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CANDIDO, A. A educação pela noite & outros ensaios. 2a. ed.

São Paulo: Ática,


1989.

CANDIDO, A. Literatura e subdesenvolvimento. In: ______. A educação pela noite


& outros ensaios. 2a. ed. São Paulo: Ática, 1989, p. 140-162.

“Em nosso tempo, uma catequese às avessas converte rapidamente o homem rural à
sociedade urbana, por meio de recursos comunicativos que vão até à inculcação
subliminar, impondo-lhe valores duvidosos e bem diferentes dos que o homem culto
busca na arte e na literatura.
Aliás, este problema é um dos mais graves nos países subdesenvolvidos, pela
interferência maciça do que se poderia chamar o know-how cultural e dos próprios
materiais já elaborados de cultura massificada, provenientes dos países desenvolvidos.
Por este meio, tais países podem não apenas difundir normalmente os seus valores, mas
atuar anormalmente através deles para orientar a opinião e a sensibilidade das
populações subdesenvolvidas no sentido dos seus interesses políticos. É normal, por
exemplo, que a imagem do herói de far-west se difunda, porque, independente dos
juízos de valor, é um dos traços da cultura norte-americana incorporado à sensibilidade
média do mundo contemporâneo. Em países de larga imigração japonesa, como o Peru e
sobretudo o Brasil, está-se difundindo de maneira também normal a imagem do
samurai, sobretudo por meio do cinema. Mas é anormal que tais imagens sirvam de
veículo para inculcar nos públicos dos países subdesenvolvidos atitudes e ideias que os
identifiquem aos interesses políticos e econômicos dos países onde foram elaboradas.
Quando pensamos que a maioria dos desenhos animados e das histórias em quadrinhos
são de copyright norte-americano, e que grande parte da ficção policial e de aventura
vem da mesma fonte, ou é decalcada nela, é fácil avaliar a ação negativa que podem
eventualmente exercer, como difusão anormal junto a públicos inermes.” (CANDIDO,
A. Literatura e subdesenvolvimento. In: ______. A educação pela noite & outros
ensaios. 2a. ed. São Paulo: Ática, 1989, p. 145.)

“numa civilização massificada, onde predominem os meios não-literários, paraliterários


ou subliterários, como os citados, tais públicos restritos e diferenciados | tendem a se
uniformizar até o ponto de se confundirem com a massa que recebe a influência em
escala imensa. E, o que é mais, por meio de veículos onde o elemento estético se reduz
ao mínimo, podendo confundir-se de maneira indiscernível com desígnios éticos ou
políticos, que, no limite, penetram na totalidade das populações.” (CANDIDO, A.
Literatura e subdesenvolvimento. In: ______. A educação pela noite & outros ensaios.
2a. ed. São Paulo: Ática, 1989, p. 145-146.)

“Visto que somos um ‘continente sob intervenção’, cabe à literatura latino-americana


uma vigilância extrema, a fim de não ser arrastada pelos instrumentos e valores da
cultura de massa, que seduzem tantos teóricos e artistas contemporâneos. Não é o caso
de aderir aos ‘apocalípticos’, mas de alertar os ‘integrados’ para usar a expressiva
distinção de Umberto Eco. Certas experiências modernas são fecundas sob o ponto de
vista do espírito de vanguarda e da inserção da arte e da literatura no ritmo do tempo,
como é o caso do Concretismo e outras correntes. Mas não custa lembrar o que pode
ocorrer quando manipuladas politicamente do lado errado, numa sociedade de massas.
Com efeito, apesar de no momento elas apresentarem um aspecto hermético e restritivo,
os princípios em que se baseiam, com recurso à sonoridade expressiva, ao grafismo e às
combinações sintagmáticas de alto poder sugestivo, podem eventualmente torná-las
muito mais penetrantes do que as formas literárias tradicionais, funcionando elas como
instrumentos não-literários, mas por isso mesmo mais penetrantes, junto a públicos
massificados. E não há interesse, para a expressão literária da América Latina , em
passar da segregação aristocrática da era das oligarquias para a manipulação dirigida das
massas, na era da propaganda e do imperialismo total.” (CANDIDO, A. Literatura e
subdesenvolvimento. In: ______. A educação pela noite & outros ensaios. 2a. ed. São
Paulo: Ática, 1989, p. 146.)

CANDIDO, A. Literatura de dois gumes. In: ______. A educação pela noite &
outros ensaios. 2a. ed. São Paulo: Ática, 1989, p. 163-180.

“Traçar um paralelo puro e simples entre o desenvolvimento da literatura brasileira e a


história social do Brasil seria não apenas enfadonho, mas perigoso, porque poderia
parecer um convite para olhar a realidade de maneira meio mecânica, como se os fatos
históricos fossem determinantes dos fatos literários, ou como se o significado e a razão-
de-ser da literatura fossem devidos à sua correspondência aos fatos históricos.
A criação literária traz como condição necessária uma carga de liberdade que a torna
independente sob muitos aspectos, de tal maneira que a explicação dos seus produtos é
encontrada, sobretudo neles mesmos. Como conjunto de obras de arte a literatura se
caracteriza por essa liberdade extraordinária que transcende as nossas servidões. Mas
na medida em que é um sistema de produtos que são também instrumentos de
comunicação entre os homens, possui tantas ligações com a vida social, que vale a pena
estudar a correspondência e a interação entre ambas.” (CANDIDO, A. Literatura de dois
gumes. In: ______. A educação pela noite & outros ensaios. 2a. ed. São Paulo: Ática,
1989, p. 163.)

“a ligação entre a literatura e a sociedade é per|cebida de maneira viva quando tentamos


descobrir como as sugestões e influências no meio se incorporam à estrutura da obra —
de modo tão visceral que deixam de ser propriamente sociais, para se tornarem a
substância do ato criador.” (CANDIDO, A. Literatura de dois gumes. In: ______. A
educação pela noite & outros ensaios. 2a. ed. São Paulo: Ática, 1989, p. 163-164.)

“Justamente pelo fato de manter relações com a realidade social, a literatura incorpora
as suas contradições à estrutura e ao significado das obras.” (CANDIDO, A. Literatura
de dois gumes. In: ______. A educação pela noite & outros ensaios. 2a. ed. São Paulo:
Ática, 1989, p. 167.)