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Argumentagao: a ferramenta do filosofar Ker Capri 2 cn TM Mo Ft ie ‘Sender eres e nikie 0 nen Teagan ‘AS Se rete ann en “Ruri overs lel Jen wats pues do pot / ode por Mak ‘Giuichenat fons) cmt: le Rai LC ace ‘sini eal te op ia oon— ‘apescne oper Tod os reeds af erat arr WM Nr Pts Ll a of at am Cara MR Ss ee SPB “pha nhs Fa) 301102 enteritis ea arfatcey SUMARIO Apresentacio * 7 Introdugio * 9 1. Analisando argumentos © 15 2 O melhor debate filosdfico esta nas premissas « pressupostos # 22 ‘Montando e desmontando argumentos * 26 Tipos de raciocinio # 31 ‘Analisando textos © 37 ‘Texios aforismaticos + 62 Redigindo textos filoséticos * 65 Dicas de viagem © 67 temas foram cuidadosamente selecionados para abor- dar os tépicos mais importantes da reflexio filoséfica atual, sempre conectados com a historia do pensamento, ‘Assim, a colegao destina-se tanto dqueles que de- sejam iniciar-se nos caminhos das diferentes filosofias ‘como aqueles que ja esto habituados a eles € querem continuar 0 exereicio da reflexao. E falamos de “flo- sofias", no plural, pois nao ha apenas uma forma de pensamento. Pelo contratio, hai um caleidoscopio de cores filosdficas muito diferentes e intensas. Ao mesmo tempo, esses volumes sao também um material rico para o uso de professores ¢ estudantes de Filosofia, pois esto inteiramente de acordo com as orientagées curriculares do Ministério da Educagtio para o Ensino Médio e com as expectativas dos cursos bisicos de Filosofia para as faculdades brasileiras. Os autores so especialistas recomhecidos em suas areas, criativos e perspicazes, inteiramente preparados para ‘08 objetivos dessa viagem pelo pais multifacetado das filosofias. Seja bem-vindo e boa viagem! INTRODUCAO Sempre que desejamos expor nosso pensamento, nossa visio de mundo ou um assunto que conhecemos bem, procuramos convencer nossos interlocutores, Afi- nal, se mio quiséssemos convencer, nao teriamos mo- Livo para expor nossas ideias; seriamos indiferentes. Ao contrario, se nos exprimimos, ¢ porque pensamos ter azo, ou, ao menos, consideramos razodvels nossas ideias. Assim, ao tomar posigao sobre qualquer tema, ¢ a0 desejar que nossos interlocutores nos deem ouvidos, {eniamos mostrar como nossas conclusdes so verda- deiras. Em outras palavras, buscamos explicitar 0s mo- tivos pelos quais temos certos pensamentos, visbes de mundo etc (© mesmo acorre em todos 0s ramos do conheci- mento; afinal, quando, com honestidade intelectual, um fldsofo, um cientista, um historiador, um artista ete., anuncia uma descoberta ou uma nova interpretagio para algum tema, eles esperam ser acreditados, pois consideram suas afirmagdes mals adequadas para com- preender nossa experiéncia. E por isso, até, que nao ‘chamamos o “conhecimento” ou a “ciéncia” de simples ‘opinides”: Muitas vezes, eles nao passam de interpre- tagies diferentes do mesmo fato, mas, geralmente, tém © objetivo de corresponder a verdades sobre o mundo €.a vida. Resumindo, o conhecimento € a cigneia pro- curam certezas, Porém, mesmo quando manifestamos opinio pes soal sobre um assunta qualquer, também procuramos ‘convencer, Baseamto-nos em rnossas vivencias, em nossa Visio pessoal do mundo, em nossa bagagem de infor- magoes etc. Partimos, entio, de verdades conhecidas procuramos chegar a novos datos, novas interpreta~ Bes, novas certezas ¢ assim por diane. Nesse ponto, 0 procedimento de convencer ¢ comum tanto & opiniao como ao conhecimento, a ndo ser que, a0 dar uma opinido, ndo apresentemos motivos passi- ‘veis de debate, mas queiramos convencer pela forga, pela insisténcia, ou, como dizem, “no grito”, Ao contrario, se procuramos motivos para justificar 0 que pensamos, 10 adotamos uma postura muito parecida com a do conhe- cimento objetivo, da atividade filosifica, da ciéncia etc. Esse ponto comum é a tentativa de convencer, partindo de dados j4 adquiridos em nossas vivencias e chegando 2 conclusdes bem justifcadas. A esse procedtimento tam- bém chamamos argumentagéo, E a argumentagio do conhecimento, ow sea, que possuicerteza e nfo consiste apenas numa opinide bem defendida, € chamada espe- cificamente demonstragio. Na atividade fllos6fica, a filésofo pode chegar a novas interpretagBes de nossa experiéncia do mundo, assim como pode renovar antigas interpretagBes, Mas, antes de tudo, ele € um “especialista” da argumentagio e da demonstragao. Como sua atividade & sempre feita «mm didlogo com outros pensadores, ciemtistas, artistas etc, ele desenvolve a habilidade pr6pria de analisar a maneira como argumentamos para justificar nossas certezas ¢ opinives. Certamente vem dat a imagem do filésofo como alguém que sempre duvida ou pergunta. Essa imagem € parcialmente verdadeira, pois, como dissemos, o flé- sofo também pode chegara certezas. Sua divida nfo € aquela divida infantile gratuita, que pergunta a todo u tempo “por qué?", pelo puro prazer de perguntar ou sem ter interesse pela resposta, Ao contririo, €uma dii- vida que busca explicitar os motivos pelos quals per- samos © que pensamos. Fssa atituce evita 0 nosso fechamento mum mundo dois autorreferente; faz-nos buscar uma comuni- cacao sincera com os outros. E sempre ttl perguntar, diante de tudo 0 que nos dizem: “Seri que nosso inter- locutor nfo tem raz?" Buseando responder a essa per~ gunta, interessamo-nos pelos argumentos fornecidos no didlogo ou constatamos a auséacka de argumentos. ‘Ao mesmo tempo, € preciso saber que as certezas € as verdades obtidas pelo conhecimento, ¢ nao pela simples opinio vezes, io mesmo amiiguas (como, por exemplo, quando diferentes tendéncias da Fisica divergem em suas in- terpretagdes da explosto do big bang). No entanto, ainda assim ¢ possivel falar de conhecimento, @ nio de mera opinido, pois dados mais ou menos objetivos levam a aceitar uma teoria ea recusar outra, Nesse sen tido, quando um médico administra um antibidtico © obiém a cura de uma infeegio, ele nio esté lidando apenas com opinito. Ou quando um sociélogo reine nem sempre so definitivas. Muitas dados para afirmar que ha exploragao da mao de obra fem certos dominios do mundo do trabalho, também nao emite uma simples opinigo, Ou mesmo um fil6so.0, quando consegue concatenar methar suas idefas, para defender sua interpretagdo da experiéneia humana, a0 asso que outros, ao argumentar, servem-se muitas vvezes de recursos reiricas ou pessoais (geralmente au- toritarios), € preciso dizer que o primeiro aproxima-se mais de um conhecimento adequado a realidade, en~ quanto 0 outro equivoca-se ou permanece no campo Este cremplo contém um conju de reociios, visandosustentar un conchst Beep Para fa cltarnosa andi, procurem defies con- clus par, em segulda,Mentica s ecursosem- pregados pelo autor para justificd-la, No caso deste texto, ndo € dificil identificar a conelusto principal, porque ela esti no fim: “Os amigos, naturalmente, procuram © convivi,” Ent 4 RMIMEVEs © texto de tra pare frente; smn ED por ve, veremos como o ator ust MNAt0: Os amigos procram o conv porque ¢ quando se convve quelSesbe da cxs- tenia do amigo; Cera € sabendo da exisiéneia do amigo que al- ‘guém fica satisfeito, assim como sabe de sua pro- pria existéncias porque, assim como alguém se trata a si mesmo, assim também trata seu amigo; ‘afinal, a amizade é uma parceria, 8 NNesse caso, cada uma das conjungdes permite identifi- car um raciocinio, F a conclusio de um raciocinio se toma premissa do que vem em seguida. Seguindo a ordem do texto, temos: Premissa explicita: A amizade é uma parceria. Pressuposio: Na parceria, os parceiros tratam um a0) ‘outro como tratam a si mesmo. Conclusdo 1: 0 amigo trata seu amigo como trata & si Premissa explicita: 0 amigo trata seu amigo como trata asi mesmo. Premissa ceplicita: Alguém se satisfaz sabendo de sua pripria existéncia, Concluséo: © amigo também se satisfaz ao saber da cexisténcia do seu amigo. Premissa explicita: 0 amigo se satistaz av saber da exis- téneia do seu amigo. Premissa expltcita: E quando se convive que se sabe da cexisténela do amigo. Conelusdo: Naturalmente, 0 amigos procuram o convivie. FEssas estratégias de montar e desmontar racioci~ nios refletem nossa maneira de pensar. Também pode- 29 ‘mos dizer que nelas resume-se a metodologia da ar- gumentagao filosdfiea, Evidentemente, definir a me- todologia filoséfica ¢ algo muito mais complexo, mas, de modo geral, a atitude filos6fica consiste em analisar a estrutura das afirmagées e negagdes que fazemos em nossa leitura do mundo. E assim que desocultamos o ‘que ¢ implicito nos discursos, nas agbes ele, Ha filésofos que defendem tipos no raciocinativos de argumentacao (preferem formas de convencimento por imagens, intuigées poéticas, metdforas etc), mas, sempre que se procura justificar uma opinio ou qual- ‘quer forma de conhecimento, operamos com premissas € pressupostos. Explicitar esses mecanismos ¢ interpre~ tar nossa experiencia do mundo sto tarefas da ativi dade filosética. ‘Vejamos, entdo, os tipos de raciocinio possiveis. 20 4. Tipos de raciocinio E mais ou menos consensual entre os flsofos que nossas maneiras de raciocinar sfo cinco: (2) partimos de experiéncias parecidas ¢ repetidas, ¢ elaboramos uma conclusao geral. Por exemplo, de- pois de ver que virias poryées de Agua fervem a 100°C, fazemos uma frase sera, dizendo que “Toda porgio de agua ferve a 100°C’, As vezes, j4 com certa experiéncia no uso de uma conclusao geral, prevemos que casos particulares vo ocorrer. Por exemplo: “Como sabemos que chove quando ha nnuvens earregadas, concluo que ir chover, porque estou vendo muvens carregadas.” A esse tipo de pro- cedimento raciocinative chamamos INDUGAO; (b) outras veres, partimios de certos dados ja conhecidos « tiramos as consequéncias que esto implicit neles. Por exemplo, a0 dizer a frase “Todos os seres huma- a © (a) nos so moras" ¢ ao arescentar que *Séerates¢ um ser humano”, nao precios fazer grandes esforcos para ver que 0 nome “Sdcrates” estava incluido no sujeito da primeira frase. esse procedimento raio- cinativo em que incluimos dados particulares num principio geral charmamos DEDUCAO; otras vezes, anda, guiando-nos pela sensbildade para com certos sinais aparentemente nfo relacio- nados, chegamos a conclusbes que fazem sentido, por exemplo, como age um detetive ou como age 6 cientista no momento em que “ria” nova hips- teses indutivas. A esse procedimento chamamos ABDUGAO: podemos, ainda, estabelecer comparagdes explica- tivas entre situagoes distintas € raciocinar, entio, por analogia. Por exemplo, dizemos que, "assim como um ser bumano tem boa satide quando se alimenta bem, esses alimentos também devem ser saudaveis”, A rigor, *saiide” e “doenga” sio termos atribuidos a seres humanos, mas, como os alimen- tos causam a saide do set humano, dizemos, por analogia, que eles também so “saudaveis’ A essa maneira de raciocinar chamamos ANALOGIA; (e) algumas vezes, ainda, quando nao somos conhe- cedores de determinado assunto, confiamos na Palavra de quem conhece esse assunto, Isso ocorre, Por exemplo, quando confiamos na palavra de um médico, de um cientista etc. A esse procedi- mento argumentative chamamos ARGUMENTO. DE AUTORIDADE, Esquematizando, nossas maneiras de pensar com argumentos racionais so cinco: 1 Indugio 2 Dedugdo 5 Abducte 4 Aralogia 5 Argumento de avtridede raciocio Nosso objetivo, aqui, ndo é estudar os aspectos tée- nnicos desses procedimentos, mas apenas dar indicagdes Priticas que nos sensibilizem para a estrutura das ra- ciocinios em geral. No final deste livro, indicamos al uns titulos que podem conduzir o leitor por caminhos mais especificos, 33 Fagamos, entio, o exercicio de identificar os argu- mentos abaixo: Raciocinio 1 0s humanos so mortais porque so animais; e todo animal é mortal. Trata-se de um exemplo claro de dedugo ou raciocinio dedutivo, pois partimos de um principio geral, expresso pela altima frase (Todo animal € mortal) © mostramos que 0 caso dos humanos, expresso pela primeira frase (0s humanos sao animais), pertence a esse principio, de maneira que esse pertencimento permite obter a con~ clusdo (Os manos so mortais). Raciocinio 2 0 remédio x fez Pedro melhorar do estimago. O mesmo re- ‘médio fez Ana methorar do est) mago. 0 mesmo remédio fez Carlos melhorar do est6mago, 0 mesmo remédio fez duas ‘il pessoas melhorar do estémago, Entao, conclui-se que remédio x faz bem para o estomago. Teste é um exemplo de raciocinio indutivo, pois parte de muita observagdes particularese tra uma conclusto gral, Como se pode imaginar, é um raciocinio que pode ser frit gil, porque naa garante que o remédio x faré bem para o 34 ‘stémago de todos os seres humanos. Sempre poder haver ‘um caso em que o remédio nao fara o mesmo efelto, Mas isso ndo nos impede de tirar a conclusio de que esse re médio ¢ wii, de maneira geral, para o estomago. Raciocinio 3 Se todo chi é diurético, entdo este cha preto ajudard a oti- iizar 0 funcionamento de meus tins, Exemplo de racigeinio indutivo, pois prevé o mesmo feito com base na experigncia obtida por repetisio ¢ expressa na afirmagdo de que todo cha ¢ diurético, Raciocinio 4 ‘Suspeitando” que a substincia x poderia combinar com a substacia », 0 quimico decidiu testar a combinagao. Verifi~ ccando que dew certo, estou mais um grupo de substincias parecidas com y. Concluiu que x combinava com y. Neste exemplo, temos um caso de indugo, que experi- rmenta varias casos e tira a conclusio de que uma subs- tinct qualquct, chamada de x, combina com uma autra, cchamada de y. Mas 0 inicio dessa inducao foi uma ab- dugdo, suum momento mais ou menos intuitive, quando © quimico “suspeitou” que x combinaria com ye “in- ventou” uma hipétese (ou a descobriu mais ou menos intuitivamente), 35 Raciocinio 5 Joko afirma, com base nas pesquisas de alguns historiadores, ‘que os vikings tiveram uma passage pela América do Norte, muito antes do descobrimento do continente amerieano. Neste exemplo, temos um caso de argumento de auto- ridade, pois Joio nfo demonstra sua aflrmagio com cle- rmentos que algum interlocutor possa avaliar; talvez nem mesmo Joo possa avaliar as razOes para afirmar essa tese, pols no é historiador nem conhece os doca- Imentos histiricos originais. Ent, eonfla na palavra e no reconbecimento académica desses clemtstas, para re- petit a tese por eles apresentada Raciocinio 6 Assim como um reldgio€ sinal de que ha um relojeero,ram- bdém o mundo é um sinal de que ha um exador. Este é um caso de raciocinio por analogia, pois nao de- bate razbes para afimara exsténcla de um erador, mas se fundamenta no fato de que, assim como um reéio ndo se produziria a si mesmo, mas precisa de um relo- Jocro para exists ssim também o mundo nfo se teria produzido asi mesino, mas teria necessitado de wm cia- dor para exis 6 5. Analisando textos Os argumentos ou raciocinios aparccem em debates, conversas etc. No trabalho filoséfico, a principal fonte para conhecer os argumentos so os textos escritas, Tam- bbém houve pensadores que preferiram exprimir seu pen- samento pela pintura, como ocorreu no Renascimento, por exemplo, ou por meio de formas lterdrias diversas, ‘como sempre ocorreu na histéria da Filosofia. Mas a forma mais comum € 0 texto escrito, no qual se apresen- tam as razbes que sustentam as teses de cada autor. Por isso, a quem se aproxima da reflexao filos6- fica & necessirio conhecer 0 mecanismo da anilise de textos, assim como se d com os argumentos. Na ver- dade, o primeiro trabalho filoséfico consiste em iden- lificar os argumentos presentes nos textos, a fim de discutir seus pressupostos, premissas e conclusées. ‘Ao nos aproximarmos de um texto, devemos, antes de tudo, deixi-lo “falar”, Em outras palavras, isso quer 37 direr que, antes de o interpretarmes ov de darmos nossa opinido sobre ele, devemos Ie-lo eentende-o se- undo a maneira como sea autor 0 construia, Vemnos que a maioria das pessoas, quando 1é um texto, ja comega a falar sobre ele. Muitas vers, elas nem sequer oentenderam segundo a ordem das razBes do autor. Isso ndo ¢ aceitvel na atividade filoséfica. Por isso, propomos cinco passos para a anise 0 primeiro passo consiste em Ter 0 texto intcira- mente, mesmo que nio entendamos tudo 0 que lemos. E claro que, em se tratando de um vr, devemos i por partes (por capitulos ou por parigrafos). Nessa primeira leitura, devemos procuraridentificar 0 assunto central do texto e fazer o levantamento do yorabuliirio que nao conhecemos, marcando e anotando os termos desconhecidos. (0 sequndo passo consste em buscar o sentido dos termos desconecidos. & preciso notar se 0 préprio texto no expla o termo, pois, muitas veres, a deini- co € dada por ele mesmo. Se o texto ni explica um termo, entio recorremos a um bom diciondrio da Lin- iva Portuguese , se necessirio, a um hom disionério de Filosofia. 38 0 terceiro passo consiste em reler 0 texto, em ritmo mais lento, para identificar os argumentos ou racioct- nios do autor (seus pressupostos, premissas © conclu~ bes). F nesse ponto que comeyamos a comparar nossas cexperiéneias do mundo com as experiéncias do autor, CChamamos a esses argumentos ou raciocinios “movi rmentos" do texto, pols representam os movimentos do peasamento do autor. © conjunto desses movimentos compée o texto. 0 quarto passo consiste em enumerar esses movi- ientos, identificando a estrutura geval ou a armagao do texto. Trata-se de uma visio de conjunto muito eselarecedora. (0 quinto posso consisteem relacionar o texto ana- Tisado com o restante da obra do filbsofo ¢ com 0 con- texto histérico por cle vivido, pois isso amplia nossa compreensio, na medida em que podemos ver correla- ‘cbes com fatos, pessoas, tcorlas etc, importantes para ‘sclarecer 0 pensamento do autor estudado. Isso no cquivale a explicar 0 texio em fungéo do contexto, ‘como se allguém peasasse 0 que pensa apenas porque, ‘no mundo da sua época, ocorresse alguima coisa que 0 determina, Se fosse assim, muitos fldsofos e cfentistas 38 nfo se teriam adiantado com relagio a sew tempo. ‘Trata-se apenas de, com o auxitio de dailos ja bem as- sentados (histéricos, culturais, sociolégicos etc), esta belecer conexées que aprofundem a compreensie do texto, Eis os cinco passos na andlise de textos: (1) Ieitura do texto, identificando © assunto prin- cipal ¢ levantando 0 vocabulario desconhecido; (2) checagem do vocabulério, no proprio texto ou ‘num bom dicionétio; 6) identificacéo dos argumentos do autor; (4) enumeragao dos movimentos do texto; (6) correlagio do texto com 0 seu contexto histd- rico, Somente apds esse trabalho de analise que pode- ‘remos dispor do texto para interpreti-lo, concordando com ele ou discordando dele. Como dissemos, as pes- soas estiio acastumadas a ler um texto € a logo falar dele, encaixando-o num padrio preconcebido por elas. ‘Mas, para entender de fato um texto, € preciso ter a pa- cléncia de descobrir seu mecanismo, sua estrutura. “0 amos, entdo, 0 exercicio de anclisar um trecho extraido do capitulo 5 do livro intitulado Diseurso do imétado, de René Descartes (1596-1650); Por esses dois meios, podemos conlecer a diferenca que reside entre os homens ¢ 0s animais: € uma coisa bem observivel o fato de naa existirem homens tio aluci- nados nem tio estipides ~ ineluindo mesmo os doen- tes mentais-, que nao sqjam capazes de ajuntar algunas palavras e de compor com clas um discurso pelo qual tornem compreensivels seus pensamentos. Por outro Jado, também ¢ observavel que nenhur outro animal & ‘0 perfeito € to bem produzido, que pudesse ser se rmelhante ao homer. E isso no acontece porque thes Fallam érg&os, afinal, vemos que as peyas © os papa- ‘gnios podem dizer palavzas tanto quanto nés, mas nio podem falar como nds falamos, ou seja, falar dando ‘uma prova de que eles pensam o que dizem. Isso 10 ‘mostra somente que os animais tém menos razto do que (65 homens, mas que eles no tem nada parecido com DESCARTES, K, Discurso do metodo, 5 parte, 5 11,Trad. Javenal Savian Fo, a partir da edigio Gallimard (Paris, 2008). a 12 paso 1.1 Lendo o texto todo, vemos que seu assunto princt- pal é a diferena entre os seres humamos € os ani- mais. Isso quer dizer que o autor, René Descartes, procura saber o que torna os humanos diferentes dos animais. 1.2 Quanto ao vocabuldrio, nao hé difleuldades, pois 1s termos sao bem conhecidos, com excegio ape- nas do termo “pegas” (pronuncie /pégas/), 28 passo 2.4 Se procurarmos no dicionério o termo “pega”, ve- remos que & 0 nome de um passarg tipico da Eu- ropa e pertencente 4 familia dos corvideos. No cerrado brasileiro, encontra-se a gralhia-do-campo, parecida com ele, Certamente, com uma pesquisa na internet, pode-se visualizar 0 pissaro mencio- nado por Descartes (em francés = que € a lingua do autor do texto ~ este passaro se chama pie). Ao depararmos com seu nome no texto, prestamos mais atengio no exemplo, Alii, vemos que hi dois exem= plos, o das pegas € o dos papagaios. Descartes cita a ‘0s papagaios para falar dos animais que podem imitar a vor humana. Quanto as pegas, ele as cita porque elas costumam imitar barulhos fortes, lem- brando gritos humanos. Descartes quer dizer que anto os papagaios como as pegas podem nos imi- tar, mas nfo sto capazes de organizar as palavras, produzindo um discurso concatenado, como nés fazemos. 2.2 Pensando ainda no vocabuldrio, também vale a pena prestar atengiio na diferenga estabelecida por Descartes entre “seres humanos alucinados” ¢ “seres humanos estiipides”, Uma pessoa alucinada 6 alguém alterado, com suas capacidades mentais fora do estado normal; jé uma pessoa estipida € alguém que insiste em nilo usar suas capacidades mentais. Ao procurar entender 0 sentido desses ‘exemplos, veremos que mesmo uma pessoa que nflo usa suas capacidades mentais pode tentar or- ganizar as palavras para traduzir seus pensamen- tos. No caso de um doente mental, vemos que ele tenta exprimir os contetidos de sua mente, embora esta se encontre perturbata. {350 tudo no ocorre ‘com 0s animais, pois eles imitam sons sem pensar. “3 0 ser humano € diferente; ele concebe, antes, em sua mente, 0 que depois exprime pela linguager. 3 passo Buscando conhecer os argumentos do autor, vemos que eles consistem basicamente em dois. Ble inicia 0 texto dizendo que seu objetivo é tratar da diferenga centre seres humanos e animais, para depois raciocinar da seguinte maneira: {a) observamos que os seres humanos sto capazes de ajuntar palavras e compor com elas um discurso para exprimir seus pensamentos; (0) observamos também que nenhum animal pensa ‘© que diz (confirmagio pelo exemplo do papagato e das ppegas, que apenas imitam sons). Esses dois raciocinios consistem em inducdes, obtendo a mesma conclusio: a diferenga existente cenire seres humanos ¢ animais esta na eapacidade de pensar antes aquilo que se exprime pela linguagem, ou seja, na capaciddade de organizar um discurso com pa~ lavras articuladas. “4 48 passo Ao enumerar os movimentos do texto, veremos que o pensamento do autor estrutura-se em quatro mo- vimentos. Acompanhemo-los: {Por esses dois melas, podemos conhecer a diferenga {que reside entre os homens ¢ os animist} {6 uma coisa ‘bem observavel 0 fito de nao existir homens to alucl- nados nem tio estipids ~ inchuindo mesmo os doentes rentals -, que no sejam eapazes de ajuntar algumas pa- lavras e de compor com elas um discurso pelo qual tor- compreensiveis seus pensamenios.} {Por outro lado, também é observivel que nenhum outro animal tio perfeito c to bem produzido, que pudesse ser seme- Thante ao homem. B isso ndo acontece porque Ihe Fal- tam énfios, afinal, vemos que as pegs ¢ 08 papagaios podem dizer palavras tanto quanto nds, mas no podem falar como nés falamos, ou sea, falar dando uma prova de que eles pensam 0 que dizem.) {Isso do mostra so- mente que 05 tém menos razo do que os homens, mas que eles nio tém nada parecido com uma rea.) 45 12 movimento: comega com “Por esses dois meios” © vai até “e os animais” ~ nesse movimento, Descat- tes amuncia o assunto de que vai tratar no texto, ou seja, aquilo que diferencia os homens dos animais. 0 movimento termina por dois-pontos; isso quer dizer que mostrar em seguida essa diferenca. 2 movimento: comega em "é uma coisa” € Val até “seus pensamentos” — nesse movimento, Descartes diz que todos podem observar a caracteristica propria do ser hhumano, ou seja, a capacidade de organizar as pa- lavras e formar um discurso, um conjunto de pala- vas relacionadas entre si e com sentido, 0s discur- sos exprimem as pensamentos humanios, 3° movimento: comeca com “Por outro lado” ¢ vai até “pensam 0 que dizem” ~ com esse movimento, Descartes faz um contraponto ao movimento an~ terior, mestrando, agora, que nenhum animal, mes- mo 0 mais perfeito, € capaz de fazer 0 que o ser to é pensar antes de dizer. O exem- plo do papagaio e da pega confirma que, no mé- ximo, esses passaros nos imitam, mas mo so ca- pazes de conceber um pensamento € exprimi-lo com palavras articuladas. Eles tém ainda, no dizer humamo faz, i 46 de Descartes, os drgaos da fala, mas no tém a ca~ pacidade de pensar. ‘omega com “isso nao mostra” ¢ vai = com esse movimento final, Descartes sintetiza sua obscrvagao dizendo que os animais nao tém nada parecido com 0 que nds. temos, ou seja, a capacidade de conceber, pensando, aquilo que exprimimos pelas palavras. Nesse mo- viento, ele di um nome especifico para essa ca- pacidade: “raza” Se compararmos esse movimento com o primeiro, veremos que, no fundo, eles dizem a mesma coisa, afirmam que ha uma diferenca centre seres humanos e animais. 0 que oiltimo mo- vimento tem a mais & que ele di um nome para ‘essa diferenca: “razsio”, ‘Ao fazer um pequeno resumo do texto, podemos basear-nos nesses quatto movimentos, dizendo: “Des- cartes busca na observagio empirica a diferenga entre (0s setes humanos ¢ 0s animais. Fazendo isso, ele cons- tata, por um lado, que os seres laumanos podem cons- ‘ruir um discurso articulado, e, por outro lado, que os. animais apenas imitam sons humanos, sem exprimir ‘um pensamento por meio de palavras. Assim, Descartes a conclui que essa capacidade distingue os humanos dos animais, ¢ a ela denomina razio,” 5 paso Se estudarmos um pouco mais sobre a filosofia de Descartes, veremos que ele viveu no séeulo XVI, num momento em que as ciéncias modernas eomegavam a consolidar-se. As cincias modernas insistem forte rente nos procedimentos matematicos como modelo de pensamento € na necessidade das experiéncias em- piricas como fonte para a construgdo de toda ¢ qual- quer visio de mundo. E por isso que Descartes insiste nna observacao sensivel para estabelecer a diferenga entre os seres humanos ¢ os animals. Se estudarmos mais esse contexto, veremos como cresce nossa com- preensio do texto de Descartes. FEsses cinco passos mostram a utilidade do método de analise, pois entendemos o texto partir dele m ‘num esforgo por nao transferir para ele apenas aquilo que queremos ver. Um quimico, quando pretende analisar uma subs- tancia,divide-a nas partes que a compSem, para, com preendendo cada parte, ter maior compreensio do todo. 48 Tomemos, entio, como orientagio de nosso traba- tho a regra de “dividir para unit”: se dividirmos os tex- 10s fllosoficos nas suas partes (ou seja, nas unidades de raciocinio que eles contém), sera mais fic nossa com- preenso do conjunto. Essa estratégia pode ser usada tanto mos textos eseritos como nos falados, ou seja, ‘quando lemos um texto escrito ou quando ouvimos al= sguém defender uma teoria ou opinio Facamos 0 exercicio de analisar a argumentacio presente no texto abaixo: “0 homem & um animal politico”, de Aristételes (385-322 0.C.). © homem é um animal politico, mais do que qualquer abetha ou qualquer outeo animal greiirio. Afinal, como dlzemos com Frequéneta, a Nanureza nfo fz nada em vio. E somente os homens, entre 08 animais, sio dotados da fala £ verdade que a vos serve para significar a dor © 0 prazer, e & por isso que a encontramos tarmbém nos ani- mals: sua natureza se clevou até a capacidade de perce- ber dor e prazer, ede significé-los. Masa fala existe para manifesta oil 0 nocivo, ¢ também, por conseguinte, ry © justo © o injust. Por isso, hd uma $6 coisa, tipica dos setts humanos, que os separa dos animals: a percepcio do bem ¢ do mal, do justo edo injusto, ede outras nodes como esses. Fo fat de que essas nogdes so possudas em ‘comum ¢ que dé origem &s familias e ts cidades. ‘ARISTOTELES. Plitiea (1259b27-1253420). Tea. Juvenal Savian Filho, a partir da versio francesa ‘de P Pellerin (Paris: Pammarion, 1590), Esse & um texto muito bom para provocar debates. Certamente, depois da primeira leitura, jt temos vontade de dar nossa opinifio, a favor ou contra Aristdteles. Mas, para assumir uma atitude autenticamente filoséfica, pre- cisamos aprofundar nossa compreenstio, deixando 0 texto falar primeiro, Uma simples leitura no basta para perceber as conexdes estabelecidas entre as ideias ex- postas pelo filosofo. E preciso analisar seus argumentes. Seguindo os cinco passos da analise de textos apre= sentados anteriormente, temos: 1 passo 1.1 Assunto principal: para Aristoteles, o ser humano € um animal politic, e, pelo que percebemos do texto, ser um animal politico ndo significa apenas 50 evar uma vida coletiva, mas ter uma percepso ‘comum das nogdes morais ou éticas. 1.2 Quanto ao vocabulitio, talvez tenhamos proble- ‘mas com o termo “gregério” Mas também podemas restar atengdo nos termos “nocivo”, “percepco" © “nogao’, 22 paso Consultando um bom dicionério, vemos que os sentidos mais adequados ao texto sio: “greyirio = so~ cial, que vive em grupo” prejudicial"; *per- cepgio = conhecimento, identificagio"; “nogdo = pen~ sament, ideia. Vale também presiar tengo no termo “politico”, que, de acordo com o texto, indica aqueles seres que dependem de seu grupo para sobrevivere ttm ‘uma perceps2o comum das nogdes morais. A partir dessa dela & que Aristotees falaré das formas de go- ‘verno ete. Nao podemos influenciar-nos pela maneira comum de falar, associando “politico” apenas com ‘membros de partidos. Estamos falando da nossa de- pendéncia dos outros seres humanos para viver e per= ceber o que é bom para nés. Esse ¢ 0 sentido dado por Aristteles & politica. ‘nocivi cy 38 passo Buscando os raciocinios do autor, vemos que ele co ‘mega seu texto afirmando que o homem é uma animal po- litico ¢ justfica dizendo que & pelo fato de os seres hu manos posstuirem nogées morais (como 0 bom ¢ 0 maw, 6 justo o injusto) que eles se remem em familias ¢ ci- dades, Essas nocbes sto expressas pela ful, diferente ‘mente do ocorrido com os animals, que s6 possuem voz, instrumento para manifestar apenas dor ou prazer. Como haveria uma finalidade na Natureza fexpressa pela frase “A Natureza no faz. nada em vio"), 0 seres humanos scriam politicos por natureza, ou seja, sua finalidade es- {aria na sua realizagao por meio da vida comum. Orsi nnizando os raciocinios de Aristitees, teriamos: Premissa explicita 1: A Natureza nfo faz nada em ‘vio, [Esta premissa rege todos os angumentos} Pressuposto: A voz é produzida pela Natureza. Premissa explicita 2: A voz serve para significar a dor ¢ 0 prazer. Premissa explicita 3: 0s animais manifestam dor e prazer. 82 Conclustio 1: Os animais, pela produgao da Natu- reza, possuem vor. Premissa explicita 4: A fala existe para manifestar 0 itil e @ nocivo, o justo ¢ o injusto (nogdes morais). Premissa explicita 5: Os seres humanos manifes- tam a percepcio dessas nogoes. s seres humanos possuem Conclusdo pressuposta naturalmente fala. Pressupos(o: Os animais nao possuem fala, porque no tém nogées morals. Conclusio 2: Apenas os seres humanos possuem fala (manifestam nogdes morals). Conclusio 3: A fala € o que distingue os seres hu- manos dos animais Premissa explicita 6: As nogdes morais sao pos- suidas em comum. Pressuposto: A vida comum equivale a vida em fa- iia e em cidades. Conclusdo 4: A percepgao das nogdes morais di prigem as familias e cidades. Pressuposto: A percepgao comum das nogdes mo rais € um sinal mais forte de natureza politica. Premissa explicita 7 (= Conclusdo 4: Os seres hu- manos possuem em comum as nogOes morais, Concluséo 5 (principal): 0 homem ¢ um animal po- litico mais do que qualquer animal gregario. 48 paso ‘A maneira como Aristételes compbe esse texto di- ficulta um pouco a identificagao de movimentos, pois suas conclusdes esto todas entrelagadas, Guiando-nos pelos raciacinios que identificamas anteriormente, po~ demos dividir 0 texto em quatro movimentos: [0 hiomem ¢ um animal politico, mais do que qualquer bela ou qualquer outro animal grepirio,} {Afinal, co ‘mo dizemos com frequéncia, a Natureza nio fiz nada em vo. E somente os homens, entre 08 anima, sie do- tadas da fala, E verdade que a voz serve para significar dor € 0 prazer, ¢€ por isso que a encontramos também nos animais: sua natureza se elevou até a capacidade de pereeber dor e prazer, e de significéelos. Mas a fala 54 existe para manifestaro itil € 0 nocivo, e também, por conseguinte,o justo € o injusto,} {Por isso, hii uma 36 coisa, tipiea dos seres humanos, que 0s separa dos ani- mais: a percepgio do bem e do mal, do justo e do in= justo, € de outras nogpes como essas.} {Eo fato de que cessas nogties Sio possuidas em comum que dé origem fs familias as eldades.) 1? movimento: Aristételes apresenta, de inicio, a idea ‘que pretende defender, ou seja, sua concepc%o do hhomem como um animal politico. Ele 0 faz por contraposigdo as abelhas ¢ a outros animais tam- bem conhecidos por sua vida grupal. O ser hu- mano, no dizer do fildsofo, seria mais politico do ‘que qualquer animal gregario, Na realidade, essa ¢ a conclusdo de Aristéreles. Ele a adianta, para jus- lificé-la no decorrer do texto, 2 movimento: Arstteles busca provar sua afiemaslo, le clega mesmo a iniciar a frase pela palavra"ali- nal’, indicando sua intengo de dizer o qu tnt em mente quando fez a afirmagdo inicial. Nesse movi- 55 mento, ele contrapde yor ¢ fala, animais e seres humanos. 3" movimento: Aristoteles estabelece a diferenca entre seres humanos ¢ animais em toro da fala como expressio de nogbes morais. 4° movimento: Aristételes amplia a discussio inicial, mostrando que a origem da politica est na percep «40 comum das nogées morais, 50 equivale tam- ‘bem a uma retomada da afirmagao inicial, feta no primeiro movimento, porque explicita a diferenca centre @ vida comum dos humanos ¢ a vida comum dos animats, Nestes, a vida comum nfo significa po- Utica, diferentemente dos seres humanos, pois, no ‘caso dos humanos, a vida comum nao nasce de ins- tintos bésicos, como nos animais, mas principal- ‘mente da percepgo comum das nogées moras. 5° paso Agora, podemos dar 0 quinto passo ¢ inserir Aris- ‘tételes em seu contexto. Veremos que ele vivew num mo- ‘mento muito fértil, quando os gregos estavam dando acabamento a uma invengao iniclada havia alguns sé culos por eles mesmos: a politica. Se estudarmos a or- 56 #anizacao ¢ 0 funcionamento das cidades-estado gre- fas, com um pouco também das filosofias de outros pen- sadores, principalmente dos sofistas ¢ de Platfo, am- pliaremos nossa compreensao do texto de Aristételes, Agora, faga o exercicia de analisar a argumentagao dos textos a seguir, seguindo 0s cinco passos aqui apre- sentados. No final da anilise de todos eles, compare as ideias sobre os scres humanos contidas em cada um. Bom trabalho! Eis os textos: “£0 medo que produz a vida em sociedade”, de Thomas Hobbes (1588-1679). Se analisarmos de perto as causas pelas quais os homens se retinem e formam uma sociedade comum, veremos (que isso 86 ocorre por acaso, ¢ ndo por uma disposicao rnecesséria da Natureza, Com efeito, se os homens se amassem naturalmente entre si, nio teria motive para que nv amassemos 0 primeiro que aparecesse. Nao ha- vveria escola nem preferéncia, Porém a fato é que no rocuramos companheiros por algum instinto da Natu- 37 reza, mas pela honra e utlidade: que cles nos propor cloniam. Se nos aproximamos de alguém por obrigacio (ou por boas maneiras, nao ha verdadeira amizade, como acontece no palicio, onde muitas pessoas rivalizam € tm medo umas das outras mais do que se amam, HOBBES, T 0 cidad. Trad. re Juvenal Savin Filho, a parti da versio francesa de Sorbére (Paris: Flammarion, 1982) “A origem das linguas”, de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). O efeito natural das necessidades bisicas fol separar os homens; nao aproximé-los. Dai segue que a origem das limguas no € devida as necessidades bisicas dos ho- mens. Seria absurdo que da causa que os separa viesse ‘© melo que os une. De onde, enti, pode vir ess ort gem? Das necessidades morais, das paixBes, Todas as Daixdes aproximam os homens que, pela necessidnde de ‘ganhara vida, so forcados a fugit: Nao fol nem a fome ‘nem a sede, mas 0 amor, 0 6dio, a piedade, a edlera que thes arrancaram as vogais. Os frutas no escapam das nnossas méos; podemos alimentar-nos deles sem falar Perseyguimos em siléncio uma presa que queremos aba- tet, Mas, para emocionar um coragdo jovem ou para afastar um agressor injusto, a Natureza nos dita sota- ues, gritos, lamentos. ROUSSEAU, Jnl. Fasao sobre a orgem tas linguas,€3p. 2. Tred. Juvenal Savian Fitho, a partir da edigdo Harmatan, 2008. “0 Estado e a vida social”, de Simone Weil (1909-1943). Como certas fungdes do Estado servem ao interesse de todos, temos o dever de accitar de hom grado 0 que 0 Estado impde em relagao 2 essas fungdes.(Exemplo: re- ulamentacio do trisit.) Quanto ao resto, é necessit- rio softer o Estado como uma necessidade, mas nao aceité-lo dentro de més. Temos com frequéncia muitas, dificuldades nele, principalmente quando fomos educa dos numa certa atmosfera. Devemos recasar reconhecet as recompensas, utilizar ao maximo todas as liberdades que 0 Estado nos deixa. Também temos 0 direito de usurpar, contra lei, as Iberdades que o Estado nie nos deixa, desde que isso valha a pena, Temos o dever, quando as circunstancias nos permitem escolher entre varios regimes, de escolher 0 menos ruim. 0 Estado 50 ‘menos rim & aquele em que somos menos limitados pelo Estado € aquele no quall os simples cidadlos tem maior poder de controle (descentralizagio; cariter pll- blico e nao secreto das negdcios do Estado; cultura de uassa). Tenios o dever de trabalbar pela transformagao dda organizacao social: aumento do bem-estar materia € Instrugdo técnica ¢ tebrica das massas, WEIL S. Alas de Flosofe , 5. Adapt da trad bras. (Campinas: Papas, 1991 “0 homem se conhece pelo didlogo”, Martin Buber (1878-1965). Tomemos 0 caso de uma conversa verdadelra (quer dizer, uma conversa cujos parlieipantes ni se apegam ‘1 posigOes estabelecidas de antemifo, mas que & espon- ‘nea, com cada um dirigindo-se diretamente a seu in- tetlocutor, provocando nele uma resposta imprevisive!), dde uma aula verdadera (quer dizer, no uma aula repe- lida mecanicamente, nem aquela cijo resultado jf é co- inhecido pelo professor, mas uma aula que se desenvolve com surpresas tanto da parte do professor como dos alunos), de um abraco verdadeiro, e nfo de pura far- ‘malidade, uma correlaglo de verdad, ¢ nfo urna mers simulaco: em todos esses casos, 0 esencial nfo ocorre em um ow outro participants, tampouco em um mundo neutro que envolve os dois lados, mas, num sentide pre iso, “entre” os dis laos, numa dimensto a que ape- nas os dois tém acesso, E unicamente na relagao viva {que podemos reconhecer imediatamente a esséncia pe- culiar do homem. 0 gorila também ¢ um individiao; ccupinzciro também & uma coletividade. Mas 0 “eu” € 0 “tu” s6 acontecem no nosso mundo porque @ homem ¢ 0 “eu” existem através da relagao com 0 “ru’ Podeos dirigit-nos ao individuo c reconhecé-1o como hornem segunda as suas possibilidades de rag; podemas di rigit-nos a coletividade e reconhee®-Ia como o homem segundo sua plenitude de rela BUBER, Mi 0 probleme do homem. Concho, Trad. Juvenal Savian Filho, a partir da edigSo mexicana (Que 65 ef hombre? Cidade do México: FCE, 2002), a 6. Textos aforismaticos Para conclu, € Util saber que nem todos os textos, filos6ficos contém uma argumentagho explicta. Alguns deles s20 propositalmente eseritos ma forma de aforis- ‘mos, ou seja, de afirmacées sucinias ¢ direias do pen= samento de um autor. Para serem compreendidas, exigem que os situemos no conjunto da obra do seu autor, do contexto vivide por ele ete, Muitas vezes, a compreensdo dos afbrismos de certos autores exige 0 conhecimento da literatura produzida por especialistas. ‘Vejamos um exemplo clissico, extraido dos Pen- ‘samentos, de Blaise Pascal (1623-1662): 0 coragdo tem razdes que a razio desconhece; vemos Isso em multas ocasi6es. Digo que o eoragio ama o ser ‘universal naturalmeante, ¢ama a si mesmo naturalmen- tc, conforme se entreya-a ambos, Mas também, quando ‘quer, endurece-se contra um ou contra outro. Yoc® dei- 62 ou um ¢ escolheu outro: é seguindo a razdo que voet se ama? PASCAL, B Ponsamonios 277 [8 Trad. Juvenal Savian Filo, a partir ds edigh Gallimard (Pars, 2008), Apenas para explorarmos o exemplo, insistamos brevemente sobre a frase inicial, pois ela é muito ci- tada, em diferentes contextos, como se Pascal tivesse falado em favor dos sentimentos e contra a nossa ca- pacidade racional. Mas, lida isoladamente, 0 aforismo € quase incompreensivel, sobretudo se nos atemos 4 ‘comparacio entre um amor pelo ser universal e um ‘amor por si mesmo, De que estaria falando Pascal? ‘A melhor maneira de interpretar esse texto € cor- relaciond-lo com os outros textos de Pascal, registrados no mesmo estilo ¢ recolhidos na obra intitulada Pensa- ‘mentos, No texto de nimero 282, Pascal esclarece 0 que tem em mente quando fala do coragdo. Nao se trata apenas dos sentimentos, e a prova é que ele assacia coracéo com os conhecimentos matemiticas, No seu dizer, quando aceitamos os principios fundamentais da . no o fazemos porque nossa raziio os de- 63 monstra, afinal ela nfo € capaz de demonstrar o que parece evidente. Entio, nés aceitamos tais principios, ‘como ocorre numa experiéncia de fé, e essa experién- cia vem do coragao. Isso mostra que na raiz mesma da ‘matemitica, conhecimento racional modelar, ndo esta- riam a razao € a reflexio, mas 0 coragio ¢ a intuigao, Isso ocorreria em muitos outros dominios da vida humana, como é 0 caso de quem opta por um amor universal ou por um amor por si mesmo. Essa opcio nao € racional, mas nasce das profundezas de nosso ‘coragao, de nossa vida interior, que no se reduz aos raciocinios, Procurando ler conjunto dos Pensamentos de Pascal ¢ mesmo algumas obras que apresentem sua fi- losofia, nossa compreensio pode alargar-se muito, di- ferentemente do caso de ficarmos apenas reduzidos 40 fragmento isolado. 4 ‘Ao redigir um texto com tema filosofico, é ttl ter clareza sobre os argumentos que construimos. Entio, devemos refletir primeiro © montar raciocinios que pro- ‘vem nossas conclusdes. Deveros fazer 0 mesmo quando defendemos oralmente nossos pensamentos. 0 esmero ‘na demonstracio é a caracteristica fundamental de um texto filosdfico, Aliada a isso esté a qualidade da reda~ Ho, que devemos treinar junto com 0 bom conheci~ mento da norma culta de nosso idioma. Uma sugestao para redigir textos filoséficos é fazer sempre um plano da redagio, um esquema, para so- mente depois produzir 0 conjunto de argumentos. A dissertagao sera, ento, o resultado final do conjunto de argumentos. Como exemplo, tomemos 0 texto de Aristételes ci- ‘ado anteriormente ¢ intitulado “O homem é um animal politico’ Se quiséssemas escrever um texto como aquele, 65 teriamos, antes, de pensar no seguinte caminho ou esque: (1) Apresentar a ideia que pretendemos defender (exemplo: dizer que o homem é um animal politico) (2) Provar a idea (exemplo: utilizar 0 recurso da ‘comparagao entre voz e fala, animal ¢ homem); (6) Desenvoiver o tema (exemplo: explicitar a di- ferenga entre animal e homem); (4) Concluir (exemplo: tirar as consequéncias da al, explicitando a nogao de “politica’). ideia in Evidentemente, as redacdes mudardo muito, se- undo o que se espera de cada texto. Mas pense sem- pre que um plano ou esquema auxiliara voce a organi zar suas ideias antes de registra-las por escrito, Assim como buscamos entender as articulagdes de argumen- tos nos textos que lemos, também devemos cuidar para bem articular as ideias € argumentos nos textos que produzimos. DICAS DE VIAGEM Damos aqui algumas dicas de material que voce pode utilizar em sua formagao filoséfica ou simples- tividade de leitura de textos fllosdfleos. Sobre o tema da anélise dos textos, hi um artigo ‘mente na sua classico, fundamental para os que descjarem aperfei- oar-se na metodologia filoséfica. Trata-se do Apén- dice publicado no livro de Victor Goldschmidt, intitu- lado A religido de Platdo. Eis a referéncia: GOLDSCHMIDT, V. “Tempo histérico e tempo légico na in- texpretagio dos sistemas filosificos’ In: GOLDSCHMIDT, V.A religido de Platdo, Trad. Leda e Oswaldo Porchat Pereira. 2* ed. Sao Paulo: Difel, 1970, pp. 139-47. Um texto mais acessivel e que distingue bem ana- ise, comentario e interpretagdo de texto 6 VIEIRA NETO, P.“O que ¢ analise de texto?” In: FIGUEI- REDO, V. (ont). Seis flésofos na sala de aula, Sto Paulo: Berlendls & Vertecchia, 2006. Um artigo que exige maior fOlego do leitor, mas & muito cnriquecedor, por até debater a natureza da ati- vidade filoséfica, é: RIBEIRO DE MOURA, C. A. “Histéria stultiiae ¢ historia sa- pientiae” In: Discurso ~ Revista do Departamento de Fi- losofia da USP, Sto Paulo: Polis, 1988, volume 17, pp. 151-71. (Este artigo pode ser consultado gratuitamente no site da revista Discurso: wwrw.fllch.usp.br/aifsitef publicacoes/discurse.php,) A seguir, mais algumas sugestdes de material dil para acompanhar sua viagem nos caminhos da Filosofia: Dicionérios de Filosofia ABBAGNANO, N. Diciondrio de Filasofia. Trad. coord. ¢ re- Vista por Alfredo Bosi € novos textos por Ivone Bene- ett 5 ed, So Paulo: Martins Fontes, 2007. BRANQUINHO, J. Enciclopédia de termos lagica-flosdficos. ‘So Paulo: Martins Fontes, 2006. CANTO-SPERBER, M, Diciondri de dca ¢ Filosofia mora Trad. Ana Maria Ribeiro Althoff et al. 2 volumes. So Leopoldo: Unisinos, 002. FERRATER MORA, J. Diciondrio de Filosofia. Trad. Maria Stela Gonsalves etal. 5 volumes. io Paulo: Loyola. (E © melhor dicionio de Filosofia de que se dispde em lin- sua portuguesa) JAPIASSU, H.; MARCONDES, D. Dicionrio bisico de Filo- sofia, 38 ed. Rio de Janeiro: Jonge Zahar, 1996. LALANDE, A. Voceulério téenicoeeritce de Filosofia. Tad Fatima Sa Conca tal 3¥ ed. Sio Paulo: Martins Fon- ‘Na internet, um grupo de professores portugueses mantém 0 Diciondrio escolar de Filosofia, de boa qua- lidade, em versio online ¢ com acesso gratuito! No mesmo site, hi outros recursos tteis aos iniciantes: http: wwv.defnarede.com. Colecdes introdutérias ao estudo da Filosofia Volumes da colegio Filosofia Frente & Verso, Globo (Amor, Deus, Morte ete) Volumes da colesao Filésofos na Sala de Auls, Beslendis & Vertecchia, 6 Volumes da colegio Filosofia Passo a Passo, Jorge Zahar (Heidegger, Hegel ete). Volumes da colegao Logos, Moderna (Descartes, Espinosa, ‘Tomis de Aquino etc) Livros de histéria da Filosofia KENNY, A. Uma nova histéria da Filosofia. Trad. Carlos Alberto ‘Barbaro (vols. |, IIe IV) e Edson Bini (vol. I). Séo Paulo: Loyola. (E uma das melhores apresentagies gerais da historia da Filosofia traduzidas em portugues) STORIG, H. J. Histéria geral da Filosofia, Trad. Volney J. Ber kenbrock etal. Petrépolis: Vores, 2008. MARCONDES, D. Iniciagao éhistéria da Filosofia, 2 ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, SENELLART, M. Histéria argumentada da Filosofia Moral e Politica, Trad. Alessandro Zir. 2 volumes. Sio Leopoldo: Unisinos, 2003, Volumes da coles#0 Histéria da Filosofia, Unisinos, ‘Alguns livros sobre metodotogia filos6fica BORNHEIM, G. A. Introdugdo ao filosofar. Sie Paulo: Globo, 1989, IDE, P. A arte de pensar. Trad, Paulo Neves, Sto Paulo: Mar~ tins Fomtes, 2000. 1» FOLSCHEID, D. & WUNENBURGER, JJ. Metodologia flosé- “fea. Trad. Paulo Neves. 3 ed. Sto Paulo: Martins Fon- tes, 2006. LUNGARZO, C. 0 que € légica? Sto Paulo: Brasiliense, 1988 (colegdo Primeiros Paso. MORTARI, C. Inrodugdo & Iigica. S40 Paulo: Ed. da Unesp. 2001. Sites dteis para 0 estudo de Filosofia 1. 0 organismo oficial dos pesquisadores brasilei- 10s profissionais em Filosofia é a Associacio Nacional de Pés-Graduago em Filosofia (Anpofl. Seu site é: wwwanpof.ongbr. No site, vocé encontrara informa- ‘gbes aciministrativas relativas & pesquisa em Filosofia, ‘mas também informagées referentes a revistas, eventos, cic. Ha, também, revistas elecronicas de acesso gratuito. ‘Verifique em: hitp:/wowanpof.org.brirevistas. Ha ainda a Academia Brasileira de Filosofia, mais recente do que a Anpof, com outro perfil ¢ atuagao diferenciada: www. filosofia.org.br. 2. £ possivel encontrar varios sites de pesquisa fi- Joséfica. Um deles, com muitas referéncias sobre todos n ‘os campos da Filosofia, chama-se Sobre sites. Contém também grande parte de sites estrangeiros. Vale a pena visitar: htp:|/wwwsabresites.comfilosofia/index. htm. Um outro site com recursos interessantes para os ini- ciantes ¢ 0 mantido por professores portugueses com 0 nome de Critica. La se podem encontrar muitos textos Aratuitos, inclusive o Guia das falécias, de Stephen Downes, traduzido em portugués ¢ itil para os que d sejam aprimorar-se na atividade da argumentacao. ‘Além disso, hd textos de excelente qualidade sobre Hi toria da Filosofia, Logica, Filosofia Politica, Esttica etc: htip:[fcriticanarede.com/. 3. Ha varias revistas eletrOnicas de Filosofia, no Brasil, € com acesso gratuito! Vocé pode navegar pelos sites, identificando artigos que venham a interessar- -lhe, Alguns apresentardo um nivel maior de dificuldade para compreensio, mas outros serio mais acessiveis. Nao deixe de aproveitar a oportunidade de desfrutar da informasao filos6fica proporcionada por essas revistas. Fis alguns exemplos: Cadernas de Ftica ¢ Ftosofia Politica (USP) utp fwwwllch.usp.beffleep n Revista Abstracta ~ Linguagem, Mente ¢ Agao: hutp:!/wwwabstracta.pro.br Revista Cognit, voltada, sobretudo, para os estudos do pragmatismo (PUC-SP): tpl fr: pucsp br/pos losofia/Pragmatismofognitiod cognitio_folha_rosto.htm Revista Controvérsia, sobre assuntos flos6ficos variados: htip://www.controversia.unisinos.br Revisia Discurso (USP) Ittp//woewffch.usp.br/afsite/publicacoes/discurso.php Revista de Filosofta Antiga (USP/Unicampl: betp://wwve filosoflaantiga.com/documents/121.buml Revista de Filosofia (PUC-RI}: btp://wwwoquenosfazpensar.com Revista de Filosofia (USP: Inutp:/heww..Meh:usp.br/disite/publicacocs/discurso php Revista Principia (UFSC), voltada para epistemologtia: betp:!/www.eth.ufse.be/~prineipi/ind-p.htaal Revista Prncipios (UFRN), sobre assuntos filos6ficos variados: hhup:t/wirw.principios.cchlasufra.br Revista Sképsi, voltada para os estudos do ceticismo: naps! /vemwrevista-skepsis.com Revista Veritas (PUC-RS}: http/revistaseletzonicas puersbrfs/index php/veritas 2