a lei ¢ no estdo sujeitos a quaisquer ordens ou instrugies, salvo o dever de acatamento das decisdes proferidas em via de recurso por tribunais superiores». Coimbra Eéitora® 42 Curso de Organizagito Judicidria A independéncia dos jutzes & assegurada pela inamovibilidade, pelo prin- cipio da irresponsabilidade pelas suas decisées, pelo «antogoverno» e, ainda, pela existéncia de um regime de incompatibilidades, 6.1. A inamovibilidade , Desde a época liberal (abandonada a concepéao proprietarista dos cargos publicos “Y), a inamovibilidade est4 associada & ideia de estabilidade no cargo, ainda que néo em termos absolutos, uma vez que os juizes nfo estdo para sempre vinculados ao lugar onde obtém a sua primeira colocagio ); trata-se, antes, de uma estabilidade relativa, definida ¢ limitada por lei" ¢, até, pela Constituicéo (como sucede no nosso ordenamento juridico actual). Assim, nos termos do disposto no art. 216.%, n.° 1, da C.Rep. 0, a ina- movibilidade significa que os juézes ndo podem (designadamente) ser transferidos, suspensos, apasentadas ou demitidos sendo nos casos previstos na lei, Donde decorre, por conseguinte, que as excepgdes a esse principio so somente as previstas na lei (areserva de lei») "5, ndo podendo os juizes ser deslocados ou removidos 090 Em Portugal, logo a Constituigio de 1822 estabeleceu que «{ols oficios piblicos nio sio propriedade de pessoa alguma (...)» (art. 13.°). {121 No sentido de que a inamovibilidade (cal como a itresponsabilidade) no € garan- tida aos jufzes «com carécter absoliton, vide J. J. Gomes CANOTHLHO/VITAL MOREIRA, Cons situicéo da Repiiblica Portuguesa anotada, vol. Il, cit., 586. 00) Cf, ALBERTO DOS REIS, Organizagio judicial, cit., pag, 353. $108) Segundo J. J. GOMES CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigdo da Republica Portu- guesa anotada, vol. II, cit., pag, 585, 0 disposto no n.° 1 do att, 216.9 vale para todos os juifees. Embora scja cxacto que todos os juizes si0 inamoviveis, patece-nos que essa norma cons- titucional nio abrange, pelo menos de forma directa, os do Tribunal Constitucional, cuja ina- movibilidade é garantida pelo arc. 222.8, n.° 5, da C.Rep. Alids, cremos que a inamovibilidade dos juizes deste tribunal tem um alcance diferente do que decorre do a.° 1 do art, 216.9 (até por se tratar de um tribunal tinico, 0 que afasta a possibilidade de «serem transferidos), que resulta da conjugagio dos arts. 22.° ¢ 23. da LOFPTConst.: 0 de que as suas fungdes nao podem cessar «antes do termo do mandato para que foram designados», excepto se ocorrer alguma das situagées previstas nas varias alineas do n.° 1 do art, 23.° (nomeadamente, a rentincia ea demis sdo ou a aposentagio compulsiva, «em consequéncia de processo disciplinar ou criminal»), Ea inamovibilidade também nio poderd scr entendida nos precisos termos previstos no 2 1 do art. 216.9 no que se refere aos jutzes do Tribunal de Contas, por estar igualmente exclufda a possibilidade de transferéncia (dentro da mesma jurisdigao). {1951 Cfr. J.J. GOMES CANCTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigto daa Reptiblica Portuguesa anotade, vol. Ml, ct., pag. 586. Coimbra Exitora® 43 dos seus cargos fora dos casos nela contemplados (por exemplo, mediante decisio governamental) 9, Na legislagao ordinéria, a inamovibilidade estd agora consagrada no art. 5.°, n° I, da LOSJ, para todos os jufzes, em termos idénticos aos do art. 216.°, no 1, da C.Rep., com a diferenga (meramente formal) de que os casos em que cles podem ser transferidos, suspensos, aposentados ou demitidos sio os «pre- yistos no respetivo estatuto» (que, todavia, ¢ estabelecido por lei "®”), Em relacio aos magistrados judiciais, esse alcance do princfpio da inamovibilidade encontra-se reafirmado no art, 6.° do EMJ — o qual acrescenta, no entanto (além da referencia ao cardcter vitalfcio da sua nomeacdo, a que voltaremos daqui a pouco), a impossibilidade de serem promovidos ou «por qualquer forma mudados de situacio», fora dos casos previstos nesse estatuto (que, alids, se aplica aos jutzes das outras categorias de tribunais); ¢, quanto aos jufzes dos tribunais administrativos ¢ fiscais, encontra-se igualmente no art. 3.°, n.° 1, do ETAR, A garantia de inamovibilidade encontra-se ainda estabelecida no art. 22.0 da LOFPTConst. “8 ¢ no art. 7.9, n.° 2, da LOPTContas (neste caso, sem explicitacao do respectivo contetido) Tomada nesse sentido, como sublinhava ALBERTO DOS REIs, «a inamovi- bilidade nada tem (a ver) com a duragio legal do cargo “™, ou seja, com a natureza vitalicia ou tempordria do mesmo, E tanto assim que o cardcter (#06 Neste sentido, vide ALBERTO DOS REIS, Organizagdo judicial, cit., pag. 354; ¢ CARLOS A. CONDE DA SILVA FRAGA, Sobre a independéncia dos juizes ¢ magistrados, cit. pags. 30-31 — onde o A. sustenta nio ser suficiente proclamar o ptinefpio, sendo necessétia «uma normativagéo que 0 torne realmente efectivor. 99 Com efeito, a aprovacio do westatuto dos titulares dos érgios de soberanian (entre os quais, como foi referido, se encontram os tribunais) constitui matéria abrangida pela reserva absoluta de competéncia legistativa da Assembleia da Reptiblica (art. 164.°, al. am), da C.Rep.). ©08 Com o sentido indicado supra, nota © Os jutzes militares sto igualmente inamoviveis, no sentido de que as suas fungSes ndo podem cessar antes do termo da comissio de servigo (art. 3.° da referida Lei n.2 101/203), salvo quando se verifique alguma das situagoes previstas nas trés alfneas do n.¢ 1 do art. 4.9 da mesmna lei. (10 Cfr, ALBERTO Dos REIS, Organizagdo judicial, cit., pg. 355 — onde este ilustre processualista (reportando-se, naturalmente, & situagdo que existia na época) afirma que «{¢omada neste sentido a inamovibilidade nada tem com a dunagio legal do cargo, e sito inamoviveis nito sé as jutzes de direito, cujo cargo & perpétus, mas tainbém os jutzes municipaes ou de paz, cujo cargo & respectivamente, triennal e biennal, por isso que, durante o pertodo legal da investidura, néo ‘podem ser transferidos nem removidos a arbitrio do governon. Coimbra Editora® 44 _ - Curso de Organizagdo Judicidria vitalicio da nomeagio estd garantide para os magistrados judiciais (are. 6.°, parte inicial, do EMJ) (" e para os jufzes dos tribunais administrativos € fiscais (dado ser-lhes aplicdvel essa norma, por forga da remissfio contida no art. 3.9, n.° 3, parte final, ¢ no art. 57.° do ETAE) "9, mas 0 mesmo nao se verifica quanto aos jutzes do Tribunal Constitucional — cujo mandato tem a duragio de 9 anos € nao é susceptivel de renovacdo (art. 222.9, n° 3, da C, Rep.) —, nfo obstante gozarem da garantia de inamovibilidade (art, 222.9, n° 5, da C.Rep. e art, 22.° da LOFPTConst,). Quando 0s jufzes nao sio nomeados vitaliciamente, a estabilidade (relativa) inerente a0 principio da inamovibilidade, para garantir a independéncia dos juizes, exige, contudo, que a nomeagéo ou designagao seja feita «por perfodos de tempo certo ¢ determinado» ¢ sem possibilidade de renovagéo (como acontece no caso dos jufzes do Tribunal Constitucional) , a fim de evitar a «insegu- ranga inevitavelmente ligada a incerteza sobre a renovagao da nomeagao» "9, (0) Saliente-se, porém, que nem todos os juizes dos tribunais judiciais sio «magistrados judiciais» (no sentido que esta designagio assume no EMJ); do quadro de alguns desses tribunais — 08 comperentes para o julgamento dos «crimes estritamente militares» (nos termos dos arts. 109.9 ¢ 110.° do Cédigo de Justica Militar, este iltimo devidamente harmonizado com a LOS], com o ROFT] c com o mapa III a este anexo) fazem parte jufzes militares, Ora, estes niio sio nomeados de forma vitalicia, mas em comissio de servigo, com a duragio de tés anos, renova vel uma ver por igual periodo (arts. 13.9, n.° 1, e 15.°, n.9 1, da citada Lei n° 101/203), © Parece ser assim, também, com os juizes do Tribunal de Contas, uma vez que, além de os jutzes com vinculo & fungdo publica serem providos no cargo a titulo definitivo ou em comissio permanente de servigo (art. 21.9, n.° 1, da LOPTContas), cremos ser aplicével nessa matéria o disposto no EMJ, por forga da remissio contida no art. 24.2 LOPTContas. $60 mandato do Presidente ¢ do Vice-Presidente ¢ que sto temporétios (4 anos e 3 anos, respecti- vamente, embora renovaveis — art. 214.9, n.9 2, da C.Rep. e art. 17.9, n.° 2, da LOPTContas), ©3) A nomeacdo dos jufzes militares, como vimos, € feita por um perfodo de trés anos ¢ com possibilidade de renovacio, ‘Todavia, 2 inamovibilidade que Ihes € garantida tem um aleance particular (cft. supra, nora ™); ¢ 0 utisco» que dat poderd advir, em termos de independéncia, acaba pot no ter consequéncias préticas, cm virtude de o julgamento dos crimes estritamente militares competir sempre ao tribunal colectivo (art. 111.° do Cédigo de Justiga Militar) ¢ de a maioria dos seus membros no ser constituida por juizes militares (cfr. 0 art. 116.° do citado Cédigo). 38 Neste sentido, vide J. J. Gomes CaNOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituipao da Repiiblica Portuguesa anotada, vol. MI, cit., pag. 587. ‘A impossibilidade de renovagio permite afastar o receio manifestado por ALBERTO DOS Reis, que considerava a winamovibilidade tempordriay como uma eférma imperfeita e grosseindo, mas, justamente, porque apenas tinha em mente a nomeagao por um certo perfodo de tempo com possibilidade de renovagio, ao justificar a sua posigéo com base em que «a esperanga de Coimbra Eaitora® Fitroducio 45 6.2. A irresponsabilidade A irresponsabilidade dos jutzes pelas suas decises constitui igualmente, undo a Constituigdo ¢ a lei, uma garantia da sua independéncia. Mas também ela ndo tem cardcter absoluto “9; a Constituigao limita-se a consa- gri-la como principio, reservando para a lei a determinagao dos casos em que, excepcionalmente, os juizes sio responsaveis pelo exercicio da sua actividade decisdria (art. 216.9, n.° 2, da C.Rep.). __ Esta consagracao principial da irresponsabilidade dos jutzes aparece-nos ‘ainda no art, 222.9, n° 5, da Constituigdo — como garantia de que gozam os ‘ufzes do Tribunal Constitucional —, nas leis de organizagio das diversas cate- gorias de tribunais e no Estaruto dos Magistrados Judiciais. Mas ela nao é, em geral, expressamente considerada como forma de assegurar a independéncia dos juizes. E, realmente, nos termos em que esse prinefpio se acha formulado, parece perfeitamente legitimo duvidar de que possa funcionar como tal. Assim, 0 1.° 2 do art. 4.° da LOS] (atinente, segundo a epigrafe, a inde pendéncia dos jutzes) estatui que «{o]s juizes nao podem ser responsabilizados pelas suas decisdes, salvas as excegdes consignadas na lein — sem, contudo, incluir esse principio no artigo dedicado as «garantias ¢ incompatibilidades» (o art. 5.°) 9; 9 ne 2 do art. 3.° do ETAF (numa formulagio no muito feliz, que pretende afastar-se da tradicional concepgao negativa do principio, bem reveladora do desvanecimento dessa pretensa garantia) dispde que «[o]s iufzes da jutisdigéo administrativa ¢ fiscal podem incorrer em responsabilidade pelas suas decisbes exclusivamente nos casos previstos na lei»; 0 art. 24.9 da recondugio fard dos funciondrios agentes as ordens do governor, Cfr. ALBERTO DOS REIS, Orga- jzagto judicial, ct., pag, 356. (3) Chr J. J. Gomes CANOTILHO/VITAL Moreita, Constituigdo da Reptiblica Portuguesa -anotada, vol. Il, cit., 586. "6 Em bom rigor, apesar de a epigrafe deste artigo ser «garantias e incompatibilidadess (tal como a do art. 216.° da C.Rep. -~ preceito que, além da inamovibilidade, consagra o ptincfpio da irresponsabilidade dos jufzes pelas suas decisbes), como os n." 2, 3, ¢ 4 se referem 4 incompatibilidades, a nica garantia de independéncia nele consagrada acaba por ser a da inamovibilidade (embora nio fosse assim na versio primitiva da Proposta de Lei n.° 114/X11, ‘que deu origem & Lei n,° 62/2013 — cf. injfa, nora '®). One 3 do art, 4° da LOFT) 1999 ¢ 0 n.° 3 do art, 5.° da LOFT] de 2008 consagravam 0 principio da irresponsabilidade dos jutzes (dos tribunais judiciais) apés a indicagio, no ntimero ancerios, dos instrumentos juridicos através dos quais era assegurada a sua independéncia. Coimbra Editoras 46 Curso de Organizagéo Judicidria LOFPTConst. contém igualmente uma mera enunciagdo desse princfpio, a0 dizer que «0s juizes do ‘Tribunal Constitucional nao podem ser responsabiliza- dos pelas suas decisées», remetendo depois, no que tange a excepgoes, para 0 que se acha legalmente estabelecido para os juizes dos tribunais judiciais («salvo nos termos ¢ limites em que 0 sio os juizes dos tribunais judiciais»), ow seja, para a disciplina contida no EMJs 0 art. 5.° deste Estatuto, por sua vez, separa a formulagio (negativa) do principio, que consta do n.° 1 — «{o]s magistrados judiciais nao podem ser responsabilizados pelas suas decisées» —, da referéncia aos casos em que esses jufzes podem incorrer em responsabilidade ¢ & nacureza da mesma, que surge no n.° 2 — «[s]6 nos casos especialmente previstos na lei os magistrados judiciais podem ser sujeitos, em razao do exercicio das suas fun- bes, a responsabilidade civil, criminal ou disciplinary "7 em cermos idénticos, também o art. 7.° da LOPTContas, além de reafirmar a irresponsabilidade dos juizes do Tribunal de Contas, inclufda nas «garantias de independéncia» dese tribunal (n.° 2), decalea 0 disposto no n.° 2 do art. 5.° do EM], limitando-se a substituir a referéncia a «magistrados judiciais» por «jutzes» (n.° 4). Como resulta da norma contida no citado art. 5.9, n.° 2, do EMJ e da correspondence norma da LOPTContas, as excepgdes consagradas na lei referem-se a trés espécies de responsabilidade: criminal, civil ¢ disciplinar; nao, também, & responsabilidade politica, que esté absolutamente excluida no nosso ordenamento juridico, uma vez que os juizes ndo respondem (em caso algum) perante qualquer drgao de soberania de cardcter representativo, «maximen a Assembleia da Repiiblica "9, Sublinhe-se, por outro lado, que dessas normas parece ser posstvel extrair, ua contrario sensu», uma vertente do princtpio da irresponsabilidade que néo se encontra no 1. 1 do art. 5.° do EMJ, nem em qualquer dos outros precei- tos legais mencionados: a que se reporta ao exercicio das fungées proprias dos juizes — ¢, por conseguinte, & actividade profissional por eles desenvolvida -- € no, apenas, ao contetido das decisdes que proferem (1 Tdéntica ¢ a formulagio contida no art. 5.9, n.° 1, da Lei n.° 101/2003, que con- sagra 0 principio da irresponsabilidade (eft. a epfgrafe) para os jutzes militares: «[o)s jutzes militares sé podem ser responsabilizados civil, criminal ou disciplinaemente pelas suas decisdes, nos casos especialmente previstos na lein, (8) Chr J. J. Gomes CANOTILHO, Direito Constitucional, civ., pag. 665. (0 A distingdo entre essas eduas facetas ou aspectos da irresponsabilidade dos jutzes» foi fcita com toda a clareza por um eminente jurista, CASTRO MENDES, no voto de vencido que Coimbra Editora® Introdugio 47 Ainda assim, temos de convir que o principio da irresponsabilidade, tal como se acha formulado — e, sobretudo, pela extensio das excepgées que comporta —~, estd longe de constituir uma verdadeira garantia especial dos juszes, que tenha em conta as especificidades das fungdes que exercem. Bem vistas as coisas, sendo responsdveis criminal, civil e disciplinarmente, nos casos previstos na lei, os jufzes encontram-se na mesma situagao dos magistrados do Ministério Publico — con- siderados responsdveis pela Constituigio da Reptiblica (art. 219.9, n. 4), pela LOSJ (art. 9.9, n.° 2) e no respectivo Estatuto (art. 76.°, n.° 1, do EMP) —, no que a essas formas de responsabilidade diz respeito, se ressalvarmos a diferenga decorrente do dever de «observancia das directivas, ordens ¢ instrugdes recebidas» que sobre estes recai: a responsabilidade destes «consiste em responderem, nos termos da Ici, pelo cumprimento dos seus deveres» (art. 76.9, n.° 2, do EMP). ‘Até quanto aos termos em que se opera a efectivacio da responsabilidade exclu- sivamente civil (extracontratual, delitual ou aquiliana), pelos actos praticados no __ exercicio das respectivas fungdes, nao hé qualquer diferenga entre os juizes € os magistrados do Ministério Ptiblico: em via de regresso, através da accio de indem- nizagao contra magistrados prevista nos arts. 967.° e segs. do C.PCivil (que sao subsidiariamente aplicaveis as «agées do mesmo tipo que sejam da competéncia de outros tribunais»), endo directamente; ¢ sé quando tenham agido com dolo ou culpa grave (art. 5.°, n.° 3, do EMJ, art. 26.° da LOPTComaas, art. 77.° do EMB na redacgao que the foi dada pela Lei n.° 67/2007, de 31 de Dezembro, eart. 14.9, n.° 1, do «Regime da responsabilidade civil extracontratual do Estado e demais entidades publicas», aprovado pela referida Lei n.° 67/2007 (9, emitiu no Ambito do parecer n.° 3/VINI da Camara Corporativa, referente & base XVIF, al. 6), da proposta de lei n.° 10, sobre a organizagao judicidria, a que vieram a cotresponder a 3.4 alt= nea da base XVII da Lei 0.° 2 113, de 11 de Abril de 1962, ¢ o art. 111.9, al, 6), do Bstatuto Judiciétio (j4 mencionado), aprovado pelo Decreto-Lei n.° 44 278, de 14 de Abril de 1962. Com efeito, a dado passo, CASTRO MENDES sustentava; — «A irresponsabilidade dos jufees apresenta duas facetas ou aspectos: pelo contetido das suas decisbes deve ser absoluta; pela actividade que a essas decisbes leva (julgamenso), deve ser formulada na lei (...)». Cf, J, ROseIRA FIGUEIREDO/F, PINTO FERREIRA, O poder judicial, cit., pigs. 72-73. {20 ” Este diploma legal foi entretanto alterado pela Lei n.° 31/2008, de 17 de Julho. A responsabilidade criminal dos jufzes militares efectiva-se em termos semelhantes aos dos restantes juzes do tribunal judicial em que exergam fungées; a sua responsabilidade civil também é efectivada mediante acgio de regresso; ¢ 0 regime disciplinar aplicavel a esses jutzes € 0 do EM}, competindo o exercicio da acgio disciplinar a0 Conselho Superior da Magistra- tura, Cf. os arts. 5.9, n.* 2 3, 6.9 € 7.9 da citada Lei n.° 10/2003. Coimbra Editora® a rain enum SNme 48 _ Curso de Onganizacdo Judicidria Desse modo, em que se distingue, afinal, a irtesponsabilidade dos jutzes da responsabilidade dos magistrados do Ministério Puiblico? $6 no facto de a organizagao interna do Ministério Puiblico assentar na existéncia de subordi- nacéo hietdrquica, com a consequente possibilidade de emanagao de directivas, ordens ou instrugGes e 0 correspondente dever de as observar “7? Nao nos parece que isso seja suficiente para falar de irresponsabilidade num caso e de responsabilidade no outro. Donde se segue, nfo que os juizes devam escar isentos dessas formas de responsabilidade (ainda que se imponha a maior prudéncia na apreciagio do grau de culpa com que porventura actuem — tendo em conta o nuimero de processos distribufdos a cada um dos magistrados, a respectiva complexidade e, até, a grande dificuldade, que muitas vezes existe, na determinagéo das normas legais em vigor, sobretudo quando se acham dispersas e inseridas em diplomas legais cujo titulo ou sumétio em nada contribuem para identificar 0 contetido das «normas parasitarias» “”” neles contidas —, dada a extrema relevancia da {20 Cfe, Jos# ADRIANO SOUTO DE MOURA, Nota intradutéria sobre a responsabilidade dos magistrados, in «Revista do Ministétio Piblicon, Ano 22.° (2001), n.° 88, pag. 27 — onde © A. sustenta, ainda, que «a responsabilizagio [dos magistrados) fora de um condicionalisma estrito pode funcionar como 0 espectro de uma reacgio gravosa para quem tem que proferir a decisdéo, a ponto de paralisar on orientar indevidamente a opeao do magistradon. 02 "$30 qualificiveis como wpatasitdtias», «intrusas» ou «fugitivas» as normas inclu(das no articulado de leis que disciplinam uma determinada matéria, correspondente ao seu objecto imediato, ¢ que se revelam estranhas a tal objecto. O exemplo paradigmatico dessas normas € constitufdo pelos chamados «cavaleitos orsamentais» (acavaliers budgétairess, na terminoloy francesa) inseridos na lei que aprova 0 Orgamento do Estado, como a prdpria designagio sugere. Nos termos do disposto no art. 105.° da Constituigio, o Orgamento do Estado contém «a dis- criminagio das teceitas ¢ despesas do Estado, incluindo as dos fundos ¢ dos servicos autSnomos» (n8 1,al, a), bem como «o orgamento da seguranga socialy (n.° 1, al. 6). Ora, apesar deo conteédo do Orgamento do Estado ser esse — ¢, por conseguinte, o titulo da lei que © aprova, apenas apontat no sentido de af estarem inclufdas normas com 0 referido objecto, € muito frequente serem inseridas em tal lei normas de natureaa muito diversa, estranhas 4quele contetido (e, por isso, «intrusass). Independentemente da questéo da eventual inconstitucionalidade dessas «anormas parasitdtias eda possibilidade ou impossibilidade da sua revogagio por uma let sem valor reforgado, que aqui no ros interessa, importa sublinhar, precisamente, a grande dificuldade que os destinatétios dessas «nor- ‘mas intrusas» tém em saber da sua existéncia ¢, por conseguinte, de as conhecerem (tratando-se, pois, de dominio onde o principio geral do dizeito «ignorantia legis non excusay — consugrado no art. 6. do C.Civil — se pode revelar particularmente injusto e até contraditério com a exigéncia de seguranga juridica que The est associada, na medida em que 0 principio da seguranga juridica também exige que, para alguém ficar vinculado por uma norma, seja dada a esta uma publicidade adequada, que tome possivel o seu prévio conhecimento por parte dos cidados medianamente diligentes ¢ infor- Coimbra Editora® ) 29, mas que parece istincdo entre a actuacao com culpa grave ¢ com culpa leve) io haver motivo para se aludir a «irresponsabilidade dos jutzes». ‘Trata-se de juma pura questo semintica, pois, em bom rigor, os juizes sfio responsdveis pelos actos praticados no exercicio das suas fungées, salvo no que se refere & respon- sabilidade meramente civil, que esté exclufda quando actuem com culpa leve; as também é assim no caso dos magistrados do Ministério Puiblico *, 6.3. O «autogoverno» _ Aindependéncia dos juizes, sobretudo perante 0 poder executivo, é ainda assegurada pelo denominado «autogovernon (9 ou pela existéncia de um érgio privativo de gestao e disciplina. iados, 0 que manifestamente néo se verifica quando a lei contenha, de forma subrepricia, normas sobre matéria diferente da que, aparentemente, constitui o sen objecto tinico), devido ao facto de (em ‘virtude desse procedimento anémalo) no Ihes ser feita qualquer alusio no titulo do diploma. No plano das boas regeas de legistica (pelo menos), erata-se, pois, de uma pritica censurivel. A respeito das «normas parasitérias» ¢ de alguns problemas por elas suscitados, vide CARLOS BLANCO DE Morals, Algumnas reflexes sobre 0 valor juridico de normas parasitdrias presentes em leis veforcadas pelo procedimento, in «Nos 25 anos da Constituigio da Republica Portuguesa Evolugao constitucional perspectivas fururas» (Lisboa, 2001), 393-460; ANTONIO ALBERTO. Vieira Cura, Teoria da Legislagde. Sumdrios Desenvolvidas das Aulas do Curso de Mestrado da Faculdade de Direito de Coimbra, disponibilizados aos alunos no ano lective de 2005/2006 (Coimbra, 2006), pags. 175-178; ¢ ALEX HENNEMANN, O problema das normas parasitdrias: wma _ andlise luso-brasileira, in eLireito Paiblico», n.° 18 (Brastlia, Out.-Nov.-[er./2007). pags. 5-30, (29 Se houver prudéncia na aplicagao do regime de responsabilidade civil extracontratual dos julees, cremos que os de reconhecido mérito € comperéncia sé tetio a ganhar com a erradicagio do jo que existe na seara de que fazem parte e, segundo cremos, é constituida maioritarlamente pot trigo. (20 A este respeito, vide Jost Manus M. CAarbOso DA Costa, Sobre 0 novo regime da reponsabilidade do Estado por actos da fungi judicial, in «Estudos om Homenagem a0 Prof. Dou- tor Manuel Henrique Mesquitay, vol. I, S7v0i4 Ivaipica, 95, «Ad Honorem» —~ 4 (Coimbra, 2010), pags. 501-520 (especialmente, 515-520); ¢ Carta AMaDo Gomes, ABC da (ir)responsabi- lidadle dos jutzes no quadro da Lei n.? 6712007, de 31 de Dezembro, in «Scientia IvRIDICH, como LX, __ n° 322 (Abril/Junho, 2010), pdgs. 262-268 ¢ 274-277. 625 Em vex de «autogovernon, GOMES CANOTHHO considera preferivel aludir a - «anto-administragion, uma yeu que «0s tribunais auto-administram-se mas niio se autogovernanm. Chr. J. J. Gomes CANOTILHO, Direito Constitucional, cit., pig. 666. Desde que se tenha em conta o sentido particular que aqui assume a expresso tradicio- nal eautogoverno», parece-nos, no entanto, mio haver qualquer inconveniente na sua util nem se vislumbra vantagem na sua substituigao por «auto-administrasaon, Coimbra Eaitora® 50 _ Curso de Organizagao Judicidria No caso dos jufzes do Tribunal Constitucional ¢ do Tribunal de Contas pode falar-se de «autogoverno», na medida em que cabe a cada um desses tribunais o exercicio do poder disciplinar sobre os respectivos jutzes 9, ainda que se trate de «actos praticados no exercicio de outras fungSes» (art. 25.9, n.° 1, da LOFPTConst. ¢ arts, 7.9, n.° 2, 25.° ¢ 75.°, al. e), da LOPTContas, leis para que deve considerar-se feita a remissio contida no art. 6.°, n.° 3, da LOS}) "), a nomeacao dos jutzes do Tribunal de Contas é da competéncia do tespectivo Presidente, que, por sua vez, é nomeado pelo Presidente da Repiblica, sob proposta do Governe (art. 133.°, al. m), da C.Rep. ¢ art. 74, no 1, al. ), da LOPTContas). © mesmo nao pode, no entanto, dizer-se (em bom rigor) relativamente aos jufzes dos tribunais judiciais ¢ aos jufzes dos wibunais administrativos € fiscais, Com efeito, a nomeacio, colocacio, transferéncia e promogio dos juizes, assim como o exercicio da acco disciplinar em relagio a eles, no per tencem a eles prdprios, mas a érgiios privativos de gestao e disciplina, «consti tucionalmente auténomos» “°®, 56 em parte constituidos por juizes (e sem que estes representem, por imperativo constitucional ou legal, a maioria) — 0 Conselho Superior da Magistratura ¢ 0 Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais, respectivamente (art. 217.°, n.* 1 e 2, da C.Rep., arts. 6.°, n,.% Le 2 9, 153.9, 155.9, al. a), 160.° ¢ 162.°, al. a), da LOS],. (29 Quanto a tals julzes € esse o aspecto que verdadciramente seleva, excluidas que esto, segundo parece, questoes references nomeagio, colocagio, transferéncia e promogio, por se tratar de jurisdig6es com um dnico cribunal. (2 De acordo com os dois titimos preccitos citados, 0 poder disciplinar sobre os juizes do Tribunal de Contas é exercido pelo plendtio geral. 628 Cir J. J. GOMES CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigio da Reptiblica Portuguesa anotada, vol. Il, cit., pags. 592-593 ¢ 596; ¢ CARLOS A, ConDE Da Sitva Praca, Sobre a independéncia das jutzes ¢ magistrados, cit., pags. 42-45 — onde o A. sustenta que, apesar dessa autonomia, 0 Conselho Superior da Magistratura (a que se refere) nfo deixa de ser um «drgdo do Poder Executivon (0 que nos parece ser algo contraditério). “2 A circunstancia de a LOS) nfo considerar a existéncia dos referidos conselhos superiores como forma de assegurar a independéncia dos juizes dos mencionados tribunais’ — a0 contrério do que se verificava, quanto ao primeiro, no art. 4.°, n.° 2, da LOFT) de 1999 € no art. 5., n.° 2, da LOFTY de 2008, em que se estabelecia que «[a] independéncia dos jufzes é assegurada pela existéncia de um rgio privativo de gestio e disciplina da magis<- teatura judicial» (sem paralelo no ETAE, quanto ao segundo) --- ndo significa que ndo cons- titua uma dessas garantias. A versio primitiva da Proposta de Lei n.° 114/XIL, que deu origem a LOSJ, no n.° 2 do att. 4.9, estabelecia ainda que «{a] independéncia dos juizes ¢ assegurada Coimbra Editora® dugio ot 9 136.° € 149.9, al. a), do EMJ, e art. 74.9, n.° Le n° 2, al. a), do “ETAP) 30), 6.3.1. O Conselho Superior da Magistratura ‘A composigio do Conselho Superior da Magistratura é directamente - estabelecida pela Constituigao, no n.° 1 do art, 218.9; ¢ ¢ igualmente referida nor ora) no art. 137.°, n.° 1, do EMJ ¢ no art. 154.9, n° 1, da LOS] 3”. im do Presidente do Supremo Tribunal de Justiga, que preside ao drgio, m parte dele os seguintes vogais: dois designados pelo Presidente da Repti- ica “2, seve cleitos pela Assembleia da Reptiblica “* ¢ sete juizes eleitos clos seus pares "9, a existéncia de um érgio privativo de gestéo ¢ disciplina da magistratura judicial...»; mas im manifesta impropriedade (uma vez que tal proposta se refetia aos jutzes de todos os tri- unais estaduais ¢ essa garantia de independéncia s6 valia para os jufzes dos tribunais judiciais), mo foi salientado na Pronincia da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra fetida supra, nota, Em virtude disso, foi eliminada da redagio final do texto, na sequén- fa da proposta de alteracéo mencionada, também, nessa nota. G3” A nomeagio e a exoneragio dos juutzes militares competem igualmente 20 Conselho uperior da Magistratura, sob proposta ou com andigio do Conselho de Chefes de tado-Maior ou do Conselho Geral da GNR, conforme os casos (arts. 14.9, n° 1, ¢ 17. da itada Lei n.° 101/203). Cabe-lhe também, como vimos, com carécter exclusivo, 0 exercicio ia acgio disciplinar sobre esses juizes (art. 7.° desse diploma legal}. © elenco das competéncias do Conselho Superior da Magistratara (CSM) encontra-se (por enquanto) no art. 149.° do EMJ, mas foi igualmente estabelecido no art. 155.° da LOS} fno ambito do titulo XI desta lei, respeitante aos uérgios de gestéo e disciplina judicirios», -eujo capitulo I regula o CSM. E o das competéncias do Conselho Superior dos ‘Iribunais \dminiscrativos ¢ Fiscais esta plasmado (ainda) no n.° 2 do art, 74° do ETAK mas foi igual- mente fixado no art. 162. da LOS} (no capitulo If do titulo XI dessa lei, que disciplina 0 STAB). E desejivel que a anunciada alterago do EMJ c do ETAF elimine a referida dupli- ‘casio. (30 Trata-se de mais uma duplicagio que, certamente, no deixard de ser objecto de _ dliminagio na projectada alteragio do EM). (30 fr, eambém, a 2." parte da al. ) do art, 133.2 da C.Rep. 8) Essa eleigdo exige maioria de dois tergos dos Deputados presentes, desde que superior & maioria absoluta dos Deputados em efectividade de fungbes (art. 163.9, al. hj, da CRep). 434 A forma de eleigio destes vogais rege-se pelo disposto nos arts. 139.°, n.° 2, ¢ 140.9 ~ e segs. do EMJ (matéria em que 0 n.° 2 do art. 154. da LOS} remete para esse estatuto). Coimbra Editorax 52 Curso de Organizacdo Judicidria O Conselho Superior da Magistratura é pois, constitufdo por dezassete membros 9; ¢ a maioria deles (nove membros) é designada/eleita pelos érgios de soberania cuja cleigéo € feita por sufrdgio directo “3 — 0 que se traduz num reforgo da sua «legitimagdo democrdtica _ Os jutzes dos tribunais judiciais nao tém, pois, assegurada pela Constitui¢ao (ou pela lei) uma presenga maioritéria nesse drgéo, por ter caido (com a Lei Constitucional n° 1/97, de 20 de Setembro) a exigéncia, formulada no art. 223.° saido da revisio consti- tucional de 1982 (a que agora corresponde 0 218.°), de que um dos vogais designades pelo Presidente da Reptiblica fosse magistrado judicial; mas nao existe qualquer impedimento a que o Presidente da Repitblica e a Assembleia da Republica procedam, respectivamente, & designagio ou cleigéo de jutzes para o Conselho Superior da Magistratura. Saliente-se que na designagéo efectuada pelo Presidente da Republica em 2011, ao contrério do que havia sucedido naquela a que procedeu em 2006 ‘, nao foi nomeado como vogal qualquer juiz “2 assim, porque naquele ano também nio foi eleito nenhum. juiz pela Assembleia da Republica “, 0 Conselho Superior da Magistracura & hoje composto por oito magistrados judiciais ¢ por nove membros néo oriundos da judicatura “9, Importa sublinhat, ainda, que o Conselho Superior da Magistracura no inclui qualquer membro designado pelo Governo, 0 que, em principio, cons- 35. As regeas sobre garantias dos juizes so aplicéveis a todos os vogais do Conselho Superior da Magistratura, mesmo aos que no sejam jufzes (art. 218.°, n.° 2, da C.Rep. € att. 148.9, n° 1, do EMJ — para que também remete 0 n.° 2 do art. 154.° da LOS]). Rela- tivamente ao Presidente do Conselho Superior da Magistratura nao é necessitio que a Cons- tituigéo e a lei o digam, pois ja goza dessas garantias pelo facto de ser Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiga (de que ¢ Presidente), (36 Cfe, os arts, 113.2, n° 1, 124.9, n° b, € 149.9, n.9 1, da C.Rep. (9 Chr, J.J. Gomis CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigio da Repriblica Portuguese anotada, vol. Ul, cit, pag, 597. (om Referimo-nos & designagao de vogais do Conselho Superior da Magistratura feita através do Decreto do Presidente da Reptiblica n.° 44/2006, de 10 de Abril, em que a escolha de um deles recaiu num juiz conselheiro do Supremo ‘Tribunal de Justiga, o que fez com que esse drpio tivesse pasado a ser composto por nove jutzes € por oito membros no oriundos da magistratura judicial. #3) Cf. 0 Decreto do Presidente da Reptiblica n.° 54/2011, de 15 de Junho, 4401 Cf, a Resolugdo da Assembleia da Reptblica n.° 141/2011, de 28 de Outubro, 0A composigéo do Conselho Superior da Magistratura pode ser consuleada na res- pectiva pagina da internet (www.csm.org.pt). Coimbra Bditora® Insrodusto 53 titui garantia de nao ingeréncia daquele no «governo» da magistratura judi- al 1), 6.3.2. O Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais © Conselho Superior dos ‘Tribunais Administrativos ¢ Fiscais, cuja com- posigio foi deixada para a lei ordindria (limitando-se a Constituigéo a atri- buir-lhe competéncia para a nomeagio, colocagdo, transferéncia ¢ promogio, -¢ para o exercicio da acgio disciplinar, em relagao aos juizes dos tribunais administrativos ¢ fiscais — art. 217.9, n.° 2), € constitufdo por onze membros: 6 Presidente do Supremo Tribunal Administrative —~ ao qual cabe a presidén- cia do érgio —, dois vogais designados pelo Presidente da Republica, quatro cleitos pela Assembleia da Republica ¢ quatro jutzes eleitos pelos seus pares (art. 75., n° 1, do ETAF e art. 161.9, n.° 1, da LOS). ‘Também neste caso temos uma maioria de conselheiros cuja nomeagio € efectuada pelos érgios de soberania cleitos directamente. E vale igualmente 0 ‘que foi dito a respeito da falta de garantia (neste caso, legal) da existéncia de uma maioria de jufzes, sem prejutzo de cla poder verificar-se na hipétese de o Presidente da Republica designar algum juiz ou de a Assembleia da Republica o cleger. Como na tiltima eleigao realizada por este érgio foi eleito um juiz conselheiro (ainda que jubilado) “*, o Conselho tem, presentemente, uma maioria de juizes, pois € composto por scis juizes dos tribunais administrativos ¢ fiscais ¢ por cinco outros juristas “4, A este respeito, vide J. J. Gomes CANOTILHO/ViTAL Moreira, Constituigiio da Repiiblica Portuguesa anotada, vol. Il, cit., pag. 597. 1) © segundo membro efectivo eleito pela Assembleia da Repiiblica, Lucio Alberto de Assungio Barbosa, é juiz conselheiro jubilado (foi, alids, o Presidente do Suptemo Tribu- nal Administrative até A tomada de posse do actual), apesar de esse titulo nao ser mencionado na Resolugio da Assembleia da Republica n.° 29/2013, de 13 de margo (que se limita a identificar os cidadaos eleitos pelo seu nome). E, nos termos do disposto no art. 67.9, 1.2 2, do EMJ, aplicdvet aos jufzes dos tribunais administrativos € fiscais «ex viv do art. $7.2 do ETAR, «os magistrados jubilados continuam vinculados aos deveres estatutdrios e ligados ao tri- bunal de que faziam partes e «gozam dos titulos, honras, regalias ¢ imunidades correspondentes a sua categorian. (48 A composigio do Conselho Superior dos Tribunais Administrativos ¢ Fiscais pode ser consultada na respectiva pagina da internet (www.cstaf.pt). Coimbra Editora® Mo Curso de Organizacdo Judicidria No Conselho Superior dos Tribunais Administrativos ¢ Fiscais nao ha, igualmente, qualquer membro designado pelo Governo, com o significado apontado a respeito do Conselho Superior da Magistratura “, Em face do que antecede, parece-nos adequada e perfeitamente leg(tima a qualificagéo como «autogoverno mitigado», tanto da magistratura judicial como dos jufzes da jurisdi¢o administrativa ¢ fiscal, dado o temperamento ao cardcter puramente profissional da representacdo nesses érgéos que a legitima- Gao democratica assegura. 6.4. O regime de incompatibilidades As incompatibilidades, constitucional ¢ legalmente previstas, equivalem consagragio da «regra da dedicagio exclusiva dos jutzes profissionai» “9, E pare- cem nao ser postas pela Constituigago da Reptiblica no mesmo plano das outras garantias de independéncia (a epigrafe do art, 216.° da C.Rep. menciona «garan- tias ¢ incompatibilidades», aparecendo as primciras nos n.* 1 € 2 desse artigo, enquanio As segundas se referem os n.* 3.2 5). Eo mesmo se verifica no EMJ (onde a irresponsabilidade e¢ a inamovibilidade esto consagradas nos arts. 5.° € 6.°, logo a seguir ao artigo que trata da independéncia dos magistrados judiciais, enquanto as incompatibilidades esto previstas noutro capitulo, juntamente com os seus deveres, direitos e regalias — no art. 13.9) e na LOS] (art. 5.°, cuja epigrafe & também «garantias ¢ incompatibilidades», que consagra a garantia de inamovibilidade no n.° 1 as incompatibilidades nos n.* 2 a 4). Relativamente a este tema, a Constituigéo da Reptiblica determina que «os juizes em exercicio nfo podem desempenhar qualquer outta fungao publica ou privada», exceptuando apenas o exercicio de «fungées docentes ou de investigagéo Gientifica de natureza juridica, no remuneradas», remetendo a disciplina desse exercicio para a lei ordindria (art. 216.9, n.° 3, da C.Rep. 7) "8, Bo art, 222.9, 06) Chr. supra, ne 6.3.1, (8) Chr, J. J. GOMES CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigito da Repiiblica Portuguesa anotada, vol. Ul, cit., 586. : (Cf, também, o art. 5.°, n.° 2, da LOS], que reprodusz este preceito constitucional, Relativamente aos juizes militares, a Lei n.° 101/2003 acrescenta as referidas fungoes de natureza juridica as de natureza militar (art. 8.9). (48) Sobre as raubes determinantes da consagragio dessa excepyio, vide J. J. GOMES CANO- TILO/VitAL MorEIRA, Constituigito da Reptiblica Portuguesa anotada, vol. Il, cit., pag. 588, Coimbra Bditora® 7 35 * 9.0.5, estabelece a sujeigao dos jutzes do Tribunal Constitucional «as incompatibi- lidades dos juizes dos restantes tribunais», a quem se aplica, de forma imediata, 0 | disposto no art. 216.9, n.0 3 6 030, Quanto aos juizes dos tribunais judiciais, a disciplina legal dos termos em que se torna possivel 0 exercicio da mencionada actividade (docente ou de investigagao cientifica) vem a traduzir-se na necessidade de obter auto- rizagio do Conselho Superior da Magistratura para esse efeito (art. 13.°, ne 2, do EMJ); € no caso dos jufzes dos tribunais administrativos e fiscais concretiza-se na exigéncia de autorizagdo do Conselho Superior dos Tribu- nais Administrativos ¢ Fiscais (cfr. 0 citado artigo do EMYJ, aplicdvel «ex vi» do art. 3.°, n.° 3, e do art. 57.0 do ETAR € 0 art. 74.9, n.° 2, al. p), deste Estatuto). O princfpio da dedicagao exclusiva dos juizes as fungdes préprias do seu cargo encontra justificagio na necessidade de assegurar a sua concen- tragéo nessa actividade (evitando a sua disperséo por outras actividades, com prejuizo do estudo e da reflexdo exigidos a quem exerce tal cargo); mas justifica-se, também, pela conveniéncia de evitar a criagio de lagos de dependéncia profissional ou econémica que poderiam comprometer a sua independéncia “5, ~ Num plano algo diferente do anteriormente abordado, mas constituindo «ainda uma garantia de independéncia dos jutze °, encontra-se a impossibi- lidade de nomeagao de jutzes para «comissdes de servigo estranhas 4 actividade dos tribunais» sem autorizagao do respectivo conselho superior (art. 216.°, (4) Em virtude da remissio contida no art. 222.9, n.° 5, da C.Rep., compreende-se 0 estatuido pelo art. 27.¢ da LOFPTConst., que, além de considerar © desempenho do cargo de juiz desse tribunal incompativel com 0 «exercicio de fungbes em érgios de soberania, das regides autdnomas ou do poder local», consagra a incompatibilidade do respectivo exercfcio com o de «qualquer outro cargo ou fungi de natureza publica ou privadar (n.° 1), com a excepgio acima referida ~~ «exercicio nao remunerado de fungées docentes ou de investigacéo ciemtifica de natureza juridicar (n.° 2). {301 A aplicagio ao Presidente e aos juizes do Tribunal de Contas das incompatibilida- des dos magistrados judiciais encontra-se estabelecida no art, 27.9, n.° 1, da LOPTContas. (399 Neste sentido, vide J. J. Gomes CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigio da Repitblica Portuguesa anotada, vol. Il, cit., pgs. 587-588. US) Chr J. J. GOMES CANOTILHO/VITAL MOREIRA, Constituigdo da Repuiblica Portuguesa anotada, vol. Ul, cit., pag. 588. Coimbra Eattora® 56, Curso de Organizagio Judicidria n.° 4, da C.Rep, 9) 5®, Na verdade, nessa hipdtese (que nos parece restritt P. iP q P: git-se & comissdo de servigo para exercer fungées ptiblicas) nao esté em causa” a acumulagio de ourra actividade com o cargo de juiz, pois tal nomeagio destina-se a permitir 0 exercicio de outras fungées a tempo inteiro. 7.0 MINISTERIO PUBLICO E A SUA AUTONOMIA O Ministério Publico é uma magistratura paralela e independente da magistratura judicial, o que decorre, desde logo, de ter constitucionalmente. garantido um «escatuto préprion (art. 219.2, n° 2, da C.Rep. %) e, além disso, é expressamente afirmado nesse estatuto ¢ na LOS} (art. 75.9, n.° 1, do EMP e art. 9.9, n.© 3, da LOSJ). ‘Tem como érgio superior a Procura- doria-Geral da Repiiblica (art, 220.9, n.° 1, da C.Rep., art. 9.9, n.° 1, do EMP), que € presidida pelo Procurador-Geral da Republica (art, 220.9, n.? 2, da C.Rep,, arts. 11.9 e 12.9, n.° 1, al, 4), do EMP e art. 165.9, 02, La parte, da LOSJ), nomeado pelo Presidente da Republica, sob proposta do Governo, ¢ cujo mandato tem a duragao de seis anos (arts. 133.9, al. m), ¢ 220.°, n.° 3, da C.Rep). A Constituigao da Reptiblica garante-the autonomia, em termos a definit pela lei (art. 219.9, n.° 2, da C.Rep.). E esta dispde que tal autonomia existe vem relagio aos demais érgios do poder central, regional e local» — em par- ticular, em relagdo ao Governo ¢ aos seus membros, designadamente ao Minis- tro da Justiga (ao contrério do que sucedew na vigéncia do Estatuto Judicidrio, O53 Chr, também, o art. 5.9, n.* 3, da LOS], que se limita a reproduzir a citada norma constitucional. Como apenas existem o Consclho Superior da Magistratura — como érgio de gestio ¢ disciplina dos juizes dos tribunais judiciais — ¢ 0 Consetho Superior dos Tribunais Administrativos ¢ Fiscais (ct. supra, n.° 6.3,), pbe-se o problema de saber se os julzes das restantes categorias de cribunais poderio ser nomeados para comissées de servigo estranhas 3s respectivas fungées. Gomes CANOFILHO/ VITAL Moneta (Constituigito da Repriblica Portuguesit anoreda, vol. Il, elt., pag. 588) sustentam que nao. Todavia, nio é assim, pelo menos, no caso do Tribunal de Contas, pois 0 art. 23.° da LOPTContas admite expressamente a «nomeacio de jutzes do Tribunal de Contas para outros cargos, em comissio de servigo». (39 Esse gozo de westatuto proprio» encontra-se igualmente consagrado no art. 3. ne 2, da LOS). Coimbra Editora® Introducéo 57 de 1962 °%) —, nos termos do respectivo estatuto, € que se caracteriza «pela sua vinculagio a critérios de legalidade e objectividade e pela exclusiva sujeigao dos magistrados do Ministério Publico as directivas, ordens ¢ instrugGes pre- vistas na lei» (art. 2.9, n.° 1 e 2, do EMP e art. 3.°, n.°* 2 ¢ 3, da LOS)). 7.1, Fungées do Ministério Puiblico As funges do Ministério Puiblico encontram-se sintetizadas no art. 219.9, n. 1, da Constituigao da Reptiblica, no art. 1.¢ do EMP e no art. 3.°, n.° 1, da LOS}. Sao elas: a representacéo do Estado, a defesa dos interesses que a lei determinar, a participagio na execugio da politica criminal definida pelos érgéos de soberania, o exercicio da accio penal (orientada pelo princtpio da legalidade) ¢ a defesa da legalidade democratica. As suas principais competéncias, sem prejuizo de quaisquer outras que Lhe sejam conferidas por lei, so as mencionadas no art. 3.°, n.° 1, do EMP. Entre clas contam-se as seguintes: — A representagio do Estado, das regides aurénomas, das autarquias locais, dos incapazes, dos incertos e dos ausentes em parte incerta (al. a)) 5: — O exercicio da acgdo penal (al. c)) °); — 0 patrocinio oficioso dos sabathadores ¢ suas familias na defesa dos seus direitos de cardcter social (al. d)) ©; {59 Sobre essa subordinagio do Ministério Pitblico a0 Ministro da Justiga, entretanto desa- parecida, vide José NARCISO DA CUNHA RODRIGUES, Sobre 0 modelo de hienarquia na organizagiio do Ministério Piiblico, in «Revista do Ministério Publica», Ano 16.° (1995), n.® 62, pags. 16-20 {5 Cfe., por ex. os arts. 24.° do C.PCivil, 6.° do C.PTrabatho e 11.9, n.° 2, do CPTA (representagao do Estado), os arts. 18.9, n.9 3, 21.9, n.° 1, 23.9, n.° 1, do C.PCivil ¢ 0 art. 2. n° 2, do C.P'Trabalho (reptesentagio de incapazes), o art. 22.°, n.° 2, do C.PCivil (represen- tagio de incertos), os arts. 21.9, n.° 1, € 23.9, n° 1, do C.RCivil (representagéo de ausentes) € 0 art. 14.° do CPPT (representagio dos ausentes, incertos e incapazes). 58 Cir, em especial, os arts. 48.° («legitimidade para promover 0 processo penal, com as restrigbes constantes dos artigos 49.° a 52.) ¢ 53.9, n.° 2, al. o), do C.PPenal (ededuzir acusagio ¢ sustenté-la efectivamente na instrugio ¢ no julgamento»). Relativamente a crimes estritamente militares, o Ministério Paiblico € coadjuvado por assessores militares, que si nomeados pelo Procutador-Geral da Repiblica, sob proposta dos Chefes de Estado-Maior ou do comando-geral da GNR, consoante os casos (arts. 22.°, al. a), 23.9 ¢ 24.9, n.0 1, da citada Lei n.° 101/203). 6) Cfo att, 7.9, al. a), do C.P Trabalho. Coimbra Editora® 58 Curso de Onganizagdo Judicidria — A defesa de interesses colectivos ¢ difusos (al. ¢)) " — A de promover a execugao das decisdes dos tribunais para que tenha legitimidade (al. g)) "9; : — A direcgio da investigagiio criminal (al. b)) °s — A de fiscalizar a constitucionalidade dos actos normativos (al. j)) “®; — A intervengio nos processos de insolvéncia ¢ em todos os que envolvam interesse ptiblico °© (al. 2); 16)” Cf, o art. 31.° do C.PCivil («tegitimidade para propor ¢ intervir mas ages © pro- cedimentos cautclares destinados, designadamente, & defesa da satide publica, do ambiente, da qualidade de vida, do patriménio cultural ¢ do dominio piiblico, bem como & protegio do consumo de bens ¢ servigos») ¢ 0 art. 9.9, n.° 2, do CPTA (degitimidade para propor e inter- vir, nos termos previstos na lei, em processos principais ¢ cautclares destinadas & defesa de valores e bens constitucionalmente protegidos, como a satide ptiblica, o ambiente, o urbanismo, 0 ordenamento do territério, a qualidade de vida, o patriménio culcural ¢ os bens do Estado, das regides auténomas ¢ das autarquias locais»). (160 Cfr, pot ex. 0 art, 57.° do C.RCivil (spromover a exccugéo por custas ¢ mutltas judiciais impostas em qualquer proceso») € os arts. 469.9 491.9, n. 1 ¢ 2, do C.RPenal {«promover...a execugéo por custas, indemnizago ¢ mais quantias devidas ao Estado ou a pessoas que he incumba representar judicialmente» c a exccugio por falta de pagamento da mult, respectivamente). 08) Cfr, os arts. 53.9, n.° 2, al. 2), ¢ 263.9, n.° 1, do C.PPenal (competéncia para. dirigit 0 inquérito, que, nos termos do disposto no art. 262.° desse cédigo, «compreende 0 conjunto de diligéncias que visam investigar a existéncia de um crime, determinar os seus agentes € a tesponsabilidade deles ¢ descobrir ¢ recolher as provas, em ordem & decisio sobre a acusagao», sem prejutzo de alguns actos a praticar durante o inquérito serem da competén- cia exclusiva do juiz de instrucao ¢ de outros sé poderem ser ordenados ou autorizados por este — arts, — art. 268.9 © 269.° do referido cédigo). Na direcgao da investigacio de crimes estritamente militares, 0 Ministério Publico ¢ igual- mente coadjuvado por assessores militares (arts. 22.°, al, ¢), ¢ 23.° da citada Lei n.2 101/203). (189 Assim acontece, como veremos (cfr. infra, n.° 11.2.), em sede de fiscalizacao concreta da constitucionalidade (art. 280.9, n.* 3 € 5, da C.Rep. ¢ art. 72.°, n° 1, al. a), no 3 da LOFPTConst.). We Cf, os arts, 13.9, n2 1, 20.9, n° 1, 37.%, no 2, 64.2, n° 2, € 72.9, n° 6, do Cédigo da Insolvéncia ¢ da Recuperagio de Empresas (CIRE), aprovado pelo Decreto-Lei n° 53/2004, de 18 de Margo. Saliente-se que a al. ) do n° 1 do art. 3.° do EMP, que conserva a redaccio da primitiva al. i) do no 1 do att. 3.9, resultante da Lei n.° 47/86, de 15 de Outubro, ainda se tefere a. aprocessos de faléncia e de insolvéncia». ‘Todavia, a distingio entre a faléncia e a insolvéncia (consoante 0 devedor fosse comerciante ou ndo comerciante), que se extrata dos arts. 1135.2 ¢ 1313.9 do C.Proc,Civil em vigor na altura em que foi aprovada e publicada a entéo denomi Coimbra Editora® sprodugitio 59 — A interposigao de recurso sempre que a decisao seja efeito de conluio das partes no sentido de fraudar a lei ou tenha sido proferida com violagao de lei expressa (al. 0/). 7.2. A responsabilidade e a subordinagio hierérquica dos magistrados do Ministério Péiblico Jé tivemos oportunidade de aludir ao facto de a Constituigio ¢ a lei contra- rem A citresponsabilidade dos jutzes» a responsabilidade dos magistradas do Minis- rio Piblico. E vimos, também, como a situagéo das duas magistraturas, desse nto de vista, ndo é substancialmente diferente “, com a ressalva de os magis- dos do Ministério Puiblico «responderem, nos termos da lei (...), pela observan- ia das directivas, ordens e instrugées que receberem» (art. 76.9, n.° 2, do EMP). A subordinagdo hierérquica, que nao existe no caso dos jutzes, estd consa- grada no art. 219.9, n.° 4, da Constituigéo, no art, 76.9, n.° 1, do EMP ¢ no art. 9.9, n.° 2, da LOSJ. De acordo com o disposto no n.° 3 do art. 76.° do MP, «[a] hierarquia consiste na subordinagiio dos magistrados [de grau infe- iada Lei Organica do Ministério Publico deixou de existir com a revogacao dos arts. 1135.° 1325.° desse Cédigo, operada pelo art. 9.° do Decreto-Lei n.° 132/93, de 23 de Abril. Desde entrada em vigor do CIRE, apenas existe o processo de insolvéncia, motivo pelo qual apenas jencionamos, em texto, a intervengio do Ministério Publico nos «processos de insolvéncia no, também, nos «processos de faléncia», que o legislador se esqueceu de eliminar). Cf, por ex., 0 att. 40.°, n.° 2, al. e), do CPTA {pedidos relatives a exccugio de ntratos, «quando se trate de cldusulas cujo incumprimento possa afectar um inceresse ptiblico -especialmente relevantey) ¢ art. 68.°, n.° 1, al. c), do CPTA (pedido de condenagio & pratica le um acto administrativo legalmente devido, «quando o dever de praticar 0 acto resulte ffectamente da lei e esteja em causa a ofensa de direitos fundamentais, de um interesse puiblico pecialmente relevante ou de qualquer dos valores e bens referidos no n.° 2 do artigo 9.°), . 141.9, ne 1, do C.Civil (legitimidade para requerer a interdigio), art, 192.9, n.° 3, do Civil (legicimidade para intentar acco para extingéo de uma fundagdo), art. 1639.9, n.° 1, C.Civil (legitimidade para intentar a acgio de anulaggo do casamento fundada em impe- dimento dirimente) ¢ art. 1980.9, n.° 5, do C.Civil (legitimidade para requerer a confianga \dicial do menor, com vista a fiutura adopgao). 169 A esse respeito, vide ANTONIO ALMEIDA SANTOS, O Ministério Pidblico num Estado ‘de Direito Democrdtica, in «Revista do Ministério Puiblico», Ano 19.° (1998), n.° 76, pag. 15 onde o A. afirma que os conceitos de responsabilidade ¢ de irresponsabilidade so «d rarentemente antitéricos, Coimbra Euitora® 60 Curso de Organizacito Judicidria’ rior] aos de grau superior, nos termos de tal estatuto, ¢ na «consequente obtigagio de acatamento por aqueles das directivas, ordens ¢ instrugBes tece- bidas» (a que também alude 0 n.° 2 do art. 2.°, a propésito da caracterizagio da autonomia do Ministério Puiblico), salvo, nomeadamente, se estas forem reputadas ilegais pelos magistrados a quem so dirigidas ou (quando nao sejam © emitidas pelo Procurador-Geral da Reptiblica “”) se forem vistas por eles como uma «grave violagao da sua consciéncia juridicay (are. 79.°, n.° 2, do EMP) “6, No topo dessa hierarquia encontra-se 0 Procurador-Geral da Reptiblica — que, como vimos, preside & Procuradoria-Geral da Repiblica "™ ¢ € coadjuvado € substituido pelo Vice-Procurador-Geral da Reptiblica (art. 13.9, n.° 1, do EMP) “7 —, a0 qual compete, nomeadamente, «{dJirigir, coordenar e fiscalizar a actividade do Ministério Publico ¢ emitir as directivas, ordens e instrugées a que deve abe- decer a actuagao dos respectivos magistrados (art. 12.9, n.° 2, al. 6), do EMP) 79 Além do Procurador-Geral da Replica ¢ do Vice-Procurador-Geral da Reptiblica, s40 magistrados do Ministério Publico, seguindo a ordem hierdr- -quica, os procuradores-gerais-adjuntos, os procuradores da Reptiblica e os procuradores adjuntos (art. 8.9, n.° 1, do EMP e art. 9.°, n.° 1, da LOS). 469 Q cumprimento das directivas, ordens e instrugées do Procurador-Geral da Reptiblica apenas pode ser recusado com fundamento na sua ilegalidade (art. 79.°, n.° 5, al. 4), do EMP). (58 Ainda de acordo com essa norma, a tecusa de cumprimento das directivas, ordens ¢ instrugées com fundamento em ilegalidade constitui um «devers, enquanto a baseada na «graye violagio da consciéncia juridica» do magistrado ¢ uma simples faculdade, Nos termos do disposto no n.° 6 do art. 79.° do EMP, «[o] exercicio injustificado da faculdade de recusa constitui falea disciplinar», : (9) Cf. supra, 0.9 7. (7 Q art. 13.9 n° 2, do EMP refere-se & coadjuvagio e substituigio do Procurador-Geral da Republica por procuradores-gerais-adjuntos nos tribunais mencionados na al. 4) do n° 1 do. att. 4, ou seja, no Tribunal Constitucional, no Tribunal de Contas, no Supremo Tribunal de Justiga “| € no Supremo Tribunal Administrativo — essa norma refere igualmente o