Você está na página 1de 60
CURSO DE DIREITO Tema: “Estupro e Atentado Violento ao Pudor cometido contra menores.” Marcelo da

CURSO DE DIREITO

Tema: “Estupro e Atentado Violento ao Pudor cometido contra menores.”

Marcelo da S. D´Avila RA: 431.100-7 Orientador: Professor Adriano Conceição Abílio UNIFMU / 2003

Marcelo da S. D´Avila

Monografia

UniFMU

apresentada

à

banca

Centro

Universitário

examinadora

do

das

Faculdades

Metropolitanas

Unidas,

como

requisito

parcial

para a

obtenção do grau de Bacharel em Direito, sob orientação

do Professor Adriano Conceição Abílio.

São Paulo

2003

Banca Examinadora:

Orientador:

Argüidor:

Argüidor:

Ao meu irmão Paulo Algarve que nunca me faltou e que sempre acreditou no meu esforço. Às minhas amigas Cibele Costa e Juliana Perpétuo, por toda dedicação e amizade nestes cinco anos.

Agradeço ao Professor Orientador Adriano Conceição Abílio pela dedicação, paciência e principalmente pela enorme capacidade de transmitir todo seu conhecimento aos seus alunos.

SINOPSE

O presente trabalho procura, através da análise do texto legal, as definições e

peculiaridades dos delitos de Estupro e Atentado Violento ao Pudor cometido contra

menores, os quais encontram-se tipificados nos artigos 213 e 214 do nosso

Ordenamento Penal, estudando a estrutura jurídica do Código Penal vigente, da Lei

dos Crimes Hediondos (Lei 8.072/1990) e do Estatuto da Criança e do Adolescente

(Lei 8.069/1990), definindo os Crimes e aspectos jurídicos. Definirá também o

comportamento do pedófilo e o tratamento jurídico atual dado aos praticantes deste

delito. Faz parte deste trabalho, uma entrevista com vítima de atentado violento ao

pudor, bem como entrevista com autor do referido delito praticado contra menores

de idade.

SUMÁRIO

Introdução

09

Capítulo 1 – Estupro

10

1.1 Generalidades

10

1.2 Conceito

11

1.3 Da objetividade jurídica

12

1.4 Do sujeito ativo

13

1.5 Do sujeito passivo

14

1.6 Dos elementos objetivos do tipo

15

1.7 Do elemento subjetivo do tipo

16

1.8 Da qualificação doutrinária

17

1.9 Da consumação e tentativa

17

1.10 Das causas de aumento de pena

18

1.10.1 O problema da aplicabilidade da Norma Penal

21

1.11 Do concurso de crimes

27

1.12 Pena e Ação Penal

28

1.12.1 Pena

28

1.12.2 Ação Penal

29

Capítulo 2 – Atentado violento ao pudor

30

2.1 Generalidades

30

2.2 Conceito

31

2.3 Da objetividade jurídica

31

2.4 Dos sujeitos

32

2.5 Dos elementos objetivos do Tipo

32

2.7 Da qualificação doutrinária

37

2.8 Consumação e tentativa

38

2.9 Das causas de aumento de pena

38

2.10 Do concurso de crimes

39

2.11 Das Penas e da Ação Penal

40

Capítulo 3 – Conceito de Pedofilia

40

3.1 Conceito de pedofilia pelo DSM

41

Capítulo 4 – Entrevista com vítima de abuso sexual

42

4.1 Entrevista com autor de estupro, identificado e preso

51

4.1.2 Entrevista

53

Conclusão

56

Bibliografia

58

"[…] Eu tinha 5 anos… eu vivi tanto sem poder entender o que se passava: entretanto, eu acreditava que eram monstros no meio da noite. Depois de algum tempo, eu cresci um pouco e eu descobri que era meu pai. Depois, eu cresci com medo. Medo de que qualquer um viesse a saber. Medo de ser deformada fisicamente. Medo de ficar grávida. E medo da idéia de que se um dia eu contasse a vocês, minhas colegas…Eu seria rejeitada, porque eu seria considerada uma viciada, um ser bizarro, horrível e sujo, que viveu uma m. impensável. “. (Viviane Clarac).

Introdução

O objetivo da pesquisa é o de demonstrar, partindo da análise do texto legal, o

estupro e o atentado violento ao pudor, definindo cada delito e suas características,

formas de execução, penas aplicadas, bem como o problema da aplicabilidade da

norma penal incriminadora, surgido com a Lei dos Crimes Hediondos e o estatuto da

Criança e do Adolescente.

A pesquisa definirá o Pedófilo e confirmará a gravidade, o enorme número de

estupros e atentados violento ao pudor, cometidos por parentes, vizinhos e pessoas

próximas, contra crianças, o que traz gigantescos prejuízos a sua formação.

Confirmará, que na maioria das vezes, a família é silente, beneficiando e muitas

vezes, encorajando o infrator. A pesquisa também mostrará que parentes e pessoas

próximas agem contra o menor, resguardado pelo silêncio da família, que em muitas

vezes encobre o crime praticado. Buscará uma análise do problema para entender o

que é a pedofilia.

No que tange ao “estupro ficto”, onde existe a presunção de violência, o

objetivo é de mostrar a dificuldade da interpretação da Lei de Crimes Hediondos, do

Estatuto da Criança e dos respectivos artigos 213, 214 e 224 do Código Penal no

que tange a hediondez do delito de estupro e atentado violento ao pudor praticado

contra menores de catorze anos.

1. Estupro

1.1 Generalidades

Nos últimos anos tem-se consolidado a noção de que as mulheres são

também sujeitos internacionais de direitos. Evidência desse fato é a incorporação da

violência contra a mulher no marco conceitual dos direitos humanos. Nesse sentido,

a Conferência Mundial dos Direitos Humanos, realizada em Viena, Áustria, em junho

de 1993, no artigo 18 de sua Declaração, reconheceu que: "Os direitos humanos das

mulheres e das meninas são inalienáveis e constituem parte integrante e indivisível

dos direitos humanos universais […]. A violência de gênero e todas as formas de

assédio e exploração sexual […] são incompatíveis com a dignidade e o valor da

pessoa humana e devem ser eliminadas […] Os direitos humanos das mulheres

devem ser parte integrante das atividades das Nações Unidas […], que devem incluir

a promoção de todos os instrumentos de direitos humanos relacionados à mulher".

Define o Professor Julio Fabbrini

Mirabete 1 , que “sendo o instituto da

reprodução um dos mais fortes e tendo sido criado pela natureza para promover a

perpetuação da espécie, a adaptação do amor sexual ao rito de vida social é obtida

pelo pudor, corretivo à sofreguidão e arbítrio de Eros”. 2 Exerce ele uma ação

preventiva , de resistência, inibição e controle do poder da libido. Com fundamento

no pudor público e individual, a coletividade dita normas sobre a moral e os

costumes, atendendo aos critérios ético-sociais vigentes para evitar fatos que

contrariem estes princípios e lesem interesses dos indivíduos, da família, etc.

Protege-se o indivíduo no que concerne à sua maturidade e liberdade sexual,

1 Mirabete, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. 17 ed. São Paulo. Ed. Atlas. v2. p.411. 2 HUNGRIA, Nelson; FRAGOSO, Heleno Cláudio. Comentários ao Código Penal. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1981. v.8, p.77

combate-se a corrupção e a prostituição e tutela-se o pudor público e individual. No

Título VI, que trata dos crimes contra os costumes, estão definidos os crimes contra

a liberdade sexual. 3 ”.

1.2 Conceito

O delito de estupro está definido no Código Penal Brasileiro de 1940, em seu

artigo 213, como “constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou

grave ameaça”. O Estupro, primeiro dos crimes contra a liberdade sexual, é definido

no artigo 213 do Código Penal, alterado com relação à pena, pelo artigo 5° da Lei n°

8072/90: “Constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave

ameaça: Pena – reclusão, de seis a dez anos.” Trata-se, pois, de um delito de

constrangimento ilegal em que visa à prática de conjunção carnal. O “nomem juris”

deriva de “stuprum”, do direito romano, termo que abrangia todas as relações

carnais 4 .

Define Julio Fabbrini Mirabete 5 , que “o artigo 263 da Lei 8069, de 13-07-90

(Estatuto da Criança e do Adolescente), criara a figura do estupro qualificado,

quando a ofendida fosse menor de 14 anos, cominando-lhe a pena de reclusão de

quatro a dez anos. Entretanto, com o advento da Lei n° 8.072, de 25-07-90, que

3 Neste sentido: STJ: Resp 20.726-9 – SP DJU de 1-6-92, p. 8060; TJSP; RT 381/340; MONTEIRO, Antônio Lopes. Crimes Hediondos. São Paulo: Saraiva, 1991. p.45, nota 26; BOIATI, Orides. Crimes Hediondos contra menores de 14 anos. RT 666/401-2; DELMANTO, Celso. Código Penal anotado. São Paulo: Renovar, 1991, p. 349 e 352. Contra: SHOLZ, Leônidas Ribeiro. Crimes sexuais contra menores e as incoerências da Lei. Livro de Estudos Jurídicos, v.3, p. 234-7; FRANCO, Alberto Silva. Crimes Hediondos. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1991. p.

128-33

4 Mirabete, Julio Fabbrini. Ob. Cit. p.411. 5 Ob. Cit. p.412.

elevou a pena do estupro básico para reclusão, de seis a dez anos, no artigo 6°,

aquele dispositivo restou revogado por ser incompatível com este (artigo 2°, § 1°, da

LICC), não sendo possível punir-se com a pena menos severa o delito quando

revestido de circunstância qualificadora. Neste sentido se praticou a jurisprudência

(JSTJ 36/335-336, 39/320, 41/347; RSTJ 34/464-465, 39 567-568; RT 688/379,

691/303, 375, 692/268, 697/339). Pondo fim a qualquer dúvida, a Lei n° 9.291, de 4-

6-96, revogou expressamente o parágrafo único do artigo 231, que havia sido

acrescentado pelo artigo 263 da Lei 8.069 (ECA). A lei 8.072 também definiu o

estupro como crime hediondo (artigo 1°). Posteriormente, essa classificação foi

confirmada pelo artigo 1°, da Lei 8.930, de 6-9-94, que deu nova redação ao artigo

1° da Lei 8072/90. Assim, o autor desse delito não pode ser beneficiado com a

anistia a graça ou

o indulto (art.

2º,

I),

não

tem direito à

fiança e à liberdade

provisória (artigo 2°, II), deverá cumprir a pena integralmente em regime fechado

(artigo 2°, § 1°), sua prisão temporária pode durar 30 dias, prazo prorrogável por

igual período em caso de extrema e comprovada necessidade (artigo 2°, § 3°) e, em

caso de sentença condenatória, o Juiz decidirá fundamentadamente se poderá

apelar em liberdade, podendo ser negado o benefício ainda que seja ele primário e

de bons antecedentes. O artigo 9° da referida Lei, também prevê acréscimos nas

penas, que, segundo a jurisprudência, somente se aplicam no caso de resultar do

crime de lesão corporal de natureza grave ou morte.”

1.3 Da objetividade jurídica

O bem jurídico tutelado, é a liberdade sexual da mulher e o seu direito de

dispor do próprio corpo, a sua liberdade de escolha na prática da conjunção carnal,

exercendo o livre arbítrio, sendo a conduta típica o constrangimento da mulher para

a conjunção carnal mediante a violência ou grave ameaça.

1.4 Do sujeito ativo

O delito de estupro é crime bi-próprio, exigindo-se qualidade especial dos dois

sujeitos, onde somente o homem poderá ser sujeito ativo e somente a mulher

poderá figurar como sujeito passivo deste crime. Existem divergências doutrinárias a

respeito da possibilidade do marido praticar o crime contra sua esposa.

Para alguns autores: Em face do dever conjugal, não haveria crime se o marido

constrangesse a mulher á conjunção carnal, já que, segundo esta corrente, o marido

tem direito de exigir da esposa, a satisfação sexual;

Para outros autores: Por sua vez, ensinam que, caso a negativa da mulher se apóie

em motivo justo, haverá crime. Como exemplos de motivos justos, podemos citar:

Marido ser portador de moléstia grave e contagiosa, ou no período pós-parto.

A mulher que pode negar-se ao ato sexual também por razões morais, como,

por exemplo, saber que o marido teve, pouco antes e no mesmo dia, relações

sexuais com uma amante ou uma prostituta.

Posição do Professor Damásio no que tange ao estupro cometido pelo marido,

contra a própria esposa:

Damásio entende “que o marido pode ser sujeito ativo do crime de estupro

contra a própria esposa, pois, embora com o casamento surja o direito de manter

relacionamento sexual, tal direito não autoriza o marido a forçar ao ato sexual,

empregando contra ela violência física ou moral, que caracteriza o delito de estupro.”

Acrescenta o Professor Damásio, que ”sempre que a mulher não consentir na

conjunção carnal e o marido a obrigar ao ato, com violência ou grave ameaça, em

princípio caracterizar-se á o crime de estupro, desde que ela tenha justa causa a

negativa”. 6

No que tange a mulher figurando como sujeito passivo delito de estupro,

embora sendo este um crime próprio, a mulher pode figurar como partícipe 7 bem

como co-autora. Tem sido este o entendimento Jurisprudencial, In verbis: “É sabido

que a mulher pode responder pelo crime de estupro, como partícipe, por mandato,

instigação ou auxílio – STJ – RHC 3020-8 – Rel. José Cândido – DJU, de 21.3.94,

p.5500. – Em sendo o crime de estupro catalogado como sendo crime próprio, pois

pressupõe no autor uma particular condição ou qualidade pessoal, nada impede que

a mulher seja partícipe deste delito contra a liberdade sexual – TJTM – HC – Rel.

Mário Ateyeh – RT 707/369.”.

1.5 Do sujeito passivo

Somente a mulher poderá ser sujeito passivo do crime de estupro, não se

exigindo qualquer qualidade especial para que seja vítima de estupro e não

importando se trata-se de virgem ou não, prostituta ou honesta, casada, solteira,

separada de fato, viúva ou divorciada, velha ou moça, liberada ou recatada 8 .

6 JESUS, Damásio E. de. Direito Penal. Ed. Saraiva V.3. – 1999. p. 96.

7 FRANCO, Alberto Silva; STOCO, Rui; JÚNIOR, José Silva; NINNO, Wilson; FELTRIN, Sebastião Oscar; BETANHO,Luiz Carlos; GUASTINI, Vicente Celso da Rocha. Código Penal e sua interpretação Jurisprudencial. 6. Ed. São Paulo. Ed. Revista dos Tribunais -1997.

8 JESUS, Damásio E. de. Ob. Cit. P. 96.

1.6 Dos elementos objetivos do tipo

Define o Professor Damásio, que “a conduta típica do crime de estupro é

constranger, manter conjunção carnal por meio de violência ou grave ameaça.

Constranger significa obrigar, forçar. É preciso que a vítima não dê consentimento,

demonstre resistência, tente evitar o ato desejado pelo agente, não bastando

resistência passiva ou negativas tímidas. Não se exige, porém, o heroísmo, levando

a resistência ‘as últimas conseqüências. Não consente a mulher que se entrega ao

estuprador por exaustão de suas forças, nem a que sucumbe ao medo, evitando a

prática de qualquer ato externo de resistência. Importa é que não haja adesão da

mulher à vontade do agente. Com o consentimento não há crime, à exceção das

hipóteses de presunção de violência, quando a mulher é incapaz de consentir

validamente (artigo 224 do Código Penal).” 9

Introduction penis in vaginam” é a caracterização do crime de estupro, é

necessário que haja penetração completa ou incompleta do órgão masculino viril em

ereção, na cavidade vagina, não configurando, pois a conjunção carnal, a cópula

vestibular ou vulvar. (penetrar apenas nos grandes lábios)

Não caracterizam crime de estupro, as relações sexuais anormais como o coito

anal ou oral, ou uso de instrumentos ou dos dedos no órgão sexual feminino.

“O uso da violência pode ser física (vis absoluta) que impera o uso de força

material impossibilitando a resistência do ataque sexual.

9 JESUS, Damásio E. de. Ob. Cit. p. 97.

A violência moral (vis compulsiva) por sua vez, se caracteriza pela ameaça. É a

promessa de causar à mulher dano determinado e grave. Deve ser séria e realizável,

capaz de produzir na vítima o temor que a leve a ceder. É necessário pois, que se

analise a ameaça levando em consideração o efeito por ela produzido na ofendida,

capaz ou não de levá-la, pelo medo, a ceder. É preciso que a ameaça seja grave e

que o mal prometido seja idôneo para obter o efeito moral desejado, que o dano

prometido seja considerável de tal forma que a vítima, para evitar o sacrifício do bem

ameaçado, ofereça sua própria honra, abdicando do seu direito de dispor do próprio

corpo. A ameaça pode ser direta, quando exercida contra a própria vítima, ou

indireta, quando dirigida à terceira pessoa, consistindo em mal prometido a pessoa

ligada a ofendida, fazendo com que esta ceda para evitar a concretização de tal

ameaça. É a hipótese da mãe que cede aos instintos do agente que ameaça matar-

lhe o filho.

O mal ameaçado pode ser justo ou injusto. O agente pode ter até o dever de

causar o mal, mas, se utilizar tal dever para viciar a vontade da vítima e obter-lhe os

favores sexuais, praticará o crime de estupro. É a hipótese do policial que, tendo

dever legal de prender uma mulher que encontre em flagrante delito, ao invés de

fazê-lo, a ameaça de prisão, caso ele não se entregue aos seus desejos.” 10

1.7 Do elemento subjetivo do tipo

O delito de estupro só é punível a título de dolo, que é à vontade de obter a

conjunção carnal mediante a violência ou a grave ameaça. Tal elemento subjetivo irá

distinguir a tentativa de estupro do atentado violento ao pudor, quando os atos

10 JESUS, Damásio E. de. Ob. Cit. p. 97 e 98.

poderão ser os mesmos e somente a intenção do agente, o chamado dolo específico

(aquele que resulta da intenção direta do agente) fará a distinção entre as duas

figuras. O agente tem que ter a intenção de constranger a mulher até obter a

conjunção carnal.

1.8 Da qualificação doutrinária

“Cuida-se de um crime de mera conduta, não fazendo o tipo penal referência a

nenhum resultado advindo do comportamento do sujeito. (Prof°. Damásio E. de

Jesus).”. 11

1.9 Da consumação e tentativa

Segundo

Mirabete,

“consuma-se

o

delito

com

a

introdução

completa

ou

incompleta do pênis na vagina da mulher, não sendo necessário o orgasmo ou

ejaculação.” (RT 657:280 - in verbis: “TJSP - ESTUPRO -- Consumação -- Delito que

se configura inobstante a introdução to membro seja parcial ou total -- Inteligência do

art. 213 do CP.)”.

Não é necessária a ocorrência de “immissio seminis” e do rompimento da

membrana himenal para se caracterizar o crime. (RT 620:286 – in verbis: TJSP -

ESTUPRO - Consumação - Cópula incompleta da qual não decorreu ruptura himenal

- Irrelevância - Delito

que se consuma desde que haja penetração, mesmo

incompleta, do órgão genital masculino - Não defloramento que, ademais, decorreu

11 Ob. Cit. p. 98.

de absoluta incapacidade física, em razão da tenra idade da vítima - Condenação

pela forma tentada inadmissível. PENA - Fixação - Aumento pela violência -

Circunstância agravante que já funcionou como integrante do tipo - Nova aplicação

inadmissível - Majoração que constitui "bis in idem".)

A tentativa é admitida quando a conjunção carnal não é obtida por circunstâncias

alheias à vontade do agente.

Segundo o Prof°. Júlio F. Mirabete “A intenção do agente é o elemento pelo qual

se afere se houve tentativa de estupro ou atentado violento ao pudor. Num, a

conjunção carnal é o fim, noutro o ato de libidinagem”. 12

1.10 Das causas de aumento de pena

A pena do estupro, em qualquer de suas formas típicas, é agravada de

metade, respeitado o limite superior de 30 anos de reclusão, estando a vítima nas

condições do art. 224 do CP, de acordo com o art. 9º da lei nº. 8.072/90, que dispôs

sobre os crimes hediondos. São as seguintes às circunstâncias que agravam

especialmente a pena:

Art. 224. Presume-se a violência, se a vítima:

Se a vítima não é maior de 14 anos;

Alienada ou débil mental, conhecendo o agente sua deficiência;

Quando ela não pode, por qualquer outra causa, oferecer resistência.

12 Ob. Cit. p.416.

Trata-se de violência presumida, ficta ou indutiva, onde o legislador presume a

violência, tendo em vista as circunstâncias concretas dentro das quais a vítima não

pode, validamente, dar seu consentimento.

O art. 224 do CP. Aplica-se aos crimes de:

Estupro (artigo 213 do Código Penal);

Atentado violento ao pudor (artigo 214 do Código Penal);

Rapto violento (artigo 219 do Código Penal).

Nos casos de estupro a pena deve ser agravada de metade, nos termos do

art. 1º. Da Lei nº. 8.072/90, que dispôs sobre os delitos hediondos. Na primeira

hipótese de presunção de violência refere-se à vítima não maior de 14 anos. Se o

crime é cometido no dia em que a vítima completa 14 anos, será presumida a

violência, uma vez que não será “maior de 14 anos”. A idade da vítima prova-se pela

certidão de nascimento. Em sua falta, a prova pode ser feita por qualquer outro

meio. O registro de nascimento posterior ao crime pode ser infirmado por outras

provas. A presunção de violência, no caso de a vítima não ser maior de 14 anos, é

relativa, cedendo na hipótese de o agente incidir em erro quanto à idade desta, erro

este plenamente justificado pelas circunstâncias. Ex: Certidão falsa de nascimento

apresentada pela vítima, aparência de maior idade pelo aspecto físico, etc.

Se o agente estiver na dúvida quanto à idade da vítima, incidirá o art. 224,

alínea “a”, do CP, sendo presumida a violência, uma vez que o dolo eventual só

exclui a presunção de violência no caso da alínea “b”.

Finalmente, presume-se a violência se a vítima não pode, por qualquer outra

causa, oferecer resistência. Pouco importa que a causa seja obra do agente ou não.

É

necessário,

entretanto,

que

seja

provada

a

impossibilidade

completa

de

resistência. Ex: Enfermidade, paralisia dos membros, idade avançada, excepcional

esgotamento, sono mórbido, desmaios, estado de embriaguez alcoólica, etc.

A presunção do art. 224, alínea “c”, do CP é relativa, podendo ceder em face de

circunstâncias do caso concreto. O art. 226 do CP descreve também causas de

aumento de pena nos crimes contra os costumes, levando em consideração:

O número de agentes (art. 226, I);

A qualidade do sujeito (art. 226, II e III).

A pena é aumentada de quarta parte se o crime é cometido com o concurso

de duas ou mais pessoas (art. 226, I). Os sujeitos ativos podem ser co-autores ou

participantes do crime. A participação pode dar-se em qualquer fase do crime e não

somente na de execução. Incide a causa de aumento de pena se o partícipe

aconselha, instiga ou presta auxílio material secundário ao autor do delito. No art.

226, II, do Código Penal, o legislador considera causa de aumento de pena a

circunstância de o agente ser ascendente, pai adotivo, padrasto, irmão, tutor ou

curador, preceptor ou empregador da vítima ou por qualquer outro título ter

autoridade sobre ela. O fundamento da exasperação da resposta penal é a

circunstância de o sujeito ativo ser orientador da vítima, tendo a obrigação legal de

velar por sua integridade, ou, em virtude de relações extradomésticas, ter condições

de influir na sua vontade.

Finalmente, constitui causa de aumento de pena a circunstância de o agente

ser

casado.

Os

fundamentos

desta

causa

de

aumento

de

pena

estão

na

impossibilidade de o sujeito ativo reparar o mal causado pelo casamento e na

violação dos deveres especiais do matrimônio. Por isso, a agravação específica da

pena incide na hipótese de serem do mesmo sexo, os sujeitos de fato ou de a vítima

não poder casar-se por qualquer causa (já ser casada, ser parente do agente, ter

pouca idade, etc.), (tendo em vista o segundo fundamento).

1.10.1 O problema da aplicabilidade da Norma Penal

Alberto Silva Franco 13 demonstra sua crítica ao acréscimo punitivo exagerado,

demonstrando a preocupação obsessiva da Lei 8.072/90 em tornar mais pesadas as

sanções penais. Segundo Damásio, “o artigo 263 da Lei n° 8.069, de 13-7-1990, que

dispôs sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, acrescentou um parágrafo

único ao artigo 213 do Código Penal, agravando a pena quando cometido o estupro

contra ofendida menor de catorze anos de idade (reclusão, de 4 a 10 anos). Ocorre,

porém, que a Lei

n°. 8072, de

25 de julho do mesmo ano, que classificou e

disciplinou os crimes hediondos, além de agravar a pena do estupro em seu artigo

6°, criou uma causa de aumento de pena (artigo 9°), exasperando-a de metade

quando praticado o crime contra a pessoa que se encontra nas condições do artigo

224 do Código Penal, alcançando a hipótese de vítima que ”não é maior de quatorze

anos” (alínea a). Quando passou a vigorar o Estatuto da Criança e do Adolescente

(14-10-1990), criou-se o seguinte problema: ao estupro e ao atentado violento ao

pudor contra menor de catorze anos de idade são aplicáveis os parágrafos únicos

13 Ob. Cit. p. 2923.

dos artigos 213 e 214 do CP, instituídos pela Lei 8.069/90, ou artigo 9° da Lei n°.

8.072/90? Teria o artigo 263 do Estatuto da criança e do Adolescente, na parte que

dispôs sobre os crimes de estupro e atentado sexual violento, praticados contra

menores, revogado o artigo 9° da Lei de Crimes Hediondos, que já estava

vigorando, desde julho de 1990? Ou teria o referido artigo 9° revogado parcialmente

o artigo 263 do Estatuto da Criança e do Adolescente, antes mesmo que entrasse

em vigor?

Há duas posições sobre o tema: 1ª corrente: Ao estupro e ao atentado violento ao

pudor contra vítima menor de catorze anos de idade, são aplicáveis os parágrafos

únicos dos artigos 213 e 214 do Código Penal, criados pelo artigo 263 do estatuto da

Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), impondo-se ao autor do primeiro delito,

reclusão de quatro a dez anos; ao segundo, reclusão de três a nove anos. Para esta

corrente, a Lei n° 8.072/90 não revogou o artigo 263 do Estatuto da criança e do

Adolescente na parte que criou a qualificadora nos tipos dos crimes dos artigos 213

e 214 do Código Penal. Nesse sentido, na Jurisprudência: TJSP, ACrim 105.609, 3ª

Câm., rel. Dês. Gentil Leite, j. em 17-6-1991; ACrim 107.879, 3ª Câm. Férias, rel.

Dês. Carlos Bueno, j. em 30-7-1991; TJSP, ACrim 124.894, RT, 692:268 (“in verbis”:

TJSP - ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR -- Crime hediondo -- Pena-base -- Aplicação do

art. 6.º da Lei 8.072/90 -- Norma que revogou disposição contida na Lei 8.069/90 (Estatuto

da Criança e do Adolescente) -- Voto vencido. ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR --

Violência presumida -- Vítima menor de 14 anos de idade -- Pena-base -- Aumento da

metade estabelecido pelo art. 9.º da Lei 8.072/90 -- Inadmissibilidade -- Dispositivo que

desrespeita o princípio da individualização da pena estatuído no art. 5.º, XLVI, da CF --

Menoridade, ademais, já computada na tipificação do delito, não devendo pesar na fixação

da reprimenda, o que seria um verdadeiro "bis in idem".).

Nesse sentido, na doutrina: Alberto Silva Franco, Crimes hediondos, 1. ed., São

Paulo, Revistados Tribunais, 1991, artigo 6°, n. 5.00; Paulo José da Costa, Curso de Direito

Penal, são Paulo, Saraiva, 1991, v.3. p.3 e 5. Na jurisprudência: TJSP, ACrim 107.879, JTJ,

136:450; ACrim 112.748, JTJ 135:422; ACrim 115.403, JTJ, 135:454; ACrim 121.635, v.v. do

Des. Márcio Bártoli, RT, 681:340 e 341.

Segunda corrente: Ao estupro e ao atentado violento ao pudor contra menor

que ainda não alcançou catorze anos de idade são aplicáveis os artigos 213 e 214

do Código Penal, c/c o artigo 9° da Lei n°. 8.072/90 (penas aumentadas de metade).

De acordo com essa orientação, o artigo 9° da Lei 8.072/90 revogou o artigo 263 do

Estatuto da Criança e do Adolescente na parte em que dispôs sobre os crimes de

estupro e atentado violento ao pudor, cometidos contra menor de catorze anos de

idade. Nesse sentido, na doutrina: Roberto Delmanto, A pressa em punir e os atropelos

do legislador, RT, 667:388-9; Celso Delmanto, Código Penal comentado, Rio de Janeiro,

Renovar, 1991, p.349 (posição de Roberto Delmanto); Orides Boiati, Crimes hediondos

contra menores de catorze anos, RT, 666:401-2. Nesse sentido na Jurisprudência: STJ

Resp 20.829, 5ª Turma, DJU, 8 set. 1992, p. 17114; Resp 31.607, 5ª Turma, DJU, 3 maio

1993, p. 7807; STJ, Resp 40.557, 5ª Turma DJU, 28 de fev. 1994, p. 2912; TJSP, ACrim

128.318, RT, 691:303.

A posição adotada pelo Professor Damásio E. de Jesus 14 : O Professor

Damásio entende que os artigos 213 e 214 do Código Penal, que descrevem

respectivamente, os crimes de estupro e atentado violento ao pudor, não possuem

parágrafos únicos. Entende o professor Damásio, que o artigo 263 da Lei n°

8.069/90 que, instituindo o estatuto da Criança e do Adolescente, agravou as penas

14 JESUS, Damásio E. de, 1935 – Código Penal anotado - Damásio E. de Jesus. – 10. ed. Ver. E atual. – São Paulo: Saraiva 2000, p.699.

daqueles crimes quando cometidos contra vítima menor de catorze anos de idade,

foi derrogado pelo, art.9° da Lei n° 8.072/90, que dispôs sobre os delitos hediondos.

Para efeito de revogação da lei deve ser observado o princípio de que posterior é a

que foi promulgada em último lugar, independentemente das datas de publicação ou

da entrada em vigor (Sabdulli, Novíssimo Digesto Italiano, 1963, v.9. p.647, citado por

Silva Franco, Crimes Hediondos, 1. ed., São Paulo, Revistas dos Tribunais, 1991, p. 131 -2).

Por isto, ensina Dias Marques, citado por Silva Franco, “de duas Leis, uma das quais

foi promulgada primeiro entra em vigor depois e entra em vigor depois, e a outra que

foi promulgada depois e entra em vigor primeiro, será esta que, em caso de

contradição, deve prevalecer sobre aquela

(Introdução ao Estudo de Direito, 1972,

p.264; Silva Franco, Crimes Hediondos, 1. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 1991,

p.132). No caso, a Lei n°. 8.069 foi promulgada primeiro e entrou em vigor depois,

enquanto a Lei n° 8.072, foi promulgada depois e entrou em vigor primeiro. Logo, a

Lei n° 8.072 deve prevalecer sobre a Lei n.8069. Adotada a tese adversa, no sentido

de que ao estupro e ao atentado violento ao pudor contra menor de catorze anos de

idade são aplicáveis os discutidos parágrafos únicos dos artigos 213 e 214 do

Código Penal, criados pelo artigo 263 do Estatuto da Criança e do Adolescente, e

não o artigo 9° da Lei n°. 8.072/90, chegar-se-á a conclusão de que no crime de

estupro a forma qualificada é apenada menos severamente do que a simples (Celso

Delmanto, Código Penal Comentado, Rio de Janeiro, Renovar, 1991, p. 349). Com efeito, a

pena mínima cominada no caput do art. 231, que prevê a forma simples de estupro,

nos termos do artigo 6° da Lei

n° 8.072, é de seis anos de reclusão; a forma

qualificada, de acordo com o questionado parágrafo único, é de quatro anos de

reclusão. Assim na hipótese de estupro contra maior de catorze anos a pena é, no

mínimo, de seis anos de reclusão; quando, entretanto, viesse a ser praticado contra

criança, seria de quatro anos de reclusão.

A pena do crime realizado contra criança, seria de quatro anos de reclusão. A

pena do crime realizado contra menor seria mais leve do que a imposta ao autor do

fato cometido contra vítima maior. Essa orientação contraria o sistema do Código

Penal, que impõe pena genérica e especificamente agravada quando praticado o

delito contra criança (artigos 61, II, “h”, 121

§ 4°, 122, parágrafo único, 126,

parágrafo único, 129, § 7°, 136, § 3°, 215, parágrafo único, 216, parágrafo único,

etc.). E refletiria no terreno da prescrição da pretensão executória: condenado

definitivamente o réu por estupro contra vítima maior, aplicada a pena no mínimo,

decorreria em doze anos; tratando-se de vítima menor de catorze anos de idade,

ocorreria em oito anos. Como afirmou o Des. Ivan Marques, no voto vencido

proferido na ACrim 107.879, da 3ª Câm. Férias do TJSP, em 30-7-1991, apreciando

crime de atentado violento ao pudor, “repugna à consciência, à lógica e ao bom-

senso que se une uma Lei que pretendia penalizar mais gravemente o agressor de

criança para beneficiar esses agressores, reduzindo-lhes as penas. Segundo o

Professor Damásio E. de Jesus, chega-se ao absurdo de que o estatuto da Criança

e do Adolescente reduz as penas quando as vítimas forem crianças e adolescentes”.

Constitui, sem dúvida, como afirmou Silva Franco, “uma incoerência e, sob certo

enfoque, até um estímulo, a punição mais benéfica para o autor do delito de estupro

contra mulher com menos de catorze anos”. 15

A admitir-se a vigência dos mencionados parágrafos únicos, por coerência

será necessário aceitar suas conseqüências lógicas. Uma delas foi notada por

Roberto Delmanto: O estupro e o atentado violento ao pudor contra maior de catorze

anos são considerados crimes hediondos. Não o seriam, entretanto, adotada a tese

adversa, quando praticados

contra menor

de

catorze anos de idade. (Celso

15 FRANCO, Alberto Silva. Crimes hediondos, 1. ed., São Paulo, Revista dos Tribunais, 1991, p. 132,

Delmanto, Código Penal comentado). Com razão, uma vez que o artigo 1° da Lei

8.072, ao

arrolar

os crimes

de

estupro e

atentado

violento ao

pudor como

Hediondos, faz referência aos tipos simples do caput dos artigos 213 e 214 e às

formas qualificadas do artigo 223, caput e parágrafo único. Omite os pretensos

parágrafos únicos dos artigos 213 e 214 do Código Penal. Projetada a distinção a

outros temas, os resultados são surpreendentes. Vejamos, por exemplo à hipótese

do crime de quadrilha. Formada com distinção específica de praticar estupro contra

vítimas adultas, aplicar-se o artigo 8°, caput, da Lei n°. 8.072, com a pena de

reclusão, de três a seis anos, tendo em vista que o delito do artigo 213, quando

cometido contra maior de catorze anos de idade é considerado hediondo. Se

entretanto, a quadrilha fosse organizada especificamente para a prática de estupros

contra menores de catorze anos de idade, de acordo com a tese adversa, não se

aplicaria o artigo 8° da Lei 0.072, uma vez que o delito do artigo 213 do Código

Penal, quando cometido contra vítima dessa idade, não seria considerado hediondo

(a Lei n°. 8.072 não se refere ao parágrafo único do artigo 213). Incidiria o artigo 288

do Código Penal, que prevê pena menor de um a três anos de reclusão. A adoção

da tese liberal conduz a situações contraditórias, como podemos apontar nas

seguintes hipóteses:

1ª) Estupro contra vítima adulta: Trata-se de crime hediondo, apenado no mínimo

com seis anos de reclusão, não sendo permitidos indulto, graça, liberdade provisória,

devendo a pena ser executada inteiramente em regime fechado, com livramento

condicional após o cumprimento de dois terços e prescrição mínima da pretensão

executória em doze anos;

2ª) Estupro contra vítima de treze anos de idade: Não seria crime hediondo,

apenado com quatro anos de reclusão, permitidos os institutos do indulto, graça,

liberdade provisória, progressão na execução da pena, livramento condicional com o

cumprimento de metade ou um terço e prescrição mínima da pretensão executória

em oito anos. A solução do segundo caso, segundo entendimento do Professor

Damásio E. De Jesus, não parece ser a correta 16 , desatendendo inclusive a

Constituição Federal de 1988, que , em seu artigo 227, parágrafo 4°, determina a

punição severa dos abusos e violência sexual contra menores. O artigo 1° da Lei n°

9.281, de 4 de junho de 1996, revogou os parágrafos únicos dos artigos 213 e 214

do Código Penal. Trata-se de revogação expressa. Os referidos parágrafos já

haviam sido tacitamente revogados.” 17

1.11 Do Concurso de Crimes

O delito de estupro pode ser praticado em concurso com o atentado violento

ao pudor, “desde que os atos libidinosos praticados não sejam daqueles que

precedem ao coito normal” 18 . Assim, o coito anal, praticado com a mesma vítima,

antes ou depois da cópula normal, se constitui em crime autônomo, em concurso

com o estupro, não podendo ser absorvido por este. Já na hipótese de lesões

corporais

leves,

resultantes

da

violência

empregada,

estas

são

absorvidas,

integrantes que são da violência real. O mesmo se diga das simples vias de fato.

Admite-se a continuação quando se trata do mesmo sujeito passivo. Tratando-se de

vítimas diversas e distintas e lesando o estupro interesses jurídicos pessoais, somos

de opinião de que não se poderá aceitar a figura do crime continuado. Com a

reforma penal de 1984, contudo, não há mais essa questão, uma vez que o art. 71,

16 Ob. Cit. p.700.

17 JESUS, Damásio E. de. Ob. Cit. p.697 a 700.

18 JESUS, Damásio E. de. Ob. Cit. p. 101

parágrafo único, do CP expressamente admite a continuação na hipótese em que os

delitos componentes no nexo de continuidade atingem bens pessoais. Como

exemplo da primeira hipótese, suponhamos que determinado indivíduo, ameaçando

uma senhora casada de lhe causar mal grave, a constranja à conjunção carnal.

Depois

disso,

ainda

sob

ameaça,

a

obrigue

a

numerosos

outros

encontros,

possuindo-a diversas vezes. Estaremos diante do estupro continuado.” 19

1.12 Pena e Ação Penal

1.12.1 Pena

O Art. 213 do Código Penal prevê as seguintes penas para o delito de

estupro:

Para a forma simples de estupro, a pena de reclusão, de 6 a 10 anos (caput);

Resultando lesão corporal de natureza grave a reclusão é de 8 a 12 anos

(223, caput);

Resultando morte, de 12 a 25 anos (parágrafo único);

A pena é aumentada de quarta parte em caso de concurso de pessoas, se o

sujeito ativo é casado ou apresenta relações especiais com a vítima (art.

226);

Encontrando-se a vítima nas condições do

art.

224

do CP,

a

pena é

agravada de metade, nos termos do art 9º da Lei nº. 8.072/90, que dispôs

sobre os crimes hediondos.

19 JESUS, Damásio E. de. Ob. Cit. p. 100.

1.12.2 Ação Penal

A

ação

penal

é,

em

regra,

de

iniciativa

privada,

iniciando-se

com

o

oferecimento de queixa pelo ofendido ou seu representante legal. É o que preceitua

o art. 225, caput, do CP.

Existem, todavia, duas exceções, contidas nos parágrafos 1º. E 2º do art. 225 do

CP:

A ação penal é pública condicionada à representação se a vítima ou seus

pais não podem prover às despesas do processo sem se privar de recursos

indispensáveis à manutenção própria ou da família (parágrafo 1º, inciso I, c/c

o parágrafo 2º do art. 225 do CP).

A ação penal é pública incondicionada se o crime é cometido com abuso do

pátrio poder ou da qualidade de padrasto, tutor ou curador (CP, art. 225,

parágrafo 1º, inciso II).

2. Atentado Violento ao Pudor

2.1 Generalidades

O artigo 263 da Lei

8.069, de 13

de julho de 1990, que dispôs sobre o

Estatuto da Criança e do Adolescente, acrescentou um parágrafo único ao artigo

214 do Código Penal, agravando a pena quando cometido o atentado violento ao

pudor contra menor de catorze anos de idade (reclusão, de 3 a 9 anos). Ocorre,

porém, que a Lei n° 8.072, de 25 de julho do mesmo ano, ao dispor sobre os crimes

hediondos, além de agravar a pena do atentado violento ao pudor em seu artigo 6°

criou uma causa de aumento de pena (artigo 9°), exasperando-a de metade quando

praticado o delito contra vítima que se encontra nas condições do artigo 224 do

Código Penal, alcançando a hipótese de que a vítima que “não é maior de catorze

anos” (alínea a). De maneira que

o artigo 263

do Estatuto da

Criança e do

Adolescente, na parte em que alterou a pena do atentado violento ao pudor, deve

ser considerado revogado. Neste sentido: Orides Boiati, Crimes Hediondos contra

menores de catorze anos, RT, 666:401 e 402; Roberto Delmanto, A pressa em punir e os

atropelos do legislador, RT, 667:388-9. No sentido de que o parágrafo único do artigo 214

não foi revogado: Alberto Silva Franco, Crimes Hediondos, 1. ed., São Paulo, Revista dos

Tribunais, 1991, artigo 6°, n. 6.00; TJSP, ACrim 107.879, rel. Des. Carlos Bueno, 3ª Câm.

De Férias, em 30-7-1991; ACrim 105.609, 3ª Câm. Em 17-6-1991, rel. Des. Gentil Leite.

O artigo 1° da Lei n° 9.281, de 4 de junho de 1966, revogou os parágrafos

únicos dos artigos 213 e 214 do Código Penal. Trata-se de revogação expressa. Os

referidos parágrafos já haviam sido tacitamente revogados.

2.2

Conceito

O delito de atentado violento ao pudor está definido no artigo 214 do Código

Penal, com a pena alterada pelo artigo 6° da Lei n° 8.072, de 25-7-90, como

“Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir

que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal: Pena – reclusão,

de seis a dez anos.“ O doutrinador equiparou as penas às do delito de estupro, por

entender terem as agressões, a mesma gravidade.

A Lei n° 8.072/90, em seu artigo 1° definiu o atentado violento ao pudor como

crime hediondo, o que posteriormente foi confirmado pelo artigo 1° da Lei n° 8.930

de 6-9.94, que deu nova redação ao artigo 1° da Lei 8.072/90, não podendo

portanto, o autor deste delito, ser beneficiado com anistia, graça ou indulto (artigo 2°,

I), não tendo direito à fiança e à liberdade provisória (art. 2°, II), devendo cumprir a

pena integralmente em regime fechado (artigo 2°, § 1°), sua prisão pode se estender

por trinta dias, prorrogáveis por mais trinta, em caso de extrema e comprovada

necessidade (artigo 2°, § 3°) e, em caso de sentença condenatória, o juiz decidirá

fundamentadamente

se

poderá

apelar

em

liberdade,

podendo

pois,

negar

o

benefício ainda que o condenado seja primário e de bons antecedentes.

2.3 Da objetividade jurídica

O bem jurídico tutelado é a liberdade sexual, sobretudo no que tange a

inviolabilidade carnal da pessoa contra atos de libidinagem violentos.(RT 534:342).

2.4

Dos sujeitos

Define Damásio 20 que “qualquer pessoa pode ser sujeito ativo do crime.

Diferentemente do estupro, onde apenas o homem pode ser agente do delito, por se

exigir a prática de conjunção carnal, no atentado violento ao pudor também a mulher

poderá ser sujeito ativo. Tanto o homem quanto a mulher, por outro lado podem ser

sujeitos passivos, não se exigindo qualquer qualidade especial do ofendido. Não há

necessidade de que a vítima compreenda o caráter libidinoso do ato praticado.

Basta que ofenda o pudor médio e tenha conotação sexual para que se constitua o

delito.”

2.5 Dos elementos objetivos do tipo

A conduta típica do delito de atentado violento ao pudor, consiste em

constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou permitir que

com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal. Define Fragoso 21 o

ato libidinoso como “toda ação atentatória ao pudor, praticada com propósito lascivo

ou luxurioso”.

Não é necessário que o contato físico. Ato libidinoso é o que visa ao prazer

sexual. É todo aquele que visa o desafogo, a concupiscência, como por exemplo,

obrigar a vítima a se masturbar.

20 Ob. Cit. p. 101. 21 FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de Direito Penal – parte especial. 4. ed. São Paulo. Ed. Forense. 1980. p.20-21

Define Damásio 22 , “constranger é obrigar, forçar, exigindo-se o dissenso da

vítima, sua resistência sincera e inequívoca, vencida somente pelo emprego de

violência. O constrangimento deve ser praticado por meio de violência ou grave

ameaça, como no estupro.

Discute-se a respeito do ataque de surpresa, ou seja,

quando o agente surpreende a vítima com a rapidez de sua ação, acariciando-a

lubricamente com tal destreza que não consegue detê-lo. A hipótese é de presunção

de violência (violência ficta), nos termos do art. 224, c, do CP, pois a vítima, em

razão da surpresa, não pôde oferecer resistência.

Ato libidinoso é o que visa ao prazer sexual. É todo aquele que serve de

desafogo à concupiscência. É o ato lascivo, voluptuoso, dirigido para a satisfação do

instinto sexual. Para a caracterização do crime, porém, deve ser diverso da

conjunção carnal, ou seja, diferente da cópula normal obtida mediante violência, que

está presente no crime de estupro. Objetivamente considerado, o ato libidinoso deve

ser ofensivo ao pudor coletivo, contrastando com o sentimento de moral médio, sob

o ponto de vista sexual. Além disso, subjetivamente, deve ter por finalidade a

satisfação de um impulso de luxúria, de lascívia.

O ofendido, por sua vez, não necessita ter consciência da libidinosidade do

ato praticado. Basta que o ato ofenda o pudor do homem médio, independentemente

da capacidade da vítima de entender o seu caráter libidinoso, seja por falta de

capacidade psíquica, seja por extrema depravação moral. Aliás, caso se firmasse

entendimento em sentido contrário, dependeríamos de uma análise do grau de

pudor individual da vítima para a caracterização, ou não, de um ato libidinoso, o que

22 Ob. Cit. p. 102.

impediria o seu reconhecimento quando se tratasse de criança inocente ou de

alienado, incapazes de alcançar a lascívia contida em atos contra eles praticados. É

suficiente, pois, que o pudor médio, pouco importando que a vítima consiga, ou não,

compreender sua finalidade sexual.

Há determinados atos que, inequivocamente, são libidinosos, como o coito

anal, o coito inter femora, a fellatio in ore. Outros, porém, não se revestem dessa

objetividade, e somente a análise das circunstâncias do fato é que nos poderá levar

à conclusão de que se trata, ou não, de atos libidinosos. Tal dificuldade surge em

razão de o conceito de ato libidinoso abranger não apenas o equivalente ou

sucedâneo fisio-psicológico da conjunção carnal, mas também outras manifestações

de libidinagem em que embora não se realizem sobre ou com os órgãos sexuais

nem levem à plena satisfação genésica, estejam presentes o impulso lascivo e a

ofensa à moralidade média.

Duas são as formas de realização do tipo penal: praticar a vítima o ato

libidinoso diverso da conjunção carnal ou permitir que com ela se pratique tal ato.

Segundo o Professor Damásio, 23 praticar significa executar, realizar. Essa

forma abrange a participação ativa da vítima, quando ela é quem pratica o ato

libidinoso, como ocorre na fellatio ou na masturbação. Permitir é consentir, autorizar

que com ela se pratique ato libidinoso, mediante violência ou grave ameaça. É a

atitude passiva da vítima, que se submete aos caprichos de seu agressor, inibida

23 Ob. Cit. p. 103.

sua vontade em razão da violência empregada, de tal forma que a iniciativa cabe

exclusivamente ao autor do crime, contribuindo o ofendido apenas com sua inércia.

Por

intermédio

Damásio

afirma

que 24 ,

da

análise

do

termo

legalmente

para

a

caracterização

do

ato

empregado

(praticar),

libidinoso,

exige-se

a

intervenção ativa ou passiva do ofendido. É necessária a participação material da

vítima no ato incriminado, ou seja, que haja um contato físico ou corpóreo com o

ofendido na prática do ato. Praticar é executar materialmente o ato, não abrangendo

a mera assistência, em que está ausente a intervenção corpórea e material da

vítima. Sem a sua participação ativa ou passiva não se pode falar em prática de ato

libidinoso. Pouco importa, por outro lado, que o ofendido esteja vestido ou despido.

Pratica o crime do art. 214 do CP aquele que despe uma jovem e lhe apalpa os

seios desnudos com o emprego de violência ou grave ameaça. Da mesma forma

pratica o crime aquele que, com o emprego de violência ou grave ameaça. Da

mesma forma pratica o crime aquele que, com o emprego de violência ou grave

ameaça, acaricia as partes pudendas de uma jovem por sobre o seu vestido.

Não há necessidade de que a vítima pratique o ato libidinoso com o autor do

crime. Pode ser levada a praticá-lo com terceiro (ou a permitir que o pratique) ou

mesmo em si mesma, como na hipótese de automasturbação.

Diferente

é

a

hipótese

de

contemplação

passiva,

em

que

o

agente

constrange a vítima a assistir atos libidinoso praticados por terceiros. Não havendo a

intervenção material da vítima não estará caracterizada a prática de ato libidinoso.

24 Ob. Cit. p. 103.

Dependendo das circunstâncias do caso concreto estaremos diante da prática do

crime previsto no art. 218 do CP (corrupção de menores) ou do descrito no art. 146

do mesmo diploma legal (constrangimento ilegal), com a agravante genérica do

motivo torpe. Da mesma foram, as palavras ou a narração lúbricas ou obscenas não

se constituem em atentado violento ao pudor. Embora o pudor possa ser ofendido

por palavras, alei se refere a ato libidinoso, o que exclui os escritos e as palavras. O

beijo lascivo, por sua vez, se constitui em atentado violento ao pudor, quando

praticado mediante violência ou grave ameaça. Há que se distinguir entre as várias

formas de beijo casto e respeitoso aplicado nas faces, ou mesmo o “beijo roubado”,

furtivo e rapidamente dado na pessoa admirada ou desejada. Diversa, porém, é a

questão, quando se trata do beijo lascivo nos lábios, aplicado à força, que revela

luxúria e desejo incontido, ou quando se trata do beijo aplicado nas partes

pudendas. A visão lasciva também caracteriza a prática de ato libidinoso. Assim, o

agente que surpreende uma mulher nua e o constrange a permanecer sem roupas,

para que possa contemplá-la, comete o crime, pois, mediante violência ou grave

ameaça, constrange a vítima a permitir que com ela se pratique ato libidinoso

diverso da conjunção carnal.

2.6 Do elemento subjetivo do tipo

Segundo Damásio 25 “muito já se discutiu a respeito do elemento subjetivo no

crime de atentado violento ao pudor. De um lado, colocam-se os que entendem que,

além do dolo, consistente na vontade livre e consciente de praticar o ato libidinoso

diverso da conjunção carnal, para a caracterização do delito seria necessária uma

finalidade especial do agente, que consistiria na satisfação da própria lascívia. De

25 Ob. Cit. p. 104.

acordo com tal entendimento, não praticaria o crime de atentado violento ao pudor

aquele que, para se vingar de um desafeto, o constrangesse a praticar a felação.

Estaríamos diante, apenas, de injúria real, pois faltaria o elemento subjetivo

consistente na satisfação da própria concupiscência. Outros entendem que, para a

caracterização do crime, basta a vontade livre e consciente de praticar ato libidinoso

diverso da conjunção carnal, não se indagando de qualquer outro fim especial de

agir.

Para que se configure o delito, entende Damásio não há necessidade de que

esteja presente uma finalidade especial, qual seja, a de satisfazer a própria libido, na

atuação do sujeito ativo. Bastam a

intenção de praticar o ato libidinoso

e

a

consciência da libidinosidade de tal ato. Assim, quer no exemplo acima mencionado,

quer na hipótese do sujeito que age apenas para satisfazer seu instinto sexual,

estaremos diante do crime previsto no artigo 214 do Código Penal.“.

2.7 Da qualificação doutrinária

Trata-se de crime de mera conduta e comissivo, posto que:

A conduta: a lei descreve apenas uma conduta e, portanto, consuma-se no

exato momento em que esta é praticada;

Comissivo: já que é praticado através de uma ação.

2.8

Da consumação e tentativa

O momento consumativo do atentado violento ao pudor é o da efetiva prática

do ato libidinoso (RT 504:314, 540:268). Bento de Faria 26 entende que é perfeitamente

admissível a tentativa de atentado violento ao pudor 27 (RT 707:295 – “in verbis”: TJSP -

ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR -- Tentativa -- Agente impedido na prática libidinosa e

da satisfação de sua lascívia, vez que surpreendido pela fuga da vítima e intervenção do pai

desta -- Desclassificação da forma consumada.).

Empregada a violência ou a grave ameaça e o agente é impedido de

prosseguir, por causas alheias a sua vontade, frustrando portanto a prática do ato

libidinoso, só há que se falar em tentativa (RT 607:284 in verbis: TJSP - ATENTADO

VIOLENTO AO PUDOR -- Tentativa -- Configuração -Emprego de violência ou ameaça

sobre a vítima -- Ato libidinoso almejado pelo acusado não conseguido por haver aquela

escapado de seu domínio -- Condenação mantida - Inteligência dos artigos. 214 e 14, II

(redação da Lei 7.209/84), do CP.).

2.9 Das causas de aumento de pena

Se o agente enquadra-se nas condições do art. 224 e 226, a pena é acrescida

da metade, nos termos do art. 9° da lei 8072/99.

26 FARIA, Bento de. Código Penal brasileiro comentado. Rio de Janeiro. Record. 1959 v.6. p.26 27 Nesse sentido: HUNGRIA, FRAGOSO. Comentários. Ob. Cit.v.8, p.131-133; NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal. 15 ed. São Paulo. Saraiva. 1964. v.3, p.174-175; e FRAGOSO. Lições. Ob. Cit. V.3, p.9; e MIRANDA, Darcy de Arruda. Do atentado violento ao pudor. Justitia 39/91

Art. 224 – Presume-se a violência, se a vítima:

a) Não é maior de quatorze anos;

b) Se é alienada ou débil mental, e o agente conhecia esta circunstância;

c) Não pode, por qualquer outra causa, oferecer resistência;

Art. 226 – A pena é aumentada de quarta parte:

I – se o crime é cometido com o concurso de duas ou mais pessoas;

II – se o agente é ascendente, pai adotivo, padrasto, irmão, tutor, curador, preceptor

ou empregador da vítima ou por qualquer outro título tem autoridade sobre ela;

III – se o agente é casado;

2.10 Do concurso de crimes

Pode haver o concurso de crimes entre o estupro e o atentado violento ao

pudor. Em se tratando das lesões corporais leves, estas são absorvidas pelo

atentado violento ao pudor. Com o ato obsceno, pode haver concurso formal.

A

diferença entre estes dois crimes, atentado violento ao pudor e estupro, está que no

estupro há conjunção carnal. Um exemplo do concurso de crimes acontece quando

o agente após a prática de coito normal, obriga a vítima a praticar o coito anal.

Quanto o atentado for constituído de vários atos que, por si, já são libidinosos, não

estaremos diante de vários crimes, ou de crime continuado, e sim diante de infração

única.

“O crime previsto no art. 214 do CP é apenado, na sua forma simples, com

reclusão, de seis a dez anos. Nos termos do art. 223, se da violência resultar lesão

corporal grave, a pena será de oito a doze anos de reclusão, e, se resultar morte, de

doze a vinte e cinco anos de reclusão. Presente qualquer das circunstâncias

previstas no art. 226, a pena será aumentada de quarta parte”.

Encontrando-se a vítima nas condições do art. 224 do CP, a pena é acrescida

de metade, nos termos do art. 9° da Lei n° 8.072, que dispôs sobre os delitos

hediondos. A Ação Penal é privada, à exceção das hipóteses elencadas no art 225,

§ 1° do CP. 28 .

3. Conceito de Pedofilia

Pedofilia é um distúrbio de conduta sexual, onde o indivíduo adulto sente

desejo

compulsivo,

de

caráter

homossexual

(quando

envolve

meninos)

ou

heterossexual (quando envolve meninas), por crianças ou pré-adolescentes (

).

Este distúrbio ocorre na maioria dos casos em homens de personalidade tímida, que

se sentem impotentes e incapazes de obter satisfação sexual com mulheres adultas.

Muitos casos são de homens casados, insatisfeitos sexualmente. Geralmente são

portadores de distúrbios emocionais que dificultam um relacionamento sexual

saudável com suas esposas.

28 JESUS, Damásio E. de. Ob. Cit. p. 104.

3.1 A definição de pedofilia pelo DSM

O DSM.IV – Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Norte-

Americana de Psiquiatria 29 , define assim a Pedofilia:

O foco parafílico da Pedofilia envolve atividade sexual com uma criança

pré-púbere (geralmente com 13 anos ou menos). O indivíduo com Pedofilia deve ter

16 anos ou mais e ser pelo menos 5 anos mais velho que a criança. Para indivíduos

com Pedofilia no final da adolescência, não se especifica uma diferença etária

precisa, cabendo exercer o julgamento clínico, pois é preciso levar em conta tanto a

maturidade sexual da criança quanto a diferença de idade. Os indivíduos com

Pedofilia geralmente relatam uma atração por crianças de uma determinada faixa

etária. Alguns preferem meninos, outros sentem maior atração por meninas, e outros

são excitados tanto por meninos quanto por meninas. Os indivíduos que sentem

atração pelo sexo feminino geralmente preferem crianças de 10 anos, enquanto

aqueles atraídos por meninos preferem, habitualmente, crianças um pouco mais

velhas. A Pedofilia envolvendo vítimas femininas é relatada com maior freqüência do

que a Pedofilia envolvendo meninos. Alguns indivíduos com Pedofilia sentem

atração sexual exclusivamente por crianças (Tipo Exclusivo), enquanto outros às

vezes sentem atração por adultos (Tipo Não-Exclusivo). Os indivíduos com Pedofilia

que atuam segundo seus anseios podem limitar sua atividade a despir e observar a

criança, exibir-se, masturbar-se na presença dela, ou tocá-la e afagá-la. Outros,

entretanto, realizam felação ou cunilíngua ou penetram a vagina, boca ou ânus da

criança com seus dedos, objetos estranhos ou pênis, utilizando variados graus de

29 Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Norte-Americana de Psiquiatria (F.64.4 –

302.2),

força para tal. Essas atividades são geralmente explicadas com desculpas ou

racionalizações de que possuem "valor educativo" para a criança, de que esta obtém

"prazer sexual" com os atos praticados, ou de que a criança foi "sexualmente

provocante" — temas comuns também na pornografia pedófila. Os indivíduos podem

limitar suas atividades a seus próprios filhos, filhos adotivos ou parentes, ou vitimar

crianças de fora de suas famílias. Alguns indivíduos com Pedofilia ameaçam a

criança para evitar a revelação de seus atos. Outros, particularmente aqueles que

vitimam crianças com freqüência, desenvolvem técnicas complicadas para obterem

acesso às crianças, que podem incluir a obtenção da confiança da mãe, casar-se

com uma mulher que tenha uma criança atraente, traficar crianças com outros

indivíduos com Pedofilia ou, em casos raros, adotar crianças de países não-

industrializados ou raptar crianças.

A seguir, passo a relatar a entrevista com uma mulher 30 , que foi vítima de

abusos na sua infância e a entrevista com autor de estupro e atentado violento ao

pudor cometido contra menor.

4. Entrevista com vítima de abuso sexual

A entrevista a seguir relatada foi realizada com uma mulher, vítima de abusos

na sua infância. A mulher entrevistada hoje tem 35 anos é jornalista e separada de

fato. Sofreu abusos reiteradamente na sua infância, praticadas por um primo e sob

uma aparente conivência de sua tia, mãe do infrator:

30 A mulher entrevistada hoje tem 35 anos é jornalista e separada de fato. O nome da entrevistada não foi mencionado para resguardá-la.

Entrevistador: Você se considera uma vítima de abuso sexual?

Vítima: Sim, me considero.

E: Você se lembra da idade que tinha quando os abusos começaram?

V: Acho que uns 7 ou 8 anos.talvez 9. Não lembro a idade exata. Algumas coisas eu

tento lembrar mas não consigo.

E: Os abusos que sofreu, foram sempre praticados pela mesma pessoa?

V: Sim, sempre foram praticados pela mesma pessoa. Uma pessoa da família. Um

primo bem mais velho.

E: Você consegue se lembrar qual a idade que este primo tinha quando

praticava estes abusos?

V: Uns vinte anos mais velho. Ele era casado e tinha uma filha bebê. Lembro-me

que isso acontecia quando eu ia passar as férias na casa da minha tia.

E: Os abusos aconteciam em locais diferentes? Qual era este (s) local (is)?

V: Quase sempre na garagem da casa. Uma vez no carro. Depois desse dia nunca

mais saí de carro com ele.

E: Você se lembra durante quanto tempo duraram estes abusos?

V: Não lembro exatamente de quanto tempo aconteceu, mas acho que pelo menos

por um ano. Tinha duas férias no ano, mas houve um período em que ficava muito

nos finais de semana. Acho que no ano seguinte, não fui mais.

E: Você tem idéia de quantas vezes foi molestada?

V: Lembro bem que a primeira vez, aconteceu na garagem da casa. Fiquei um mês

na minha tia e acho que nesse período, aconteceu quase todos os dias.

E:Consegue descrever os abusos sofridos?

V: Essa minha tia, ficou afastada da minha família por quase dez anos. Sempre

ouvia falar dela, como a tia rica, que minha avó não gostava, porque fazia "coisas

erradas". Depois fiquei sabendo que essas coisas erradas eram abortos. Quando

minha avó adoeceu, elas voltaram a conversar, e eu, fiquei encantada com tudo.

Uma tia rica, uma casa linda. Adorava ir a casa dela, só que ia e voltava à tarde.

Meu pai ia buscar. A primeira vez em que fiquei uma semana, começou. Minha tia

havia saído, e a esposa dele também. Ambas haviam saído para ir ao médico, com a

menina recém nascida. Eu adorava brincar com um casal de papagaios. Eles

ficavam na área de serviço, perto da garagem. A casa era um sobrado e nos fundos,

tinha uma escada que levava a uma outra casa, onde ele morava com a esposa e a

filha, e outra escada, que levava para a garagem. Meu tio, era representante de

bugigangas, roupas, brinquedos, presilhas de cabelo, essas coisas. Toda vez que

ele chegava do trabalho, me chamava e me dava uma presilha ou um brinquedo. Eu

estava brincando com os papagaios, quando meu primo me chamou. Pediu que eu

descesse na garagem. Achei que fosse pra pegar algo. Pensei que meu tio estava

lá.

Foi nesse dia que ele começou. Eu estava de vestidinho. Mesmo tendo 7 ou 8

anos, já tinha corpinho de mocinha, pernas grossas, essas coisas.

Bom, como disse, tinha corpinho de mocinha, mas era uma criança. Não tinha

a menor idéia do que era aquilo. Ainda sinto nojo, quando lembro daquele dia. Ele

me puxou e eu achei que era brincadeira.

Comecei a rir, até perceber que ele

estava esquisito. Ele não soltava meu braço. Ele me puxou e abriu os botões do

meu vestido. Começou a passar a mãos nos meus seios, que eram pequenos,

quase nem tinha. Eu não conseguia me soltar. Eu comecei a chorar e pedi que ele

me largasse, mas ele amarrou uma fita na minha boca e mandou eu ficar quieta.

Passou a mão nas minhas coxas e puxou minha calcinha. Começou a passar a mão

minha vagina, mas não introduziu o dedo. Ele estava de calça comprida e abriu o

zíper. Foi à primeira vez que eu vi um pênis. Não sabia nem o que era aquilo. Nunca

havia visto um pênis ereto. Segurou meus dois braços e mandou eu colocar a boca,

sem morder. Ficou introduzindo em minha boca até ejacular. Eu vomitei. Ele

passava a mão no meu corpo e me acariciava. Ele fez aquilo umas 3 vezes naquele

dia. A primeira foi na boca, a outra na minha mão e a terceira foi nas minhas pernas.

Aquele gosto me deixou enjoada e eu vomitei muito. Depois ele disse para eu não

gritar e nem contar nada pra ninguém.

E: Você recebeu algum tipo de ameaça?

V: Eu subi as escadas e fui sentar ao lado dos papagaios. Não chorava mais, mas

estava muito assustada e minha boca estava doendo muito. Ele disse que se eu

contasse pra alguém, minha tia ia ficar sem falar com minha avó de novo. Meu braço

estava doendo também, doendo muito. Minha tia chegou umas duas horas depois.

E: Existia alguma conivência desta sua tia?

V: Acho que sim. No início acho que não, mas naquela semana, acho que ela

acabou ficando sabendo. Não no primeiro dia, mas nos outros. Naquele dia, à noite,

comecei a jantar mas passei mal. Não conseguia beber nem água que eu vomitava.

Meu braço ficou com marcas. No dia seguinte, minhas coxas também estavam

marcadas. No segundo dia, ele me puxou de novo, só que na área da casa. Me

forçou a fazer sexo oral.

Minha

tia

viu

a

as

marcas nos meus braços, e nem

perguntou. Acho que terceiro ou quarto dia, ela já estava desconfiada, porque ela

fazia de tudo pra eu ficar sozinha com ele. Eu sempre ia com ela no supermercado

pão de açúcar. Daquele dia em diante, ela ia toda tarde ao mercado, quando a

esposa dele saia. Aí ela me deixava sozinha com ele. Eu quase implorava para ir

junto, mas ela não deixava. Num desses dias da semana, ele veio no quarto à noite.

De madrugada, acho. Estava muito silêncio. Ele não acendeu a luz e disse para eu

ficar quieta, de boca fechada. Para eu nem abrir a boca para chorar. Minha boca

estava machucada, porque ele forçava muito na minha boca, e ficou machucada do

lado. Naquela noite, ele puxou meu pijama e colocou a boca em mim. Colocou a

língua na minha vagina e ficou muito tempo fazendo isso, até ejacular na mão dele

mesmo. Quando ele acabou, colocou meu pijama e foi embora. Deste dia em diante

eu não conseguia mais dormir. Nos dias que se passavam, o restante da semana,

eu fiquei muito assustada e não consegui mais dormir. Ficava na sala com meu tio

até ele ir dormir e depois acabava dormindo na sala, de medo. Acabou a semana, e

no domingo meu pai foi me buscar. Minha mãe percebeu as marcas roxas no meu

braço e perguntou, mas minha tia disse que eu havia machucado no bosque. Toda

vez que minha mãe ia à minha tia, eu ficava com medo. Em várias vezes, minha tia,

quando chegávamos no sábado, ela pedia para minha mãe me deixar na casa dela,

pra ajudar a tomar conta das crianças. Ela deixava e recomeçava meu tormento. Era

sempre igual. Ele não introduzia o pênis mas ficava me beijando e agarrando. Ele

sempre me obrigava a fazer sexo oral nele. E quando conseguia entrar no quarto,

tirava meu pijama e colocava a boca em mim. Às vezes introduzia a língua. Quando

chegaram as férias do final de ano, minha mãe me mandou pra lá. Eram 15 dias. A

primeira semana foi um tormento. No primeiro dia estávamos na cozinha, e ele disse

que ia ao supermercado buscar as compras. Minha tia mandou eu ir junto. Era uma

perua Kombi. Quando chegou na metade do caminho ele mudou o itinerário e me

levou pra um lugar no meio de um canavial. Foi logo abrindo o zíper e colocando o

pênis na minha boca. Ficou passando a mão nos meus seios e falando na minha

orelha. Nunca vou esquecer aquela voz nojenta. Um bafo quente. Falou que meus

seios estavam crescendo e que eu estava mais bonita. Enfiava o pênis na minha

boca e gemia igual um porco. Eu ficava cada vez mais assustada. Nesse dia ele

ejaculou na minha boca 3 vezes. Naquela noite ele entrou no quarto de novo, só que

eu comecei a chorar e meu tio ouviu. Ele abriu a porta do quarto dele e meu primo

pulou a janela. No resto da primeira semana, ele me forçou a fazer sexo oral e no

sábado, entrou no banheiro quando eu estava tomando banho. Eu estava nua. Ele

me sentou na pia e ficou com a boca na minha vagina.

No domingo, minha avó foi na minha tia e eu pedi pra ela me levar embora.

Ela perguntou porque eu estava assustada e eu não falei nada, só pedi pra ela me

levar embora. Fiquei mais uns 3 dias, e na ultima vez que ele fez isso, ele ejaculou

na minha barriga. Eu o empurrei e sai correndo. Meu vestido estava rasgado e meu

tio viu. Mas ninguém falou nada. No dia seguinte minha avó voltou e eu disse que ia

embora.

Quando cheguei em casa minha mãe viu as marcas roxas nas minhas pernas.

Eu falei que tinha caído, mas acho que ela percebeu e nunca mais fui passar as

ferias na minha tia.

E: Você quer relatar mais algum abuso sofrido?

V: As marcas nos braços, era de tenta força que ele fazia pra me segurar. As

marcas nas coxas, era dele forçar o penis na minha perna. Ele foi o único. Acho que

falei tudo o que precisa saber.

E: Estes abusos, em alguma época da sua vida, foram relatados para alguém

de sua família, para alguma autoridade?

V: Não, nunca. Nunca falei a ninguém. Só quem sabe é um amigo e um psicólogo. E

minha avó, que acredito ter desconfiado, pois depois daquele dia, nunca mais minha

mãe deixou eu passar férias ou dormir na casa dessa tia.

E:

Você

teve

que

fazer

alguma

espécie

decorrência destes abusos?

de

tratamento

psicológico

em

V: Tudo o que aconteceu me deixou extremamente fechada. Depois desse ano

terrível, sempre passei as férias em minha casa, não querendo mais viajar para a

casa de nenhum parente. Só saía com minha avó, que eu via como minha protetora,

pois ela havia me tirado de lá. Veio a fase da adolescência e eu continuei muito

fechada. Era a garota mais alegre da turma, mas quando se tratava de namorar, eu

gelava. Somente na fase adulta, vim a entender que não era eu a errada e sim ele.

Fiz terapia e sessões com um psicólogo, há pouco tempo, menos de um ano. Tudo o

que aconteceu influenciou em tudo na minha vida. Acho que consegui me libertar de

tudo isso há menos de um ano. Tudo o que aconteceu influenciou na minha vida,

incluindo a sexual. Na adolescência, sempre fui uma das meninas mais alegres e

paqueradas. Era amiga de todos e sempre queriam minha companhia. Só que

quando percebia que algum garoto estava interessado em mim, dava uma gelada e

caia fora. Mesmo que eu estivesse apaixonada, acabava por não deixar rolar nada.

E: Você sente estar recuperada das marcas deixadas?

V: Não, as marcas vão existir para sempre, pois não dá pra esquecer. Mesmo que

eu queira, depois de terapia. Isso ajudou no sentido de ver que não era eu quem

estava errada e sim ele. Convivo melhor com isso tudo, mas as seqüelas não vão

desaparecer. Como estava dizendo, senti mais o peso de tudo, na adolescência.

Namorava, mas quando os meninos tentavam quer coisa, mesmo que um simples

"passar de mão", isso me afastava e o namoro durava pouco. Eu era a única menina

da turma, que Não namorava firme, era mais a conselheira, a amiga dos meninos.

Acho que eu tinha uns 3 ou 4 pretendentes, mas os considerava amigos. A simples

idéia de namorar firme, já me afastava. Quando entrei na faculdade a coisa ficou

pior, pois todas as garotas da turma já haviam transado, menos eu. Namorava, mas

quando o namoro começava a ficar sério, já me dava medo. Quando o cara tentava

algo então, até minha paixão acabava. O pior de tudo, era que eu sentia vontade,

mas o medo não deixava. Eu mesma acabei descobrindo, aos poucos, meu corpo.

Ainda na faculdade, conheci um cara por quem me apaixonei. Estávamos muito

apaixonados, de namorar em casa e tudo, mas eu não conseguia deixar rolar.

Namoramos quase um ano, quando apareceu a primeira oportunidade em uma

viagem. Esfriei na hora e ele acabou achando que eu não gostava dele. Estávamos

de aliança comprada e tudo. Daí em diante, não namorei mais ninguém sério. Era

sair, beijar e só. Acabei me casando com alguém que não amava o suficiente, mas

que se mostrou carinhoso e meio "pai". Não forçava nada, deixou as coisas

acontecerem naturalmente. Perdi minha virgindade com meu ex-marido, alguns

meses antes de casar. Acho que tudo o que aconteceu, influenciou e vai influenciar

todo o resto da minha vida. Não dá pra mudar o que aconteceu. Passei minha

infância meio que trancada em casa, com medo de tudo. Na adolescência, fiz muitos

amigos, e por ser uma menina bonita, bastava algum menino dizer que me achava

bonita, e eu já ficava em pânico. Sempre ouvia do "primo", nas horas em que ele me

agarrava, que eu era linda. Ele sempre dizia no meu ouvido, que eu era perfeita,

essas coisas. Acabei por ligar isso a todos os elogios que recebi. Hoje, já não acho

que sexo seja algo que machuca. Pelo contrário. Mas algumas "cantadas" que ouço

por aí, me lembram o crápula. Acho que se isso não tivesse acontecido, muita coisa

poderia ter sido diferente. Sou uma pessoa fria em tudo. Quando alguém fala comigo

em tom agressivo, ou em tom ameaçador, tenho atitudes frias e minhas emoções

não respondem. É como se não estivesse acontecendo comigo. Acho que se isso

não tivesse acontecido, não teria me fechado tanto. Talvez, não tivesse jogado parte

da minha vida em um casamento sem amor. E principalmente fosse uma pessoa

menos fria, que demonstrasse mais as emoções.

E: Você ainda encontra o agressor? Tem contato? Como é a vida desta pessoa

hoje?

V: Bom, ele é meu primo. Por mais que tente não ver, às vezes o encontro. Trato

friamente. Acho que ele tem ciência do que me fez. Ele tem uma vida aparentemente

normal. Separou-se da primeira esposa, e já teve outras três. Tem um filho com

cada uma, sendo que das duas primeiras, são meninas. Tenho pouco contato,

porque ele, infelizmente, é meu primo. Há algum tempo, tornou-se alcoólatra. Pediu

minha ajuda, e como sou espírita, não pude recusar. Acabei por interná-lo em uma

clinica de alcoólatras, onde ficou por 8 meses. Saiu a algum tempo e arrumei um

trabalho na prefeitura para ele. Tornou-se evangélico, e hoje, está com cirrose

hepática. Não sinto pena nenhuma. Não o visito, não ligo pra saber se está melhor

ou não, simplesmente, risquei essa pessoa da minha vida. Ajudei-o, como ajudaria

qualquer estranho. Mas confesso que às vezes, ainda sonho com tudo aquilo e

acordo revoltada. Acho que não há análise, não há terapia que pague isso tudo.

4.1 Entrevista com autor de estupro, que foi identificado e preso

O ator Joel da Silva Gonçalves, de 27 anos, pai de dois filhos, uma menina de

8 anos e um menino de 3, foi reconhecido como o “estuprador da Kombi bege",

como passou a ser chamado pela Polícia, o homem que violentou sexualmente doze

mulheres em Campinas desde o mês de abril de 2002. Entre as vítimas estão duas

meninas, uma de 10 e outra de 11 anos de idade. A delegada Maria Cecília Fávero,

da Delegacia da Defesa da Mulher (DDM) de Campinas, disse que o número de

vítimas deve chegar a 21. Gonçalves ficou preso na cadeia

do

DP (São

Bernardo). Preso na Rodovia Santos Dumont, por policiais militares, depois de

denúncias anônimas, Gonçalves foi reconhecido na DDM por sete vítimas. Ele tinha

a prisão preventiva decretada pela Justiça em Santos, litoral paulista, por estupro.

Ao ser preso, o ator estava acompanhado pela mulher e os dois filhos. Ele dirigia a

Kombi, bege, ano 79. Gonçalves admitiu que atacou três vítimas. "Posso provar que

nos horários e dias que aconteceram os outros casos eu estava em locais

diferentes", disse.

As vítimas eram ameaçadas com uma arma e obrigadas a entrar na Kombi.

Depois, acabavam sendo estupradas dentro do veículo ou em um matagal. Uma de

suas vítimas uma menina de 11 anos foi abordada na Vila Vitória, bairro de

Campinas às 10h30. Ela reagiu e lutou com o estuprador mordendo uma das mãos.

Como reação, a menina foi atingida com socos na boca e teve pelo menos cinco

dentes quebrados. Gonçalves tem um ferimento na mão direita. Após agredir a

menina, o estuprador a amordaçou com o vestido e obrigou que a mesma fizesse

sexo oral e anal. A menina passou por duas cirurgias, uma para correção do canal

da vagina e outra para corrigir as fissuras do ânus, e continua internada no Hospital

da Unicamp. Uma adolescente de 15 anos foi atacada na Avenida Estados Unidos,

no Jardim do Trevo, Campinas, às 14 horas do dia 29 de novembro de 2002. Ela

pulou do veículo em movimento e sofreu várias escoriações. Socorrida por dois

trabalhadores de um oposto de gasolina, a adolescente foi levada para o hospital. As

letras e o número das placas do veículo foram anotadas e entregues à polícia.

"Sete vítimas reconheceram sem sombra de dúvidas esse homem como autor do

estupro. Estamos tentando localizar duas que não registraram queixa e outras duas

não foram achadas em casa", disse a delegada Maria Cecília. A policial afirmou que

as provas foram suficientes para indiciar Gonçalves em Inquérito Policial e pedir a

sua prisão preventiva. Segundo a delegada, Gonçalves disse que a arma utilizada

para intimidar as vítimas era um brinquedo que ele trocou por doces com uma

criança durante uma apresentação que fazia em um bairro de Campinas. A arma de

brinquedo não foi achada. Gonçalves é ator mímico, trabalha com teatro mudo, e

fazia até palestras em escolas sobre seu trabalho. Ele faz o papel do "sombra" em

festas e eventos nas ruas – segue pessoas e imita seus gestos e já participou de

programas de televisão na Rede Globo e SBT.

"Existe apenas uma menina que eu quis assustar. Coloquei-a na Kombi e ela pulou.

Depois fui tentei ajudá-la. As duas outras moças fizeram por que quiseram. Não

cheguei a tocar nela. Eu somente quis fazer uma brincadeira", disse Gonçalves .

A delegada Maria Cecília disse que outras vítimas deverão ser convocadas para

depor. "Todas as características físicas descritas pelas vítimas coincidem com o

homem preso", explicou a policial.

4.1.2 Entrevista:

Entrevistador: Você cometeu os estupros ?

Acusado: Não, as moças fizeram porque gostaram de mim.

E: E a menina de 11 anos?

A: Eu não fiz nada. Ela se assustou e correu, depois de morder minha mão. Mas eu

não fiz sexo com ela.

E: Mas a menina reconheceu você no quarto do hospital

A: Eu sei, mas eu não molestei ela.

E: Porque você correu atrás dela?

A: Para brincar

ela.

sou

o sombra do programa do Faustão e disse que ia brincar com

E: Dentro da perua?

A: É, eu ia fazer a maquiagem.

E: A menina disse que não lembra de muita coisa, só que você fez carinho

nela.

A: Eu comecei a brincar com ela. Aí ela queria por minha roupa

E: Aí você tirou a roupa dela

A: É, tirei pra vestir ela de sombra também

E: Ela não ficou quieta, por isso você a amarrou com o vestidinho?

A: Não, não amarrei. É que ela não conseguia ficar com as mãos paradas.

E: Então você amarrou?

A: Sim, amarrei.

E: O que você fez com a menina?

A: Não me lembro.

E: Você abusou dela?

A: Não, claro que não. Tenho filhos

E: Mas você passou a mão no corpinho dela

A: Só nas pernas

E: O que mais o atraiu nela?

A: As pernas.

E: Você chegou a fazer sexo com ela?

A: Ela que pediu pra mim gozar nela.

E: Onde ela pediu?

A: Na boca.

E: Onde mais? Você se lembra?

A: Na parte de traz

E: No bumbum?

A: É

E: Dentro ou fora?

A: Nos dois.

O acusado havia confessado os estupros para a Delegada, mas alegava para a

imprensa, que havia sido forçado a confessar. Durante a entrevista 31 , ele se mostrou

frio, sem arrependimento. Após a ultima pergunta, ele disse: “Confessei.”.

31 A entrevista foi realizada pela jornalista Regina Lopes e publicada no Jornal “Correio Popular”, da Cidade de Campinas, São Paulo.

Conclusão

Verificando-se a grande quantidade de estupros e atentados violentos ao

pudor, cometido contra menores é notável que o mais comum são agressores com

vida

e

orientação

normais,

o

que

difere

da

crença

que

o

agressor

seja

necessariamente portador de uma patologia clínica que o leve a cometer tais

abusos. A grande maioria dos agressores, quando descobertos, de pronto, alegam

alguma patologia, para tentarem abrandar a imputação penal e o rigor da Lei.

Verificou-se

que

a

violência

sexual

doméstica,

principalmente

àquelas

cometidas por pais ou parentes próximos, parece não ser vista como algo tão grave.

Parentes não têm consciência do enorme prejuízo que tais agressões trarão ao

desenvolvimento social e psicológico da criança agredida e não imaginam o

tamanho da gravidade penal gerada por tais atos. Acreditam que são problemas

familiares que podem ser resolvidos no âmbito familiar, ou, como na sua grande

maioria, ignorados. Existe hoje uma necessidade gritante no sentido de uma

conscientização social, no que tange a providências a serem tomadas pelas

autoridades, visando melhorias nos aspectos culturais, bem como na educação,

procurando mostrar à sociedade, o perigo que estão correndo suas crianças, que

são covardemente agredidas reiteradamente, por pessoas próximas.

A falta de celeridade da Justiça Brasileira é fato que jamais poderá ser

desprezado. O desgaste psicológico, bem como a exposição familiar decorrente do

lapso temporal entre a instauração do Inquérito Policial e o trânsito em julgado da

última decisão proferida, é também um fator que desencoraja a atuação de

familiares na busca da justiça.

Por fim, termino minha pesquisa, mencionado o Artigo 227 da Constituição

Federal, que diz:

“É dever da Família, da Sociedade e do Estado assegurar à criança e ao

adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à

educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à

liberdade, à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda

forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”

Bibliografia:

DELMANTO, Celso. Código Penal anotado. São Paulo: Renovar, 1991.

FARIA, Bento de. Código Penal brasileiro comentado. Rio de Janeiro. Record.

1959 v.6.

FRAGOSO, Heleno Cláudio. Lições de Direito Penal – parte especial. 4. ed.

São Paulo. Ed. Forense. 1980.

FRANCO, Alberto Silva. Crimes Hediondos. São Paulo: Revista dos

Tribunais, 1991.

FRANCO, Alberto Silva; STOCO, Rui; JÚNIOR, José Silva; NINNO, Wilson;

FELTRIN, Sebastião Oscar; BETANHO,Luiz Carlos; GUASTINI, Vicente Celso

da Rocha. Código Penal e sua interpretação Jurisprudencial. 6. Ed. São

Paulo. Ed. Revista dos Tribunais -1997.

HUNGRIA, Nelson, FRAGOSO, Heleno Cláudio. Comentários ao Código

Penal. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1981. volume 8.

JESUS, Damásio E. de, 2000. Código Penal Anotado.

JESUS, Damásio E. de. Direito Penal. Ed Saraiva. 2000. volume 3.

Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Norte-Americana de

Psiquiatria (F.64.4 – 302.2).

MIRABETE, Julio Fabbrini. Manual de Direito Penal. 17 ed. São Paulo. Ed.

Atlas, 2001, volume 2.

MIRANDA, Darcy de Arruda. Do atentado violento ao pudor. Justitia 39/91

MONTEIRO, Antônio Lopes. Crimes Hediondos. São Paulo: Saraiva, 1991.

NORONHA, E. Magalhães. Direito Penal. 15 ed. São Paulo. Saraiva. 1964.

SHOLZ,

Leônidas

Ribeiro.

Crimes

sexuais

contra

menores

e

as

incoerências da Lei. Livro de Estudos Jurídicos, volume 3.