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Termoacumulação: alternativa tecnológica para eficiência


energética.

A crescente necessidade de implantação de medidas de eficiência


energética leva cada vez mais a busca por tecnologias alternativas para
racionalização do consumo de energia elétrica.
Conforme exposto no capítulo 2, a demanda por energia aumenta a
passos largos, assim como a utilização de combustíveis fosseis, sendo os
investimentos necessários para acompanhar estes crescimentos altos e que
causam grandes impactos ambientais.
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Verifica-se também que os setores comerciais, industriais e de edificação


são grandes consumidores de energia elétrica no país, concentrando grande
parte deste consumo no horário de ponta, sendo uma expressiva parcela deste
consumo destinada a sistemas de climatização, onde a tecnologia de
termoacumulação aparece como uma boa opção de racionalização de energia.
Estes consumidores oferecem excelentes condições para implantação de
sistemas de eficiência, sendo um ambiente bastante favorável para gerar ganhos
sociais, econômicos e ambientais, com a autoprodução e Gerenciamento pelo
Lado da Demanda (GLD).
Do ponto de vista econômico, é mais atrativo investir-se em projetos de
eficiência energética do que na expansão do sistema elétrico nacional, além de
que estes projetos promoverem a conservação do meio ambiente.
A termoacumulação por ser uma tecnologia que possibilita o deslocamento
de carga, o que propicia a melhor utilização e gestão da utilização de energia, é
considerada como uma alternativa de eficiência energética.
Importante ressaltar, que a mitigação dos custos de energia com a
utilização do sistema de termoacumulação não está associada à redução de
consumo. O que ocorre é o deslocamento do consumo de um horário com
tarifação maior para um de menor tarifação, obtendo resultados
economicamente relevantes para a unidade consumidora [64].
Apesar de ser uma tecnologia antiga e que pode trazer grandes benefícios
ao setor energético, no Brasil a termoacumulação não é muito difundida e
explorada, bem como, não existem políticas de incentivo ao seu uso.
Termoacumulação: alternativa tecnológica para eficiência 50

4.1.
Fundamentos da termoacumulação

A termoacumulação é um sistema que transforma a energia disponibilizada


em períodos fora de ponta em energia térmica interna, que pode ser
armazenada em bancos de gelo ou tanques de água gelada [63].
Esta tecnologia pode ser aplicada, principalmente, em consumidores de
altas cargas e que utilizam energia no horário de pico, aos quais interessam
transferir a carga deste período, quando as tarifas são mais elevadas, para outro
com tarifa reduzida.
Assim a termoacumulação se apresenta como uma excelente alternativa
tecnológica para aliviar o sistema elétrico no horário de ponta, bem como
racionalizar o consumo de energia.
Através dela consegue-se eliminar a dependência direta entre a produção
e o consumo, ou entre a oferta e a demanda do efeito frigorífico gerado,
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tornando possível, por exemplo, operar sistemas de condicionamento de ar de


forma mais eficiente [63].
Destacando-se entre os principais candidatos ao uso deste sistema:
shopping centers, hotéis, supermercados, centros de convenções, edifícios
comerciais, estabelecimentos de ensino, aeroportos, indústrias em geral,
hospitais.
As principais vantagens da termoacumulação são:
• A redução do tamanho da CAG (Central de Água Gelada),
reduzindo o custo inicial dos equipamentos do sistema de
climatização;
• Proporciona o deslocamento da carga do horário de alto consumo
para outro de baixo, aliviando o sistema elétrico e reduzindo ou
retroagindo investimentos no setor;
• Proporciona redução de custos com energia e o gerenciamento
pelo lado da demanda.
• Gera maior confiabilidade e segurança do sistema de refrigeração,
devido ao armazenamento de energia;
• Proporciona uma redução na potência instalada, o que resulta em
uma menor demanda de energia, proporcionando um novo contrato
de energia;
• Possibilita o aproveitamento das diferentes modalidades de tarifa
de energia horo-sazonais para reduzir o custo com energia elétrica;
• Possibilita o melhor aproveitamento diário de energia, aumentando
o fator de carga do sistema de frio; e
• Contribui para a redução do impacto ambiental, por ser tecnologia
limpa.
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As desvantagens para a implantação do sistema de termoacumulação são:


• A necessidade de grandes espaços para instalação dos
reservatórios de armazenagem; e
• Altos investimentos iniciais em equipamentos.

4.1.1.
Formas de termoacumulação

As formas mais comuns de termoacumulação utilizam o armazenamento


térmico através de tanques de água gelada, gelo e outras substâncias que
mudam de fase, conhecidas como sais eutéticos. Essas formas diferenciam-se
pela quantidade de energia armazenada por unidade de volume e as
temperaturas em que armazenam o "frio" [46].
Nos tanques de armazenamento de água gelada, onde a água
normalmente fica armazenada a temperaturas entre 4°C e 6°C, o acúmulo de
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água gelada utiliza o calor sensível da água para armazenar frio e o volume de
armazenagem depende da diferença de temperatura entre a água fornecida pelo
armazenamento e a água de retorno, sendo a diferença de temperatura de 11°C
praticamente a máxima obtida, apesar de existirem sistemas instalados com
diferenças de 17°C. O volume mínimo de água gelada é de aproximadamente
0,086 m3/kWh para 11°C.
Nos tanques de armazenamento de gelo, a energia térmica é armazenada
sob a forma de gelo a 0°C, o acúmulo de gelo utiliza o calor latente de fusão da
água (335 kJ/kg), o volume armazenado depende da proporção final de
gelo/água em um tanque completamente cheio, variando geralmente de
0,02m3/kWh a 0,03m3/kWh, dependendo da tecnologia de armazenamento de
gelo utilizada, equipamentos especiais podem ser utilizados: “chillers” padrões
selecionados para trabalho a baixas temperaturas.
Para armazenar essa energia, o equipamento de refrigeração deve
fornecer fluido a temperaturas de –9°C a –3°C, ficando abaixo da faixa normal
de operação dos equipamentos de refrigeração convencionais e o fluido para
trocas de calor para formação de gelo deve ser uma solução anti-congelante
como o glicol, por exemplo. A armazenagem a baixas temperaturas do gelo
também proporciona a produção de ar a menores temperaturas para
resfriamento [46].
As soluções de sais eutéticos, que mudam de fase são disponibilizadas em
diversas fórmulas para derreter e congelar em diversas temperaturas. A
formulação mais comum para aplicações de termoacumulação é uma mistura de
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sais inorgânicos, água, e agentes estabilizadores e nucleadores, que derretem e


congelam a 8,3°C.
Essa solução é encapsulada em reservatórios plásticos retangulares
inseridos em um tanque de armazenamento pelo qual a água é circulada. O
volume de armazenamento de tal sistema é de aproximadamente 0,048
m3 /kWh, incluindo os reservatórios e a água no tanque. A temperatura de
mudança de fase dessa solução de 8.3°C permite a utilização de equipamentos
padrões de resfriamento para executar o acúmulo. Temperaturas de descarga
são maiores que as temperaturas de fornecimento da maioria dos sistemas
convencionais de resfriamento, portanto estratégias de operação são limitadas
[46].

4.1.2.
Tecnologias de armazenamento para sistemas de termoacumulação
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Os tanques de armazenamento de fluidos podem ser: i) de concreto, que


oferecem baixo custo de material e se caracterizam por ser pouco condutores de
energia térmica; ii) aço carbono, que apesar de possuírem alto custo de
aquisição e terem a necessidade de serem isolados, são mais práticos e
requerem pouca manutenção; ou iii) de fibra, que são rígidos, resistentes, com
baixo poder corrosivo e com custo razoável, porém são fabricados em tamanhos
pré-determinados, podendo ser um complicador quando da necessidade de
tanques de maiores dimensões.
As instalações dos tanques podem ser: subterrâneas ou parcialmente
enterrados, que reduzem os custos de isolamento térmico e de estrutura, ou,
totalmente dispostos ao meio ambiente, que são utilizados quando não é
possível escavar o terreno ou se deseja ter um controle visual de infiltrações
[16].
Os sistemas de termoacumulação com reservatórios de água gelada
possuem as vantagens de produção de água gelada a uma temperatura de
evaporação mais alta, consumindo menos energia; de utilização de um sistema
convencional, como os chillers; do funcionamento simultâneo do chiller e do
armazenamento é facilitado; da possibilidade de combinar o reservatório de água
gelada com o reservatório para combate a incêndio.
E as desvantagens da necessidade de grande espaço para a colocação
dos tanques de armazenamento; do grande volume de água no circuito; e das
dificuldades de evitar a mistura de água quente com a água fria.
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Já os sistemas de termoacumulação com reservatórios de gelo têm como


vantagens a redução do tamanho do acumulador; a produção de água gelada a
temperaturas muito mais baixas; a vazão menor de água gelada; menores
serpentinas nos fan-coils; e menor vazão de ar. Sendo a principal desvantagem
de sistemas com estes reservatórios a necessidade de equipamento especial de
refrigeração [63].
A figura 13 apresenta um reservatório de armazenamento de água gelada
construído em concreto, e, a figura 14 um reservatório de armazenamento de
gelo, construído em aço carbono.
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Figura 13 – Instalação típica de reservatório de água gelada


Fonte o autor

Figura 14 – Instalação típica de um reservatório de gelo


Fonte o autor
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4.1.3.
Tipos de sistemas de termoacumulação

Os sistemas de termoacumulação podem ser classificados de acordo com


o tipo de fluido utilizado e o modo de acumulação térmica empregada no
sistema, podendo ser [58]:
• Sistema de termoacumulação com água resfriada utiliza a
capacidade térmica sensível de água para acumulação do
resfriamento. A capacidade térmica sensível é a capacidade de
calor absorvida em uma mudança de temperatura sofrida por uma
determinada massa de água. Normalmente a água resfriada é
gerada e estocada com temperaturas variando entre 4°C e 5,5°C,
compatíveis com as características construtivas dos resfriadores de
líquido existentes no mercado.
• Sistema de termoacumulação com gelo utiliza a capacidade térmica
de absorção de calor no gelo, durante o processo de fusão o gelo é
armazenado a 0°C, durante os períodos de baixa carga térmica dos
ambientes climatizados ou quando os trocadores de calor (fan-coil)
estão na maior parte desligados.
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• Sistema de termoacumulação com gelo e fragmentos, neste


sistema uma máquina de gelo produz gelo em fragmentos que são
depositados em um reservatório de água.
• Sistema de termoacumulação com gelo em cápsulas utiliza
cápsulas seladas com água, submersas em um reservatório por
onde circula a solução de glicol.

4.1.4.
O funcionamento básico da termoacumulação

A figura 15 mostra a representação simplificada das instalações de um


sistema de termoacumulação, que é basicamente composta pelo chiller, pelo
tanque de armazenamento que pode ser de gelo ou água gelada e pelo fan-coil.

Figura 15 – Instalações básicas de um sistema de termoacumulação


Fonte [63]
Termoacumulação: alternativa tecnológica para eficiência 55

Durante o período no qual a carga térmica é reduzida ou que a instalação


não esta sendo utilizada, os chillers são ligados para armazenar água gelada em
reservatórios isolados termicamente, construídos de chapa de aço ou concreto
com várias câmaras interligadas (tipo labirinto) ou taques unicelulares (tipo
estratificado), que reduz as perdas por mistura e transmissão, melhorando a
eficiência do sistema.
No acionamento do sistema, o ambiente passa a consumir a carga térmica
armazenada nos tanques, desligando-se da rede de alimentação, somente
voltando a ser realimentando, após o horário de pico da rede elétrica.
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