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Universidade hoje Universidade hoje

Apresentação de Machado de Assis - I. Teixeira


A literatura hispano-americana - J. Joset
A civilização helenística - P. Petit
A literatura grega - F. Robert
A religião grega - F. Robert
A psicologia social - J. Maisonneuve MERCADORES
O inconsciente - J.-c' Fil/oux
A crítica literária - P. Brunel, D. Madelénat, J.-M. Gliksohn e D. Couty E BANQUEIROS
Sociologia do direito - H. Lévy-Bruhl
As teorias da personalidade - S. Clapier- Valladon
Literatura brasileira - L. Stegagno Picchio
DA IDADE MÉDIA
A crítica de arte - A. Richard
As primeiras civilizações do Mediterrâneo - J. Gabriel-Leroux
A economia dos Estados Unidos - P. George lacques Le Goff
A idéia de cultura - V. Hell
História da educação - R. Gal
História dos Estados Unidos - R. Rémond
As empresas japonesas - Masaru Yoshimori
Os celtas - V. Kruta
Epistemologia genética - J. Piaget
Descartes - G. Pascal
A produtividade - J. Fourastié
Aristóteles - L. Mil/et
História da imprensa - P. Albert e F. Terrou t,
O som - J.-J. Matras
História da psicanálise - R. Perron
A Contra-Reforma - N. S. Davidson
Mercadores e banqueiros da Idade Média - J. L. Goff
O socialismo utópico - J. Russ
História de Bizâncio - P. Lemerle

Em preparação:
A vida na Idade Média - G. d'Haucourt

Marfins Fonfes
Título original: MARCHANDS ET BANQUIERS
AU MOYEN AGE
publicado por Presses Universitaires de France,
Sumário
na col. Que Sais-Je?
Copyright Presses Universitaires de France, 1986
Copyright © Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,
para a presente edição.
Introdução .
1~ edição brasileira: dezembro de 1991

Tradução: Antonio de Pádua Danesi CAPÍTULO I - A atividade profissional 7


Revisão da tradução: Lilian Escorei de Carvalho
Revisão tipográfica: Andrea Stahel I. A revolução comercial, 7
Sadika Osmann 11. O mercador itinerante, 9
III. O mercador sedentário, 17
Produção gráfica: Geraldo Alves IV. Progressos dos métodos nos séculos XIV e XV, 26
Composição: Márcia Cristina Jacob

Capa - Projeto: M.F. CAPÍTULO li - O papel social e político 41


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) I. Papel social dos grandes mercadores, 41
II. Aspectos da dominação política da burguesia
Le Goff, Jacques. mercantil, 55
Mercadores e banqueiros da Idade Média / Jacques
Le Goff ; [tradução Antonio de Pádua Danesi ; revisão
da tradução Lilian Escorei de Carvalho). - São Paulo:
Martins Fontes, 1991. - (Universidade hoje). CAPÍTULO III - A atitude religiosa e moral 71
I. Banqueiros - Europa - História 2. Comerciantes
- Europa - História 3. Idade Média - História I. Tí- 1. A Igreja contra os mercadores: a teoria, 71
tulo. 11. Série. lI. A Igreja e os mercadores: a prática, 77
TIl. A mentalidade do mercador, 84
CDD-380.0902 IV. A religião do mercador, 88
91.2904 -332.10902
V. Evolução da atitude da Igreja para com
Índices para catálogn sistemático: os mercadores, 95
I. Banqueiros e bancos: Idade Média : História 332.10902
2. Idade Média : Banqueiros e bancos: História 332.10902
3. Idade Média: Mercadores e comércio: História 380.0902 CAPÍTULO IV - O papel cultural . 103
4. Mercadores e comércio: Idade Média: História 380.0902

ISBN 85.336.0031-3 I. Os mercadores e a laicização da cultura, 103


II. O mecenato dos mercadores, 111
Todos os direitos para o Brasil reservados à III. A cultura burguesa, 115
LIVRARIA MARTINS FONTES EDITORA LTDA. IV. Mercadores e civilização urbana, 127
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340 - Te!.: 239-3677
01325 - São Paulo - SP - Brasil B'b!" .r·
I lograJla . 131
Introdução

o esboço aqui apresentado é de ambições modes-


tas. Excluímos o menos certo, o que se apóia em um
número demasiado reduzido de documentos e traba-
lhos, o que continua sendo mais objeto de controvér-
sias entre eruditos e historiadores do que conquista -
embora provisória - da ciência e o que permanece nos
limites explorados apenas por alguns raros pioneiros
da investigação histórica. Com pesar tivemos de sa-
crificar o exame dos problemas à exposição dó presente
Lt <'o ~ 1.1''1 D estado de nossos conhecimentos.
------.- Cumpre, porém, no limiar deste pequeno livro,
explicar, se não justificar, essas limitações, colocar esses
problemas, evocar as orientações seguidas pelos pes-
quisadores.
OFRJ - IFCS - Dept." de História Em primeiro lugar, optamos por um contexto geo-
Programa de Pós- Graduação fi m gráfico específico: o da Europa cristã. Esperamos, com
História Social isso, ganhar em coesão, mas seguramente perdemos
CNPq Proc. n.~3.QXo.?B..r:!t..Mestrado em horizontes. Renunciar a falar do mercador bizan-
Proc. n." Doutorado tino e muçulmano era evitar tratar de gente pouco co-
Fornecedor: A~ ~....J"g;.J:(ª-S1 . nhecida, de personagens pertencentes a civilizações di-
ferentes ou mesmo hostis. Mas o comércio, embora
Nota Fiscal: ..·'?.L~ . suscite conflitos, constitui um dos vínculos maiores en-
Data da AquisiÇão:\~í.og.rq4 . tre as áreas geográficas, civilizações e povos. Mesmo
no tempo das Cruzadas as trocas comerciais - base
para outros contatos - não se interromperam entre
a cristandade ocidental e o mundo muçulmano.flvle-
lhor ainda, pode-se pensar ter sido a formação do Islã
que, longe de separar o Oriente do Ocidente, reuniu
os dois mundos criando, por seus grandes centros ur-
banos de consumo, um intercâmbio de produtos que
está na origem da renovação comercial do Ocidente
bárbaro. Em todo caso, é certo que o mercador vene-

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ziano construiu sua fortuna no contato com Bizâncio mente dito, operações financeiras de todos os tipos,
e que as grandes cidades marítimas da Itália foram bus- especulação, investimentos imobiliários e prediais.
car no domínio greco-muçulmano, de Ceuta a Trebi- Contentamo-nos aqui em evocar, para nomeá-los, os
zonda, de Bizâncio a Alexandria, o essencial daquilo dois pólos de sua atividade: o comércio e o banco.
que fez a sua riqueza. O mercador cristão, cuja ativi- Aliás, para designar os mais poderosos, os mais repre-
dade é posterior à do bizantino ou à do árabe, não lhes sentativos entre eles não empregou a própria Idade Mé-
tomou emprestados métodos, mentalidades, atitudes? dia o termo mercadores-banqueiros? Ora, esse tipo está
Esse abandono do mundo oriental, que teria sido ligado à fase de desenvolvimento da economia da Eu-
imperdoável se tivéssemos estudado o comércio me- ropa cristã, a partir do século XI. Renunciamos, pois,
dieval, julgamos poder aceitá-l o ao tratar do merca- a falar dos mercadores da Alta idade Média. Solução
dor. Segunda limitação deste pequeno trabalho: o co- cômoda, dir-se-á. Evitamos assim a necessidade de ex-
mércio propriamente dito - com o estudo de seus mer- por as múltiplas teses que se confrontam nesse domí-
cados, rotas, instrumentos, produtos e evolução - não nio; evitamos falar de seu número e de sua importân-
foi tratado em si mesmo. O que interessa aqui são os cia - ínfima para alguns, grande para outros -, de
homens que se dedicaram a ele. Sob este aspecto, o sua natureza - mercadores especializados ou de se-
mercador cristão, conquanto sua atividade se asseme- gunda categoria, independentes ou ligados a príncipes
lhe forçosamente à de seus congêneres orientais, está e a estabelecimentos religiosos, simples ambulantes ou
mergulhado num contexto político, religioso e cultu- capitalistas de largos horizontes -, de sua nacionali-
ral totalmente distinto. Ora, empenhamo-nos especial- dade - judeus ou indígenas -, e finalmente do pro-
mente em recolocá-lo no âmbito de sua cidade, Esta- blema capital de sua origem obscurecido pelas teorias
do, sociedade e civilização. O que ele fez de sua rique- - sobrevivência do passado, do mundo greco-romano,
za, de seu poder, fora do campo econômico, reteve- aventureiros itinerantes, proprietários prediais que se
nos particularmente a atenção. põem a investir capitais no comércio.
Ainda seria preciso escolher entre esses homens. t . Em todo caso, desse modo podíamos delimitar
Aqui, foram os pequenos que tivemos de sacrificar: mais facilmente a última alternativa: plano cronoló-
mercadores varejistas, usurários de prazo curto e ju- gico ou plano lógico? O que teria sido impossível se
ros elevados, vendedores ambulantes. A escassez de do- partíssemos das origens medievais afigurou-se legíti-
cumentos pessoais que os mencionam e a dificuldade mo num contexto temporal em que, depois do que se
do historiador em distinguir figuras individuais entre chamou justamente de "revolução comercial", as con-
eles determinaram essa escolha, assim como o desejo dições fundamentais da vida do grande mercador cris-
de mostrar sobretudo ostPersonagens a quem o pode- tão permanecem relativamente estáveis. Optamos, pois,
rio econômico permitiu d-esempenhar um papel de pri- por uma exposição sistemática na qual - sempre pro-
meiro plano tanto na política ou na arte como no mer- curando os vínculos entre as diferentes atitudes de um
cado. São, pois, os negociatores, os mercatores, que mesmo homem - se considerou o mercador-banqueiro
vamos mostrar. Homens de negócios, como se diz, e primeiro em seu gabinete ou no mercado - isto é, em
a expressão é excelente porque exprime a extensão e sua atividade profissional -, depois em face do no-
a complexidade de' seus interesses: comércio propria- bre, do operário, da cidade, do Estado - isto é, em

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seu papel social e político -, em seguida, diante da o problema conexo de suas gerações - novos-ricos ou
Igreja e de sua consciência - ou seja, em sua atitude filhos de ricos - nem o das preocupações fundiárias
religiosa e moral- e, enfim, perante o ensino, a arte, dos homens de negócio medievais.
a civilização - vale dizer, em seu papel cultural. Finalmente, mesmo no interior de um contexto
Tais opções não causaram apenas remorsos. Fo- geográfico e cronológico que fundamentalmente não
ram acompanhadas de arrependimentos cujos traços, mudou, levamos em conta tanto a diversidade do es-
que pareceram legítimos ou mesmo necessários, encon- paço - o mercador italiano não é o hanseático -
traremos mais adiante. quanto a evolução no tempo - o pioneiro do século
Se nos ativemos unicamente ao mercador cristão, XII não é o novo-rico do século XIII, as crises do sé-
não dissimulamos nem a amplitude geográfica de sua culo XIV produzem um tipo de negociante diferente
atividade, nem os problemas profissionais ou morais daquele engendrado pela prosperidade do século XIII,
suscitados pelos contatos com o mundo cismático, he- o contexto político do principado ou da monarquia na-
rético ou pagão. Não esquecemos que o mercador cris- cional modela um personagem distinto daquele surgi-
tão da Idade Média tinha horizontes mais amplos que do no contexto comunal dos séculos precedentes. É im-
os de muitos eruditos modernos que o estudaram. Se portante não se perder de vista que o desequilíbrio por-
Marco Polo é um caso excepcional ou, antes, extre- ventura encontrado em favor do mercador italiano se
mo, numerosos foram os seus confrades que percor- explica pela excepcional abundância da documentação
reram em pensamento todas as rotas por onde ele real- a ele concernente, pelo número e qualidade das publi-
mente se aventurou. cações que dele se ocuparam, pelo caráter "pioneiro"
Não quisemos tampouco evocar o mercador ou de seus métodos e pela amplitude de suas perspecti-
o banqueiro sem explicar de que se compunha sua vi- vas, que fazem dele um personagem exemplar - des-
da profissional. Do comércio esboçamos, pois, os mé- de que se tenha em mente que em outros lugares, de
todos, a organização, o contexto em que o comerciante modo geral, se está longe de ter avançado tanto quan-
evolui. to ele.
Não nos esquecemos igualmente de que, à som- Esperamos, então, que o leitor seja indulgente e
bra dos poderosos personagens tratados, os humildes, coloque em primeiro plano, entre as figuras que per-
os pequenos constituíam o tecido conjuntivo de um mitem compreender a cristandade medieval, entre aque-
mundo que não se podia compreender sem eles, e o les "estados do mundo" que o pessimismo da Idade
leitor poderá perceber na filigrana o seu rosto anôni- Média moribunda colocará na Dança Macabra - ao
mo. No mais, foi preciso questionar, a exemplo de emi- lado do cavaleiro, monge, universitário e camponês-,
nentes historiadores, a que correspondia a distinção o mercador, que fez a história como eles e com eles,
entre grande e pequeno mercador na Idade Média, se e com outros que, desejamos, possam obter um dia,
ela era redutível à oposição entre comércio atacadista segundo a bela expressão de Lucien Febvre o "direito
e varejista. à história".
Do mesmo modo, se deixamos de lado, em seu
aspecto histórico, o problema da origem do mercador
cristão na Alta Idade Média, também não eludimos

4 5
CAPÍTULO I

A atividade profissional

I. A revolução comercial

A revolução da qual a cristandade medieval foi


palco, entre os séculos XI e XIII, está ligada a alguns
fenômenos gerais com relação aos quais é difícil de-
terminar em que medida foram causas ou efeitos.
Em primeiro lugar, Q..Jim das invasões. Germa-
nos, escandinavos, nômades das estepes eurasiáticas
e sarracenos deixam de penetrar no coração da cris-
tandade, de afluir às suas margens. Aos combates su-
cedem as trocas pacíficas - aliás, modestamente nas-
cidas em meio às próprias lutas - e esses mundos hostis
vão revelar-se como grandes centros deprodução ou
consumo: aparecem os grãos, agasalhos de pele, es-
cravos do mundo nórdico e oriental que atraem ao mes-
mo tempo os mercadores das grandes metrópoles do
mundo muçulmano, de onde afluem, por sua vez, os
metais preciosos da África e da Ásia.
t A paz, relativa, sucede aos ataques, às pilhagens,
e a segurança permite uma renovação da economia e,
sobretudo, graças à menor periculosidade das rotas ter-
restres e marítimas, uma aceleração, ou antes, uma re-
tomada do comércio] Melhor ainda: com a diminui-
ção da mortalidade por acidentes e a melhoria das con-
dições de alimentação e das possibilidades de subsis-
tência, produz-se um incomparável s-urto dernográfi-
co que fornece à cristandade consuniidores, produto-
res, uma mão-de-obra, um reservatório onde o comér-
cio vai buscar os seus homens. E, quando o movimen-

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to se inverte, quando a cristandade ataca por sua vez, dia, Flandres, Champagne, regiões do Mosa e da Bai-
o grande episódio militar das Cruzadas já não passa xa Renânia. Essa Europa do Noroeste é o grande cen-
de uma fachada épica à sombra da qual se intensifica tro do comércio de tecidos, é - com a Itália do Norte
o comércio pacífico. e do Centro - a única região da Europa medieval em
A essas mudanças está ligado - fenômeno capi- relação à qual se pode falar de indústria. Juntamente
tal - o nascimento ou o renascimento das cidades+Se- c0!ll os gêneros do Norte e do Oriente, esses produtos
jam elas novas criações ou velhas aglomerações; é o de, indústria têxtil européia são as mercadorias que o
seu caráter novo e importante que determina o prima- hanseático e o italiano vão buscar nos mercados e nas
do da função econômica.Etapas de rotas comerciais, feiras da Champagne e de Flandres. Isso porque, nessa
articulações entre as vias de comunicação, portos ma- primeira fase de nascimento e desenvolvimento, o mer-
rítimos ou fluviais, seu centro vital fica ao lado do ve- cador medieval é sobretudo um mercador itinerante)
lho castrum feudal, do núcleo militar ou religioso, é
o novo bairro das lojas, do mercado, do trânsito das
mercadorias, É ao desenvolvimento das cidades que 11. O mercador itinerante
se ligam os progressos do comércio medieval' é no con-
texto urbano que cumpre situá; o crescimento do mer- 1. As rotas - Ao longo das rotas terrestres e aquá-
cador medieval. - ." ticas por onde transporta suas mercadorias, ele se de-
As diferentes regiões da cristandade não conhe- para com muitos obstáculos.
cem com a mesma intensidade essas manifestações ini- Primeiro, obstáculos naturais. Em terra, são as
ciais da revolução comercial.'; Individualizam-se três montanhas a transpor através de estradas precárias do
grandes centros, nos quais a atividade comercial da Eu- que por vezes se costumou dizer, mais largas do que
ropa tende a concentrar-se. Como os dois pólos do co- as estradas lajeadas ou cimentadas da Antigüidade, mas
mércio internacional se localizam no Mediterrâneo e ainda assim muito rudimentares. Se pensarmos que as
no Norte (domínio muçulmano e domínio eslavo- grandes rotas do comércio Norte-Sul devem transpor
escandinavo), é nos postos avançados da cristandade os Pireneus e sobretudo os Alpes - mais permeáveis
localizados na rota desses dois centros de atração que ao tráfego, mas onde o volume muito maior de mer-
se constituem duas franjas de poderosas cidades co- cadorias multiplica as dificuldades -, perceberemos
merciais: na Itália e, em menor grau, na Provença e desde já tudo o que o transporte de um carregamento
na Espanha; e na Alemanha do Norte) Daí a predo- de Flandres para a Itália, por exemplo, representa de
minância, na Europa medieval, de dois tipos de mer- esforços e de riscos. E não se deve esquecer que, se
cadores: o italiano e o hanseático, com seus domí- em certos trechos se utiliza o que subsistiu das vias ro-
niosgeográficos, métodos e personalidades peculiares. manas, se em alguns itinerários se encontram verda-
Mas,(entre esses dois domínios, há uma zona de con- deiras estradas, na maioria das vezes a estrada medie-
tato cuja originalidade está no fato de bem cedo acres- val, através dos campos e das colinas, é apenas "o lu-
centar à sua função de troca entre as duas áreas co- gar por onde se passa". Juntem-se a isso as insuficiên-
merciais uma função produtora e industrial} é a Eu- cias do transporte.II'alvez os progressos da atrelagem
ropa do Noroeste - 'Inglaterra do Sudeste, Norman- a partir do século X tenham sido uma das condições

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técnicas favoráveis, se não necessá~ias, ao _desen~olvi-
~ento do comércio) mas, em cammhos naopavimen-
tados, os resultados desses aperfeiçoamentos foram
f cadorias de preço elevado por um volume pequeno,
empregadas na toalete, na farmácia, na tinturaria e na
bastante limitados. Assim, ao lado da~ pesadas carro- cozinha -, o custo do transporte não passava de 20
ças de quatro rodas, dos veículos mais leves de duas a 250/0 do preço inicial, mas, para o que A. Sapori cha-
rodas, os animais de carga - mulas e cavalos -, com mou de "mercadorias pobres", pesadas e volumosas
suas selas e seus fardos, foram os agentes de transpor~e por um valor menor - grãos, vinho, sal -, tais des-
normais.(Considere-se ainda a insegurança, os bandi- pesas chegavam a 1000/0, 1500/0, às vezes até mais, de
seu valor original.
dos, senhores ou cidades ávidos por am~alhar r~cur-
sos através do simples roubo ou do confisco mars ou,
menos legalizado dos carregamentos dos mercadore~.! 2. As vias fluviais - Por causa disso, o merca-
E, sobretudo, talvez - porque mais freq~e?tes e mais dor medieval preferia as vias aquáticas. A condução
regulares -, as taxas, os direitos, os pe~agIOs de todo de madeira pelos rios, o transporte por barcos a vela
tipo cobrados por inúmeros senhores, cidades e comu- das outras mercadorias se praticam em grande escala
nidades para a travessia de uma ponte, um vau ou pa- onde quer que a navegabilidade dos rios o permita. Três
ra o simples trânsito em suas terras - em tempos de redes assumem, nesse particular, uma importância ím-
extrema divisão territorial e política. par por seu tráfego. A Itália do Norte, onde o rio Pó
: Quando essas taxas são cobradas como preç? de e seus afluentes constituíam a maior via de navegação
uma manutenção efetiva da estrada, a despesa ainda interior do mundo mediterrâneo, comparável- guar-
pode parecer legítima, e, a partir do século XIII, se- dadas as devidas proporções - à via atual dos gran-
nhores mosteiros e sobretudo burgueses constroem des lagos americanos. A via rodaniana, prolongada em
pontes 'que facilitam e aumentam um tráfego do qual direção ao Mosela e ao Mosa, foi até o século XIV o
eles retiram direta e indiretamente recursos conside- grande eixo do comércio Norte-Sul. A .rede, enfim, dos
ráveis' mas às vezes é "à custa dos usurários", dos pró- rios flamengos, completada a partir do século XII por
prios mercadores, que se constroem tais obras de ar- toda uma rede artificial de-canais ou vaarten e de
te como a ponte suspensa, a primeira do gênero, que f
I
barragens-eclusas ou overdraghes, é para a revolução
abriu pelo Gothard, em 1237, o caminho mais curt,o comercial do século XIII o que será para a revolução
entre a Alemanha e a Itália. Só no final da Idade Me- índustria! do século XVIII a rede dos canais ingleses.
dia é que uma política de obras públicas, d~ pa~te dos E preciso mencionar também a via Reno-Danúbio, de
príncipes ou dos reis no conte~to d~ or~amz~~ao dos crescente importância no fim da Idade Média, ligada
Estados centralizados, e uma isençao ~I.stematIca dos ao desenvolvimento da Alemanha média e meridional.
pedágios atenuarão tais despesas.As dificuldades, aos Em todo esse trabalho de equipamento, os mercado-
riscos incertos acrescentam-se, pOIS, para o mercador, res, antes dos príncipes, desempenharam por longo
essas despesas inevitáveis que tornam tão oneroso o tempo um papel preponderante.
transporte terrestre ..Para os produtos raros. e ~aros.-:
escravos tecidos de luxo e sobretudo "especiarias mIU- 3. As vias marüimas - Mas é o transporte por
das", expressão que abrange toda uma série de mer- ma~, meio por exocelência doocomércio medie~~ o c
nacional, que vai fazer a nqueza dos grançt~\~rca- ('/ '
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torestque nos ocupam particularmente. Ainda aqui, as vesas e espanholas carregadas de especiarias, as velo-
dificuldades continuam sendo grandes. zes naus venezianas que iam buscar o algodão nos por-
. Há, em primeiro lugar, os riscos de naufrágios e tos da Síria e de Chipre raramente excediam 500 tone-
de pirataria: Esta sempre campeou e~ .grande esc~la. ladas.
Obra de marinheiros privados a prmcipio, verdadeiros Havia enfim o problema da rapidez da navega-
empresários da pirataria, que a praticavam alter~ada- ção. A partir do século XIII, a difusão de invenções
mente com o comércio, e concluíam, com relaçao ao como o leme de cadaste, a vela latina, a bússola, os
seu exercício, verdadeiros contratos onde assegur~vam progressos da cartografia - conquistas em que, ao lado
sua parte do lucro ao honrosos comerciantes que fman~ da contribuição oriental e extremo-oriental, devemos
ciavam suas empresas. Ação das cidades e dos Estad~s destacar a contribuição dos marinheiros e cientistas bas-
também em virtude do direito de guerra ou de um di- cos, catalães e genoveses - permitem reduzir ou eli-
reito de naufrágio" que dava margem a várias interpre- minar os grandes entraves à rapidez das viagens marí-
tações, e, embora esse jus naufragii bem ced~ tenha s~- timas da Idade Média, que eram a ancoragem duran-
do abolido no Mediterrâneo (ainda que os reis angevi- te a noite, a interrupçãodurante o inverno e a cabota-
nos venham a restabelecê-lo no fim do século XIII, para gem ao longo das costas, Ainda em meados do século
grande escândalo dos italianos~, permane~e por mais XV, o ciclo completo de uma operação mercantil ve-
tempo no domínio nórdico, praticado espec~a~m~n~epe- neziana dura dois anos inteiros. Esse ciclo constitui-
los ingleses e bretões ao longo de uma tradição mmter- se de - transporte de especiarias de Alexandria a Ve-
rupta que conduzirá à guerra de corso dos tempos mo- neza, reexpedição dessas especiarias para Londres, re-
dernos. Só as grandes cidades marítimas - sobretudo torno de Londres com um frete de estanho, reexpedi-
Veneza - conseguem organizar comboios regulares es- ção desse estanho para Alexandria e recarregamento
coltados por navios de guerra. de especiarias para Veneza.O mercador precisa ter pa-
Ressalte-se também a pequena capacidade dos na- ciência e capital. Mas o fato é que o custo do trans-
vios. Sem dúvida, a revolução comercial e o crescim~n- porte por mar é infinitamente menos elevado do que
to do tráfego fazem aumentar a tonelagem dos navios por terra; 20/0 do valor da mercadoria para a lã ou a
mercantes'; Mas as pesadas koggen hanseáticas, adap- seda, 15070 para os grãos, 33070 para o alúmen.
tadas ao transporte das mercadorias volumosas e pe- Sigamos com Roberto Lopez e Armando Sapori
sadas, e as grandes galeras comerciais itali.an~s - pa~- um grupo de mercadores que no final do século XIV
ticularmente venezianas -, conquanto anngissem mil embarcam em Gênova com destino ao Oriente. O car-
toneladas no fim da Idade Média, representavam no regamento é constituído sobretudo de tecidos, armas
total apenas uma fraca tonelagem. A maior, ~arte ti- e metais. A primeira escala que se atinge, indo pela
nha uma capacidade menor: as koggen hanseáticas que costa ou pela Córsega, Sardenha e Sicília, é Túnis; a
transportavam a lã inglesa e o vinho francês ou ale- segunda, Trípoli. Em Alexandria, mercadorias de to-
mão no mar do Norte e no Báltico, as carracas geno- dos os tipos - produtos da indústria local e sobretu-
do importações orientais - vêm engrossar a carga. Se
se estaciona nos portos sírios - São João de Acre, Ti-
• Direito de aquisição de destroços ou bens abandonados por nau-
frágio. (N. R.) .
ro, Antioquia -, é para transportar viajantes, pere-

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12
grinos ou as mercadorias trazidas do Oriente pelas ca- bro-dezembro. As terras da Champagne eram assim
ravanas. Mas é Famagusta, na ilha de Chipre, o gran- um fato capital. Havia lá um mercado quase perma-
de entreposto das especiarias. Encontram-se ali "mais nente do mundo ocidental. Desse modo, durante dois
especiarias que pão na Alemanha". Em Latakia, no ou quatro meses do ano, reina nessas cidades uma ani-
ponto de chegada das rotas da Pérsia e da Armênia, mação extraordinária que o trovador Bertrand de Bar-
encontram-se também, segundo Marco Polo, "todas sur-Aube descreveu numa primavera:
as especiarias e tecidos de seda e coisa dourada da Ter-
ra". Em Focéia, é o precioso alúmen que se embarca, faz calor e o céu é claro,
enquanto Quios é a escala dos vinhos e do mástique, A relva está verde e a roseira em flor.
que serve tanto para a destilação de um licor muito .............................................................

apreciado como para a preparação de uma pasta den- Puseram-se a vagar os mercadores
Que trouxeram bens para vender.
tal bastante procurada. Bizâncio, em seguida, é uma Desde o raiar do dia,
parada obrigatória na grande encruzilhada das rotas Até a noite cair,
do Levante. Depois, atravessando o mar Negro, vai- Não param de ir e vir,
se recolher em Caffa, na Criméia, os produtos da Rús- Até que a cidade esteja repleta.
sia e da Ásia, trazidos ao longo da rota mongol: tri- Fora da cidade se alojam nos prados,
Onde têm tendas e pavilhões fechados.
go, pele, cera, peixe salgado, seda e sobretudo, talvez,
escravos. Muitos desses produtos não são levados pa- Para chegar lá, os mercadores fizeram uma lon-
ra o Ocidente pelos nossos mercadores, mas vendidos ga e difícil viagem; os italianos que transpuseram os
em Sinope ou em Trebizonda. Os mais audaciosos po- desfiladeiros alpinos passaram cinco semanas na es-
dem partir dali, escoltados até Sivas pela polícia tár- trada. Precisavam, em primeiro lugar, de alojamen-
tara, para Trabiz e para a Índia, como Benedetto yi- to. A princípio, construíam-se acampamentos provi-
valdi; ou para a China, por via terrestre através da Asia sórios nas praças ou fora da cidade. Depois, os habi-
central ou por mar de Bassora ao Ceilão, como Mar- tantes alugavam aposentos ou casas aos mercadores.
co Polo. Por fim, foram construídas para eles casas especiais
de pedras resistentes a incêndios, com grandes subter-
4. As feiras - Mas no século XIII a grande meta râneos abobadados para armazenar as mercadorias.
do mercador itinerante são as feiras da Champagne. Mercadores e habitantes gozavam de privilégios
Essas feiras realizavam-se em Lagny, em Bar-sur- consideráveis, e a fixação e o desenvolvimento das fei-
Aube, em Provins e em Troyes, e sucediam-se ao lon- ras estão intimamente ligados ao crescimento do po-
go do ano: em Lagny, elas aconteciam em janeiro- der dos condes da Champagne e ao liberalismo de sua
fevereiro, em Bar, em março-abril; em Provins, política.
realizava-se a feira de Maio em maio-junho, em Tro- Há, inicialmente, os salvo-condutos concedidos
yes a feira de São João acontecia em julho-agosto, em em toda a extensão das terras condais. Em seguida, ..
Provins, novamente, a feira de Santo Ayoul era em a isenção de todas as taxas servis sobre os terrenos onde
setembro-novembro, e em Troyes, enfim, uma segun- se construíram alojamentos e estabelecimentos comer-
da vez, a feira de São Remígio realizava-se em novem- ciais. Os burgueses foram isentados das talhas e dos
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foros em troca de taxas fixas resgatáveis. Os terráde- ção profunda das estruturas comerciais, que faz apa-
gos e as banalidades foram abolidos ou limitados con- recer urna nova figura de mercador: o mercador se-
sideravelmente. Esses mercadores não estavam sujei- dentário, no lugar do mercador itinerante. Este era co-
tos nem aos direito de represailles e de Marque, nem nh~cido corno o "pé empoeirado" ao longo das estra-
ao direito de aubaine e de epavel; Os condes, sobretu- d~s; doravante, ele dirige, de sua matriz, graças a téc-
do, asseguravam o policiamento das feiras, controla- mcas cada vez mais evoluídas e a uma organização cada
vam a legalidade e a honestidade das transações, ga- vez mais complexa, uma rede de associados ou de em-
rantiam as operações comerciais e financeiras. Criaram- pregados que torna inúteis tais deslocamentos.
se assim funcionários especiais, os guardas das feiras,
funções públicas, mas freqüentemente confiadas a bur-
gueses pelo menos até 1284, quando os reis da Fran- 111. O mercador sedentário
ça, assenhoreando-se da Champagne, passaram a no-
mear funcionários da coroa O controle das operações
e ,
Certamente, essa organização e esses métodos co-
financeiras e o caráter semipúblico dos cambistas con- meçaram a desenvolver-se na aurora da revolução co-
tribuíram, além das razões puramente econômicas, pa- mercial, mas é nos séculos XIV e XV que atingem o
ra conferir a essas feiras um de seus aspectos mais im- apogeu e se generalizam de tal forma que agora se torna
portantes, "o papel de urna clearing-house embrioná- necessário abordar esses novos tipos de mercadores se-
ria" - difundindo-se o uso de regular as dívidas por dentários, no centro de seus negócios.
compensação. Bem cedo, o mercador teve de procurar capitais
No início do século XIV, essas feiras começam a Forade seus próprios recursos na medida em que a am-
declinar. Para tal declínio, procurou-se muitas causas: pliação e diversificação dos negócios determinavam tal
a insegurança instaurada na França, no século XIV, direção.
com a Guerra dos Cem Anos, o desenvolvimento de O problema do crédito, que mais adiante veremos
urna indústria têxtil italiana provocando urna queda ter sido singularmente complicado para a cristandade
- seguida de urna reorganização - do comércio de medieval em razão de preocupações religiosas e mo-
tecidos flamengo, principal abastecedor das feiras. Fo- rais, foi resolvido de várias maneiras, das quais só po-
ram fenômenos que conduziram ao abandono da rota demos mencionar aqui as principais.
francesa, Strata jrancigena, grande eixo que unira o Houve, primeiro, o empréstimo sob suas múlti-
mundo econômico do Norte ao domínio mediterrâneo, ~l~s formas. Uma delas, particularmente importante,
em proveito de duas rotas mais rápidas e menos dis- fOI a letra de câmbio, e mais adiante veremos a opera-
pendiosas: urna rota marítima que, partindo de Gê- ção de crédito que ela representou. Mas, ao lado do
nova e de Veneza, desemboca, pelo Atlântico, pela simples empréstimo, cumpre destacar o empréstimo
Mancha e pelo mar do Norte, em Bruges e em Lon- marítimo. Sua originalidade decorre do fato de o reem-
dres, e uma rota terrestre renana ao longo da qual se bolso do empréstimo estar ligado ao retorno do navio
desenvolverão nos séculos XIV e XV as feiras de Frank- são e salvo com o respectivo carregamento, salva eun-
furt e de Genebra.Mas o declínio das feiras da Cham- (~n.avi. Assim, esses empréstimos eram quase sempre
pagne está ligado, .principalmente, a urna transforma- limitados a uma viagem ou, mais exatamente, a uma
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ida-e-volta que se pode dizer ter constituído na Idade Eis o texto de um desses contratos, concluído em
Média a unidade de operação comercial marítima. Gênova em 29 de setembro de 1163.

1. Contratos e associações - Houve, sobretudo, Testemunhas: Simone Bucuccio, Ogerio, Peloso, Ribaldo di
Sauro e Genoardo Tosca. Stabile e Ansaldo Garraton for-
diversos tipos de associação pelos quais o mercador, maram uma societas na qual, segundo suas declarações, Sta-
saindo de seu isolamento, pôde estender a rede de seus bile trouxe uma contribuição de 88 liras, e Ansaldo, de 44
negócios. liras. Ansaldo leva esse capital, para fazê-lo frutificar, a Túnis
Uma forma fundamental de associação foi o con- ou a qualquer lugar onde deve passar o navio que ele utiliza-
rá - a saber, o navio de Baldizzone Grasso e de Girardo.
trato de "commenda", também chamado "societas Quando regressar, remeterá os lucros da partilha a Stabile
maris" em Gênova e "collegantia" em Veneza. Os con- ou seu representante. Deduzido o capital, dividirão os lucros
tratantes apresentavam-se como associados na medi- meio a meio. Contrato realizado na casa do Capítulo, em
da em que havia partilha dos riscos e dos lucros; no 29 de setembro de 1163.
mais, porém, suas relações eram as mesmas existentes Ademais, Stabile autoriza Ansaldo a enviar esse dinheiro
a Gênova pela embarcação que lhe aprouver.
entre um emprestador e um devedor.
No contrato de "commenda" puro e simples, um Para o comércio terrestre, os tipos de contratos
comanditário adianta a um mercador itinerante o ca- de associação eram mais numerosos, mas podemos
pital necessário a uma viagem de negócios. Se houver reduzi-los a dois tipos fundamentais: a compagnia e
perda, o emprestador arca com todo o ônus financei- a societas terrae. Os primeiros exemplos conservados
ro e o devedor só perde o valor de seu trabalho. Se desses gêneros de contratos se referem aos venezianos
houver lucro, o emprestador, sem sair de seu domicí- e recebem o nome particular de fraterna compagnia,
lio, é reembolsado e recebe uma parte dos ganhos, em mas foram sobretudo os mercadores residentes nas ci-
geral três quartos do total. dades do interior que os empregaram.
Na commenda que se denomina mais especifica-
mente societas ou collegantia, o comanditário que não Na compagnia, os contratantes estão intimamen-
viaja adianta dois terços do capital, enquanto o deve- te ligados entre si e compartilham riscos, esperanças,
dor contribui com um terço do capital e seu trabalho. perdas e lucros. A societas terrae assemelha-se à com-
Se houver perda, esta é dividida proporcionalmente ao menda. O empresta dor é o único a correr o risco de
capital investido. Se houver lucro, este é dividido meio perda e os ganhos são geralmente divididos meio a
a meio. meio. Há, porém, maior flexibilidade na maioria das
Em geral, o contrato era concluído para uma via- cláusulas: as partes de capital investido podem variar
gem. Nele se especificava a natureza e a destinação da muito; a duração da organização, em geral, não se li-
empresa, ao mesmo tempo que algumas de suas con- mita a um negócio, a uma viagem, mas define-se por
dições - por exemplo, a moeda na qual seriam pagos um certo período - um, dois, três ou quatro anos,
os lucros -, ou se dava ampla latitude ao devedor, na maioria das vezes. Finalmente, entre esses tipos fun-
que, com o tempo, foi adquirindo cada vez mais inde- damentais da compagnia e da societas, existem nume-
pendência. rosos tipos intermediários onde se combinam diversos

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aspectos dos dois. A complexidade desses contratos No século XV, uma casa como a dos Mediei é des-
expressou-se em documentos infelizmente muito lon- centralizada. Consiste numa combinação de associa-
gos para serem exemplificados aqui. ções independentes, com capital próprio, cada qual
com sua sede geográfica. Ao lado da matriz de Flo-
Em torno de alguns comerciantes, famílias e gru- rença, estão as filiais: Londres, Bruges, Genebra, Lyon,
pos, desenvolveram-se organismos complexos e pode- Avignon, Milão, Veneza, Roma, administradas por di-
rosos aos quais se deu geralmente o nome de "com- retores que são só parcial e secundariamente funcio-
panhias", no sentido moderno do termo I. As mais cé- nários assalariados, pois, antes de tudo, são coman-
lebres e mais bem conhecidas foram dirigidas por ilus- ditários à testa de uma parte do capital - é o caso dos
tres famílias florentinas: os Peruzzi, os Bardi, os Me- Angelo Tani, dos Tommaso Portinari, dos Simone Ne-
dici. Mas é preciso assinalar, na esteira dos historia- ri, dos Amerigo Benci, etc. Os Mediei de Florença só
dores que as estudaram - e, em primeiro lugar, Ar- são o elo de ligação entre todas essas casas porque têm
mando Sapori -, que detectamos profundas modifi- em cada uma delas capitais quase sempre majoritários
cações estruturais entre as companhias dos séculos e porque centralizam as contas, as informações e a
XIII-XIV e as do século XV, pelo menos no âmbito orientação dos negócios. Mas basta um Lorenzo me-
italiano. nos atento que seu avô Cosme negligenciar os negó-
Tais sociedades se baseiam em contratos que vin- cios e as filiais tendem a ter vida própria; os conflitos
culam os contratantes apenas pór uma operação co- se desenvolvem no interior da firma; o edifício se de-
mercial ou por uma duração limitada. Mas a renova- sintegra - ruína facilitada pelo número de pessoas do-
ção habitual de alguns desses contratos, a presença sem- ravante interessadas no negócio, pois parece que da
pre dos mesmos nomes numa vasta superfície econô- participação passaram agora ao depósito. Se os depó-
mica, contribuindo regularmente com capitais consi- sitos representam, de ora em diante, uma parcela im-
deráveis em empresas de primeira importância, todos portante do capital, da reserva financeira da empre-
esses vínculos comerciais tecidos em torno de algumas sa, esta se torna mais vulnerável devido às necessida-
cabeças fazem delas os chefes de organismos estáveis, des, hesitações, exigênciase temores desses depositantes
que ultrapassam o caráter efêmero das operações par- que não têm, ao reclamar o seu dinheiro, os escrúpu-
ticulares e dos contratos que as definem. los dos antigos participantes, unidos entre si pela soli-
Nos séculos XIII-XIV, essas verdadeiras casas co- dariedade dos laços familiares e dos vínculos da cola-
merciais são fortemente centralizadas, tendo à sua fren- boração comercial.
te um ou vários comerciantes que possuem uma rede
de sucursais e são representados fora da matriz, onde Foi a partir dessas grandes sociedades, desses po-
residem um ou mais dirigentes, por funcionários as- derosos personagens, que se desenvolveram verdadei-
salariados. ros monopólios e o que já podemos chamar de car-
téis. Com efeito, afirmou-se terem sido todas as cor-
porações medievais cartéis que reuniam comerciantes
I. Mas elas estão muito distantes das sociedades modernas, que pos- ou artesãos desejosos de suprimir em seu mercado ur-
suem uma personalidade independente de seus membros. bano a concorrência mútua e de estabelecer um mo-

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nopólio. Tais afirmações não só carecem de provas no pontifical e lhes dava todo o seu apoio para obter, me-
que concerne à economia corporativa urbana como ten- diante pressões que chegaram ao envio de expedições
dem a introduzir num contexto inadequado dados que militares, o fechamento de outras minas secundárias
na verdade só se aplicam ao comércio internacional. de alúmen existentes na cristandade ou a entrada de
Essas sociedades monopolistas aproveitaram-se fre- seus proprietários no cartel- por exemplo, os reis de
qüentemente da política colonial de algumas cidades Nápoles, donos de minas na ilha de Ischia. Esta foi
ou Estados medievais, particularmente Gênova e Ve- uma das maiores empresas dos Mediei.
neza.
Os mais célebres desses cartéis foram provavel- 2. Mercadores e poderes politicos - Podemos ver,
mente originados pelo comércio do alúmen - um dos por esses exemplos, os laços que se teceram entre go-
mais importantes produtos procurados pelo mercador vernos e grandes mercadores, sobretudo no final da
medieval, já que constituía uma das matérias-primas Idade Média, quando as necessidades dos príncipes se
indispensáveis à indústria têxtil, onde era empregado tornaram maiores - e das quais falaremos a propósi-
como mordente. O essencial desse alúmen era produ- to do poder político dos mercadores. Por enquanto,
zido nas ilhas ou no perímetro do mar Egeu, especial- nos contentamos em dizer que os empréstimos aos so-
mente em Focéia, na Ásia Menor. Seu comércio beranos e às cidades, o recebimento dos impostos, a
tornou-se monopólio genovês no século XIII, e, de- participação nos empréstimos do Estado - como, por
pois que um comerciante de Gênova, Benedetto Zac- exemplo, em Veneza e Gênova, onde os grandes mer-
caria, se fez pioneiro dessa empresa, uma poderosa so- cadores tomaram parte no estabelecimento de um fun-
ciedade genovesa, a "maona" de Quios, onde se en- do da dívida pública, entregando-se à especulação so-
contram praticamente todos os grandes nomes do co- bre esses verdadeiros "valores" -, constituíram nos
mércio genovês, dominou o mercado do alúmen no sé- séculos XIV e XV uma parcela cada vez maior dos ne-
culo XIV e começo do século XV. gócios dos grandes mercadores. A prosperidade de al-
Após a conquista turca, o alúmen oriental desa- guns grandes comerciantes italianos teve sua fonte, em
pareceu quase por completo do mercado. Foi então que grande parte, nas operações financeiras e comerciais
se descobriram importantes jazidas no território pon- que eles faziam em benefício do papado, uma daspo-
tifical, perto de Civita Vecchia, em Tolfa, em 1461. tências econômicas da Idade Média - sobretudo no
O governo pontificallogo confiou a exploração e a ven- século XIV, quando o papado de Avinhão, aumentan-
da do produto à firma dos Mediei. Nasce então uma do o fisco pontifical, drenou para as caixas da Cúria
das mais extraordinárias tentativas de monopólio in- e das companhias italianas, principalmente florentinas,
ternacional na Idade Média. A Santa Sé destinou sua que lhe serviam de banqueiros, uma parcela dos recur-
parte de lucros ao financiamento da Cruzada contra sos da cristandade. Além dos lucros propriamente fi-
os turcos - que não se realizou. Ao mesmo tempo, nanceiros e comerciais dessas operações, os grandes
punia com a excomunhão todos os príncipes, cidades mercadores extraíam delas privilégios - isenção de ta-
e particulares que comprassem outro alúmen que não xas, participação no governo - que tinham profun-
o de Tolfa, concedia aos navios utilizados pelos Me- das repercussões em sua posição econômica. Era tam-
dici para esse comércio o direito de usar o pavilhão bém a época em que a legislação comercial se precisa-

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va de tal forma que, garantindo mais estabilidade e se- minho de Chipre eda Armênia ficam furiosos porque
gurança nos negócios, favorecia primeiro os mercado- o capitão do navio, desprezando seus compromissos,
res. Desde o começo da revolução comercial, vimos aproa a embarcação em direção a Bizâncio.
os senhores e' os soberanos e particularmente os pa- No âmbito hanseático, foram as autoridades pú-
pas, por cânones conciliares, concederem sua prote- blicas - municipais ou corporativas - que desempe-
ção aos mercadores itinerantes, fornecer salvos-con- nharam o papel dos notários, e é aos documentos ofi-
dutos (uso que remontava à mais alta Idade Média, ciais que devemos recorrer freqüentemente hoje em dia
. quando as imunidades concedidas aos eclesiásticos já para termos acesso às operações do mercador medie-
os tornavam "comerciantes privilegiados") e mandar val no mundo do Norte.
construir edifícios especiais para o alojamento dos mer- Em toda parte, na Idade Média, a intervenção das
cadores e de suas mercadorias - o mais célebre será autoridades públicas, que os historiadores liberais do
ofondaco dos mercadores alemães em Veneza._O su- século XIX consideraram como um entrave ao comér-
cesso das feiras, como vimos, fora grandemente faci- cio e uma marca da barbárie medieval, favoreceu em
litado pela proteção que a autoridade, do lugar onde geral os mercadores, que se beneficiaram igualmente,
eram realizadas, concedia a seus participantes. Desen- no fim da Idade Média, da verdadeira política econô-
volvia-se uma legislação comercial a princípio elabo- mica praticada por alguns príncipes, como Luís XI,
rada pelos próprios mercadores, como, por exemplo,
a elaboração das leis no seio do famoso tribunal da
o "rei dos mercadores". ° fim do século XV é tam-
bém a época em que se define com mais precisão a le-
Mercanzia de Florença, que, segundo veremos, cons- gislação relativa à propriedade do subsolo e à delimi-
tituiria um dos fundamentos do poder político dos tação das águas territoriais.
grandes mercadores florentinos. Mais tarde, essa le- Sem dúvida, os vínculos cada vez mais estreitos
gislação passou a ser desenvolvida em nível interna- entre príncipes e mercadores no final da Idade Média
cional já com alguma penetração na legislação públi- levam estes a correr riscos maiores. A insolvência dos
ca. No âmbito mediterrâneo pelo menos, os contratos soberanos está muito ligada às estrondosas falências
e litígios comerciais passaram ao primeiro plano e fi- de banqueiros italianos nos séculos XIV e XV. Mas
zeram proliferar um grande número de notários - es- não é só a ela que se devem tais quebras. Outras cau-
tes foram os auxiliares dos comerciantes, a quem deviam sas tiveram seu papel nessas bancarrotas - extensão
grande parte da fortuna que sua profissão conheceu e imprudente do crédito e, dos negócios, influência da
cujo papel histórico continuou até o nosso tempo, já que conjuntura econômica e especialmente da conjuntura
seus arquivos são uma das mais ricas fontes de docu- monetária, A legislação das falências, no entanto, bem
mentação sobre o mercador e o comércio medievais. cedo lhes atenuou os efeitos mais duros. Não só as pe-
Aonde quer que vá o mercador, para lá também se diri- nas extremas - condenação à morte ou simples pri-
ge o notário: na Armênia, Criméia, lá estão eles; vamos são - foram absolutamente excepcionais como até
encontrá-los também nas embarcações e vemos um de- mesmo a venda dos bens do falido em leilões, para o
les, por exemplo, registrar um fato nas proximidades de ressarcimento de seus credores, foi com muita freqüên-
Creta em 16 de novembro de 1283, a pedido de merca- cia evitada. Difundiu-se o costume de outorgar um
dores genoveses que transportando mercadorias a ca- salvo-conduto ao falido fugitivo por um período du-

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rante o qual ele tentava fazer um acordo amigável com de 3 de agosto de 1384, extraído de um de seus regis-
seus credores. tros, intitulado "Registro de Francesco di Prato e Com-
panhia, residente em Pisa, no qual registraremos to-
IV. Progressos dos métodos nos séculos XIV e XV dos os seguros que fizermos para outrem. Que Deus
nos permita ter lucro e nos proteja dos perigos":
Embora a extensão dos negócios, a partir do sé-
culo XIII, tenha levado alguns mercadores à impru- Seguramos Baldo Ridolfi e Cia. por 100 florins de ouro
de lã carregados no barco de 8artolomeo Vitale em trânsito
dência e desenvolvido certos riscos, no conjunto, sua de Pefiisola a Porto Pisano. Desses 100 f1orins, que segura-
evolução determinou um progresso nos métodos e nas mos contra todos os riscos, recebemos 4 florins de ouro de
técnicas que permitiu superar ou reduzir muitas difi- contado, conforme testemunha um atestado assinado por
culdades e perigos. Gherardo d'Ormauno e contra-assinado por nós.
O desenvolvimento do comércio marítimo foi a
E, mais abaixo:
princípio grandemente favorecido pela prática - es-
pecialmente em Gênova - da divisão dos navios em
partes iguais - verdadeiras ações, das quais grande
o dito barco chegou são e salvo a Porto Pisano em 4
de agosto de 1384, isentando-nos dos ditos riscos.
parte podia ser possuída por uma mesma pessoa. As-
sim, os riscos são divididos e repartidos. Essas partes, 2. A letra de câmbio - A letra de câmbio é outro
denominadas' 'partes" , "sortes" ou "loca", são uma progresso da técnica que - amplamente difundido pa-
mercadoria que se pode vender, hipotecar, dar em com- ra além do domínio marítimo - fornece novas possi-
menda ou fazer constar do capital de uma associação. bilidades ao mercador, estende e complica os seus ne-
gócios.
1. O seguro - Mais importante ainda é o desen- O primeiro e mais importante é o seu uso. Embo-
volvimento dos métodos de seguro. Sua evolução é obs- ra sua origem seja controvertida, suas características
cura. O termo securitas, que designa primitivamente e seu papel são hoje bem conhecidos graças aos exce-
um salvo-conduto, parece referir-se - por volta do fim lentes trabalhos de R. de Roover. O desenvolvimento
do século XII, se não antes - a uma espécie de con- da letra de câmbio deve ser situado, a princípio, no
trato de seguro pelo qual os comerciantes confiam (" 10- contexto da evolução monetária.
cant") mercadorias a alguém que, em troca de uma Durante a Alta Idade Média, a tendência à eco-
certa quantia paga a título de "securitas", se compro- nomia fechada e a pequena amplitude das trocas in-
mete a entregá-Ias num determinado lugar. Só nos sé- ternacionais reduziram o papel da moeda. No comér-
culos XIV e XV é que se difundem verdadeiros con- cio internacional, as moedas estrangeiras que circula-
tratos de seguro, nos quais, sem a menor dúvida, os vam na Europa - o nomisma bizantino, mais tarde
seguradores não são os proprietários do navio. Algu- chamado hiperpério e besante no Ocidente, e os dina-
mas "companhias", como por exemplo a do grande res árabes - tiveram um papel preponderante. Na Eu-
comerciante pisano Francesco di Marco da Prato, no ropa cristã, a partir da época carolíngia, apesar de uma
final do século XIV, chegaram a especializar-se nes- tentativa de retorno à cunhagem do ouro, o padrão
sas operações. Eis o texto de um memorando datado monetário era a prata, representada sobretudo pelo de-

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nário, muito embora, o dirhem muçulmano tenha ocu- blicas, que as cunhavam com um valor fictício ao seu
pado provavelmente um lugar de primeiro plano.' real valor, e geralmente expresso em libras, soldos e de-
No século XIII, tudo muda com o impulso da re- nários - unidades derivadas de um sistema considera-
volução comercial. O Ocidente reinicia a cunhagem do do padrão a partir do denário de Tour ou denário de
ouro. A partir de 1252, Gênova cunha regularmente Paris na França, por exemplo, ou ainda do denário de
denários de ouro e Florença, seus famosos florins; a gros em Flandres. Príncipes e cidades podiam assim pro-
partir de 1266, a França tem seus primeiros escudos ceder a "remanejamentos monetários" - "mutações"
de ouro; a partir de 1284, Veneza possui os seus duca- ou desvalorizaçôes -, "reforços" ou revalorizações.
dos; na primeira metade do século XIV, Flandres, Cas- Riscos não raro imprevisíveis para o rnercador-;
tela, a Boêmia e a Inglaterra seguem o movimento ge- d) variações sazonais do mercado da prata. A exis-
ral. tência de ciclos econômicos e de fIutuações periódicas
Doravante, nos pagamentos comerciais, o proble- longas e curtas, como se detectou no período moder-
ma do câmbio passa a primeiro plano. Nesse particu- no, é dificilmente localizada na Idade Média, devido
lar, deve-se levar em conta, além, evidentemente, da à falta de dados estatísticos - embora historiadores
diversidade das moedas: como CarIo M. Cipolla acreditaram poder determiná-
a) a existência de dois padrões de certo modo pa- Ia. Em todo caso, o mercador medieval provavelmen-
ralelos: ouro e prata; te não tinha conhecimento do fato nem se preocupa-
b) o preço dos metais preciosos: nos séculos XIV va com ele. Em contrapartida, as variações sazonais
e XV, esse preço sofre uma alta que, conforme os pe- da circulação da prata nas principais praças européias
ríodos, afeta desigualmente o ouro e a prata, mas que - devidas, entre outras causas, às feiras, datas das co-
na verdade deixa transparecer - em face das crescen- lheitas e das chegadas e partidas de comboios, aos há-
tes necessidades do comércio e da impossibilidade de bitos ligados às finanças e à tesouraria dos governos
aumentar no mesmo ritmo o número de espécies me- - eram perceptíveis para aqueles que se mostravam
tálicas em circulação devido à estagnação ou ao declí- muito atentos a elas. Um mercador veneziano anotou
nio das minas européias e da redução de metais pre- em meados do século XV:
ciosos africanos - o fenômeno da "fome monetária"
no qual se deve situar a atividade dos mercadores do Em Gênova, a prata é cara em setembro, janeiro e abril, em
virtude da partida dos navios ... em Roma ou onde quer que
fim da Idade Média - fome de ouro sobretudo, quan-
se encontre o papa, o preço da prata varia conforme o nú-
do a prata volta a ser relativamente abundante com mero dos benefícios vacantes e dos deslocamentos do papa,
a exploração de novas minas na Alemanha média e me- que faz subir o preço da prata onde quer que se encontre ...
ridional em meados do século XV e que será, como em Valence, ela é cara em julho e em agosto, por causa do
se sabe, um dos principais motores das grandes des- trigo e do arroz ... em Montpellier, há três feiras que provo-
cam uma grande alta no preço da prata ...
cobertas;
c) a ação das autoridades políticas. Com efeito, Tais são os dados que o mercador deve levar em
o valor das moedas dependia dos governos, que po- conta para avaliar os riscos e lucros a partir dos quais,
diam fazer variar a base da moeda, isto é, seu peso,
título ou valor nominal: as moedas não traziam indi-
2. Para uma exposição detalhada, cf. M. BLOCH, Esquisse d'une
cação de valor. Este era fixado pelas autoridades pú-
histoire monetaire de l'Europe, 1954.

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segundo suas possibilidades, pode dirigir o jogo sutil mente de Barcelona -, a pedido do sacador ou toma-
da prática da letra de câmbio. dor - Guglielmo Barberi, comerciante italiano de Bru-
Eis, segundo R. de Roover, o princípio e um exem- ges -, a quem o doador - a casa Riccardo degli AI-
plo do que vinha a ser a letra de câmbio: berti em Bruges - pagou 900 escudos a 10 soldos e
6 denários por escudo.
A letra de câmbio era "uma convenção pela qual o 'doa- Guglielmo Barberi, exportador de tecidos flamen-
dor' ... fornecia uma quantia ao 'tomador' ... e recebia em gos que mantinha relações regulares com a Catalunha,
troca um compromisso pagável a prazo (operação de crédi- recebeu adiantado dinheiro em escudos de Flandres da
to), mas em outro lugar e com outra moeda (operação de sucursal de Bruges dos Alberti, os poderosos merca-
câmbio). Todo contrato de câmbio engendrava, pois, uma dores-banqueiros florentinos. Antecipando a venda das
operação de crédito e de câmbio, ambas intimamente vincu-
mercadorias que expedira ao seu correspondente de
ladas" .
Barcelona, a casa Datini, ele saca contra esta uma du-
plicata a pagar em Barcelona ao correspondente dos
Eis uma letra de câmbio extraída dos arquivos de Alberti nessa localidade, a casa Brunnacio di Guido
Francesco di Marco Datini da Prato: e CO... Há operação de crédito e de câmbio. Esse pa-
gamento foi feito em Barcelona em 11 de fevereiro de
+ Em nome de Deus, em 18 de dezembro de 1399, pagareis 1400, trinta dias após a sua aceitação, em 12 de janei-
por esta primeira letra "de usança" CCCCLXXII libras e ro de 1400. Esse prazo é chamado de "usança", va-
X soldos de Barcelona a Brunacio di Guido e C O
estas 472
••• riável de acordo com as praças - trinta dias entre Bru-
libras e 10 soldos, valendo 900 v (escudos) a 10 soldos e 6 ges e Barcelona -, o que permitia verificar a autenti-
denários por v (escudo), esta quantia tendo sido quitada aqui cidade da letra de câmbio e, em caso de necessidade,
por Riccardo degl' Alberti e CO. Pagai-as em boa e devida conseguir o dinheiro.
forma e debitai-as de minha conta. Que Deus vos guarde.
.Assim, a letra de câmbio atendia a quatro dese-
Ghuiglielmo Barberi,
Saudação de Bruges jos eventuais do mercador, oferecia-lhe quatro possi-
bilidades:
De outra mão: a) um meio de pagamento de uma operação co-
mercial; e
Aceita em 12 de janeiro de 1399 (1400). b) um meio de transferência de fundos - reali-
zando-se esta entre praças onde se utilizam moedas di-
No verso: ferentes;
c) uma fonte de crédito;
Francesco di Marco e C", em Barcelona. d) um lucro financeiro obtido sobre as diferenças
Primeira (letra). e variações do câmbio nas diversas praças, no contex-
to que foi definido mais acima~De fato, afora as ope-
Trata-se de uma duplicata paga em Barcelona pelo rações comerciais, podia haver entre duas ou, mais fre-
sacado - a sucursal da firma Datini em Barcelona - qüentemente, três praças um comércio de letras de câm-
ao beneficiário - a firma Brunaccio di Guido, igual- bio. Esse mercado dos câmbios, muito ativo nos sécu-
los XIV e XV, originou vastas especulações.

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Notemos, todavia, que o comerciante medieval ig- que veio a ser qualificada de "revolução da contabili-
norava provavelmente duas práticas que haveriam de dade".
desenvolver-se na época moderna: a do endosso e a do Sem dúvida, esses progressos são desiguais con-
desconto, ainda que as recentes pesquisas de Federigo forme as regiões, e chegou-se a explicar o quase-
Melis permitam assinalar exemplos de endosso, no do- monopólio dos mercadores e banqueiros italianos da
mínio mediterrâneo, já nos primeiros anos do século Idade Média numa vasta área geográfica como o re-
XVI, e que encontremos, provavelmente, no domínio sultado de seu avanço em matéria de técnica comer-
hanseático, casos semelhantes referentes às obrigações cial. Entretanto, encontrar-se-iam no domínio hanseá-
nominativas ou ao portador - simples ordens de pa- tico métodos que, embora diferentes e talvez um pou-
gamento - datados do século XV. co retardatários na perspectiva de uma revolução ge-
ral única, nem por isso deixaram de provar a eficácia
3. A contabilidade - É evidente que tais opera- do que Fritz Rôrig denominou "uma supremacia in-
ções deviam acompanhar os progressos gerais da con- telectual". Notemos, aliás, que não se deve exagerar
tabilidade. A escrituração dos livros de comércio a superioridade germânica no tocante à escritura e à
tornou-se mais atenta, os métodos mais simples, a lei- contabilidade no domínio nórdico. Os famosos manus-
tura mais fácil. Certamente, havia ainda uma grande critos sobre" berestá" (casca de bétula), recentemen-
complexidade. A contabilidade dispersava-se em nu- te descobertos em Novgorod, mostram que a escritu-
merosos registros: livros das "sucursais", das "com- ra e o cálculo estavam ali mais difundidos do que se
pras", das "vendas", das "matérias-primas", dos "de- poderia crer entre os autóctones '. Do mesmo modo
pósitos de terceiros", dos "trabalhadores em domicí- as técnicas italianas foram muito pouco assimiladas an-
lio" e, como sublinhou A. Sapori, o "livro secreto", tes do século Xv l-pelos mercadores das cidades atlân-
onde era registrado o texto da associação, a participa- ticas - bretões, rocheleses, bordaleses, "cuja arte con-
ção dos associados no capital, os dados que permitiam sistia unicamente em evitar na medida do possível o
calcular a qualquer momento a posição desses asso- recurso ao crédito sob todas as suas formas". Se, por
ciados na sociedade, a distribuição dos lucros e per- um lado, Ph. Wolff detectou uma grande extensão do
das. Esse "livro secreto" continuava sendo objeto das crédito entre os comerciantes tolosanos, por outro, in-
principais preocupações e foi ele o que melhor se con- sistiu no "caráter rudimentar" de seus métodos.
{Assim, onde quer que se encontre, o grande
servou até os nossos dias.
mercador-banqueiro sedentário reina agora sobre to-
Mas o uso de estabelecer um orçamento se difun-
do um conjunto que ele controla, de seu escritório, pa-
diu. Todas as grandes firmas não tardam a ter um du-
lácio ou casa r
plo jogo de registros para as contas abertas aos seus
. Um conjunto de contadores, comissionários, re-
correspondentes no estrangeiro: compto nostro e comp-
presentantes e empregados - os "corretores" - lhe
to vostro, equivalentes às nossas contas correntes, e
obedece no estrangeiro. !
que facilitavam ainda mais os ajustes por compen-
sação, por um simples jogo de escrituras, sem trans-
3. Os métodos hanseáticos são na verdade os métodos normais, os
ferência de numerário. E, sobretudo, desenvolve-se a mais correntes no Ocidente, e nos séculos XIV e XV eles permaneceram
contabilidade de dupla entrada - crédito e débito, rudimentares em relação aos das grandes companhias italianas.

32 33
É no centro de vastas correspondências, fora do merciais e financeiras, providencia-lhes alojamentos e
domínio da contabilidade, que o mercador-banqueiro entrepostos e vive das comissões que recebe por todos
recebe seus pareceres e lhes dá ordens.Tendo em mente esses serviços.'
o preço da época, a importância, para o êxito de um Do mesmo modo, houve entre os negociantes uma
negócio, de informar-se mais depressa que os concor- certa especialização. As categorias que assim se for-
rentes da chegada dos navios ou de seu naufrágio, da maram variam de acordo com as regiões, países e ci-
situação das colheitas - numa época em que os fato- dades. Mas, de maneira geral, pode-se distinguir no
res naturais são tão poderosos e os cataclismos tão des- domínio do mercado financeiro, como o fez R. de Roo-
truidores -, dos acontecimentos políticos e militares ver em Bruges, os lombardos, os agentes de câmbio
que podem influir no valor do dinheiro e das merca- e os "cambistas", que são os mercadores-banqueiros
dorias, ele se entrega a uma verdadeira corrida às no- propriamente ditos.
tícias, Sobre o tema "Notícias e especulações em Ve- Os lombardos ou cahorsinos" são os emprestado-
neza", Pietro Sardella escreveu um ensaio instigante. res que condicionam a dívida ao penhor, usurários que
Pela leitura da abundante correspondência comercial praticam o empréstimo de consumo a curto prazo. As-
da Idade Média que nos foi conservada, mas da qual sim, seus clientes raramente são grandes personagens,
apenas uma pequena parte foi publicada até agora, pu- mas sobretudo pessoas de pequena e média condição:
demos seguir melhor o mercador em seu trabalho, com- clérigos, burgueses não-mercadores, nobres de segun-
preender o que foi sua atividade profissional. da categoria, camponeses. As quantias que eles em-
prestam "a curto prazo" - um ou dois meses, às ve-
zes três ou seis - não são para fins econômicos, mas
4. As categorias de mercadores - Com essa am-
destinam-se ao consumo pessoal num período difícil
pliação dos negócios, ocorrem transformações no mun-
para o devedor, que penhora objetos pessoais: baixe-
do dos mercadores.
Ias, roupas, ferramentas, armas, etc. Não se deve pen-
O mercador itinerante flamengo, que levava seus
sar que esses lombardos tenham um poder econômico
tecidos às feiras da Champagne e de lá trazia as espe-
desprezível. Para atender às necessidades de numero-
ciarias, já não precisa deslocar-se, agora que as gale-
sos clientes, às despesas consideráveis requeridas por
ras de Gênova e Veneza vêm carregar e descarregar as
sua atividade, eles estão à testa de grandes capitais, reu-
mercadorias em Bruges, que os mercadores italianos,
nidos por associação familiar ou graças aos depósitos
os representantes e os sucessores das grandes casas de
de terceiros. Em Bruges, os cahorsinos têm, no prin-
Florença, Gênova, Lucca e Pisa se instalaram em Flan-
cípio do século XV, um grande imóvel no longo cais
dres e os compradores e vendedores mantêm no local
da paróquia de São Gil e um menor, onde residem.
contatos permanentes - como já acontecia há muito Mas seu horizonte permanece limitado. Por terem rea-
tempo em Florença, onde' Giovanni Villani observou lizado operações em grande escala, lombardos e ca-
orgulhosamente a inutilidade das feiras, "porque sem- horsinos de Bruges conhecem uma estrondosa falên-
pre há mercado em Florença" . Então, o mercador fla-
mengo torna-se um mediador sedentário e passivo em
domicílio: o corretor. Estabelece contatos entre os mer- 4. Nomes genéricos que provavelmente não cor respondem a uma ori-
cadores estrangeiros, promove entre eles operações co- gem geográfica específica.

34 35
cia em 1457. De resto, como se verá, eles são impor- preciosos, apesar do monopólio teórico dos moedei-
tunados em suas práticas, alvo da hostilidade pública ros. Por essas operações, determinam o preço dos me-
e privada, sem possibilidades - salvo exceção - de tais preciosos, exercem uma influência considerável so-
ascensão social. bre as f1utuações desses preços e tendem a dominar o
Acima dos lombardos, estão os agentes de câm- seu mercado.
bio. Têm sua banca ou mesa (bancho, lavo/a) ao ar Mas esses agentes de câmbio acrescentaram no-
livre, numa loja de frente para a rua, como a de todos vas funções às antigas: a aceitação de depósitos e rein-
os artesãos. Agrupam-se para facilitar as operações de vestimentos por empréstimos. Tornaram-se banquei-
seus clientes, que não raro são comuns a vários dentre ros. 'Pelos depósitos, pela aceitação das contas a des-
coberto para seus grandes clientes, pelos empréstimos,
eles. Em Bruges, mantêm sua mesa perto da Grande
adiantamentos e investimentos, 'pelas transferências de
Praça e do Grande Mercado dos Tecidos; em Floren-
dinheiro mediante simples jogo de escritura, são os au-
ça, têm seus banchi in mercato no Mercado Velho e
xiliares indispensáveis dos mercadores e das pessoas
no Mercado Novo; em Veneza, operam seus banchi
abastadas i que têm todos uma conta num agente de
di scritta na ponte do Rialto, e em Gênova, perto da
câmbio: no final do século XIV, esse é o caso de uma
Casa di San Giorgio. pessoa para cada 35 ou 40 em Bruges, e 80070 desses
O romance cortês de Galeran de Bretagne deixou- clientes de Bruges têm um balanço de conta inferior
nos uma animada pintura dos agentes de câmbio de a 50 libras flamengas. Os agentes de câmbio serão en-
Metz por volta de 1220: contrados nas altas esferas da hierarquia social.
No ápice, porém, estão aqueles que em Bruges são
Assim estão os cambistas enfileirados chamados de "cambistas", os que mantêm em Floren-
Que têm diante de si suas moedas:
ça os banchi grossi, os mercadores-banqueiros propria-
Aquele troca, aquele conta, aquele nega,
Aquele diz: "É verdade", e outro: "mentira". mente ditos. Sua atividade permaneceu não-
Na embriaguez ou no sonho, especializada. Ao comércio das mercadorias de todo
Não. se pode ver, por dormir, a maravilha tipo, realizado para a exportação e importação em es-
Que pode ver quem vela. cala internacional, eles acrescentam uma atividade fi-
Nunca se entrega ao ócio nanceira múltipla: comércio de letras de câmbio, acei-
Aquele que vende pedras preciosas tação de depósitos e operações de crédito, participa-
E imagens de prata e de ouro.
Outros têm diante de si tesouros
ção em várias "sociedades", prática do seguro. Mui-
Dos seus ricos carregamentos. tas vezes, inclusive, são também produtores, "indus-
triais", como os Mediei, que possuem em Florença
A princípio, eles preenchem duas funções tradi- duas fábricas de tecidos e uma de seda, e realizadores
cionais, o câmbio das moedas (donde seu nome) e o de um "fenômeno de integração" como Benedetto Zac-
comércio de metais preciosos: são os principais forne- caria que, de Gênova, controla o mercado do alúmen
cedores da Casa da Moeda de metais preciosos, rece- no século XIII, transportando-o em barcos próprios
bendo os pagamentos de sua clientela sob a forma de e utilizando-o numa tinturaria por ele montada.
lingotes ou, mais freqüentemente, de baixelas. Con- Se em Veneza eles não passam de atacadistas, dei-
forme as circunstâncias, também exportam esses metais xando a mercadores menores a venda a varejo, em ou-

36 37

tras partes possuem freqüentemente uma loja e às ve- dernos, com o Renascimento e a Reforma no século
zes não desdenham nem mesmo, como simples lom- XVI, já não pode ser aceita agora que conhecemos me-
bardos, praticar a usura, o pequeno empréstimo para lhor o mercador-banqueiro medieval.
consumo. Mas suas operações não se fazem fora, Sem dúvida, é preferível considerar o grande mer-
ali 'aperto , mas dentro, em sua casa, quase sempre um cador medieval como um pré-capitalista. Segundo uma
palácio - onde se encontra o scrittoio, escritório, que definição estrita do capitalismo, como a oferecida pe-
constitui o centro de vastos negócios. la doutrina marxista, a Idade Média não conheceu o
O exemplo de Jacques Coeur é o de um dos maio- capitalismo. Seu sistema econômico e social é o feu-
res homens de negócios da Idade Média. Mollat, que dalismo, e é no interior desse contexto que agem os
estuda todas as suas ramificações, já esboçou seus vas- mercatores. Mas eles contribuem para fazer explodir
tos tentáculos: "um mapa que reproduzisse a distri- esse contexto, arruinar as estruturas feudais. Agindo,
buição de seus interesses corresponderia a um mapa como veremos, sobre uma evolução agrícola ativada
econômico da França em meados do século XV". Pos- pela intrusão dos capitais urbanos - pelo menos em
sui bens imobiliários em toda parte: domínios fundiá- regiões como a Itália ou Flandres - e'precipitada pe-
rios, consignações de rendas prediais, ricos palacetes lo desenvolvimento de uma economia mundial (Welt-
particulares em Bourges, Saint-Pourçain, Tours, Lyon, wirtschaft) com profundas repercussões nos preços
Montpellier. Juntem-se a isso todos os tipos de espe- agrícolas e industriais, os grandes mercadores prepa-
culações: percepção de impostos indiretos, resgates de ram o advento do capitalismo. E.-A. Kosminsky viu
prisioneiros ingleses. Se o campo de seus navios de co- na expropriação das classes rurais da propriedade pre-
mércio é sobretudo o Mediterrâneo, o Atlântico, o ca- dial, especialmente na Inglaterra - evolução da qual
nal da Mancha, o mar do Norte, sem contar os rios: participaram os mercadores -, a fonte da "acumula-
Loire, Ródano, Sena, também o são. "Nenhum obje- ção primitiva" do capital. O grande mercador medie-
to suscetível de tráfico lhe foi estranho". A argenta- val já esboça a concentração dos meios de produção
ria, loja que vendia objetos de prata, guarda-móveis em mãos de particulares, acelerada pelo processo de
e entreposto real, que ele dirige, é nada mais que seu alienação do trabalho dos operários e dos campone-
melhor cliente. ses, transformados em assalariados. E alguns historia-
A ela, como a muitos outros, ele vende lãs, tecidos, dores marxistas, como V.-I. Ruthenburg, estudando
panos, couros, peles, sal, especiarias, objetos de arte. as companhias florentinas do século XIV, não hesita-
Fornece ao exército do rei arneses e armas. Tem inte- ram em ver nelas o começo do capitalismo no sentido
resses em Florença, na Espanha, em Bruges. Após sua rigoroso do termo. Mesmo um historiador como Fran-
queda e evasão, refugia-se no papado, grande potên- tisek Graus, que se recusa a falar de capitalistas na Ida-
cia econômica; e morre em Quios, o vasto empório ge- de Média, reconhece que nesse período existem elemen-
novês. tos de capitalismo e que na Itália há até mesmo mais
que isso. Ele tem razão em protestar contra concep-
5. O mercador medieval foi um capitalista? - É ções anticientíficas e anti-históricas que reivindicam um
evidente que a célebre tese de Werner Sombart, para "capitalismo eterno", assim como em exigir a priori-
quem o grande capitalista nasceu com os Tempos Mo- dade do estudo das estruturas em detrimento do das

38 39
CAPÍTULO II
mentalidades. Cita também Marx, segundo o ~ual "~s
corporações medievais tendiam fortemente. a I:nped~r
a transformação do mestre artesão em capitalista, h- O papel social e político
mitando a um máximo muito reduzido o número ~e
operários que um único mestre podia e~pre~ar - pois
o detentor de capitais ou de mercadonas so se trans-
forma em capitalista quando os mínimos fi~~dos pa- Mercadores e cidades - Quaisquer que tenham
ra a produção ultrapassam amplame~te o I?axI~.o me- sido as origens dos grandes mercadores medievais, uma
dieval". Mas aqui o autor de O Capital, tnbutan~ dos coisa é certa: seu poder econômico está ligado ao de-
conhecimentos históricos de sua época, confundia os senvolvimento das cidades, centros de seus negócios.
artesãos com os grandes mercadores, que pouco se É igualmente no contexto urbano que se vão estabele-
preocupavam, como veren:os, com as ~egulamentações cer sua influência social e seu poder político - conse-
das corporações, e subestimava consIderav~lme?te.a qüência e garantia de seu poder econômico. Conquanto
extensão qualitativa e quantitativa de sua influência essa evolução não tenha seguido o mesmo ritmo, co-
econômica e social. nhecido um perfeito sincronismo e tenha tomado for-
Certamente, não se deve esquecer que a econo- mas diferentes.ipode-se dizer que no século XIII as ci-
mia medieval permanece fundamentalmente rural: ~as dades são dominadas política e socialmente pelos gran-
cidades o artesanato predomina, os grandes negócios des mercadores. Sem dúvida, o desenvolvimento co-
não passam de uma camada superficial; mas: pelo vo- munal não se confunde com o desenvolvimento dessa
lume de dinheiro que ele maneja, pela extensao de seus classe, muito embora ela tenha desempenhado ali um
horizontes geográficos e econômicos, por seus mé~o- papel capital e tenha sido o seu principal beneficiário
dos comerciais e financeiros, o mercaoor-banqueíro - em Gênova, por exemplo, a associação dos homens
medieval é um capitalista. Também o é por seu espm- de negócios, a "compagna", se torna uma comuna já
to, gênero de vida e posição na sociedade. em 1099, e, no domínio alemão, o conselho (Rat) se
identifica com os grandes mercadores. Essa classe mer-
cantil chegou a tais resultados através das complexas
relações com as demais classes e categorias sociais: no-
breza, artesãos, operários, camponeses - sem contar
a Igreja, de que falaremos no capítulo seguinte, e as
autoridades políticas superiores, senhores e monarcas.

I. Papel social dos grandes mercadores

1. Mercadores e nobres - Em face da nobreza,


houve luta, eliminação ou assimilação.

41
40
<,.
Em Florença, a luta entre os nobres de velha ce- nhoriais e reais e os novos-ricos. É o que se depreen-
pa, os "magnati", e os "popolani" agrupados nas cor- de, para Gênova, dos excelentes estudos de André
porações (Arti) dominadas pelos grandes mercadores, Sayous e Roberto Lopez, e, para Veneza, dos magní-
parece terminar em 1293 com os Decretos de Justiça. ficos trabalhos de Gino Luzzatto. Em Veneza, afirmou-
Os membros das cento e quarenta famílias magnati são se, "os doges são mercadores e os mercadores são al-
excluídos das funções oficiais e até mesmo atingidos mirantes" .
por um regime penal excepcional. Mas, entre essas fa- Em todo caso, mesmo onde a nova classe mercan-
mílias, há comerciantes já convertidos em Cavaleiros. til foi burguesa, plebéia, "popular", e, onde ela teve
Tais medidas representam tanto a luta de uma nova de conquistar sua posição social e sua força política
camada mercantil contra uma antiga, quanto a vitó- contra a nobreza feudal, a oposição entre ela e a ve-
ria da burguesia mercantil sobre a nobreza fundiá- lha aristocracia se atenuou consideravelmente nos sé-
ria de tão difícil que é estabelecer a distinção entre culos XIV e XV, sob o efeito, particularmente, de uma
ambas. dupla evolução.
Às vezes, a nobreza, cujo enfraquecimento esta- A primeira tendeu a afastar a rica burguesia mer-
va ligado ao declínio da economia rural de tipo feu- cantil das classes populares urbanas de que se servira
dal, permaneceu voluntariamente afastada das ativi- em sua conquista do poder, e que começou a temer
dades econômicas que constituíam a força da classe quando estas pretenderam limitar ou destruir sua do-
mercantil, como na França e na Espanha, onde os no- minação econômica e social, assim como sua hegemo-
bres se recusaram a entregar-se ao comércio que acar- nia política. Como, para os mercadores, a classe peri-
retava juridicamente a perda de seus privilégios e a re- gosa já não estivesse acima deles, mas abaixo, eles se
núncia à sua "ordem": foi o "desenvolvimento" ocor- voltaram para o que restava da velha nobreza a fim de
rido na França, apesar dos esforços de Luís XI. fazer desta uma aliada. Isso ocorreu, por exemplo, em
Muitas vezes, porém, os nobres tentaram partici- Florença, onde, após a revolução proletária dos Ciompi,
par dessas novas fontes de lucros, investiram capitais no final do século XIV, os grandes mercadores rein-
no comércio ou entregaram-se pessoalmente aos ne- troduziram os antigos nobres no governo da cidade.
gócios e às atividades bancárias. Foi esse, especialmen- A segunda levou, bem cedo, os ricos mercadores
te, o caso de vários nobres italianos, cuja adaptação a ingressar na nobreza. Com efeito, essa tendência lo-
foi facilitada pelo fato de muitos deles residirem nas go se configurou através de diversos processos.
cidades e pelo fato de o fenômeno urbano, apesar do Em alguns casos, o mercador buscou, por via do
declínio da Alta Idade Média, ter conhecido na Itália casamento, o acesso à velha nobreza. Um cronista flo-
uma continuidade entre a Antigüidade e o período me- rentino do século XIII escreve: "Vê-se todos os dias
dieval. Nobres do campo, aliás, virão instalar-se nas um plebeu muito rico querendo casar-se com uma mu-
cidades quando estas se desenvolverem. lher pobre, mas nobre".
Esses nobres se fundiram na nova classe mercan- Em outros, o mercador, por seu gênero de vida,
til e, dessa fusão, às vezes, resultou até mesmo o nas- se aproxima da nobreza e logo passa a ser considera-
cimento de uma aristocracia na qual se confundiam do como um membro dela. Vê-lo-emos mais adiante
os antigos senhores feudais, os antigos funcionários se- em seu palácio, participando dos torneios. Os célebres

42 43
mercadores-banqueiros de Florença, os Peruzzi, que uma "política matrimonial" bem dirigida. Depois,
pertencem juridicamente ao popoto, usam esporas e tornam-se soldados e sobretudo agentes reais, ao mes-
comportam-se como cavaleiros. Um cambista de Bru- mo tempo em que preenchem funções municipais co-
ges, Evrard Goederic, é chamado Sire, e sua mulher, mo capitães. "Após 1380, a evolução da família pare-
Senhora; comandante da milícia urbana, ele combate ce terminada. Nenhum Ysalguier se dedica mais ao co-
a cavalo. Dos Cancellini de Pistóia, diz Villani: "Não mércio ou ao câmbio". Mas, em época de crise feu-
eram muito antigos, mas, com a ajuda de suas rique- dal, esses novos nobres compartilham o-declínio dos
zas, tornaram-se todos cavaleiros, homens de valor e antigos senhores. "O estado para o qual o mercador
pessoas de bem". Eis uma bela justaposição de termos tende naturalmente é a nobreza. Mas a nobreza signi-
nobres e de vocabulário burguês. fica quase sempre uma mediocridade, que não deixa
Mais freqüentem ente ainda, ele compra terras, do- de ter suas honrarias e sua altivez -, ainda assim, uma
mínio feudal, que representam - pelo menos no co- mediocridade.' ,
meço -, mais que um bom investimento, a oportuni- Em Lille, o Dr. Feuchere distinguiu seis estágios
dade de uma ascensão social e de ingresso na nobre- de evolução da burguesia entre os séculos XIII e XIV:
za. 1 - A fortuna. Vindos da terra, os futuros bur-
Onde quer que subsista ou se desenvolva um po- gueses se instalam na cidade, tornam-se lojistas. Seus
der principesco ou monárquico, pedra angular do sis- filhos ou netos, aumentando-lhes as riquezas, ascen-
tema social, os mercadores pedincham e compram, obs- dem à burguesia. 2 - O magistrado oficial. Ingres-
tinadamente junto com propriedades senhoriais, os tí- sam nos cargos municipais; participam na direção po-
tulos de nobreza. Um estudo recente também demons- lítica da cidade. 3 - Os feudos fundiários. Adquirem-
trou tal fato com relação aos ricos burgueses lioneses: nos por compra ou casamentos. 4 - A nobreza.
os Jossard. Recebem-na de príncipes por serviços prestados. Em
No final da Idade Média, quando muitas famí- 1391, Carlos VI, por exemplo, enobrece Guillaume de
lias de mercadores se afastarão dos negócios em con- Terremonde. 5 - A nobreza de toga. Durante o pe-
seqüência de dificuldades que os levarão a procurar ríodo borguinhão, tornam-se oficiais principescos, o
ainda mais os investimentos imobiliários e fundiários, que confere nobreza àqueles que ainda não a recebe-
ou pela atração exercida por uma vida de aristocrata ram. 6 - Finalmente, podem ascender à nobreza mi-
mais sedutora que os labores do comércio, quando a litar e tornar-se cavaleiros.
constituição de monarquias centralizadas lhes ofere- No início, há o câmbio ou o comércio de tecidos.
cerão novos mercados, a rica burguesia mercantil se A partir do quarto estágio, já não existe comércio. Ape-
converterá ainda mais facilmente em aristocracia, em nas urna dezena de famílias chega ao quinto e ao sex-
nobreza de toga ou de funções. to estágios.
Tracemos brevemente a curva esquemática da evo- Assim, não houve entre o mercador e o nobre ne-
lução de duas burguesias francesas. nhum antagonismo profundo, salvo durante o bre-
Em Toulouse, Ph. Wolff descreveu a ascensão dos ve período de luta violenta contra as coações feudais
Ysalguier. Esses mercadores logo se aliam à nobreza da Alta Idade Média. Em quase toda parte, um duplo
fundiária, seja pela compra de propriedades, seja por movimento inverso, mas convergente,' de aburguesa-
44 45
mento e de enobrecimento conduziu-os uns para os ou- da cidade e das "artes". Não admira, pois, que os es-
tros. tudiosos que consultaram apenas os "estatutos" co-
Concluindo, a luta, quando se produziu, ocorreu mo fontes tenham chegado à visão e à compreensão
mais entre a antiga e a nova nobreza - esta última de um único mundo: o das corporações. Todavia, en-
resultando da fusão das duas categorias mercantis, a quanto para os artesãos essas leis eram realmente obri-
de origem nobre e a de origem burguesa. gatórias - o que as tornou plenamente eficazes e lhes
permitiu frear eventuais iniciativas, reduzindo a um
2. Mercadores e classes populares urbanas ---"Em mesmo nível todo padrão de vida e atividade -, tive-
muitas cidades, porém, os mercadores continuavam a ram, para os grandes comerciantes, um valor muito
ser o "Povo" . Mas seria errôneo acreditar que este te- mais formal do que substancial. Estabelecidas, em úl-
nha constituído uma única classe. Os ricos mercado- tima análise, pelos homens que desempenhavam um
res e banqueiros formam dentro desse bloco uma ca- papel preponderante na política das comunas e na eco-
tegoria à parte e por longo tempo dominante. nomia das corporações - a despeito do complicado
Sobre a distinção entre esses mercadores e o mun- mecanismo dos conselhos, dos votos e dos sorteios-,
do dos artesãos, é preciso citar a página profunda e
tais leis não representavam para os mais favorecidos
brilhante que Armando Sapori escreveu sobre a "coe-
senão resguardos providenciais, ao abrigo dos quais
xistência de dois mundos":
podiam exercer uma atividade que os conduzia sem ris-
"De um lado, o mundo tradicional e, por conseguinte, cos às suas próprias metas. Aliás, se lhes acontecesse
essencialmente medieval, com sua típica organização de ofí- deparar com um obstáculo em alguma das leis que eles
cios ... É o mundo dos mestres e dos aprendizes, o mundo próprios haviam redigido com extrema habilidade, e
das incontáveis oficinas onde uma humilde multidão de ar- se, por conseguinte, lhes fosse impossível dissimular
tesãos, quase sempre iletrados e incultos, trabalham para um
mercado circunscrito aos limites de uma cidade ou de um ou justificar um ato de violação, acabavam por supri-
bairro, empregando como meio de troca a moeda dos "pie- mir o obstáculo com tanta audácia quanto habilida-
coli" ... de, o que, de resto, não é um procedimento exclusivo
da Idade Média ... Mas, se interpretarmos ao pé da le-
Junto com esse pequeno mundo vivia, do outro tra a lei estatutária, e se considerarmos que todos os
lado, um mundo de vanguarda: a organização das com- homens eram iguais perante ela, não conseguiremos
panhias de comércio internacional, donas de ricos en- explicar a formação das riquezas fabulosas, dos mo-
trepostos onde se acumulavam as mais preciosas mer- nopólios e trustes, numa palavra, dessa organização
cadorias e onde homens providos de larga experiência
econômica que nada teve a invejar aquela que, mais
e de uma cultura zelosa e variada, homens de visões
tarde, os historiadores e economistas chamaram, de
ousadas e ambições desenfreadas, tratavam dos assun-
tos comerciais e financeiros com os principais centros comum acordo, "a organização do capital".
econômicos das terras ultramontanas e ultramarinas, Independentemente das cidades que não conhe-
espalhando aos montes os florins de ouro e a moeda ceram corporações - como Gênova - ou que só as
corrente de todos os países do mundo. viram estabelecer-se tardiamente, no século XV, co-
Esses dois mundos eram igualmente organizados mo Lyon e Poitiers, onde quer que se tenha estabele-
com base nas leis morais da Igreja e nas leis jurídicas cido um regime corporativo, ele não só não atrapalhou

46 47
os grandes mercadores, como foi para eles um dos mesmo pé de subordinação econômica e vemos até mes-
meios de dominação sobre o mundo do artesanato, de mo em Florença, por exemplo, nos séculos XIV e XV,
tal modo que este último acabou por não mais gozar a proletarização dos pequenos artesãos.
de uma "coexistência" na qual, no entanto, havia ocu- Os meios de pressão e de opressão dos mercado-
pado um lugar modesto. res sobre essas categorias sociais eram numerosos e efi-
Em Florença, por exemplo, a grande distinção en- cazes. Tentemos mostrá-lo através do exemplo de
tre Popolo grasso e Popolo minuto cor responde à di- Sire Jehan Boinebroke, fabricante e mercador de teci-
visão das corporações ou "Artes" em "Artes Maio- dos de lã de Douai, no final do século XIII.
res", onde se agrupam os ricos mercadores, e "Artes Toda uma série de documentos extraordinários,
Menores", formadas pelos artesãos. Melhor ainda: en- chegados até nós, editados e comentados por Georges
tre as vinte e uma artes florentinas, a preeminência qua- Espinas, num livro célebre e admirável, nos restituem
se sempre não se restringiu apenas às onze Artes Maio- as relações entre esse mercador e toda a massa de seus
res, mas às cinco primeiras dentre estas, que compreen- "empregados" e "obrigados", humildes vizinhos, de-
diam unicamente os homens de negócios com raio de vedores, fornecedores, criados, operários, pequenos pa-
ação internacional: as Artes de Calimala (isto é, gran- trões e empregados que trabalhavam "em ou para sua
des importadores-exportadores), do câmbio, da lã, de empresa de lã". Tendo seus herdeiros, em cumprimento
Por Santa Maria (isto é, da seda) e dos Médicos, Mer- de uma cláusula do seu testamento, prometido repa-
ceeiros e Armarinheiros, reunidos numa só "Arte" e ração às pessoas que ele lesara em vida, algumas delas
que comerciavam produtos chamados "especiarias", ousaram vir reclamá-Ia. É o texto dessas reclamações,
das quais um manual da época enumera duzentas e oi- acompanhadas de um certo número de documentos sig-
tenta e oito diferentes. A dominação econômica e po- nificativos, que chegou até nós.
lítica exerci da em Florença por essas cinco Artes, e que Os pobres, ele domina primeiro por seu poder eco-
se expressou no papel do Tribunal Comercial da Mer- nômico. Ele tem o dinheiro e exige de seus devedores
canzia - origem dessa dominação a partir de 1308 -, reembolso antes do vencimento, penhores indevidos
foi estudada por Armand Grunzweig, que mostrou as que toma à força, quantias muito superiores às que lhe
lutas travadas em torno da Mercanzia pelos lojistas e são devidas - até o triplo da dívida.
artesãos das Artes Menores, particularmente para a Ele tem o trabalho e eles dependem dele para vi-
anulação ou suspensão das dívidas contraídas pelos ar- ver: não só os operários e as operárias que emprega em
tesãos junto aos mercadores-banqueiros. seu estabelecimento ou domicílio, como também os pe-
Mais forte ainda era, naturalmente, a autoridade quenos artesãos cujas ferramentas são freqüentemente
destes sobre os operários, sobretudo nas duas regiões de sua propriedade. Estes últimos só podem obter ma-
onde se pode falar, na Idade Média, de um proleta- téria-prima com ele e não lhes é permitido vender os pro-
riado operário ligado à existência de uma grande in- dutos de seu trabalho sem a sua mediação. Ora, ele en-
dústria de tipo capitalista: a indústria têxtil de Flan- gana quanto à qualidade da matéria-prima, ao peso e
dres e as indústrias têxteis e navais da Itália central e cobra preços exorbitantes. Para os salários ou as com-
setentrional. Muitas vezes, aliás, artesãos e operários pras, "paga pouco, mal ou simplesmente não paga",
se encontravam, em face do mercador-banqueiro, num pratica o "truck system ", ou pagamento em mercadoria.

48 49
Ele tem a moradia. Como a maioria dos grandes han se enfureceu e botou-o para fora de sua casa sem
comerciantes, possui várias casas. Estas acabam sen- lei e sem processo". Então, é a força que ele empre-
do um investimento ainda mais lucrativo porque ne- ga. Como um camponês não lhe quisesse vender as
las se alojam sobretudo seus operários, clientes e for- plantas que já vendera a outro mercador, numa épo-
necedores. Assim, residindo numa espécie de cidade ca em que o preço da garança estava em alta, Boine-
operária bastante embrionária, eles dependem dele ain- broke vai à sua plantação com dois de seus operários
da mais. Ou melhor, ele lhes fornece conscientemente e "mandou desenterrar a garança à força e levá-Ia pa-
um trabalho de valor inferior ao preço do aluguel pa- ra sua casa", e o coitado do camponês "não recebeu
ra mantê-los cada vez mais à sua mercê. "Em suas ca- nem um vintém".
sas, eles se tornavam, pode-se dizer, verdadeiros pri- Ante tanta arrogância, os humildes interlocuto-
sioneiros do carcereiro que era Boinebroke. " {Aliás, em res de Boinebroke, mesmo depois de sua morte, ou no
toda parte a dominação dos grandes comerciantes so- momento do inquérito reparador, não ousam revoltar-
bre a propriedade urbana é considerável. Em Lübeck, se contra ele. "Foram por tanto tempo e de tal modo
eles possuem os melhores terrenos nos cruzamentos das oprimidos que se abandonaram com bastante natura-
ruas principais, os celeiros de cereais e os armazéns do lidade à sua própria sorte. Esse sentimento, que per-
porto, e, na cidade, as construções indispensáveis aos durou durante toda a vida de Boinebroke, tornou-se
artesãos: cubas, fornos, o conjunto dos edifícios do suficientemente forte para persistir mesmo após o seu
mercado - único lugar onde os artesãos podem ven- desaparecimento, levando-os a não se arriscar senão
der e às vezes, como os ourives, produzir. com uma certa timidez ... a expor as suas queixas. A
Essa gente humilde, Boinebroke esmaga também lembrança tirânica do morto parece ainda pairar e pe-
com o peso de seu poder social. Em relação a ela, usa sar sobre eles, detendo-os e aterrorizando-os ao mes-
ora o desprezo, ora a força. Com as mulheres, sobre- mo tempo que permanecem hesitantes em exprimir suas
tudo, "a quem despreza visivelmente", usa de ironia. reclamações perante os testamenteiros do defunto, num
A uma tintureira, de cuja mercadoria se apoderou in- meio que não é o deles e que é, ao contrário, aquele
devidamente, diz: "Comadre, vá pegar no pesado, já ao qual seu opressor pertenceu."
que está na miséria: pesa-me vê-Ia assim!" E, como Mas às vezes as reações são violentas. Às greves,
ela é obrigada a aceitar, mas protesta, ele acrescenta: aos motins, juntam-se verdadeiros movimentos revo-
"Comadre! Não lhe devo nada, que eu saiba, mas vou lucionários que fazem do século XIV um século de cri-
colocá-Ia em meu testamento" . E Georges Espinas ob- ses sociais com episódios violentos, crises complexas,
serva: "O patrício brinca com sua comadre, arruinan- mas das quais um dos aspectos essenciais reside na re-
do-a com palavras e de fato, tal como, poderíamos di- volta dos artesãos e operários explorados contra o gran-
zer, o gato brinca com o rato antes de devorá-loré efe- de mercador.
tivamente a oposição entre a onipotência e a extrema Nesse caso, porém, os revoltados se chocam com
fraqueza" . o último poder do grande mercador, seu poder politi-
Mas o que ele mostra é também a cólera, como CO. Este não tardou a coroar o êxito comercial e a for-
no caso de um locatário que apesar de ter regulariza- tuna. Senhores das com unas italianas, os ~~_
do seu aluguel, se recusava a pagar mais: "E Sire Je- acabam presidindo o conselho urbano, o~;aaséi./>

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dades alemãs, onde elaboram um direito urbano que tantes do que se imagina. Cidades e campos não esta-
integra o jus mercatorum primitivo. Esse processo tam- vam isolados na Idade Média. Econômica, democrá-
bém é encontrado mais tarde. É em 1433 que Hans tica e politicamente, suas relações são um fato capi-
Popplau de Liegnitz vem instalar-se em Breslau. Seu tal. Nas regiões fortemente urbanizadas, onde os mer-
primo Andreas junta-se a ele alguns anos depois. Os cadores se tornaram poderosos, sua ação sobre os cam-
dois fundam uma sociedade que negocia com tecidos pos logo se fez sentir. A princípio, eles contribuíram
de lã, arenques, óleos, especiarias, couros, objetos de para a libertação dos camponeses, pois esse era um
ourivesaria. Compram esses artigos nos Países Baixos meio de luta contra os senhores feudais, uma oportu-
e os revendem na Baviera, Áustria, Boêmia, Polônia. nidade para adquirir terras dos nobres, privados de
Hans ingressa no Rat de Breslau em 1446 e ali perma- mão-de-obra, ou dos camponeses, proprietários sedu-
nece até sua morte, em 1456. Em 1448, é burgomes- zidos pelo dinheiro oferecido e principalmente, talvez,
tre. Seu filho Markus é membro do Rat de 1483a 1499, graças à emigração dos camponeses libertos para as
sem deixar de ocupar-se dos negócios. cidades, um meio de obter mão-de-obra barata para
O próprio Boinebroke foi magistrado oficial de a indústria e o comércio.
Douai pelo menos nove vezes. Sabemos que ocupou Além disso, em certas regiões os mercadores mo-
esse cargo especialmente em 1280e que, nesse ano, com dificaram as condições de exploração e de vida dos
seus colegas de mesma classe social, reprimiu "cruel- camponeses. Graças aos capitais, puderam investir na
mente" uma greve revolucionária dos tecelões. "A lei, terra para melhorar as técnicas, realizar grandes obras
que devia castigá-lo e vingar suas vítimas, salva-o, pois hidráulicas, como em Flandres ou na planície do rio
é ele que a faz e a aplica. Para compreendê-lo , cum- PÓ, difundir os rnoinhos.Graças ao seu espírito e aos
pre não separar jamais a política da economia; uma seus métodos comerciais, conseguiram melhorar a pro-
permitiu e provocou a outra, que, por sua vez, a com- dução e, até certo ponto, racionalizá-Ia:' Graças à sua
pleta e consolida; legalizando-a e legalizando também orientação comercial e às suas reações ante a conjun-
os abusos." tura econômica, conseguiram por vezes proceder a uma
Exceção, esse terrível Boinebroke? Gostaríamos reconversão das culturas, remédio para as crises agrí-
de acreditar nisso, e, sem dúvida, ele possuía certos colas: substituição da cultura pela criação para aten-
traços individuais de caráter que exacerbaram algumas der às necessidades da indústria têxtil, como na Ingla-
atitudes e comportamentos. Mas, como observou G. terra e na região de Metz; aumento da cultura da ga-
Espinas e como confirmam tantos documentos, ele é rança para a tintura, como em Flandres, e depois, nos
efetivamente um tipo característico de uma categoria séculos XIV e XV, progresso do pastel, que os merca-
cujo comportamento social - fundado nas estruturas dores tolosanos, por exemplo, vão cultivar em várias
econômicas e políticas - foi singularmente feroz. regiões do sudoeste da França; impulso dado na Itá-
lia, pelos mercadores florentinos, à cultura da amo-
3. Mercadores e camponeses - Se por um lado reira, quando encontram dificuldade em obter a seda
os contatos dos mercadores com os camponeses foram do Turquestão. Os mercadores estão também interes-
menos estreitos do que com as demais classes sociais, sados no abastecimento das cidades que dominam po-
por outro eles foram mais numerosos e mais impor- liticamente. A agricultura é protegida; alguns cultivos,

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como os da vinha ou das árvores frutíferas, são incen- selhesa fazia trabalhar, além da região Sudeste, a lio-
tivados. Um dos célebres afrescos de Ambrogio Lo- nesa, a de Bresse e mesmo a região de Chartres. En-
renzetti, no Palácio Comunal de Siena, representa os quanto os mercadores dos velhos centros têxteis urba-
efeitos no campo do "bom governo" da burguesia mer- nos, como Gand, se esforçavam por todos os meios,
cantil. inclusive a força, para opor-se ao desenvolvimento des-
Mas não se deve pensar que os camponeses ape- sa indústria concorrente, os mercadores dos novos cen-
nas lucraram com esses contratos. Só se beneficiaram tros construíam sua fortuna com ela e praticamente
do apoio dos mercadores quando concluíram com eles às custas da mão-de-obra camponesa. Na Itália, as
contratos que, em troca de capitais, do fornecimento cláusulas dos contratos de arrendamento a meias
de gado, ferramentas ou sementes, lhe impunham não tornam-se mais draconianas; institui-se o assalariado
só obrigações geradoras de progressos - arroteamen- agrícola, mas com condições de vida mais miseráveis;
tos, exploração de madeira, construção de edifícios -, a situação dos pequenos camponeses se agrava e as-
como o compromisso de deixar nas mãos do merca- sistimos até mesmo, da parte dos mercadores proprie-
dor, sócio capitalista, a maior parte dos lucros. Nos tários fundiários, a uma verdadeira reação que, rea-
campos de Messina, segundo J. Schneider, os campo- nimando as taxas senhoriais, tende a reconduzir os
neses dos domínios burgueses conquistaram "a liber- camponeses ao estado servil. Esse movimento se acom-
dade pessoal, mas com sujeição econômica". panha de um desprezo crescente pelos rustici, do qual
Quando, a partir do século XIV, a crise econô- vamos encontrar largos ecos na literatura do século XV
mica atingiu mais particularmente os campos, a atitu- inspirada pela burguesia mercantil.
de dos mercadores para com os camponeses que de-
pendiam deles endureceu, ainda mais porque o recuo
dos capitais mercantis sobre a terra se ampliou. Bem 11. Aspectos da dominação política da burguesia
cedo, sem dúvida, os mercadores adquiriram bens fun- mercantil
diários, sinal e fonte tradicionais de riqueza e consi-
deração. Mas esse movimento se acelerou a partir do Assim, fundada no dinheiro, na rede de seus ne-
século XIV, acentuando a tendência de alguns gran- gócios e em seu poder político nas cidades, a burgue-
des mercadores a tornar-se "capitalistas". São conhe- sia mercantil constituiu na Idade Média uma verda-
cidas as célebres casas de campo dos Mediei, que eram deira classe, dotada de um espírito de grupo e da qual
não apenas luxuosas residências, mas também centros Y. Renouard disse, a propósito de Florença: "O que
de exploração. Talvez no seio da família dos Alberti a dominação política dos homens de negócios estabe-
se possa perceber melhor uma verdadeira ruralização leceu foi efetivamente um regime de classe". Essa clas-
que inspirará um membro da família, no século XV, se, apesar das reservas expressas por eminentes histo-
o famoso Léon Battista, a uma série de regras econô- riadores a respeito desse termo, devemos chamá-Ia de
micas e éticas. patriciado.
Ao mesmo tempo, sobretudo na indústria têxtil, "Que é, afinal, esse patriciado?", escreve J. Les-
os mercadores procuraram no campo, mais que antes, tocquoy. "É uma classe social cujos contornos não re-
uma mão-de-obra barata. Assim, a indústria têxtil mar- ceberam uma confirmação jurídica, pois não se pode
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confundir esses grupos de homens bastante fechados membro da famosa família de banqueiros dos Cres-
com a burguesia. É uma fração da burguesia, não ra- pin "esqueceu" de declarar 20 mil libras!
ro a mais rica, mas sobretudo a mais poderosa por sua Mais ainda, a fraude fiscal acompanha-se do des-
influência no governo da cidade. Essa classe social só perdício do dinheiro público, uma parte do qual vai
adquire toda a sua amplitude nas cidades onde a in- para as caixas dos grandes mercadores. As cidades se
dústria e o grande comércio oferecem possibilidades endividam e às vezes vão à falência, como Noyon. Ve-
de enriquecimento quase ilimitadas. mos os célebres Bardi e Peruzzi em Florença, em 1343,
Sem dúvida, o apogeu do patriciado situa-se no tentarem tomar o poder para evitar a bancarrota de
século XIII; nos séculos seguintes, sob o efeito das cri- suas empresas, e, num momento de dificuldade, o Mag-
ses econômicas, uma evolução social e política vem às nífico não hesitará, para restaurar as finanças da fir-
vezes impor limites à onipotência dos patrícios. ma dos Mediei, em recorrer à Caixa Comunal em no-
Muito embora os movimentos revolucionários ur- me das raparigas pobres.
banos não passem de incêndios breves, rapidamente
apagados, os artesãos pertencentes às classes médias 1. Os mercadores "democratas" - Mais curioso tal-
conseguem com freqüência dividir com os grandes mer- vez seja o papel que, nos movimentos "democráticos"
cadores o poder político das cidades. e mesmo francamente revolucionários, desempenha-
Entre os motivos que levaram o povo das cidades ram alguns grandes mercadores e membros do patri-
a sublevar-se contra a tirania patrícia gritando "Abaixo ciado. Jacques Van Artevelde e Etienne Marcel são dois
os ricos!", ao lado das reações da miséria que erguiam exemplos célebres.
as "unhas sujas" contra os mercadores capitalistas, Preboste dos mercadores de Paris, Etienne Mar-
deve-se sublinhar os ressentimentos decorrentes da ges- cel pertence a uma das maiores e mais ricas famílias
tão das finanças urbanas pelos patrícios. de fabricantes de tecidos da cidade. Sua oposição à po-
Os patrícios no poder fixam o imposto. Já por is- lítica real é a princípio a mesma dos membros de sua
so eles estão votados à impopularidade que é levada classe, hostis à nobreza feudal que cerca a realeza e
ao extremo pelo fato de eles próprios se dispensarem aos funcionários da monarquia, que tentam controlar
de pagá-lo, fazendo recair o respectivo ônus sobre os os negócios dos mercadores. Ele se aproveita da der-
mais pobres. Um célebre texto de Beaumanoir, em suas rota de Poitiers e da regência do jovem delfim Carlos
famosas Coutumes du Beauvaisis, mostra isso muito para tentar impor as condições da burguesia ao regente
bem: e seus conselheiros, por meio da revolta instaurada em
"Inúmeras reclamações aumentam nas cidades de Paris. Trata-se sobretudo de diminuir os tributos fis-
comuna a propósito da derrama, pois com freqüência cais que pesam sobre as cidades. Mas, para submeter
os ricos que governam os negócios da cidade declaram Paris, precisa apoiar-se no povo parisiense, no "co-
menos do que devem, eles e sua família, e fazem mum". Não quer, no entanto, comprometer-se com
beneficiar-se das mesmas vantagens os outros ricos; as- a Jacquerie - movimento revolucionário rural -,
sim, todo o ônus recai sobre os pobres." abandonando-a à sua sorte. Mas acaba, em conseqüên-
A fraude fiscal chegou a tal ponto que por vezes cia da posição que toma, mesmo pensando numa re-
irromperam escândalos, como em Arras, onde um volução política que substituiria a monarquia dos Va-

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lois pela dinastia de Navarra na pessoa de Carlos, o cluídas ainda de qualquer participação no poder polí-
Mau, se tornando cada vez mais o porta-voz do "co- tico, mas já amadurecidas para semelhante participa-
mum". E é varrido, também ele, por uma reação das ção. Discerniu, pois, e utilizou um movimento profun-
classes dirigentes que se aproveitam, senão da cumpli- do que aguardava o seu líder. Sua intervenção preci-
cidade, pelo menos da passividade das classes popula- pitou a luta entre o povo e uma parte do patriciado
res, não dispostas a apoiá-lo até o fim pois, na verda- apoiado pelo príncipe, enquanto uma fração do clero
de, ele não é dos seus. E é assassinado, também ele, se conservava neutra. Mas, prisioneiro daqueles a quem
em 31 de julho de 1358. devia sua ascensão, obrigado pouco a pouco a adotar
O ódio dos patrícios por esses mercadores "de- uma atitude cada vez mais violenta e revolucionária,
mocratas" parece ter sido legado aos historiadores, que foi abandonado pelos elementos do patriciado que o
muitas vezes só quiseram vê-Ios como "agitadores". haviam seguido no começo e a quem seu radicalismo
Foi assim que os pintaram os cronistas "reacionários" acabara por amedrontar. De político que era a princí-
da época. Para o patrício florentino Villani, Artevel- pio, seu movimento tornou-se social; durante os últi-
de foi um indivíduo desprezível, "de vil nação e ofí- mos meses de sua administração, Henri de Dinant não
cio", cuja morte encerra uma moral: "Tal é geralmente pode mais contar com o apoio popular e, desde en-
o fim dos homens presunçosos que se fazem passar por tão, passa por um democrata ou mesmo, como diz
chefes das comunas". Hocsem, um demagogo. É isso que explica a impor-
O cronista Jean de Hocsem também descreve Hen- tância e a força da coalizão que se forma contra ele
ri de Dinant, mais um desses "burgueses democratas", e que agrupa o príncipe, a nobreza e o patriciado. Não
como um demagogo (duetor populit, e Jean d'Outre- terá sido difícil aos seus vencedores transmitir à pos-
meuse diz a seu respeito: "Ele fazia o povo se levan- teridade uma imagem deformada do tribuno e fazê-Io
tar contra o senhor e contra os clérigos ... era tão fal- passar por um vulgar agitador, inspirador de uma po-
so e traidor e cobiçoso, que não lhe bastava à ambi- lítica demagógica. A leitura dos cronistas liegenses do
ção ter propriedade." Reabilitando sua verdadeira fi- século XIV mostra o sucesso que essa versão alcançou
gura, F. Vercauteren traçou um retrato dele que vale e que haverá de conhecer, aliás, até o século XIX."
por todos os seus semelhantes: É certo que rivalidades pessoais no seio do patri-
"Era um rico burguês, membro do patriciado, mas ciado - concorrência de negócios e de prestígio - e
não das antigas linhagens que detinham o poder em considerações de ambição pessoal tenham tido seu pa-
Liege. Inteligente, ambicioso e eloqüente, quis ter um pel em muitos casos. Muitas vezes, o interesse fez com
que esses ricos se colocassem ao lado dos pobres. Os
papel pessoal no governo dos negócios urbanos, libertar
ricos açougueiros, como o famoso Caboche em Paris,
a burguesia da autoridade principesca e pôr termo, para
que animaram movimentos revolucionários, queriam
esse fim, à oligarquia dos magistrados oficiais. Pare-
sem dúvida se servir do povo para vencer o desdém
ce também ter tentado a realização de uma aliança es-
que lhes atribuía o resto da alta burguesia, apesar de
treita entre as principais cidades liegenses, a fim de opor
sua fortuna. Em Metz, eles foram também o "elemento
a política dos burgueses à do príncipe. Para levar a cabo
revolucionário mais ativo". Mas em muitos casos es-
seus projetos, atraiu para si as massas populares, ex- ses desertores, desgostosos com o egoísmo e a fero-
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cidade de sua classe e conscientes de uma evolução que das senhorias, e as rivalidades que podem ameaçar es-
contrariava a obstinação dos patrícios instalados em
tas últimas, constituídas por uma família de mercado-
seus privilégios, não fizeram mais que seguir a voz de
res-banqueiros, como os Mediei em Florença, não de-
sua consciência e inteligência.
vem mascarar o profundo consentimento da grande
A comunidade de ação, por exemplo, de Tournai
burguesia mercantil italiana em face de regimes que
em 1280, onde os patrícios formam a "Confraria dos
garantem pela força e demagogia a segurança das for-
Donzéis" , aliança da grande burguesia contra o povo
tunas.
ameaçador, não impediu a irrupção, no interior do pa-
triciado, das mais ásperas rivalidades políticas, expres-
são das disputas comerciais. 2. Mercadores e principes - Bem cedo, os gran-
A) Lutas dos clãs burgueses - Essas lutas entre des comerciantes desempenharam também um papel
grandes famílias patrícias são particularmente célebres político junto aos príncipes e soberanos. A base desse
na Itália. Muitas vezes, elas formam a base da oposi- papel está, evidentemente, nos serviços financeiros e
ção que lança os guelfos contra os gibelinos, como, econômicos prestados pelos mercadores-banqueiros às
por exemplo, em Gênova, onde das quatro grandes fa- potências eminentes que é preciso procurar.
mílias, quatro "tribos", os Fieschi e os Grimaldi são Benedetto Zaccaria colocou sua frota e suas com-
guelfos e os Doria e os Spinola, gibelinos. Foi sem dú- petências de marinheiro a serviço dos reis da França
vida em Florença que essas lutas mais se celebrizaram e de Castela, dos quais foi almirante. Para Felipe, o
- entre Negros e Brancos, imortalizadas por Dante, Belo, ele organiza o arsenal de Ruão e traça o progra-
entre Alberti e Albizzi no fim do século XIV, entre AI- ma das construções navais do soberano.
bizzi e Mediei, Mediei e Pazzi no século XV. O triun- Dino Rapondi, mercador e banqueiro de Lucca,
fo político e a expulsão dos adversários são os melho- exerce um papel de diplomata e "verdadeiro ministro
res meios para que uma família se desembarace dos das Finanças" dos dois duques de Borgonha e condes
concorrentes e destrua seus negócios. A grande com- de Flandres: Felipe, o Temerário, e João Sem Medo.
panhia dos Alberti declina e morre após a chegada dos As grandes empresas militares e políticas que re-
Albizzi ao poder. queriam a mobilização de grandes capitais colocaram
Nos dois últimos séculos da Idade Média, contu- os mercadores italianos em primeiro plano.
do, essas rivalidades no seio das grandes famílias mer- Em primeiro lugar, as Cruzadas. Os negociantes
cantilistas são sem dúvida menos significativas e me- de Gênova, Pisa e Veneza fornecem aos cruzados as
nos importantes que o apoio cada vez mais decidido embarcações, o abastecimento e o dinheiro, com mé-
que essa classe dá às novas estruturas políticas, acre- todos, por vezes, tão evoluídos quanto os mandatos
ditando assim criar obstáculos para a ascensão das clas- sobre o tesouro real com os quais os mercadores ge-
ses populares e para o perigo de certos movimentos re- noveses financiaram a sétima Cruzada, de São Luís.
volucionários: é o que acontece onde quer que a tira- Mas não se contentam com os lucros que lhes trazem
nia e a monarquia centralizada apareçam (não é este, essas vendas ou empréstimos: controlam também a vida
por exemplo, o caso da Alemanha). econômica das conquistas ocidentais. Enquanto os ve-
B) Mercadores e senhorias - Na Itália, os gran- nezianos se instalam em Bizâncio após a quarta Cru-
des mercadores favorecem o advento e a consolidação zada, vemos grandes mercadores como os Embriaci ad-
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ministrarem as colônias que sua pátria genovesa pos- feudos que recebe na Grécia ou na Itália, leva uma vi-
sui na Síria e na Palestina. da deslumbrante de grande senhor; embaixador do pa-
Outro campo de ação para os mercadores: a con- pa em Avinhão, desempenha um papel de "fazedor
quista do reino de Nápoles pelos angevinos, com a aju- de reis"; um afresco de Andrea del Castagno nos con-
da do papado. Na luta dos papas contra os imperado- servou a figura altiva desse grande senescal do reino
res alemães, o conflito com os filhos de Frederico 11, da Sicília.
e sobretudo com seu filho natural Manfredo, senhor A gestão das finanças da Santa Sé também repre-
da Itália do Sul e da Sicília, passa a primeiro plano senta para os mercadores italianos vastas possibilida-
após 1250. Os gibelinos, partidários de Manfredo, des. Nos tempos de Avinhão, quando a rede de ma-
triunfam em Siena e em Florença, e os principais lhas, cada vez mais estreitas, do fisco pontifical se fe-
mercadores-banqueiros dessas cidades que mantinham cha sobre a cristandade, são os grandes banqueiros ita-
relações comerciais com a Santa Sé emigram ou são lianos, sobretudo os florentinos, que fazem voltar o
exilados. Foi a eles que Clemente IV, um champanhês produto dos impostos e taxas múltiplas às caixas da
bastante informado sobre operaçôes financeiras inter- Cúria, adiantam ao papa as consideráveis quantias de
nacionais, se dirigiu para o financiamento da conquista que ele precisa, fazem por ele todas as operações fi-
do reino de Nápoles batizada de "cruzada" e confia- nanceiras necessárias e dispõem, sobre uma vasta área
da pelo papa a Carlos de Anju, irmão de São Luís. geográfica, dessa incomparável massa de manobra que
Trata-se de uma empresa considerável com riscos enor- o dinheiro da Igreja oferece para os seus negócios'.
mes. Para convenceros negociantes florentinos exila- Banqueiros do papa, como mostrou Y. Renouard, são
dos, o papa lhes hipoteca, em troca dos capitais que também conselheiros políticos. Os papas de Avinhão
adiantaram, o produto do imposto sobre a Cruzada farão da sociedade dos "Alberti antichi" até mesmo
a ser recuperado nas feiras da Champagne, o tesouro uma verdadeira agência de informação a seu serviço.
pontifical, os bens da igreja de Roma e, se necessário, A política continental dos reis da Inglaterra pro-
os objetos preciosos, os vasos de ouro e prata de sua porciona aos italianos um terreno de operações igual-
capela e de seu tesouro. A vitória das tropas francesas mente privilegiado. Financistas das empresas inglesas
e a instalação dos angevinos em Nápoles abriram aos da Guerra dos Cem Anos, eles consolidam junto aos
banqueiros de Carlos de Anju a dominação econômi- soberanos de Londres sua posição econômica, assim
ca na Itália do Sul e na Sicília por mais de um século. como postos militares e políticos. Sem dúvida revela-
Foi dentre eles que os reis angevinos escolheram mui- se aqui a importância dos riscos em detrimento dos em-
tos de seus principais conselheiros. É o caso dos Ac- prestadores mais imprudentes, e o fracasso deuma ex-
ciaiuoli de Florença. No começo do século XIV, um pedição inglesa tornará inevitável a falência das maiores
Acciaiuoli é camareiro do rei Renato, vigário real e se- companhias florentinas, como as dos Peruzzi e dos Bar-
nhor de Prato. A fortuna de seu filho Nicolau será ain- di. No século XV, porém, mais uma vez veremos os
da mais brilhante. Grande negociante, hábil adminis- mercadores italianos, em regiões onde não têm inte-
trador, diplomata sem par, ele junta a esses talentos
qualidades físicas que fazem dele o favorito da impe- . I. Mas as possibilidades oferecidas para a transferência de capitais
ratriz Catarina de Courtenay e da rainha Joana L Nos toram, sem dúvida, as mais importantes.

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resses comerciais - em Guyenne, por exemplo -, ser- pecialmente a Idade Média, "corresponde uma classe
vir aos reis da Inglaterra como governadores e almi- distinta de capitalistas ... Não é do grupo dos capita-
rantes. listas de uma dada época que procede o grupo dos ca-
Vemos também no fim da Idade Média, no con- pitalistas da época seguinte. A cada transformação do
texto dessas monarquias cujo caráter nacional matiza movimento se produz uma solução de continuidade.
cada vez mais a ação centralizadora, mercadores lo- Os capitalistas que até então desenvolveram sua ativi-
cais aparecerem no primeiro plano do palco político. dade, se reconhecem, dir-se-ia, incapazes de adaptar-
Um William de La Pole já é influente junto a Eduar- se às condições requeri das por necessidades até então
do III da Inglaterra. Sabe-se do brilhante papel desem- desconhecidas e que exigem métodos não-empregados.
penhado no século XV por Jacques Coeur junto a Car- Retiram-se da luta para se transformar numa aristo-
los VII da França. cracia cujos membros, embora ainda intervenham no
Assim, ao longo de toda a Idade Média, seja o manejo dos negócios, só o fazem de modo passivo, na
patricia do das cidades, no contexto urbano e comu- qualidade de arrendadores de fundos. Em seu lugar,
nal, sejam os grandes capitalistas, no contexto esta- surgem homens novos, ousados, empreendedores, que
tal, os mercadores-banqueiros respaldaram e coroaram audaciosamente se deixam levar pelo vento que sopra
seu poder econômico com um poder político onde se e sabem dispor suas velas de acordo com sua direção,
mesclavam a busca do lucro e do prestígio.j até o dia em que, modificando-se essa direção e deso-
rientando suas manobras, eles se detêm por sua vez e
3. As grandes familias burguesas - Entre elas, se apagam diante de uma equipe dotada de forças fres-
vamos encontrar quase sempre os mesmos nomes. As cas e de tendências novas".
grandes casas mercantis se identificaram com as linha- Essa tese encontrou diversos contraditores, e, em
gens do patriciado, com as grandes famílias do comér- torno de sua fecunda sugestão, travou-se um debate
cio, do banco e da política. Eram dinastias burguesas sempre aberto, com a especial participação de G. Es-
e por vezes enobrecidas, como as dos Ziani e dos Mas- pinas e J. Lestocquoy: "Novos-ricos ou filhos de ri-
tropiero, dos Soranzo e dos Balbi, em Veneza; dos Sa- cos?"
limbeni, Tolomei e Buonsignori, em Siena; dos Bar- Não nos ocupamos aqui de um aspecto dessa dis-
di, Peruzzi, Acciaiuoli, Alberti, Albizzi, Mediei e Pazzi, cussão, aquele que se refere à origem da classe dos gran-
em Florença; dos Fieschi, Spinola, Doria, Grimaldi, des mercadores medievais. Sem dúvida, como mostra-
Uso di Mare, Gattilusio, Lomellini e Centurioni, em ram depois de Pirenne, em muitos lugares são antigas
Gênova; dos Uten Hove e Van der Meire, em Gand; famílias nobres, antigos funcionários feudais, possui-
dos du Markiet, Boinebroke e Le Blond, em Douai; dores de uma certa massa de capitais, que se entrega-
dos Crespin, Hucquedieu, d'Yser e Stanfort, em Arras. ram ao comércio fornecendo-lhe seus cérebros e seus
Poderia, pois, parecer que essa classe dos gran- dirigentes. Mas Pirenne chamou a atenção para aque-
des negociantes medievais, além de sua coerência eco- les que - aproveitando-se do surto demográfico dos
nômica e política, tenha conhecido uma outra forma séculos X-XII e do movimento urbano que deslocou
de coesão: a continuidade familiar. os quadros da sociedade rural e militar da Alta Idade
Num estudo célebre, Henri Pirenne negou essa te- Média -, partindo do nada ou de pouco, se elevaram
se. Para ele, "aos diversos períodos" da história, es- ao primeiro plano graças ao comércio.

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Mesmo assim, a classe dos grandes mercadores se por completo. Em Veneza, os novos-ricos, que enri-
estabilizou, uma vez desaparecidas essas condições ex- queceram por seu trabalho aproveitando-se do siste-
cepcionais de mobilidade social. A partir do século ma da commenda e depois se tornaram capitalistas cada
XIII, os Rockefeller e os Carnegie, que sempre cons- vez mais poderosos, formam os case nuove, as "casas
tituíram exceções, foram cada vez mais raros na Ida- novas", que coexistem com as case vecchie dos anti-
de Média. Não entrou quem quis na grande burguesia gos ricos. Em Flandres, nos séculos XIV e XV, a grande
comercial, salvo talvez na Inglaterra, onde, sobretu- burguesia da poorterie compreende, ao lado dos novos-
do na classe mercantil londrina, a "fluidez" parece ter ricos, os descendentes do antigo patriciado. Aliás, a
sido muito grande nos séculos XIV e XV2. Como disse extinção de algumas famílias pode estar ligada a acon-
A. Sapori referindo-se a Florença, só "nas classes aci- tecimentos políticos, como é o caso dos Alberti, mas
ma da do trabalhador assalariado" é que houve "com- não se deve transformar em lei da evolução econômi-
penetração". "Os membros do que se costuma cha- ca e social as célebres páginas - belo trecho literário
mar de burguesia faziam bloco contra o povinho, res- - de Leon Battista Alberti, no século XV, em seu tra-
tabelecendo o sistema das contribuições centrado nos tado Da familia, consagradas às vicissitudes das gran-
impostos indiretos, ditando as modalidades do traba- des famílias comerciantes que do fastígio do poder caí-
lho manual e fixando-lhe as remunerações." No sécu- ram no declínio e no esquecimento.
lo XIV, acaba se estabelecendo o divórcio - nos pla- Mais interessante é seguir a evolução que tende
nos político e ideológico - entre capital e trabalho. a transformar os mercadores ativos em capitalistas.
Os burgueses convertidos em capitalistas são tratados Sem dúvida, ainda aqui a conjuntura econômica pesa
de "ociosos" (otiosi) pelos trabalhadores. A separa- sobre tal evolução. É diante das dificuldades do co-
ção é completa entre os ofícios "fundados no labor mércio, do estreitamento dos horizontes, da perda de
ou ria mercadoria". Já no fim do século XIII, "só alguns mercados que os capitais comprometidos nos
quem não ganha a vida pelo trabalho manual" pode negócios e no banco são concentrados e investidos em
ingressar no Rat de Lübeck, e desde 1312 as "pessoas bens imobiliários e fundiários. Isso vale particularmen-
mecânicas" são excluídas das funções municipais em te para os italianos, nos séculos XIV e XV, como já
Nevers. vimos, e o desenvolvimento de um império veneziano
Mas há, na tese de Pirenne, algumas constatações de Terra Firme está ligado a esse recuo dos capitalis-
de primordial importância. tas para a terra. F.-C. Lane mostrou-o no caso de An-
É justo vincular o aparecimento de certas famí- drea Barbarigo e seus descendentes: ele que investiu
lias no primeiro plano do palco dos negócios e a ex- todo o seu dinheiro no comércio esperou a idade ma-
tinção de algumas outras às diversas fases do movi- dura para comprar um domínio predial. Mas os tuto-
mento econômico. Mas, salvo exceções, nem sempre res de seus filhos começam a comprar com sua heran-
os recém-chegados são desconhecidos no mundo do ça outras propriedades nas regiões de Treviso e de Ve-
comércio e do banco; nem os antigos desapareceram rona, sem contar os domínios coloniais em Creta, e
investem o dinheiro de seus pupilos de preferência em
títulos de empréstimo de Estado. É o momento em que,
2. Na Alemanha do século XV é difícil distinguir o aspecto social devido à conquista turca, Veneza sofre pesadas per-
da emigração dos alemães do Sul para o Norte.

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das no Oriente. Em 1462, já não há senão um décimo cadores-artistas. Para a época moderna, no contexto
do capital familiar investido no comércio. Quando o de uma velha cidade da Alemanha hanseática, Tho-
filho mais velho Nicoló faz seu testamento, em 1496, mas Mann pintou essa evolução, em Os Buddenbrooks.
recomenda ao seu próprio filho não investir capitais Ela foi freqüente na Idade Média. Vamos encontrar
no comércio, que rende muito pouco. uma célebre ilustração dela entre os Mediei. De Cos-
Do mesmo modo, quando em 1457 uma crise fe- me a Lourenço, o dinheiro que foi irrigar o Renasci-
cha aos Popplau de Breslau os mercados da Boêmia, mento florentino faltou para os negócios da firma fa-
Kaspar Popplau aplica uma parte de seus capitais no miliar.
campo, onde compra terras. E, assim como essa nova Portanto, se é justo estabelecer matizes e se é pre-
orientação dos capitais mercantis permite a substitui- ciso desconfiar da "concepção de uma classe burgue-
ção da antiga aristocracia fundiária por uma nova, é sa fazendo bloco a cada época", em todo caso, a clas-
por investimentos de um novo tipo que, nas cidades, se dos grandes mercadores burgueses com vicissitudes
um patriciado de novos-ricos substitui o antigo. Em e renovações, apresentou na Idade Média uma notá-
vel unidade cuja trama é feita não só das permanên-
Lübeck, os homines novi compram rendas e seus de-
cias econômicas, mas também das continuidades hu-
vedores pertencem essencialmente às velhas linhagens
manas no seio das grandes famílias do comércio e do
e se encontram doravante à mercê de seus credores.
Já no fim do século XIII, a viúva de Bertrand Morne- banco.
wech, "o primeiro e o mais feliz representante do no-
vo tipo de mercador", investe desse mesmo modo
14.500 marcos lübeckenses entre 1286 e 1300.
Mas essa evolução, acentuada e acelerada pela his-
tória econômica, não está inteiramente ligada a ela.
E um movimento natural que, em nossa época, leva
o negociante a investir em propriedades imobiliárias
e prediais. Na juventude, as viagens; na idade madu-
ra, os negócios sedentários; na velhice, uma semi-
aposentadoria em suas terras. Mais do que uma ques-
tão de idade, é uma questão de geração. O pai, edifi-
cador da empresa, embora no início dispusesse de uma
certa fortuna, consagra àquela todo o seu tempo, es-
forços e dinheiro. O filho ou neto, criados na abas-
tança, que receberam de sua educação ao mesmo tempo
o gosto da cultura e a sensibilidade às coisas da arte,
dedicam menos tempo aos negócios e mais às despe-
sas pessoais: prazeres do espírito, prazeres menos no-
bres. Depois dos acumuladores, os desfrutadores. De-
pois dos mercadores que só são mercadores, os mer-

68 69
CAPÍTULO rn
A atitude religiosa e moral

I. A Igreja contra os mercadores: a teoria

Afirmou-se com freqüência que o mercador me-


dieval foi importunado em sua atividade profissional
e rebaixado em seu meio social devido à atitude da Igre-
ja a seu respeito. Condenado por ela no próprio exer-
cício de sua profissão, teria sido uma espécie de pária
da sociedade medieval dominada pela influência cris-
tã.

1. A condenação - De fato, alguns textos céle-


bres parecem incluir o mercador no índex. Eles se re-
sumem numa frase famosa encontrada num adendo
ao decreto de Graciano, monumento do direito canô-
nico no século XII: Homo mercator nunquam aut vix
potest Deo placere, "o mercador nunca pode agradar
a Deus - ou dificilmente". Os documentos eclesiás-
ticos - manuais de confissão, estatutos sinodais, co-
letâneas de casos de consciência - que fornecem lis-
tas de profissões interditas, illicita negocia, ou de ofí-
cios desonrosos, inhonesta mercimonia, quase sempre
incluem o comércio. Neles, encontra-se uma frase de
uma decretal do papa São Leão Magno - por vezes
atribuída a Gregório, o Grande - segundo a qual "é
difícil não pecar quando se exerce a profissão de com-
prar e vender". Santo Tomás de Aquino sublinhará que
"o comércio, considerado em si mesmo, tem um certo
caráter vergonhoso" - quamdam turpitudinem ha-

71
belo Eis o mercador rejeitado, parece, pela Igreja, em contrar OS mercadores entre seu dinheiro e os diabos
companhia das prostitutas, dos jograis, cozinhei- que os torturam - como, por exemplo, nos afrescos
ros, soldados, açougueiros, taberneiros e também, de Taddeo di Bartolo da colegiada de San Gimigna-
aliás, dos advogados, notários, juízes, médicos, cirur- no. A primeira causa de sua condenação é que, pelo
giões, etc. objetivo que eles se propõem - o lucro, a riqueza -,
eles quase que inevitavelmente cometem um dos peca-
dos capitais, a avaritia, ou seja, a cupidez.
2. Os motivos - Quais os motivos dessa conde-
nação? Em primeiro lugar, o próprio objetivo do co-
mércio: o desejo de ganho, a sede de dinheiro, o lu- 3. A usura - Mais precisamente, o mercador e
crum. São Tomás declara que o comércio "é conde- o banqueiro são levados, por sua profissão, a praticar
nado com toda a razão porque satisfaz por si mesmo ações condenadas pela Igreja, operações ilícitas que,
à cobiça do lucro, que, longe de conhecer qualquer li- em sua maioria, são denominadas usura.
mite, se estende ao infinito". A literatura e a arte me- Por usura, a Igreja entende, com efeito, todo ne-
dievais transmitiram-nos a imagem que seus contem- gócio que comporta o pagamento de juros: Por isso,
porâneos tinham do mercador ávido de lucro e por is- o crédito, base do grande comércio e do banco, é in-
so mesmo em conflito com a moral cristã; castigado terdito. Em virtude dessa definição, todo mercador-
por Deus e pela Igreja. Há o Padre-Nosso do usurá- banqueiro, praticamente, é um usurário.
rio que não consegue deixar de pensar em seus negó- As razões alegadas pela Igreja para a condenação
cios e em seus denários ao recitar sua prece e, mais ain- da usura são múltiplas. Há, em primeiro lugar - ar-
da, o Credo do usurário, cujo herói moribundo, ver- gumento decisivo para ela -, os textos das Escritu-
dadeiro Grandet" medieval, não se contenta em entre- ras. Dois deles se revestem de autoridade neste parti-
mear as palavras de sua derradeira prece com alusões cular, um tirado do Antigo Testamento, outro do No-
ao seu dinheiro, mas manda trazê-lo e amontoá-lo dian- vo. O primeiro, extraído do Deuteronômio (XXIII,
te dele e, terminada a recitação, pede que o enterrem 19-20, e completando aliás um texto do Êxodo XXII,
com o seu maior saco de dinheiro: 25, e um do Levítico XXV, 35-37), declara:

"Então, ele se volta e cerra os dentes Não exigirás de teu irmão nenhum juro nem para di-
Sua alma se separa de seu corpo nheiro, nem para víveres, nem para coisa alguma que se preste
E assim que ela sai ao juro.
Os Diabos a levam,
Amém, para o inferno eterno." As palavras do Novo Testamento são colocadas
na própria boca de Cristo, que diz aos seus discípulos:
E é entre as almas condenadas, no círculo infer-
nal onde estão os amantes da riqueza, que vamos en- r Se emprestais apenas àqueles de quem esperais resti-
tuição, que mérito tendes? Porque os pecadores em-
prestam aos pecadores a fim de receber o equivalen-
* Personagem sovina do romance Eugénie Grandet, de Balzac. te ... Emprestai sem nada esperar em retorno, e grande
(N. R.) será vossa recompensa. (Lucas, VI, 34-35.)

72 73
Os autores eclesiásticos mencionam também um gável progresso em relação ao entesouramento prati-
certo número de motivos ligados à moral natural. Dois cado pelos homens da Alta Idade Média, adeptos de
deles são particularmente interessantes. O empresta- um ideal de economia fechada. Mas é também, por pu-
dor, em primeiro lugar, não realiza um verdadeiro tra- ra aceitação de uma nova autoridade, obstáculo, so-
balho, nem cria e transforma uma matéria ou objeto, brecarga, fonte de incompreensão e de novas dificul-
mas explora o trabalho alheio, o do devedor. Ora, a dades. Porque essa teoria da moeda, negando o valor
Igreja, cuja doutrina se formou no meio rural e arte- do crédito, provoca um divórcio entre o pensamento
sanal judaico, só reconhece esse trabalho criador co- cristão e a evolução econômica.
mo fonte legítima de ganho e de riqueza. Tanto mais Mais grave talvez, porque põe em jogo estrutu-
que a ascensão das classes urbanas no Ocidente, entre ras mentais ainda mais complexas e fundamentais,
os séculos X e XIII, traz novamente ao primeiro pla- é a concepção cristã do tempo. Em São Tomás e em
no da sociedade os trabalhadores nesse sentido tradi- outros teólogos e canonistas, encontramos, com efei-
cional - incluindo aí os primeiros mercadores cristãos, to, o argumento de que pela prática do juro se "ven-
de labor itinerante. de o tempo". Ora, este não pode ser uma proprie-
Há também a dificuldade com que os canonistas dade individual. Pertence unicamente a Deus. Assim,
e teólogos se defrontam para admitir que o próprio di- a reflexão cristã, não podendo fugir a um contexto
nheiro possa gerar dinheiro e que o tempo - aquele, teológico-moral estreito, se mostra incapaz de che-
de maneira concreta, que decorre entre o ato do em- gar a concepções econômicas, quaisquer que sejam os
préstimo e o de seu reembolso - possa também pro- consideráveis esforços dos pensadores e juristas do
duzir dinheiro. A primeira consideração, que levou à século XIII. O mercador, por sua vez, também não
formulação do famoso adágio Nummus non parit num- consegue chegar à concepção clara e à formulação das
mos, "dinheiro não produz dinheiro", vem de Aris- crenças econômicas que constituem o fundamento de
tóteles e difundiu-se com as obras e as idéias desse fi- sua atividade, mas não é esse o seu papel. Ele as ex-
lósofo no século XIII. prime em suas operações: assim como o outro prova-
Na esteira do Estagirita, São Tomás de Aquino va o movimento andando, ele prova o crédito comer-
e Gilberto de Lessines afirmam que o dinheiro deve ciando.
servir para favorecer as trocas e que acumulá-lo, fazê-lo
frutificar por si mesmo, é uma operação contra a na- 4. Mercadores cristãos e infiéis - Em circunstân-
tureza. "Em vez de transferir os bens necessários à vi- cias especiais, os mercadores medievais também atraí-
da, acumula-se com espírito avaro", diz Gilberto de ram para si a reprovação da Igreja na luta contra os
Lessines. Belo exemplo dos resultados da influência infiéis. Já na Alta Idade Média, os mercadores dos pri-
aristotélica sobre o pensamento cristão medieval. Por meiros grandes centros comerciais italianos - Nápo-
um lado, o dinheiro é um estimulante, um suporte na les, Amalfi, Veneza=->, cujo tráfico com os muçulma-
elaboração de uma reflexão que busca adaptar-se às nos representava uma parcela importante de suas ati-
novas condições da economia. A teoria de uma moe- vidades, tomaram por vezes, nas lutas entre cristãos
da, instrumento da circulação dos produtos, é um ine- e infiéis, o partido destes últimos, incorrendo nas ex-

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comunhões do papado. Essas questões tornaram-se 11. A Igreja e os mercadores: a prática
ainda mais agudas na época das Cruzadas, quando a
Igreja se engajou sem restrição na luta armada con- Mas, assim como esse exemplo mostra a distân-
tra o Islã - numa época em que o desenvolvimen- cia entre a realidade e a doutrina da Igreja, na prática
to do comércio internacional tornara os contatos mer- as relações entre a Igreja e os mercadores eram muito
cantis com os árabes praticamente indispensáveis pa- diferentes da teoria que acabamos de esboçar.
ra os grandes mercadores ocidentais> Veneza partici-
pou da primeira Cruzada só a contragosto e para ga- 1. Proteção dos mercadores - Bem cedo a Igreja
rantir sua parte no saque quando a expedição esti- protegeu os mercadores. Já em 1074, o papa Gregório
vesse suficientemente adiantada. Parece que sempre VII ordena a Felipe I, rei da França, que restitua a mer-
preferiu desviá-Ia para Bizâncio, o que conseguiu, CD- cadores italianos vindos ao seu reino as mercadorias
mo se sabe, na quarta Cruzada. A legislação das Cru- que ele mandou confiscar. Chega a ameaçar o rei de
zadas estipula efetivamente a interdição do comércio excomunhão em caso de recusa. E trata-se, como se dis-
com o inimigo e decreta o embargo sobre os produtos se com razão, do "começo de uma longa série de do-
estratégicos, particularmente as madeiras, o ferro, as cumentos do mesmo gênero" Ainda em 1263, vemos
armas e os navios. De modo mais geral, a Igreja proi- o bispo de Dinant mandar edificar um mercado' 'para
bia, em caráter permanente, a venda de escravos ao proveito e utilidade de todos e sobretudo para os mer-
Islã, que constituía um dos maiores tráficos dos mer- cadores". Os manuais de confessores citam os merca-
cadores cristãos medievais. Ora, as trocas, mesmo na dores entre as pessoas que podem ser dispensadas do
época das Cruzadas, não se interromperam. Uma cor- jejum ou da observância do repouso dominical, seja
respondência entre mercadores muçulmanos de Túnis porque seus negócios não podem sofrer protelação, seja
e um mercador cristão de Pisa mostra - entre outros porque as fadigas de suas viagens lhes tornam penosas
documentos - a excelência das relações entre comer- as privações. Os esforços da Igreja no sentido de obter
ciantes infiéis e cristãos, o que se chamou de "a soli- a cessação das guerras privadas, o fim das lutas entre
dariedade dos mercadores muçulmanos e cristãos". príncipes cristãos, todo movimento que tendia a impor
Eis, por exemplo, o começo de uma dessas cartas: as "tréguas de Deus", a "paz de Deus", só podiam fa-
"Em nome de Deus, Clemente e Misericordioso vorecer a atividade dos mercadores, e esse objetivo é
"Ao mui nobre e distinto 'xeque', o virtuoso e às vezes explicitamente expresso. Assim, o 22? cânone
honrado Pace, pisano; que Deus preserve sua honra, do Concílio de Latrão de 1179, que regulamenta a tré-
queira a sua salvaguarda, ajude-o e assista-o na reali- gua de Deus, exige segurança "para os padres, mon-
zação do bem! Hilal ibn Khalifat-al-Jamunsi, vosso ges, clérigos, conversos, peregrinos, mercadores, cam-
poneses, animais de carga". Há aqui, como bem no-
amigo afeiçoado e que vos deseja o bem, a vós que
tou J. Lestocquoy, "uma espécie de hierarquia das pro-
seguis os caminhos da virtude, vos envia estas sauda-
fissões" aos olhos da Igreja. Os mercadores estão bem
ções, a misericórdia e as bênçãos de Deus." E a carta
colocados entre os clérigos e os camponeses.
é entremeada de numerosos: Bem cedo, igualmente, vemos os mercadores con-
"Meu caríssimo amigo, meu caro amigo Pace." siderados como bons cristãos e, longe de serem manti-
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dos a distância pela Igreja, acolhidos por ela e pro- vor de Robert de Béthune, solicitador de São Vedasto
fundamente integrados no meio cristão.Wemos em Ar- de Arras, vítima das práticas de vários dos principais
ras todo um grupo de ricos mercadores em estreita li- homens de negócios dessa cidade. Na maioria das ve-
gação com a abadia de São Vedasto. Membros da fa- zes, a Igreja fecha os olhos, tanto mais que os merca-
mília Hucquedieu são "homens de São Vedaste" . Jean dores e os banqueiros logo encontrarão meios de con-
Bretel, que comercia nas feiras da Champagne, é fun- tornar as interdições eclesiásticas e disfarçar a usura
cionário da abadia. Vimos mais acima um contrato co- camuflando os juros. Quando a letra era respeitada,
mercial redigido num convento genovês. Mais adian- a Igreja aceitava mais facilmente que o espírito fosse
te, veremos os laços recíprocos que uniram na Idade traído. Ora os juros pagos pelo devedor eram apresen-
Média a Igreja e ricos mercadores. tados como doação voluntária, ora assuiniam a for-
ma de uma multa paga quando da expiração do prazo
2. Impotência da Igreja em face dos mercadores de reembolso fixado expressamente numa data muito
- Sobretudo, talvez, o estudo dos documentos e um próxima, multa compensatória paga anualmente e em
simples relance de olhos na história econômica medie- troca da qual os lombardos recebiam uma licença au-
val mostram como a Igreja, em face dos mercadores, torizando a prática das operações teoricamente inter-
foi impotente, como ela se viu desarmada para fazer ditas. Às vezes, a usura era camuflada de tal modo que
respeitar sua doutrina econômica. se tornava difícil descobri-Ia, como no caso do câm-
Sem dúvida, contra a usura, considerada pecado bio seco, que se operava com a ajuda de uma letra de
mortal, fonte de fortunas ilícitas e da qual, teoricamen- câmbio fictícia onde se mencionavam operações de
te, não se podia fazer uso para fins caritativos, a Igre- câmbio que não eram realmente efetuadas.
ja editou toda uma série de sanções. Em primeiro lu-
gar, castigos espirituais: excomunhão e privação de se- 3. A justificação do mercador - Impotente na
pultura; em seguida, castigos temporais: a obrigação prática, a Igreja chegou a uma teoria mais tolerante,
de restituir lucros ilícitos; certas incapacidades civis, admitiu pouco a pouco derrogações e justificou isen-
como a não-validez dos testamentos dos mercadores ções cada vez mais numerosas e importantes. Os mo-
enquanto não tivesse sido feita a reparação de seus pe- tivos de tais escusas, obra da elaboração jurídica dos
cados em matéria econômica. Sem dúvida, em alguns canonistas e teólogos do século XIII, são particular-
casos, a Igreja procura efetivamente aplicar sua legis- mente interessantes de estudar, já que mostram como
lação. É conhecido o caso de quinze usurários de Pis- a Igreja fez aceitar ideologicamente a posição conquis-
tóia, citados no final do século XIII perante o tribu- tada pelo mercador na sociedade medieval nos planos
nal do bispo. Mas o próprio fato de os documentos econômico e político.
do processo indicarem que alguns deles praticam a usu- Há, primeiro, a consideração dos riscos em que
ra abertamente há vinte anos, mostra bem que a Igre- o mercador incorre. Eles são evidentes quando o mer-
ja não recorre às excomunhões senão de maneira ex- cador sofre um prejuízo real, damnum emergens. Nesse
cepcional. Às vezes, trata-se de satisfazer a eclesiásti- caso, como, por exemplo, se ele sofreu um atraso no
cos ou a pessoas ligadas à Igreja em conflitos com mer- reembolso, deve receber uma compensação que logo
cadores, como a intervenção pontifical em 1228 a Ia- não precisa mais camuflar-se sob o nome de multa, mas

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pode chamar-se "juros". Por outro lado, o empre~-
tador se priva de um lucro possível, ou mesmo prova-
vel ao imobilizar em seus empréstimos o dinheiro que
poderia servir-lhe imediatamente para outros fins. Já
no final do século XII, uma decretal de Alexandre 111,
, laboris. Deparamos aqui com a teoria eclesiástica do
salário ligado ao trabalho, fruto da reflexão cristã so-
bre o movimento social dos séculos X-XIII e que re-
sulta numa sociedade fundada no trabalho dividido en-
tre os assalariados. A aplicação dessa teoria ao mer-
regulamentando a venda a crédito, .autorizava por ~s- cador foi fácil numa época em que o mercador típico
se motivo, lucrum cessans, o recebimento de uma In- era um viajante, um itinerante exposto a todos os pe-
denização. De um modo mais geral, o emprestador rigos de que falamos mais acima. O mercador capita-
sempre corre riscos: insolvência ou má fé do devedor, lista sedentário entrava mais dificilmente nessas cate-
juntando-se a isso, a partir do final do século ~II~, gorias. Podia-se, é certo, considerar como um "tra-
o perigo de ver o valor do dinheiro emprestado ~lml- , balho" os cuidados de organização e as preocupações
nuído na hora do reembolso, seja em consequencia de I
de direção que ele tinha. Mas é antes em consideração

~
uma mudança monetária, seja por efeito das flutua- aos serviços que prestava à sociedade pelo uso de seu
ções no preço da prata. Esse risco, periculum sor~is,
que é levado cada vez mais em consideração à me?ld.a
1 dinheiro, de sua organização e de seus métodos, que
ele foi assimilado a um trabalhador.
que se compreendem melhor os mecamsmos e,CO?Oml- Com efeito, foi a noção de utilidade e de necessi-
cos e monetários, fornece então a base da doutnna da dade dos mercadores que veio coroar a evolução da
Igreja no tocante ao comércio e ao banco) Bast~ ha- doutrina da Igreja e lhes valeu o direito de cidadania
ver dúvida quanto ao resultado de uma operaça~ - definitivo na sociedade cristã medieval. Bem cedo se
ratio incertitudinis -, e a Igreja reconhecer que ISSO evidenciou a utilidade dos mercadores, que, indo bus-
pode ser inerente a toda atividade do mercador, p~r.a car em lugares distantes as mercadorias necessárias ou
que o recebimento de juros seja justificado. A habl~l- agradáveis, os gêneros e os objetos inexistentes no Oci-
dade casuística conduz então a fórmulas como a de Gil- dente e vendendo-os nas feiras, forneciam às diversas
bert de Lessines, segundo a qual "a dúvida e o risco classes da sociedade aquilo de que elas precisavam. Eis
não podem ocultar o espírito de lucro, isto é, descul- como fala o autor do Dit des marchands:
par a usura", mas, havendo "incer.teza e ,não .~álcu-
10... a dúvida e o risco podem equivaler a eqüidade
... que se devem os mercadores
da justiça" . Assim, tornam-se autorizados os contra- Mais que a outras gentes honrar,
tos de associação, de "sociedade" , o câmbio e sobre- Pois eles vão por terra e mar
tudo as operações tais como o uso da letra de câmbio E a muitas terras estranhas
_ exceto o "câmbio seco" -, o comércio das rendas Em busca de lã e de finas peles.
constituídas,isto é, assentadas em bens imobiliários, E há outros que vão para além-mar
Para pimenta, canela e gengibre comprar.
e os juros dos empréstimos públicos. Que Deus guarde os mercadores do mal
Há , também - e esse é um novo avanço . no pro- Que a nós mesmo é preciso perdoar.
cesso de justificação do mercador pela Igreja -, a con- A Santa Igreja primeiramente
sideração do labor do comerciante, do trabalho que Pelos mercadores foi provida.
ele fornece e pelo qual deve receber salário, stipendium E sabei que a Cavalaria

80 81
Os mercadores em apreço deve ter lismo liberal. Razão suplementar para aproximar a re-
Pois são eles que levam os corcéis
volução comercial do século XIII da do século XIX.
A Laingni, a Bar e a Provins.
Existem mercadores de vinhos,
Essa noção já é esboçada por Tomás de Cobham,
De trigo, de sal e de arenque, no começo do século XIII, que diz em seu Manual de
E de seda e de ouro e de prata, confissão:
E de pedras de mui grande valor.
Os mercadores vão pelo mundo afora Haveria uma grande indigência em muitos países se os mer-
Buscando muitas coisas comprar. cadores não trouxessem os artigos abundantes de certos lu-
gares para aqueles onde esses mesmos artigos faltam. Assim,
Mas, no fim do século XIII e começo do século eles podem merecidamente receber o preço de seu trabalho.
XIV, duas noções vieram reforçar singularmente es-
sas considerações. A primeira é conseqüência da in- Encontramos sua expressão mais acabada no co-
trodução do pensamento antigo e do direito romano meço do século XIV, nos versos de um cônego de Tour-
na teologia cristã e no direito canônico. A idéia de nai, Gilles le Muisit. No poema C'est des marchands ... ,
"bem comum", de "utilidade comum", tão impor- este declara:
tante, por exemplo, em Aristóteles, foi aplicada à ati-
Nenhuma terra se pode prover sozinha;
vidade dos mercadores pelos autores cristãos. Ligan-
Para tanto trabalham e penam os mercadores
do essa idéia à do trabalho, Santo Tomás declara: Buscando em outros reinos o que falta;

,
Não se deve sem razão maltratá-los.
Se alguém se entrega ao comércio com vistas à utilidade pú-
blica, se quer que as coisas necessárias à existência não fal- Por que os mercadores atravessam o mar,
tem no país, o lucro, em vez de ser visado como um fim, Por prover o país, eles se fazem amar;
é considerado como simples remuneração do trabalho. Jamais se faz censurável o bom mercador;
Faz-se antes amar e ser tido como bom e leal.
Exatamente como Guillaume Durand e Burchard
Nutrem nos países a caridade e o amor.
de Estrasburgo, que declarara:
Por isso sua riqueza deve-nos alegrar.
É pena que na terra bom mercador empobreça.
Os mercadores trabalham para benefício de todos e fazem Que Deus tenha suas almas quando partirem!
obra de utilídade pública trazendo e levando as mercadorias
das feiras. Assim, o grande comércio internacional é dora-
vante uma necessidade desejada por Deus. Ele entra
A segunda noção resulta do reconhecimento da no plano da Providência. E, por sua atividade, tam-
interdependência dos países e das nações do ponto de bém entra o mercador, personagem caridoso, provi-
vista econômico. Evolução capital. Do pensamento au- dencial, membro essencial da sociedade cristã.
tárquico da Alta Idade Média, que considerava a ne- É o que sublinhará com ênfase, no século XV, Be-
cessidade das trocas exteriores um defeito, uma tara • nedetto Cotrugli, de Ragusa, em seu manual sobre O
econômica, passa-se à crença na necessidade e no be- comércio e o mercador ideal.
nefício dessas trocas. É a descoberta daquilo que será A dignidade e a profissão de mercador são gran-
o princípio fundamental do livre-câmbio, do capita- des sob muitos aspectos ... Primeiro, em razão do bem

82 83
comum, pois o progresso do bem-estar público é um XIV: "Tua ajuda, tua defesa, tua honra, teu lucro,
objetivo muito honroso, segundo Cícero, e deve-se mes- é o dinheiro". E Mollat, estudando os grandes mer-
mo estar disposto a morrer por ele ... O progresso, o cadores normandos do fim da Idade Média, pôde fa-
bem-estar e a prosperidade dos Estados repousam em lar do "dinheiro, fundamento de uma sociedade".
grande parte nos mercadores; falamos sempre, eviden-
temente, não dos pequenos e vulgares mercadores, mas 2. A influência social - Para acumular esse di-
dos gloriosos mercadores cujo elogio é o tema de meu nheiro, é indispensável ter a paixão dos negócios, o gos-
livro ... Graças ao comércio, ornamento e motor dos to de fazer frutificar o capital, o espírito de iniciativa.
Estados, os países estéreis são providos de alimento, Em seu Livro dos bons costumes, o florentino Paolo
de gêneros e de numerosos produtos curiosos impor- di Messer Pace da Certaldo aconselha:
tados de outras terras ... os mercadores trazem tam-
bém, em abundância, as moedas, as jóias, o ouro, a Se tendes dinheiro, não fiqueis inativo; não o conserveis es-
téril em vossa casa, pois mais vale agir, mesmo que disso não
prata e todos os tipos de metais ... O trabalho dos mer- se tire lucro, do que permanecer passivo e igualmente sem
cadores é ordenado para a salvação da humanidade. lucro.

IH. A mentalidade do mercador E mesmo que não se tenha dinheiro, ou se tenha


pouco, ainda assim existe um meio de fazer fortuna,
Assim justificado e até exaltado, o mercador me- como ensina Cotrugli, que aconselha também não se
dieval pode dar livre curso ao seu gênio. Seus objeti- deixar abater pelos dissabores:
vos são a riqueza, os negócios, a glória.'
Vi grandes personagens que, arruinados, não se envergonha-
vam de emprestar cavalos aos carroceiros, de tornar-se cor-
1. O dinheiro - O amor ao dinheiro continua sen- retores, donos de estalagens ou seja lá o que for. E vi-os voltar
do sua paixão fundamental. ricos em pouco tempo, com 10 mil ducados; não os nomea-
O mercador, diz Cotrugli, deve governar-se, a si rei, pois não quero torná-Ias orgulhosos ou humilhá-Ias em
e aos seus negócios, de maneira racional para atingir seu orgulho. Sabemos também que os genoveses e os cata-
seu objetivo, que é a fortuna. lães, se forem arruinados por algum acidente ou alguma má
fortuna, tornam-se piratas; os florentinos tornam-se corre-
Todos os mercadores, sobre os quais se debruça- tores ou artesãos e livram-se de embaraços graças à sua ha-
ram os historiadores da Idade Média, têm esse amor bilidade ...
fanático pelo dinheiro, desde os banqueiros de Arras,
dos quais Adam.de La Halle disse no século XIII: "ali 3. A dignidade - E os mercadores podem ser or-
eles amam excessivamente o dinheiro", desde os flo- gulhosos.
rentinos, pintados por Dante como "gente cúpida, in- Freqüentam artesãos, fidalgos, barões, príncipes
vejosa, orgulhosa", apaixonada pelo florim, essa "flor e prelados de todas as categorias. Estes últimos acor-
maldita que extraviou as ovelhas e os cordeiros", até rem em multidão para visitá-los, pois sempre precisam
os mercadores tolosanos e ruaneses do século XV. To- deles. Vêem-se mesmo, com muita freqüência, gran-
dos pensam como um mercador florentino do século des eruditos visitar os mercadores em suas casas ... Pois

84 85

I
):t
nenhum profissional jamais soube, em nenhum reino agem como se acreditassem que a razão humana pode com-
ou Estado, manejar o dinheiro - que é a base de to- preender tudo, explicar tudo e dirigir sua ação ... têm uma
dos os estados humanos - como o faz um mercador mentalidade racionalista.
honesto e experiente ... Nem reis, nem príncipes, nem
homem algum de qualquer posição tem tanta reputa- Mas, o que os leva a esse emprego da razão -
ção e tanto crédito como um bom mercador ... Assim, a ratio latina, a ragione italiana -, é muito mais o as-
os mercadores devem orgulhar-se de sua eminente dig- pecto do cálculo que o da pesquisa desinteressada. Daí
nidade ... Não devem ter as maneiras brutais dos ru- o egoísmo que se manifesta na concorrência:
des soldados nem as maneiras doces e afetadas dos bu-
fões e atores, mas a seriedade sempre deve transpare- Não deves servir a outrem para desservir-te em teus próprios
negócios,
cer em sua linguagem, em sua postura e em todas as
suas ações, para que se mostrem à altura de sua digni- diz Paolo di Messer Pace da Certaldo. E o mercador
dade. medieval, mais que qualquer outro, teve o senso e o
Assim fala Benedetto Cotrugli, mercador de Ra- gosto - quase patológico - do segredo dos negócios.
gusa.
É a essa obsessão pelo segredo que devemos mui-
4. A ética mercantil- Esboça-se dessa forma uma tas vezes o fato de estarmos tão mal informados mes-
ética mercantil, toda mundana, toda laica. Ela se de- mo nos casos em que existem documentos. Os merca-
fine por uma moral dos negócios que os manuais para dores medievais - principalmente os genoveses -, pa-
uso dos mercadores - Conselhos sobre o comércio e ra não informar eventuais concorrentes, omitiram ou
outros - exprimiram com perfeição. camuflaram em seus livros, contratos e escriturações,
Do mercador exigem-se a prudência, o senso de a destinação de suas empresas, calaram o nome de seus
seus interesses, a desconfiança para com o outro, o me- correspondentes, a natureza das mercadorias. Como
do de perder dinheiro, a experiência. ' produto desse estado de espírito e dessas práticas, Leon
Battista Alberti, no século XV, não apenas recomen-
Não freqüentes os pobres, pois nada podes esperar deles, dará ao mercador não colocar os membros de sua fa-
mília - a começar pela esposa - a par de seus negó-
diz O nosso anônimo florentino; e, acima de tudo, o
cios, como o exortará a construir uma morada de on-
mercador deve calcular. O comércio é uma questão de
raciocínio, organização e método. de nada transpire daquilo que se faz em seu interior,
espécie de fortaleza cujo exemplo são os palácios dos
Que erro, diz o anônimo, fazer o comércio empirica-
mercadores florentinos. Recomenda também portas e
mente;! o comércio é uma questão de cálculo - "si vuole escadas secretas por onde passarão os mensageiros, os
fare per ragione". empregados e portadores de notícias. Assim se mate-
rializa esse muro dos negócios que os capitalistas co- II
Como bem disse Y. Renouard, os grandes nego- meçaram a erguer desde a Idade Média.
ciantes italianos do século XIV, os mercadores me- Ficamos até mesmo escandalizados de ver o anô-
dievais nimo florentino do século XIV, em seus Conselhos ao
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mercador, citar um textq das Escrituras apenas para Calimala de Florença. O primeiro artigo ordena aos
se servir da autoridade do Deuteronômio (XVI, 19) e membros da Arte a obseryância da fé católica e a co-
recomendar o uso da corrupção: laboração com as autoridades públicas na luta contra
os heréticos. O segundo enumera os dias de festas re-
Os presentes cegam os olhos dos sábios e emudecem a ligiosas que devem ser mantidos. O quinto fixa com
boca dos justos. minúcia a participação da corporação nas cerimônias
religiosas solenes, onde esta deve ser representada. O
décimo-quarto prevê as despesas de caráter religioso
IV. A religião do mercador que a corporação deve fazer: a manutenção de um certo
número de lâmpadas acesas na igreja de São João, o
No entanto, seria um grande erro ater-se a essa pagamento da iluminação completa dessa igreja du-
visão de um mercador medieval ocupado unicamente rante as festas solenes; esmolas especiais a serem da-
com a busca dos bens deste mundo. Homem da Idade das aos pobres e a distribuição três vezes por semana,
Média, de uma sociedade toda impregnada de espíri- a esses mesmos pobres, de pão amassado com bom
to e práticas religiosas, ele é também um cristão. frumento.
Francesco Pegolotti, na introdução de seu famo-
"·1.A religião e os negócios - Já vimos, nos exem- so Manual do comércio, recopiou os versos de Dino
plos citados mais acima, que os documentos dos mer- Compagni:
cadores se colocam sempre sob a invocação divina. Os
livros de comércio começam todos por estas linhas: O mercador que almeja um grande mérito
"Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santa Deve agir sempre com toda a eqüidade.
Virgem Maria Sua Mãe e de toda a Santa Corte do Pa- Que ele tenha uma grande previdência
E cumpra sempre as suas promessas.
raíso, que por sua santíssima graça e misericórdia nos Que seja, se possível, de aspecto afável,
sejam concedidos lucros e saúde, tanto no mar como Como convém à honrosa profissão que escolheu.
em terra, e que nossas riquezas e nossos filhos se mul- Franco ao vender, atento ao comprar,
tipliquem com a salvação da alma e do corpo. Amém." Cordial em seu reconhecimento e que se abstenha de recri-
minar.
Seu mérito será ainda maior se freqüentar a Igreja,
O estudo das relações entre ofícios, corporações Se der por amor a Deus, concluir seus negócios
e confrarias é, a esse respeito, especialmente interes- Sem discutir e se recusar em absoluto
sante. G. Espinas e M. Bloch' abordaram-no com A praticar a usura. Enfim, que cuide bem
muita profundidade. De suas contas e nelas não cometa erros.
~.Principalmente os estatutos das corpo rações mer- Amém, conclui Pegolotti.
cantis manifestam as preocupações religiosas de seus 2. A beneficência - Na própria prática de seus negó-
membros. A. Sapori analisou os estatutos da Arte de cios, o mercador dá uma parte a Deus e aos pobres,
segundo a inspiração da Igreja. Ao lado do grande
1. Cf. M. Bloch (M. Foujeres), Entr 'aide et piété: les associations
cofre-forte onde guardava seu dinheiro, um cofre me-
urbaines au Moyen Âge, Mé/anges d'histoire socia/e, 1944. nor continha o dinheiro miúdo. Servia para as esmo-

88 89
Ias e, nos dias de festas, as sociedades comerciais da- senvolvem em suas paredes um verdadeiro "ciclo hos-
vam dinheiro trocado a cada um de seus membros pa- pitaleiro" consagrado à representação de atos de ca-
ra ser distribuído aos pobres. Essas quantias eram re- ridade.
gularmente registradas. .
Na Itália, aliás, Deus recebia, quando da consti- . 1 3. A penitência final - Era sobretudo no fim da
tuição de uma sociedade comercial, uma parte na em- vida e na hora da morte que os ricos mercadores ma-
presa. Associado, Deus tinha uma conta aberta, rece- nifestavam seus sentimentos religiosos.
bia sua parte dos lucros, registrada nos livros sob o Alguns chegavam até a abandonar suá profissão
título de "O Senhor Bom Deus", "O Senhor Dome- e suas riquezas, entravam nas Ordens, recolhiam-se
neddio"· e em caso de falência, era pago prioritaria- num convento para ali terminar seus dias.
mente quando da liquidação. Pode-se ver nos livros Werimbold de Cambrai, no começo do século XII,
de Bardi que em 1310 Deus recebe 864 libras e 14 sol- faz o bispo anular seu casamento, separa-se de sua mu-
dos. Deus, isto é, os pobres que o representavam na lher e cada um deles se recolhe a um convento,
terra. entregando-se à caridade. Distribui seus bens aos po-
, Por ocasião da assinatura de um contrato, era cos- bres e a duas abadias: Santo Alberto e Santa Cruz.
tume tomar Deus como testemunha e fazer-lhe em si- Em Veneza, em 1178, o doge Sebastiano Ziani,
nal de agradecimento uma oferenda chamada "Denier t, \ que graças ao comércio se tornou proverbialmente ri-
à Dieu" na França, "Denaro di Dio" na Itália, "Gottes- co - dizia-se "rico como Ziani" -, recolhe-se ao mos-
pfennig" na Alemanha (Dinheiro de Deus). Essa ofe-
renda era distribuída aos pobres.
Já no fim do século XI, Pantaleone de Amalfi doa
f,
, !
teiro de San Giorgio Maggiore. Lega-lhe todas as ca-
sas que orlam a Merceria da igreja de São Julião, na
,ç : ponte São Salvador e ao cabido de São Marcos, den-
portas de bronze fundidas em Constantin?pla, onde tre vários outros imóveis, transfere todos os que or-
possui vastos interesses, ao Domo de sua cidade natal Iam a praça de São Marcos. Seu filho, Pietro Ziani,
e à basílica de San Paolo fuori le Mura, em Roma; também doge, recolhe-se igualmente, em 1229, ao con-
manda construir uma magnífica igreja sobre o Monte vento de San Giorgio Maggiore.
Gargano, onde apareceu o arcanjo Miguel; funda um Baude Crespin, o famoso banqueiro de Arras, ter-
hospital em Antioquia e restaura mosteiros em Jeru- mina sua vida no começo do século XIV como monge
salém. de São Vedasto.
Os atos de beneficência e as doações piedosas fei- Bernardo Tolomei, um dos grandes banqueiros de
tas pelos mercadores medievais são incontáveis. J. Les- Siena, funda, com o mosteiro de Monte Oliveto Mag-
tocquoy enumerou em Arras vinte e três leprosários, giore, onde se recolhe, a congregação dos Olivetanos.
hospitais ou asilos fundados por famílias de mercado- A Igreja fez dele um dos Bem-Aventurados. Não é o
res. Em Gand, o famoso hospital da Biloque é uma primeiro mercador levado aos altares. Já no começo
fundação dos Uten Hove. Em Siena, o hospital de San- do século XII, Godric de Finchale foi canonizado, e,
ta Maria della Scala foi dado como dote por todos os um dos primeiros atos de Inocêncio IH, foi canonizar
grandes mercadores e banqueiros da ci.dade:Obra única em 1197um grande mercador de Cremona, Homebon.
em seu gênero, os afrescos de Domemco di Bartolo de- O exemplo de Santo Homebon será mais tarde citado

90 91
por autores piedosos que mostrarão, por seu exemplo, Pode-se pensar igualmente que o medo da Igre-
como se pode ir para o céu apesar ou através do co- ja, que apesar de tudo dispunha de poderosos meios
mércio. No caso dos mercadores, santifica-se a sua pro- de coerção temporal, deve ter inspirado muitos dos atos
fissão. aparentemente caritativos ou piedosos.
Para esses grandes mercadores, a morte é também Notar-se-á sobretudo, como o fizeram eminentes
a hora do arrependimento e, conforme as instruções historiadores, quão decisivo foi no espírito dos mer-
da Igreja, a da restituição a suas vítimas daquilo que cadores o medo do inferno .. Essa obsessão de quase
lhes tomaram indevidamente. . todas as pessoas da Idade Média parece ter acometido
Remorso tardio, sem dúvida, e cujas conseqüên- especialmente os mercadores. Em meio à prosperida-
cias pesarão principalmente sobre os herdeiros enca~- de, na força da idade e do poder, as frases que a Igre-
regados de proceder a tais reparações. Notamos tais ja lhes repete, as imagens terríveis que os pregadores,
remorsos no caso de Boinebroke. confessores e artistas agitam diante deles são facilmente
Mas, sem que se trate de restituições propriamente afastadas. Mas, quando chega a hora de acertar as con-
ditas, inúmeros e consideráveis são os legados à Igre- tas, conhecedores dos veredictos implacáveis que po-
ja os estabelecimentos caritativos, feitos pelos mer- dem sair de uma balança, imaginando de bom grado
cadores em seus testamentos. Francesco di Marco Da- manter Deus os seus registros como eles mantêm os
tini da Prato, que foi um negociante metódico e ásp~- deles, ficam amedrontados diante de seu passivo.
ro no ganho-, deixa quase toda a sua fortuna, 75 mil Empenham-se então em fazer com que o fiel da ba-
florins, para obras de beneficência. (
lança penda para o lado bom. Põem apressadamente
O valor desses sentimentos e os motivos desses atos desse lado as doações, as restituições e, se necessário,
piedosos e caritativos são certamente discutíveis. sua própria pessoa. Então, como no célebre tríptico
de Memling, no qual é pesado Tommaso Portinari, o
4. Os motivos religiosos - Pode-se considerar sus- grande mercador de Bruges, eles fazem a balança pe-
peita uma religião que mistura tão facilmente Deus a~s sar para o lado do Paraíso dos Justos.
negócios, exige-lhe êxitos terrestres e, talvez superstí- Cabe a cada um avaliar o valor de tal sentimento
ciosamente, faz a fortuna depender da proteçao dIVI- e de tal comportamento. Não se pode negar que o me-
na.: Em Toulouse, em 1433, o cambista Jacques de do do inferno seja uma forma do desejo fundamen-
Saint-Antonin fala dos bens' 'que Deus lhe concedeu talmente cristão de alcançar a salvação e que a menta-
e que com a ajuda de Deus, ele adquiriu neste sécu- lidade medieval, menos sensível que a nossa àquilo que
10". Notemos, em todo caso, que essa mentalidade, somos tentados a chamar de hipocrisia, tenha podido
da qual se pretendeu fazer uma das característ~cas d? admitir mais facilmente a coexistência de um grande
espírito da Reforma, encontra-se largamente dissemi- cinismo com uma profunda religiosidade.
nada entre os mercadores desde a Idade Média.
5. Mercadores e heresias - Infelizmente, é mui-
to difícil avaliar a parte que tiveram os mercadores nos
2. Armando Sapori considera-o "o segundo tipo do mercador ita-
liano", em quem "à generosidade e à audácia sucede um espírito pruden- movimentos heréticos da Idade Média. Sem dúvida,
te e estreito". a fogueira de heresias que se produziu nos séculos xne

92 93
V. Evolução da atitude da Igreja para com os
XIII está ligada ao desenvolvimento urbano - ainda mercadores.
que os vínculos entre as doutrinas cátara, valdense, pa-
tarina e as classes urbanas tenham sido mal discerni- O estudo das relações concretas entre a Igreja e
dos. Encontram-se muito mercadores entre os heréti- os mercadores leva-nos a corrigir consideravelmente
cos, principalmente no Languedoc, na Provença e na os esquemas que os opõem. É necessár-io, para com-
Itália do Norte. É difícil precisar seu número, seu pa- preender a sua complexidade, procurar nelas uma evo-
pel, e mais difícil ainda avaliar os seus motivos. Parti- lução e suas causas. Foi por se ter considerado a Igre-
cipação na luta contra o poder eclesiástico, contra a ja medieval como monolítica e imutável que se aven-
Igreja ligada à sociedade feudal? Por motivos econô- taram teorias de um simplismo inaceitável acerca de
micos, políticos? Sob o efeito de motivos mais propria- sua atitude para com os mercadores.
mente religiosos?
Em todo caso, deve-se notar que no próprio seio 1. O periodo feudal ~ Quando se desenvolve a
dessa classe de mercadores a influência cristã suscitou revolução comercial, que só chegará ao seu apogeu nos
muitas vezes reações de aversão ou medo em face do séculos XII e XIII, a Igreja, por sua posição econô-
dinheiro e do comércio. Mercadores - vimos alguns de- mica, por seus vínculos políticos, por seu recrutamen-
les - que renunciam aos seus negócios e ao mundo. Mais to social e por seu ideal, está intimamente ligada ao
ainda, filhos de mercadores em ruptura com a ativida- mundo feudal e rural. Durante esse período, a Igreja,
de e a psicologia paternas. Esse movimento pode levar pouco aberta aos problemas do comércio, tem pouca
longe no itinerário religioso. À heresia, como Petrus Val-· consideração pelo mercador. O fato de os judeus de-
do; às fronteiras da heresia é da ortodoxia, como os Umi- sempenharem ainda nessa época um papel importan-
liati italianos, ordens de monges-operários, poderosos te no Ocidente no tocante ao comércio internacional,
fortalece a Igreja em sua atitude de desprezo para com
na indústria de lanifícios, da qual talvez tenha partici-
tais atividades. Aliás, bem freqüentemente, ela tolera
pado o Santo Homebon de Cremona. No interior da
o seu papel econômico - do qual os cristãos se apro-
Igreja, vamos encontrá-Ios no movimento franciscano,
veitam. Para ela, a sociedade cristã corresponde à fa-
com o próprio São Francisco. Mas chegamos aqui às
mosa classificação de Adalbéron de Laon: os nobres
contradições dessa Ordem, à sua espiritualidade da po-
defendem a sociedade; os clérigos oram por ela; os ser-
breza, aos conflitos de consciência de seus membros. A
vos lhe permitem viver graças ao seu trabalho, indig-
pobreza dos antigos ricos não é a mesma que a dos que no das duas classes superiores. Sociedade militar, cle-
sempre foram pobres. Ideal para uns, ela permanece para rical e rural. A Igreja se espanta ou se escandaliza quan-
outros como uma certa maldição. E, nesse turbilhão do do vê um membro dessa sociedade entregar-se aos ne-
mundo franciscano, enquanto uns, ligados às velhas es- gócios. Ignobilis mercatura, é o que se diz sobre a vi-
truturas econômicas, permanecerão fiéis à idéia da po- da de São Guido de Anderlecht, no século XI, e aqui
breza absoluta até cair nas heresias, outros, em contato ignobilis quer evidentemente dizer mais "que não con-
com as cidades, com o movimento comercial, aceitarão vém a um nobre" do que "infame", e o mercador que
mais facilmente tolerar e justificar a atividade do mer- levou o santo a traficar é qualificado de diaboli mi-
cador, a propriedade, o dinheiro - sob a condição de nister, ministro do diabo.
permanecerem "pobres em espírito".
95
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2. A Igreja e a revolução comercial- Não admi- dici. E mesmo diretamente. Por certo, as práticas usu-
ra ver a Igreja modificar sua atitude para com os mer- rárias eram especialmente interditas aos clérigos, mas,
cadores ao mesmo tempo que procura libertar-se da assim como os mosteiros, durante a Alta Idade Mé-
sociedade feudal. Roberto Lopez mostrou o papel de- dia, tinham conseguido desempenhar o papel de esta-
sempenhado pelos moedeiros no sucesso de Gregório belecimentos de crédito, os estabelecimentos dos aba-
VII. Em sua luta contra a influência do feudalismo so- des e dos bispos que possuíam capitais suficientes exer-
bre a Igreja, a Reforma gregoriana precisou buscar alia- ciam, desprezando as interdições, a função de empres-
dos no mundo do dinheiro e do comércio; precisou do tadores e usurários. Tolerados com freqüência, eles
apoio dos mercadores, a nova potência. Lembremos agiam por vezes em plena luz do dia. Embora a Igre-
as intervenções desse papa em favor destes últimos. ja, rica sobretudo em bens prediais adquiridos na cri-
Mas uma parte do mundo clerical permanece estreita- se do feudalismo e da economia rural, tenha deixado
mente ligada ao feudalismo e à sua ideologia. Seus re- aos laicos o papel preeminente no desenvolvimento ca-
presentantes tardios continuarão por longo tempo a pitalista, viu-se, por exemplo, a Ordem dos Templá-
retomar os textos contra os mercadores, a invectivar rios, no século XIII, converter-se num dos maiores ban-
contra o dinheiro, como São Bernardo, todo imbuído cos da cristandade e a Ordem Teutônica, grande co-
do espírito feudal e rural e como aqueles pregadores merciante de lã, manter por exemplo um corretor em
que se opuseram ao seu século - é o caso de um tal Flandres por volta de 1400. Com mais flexibilidade do
Jacques de Vitry. que com relação a outras evoluções, a Igreja passou
Entretanto a hierarquia eclesiástica inclinava-se ca- do compromisso com o feudalismo ao compromisso
da vez mais para a adoção do mercador. Reconhecia, com o capitalismo.
em primeiro lugar, sua impotência diante dele, e logo
veio a precisar de sua ajuda, de seu dinheiro, de sua 3. A Igreja e o primeiros passos do capitalismo -
atividade. G. Le Bras falou da "usura a serviço da Igre- Nesse início, ela foi certamente ajudada pelos mem-
ja" . bros, cada vez mais numerosos, da rica classe mercantil
Sobretudo, o papado, como vimos, bem cedo não que ingressaram nas Ordens. "Levantei", diz J. Les-
podia mais prescindir da ajuda dos grandes banquei- tocquoy, "os nomes dos filhos do patriciado de Arras
ros italianos, e por toda parte bispos e abades recor- que ingressaram na Igreja: é o quadro de honra quase
reram aos grandes mercadores e cambistas locais. Não completo do próprio patriciado". Em pleno século
é exagero pensar que estes, numa sociedade impreg- XIII, o papa Inocêncio IV pertence a uma grande fa-
nada pela religião, fizeram pressão sobre os clérigos mília de mercadores genoveses: os Fieschi. A impor-
para obter da Igreja reabilitação e justificação. A Igreja tância desse novo recrutamento eclesiástico não foi su-
canonizou mercadores tal como canonizava, por polí- ficientemente ressaltada. Esses padres e monges, oriun-
tica, membros de dinastias reais. dos da burguesia mercantil, traziam esse conhecimen-
Ou melhor, a Igreja acabou bem cedo participan- to à Igreja. Conquanto se afastassem pessoalmente da
do desse movimento. Indiretamente, por intermédio prática dos negócios, eram impelidos a contribuir pa-
de seus banqueiros - como no famoso truste de alú- ra a justificação de seus próximos, seja por um espíri-
men que une no século XV a Santa Sé ao Banco Me- to de classe do qual não se haviam despojado por in-

96 97
teiro, seja por afeição carnal, seja porque o convívio do um obstáculo ao desenvolvimento do capitalismo,
íntimo com os mercadores os havia convencido de que, podemos nos perguntar se até mesmo em sua hostili-
mesmo desobedecendo a certas prescrições da Igreja, dade ela não acabou por servi-lo involuntariamente.
eram bons cristãos. Um leitor geral da Ordem fran- A condenação da usura, de certas formas de emprés-
ciscana, tomando no começo do século XIV a defesa timo a juros, levou os mercadores a aperfeiçoar os seus
dos mercadores, contesta que o empréstimo a juros seja métodos, a recorrer a sutilezas. O desenvolvimento da
ilícito, porque, diz ele, letra de câmbio, documento capital na ascensão da clas-
se mercantil, encontra sua fonte no desejo de obe-
os mercadores o praticam habitualmente e nem por isso dei- decer à Igreja substituindo uma operação de crédito
xam de preocupar-se com sua salvação, o que deveria acon-
que ela reprova por uma operação de câmbio que ela
tecer se tais práticas fossem ilícitas.
tolera.
Foi nas novas Ordens do século XIII, nas Ordens
mendicantes que, paradoxalmente, se encontraram os 4. O ideal da Igreja: as classes médias - No en-
mais ardentes defensores dos mercadores. Muitas ra- tanto, se a Igreja cedeu e mesmo integrou-se parcial-
zões impeliam numerosos dominicanos e franciscanos mente ao mundo capitalista, seu ideal, nesse domínio,
a esse papel. Em contato com os meios urbanos, eles não é o grande mercador, com relação ao qual ela não
próprios freqüentemente oriundos da classe dos mer- abandona toda sua desconfiança; é o artesão, o peque-
cadores, fiéis servidores do papado, empenhado em fa- no mercador, o membro das classes médias. O merca-
vorecer suas novas crenças, tinham além disso o co- dor das corporações, enquadrado pelas estipulações
nhecimento ao mesmo tempo das técnicas comerciais que impedem a fraude e a concorrência, protegem -
nas quais seu ambiente os havia iniciado e dos méto- pelo menos teoricamente - o consumidor e realizam
dos escolásticos que as universidades e as escolas de um equilíbrio na mediocridade; o artesão teoricamen-
sua Ordem lhes tinham ensinado. Foram eles, apoia- te livre, mas encerrado na órbita estreita de sua cida-
dos pelo papado, que nos manuais de confissão e nas
de e de sua loja, onde pode ser útil sem causar gran-
grandes obras de teologia e de direito canônico se cons-
des males, eis o ideal da Igreja. É este que ela apóia,
tituíram no século XIII nos instrumentos da justifica-
mesmo em seu malthusianismo econômico quando, por
ção ideológica e religiosa do mercador.
exemplo, nos séculos XIV e XV, ela condena como pe-
Pode, então, haver na Igreja tradicionalistas que
cado as "novidades" ou inovações técnicas que o mer-
se opõem aos mercadores. Pode até mesmo ocorrer,
no final da Idade Média, uma espécie de reação ecle- cador capitalista procura introduzir no âmbito da con-
siástica contra os mercadores. Santo Antonino de Flo- corrência internacional.
rença pode trovejar contra a usura, contra o dinhei- É ele que ela toma por modelo quando estabelece
ro, comover por algum tempo as multidões. Reação novos limites à atividade do mercador. Porque, con-
verbal que já não se reveste de grande importância. cluindo, a elaboração dos teólogos e dos canonistas
Reação que não levará água senão aos moinhos de bre- do século XIII visa unicamente a refrear o impulso ca-
ves revoltas, como as de Florença de Savonarola. pitalista, a preconizar um ganho moderado - lucrum
Assim, a Igreja não tardou a acolher o mercador, modera/um -, o respeito pelo "justo' preço" - jus-
a admitir o essencial de suas práticas. Longe de ter si- {um pretium -, a separar o bom do mau mercador.

98 99
o bom mercador é aquele que limita seus horizontes, e as distinções impostas pela evolução material e inte-
evita as ocasiões de pecado ao circunscrever seu raio lectual. Ora, o Renascimento impõe um novo salto ao
de ação. processo de laicização, que os séculos XII e XIII já
5. Os mercadores e o Renascimento - Terá sido haviam acelerado. No século de Maquiavel, a econo-
talvez mais para fugir a essa atmosfera rarefeita do que mia e a religião exigem estar separadas, tal como a mo-
para livrar-se de um jugo que vimos ter sido suave que, ral e a política. Há sempre católicos que são mercado-
na aurora do Renascimento, alguns grandes mercadores res, haverá cada vez menos mercadores católicos.
procuraram uma evasão fora da Igreja, fora da men-
talidade religiosa tradicional?
Quando o culto do poder, do indivíduo, da virtü
se elabora, o grande mercador vê nele um trampolim
para a sua necessidade de dominação, prospecção e des-
coberta.
Uns favorecerão esse Renascimento intelectual
que, satisfazendo às necessidades de suas fortes per-
sonalidades, lhes permitirá ser humanistas sem afastar-
se de uma Igreja à qual estão ligados por uma piedade
ainda medieval e pelo sentido de seus interesses, pois
ela pode ser, e com freqüência o é, um poderoso alia-
do social. Os Mediei, depois de haver animado e fi-
nanciado o Renascimento platônico em Florença, da-
rão à Igreja um Leão X, humanista e papa.
Outros irão juntar-se à Reforma e lhe trarão aque-
la espiritualidade do êxito na qual se encontra, por ve-
zes, a estranha aliança entre o mundo e o céu, a reli-
gião e os negócios, Deus e o mercador.
No século XVI, porém, a atitude religiosa do mer-
cador, para além das condições locais, será uma ques-
tão de opção individual.
E, sobretudo talvez, o mercador tomará consciên-
cia de que a economia não pertence ao domínio da Igre-
ja. Esta, que, na Idade Média, confundiu às vezes, suas
exigências morais com teorias positivas, confessa pe-
nosamente que não pode ter uma doutrina econômica
e que efetivamente não a tem. É difícil para ela, de-
pois de seu esforço totalitário medieval em abarcar o
conjunto das atividades humanas, aceitar as renúncias

100 101
CAPÍTULO IV

O papel cultural

I. Os mercadores e a laicização
da cultura

Com freqüência, tem-se a impressão de que os clé-


rigos detêm na Idade Média o monopólio da cultura.
O ensino, o pensamento, as ciências e as artes seriam
feitos por eles e para eles, ou pelo menos sob sua ins-
piração e controle. Imagem falsa, a ser amplamente
corrigida,' A influência da Igreja sobre a cultura só foi
quase total durante a Alta Idade Média. A partir da
revolução comercial e do desenvolvimento urbano, as
coisas mudam. Por mais fortes que continuem a ser
os interesses religiosos, por mais poderosa que seja a
alta hierarquia eclesiástica, grupos sociais antigos ou
novos têm outras preocupações, têm sede de conheci-
mentos práticos ou teóricos diferentes dos religiosos,
criam para si instrumentos de saber e meios de expres-
são próprios .
. Nesse nascimento e desenvolvimento de uma cul-
tura laica, o mercador desempenhou um papel capi-
tal. Para seus negócios, tem necessidade de conheci-
mentos técnicos. Por sua mentalidade, visa ao útil, ao
concreto, ao racional. Graças ao dinheiro e ao poder
social e político, pode satisfazer suas necessidades e
realizar suas aspirações.

1. As escolas laicas - Henri Pirenne, Armando Sa-


pore e Amintore Fanfani abriram o caminho para um

103
estudo sobre a instrução do mercador e seu papel na de uma nova sociedade. Na diversificação das escritas
história da educação. Até agora, só dispomos de in- que então se produz, ao lado da escrita de Chancela-
formações esparsas sobre um assunto capital: as esco- ria, elegante, bem-cuidada, feita para documentos so-
las laicas medievais. lenes, da escrita notarial, ao mesmo tempo chicaneira
Pode-se pensar que bem cedo os burgueses, vale e abreviada, é preciso conceder um lugar à parte à es-
dizer, essencialmente os mercadores, obtiveram o di- crita comercial, clara e rápida, exprimindo "energia,
reito de abrir escolas e dele usaram. Mas isso depende equilíbrio e gosto". Ela atende às crescentes necessi-
dos lugares, e talvez um melhor conhecimento das con- dades da contabilidade mercantil, da escrituração, da
dições escolares esclarecesse o avanço desta ou daquela redação de documentos comerciais. Escrever tudo, es-
região em matéria de organização comercial. crever logo, escrever bem, eis a regra número um do
Já em 1179, existem escolas comunais em Gand, mercador: Um genovês, no final do século XIII, acon-
e a liberdade de ensino - conquistada adespeito da selha: "Sempre deves lembrar-te de registrar por es-
forte resistência da Igreja - foi solenemente reconhe- crito tudo o que fazes. Escreve-o imediatamente, an-
cida na cidade pela condessa Matilde e pelo conde Bal- tes que saia do teu espírito". E um anônimo florenti-
duíno IX em 1191. De um modo geral, se a Igreja con- no do século XIV diz: "Não se deve ser preguiçoso ao
seguiu monopolizar o ensino "superior" e uma parte escrever", ("alio scrivere non si puo essere tardo).
do ensino "secundário", teve, por outro lado, de re- "Scripta manent" continua sendo ainda mais verda-
nunciar ao ensino primário. Era nas parvae scolae ou deiro para o mercador do que para qualquer outro.
scolae minores - em Ypres, por exemplo, era permi- Graças a ele, a escrita, a escrita caprichada e prática,
tido a qualquer um abri-Ias em 1253 - que os filhos a escrita útil e corrente, assume um lugar de primeiro
da burguesia comerciante recebiam as noções indispen- plano nas escolas primárias. .
sáveis à futura profissão.
Era sobretudo em quatro domínios que essa in- 3. O cálculo - Junto com a escrita, o cálculo.
fluência da classe dos mercadores sobre o ensino de- Sua utilidade para o mercador é ainda mais evidente.
via fazer-se sentir: na escrita,no cálculo, na geografia Seu ensino é iniciado com o uso de instrumentos prá-
e nas línguas vivas. ticos que servem para calcular, primeiro para o alu-
no, depois para o financista, para o comerciante. São
2. A escrita - Sabe-se o quanto a escrita está li- eles o ábaco, o tabuleiro de xadrez - "humildes an-
gada às necessidades às quais atende.Ela depende es- cestrais das máquinas de calcular modernas". Os ma-
treitamente do meio social que a emprega, é eminen- nuais de aritmética elementar se multiplicam a partir
temente um "fato de civilização") Sabe-se que a pas- do século XIII, como o escrito em 1340por Paolo Da-
sagem da escrita antiga, "cursiva antiga", para a es- gomari de Prato, cognominado Paolo dell'Abaco. En-
crita da Alta Idade Média, "minúscula carolina", só tre os tratados científicos, alguns tiveram para a con-
se pode explicar pela substituição de uma civilização tabilidade comercial, assim como para a ciência ma-
por outra. Do mesmo modo, o retorno à cursiva nos temática, uma importância extraordinária. É o caso
séculos XII-XIII se integra em todo o movimento eco- do Tratado do ábaco - liber abbaci - publicado por
nômico, social e intelectual que determina o nascimento Leonardo Fibonacci em 1202. Trata-se de um pisano,

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filho de um funcionário da alfândega da República de mercador que partia para o estrangeiro, vários trata-
Pisa em Bejaia, na África. É no mundo cristão-mu- dos ensinavam, por exemplo, "o que se deve saber
çulmano do comércio, em Bejaia, no Egito, na Síria, quando se vai à Inglaterra", como indicava Giovanni
na Sicília, onde empreende viagens de negócios, que Frescobaldi, mercador-banqueiro florentino, ou "o que
ele se inicia em matemática - ciência que os árabes deve saber um mercador que se dirige a Catai", ou se-
tomaram emprestada aos hindus. Em sua obra, ele in- ja, à China, como escrevia em página famosa Fran-
troduz o emprego dos algarismos arábicos, o zero - cesco di Balduccio Pegolotti, corretor dos Peruzzi.
inovação capital na numeração por posição - opera-
ções com frações, cálculo proporcional. Levando mais 5. As línguas vulgares - Indispensável também
longe suas pesquisas, publica em 1220 uma Prática da ao mercador é o conhecimento das línguas vulgares pa-
geometria. No final da Idade Média, em 1494, F. Lu- ra entrar em contato com seus clientes. Bem cedo, é
ca Pacioli escreve a sua famosa Summa de Arithmeti- em língua vulgar que são redigidos os livros de contas
ca, resumo do conhecimento aritmético e matemático e escritos os documentos comerciais. Apesar da exis-
do mundo do comércio, estendendo-se especialmente tência de intérpretes nos principais centros de trocas,
na contabilidade de entrada dupla. Na Alemanha, após compilam-se dicionários para uso do mercador, tal co-
1450, é difundido outro manual, o Método de cálculo mo um glossário árabe-latino e, sobretudo, um dicio-
de Nuremberg. nário trilíngüe em latim, cumã (língua turca que cons-
tituía o jargão comercial do mar Negro ao mar Ama-
4. A geografia - Outro campo de investigações relo) e persa. A princípio, o francês foi a língua inter-
necessárias ao mercador é a geografia prática onde ca- nacional do comércio no Ocidente - provavelmente
minham lado a lado os tratados científicos, as narra- em razão da importância das feiras da Champagne.
tivas de viagem e a cartografia. O famoso Livro das Mas em breve o italiano assumiu um lugar preeminente,
maravilhas de Marco Polo, como dissemos, foi um dos enquanto, na esfera hanseática, o baixo-alemão pre-
best-sellers da Idade Média e o gosto pelos livros de valecia. Não admira que o progresso das línguas vul-
aventuras, mesmo romanceados, desenvolveu-se o su- gares esteja ligado ao desenvolvimento da classe mer-
ficiente nessa época para assegurar o sucesso do livro cantil e de suas atividades. O mais antigo texto conhe-
apócrifo de Sir John Mandeville, onde a imaginação cido em língua italiana é um fragmento de conta de
entrava em grande parte. As escolas de cartografia ge- um mercador de Siena datado de 1211.
novesas e catalãs produziram admiráveis portulanos
- descrições dos portos, das rotas marítimas, das con- 6. A história - Os mercadores não se contenta-
dições de navegação, acompanhadas de mapas. Nesse vam com esses conhecimentos básicos. A história lhes
meio erudito que escrevia para especialistas e profis- interessa. Serve-lhes não só para glorificar a cidade e
sionais munidos de compassos, astrolábios e instrumen- o papel que sua classe desempenha nela, como para
tos astronômicos, nasceu Cristóvão Colombo, que não situar, compreender os acontecimentos que constituem
partiu à aventura, como pretende a lenda, mas muni- o contexto de sua atividade e dos quais são também
do de uma ampla bagagem de conhecimentos e técni- os atores. Numa página célebre e excepcional, Giovanni
cas que o guiavam paraum objetivo determinado. Ao Villani fez, com cifras, a descrição de Florença em

107
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1338: número dos habitantes, dos bairros, das paró- Francesco di Balduccio Pegolotti, corretor dos Peruz-
quias, das corpo rações e de seus membros, número dos zi em Famagusta, Bruges e Londres, e Giovanni di An-
negócios mais importantes, montante dos impostos, or- tonio daUzzano; O livro das mercadorias e usos dos
çamento das finanças públicas. O veneziano Marian diversos países (Ellibro di mercatantie et usanze de pae-
Sanudo tentará também, no século XV, efetuar uma SI), atribuído a Lorenzo Chiarini; e uma obra veneziana
avaliação numérica da potência veneziana. Assim, ao anônima, Tarifa e conhecimento dos pesos e medi-
lado dos documentos oficiais, recenseamentos e listas das das regiões e países que se dedicam ao comér-
fiscais, a literatura histórica alimenta - ainda que os cio através do mundo (Tarifa zoé noticia dy pexi et me-
dados sejam por vezes errôneos - a precária estatísti- sure di lvoghie e tere che s'adovra marcadantia per ii
ca medieval. Observou-se o fato impressionante de que mundo).
"a historiografia florentina do século XIV é monopólio Toda essa bagagem intelectual, toda essa apare-
quase exclusivo dos negociantes': Dino Compagni, Gio- lhagem cultural segue caminhos divergentes daqueles
vanni e Matteo Villani, Giovanni Frescobaldi, Dona-
da Igreja: conhecimentos técnicos profissionais, e não
to Velluti, Marchione di Copo Stefani - autores des-
teóricos e gerais; senso da diversidade, e não do uni-
sas crônicas precisas, escritas a cada geração, funda-
versal, levando, por exemplo, ao abandono do latim
das em dados reais, nas quais, mesmo sendo partidá-
rio, o autor não se contenta com palavras - são ho- em favor das línguas vulgares; procura do concreto,
mens de negócios". Dessa maneira, ao lado dos cro- do material, do mensurável.
nistas atentos unicamente aos fatos políticos e religio- Até mesmo a influência do rápido desenvolvimen-
sos, nasce uma categoria de historiógrafos preocupa- to comercial sobre o recrutamento universitário inquie-
dos com o econômico. ta e descontenta a Igreja. As faculdades mais freqüen-
tadas são as que conduzem a profissões laicas, ou semi-
7. Os manuais de comércio - Foi a totalidade de laicas, mais lucrativas: a Faculdade de Direito e a de
seus conhecimentos e de suas experiências que alguns Medicina. A primeira forma os notários, que se tor-
mercadores registraram em manuais de inestimável va- naram cada vez mais necessários no século XIII em fun-
lor: Essas Práticas do comércio enumeram e descre- ção do desenvolvimento dos contratos comerciais. A
vem as mercadorias, os pesos e as medidas, as moe- segunda desemboca naquela profissão que não raro
das, as tarifas aduaneiras, os itinerários. Fornecem fór- constitui um misto de médico e boticário, ou mesmo
mulas de cálculo e de calendários perpétuos; descre- merceeiro, desfrutando freqüentemente de uma situa-
vem os processos químicos que permitem a fabricação ção privilegiada na sociedade burguesa.
das ligas, das matérias tintoriais e medicinais; dão con-
selhos tanto sobre a maneira de defraudar o fisco co- 8. A racionalização - Y. Renouard sublinhou que
mo sobre a forma de compreender e de utilizar os me- a cultura mercantil levou à laicização, à racionaliza-
canismos econômicos. São inspiradas por um vivo sen- ção da existência. O cenário, o contexto da vida dei-
timento da dignidade dos mercadores, como vimos an- xava de ser colorido pela religião. Os ritmos da exis-
teriormente. tência já não obedeciam à Igreja. Medir o tempo
As mais célebres são italianas. São as Práticas do tornava-se para o mercador uma necessidade, enquanto
comércio (Pratica della mercatura) dos florentinos a Igreja, atenta ao eterno, revelava-se inábil nesse mis-

108 109
••
ter. Um calendário regulado por festas de datas mó- na - aprendizagem que os filhos recebiam na loja pa-
veis era eminentemente inadequado para o negocian- terna ao sair da escola primária, junto a associados ou
te. O ano religioso começava numa data variável en- a confrades no estrangeiro -, e esse ensino prático re-
tre 22 de março e 25 de abril. Os mercadores tinham servado aos filhos de mercadores-banqueiros mostra
necessidade de pontos de partida, referências fixas para como a mobilidade social não foi, no mundo dos ne-
seus cálculos e para estabelecer seus orçamentos. En- gócios medieval, tão grande quanto por vezes se afir-
tre as festas litúrgicas, eles escolheram uma secundá- mou.
ria, a da Circuncisão, e fizeram com que suas contas A impossibilidade de proporcionar a seus filhos,
começassem e terminassem em 1? de janeiro e em 1? nas escolas religiosas, uma formação técnica apropria-
de julho. da e, sobretudo, bem cedo, o desejo de manifestar sua
A Igreja também determinara as horas de acordo posição social pela segregação escolar, levou os mer-
com as estações do ano e suas respectivas preces. Ma- cadores a apelar para preceptores, a fazer ministrar au-
tinas, Primas e Angelus.regulavam-se pelo Sol e va- las particulares em domicílio aos seus filhos.
riavam ao longo do ano. Os sinos respondiam aos qua-
drantes solares. O mercador tinha necessidade de um
quadrante racional, dividido em doze ou vinte e qua-
11. O mecenato dos mercadores
tro partes iguais. Foi ele que favoreceu a descoberta
e a adoção dos relógios de campainha automática e re-
gular.rf'lorença teve esses relógios desde 1325, Milão , Juntamente com esse papel na evolução do ensi-
em 1335, Pádua em 1334, Gênova em 1353, Bolonha no, os mercadores tiveram grande influência sobre o
em 1356, Siena em 1359. Já desde 1314, Caen possui desenvolvimento literário e artístico. .
o seu "grande relógio", cuja presença é assinalada por O mecenato da rica clientela mercantil se explica
uma inscrição: "Porque assim a cidade me aloja/ Neste facilmente. A encomenda e a compra de obras de arte
ponto para servir de relógio/ As horas eu farei soar / representavam a princípio, para os mercadores e os
Para o povo comum alegrar." Doravante, já não era banqueiros, uma fonte de lucro, um investimento. Al-
pelo sino da Igreja que se regulava a vida das pessoas, guns deles, pelo menos, consideravam essas obras co-
mas pelo relógio comunal, laico. À hora dos clérigos mo "mercadorias", "artigos". Em Avinhão, no sé-
sucedia a hora dos negociantes. culo XIV, devido à transferência da corte pontifical,
que para lá atraíra ricos clientes e provocara amplo con-
9. Uma cultura de classe - Não se deve pensar, fronto entre os estilos e os gostos, estabeleceu-se um '
porém, qualquer que tenha sido sua influência sobre importante mercado de livros raros, de quadros e ta-
o desenvolvimento do ensino, que a classe mercantil peçarias. Eis, por exemplo - num momento, aliás, em
tenha procurado fazer com que todos se beneficiassem que Avinhão, abandonada pelo papada, perdera boa
dela. parte de sua importância nesse particular -, uma carta
Sua especialização original, aliada à preocupação de Buoninsegna di Matteo, associado de Francesco Da-
de conservar os famosos segredos que ela queria cio- tini, a seus correspondentes florentinos, datadJ1~~l\v~."
samente guardar, a levava a uma aprendizagem inter- nhão, 17 de março de 1387: / ":'- ' 0;'
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Dizeis que não encontrais pinturas ao preço que deseja- Aliás, com a riqueza, com a educação, com a freqüen-
mos porque não as há tão baratas. Portanto, se não encon- tação das obras de arte no curso de suas viagens, mui-
trardes bons artigos de qualidade (cose) a bom preço, não
os compreis, porque não há grande procura aqui. São arti- tas vezes os mercadores adquiriram não só o desejo
gos que se deve comprar quando o artista precisa de dinhei- do luxo, como o gosto pelas coisas belas. É uma clien-
ro. Cabe a vós decidir, visto não ser uma necessidade para tela, como acabamos de ver, que se faz cada vez mais
nós entrar no comércio desses artigos, pois não se trata de exigente, porque cada vez mais requintada.
coisas que se possam vender todos os dias ou para as quais
Os ricos mercadores que dominam as cidades,
existam muitos compradores. Mas, se um dia, ao procurar
tais artigos, encontrardes um de valor, e se o artista estiver quando abrem um concurso público para a realização
precisando de dinheiro, comprai-o. de uma obra de arte destinada à sua cidade, como, por
Vendemos três das cinco peças que Andrea adquiriu e exemplo, os florentinos, que puseram em concurso a
tivemos um lucro de 10 florins de ouro de contado em cada decoração das portas do Batistério, buscaram muito
uma delas, o que constituiu um excelente ganho. Se o artista
de quem ele os comprou tiver pequenos quadros de boa qua- menos encontrar o artista que executasse o trabalho
lidade valendo 4, 5 ou 6 florins de contados - mas é preciso ao melhor preço do que descobrir aquele cuja obra fos-
que sejam bons e baratos -, comprai um ou dois, não mais; se a mais bela. Quando comparamos a Bargello os mo-
ou então podeis comprá-l os de um outro artista melhor, por- delos de Donatello e de Ghiberti, aprovamos de bom
que se os desenhos forem bons serão bem vendidos. A clien- grado a escolha estética dos grandes burgueses floren-
tela aqui é difícil.
tinos.
As pias batismais de Tournai no século XII, os Muitas vezes, porém, não se trata apenas, para
objetos de marfim parisienses nos séculos XIV e XV, os mercadores, de cumprir uma função artística tal co-
os alabastros de Nottingham dos séculos XIV e XV, mo, pela beneficência, eles cumpriam uma função so-
os utensílios de cozinha artisticamente lavrados e as cial. Trata-se também, em muitos casos, de controlar
tapeçarias de Arras no final da Idade Média são obje- os poderosos meios de influência sobre o povo - con-
tos de grande exportação e, nos dois últimos casos, trole da literatura para inspirar poemas, dos panfle-
trata-se de indústrias alternativas que substituem in- tos favoráveis à sua pessoa, à sua profissão, à sua po-
dústrias tradicionais de consumo corrente, então em lítica; controle da arte, cujos temas devem responder
crise. aos seus interesses e às suas aspirações; meio, acima
Em Ruão, no século XV, P. Surreau coleciona ma- de tudo, de contentar o povo dando-lhe obras para ad-
nuscritos, mas estes são penhores de devedores. Já vi- mirar, espetáculos para se divertir, evitando que ele
mos Jacques Coeur e os Popplau se dedicarem ao co- se interesse em demasia pela política ou reflita sobre
mércio dos objetos de arte. sua condição social. Poderoso instrumento de "diver-
É também uma manifestação tradicional de rique- são" que faz do mecenato dos mercadores uma conti-
za e de posição social o costume de proteger os artis- nuação, por exemplo, da política patrícia e imperial
tas, comprar suas obras, contratá-los para trabalhar romana, dá ao povo panem et circenses. Essa política
em igrejas ou edifícios públicos. Os senhores feudais do mecenato foi levada ao extremo pelas "senhorias
e a Igreja na Alta Idade Média foram assim os únicos mercantis" do século XV, destacando-se por tal con-
clientes dos artistas. Os novos-ricos, os poderosos da duta a senhoria dos Mediei. Lourenço, o Magnífico,
época, juntam-se a eles e os substituem nesse papel. soube utilizá-Ia magnificamente.

112 113
Não admira, pois, que a obra artística dos mer- lU. A cultura burguesa
cadores mecenas tenha provocado às vezes a cólera po-
pular. Durante as revoltas e os movimentos revolucio- É preciso, no entanto, ter muita prudência para
nários, um dos primeiros cuidados do povo amotina- estabelecer relações precisas entre os mercadores, sua
do era destruir a casa dos ricos, símbolo de sua domi- mentalidade, seus objetivos, sua política, e as obras
nação. Savonarola explicou muito bem sua ação ico- que encomendaram. A sociologia da arte, chamada a
noclasta, dirigida contra a política artística dos Medi- renovar a história da arte, encontra-se ainda no início
ci, expressão de sua opressão. O vandalismo revolu- de sua existência. Não está segura de seus métodos,
cionário foi, já na Idade Média, uma atitude política, nem de seus princípios, e não está isenta de passos em
resposta do povo à política de seus senhores, que, de falso, nem de temeridades belas e perigosas. Não se
resto, pouco se preocuparam em proporcionar-lhe edu- deve esquecer que o mecenato dos banqueiros e dos
cação artística. mercadores nem sempre se materializou em obras sig-
Aliás, só excepcionalmente os ricos mercadores nificativas da classe que as mandava executar.
atribuíam aos artistas por eles empregados uma certa A religião ainda fornecia, no fim da Idade Mé-
consideração. Apenas os poetas, eruditos e filósofos, dia, muitos dos temas e o essencial da inspiração ar-
sobretudo no século XV, foram cumulados por alguns tística. A Igreja continuava a exercer sobre a produ-
deles com presentes e honrarias. Na maior parte do ção literária e artística um controle que muitas vezes
tempo, os mercadores não os consideravam senão co- podia contrariar o "espírito burguês" da clientela co-
mo domésticos, quando muito como artesãos cujas merciante. Quando, após a grande peste de 1348, o
obras compravam a exemplo de outras mercadorias.
mercador florentino Buonamico di Lapo Guidalotti in-
O trabalho dos pintores, dos arquitetos e dos estatuá-
cumbiu Andrea da Firenze de pintar afrescos expiató-
rios era visto como simples trabalho manual- e, por-
rios na Capela dos Espanhóis de Santa Maria Novel-
tanto, desprezado. O título de mestre que eles usavam
significava tão-somente "mestre de obra", "mestre ar- Ia, o tema da obra foi o triunfo da Igreja e dos domi-
tesão". Já no século XII, os jograis, a serviço da bur- nicanos, .seus fiéis instrumentos. -A burguesia
guesia mercantil endinheirada, tinham o pungente sen- contentou-se em servir a causa da Igreja, que por sua
timento de sua dependência, e o autor de um poema vez a servia, ao assegurar uma ordem social que lhe
em louvor aos mercadores confessa humildemente que favorecia e ao fornecer explicações dos acontecimen-
só lhes fazia o elogio coagido e forçado, já que, sem tos que não questionavam a organização da economia
o mercador, o jogral morreria de fome. Se muitos ar- e da sociedade.
tistas, notadamente os humanistas do século XV, se Deve-se contar também com a independência dos
inscreveram de bom grado na domesticidade das gran- artistas. Por mais ligados que estes estivessem às con-
des famílias mercadoras - precursores, neste particu- dições de seus empregadores, que muitas vezes deter-
lar, dos escritores-cortesãos da era monárquica -, al- minavam detalhadamente os temas e a execução de suas
guns deles tiveram plena consciência de sua situação encomendas, não raro o gênio do artista continuava
de trabalhadores e assalariados. Como Starnina, que sendo, definitivamente, o único mestre do essencial.
em Florença teve uma parte ativa no Tumulto dos Por vezes, inclusive, as intenções críticas do artista com
Ciompi e em seguida foi obrigado a exilar-se. respeito aos seus empregadores expressavam-se de ma-

114 115
neira dissimulada, e detectar essas intenções ocultas sem ser cultivada pela burguesia mercantil. Assinalamos a
cair no abuso de explicações fantasistas não é tarefa participação do patriciado de Arras no movimento poé-
menos difícil para os sociólogos da arte. Terá sido um tico da cidade no século XIII. Mathieu le Tailleur, de
movimento de oposição popular que os pintores tos- uma rica família de banqueiros, dedica-se à poesia co-
canos da segunda metade do século XIV quiseram ex- mo todos os mercadores que se apaixonam por um no-
primir ao reabilitar o estilo gótico tradicional e insis- vo gênero literário, o "desafio" poético, discussão poé-
tir nos temas do retiro dos eremitas no deserto, do mau tica de casuística amorosa onde se indaga, por exem-
ladrão da Crucifixão, da Ressurreição de Cristo? Ver plo, se é "mais triste ver casar-se uma pessoa a quem
nisso temas protestatórios e revolucionários continua se ama ternamente ou vê-Ia morrer". Os mercado-
sendo, pelo menos na situação atual de nossos conhe- res são os grandes animadores das sociedades literá-
cimentos, algo conjetural e arriscado. rias que encontramos no século XV tais como os
Por fim, é importantíssimo notar que o gosto da "Puys" normandos, as "Câmaras de retórica" flamen-
burguesia mercantil nem sempre foi original. No co- gas ou os círculos platônicos florentinos. Se na poesia
meço, quando a falta de educação artística obrigava épica se observa numa Canção de Gesta - as Infân-
os novos-ricos a adotar o gosto das classes dominan- cias Vivien - o antagonismo entre a psicologia nobre
tes tradicionais e mais tarde quando os mercadores, e guerreira e a mentalidade mercantil e utilitária, em
como vimos, se tornaram cada vez mais desejosos de Henri de Mes as duas podem coabitar na mesma per-
ingressar na nobreza, suprimir as distâncias entre a an- sonagem, como o mercador Thierry, de quem o du-
tiga aristocracia e a nova que eles queriam constituir, que da Lorena faz seu genro e herdeiro.
as tendências artísticas burguesas não se distinguiram
das da nobreza e da Igreja. Para tornar-se nobre, Ele foi um cavaleiro de grande valor
afirmou-se, o melhor meio era, antes de mais nada, Pois matou os Wandres em grande tormento
adotar o "gênero de vida" nobre. Que domínio, me- E vingou o barão Saint-Remi
lhor que o da literatura e da arte, oferecia aos merca- E São Nicâcio, o nobre arcebispo.
dores o ensejo para essa assimilação? Foi aí que eles
logo puderam imitar as maneiras nobres. Sabemos que Isso significa que não houve na literatura e na ar-
Gênova foi "o centro de difusão da poesia provençal te uma influência específica da burguesia mercantil?
na Itália". Membros das maiores famílias de merca-
dores genoveses - um Calega Panzano, um Lucche- 1. A arquitetura - Foi inicialmente na arquite-
to Gattilusio - cantam e rimam em provençal, naquele tura que o burguês imprimiu a sua marca. A Alta Ida-
dolce stil nuovo no qual se reconheceu uma das for- de Média assistira ao desenvolvimento de dois tipos
mas mais aristocráticas, mais requintadas e mais "es- de monumentos: a residência senhorial, o castelo-
tetas" da poesia. Um negociante veneziano, Bartolo- fortaleza; e o edifício religioso, a igreja. Doravante,
meo Zorzi, aprisionado em Gênova, dedica uma par- duas outras categorias monumentais se desenvolvem:
te de seus lazeres forçados a justas poéticas com o ge- a arquitetura civil pública e a casa patrícia. Esta só se
novês Bonifacio Calvo. libertou do caráter militar da Alta Idade Média pro-
A poesia cortês, na qual se viu a fina flor da arte gressivamente. Tanto a preocupação de defesa quan-
de uma sociedade senhorial decadente, não tardou a to a ânsia de prestígio tinham levado os primeiros ci-

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tadinos ricos a construir aquelas casas guarneci das de celebravam suas cerimônias privadas, se faziam enter-
torres cujos restos impressionantes ainda se podem ver rar e cujas paredes faziam ornamentar com afrescos:
em San Gimignano. Essas torres, com efeito, são um capela dos Peruzzi e dos Bardi em Santa Croce, dos
sinal manifesto da assimilação da rica burguesia à no- Scrovegni em Pádua, por onde se estendeu a arte de
breza. Transformados em proprietários de bens pre- Giotto, dos Strozzi e dos Pazzi em Santa Maria No-
diais, os mercadores de Messina mandam fortificar sua vella, capela Brancacci em Santa Maria del Carmine,
quinta, como Perrin Anchier em Ladonchamps entre onde Masaccio revolucionou a arte do afresco, capela
1313 e 1325, como os Hesson no domínio de Brieux do palácio Mediei, onde Benozzo Gozzoli representou
por volta de 1318. Da Itália, esse costume passa à Ale- os membros da ilustre família em seu afresco dos reis
manha: em Regensburg, no século XV, quarenta ca- magos, coro de Santa Maria Novella, onde Ghirlan-
sas burguesas têm suas torres. Mas em breve o palá- daio nos conservou os traços puros e serenos das mu-
cio dos patrícios perde muitos de seus aspectos milita- lheres da família Tornabuoni.
res. Em Florença, contudo, o medo das revoltas e dos Foi, com efeito, na arte do retrato que a clientela
ataques inesperados, e o desejo de garantir o segredo mercantil exerceu uma profunda influência sobre a pin-
da atividade interna dos mercadores conservaram por tura. Sentimentos piedosos e o gosto pelo prestígio im-
longo tempo nos palácios dos Mediei, dos Strozzi, es- pelem igualmente o mercador a se fazer representar nes-
se aspecto severo que guarda algo da fortaleza. Em Sie- ses quadros. O mercador partilha com o nobre e com
na, muitos palácios de grandes famílias de mercado- o clérigo de posição elevada o desejo de aparecer sob
res, como o palácio Salimbeni, ainda são munidos de os traços do doador e de ali se fazer imortalizar. Às
ameias. Mas por toda parte as ricas residências patrí- vezes, ele entra na ação do quadro como no tríptico de
cias se abrem para o exterior através de janelas, gale- Memling do JUIZO Final - Tommaso Portinari e sua
rias ou loggia nas quais os mercadores ofereciam aos mulher sendo pesados pelo arcanjo São Miguel. Mais
seus concidadãos o teatro suntuoso de suas cerimônias que todos os outros, porém, os mercadores querem im-
familiais: núpcias e funerais - como a loggia dos Gui- por aos seus contemporâneos e à posteridade sua pre-
nigi em Lucca. A busca da elegância se manifesta so- sença eternizada. Não lhes basta fazer-se representar
bretudo nos admiráveis pátios interiores que constituem às vezes - o que ocorre raramente - com os atribu-
uma das primeiras manifestações do espírito do Re- tos de sua função, como o famoso pesador de ouro
nascimento. Foi em Veneza, livre dos temores da guerra com sua mulher, no ambiente quase sempre luxuoso
ou do motim no interior de seus muros, que a busca de seu interior burguês, como no célebre quadro de Van
dos materiais, da leveza, da pompa das fachadas se ma- Eyck, Arnolfini e sua mulher. Eles que não têm, co-
nifestou com mais brilho, como o testemunha ainda mo os nobres, os bispos e os abades, armaduras, em-
hoje a extraordinária ornamentação de mármore e pe- blemas, mitras ou báculos que simbolizem sua classe
dra ao longo das margens do Grande Canal. social, são mais atentos à reprodução exata de seus tra-
ços. O realismo do retrato, que responde a outras cau-
2. A pintura - Também a pintura recebeu a mar- sas da evolução da pintura, reflete também o desejo
ca do mecenato dos mercadores. Nas igrejas, é nas ca- do mercador comanditário de ser reconhecido graças
pelas que as grandes famílias do comércio e do banco à semelhança. Não quer ser confundido com outro,

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do mesmo modo que afirma em seus negócios a origi- parável. Por mais esplêndidos que sejam os homens,
nalidade e o valor de sua assinatura comercial. que nada têm a invejar aos nobres e aos dignitários
Nesses quadros, ele gosta de ser representado no da Igreja, são sobretudo as mulheres que criam uma
cenário doméstico, com os móveis opulentos e os ob- demanda considerável. Bem cedo seu luxo salta aos
jetos cotidianos, e esse cenário, a um tempo familiar olhos e as tornam alvo das zombarias dos poetas, das
e rico, extrapola para a pintura religiosa. As Virgens invectivas dos moralistas e dos pregadores.
da Anunciação, os Santos em seu retiro, são represen- O contraste entre a simplicidade dos costumes dos
tados como burgueses, e burgueses em ambientes in- Velhos Tempos e o luxo desenfreado do presente torna-
teriores, como São Jerônimo, que trocou a gruta da se um dos lei/motive dos escritores florentinos. É Dante
pintura primitiva por um gabinete de mercador huma- que põe na boca de seu bisavô, falando de um casal
nista. Gosta também de apresentar-se cercado pela fa- burguês de outrora:
mília, sobretudo pelos filhos, garantia da continuida-
Vi Bellincion Berti ir com uma cinta de couro e osso, e sua
de de sua casa, de seus negócios, de sua prosperida-
mulher voltar do espelho sem ter o rosto pintado. Sardana-
de. Arnolfini é pintado ao lado de sua mulher grávi- paio ainda não chegara!
da, detalhe realista mas também símbolo de fecundi-
dade, tal como a Madona de Monterchi de Piero della É Francesco Saccheti que escreve:
Francesca.
Não se conseguiria parar de discorrer sobre as mulheres, co-
3. As artes menores - O luxo - A influência do meçando pelos inverossímeis adereços de seus pés e chegan-
mercador é talvez maior ainda na evolução das artes me- do até à cabeça; elas passam o dia sobre os telhados (para
se bronzearem ao sol): frisam-se, alisam-se, lavam-se, a tal
nores. Antes dele, estas pertenciam sobretudo ao âmbi- ponto que morrem freqüentem ente de catarro.
to da Igreja: ourivesaria dos relicários, dos osculatórios;
tecidos preciosos dos ornamentos da Igreja e das vesti- E ele põe na boca de um artista florentino a opi-
mentas eclesiásticas. Agora as jóias, o mobiliário são nião de que as florentinas são os maiores pintores e
a glória da família burguesa. Graças aos ricos merca- escultores da época:
dores, duas artes menores se erguem ao nível das maio-
res. A pintura em madeira, praticada por artistas céle- Se não me acreditardes, olhai através de todo o nosso país:
bres para a ornamentação dos cassoni - pequenos co- não encontrar eis uma só mulher que seja negra. Isso não de-
fres ou verdadeiros cofres de casamento nos quais a jo- corre de a natureza tê-Ias feito todas brancas; mas, por seus
sábios cuidados, quase todas, de pretas que eram, se torna-
vem esposa guarda o seu enxoval e seus presentes (al- ram brancas. E o mesmo sucede com seus rostos e seus cor-
guns deles contam-se entre as peças mais requintadas dos pos: quer sejam retos, tortos ou disformes, elas sabem
grandes museus - como na Galeria da Academia em reconduzi-Ios a belas proporções por muitos estratagemas e
Florença) e a tapeçaria, que a partir do século XV co- artifícios.
nhece uma renovação. É a época em que, depois de Ar-
ras, aparecem os ateliês de Lille e de Bruxelas. Desde o século XIII, os poetas de Arras satiriza-
Também na moda e no vestuário, a rica burguesia ram nas suas canções as mulheres dos ricos banquei-
- nova clientela seleta - provoca um impulso incom- ros da cidade. Eis uma afetada, com a cabeça tão dou-

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rada que acreditaríamos ser mais um quadro ou um fluência quase sempre exterior da clientela mercantil
crucifixo precioso; seus cabelos são cobertos de ouro sobre o desenvolvimento artístico? A sociologia esté-
e prata; e no entanto, interiormente, é tudo podridão. tica responde afirmativamente e é bem provável que
O testamento de ] eanne Socquel descreve sua coleção renove muitos problemas. Suas hipóteses, no entan-
de casacos com capuz de veludo de todas as cores, seus to, ainda permanecem arriscadas.
agasalhos de pele, vestidos, suas cintas ornadas de pé- Frédéric Antal pretendeu reconhecer nos temas e
rolas. As leis suntuárias contra a invasão do luxo, ins- estilos da pintura toscana do século XIV e começo do
piradas por eclesiásticos austeros, ,,:elhosrabugentos, XV as oposições que compreendem os antagonismos
nobres invejosos, são impotentes. E em vão que Feli- entre a classe da rica burguesia mercantil e a classe de-
pe, o Belo, proíbe em 1314 osburgueses e burguesas mocrática, da pequena burguesia artesanal, episodica-
de usar casacos de pele caros. E em vão que a comuna mente apoiada pelo proletariado operário e pelos cam-
de Pistóia em 1332-1333 toma medidas contra a toale- poneses. A primeira faz triunfar suas opiniões no do-
te feminina. o luxo dos presentes, os banquetes nup- mínio da pintura, com Giotto. A humanização da re-
ciais, a pompa dos funerais; é em vão que Santa Ca- ligião, o aburguesamento da pintura da vida de Cris-
tarina de Siena inspira medidas semelhantes em Sie- to e da Virgem, o esmorecimento do espírito francis-
na; é em vão que, após a Grande Peste, Florença ten- cano por um artista que se tornou ele próprio um rico
ta pôr um freio ao recrudescimento da munificiência e duro capitalista e escreveu um poema contra a Po-
dos sobreviventes; é em vão que Veneza institui uma breza, o surgimento de um estilo familiar, narrativo,
magistratura especial encarregada de regulamentar o descritivo, eis o que revelaria a influência do espírito
luxo. E não nos esqueçamos da arte gastronômica, que burguês na pintura giotesca e pós-giotesca, pintura das
progride com o requinte do gosto, a adoção de pratos ricas famílias florentinas. Após 1348, ao contrário, o
e receitas estrangeiras - os numerosos manuais que retrocesso econômico e político dessa classe restabele-
chegaram até nós o testemunham. Vemos em Ruão, ce, durante um quarto de século aproximadamente, a
no final do século XV, a importância crescente do con- voga do estilo gótico, simbólico, lírico, estilo da rea-
sumo do açúcar e das frutas mediterrâneas para a rica ção democrática. M. Meiss tentou também, analisan-
burguesia mercantil. do a pintura florentina e sienense posterior à Peste Ne-
O comércio beneficiou-se freqüentemente desse lu- gra, detectar no abalo da sociedade e especialmente da
xo. Citemos duas mercadorias cuja procura se tornou rica burguesia mercantil o aparecimento de um novo
considerável nos séculos XIV e XV: os casacos de pele estilo, que se afasta de Giotto e procura temas de ins-
vindos do Norte e da Rússia através das cidades han- piração diretamente relacionados com os acontecimen-
seáticas ou dos estabelecimentos comerciais italianos do tos e as reações afetivas a respeito destes.
mar Negro e o açafrão requerido pela tinturaria, perfu- Foi ao nível mais profundo das próprias estrutu-
maria, medicina e cozinha, cuja importância na Baixa ras da pintura que Pierre Francastel procurou relacio-
Idade Média acaba de ser demonstrada por A. Petino. nar pintura e sociedade na Itália do século XV. O apa-
recimento de uma visão e de uma representação nova
4. O mercador e a sociologia da arte - Será possí- da realidade - o espaço do Renascimento -, o que
vel ir mais longe do que essas observaçôes sobre a in- se chama tradicionalmente de a descoberta da perspec-
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tiva, só se explica em função dos progressos técnicos, gadores de moral burguesa? O gosto do detalhe rea-
econômicos e intelectuais da grande burguesia. Vimos lista e familiar trazido por uma classe apegada ao ce-
como ela venceu materialmente o espaço, como se em- nário material da vida e sensível às aparências, o gos-
penhou em compreendê-lo, dorniná-Io e medi-lo. Foi to do cômico, da ironia um pouco pesada e mesmo do
essa domesticação do espaço pela classe mercantil que burlesco; e a farsa medieval, mais que popular, é tal-
ocorreu também na pintura italiana do Quattrocento, vez burguesa com sua zombaria das condições sociais
cujos artistas dependem da clientela burguesa. F. Bran- e sua crítica, não raro pouco caridosa, do próximo.
cacei, que incumbe Masaccio de pintar os revolucio- 'Uma literatura de pessoas que vivem lado a lado, co-
nários afrescos da capela dos Carmine, é um dos pri- mo concorrentes e que se observam, se espiam, se de-
meiros cônsules" do mar de Florença, um homem que nigrem .:
esteve no Egito, homem de vastos horizontes. Assim
se alargam também os horizontes da pintura. O espa- 6. O humanismo - Mostrou-se também tudo o
ço pictórico está doravante à altura do homem, feito que o humanismo nascente deve ao mecenato dos mer-
para ser medido e percorrido, enquanto a perspectiva cadores, ao seu espírito e à sua necessidade de justi-
gótica corresponde a uma visão plana, sincrônica, eter-
ficar a posição que ocupam no mundo: Três grandes
na, a perspectiva de Deus. Ainda aqui, aparecem lai-
temas da literatura humanista, e mais precisamente
cização, humanização e racionalização e o mercador
da literatura italiana do Quattrocento, Ihes devem
é largamente responsável por elas.
muito.
O tema da riqueza, fonte de virtude, desabrocha-
5. A literatura - Igualmente delicado é delimi-
mento, prazeres requintados, aprovação divina. De-
tar com exatidão a influência do mecenato mercantil
pois de Leonardi Bruni, foi sobretudo Poggio Brac-
sobre os caracteres internos da literatura medieval.
ciolini - Il Poggio -, íntimo dos Mediei, que fez da
Denominou-se literatura burguesa alguns gêneros que
riqueza a expressão tangível da atividade humana.
se desenvolvem no meio urbano a partir do século XII.
Mas seriam necessários estudos precisos para definir O tema da fortuna que, mesclando a idéia de ri-
o que nosfabliaux, nos ditos? e nas moralidades per- queza à de acaso e tempestade, é como um resumo dos
tence a um espírito novo trazido por uma classe social atos e ideais do mercador. Sabemos, desde o excelen-
nova. Uma moral terra-a-terra, feita de prudência e te estudo de A. Warburg, que esse é um tema imposto
senso prático, ligada à preservação do dinheiro, da pro- por ele de bom grado aos artistas que emprega. Va-
priedade, da família e da saúde - moral de proprie- mos encontrá-lo por toda parte, nas armas e na fachada
tários e comerciantes -, o próprio gosto de morali- do palácio dos Rucellai, no pavimento da catedral de
zar, mas que se deve distinguir da pregação religiosa, Siena.
não na forma, o que é fácil, mas no espírito, que é mais O tema da "virtü", da energia, expressão da per-
difícil, pois não existem moralistas pregadores e pre- sonalidade humana e fonte do sucesso no mundo. Há,
como vimos, uma virtü do negociante às voltas com
os elementos, os homens, as mercadorias, o dinheiro.
. .:. Na Idade Média, cônsul era o juiz eleito pelos mercadores para É ela que, segundo Poggio, em seu Liber de Nobilita-
regulamentar os negócios comerciais, Lexis. (N,R.) te, apoiada na riqueza, obriga a fortuna a obedecer.

124 125
IV. Mercadores e civilização urbana
Em todo esse movimento culminando no que se
chamou de espírito moderno, tanto na moral como na Em todo caso, é antes de tudo no contexto urba-
arte, os mercadores nem sempre se contentaram em no que se deve situar o mecenato dos negociantes da
participar indiretamente através de suas encomendas. Idade Média.
Muitos deles foram pessoalmente amadores cultos e Sua cidade: é nela que eles pensam freqüentemen-
até mesmo poetas e filósofos. Lourenço, o Magnífi- te. Ela ocupa o primeiro lugar em suas preocupações
co, é o exemplo mais notável. e afeições. Por certo, o patriotismo urbano dos mer-
Deparamos aqui com o problema das gerações, cadores é também interesseiro. Sua cidade é o centro,
evocado mais acima. O mercador humanista é também, a base de seus negócios e de seu poder. Se ela lhes de-
com muita freqüência, um mercador que se interessa ve muito, também eles lhe devem muito. Sabem que
menos pelos negócios, subtrai às suas empresas comer- ela é um dos fundamentos de sua força. Assim, no es-
ciais o que destina aos seus interesses artísticos, gasta trangeiro, eles não tardam a recompor uma unidade
em luxo o que antes investia em mercadorias. Sinal de à sua imagem', As nações dos mercadores estrangei-
decadência, talvez, mas ainda aqui o papel cultural é ros, com sua organização política, organização corpo-
simultaneamente causa e efeito. Embora acentue o de- rativa, confrarias e festas em honra de santos de sua
c1ínio dos negócios, muitas vezes ele só se desenvolve terra natal, agrupados num bairro da cidade estran-
porque os negócios já haviam declinado. Então, o di- geira, fazem renascer ali a pátria que deixaram, mas
nheiro acumulado é investido em bens culturais, e es- que continuam a servir. Há em Bruges uma pequena
sa nova direção das despesas, imposta pela crise eco- Florença, uma pequena Gênova, uma pequena Luc-
nômica, limitação dos horizontes comerciais, inadap- ca. E, quando um mercador não tem' 'corretor" , quan-
tação da organização profissional a novas condições, do não tem um representante pessoal numa praça es-
pode ser também uma especulação não só intelectual trangeira, é a um compatriota que ele se dirige. Os Me-
como material. Muitas vezes, o mecenato dos grandes dici dão a seus subordinados recomendações estritas
mercadores-banqueiros se inscreve numa política cul-
sobre os confrades a quem devem se dirigir nos luga-
tural das cidades destinada a reanimar sua economia.
res onde a casa não tem sucursais. São todos florenti-
É no momento em que as rotas comerciais se desviam
nos.
delas, em que suas riquezas acumuladas deixam de ser
Certamente, esse patriotismo nem sempre deixou
empregadas nas empresas tradicionais, que as cidades
de se desmentir. Nem sempre cedeu ao interesse quando
gastam o seu tesouro para adornar-se com magnificên-
este lhe era contrário e, com o tempo, teve de abrandar-
cia. Mas esse último esplendor não é apenas a peça fi-
nal de um fogo de artifício que vai se apagar. É tam- se. No princípio, o mercador não hesitava em pegar
bém, por vezes, o ponto de partida de uma política tu- em armas, lutar e dar a vida por sua cidade. Em 1260,
rística destinada a atrair peregrinos e viajantes - fon- quando Siena lutava contra Florença, às vésperas de
te de novos ganhos. Uma reconversão econômica - sua:grande vitória de Montaperti, os mercadores con-
parcial. tribuíram largamente com seus denários - Salimbe-
ne dei Salimbeni doou 118 mil florins à com una para
o esforço de guerra - e com sua própria pessoa -

127
126
o chefe da mais rica família de banqueiros sienenses, no zelo que puseram em embelezá-las. Por vezes, mes-
Orlando Bonsignori, foi mobilizado. Arnaldo Peruz- mo, como na Alemanha, eles impõem à cidade a sua
zi, o grande mercador florentino, é morto numa bata- planta. H. Planitz escreveu que no século XIII "não
lha contra o imperador Henrique VII. Grandes homens só o mercado devia ser o centro da cidade como a ci-
de suas cidades, os ricos mercadores eram assim cha- dade inteira se construía a partir desse ponto cen-
mados a representá-Ias até nas mais trágicas circuns- trai". Wiener Neustadt é um exemplo notável dis-
tâncias. No começo do século XIII, após Bouvines, um so. Por toda parte, os mercadores contribuíram para
Uten Hove figura entre os reféns entregues por Gand a ornamentação monumental de sua cidade. Primei-
a Felipe Augusto, e conhecemos também o famoso epi- ro por suas residências, os belos palácios que já evo-
sódio, no século XIV, dos burgueses de Calais. camos. Em seguida, pelas edificações profissionais e
Com o tempo, porém, os mercadores se recusa- corporativas. Mercados de Ypres e de Bruges, Poor-
ram a ser soldados. A extensão de seus negócios já não terslogie de Bruges, Loggia della Mercanzia de Siena,
Ihes permitia perder tempo na guerra, e a extensão de sala do Collegio della Mercanzia de Perúgia, Casa de
sua riqueza perrnitia-Ihes resgatar-se. Foi a vez do re- l' Arte della Lana em Florença e, sobretudo talvez, ar
curso aos mercenários , o sistema da condotta. a mer- San Michele e sua guarnição de estátuas dos padroei-
cador faz negócios e paga o condottiere, que faz a guer- ros dos mercadores. Ainda pelos monumentos religio-
ra. a mercador converteu-se num civil. sos que fizeram construir ou ornamentar, pela esplên-
Quando se organizaram, no final da Idade Mé- dida decoração de afrescos que fizeram pintar, pela
dia, os Estados centralizados, o mercador, embora te- ornamentação de capitéis como o dos mercadores de
nha encontrado um espaço mais amplo para a sua ati- pastel-dos-tintureiros da catedral de Amiens, de m~-
vidade, nem sempre transportou para essas grandes pá- dalhões como os do campanile de Florença, verdadei-
trias nascentes o amor pela pequena pátria urbana. Lo- ra enciclopédia dos ofícios e de vitrais como a elegan-
go após a reconquista do reino da França por Carlos te nave da capela de Jacques Coeur em Bourges. Mas
VII aos ingleses, muitos foram os mercadores "cola- também por todos aqueles edifícios comunais onde se
boradores" que precisaram devolver os bens adquiri-
desdobrava seu poder político. Prefeituras e torres de
dos ilicitamente ou virar a casaca. M. Mollat traçou
vigia de Flandres, palácios comunais e campaniles da
a figura de um deles: Jehan Mareei, de Ruão. E al-
Itália: é preciso pensar neles no Campo de Siena, diante
guns anos depois o famoso Jacques Coeur, tesoureiro
dos 102 metros da Torre del Mangia e do deslumbra-
do rei da França, não hesitava em passar ao inimigo,
mento do Palazzo Pubblico, no interior do qual Arn-
o rei de Aragão, informações secretas cuja transmis-
brogio Lorenzetti glorificou o governo dos merca-
são podia favorecer os negócios do grande financista.
dores no mais vasto ciclo pictórico profano da Idade
Até esse limite extremo da traição, os grandes capita-
listas inauguravam sua carreira de potência internacio- Média.
nalista, súditos de um reino do dinheiro que só conhece É preciso ver aí, nessa decoração urbana que che-
as fronteiras quando estas favorecem seu interesses. gou até nós, a representação do grande mercador da
Mas, ao longo de toda a Idade Média, o amor dos Idade Média. Observemo-Io atravessar uma praça de
mercadores por suas cidades manifestou-se sobretudo Florença, no célebre afresco da capela Brancacci. Sun-

128 129
tuosamente vestido, ele avança altivamente entre o ce-
nário monumental da Florença do Quattrocento, que
tanto lhe deve, e o edificante grupo de São Pedro cu-
rando Tábita. É aí que devemos saudá-l o uma última
vez, entre sua glória e sua vaidade.

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