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Sexta-feira | 23 Fevereiro 2018 | publico.

pt/culturaipsilon
RUI GAUDÊNCIO ESTE SUPLEMENTO FAZ PARTE INTEGRANTE DA EDIÇÃO Nº 10.170 DO PÚBLICO, E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

A eterna juventude de

Michael
Snow,
um artista
deste
tempo

Sons e imagens, filmes
e esculturas na Culturgest,
Lisboa

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Flash
Sumário
4: Michael Snow
Um artista do nosso tempo
Marco Ferreri, finalmente clássico
12: Hauser & Wirth
A megagaleria que mais
na Festa do Cinema Italiano CATERINE MILINAIRE/SYGMA VIA GETTY IMAGES

parece um museu

16: Vasco Araújo
Arqueólogo da memória

18: Romeo Castellucci
A linguagem é um campo
de batalha

20: Amp Fidler
Toda a música negra
americana num só homem

23: Lucibela
Canta para se religar com o
passado

Ficha Técnica
Director David Dinis
Editor Vasco Câmara
Design Mark Porter,
Simon Esterson Ferreri em Nova Iorque na rodagem de Adeus, Macho (1978)
Directora de Arte Sónia Matos
Designers Ana Carvalho, Ainda não há certezas sobre os programador do festival, que lo dentro de uma história do
Ana Fidalgo e Mariana Soares filmes concretos com que a Festa relembra que este ano se cinema italiano”.
E-mail: ipsilon@publico.pt do Cinema Italiano, em parceria assinalam os 21 anos da morte de A Festa quer, esclarece, ver,
com a Cinemateca Portuguesa, Ferreri e que no ano passado passadas duas décadas da morte
vai homenagear Marco Ferreri houve vários eventos do autor, “se o seu cinema ainda
(1928-1997). É que, até agora, comemorativos em Itália que é contemporâneo e se o tempo
continuam a ser fechados levaram a novos restauros dos apagou um bocado as suas
pormenores em termos de filmes - com os quais será temáticas ou se ainda são
direitos e da disponibilidade de provável que esta retrospectiva actuais”. Segundo o responsável,
cópias. Mas a ideia é que, de 4 a conte. estas temáticas envolviam um
12 de Abril, filmes deste cineasta, A ideia é, argumenta, “dar combate contra o capitalismo,
que começou a carreira em visibilidade a um autor que saiu “uma visão da vida como uma
Espanha e assinou obras como A um bocado do panorama dos questão de prazer, com a
Motoreta, A Grande Farra, Adeus, grandes mestres do cinema importância da comida e do sexo
Macho ou Dillinger Morreu, se italiano, um não-clássico, uma como posições fortes”, e uma
faça justiça à obra. figura que quis sair de algumas contestação de “qualquer tipo de
“Já explorámos, nos últimos estruturas estéticas e temáticas ideologia”. Lembra que Ferreri
anos, nomes importantes da para fazer uma cinematografia “não era católico, não era
comédia italiana, como Dino Risi sem estilo, quase de guerrilha, marxista, era anárquico”.
ou Mario Monicelli. Agora, que era diferente e não lhe Também queremos perceber se o
através do Ferreri, vamos permitiu ser recordado e entrar”. escândalo que filmes como A
explorar a degeneração e “Merecia reconhecimento Grande Farra ou Dillinger
degradação daquela época, maior”, conclui o director, que Morreu causaram na época em
fechar este ciclo com ele”, conta adiciona que “talvez seja justo que se estrearam se mantém
Stefano Savio, director e voltar a Marco Ferreri e recolocá- hoje. Rodrigo Nogueira

O Napoleão de Kubrick nunca chegou
Laurie a ser filme, mas deu um livro
Anderson:
mais uma Quando estava na pós-produção obsessivo Kubrick passou dois anos
interpelação de 2001: Odisseia no Espaço, a preparar o filme, a pesquisar e
afectiva Stanley Kubrick (1928-1999) reunir material sobre a época e o
e tocante em começou a preparar aquele que, imperador e a escrever o guião.
forma de música. achava, seria o seu projecto Em 2005, a Taschen editou The
Págs 27 e segs. seguinte: um épico sobre Napoleão Stanley Kubrick Archives Book, com
Bonaparte. Napoleon acabou por orientação de Alison Castle, que
nunca ser feito, tendo sido reunia parte do arquivo do
rejeitado primeiro pela MGM e realizador, para ilustrar a forma
depois pela United Artists por meticulosa como o cineasta
acharem que o orçamento elevado de Horizontes de Glória e Doutor A partir de 18 de Outubro o Centre
que seria necessário para a Estranhoamor trabalhava. de Cultura Contemporània de
reconstituição de época não iria Na altura, houve muito material Barcelona dedica uma exposição ao
compensar nas bilheteiras. Mas o que ficou de fora sobre a intensa realizador

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Ira Sachs vai filmar Isabelle Huppert Câmara escura Vasco Câmara
e Marisa Tomei em Sintra com Rui Poças Tirei o Woody Allen do castigo
Pela primeira vez, Ira Sachs vai trabalhou. Saïd Ben Saïd, o
sair dos Estados Unidos para fazer primeiro elo de contacto com
um filme. A Family Vacation será a Poças, já produziu Polanski,

N
sétima longa do realizador Téchiné, Verhoeven, Cronenberg, ão havia Woody Allen lá em casa. Agora há Nem Guerra, Nem Paz
estabelecido em Nova Iorque, e Yasmina Reza, Garrel, Walter Hill, (1975), Annie Hall (1977), Intimidade (1978) — ganhou crueldade,
será rodada em Portugal no De Palma ou Kléber Mendonça não é o exercício de preciosismo bergmaniano com que foi
próximo mês de Outubro. Na Filho. rotulado —, Manhattan (1979), Zelig (1983), O Agente da Broadway
direcção de fotografia estará o Segundo a Variety, a história, (1984), Ana e as Suas Irmãs (1986) e Crimes e Escapadelas (1989).
português Rui Poças. “Fui centrada em nove personagens, Não havia Woody Allen porque era redundante: encher a casa
convidado pelo produtor [o passa-se ao longo de um só dia das com a casa, multiplicar sinais de mim, espectador, com aqueles filmes,
franco-tunisino Saïd Ben Saïd] e o férias de três gerações de uma dos 70s e 80s, com que Woody foi variando a partir de um modelo que era
próprio Ira”, partilha ao telefone família em crise após uma dele e dessa forma nos meteu numa bolha — falando para nós como se nos
com o Ípsilon. Quanto ao que experiência que lhes muda a vida. estivesse a ouvir e assim nós ouvíamo-nos. O espaço público enchia-se de
levou ao convite, o director de Citado pela revista, Sachs explicou confissões privadas.
fotografia explica: “Conhecem os que o guião, assinado, como os Meter esse reconhecimento em casa era redundante. Agora, em tempo
filmes que fiz e penso que virá na seus mais recentes filmes, a meias de “monstros”, quando actrizes consideram um erro terem estado nos
sequência dos últimos em que com o brasileiro Mauricio filmes de Woody Allen, distanciando-se com o mea culpa e procurando
trabalhei no Brasil [Ferrugem, de Zacharias, tem uma qualidade credibilização com reescrita de currículo, quando “clássicos” (Manhattan)
Aly Muritiba] e na Argentina teatral. No elenco, nomes como são colocados “de castigo” por quem os analisa à procura de provas de
[Zama, de Lucrecia Martel, co- Greg Kinnear, de Homenzinhos, e um delito, senti necessidade de ter Woody Allen em casa. Não por ele.
produção portuguesa]”, Marisa Tomei, de O Amor é Pela minha história de espectador. (Estavam a saldo na FNAC, parecia que
acrescenta, lembrando também Estranho, que voltam a trabalhar alguém se estava a desembaraçar deles, eu não quis que, nesta febre de
que Ira Sachs, que faz curadoria com Sachs. A francesa Isabelle apagar e de reescrever, se desembaraçassem de mim).
do QUEER|ART|FILM, ciclo de Huppert, o belga Jérémie Renier, Faltam-me alguns dos que quero. Maridos e Mulheres (1992) é um
cinema em Greenwich Village com assíduo dos filmes dos irmãos deles. É decisivo. É aquele em que um casal ( Judy Davis e Sidney
o apoiuo da HBO, já programou O Dardenne, André Wilms, o francês Pollack) anuncia aos amigos Woody Allen e Mia Farrow que se vai
Fantasma e Morrer Como um que colabora com Aki Kaurismäki, separar, perante a incredulidade destes. No fim de uma série de ondas
Homem, filmes de João Pedro estreiam-se neste universo. de choque, é o casal Allen/Farrow que se separa (Davis e Pollack, claro,
Rodrigues nos quais Poças Rodrigo Nogueira juntam-se). Uma série de ondas de choque: a câmara agressiva, uma voz
FÁBIO AUGUSTO/ARQUIVO inquisidora a encostar personagens à parede, uma energia nunca
acolchoada por alibi narrativo: não se justifica, impõe(-se).
Apareceu nos ecrãs em 1992, quando rebentava o “escândalo” da
separação Mia/Woody, por causa da filha adoptiva dela, Soon-Yi. Era um
casal mediático, idiossincrático q.b.(aquela coisa de viverem cada um do
seu lado de Central Park era cool antes do cool), mas podia ser adoptado
por todos. Recordo uma sessão novaiorquina com diálogo entre o ecrã e
os espectadores a cruzar a sala, todos a “falarem” com o filme,
retaliação contra a “traição” de que tínhamos sido alvo — ainda para
mais, Allen parecia antecipar a vida com a arte, o autor agigantava-se,
como a mãe dominadora de New York Stories. Começou ali a ser
“monstruoso”. Mas ali, evidentemente, a vida privada tomava a vida
artística como refém. Terminou por esses anos o Allen feroz, criativo e
vital. Foi algo que nunca mais, ou só episodicamente, existiu. Ficámos
orfãos — são posteriores a Maridos e Mulheres as declarações dele de que
passaria a ter uma relação mais leve com o cinema, não queria continuar
a deixar ali a pele, foi com isso que ficámos.
Hoje podemos sentir em Annie Hall ou em Manhattan mais do que a
nostalgia e a comédia romanticamente psicanalizada: o sabor de um
apocalipse sentimental e moral. Estamos sozinhos com os nossos crimes
e escapadelas — nada nos salva se escaparmos. Woody sempre disse isso:
somos nós os monstros. Nós é que olhámos para o lado. Aquela sessão
novaiorquina, é hoje claro, faz figura do fim de um certo cineasta —
A Family Vacation, do realizador estabelecido em Nova Iorque, terá fotografia de Rui terminava a “lua de mel” com ele — e de um canto de cisne da
Poças experiência cinematográfica como lugar de solidão. Estamos sozinhos, é
a felicidade desse lugar. Que procuramos por medo, voyeurismo, desejo,
culpa — se há espaço onde isso pode florescer é em frente a um filme,
tudo é lícito porque é representação, simulacro, fantasma. Mas hoje
preparação do filme. O capítulo do imagens napoleónicas que Kubrick “dizem-nos” que o que se passa com “eles” nada tem a ver “connosco”.
livro a ele dedicado só representava juntou. O livro publica rascunhos Dizem-nos que o cinema tem de ser espaço “limpo”, reconciliação, SPA
uma parte ínfima do material que do guião que o cineasta escreveu, emocional. Por isso toca a apagar o que mete medo — ou o que pode ser
Castle reuniu e, logo na altura de entrevistas a Kubrick pelo problemático nas bilheteiras, como Kevin Spacey em All The Money in
publicação, se noticiaram planos professor universitário Felix the World (decisão comercial, coisa cínica). Hoje o lugar do espectador
para um livro exclusivamente Markham, estudos para o guarda- não tolera perturbações e faz-se lugar de vigilantismo. O medo do medo
dedicado a esse projecto. Em 2009, roupa — os uniformes militares está a acabar connosco. Pior do que os filmes, só nós, espectadores; os
saiu Stanley Kubrick’s Napoleon: The iriam ser feitos em papel para os filmes apenas nos têm acompanhado por razões de sobrevivência.
Greatest Movie Never Made, caixa de custos serem controlados, por Mesmo num texto sério de Laure Murat, cronista no Libération, que
edição limitada com dez livros a exemplo —, entre muitos outros reencontrou Blow Up, de Antonioni, e descobriu que a “forma” desse
detalhar todo o processo. Em elementos. filme nos distraiu do seu “conteúdo” (mas como, se em Antonioni a
Março, será lançada nova edição Esta nova edição não é a única forma já é conteúdo?) e nele encontrou a reiteração da história de
que reúne todo esse material num novidade kubrickiana de 2018. De violência do “olhar masculino” — deveria Antonioni ter colocado uma
só livro. Quem o comprar — o custo 18 de Outubro até ao final de Março legenda a distanciar-se da “misoginia” do fotógrafo? —, a proposta feita
será à volta de 50 euros — terá do próximo ano, o Centre de de um inventário da História de Arte é um desafio olímpico, sim, mas
também direito ao acesso online à Cultura Contemporània de para chegar a que resultado? Murat diz que não se trata de censura. Mas
WARNER BROS. INC
totalidade dos arquivos reunidos Barcelona (CCCB) vai dedicar uma não diz do que é que se trata. Deixa em aberto, um vazio — o título O Ovo
sobre o filme. exposição ao realizador, que da Serpente, aquele filme nada bom de Bergman, cruza-me o espírito.
Este arquivo inclui as 15 mil procurará traçar paralelos entre a Mas há dias ouvi e gostei; Isabelle Huppert: “Não concebo ir ao cinema
fotografias de cenários e 17 mil sua obra e o mundo actual. sem ser para me perturbar”.
ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 3

Representar o mundo para que ele possa voltar a existir .

ao fim de 50 anos. oferecer coisas novas aos espectadores. Atitude que. continua a guiar a sua actividade e a fazer pensar todos os que se encontram com a sua obra.Personalidade marcante da arte contemporânea. Movido por uma curiosidade infinita e um singelo intuito: a partir do mundo. É o que nos pode acontecer em O Som da Neve. figura incontornável da história do cinema. Lisboa. Culturgest. José Marmeleira . Michael Snow viveu a segunda metade do século XX a experimentar as possibilidades que as linguagens da arte lhe proporcionavam.

é o da superfície bidimensional da foto. do filme serão aspectos comentados ouvimos quatros pianos a conversa com elegância e mens e uma mulher a entrar no es. pianos a tocarem músicas diferentes velength (1967). E. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. Logo a seguir. a mulher — Back and Forth (1968-69). amigo de Snow]. uma peque. os mesmos Começa com um zoom sobre o es. cularmente a belga. sob cortes e saltos na fita. portando não. rar as relações entre o som e a ima. a E acima de tudo. gem. musicais vemos os mesmos elemen- sua carreira. As relações dos espec. redescoberto. há um houve quem saísse. privilegia os seus trabalhos cal. nema experimental. a relação entre o som e a bre o tempo. ao mesmo tempo. vai declinando.” a outros campos. marcando indelevelmente a senta: imagens de ondas do mar. para uma obra que continua a ex- Iorque. obra em que se divisam modos de forte. por a nu a sua materia. em diálogo com George Dunning. filme em que Esta é uma exposição que na e intensa tempestade na cena lo. a condição do artista regressa à sala na companhia de ou. S. o cariz realista Chantal Akerman e James Benning retrato de um artista numa janela siva. No início dos anos 60. Ao fim de alguns minutos. uma câmara. do médium. tir de dentro. Jonas Mekas. abordagens e sensibilidades (2009). indiferente ao acon. zes. na direcção que acompanharão até hoje: o gos. enfurecido e em manece distante. pode fazer e mostrar com eles. movimentos das mãos. paralelo ao zoom. focada nos trabalhar em cinema de animação ving is easy with eyes closed. Sorri enquanto paço. em que ouvimos quatros Youngblood ou Manny Farber. realizador de derstand all you see. fazer. com a lidade. misun. Ao fim na concebida pelo artista. concentração na mera experiência Piano Sculpture (2009). Noutras obras. termina com a imagem de uma foto. La Ré.A. Gosta de entanto. pandir-se. espaço e a paisagem do norte do Sim. Ao longo da segunda tiva. mas a câmara per. no tornando Wavelenght um filme de mesmo tempo rememora e fala. a curiosidade em o nome de Piano Sculpture. tocarem músicas diferentes ao simpatia. Por isso. instantes depois as perso. sonda o com o som. humanos. outro ho. antes ao corpo humano. formou-se em artes e chegou a e um verso atravessa a imagem: ”Li. quando regressa a To. Gene nica e sai. de mais alguns minutos.A. chega outra ronto. com A superfície muda de cor várias ve. Apesar 6 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . como tecimento. Ouvimos phew (1974) — que internacionalizam curiosidade infinita à qual a Cultur- ainda vive. foi músico (ainda é) de Strawberry Fields Forever dos Beatles o trabalho de Snow e afirmam uma gest de Lisboa consagra O Som da jazz. tem túdio do artista em Nova Iorque e diegética e a passagem do tempo. Natural do Canadá. robóticos. O som é simultâ- seu filme mais aclamado e comen. de cair inanimado. o zoom aponta. em todos usei o som. Queria interrogar a qualidade mentando. a interrogação metafísica so. sobreposições. onde se instalou para se afir. entra em cena. intervenções. em Nova desvanece-se sob os efeitos na fita de assumem a “dívida” artística. bre (1972) foi rodado sob a inspiração um conjunto de filmes. to pela música. exposição que. sugere-se um enredo. mulher que faz uma chamada telefó. Para ver o que ainda se mo poucos. RUI GAUDÊNCIO D o alto dos seus 89 anos. com 45 minutos. e histórias nagens saem e a promessa da narra. mesmo não tendo som. a reflexão sobre a ilusão atenção aos fenómenos do mundo. discutir o seu artíficio a par. Snow já é o autor de uma gem. filtros. o som é mais Andy Warhol ou Gerard Malanga e. em que chael Snow (Toronto. Vêem-se dois ho. Em 1971. Cineastas como com um ciclo de filmes. a ilusão e o factual. o filme revela o negativo e um de La Région Centrale. cineasta e Québec em movimentos impossíveis excepção de That/Cela/Dat (2000). Nas salas. de uma história. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. em três línguas. mar como artista. Wa. grafia e fixa-se naquilo que ela repre. experiência deci. não lhe faltam. e materiais. mas em cada uma das peças tado. como na peça Piano Sculpture especialmente. gion Centrale (1971) ou Rameau’s Ne. são pertença do Público. o seu La Cham. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. onde tra mulher e liga a rádio. som electrónico e contínuo vai au. mem [Hollis Frampton. e explorados por teóricos e críticos. Seguir-se-ão outras obras fílmicas experimentar com vários suportes metade do século XX encarnou. a vontade de explo. peça de texto. a tos técnicos da actuação. influência que não se esgota no ci. provocou. diálogo entre o espectador e a ima- protesto. Uma moderno. e quem celebrasse. Nesse momento. maquinais. co. A visão. expandindo-se trabalhos com o som e. Por- tadores foram extremadas. 1929) grafia na parede. Neve. culto. imagem. que continua a ser discutido e contar histórias. tanto. parti. neo. Entretanto. Mi. instalada numa máqui. oferece o Yellow Submarine.

tes velocidades Nos filmes. RUI GAUDÊNCIO Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. há coisas muito di- ferentes. o de estarem a tocar piano. mas com a camara vídeo. no meu conhecimento insu- em filme. e um trabalho para uma galeria. Já tinha tentado filmar este fenómeno três horas. ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 7 ... no interior. Mas constitui uma homenagem. Estava a lembrar- me de La Région centrale (1971). Há... Podem não gostar e. Video Fields (2015). enquanto consulta o respectivo disco em vinil. Ainda há efeitos me Sim.. sair. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social.A. vezes possa ser muito divertido. onde construí uma cabana. que existe entre uma exposição e o espectador. no Canadá. serrar. África. nesse Não procuro exposição.. nunca tinha composto pa- que têm que dedicar tempo. em que o espectador se encontra cercado pelos efeitos do é da câmara... Um movimento feito pela Winnipeg Symphony Orchestra en- comendou-me uma peça musical uma grande diferença. parece. Desde os anos 40 que toquei com vêem alterações cromáticas. no qual também se diferentes mediums entre os quais a música. Na verda- Províncias Marítimas. interessado em usar vegetação construir um objecto. minhas experiências gia. Foi uma grande surpresa. mais presente. Fields (2015). Numa sala. gravei músicas. Procuro que as Parece uma edição de world music da Unesco. Solar Breath (Northern Caryatids) (2002) é outro trabalho em que uso camara é mais evidente. Fiz as vozes e de- que acontece uma vez por ano. mas ainda assim é um acor- do completamente diferente daquele subvertê-los. Música usar o som. um auditório.. natureza.. aquelas mãos remetem para os gestos de Nesse movimento. A sala de cinema. um dos seus filmes mais antigos. correu muito bem. separadamente. concen- tração. infeliz- mente. a acção os torna especiais. O mesmo acontece em Back and Forth (1969). S.. é uma boa forma de dizer as coisas. as superfícies da cortina alteram. São fenó- menos atmosféricos que registei nos co a câmara para frente e para trás e para cima e para baixo e em diferen.. as cores. Video Fields também de cada medium” ficiente destas músicas. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. são pertença do Público. China. por outro ra uma orquestra. e que tem esse movimen- to circular e elíptico da câmara. No caso de Wavelenght. envolvi-me em muitos contextos musicais.? Distingo entre o trabalho para uma para descobrir os Mas é um movimento feito pela natureza. em que deslo.A.. con- segui uma excelente performance diferentes velocidades.. mas lado. Trabalhou com vários suportes. mas de um efeito incrível Absolutamente. o movimento é mais importan- te que o som. remeter para coisa feitas pela humanidade. É possível estabelecer um paralelismo com Wavelenght. em Video descobrir o que do mundo que o espectador pode ouvir nos auscultadores Na exposição. com das especificidades pois gravei. e alguma sorte. sabem proporcionam. E aconteceu uma coisa espantosa em Janeiro. todos antecipam o que vão ver. São baseadas. sem sucesso.. a presença da ofereçam algo de. Ges- to que fazemos quando estamos a se. de dobrar de. Um trabalho como The Last LP (1987). bandas. Nesse traba- lho. não há qualquer intenção de satirizar. “Continuo espectador cercado pelos efeitos do vento sobre a martelar. Não se tratou de uma tem- pestade. de novo ao As músicas foram tocadas por mim. Criei os sons de per- o vento. E as gravações parecem ter mui- tas origens. Por outro lado. por exemplo. encontra-se uma descrição dos métodos que utilizei. Video Fields a imagem muda por causa do vento. Para além de caso. com notas de musicolo- vento sobre a vegetação. com espectador a partir cussão e o coro do que parecem ser jovens africanas. presente nesta para um festival. Foi maravilhoso. lida com o movimento. embora por do vento nas cortinas.

E a anos. Dizia que acontecem coisas que são extraordi- queria falar comigo. mas tudo permanece em que a câmara para frente comigo em relação à música e à pin. slides. dos slides. Eles mudam. sons de vozes. to Robert Crumb). pergunto-lhe se poderíamos vê-lo como artista nha obras. tive que lhe dizer que não cobri a BD underground de que fi. uma O seu contributo para o cinema experimental corresponde muito cinema. Stan Brakhage. Aprendi Um trabalho sobre o tempo. mas não com o filme. mos os verões. Há. é uma coisa maravilhosa para mim pensar que os filmes que fiz há comigo em relação que o qual atrai ou envolve 50 anos continuam a ser vistos e co- mentados. a trabalhar a partir modernista. mudou a minha vida.. recebi um considero muito boas e em algumas telefonema de um homem. de ritmos. Ouve-se o som do projec- Back and Forth (1969). São fotografias que Quando voltei ao Canadá. como na meditação. vão trabalhar se completamente.. Cla- é possível fazer. mas cada Muitas pessoas vão trabalhar em projecção mostra sempre a mesma filme porque viram muitos filmes. meus trabalhos e supôs que eu esta. Ele tinha grande apreço referência ao tempo. o seu filme mais aclamado: por a nu a tentativa de fazer algo novo na tra- dição da música gravada. Foi o que aconteceu tor. Procuro me muito contente. Este episódio nárias. estava um pouco aluno muito feliz” medium. Aprendi duchampiana. Recordo-me. e arran. Não dores reúnem obras que consideram dignas de ser pensadas. também se George Dunning. Wavelenght ou E fui um aluno muito feliz. de uma conferência de três dias dedicada a La Région mas não com propósito desta abordagem. sua família. Ando a preparar um grande livro da outra. Tratava-se de Na exposição. No cultural do PÚBLICO? início. a sa boa. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. são pertença do Público. As coisas não são o que parecem. Quando fui para Nova Iorque des. em Paris. a trabalhar uma diferentes mediums para descobrir os efeitos me proporcionam. George Dunning de jornais do dia da inauguração e foi para Inglaterra onde veio a rea. vão poder sentar-se sobre uma pilha uns anos depois. o que é outra os Beatles. disco como se fosse música nova. 8 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . Mas também têm coisas que Sim.. jornal escolhido foi PÚBLICO e Depois. podia ser mais perfeita (risos). Eu não nas uma prancha. E há expo- sições como esta. preocupado. pos- so dizer que fui muito sortudo. mas. tográfica. é difícil encontrar uma de- bora o trabalho também seja bom (risos). ao mesmo tempo. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.. entrevista será publicada neste Fui na companhia da Joyce Wieland suplemento que é o suplemento que era uma excelente cineasta. Em O Som da Neve. Wavelength (1967). mas quei a gostar muito. Isso deixa. contudo. muito cinema. como o das fotografias da velocidades balhar uma imagem atrás da outra. A banda desenha- sabia como me afirmar como artista. há três à música e à pintura.. Foram feitas em Toronto. a partir director de uma companhia cinema. Completamente. a tra. de filmes (de 4 de Março nema. Claro que desco- nheço qual vai ser o futuro das mi. a 10 de Abril) tinha interesse especial na área. Isso não significa que que. na mesma. de máquinas. que na altura era apropria de outro objecto. finição consensual de modernismo. Chegá. Vai ser também a um contributo para a história do cinema. The Last LP. Decidi transferi-la para a projecção balhar com o filme. Não sei. eu não poderia mostrar. pois havia coisas que brar as regras seja sempre uma coi. a desenhar e a pintar. as pessoas mas a empresa acabou por falir e. por enquanto. o estalido. que se poderia considerar Centrale. o que foi maravilhoso. E há um ciclo ria interessado em trabalhar no ci. onde eu e as minhas irmãs passáva- nalmente. também gostava que as pessoas pudessem ouvir este a ser feitas no universo do filme ex- perimental em Nova Iorque viram muitos filmes. Há muitas culturas que estão a desparecer ou transformar- pudemos conhecer gente como Ken Jacobs. For um momento muito importante acompanhar as coisas que estavam em filme porque usando a gravação. mas ao fim de algum tempo come- çámos a mostrar os nossos filmes e “Muitas pessoas Concordo. mas continuo interessado em usar mentado é maravilhoso. Antes de ini- ciar este trabalho. sendo que cada mostra ape- ção. Mas o facto de ser visto e co. Fiz este trabalho em honra dessas culturas. com sobre caixas de vinho. continuava a dar concertos. prancha. e para baixo e em diferentes a trabalhar a partir do interior. Essa peça é ele gostou tanto dos meus desenhos composta por três projectores de que me ofereceu trabalho na anima. Trata-se apenas de ver o que maioria pertencia à minha mãe. elas.. mas descobrir o que os torna especiais. passei um ano e meio numa cidade do norte do Québec na Europa a tocar música e.A. há sons. Uma BD de Robert Crumb que de hoje. Aqui. É um tributo e. Natural. instalou-se em Nova que na data da inauguração esta Iorque. S. ro que têm um significado diferentes Foi com essa atitude que para quem tem uma relação com abordou no filme nos anos 60. Afinal. mos a trabalhar em publicidade. E fui um que as minhas experiências ofere- çam algo de novo ao espectador a partir das especificidades de cada com fotografias que a minha família reuniu. Depois de me formar em Artes podem ser partilhadas. E assim aprendi a tra.. a meditar ao longo dos anos jar um emprego como aquele foi al. imagem atrás procuro subvertê-los. em que os cura.. ocasio. não conhecíamos assim tão Não! Mas nesse caso experiência não bem a cena do cinema underground. Mas. Ora. discutir o seu artíficio reeditado em breve. em. Mr. À volta de 600.A. os projectores vão estar colocados lizar Yellow Submarine (1979). e para trás e para cima tura. pela animação e acho que Yellow Tinha conhecimento que o Submarine é um filme muito bom. um jogo com Bem. enquanto o mundo se transforma. do interior. go fantástico. o filme. Foi o que aconteceu materialidade do suporte. da mostra uma personagem. em Paris. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. em The Last LP um engodo. Jonas Mekas. Ele tinha visto alguns dos podemos ver em #720 (Thanks do corpo. RUI GAUDÊNCIO Há quem veja um sentido trágico nesta obra. o espectador.

por vezes. “Ele quando funciona tudo junto. Depois aproximar-se-á de tempo. as o artista que permitiriam esculturas por um músico. S. focada no trabalho com o som. são pertença do Público. antes de regressar à relação próxima com músicos cidade natal. E m 1967. a música aspecto curioso no seu percurso”. e do qual em Lisboa se vai Steve Reich e de Philip Glass”. a quem a Cultugest dedica O Som da Neve. Desconfiava-se termos públicos. em um músico jazz desde 1948 e nesse Lisboa. Chamemo. A ideia de fazer a sua actividade. por um escultor e. reflecte Delfim Sardo. Em Manhattan. pretende expandir. uma frase que resume a de ritmos. a partir da qual como Paul Bley e a Carla Bley”. os estabelecer um campo. de esculturas Walking Woman ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 9 . e estabelece com uma cinema. “Há um filmes por um músico. mas em preâmbulo biográfico: Michael Nova Iorque. que hoje inaugura. ensaiar no seu atelier em Nova lo artista do seu tempo. o universo de da música do Charlie Parker. o tempo cria ilusões Um artista para o qual arte e a percepção de mundo são fenómenos inseparáveis: eis uma descrição de Michael Snow. nos anos 50. exposição que. o percurso nas artes filmes (de 4 de Março a 10 de visuais seguiu por outros Abril) e uma selecção de trabalhos caminhos.” Será vem para Nova Iorque quer exagerado dizer que todas estas trabalhar com filme. sons (Toronto. Era Neve. do corpo. na Culturgest. mas não lhe período havia no Canadá uma serão estranhas. as Snow iniciou a sua carreira como referências musicais já são outras.A. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. de uma produção que foi e continua Monk”.A. “As minhas exposição surgiu ao longo de pinturas são feitas por um várias conversas entre o curador e realizador de cinema. permite alargar o conhecimento de uma obra tocada pela experiência tempo e das coisas. Michael Snow Em O Som da Neve há sons. Deixe-se aqui este numa digressão à Europa. deste Iorque. 1929) escreveu de vozes. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. E que continua a ser alimentada por um apetite omnívoro. influência de um certo purismo Com a curadoria de Delfim inspirado no [crítico e produtor] Sardo. continuou a trabalhar e a expor conta o curador. músico jazz e fazia pintura quando “Entra pelo be bop e pela música mostrou Wavelenght (1967). filme improvisada. de máquinas. a ser alimentada por um apetite a acompanhar uma banda de jazz omnívoro. em Hugues Panassié. mais tarde pelo free- incontornável na história do jazz. Snow chega. mas chega proposições se aplicam a O Som da com um passado na música. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. Na experiência dos sons e das imagens. nos anos 60. “Eles chegam a com a mesma atitude. poder acompanhar um ciclo de Paralelo. mostra que explora um dos elementos pintura e destaca-se com a série centrais na sua arte.

com dois monitores e um muito significativa” (risos). E ele tenta em movimento e pode ir da supressão da imagem à supressão uma interpretação: “É um trabalho sobre a circularidade do música é espacializada como escultora sonora. articula-se como assuntos sérios. história Snow respondeu que era tudo entrevista [ao crítico e cineasta] abre”. Três indignadíssima. Lemos aparecimento dos compact discs e o declínio dos vinis. Este cineasta. estas dicotomias foram-se relação com o que se vê. Isso acrescenta uma tem o título The Last LP e cuja música pode ser escutada na produção da obra de arte que é estruturante no seu trabalho na e do modo como ela distintas tem um paralelismo também na maneira como usa o camada muito interessante. em Toronto). recebido”. por fim. foi. E. mas faz peças sonoras que não de acordo com um som muito intuído. um campos de trabalho e é o campo que os visitantes se podem sentar mundo da ficção. um dos primeiros espectadores de to Robert Crumb). EUA (assumida. com a sua finitude. contribui para som.. uma atenção fenomenológica à em movimento relação entre som e imagem. interior do filme enquanto Noutra instalação. em que a “O cinema leva-o com o mundo e o contexto. Michael som discretíssimo. como a auditiva. que é uma mergulhar dentro da história de quer experimentar. Esse juntar de duas circunstâncias mais comprida surge mais pequena. Não objecto. questionamento da ficcionalidade pensarmos na alusão a um certo trabalho. quando se anunciava o música. há um cinema experimental. transforma completamente o sentido. Assim. vezes desconcertante. A percepção do que se ouve. aliás. Esse será um dos seus vinho (solicitadas pelo artista) e constrói a diegese”. acrescenta o curador. sobre os suportes. Uma acuidade. O suas costas. A afinidade com o campos de trabalho que o seu trabalho foi crescendo. “Foi realizado em 1987.. ouve-se. momento imagens técnicas e que os sentidos porém. o fenomenologia da percepção. pois está escritas em três línguas. E o vinho. entre a imagem e o som. é como se fosse o deve ser entendida no nexo com as vanguardas. “Sem dúvida. inglês. na exposição. que se define o mote da acontecimentos. se desenrolam nas (2005) onde o som do vento sobre representar para possa voltar a começa a sentir como evidente. no Palais des Beaux-Arts. Por outro lado. Ou seja. humor. entretanto. a que Snow é claramente deserto enquanto vários Outra peça que leva o pelo mundo do que pensar ou sensível. entre os quais o espectador à experiência do tentar perceber a maneira exacta exposição. 1974 pelo mundo e é isso que lhe efectiva entre o som e a imagem personagem volta a abrir os olhos. é um aspecto que estrutura toda a mas o curador sublinha que há também um lado trágico. Ou seja. (1961-1967). Numa afirma que é uma nova era que se Natural’s 719th Meditation. Trata-se de #720 (Thanks artístico. está do campo artístico e dos ambiente dada. E isso está muito patente. E o seu trabalho não se esgota aqui”. Mekas projecções de slides mostram Mr dito que era tudo mentira. são pertença do Público. sabemos se isso fica numa zona muito específicas. Ele vem 2000. no filme. Ela faz-se a partir da relação entre o som e a imagem sobre pilhas de cópias do PÚBLICO. Esse pertencem ao universo da produção musical. “Há também a metáfora O facto de ninguém universos mais amplos da criação artística. será um dos seus a partir das artes visuais. uma técnica canónica. mas com uma atenção ao debate sobre a ecrã que obedece a uma regra. na interpretou e gravou as músicas”. mas não sabe minutos. sem esquecer a ilusório e factual. na peça senhora adorou. galeria. na qual verdade. são adaptadas finitude dos seres humanos e o desaparecimento das coisas que ser deceptivo. Há quem considere há nenhuma preocupação em película. sem som”. Em contraponto. “No artista pela BD underground dos e puseram o disco a tocar.. voltar da arte para a sua relação desta exposição.A. Sardo interrompe-se. um medium. deixa-nos a interesse num artista como em movimento e do modo como Refira-se que os projectores estão pensar sobre o ponto de tensão Cezanne. é a reflexão da descrença. como uma borbulha vem de Marcel Duchamp”. numa sala às profunda. “Há que começa a sentir EUA. em alguns tópicos e Jonas Mekas”. deixando ao visitante interrogações sobre aquilo que é evocação efectiva de uma finitude radical. em e maturação. sobre o espaço físico onde as imagens se revelam. questão da diegese.”. recebido como um artista dos artistas. na materialidade da (1974). Shirley Clarke ou George Kuchar. esta ambiguidade familiar. “O cinema leva-o a nascimento e a destruição de uma engano é instalação Video Fields como o podemos percepcionar ou equacionar um problema que metrópole. Até que o mundo a vegetação não é o que parece. Delfim Sardo propõe Delfim Sardo destaca ainda duas obras: Piano Sculpture. uma ligação. Tem a ver com essa relatividade absoluta entre a (Northern Caryatids). E o da composição. vem de uma das palavras. outra eles produzem. No outro dia. na fotografia. muito precisas. francês e flamengo. atenção a determinada descrença. permanece. pode ser visto aí.M. no processo fílmico. num improviso. qualidades da obra de Snow: o produção da credibilidade do enforma”. Uma elementos da exposição: “a meio do cinema experimental. se que valorizarão muito o seu próprio corpo. “Não capacidade de encontrar soluções que lhe desperta o interesse no apreendem. “Há. realizada para o topo do disco e descobriu o engodo. continua a exercer uma influência importante e decisiva nos viu pela primeira vez em Bruxelas. As palavras grandes ou pequenas. curta de três pranchas. Michael Snow exposição é a instalação That/ Cela/Dat (2000) que Delfim Sardo esta fosse uma borbulha no tempo. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. um assobio de 22 que é trágica. É uma questão de respeito facto de ninguém falar da relação volta a ser um deserto e a “De novo. o humor. na pintura”. de concerto. ele reequaciona a Rameau’s Nephew. 10 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . “Ele escuras. em que as imagens muito recolhas de etnomusicologia. Ironia da finitude tempo. Há pessoas sua respiração. uma ela contribui para a suspensão da colocados sobre caixas de bom que. Audience. E o que acho fantástico é que à medida em parecem sussurradas. “são falsas. que na minha opinião como evidente. Outra linha de trabalho é o mecanismo do engodo que pode entre o som especificidade do medium cinematográfico. a palavra ‘je’ aparece enorme. “uma modernismo aclara-se neste e noutros domínios. E recorda uma história O curador regressa. por do quadro como janela. seja visual ou falar da relação das artes visuais. também. e Solar Breath a equacionar sempre produzir essa relação com o mundo e contexto”. como Gene Youngblood a assobiar”. trabalha o som pequenas parecem gritadas e em que as imagens muito longas antes de revelar. Por um lado. como a janela. o total desinteresse por passagem por um estúdio de realidade que é dada pelas um fim de um período” A dúvida. sobre a tecnológica que arrasta consigo utilizados. com e é o campo cruzando. com a sua data tópicos que são recorrentes. mas. Ouve-se a Para Sardo. Ele tem a animação no Canadá. peça raramente contada por Michael Snow: “Ele ao vídeo da cortina que considera Wavelenght e até hoje um dos seus vista e que assinala o gosto do estava em casa em de uns amigos concentrar alguns dos principais mais famosos entusiastas. “Trata-se de uma peça de textos. que se manifesta nos filmes.. do som”. A ironia e a decepção é evidente. Na obra de Snow. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. comenta. pequeno filme que se descreve o efeito um problema Embora sem a mesma circulação dos seus pares dos A porta de entrada para a meditação da personagem e a história da humanidade como se sonoro e visual do vento sobre uma cortina de uma janela.. essa Michael Snow será efusivamente escultórica de arte pública The mesma senhora foi comprar o ligação fenomenológica ao real. que aquela música era da Bruce Elder. Outro traço recorrente. mas não é isso que na companhia de Ken Jacobs. É isso que lhe interessa. a suspensão da incredulidade. sobre as propriedades dos materiais. W in the D de ironia ou numa zona mais que lhe servem um propósito. Michael Snow diz que É entre os filmes e a dimensão uma personagem medita no sua autoria”. não lhe tinham da situação com um trabalho de muito além do Godard. Ficou uma espécie de impressionismo “Gene Youngblood diz que vai Rogers Center. com uma grande exposição. embora ela seja que existe uma coisa chamada assobia. seja cultural ou efeito. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. a piscadela de olho. o trabalho que introduz uma das mecanismos fenomenológicos da surrealista. J. é músico de jazz.. Ouvimos Depois do modernismo a suspensão tradição especifica da música. foi ele que compôs. S.A. não pode haver maior respeito sonora. o jogo das palavras que são muito e a imagem exatamente à procura da construção da diegese a partir da às áreas dos ecrãs. “É o próprio artista que evocação da morte”. A multiplicidade de suportes desta exposição” frescura. Outro trabalho exposto é um disco em vinil que duchampianos. existir. A diferença do tamanho da imagem.

alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. . são pertença do Público. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S.A. S.A. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados.

embora não 12 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . to’. por exemplo. sublinha a directo- sucesso. vai mos. Estes dois artistas pen- tualidade na feira de arte contem. “Algumas não são pe- Pavilion for Showing Rock Videos ças musicais ou sonoras. seja através da música ck ou mesmo punk rock — o artista ou do som representado de uma norte-americano é um fã. Isabel Salema A megagaleria A obra que domina o stand longa tradição de trabalhar com mu- da galeria suíça Hauser & lheres artistas”. vistos dançando foram julgados lou- sado e voltamos agora. [1901-1986]. As de Melotti. “Fizemos a feira no ano pas. mas trabalhos continuam a ter um elo este foi pensado para ouvir e ver ro. saram em música e fizeram escul- porânea espanhola. que abre ao turas. quiseram “abrir um bo- instalado em permanência nos jar. O ano passa. Os direitos de propriedade intelectual de todos Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser co A suíça Hauser & Wirth. explicou Susie Guz- Wirth na ArcoMadrid é um man. que os une. uma das 200 galerias presentes na ArcoMadrid. ou de Fausto Melotti das mais relevantes galerias da ac. directora da galeria em Nova pavilhão de Dan Graham. público nesta sexta-feira. malista daquele que podemos ver Este ano. cos por aqueles que não podiam do quisemos apresentar um stand escutar música” —. cadinho o conceito”. Lygia Pape ou Pipilotti como as esculturas de David Smith parece Rist. forma visual. são interpretações visuais da estru- trar trabalhos que têm uma relação tura musical chamada ‘contrapon- com a música. mas todos os que mais dins do Museu de Serralves. numa conversa ao telefone Não é muito diferente em com o Ípsilon antes de a feira come- tamanho e aspecto mini. depois de popular atribui ao filósofo alemão uma experiência toca e foge em Nietzsche — “E aqueles que foram 2009. Foi um grande falsa atribuição. mas todas está ao lado de obras de Louise as peças têm algum tipo de relação.” Esta é a segunda vez que a galeria Falta ainda a frase que a cultura um museu suíça vem à ArcoMadrid. mas também sobre a história recente de uma das mais relevantes galerias actuais. Iorque. çar. tem agitado o mundo das artes plásticas nos últimos anos. Bourgeois. porque a galeria tem uma ra da Hauser & Wirth. porque este ano o stand de uma [1906-1965]. Falámos com a directora do espaço de Nova Iorque sobre a feira de Madrid. mas que é uma todo de mulheres.

Da Argentina temos estão na Ásia —. Mira Schendel e Anna rias Gagosian e David Zwirner. E tam- lidação do seu império global no mercado da arte. americano Mark Bradford. nadores norte-americanos. presentou os Estados Unidos na Como a feira é em Espanha. uma vez que a galeria também o mexicano de origem ale. cujo traba. se olharmos mais de perto. a versão asiática da espanhol. agora. Na semana em que abre a Art Ba- pela gestão do espólio do escultor lho vão igualmente mostrar em Ma. mas é sem dúvida Chillida. a galeria chegou drid. coisas que entram em linha de con. feita com vidro com todo um estilo têm som real. consegue combinar frase seria interessante. A galeria vai. a mais relevante feira de arte contem- a acordo com os filhos do artista América Latina é sempre “um as. explica Susie ra edição na capital portuguesa. ficamente do Brasil representamos tes mais próximas. já no próximo mês. encerrado nhóis ou portugueses. HAUSER & WIRTH LOS ANGELES. Público – Comunicação Social. É a mesma coisa com este tra- balhos — se olharmos para eles. lembrando que recentemente a organização da Ar- uma jogada tão surpreendente co- mo a contratação no último ano Uma escultura do artista norte- novos artistas cos. outro assunto de conver. a feira que em Maio terá a sua tercei- de Randy Kennedy. como Lurra M-35 (Home.A. sel Hong Kong. a Hauser & Wir- falecido em 2002 para reabrir. Público. Como explica a directora. porque há obviamente um duplo sentido. também Lygia Pape. da série Venice Fog. juntar a Chi- ta quando pensam nos artistas e nas de um novo espaço em Hong Kong. Nova expansão última Bienal de Veneza com uma ticularmente forte nas suas relações Este ano. incluindo a própria produção artística O que a Hauser & Wirth traz de especial ao negócio de coleccionar arte. ficou responsável desde Novembro mã Stefan Brüggemann. como as gale- No stand de Madrid. é que deixe de ser uma frase muito atra- ente. Fake news? “Pensámos que a obras que apresentam. igualmente espectacular. S. Susie Guz. sa para quem visitar o stand da elogiadas entre os pavilhões nacio- man reconhece que essa é uma das Hauser & Wirth em Madrid poderá nais. Aliás. “Acho que é muito importante. par. não co passou a fazer a ArcoLisboa. um dos mais conhecidos jornalistas na área das americano Larry Bell. porânea do mundo. que re- desde 2010. Os se tentou estabelecer como uma ponte com a América Latina. “Claro que representamos vários artistas latino-americanos. ain. especi- arte plásticas do New York Times para tratar das publicações da ga- leria — uma vez que as concorren- laminado de vida actual MARIO DE LOPEZ Guzman. na aos seis espaços que já tem ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 13 . sunto de conversa” com os coleccio. espa. 2016 A inauguração do enorme espaço no Arts District de Los Angeles foi visto como sintoma da reconfiguração das relações entre o mercado das galerias e as instituições museológicas. Madrid sempre porque a galeria suíça se prepara para dar mais um passo na conso. Talvez não seja faro para descobrir que não ouvem a música pensam que aqueles que dançam são malu- bém com Portugal”. já não faltam peças de Eduardo Maria Maiolino. explica a ArtReview a propósito da lista que todos os anos publica sobre as pessoas mais famosas do mundo da arte.” Representam feita com a pontaria habitual e naje a Bach). o Parque-museu Chilli. seremos capazes de ver a música ou o som”. mas. ser a abertura. Guillermo Kuitca. th vai inaugurar um espaço com da este ano. uma exposição do artista norte- da-Leku no País Basco. das intervenções mais discutidas e com a América Latina.

fará de- como um sintoma da reconfigura. “Seguimos cami- nhos separados”. O catálogo da exposição “primo- apontando a inauguração do enor. Help me (2016). S. e de a exposição ser “tão bem pen- temporary Art (MoCA) de Los Ange. Como sublinhou o Los Angeles Ti- tiva de fazer a quadratura do círcu. Paul Schimmel. O nosso objecti- vo é sempre fazer a melhor exposi- ção. uma obra do le “um documento importante” ção das relações entre o mercado artista Pipilotti Rist para quem no futuro vier estudar a contribuição das artistas mulheres STEFANIE KEENAN/GETTY IMAGES FOR CALARTS para a reconfiguração da escultura abstracta no pós-guerra. operação. se mas que o que impressionava em passou a chamar Hauser Wirth & Los Angeles era o “gigantismo” da Schimmel na Califórnia. Entretanto. cas nos últimos anos. com texto e pesqui- sa. foi objec. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. leria”. do Museum que. além de direc. a Hauser & Wirth abriu um es. A sua am. Algumas vezes os museus dizem que sim. sada e provocadora”. Nova Iorque das galerias e as instituições mu- (dois). em jogadas colocando lado a lado obras histó- audaciosas que questionam as fron. afirma a directora: O casal suíço Iwan e Manuela Wirth aparece regularmente no topo das listas das pessoas mais influentes do mundo da arte 14 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . Angeles Times. seológicas. sublinhando que outras gale- lucrativas para o mundo dos milhões rias já tinham feito exposições com de euros da indústria das artes plás. aquilo que faz. do agitar o mundo das artes plásti. empréstimos de museus (algo mais ticas. é maior do que o New do Institute of Contemporary Art Museum de Nova Iorque. Sculpture by Women (1947-2016). nós claro que vamos nessa direcção. Subodh Gupta no espaço da (comercial) são diferentes. apoiada por estudiosos. “A Hau- tor do novo espaço na Califórnia. na Polónia. Juntamente com a historiadora Nas mãos do casal suíço Iwan e de arte Jenni Sorkin. comum no EUA do que na Europa). Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. ou- tras vezes que não. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. é rara esta passa. mel concebeu a impressionante recem regularmente no topo das exposição inaugural. escre- Angeles (muito elogiado e a que veram especialistas como a brasilei- não faltou a nata de Hollywood) ra Ana Magalhães na Select. Paul Schimmel saiu da galeria e a Hauser & Wirth voltou ao nome original. to de várias reportagens e artigos. na ser Wirth & Schimmel aposta em como com o caso do jornalista do região de Somerset actualizar a definição de uma ga- New York Times. Se isso resulta no pedido de um empréstimo a um museu. Paul Schim- Manuela Wirth — os donos que apa. colecções privadas e Há dois anos. Tal Hauser & Wirth em Bruton. roso”. sob o título listas das pessoas mais influentes do Revolution in the Making: Abstract mundo da arte — a galeria tem sabi. BY MATT CARDY/GETTY IMAGES FOR HAUSER & WIRTH em Los Angeles. titulava outro artigo do jor- gem do lado das instituições não nal. rios museus.” Como os museus ou qualquer agente da indústria da arte. com 100 trabalhos de 34 artistas. tendo dos. Só 20% dos para a costa oeste dos Estados Uni. ricas com trabalhos contemporâ- teiras entre o lado mais comercial neos de nomes já consagrados e das galerias e o mais institucional e conseguindo empréstimos de vá- não lucrativo dos museus. incluindo a própria que. são pertença do Público. tornando-o só. mes. trabalhos estava à venda. Susie Guzman tam- bém não elabora muito sobre a op- ção de fazer exposições com em- préstimos numa aproximação ao conceito de galeria-museu: “Para nós trata-se de fazer a melhor expo- sição e contar uma história real. na sua expansão espólios de artistas. chegado empréstimos do MoCA. apesar de ninguém parecer lo: a Hauser & Wirth contratou o muito preocupado com o assunto curador chefe do Museum of Con. ba- seada na história de arte. Nacional de Varsóvia. Uma obra do artista indiano museus (educação) e a das galerias cio e vice-presidente. rebaptizada. a galeria está sempre a pensar. diz a directora ao Ípsilon sem mais comentários. onde a casa-mãe nasceu em produção artística.A. como escreveu na época o Los of Contemporary Art de Chicago. paço com 10 mil metros quadrados. do Whitney Museum. eco- ando o lacónico comunicado de im- prensa de exactamente há um ano sobre a ruptura. gagaleria foi vista como uma tenta. Londres. Somerset e Zuri.A. que. com ensaios encomendados me espaço no Arts District de Los a académicos reconhecidos. a missão dos GENEVIEVE HANSON/CORTESIA DO ARTISTA E DA HAUSER & WIRTH les. A galeria. ou a repensar. de Boston ou mesmo do Museu bição em afirmar-se como uma me. 1992.

sentar trabalhos de grande formato.” Um estilo de vida ções dos artistas da galeria. Paul McCarthy. Em Los Angeles. que nos últimos 20 anos re- fazer residências artísticas.A. directora da galeria substitui o país convidado. Faz artistas nacionais como Pedro set. anunciaram. Pedro Estorninho Alberto TeCA · até 3 mar · qui+sex 21:00 sáb 19:00 estreia TNSJ · 22-25 mar · qui-sex 21:00 sáb 19:00 dom 16:00 Mosteiro TNSJ · 16 mar · sex 21:00 São Bento A Longa Noite Nathan.pt dobra M/3 anos ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 15 . são pertença do Público.A. que não tem saído dos lugares cimeiros nos últi- ligados à conservação da paisagem.tnsj. Temos boas relações com os museus e. como com coleccionadores. “Ele traz um grande saber de. a galeria propôs- proximidades da pacata cidade de Bruton. João Martins de Gustavo Romanoff Salvini Carlos M/12 anos coprodução Visões Úteis. o centro cultural atrai mais de 150 mil visitantes às muito importante para a galeria. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. tem uma casa de hóspedes. capaz de encontrar mais formas de cujo trabalho será exibido por espaço também é um complexo cul. ainda não se sabe se a revista vai retomar o e pesquisa. depois de a publicação. nascido em 1971. dizem que sim. também Jason Rho. Há dois tural que.” O espaço parte da nossa visão estratégica ser Neves Marques e Hugo Canoilas. também noutras instituições. Ana Vieira (1940-2016). É uma actividade em crescimento na empresa e a que vamos nessa Na secção especial Opening. Bruno Múrias e Vera Cortês. como no Museu Rai. está a refazer a estratégia uma história real. “Já temos dois espaços em Nova Iorque que abrimos em 2009. mas embora se encontrem nomes de muito britânico condado de Somer. estamos a trabalhar na nova revis- ta. que se instalaram perto com a família numa grande proprie- Com a nova direcção. que construir uma exposição. com o de Nuno a pôr os habitantes de Los Angeles a andar a pé (há uma fonte própria Angeles. Tânia Valente. Sousa Vieira. TNSJ com Alexandra Bernardo.” estudiosos. Nós de arte. como um mural de Guillermo Kuitca ou pois de ter trabalhado durante tan- to tempo no New York Times. Susie Guzman disse ao Ípsilon que a expectativa é sempre conhecer novos clientes. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. outras seleccionada a Galeria Graça Brandão. S. explicou Iwan Wirth numa ano. em vez dos 40 mil inicial- últimos 20 anos. Já na secção Diálogos. além de restaurante e bar. Mas o ensaio para Los Angeles foi LA parecia uma coisa natural para nós. apoiada por de 29 países. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. expor os nossos artistas. 160 das quais foram escolhidas para o O que a Hauser & Wirth traz de espe- uma instalação vídeo de Pipilotti Rist. a galeria que abriram em 2014 no da costa oeste. M/12 anos Bernardo Marques. Quadrado Azul e Nuno Centeno e Pedro Oliveira. directores de museus e curadores. foi cidade. Rui Martins texto e encenação Pedro Estorninho produção Companhia de Teatro de Almada coprodução TEatroensaio. como escre- revista faz parte disso. algumas em Espanha. é que o casal. onde já estava direcção. que vai sair em breve. Se isso constam desse sector principal 11 galerias: as lisboetas 3+1. de fazer a melhor ção só de mulheres pareceu-nos uma coisa lógica na perspectiva da galeria. e várias interven- editorial da galeria em papel e na web. onde os artistas podem Wirth ou mesmo noutros espaços.” galerias de outros países. lista que todos os anos publica sobre as pessoas mais famosas do mundo dade. não há nenhuma galeria portuguesa. uma zona rural situada a pouco ades ou Richard Jackson. baseada na história abre ao público hoje. Fizemos mais de 100 catálogos nos um museu. Filomena Soares. a curiosidade já fez subir o preço das propriedades em na altura desta entrevista feita há uma semana. Por ano. Ao todo. ter sido interrompida em 2015. dedicada às galerias mais novas. “Para nós este tipo de exposição le- va muito tempo a planear. se como um Kunsthalle. TNSJ M/12 anos M/12 anos TeCA · 7-11 mar qua-sex 10:00+15:00 sáb 19:00 dom 16:00 Óscar texto e encenação João Paulo Seara Cardoso produção Teatro de Marionetas do Porto www. também abriu uma livraria es- pecializada em arte. ao rias. que cruza o trabalho de galeria). apoiam as escolas locais com aulas de Arte. que este ano para cães). um restauran- te. porque temos muitos artistas sos artistas em vários locais. a Durs- que talvez sejam difíceis de apre- sentar noutros locais da Hauser & “Para nós trata-se 15 galerias anos abrir em LA com uma exposi. com dois números por resulta no pedido Baginski. Há um jardim contemporâneo assinado por Piet Oudolf.” Voltando a Madrid. com texto programa geral pelo comité organizador. que planta no local os ver- des que consome. “O departamento editorial é de um empréstimo a Pagès. o jornalista que exposição e contar portuguesas presenta muitas mulheres. a primeira da veu o Telegraph. Algumas estão mais três galerias portuguesas: Francisco Fino. De Portugal cial ao negócio de coleccionar arte. O de Los Angeles permite-lhes apre. as portuenses Pedro mos anos. queremos fazer a melhor pesquisa e a melhor tecto paisagista que fez o High Line em Nova Iorque. mais de duas horas de Londres. mas que também está disponível para alugar como uma casa de campo para fé- Uma nova revista Randy Kennedy. e prometeu voltar estavam muito contentes com os resultados da galeria-museu de Los lidar relações existentes. Caroline da arte. nha Sofia ou no Guggenheim. todo um estilo de vida actual. Entre colecciona- dores e celebridades. mas também com vezes que não” um nome histórico. consegue combinar faro para descobrir novos artistas com entrevista recente. na ArcoMadrid. O Sábio recital Serões de Camilo da Vitória de Camilo de Gotthold Ephraim Lessing encenação Rodrigo Francisco com Sara Braga Simões. estarão na capital espanhola 208 galerias abordagem académica também. ído. Susie Guzman. “Temos muitas exposições dos nos. além de vários grupos nome antigo. Março 2018 TNSJ · até 11 mar TeCA · 16-18 mar · sex 21:00 sáb 19:00 dom 16:00 TeCA · 3 mar · sáb 16:00 Teatro qua+sáb 19:00 qui+sex 21:00 dom 16:00 estreia concerto Nacional Cancioneiro São João Macbeth Velocidade Musical de William Shakespeare de Escape Português Teatro encenação Nuno Carinhas produção TNSJ criação e direção Ana Vitorino. explica a ArtReview a propósito da Os Wirth. como Mark Braford. o Manuela (o nome da dona da 6%. o arqui- faz parte da equipa da galeria há um ano. um centro de arte com serviço educativo inclu- mente previstos. Susie Guzman diz que vezes os museus Madragoa e Pedro Alfacinha. Volume. Carlos Costa. lade Farm. estabelecer e conso. Cristina Guerra. nós claro Cera. Na secção Futuro.

A. obra recente aqui mostrada. Sófocles e Eurípides. S. Arqueólogo Os desenhos de Vasco Araújo. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. volvido uma relação constante com dação Carmona e Costa in. “Isto não são apenas tórica. Ésquilo. um ví. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. através da construção his- nho. Vasco Araújo. Ou melhor. na banda áudio. são pertença do Público. com cenas mitológicas ou referentes grande narrativa composta por ex. o título da exposição. A primeira série mostrada Histórias. e é a nossa história pessoal. o artista tem desen- percurso pelas salas da Fun. as histórias dos gregos: é a nossa his. Não há outra história senão esta. Sem memória. onde objectos títulos. Paralelamen- séries que encontramos no cias filmadas na sala das cerâmicas parece interrogar a imagem? Na re. às grandes narrativas homéricas — certos de todas as peças gregas de Quem diz história.” crita. aquilo a que assistimos e tória. na exposição. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. O que vemos. diz sado que. a verbalidade através da palavra es- terrogam nitidamente os li. diz narrativa e vel dos fundamentos da civilização da. gregas do British Museum. são eles próprios um reflexo daquilo que o apaixona: os modos de construção da memória da memória histórica. doscópio de reflexos. te às imagens. é também o título da única no da sala do museu. e contudo algumas das deo onde a imagem reúne sequên. sem atribuições de autor: que serve de mnemónica a um pas. uma narrativa ocidental. é a uma dental. Luísa Soares de Oliveira T rata-se unicamente de dese. que tantas vezes extravasam a definição tradicional desta disciplina.A. O amante. e com a interrogação infindá- mites desta disciplina. parte do pormenor — tantas vezes ouvimos. e vitrines se confundem num calei. Logo à parti. se faz presente. Todas as para concluir com um grande pla. retoma o 16 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . a câmara alidade. que dá forma ao mundo oci. “Era isso que me interessava”.

Até 17 de Março. o móvel sobre o qual está disposto o objecto e o próprio ob- jecto. R. ocupação do lugar. tens que te atirar e restaurados. É sobre o modo sucessivas da memória. como um explica. feita de ouro. que Até o museu de história natural é so. e por isso ela ficava logo ali es- gotada. pergunta Vasco Araújo? Pro. vêm dos Fragmentos de um discurso amoroso. nº 1. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. duplicando aqui a atitude do ideia do horror à mudança. essa cheio de cacos — alguns já parcial- mente reconstituídos —. “a um armazém gigantesco. imagens.” A pergunta que lhe surgiu imediata- se regista” nem cabeça. Imaginemos que a peça não histórias de Vasco Araújo são tam- bém uma história do desenho. Fundação Carmona e Costa.A. onde esteve a aju- dar a restaurar cerâmicas encontra. que data de 2004. e acopla frases re. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. algumas delas. a memória das se tinha partido. Se rado ou negro de objectos partidos no fundo o que os testemunhos são. Vasco Araújo quiseres mudar. estamos nós próprios. estas das no local. ca é simplesmente uma coisa tridi- quem teria usado aqueles objectos: Uma terceira série incluída na expo. O nome da série. funda. e como o livro conta uma história complexa sobre a diferença entre o amor erótico e o amor do coleccio- nador pela sua colecção. mensional. antes de reflectir de novo por outro lado. Mas. Mas. o desenho cien- cializadas na Europa pela Companhia sempre que ter um objecto para su. quase abstractas. tífico e prospectivo (Gold leaf). “Sontag acha que o tipo de desejo que se tem por um objecto não é o mesmo que se tem por uma pessoa. tarem o espaço de um castanho es- de Susan Sontag. tanto ou mais que o resul- ossos também desaparecem. são pertença do Público. escolher pôr quadros no chão revolução industrial. Não são os ossos. importa o de uma pessoa. Um objecto que nun- mente foi sobre a identidade de Nesse tudo. S. Como é que seriam? Pode- mos lá projectar tudo. tendo o artista e o turas”. encontra- mesmo andar que a sala de exposi. mas um suporte da me- “Quem é que viveu com aquilo? Aqui. o de- das Índias Ocidentais. tivéssemos a entrar dentro da casa zados segundo a técnica habitual nos de um coleccionador. esteve na primeira exposição que Araújo NUNO FERREIRA SANTOS realizou na Galeria Filomena Soares.” ção para chegar à camada mais pro. nesta sua viagem pelos me- o históriador: “Quando guardamos os desenhos em esculturas a sua forma. A montagem é transformar os desenhos em escul- está excelente. que é o coleccionador. por outro modelos para artesãos anteriores á lado. “É basicamente como se es- mobiliário e objectos de arte reali. family no museu da fundação. Não senho do puro delírio imaginativo há uma história para contar. A peça. disciplina que é pensamento no es- paço para todo o escultor digno des- lutamente fascinado! Eram escultu- ras. que é artista. modelo já conhecido. mmmmm Todas as Histórias De Vasco Araújo LISBOA. quadros no chão é transformar uma ilha. tem um prolongamento numa Green bre o ser humano. No total da exposição. E mesmo aí terá técnico (O Amante). o artista desenhou peças que reproduzem três lugares: a cadeira do coleccio- nador. Ínsula. Também aqui portar a sua síntese histórica. o respigador. refere-se obvia. como é que Porque é que a Vitória de Samotrácia é tão fascinante? Não tem braços se nome. lo é o resto de uma família. optado por pin. interessa-lhe (Ínsula) e o desenho de modelo em Araújo fez há anos uma residência no sítio arqueológico da casa de Ge. Isto é destinatário final do seu trabalho. Soeiro Pereira Gomes. Vasco Araújo tem formação de escultor. porque traduz a tais. Desenho NUNO FERREIRA SANTOS título do livro O amante do vulcão. “O que significa adorá- vel?”. De 4ª a sábado. nesta mesma série. os É como se estivéssemos ilhas imaginárias encontradas em processo. ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 17 . de 2010. como arqueólogo que realiza uma prospec. nos relacionamos com a natureza. sição. a ideia de como jecto possui: “Ir à procura da pessoa que fez a peça é fazer a biografia da nalidade é completamente desco- nhecido. Vasco Araújo con. mas como se desconhecia conclui. “Gosto desta Numa segunda sala. mostra papéis mória do mundo em que vivemos. de que family mostra desenhos feitos a dou. tado final: “Gosto de explorar a ideia cacos. claro”. Pedro Faro.” Outras frases. os cacos é o que dura mais de um coleccionador. o que decerto ajuda a porque às vezes nem se percebia que objecto é que aquilo tinha sido. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. afirma o artista. curo. alguma coisa não é só porque ela é O artista é um coleccionador de tava-se obviamente segundo um vavelmente nunca se saberá. e incidem sobre a definição de adorável. fiquei abso. mas porque é um tes. São os a entrar dentro da casa mapas medievais. quer mergulhar a fundo nas camadas ao mar! A ilha é psicológica. nessa época se sabia por ve. é um mistério extraor- dinário. segundo a forma de Para ele. sobre o coleccionador.” compreender o seu fascíno pelo ob- jecto de que toda a exposição dá também conta. aquela que marca a primeira quatro tipos de desenho: o desenho mente às porcelanas chinesas comer. explica. no como nós vemos a natureza. De certa maneira. a ilha é o paradigma máximo. andros da paixão pela arte. de como é que se trata a memória tempo”. coisas. escolher pôr zes que em algum lugar existiria das coisas. mesmo que apenas men. mos assim a referência e a citação a ções temporárias. Uma peça partida tem uma aura que a inteira não tem. “Quando cheguei lá”. Vasco lhe interessa o autor. a série Gold temunho histórico. e encostado alguns quadros à tiradas deste texto com desenhos de parede. é o resto recortados. ta que. de Roland Bar- thes. inventava-se — e inven. “Gosto de explorar sim pesquisar os modos de resistên- cia à passagem do tempo que o ob- Todas as Histórias — visto que na Grécia clássica o conceito de origi- orge Washington. 6º. das 15h às 20h. mentalidade do ser humano. como é que se regista”. curador.A. é que se trata peça.

cele- brada com a espectacularidade de religioso na um país que soube transformar tudo fundação dos em entretenimento e é hoje liderado é um campo por um produto claro dessa cultura. de batalha servem para nos anunciar a peça e logo a seguir reorganizam-se nas Gonçalo mãos do elenco feminino para for- mar a palavra “marching bands”. mais recente eleva a linguagem espectáculo do exímio provocador a personagem encenador italiano Romeo Castelluc- ci — em cena no Teatro São Luiz. em glória e mistifica- de Tocqueville. trajes com a pompa de outros in America. tempos. entre 23 e 25 de Fevereiro —. um dos criadores Para mais reputados do teatro europeu. Romeo Castellucci. como se assistísse- mos a uma parada do 4 de A partir do livro Julho. traz ao Teatro São Castellucci Luiz Democracy C omeça com marchas. Mas os 18 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 Frota anagramas continuam até nos mos- trar outras combinações possíveis . boa. ção dos Pais Fundadores e a linguagem da invenção dos Estados Unidos da o italiano reflecte América como a maior nação do mundo. Lis- principal. Estados Unidos e As letras que compõem o título De- mocracy in America. é a isso que estamos a assistir. Uma parada-espelho do or- sobre o peso gulho imenso na sua História. Sim.

ri-se. reconhece Castellucci. Velho Testamento compara-a ainda dência . te com o marido a justiça de Deus. Com a diferença de “Na América é o oposto completo rio directo sobre a actualidade. leis e domina. (o dramaturgo mais democrático). a relação com o deserto. meiro acto da democracia grega pro. ocupado com gentes. A raiz do “As últimas eleições são uma coinci. discu. com a contribuição de Eurípides aquele fosse. paradoxo triste pior. O que importa são como a democracia americana está fundada. a vêem obrigados dentro das mesmas famílias. em que os bebés nas- cem já banhados. porque sente. “porque quer regressar às ra. nascido de gestação espon. Pouco importa. “Foi através da linguagem que os oci.” Ou. É talvez para se poderem de certa maneira. Não falo do Evan- gelho. é apenas estabelecer uma comu- nicação que obrigue os índios a dizer Antes de mais. e que desaguou “As palavras deles não dizem as nossas coisas”. GUIDO MENCARI dra. blues. e a eu- do pelo facto de. gem é um campo de batalha. parte desta nova sociedade. pedra colocada sobre pe. um passo mais na submissão e opres. falando daquele que. de acordo com Tocqueville. “E não é uma dádiva de Deus. nómicos que via nas pessoas. neste ritmo de parada na 5ª Avenida.” Além de que a tragédia “análise política” que se possa ver Mundo um espaço à espera de ser paração.” Cas- tellucci reconhece inequívoca razão as imprecisões ortográficas). “No meu espectáculo”. imaculados. como dizia o filósofo tradição. antídoto con- casualmente. Antes tes pelo assassínio da sua mãe (Cli. depois.esse sonho não existe”. porque ter uma maioria não é garantia de justiça. a recorrer em conversa com o Ípsilon. que não acredita no sonho america. comenta Cas- com essa pátria de muitas mães e ve a relação de forças como “he don’t ízes. ingleses. “Pertencemos à linguagem. como uma nas abandonam os deuses e se jul- crita em si essa natureza”. Mas o te deste grupo de povos ocidentais Abordar a democracia americana tório em que se fazia uma experiên- italiano rejeita qualquer intenção de que viram naquele apelidado Novo passa. de acolher o inimigo preender sob uma nova luz.A. “É também essa a natureza sa de “uma nova luz e uma nova previu também foi que dois europeus da América”. ropeia. deuses. “ca- mera demoniac cry” ou “decay crime sobre a forma como os novos ameri- canos construíram um novo modelo ricana. logo à nascença. é toriador francês escalpeliza a miti- ficação desse parto da democracia palavra. lha”. escravatura. O pri. no início. nagem inspiradora para a liberdade “O Trump e a situação contemporâ. Esta ções prontas a estrear. para quem não é possível caçar aves nem bisontes com palavras campo de batalha. o exército. O que não planeta. acu. É uma colecção índios. apenas a lei e o poder. a força. Europa proteger dos blica. sem ramenta de poder. sem sangue nem dores — como qualquer parto no cinema de “sim”. a grande pação exclusiva com aspectos eco- gir os nomes de países como Canadá. embalado pelo verso inicial lher puritana que. bre a eventual condenação de Ores. de diferentes fende. mas con- cimento. pintores ou mú- sicos devido à ignorância e à preocu- GUIDO MENCARI termina depois de vermos ainda sur. caminhada das pessoas. que se retira de cena a marching tra todos nós. reforça. Castellucci toma uma particu. são de todos quantos não faziam par. que apenas Velho Testamento. podemos com- macaroni” (nem sempre. admite. ça por este ter sacrificado a filha aos Daí que Castellucci se diga “choca. a do nascimento da demo- cracia no território. o co. porque significa que alguém foi muito capaz de compreender como como “cocain army medicare”. cisa dessa forte ligação com o Velho pelo “coração das trevas da demo. foi con- nea não me interessam”. sem sangue nem dores samento político também foi interes- sante para mim. porque os nativos se meros da Ivy League para perceber como os privilégios se perpetuam foi o livro de Alexis de Tocqueville. da sujeição a uma falsa ideia americana que se quer fazer crer que terá sido absolutamente higié- —. um político estava. Parecem nomes escolhidos ao Ao munir-se do texto de Tocque. em qualquer região do lar atenção à contradição da promes. são pertença do Público. viu que a arte norte-americana sur- rodar o globo e colocar um dedo. no córdia. Castellucci. “A comunica- feita pelos ‘outros’. os Estados Unidos são como América. com ração das trevas e se recusa a fazer pouco a pouco. descre. Daí cipal. que se debruça nos. E aquilo que mais me impressionou na leitura foi descobrir “porque eles vivem literalmente o Antigo Testamento: não há miseri. “perso- blemática ou pela eleição de Trump”. de igualdade de oportunidades e mobilidade social — basta ver os nú- O estimulou Romeo Castellucci nico. não tem propriamente que ver ta controla os trabalhadores. sa Castellucci. é ela quem. direitos humanos”. para tentarem ao francês nesse ponto. mais à frente. os novos índios. mémnon (pai de Orestes) em vingan- ças em peça única. no . em que o Hollywood. Ou seja. o Enganou-se o autor e o encenador Myanmar. assim como a beleza da comunicação que hoje molda a nos- Gilles Deleuze. Mas claro que o pen- não é ferramenta neutra”. símbolo óbvio do nascimento de gua estrangeira sem explicação pa. sentencia. ao inglês para se entenderem numa nação feita por muitos outros povos. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. aos negros e aos entrevista telefónica. desata a falar um dialecto gam a si próprios. grega assume o sentido de culpa. provavelmente. Depois disso. ville. em que o his- de que o interesse dos outros — para quem o silêncio não passa de uma a linguagem é um mente para lutar e “ganhar o pré- mio”. mas antes com o do nothing but he gets paid”. E é. Isso significa que tem de se trabalhar incansavel- Castellucci foi o livro homónimo de Alexis de Tocqueville. “Uma conflito com o tratamento destina. obrigado a ter um jornal — para moldar a opinião pú- higiénico. Arménia. Às tantas. segundo a lei e os claro.” É pela alusão a negros e e até os nossos corpos. E é por isso que ele fala da tirania da fascinei por este título há muitos anos porque há um tipo de mitologia Dos índios. emerge novamente sob a for- ma. “gostaria de mostrar esta con. Roménia. ção é hoje o grande campo de bata- de diferentes culturas. de glossolalia. quando se Êxodo narrado por Moisés. Tocqueville fala também de um historiador francês escalpeliza a mitificação do parto da placentas à vista.” ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 19 . O choque.A. de. tragédia após tragé- tido do restante mundo. os fundo estabelecida desde logo numa — a nova democracia americana pre- é uma criação interessada sobretudo dois índios tentam aprender inglês. por falar também da demo. tra a atitude puritana”. Primeiro. em busca do paradigma na ba- se da fundação da democracia ame. “É a tradições. à sombra e com uma arma à esprei. o nosso pensamento seguida. por exemplo. Iémen. gisse como “anticorpo. A linguagem é em Democracy in America. quer regressar à mãe Terra e tellucci. — a necessidade funciona a influência sobre o povo e isso é algo que. uma cultura da riqueza como fim último.” desconfia que sabe porquê. no entanto. Esse é um maioria. retiram o divino da equação ca ter sido capaz de conter tantos “I’ve been working all day long” e que. dos ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. de controlo e de opressão. a relevância das armas. ouvimos ra tal que não seja o transe religioso. Testamento. “Para ele. “O primeiro gancho que me agar- personagem principal do seu espec- táculo. vém de As Euménides. E manifestação de “uma vontade de conterá uma crítica ao caminho que esse é um paradoxo absolutamente Deus” e a construção social faz-se se iniciou na época retratada em triste — a necessidade de acolher o então com base num pressuposto cena (segunda metade do século inimigo para tentarem salvar-se. as letras são suficientes para ultrapassar de sociedade. lamenta-se um dos “Em todo vem ter a possibilidade de enrique- cer. Não pre- dia. ao mesmo que identifica uma falha na crença os conceitos avulsos que são despe- jados sobre o público. cia artificial. um canto de trabalho em modo Essa fala apodera-se depois da mu. América vs. um país auto. do. um muro sem índios que Castellucci segue assim foi apenas contra os índios. dentais derrotaram os nativos”. sangue e o destino. Porque. alega Castellucci. para influenciar as opiniões.” Castellucci compara cracia americana” na sua fundação. “Não quero falar como eles. por arrasto e inevitável com. afinal. a aprender inglês novo poder de comunicação nos EUA. uma fer. a língua para confundir os nativos. Democracy in America poderem proteger dos ingleses. salvar-se” de que não era possível àquele país produzir escritores. de mais. democracia americana que se quer fazer crer que terá sido rou”. dos negros que.” A linguagem. uma vez dia. “foi a beleza do título. antes de mais. porque era uma espécie de labora- tânea e inventado do nada. Acontece que me uma dádiva do Diabo”. nasceu repúdio que hoje é cuspido no sen. no espectáculo enquanto comentá. cracia europeia. Omã ou Ín. por exemplo.uma má coincidência. que por sua vez tinham matado Aga- e o transforme de amontoado de pe. em 2018. Pode até ser acerca da democracia na América explorada no livro.” obrigados a aprender inglês para se à chegada àquele território como No limite. note-se. como personagem prin. Mas em todo o espectáculo a lingua. A democracia grega. diagnostica Castellucci. a Améri.” E prosseguem com a certeza o espectáculo abençoado por Deus”. muito em particular. “Fazendo truques com da Oresteia. chega com o teatro grego. gerado. génese religiosa ou cultural. “A democracia europeia outros tantos pais. como fora dela. uma nação. “no dia em que os cidadãos de Ate- povos diferentes e ter também ins. todos de- XVIII). alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. mas sem algo que o solidifique band e é mostrado um bebé como termo que designa a fala de uma lín. “Algo terrível”. de Ésquilo. o capítulo final a conquista e ocupação do Oeste ao e não por “hoje a América ser pro. mas do poder muito primitivo emanado do Velho Testamento. possuída. S. em palco. que o italiano cita em história humana e sangrenta da sa consciência. tinuamente uma ilusão”. Irão. A invasão não um “muro a seco”. Macedónia. porque quando se é rico é-se neste presente. hoje. instala um tribunal para decidir so. Em palco. como se dois nativos americanos em cena. aquilo que estimulou Romeo indígenas. porque os nativos se vêem temnestra) e do seu amante (Egisto). saltamos para os purita.” de que “todos são iguais. índio. diz Romeo Castellucci perspectiva sobre a liberdade” em pudessem estar.

que já chegaria para abrilhantar do que os de hoje. nada menos Dilla e Q-Tip pela primeira vez). ainda adolescente. No início. por esta hora. são pertença do Público. como da própria vida. Mas mais te quando escreves uma canção: ela torna-se mais diversa consoante a . virtuoso compo. de um trajecto onde a palavra “co. o seu efeito nostálgico e dis- tanciador — dá-nos. Royce da 5’9”). baixista ainda mais discreto amanhã no vai desde Mumbai a Melbourne. cidade da Motown e de alguma da nata do hip-hop ( J Dilla. o talento vai músico! Partilhávamos tudo. mais do que constante. Moo- dyman. produtor e multi-instru. Ele é. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. Amp remete- um novo disco amanhã à noite no Indústria. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. quando falamos em “história”. do que os nomes. o facto de este des. ter aprendido a colocar os dedos nas mostrou como mexer numa MPC a J trónica. chegando até a colaborar. no Por. Brand New Heavie ou Jamiro- quai. cialmente a composição. porém. Quando lhe carreira a solo e cano quando estiver a tocar no con- certo de apresentação desse disco trane ou Wes Montgomery). crescendo. Ma. chantment e. conta já 59 primaveras dadeiramente históricos. como os de Prince. tocar. produzir. — e de terceiros tão requintados (ver. laboração”. cidade da Motown isto que Amp Amp Fiddler Mahogani Music e de alguma da nata do hip-hop Fiddler faz. a tocar nos En- dizendo. A passagem do tempo — melhor cês dos Primal Scream ou do califor- niano Warren Zevon. o leitor ain. Mas também conhecimento se estender a presti. produziu e tocou ao vivo em incontáveis trabalhos de terceiros rem um caminho desconhecido sem saberem onde chegarão”. na The Holy Mothership. Toda a música negra americana num homem só Compor. desde os anos 70. espe- sitor. em alguns casos). que viu de perto tudo a acontecer. E isso também se reflec- Noronha um percurso singular na história da música negra americana. do jazz ao funk. de uma referidos. teclas com nada mais. um jovem artista que improvisar com alguém cria um am- Francisco cido em Detroit. com 18 sação de que os grandes artistas do nos para o seu círculo familiar: “Vem para apresentar to (volta a 31 de Março para actuar no Lux). ao con- 20 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 vou. da não tiver ouvido Amp Dog Knights. afinal de contas. Mas isto. arranjou. do hip-hop Slum Village. tranho aí haverá (mais es. porém. sublinha que.A. da soul (e da neo-soul) à elec- tranho. virtuoso cantar. S. todos percor- biente e uma vibração completamen- te diferentes de quando o estás a fa- zer sozinho. naquela altura. On- de? Isso mesmo. trário do que a aparência pode indi. falamos a sério. mmmmm O homem eternamente na sombra. Nada. o último disco ciar — apesar daquele sempiterno ar coolzíssimo.A. com início nos anos 60-70: depois de Village (reza a lenda que foi ele quem ao R&B. E. com o rock esco- há uma valiosa giadas publicações). Eminem. com talvez seja mesmo a mais importan- te: ao longo de várias décadas. produtor e multi-instrumentista gravar: é tudo Knights (pianista de formação) nascido em Detroit. o homem eterna- Funkadelic de George Clinton. S e. o que eles revelam: Prince. gra- tinha de aprender não só a arte da produção e dos arranjos. ao lado de gente como Parliament- Funkadelic. mente na sombra. para além dos P-Funk acima um trabalho contínuo no tempo de Amp com as grandes — senão todas Jamiroquai ou de Amp Fiddler editado em finais de 2017. nada de es- —. foi só o início “na maioria das vezes. o CV de qualquer um. Amp Dog compositor. os seus conterrâneos Slum — correntes da música negra do sé- culo XX. Tocar ou mentista (pianista de formação) nas. do que Amp e que também colabo- ra no novo álbum] que também é Porto. no seu caso. nos Parliament- passado foram mais icónicos. cantor. Amp. no âmbito de uma tour que anos. cantor. fora desse círculo. o ubíquo Amp compôs. provo- cadores ou simplesmente virtuosos do facto de ter um irmão [Bubz Fi- ddler. a sen- perguntamos de onde lhe vem esse espírito colaborativo. pouco depois. Até George Clinton era. por vezes. passou. que incomode muito o norte-ameri- do que Harold McKinney (grande pianista de jazz que tocou com Col- xwell. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados.

a meias com a dupla jamaica. o que quer que esperar catorze longos anos por na Sly & Robbie.A. o seu som e o seu feeling. 2002 e 2003). de uma desmedida geração e o som da neo-soul (Erykah Badu. Amp talvez seja. Pelo meio. computadores e outra maqui- naria digital mais moderna. afinal. amálga- estreia a meias com o irmão. o seu a solo (com Afro Strut e. e nem entre o clássico hoje.A. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. o perfeito exemplo que se fez no início dos anos 2000 (a par dos lançamentos de Angie Sto- perfeito exemplo da ponte entre o clássico e o moderno. música negra vai buscar à estante quando se quer lembrar do melhor caleidoscópico. em 2009. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. em 2016. Esse tipo de questões não da ponte ne ou Jill Scott) — é um disco que. ao contrário de With Respect. talvez tenha acabado por retirar um pouco da pujança da sua carreira a caleidoscópico. Amp talvez começava a perder fulgor. With Respect (1990) foi o álbum de e o moderno feitamente frescos. ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 21 . são pertença do Público. se ouve. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. quer em colabo. ma que se subtrai a apreciações uní- primeiro e único LP editado nos Motor City Booty). afinal. téticas de sampling não constituem and War. energia que as pessoas trazem”. isso (não) signifique. No seu percurso (sem prejuízo da assertividade). S. 2017. baterista (e trompetista) que se per- crição no showbiz rima com a que demonstra na hora de conversar riqueza. embora isso não lhe tire o sono por um segundo. de uma desmedida riqueza. homem cuja dis. que a sua obra tanto reflecte um mo- do de composição com recurso a entra no meu mundo! O bom karma vem de darmos aos outros. Waltz of a Ghetto Fly (2003). “verdadeira” música. e que qualquer ouvinte familiarizado com filava para ser a drum machine do formato live do pai. com a morte inesperada do filho de 18 anos (com- solo. sempre de sermos nós a estar na mó de cima”. “Isso [o hipotético menor fulgor seja. A solo mesmo. Essa total disponibilidade para os outros No seu percurso aquela que é unanimemente recor- dada como a sua magnum opus: com a banda funk sua conterrânea Will Sessions). “valsa” negra que marcaria para sempre a uma tragédia pessoal. foi preciso 2008. D’Angelo. e depois de rações (no pouco conhecido mas logo a dos puristas para quem as es- dois curtos EP (Basementality e Love formidável Inspiration Information. o da sua carreira em virtude da dispo- nibilidade para apoiar outros músi. sem a nostalgia pelo anacróni- co. no sentido em cos] é uma questão de medo e de egoísmo. antes conservando intactos. per- instrumentos “convencionais” (e respectiva ressonância orgânica). vocas e de míope alcance — desde anos 90. e Kindred Live. etc. O americano prosseguiria depois com um ritmo assinável quer como a utilização intensiva de sam- plers.) quando esta plicações derivadas de diabetes).

no refrão e. pelo o que de curiosidade “historio- ada electrónica. do se move nos terrenos mais clássi- dish Gambino. possa tula-se Return Of The Ghetto Fly — re. tenho esse as canções em que podíamos traba. puxa o disco para uma onda rockeira (embora mesclada com o canção porque é e. boogie. Amp. do techno). é que pagem pop (mas meritória) que lhe ma das mais antigas casas do Porto. logo a seguir desmentida pelo cosmos porque me mostrou um lado diferen- te da minha voz. I Get Moody Sometime (que. Pedro Tenreiro ro”. prio não sou grande na América. no qual as vozes de Amp e. Soul. fam com a maior das descontracções. antes do DJ pôr no âmbito o público a mexer as ancas. um regresso à matriz lhos do house não deixaram muitas (e outros: Vulfpeck. Estou cons. Temos apenas que conti. além da já referida Return Of The álbum! E aquele sample do Bootsy lhar para fazer o disco. traz sempre propostas aprimoradas e saborosas. tugal não é um lugar estranho para progressão alternativa de baixo Good Vibes e I’m Feeling You (esta úl- tor City Booty). só soariam a desajeitada ca- ricatura (sugestão: ouvir. Queen of Hearts. house de Detroit. porém. Eu senti que estava mos-lhe): balanço rap (beat de J Dilla. swing.A. porque corresponde troitiano oferece em duas versões. novamente. de do na energia dos Parliament-Funka. E também provar o statement inicial (”Detroit players in the house tonight. disco feito in media res: “Criei o ál. com música soul. sus. de Dâm. claro). sobretudo a de clarificar o grande pano de fundo vezes. a uma certa revitalização lha Negra fossem americanos para “candonga” desconhecendo a sua importante período de afirmação na do funk — nas suas mais diversas ra. Um “return” que. cos do funk e da soul que o disco. colorido. no álbum anterior sets” e “gins tónicos” em que se con- sobretudo. peitando do seu traço característico. de Ne- co Redd (onde anda ela?! Só lhe co- Apresenta nhecemos um obscuro EP de 2015. embora Amp goste o músico. 22 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . logo a se- guir. perfeitas para quando Amp abando- tantemente a juntar elementos e ficar mais tempo e conhecer algumas gresso do tipo mais “fly” (slang para nar o palco e passar o testemunho ritmos variados com música soul. é porque cada disco seu é sem. cheio de e João Dinis). o americano avi. amigo que os havia comprado na ao house (que. o mundo saberá”. Ghetto Fly — de It’s Alright (que o de- [referência ao sample de I’d Rather sultado final. confessa). deep house — mais próximo de Chi- alguém que faz gala de sempre o ter nuar a fazer música e. que se repete em Through Your Soul. desde um assalto a sua casa) e gui. Adorei o re. então preservado (Funk Is Here To Stay era te. claro. é mais do que isso (do que mo rapidamente se constata em con- versa com amigos ou conhecidos um coelho da cartola. é certo. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. não nos podemos lamentar com es. e sair. de Chil. e que depois de Amp. Sentei-me com o sobretudo — e se dizemos “sobretu. groovy afloram). então. por exemplo. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. ghts. De resto. parar às mãos de Amp através de um —. a perguntar ao ouvinte se teve esses momentos valem. não nos chegámos a encontrar pes. dito de outro modo. meu. Detroit dos anos 80. introduzidas por uma — que se ouve. foram num só género” do a dar o groove certo). aos DJs que comandarão o resto da Nunca estou apenas num só géne. My Love! (2016). de No Po- litics (o omnipresente hi-hat em fun- a escrever para um filme do Taran- tino! Adoro esses tipos. tarra funky. amanhã. sobretu- do. pessoas”. pintarolas) e alusão explí. cool. e a isso não será alheio o convite que. o ameri- de uma tour cano terminasse mais melancolica- que vai desde mente — como termina o disco — ao Mumbai som de Say So (baixo tão distorcido a Melbourne que até parece que fala) ou. ao mesmo tempo. Nunca estou apenas quente. o novo disco No Discipline. desde logo. é. no Porto (volta Dissemos que o house talvez fosse a a 31 de Março melhor ponte de fecho do concerto para actuar para o resto da noite. os Orelha Negra lhe ende- reçaram para integrar Mixtape II. num castiço trocadilho. antes do autor de Donuts morrer. um looper pedal mais do que tirada de charme. um soul e funk do seu icónico disco de saudades. fixe. como se — brincadeira especulativa — tivesse (não necessariamente alinhados com os nossos gostos). borador de longa data] e escolhemos seus momentos áureos. E. “Adoro essa thing!”. estavam parados. atinge os delic de que Amp fez parte — “Ado. com o efeito wah da gui- tarra eléctrica a dar o tom desde o em 2013. Sou um grande fã!”. e co- disco. talvez as canções trata-se sempre de soul. é um desses esmerados artesões que não saber fazer um mau os meus álbuns um omnipresente e sensualíssimo riff de guitarra) ou Through Your Particularmente em Portugal. rap/spoken word a terminar). ser os que estavam desaparecidos sente neste novo álbum. pacífico. para não falar. em cuja primeiríssima faixa (Grandma’s Radio). verteram). e ritmos variados das. passando pelos Snarky Puppy e o microfone são as minha banda efectivamente. no futuro. ter percorrido. mificações — no panorama mains. “Podem qualificar na” e marcada pelos sintetizadores. ali mesmo à beira-mar. de misturar o velho com o novo”. Tuxedo. nu. de soul. papel de parede de “sun- prio Kendrick Lamar). não é o som-Amp Fiddler. tream (fora desse radar mediático. (“O Traktor. 2003. it’s the jazz a juntar elementos primeiro segundo e acompanhado de outros virtuosos exercícios de cor- qual empresta voz à primeiríssima canção. de Terrace Martin. paragens mais dançantes ligadas no. gráfica” carregam (esse e outros tri- Funk. mas por afro-japoneses. Se bastaria que os Ore. O certo. É o caso — ro esse álbum! Aliás.A. entrar por acaso. seu amigo e cola. balho é este. a melhor canção do disco. esse proto meno interessante de abordar com sas coisas. a esse fabuloso disco que bum pelo meio de outros dois que (Motor City Booty). sobretudo. E que novo tra. teclas. qual se inicia com Amp. Moodyman [lendário produtor de do”. tem-se assistido. neste momento!”)? É. ou. mas os mostrar a Dilla. que é para ouvir no Indústria — as outras coisas ficam para fazer a seguir. mas quiçá não no Lux). por tudo aquilo que atrás es. com Amp em registo one man show saudades suas. se tornarem world-renowned como autoria. a noite (André Cascais. eventualmen. a última das quais no LISB-ON teclas. justa- mente. deu recentemente Bruno Mars à to. Espero que. ao meu permanente esforço criativo uma up-tempo. fenó. e uma não menos es- amanhã quecida mixtape The Full Disclosure à noite no ano seguinte. por isso. uma ab- solute gem para fazer coisas que. um tratado de black music para com. um “fiddleriano” da Califórnia). na sa logo ao que vem: ”It’s the next thing. Waltz of a Ghetto sem tempo nem lugar — soul. em o título de uma das canções de Mo. É. o pró. mesmo quando não saca como quiserem. que por cá actuou já várias acompanhada do surgimento das tima mais interessante. voz soul de Neco Redd cago do que da sua terra-natal. teve um tempos. Não aquelas teclas desconcertantemente meus álbuns como quiserem. ouvi. É o caso deste Amp Dog Kni. muito “dâm-funkia- do por Gambino em “Redbone”]. se tem o género no seu título. são pertença do Público. Estou sido feita não por afro-americanos. as rimas de T3 (membro dos partir dos terceiro minuto. Put Me In Fly deixou uma marca muito forte. conta com a par- ticipação de Moodyman). e é uma pena) sur- no Indústria. nos últimos soalmente”. constantemente Your Pocket. claramente embebi. mas ainda alguns dos instrumentais que. malha que. logo na canção seguinte. escritas. Mas voltando ao funk: da rou. S. Be With You de Bootsy Collins utiliza. se confirmaram ele (house) não deixe de estar pre- ele continua vivíssimo. mas trata-se sempre música soul): é música zen. talvez. Digamos apenas. para ouvir já cita ao seu memorável álbum —. chegamos. outra mais soulful e abrilhantada por O lugar de onde nunca saiu crevemos. it’s the funk thing. Embora. E por falar em clássico e moder. esta segunda canção inti.”. uns BadBadNotGood? “Sim! Eu pró. pre um concentrado da música negra uma grande energia coral. e a verdade é que é quan- é Awaken. quando da sua obra: “Podem qualificar os do ano passado (“Os concertos aí têm Slum Village) a fechar a parada. depois de. recorde-se. Por. With You. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. mas sido sempre rápidos demais. al- guém que. caísse nada mal se.

Lucibela can- barriga redonda. Quero canta para cariz tradicional só em muito raras cer a uma época — qualquer que ela seguir o meu próprio caminho e ter ocasiões conseguia furar essa hege. talento. pria história de vida. xonei-me”. o meu próprio sucesso — se assim as monia estrangeira e conquistava os pessoas entenderem. comecei a cantá-la e apai- Lucibela para. Lucibela canta como se levado às inevitáveis comparações tos musicais que invadiam as rádios não pertencesse a este tempo. várias mensagens e telefonei. reunir. segunda Cesária. em São Nicolau. Ao cantar sando cada vez mais música tradi. em 1986. despertado por completo para a mú. mas ta histórias doridas que falam da ro tema do reportório tradicional que nunca me chegou a dar as mú. como com Cesária Évora. sem lhe ferir a doenças sexualmente transmissíveis ra este destino imprevisto. é da minha tar nos clubes náuticos. “comecei a fazer noites com líssimo tema título. Jorge Tavares tava-nos. alimen- metendo nesse mundo. que isso. o magnetismo das paisagens das que só conheceu quando retomou Foi preciso insistir durante quase ilhas. os bares foram crescendo. dava-nos tudo. E só a pre ela e nós os cinco”. confessa. Embora só aos 19. da adolescência. a música local de tão mundano quanto ter de perten. na verdade. mãe porque. o álbum nha seguido a via da música tradi- cipais restaurantes e hotéis — o topo que o filho de Bana lançou tinha a cional. mas que pode reclamar como seu. portório tradicional. acompanhada por músicos e ideia de boicote à estreia discográ. ao lado de essa mulher que se levanta cedo. bela a assunção de um legado. coladeira que conta a his.A. profes. seja. há muito caminho para andar. nada muda de substancial no clas. com o emprestou a sua imbatível interpre. canção em prol da prevenção de de música tradicional. quase conseguíamos atrás [dos compositores]”. Ao longo sica tradicional cabo-verdiana. africanos que querem estar com tava e o concerto era parte da acti. a voz briu ao participar no espectáculo de Lucibela ainda não lhes prestava de Lucibela abrindo. Não que tenha sido cisamente por haver na sua música nação social. entanto. mas canta também os “homens sores da escola que então frequen. uma Nandinha ali e vidade escolar. gar. na verdade. que há em Luci- tória de uma grávida adolescente sicismo do seu primeiro álbum. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. E quero chegar favores radiofónicos que construíam O próprio caminho lá pelos meus pés. que desco. Laço Umbilical é o primeiro álbum da voz mais encharcada na tradição cabo- verdiana surgida nos últimos anos. há 15/20 anos. feito alma com os pés assentes num palco. lamenta. tava das suas apresentações ao vivo. Os fica ou à carreira da cantora nascida penada e chorado pela mãe à beira- músicos eram. dos autores de eleição de Césaria comida e de petróleo. saído da pena “Essa música [Dona Ana. Foi o professor de mornas e coladeiras. do seu canto e conjugá-la com a von. ganhava o meu di. morna com um suave travo nuel de Novas] lembra-me a minha achou que eu tinha uma voz linda e brasileiro. desaparecido no mar alto. tem Lucibela e vinham — ou outros arrebatamen. A princípio cantava três a ginar nascida numa viagem de Ma. mar. “Ela cuidava de tudo — trata- a minha mãe já não estava — e fui-me gravar estes inéditos de Betu. redundância. as preces rogadas à chuva pa- os estudos depois de interromper dois anos para Lucibela conseguir ra que caia e ajude os agricultores bruscamente o 11º ano — na sequên. através da música. amador numa banda gesto ousado de acrescentar ao re. minhos e inventar novas linguagens para os fogachos de paixões que iam tuir-lhe o primeiro choro. Tão simples mmmmm cibela na rota certa. e continuei a can. das telenovelas brasileiras. ram desaparecendo os autores de uma Bia aqui. sozinhas. adorei a música. fui ouvindo. Nhela va da casa. ço Umbilical. Mas por. mesmo não sa.A. Silva e Elida Almeida. Alguém matriz. “Foi um pouco difícil. tive de correr compromisso total com a sonorida- bendo crioulo. Se era já essa qualidade que ressal. por outro lado. juntando um clássicos de Manuel de Novas (um que vai de manhã à noite atrás de reportório maior. com o seu ganha-pão ou as mulhe- cia do falecimento da sua mãe. Lucibela canta fora do tempo. nos bares Évora) ou o tema de autor incógnito mãe que me lembro. Não por qualquer de uma ravina ou de um pescador blico. ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 23 . que quase se podia ima. res-guerreiras que criam os filhos “A partir daí”. F oi o infortúnio a colocar Lu. a atirá-la pa. de Ma- esse meu professor porque ele de Betu. Na altu. sicas”. um conjunto de te. desde que eu era pequenina foi sem- cinco músicas. Spencer. Porque não faltam razões a Gonçalo Frota do circuito profissional nas ilhas. Algo que a can- do país sob o efeito da popularidade se a limpidez da sua voz fosse dema. por fim. recorda Lu- nheirinho — que fazia falta porque teimosia da cantora lhe permitiu cibela. Chica di nha Maninha. Continuidade não significa. “Ouvi. Pre- sem medo de se expor e da conde. não é possível ne- tridinha. trauteava mornas em casa quando cos.” Aos pou. ouvi. tora enxota com a palavra “absurdo”. 20 anos tenha cantora dez anos. tal como diz a canção. siado pura para se sujar com algo “Para chegar onde a Cesária chegou ra. fo. A opção de Lucibela por um género Laço umbilical diana nem sequer se imagi. quanto isto. Ípsilon. da reedição de Pensamento. informática. erro de achar que pode existir uma se religar Uma das raras excepções foi Nu. Mário Lúcio. —. É mais do para a música cabo-verdiana —. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. no tação no álbum de 2001 São Vicente tade de cantar reportório inédito. Apesar desse di Longe — em que. a cabo-ver. Basta ouvir o be. morte trágica de uma criança caída que Lucibela arriscou cantar em pú. Até porque tradicional. de que mais se confunde com a es- passado ver essa Nutridinha a menear a sua “Houve muita gente a quem enviei sência cabo-verdiana. Talvez por isso te- sentando uma e outra vez nos prin. Fui pesqui.” Não caindo no os verdadeiros sucessos. homenagem a Alcides por ocasião grande atenção. que. são pertença do Público. risa Monte ao arquipélago. a que Cesária Évora fácil conservar essa característica uma semente de continuidade.” A mãe que pequeninos do Mindelo. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. cional. maioria dos novos intérpretes — mais Lusáfrica fossem além de acompanhar la canta como se tivesse nascido interessados em desbravar novos ca- canções românticas — banda sonora com mornas e coladeiras a substi. S. com a passagem dos anos. caído em desuso entre a Lucibela nara a trautear melodias que seria insuficiente dizer que Lucibe. Foi esse o primei. e foi-se apre. conta Lucibela ao Mas valeu a pena. la hoje parece desmentir a sua pró. dava-nos escola. explica. La. Sem ambições de modernidade. capazes do uma Ana acolá” — que é. se religar com o passado.

S. Sempre houve fúria na música de Superchunk. o 11º ta da banda. sempre. O que mais acon- tece é. Os discos da banda de indie-rock da Carolina do Norte fundada por Mac McCaughan em 1989 estão todos no passado. o 11º álbum. a qualidade ar- tística entrar em declínio. a baixis- Alive. E isso ajuda-os a continuarem a fazer bons discos depois de quase 30 anos de existência. são pertença do Público. Fulos com Trump e o estado da América. Rodrigo Nogueira N ão é comum uma banda de rock continuar a fazer bons discos 30 anos após ter co- meçado. com a influência power Donald Trump pop a nunca fugir muito da distorção é um dos e da rapidez. What a Time to Be Alive. os fundadores (e ainda bem) da Merge Records estão mais explicitamente políticos do que nunca. Donald Trump é um dos res- ponsáveis pela vitalidade.A. On the Mouth. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. Neste caso especí- fico. é exemplo disso. Oiçam What a Quando o disco foi anunciado. em Time to Be Novembro. E não parece que a coisa vá piorar. Não é o caso dos Superchunk. Laura Ballance.A. mas a eleição do pre- responsáveis sidente norte-americano remeteu-os pela a níveis de zanga que não se ouviam vitalidade dos tão extensivamente desde o terceiro discos da disco. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. declarava ao site AV álbum Club que não era uma altura para 24 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . o 11º álbum. Carolina do Trump tornou-os o mais abertamen- Norte fundada te políticos que alguma vez foram. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. após décadas de actividade. Desta banda de vez. de 1993. com a experiência de quem sa- indie-rock da be muito bem o que está a fazer. Os Superchunk A veterana banda de indie-rock da Carolina do Norte lançou What a Time to estão furiosos Be Alive. por Mac mantendo o carácter viciante dos McCaughan refrães e dos solos de guitarra de em 1989.

de 2001. confessa o baterista. madas falsas quando estávamos na os instrumentos todos e as pistas estrada a guiar. fez para mudar o mun. Conan O’Brien. na “Nunca tivemos um disco que fosse Mould e os New Pornographers. que. a diz que não lhe incomoda alienar se à de Mac McCaughan. artistas se darem ao luxo de “conti. continuaram a fazer con. Mes. ra Ballance que é uma instituição ger mal-intencionadas. Em Merritt (The Magnetic Fields) e Katie 20 anos que preserva uma parceria conversa telefónica com o Ípsilon. conclui.” humor nisso. Só que foi nessa altura que uma análise do valor e o que signi. por isso só se juntam quando o estado onde Scharpling nasceu e que o dos discos dos anos 1990. derosos tentam silenciar pessoas Hüsker Dü. The Best Show — hoje apenas online ets a dizer que estamos a alienar os ge Records. bem. são reflexões mos ter chegado. Wurster. Escla. metragem de Kelly Reichardt. em Nova Jérsia. Por exemplo. fizessem álbuns. vias outra banda mos rápidos. Crutchfield (Waxahatchee) juntam. e canção Reagan Youth. não quero saber. Em bro dos Mountain Goats e da banda nuarem politicamente neutros para Erasure. dos míticos manterem a base de fãs”. disco um carácter mais datado do viver. res experimentar. Spoon ou Sleater-Kinney. não devias estar numa O carácter urgente está patente banda na estrada”. Além de ser mem. escreveram para televisão e. exploram o que há de mais ridículo A ira leva a letras que podem ser E é em parte isso que permite aos no mundo do rock. declara. Show. nossos fãs ao assumirmo-nos anti. Nunca tivemos al- guém a intervir a dizer-nos que tí- “Há fúria em todos os nossos discos. Fora da comé- anos 1980 quanto aos bem sucedi. adicionando: “Nos encontrámos muita comédia. é que somos os nossos pró- as pessoas preferem e aí é inevitável voltar ao som original. que usa- What a Time to Be Alive. explica o bate- na rapidez da escrita e gravação do A outra carreira rista. alega internacionais de saúde de aconse. com o radialista Tom Scharpling. Em Houve um hiato de nove anos entre Paul Rudd. Não podería. e trocavas cassetes e foi assim que tilha Wurster. mas faz sentido. ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 25 . & Rule.” Do punk veio também o sentido que perdemos um sicalmente e conseguimos continu- ar na trajectória”. Mantemos o nosso grave neste momento que era impos- sível isso não se reflectir e não se tor. Nunca fomos super bem a comédia continuou a manter-se tanto à banda punk/hardcore dos sucedidos. concorda com a colega.A. ainda que não anos. vídeo de Watery Hands de Super- rece também o despojamento de chunk] e o Bob Odenkirk. sabemos o que tem piada. áudio: Newbridge. ouvíamos cha- ou menos meia hora. Parece que perdemos um indie — é por ela que sai What a Time iludidas. Nenhum membro depende ex. dos Foo Fighters ou dos Oasis ou dos dia. nomes que lançam música pela Mer. e directo. trágicas e decadentes. não quero saber” Até agora. baterista dos Superchunk desde marginalizadas. de comunidade: há muitas vozes convidadas neste álbum. Aprendes a tocar melhor e que. Superchunk ou Sebadoh. não éramos esse Donde é que nasceu a ligação en- sobre a validade de toda esta fúria tipo de banda. e tem teclados: “Gostamos de outros então isso ficou também entrelaça- géneros e isso surge sempre. ao con. Todos contribuíram com que se reporta à famosa fotografia dos anos 2000. com os Superchunk em hiato. são pertença do Público. em ambos os casos. que fala de quando os po. com o David Cross [que aparece no da punk na essência”. Parece controlo de qualidade. aborto nas opções. Mas quando começas como banda punk. mas o nosso país está num estado tão ao assumirmo-nos nhamos de mudar algo. o regresso de 2010. e Ma. S. E bem. as vozes de Stephin segunda carreira na comédia. os dois e que poderão deixar de fazer sen. Essa natureza directa faz-se soar Depois havia um programa de ske- num dos discos mais punk dos Su. disco e na sua curta duração: mais Superchunk não é a única parte da “Nos anos 1990. não lo Tom. parecia um emprego citações para a caixa de 16 de Trump. Jon Wurs. perchunk. Estás nu- hardcore de há mais de 30 anos. não é comum em Superchunk. Isso manteve-nos com os riamente muito ridículo. uma piada ou uma canção. a bandas como Guided By Este disco é bastante despojado e Voices. par. noite toda. Nem sempre foi assim.” to Be Alive. mas não tanto”. Quando isso acontece. Bob fica estar irado. Normalmente so. Kim Gordon I Got Cut. o que soa bem mu- nar o ponto focal das letras. Há 1991.A. Não somos de gastar ma estação de serviço e vês algo meio da qual os músicos da banda tudo em drogas ou destruir quartos absurdo ou conheces alguém estra- cresceram. que fã. Isso poderá dar ao clusivamente da banda para sobre. Parece oportunidade de nos tornarmos de.” Tal como na comédia. a assinar não parecia haver muito espaço para of the Best Show. Também já fundos públicos das organizações de parar”. tre os fãs da comédia de Scharpling die too soon numa frase orelhuda “Lá para o final dos anos 1990 e início & Wurster. — a fazer de personagens diferentes. anti-Trump. o disco inclui Há outra razão que Wurster apon. a editora de Mac e Lau. por exemplo. é compli- melhoras e queres tentar coisas no- vas. mais atabalhoadas do que o costume Superchunk continuarem a existir e Ao longo de duas décadas. no pés no chão. Nunca tivemos a tre rock e comédia? “Quando se transformada em canção. tem resultado. porque os ouvidos básicas em menos de uma semana. “Gravámos vida de Wurster. ingénuas. estavam fritos de tocar música a uns cinco dias. A dada altura per- cebes o que fazias melhor e o que é estamos a alienar “Uma parte grande. algo que fã. de hotel e pensamos que isso é bas. vive. mo assim.” Sobre a fúria: os nossos fãs prios patrões. está em digressão encontra-se dia- perguntar: o que é que a cena punk/ cadentes. nald Reagan inspirou. John Oliver. achava que iria ter mais trabalhos Ao mesmo tempo.” eles davam-nas a outras pessoas. editada em 2014 uma ordem executiva para banir crescer. “Sempre fomos uma ban. São dois ligar todas as semanas para o seu quem o ouve: “Até já recebemos twe. que se refere um êxito. Rock. tweets a dizer que cado encontrar quem se mantenha bom ao longo de várias décadas. tens pela Numero Group. tches da HBO chamado Mr. foi também actor numa média- dos jovens conservadores que Ro. nho. ta para a continuada relevância: surgiram os Mountain Goats. há pouco mais de dez lhamento familiar que incluam o certos todos os anos. vam t-shirts de bandas como Buffa- trário dos discos mais recentes. rodeado exclusivamente que já não era assim tão divertido e CDs Scharpling & Wurster: The Best de outros homens brancos. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. a solo de Bob Mould. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. “Até já recebemos do na cena deles. Smashing Pumpkins. Depois. Se não consegues encontrar do? De que serviu disto tudo? tante risível. Trump. Amy Poehler. também o carrega de urgência. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. Rot e de adicionar coisas diferentes. o baterista mantém uma ter. Nunca chegámos à liga em segundo plano. criaram toda uma cidade fictícia em tido em breve. Here’s to Shutting Up. ou Zach Galifianakis contam-se en- ghan torna All these old men won’t jesty Shredding. sámos cassetes da primeira coisa ros em termos de experimentação que eu e o Tom fizemos. Pas- anos 1990 éramos mais aventurei. Mac McCau. desses.

26 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . Um presente que regressa no magnífico Between the Earth and Sky. nos durante a Guerra Civil Espanho.A. mas maxi- dês falecido em 2005: “Aqueles que jo. canção que viajou da Irlan. tema de sempre da música irlandesa — em “Granite gaze”. como corpos vivos. defende Daragh. Aquela é a voz de timbre onde integrou um squat e percorreu mem atormentado pela visão da fa. cantar misturas do álbum — e valeu a pena cada dia gasto nelas. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. ca que empunhava e que. cita ao Ípsilon uma Tocam concertina. em tempo. gaitas-de-foles e flautas. gistralmente na sua genética outras Earth and Sky rada dos tempos. Os Lankum cantam-na “a capella”. forma como. Pensaram na pos. acima para tornar mais pungente a melo. trespassou o corpo de uma grandes apreciadores dos Neu! e do O que ouvimos são os Lankum. tado em Dezembro de 2017. vimos agora e onde encontramos. “Começámos por fazer música onde nância. Fundou garden. nal. continua a sê-lo. integra ma- Between the aquela voz que parece saída da alvo. nasceram centenas de canções vão sendo es. mas para nos guiar pelo presente. explica Da. sob a neiro da sua ilha (e além) para des. firmemente ancorado que ocupa todo o espaço sonoro e mos nas capas dos tablóides”. dicionais e punk”. nuvem densa nome do personagem principal de sobrevivem são as que tocam um Between the Earth and Sky ganha- que Bnos envolve e que uma balada do cancioneiro irlandês. Between the Earth and Sky é o novo ça. Bog Soldiers. como testemunha. É também um alerta”. E sim. por Brian Eno e do interesse do ir- distri. numa mulher chamada Rose Connoly. Não por acaso. por salas do circuito de música tradicio. A banda que ou. chamaram-se Lynched. cho. Morreram os Lynched. “Uma das razões pelas quais estas velhas canções são tão no mundo estranhamente seme- lhante [ao período em que foi com- intenso possível”. A o primeiro impacto. que actualiza para o presente um cantar de emigração. passámo-los por compressores ana- confinados ao circuito de bares e às até nós. as que têm se como álbum inescapável neste obscurece tudo à volta. harmónio e o nazi. e transformou-se em hino de tório constante. outro original. tornam-se voz dos deserdados do o de cantar insaciável progresso capitalista: “we traded lumps on narrow streets / can’t bite the hand when you’ve no teeth”. quecidas ao longo dos anos. de forma a ganhar um eco após a edição de Cold Old Fire. uma capacidade de trazer dia e a força dos versos. um álbum onde encontramos Peat não se manifestam. passaram seis meses às voltas das Lopes dolorosas que o nome Lynched evo- caria na comunidade afro-america- poderosas é terem sobrevivido à ga- rimpagem do tempo. muito É o álbum da trágica Willow garden e de Déanta in Éireann. diz tulo retirado a um verso de Willow na música tradicional. Lankum? Sim. Popstock do then?”. fusão. e têm muito po- der. sidade que as velhas canções rein. É música despo- e pesquisador do cancioneiro irlan. gue. Os Lankum cantam. tes e maleáveis”. aqueles ção muito poderosa e cantámo-la lógicos e o resultado foi levado. canção de protesto nas. Lankum nente: “What will we do if we have no quando este regressou à Irlanda de. tocam ban. “Talvez o na. tal como há angústia e esperan. true lovers. e Cormac Mac Diarmanda. humanos. Lankum. “pegámos no bordão álbum da banda. Centenas e posta]. jada na instrumentação. As que gem. Tais referências teto irlandês que vasculha o cancio. uma das can- ções originais. piano e guitarra.A. como há vislumbres de luz e além das quatro vozes que se unem Neste álbum. o primeiro com melancolia introspectiva. quar. evidenciam-se vamente o que o passado não matou. que habitam os versos antigos que sem acompanhamento por respeito exemplo. res melodias. porém. há crime e san. início de ano discográfico — foi edi- partir daquele momento e tural seja haver em nós. “É uma can. Nada. a não ser o bordão gue e de crime. É o álbum de música canções antiga tornada matéria viva nas mãos sábias de quatro irlandeses talento- sos. sua sombra pairará por 2018 — pela mmmmq mais existe. cida na antecâmara do crime inomi. primeva e impo. à excepção de Peat bog soldiers. vo. funda. poder Este é o álbum da desarmante What will we do when we have no mo- ney e do alerta de Peat bog soldiers. nora imensa. história de um ho. são pertença do Público. imponente. A um vilão infanticida. Radie Peat nável do século XX: foi composta em no cuidado posto em criar um ver- para recordar ao presente que a ar. o humor era predominante. as realmente relevan. das gaitas de foles ou do harmónio. despida de qualquer adorno para vozes”. não é o passado que nos fala. te. desde Dublin Daragh Lynch. por ga. O de cantar estas canções. Porém. cantam — isto enquanto. Hoje. nelas. mas a nos seis minutos seguintes. mão Ian no black metal escandina- assombrado de Radie Peat. Não por acaso. vozes sobre a instrumentação e can. não usamos em cada canção mais aqueles que sofrem compõem as tam a capella. É restante kraut rock. esta canção não é só uma homena- camos com uma massa so. forma de uma qualquer música de cobrir o que ficou. pois a música dos Lankum de- têm um senvolve-se lentamente e pede tem- po para nos enlearmos totalmente nela — e vale a pena cada minuto. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. e conta que Cormac e Radie são do uma canção de origem incerta. começa a explicar Daragh. what will we pois de uma temporada em Londres. colunas. entoan. impossível escapar. é bastante diferente. os Lankum. que um par de instrumentos e as canções”. a que é frase famosa de Frank Harte. “Normalmen- têm o poder escrevem a história. Ao longo da entrevista. os Lankum tentam dar aos ragh. mizada na produção. não para nos atormentar. Between the Earth and Sky tem tí. zismo na Segunda Guerra Mundial. com tanto que acontece de o tornarmos o mais presente e Mário sibilidade de um dia se verem em território americano e nas memórias terpretadas. mas. o protagonismo que ganharam originais que assinam a mesma den. que foi cantada pelos Dubliners ou Daragh Lynch fala-nos do seu gosto Rough Trade. Há uma lição a retirar no que aconteceu há 70 anos. além dos irmãos Lynch. “É uma canção importante e natural que foi introduzido nova- 2014. Between the Earth and Sky é compos- Os Lankum to de canções que. as ruas a tocar flautas e guitarras. pagar-se caro. na. a uma igreja e tocado em nal. mente nas misturas com o objectivo levou-os a mudar. je em dia. São os Lankum. estas Between the Earth and Sky é o álbum em que o passado regressa. Tocam resistência cantado pelos republica. grande. Pelo contrário. Enquanto estiveram de tudo. novo baptismo. Harmonizam as la ou pelos que combateram o na. vindos 1933 por dois prisioneiros políticos dadeiro universo sonoro que estas rogância do esquecimento pode da comunidade de música tradicio. especialmente ho. a banda com o irmão Ian Lynch da para os Apalaches americanos e linguagens. as letras mais poderosas e as melho. ao mesmo [aos autores originais]”. um acordeão russo. money? / Oh. germoor. Daragh Lynch. São quatro irlandeses a recriar de forma imponente velhas canções da tradição. ponto emotivo especial. S. por Nick Cave. cantor bayan. Há. nada uma atracção para histórias de san. estranha mistura de elementos tra. no campo de concentração de Bör. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. canções possam habitar. nunca se quedam abaixo dos cinco minutos de dura- ção. na fase inicial do terror É música como bordão encanta- dor da banda. para cantar no.

ou não destruído parcialmente uma casa Everything is floating. são pertença do Público. É antes uma espécie de Meg Remy. Caso curioso o do projecto U. urgente. de Big Science (1982) a Homeland (2010). o mundo grande presença de guitarras. e por outro que própria Laurie Anderson e os não conseguem aclarar. Girls esta é. narra ela em Poem Unlimited. Laurie Anderson e pelos violinos e actuar. como se tudo artista e cantora inspirado. electrónicos guiados pelos teclados. distri. e que alguma imprensa A visão artística global de Meg de Manhattan. de Laurie Anderson na parte baixa Talvez seja difícil para a maioria feminino. Desta vez. primordial. o seu poema- documentário de 2015. por um residir em deixa de ser surpreendente para é quase sempre sentido. E nossa. é them floating there in the shinny dark que muita gente acordou para a recorrido a muitas colaborações um furacão. por mero acaso ou não. É tentador. S. americana a também bastante coeso. ao longo dos anos. que Iorque. como já acontecia em Heart Vítor Belanciano Of a Dog. tendo as inundações catastrophic”. samples. aliás.A. Meg Remy é se-ia que quanto mais agitado for props from old performances. “And after Toronto no uma obra gravada em múltiplos serena e a tonalidade de voz. Desde estúdios e que contou com cerca falada do que cantada. mais pacificador terá de ser o papers and books / And i looked at histórica editora britânica 4AD. Neste caso dois tempestade Sandy teve efeitos carefully saved all my life becoming O efeito foi de tal forma que muita nomes parecem essenciais: o do devastadores em algumas zonas nothing but junk / And i thought how gente pensou tratar-se de uma obra colectivo canadiano The Cosmic da área metropolitana de Nova beautiful how magic and how de estreia. no meio do caos. surgindo apaziguador. criar canções Cosmic Range parecem ter tido ao vivo em 2013. countless quando assinou o sexto pela ideias e da maior parte das letras. claro. Girls iorquina. que parte sempre de um prisma fossem eles um casal. sente-se o ela não faz nada aqui que não tenha faça sentido no todo. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. fazendo O álbum agora editado. por um lado. parece / And everything was floating / Lots of há dez anos a esta parte que lançou de 20 colaboradores. mais the storm i went down to the basement Canadá. durante a qual os Kronos Quartet num contínuo sonoro com tanto de álbum — e isso não é um feito Mas o centro nevrálgico da obra elevam a sua arte orquestral a dramático quanto de encantador e menor — para algumas das suas é a emoção trazida pelas reflexões níveis quase épicos. com laivos de acontecimentos — All The Things i circular. como tem acontecido ao 4AD. obra politizada.S. com subtis vínculos politicamente. nada de novo. de U. mas na feitura da música tem envolvimento sónico. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. O Apanhados contexto é preciso. PopStock longo das últimas décadas. mmmmm mais uma interpelação afectiva e tocante em forma de música. experiências do passado é que de Meg Remy. O resultado já feito antes: ou seja. Dir-se-ia apenas que. mas ouvindo a acontecimentos dos últimos meses com que. violino e voz de acertou passo com a sua forma de enquanto os arranjos e o balanço obra essencialmente instrumental. A diferença das canções deste Turnbull. mesmo quando é transformada digitalmente. Sorte dela. uma ideia desenvolvida por ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 27 . essencialmente a mulher das aquilo que tiver para comunicar fiberglass plane motorcycle. Mas nunca In A Poem Unlimited o saberemos. daquilo que as palavras Mais uma vez o que é curioso é que universo singular. procurar aqui também leituras ou violência de existir a partir respostas à morte de Lou Reed em de um prisma feminino. já agora. dissolving / All the things i had sua pop sintética. sempre calorosa. no sentido mais O abandono. canção pareça sempre um resulta de uma colaboração entre a indizível. como se nos espaçadamente a voz dela. de jazz-funk e uma Lost in the Flood: Essays on Pictures.A. a mulher das ideias e da das letras Não é tanto uma revisitação à Girls. entender o pensamento paradoxal olha com como resposta aos Remy é. distri. pujante. mas como em na teia política quase todas as narrativas da nova. cada rearranjos ou novas composições. é também um disco sobre a perda e o luto. numa evocação do furação Sandy. uma série de álbuns e ninguém lhe vez.S. tantas vezes a arte do em torno do movimento #MeToo. música. Agora regressa com In A Range e o de Max Turnbull. Language and Code. colabora há muito com ela.S. Vítor Belanciano Landfall Laurie Anderson & Kronos Quartet Nonesuch. uma aqui tudo soa francamente álbuns de Laurie ruminação da mesma. E Anderson a não tivesse passado de um sonho. a ligou muito. como espectáculo é uma longa odisseia — cerca de 70 pop que tentam ser tão um papel importante na multimédia. Meg Remy. Esta é uma filtros. my old keyboards. existindo também um minutos de sons e palavras — que comunicativas como inventivas. interpretação da sonoridade livro agora editado que evoca esses resulta numa espécie de ritual suportadas por letras incisivas orgânica. o que não atmosfera sonora numa procura por claridade. violoncelos dos Kronos Quartet. Já os The Kronos Quartet que foi apresentada que ela tenta formular. Warner Music mmmmm Laurie Anderson: mais uma interpelação afectiva e tocante em forma de música Nos mais significativos tempestade. Dir. O que sabemos é que U. psicadelismo. thirty projectors. 2013. Discos Pop Uma tempestade pacificadora atingiu Laurie Anderson Um contínuo sonoro com tanto de dramático quanto de encantador e apaziguador. Foi a partir de 2015. a raiva ou a universalizante. Em Outubro de 2012 a water. Mais uma desapaixonada ou meditativa. rítmico têm o dedo de Max de ambientes electroacústicos. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. com de Laurie Anderson.

Words.. que Elsinore estará patente em Aniversário — marca a diferença nestes velhos. ou com daquela primeira apresentação. Perezagua. Apesar de espanhola. Nick McCarthy. Tempestade diametralmente oposto ao daquele Franz Ferdinand Domino. que a crueldade. As letras mantêm a explode em groove mecânico e pertinência e a música joga-se guitarra em rebuliço depois da entre contrastes. surge iluminada por néon conto. e não um ser ouvimos como actualização de deslocando sempre o seu humano particular. no lugar de McCarthy. aliás. como em Aquele Que Se a Citizen Kane de Orson Welles na pop electrónica de Rosebud. o ano do homónimo igualitária e humanista do álbum de estreia. a lembrar os The inadaptados a encontrar outros vingança com um fim que tem Chromatics. Em 2015. maldade. alguns momentos de crueldade extrema. nota-se. a mas o tempo não deixou de estas criações da escritora infertilidade” (p. Popstock agora. com o seu órgão inominável. neidade que partilhamos com aparência conciliador. Longe de alguma coisa. de resto. fundo. canção raio de acção do particular julgamento. (Trad. desfaz-se a ilusão. alusões à música disco como em Passeiam-se aqui rapazes Ficção ou nas mais encarniçadas pelejas a M. fica-se com a ideia garage-rock dos Franz Ferdinand). onde a punk em balanço de pista de inspiração.A. Até mesmo um instinto na fundador. laboriosa frio que os preceitos recomendam. é a versão exemplos de abominação.A. na hierarquia familiar. ou ainda na digressão solitários inadaptados e a fazer a Ficções. picada de Huck and Jim corre o cavadas do comportamento ser um elemento agregador. só abstractos e de classicismo para enganar. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. isso era solidária “com aqueles Há neste regresso. a doença (inviamente) exemplares. distri. e avançamos. deixaremos de parte que é a to you”). o último álbum de álbum contradiz o seu título. há solitários do mundo filho como a semente de uma Poem. dotadas de tanto de inesperado como de jazz-funk com algo de improviso festa (Finally. como é o da andaram um par de anos na Esvai-se o entusiasmo em arpejo de Marina Perezagua. os Franz Ferdinand Ferdinand parece impecável em máxima tão válida no tempo de e precisa. A mais radical banda híper-consciente das passar por eles. Ferdinand começaram outra vez. Right Thoughts. Porque é realmente vestindo a melhor roupa dos anos inesperados e de servindo a vingança como o prato uma primeira vez: depois de Right 1980 que sacaram do armário. em conversa agitação. “não há melhor pai do que um mau Há aqui. perderam o seu guitarrista 2018. O demostram que modo análogo. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. ao mesmo tempo estamos 2004 e. no novos Franz Ferdinand: o acentuar mmmmm pai que afasta de si a filha” (p. portanto. capturar a urgência e efervescência lenta como Velvet 4 sale. calibrando as originais (2013). Pode fazê-lo em canções depois — pretendem. transformaram em inspirada e Mas dir-se-ia que neste álbum bem-vinda banda-sonora da época. mas no final. apesar vintage a tremeluzir.131). que parecem vogar em câmara. de existir a partir de um prisma o álbum original catorze anos feminino. que está em O tempo Eleanor put your boots on. como individuais de personagens urdida com grande solidez por formulação inesperada (“the a maternidade. mistura de sons introdução baladeira ao piano. normalmente frustrado. cantando o Ferdinand não cometeriam o erro abandono. que projectam porventura.A.132). quando Darts of mundo. são pertença do Público. e de FFS. Com Julian Corrie. no momento certo. adquire as mais distintas resultado da introspecção. a raiva ou a violência de tentar recriar. em colaboração com os Sparks 2004 e o 2004 dos Franz deve ser estranho a um criador — revelando de forma parcimoniosa (2015). no conto A Alga. imagística que elegem concretizados nos casos que nunca se sai de uma teia há uma canção de amor com temas universais. um do papel que os sintetizadores Nele. mas Marina Perezagua 80s e piano de ascendência análogo na intensidade da infâmia. antes. Perante semelhantes uma fortíssima carga que é Time. sintetizador a rodopiar.H. a do rock e pós. É a espécie. que caracteriza da banda. De ambiente. em guerras destruidoras. arquitecturas pop. com ela. o que se preocupam com o desejo de recomeçar a história. A chegada de todas as pessoas e não apenas as Julian Corrie não alterou mulheres”. Mas claro que não luminoso. pesando os dados. onde uma mãe arquitecta um diabólico plano de gerar um em divagações cósmicas como apontar aos céus pop). o para o universal. já nessa altura apontava que vagueiam entre ruminações que “uma verdadeira feminista é no quarto e hedonismo no clube alguém que se preocupa com cool da cidade. a mesma banda. não o não pode parar de You Could Have So Much Better. há uma filha que visita o pai desejo de assumem entre as guitarras As ficções acamado. Right O problema é que a sequência do construção que A gestão da narrativa procede de Action. a das observações sociais que precedem e se seguem às do vocalista. Sim. os banalidade forçada. ponto por ponto. refrão a Aqui. a ideia músico sedeado na Glasgow natal mais rápido que pode para forçar humano. Um caso entenda-se uma base acústica que. Take me out ou This fire se não é novo. de resto. Livros devolvesse os ambientes de tensão dança. Hugo Pinto espécime. com a compositor Alex Kapranos. Só que não: à medida que Terêncio como na contempora.” O seu empenho político pleasure. atravessem de forma tão vincada a esse apelo até à “crosta seca da São. M. Estes contos maternidade. primeira vez. no inferno Rendeu. da diversidade. entrada num estádio perto de si mais tenebrosa desumanidade. Daí uma parte tão substantiva destes mostram em Always Ascending o — tudo grandiloquência vazia. tudo conflui para um final ainda Assim o indicia o ataque do tema- mais feliz do que no passado título que abre o álbum. guitarrista e condutas de violência. a aparente frieza. baixo a pulsar. que vão desde a obediência Franz Ferdinand são uma banda. o que se encontra sob a segundo álbum dos Franz dos Santos lente inclemente e rigorosa de Always Ascending Ferdinand — por actualização. The academy award. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. Há histórias de uma de todas as abordagens surge. Guilherme Pires) mmmmm Stranglers (e é isso. num inquietante ajuste recuperar a chocalhando febrilmente e a contidas em de contas que aguardará até às vitalidade e o vontade de caminharem mais Tempestade são penúltimas linhas para afirmar em fervor da decididos para a pista de dança exemplos pleno a sua perfídia (a sua justiça?). gravado arranque engana: estamos em nada de humano afirmações. que recente. academy award for good times goes ou o envelhecimento. Os Franz ou aquela que é demasiado real. num álbum magnífico. S. formas. que humanidade. ressalvando que por substancialmente nada disto. contos. os Franz desafiadora e familiar. ou com piscadelas de olho preguiçosos na sua pose blasé dois. nunca Meg Remy. E daquilo que nele há de de maternidade. ou (Lazy boy edit view. ou que lutam contra o repente estamos todos novamente capitalismo e possuem uma visão em 2004. horizontes de inconcebível maternidade ganha foros de uma 28 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . intimidação sexual ou os actos de criador personagens que se assédio a ganharem dimensão movem entre o tédio e o desejo de política. produz resultados tão sombra a tentar perceber o que sintetizador e embatemos de frente constituem uma acção de vários quanto é diversa a poderiam ser e se eram ainda com realidade quando a guitarra espeleologia às profundezas mais individualidade humana.L.

o conto pegará nessa ponta é um dos seus recursos de eleição. palavras que me consolam. A normalização da alicerces sem estruturas. O resultado reivindicar uma total normalização da Perezagua são estratégias é uma ficção que se vê injectada de homossexualidade. para mim. um texto no DN intitulado “E se ser homossexual fosse língua tinha compreendido a Uma vez mais. e sucedimentos do conto nunca heterossexual é o género do objecto de desejo. afinal. Por museus. de na estranha conclusão que marca o díspares. escreveu mesmo num enorme vidro inexistente. indiferença: o homossexual por uma imagética conturbada.42) Quase palpáveis. formas de vida foi o grande trunfo da contos — “A agonia é uma esponja têm na economia narrativa e na a crónica de uma família. o sincronismo de desculturalizada da inclusão a 150% na homogeneidade de todas as ansiedades do mundo. está teu eco. mas os de um nenhum interesse público em saber que o político X é uma quantidade apreciável de cabeça. no qual são (n. na sua Romance onde se misturam capaz de instituir um universo rico de relações e de preenche parte significativa destes intensificação. significa convergindo para o mais vulnerável Homem Só” conduz a uma pouco mais do que isto. o símile (p. O imagismo de Perezagua Yoro (Elsinore.] foi descrevendo” tréguas. O que significa “normalização”? Significa desencontrados que lhe permitem encaminha os acontecimentos por realizar o ideal que consiste em tornar a capturar momentos de definição uma espécie de determinação homossexualidade tão integrada e tão assimilada que se especialmente difícil. ou sobretudo. No entanto. sobrevivente do grande no artesanato da narrativa desastre nuclear. ou por uma fase derradeira da Segunda Guerra Hannah Arendt. indiferente” (só se percebe bem este título falácia da janela» (p. devido à universalidade “eu sou gay”. a técnica de encaixe está da catalã Alicia Kopf.” da historiografia aos documentos e tem de mais importante). que paraleliza-se com o cuidado expandiu e magnificou a história que a autora põe na construção.A. A palavra “gay”. para o romance protagonistas a encontrar um centros urbanos. S. Em Little Boy. deixa de consolidação estilística destas injunções normativas. em semana passada. e a homossexualidade. o Paralelamente a este veio comer dela é. são pertença do Público. para contarem uma homossexualidade. distribuídas ao longo dos cama”. O frenesim que toma situação habilmente paradoxal. Por outro história: Irmão de Gelo (Alfaguara). a letais da ofensiva norte-americana. Felizmente. liberta que estava da rigidez e das que. mas da materialização de uma ideia de quando um polícia mandou parar a carruagem. género. Os contos do “sangue do Japão” (p. para imediatamente acrescentar que isso uma memória de infância que lógica interna das proposições — dos padecimentos. como aquele judeu de que fala de incidências. é a ideia que sempre serviu rentes à condição animal — “nesta uma linha sinuosa que atravessa as plástica como os opressores. ao enfático coming out de Adolfo prodígios da linguagem — Como se permitem-lhe cruzar vários tipos Mesquita Nunes. não tem nada de natural e torna-se criadora de estilos de vida e vulnerabilidade humana. A ideia de uma homossexualidade substancial. Uma vida actos sexuais. inviável ponto de chegada para têm a criação com uma identidade rígida. tornou-se Coitus Ocularis. e este O Nervo formas de existência dominantes). sucessivamente. Retirando-lhe o cálculo fosse uma alga. o meu corpo segue de linguagens e registos. Esse potencial criador de cultura e exposição a todos os perigos que (p. O protagonista é o romances que gente. tal como ela é hoje defendida e telhados destruídos e esparsos pelo corpo do condenado. não da obediência a grande sofreguidão — “Há uns dias. É a lógica despolitizada e crianças são como um concentrado exemplo. quando se tratava Mais do que um conto de A percepcionadas simultaneamente Curiosamente.203) As comparações de testemunhos pessoais. quando se ensopa. que Adolfo Mesquita Nunes não tinha (trad. Mas a luta pelo reconhecimento descrição da aprendizagem absorver. Daí. é indiferente saber com quem é que ele vai para a doentes. de Marina Perezagua são marcados se trata — mesmo se o terrível caso Normalidade. no qual os excessos embutidos na generalidade da ou outra. incubações. a tua boca é a como identidade.” formas culturais. diferença. É com base nela que se evoca uma figura aula que é um campo de batalha a eras e transporta uma semente tema — e ambos recorrem a quase sempre tão irreal como o unicórnio: a fumegar. vazia. debilitados. na força motriz que pinturas. O imagismo de Perezagua ganhou modos de actuação que determinaram o contos como em A Caça de Bonecas paraleliza-se com o cuidado que a sentimental de uma mulher abandono de toda a virtualidade cultural. A imaginação António Guerreiro Tão cool que é ser gay da narradora leva-a “imaginar fornecem uma exploração fotogramas a partir dos detalhes intrépida. foram publicados ser quem sou”. gay. caminho de procura de um método homossexualidade de facto indiferente. procurar uma saída desesperada trespassada pelas consequências Fernanda Câncio. ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 29 . de efeitos mais do que simples torção e (traduzidos do proposições identitárias que fazem as delícias da disseminados através de paragens esventramento da lógica. por excesso inescapável. é. Evidentemente. Este conto constituiu. tão cool e higiénica. num gesto enfaticamente audaciosas. de resto. da argentina María Gainza completamente a possibilidade de encontrar linhas de extremado é. o desconchavo que que o tempo e a lógica se D. Se há aí a reivindicação de alguma repesca um episódio onde se “Na orfandade desta terra em fundo em questões fundadoras. é também.188) Em poucos ficções. porém. por isso mesmo. agita a comunidade. na María Gainza receptáculo. solta e comporá a partir dela o seu O E porventura aquele com o qual tecido narrativo. beijar o mamilo da tua outra personagem. nesta propriedade de familiar trans-histórica que se fixa materiais insólitos. Os fios assunto convoca-me e desafia-me. a base. começam. trata-se. Esta circunstância enunciados destes contos com uma complicadas. viveu refugiado. que satisfaz as exigências de uma espécie humana. praticada (através de uma assimilação caricatural às chão. “Não tenho qualquer problema em devastados por guerras personagem. que vão político-partidário (que é. a única coisa que Tempestade decorre em cenários como se soubéssemos e não em menos de restava de tão enfática entrevista era uma linguagem pós-apocalípticos.” (p. as coisas são muito mais ou acamados. existências destituídas e breves. de uma castelhano) dois homonormatividade e merecem o aplauso de tanta onde os sobreviventes arrastam superação. ou à pública indiferença. Por isso é que eu dizia. Pressupõe-se assim que a única eclosões e um desconforto que tudo gruta onde ressoam as únicas maternidade. moribundos. A obra de arte. em favor da essa fragilidade terá sido tratada de autora põe na construção. provocada por que manipula a ordem natural e a conto —. As artesanato da narrativa. no que busca refúgio nos aspiração a uma existência completamente assimilada forma tão pungentemente eficaz. que aplaudido. isso é apenas uma posição táctica que aspira misturam lagartos.35) Há imagens vasto mundo em redor. afirmou o entrevistado: são estas ilocalizáveis. Neste sentido. 2016). que calam é normal e natural. indiferente. Os acontecimentos da torna indiferente. mundos soubéssemos o destino final da dois meses. pictórica fuga à rigidez identitária e. contorcem para que a narração dos Fernanda Câncio projectou nestas minhas palavras a prolongam-se e extinguem-se na últimos momentos de um mmmmm sua ideia de que eu também estaria a defender a pessoa das crianças. José Riço Direitinho ao modelo heterocentrado.74). O caso mais especialmente patente num conto Ótico. Estação Meteorológica conto e narradora apropriam-se de um mesmo processo.A. resumida a um de Hiroxima. definida apenas derradeiro casal sobejante. mas como ser quem sou”. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. beber do sejam apenas os de uma ou de argumento que ouvimos tantas vezes repetido: “não há fundamental destas narrativas. o de Homo como “Little Boy”. de H. naturalidade.49). glaciação e guerra. A sexualidade está longe de se reduzir aos resulta. paradoxalmente. de chão a espreitar por entre lado. contestando-me. Por isso. uma linguagem. Daí que os coisa que distingue um homossexual de um percorre como um sangue malsino.105) que acrescentando o ponto de interrogação que lhe falta). a vida de pintores. que em Berlim foi patriota germânico a intrínseca estranheza — «Como as Mundial fundem-se com a história 150% e patriota igualmente fervoroso em todos os mãos do mimo que tentam de uma cultura milenar países onde. no fundo. de Maria do Carmo Abreu) conta da acção. 1975). qualquer impulso mórbido.” (p. um discurso. não surge nestes incapaz de qualquer gesto político. Quixote nada a assumir e nada a mostrar. uma análise sem que ela [H. gostava de ter sido os em pinturas uma fala. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. condenado à morte sejam “indiferença” da homossexualidade. serviu para (p.97). de uma olhos dele para te poder ver. atraídas por pontos um dinamismo perturbador. processos no conto “Um Só O Nervo Ótico social. centraliza os circuitos do responsável e respeitável cumpre o seu dever dizendo sinistra distorção. e exactamente de mostrar que. aparentemente “comunidade gay”. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. renegou corpos» (p. uma espécie de (o artístico) que leve as por determinados hábitos de consumo e de lazer nos Uma vez que estes contos balão de ensaio. de seres e acções. de H. da ciência ditaram uma extinção narração inicial acontecimentos romances como cenário ou como esse fechamento do “não tenho qualquer problema em praticamente generalizada da subsequentes ao bombardeamento objecto a ser descrito. Perezagua eleva os seus contos a empregados por Perezagua volto a ele. o que ele à mercê de movimentos alheios. É essa coisa inócua.

é um sobretudo para quem nasce sem estado de espírito.A. e o sucesso é tempos foi bastante rica). os O jogo razoavelmente perigoso anti-bombas”. essencialmente respeitado pelo ela “crítica” e devolvida na forma de de estreia é o uso de materiais Lautrec e a sua doença genética. inédita vezes o inadequado da linguagem agressão a uma patinadora. “ser boazinha aprendizagem sentimental de uma relação possível entre eles. “pensava não necessariamente solidária mas quadros favoritos da narradora: estagnados pela lassidão neurótica que a fama ia ser divertida”. rural. e aos pais que “viviam Margot Robbie dá corpo. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. liga tudo isto com o fio da fruição da oficiais. diz-se logo num dos distância certa para a dar a ver. noite uma prostituta passeia de estilo de falso documentário que maneira de pensar e de agir. Tonya acaba assim por funcionar arte em várias publicações também uma espécie de crónica mas uma daquelas celebridades que como um olhar sobre uma América argentinas. dados no digamos “criticamente”. até a colher o seu misturam pinturas. a principal como refere a narradora de O compôr o romance (eles poderiam Estreia “curadora” dessa obsessão pelo Nervo Ótico: “escrevemos uma também funcionar como contos. oferecendo poética que faz com que. se afastam da os cavalos. o marido e os seus Richard Francis Burton. pelo menos a moral que aos museus. S. banida. não plásticas não é. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. que equivale a dizer que se o filme Alan Pauls. de estar. que em colaboradora do The New York decadência da família da narradora: vez da sua adoração. Alfred de Deux e responsabilidade no incidente. o que de certa forma as num hospital onde faz americana”. e a pontos que a princípio parecem para ser obtido a qualquer custo: descrição de um percurso de desconexos. um banquete oferecido não escapou de consequências contra estas duas. ódio pela disciplina férrea que lhe vida de pintores. contra o qual os privilégios de classe. obviamente. se não a “moral da de sobrevivência leva-me sempre da sua carreira se recusou a história”. reconstrói-as. filme. sem lo. Como diz num grande medida evita a sobranceria e Times — faz para o leitor uma as referência ao antigo palácio da desses depoimentos a Tonya a que consegue estar “lá”. AS ESTRELAS Jorge Mourinha Luís M. por exemplo. sucesso — o sucesso em qualquer coisa para contar outra”. e a Tonya era totalmente sucedido é este: encontrar a textos. Narrativa que é uma uma certa gravidade. em Nova Iorque. “sucesso”. Pelo meio há alguns anos foi uma celebridade.. A saga de María Gainza — que é crítica de experiência estética. também talvez surpreenda neste romance fascínio por ruínas. lá muito. e que durante anos foi social (muitas vezes irónica) da recolhem o opróbrio do público em “feia”. são pertença do Público. mas de um das histórias mais bizarras dos anos aos espectadores todas as pistas romance. e que é dessas pinturas que a narradora milionária. e Eu. é esse quarto em quarto. a ‘arte de museu’ se veja tipo que não admite palavras. episódios da protagonista: histórias que tecem a América “feia”.. María Gainza parte quadros de uma encomenda “Era assim um bocado como a que Craig Gillespie joga. nem foi da maneira que razões. não te leva a lado nenhum” (em I. Tonya “nice gets you shit”. É 90 americanos. a mando da entourage da uma questão de sobrevivência. por decisão os homens. Nancy podem deixar de pensar assim – é nas letras argentinas. em cada serviço de prata Mas a fama. e sobretudo não um primeiro olhar. impõe. e onde durante a depoimentos iniciais. se relaciona com a América: ou se ama ou não se é pelo menos parcialmente bem visita amiúde. esta redutora das imagens — mas ao fazê. Esta como visitar os glaciares ou da equipa olímpica de patinagem as personagens pensam assim e porosidade da literatura às artes atravessar um deserto. María Gainza judicial. Oliveira Vasco Câmara DO PÚBLICO Black Panther – mmmmm mmmmm Chama-me pelo Teu Nome mmmmm mmmmm mmmmm As Estrelas não Morrem. como pressão. o sucesso. como as referências ao por Picasso. o que pintores como Hubert Robert e o cujo ponto de vista é aposta numa certa irrisão. é um olhar sobre a história da pintura. que Com Margot Robbie. Aqueles Luís Miguel Oliveira a pagar pelo sucesso. Gente de gelo coisa (calhou ser a patinagem no gelo) — como única forma de Nervo Ótico um exercício literário mas ao mesmo tempo é um olhar ascensão social. Cézanne. como na guerra as entregar ao luxuoso hotel Four mmmmm domina entre as personagens. de certa forma e a Courbet e o mar. Tonya último plano sugere que há é um retrato distorcido dessas qualquer coisa a salvar dos obsessões a funcionar. de todas as competições comparsas. a crónica íntima relação entre uma vida e as que evita a sobranceria. pois onze capítulos que acabam por a mãe (Allison Janney). numa atitude espécie de ‘visita guiada’ aos avó. Tonya e a mãe (a pintura. Sem acabou aí. A escritora argentina fez de O histórias independentes). E com Tonya nunca deixa apenas dirige o nosso olhar e em cada palacete. De Craig Gillespie Bueno Aires como uma espécie de sentido. escombros: talvez a ideia de que o em primeiro lugar. e transforma-as em estada do marido da narradora grande fã. em cada estátua esperava. no seu experiência espiritual. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. são desafiante com que a deixamos no dos seus autores. de se verem refletidos no passado. um passeio drásticas: a carreira de patinadora “comédia” está mais reservada para diário do aventureiro e explorador de El Greco. como se não houvesse Eu. rural. desajeitados e nem por 1867 subiu o rio Paraguai. não ensina. Cinema sentido para as suas vidas. que em artifícios literários. Isso é muito factos e as circunstâncias podem bem dado na relação entre Tonya e pouco. A funcionar. e outros. pessoas corriam para os abrigos Seasons. por exemplo. afinal de contas. Toulouse. O (e muito bem) César Aira e também Depois há ainda as histórias de sua rival Tonya Harding. Tonya jovem mulher que usa os museus de começam aos poucos a fazer tradução livre e menos vernacular). o “regard-caméra” relaciona-os com episódios da vida de bronze. Tonya mmmmm mmmmm mmmmm The Florida Project mmmmm mmmmm mmmmm A Forma da Água mmmmm mmmmm mmmmm Linha Fantasma mmmmm mmmmm mmmmm O Nosso Último Tango mmmmm – – Olhares Lugares mmmmm mmmmm mmmmm Pequena Grande Vida mmmmm – mmmmm The Post mmmmm mmmmm mmmmm Cada um dos onze capítulos que acabam por compôr o romance é 15:17 Destino Paris – – mmmmm um olhar sobre a história da pintura a Mau mmmmm Medíocre mmmmm Razoável mmmmm Bom mmmmm Muito Bom mmmmm Excelente 30 | ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 . como se o ódio fosse o preço da família da narradora (que em pinturas que a marcam.A. Tonya. “Talvez olhar enforma a narrativa contada por perder de vista uma certa empatia e aproveitamento da possibilidade da para um Rothko tenha algo de Craig Gillespie. nunca se coloca contra as diferentes que. Poucas artística que teve climax na porque é que. já o tinha feito se torna tão óbvio. mas suas personagens. a do conflito dentro para que se perceba porque é que transformada em arte literária. “redneck”. diz-lhe ela numa cena de diálogo refúgio existencial: “o meu instinto a história de Rothko. e pelo menos durante isso muito inteligentes). Cada um desses próprio ou alheio”.” Kerrigan. mmmmm mmmmm mmmmm Eu. liberta de uma presença algo quimioterapia. Não foi capaz de compreender as suas mas não os explica. Fujita. Allison Janney. É assim. Está disposta a em forma de romance onde se sobre a história pessoal da Um olhar sobre uma tudo pela filha. que no auge Sebastian Stan que revela. sempre negou a sua comédia. obsessões americanas. provavelmente.

mulheres da vistoso. são pertença do Público. sem competências classe média americana. E a gente rica revela. e se toda a humanidade carreiras. é limpeza. entregues. que vive com De Alexander Payne. E o que a classe média Juan Carlos Copes é uma presença É uma vitória de Baker que o americana vê é essencialmente. vamos continuar a ser contada de forma vistosa desarmante retrato do quotidiano Parecendo que não. e The Pequena Grande Vida — e que às Dito assim parece que Pequena aguente. humano não vai realmente nunca sentimentos e falhas. quase mmmmm que sobreviver de ordenado a possibilidade de relançar a sua imperceptível. é um tipo ou a entrevistar María. Christoph Waltz. mas que o filme pareça desesperado. mas apenas como ferramentas para criar uma realidade convincente. vamos todos andar a fazer que se recusa a infantilizar as dupla lendária do tango argentino. no papel do gerente oferece também uma vantagem relação romântica com o parceiro. a possibilidade de coreografias. o seu No poupar é que já existia antes. também este passou ao lado dos a redução de tamanho na verdade Filme vistoso mas com pouca substância: O Nosso Último Tango mas é frustrante ter material deste Óscares que lhe seriam melhor não resolve nada. tantas até seja gentil em demasia Grande Vida é um filme prática de ficcionar a realidade distópico-apocalíptica sobre — . Mas revezam a encarnar o par. alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social. e é por isso que A fama. levando-nos a questionar as é o que a classe média americana vê precisamente porque não opções de uma sociedade que se como possibilidade nesta nova consegue entretecer as duas recusa a olhar para os menos tecnologia criada para o bem da O que a classe média americana vê: Pequena Grande Vida abordagens. ípsilon | Sexta-feira 23 Fevereiro 2018 | 31 .M. enquanto María abre “força da natureza” que é finalmente poderem viver como o jogo e mostra-se disposta a falar Brooklynn Prince. são os pobres white as manias da grandeza da Ein letzter Tango capriano para quem a redução de que se trata. O documentário está afortunados com a dignidade que humanidade por uma equipa cheio de “omissões” temporais — eles merecem. a gentil consumistas e gananciosos e de transsexuais em Los Angeles está o ganho fábula distópico-apocalíptica de obcecados pelo estatuto social. mas sem estrutura que a rodado com um iPhone.A. amiguinhos para os pára-brisas dos miniaturização celular é monta o seu filme como um carros do motel vizinho. O que ele quer mostrar instância. Bria Vinaite visuais que são necessários à criação deste mundo futuro a mmmmm dois tamanhos não estão lá para encher o olho ou fazer vista. É um filme María Nieves e Juan Carlos Copes. são obsessões americanas e Eu. claro. Com Matt Damon. jardineiros… e eis a mania por trás do qual há muito menos obra – e é um olhar sobre a América das grandezas da classe média substância do que parece — não é que merece ser arrumado ao lado americana a vir ao de cima. são seres chega para pagar a hipoteca muletas que não compensam os desamparados por uma sociedade multiplica-se à medida que o “buracos” que o documentário que lhes prometeu ilusões e não foi tamanho se reduz. que são de projecto de German Kral de realidade pelos olhos de uma miúda Downsizing brutalmente pragmática. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados. sobretudo da mais cínica. com entrevistas de desembaraçada que viaja pelos as mudanças climáticas: reduzindo María e Juan. conhecemos a cuspir com os Grande Vida propõe. finalmente. do motel que percebe que estas económica. cumprir as funcionar Lições de tango promessas que já então sentíamos tem qualquer coisa de A história de uma dupla deslumbrante. contudo. o realizador de Os são igualmente filmados a ensaiar verdade sobre o mundo que a Descendentes e Nebraska. Baker chegara perpetuar o mesmo status quo que nossas opções profissionais). reduzida às entrevistas. a mãe solteira que não tem Hong Chau mudar. de facto. cada dia é apresentada como uma solução híbrido inclassificável: uma base uma aventura e uma descoberta ecológica para a sobrepopulação e documental. lendária do tango argentino. mmmmm da fava rica (tanto nas nossas espectadores. preferindo levar a Astaire que deu novas cartas de alugando à semana um quarto num decisões pessoais como nas sua premissa a um corolário nobreza ao género. realmente saber do ambiente e que Kral e a sua equipa captam bem. a consciência pura da nossa The Florida Project humanidade enquanto membros De Sean Baker de uma comunidade. escandinava. e que o faz sempre ordenado. Brooklynn sintoma disso é que os efeitos Kimberly Prince. ambos já para pardieiro. pelo um ser humano de tamanho. à qual se vem condomínios abandonados. é com assinalável respeito pelas Há algo genuinamente sedutor no fazer-nos ter consciência desta subterraneamente de uma lógica personagens que cria. porque o do que Andrea Arnold fez com a provar que ninguém quer tango tem uma força anímica que American Honey. e Payne de deitar fora. lógico e deixando a quem vê a tarefa de perceber o que aqui se Continuam joga — e que é. contar em filme a história de de seis anos: Moonee. Kral. O “truque” de Baker é Pequena Grande Vida vida e o seu casamento. a sua sobrepôr uma recriação de quiosque dos gelados ou pelos pegada ecológica é infinitamente momentos-chave das suas descampados por trás do motel. Em última rodeia se começa a infiltrar no esquinado. o sucesso. com uma visão O Nosso Último Tango americana para a qual ninguém como um zé-ninguém quase negra do futuro. encenada através de quando está bem estabelecido que fosse reduzida poder-se-ia coreografias interpretadas por esta miúda à solta está a viver uma contribuir para a renovação do tangueros contemporâneos que se infância normal (mesmo que em ecossistema planetário. e de gente rica – a redução de tamanho de tudo menos da sua complicada Willem Dafoe. Pode-se sentir que Alexander Payne não conseguiu fazer exactamente o filme que a sua premissa merecia. Não por acaso. mas há que dizer olha: aqui. que No futuro próximo que Pequena lá dos 80 anos de idade. mostrou Prince of Broadway já lá vão uns aninhos). antes se limita a e ficar-se por isto. a miúda. fascinante. S. Tonya é um retrato distorcido dessas obsessões a vê-lo. e que condições precárias) é que a Alexander Payne. altiva. pois o dinheiro que não E as cenas de dança tornam-se em pessoas são pessoas. sedutor. Kral falha filme. J. próximo com Tangerine. O melhor Com Willem Dafoe. que acompanha Matt Damon desesperado. O ser facto pessoas com ideias. apenas. Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. Documentário de German Kral tamanho é ao mesmo tempo a fábula doce-amarga com um profissionais para fazerem mais do Jorge Mourinha salvação financeira e a humor seco. discreto. a argentino radicado na Alemanha. de uma trash. Tudo sem precisa de criadas. A sensação é a de um filme capaz de lhes dar nada. Jorge Mourinha Florida Project prolonga a sua Uma gentil fábula Capriano.A. Só reduzida. emprego fixo e se porta mais como os mesmos erros até vir a mulher suas personagens e os seus espécie de Ginger Rogers e Fred uma irmã adolescente mais velha. filme não se torne panfleto social: como diz às tantas uma personagem mantendo-se distante das novas dele e dos actores. mas mesmo espalhando-se é uma tentativa bem sincera de fazer uma Já conhecíamos o nome de Sean comédia que ponha as pessoas a Baker dos idos do IndieLisboa (que pensar. Para Moonee.

alterados ou distribuídos salvo com autorização expressa do Público – Comunicação Social.pt parquesdesintra . Os direitos de propriedade intelectual de todos os conteúdos do Público – Comunicação Social S. Os conteúdos disponibilizados ao Utilizador assinante não poderão ser copiados.parquesdesintra. são pertença do Público.A.A. S. 4.ª TEMPORADA DE MÚSICA DA PARQUES DE SINTRA | 4TH PARQUES DE SINTRA MUSIC SEASON Serões Musicais Fotografia: PSML | Luís Duarte Design: PSML | Ana Esteves/Joana Nina no Palácio da Pena MUSICAL EVENINGS AT THE PALACE OF PENA MARÇO 2018 MARCH SALÃO NOBRE | 21:00 GREAT HALL 02|03 Mar Trio Pangea 17 Mar Cecília Rodrigues João Paulo Santos 09|10 Mar Mariana Castello-Branco Dora Rodrigues 23|24 Mar Sónia Alcobaça Diogo Oliveira Mário João Alves João Paulo Santos João Paulo Santos 30 Mar Karen Cargill Simon Lepper Produção | Production Media partner > 6 anos de idade | years old www.

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