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linguagem, psicomotricidade
e processos do pensamento.
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Enquanto
o futuro
não vem
A Psicanálise na
clínica interdisciplinar
com bebês
Julieta Jerusalinsky
© da autora, 2002
© Ágalma, 2002
1' edição: agosto de 2002
Projeto gráfico da capa e primeiras páginas
Homem de Melo & Troia Design
Editores
/'. J-;:)
- n. Angela Baptista do Rio Teixeira
Marcus do Rio Teixeira
Ana Paula Piano Simões
j SbG Direção desta coleção
Daniele de Brito Wanderll!J'
Com a colaboração de
Marie-Christine LaZf1ik
A Daniel Bramatti,
Revisão
a cargo dos editores por seu amor, por seu humor.
Depósito legal
Impresso no Brasil/ Printed in Bra'{jl
Todos os direitos reservados

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Ágalma Psicanálise Editora Ltda AGRADECIMENTOS
Rua Agnelo de Brito, 18 7
Centro üdontomédico Henri Dunant, sala 309 Aos colegas do Serviço de Estimulação Precoce do Hospital Durand de
40.170-100 Salvador - Bahia,.Brasil Buenos Aires, especialmente a Jorge Garbarz, Mirtha Kuperman, Mari Aranda
Tel: (Oxx) 71 332-8776 Telefax: (Oxx)71 245-7883 e Sylvia Fendrick, pelas acaloradas discussões em que a clínica sempre tem algo
e-mail: agalma@agal111a.com.br mais a ensinar-nos.
site: www.agahna.com.br
Ao Centro 4Jldia Coriatde Porto Alegre e ao Centro Dra. Lydia Coriatde
CIP-BRASIL CATALOGAÇAO-NA-FONTE Buenos Aires, por transmitir, cada um a seu estilo, o trabalho em equipe
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
interdisciplinar.
J54e A Fernando Maciel, por sua interlocução durante a elaboração do
J erusalinsky, Julieta, 1971 - . , . , . texto; a Elsa Coriat, Silvia Molina e Alfredo J erusalinsky por terem, após a
Enquanto o futuro não vem : a ps1canalise na clínica leitura, incentivado a publicação.
interdisciplinar com bebês
/ Julieta Jerusalinsky. - Salvador, BA : Ágalma, 2002 A todos os professores da FEPI e a sua diretora Stella Paez, pelo
. - (Calças curtas ; 3) apoio à produção.
À Associação Psicanalítica de Porto Alegre - .APPOA - e ao Percurso
Inclui bibliografia
Psicanalítico de Brasília, por uma transmissão em que a psicanálise pode ousar
ISBN 85-85458-19-4
na interlocução com outras disciplinas, levando-nos a interrogar
1. Lactentes - Psicologia. 2. Psicanálise infantil. 3. permanentemente os limites e possibilidades em sua extensão a diferentes
Psicoterapia infantil. . . . campos clínicos.
1. Título. II. Título: A psicanálise na clínica interdisciplinar
Aos colegas da equipe interdisciplinar do CEPAGIA, Brasília, com os
com bebês. III. Série.
quais compartilhei diversas experiências decisivas para a produção deste escrito.
02-1191. CDD 618.928917
CDU 159.964.2-0 53.3
SUMÁRIO

Prefácio - Sohre o tempo, estímulo e estrutura, 11


Aogela Vorcaro
--h 1. Situando a clínica com hehês, ;p
A infância, os bebês e o surgimento da estimulação precoce, 27

2 Impasses do "estímulo" na clínica com hehês- da exercitação repetitiva ao _


-;;li> exerctczo
, . ua
J }' -
unçao materna, 46
QQ.es.tímulo sensorial à rede significante materna,.52
O lugar do"'estímulo" na clinica com bebês a partit do corte epistemológico
1
da psicanálise, 58

3 Estimulação precoce?.Educação precoce? Intervenção precoce? - problemas


epistemológicos na nomeação de uma especificidade clínica, 66
!' 4 Temporalidade na clínica com hehês, 79
A articulação dos três registros do tempo na clínica com bebês, 83

5 Entre dois nomes, a certeza de um diagnóstico (caso clínico), 96


Da universalidade da síndrome à singularidade de seus efeitos na fantasia
materna, 101
O sintoma parental e o lugar do bebê, 104
Do que se escuta no discurso parental e do que se lê na produção do bebê, 105
Intervenção em ato na clínica com bebês, 11 O
Sustentando a singularidade do bebê, uma e outra vez, 111

6 A demanda de tratamento na clínica com hehês - quando ofuturo fica em


xeque, 114
Quando a pergunta pelo futuro apresenta uma duplicação, 116
Reconhecimento, filiação e diagnóstico, 119
Um pequeno rei com o futuro em xeque é trazido a tratamento, 122
O saber do clínico face ao futuro do bebê, 126

7 A interven Eg_do clínico no marco da estimulação precoce,\ 132


A "loucura necessária" do clínico na intervenção com bebês, 132
O circuito de desejo e demanda, 136
Quando o circuito de desejo e demanda encontra uma fratura, 139
Articulando as vicissitudes pulsionais do bebê ao circuito de desejo e
demanda do Outro, 140
L
A intervenção como o estiramento da corda pulsional do bebê, 145 11 É possívelprevenir ou só resta remediar?, 224
r;·
j .8 fremporalidade e desenvolvimento, 149 - Prevenção secundária na clínica com bebês, 225
Prevenção primária na clínica com bebês, 235
Crescimento, maturação e desenvolvimento, 150
Critérios para detecção precoce de problemas no desenvolvimento e na
Limites impostos pela passagem do tempo cronológico ao
constituição psíquica, 245
desenvolvimento, 152
Diferentes modalidades de intervenção para a detecção precoce, 256
O que a passagem do tempo cronológico não resolve quanto ao
desenvolvimento, 154 ~i)Clínica com bebês: da estrutura ao nascimento do sujeito, 258
Organismo e marcas simbólicas, 156 / · O bebê e a estrutura edípica, 260
Parcialidade da pulsão e sujeito do inconsciente, 157 Considerações acerca do conceito de estrutura em psicanálise, 266
1

Da parcialidade pulsional à antecipação de uma imagem do corpo, 159 • A estrutura psíquica e suas temporalidades, 276
Da antecipação do Outro encarnado à precipitação de uma realização do A temporalidade implicada na constituição de um bebê como sujeito face
à estrutura, 283
bebê, 160
"Vamos brincar enquanto o futuro não vem, 294
Função paterna e constituição na infância (recorte clínico), 163
Sobre os diferentes momentos lógicos implicados na constituição do
sujeito, 165
Desenvolvimento como linha imaginária construída aposteriori, 167
A autoria de uma aquisição instrumental e a subversão do desejo, 171

9 (.)_bebê e o sintoma,_174
Diferenciando o mal-estar dos pais de efetivos problemas na constituição
do bebê (recorte clínico), 175
Quando o bebê apresenta um sintoma que torna necessária a intervenção
clínica, 181 i

._ Sintoma do bebê ou no bebê?, 185

1 OPedro e o escorregador- o que deslizri quando bnncamos- (caso clínico), 194


Do quadro orgânico à leitura clínica do sintoma, 195
Do encaminhamento médico à formulação de uma demanda parental, 199
Intervindo com o sintoma de Pedro e com sua articulação ao sintoma
parental., 201
O tratamento como abertura de um lugar e um tempo para as produções
de Pedro, 204
Da posição de impotência à delimitação do impossível, 207
Realização psicomotora, reconhecimento e surgimento do sujeito, 210
Realização instrumental como precipitação do sujeito e como ato simbólico, 216
·~ A repetição própria do brincar e o acesso ao simbólico, 219
A mudança na primazia de zona erógena, 220
Deslizamento significante e estiramento da corda pulsional, 223
PREFÁCIO
SOBRE O TEMPO, ESTÍMULO E ESTRUTURA
Angela Vorcaro

O texto que agora se dá a ler é profundamente instigante.


Com sua honestidade intelectual, Julieta Jerusalinsky se permite a
capacidade de interrogar o aparentemente óbvio porque já instituído,
fazendo vigorar o fato de que as graves psicopatologias infantis nos
convoquem a problematizar a teoria psicanalítica levando-a a avançar
a partir do que, na clínica, nos interroga.
Estas constatações tornam impossível ficar alheio à articulação
entre tempo, estímulo e estrutura elaborados pela autora. E nos
levam a interrogar a presença desses termos em nossas próprias
hipóteses de trabalho, e no que há de imaginário em nossos
operadores clínicos.

Além disso, os leitores que se dispuserem a enfrentar essas


questões encontrarão nesses escritos o prazer da leitura agradável e
provocativa que problematiza a capacidade operatória da teoria
psicanalítica nos confins da clínica com bebês, evidenciando a trilha
que amarra suas hipóteses, o crivo de sua crítica e a clareza de sua
competência clínica. Assim, além de nos oferecer um exemplo de
autoria, tal leitura nos proporciona também a vontade de distinguir
nossas próprias modalidades de engajamento à teoria e à clínica.
Mas o que se mostra mais surpreendente é que aquilo que
aqui comparece como escrito repete o que se revela na interlocução

11
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PREFÁCIO

direta com a autora, com a mesma generosidade com que ela acolhe na condição de mãe, ser desejante. Diante desse desejo, uma criança
e discute cada hipótese teórica, cada acontecimento clínico ou não é indiferente, pois ele autoriza a máscara da repetição do gozo 1 •
institucional.
Portanto, a alteridade, na condição de mãe, incita e franqueia
Localizando tempo, estímulo e estrutura, distinguidos e o gozo na criança. Mas, já que sua condição de ser falante impede
articulados pela autora num mesmo gesto, e ainda, ao recolher, do reproduzi-lo, ela convida a criança a simulá-lo, com a linguagem, na
texto non-sense cifrado por bebês, o testemunho de haver ali linguagem repetição que é, sempre, máscara do que teria havido. E nfim, nessas
posta em funcionamento, Julieta Jerusalinsky me oferece aqui a relações primárias, a mãe age sobre seu filho de modo a, num só
possibilidade de resgatar alguns apontamentos sobre a homologia tempo, inseri-lo na linguagem e permitir ao gozo ousar a máscara
entre a escansão temporal e a instalação da estrutura significante no da repetição. Fazendo-se de órgão extra-corpóreo da criança, ela
organismo, dos quais situo meu testemunho: ·reconhece as urgências vitais e simula a equivalência destas à decisão
que toma quanto a significação que teriam. A mãe faz, de si mesma,
Há alguns anos, lidando com crianças fora da função da fala
o instrumento da vivência de satisfação do filho, na medida em que
que, a despeito de ferirem-se, batiam-se incessantemente, não podia
ela se prende ao que a própria natureza orgânica da criança oferece
desconsiderar as questões: que espécie de usufruto da vida é este,
como suportes dispostos em oposição. A natureza, diz Lacan,jornece significantes
que insiste em reproduzir o afeto de dor no corpo, como se apenas
que estruturam e modelam a organização inaugural das relações humanas. O
as sim, com esse gozo, a singularidade da sua vida fosse comemorada?
jogo operatório do significante inclui o sei~ e age de maneira pré-suhjetiva 2 •
Como é possível que a criança insista em machucar-se, mesmo diante
de todas as outras ofertas que ela recusa? Trata-se de um exercício É com a materialidade oferecida por sua própria natureza
subjetivo nessa recusa às palavras e nessa incidência do afeto de dor que o organismo sofre os efeitos de sua desnaturalização desde
ou de uma alienação plena? que a ordem simbólica implantada pela mãe passe a regular sua
economia. O orga nismo tomado pela mãe como ser passa a
Lacan nos lembra que nada sabemos sobre o gozo do
obedecer a uma univo cidade de signos, pressupostos por sua mãe
organismo porque, sem a mediação significante, vivo e gozo se
1 como partilhados com seu filho, numa linguagem capaz de realizar
equivalem. Por iss o, a noção de instinto nos é tão cara. Afinal, com o
uma fu são com ele. Tal linguagem sígnica assegura imaginariamente
termo instinto, podemos nos referir a um saber do qual não se é capaz
a comunicação exata com seu filho 3 . Nessa perspectiva é que
de dizer o que isso que1~ mas que se presume que tenha como resultado que a vida
Melman 4 afirma que o termo Outro-erotismo poderia ser o nome do
subsista.
auto-erotismo, na medida em que a criança goza d o corpo que,
O bebê humano é guiado pela intervenção da alteridade que entretanto, é território dti Outro. O Outro é o corpo infinito
significa o organismo e assim desfalca o instinto vital de sua plenitude. representado na origem pela mãe, corpo que a criança não pode
Afinal, co nduzido unicamente por seu fluxo , a condição de
insuficiência do organismo o mataria. A alteridade opera a perda
1
do gozo instintual inserindo-o no campo da linguagem. Seus Jacques Lacan, O Semi11á1io, livro XVIL O avesso da psicanálise, J. Z.E., RJ, p.73-4.
2
cuidados são interpretações em atos simbólicos, cujos sentidos são J.Lacan (1964), O Seminá1io, Livro X I, Os q11atro co11càtosji111damentais da psicanálise,
imperativos por arbitrarem valor, constringindo a pureza do gozo J. Z .E. , RJ , p. 25.
1
· Charles Melman, Que;tions de clinique PSJ'Cha11alytiq11P, Séminaire de l'année 1985-
da vida, ao acolhê-lo, emoldurando e decidindo sua significação.
6, 10 de outubro de 1985, AFI, Paris.
Por isso, o desempenho da função materna depende de a mulher,
+Charles Melman, opus cit, 12 e 19 de dezembro de 1985, AFI, Paris.

12 13
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PREFÁCIO

conter ou apreender, mas, ao contrário, a contém. O corpo próprio que comanda a presentificação do assujeitamento do ser, o lado desse
é, portanto, de início, lugar propício ao gozo do Outro, gozo privado vi'vo chamado à suijetivação 8 que dispõe do funcionamento sincopado
que se oferece à criança como Dom. antes de engajar-se na linguagem ou de aí localizar um semelhante9.

Ao permitir que o filho estabeleça com ela uma condição Qualquer determinação de 'st!feito depende do discurso. Há um
parasitária, a mãe franqueia ao gozo a ousadia da máscara da discurso tecido na prática de articulação significante, tramada pelo
repetição: lendo como significantes e estabelecendo o sentido do saber daquele que agencia a função materna diante de um organismo.
texto orgânico do filho, ela o ultrapassa, antecipando um sujeito, ao Assim, o organismo é dito ser pelo agente materno, ou seja, ser que
mesmo tempo que estende, instala e atribui à criança a posição não sabe dizer, de seu próprio lugar <<eu sou>>, mas que é dito
indeterminável de um sujeito do gozo 5 . de outro lugar: <<ele é>>. Desse lugar, inicialmente, todos os
. significantes se equivalem,_ jogando apenas com a diferença de cada
Por isso, os objetos de satisfação oferecidos à criança alojam-
um com todos os outros (não sendo, cada um, o que os outros
na em uma posição de alienação plena, onde se inscreve somente o
são). Mas uma modalidade de ligação significante se distinguirá
registro de uma diferença entre dois estados que se recobrem. A
completamente e instalar-se-á aleatoriamente, pelo uso específico
possibilidade do apaziguamento permitir a cessação do estímulo
de um significante qualquer tomado dessa articulação já presente.
adverso que provoca tensão faz funcionar a alienação numa
alternância de reciprocidades que se opõem ao mesmo tempo em Como a mãe é um ser falante, o próprio funcionamento
que se anulam, e portanto, se equivalem. Não há descontinuidade ritmado da alternância, operada por ela, acaba por realizar uma
nessa circularidade. A relação de mera oposição alternante sobrepõe- defasagem que se inscreve entre os termos diferenciais, fazendo
s e em continuidade recíproca. A diferença posta em jogo de incidir lacuna, alteridade real, na relação rítmica em que um termo
alternância é renovação em que a possibilidade da ausência é segurança anulava o outro alternadamente. Afinal, diferentemente da criança,
da presença. Por não implicar existência positiva, apenas reenvia à ainda infans, a mãe está totalmente submetida à língua, ou seja,
relação entre termos quaisquer, logicamente anteriores às funciona sob a lei do significante, que não equivale a nenhum outro
propriedades dos termos presença e ausência que não,têm nenhum significante, nem a si mesmo.
valor determinado, nenhuma significação, mas que se determinam O desencontro entre os termos alternantes marcará a exclusão
reciprocamente na relação diferencial em que se reenviam um ao de um destes, cortado pelo adiamento ou pela precipitação da
outro. A manutenção dessa alternância recíproca pela mãe permite alternância, introduzindo a equivocidade entre mãe e criança. Diante
a relação com a presença sohre o.fundo de ausência e com a ausência na medida desse oco da defasagem temporal, o iefans ocupará a posição vazia
em que esta constitui a presença 6 . por meio do grito, substituindo o termo sustentador da alternância,
Agenciando a máscara da repetição do gozo, a maternagem 7 que não compareceu em seu lugar, onde já podia, pelo
dá suporte a esse tempo mítico só posicionável retroativamente, funcionamento alternante, ser esperado.
após sua falta. Este funcionamento simbólico acéfalo do organismo
A relação de oposição presença-ausência, sustentadora da
é o leito estrutural necessário em que se situa a cadeia significante
alternância que articulava os termos é rompida. A hiância acidental
na sustentação dessa primeira estrutura simbólica, em que falta o
5
]. Lacan, Seminário X, A Angústia, inédito, aula de 13/03/63.
6
J. Lacan(l 956-7), Seminário IV, A refação de objeto, J.Z.E., p.186.
8
J. Lacan (1964), Seminário XI, op. cit., p.194.
7
Cf. J. Lacan: Semináiio ·vn (A Ética da Psicanálise) e Sm1i11á1io XX ( Mai,~ ainda ). ' Idem, Ibidem.

14 15
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PREFÁCIO

que ainda não está representado, pontua o encontro faltoso, fisgando grito de apelo com o que preencheria o oco. Isto que se desprende
o ser antes que ele possa figurar o que escapa a sua apreensão. Instaura- como grito, que se separa do infans passando por um orifício do
s e a situação de privação 10 , antes de o sujeito ser subjetividade, corpo, ultrapassa a função fonatória do organismo, é referência
primeiro passo e ponto mais central da estrutura da identificação do s1geito 11 • invocante, resquício de um objeto indizível, que faz dessa emissão o
Na condição de privação, algo falta em seu lugar, <<há um nada que não pode se dizer. Assim, o sujeito aparece no que lhe faz
ali>>. alteridade: no que o primeiro significante - o grito - incide como
A falta, portanto, só é apreensível por intermédio do já sentido, significante unário que, por só poder se prestar a intimar
estruturado (do simbólico), onde algo inominado falta na posição uma recuperação, não se faz equivaler a ela, apenas traça sua falta.
esperada. O grito que se faz apelo ao retorno da coisa alternante é Esse uso específico de um significante estrutura o suporte
corpo que se oferece ao que falta na alternância simbólica. Assim, n1.ítico ultra-reduzido em que o ser sustenta-se, equivalendo-se a
na dupla de termos alternantes, a incidência de uma falta localizará esse significante, que toma como si mesmo.
a impossível sustentação da automaticidade tensão-apaziguamento.
Tal saber mítico não subjetivo de ser idêntico a seu próprio
A articulação da criança no registro do apelo a situa entre a noção de
significante é, para Lacan, fato definível, em estrutura. Afinal, a partir
um agente que participa da ordem simbólica e o primeiro elemento
da separação de um significante-mestre, esse significante se define no
de uma ordem simbólica - o par de termos opostos em cadeia.
organismo perdido pelo indivíduo biológico, para orientar a
O apelo, assumindo função antes de ser percebido como tal constituição do corpo onde se inscreverão todos os outros
e antes de se distinguir um eu e um não-eu, é atualização, na significantes. Por isso, para Lacan, Urverdrâng quer dizer que há, na
experiência, da estrutura mínima do significante, que agora incidirá estrutura, uma ligação significante completamente radical: o elemento
no infans como real, traçando o recalque originário. de impossibilidade como fato de estrutura. Esse impossível é o
A estrutura se diferencia, assim, num ponto singular, em que real, que surge como o escolho lógico daquilo que, do simbólico,
a diferenciação significante estrutural é uma intervenção (adia e se enuncia como impossível.
precipita) temporal que desnaturaliza o Outro. É nesse ponto da primeira ligação - do S1 ao S2 - que
Essa condição de falta demarca um lugar, introduzindo um abre-se a falha chamada sujeito, falha onde os efeitos da ligação
traço. No momento em que a criança encontra a falta num dos significante operam. Produz-se uma cadeia que induz e determina
termos da estrutura simbólica constituída por alternância do casal essa posição de sujeito.
primitivo de articulação significante, a coisa desconecta-se de seu Assim, um significante qualquer vem em posição de significante-
grito, elevando-o à função de demanda no grito-significante-da- mestre, com a função eventual de representar um sujeito para todo
coisa. O grito enlaçado pelo pequeno como apelo de urgência diante outro significante. Este significante único, o significante-mestre, opera
da falta opera a primeira substituição do infans: a falta faz deslizar o por sua relação com os significantes presentes já articulados ali,
articulando-se a eles ao ordená-los. Entretanto, o sujeito que ele
tu A tríade Privação-Frustração-Castração refere-se às modalizações da falta de e
representa não unívoco. Está e também não está representado:
objeto. A privação é a falta real de um objeto simbólico, a frustração é o dano algo fica oculto em relação a esse mesmo significante, pois a
imaginário de um objeto real e a castração é a falta simbólica de um objeto imaginário. linguagem deixa as coisas nessa hiância. Pode-se denominar essa
11
J. Lacan (1961 -2), Semi11á1io IX, L'1de11tiftcation, aula de 07 /03/62, inédito.

16 17
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PREFÁCIO

híância de real efeito de linguagem, e o termo pai real 12 a qualifica O significante, então, se articula por representar um sujeito
melhor, considerando o que Freud 13 aponta da identificação ao pai junto a outro significante. Essa definição permite dar sentido à
como sendo absolutamente primordial. O pai preside a essa repetição inaugural na medida em que ela é repetição que visa ogozo. Ela
primeiríssima identificação 14 , em que não se trata do Um unificante, não é um efeito de memória biológica, mas relaciona-se ao limite
mas da identificação pivô, ou seja, o traço unário, o ser marcado como do saber, que quer dizer gozo.
um.
Essa perspectiva permite retomar a pequena interrogação
A criação repetitiva inaugural parte da impotência original da clínica que apresentei, relativa à comemoração da dor, e que Lacan
criança, onde o significante-mestre se produz de qualquer significante. se refere ao falar da fantasia de flagelação 15 . Esse estado de gozo
Ali, alguma coisa falta - e é justamente isso que, de saída, caracteriza diferido do gozo narcísico mostra que a relação de objeto antecede
o sujeito. Basta dar ao traço unário, 51, a companhia de um outro o. narcisismo. Afinal, identifrcada ao oijeto de gozo, a criança porta a
traço, S2, para que, sendo significante também lícito, o traço da falta glória da marca, antes de sua constituição narcísica. O gozar assume aí
situe o sentido do sujeito e sua inserção no Outro. a ambigüidade da equivalência entre o gesto do Outro que marca e o
Na medida do funcionamento da linguagem, ela se corpo tomado romo objeto de gozo: Gozo de quem porta a glória da
demonstra pelos seus efeitos que são sempre retroativos. Assim, ela marca, gozo do Outro. A consistência da imagem especular na qual
manifesta que ela é falta a ser. a linguagem é demanda quefracassa; não é seu o narcisismo se edifica é sustentada por esse objeto perdido, que ele
ê:xito, mas sua repetição, que engendra a dimensão da perda. apenas veste, por onde o gozo se introduz na dimensão do ser do
sujeito. É apenas por um acidente que o gozo entra em ação.
Não se trata, portanto, do filtramento de sensações de
aparelhos e órgãos vitais. Certamente os órgãos filtram e nos Mas interessa notar que já é referido a uma estrutura matricial
servimos deles, mas é na articulação significante que entram em significante mínima, ou seja, temporalizada numa escansão ritmada
jogo os termos de soletração, termos elementares que enlaçam um que articula e alterna dois termos, que ele se distingue e se produz,
significante a outro significante, e que já produzem efeitos, posto mesmo que visando a máscara da repetição plena. E é desse lugar
que esse significante só é manipulável em sua definição por~ue tem que é possível ao clínico criar uma extensão, uma outra inscrição
um sentido, ou seja, ele representa, para outro significante, um sujeito, significante que mediatize e diferencie um corpo, no limite entre
e nada mais. gozo e organismo.
O texto de Julieta Jerusalinsky nos apresenta os modos
12
temporais de diferentes registros, em ciclos que reciclam um resíduo
O pai real difere do pai da realidade imaginado como o privador. A posição
estrutural do pai real como impossível tem como efeito que o pai seja imaginado onde reside o que, do sujeito, comparece. Distinguir essa condição
necessariamente como privador. Sua imaginarização deve-se ao que escapa: o pai é fundamental para que o sujeito se aparelhe com a linguagem,
real. ultrapassando o gozo acéfalo que permite manifestar-se no campo
13
Em Psicologia das Massas e Análise do E11 (1921) . simbólico. É com tal distinção que a intervenção psicanalítica, na
14
O pai é aquele que merece o amor, pois a identificação primária não é aquela que clínica com bebês, pode incidir para acolher a produção de outros
liga a criança à mãe, como querem muitos analistas. Essa discordância é, segundo ciclos. Mais ainda, esta intervenção, feita do movimento provocado
Lacan, construída pela confusão causada por esses analistas não se referirem a
configurações primordiais do discurso. Para Lacan, a configuração subjetiva tem,
pela configuração significante, uma objetividade perfeitamente localizável, que
funda a possibilidade da interpretação. Cf. Sem. XVII, O Avesso da Psicanálise. IS J· Lacan, Seminário XVII, opus cit.

18 19
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM

pelo texto no campo psicanalítico, me convidou a dar aqui meu


testemunho ao leitor, certa de que, a partir da leitura, ele poderá
também oferecer o seu.

São Paulo, Julho de 2002

SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

- O quê? O senhor submeteu criancinhas à análise? Crianças com menos


1
de seis anos? Isso pode serfeito? E não é muito arriscado para as crianças?
A interpelação acima, dirigida a Freud, data de 1926. Se, mais
de sete décadas depois, já não causa tanta surpresa o tratamento de
crianças em idade escolar, ainda há certo sobressalto quando se fala
2
em intervenção com pequenas crianças e bebês.
- Estimulação precoce? O que isso quer dizer? É uma pergunta
escutada inúmeras vezes por aqueles que se dedicam a tal intervenção
clínica.
~- definir_ o marco da estimulação precoce como a clínica
~-b-~~§ ~ p_equenas crianças que apresentam problemas dç:
~~~tuição psíquica e de des~nvolyimento - relativos às aquisiç§_es
de psicomotricidade, linguagem e aprendizagem :-• constatamos
~e: no mterlocutor interessado, tal esclarecimento costuma despertar
outras interrogações:

1 Sigmund Freud (1926), A questão da análise leiga, E.S.B., vol. XX, Rio de
Janeiro, Imago, p. 244.
2 Fiz referência a esta questão no artigo O pé esquerdo do academicismo - sobre

bebês, psicanálise e estimulação precoce, Psicanálise, outros lugares para uma escuta,
Correio da APPOA, nº 83, Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 2000
(N. da A.).

21
20
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

- Mas os bebês têm problemas? Quei- dizer.. . desculpe, não me entenda Então há algo de paradoxal quando nossos diversos
mal, mas épossível ter problemas tão cedo na vida? E, afinal, o que um clínico ·10 tcrlocutores
.
leigos interrogam atônitos se é possível que um bebê
.
podeJàzer com um bebê? tenha problemas. f ois ao mesmo tempo err: que prolif~ram técruc:1s
e pLtblicações dedicadas a adequar o bebe como objeto de gozo
É curiosa a insistência com que tais questões continuam a do social, continua a despertar desconcerto que se reconheça -:-
comparecer desde o social, principalmente se levarmos em conta a porque, _e_y_icl_çntemept~~ .. taf!tO_menqs se q~er saber disso - que e
atual explosão editorial dedicada à puericultura e desenvolvimento, possível, sim, ter problemas tão cedo na vida e que tais ~roblemas
assim como a proliferação de técnicas e atividades dirigidas a bebês. não se restringem a questões orgânicas de base, mas tambem podem
kJ Hoje em dia parecem não bastar a formação e os cuidados . ser relativos à constituição psíquica do bebê e ao modo como tal
que um bebê recebe ao conviver com as pessoas de sua família ou ~onstituição incide no funcionamento das suas funções orgânicasJ
ao freqüentar uma creche até o tempo em que se tornará uma , ~ Como nos indica F~eud, se os. be~ês são depositários d~s
pequena criança e começará a ter uma educação formalizada sob o 1 esperanças de transcendênoa e reahzaçao parental, tan~o mais
modo de currículo escolar. Cada vez mais cedo e em maior número, 1 doloroso resulta, pelo narcisismo neles depositado, que se1am eles
1
atividades dirigidas vêm superlotar a agenda dos bebês, fazendo os atingidos por um problema, que se1am eles os que padeçam de
deles uma espécie de pequenos executivos sem tempo a perder ( uma dificuldade.
quanto ao "aprimoramento de suas aptidões" 3 . Ao entrar em uma
loja de brÍnquedos resulta praticamente impossível - ou no mínimo _ Mas quando e como um hebê é encaminhado a tratamento?
soa como uma pretensão anacrônica - comprar algum com a simples
ilusão de que um bebê possa vir a se divertir com ele, pois para ;{- Os bebês são trazidos a tratamento quando, em algum
cada mínimo chocalho, cordel ou cubo de espuma encontramos na ponto, falham em relação ao que deles era esperado, quando .º
embalagem uma lista de recomendações acerca do seu úso e da ) nascimento do bebê, o comu~cado do diagnóstico da pat~logia
suposta aprendizagem que tal objeto propiciaria ao bebê. que ele apresenta, ou o exerc1cio da materrudade ou pater.rudade
j com ele, produzem um sintoma, um obstáculo, um. padecimento
Podemos vislumbrar nisso um novo sintoma social no que
( neste circuito de realização de ideais sociais e parentais.
tange à infância: os pais correm atrás das mais diversas possibilidades
para "superequipar" o quanto antes seus pequenos filhos na esperança Assim a clínica com bebês fica situada justamente no avesso
de melhor prepará-los para o futuro. Enquanto isso, proliferam desses best-seUe~ d;aco-;;~elhamentos a pais ~"técnicas estimulantes
técnicas que se propõem a favorecer a potencialização de talentos e de aptidões do bebê", não só porque ocorre a partir.do. pont~ em
a acelerar as aquisições dos rebentos. que os ideais sobre a maternidade, a paternidade e a primeira mfanc1;i
encontram um fracasso em sua realização, mas porque o trabalho
~ Evidentemente, o laço pais-filhos está permeado pelo sintoma clínico diante de tal fracasso opera pela escuta, sustentação e
social de cada época ._-S.~a. mo na nossa, a promessa do quando VOJê
intervencão
. dos interrogantes
. pelos quais cada pai e mãe ficam. d
/!.!!!.er.. . fica conjugada à ameaça de um não há lugarpara todos, parece
singularmente implicados c~m o seu filho, em lugar de partir 0
não restar tempo a perder na preparação de um bebê para uma
aconselhamento anônimo. \
inserção social cada vez mais calcada na corrida do triunfo individual.
. ~. e.O encaminhamento de um bebê para avaliação ou trata:nento
'Abordei esta questão no artigo Bebês ou pequenos executivos, Boletú11 do CEPAGIA, /'\ d profissionais que
em estimulação precoce ocorre quan o os
n. 2, Brasília, CEPAGlA, 1998 (N . da A.).
23
22
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

co_rriqueiramente .lid_am ~om a infância - pediatras, neurologistas, f importância clínica de, diante de um problema do desenvolvimento
onentadores educac10na1s, entre outros - alertarn__que há algo que l ou de constituição psíquica, não deixar o tempo passar para intervir.
~ J ~-ª!!.~ª-b~_!l2_ com o bebê ~ que o problema por ele ap.~
No entanto, a implantação de serviços clínicos
'f" } ex~eds9 âmbito d9 acompanhamento médico e educacio~e
i, rottna interdisciplinares de estimulação precoce foi e ainda vem sendo
realizada desde a iniciativa isolada de algumas equipes dedicadas à
Às ve~e~,_!ª1_~g~~rpá~af!!g:i1Q_oc9_rre após o diagnóstic.oAe intervenção com bebês 4 , uma v.:z que tal prática ainda não se
um problema orgânico no bc::~ê; Q_~tras \Tezi:s ss: deve à pre~~-nsa de- constituiu como uma diretriz governamental de saúde pública
sf~os clínicos que se m~nifest:_am ~a produção espontânea de~t;;- ~ preventiva.
qu~- esc_aptlm aos parâmetros _tomados como referê~e
Em diferentes países da América Latina, lamentavelmente,
r:or~~dade em nossa cultura, ainda que não _ç_onstitµam _diagnósticos
ainda há muito a ser feito -no sentido de uma política de saúde e
-~~finidos de quadros patológicos plenamente configurado_s)
educação ~riyjJ.ç:gi~. .a._i_n.tei:vençª-_o _e .~etecção precoce de
Assim, chegam até nós pacientes com indicações de ~ble~~s 12ª c(_)nsti~~ção psíquica e desenvolvim~~-tci"5) Atualmente
tratamento por causas bastante amplas: ''._síndrome genét;ka"~ ~'.ksã~ é bastante grande o contigente de crianças que, com uma idade que
Q~1:'.:9l<)gica", '~malformação coºgên,ita",__'. ' c!_eªs;~ncia sensorial", varia entre os seis e nove anos, é encaminhado a tratamento por
"~ç_iência física", "atraso global do desenvolvimenJQ", orientadores educacionais. Ao recolhermos a história clínica de tais
"i_~_!Uridade generalizada", '.'aJraso ,:;em causa.s orgânicas defjnidas", crianças logo se percebe que, em muitos casos, os problemas por
-j:.> '\90.du.tas atípica( f:_"problemas na relação mãe-bebê" são alg~iis elas apresentados vinham se instalando e agravando há tempo.
dos mais recorrentes. Também chegam bebês e pequenas crianças -3* Porém, é somente com a entrada na escola que se estabelece um
que apresentam sintomas aparentemente restritos a um determinado momento decisivo quanto ao olhar que o social dirige à criança que,

t
aspecto da vida, pelo qual o funcionamento de uma função específica até então, fica, nesses países, quase que exclusivamente sob a
passa a ocorrer de modo patológico - por exemplo, nos distúrbios responsabilidade do núcleo familiar.
do sono, da alimentação, da deglutição, do controle esfincteriano~
da respiração, entre outros. 4
Podemos citar, neste sentido, a experiência realizada em Buenos Aires, Argentina,
desde 1993, pela Red Interhospita/aria de Esti11111!ación Temprana, que consiste na
É inegável que as práticas interdisciplinares favore_ceram-e.
implantação de serviços de estimulação precoce em diversos hospitais públicos.
fa_vor~-q~e, ~ada vez mais,-- aqueles profission_<l_~~que Ver: M. Terzagui e M. Pedemonte (1996). Clínica da estimulação precoce no
_normalmente intervêm com a infância possam detectar nos bebês hospital público, Esctitos da Criança, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto
e pequenas crianças os primeiros sinais que apontam riscos quanto Alegre (N. da A.).
ao seu desenvolvimento e constituição psíquica. À medida em__g~ 5
No Brasil, somente em 1997 entrou em vigor uma legislação de educação na qual,
clínicos especialistas em estimulação precoce passaram a intervir no pela primeira vez, são contempladas as crianças menores de três anos. Em alguns
,âmbito da Saúde r- junto a pediatras, enfermeiros, neonatolo~as; organismos estatais ou fundações realizam-se intervenções denominadas como
"Educação Precoce" e "Estimulação Precoce", mas não há ainda uma política
obstetras - ~f .no â~bito _da _Educaçãg - junto a professores e
pública que torne efetivamente ampla e generalizada, desde a Saúde ou Educação,
psicopedagogos, ~o realizar o trabalho de inclusão ou a precoce detecção e intervenção com bebês que apresentam problemas do

L acompanhamento de crianças pequenas com problemas de


~esenvolvimento no ensino - foi possível ir inscrevendo a
desenvolvimento e constituição psíquica. Na Argentina, se bem que tal prática
ocorra publicamente pela intervenção realizada desde o âmbito da Educação nos
"Gabinetes materno-infantiles", ainda não está regulamentada desde a área da
Saúde (N. da A.).

24 25
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

- l':> _ ..J O problema da detecção precoce e do encaminhamento para Assim, entre o nascimento no hospital e a entrada na escola,
· · tJ!atamento em estimulação precoce se dá, então, em dois níveis: freqüentemente, deixa-se passar ~~lllPº que é deci~~v:o para ª·
constituição psíquica ~d_esenvolvimento de bebês e pequenas crianças
- D primeiro relativo à falta de circulação, nos locais onde_o_s que, na maior parte dos casos, só vêm a ser aten'didos quando os
peb_ês §ão normalmente acompanhados (em çreches e serviços de P roblemas apresentados encontram-se muito mais cristalizados e
1 '
pe.diatria, por ex~mplo).J. d_e.. alguns conhecimentos clínico-teóricos estruturalmente, mLÚto menos sensíveis a possíveis modificações pela
_5~~9_a_11:_1en!a~s para a detec_ção precoce de problemas de constit~. intervenção.
r_síquica e des~nv_ohjp1ent9. \
A infância, os bebês e o surgimento da estimulação precoce
Ocorre que tais conhecimentos clínico-teóricos não se
Por mais evidente-que possa resultar-nos atualmente a diferença
restringem aos oferecidos pelas diferentes formações acadêmicas
que existe entre um adulto constituído e uma criança em constituição,
de base intervindo de modo isolado, sejam elas pediatria, pedagogia,
sabemos que nem sempi;e o "sentimento da infância'\ a sua
fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, entre outras. 'ó,Q..tratar-se/
da intervenção com a infância, e ainda mais com bebês, torna-se/ representação foi a mesma. Daí que seja preciso situar o bebê e o
necessária uma prática clínif a interdi~_c;_ir::ilinaJ
surgimento da estimulação precoce enquanto disciplina dentro de
_,)
uma dimensão histórica.
-tç· J\,çlínic.a interdisciplinar em estimulação precoce, nos lugares
onde ela ocorre, tem se revelado extremamente favorecedora da Hoje em dia, espera-se desde o ideal social que o nascimento
circulação de tais conhecimentos. ) A especificidade desta praxis de um bebê -"sua majestade o bebê'', como situa FreucF -
permitiu estabelecer um olhar e uma escuta clínica cada vez mais comporte um grande investimento narcísico por parte dos pais em
1 apurada na detecção dos primeiros sinais que despertam alerta quanto relação a este bebê recém-chegado ao mundo. As famílias costumam
li depositar no nascimento de um bebê a possibilidade de
a possíveis problemas de um bebê. Possibilita, deste modo, uma
; mudança , no eixo do acompanhamento da infância, que passa a transcendência da morte pela transmissão dos ideais ao filho, zelando
,.) assim pela saúde, educação, formação e constituição desse pequeno
l
, ficar mais c~ntrado em propiciar a um bebê com problemas as
condições para sua constituição, c:;m lugar de intervir apena..s Qi~_te
_de um quadro pat9lógic_o plenamente configurado. \
bebê.
Mas esse modo do laço de pais e filhos é bastante recente.
Foi _somente na passagem da sociedade medieval à sociedade
- p segundo nível do problema diz respeito a que, ainda. tl1oderna que ocorreu a organização do núcleo familiar em torno
qu,ando os médicos detectam p1~oblemas d.e desenvolvirn~ntc;:> no da criação e educação das crianças. Na sociedade medieval, a duração
Q.ebê que exigiriam uma intervenção específica em estimulação
da infância era reduzida ao seu período mais frágil, enquanto o
\
.v:. ~
pre coce, tropeça-se com a carência de serviços públicos
especializados no atendimento ao bebê e crianças pequenas aos quais
filhote do homem não conseguia bastar-se. Mal a criança adquiria
desembaraço físico, era logo misturada aos adultos e partilhava de
, seja possível realizar encaminhamentos. 6
'-
seus trabalhos e jogos. De criancinha pequena era transformada
6
Como nos demonstra a expe1iência de intervenção em postos de saúde, UTI pediátrica imediatamente em homem jovem. 8
e neonatal e como também pudemos constatar nos pilotos da pesquisa para
? Sigmund Freud (191 4), Introducción ai narcisismo, O.C, vol. XIV, Buenos
estabelecimento de Indicadow para a detecção p1uoce de riscos no desenvo/i!imento infantil
realizados no Posto de Saúde Butantã, em São Paulo, no ano 2000, e no HUB de Aires, Amorrortu, p. 88. A citação completa é retomada na nota 2 do capítulo
Brasília, em 2001, com a colaboração dos profissionais de tais serviços pediátricos e de Temporalidade e clínica com bebês (N. da A.).
um extenso grupo de pesquisadores coordenados por Josenilda Caldeira Brant e Maria ' Philippe Arries (1973) , A Histó1ia Social da Família e da C1iança, segunda edição,
C1istina Kupfer, junto ao Mi1ústério da Saúde do Governo Federal (N. da A.). füo de Janeiro, Guanabara, p. 10.
26 27
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

"Se a arte medieval representa a criança como um homem · para serem cidadãos". Ao mesmo tempo em que a familia foi se
em escala reduzida (...) a criança era portanto diferente do homem, nucleando como um lugar de afeição necessária entre cônjuges e
mas apenas no tamanho e na força, quanto às outras características entre pais e filhos, passou-se a atribuir importância cada vez maior
permanecia igLtal (...) a criança era um anão, mas um anão seguro à educação. Os pais passaram a interessar-se pelos estudos de seus
de que não permanecerá anão, salvo em caso de feitiçaria." 9
filhos e a acompanhá-los com uma solicitude habitual nos séculos
XIX e XX 13 • Cada criança foi se tornando, assim, única e
Quando a criança sobrevivia aos primeiros anos,
insubstituível.
freqüentemente passava e viver em outra casa que não a de sua
familia de origem. A familia tinha por missão a sobrevivência que Ao mesmo tempo em que a familia passa a nuclear-se em
individualmente era impossível, praticava um ofício comum, assim torno de uma aposta narcísica de transcendência de sua realização
como ajuda e proteção mútua da vida e honra. Ali o amor não era na criança, desde o social também passa a se fazer da formação da
necessán·o à existência nem ao equilíbrio da família; se existisse, tanto melhor. 10 criança uma aposta por "um mundo futuro melhor". Assim, a partir
do início do século XX, tratamentos passam a ser aplicados às
"um sentimento superficial da criança - "paparicação" - crianças quando algo neste circuito de realização fracassa.
era reservado à criancinha em seus primeiros anos de vida enquanto
ela ainda era uma coisinha engraçadinha. As pessoas se divertiam Desde a ciência, i!S diferentes disciplinas, tomando como cerne
com a criança pequena como com um animalzinho, um de investigação seus respectivos objetos cienúficos, começaram a
macaquinho impudico. Se ela morresse então, como muitas vezes interrogar-se sobre as peculiaridades que estes assumiam na infância,
acontecia, alguns podiam ficar desolados, mas a regra geral era não uma etapa da vida que, desde o aspecto anátomo-fisiológico, se
fazer muito caso, pois uma outra criança logo a substituiria. A caracteriza por funções que ainda não estão constituídas, mas em
criança não chegava a sair de uma espécie de anonimato." 11 um tempo de constituição. Começa então a ser estabelecido um
conhecimento sobre o processo de desenvolvimento e a serem
Se nas civilizações antigas havia uma educação formal dirigida , configuradas diferentes modalidades de fntervenção diante dos
aos jovens, na Idade Média, mais do que educação dirigida a formar problemas apresentados na infância.
as crianças, havia um convívio indiferenciado destas com os adultos,
que assim lhes comunicavam seu savoirfaire e o savoir-vivre. 12 É interessante notar que as primeiras técnicas de intervenções
terapêuticas são inicialmente estabelecidas tomando como ponto
À medida em que a infância começou a ser representada de referência a experiência com a perda de determinadas funções
como uma etapa diferente da vida adulta, também foi se criando em adultos e a sua reeducação. Parte-se da suposição de que o processo
uma resposta que, desde o social, viesse a dar conta dessa diferença. de reaquisição no adulto que havia perdido uma função seria
Surgiu assim, a partir do final do século XVII, a escola. Tal instituição semelhante ao da aquisição na infância. É somente num segundo
passou por diversas modificações, mas manteve o seu caráter inicial momento que se estabelece o estudo e conhecimento acerca das
de "formar moralmente indivíduos que ainda não estavam prontos características próprias da infância, sendo considerada a diferença
entre intervir com um adulto e com uma criança, pois, ao intervir
9
Idem , p. 14 e 15. com crianças, passa a ser necessário saber da legalidade que rege as
w Idem, p. 11, 17, 18 e19. aquisições durante o desenvolvimento.
11
Idem, p. 10.
13
12
idem, p. 16. Idem, p. 12.

28 29
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM SITUANDO A CLÍNICA COM BEBf:<:S

O modo pelo qual se deu conta da diferença entre crianças e ·coordenação nas ações de um bebê. 16 O desenvolvimento está
adultos implicou no surgimento de diversas escalas que passaram a atrelado à constituição psíquica e, portanto, ao laço que um bebê
estabelecer a correspondência entre determinadas idades e ou criança estabelecem com o Outro. 17
determinadas aquisições. A partir delas, foram desenvolvidos testes Percebe-se, deste modo, que há diferentes modos de conceber
e técnicas com o objetivo de avaliar o desempenho da criança e - processo de devir adulto de uma criança. Tais diferenças têm
0
ao compará-lo com tais escalas estabelecidas - indicar se estaria efeito no que se propõe como tratamento e intervenção diante de
situado do lado da "normalidade" ou da "patologia". um problema que se apresenta na infância.
Em outras palavras, poderia se dizer que tais técnicas vêm Certamente um grande passo científico foi dado ao diferenciar
~valiar até que ponto uma criança se adequa ao que dela se espera. um adulto constituído de uma criança em constituição. Foi justamente
E uma tentativa de tornar mensurável, através de testes aplicados, a 0 reconhecimento dessa diferença que deu lugar ao surgimento de
medida dessa "adequação" ou "inadequação'', aplicando, a partir especialidades dedicadas à infância, tais como pediatria,
daí, técnicas reeducativas com o objetivo de sanar o dijicit apresentado. 14 neuropediatria ou psicanálise de crianças. Mas há outra diferenciação
que, apesar de bastante mais sutil, é de grande importância clínica:
Mais adiante encontramos a possibilidade de situar a produção
trata-se do reconhecimento das características próprias da primeira
de um bebê ou de uma criança desde estágios de desenvolvimento, ou
infância, ou seja, do que situa a diferença entre um bebê e uma
seja, desde os passos que fazem parte de seu processo de aquisição.
criança.
Isto permite que a intervenção passe a proceder não mais desde
um modelo reeducativo (de adequação e inadequação, de certo e O modo como os pais ficam implicados na vida de um
errado), mas a partir de uma leitura que permite situar a produção bebê, a forma com que se fazem presentes os padecimentos e as
e o problema da criança, assim como as ofertas que podem vir a manifestações patológicas de um ser que ainda não fala, são
favorecer suas conquistas, dentro de um processo de aquisição cada peculiaridades que exigem que um bebê e uma criança sejam situados
vez mais complexo. Este é um efeito clínico propiciado, por exemplo,... de modo diferenciado desde o enquadramento clínico. Pois, ainda
pela Epistemologia Genética de Jean Piaget. 15 que o tempo de ser bebê faça parte da infância como um todo, as
características desse primeiro tempo da constituição exigem uma
Situamos ainda um terceiro marco no que diz respeito ao intervenção que contemple clinicamente a especificidade apresentada
tratamento e intervenção com crianças com problemas no pelos bebês.
desenvolvimento: trata-se do corte epistemológico operado pela psicanálise,
desde o qual constatamos que o processo das aquisições instrumentais Foi diante da necessidade de dar esse passo que nasceu a
clínica interdisciplinar em estimulação precoce, fortemente vinculada à
que constituem o desenvolvimento não é independente da
importância que a detecção e intervenção precoces têm na evolução
constituição psíquica. O desenvolvimento não ocorre por
clínica de um bebê que apresenta problemas em seu
automatismos desencadeados pela mera passagem do tempo e seus
desenvolvimento e constituição psíquica.
efeitos na maturação no organismo. Tampouco é pelo mero encontro
16
com o real que se desencadeiam estruturas epistêmicas de progressiva É aí que reside a fundamental diferença entre o paradigma da epistemologia
genética e da psicanálise em relação ao desenvolvimento. Ver: Alfredo Jerusalinsky
(1988), Psicanálise e desenvolvimento infantil, cap. 2, primeira edição, Porto Alegre,
14
Zulema G. Yanez (1990), Desde o verbo de Nicolás, Escritos da cn'ança, nQ 3, Artes Médicas (N da A.).
Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre. 17
Este aspecto é retomado e mais amplamente discutido no capítulo Temporalidade
15
Jean Piaget (1972), E! nacimiento de la inteligencia en e! nino, Madrid, Aguilar. e desenvolvimento (N. da A.) .

30 31
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

A estimulação precoce surgiu como especialidade clínica há da realização diagnóstica, pouco mais havia para se oferecer além
aproximadamente 30 anos, ao longo dos quais vem inscrevendo os dos controles médicos de rotina. 19
efeitos de seu trabalho no campo da intervenção com problemas
Foi a clínica que impôs a necessidade de estabelecer uma
do desenvolvimento infantil. Seu surgimento se dá em um lugar
intervenção específica que sustentasse, junto ao bebê e à sua família,
fronteiriço com o de várias outras disciplinas, com as quais se faz
as condições que possibilitam a constituição psíquica e o
necessária uma permanente interlocução, dado que seus
desenvolvimento. Por isso, apesar de que inicialmente foram recebidos
conhecimentos são fundamentais para o trabalho com bebês 18 • Tal
bebês com síndrome de Down, logo começaram a chegar a
é o caso da neurologia e da genética em relação ao processo de
tratamento em estimulação precoce bebês acometidos por diversos
maturação no início da vida, da lingüística e da fonoaudiologia para
outros problemas, com ou sem quadros orgânicos de base, que
compreender a aquisição da linguagem, da psicopedagogia e da
tampouco eram contemplados desde as praxis de outras disciplinas.zo
epistemologia para compreender o processo de aprendizagem e
construção do pensamento, da fisioterapia e da psicomotricidade Deste modo, o surgimento e a sustentação de uma prática
para conhecer a legalidade e estabelecimento dos movimentos do clínica interdisczplinar em estimulação precoce se deu a partir da possibilidade
corpo, e da pediatria com seu saber sobre a puericultura. de reconhecer que a intervenção de um bebê com problemas e sua
família implicava uma especificidade da qual não havia como dar
Mas, ao mesmo tempo em que todas estas disciplinas
conta de modo isolado desde os diferentes campos teórico-clínicos
dispunham e dispõem de conhecimentos fundamentais para a
!á estab~lecidos, e de que a questão tampouco se resolvia por uma
intervenção com bebês, foi na lacuna deixada entre suas praxis que
justaposição multidisciplinar dos mesmos.
se fundou tal especialidade, situando o bebê no cerne da intervenção
clínica. - Para que tratar se oproblema apresentado não tem cura?
Com o avanço científico, não só propiciado por \
- Como intervir se o diagnóstico orgânico ou o quadro patológico do bebé
conhecimentos que foram possibilitando a realização de diagnósticos não estão plenamente configurados?
clínicos mais acurados, como também pela importância decisiva
que o progresso tecnológico foi ganhando nesse processo, foi sendo - Que tratamento indicar quando um bebé tem diflmldades em ván.as
possível realizar cada vez mais cedo a precoce detecção de patologias áreas do desenvolvimento?
orgânicas. Mas, uma vez que os médicos e os pais passaram a ter
Estes são questionamentos que se repetem uma e outra vez
acesso a diagnósticos orgânicos precoces, encontraram-se com um
vazio quanto à possibilidade de uma intervenção clínica que prov~nientes do ambiente médico, do social e do parental, e~
relaçao a bebês que apresentam problemas de desenvolvimento.
contemplasse a especificidade apresentada por um bebê com
problemas de desenvolvimento. 19c
omo traz o seguinte testemunho: Assim que o co1po médico soube que em algum luuar
Esse foi o caso de bebês que, no final da década de 60, estudava-se a síndrome de D 0111n, os pacientes
· "
compareceram em massa, porque os profissionais
tinham finalmente diagnosticada geneticamente a trissornia no par encontra~am-se desvalidos diante da afecção de seus pacientes ou fiamiliares. (. .. ) Nem a
reeducafª.º e!.'asszca,
d · nem as medicações
. habituais evitavam a profunda deterioração da maioiia
21 como causa da síndrome de Down. Naquele momento, além
estas cnanças. (Lydia Coriat, 1970). Citado por Elsa Coriat (1997) obra citada
~~~~~. ' '
20
d UNICEF
._ (1978) ' E stimu1acton
, ., -r · .
L emprana - tmportancta dei ambiente para e/ desa1Tollo

18 Elsa Coriat (1997), Psicanálise e clínica com bebês, Porto Alegre, Artes e Ofícios. eJ nzno, Santiago de Chile. Ver também: Elsa Coriat, obra citada, p. 64 (N. da A.).

32 33
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

t Justamente por isso, eles estão situados no cerne da clínica


2- A tradição médica toma como modelo para sua
interdisciplinar em estimulação precoce. Tal clínica surge da
intervenção o diagnóstico realizado desde quadros
possibilidade de escuta destas questões e sua praxis e cotpus teórico patológicos fechados. Parte, assim, para o estabelecimento
se fundam pela formulação e reformulação de respostas a estas de sua nosografia, de um modelo adultomorfo, ou seja,
questões que insistem no dia-a-dia da vida de um bebê com .de patologias plenamente configuradas que se apresentam
problemas e sua família.
com seus diversos sintomas estabelecidos. 23 Então, como
1- Quando se detecta a presença de um quadro orgamco situar aí um bebê? Como indicar um tratamento e como intervir
inexorável - como é o caso de quadros sindrômicos, se o diagnóstico orgânico ou o quadro patológico do bebê não estão
lesionais ou de malformações congênitas - a intervenção plenamente configurados?
terapêutica pode ficar questionada, uma vez que ela não
conduzirá à cura da patologia. Para que tratar se não tem Dado que a clínica da estimulação precoce intervém nos
cura? O que vai ser tratado, se não há como resolver oproblema? tempos primordiais, muitas vezes recebemos pacientes que, mesmo
diante da suspeita de um quadro orgânico, ainda não foram
Concebemos que, diante de tal interrogação, a intervenção submetidos a todos os exames necessários para chegar a um
com o bebê e sua família tem uma importante função clínica ao diagnóstico, pois não têm sequer o tempo de vida suficiente p.ara
conduzir uma direção da cura do que não se cura 21 para que os efeitos isso. Por isso, ao tratar-se de bebês, o estabelecimento do rea/24, mwtas
fantasísticos - as fantasias inconscientes - engendrados nos pais pelo
vezes, vai ocorrendo ao longo do tratamento.
diagnóstico orgânico não terminem produzindo uma série de
obstáculos para o bebê tanto mais graves que as limitações impostas O ponto é que a vida não pode ficar em suspenso enquanto
pela patologia orgânica em si. 0 diagnóstico orgânico não se define, pois a intervenç~o é com o
bebê que apresenta um problema e não com a patologia.
Como aponta Maud Mannoni - psicanalista pioneira ha
intervenção com crianças acometidas de graves problemas orgânicos: Há, nesse sentido, uma série de operações clínicas que apontam
a organizar o marco que faz possível a constituição psíquica e .º
"Quando um fator orgânico está em jogo, esta criança não tem só
desenvolvimento de um bebê, independentemente da patologia
que fazer face a uma dificuldade constitucional, mas ainda à
orgânica que esteja em jogo, e também a que os pais possam exercer
maneira pela qual a mãe utiliza esse defeito em um mundo
fantasmático que acaba por ser comum aos dois. as funções materna e paterna com o seu filho em lugar de ficarem
tomados pela _incerteza que comporta o tempo de espera de uma
A realidade da doença não é, em momento algum, subestimada
definição diagnóstica.
em uma psicanálise, mas o que se procura evidenciar é como a
situação real é vivida pela criança e pela sua farrúlia. O que adquire, Intervir no tempo de indefinição diagnóstica, tempo em que
então, um sentido é o valor simbólico que o sujeito atribui a essa a filiação de um bebê pode ficar em suspenso à espera do parecer
situação em ressonância a uma certa história familiar." 22
23 A respeito dos modelos psicopatológicos ver:Jean Jacques Rassial (1996), Psicose
21
Como aponta Alfredo Jerusalinsky, obra citada, cap. 4 (N. da A.) . Por razões de na adolescência, Escritos da Criança, n.4, Porto Alegre, Centro Lyd1a Conat de
padronização na tradução dos conceitos, os editores optaram por fantasia e tratamento, Porto Alegre (N. da A.).
ao invés de fantasma e cura, apesar da autora por vezes utilizar estes últimos (vide a
24 Como aponta Alfredo Jerusalinsky, o estabelecimento do real é um passo necessário
justificativa desta opção em "Posfácio - Sobre a tradução", in Dicionário de Psicanálise
para a direção do tratamento na intervenção com problemas.do de~envolv1men~~
- Freud & Lacan, vol I, 2a edição, Ágalma, Salvador, 1997) ( N. dos E.).
22 infantil. Tal passo permlte estabelecer até que ponto uma ltm1taçao presente
Maud Mannoni, A criança, sua "doença" e os outros, São Paulo, Via Lettera, 1999, p. 59.
produção da cnança tem causas orgârucas. Obra citada, cap. 4 (N. da A.).
34
35
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

médico, é tão importante quanto intervir diante da certeza de uma . do bebê não vai bem, em um tempo em que ainda estão sendo
patologia que vem a fazer obstáculo a que os pais coloquem em estabelecidas as primeiras inscrições do seu funcionamento pulsional,
cena seu saber inconsciente e consciente para exercer as funções de sua constituição psíquica e, portanto, em um tempo em que
materna e paterna com o bebê. estruturalmente há maior permeabilidade a inscrições e reinscrições. 25
A clínica da estimulação precoce não se limita a intervir com 3 - Como intervir quando o bebê apresenta dificuldades em várias áreas
bebês que apresentam suspeita ou confirmação de problemas do desenvolvimento?
orgânicos. Muitas vezes recebemos bebês em relação aos quais os _
médicos percebem que "algo não está bem", ainda que, exame Atualmente é comum que, ao ser detectado um quadro de
após exame, não se encontre neles nenhum comprometimento "distúrbio global do desenvolvimento'', um bebê seja encaminhado
orgânico de base. Assim, por exemplo, chegam bebês com alterações a múltiplos tratamentos . Já quando o diagnóstico indic a
funcionais específicas - no sono, na alimentação, no estabelecimento comprometimento orgânico de uma determinada função do bebê,
psicomotor etc. - e, mais freqüentemente, bebês que apresentam muitas vezes se procede com uma "estimulação específica" da área
"atrasos generalizados no desenvolvimento'', ou ainda, bebês com afetada . Por exemplo, se há um déficit auditivo, indica-se
"traços de desconexão" e pequenas crianças com "condutas "estimulação auditiva" em fonoaudiologia, ou se há paralisia cerebral
estereotipadas" ou "atípicas" que apontam a incidência de problemas se inter vém desde métodos fisioterapêuticos, e assim por diante.
na constituição psíquica.
Neste ponto é preciso recordar que, quando a estimulação
São casos em relação aos quais, pela precoce detecção e precoce surgiu enquanto clínica dedicada a intervenção com bebês,
intervenção, pode-se evitar a plena instalação da patologia e, em diferentes disciplinas como fonoaudiologia, fisioterapia, terapia
grande parte deles, dar lugar a uma reinscrição do modo de ocupacional, pedagogia, psicologia, entre tantas outras existentes,
funcionamento da estrutura psíquica do bebê ou pequena criança. , tinham um trabalho com a infância dirigido, principalmente, a crianças
Daí a importância de trabalhar junto àqueles profissionais em idade escolar. Hoje em dia a situação é outra. As mais diversas
que normalmente intervêm com a infância, tais como pedagogos e disciplinas começam a focar sobre o bebê seus oijetos de estudo e a intervir
pediatras, já que a detecção precoce permite que possa ser realizada com este a partir de um recorte de sua área de conhecimento. Ocorre,
uma intervenção - às vezes mais curta e específica, outras implicando assim, uma transposição da aplicação do conhecimento de cada
um tratamento - em lugar de se ficar esperando que o quadro área, de suas técnicas já estabelecidas ou de novas técnicas de
clínico do bebê esteja absolutamente configurado em todas as suas "estimulação específica", no bebê.
manifestações patológicas, que corresponda ponto a ponto a todos
O problema é que onde se vê a árvore não se vê a floresta.
os critérios nosográficos para fechar um diagnóstico e, portanto,
Quando o olhar fica centrado no déficit e na técnica a aplicar, o que
que só se intervenha diante da patologia plenamente instalada.
se perde de vista é o bebê. Se a ciência veio se organizando pela
A clínica com bebês opera pela precoce detecção de traços subdivisão de seus objetos de estudo, permitindo ter conhecimento
que, a partir dos cuidados parentais e das produções do bebê, acerca da legalidade que rege a aquisição de cada área na infância, o
indicam a incidência de problemas no marco da constituição do que tende a ficar esquecido nesse processo é que uma aquisição
bebê. Não é preciso esperar que o quadro patológico esteja instrumental, para que seja efetivamente uma aquisição, tem que ser
plenamente instaurado para intervir, pois é possível ler os primeiros de alguém.
indicadores clínicos que levantam a suspeita de que a constituição
2' Tal questão é abordada no capítulo É possível prevenir ou só resta remediar? (N. da A).

36 37
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

O estabelecimento do circuito pulsional26 que permite que A interdisciplina possibilita aí a interlocução entre diversas
uma função atue não ocorre de modo autônomo. É preciso que áreas, o que é imprescindível ao tratar-se de bebês e crianças pequenas
haja aí um des ejo implicado - desejo que, para um bebê, é com problemas de desenvolvimento. E a intervenção de um
inicialmente sustentado por um Outro encarnado. Neste sentido, terapeuta especializado no trabalho com bebês a cargo da direção
quando se procede a partir de múltiplas intervenções ou de do tratamento cumpre a importante função de possibilitar o
intervenções que recortam o déficit, desconsiderando as condições estabelecimento de uma referência no tratamento. Deste modo, não
constituintes de um bebê e lançando-o ao anonimato de várias são os pais e o bebê que têm de padecer efeitos desagregadores ao
técnicas, os efeitos podem ser iatrogênicos. ficar deparados com os diversos discursos científicos ou efeitos de
. redução do bebê ao déficit diante de uma intervenção que sublinha
Ignorar isto, ou intervir a partir da prática que pretende deixar
a inscrição do sujeito do desejo "de fora", tem os seus efeitos, a função que fracassa.
efeitos estes extremamente desorganizadores para crianças pequenas É fato que, desde o nascimento da estimulação precoce até
e tanto mais para um bebê (que ainda não tem estabelecido o Eu), hoje em dia, foram surgindo novas concepções clínicas - quanto ao
seja porque tal bebê passa a padecer o super-investimento que se modo e finalidade da intervenção, ao lugar do paciente e dos pais
dirige justamente àquilo que no seu corpo fracassa, seja porque a no tratamento e também quanto à função e o lugar do clínico. Assim,
multiplicidade de intervenções fragmenta sua possibilidade de sob o mesmo nome de "estimulação precoce" hoje coexistem
reconhecimento. intervenções clínicas muito divergentes que se apoiam em diferentes
cortes epistemológicos. O surgimento de tais práticas sempre se
Deste modo, a experiência clínica apontou a importância de
produz - quer elas dêem conta disso teoricamente ou não - como
estabelecer um dispositivo que, contemplando os conhecimentos
científicos de diversas áreas que são necessários a esta intervençã0, 0 estabelecimento de respostas, desde uma ou outra inclinação ética,
aos questionamentos centrais anteriormente citados que se
ao mesmo tempo, propiciasse um marco favorecedor para a
constituição psíquica e para as aquisições instrumentais de um bebê. apresentam na vida de bebês com problemas e suas famílias.
Foi a partir da consideração de tais questões clínicas que se configurou
• Entre algumas das explicações mais recorrentes que hoje
o dispositivo de um terapeuta único no marco de uma equipe interdisczplinar7
em dia justificam as mais diversas intervenções com bebês podemos
na intervenção com a primeira infância.
encontrar práticas fundadas em explicações tautológicas do
"estimular porque é bom" e "quanto antes melhor" que auto-
26 explicam seus benefícios a partir da atribuição de uma imanência
Questão trabalhada no capítulo Temporalidade e desenvolvimento (N. da A.).
27
terapêutica de ce1tos oijetos - sejam eles a água, os animais, as cores, as
A modalidade de intervenção de um Terapeuta único em estimulação precoce 110 marco
interdisciplinar é proposta e utilizada há mais de 25 anos pelas equipes do Centro formas, o movimento, etc. Acrescem ao nome de tais objetos a
Lydia Coriat de Porto Alegre e de Buenos Aires na intervenção com bebês e, a palavra "terapia" e, a partir dos supostos efeitos benéficos por eles
partir daí, por outras instituições que passaram também a tomar tal di spositivo propiciados, sugerem que a "experimentação" dos mesmos pelo
como referência na intervenção com a primeira infância. A fundamentação teórica bebê seria, por si só, propiciadora de desenvolvimento.
de tal dispositivo pode ser encontrada em diferentes produções científicas publicadas
por essas instituições, tais como as revistas C11ademos dei Desarrol/o Infantil, Buenos São poucos os pais que situam todas as suas apostas de melhora
1 Aires; Escritos dt1 C1iar1ça, Porto Alegre; Escritos de la Infancia, Buenos Aires; o livro do filho nesse tipo de intervenções, mas muitos deles as mantêm
de autoria de Alfredo Jerusalinsky Psicanálise e Problemas do Desenvolvimento Infantil,
como "atividades complementares do tratamento propriamente
Porto Alegre, Artes e Ofícios; e o l.ivro de autoria de Elsa Coriat Psicanálise e clínita
1 com hebês, Porto Alegre, Artes e Ofícios (N. da A.).
38 39
\
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM
SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

dito'', pela justificativa do "mal não faz". Esta afirmação que


de discriminação sonora de um bebê com perda auditiva ou como
comparece pela negativa do "mal não faz" revela o quanto, em tais
ropiciar a formação da imagem mental e a tridimensionalidade
modalidades de intervenção, a "ação", o "fazer", situa-se mais do
lado do objeto "em seu poder de cura" do que numa aposta, numa
~o espaço em um bebê com grave deficiência visual. O ponto é
que as problemáticas apresentadas pelos bebês e as questões ~~zi~as
expectativa pelo que o bebê poderia vir a fazer.
pelos pais não costumam obedecer a cronologia e sequencias
É certo que, em qualquer experiência pela qual um bebê previstas nos programas de estimulação.
passar, vão estar em jogo suas reações de equilíbrio psicomotor,
Apesar das recomendações que constam nos manuais de que
suas sensações proprioceptivas e exteroceptivas. Mas daí a estabelecer
0 reeducador "instrua" os pais sem "engajar-se em nenhuma
uma imanência terapêutica no objeto há uma grande diferença e
psicologia profunda" 29 , as questõ~s dos pais ,e as produções_ do
uma diferença ainda maior em supor que isso, por si só, produziria
desenvolvimento. bebê irrompem para além do previsto pelo metodo. Quando isso
ocorre, os profissionais ora colocam os pais para fora da sala, para
que não "impeçam o andamento do programa c~m s~as _questões",
• Outra vertente da intervenção com bebês consiste na
ou para dentro da sala, para "dar-lhes onentaçoes tecrucas acerca
aplicação de programas de estimulação ou técnicas reeducativas, com
de como proceder com o bebê" Jo. Os profissionais tentam, deste
intervenções multidisciplinares ou intervenção sobre o dijiàt específico.
" modo, encontrar soluções práticas acerca do lugar físico de
Assim, atualmente, muitos bebês passaram a ser tomados permanência dos pais quando o que está em jogo diz dos lugares
em tratamento em áreas específicas nas quais apresentam um dijicil simbólicos e da implicação dos pais em relação ao bebê no marco
e, quando seus sintomas se generalizam, vão se acrescentando ao do tratamento.
tratamento inicial todos aqueles que correspondem às áreas dos
novos problemas apresentados. Assim chega-se a ter tantos Outras vezes, é a produção do bebê que irrompe como
obstáculo à aplicação da técnica. Na medida em que o trabalho fica
tratamentos quantas forem as áreas que comprometidas 28 • Intervém-
dirigido a restabelecer por automatismos a função do órgão . que
se ali a partir da aplicação de técnicas, por exemplo, com estimulação
fracassa em seu funcionamento, a suposição do bebê como sujeito
psicomotora precoce, estimu.laçào auditiva precoce, estimulação visual precoce,
estimulação multise1JJorial etc. Trabalha-se com o que está em "déficit psíquico fica sem lugar na cena clínica. Então, quando compar:ce,
se faz ver e escutar de modo irruptivo. Encontramos assim bebes e
no bebê", na aposta de que, quem sabe com a "estimulação a mais"
pequenas crianças que provocam vômito nas sessões de
propiciada a partir da intervenção, cada déficit específico possa vir
a ser compensado. fonoaudiologia ou que choram incessantemente enquanto são
realizadas em seu corpo manobras posturais.
Certamente é fundamental saber, por exemplo, como evitar
um padrão tônico ou favorecer uma mudança postural em um
29
bebê que apresenta paralisia cerebral, como favorecer a acuidade Como recomendam Herren e Herren (1986), Estimulação psicomotora precoce,
Porto Alegre, Artes Médicas, p. 22 (N. da A.).
30
28 Como afirmam Aidil e Juan Perez-Ramos acerca do lugar dos país em diversos
Ver, por exemplo, CORDE (1992), Estivltf!açJo precoce, org. Aidyl e Juan Pérez-
nos programas de estimulação precoce: "Além da 01ientação individual_ a eles (pais)
Ramos, São Paulo, Ministério da Ação Social, pág. 26, que situa a utilização da
proporcionada (...) são utilizados cimos específicos de treinamento, nos q11azs se mcltte?ll, entre
seguinte prática: ~s eqt1ipes multidisciplinares contam com 11ma variedade de profissionais
outros asrnntos, conhecimentos básicos sobre estimulação precoce e sobre a necessidade de
qt1e vão sendo pa11/ati11amente incorporados ã medida q11e surgem as necessidades d11rante a
evolução das oia11ças atendidas e de Slías respectivas famílias" (N. da A.). aceitação da niança atípica pelos familiares, hem como a prática das atividades que devem
realizar com a mesma." Obra citada, p. 27 (N. da A.).
40
41
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

A partir do corte epistemológico reeducativo o bebê é Ainda dentro das modalidades de intervenção com bebês
concebido como um "indivíduo" que, ainda que dependa dos outros encontramos aquelas que se estabelecem como práticas intuitivas: "Leio
para seus cuidados, já que no início não tem condições reais de várias coisas, ma.i~ na hora de intervir, plum! Me atiro no colchonete': argumenta
sobreviver sozinho, teria um desenvolvimento produzido de modo uma "terapeuta de bebês". Ainda que esta resposta possa causar
autônomo. Pai, mãe ou outros "entes queridos" contribuiriam com bastante desconcerto, ela talvez explicite uma posição muito comum
uma dose de "afeto", configurando o "meio favorável" ao na intervenção com a primeira infância. Mesmo nas origens da
desenvolvimento do bebê. 31 Mas, dado que o desenvolvimento se psicanálise de crianças, encontramos algumas concepções que
produziria por um automatismo do encontro do organismo com propõem a intuição como modo de sustentar a prática clínica, por
o meio, decorrendo de sua experimentação ao longo do tempo, a exemplo, ao sugerir que a mulher seria "naturalmente" aquela que
intervenção aposta que, ao propiciar área por área uma melhora · deveria vir a exercer a psicanálise de crianças.
dos padrões das produções específicas, chegar-se-ia a produzir
melhoras gerais no quadro do bebê - como se a soma das partes, ''A condição de mãe ter-lhe-ia conferido o lugar de onde
área por área, pudesse produzir "o conjunto" do desenvolvimento. desenvolveu sua abordagem analítica e refinou suas articulações.
Nessa forma, a psicanálise de crianças ficara exposta a este risco de
Quando os pais irrompem com suas questões ou quando o desvio do SeLt campo, já que a analista faria função de substituta
bebê, através das manifestações do seu corpo, resiste à aplicação do do agente materno, numa expectativa de suplência propiciadora
programa reeducativo, a técnica insiste até que tais irrupções se de uma relação mãe-criança ideal.33
submetam ao método. Ou seja, até que o sujeito do desejo não A posição da criança, posição de equivalência simbólica ao
insista mais em emergir. De fato, os bebês modificam seus falo na economia subjetiva do agente materno, permitiria o recurso
comportamentos e, em grande parte dos casos, cumprem os de uma língua dual, privilegiada, reservada à relação mãe-criança,
podendo situar as mulheres-analistas de crianças num laço
padrões esperados e propostos pelas tabelas de evolução especiais
particular e privado, cuja conseqüência seria a economia da passagem
para sua patologia. Afinal:
à articulação teórica, fazendo, muitas vezes, da "intuição" uma
suficiência." 34
"O sistema nervoso central do ser humano possui tanta
flexibilid ade (quando não está profunda e gravissimamente
danificado) que resulta quase impossível introduzir uma Afinal, poderia ser questionado: - Quem é que não sabe o que
estimulação sistemática e não obter algum resultado no fazer com um bebê?
comportamento. Porém medir o progresso de uma certa Se levarmos em consideração a condição de sujeição de um
discriminação perceptiva, ou o aumento da velocidade e precisão
recém-nascido, é certo que, a princípio, pode-s e fazer de tudo com
de uma atividade de motricidade fina, nada nos diz acerca de
ele, ainda que isso tenha conseqüências para sua constituição. Tanto
como esses elementos estão ou não integrados no sistema de
significação e, portanto, de articulação do desejo, que é o que mais decisivo é então para o seu futuro o lugar que lhe é atribuído,
constitui o núcleo fundamental desse sujeito."32 33 A ·
firma Angela Vorcaro, apontando o problema das práticas intuitivas ao retomar as
questões levantadas por Fendrik acerca das origens da psicanálise de crianças e das
produções ele Melanie Klein e Anna Freud. A Ciia11ça 11a Clinica Psica11a!ítica, Rio de
31Ver, por exemplo, Herren e Herren, obra citada, p. 21; e CORDE, obra citada, p. Janeiro, Companhia de Freud, 1997, p. 14. Ver também Silvia Fendrik (1988),
29 (N. da A.). Psicoanálisis para 11ifios:ficción de sus 01igenes, Buenos Aires, Amorrortu (N. da A.).
34 •
32 Alfredo Jerusalinsky, obra citada, p. 67 (N. da A.). Angela Vorcaro, obra citada, p. 140.

42 43
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
SITUANDO A CLÍNICA COM BEBÊS

não só a partir do parental, mas também pela condução do


tratamento. Há, portanto uma direção do tratamento35, que vai s~~do
constr Ul'da' intervenção por intervenção. Apesar do calculo
. do clínico,
-
As práticas que partem da aplicação de métodos reeducativos e - h ' omo se ter de antemão certeza dos efeitos que serao
nao a c . . D ,
técnicas de estimulação, muitas vezes, também se utilizam de intervenções pro d uzi'dos pela intervenção' deles só se sabe a posterzorz.
· ai que
1
intuitivas quando deparam com questões que não estão previstas · i·so que as intervenções realizadas e os efeitos que e as
sep prec . 1 líni.
pelo método. A questão é que disso não se fala, é como se tais pro d mem Pa ra 0 bebê e seus pais sejam articulados pe .o c co,
intervenções ficassem "de fora" do "tratamento propriamente ermanente trabalho que norteará, a cada movimento, a
emum P ·-d
dito" sendo, portanto, geralmente suprimidas ou negligenciadas ao construçao - d a direção do tratamento -. pela- supervisao. e caso, 1
expor a "evolução do caso'', tanto quando surtem efeitos negativos, ela análise pessoal do clínico, pela discussao em equipe e. pe o
como quando são propiciadoras de melhoras para o bebê e sua :ercurso teórico a partir das questões que u.m tratam~nto
suscita. O
familia, melhoras que então passam a ser atribuídas simplesmente à clínico é responsável pelos efeitos que sua mt~rvençoes produzem,
aplicação da técnica. caso contrário o tratamento pode virar u~ sin_:ples palco de suas
atuações imaginárias, e não é pela via da aplicaçao de um programa
Não se trata de que antes de cada sessão tudo tenha que estar
técnico que poderá se furtar disto.
pensado e planejado. Até porque, quando assim se pretende
proceder por meio da aplicação de técnicas, não se dá lugar a que Por isso, ao intervir com bebês no marco da estimulação
compareça o sujeito - e, quando este fugazmente irrompe, seja a P recoce não podem ser dadas por supostas, por respondidas,
partir das produções espontâneas do bebê ou a partir da fala parental, questões' aparentemente tão simp · 1es como " o que é estímulo;i". ou
é prontamente silenciado para que se prossiga com o programa " 0 que e, precoce.
. ;i" . .E' pr·eciso por estes
, . termos a
. _ trabalhar para
, que
.
pré- estabelecido. Porém, quando o tratamento fica conduzido de tal praxis não fique reduzida à pauperrm~a ~plicaçao ~e u~a te.c~ca
um modo intuitivo, o bebê e sua família correm sérios riscos de ou submetida às perigosas atuações imagmanas de praticas mtwtivas.
ficarem situados como objetos das fantasias inconscientes do
terapeuta.

Neste sentido, consideramos fundamental o corte


epistemológico que a psicanálise produz na clínica da estimulação
precoce, diferenciando-a da postura reeducativa e da terapêutica intuitiva:

Na clínica da estimulação precoce, a intervenção não se conduz


por uma planificação pré-estabelecida em função da patologia do
bebê. O clínico aponta a intervenção numa determinada direção -
que implica a produção de um sujeito no bebê e a possibilidade de
que o mesmo possa vir a se apropriar de aquisições instrumentais -
e intervém a partir da leitura da produção de cada bebê e da escuta
de seus pais.

Js · ' · d e su poder '


Jacques Lacan (1958), La dirección de la cura y los pnnc1p1os
Escritos 2, Buenos Aires, Sigla Veintiuno.
44
45

..
IMPASSES D O "ESTÍMULO"

acerca da maturação e do estado de saúde neurológica do pequeno


paciente.
Ao tratar-se de bebês com poucos meses, além dos reflexos
osteotendinosos profundos (como o patelar) e neurovegetativos
(como a regulação da respiração), que permanecem durante toda a
vida, é possível encontrar também os reflexos arcaicos.
Os reflexos arcaicos constituem uma série de manifestações
subcorticais - e portanto, involuntárias - apresentadas por bebês
IMPASSES DO "ESTÍMULO" NA CLÍNICA recém-nascidos a termo, regendo a conduta no início da vida. Tais
COM BEBÊS refl~xos vão silenciando até desaparecerem completamente ao longo
DA EXERCITAÇÃO REPETITIVA AO EXERCÍCIO DA do s primeiros meses de idade. Quando não desaparecem, constituem
FUNÇÃO MATERNA indícios clínicos de transtornos no sistema nervoso central. E ntre
eles destacamos:
- o tônico cervical assimétrico, que é um reflexo postural;
E stimular (do lat. sti11111lare):pica1; espicaçar, excitai; ativar, instigar.
- o de Moro e o de Landau, que são reações corporais globais;
E sti11114'ante: excitante, irritante, aquilo que excita ou ativa a ação
orgânica dos diferentes sistemas da economia animal, substância que estimula - o de Babkin, que estabelece uma coordenação reflexa entre
uma função psíquica ou ftsica. mão e boca;

E stes são os sentidos relacionados à palavra "estímulo". E m - os de preensão palmar e preensão plantar;
todos eles se trata de provocar um efeito contrário ao da estabilidade e da - os orais, como o de sucção, o de busca e o dos quatro
inércia, de produzir uma reação. 1
pontos cardeais;
Mas qual é a reação que está em jogo no "estímulo" da - os posturais e superficiais de membros inferiores, como de
estimulação precoce? O que é preciso para que um estímulo produza extensão cruzada e endireitamento e marcha;
desenvolvimento? E, ainda, se quisermos ir mais longe, que "reação"
precisa ocorrer para que se constitua um sujeito no bebê? - os cutâneos-abdominais, como o de encurvação de tronco
que é incluído também dentro do grupo das reações defensivas;
É com estas questões que propomos trabalhar.
- o de olhos de boneca japonesa, que geralmente desaparece
Primeiramente, o que nos diz a neurologia acerca do estímulo? nos 1O primeiros dias de vida, assim que se estabelece a fixação
ocular;
Em um exame neurológico de rotina com um bebê recém-
nascido realizam-se manobras que visam "estimular", excitar certas Durante muito tempo se pensou, a partir da neurologia, que
terminações nervosas para, assim, obter respostas que informam os reflexos arcaicos deviam silenciar para que, em seu lugar, se
estabelecessem as ações voluntárias. Hoje em dia se sabe que tais
1
Novo DicionárioAurélio da U ngua P01t11g11esa (1986), Rio de Jan eiro, N ova Fronteira. reflexos e sua experimentação servem como base orgânica para a

46 47
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM IMPASSES DO "ESTÍMULO"

corticalização e, portanto, para o estabelecimento de atividades laboratórios com gatos - tapando-se um olho e impedindo a recepção
2
voluntárias . Tal conhecimento é importante para que as condutas do estímulo visual deste órgão no início da vida-, constatou-se que,
reflexas possam ser tomadas, desde a intervenção clínica, como ponto depois de certo tempo, quando este olho era destapado, não estava
de partida para a realização de certas experiências de vida que mais apto a cumprir sua função. Ainda que o mesmo estivesse intacto
permitem ao bebê ir organizando o ato voluntário. quanto à sua possibilidade funcional, o cérebro já havia estabelecido
Por exemplo, a partir do reflexo tônico cervical assimétrico é seu funcionamento de um modo tal em que a informação sensorial
possível propiciar os primeiros encontros olho-mão em decúbito que passou a ser oferecida por esse olho era desprezada. A estrutura
dorsal e mão-boca em decúbito ventral, o que servirá de base para a anatômica do órgão estava em perfeito estado, mas já não havia
posterior integração dos esquemas sensoriais fundamentais no lugar para o funcionamento de sua função .3
processo de aprendizagem.
O processo de maturação neurológica não é indiferente às
Mas há um salto que tem de ser produzido para que, partindo experiências pelas quais passa um bebê. Nesse sentido, realizou-se
de tais reflexos arcaicos, se produzam reações voluntárias. Este salto uma pesquisa sobre a maturação visual de bebês com a mesma idade
não está dado pela simples maturação, pois se bem que a maturação gestacional de 41 semanas (ou seja, 41 semanas contadas desde o
determine a presença dos reflexos arcaicos no início da vida, assim início da gestação e não desde o nascimento), o que implica que
como o seu desaparecimento, e estabeleça também a possibilidade todos se encontravam no mesmo "tempo de maturação
de corticalização, da inscrição cerebral do ato voluntário, ela, por si geneticam~nte determinado". Esse grupo foi dividido em dois
só, não garante que o ato voluntário advenha. Então, qual é o estímulo subgrupos - os de 41 semanas de idade gestacional que haviam
que propiciaria tal salto? nascido prematuramente e os de 41 semanas que haviam nascido a
termo. Então comparou-se a maturação das vias visuais dos dois
Durante longo tempo, o debate entre a neurologia e a genética
grupos. O resultado foi que, na mesma idade gestacional, os nascidos
acerca do desenvolvimento girava em torno de colocar a
prematuramente apresentavam mais maturidade visual, enquanto os
preponderância da herança sobre o meio ou do meio sobre a herança,
bebês nascidos a termo, que ainda não haviam deparado com os
sublinhando o caráter inatista ou o efeito da experiência de vida
estímulos espontâneos do meio, apresentavam menor maturidade 4 .
para o desenvolvimento. Hoje em dia, esta relação está muito mais
Apesar de tal diferença se compensar em poucos dlas de vida, ela
esclarecida, pois estudos comprovam que a experiência propiciada a
demostra que a experiência tem um caráter decisivo na maturação -
um filhote tem inco ntestáveis efeitos sobre a maturação e
o meio amhiente influi na maturação ontogênica 5 , ainda que haja um limite
conformação neurológica, de modo que esta não está guiada apenas
imposto nesta maturação na formação das estruturas anátomo-
por determinações genéticas. Potencialidade genética e experiência
fisiológicas.
de vida têm uma profunda inter-relação no desenvolvimento de um
bebê. Estudos sobre a maturação do sistema nervoso indicam que
o cérebro começa a funcionar muito antes de ter estabelecida e
Sabe-se também que a falta de utilização de uma função até
completada sua estrutura anátomo-fisiológica, e os mesmos
determinado momento da vida tem como possível conseqüência a
eliminação de sua funcionalidade. A partir de estudo feito em 3
Aulas do neurologista Owen Poster, proferidas na FEPI, Buenos Aires, 1995 (l'J. da A).
4
Essente, I. (1957), Fisiopato!ogia omlare dei/a prima i11fanzia, Firenzi, Sanzoni.
2
Lydia Coriat (1981), Maturação psicomotora 110 p1i111eiro a110 de vida da criança, São 5
Saint-Anne Dargassies (1977), Desarro/lo 11e11rológico dei recién nacido de té!wino ) 1
Paulo, Moraes.
premafNro, Buenos Aires, Panamericana, p. 232.
48
49
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
IMPASSES DO "ESTÍMULO"

processos que permitem o estabelecimento das vias neuronais antes


estabelecidas as bases neurofisiológicas da intervenção em
de nasc_er vão acompanhar a explosão de aprendizagem posterior
estimulação precoce.
ao nascunento.
Mas como estas importantes descobertas são postas a operar
Ao nascer, o cérebro tem quase todas as células neuronais e
na clínica da estimulação precoce?
gliais (estrutura de sustentação neuronal) que terá definitivamente
mas suas conexões têm de estabelecer-se e estabilizar-se. Pouc~ Quando se fala em estímulo, logo se pensa em estímulos
depois do nascimento, se produzem muito mais conexões entre os sensoriais: táteis, visuais, olfativos, auditivos e gustativos.
neurônios do que as que serão utilizadas. Então, através de uma A partir daí, um dos caminhos terapêuticos propostos consiste
competição entre elas, são eliminadas aquelas sinapses pouco ou em expor o sistema sensorial do bebê a uma ampla gama de estímulos:
nada utilizadas, em um processo ao longo do qual 0 cérebro vai tocam-se buzinas com diferentes volumes e timbres, acendem-se e
perdendo plasticidade e chegando a uma conf~rmação única moldada apagam-se luzes de variadas cores, passa-se a mão do bebê por placas
pelo seu funcionamento. 6
de texturas, lisas, rugosas ou ásperas. Parte-se da concepção de que
Está neurologicamente comprovado que um cérebro precisa a exposição quantitativa às diferentes características físicas dos
de um "ambiente estimulante" para sua maturação. Se já havia sido objetos possibilitaria no bebê a representação do mundo que o rodeia
constatado que pequenos animais - tais como ratos - que vivem - como se a representação dos objetos fosse uma conseqüência do
em caixas com mecanismos mais complexos, ao serem comparados simples encontro com os seus contrastes físicos perceptíveis.
com aqueles animais que vivem em caixas com poucas opcões Muitas intervenções se fundamentam em um estabelecimento
' 25°/ . d ' ,
contem / O a mais e sinapses, surpreendem os dados encontrados de proporção direta entre uma maior quantidade e diversificação
por a~guns pesquisadores em relação a crianças: constata-se que aquelas dos estímulos e maiores benefícios para o desenvolvimento. Mas,
que nao hrmcam ou são pouco tocadas têm cérehros 20% a 30 1% menores que 0 paradoxalmente, estudos sobre prematuros demostram que a
norma/ 7
exposição constante a fortes estímulos provindos do meio - luz e
Fica claro que as experiências de vida têm um efeito decisivo ruído constante na sala de internação - produz um efeito
sobre a constituição cerebral, ou seja, sobre o suporte orgânico no desorganizador sobre o neonato. Esses estímulos induzem ao estresse
qual se _registram as aquisições realizadas - e que a passagem do e aos seus conseqüentes efeitos nocivos sobre o sistema imunológico,
tempo e um fator fundamental a considerar para os fins de uma repercutindo negativamente na melhora do seu quadro 8 . Quando
intervenção.] á que, a princípio, quanto mas precocemente se intervir consegue passar por tal etapa, o neonato chega a organizar-se às
diante de um problema, maiores serão as possibilidades de contar custas de provocar uma grande elevação do limiar de tolerância e
com a plasticidade própria do tempo da constituição. Ficam assim esses estímulos, a partir do qual passa a ser necessário um estímulo
bastante mais forte para produzir reação (uma luz mais intensa ou

6
Diana Jerusalinsky (1997), Células nerviosas, sinapsis y plasticidad, Escritos de fa 8
Uzguris e Hunt (1980), citado por CORDE, obra citada, pág. 8. Com base
lnfancta, n. 8, Buenos Aires, FEPI - Centro Dra. Lydia Coriat de Buenos Aires. nesses estudos vêm sendo estabelecidos projetos destinados à sala de UTI
7
Kandd, Fertile M.inds, Time, n. 30, artigo editado por Madeleine Nash, New York Neonatal, como o Nidcap, procedente dos Estados Unidos, que visa controlar e
Fevereiro de 1997. ' diminuir o nivel de estímulos ambientais aos quais os neonatos são submetidos
na sala de internação (N. da A.).

50
51
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
IMPASSES DO "ESTÍMULO"

um barulho estrondoso para tirar do sono profundo os bebês que


conseguem chegar a organizá-lo). deste di ante d os esti'mulos sensoriais externos e internos. Situa . que
·
0 functonamen t o inental segue um princípio de .constância ou de.
O acento destas concepções recai fortemente sobre o aspecto b ·1,·d d ou sei· a uma tendência à descarga da quanudade de energia
esta i1t .a e, ' . 1 ·
quantitativo do estímulo e suas intervenções guiadas pela tentativa recebi.da. A sstm,
.. a t arefa central do funcionamento .menta _sena a
de precisar qual seria a quantidade adequada para produzir efeitos fuga dos estímulos que causa~ desequilfürio por meto da açao que
benéficos. Mas é preciso recordar que, além do aspecto quantitativo, propiciaria a descarga apropnada. .
há outro fator indissociável deste primeiro, relativo ao a.rpecto qualitativo
dos estímulos. Neste esquema, o S invólucros das extremidades
. nervosas
,
.
atuam como um crivo, e d modo que não é todo tlpo de
. . estimulo
1 .
Seria a "quantidade" propiciada pela repetição de um estímulo externo que pode operar nos diversos pontos termma1s. Ta crtvo d
sensorial o que permitiria a passagem do involuntário ao voluntário . uma se1eçao
realiza - qualitativa dos estímulos externos
- e, desd e o
de uma produção do bebê? Seria o puro encontro do órgão com a aspecto qua ntl.tau·vo, reduz e limita a sua recepçao, tornan o-os
cor, textura ou forma, enfim, com as contrastantes características descontínuos.
físicas dos objetos, por si só, capaz d e propiciar des envolvimento e
constituição p síquica? No entanto, há outras forças das quais o aparelho ~síqui;,
, . d e ocorre com os estímulos externos, nao po e
ao contrano o qu , · ( a sede e a
Propom os abordar tais questões a partir do corte es túvar-se: excitações provenientes do somattco _como
epistemológico que a psicanálise opera na clínica da estimulação
precoce. Para tanto é preciso um breve percurso teórico.
t ~e) constituindo "timulos endógenos que, depois de arnmulad;s
º, uma
ate ' certa quan u·dade, tornam-se estímulos pstqmcos, sen o
Do estímulo sensorial à rede significante materna precursores da pulsão. . , . , .
"Desde o início, porém, o princípio de rnerc1a e rompido
Vale recordar que, no imc10 do século XX, P or outra • . À pro
circunstancia. . porção . que [aumenta] . ba
concomitantemente às crescentes descob ertas no campo da ·
Complexidade interior [do orgarusmo )'os tstema nervoso d, i ece e
estímulos do próprio elemento somanco, · - esnmu ' los en ogenos-.
neurologia, Freud, que provinha dessa especialidade médica,
b , te' m que ser descarregad os (·· ·) · Destes ' o orgarusmo,
encontra-se escrevendo o Prqjeto para uma psicologia científica. Nesse e que tam em - pode
, . d e faz com os estímulos externos, nao
em diversos textos posteriores, como A interpretação dos sonhos, Três ao contrano o qu Q (Q antidade)
es uivar-se· isto é, ele não pode empregar a u
ensaios sobre a sexualidade e Aspulsões e suas vicissit11des, tem como objeto q ara' [a licá-la] na fuga do estímulo. Cessam apenas
de estudo o funcionamento mental, a partir do que se pergunta, em deles P P . lizar se no mundo
mediante certas condições, que precisam rea . -_ " w
diversas passagens, acerca do lugar que ocupam os estímulos na externo (cf. Por exemplo a necessidade de nutnçao) .
constituição psíquica.
~~~~~~~~~~~~~~--.~~~---~~::::::~-~ mo o
Em Projeto para uma psicologia científtca 9 , Freud interroga como , . modo análogo ao que será descnto co
se estabelece o impacto do meio sobre o psiquismo e qual a reação na retenção da memona de . d .· r Waldeyer em 1891).
. . ( ermo introduzido e escnto po
funcionamento dos neuroruos t ul d . tema nervoso, descreve
9
E ao situar o modo de conexao - destas partíc .as o s1s ser anatomicamente
Em tal texto podemos ler a transição do Freud neurologista para o Freud fundador ' f · ai aqmlo que, ao
teoricamente, desde o aspecto unc1on , s· und Freud (1895), Projeto para
da psicanálise. Freud, neste texto, ainda tem presente o objetivo de estruturar uma
constatado, viria a re~eber o ~ome d~ ~i~s~e ;~iro, Imago (N. da A.).
ciência natural, desde a qual os processos psíquicos pudessem vir a ser relacionados uma psicologia cientifica, E.J.B. , vo · •
a partículas materiais especificáveis. Fala-nos do funcionamento de tais partículas w Idem, p. 397.
52
53
IMPASSES DO "ESTÍMULO"
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM

- , derá ser modificada em função de uma alteração


A relação entre pulsão (trieb) e estímulo fica situada do seguinte tensao que so po - M
enda provisoriamente essa tensao. as
modo: no mundo externo que sus P
o bebê é incapaz de levar a cabo esta ação específica e, para tanto,
Enquanto o estímulo atua como um impacto único e pode
requer da assistência alheia.
ser evitado pela fuga motora (por exemplo, uma luz forte da qual
pode se des v iar o olhar), as pulsões (que já implicam uma "A primeira via a ser seguida é a que c_onduz à alteração
representação de uma excitação somática) atuam como uma força interna (expressão das emoções, grito, inervaçao muscular). ~a.s,
constante da qual não há como fugir, exigindo, para sua satisfação, .. li mos no início nenhuma descarga dessa espec1e
como Jª exp ca ' · 1
uma alteração no meio externo. A respeito das pulsões, Freud afirma: ode roduzir resultado de alívio, uma vez que o es~mu o
P d. p tinua a ser recebido e se restabelece a tensao (...)
en ogeno con lid · de
" Elas exigem muito mais do sistema nervoso, fazendo Nesse caso a estimulação só é capaz de ser abo a por meio
com que ele empreenda atividades complexas e interligadas, pelas uma intervenção que suspenda provisoriame.nte a des:arga de
quais o mundo externo se modifica de forma a proporcionar Q (quantidade) no interior do corpo; e uma mtervençao dessa
satisfação à fonte interna de estimulação. Acima de tudo, obrigam ordem requer uma alteração no mundo externo (forn_ec1me~to
o sistema nervoso a renunciar a sua intenção ideal de afastar os d víveres aproximação do objeto sexual) que, como açao especifica,
estímulos, pois mantêm um afluxo incessante e inevitável de s~ pode ~er conseguida através de determinadas maneiras . . º
estimulação. Podemos, portanto, concluir que as pulsões, e não organismo humano é, a princípio incapaz de levar a .cabo es~a
os estímulos externos, constituem as verdadeiras forças motrizes - 'fi Ela se efetua por meio da assistência alheia, quan o
por detrás dos progressos que conduziram o sistema nervoso açao especi ca. . . 'd estado em
- de uma pessoa expenente e atrai a para o
a atençao · d · a)
(...) a seu alto nível de desenvolvimento atual" .11 . . nça (por exemplo pelo o gnto a cnanç .
q ue se encontra a ena · ·
' . . f
importantlssima unçao
-
O filhote humano carece do saber instintivo previamente Essa via de descarga adqwre, assim, a
. - ,,13
inscrito e inato que o informe acerca de qual é o objeto adequado secundária da comumcaçao.
para a sua satisfação e tampouco tem condições práticas de . o agente materno - ou agente externo no
autonomia para apaziguar esta tensão desagradável. E nesse ponto que l d bebê
d toma esse choro reflexo como um ape o o
texto d e F reu - A mãe se
"Um bebe zinho com fome grita ou dá pontapés d. - d desamparo em que este se encontra.
impôtentemente. Mas a situação permanece inalterada (...) uma ~i~~a : : r~i:~ão ea esse apelo em posição de ~esponder, oferecendo
mudança ocorre somente se, de uma maneira ou outra (no caso
ao bebê a ação específica que produz a satisfaçao.
do nenê através do auxílio externo) pode ser atingida uma
experiência de satisfação" 12 · e t o trabalho da
"Quando uma pessoa prestativa e1e uou
~ O bebê, ao chorar e espernear, procura descarregar por uma ação específica no mundo externo para o desamp~rado'. este
L, · - or meio de disposltlvos
via motora a tensão criada pelo estímulo, mas tal descarga motora 'ltimo se encontra em uma posiçao, p
:eflexos de cumprir imediatamente no interior de seu ,corpo
não produz alívio, pois o estímulo psíquico (representando a fome
' . li · stírnulo endogen o.
) que provém do somático) não cessa. Se estabelece deste modo uma a atividade necessária para e mmar o e - a
A totalidade desse processo representa entao um
11
Sigmund Freud (1915), As pulsões e suas vicissitudes, E.S.B .., vol. XIV, Rio de
Janeiro, Imago, p. 138/140. . l · ientífica obra citada,
12 u Sigmund· Freud (1895), Projeto para uma ps1co ogta c ,
Sigmund Freud (1900), A Interpretação dos sonhos, E.S.B., vol. V, capítulo 7, Rio
de Janeiro, Imago, p. 602. p. 421-422.
55
54
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM
IMPASSES DO "ESTÍMULO"

experiência de satisfação que tem as conseqüências mais


insuficiente para causar satisfação e, após a prova de realidade, o
dec1s1vas para o d ese nvolvimento das funções
individuais." 14 adulto acordará para, de fato, beber água. A diferença é que, neste
caso, falamos de um adulto constituído, enquanto no esquema da
primeira experiência de satisfação trata-se de um bebê no qual estão
Na experiência de satisfação, o cálido fluir do leite materno is deixa
ocorrendo as primeiras inscrições de sua constituição.
co~o efeito não só a satisfação orgânica da necessidade. Ocorre um
registro psíqui:o desta e:periência de satisfação que modificará para O bebê encontra-se absolutamente incapacitado de realizar a
sempr~ a relaçao do bebe com o estímulo endógeno proveniente da ação específica que cause satisfação - não só por sua dependência
necessidade orgânica. Pois, num segundo momento diante do física, mas pela falta de um saber previamente inscrito acerca do que
dese~uilibrio causado por tal estímulo endógeno, 0 b~bê poderá lhe convém. Ele requer a ação de um agente externo, que, como indica
repetir pela alucmação a experiência de satisfação _ a partir do Freud, não é um outro qualquer, mas um agente que se coloca em
mv~stl~ento (catexização) das marcas que ficaram inscritas (traços posição bastante "prestativa" para esse bebê. Somente num segundo
mnem1cos). momento, a partir da experiência propiciada pelo agente externo, o
bebê poderá alucinar um objeto de satisfação (assim como o adulto
. ~o entanto, por mais que se alucine, por mais que tal esquema
que sonha só pode imaginar a fonte de água por causa dos traços
do prmctpw do p1~~er produza efeitos de satisfação, a médio prazo, a
mnêmicos deixados por satisfações anteriores).
fome contmuara ms1stmdo. Será, então, preciso realizar a prova de
rea'.zdad~ Tal prova permite, por um lado, verificar se o objeto de A ação específica propiciada pelo agente materno na experiência
satisfaçao de fato se apresenta nesse momento ou se está sendo de satisfação é decisiva para um bebê devido à deficiência instintiva
alucinado e, por outro, permite avaliar se o objeto ofertado pelo que é característica do humano, ou seja, devido à falta de inscrições
agente externo que se apresenta desde a realidade reúne certas prévias (signos instintivos) que lhe permitam conduzir-se no mundo
condições capazes de propiciar satisfação - para tanto, seus dados por meio de correspondências unívocas entre determinadas situações
perceptíveis . serão comparados aos traços mnêmicos já inscritos fisiológicas de necessidades e o desencadeamento de condutas
durante a pnme1ra experiência de satisfação. instintivas que possibilitem o encontro de um objeto de satisfação
previamente estipulado.
Para melhor compreender este processo, podemos compará-
lo a~ _de um adulto que está dormindo quando surge, desde 0 Na falta do instinto no humano, tal circuito só pode ocorrer
somatl:O, uma necessidade, como a sede. A partir daí, para que 0 por meio da leitura que o agente materno - essa pessoa experiente,
sono nao se mterrompa, ele poderá sonhar que está em uma fonte e como nos diz Freud, e este Outro encarnado como situa Lacan -
que _bebe água abundantemente. Neste momento dó sonho poderá realiza com seu saber consciente e inconsciente a partir do choro do
alucmar .º prazer físico da água fresca acalmando sua sede, que bebê, tomando este choro como a ele dirigido e outorgando-lhe
provisoriamente acalmará a força do estímulo proveniente do significação.
somático. Mas, ao cabo de algum tempo, se o estímulo proveniente
Portanto, no humano, a experiência de satisfação passa pela
do somático for forte e voltar a insistir, o trabalho do sonho será
tela significante e pela significação atribuída desde o Outro. É a partir
14
Idem, p. 422. da linguagem - a partir de uma junção de comunicação, como diz Freud
1s s· - que se estabelecem seus circuitos pulsionais. Como a satisfação
. 1gmund Freud (1905), Três ensaios sobre sexualidade O.C vol VII B não possui um sentido unívoco intrínseco, não possui um objeto a
Aires, Amorrortu. ' " · ' uenos
56
57
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM
I1VlPASSES DO "ESTÍMULO"

priori definido (como o instinto), sua única possibilidade é se sujeitar


demasiado aversivo, desencadeia seu reflexo de sucção, assim como
- no sentido de se submeter e também de se sustentar _ ao
qualquer objeto que roça suavemente a palma de sua mão desencadeia
significante atribuído pelo Outro encarnado na mãe.
0 reflexo de preensão, sem que tais condutas tenham, de início,
~ . O c~nceito de Outro é introduzido por Lacan para definir qualquer índole voluntária ou que se apoiem em um saber acerca do
/ aquilo que e anterior ao sujeito e o determina em sua constituição: a que convém.
linguagem. Escreve-se com maiúscula para diferenciá-lo do
No entanto, não é indiferente para o exercício da maternidade
sem~l~ante (out~o), com o qual se estabelecem identificações que um bebê apresente estes aspectos constitutivos organizados ou
unaginanas que dao lugar à rivalidade e ao amor O O tr
, . 16
. u o, por sua que a mãe tenha que lidar com uma certa desorganização dos
vez, e o lugar do significante em relação ao qual 0 sujeito precisará
mesmos, como ocorre no caso de bebês prematuros, devido à
vtr a se situar, guardando, portanto, uma profunda assimetria com
0 imaturidade neurológica, ou de bebês com paralisia cerebral, devido
su1etto. Ainda que este conceito remeta, de modo amplo à ord
'l'dli ' eme à lesão. É sobre tais manifestações reflexas que a mãe pode ancorar
a et a nguagem, é fu~damental notar que é por meio de um agente a suposição de desejo e de demanda no bebê ao tomar as produções
materno que um bebe recebe marcas significantes e é inscrito no corporais deste como a "fala" de um sujeito à qual ela empresta a
campo da linguagem.
palavra. Produz-se assim o engaste 18 que possibilita que os aspectos
constitucionais do bebê (como seus reflexos arcaicos) sejam
. . "Que o Pai possa ser considerado como representante
onginal dessa autoridade da Lei, é algo que exige especificar sob sustentados em uma rede significante a partir da qual podem fazer
que. modo privilegiado de presença se sustenta mais além do algum sentido.
su1e1to que se vê arrastado a ocupar realmente 0 lugar do Outro, É a mãe que diz "olha só que vontade de mamar!" quando se
a saber, a Mãe." 17
desencadeia o reflexo de sucção, ou "que susto levei com essa água,
mamãe!'~ quando, diante do reflexo de Moro, ela fala como se o bebê
, . A partir de tal percurso fica situado como a constituição
estivesse a falar. A mãe atribui a autoria da produção ao bebê,
ps1qm~a. e o desenvolvimento não são efeito dos puros estímulos
supondo um sujeito onde havia apenas reações involuntárias.
sensona1s, mas da sujeição dos mesmos ao crivo simbólico à d
· ·fi , re e
s1gru cante do Outro encarnado na mãe. Do mesmo modo em que é o engaste do anel que sustenta a
pedra em seu justo lugar, é o engaste ao exercício da função materna 19
O ~ugar d~ '~estímulo" na clinica com bebês a partir do corte que dá a sustentação para que os aspectos constitucionais. do b.ebê
ep1stemolog1co da psicanálise possam vir a desdobrar-se em novas produções, j~ não ma.ts regidas
puramente a partir do automatismo neurológico. E somente a partir
Reto.mando os reflexos arcaicos a partir do percurso realizado, do engaste ao campo do Outro encarnado, a partir de certa
podemos dizer que um bebê até tem reflexo de sucção, mas estando experimentação sustentada pela rede significante do agente materno,
a apenas um palmo da teta não pode fazer nada com ele. A princípio
todo e qualquer objeto que passa por sua boca, desde que não sej;
16 J 18
Lydia Coriat e Alfredo Jerusalinsky (1983), Aspectos constin1cionales dei bebé Y
acques_ Laca_n (1960), Subversión dei sujeto y dialéctica de! deseo, Emitos 2
Buenos Aires, S1glo Veintiuno, p. 785. ' su influencia en la relación madre-hijo, Ci1adernos dei desarrollo infantil, Buenos Aires,
17
Idem, p. 793. Centro Dra. Lydia Coriat.
19
Ver texto adiante e nota 25.
58
59
IMPASSES DO "ESTÍMULO"
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM

É interessante que tal pesquisa - conduzida por neurologistas


que poderá ocorrer no bebê a inscrição de um saber inconsciente e
que, a princípio, não têm nada a ver com a psicanálise - conclua que
um conhecimento consciente acerca do que lhe convém.
aqueles estímulos normalmente oferecidos pelos pais constituem o
Uma vez mais, a partir dos estudos neurológicos, encontramos alimento cerebral mais efetivo para o bebê- "qjudam os bebês a aprender
elementos que corroboram os achados clínicos. Foi realizada uma falando-lhes em 'língua de bebês' ( ..) esse modo de falar-lhes parece facilitar o
pesquisa com bebês 20 de 12 meses que consistia em duas etapas; na processo de conexão entre as palavras e os objetos que denominam" -,
primeira era solicitado aos pais que instruíssem formalmente seus favorecendo a formação de redes de interconexão neuronal que
22
bebês a olharem uma bola vermelha presente na sala; na segunda, integram diferentes informações registradas cerebralmente.
era permitido aos pais oferecerem espontaneamente aos filhos a
Percebemos quão longe se encontram das conclusões de tal
bola para brincar. Quando os pais se dirigiam aos filhos
pesquisa aquelas práticas que, desde a "estimulação multisensorial",
espontaneamente, aparecia a língua de babás - pela qual os adultos
"estimulação motora", "estimulação auditiva" ou "estimulação
falam com as crianças de um modo mais convocante, com prosódia
visual", se propõem a produzir efeitos de desenvolvimento através
mais ritmada e estrutura gramatical simplificada, mais próxima à do
da repetição fragmentada de estímulos dirigidos a cada órgão
bebê. 21 Enquanto na primeira situação poucos bebês atendiam à
perceptivo ou membro motor. Quão longe encontra-se o " ' ul"
estlm o
solicitação, na segunda muitos se dirigiam à bola. Esta questão, que
que os pais dirigem espontaneamente ao seu filho d_aqueles
talvez pareça banal, fez, no entanto, os neurologistas refletirem sobre
"estímulos" propostos por práticas que, através de tecnicismos,
o quanto é propiciador de aprendizagem o tipo de estímulo que os
despedaçam a espontaneidade e depois procuram reconstruir seus
pais oferecem ao seu bebê.
efeitos a partir da pura mecânica funcional dos órgãos.
Então, onde se situa o estímulo? Na bola vermelha no
Se nos perguntássemos qual é o "alvo dos estímulos" que os
triângulo amarelo, no quadrado azul, nas propriedades físicas' dos
objetos ou justamente no modo em que o agente materno - este pais corriqueiramente dirigem aos seus bebês, constatarí~mos que o
alvo em questão não é um órgão específico e seu func10namento:
Outro encarnado - se dirige ao bebê, enlaçando desde sua rede
mas justamente o bebê. É porque se dirigem ao bebê, porque es_te e
significante esse objeto do mundo e convocando o bebê a fazer algo
"alvo" que têm na mira do desejo, que surgem os efeitos
com ele? 0
concomitantes de olhá-lo, aproximar-se dele e falar-lhe de modo
Ninguém questiona que uma luz de 200 Watts que se acende convocante. E é por efeito de tal convocatória, deste circuito de
ou apaga diante dos olhos ou uma buzina intermitente sejam demanda e desejo do Outro em que a pulsão do bebê é en~aça~a,
estímulos sensoriais. A questão é que eles só podem ser constitutivos que pode vir a surgir a realização de uma ação na qual a sattsfa7~0
de alguma. aprendizagem, só podem vir a fazer sentido - como aponta pulsional do bebê fique implicada - por exemplo, no ato voluntario
a pesquisa citada -, se são tomados a partir de uma rede simbólica. de ir pegar a bola da qual se fala.
E, como esta ainda não está inscrita no bebê, opera para ele desde a
sustentação do Outro encarnado.
o
que opera aí não é um automatismo estímu,lo-respost_a, é
um circuito de demanda e desejo no qual, para alem do ob1eto
físico em questão, 0 agente materno supõe um sujeito no bebê ~ ~
20
Kandel, obra citada.
este se dirige, fazendo-o destinatário desta mensagem. O bebe ,e
21
O termo "língua de babás" foi introduzido e assim descrito por Jakobson em tomado nesta convocatória, pois aí, mais do que um olho que ve,
fins da década de 60. Atualmente no Brasil são bastante utilizados os termos
"manhês"
. ' " . Roman Jako b son (1969), Lenguaje infantil y afasia,
o u " maman hes
Madnd, Ayuso, p. 24. (N. da A.) 22 Kandel, obra citada.
61
60
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM IMPASSES DO "ESTÍMULO"

arma-se a cena de um bebê que olha e escuta os pais que lhe falam e no ponto de tomar este bebê como objeto que corresponda à
depois olha e vai atrás do objeto por eles investido. Nisso há um demanda (cumprindo com a resposta adequada), sem que a mesma
órgão da visão, um órgão da audição e um órgão da preensão que se se articule à suposição de sujeito. Demandar que o bebê simplesmente
colocam em funcionamento, mas comandados desde o incipiente corresponda ao que dele se pede é absolutamente diferente de desejar
surgimento do ato voluntário no bebê que se apoia na suposição de o desejo do bebê.
sujeito que o Outro encarnado realizou.
Quando a intervenção se esgota em adequar o bebê ao que é
É nesta dimensão que o significante "estímulo" resulta demandado pode-se obter respostas perfeitamente positivas de
operante em nossa clínica. Há sim um rompimento da inércia, mas
acordo ao proposto pelo método, mas isso poderá se dar às custas
a inércia se rompe na medida em que o Outro encarnado, com seu
da mortificação do bebê enquanto sujeito do desejo. Poderá até se
saber consciente e inconsciente, arma uma leitura da produção do
fazer com que se cumpra a exercitação de uma função, mas
bebê e introduz uma experiência de satisfação que faz marca no
permanecerão as perguntas: Quem é que senta? Quem é que
bebê, que deixa um traço, uma "pegada" do objeto que causou a
caminha? Quem é que diferencia as cores? Quem está a falar ali?
satisfação e que a partir da qual tal objeto virá a ser sempre procurado
Quem poderá vir a se apropriar desde um Eu da enunciação do
pelo movimento do desejo.
funcionamento destas funções?
"O o utro não é um estimulo nem um estimulante, mas a Então, a partir do corte epistemológico que a psicanálise
instância gue, desde seu olhar, organiza na criança a sua auto-
introduz na clínica com bebês, o trabalho clínico é conduzido não
imagem corporal e, desde seu discurso, recorta no olho, na boca,
pela mera exercitação da função de um órgão, mas pela possibilidade
em cada 'bLtraco' da criança, a sombra de um objeto inexistente
gue, por isso, será incessantemente buscado." 23
de que a fimção materna seja exercida para o bebê situando operações
constitutivas do sujeito: o estabelecimento da demanda, a suposição
Os estímulos endógenos são assim precursores das pulsões 24 no bebê, do sujeito, a alternância e alteridade.25 É somente a partir deste
não enquanto esúmulos sensoriais puros, mas no engaste, na
25
passagem, que fazem pelo crivo da rede significante do Outro, este É 0 agente materno que, ao tomar o bebê a partir de um desejo não anônim_o,
sustenta no cuidado com este certas operações constitutivas do sujeito: a supostçao
Outro que enlaça o bebê ao circuito de desejo e demanda, tanto ao
do sujeito, o estabelecimento da demanda, a alternância e a alterização - como foram
ler suas produções como demandas como também ao dirigir situadas. Por isso, ainda que estritamente só possamos falar em função paterna,
demandas ao bebê a partir da suposição de que ele é um sujeito dado que é o Nome-do-Pai, a metáfora paterna, que opera a interdição - que faz
capaz de uma realização. incidir a lei que instaura a falta e o funcionamento desejante - é a mãe que, ao
encarnar o Outro para o bebê, é, ao mesmo tempo, articuladora da inscrição da
Se a intervenção opera a partir de um puro esgmulo sensorial metáfora paterna e o primeiro objeto que se oferece a ser simbolizado. .
que se dirige ao órgão e o interesse recai pura e simplesmente na Daí que haja autores que falem da função materna no sentido descritivo das diversas
resposta de tal órgão, o que fica fora da cena é a possibilidade de operações que uma mãe exerce ao cuidar do bebê. Tais operações vão, portanto, da
apropriação que um bebê possa chegar a fazer deste funcionamento. encarnação de um Outro primordial que comparece para o bebê como não barrado,
como sem falta, até a viabilização da inscrição da metáfora paterna que permitirá
Neste esquema, assim como em alguns modos de laço dos pais com que a mãe advenha como objeto perdido a ser simbolizado.
seu bebê, opera uma demanda, mas o problema é que ela se encerra Acerca do Outro primordial e função materna ver: Jerusalinsky, A. (1984) Psicanálise
23 do autismo, Porto Alegre, Artes Médicas, p. 12 e 32; acerca do Outro primordial ver
Alfredo Jerusalinsky, obra citada, p. 64.
24 também Laznik, M. C. (1995) R111llo à palavra, São Paulo, Escuta, p. 38. Acerca _do
Como afirma Freud no Projeto para uma psicologia científica, obra citada, p. 397. Outro encarnado ver: Vorcaro, A. (1997) A criança na clínica psica11alítica, Rio de Janeiro,
Traduzimos agui o termo "trieb" utilizado por Freud como "pulsão" (N. da A.).
Companhia de Freud, p. 86 (N. da A.).
62
63
IMPASSES DO "ESTÍMULO"
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM

É a partir de tais inscrições simbólicas que o age?te materno introduz


engaste, deste atrelamento ao campo de um Outro não anônimo
que se constitui a imagem corporal do bebê. ~ també~ a par~r do
que sustente tais funções que o funcionamento da função de um
exercício da função materna que se abre ou nao lugar a .tnscnçao da
órgão pode devir como realização de um sujeito no bebê.
funcão paterna - pela qual um bebê poderá, a partir do E u da
Resulta a partir daí interessante a etimologia da palavra enu~ciação, responder pela autoria de atos produzidos através de
"estímulo": ela provém do latim Stimulus, que significa aguilhão, um funcionamento desejante.
encorqjamento, picada, estrepe (estaca pontiaguda oculta debaixo da terra para
impedir a passagem de tropas inimigas).
Stimulus também está relacionada com Stilus (estilo em
português), cujos sentidos podem ser: instrumento de haste pontiaguda,
ponteiro de ferro ou osso, estrepe; exercício escrito, trabalho de escrever e maneira
de escrever..
Estilm; por sua vez, significa ferir e também fazer estilo, estilizar.
É daí que também deriva o termo estilista, ou seja, aquele que escreve
com estilo próprio.
Temos ainda a palavra estigma (do latim Stigma), significando
man;a, cicatriz. 26
Ou seja, segundo a etimologia, a palavra estimular não está
relacionada apenas a incitar, a provocar reação, como podemos pensar
à primeira vista, mas também a escrever e produzir marca deixando inscrito
um estilo. Se, ao exercer a função materna, a mãe incita o desejo do
bebê, o faz não por um puro golpe perceptivo e anônimo dirigido
ao órgão, mas pela escrita simbólica que realiza em seu corpo, pela letra
que inscreve armando um estilo de funcionamento das diversas
funções.
Por isso, consideramos que o estímulo está implicado na clínica
com bebês no sentido da inscrição que produz enlaçamento entre
um real orgânico e uma tela simbólica. Pela marca que o simbólico
efetua na organização orgânica e que inicialmente comparece nos
atos mais simples que uma mãe realiza com seu bebê, tais como a
introdução de ritmos de mamada, troca de fraldas ou de sono-vigília.

26
Novo Dicionário Aurélio, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, p. 721-722; Dicionáiio
Escolar Lati.no Port11g11ês (1992), sexta edição, Rio de Janeiro, Ministério da Educação
- FAE, p. 517.
65
64
PROBLEMAS E PISTEMOLÓGICOS NA NOMEAÇÃO

pelo estilo materno, parece ter ficado bastante esquecida do uso


comum nos últimos tempos.
Na atualidade a palavra "estímulo" tornou-se bastante
representativa do comportamentalismo e, portanto, costuma remeter
à idéia de um puro golpe perceptivo recebido de modo anônimo
desde o meio. Ao associar este sentido do termo estímulo ao trabalho
com bebês, desperta-se a idéia de que a intervenção clínica partiria
do princípio de deparar o bebê com diversos e variados estímulos
ESTIMULAÇÃO PRECOCE? EDUCAÇÃO PRECOCE? perceptivos que, ao desencadear nele reações de estímulo-resposta,
INTERVENÇÃO PRECOCE? causariam por automatismos o desenvolvimento. Isto nos obriga a
PROBLEMAS EPISTEMOLÓGICOS NA NOMEAÇÃO que, cada vez que queremos situar a estimulação precoce a partir do
corte epistemológico que a psicanálise produz nesse campo, nos
DE UMA ESPECIFICIDADE CLÍNICA
vejamos obrigados a fazer uma espécie de tratado para esclarecer o
particular modo em que o estímulo fica aí implicado.
~ relação de um clínico com a teoria é sempre a relação de
um revis01; e aí "revisão" implica pelo menos dois sentidos: o de É bem verdade que neste tempo também foram surgindo
estudar aquilo que diz a teoria e o de retomai; contestar ou C1iticar outras denominações para este campo, como "educação precoce"
um ou outro ponto de uma teoria. " 1 ou "intervenção precoce". Mas até que ponto estas denominações
nos salvaguardam de equívocos e até que ponto comportam novas
A princípio, a palavra "estímulo", como qualquer outra, problemáticas quanto ao que constitui a especificidade da clínica
depende, para sua significação, do contexto em que esteja inserida - com bebês?
daí que tenhamos que dar conta do modo em que colocamos esse
A denominação "educação precoce" ou "psicopedagogia
conceito a operar na clínica com bebês.
terapêutica precoce" 3 , coloca o acento na vertente educativa à qual,
Situamos o termo estímulo na série etimológica que ele faz nos parece, não estão subordinados os eixos fundamentais que guiam
com os termos marca, inscrição e escrita. Pois consideramos que o a intervenção clínica com bebês.
estímulo que produz efeitos constitutivos no bebê, o que nele se
É certo que, no que tange à intervenção com a infância,
inscreve como marca, está em série com a "peneira significante"
sempre se. está em um campo fronteiriço entre a saúde e a educação.
(com o crivo qualitativo e quantitativo) de um Outro encarnado 2 •
Longas são as discussões dentro do campo da psicanálise com
Mas também é preciso considerar que, dependendo do crianças acerca da relação / oposição entre clínica psicanalítica e
momento histórico, uma determinada palavra pode ter sua pedagogia. 4
significação inclinada mais fortemente para uma determinada
direção. E, lamentavelmente, a interessante série significante que liga 3
Como é sugerido por Alfredo Jerusalinsky, obra citada, p. 64, já apontando os
o estímulo à inscrição das marcas significantes no corpo do bebê impasses que a palavra esúmulo comportava ao nomear o campo da intervenção
clínica com a primeira infância (N. da A.).
4
1
Jean J.Rassial (1996), obra citada, p. 81. Como podemos encontrar na clássica polêmica entre Anna Freud e Melanie Klein,
2 assim como em diversos trabalhos posteriores de psicanalistas de crianças. Vide, por
Ver a este respeito o capítulo Impasses do "estímulo" na clinica com bebês.
exemplo, Catherine Millot, Freud antipedagogo?, Buenos Aires, Paidós (N. da A.)
66
67
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PROBLEMAS EPISTEMOLÓGICOS NA NOMEAÇÃO

Na intervenção com a primeira infância resulta inegável a intervindo em um tempo no qual os objetos das diferentes disciplinas
importância de que um bebê possa, ainda tendo problemas orgânicos ainda não estão, de fato, diferenciados e, muito menos, constituídos
de base, ser s~tuado por seus pais em relação aos ideais que vigoram no bebê. Isto implica que, ao menos, se levante uma interrogação e
na cultura. E preciso que um bebê seja remetido a estes ideais reflexão acerca da extensão de aplicabilidade das práticas standard
simbólicos para que se constitua nele uma referência, um ideal-do- das diferentes disciplinas à clinica com a primeira infância. E, se
eu, a partir do qual possa percorrer um caminho a partir da quisermos ir um pouco mais longe nesta mesma direção, podemos
singularidade que seu desejo comportar, mas produzindo laço com reconhecer que o fato de que se intervenha em um tempo em que
o social. Caso contrário ficará lançado a uma exclusão. tanto a inscrição do sujeito quanto a inscrição do funcionamento
QU:e um bebê possa vir a ficar referido ao ideal-do-eu implica, dos aspectos instrumentais está começando a acontecer aponta algo
de certo modo, a educação, mas trata-se aí da "educação no sentido acerca da irredutibilidade da clinica com bebês a apenas uma área
amplo", que comporta uma transmissão que está para além da específica entre todas aquelas que se entretecem em sua constituição.
intenção consciente do querer "ensinar" um ou outro conteúdo. Por isso há uma grande diferença entre operar no campo da
Por isso, a questão da constituição de um bebê como sujeito não se clínica interdúczplinar em estimulação precoce apartir do corte epistemológico da
resolve ao conceber um terapeuta "em posição de ensinante", para psicanálise e propor uma espécie de "psicanálise de bebês".
que o bebê reproduza a mecânica que está implicada em produções
específicas ou para "ensinar" aos pais como se conduzir com este Diferentemente da clinica psicanalítica com adultos, na qual
bebê. Se há educação na clínica com bebês, o há no sentido amplo: o paciente confronta-se com seu objeto do desejo, à medida em
no sentido de que o tratamento do bebê possibilite o marco de que é posto a trabalhar, posto a falar pela vacuidade de discurso
uma transmissão consciente e inconsciente, como a colocação em que o analista lhe oferece, o trabalho clínico com bebês não pode
ato das inscrições simbólicas que, desde o Outro encarnado, são ser conduzido desde o "associe livremente''. Se bem que o trabalho
constituintes do bebê e que lhe permitirão estabelecer as referências clínico com bebês também opere com o significante e com os efeitos
a partir das quais virá a fazer escolhas na vida. da suposição de um sujeito no bebê, sabemos que não adianta muito
simplesmente parar-se diante deste e esperar que fale. Tampouco
Por outro lado, as práticas nomeadas como "intervenção basta perguntar-lhe repetidas vezes "O que queres?" para que se
precoce" costumam proceder pela Sl,lbordinação do bebê a um instaure no bebê o enigma que o leva a desejar.
campo de estudo específico, recortando na intervenção um
determinado aspecto ou função. Tem-se assim, "intervenção Para que alguém possa falar é preciso que, a partir da
precoce em fonoaudiologia", "intervenção precoce em constituição psíquica, estejam dadas algumas condições enunciativ,as
psicomotricidade", "intervenção precoce em psicologia". Tais mínimas, e tais condições ainda não estão inscritas para o bebê -
práticas partem do princípio de aplicar o conhecimento já como indica o termo infans, que etimologicamente quer dizer aquele
estabelecido a partir do seu campo a um tempo precoce em lugar que não tem fala. É portanto preciso que trabalhemos sobre as
de reconhecer a especificidade que os bebês impõem a um exercício condições que possibilitam tais inscrições.
clinico. Se nos remetemos às primeiras operações que são necessárias
Há, no entanto, algumas considerações epistemológicas que para que um bebê venha a constituir-se como sujeito, constatamos
não podem ser negligenciadas ao estabelecer o marco da clínica que é preciso que um Outro encarnado, concreto, exerça o discurso
com bebês: em primeiro lugar, é preciso considerar que está se do mestre para o bebê. É preciso que, pela mestria do saber de um
agente materno, se organize o gozo deste bebê.
68 69
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PROBLEMAS EPISTEMOLÓGICOS NA NOMEAÇÃO

Por isso, no trabalho com bebês, se fala tanto de papinhas, desejo do mesmo, e se dê lugar a que advenha a produção do bebê
de andadores, de cordéis, de chupetas, mamadeiras, fraldas e penicos. tomada como interrogante a ser lido, muitas intervenções levam a
Por isso, quando intervimos neste campo ficamos mais ou menos a que o discurso do mestre, como fundador do sujeito, possa operar
par das últimas tendências da puericultura, ainda que esses conselhos para o bebê. Ou seja, não há como criar um bebê - ou pelo me~os
mudem tanto. Nos últimos anos, por exemplo, a postura aconselhada produzir nele a inscrição de um sujeito do desejo - sem lhe dizer
para que os bebês durmam já mudou de decúbito dorsal a decúbito nada ou simplesmente lhe dizendo que fale, é preciso que se
ventral e depois para a postura de lado. Ou seja, se tomarmos o introduzam em ato significantes e que estes amarrem significações
bebê que a partir de tais livros de puericultura é imaginado como para que um bebê possa vir a ficar situado como sujeito: Muitas
aquele que teve uma criação perfeita, podemos dizer que o mesmo vezes são estas as intervenções sancionadoras que produzimos no
já realizou uma rotação inteira em seu pequeno moisés, passando tratamento.
por todas as posições possíveis de serem consideradas ideais.
Como clínicos, intervimos possibilitando que os pais se
Se esses conselhos mudam tanto, certamente é porque, para autorizem a exercer seu saber consciente e inconsciente com seu
além das últimas descobertas científicas, na criação de um bebê filho. Mas, para que isto ocorra, também é preciso que, em alguns
sempre está em jogo algo de arbitrário. Uma mãe conduz a criação momentos, emprestemos significantes, que sustentemos a
de seu filho pela introdução de certas arbitrariedades simbólicas. significação que assume um gesto do bebê como aquisição
Ainda que, a princípio, não haja uma causa única definitiva e com instrumental do seu desenvolvimento, que realizemos a introdução
sentido equivalente para todas as mães de porque deitar o bebê de de uma determinada arbitrariedade simbólica na criação do bebê
tal modo, em tal posição, com tal modo de ajeitar o lençol e o para que a mesma possa, posteriormente, ser articulada à rede
travesseiro, com tal luminosidade, com ou sem chupeta e significante que recolhemos do discurso parental. 5
acompanhado ou não de determinado bichinho de pano ou pelúcia,
o certo é que, uma vez que o agente da função materna introduz Quando estão em jogo os primeiros movimentos da
tais arbitrariedades, as mesmas não podem ser suplantadas ou constituição do sujeito, o discurso do mestre tem então grande
substituídas de qualquer modo, porque passam a funcionar como implicação e é preciso que esse discurso se ponha em ato nos
referência no laço de cada bebê com o Outro encarnado. cuidados dirigidos ao bebê. Isto faz sua marca na clínica que se
dedica à primeira infância.
A'ssim como é preciso, para que o bebê venha a constituir-se
Para que um bebê se constitua como sujeito é preciso que
enquanto sujeito do desej o, que a mãe suponha um sujeito no bebê
façam marca nele as arbitrariedades simbólicas da cultura. E é neste
e interrogue a este, interrogando-se, "O que você quer?", também é
ponto que, na clínica com bebês, opera algo da educação em seu
preciso que ela detenha as infinitas possibilidades de supostas
sentido amplo, que opera ali algo da puericultura, ou seja, de discursos
respostas ao efetuar, entre interrogação e interrogação, pontos de
que excedem o puro campo do discurso do psicanalista.
amarra que armem inscrição, que organizem o funcionamento
pulsional do bebê a partir das arbitrariedades simbólicas introduzidas Há ainda outras duas questões clínicas com as quais a
pelo saber materno. especificidade do bebê nos depara:
Na intervenção clínica com bebês, se bem que em certos
momentos se produza certa vacuidade do discurso do clínico que
5 Questão retomada no capítulo A intervenção do clínico no marco da estimulação
permita aos pais pôr-se a falar de seu filho e interrogar-se acerca do
precoce (N. da A.).
70 71
~r
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
PROBLEMAS EPISTEMOLÓGICOS NA NOMEAÇÃO

Freud considerou às diferenças que o momento de Também é preciso considerar que, diferentemente do que ,,
constituição psíquica de uma criança impunham em relação ao marco ocorre com crianças, em bebês encontramos uma indiftrenciação dos
de tratamento de um adulto, afirmando: aspectos instmmentais. 8

l
\1
''Verificou-se que a criança é muito propícia ao tratamento Entende-se como instrumentais os diferentes aspectos - tais
analítico; os resultados são seguros e duradouros. A técnica de como psicomGtricidade, aquisição da linguagem, aprendizagem,
tratamento usada em adultos deve, naturalmente, ser muito hábitos de vida, e processos de sociabilização - que na supeifície do
modificada para sua aplicação em crianças. Uma criança arcabouço básico do s"!Jeito, difractam-se como ferramentas das quais o bebê
psicologicamente é um objeto diferente do adulto. De vez que ou criança se vale para efetivartudo aquilo que sua estn1t11ração demanda. Os
não possui supereu, o método da associação livre não tem muita
aspectos estmturaisficam definidos pelo aparelho biológico (especialmente o sistema
razão de ser"6
nervoso centra~e o stijeito psíquico. 9
Mas, ao intervirmos com bebês, não apenas constatamos "A distinção entre os aspectos estruturais e os aspectos
que o supereu não está formado, como tampouco há um E u - instrumentais do desenvolvimento (...) se especifica na diferença
(...) entre aquilo que permite a existência de um sujeito do desejo
nem sequer um "Eu fraco", como Freud coloca em diversas
e, do outro lado, aquilo que constitui as funções imaginárias do
passagens ao referir-se às crianças. Estamos intervindo no tempo
eu, através das quais o sujeito desdobra suas relações com a
de constituição da especularidade e, muitas vezes, em um tempo realidade" .10
do pré-especular. Já que, como aponta Lacan acerca da constituição
do Eu, podemos reconhecer movimentos importantes que indicam Os diversos aspectos instrumentais estão, em sua origem,
os primórdios de seu estabelecimento entre a idade de seis meses e extremamente indiferenciados. Por isso, em torno de uma mesma
7
o ano e meio. Portanto, ao apontarmos a constituição psíquica do experiência, se articulam para o bebê as inscrições fundamentais
que servirão de base para a construção dos mais variados aspectos
bebê, há algumas operações que ficam aí implicadas e que dizem
instrumentais que, progressivamente, terão entre si uma maior
respeito à possiblidade de que nele se produza uma inscrição
autonomia recíproca, tornando-se cada vez mais específicos e
simbólica e uma mínima consistência imaginaria a partir das
complexos.
operações de alienação-separação do Outro.

Percebe-se então quão desastrosos podem ser os efeitos de "O ato de sucção no bebê de um mês é, ao mesmo tempo,
múltiplas intervenções ou intervenções que colocam na mira apenas acontecimento biológico reflexo (eventualmente alimentar),
o que fracassa em um tempo no qual o Eu, nem sequer em seus afetivo, cognitivo, psicomotor de comunicação, de
primórdios, está estabelecido. aprendizagem, de jogo, de constituição de hábitos, de

8
É Ajuriaguerra quem, inicialmente estabelece uma diferenciação entre os aspectos
estruturais e instrumentais. Tal diferenciação é mais amplamente fundamentada desde
as produções do Centro Lydia Coriat. Ver Centro Lydia Coriat, C11adernos dei dessarrol/o
6
Sigmund Freud (1933), Novas conferências introdutórias à psicanálise, conf. infantil (1983), Buenos Aires; reeditado parcialmente em Emitos de la Infancia, nº 8,
XXXIV, E.S.B., vol XXII, Rio de Janeiro, Imago, p. 181. Buenos Aires, FEPI- Centro Dra. Lydia Coriat de Buenos Aires (N. da A.).
7 9
Jacques Lacan, (1949), EI estadia dei espejo como formador dei Yo, Emitos 1, Lydia Coriat e Alfredo Jerusalinsky (1983), Aspectos estructurales e instrumentales
Buenos Aires, Siglo Veintiuno. dei desarrollo, Ci1adernos dei dessarrollo infanti~ obra citada.
10
Idem, segunda edição, p. 52.
72
73
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PROBLEMAS EPISTEMOLÓGICOS NA NOMEAÇAO
ii
sociabilização (...) estão fusionados em um processo único Nessa clínica não basta apostar na eficácia simbólica do li
que progressivamente os levará a sua dissociação relativa. "levanta-te e anda". Lançar mão de conhecimentos que falem éfa
Não pode-se dizer o mesmo do ato de pular corda ou legalidade do desenvolvimento e das características de suas patologias
somar um conjunto de números praticados por uma se faz importante para favorecer as aquisições de um bebê cujo
criança de sete anos. Em qualquer um dos dois casos, organismo impõe reais empecilhos ao seu domínio instrumental. 12
sobre a base dos aspectos estruturais, constituíram-se
Se res ulta fundamental que as diferentes aquisições
sistemas que, seja na psicomotricidade, seja no operatório,
instrumentais estejam sujeitas à apropriação que o bebê possa vir a
articulam uma legalidade de coordenações autônomas.
fazer delas em nome de um desejo, a clínica também nos mostra
Apesar de não escapar à determinação dos processos
que o advento de uma nova produção instrumental - tal como
estruturais, têm, enquanto aspectos instrumentais, uma falar as primeiras palavras, sentar ou dar os primeiros passos -
maior estabilidade, distância e autonomia recíproca.
pode vir a ressituar a posição psíquica do bebê e o lugar em que é
Obviamente as relações entre estes diferentes sistemas se suposto pelos pais. Aspectos instrumentais e estruturais estão aí
mantêm, só que as distâncias entre as coordenações profundamente intrincados.
próprias de cada um de1es sao - cada vez ma10res.
. ,,11

Por isso, a estimulação precoce - enquanto clínica dedicada à


A grande incidência de "atrasos generalizados do intervenção de bebês que apresentam problemas - não se enquadra 111
I'
desenvolvimento" na primeira infância fica relacionada justamente nem puramente como uma disciplina que intervém com os aspectos :1
a esta indiferenciação dos aspectos instrumentais. Em bebês é muito instrumentais do desenvolvimento, nem apenas enquanto uma disciplina
freqüente que o sério comprometimento funcional apresentado em relativa à constituição psíquica - aos aspectos estruturais. É uma clínica
um aspecto acabe repercutindo no funcionamento de outros que intervém na possibilidade de instauração tanto de uns como de
'I'
aspectos que ainda estão indiferenciados dele. Daí que na intervenção outros aspectos.
com bebês seja uma condição necessária que o clínico tenha
Daí o porque de situar a clínica com bebês em um marco
conhecimento acerca da legalidade que opera na aquisição destes interdisciplinar, que vem possibilitar o permanente exercício de
aspectos instrumentais ainda muito intrincados e pouco diferenciados
interlocução entre as diferentes disciplinas, uma vez que, pelo
entre si, assim como que o clínico possa permanentemente contar
momento da constituição na qual um bebê se encontra, as
com a interlocução interdisciplinar.
problemáticas levantadas por esta clínica são irredutíveis a apenas
Na intervenção com bebês que apresentam problemas uma área do conhecimento.
orgânicos de base, tanto mais evidente se faz a importância de que
Ao mesmo tempo, trata-se de evitar os efeitos desagregadores
o clínico detenha um conhecimento acerca do instrumental para
das múltiplas intervenções nestes primórdios da constituição psíquica.
poder ler quais os obstáculos que se apresentam no bebê e para
Para isso é necessário que seja um o clínico especialista que está a cargo da
poder ofertar situações que favoreçam suas aquisições. Deste modo,
direção do tratamento - operando as intervenções clínicas a partir da
o clínico poderá intervir com um toque que efetivamente auxilie o
escuta parental e da leitura das produções do bebê.
bebê a armar postura ou com a sustentação de um conflito cognitivo
que propicie ao bebê a construção de uma nova estratégia. 12
Abordei esta questão no artigo O pé esquerdo do academicismo - sobre bebês,
11 psicanálise e estimulação precoce, Boletim da APPOA, nº 83, Porto Alegre, 2000
Idem, primeira edição, p. 9 e 10. (N. da A.).

74 75
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PROBLEMAS EPISTEMOLÓGICOS NA NOMEAÇAO

A partir da clínica interdisciplinar com bebês, o clínico trabalhado. Se há algo que podemos tomar da transmissão de Freud
especialista que está a cargo da direção do tratamento, em virtude é que vale a pena interrogar-se acerca das pedras que nos fazem
da permanente interlocução com a equipe, pode operar tropeçar, elas podem dizer algo acerca do nosso caminho, por isso
desdobramentos da demanda, convocando a intervenção de um a questão não consiste em rapidamente varrê-las a um lado ou
ou outro profissional quando assim o trabalho o requer, seja porque escamoteá-las, mas de colocá-las a trabalhar.
um obstáculo instrumental torna necessária uma avaliação ou Por isso, nosso objetivo aqui não é o de propor uma nova
intervenção pontual, seja porque a partir do parental comparecem denominação que evite tais problemas - talvez até possa vir a ser
questões que excedem o marco da intervenção com o bebê e fazem estabelecida alguma melhor, que seja mais representativa do modo
necessária outra escuta. Isto torna necessário, da parte dos clínicos de conduzir esta clínica que a de "estimulação" e que, ao mesmo
que intervêm com bebês, um permanente trabalho de formação tempo, não caia do lado de um trabalho fragmentado com bebês
quanto às especificidades implicadas nos primórdios da vida: desde como a de "intervenção". Propomos sim pôr os termos "estímulo"
a constituição psíquica, estabelecimento neurofuncional, legalidade e "precoce" a trabalhar. Pois se bem o nome que uma disciplina
de aquisição dos aspectos instrumentais, e detecção dos primeiros recebe não seja indiferente, a questão é que sempre será preciso dar
traços que indicam a instalação de um funcionamento patológico conta do que se faz sob ele, levantando os problemas
no bebê. epistemológicos aos quais a clínica nos depara e procurando dar
Não se trata de que, ao se intervir com bebês, tenha que ser uma maior consistência e extensão aos seus conceitos a partir do
apagada a formação de base de cada profissional, mas de que, pelo corte epistemológico que tomamos como referência para articular
exercício interdisciplinar, possa ser produzida uma clínica que sua prática.
contemple a especificidade apresentada pelos bebês em lugar de Como vemos, a pergunta que com tanta franqueza nos dirige
forçar um enquadramento destes ao recorte de cada disciplina. o leigo - Estúmt!apão precoce, o que é isso? 13 - não é nada tola, pois
Reconhecer a importância que o domínio das aquisições instrumentais implica dar conta dos fundamentos que guiam nossa função
tem para a constituição da primeira infância impede a redução da enquanto clínicos. Dar conta de tais questões é o que constitui a
clínica com bebês a uma intervenção puramente psicanalítica, assim especificidade de um trabalho clínico e também a sua constante
como reconhecer a importância decisiva das condições de interrogação teórica. Caso contrário se estaria procedendo a um
constituição psíquica e de apropriação imaginária do corpo impedem forjamento da clínica para que esta encaixe no modelo teórico e, ao
que tal clínica fique reduzida ao puro recorte que os conhecimentos mesmo tempo, estaria se condenando o corpo teórico a ser um
fisioterapêuticos, cognitivos ou fonoaudiológicos, tomados de modo apanhado de postulados definitivos e imutáveis, o que é impossível
isolado, produzem em um bebê. O que marca, o que delimita o ao tratar-se de uma praxis que implica o sujeito.
campo da estimulação precoce é justamente o reconhecimento de
Não há como escutar um sujeito contemporâneo ou dar lugar
que a especificidade apresentada pela primeira infância aponta a
à sua palavra a partir de um exercício anacrônico, sendo necessário
necessidade de uma clínica interdisciplinar com bebês.
esse constante trabalho de revisão. Porque, como bem sabemos, o
Se bem a denominação de "estimulação precoce" atualmente sofrimento, a subjetividade, os sintomas, os diferentes modos de
não resulte muito confortável a quem intervém a partir do corte laço social e o modo de compreensão de determinados processos
epistemológico da psicanálise nessa clínica, é justamente onde se
produz o ponto de incômodo, de resistência, que há algo a ser
t3 Apresentada no começo do capítulo Situando a clínica com bebês (N. da A.).

76 77
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM

levam a marca de sua época. Por isso as formulações teóricas e a


significação que determinadas terminologias assumem ao longo do
tempo também nos exigem um trabalho de reflexão a partir das
problemáticas que elas implicam.

Se propusemos tal percurso em relação ao termo "estímulo'',


o trabalho prossegue na direção de continuar a pensar como o
"precoce" fica implicado na especificidade da clínica com bebês.

TEMPORALIDADE NA CLÍNICA COM BEBÊS

- Vou chegar atrasado, vou chegar atrasado! - diz o coelho da


obra Alice no país das maravilhas 1 , enquanto passa correndo de um
lado para o outro olhando o relógio de bolso.
"Estamos atrasados, estamos atrasados!", dizem os pais em
meio à corrida de um especialista a outro para consultar a respeito
de seu bebê que apresenta problemas. Fica em jogo aí um destempo,
na medida em que um bebê com problemas está colocado no lugar
de quem não pode cumprir com a normatização cronológica do
desenvolvimento estabelecida como referência para as crianças da
nossa cultura.
O bebê com problemas e seus pais são recebidos no marco
clínico da estimulação precoce, por uma especialidade clínica na
qual a questão temporalidade faz sua marca até mesmo no nome.
Mas como fica situado este "precoce" diante deste bebê a destempo
que chega até nós?
Trabalhar sobre este ponto implica duas questões anteriores:
É somente um bebê com problemas que fica deparado a
um destempo?
E, ao considerarmos que não, a pergunta que se apresenta é:
no que difere este destempo ao qual fica deparado um bebê com
problemas do destempo que é constituinte do sujeito na infância?

1
Lewis Carroll (1862), Alice no País das Mamvilhas, São Paulo, Sumus, 1980.

78 79
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TE MPORALIDADE NA CLÍN ICA COM.BEBÊS

"Uma criança deve ter melhor ventura que seus pais. Não O adulto padece das marcas de infância que o constituíram,
deve estar submetida a essas necessidades objetivas cujo império que lhe permitem ser quem é, mas que, ao mesmo tempo, são
estes reconheceram como supremas na vida. Doença, morte,
fonte de sofrimento naquilo que seus sintomas reatualizam. O adulto
renúncia ao gozo, restrição da vontade própria não hão de ter
padece então do infantil, disto que o marcou num passado e em
vigência para a criança, as leis da natureza e da sociedade hão de
cessar diante dela e realmente deve ser o novo centro e núcleo da
relação ao qual se encontra, na atualidade de sua vida, em certa
criação. "His majesty the baby'', como uma vez acreditamo-nos. posição de passividade. Muitas vezes, então, também imagina a
Deve cumprir os sonhos, os irrealizáveis desejos de seus pais" 2 . infância como um "tempo ideal", como um paraíso perdido em
contrapartida à sua condição atual.
Um beb ê é depositário de tão grandiosas esperanças de
realização ao mesmo tempo em que está absolutamente Mas, ao escutar as crianças, fica claro que a infância está longe
despreparado para viver. Temos aí uma desproporção e é diante de ser um paraíso. Elas também sofrem os efeitos da condição em
de tal desproporção que a infância transcorre: entre a insuficiência que se encontram: na infância sofrem-se os efeitos de uma posição
de passividade em relação ao futuro, já que seria no futuro que,
das condições reais do bebê e o que já aparece para ele antecipado
como potência a partir da estrutura, sem que tenha ainda condições imaginariamente, se realizaria o ideal.
simbólicas e reais de realizar. É com seu corpo descoordenado Como vemos, em relação ao encontro do sujeito com o
dominado por reflexos arcaicos, com sua cabeça careca e sua boca o bjeto da satisfação, sempre é cedo ou tarde demais. O sujeito
desdentada que é colocado no pedestal de "princesinha da casa" ou sempre fica situado num destempo de desencontro com o objeto
no pódio de "craque de futebol". Percebe-se aí o destempo estrutural pela temporalidade do funcionamento desejante. Esta ~uestão nã.o
que opera na infância. O que as crianças nos dizem a este respeito? se ordena ou se resolve por efeito da cronologia, pois, por mais
que 0 tempo passe, o encontro com o objeto não Sf produz.
Ser cn'ança é muito chato, a gente fica só esperando a hora de sergmnde
Justamente porque trata-se aí de um desternpo que é estruturante
- afirma, pensativa, uma menina de cinco anos.
.do desejo. É no destempo que o sujeito do desejo produz sua
É um enunciado interessante este que as crianças fazem, na enunciação, entre o c1ue imagina ter sido desde sempre num passado
qual ser grande e chegar à idade adulta parecem ser a mesma coisa. Nela já inscrito e a projeção de um futuro que não terá sido senão enquanto
a diferença entre uma pessoa grande (adulta) e uma grande pessoa (que futuro anterior.3
encarna um idea~ fica imaginariamente suprimida.
O futuro anterior é o destempo estrutural no qual opera o -
Se, nesta superposição imaginária, a idade adulta coincidiria desejo. Ainda que este desternpo não se resolva pela passagem do
com o tempo de realização dos ideais, nada mais justo do que as tempo cronológico, no entanto, podemos perceber g_ue ele produz
crianças esperarem ansiosamente pela chegada desse futuro. Ao que diferentes efeitos na criança e no adulto.
tudo indica, seria apenas uma questão de tempo... O que as c1iançasfazem enquanto e.ipemm ansiosamente jJela realização
A questão colocada pelas crianças teria uma resposta simples destefuturo?
se bastasse a passagem do tempo para sua resolução. Mas aqueles As crianças brincam e brincam, porque brincar, enquanto o
que chegam à idade adulta são a prova viva de que não basta ser futuro não vem, é um exercício constituinte. do sujeito do desejo, é,
adulto para ser grande. por excelência, o sintoma de estrutura na infância. Nesta cena na _1
2
Sigmund Freud (1914), Introducción del narcisimo, O. C., vol. XIY, Buenos
·1 Acerca do fu turo anterior ver: Jacques Lacan (1960), Subversión del sujeto Y
Aires, Amorrortu, p. 88.
d.ialéctica del deseo, Escritos 2, Buenos Aires, Siglo Veintiuno, p. 787 · \
80 81)
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE NA CLÍN ICA COM BEBÊS

qual ensaiam a realização dos ideais-do-eu, como Dali o faz com Diante disso, seria o caso de que nós também, desde a função
seus relógios surrealistas, torcem o tempo desde um "agora eu era" 4 de clínicos, saíssemos a correr como o coelho d e Alice? A
- agora eu era o herói, era o bedel e era também o juiz. Nesta intervenção consistiria em responder de modo direto a este
conjugação, amarram com ofio do desejo opassado, opresente e ofuturo. 5 imperativo sob o qual o bebê fica situado: o imperativo de "apressar-
Mas, para que esta produção constituinte se instale como se" com este bebê supostamente atrasado? ·
resposta de uma criança face à temporalidade que a estrntura lhe
A articulação dos três registros do tempo na clínica com bebês
impõe, é preciso que, nos primeiros tempos da vida, em que ela foi
bebê, a imaginarização de um futuro e a conjugação do tempo
A neurologia é clara quanto à importância dos primeiros
verbal do futuro anterior tenham sido para ela sustentadas pelos
meses e anos de vida na constituição do sistema nervoso de um
pa.ts.
bebê: neles o cérebro passa por mudanças extraordinárias e se
Ocorre que os bebês com problemas no desenvolvimento caracteriza pela grande plasticidade de sua estrutura anátomo -
e/ ou na constituição psíquica deparam com obstáculos na articulação fisiológica 7 .
dos diferentes registros da temporalidade. E ntão, em lugar de
O p rimeiro ano de vida é situado como a etapa mais
sintomas de estrutura - como o brincar, pelo qual o destempo de
importante do desenvolvimento cerebral8 . Em torno dos dois anos de
desencontro entre sujeito e objeto da satisfação permitem articular
idade, o cérebro de uma pequena criança contém o dobro de sinapses e consome o
um exercício desejante -, padecem de destempos que faze m
dobro de energia que o cérebro de um adulto. Em torno dos três anos, o cérebro
sintomas clínicos, que fazem obstáculo à sua constituição 6 .
de uma criança abandonada ou maltratada tem neurologicamente marcas diftceis
4
Alfredo Jerusalinsky (1988), Psicanálise e desenvolvimento i11fantil, Porto Alegre,
Artes Médicas, p. 50, em referência à música "João e Maria" de autoria de Chico
de apagar. 9
Buarque (N. da A.). E mbora o código genético permita uma organização geral
5
Esta questão é retomada no capítulo Clínica com bebês: da estrutura ao nascimento do sistema nervoso, não dá conta, por si só, de estabelecer todas as
do su jeito, no ponto ''A estrutura psíquica e suas temporalidades" (N.da A.).
" É Jacques Lacan (1975-76), Semi11á1io 23, inédito, quem propõe a diferenciação
7 "Dizemos que ocorreram mudanças plásticas quando ocorrem mudanças duradouras
entre sintoma clínico (SJ1mptôme) , in1plicando certa contingência de resolução dos
na estrutura e função do sistema nervoso, no rúvel de um neurônio ou de um pequeno
c~nflitos psí.quicos, e sintoma de estrutura (sinthome), como aquele sintoma que
povoamento de neurônios e de suas conexões, que constituem o substrato da
nao pode cair, qu e é uma posição necessária para o sujeito em questão acerca do
plasticidade compo1tamental. O Sistema Nervoso Central tem uma enonne capacidade
modo de articular estruturalmente o gozo e o desejo.
de passar por mudanças plásticas, não só no desenvolvimento ou nos estados imaturos
Situar e~tes estatutos do sintoma no bebê e na criança exige algumas considerações,
da precoce infância, mas ao longo de toda a vida. Mas evidentemente as mudanças são
na medida em que a estrutura na infância está se inscrevendo, e, portanto, o
cada vez mais restringidas e mais sutis." Diana Jerusalinsky (1997), Células netviosas,
Sintoma de estrutura não está consolidado. Consideramos, no entanto, que há
sinapsis y plasticidad, Escritos de la Infancia, n. 8, Buenos Aires, FEPI-Centro Dra.
ce1tos s1ntomas que são próprios da estrutura na infância. Eles dão o testemunho
Lydia Coriat de Buenos Aires, p. 116 (N. da A.).
de_que certas operações constituintes estão se inscrevendo em um bebê ou pequena
8 O recém-nascido tem toda sua dotação de grandes células piramidais, mas suas
criança e, a1nda que sofram modificações à medida em que vai ocorrendo tal
constituição, sustentam a sua posição estrutural como sujeito. O brincar simbólico dendritas e sistemas espiculares não estão completamente desenvolvidos (SMITHIES);
é, neste sentido, um s-inthoma fundamental da criança. Nos mamíferos 80 a 90% dos neurônios do hipocampo, bulbo olfatório, e córlex cerr;bral aparecem
Acerca do sintoma de estrutura na infância, ver: Alfredo Jerusalinsky (1997). Sintomas depois do nascimento (ALT!vlAN). Citados por Owen Foster e Alfredo Jerusalinsky
de infância, Sintoma na Infância: Boletim da A PPOA, nº 13, Porto Alegre, Associação (1982), Bases neuropsicológicas de la Estimulación Temprana, Ci~ademos dei desarrollo
Psicanalitica de Porto Alegre. Tal questão é retomada nos capítulos O bebê e o infantil, n. 2, Buenos Aires, Centro Dra. Lydia Coriat, p. 8 (N. da A.).
s!Iltoma e Clínica com bebês: da estrutura ao nascimento do sujeito (N.da A.). 9
Kandel, artigo citado.

82 83
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE NA CLÍNICA COM BEBÊS

conexões neuronais que serão necessárias ao funcionamento - em "O núcleo da aquisição das funções espeáficas do sistema
grande parte, estas irão depender das experiências de vida de um nervoso central e dos padrões de mielinização sugere que o
bebê. A realizar uma analogia entre a formação do sistema nervoso aumento da atividade em certos sistemas constitui um poderoso
e o estabelecimento de uma rede elétrica, os neurologistas dizem impulso para sua mielinização." 1?.
que o u'idigo genético seria o que determinaria a planta de conexão "A estimulação que uma criança recebe, se é na medida e
dos fü)s de alta tensão entre a hidrelétrica e uma cidade e, desta, a qualidade adequada, favorece sua maturação. Isto se revela não só
cad:i. um dos seus bairros. Mas a conexão da central de distribuição psiquicamente, mas também nos terrenos qLúmico e anatômico;
do bairro a cada uma das casas, e a instalação de tomadas e a influência do ambiente é absorvida como um componente
interruptores em cada uma das moradias dependerá do uso que se estrutural dos neurônios do cérebro em desenvolvimento (...)A
fizer dessa rede, do mesmo modo que as conexões neuronais estimulação precoce enfoca a necessidade de suscitar na criança
dependem do uso propiciado pela experiência de vida de um bebê. 10 com patologia aquilo para o qual está constitucionalmente
preparado para além de seu déficit." u
Estas pesquisas sobre acerca da estruturação neuroanatômica
vêm ratificar o que já era claro desde a clínica: que não importa Isto demonstra que, em relação aos efeitos de uma
somente o "aparelho" anátómo -fisiológico geneticamente intervenção clínica, não é indiferente a idade do paciente. Quanto
determinado com o qual um bebê chegue "equipado" ao mundo, mais cedo ocorrer uma intervenção com um bebê que apresenta
mas também o que se lhe propõe fazer com ele e em que tempo dificuldades, mais se poderá contar com a plasticidade de um
isto é proposto. Por isso, quando um bebê recebe o diagnóstico de aparelho neurológico que está se constituindo.
síndrome, malformação ou lesões, ainda que tais diagnósticos
comportem um problema que a intervenção clínica não poderá Fie.a situado então um primeiro registro da temporalidade
solucionar, na medida em que comportam algo de incurável, nem que está implicado nesta clínica: o tempo real·- enquanto a flecha do
tudo está decidido. Muito vai depender das experiências de vida do tempo que aponta a uma direção sem retorno, este tempo que se
bebê, do circuito de desejo e demanda do Outro ao qual este real esvai independentemente dos nossos atos e vontades - , ao qual o
orgânico do corpo do bebê for enlaçado - ainda que haja quadros nosso organismo está submetido, dado que a passagem do tempo
nos quais a extrema gravidade da patologia imponha maiores e tem efeitos nele.
mais sérias restrições quanto à permeabilidade que o orgânico Mas há uma grande diferença entre intervir cedo, intervir o
oferece às inscrições do Outro. quanto antes, quando se detecta um problema em um bebê - para
Os neurologistas são claros acerca dos benefícios de se intervir poder contar com a plasticidade neurológica e também com a
clinicamente cedo quando um obstáculo se apresenta no abertura a inscrições de uma estrutura psíquica que não está fechada,
desenvolvimento de um bebê: mas em constituição - e considerar que esta intervenção consiste
em situar o bebê no imperativo de ter que realizar uma "corrida"
"O ambiente rico em estímulos produz córtex mais com as escalas de desenvolvimento. Vale a pena aprofundar tal
grosso, com mais irrigação sangüínea, maiores neurônios, mais
esclarecimento porque ele divide os caminhos tomados pelas
enzimas e maior ramificação das dendritas." 11
propostas atuais de intervenção com bebês. A diferença está na
"' Idem.
" KRECH , citado por Owen Poster e Alfredo Jerusalinsky, (1982), Bases 12 Dekabran, citado por Owen Foster e Alfredo Jerusalinsky, obra citada.
neuropsicológicas de la Estimulación Temprana, Cuadernos dei desarrollo infantil,
nº 2, Buenos Aires, Centro Dra. Lydia Coriat.
13 Owen Poster e Alfredo Jerusalinsky, obra citada.

84 85
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE NA CLÍNICA COM BEBÊS

concepção na qual a temporalidade fica implicada na direção de " d jazei·" is Ainda que aparentemente opostas, ambas
do na a a ·
um tratamento clínico. · - em da aposta de situar o bebê como autor de suas
posiçoes carec
"Quem sabe, se nos apressarmos bastante, talvez svapossível compensar produções.
o atraso que apruenta" é uma fala bastante recorrente nos pais que O risco presente é que "se corre tanto, tanto que" - como diz
- . ·t de sua filha- "cheoa um ponto no qualjá não se sabe
vêm pedir tratamento para seus bebês com problemas. A partir de uma mae a respe1 o 6 ,
. rnressar-se é uma solw:ão para oproblema ou se oproblema e a
tal lógica, vemos organizar-se uma modalidade de intervenção - às mats se correr e ªr r
vezes assim demandada pelos pais, às vezes assim proposta pelos própria saída que foi criada".
profissionais - que consiste em fazer de tudo o mais rápido possível, no . a em questão havia sido colocada em tratamento
A merun " - f 1
maior número de horas disponíveis. O bebê é, então, colocado em diversos fonoaudiológico com dois anos de idade por nao. ª_ar
tratamentos, permanecendo às vezes tardes inteiras em instituições " Apesar de ela apresentar trocas e om1ssoes
corretamente . .
nas quais passa de uma sala a outra, de uma intervenção a outra. Na perfeitamente esperadas para a idade e que faziam parte d~ proces~o
hora de ir embora, os pais não deixam de levar consigo as listas de de aquisicão da linguagem - por exemplo, não conse~r ar~cud ar
exercícios e indicações de cada profissional acerca de como proceder ' . d · d ·d de - os pats apoia os
encontros consonantats com ois anos e 1 a ' '
em casa. no parecer favorável de uma fonoaudióloga, resolv~ram empr~,ender
da dos pais era que a meruna falasse melhor
Monta-se aí uma armadilha, na medida em que o bebê - por um tratamento. A d eman . - .,
mais que "corra e corra" e que seus pais "andem rapidamente de . d p , I" "Aproveitamos também ofato de que um ,dos trmaos;a era
0 mais ce o osstve . L'1
um especialista a outro para compensar o atraso" - fica desde o levado a tratamento. Se ela fosse junto, evitatiamos ter que le~a-la a tratamento
início suposto num lugar de incapacidade quanto à realização das em outro momento, caso fosse necessário" - revelam os pais.
aquisições que compõem os parâmetros de desenvolvimento. É Quando a recebemos 16' com quatro anos _e m~io de ida~e,
montada assim toda uma aparelhagem técnica que, com todos os . dois anos e meio após essa primeira rntervenç~o
seus conhecimentos científicos, viria a implementar no bebê um ou seja, · mpreensao
fonoaudiológica, encontramos uma meruna que_ tem co .
desenvolvimento que, no entanto, é paradoxalmente sempre erfeita do que se fala, não tem dificuldades auditivas, bnnca de faz
antecipado nele como fracassado . P · fi encontra-se bem nos
de conta respeita regras nos 1ogos, en im, . -
' - d termlnado ponto: nao
'54 situação que assim se revela provoca angústia nospais, comfreqüência mais diferentes aspectos, a nao ser em um e . .
muito preocupados com ojitturo, quando é a vida no presente que se encontra se entende nada do que ela diz, uma vez que, ªº. f:lar, substtt~t
"c" mantendo a postçao das vogais.
4
rnpn.mida'~ • Pois ocorre aí uma inversão na qual já não são mais as todas as consoantes pe1a 1et ra ' . .
"c" não é dos pnme1ros sons a serem
aquisições - tomadas como pautas do desenvolvimento - que ficam E bem sab emos que o
a serviço da apropriação que um bebê possa vir a fazer delas, mas constituídos na formação de fonemas.
é o próprio bebê que fica colocado a serviço de todas as atividades Esta situação evidencia os efeitos iatrogênicos d~' uma
que supostamente o enquadrariam nas tabelas standard, tomado ·d d por a "acelerar uma
intervenção que ocorre no sentt o e se pro
como objeto passivo a ser exercitado pela técnica.
tén de la función materna,
Esse ''fazer de tudo", enunciado e posto em ato na criação e 15 SteUa Páez(1982), La Estimulación Temprana como SOS L d' c : t
Air Centro Dra y ia ona .
tratamento de bebês com problemas, não se encontra tão distante Cuademos dei desarrollo infantil, n.2, Buenos es, · . . d
. , . d CEP''GlA clínica de atendimento interdisciplinar a
16 Na equipe cl101ca o n. ,
14
Maud Mannoni (1985), Um saber que não se sabe, Campinas, Papirus, p. 62. infância e adolescência em Brasília (N. da A.).
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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE NA CLÍNICA COM BEBÊS

determinada aquisição. Ao procurar suprimir trocas e omissões como vimos no caso citado, isto não ocorre sem conseqüências
fonéticas que fazem parte dos passos implicados na aquisição clínicas.
fonética, acabou se produzindo um sintoma clínico.
Se o imperativo de que certas produções sejam realizadas
Nesta menina se produz um sintoma clínico justamente no "antes de tempo" pode ocasionar sintomas ainda quando incide
p onto em que foi superexigida, no ponto em que recaiu um em um bebê ou a pequena criança supostamente hígidos - como
imperativo de que desse conta de falar com uma adequação no caso relatado da menininham -, ao tratar-se de bebês que
impossível para uma idade em que ainda estava constituindo sua apresentam problemas orgânicos de base, os sintomas em relação à
fala . As trocas e omissões apresentadas pela menina faziam parte normatizarão cronológica do desenvo/z1imento são uma constante.
do processo de aquisição da linguagem, mas foram sancionados
A 1101matiza_çào cronológica do desenvolvimento consiste na correlação
como signos patognomônicos a partir do momento em que a
entre uma idade e determinadas aquisições -- por exemplo, sentar-
fonoaudióloga resolveu empreender um tratamento para responder
se com 6 meses, caminhar com um ano, dizer as primeiras palavras
à demanda parental.
até um ano e meio. A partir do que vigora para a maioria, é
É aqui que se abrem vertentes divergentes acerca da concepção estabelecida urna "norma" quanto aos "padrões de normalidade
em que o termo "precoce" é tomado na clínica com bebês. Pois há do desenvolvimento", e a exceção à norma passa a ser tomada
uma importante diferença entre situar tal termo no sentido de se como indicador de que algo não está bem com o desenvolvimento
"intervir cedo", para sustentar as condições propiciadoras das bebê ou cria11ça em t1uestão.
aquisições instrumentais e da constituição do sujeito uma vez que A universalidade e regularidade com que determinadas
um problema é detectado, e tomá-lo no sentido de procurar aquisições ocorrem em torno de um determin ado tempo
provocar .u m "antes de tempo" nas produções do bebê. cronológico da vida (idade), indicam que a maturação neurológica
Tanto em um quanto em outro modo de intervenção a está relacionada a um certo limite imposto pela passagem do tempo.
temporalidade está implicada, mas a partir de diferentes concepções Ou seja, há uma determinado limite de idade, uma margem de
acerca de como se produz a constituição de um bebê. tempo cronológico, que se impõe para a completação e realização
dos processos de maturação neurofisiológíca, antes do qual e depois
Quando se sustenta a suposição de um sujeito no bebê, num
do qual não há condições orgânicas para que uma determinada
tempo em que de ainda não o é de fato, se produz uma antecipação.
produção advenha. Deste modo, a normatizarão cronológica do
Trata-se aí de uma antecipação que é constitutiva do sujeito, que
desmvolvimento considera o efeito que o registro real do tempo opera
aposta na constituição do Eu da enunciação, desde o qual um bebê
poderá vir a apropriar-se das aquisições instrumentais em nome de no organismo.
um desejo. Tal é a direção do tratamento quando se intervêm a Mas também é preciso levar em conta que há certas variações
partir do corte epistemológico da psicanálise . quanto ao momento em que determinadas aquisições se produzem
de bebê para bebê. Tais variações implicam que uma aquisição possa
Ao contrário, quando se intervém no sentido de procurar
ocorrer um pouco antes ou um pouco depois, dependendo de
propiciar uma precocidade, um "antes de tempo" na produção,
como as demandas parental e cultural incidam no organismo e em
um bebê, em lugar de ser situado como sujeito, fica situado na cena
clínica como objeto a ser adequado à demanda do Outro - à seu processo de maturação.
demanda dos pais e dos profissionais que com ele intervém. E,

88 89
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE NA CLÍNICA COM BEBÊS

Entra aí de um segundo registro da temporalidade que é cronológica do desenvolvitJJento considera o tempo real ao
preciso considerar nesta clínica: o da tetJJporalidade itJJaginária que, a estabelecer a relação entre a idade e as produções de um
partir da nortJJatização cronológica do desenvolvitJJento, produz a formação infante, e produz também efeitos imaginários de antecipação
de antecipações imaginárias acerca do que se "deve esperar" (e da imagem do bebê.
demandar) da produção do bebê a cada idade. Assim, o bebê tem Há um terceiro registro do tempo implicado nas aquisições
que responder a certa imagem esperada em determinado tempo instrumentais e constituição psíquica que é preciso considerar na
cronológico, considerado desde a normatização como "o tempo clínica: trata-se da temporalidade simbólica.
certo para determinada produção". Se responder antes, é situado
imaginariamente como "precoce", se responder depois, é situado As aquisições instrumentais de uma criança - na linguagem,
imaginariamente como "atrasado" em relação à norma. aprendizagem e psicomotricidade - seguem uma determinada
legalidade. Esta legalidade está marcada na medida em que há passos
A relação entre aquisições/idade p,ela nonnatização cronológica pelos quais é imprescindível. passar para alcançar sistemas mais
do desenvolvimento tem sua importância clínica ao tratar-se de bebês e complexos. Assim, por exem~lo, a sustentação de tronco é necessária
crianças pequenas: para poder caminhar, ou é preciso selec10nar os fonemas de uma
• Por um lado, porque a correlação entre aquisições e idade língua para poder dizer as primeiras palavras dentro da legalidade
nos indica algo acerca das condições orgânicas, acerca do fonética que a língua impõe.
real do corpo de um bebê. Nos indica que há uma passagem Nesta sucessão de eventos, cada um é absolutamente
do tempo cronológico que estabelece limites para que uma necessário para que advenha o seguinte, e, para que a produção
determinada aquisição possa advir, e se ela não advém dentro possa de fato advir e ser generalizada nas diferentes situações de
de uma determinada margem de tempo estaremos diante vida e não ser reproduzida como simples imitação condicionada
de um indicador de problemas no desenvolvimento. em um contexto específico, sua ordem de aquisição não pode ser
•Mas também porque a normalização cronológica do desenvolvimento alterada e nenhum passo pode ser salteado.
faz parte do imaginário que se tem da infância em nossa A partir da clínica constata-se que, mesmo em crianças que
cultura, de modo que, quando tudo corre bem, os pais apresentam problemas, a seqüência de passos implicados na
passam a demandar determinadas . aquisições em constituição de determinada aquisição instrumental é estruturalmente
determinados momentos da vida do filho, tomando por I . . d
( a mesma daquela apresentada pelas crianças com as quais tu o corre
base tal normatização como uma demanda que provém bem. Assim, por exemplo, crianças com deficiên,cia mental pas.sa_m,
do social e da cultura. na construção do pensamento, pelos mesmos estagias e sub-estagias
Isto é constitutivo para o bebê, pois não há aquisição 1
que toda e qualquer criança, ainda que talvez não o façam exatamente
instrumental que possa advir, não há desenvolvimento que na mesma idade que crianças que não têm problemas, ou que não
possa produzir-se sem este enlaçamento com o circuito de cheguem a determinadas realizações mais complexas.18
desejo e demanda do Outro que produz antecipações
imaginárias endereçadas ao bebê e postas em ato nos Portanto, ainda que as aquisições de uma criança mantenham
uma relação com o tempo cronológico (dado que o tempo real
cuidados que lhe são dirigidos 17 • Por isso a normatização
18
17
Tal questão é retomada nos capítulos Temporalidade e desenvolvimento e Pedro Stella Páez (1993), Dei deber hacer al querer y poder ser, Esetitos de la Infancia,
n. 1, Buenos Aires, FEPl-Centro Dra. Lydia Coriat de Buenos Aires, p. 62.
e o escorregador - o que desliza quando brincamos (N. da A.).
91 )
90
TEMl'ORALIDADE NA CLÍNICA COM BEBÊS
ENQUANTO O FUTURO NAü VEM

dependência em relação ao circuito de desejo e demanda no qual o


impõe limites à finalização dos processos de neuromaturação), tais
bebê é tomado desde o Outro. 22
aquisições não estão diretamente causadas pela passagem do tempo,
pois não é a chegada a uma determinada idade que as produz. As Enquanto desde urna abordagem piagetiana considera-se o
aquisições - de linguagem, psicomotricidade e aspectos cognitivos desenvolvimento como um efeito da relação entre o organismo e o
- estão reguladas por uma legalidade interna de construção que objeto - desencadeando uma sucessão, uma seqüência de etapas
implica a sucessão de diversos passos pelos quais é imprescindível em crescente complexização - ,' a psicanálise aponta que a constituição
passar, ainda que alguns bebês, cronolq,ricamente, passem por eles âo filhote humano está atrelada à ordem da linguagem e, portanto,
um pouco antes, outros um pouco depois e ainda que algumas para que poSSjl ocorrer sua constituição como sujeito, é preciso um
crianças não cheguem a atingir seus patamares mais complexos. Outro encarnado que sustente em relação ao bebê a temporalidade
do desejo, do futuro anterior.
Temos aí a noção de estágios e sub-estágios apresentados
por Piaget 19 para pensar as aquisições que uma criança realiza ao Então, como situamos, tanto a constituição psíquica quanto
longo do desenvolvimento a partir de uma lógica temporal de as aquisições instrumentais são necessariamente estabelecidas desde
seqüência, como uma estrutura na qual diversos degraus se sucedem temporalidades simbólicas - seja na seqüência progressiva de
complexização que implica o instrumental, seja nos efeitos de
numa complexização progressiva.
antecipação e retroação próprios do tempo lógico implicado na
No entanto é preciso considerar que a constituição do sujeito constituição psíquica. Mantêm com a passagem do tempo uma
psíquico não se dá por uma sucessão de etapas. A constituição do relação de uma certa, jamais absoluta, contingência, pois se bem a
sujeito implica um tempo lógico. Como pudemos ver em relação ao passagem do tempo arme limite para ambas, limite este que se
brincar, o futuro anterior, o tempo do desejo, implica movimentos impõe quanto à perda progressiva da plasticidade cerebral e também
de antecipação e retroação. Instauram-se assim diferentes tempos quanto ao fechamento da estrutura psíquica na adolescência, não é
simbólicos de um sujeito (estádio do espelho, complexo de Édipo, a passagem do tempo em si, nem a chegada de uma determinada
crise da adolescência etc.) nos quais os eventos psíquicos são inscritos idade que causam o advento de uma aquisição instrumental e
e reinscritos à medida em que um sujeito pode recapitulá-los de um tampouco a constituição do sujeito.
novo modo. 20 Deste modo, constituição do bebê como sujeito do desejo e
Por isso não podemos falar da constituição psíquica corno ' como autor das suas aquisições instrumentais implica uma justa
um desenvolvimento no sentido de uma evolução linear ao longo articulação entre o transcorrer do tempo (tempo real), a
do tempo. Falamos, sim, de desenvolvimento corno o processo de normatização cronológica do desenvolvimento (com seus efeitos
aquisições instrumentais que ocorre na vida de um bebê 21 , sendo de temporalidade imaginária), a precipitação de aquisições
que as mesmas não ocorrem como simples seqüência evolutiva de instrumentais e de inscrições constitutivas do sujeito (demarcando
adaptação ao meio, uma vez que elas mantêm sempre uma diferentes momentos simbólicos e lógicos). .,
Com justa articulação queremos di~er que a demanda paren~al J
19
Piaget (1972), E / narimiento de la inteligencía en e/ nú7o, Madrid, Aguilar. dirigida ao bebê possa circular, ora enunciando um tempo do desejo
2
"Tal questão é aprofundada no capítulo Clínica com bebês: da estrutura ao - por exemplo, ao dizer "ele já é um craque de futebol!" quando o bebê,
nascimento do sujeito (N. da A.). pela primeira vez, chuta casualmente a bola - , ora reconhecendo
~1 Alfredo Jerusalinsky (1988), Psicanálise e dm 1111o!vimento infantil, Po rto Alegre,
Artes Médicas, p. 30.
22 Tal questão é desenvolvida no capítuio Temporalidade e desenvolvimento (N. da A.).

93
92
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
TEMPORALIDADE NA CLÍNICA COM BEBÊS

suas reais possibilidades quanto às pautas do desenvolvimento _


bebês, não basta começar cedo e sair correndo rápido .para intervir
alcançando a bola a este que agora era "o craque" mas que, de fato,
ortopedicamente em relação à patologia - na ilusão de que.ª
com quatro meses, ainda não tem como se locomover para alcançar
intervenção, com sua técnica, "aceleraria" a aquisição e compensaria
o objeto que está a um metro de distância.
supostos atrasos do bebê -, respondendo em espelho ao sintoma
, ~_verdade que o tempo do desejo e a normatização arental que a presença de uma patologia do desenvolvtmento pode
cronologica do desenvolvimento se desconhecem mutuamente se ~etonar: a de se por a correr com este suposto bebê atrasado
contra~zem, situando o bebê e a criança num destempo. O clínico situando-o antecipadamente num lugar de fracasso.
lntervem reconhecendo esse destempo, pois a verdade sobre a
O bebê situado antecipadamente como retardatário ~ posto
condição de um bebê não está nem só de um lado, nem só do ) d .
a "correr" sem ter rumo algum, a não ser o e tentar seguir contra
outro. O que é constituinte para o bebê e para a criança é justamente
0 tempo, como o coelho de Alice. E fica claro que, por mais que
a dialética instaurada pela circulação da demanda articulando esses
diferentes registros do tempo. ele corra e corra contra o relógio, logicamente sempre fica em
posição de atrasado.
. . Quando se desconsidera algum dos três registros do tempo
É somente desde a articulação do desenvolvimento à
1mpli~ado..'.' nesta clínica desfigura-se o marco necessário para a
constitu1çao como sujeito e o advento das aquisições instrumentais conjugação de um futuro anterior e às antecipações imagi~árias
de um bebê. sustentadas por um Outro não anônimo que o bebê podera, um
dia vir a constituir-se como sujeito da enunciação. Que poderá vir
. Marcamos isto pois podemos constatar que, em diversas a f~zer um caminho próprio, já não como o coelho simplesmente
intervenções com bebês que apresentam problemas no movido contra o relógio, mas como Alice, que empreende uma
desenvol~mento - tenham eles por base patologias orgânicas ou aventura simbólica alinhavada pelo fio do desejo.
sepm ef~ito de problemas relativos à constituição psíquica -, a
temporalidade relativa à sucessão das aquisições instrumentais e dos A infância é um momento da vida destinado a terminar, diz
ten:~os lógicos da constituição do sujeito nem sempre é de um tempo que conclui. O modo em que um bebê está situa~o
suficientemente levada em conta. Geralmente, dá -se maior diante da temporalidade de sua existência imprime nesta clí~ca
importância a adequar o bebê, a todo custo, à normatização temporal diferenças em relação a uma clínica de adultos e, em ?ªr:e, ainda
do desen volvtmento (relação idade/ aquisição) que consta nas escalas que não de modo tão cortante, da clínica com crianças. Tais diferenças
de maturação. Quando se intervém com um bebê com problemas se fazem presente na demanda que recebemos, ~orno clíni~os de
desde "seqüências de estimulação pré-programadas" a partir de bebês, no laço transferencial que opera nesta clí~ca e tambem no
"métodos de estimulação específica" que, supostamente, modo em que 0 clínico e sua intervenção ficam situados na cena de
compensariam o seu atraso com exercícios especiais, o que não está tratamento. 23
sen~o. levado em conta é que um bebê, tenha ou não problemas Termos tais como precocidade,prevenção e desenvolvimento, a forma
orgamcos de base, tem que passar pelas mesmas articulações de em que são colocàdos a operar na clínica, estão pe~assad~s ?~la
tempos.l~~cos _em sua constituição psíquica e pelos mesmos passos perspectiva em que se tome a temporalidade em relação a consntwçao
de aqms1çoes instrumentais que todos os demais bebês e tal de um bebê.
temporalidade não pode ser apressada, salteada ou alterada.'

, É p~r isso que, quando uma determinada aqms1çao não n Esta questao- e· d esenvo lv1·da no capítulo A demanda de tratamento na clínica com
advem na tdade em que ela costuma ocorrer para a maioria dos bebês - quando ofuturo fica em xeque (N. da A.).
94
95
ENTRE DOIS NOMES

culmina com o exame genético, cujo resultado comprova a trissomia


do par 21. Ao longo desse relato, rico em detalhes médicos e preciso
quanto às datas, há, no entanto, um ponto no qual a coerência se
rompe: o bebê em alguns momentos é nomeado como Ana e, em
outros, como Carolina.
É aqui que a "aparente confusão" inicial à qual somos lançados
ela fala dos médicos adquire relevância clínica. Escutamos que é
p )
no discurso parental que se apresenta esta diº - em relaçao
siunçao - a'
ENTRE DOIS NOMES, A CERTEZA nomeação. A fala dos médicos simplesmente fica tomada em uma
DE UM DIAGNÓSTICO (CASO CLÍNICO) continuidade que faz eco ao sintoma parental. Continuidade, aliás,
que também se apresenta ao repetirem a afirmação dos pais de que
ela é 0 único caso de síndrome de Do1vn em seu país de 01igem, quando bem se
sahe que crianças das mais variadas etnias e nacionalidades nascem
-Ana é o único caso de síndrome de D01v11 em seu pair de origem. com tal síndrome, ainda que não seja feito levantamento estatístico
desse dado em todos os países.
- Carolina é}ilha de médicos. Ela tem síndrome de Doum.
Depois de escutar o minucioso relato, situo aos pais que a
Foi somente ao receber um casal com a filha de três meses e
história clinica estava bastante clara, mas havia algo que permanecia
meio no colo que percebemos 1 , não sem certa surpresa, que tais
obscuro: como chamavam a sua filha?
enunciações médicas faziam referência a um único bebê.
Não é em qualquer ponto que se apresenta o tropeço. A
Na primeira entrevista, os pais narram uma história que
oscilação de um nome a outro, sem que nenhum opere, dá o
começa com a suspeita diagnóstica no momento do nascimento e
testemunho do fracasso da inscrição simbólica desse bebê na série
1 familiar. A certeza do diagnóstico, a efígie do "Down", eclipsa a
Refiro- m e à equ ipe junto à qual este atendimento foi realizado: .E'cjlâpo de
inscrição do nome.
Estim11iació11 Te111pra11a d o Hospital Durand, dirigida pelo fisioterapeuta e
psicomotricista Jorge Garbarz em Buenos Aires. Trata-se de uma inten·enção Permanecer surdo a isto, desfazer rapidamente o equívoco
clínica inicial que teve pouco menos de dois meses de duração, até que a família em
colocado, implica não dar ouvidos à única voz que pode possibilitar
questão mudou-se de cidade. Interveio conjuntamente no caso a psicanalista Maria
Trinidad Aranda, fazendo, em alguns momentos, urna escu ta específica dos pais. que estes pais se ressituem quanto ao exercício de suas funções :
Em tal equipe funciona um dispositivo clínico pelo qual, quando um bebê ou trata-se aí do desejo inconsciente que os implica em relação ao bebê.
pequena criança são tomados em tratamento, além das sessões com o clírúco em
estimulação precoce da qual os pais e o bebe fazem parte, ou das sessões que os pais O ato de nomeação é marca da função paterna nos albores
possam vir a ter com o clínico responsável pelo atendimento do bebê, é oferecida da constituição de um sujeito. A inscrição do nome próprio é
aos pais a possibilidade de terem sessões regulares com um psicanalista da equipe. inaugural para que um sujeito possa estender a série simbólica de
O espaço em que os pais possam ser escutados por outro profissio nal é aberto na
sua vida. Mas, se o nome próprio não opera como marca desse
medida em que o clínico em estimulação precoce considere necessário operar um
desdobramento da demanda com outro profissional da equipe ou que, a partir das
traço unário que situe o bebê como Um, perde-se o ponto, ~e
entrevistas iniciais, chegue a instalar-se uma demanda parental a partir de uma ancoragem que dê lugar ao armado de uma série, de uma historia
oferta ativamente realizada (N. da A.).

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97
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
ENTRE DOIS NOMES

sustentada a partir de um protagonismo que a torne simbolicamente


Pouco a, pouco, os pais sentem-se convidados a resgatar
singular. 2
trechos de historia que haviam ficado em segundo plano desde 0
Ao romper o tácito acordo que até então vigorava entre pais estabelecimento do diagnóstico e começam a ressituá-los a partir
e especialistas em relação ao que dizer sobre esse bebê abre-se uma desse evento. Inaugura-se assim uma narrativa acerca da vida do
brecha. A questão os convoca desde outro lugar. Para ela não têm bebê, uma historicidade que não consta em nenhum manual de
uma resposta pronta e memorizada, como o relato recitado uma e p,ediat~~' e que só se constitui, inicialmente, por aquilo que os pais
outra vez diante da insistente solicitação de diferentes especialistas, tem a aizer sobre o seu filho. Pelo menos até que, num segundo
em uma peregrinação que geralmente acaba por moldar o discurso momento, e,ste filho possa, a partir de ter sido falado, tomar a palavra.
parental à seqüência de dados propostos pela anamnese. A história
- Bom, em casa a chamamos 111ais de Carolina, 111as e111 geral os 111édicos
pela qual perguntamos não se reduz ao prontuário médico, ela ainda
a cha111am pelo primeiro no111e, Ana. (. ..) Esta111os consultando tanto que chega
está por ser construída.
um ponto em que nós mesmosficamos confusos e não sabemos mais como chamá-
O que comparece então é silêncio, faz-se um silêncio no relato, até então /a.
ininterrupto...
O que fica ali confundido é Carolina com o seu diagnóstico.
Em lugar de preencher este silêncio com alguma curiosidade O lugar de filha com o lugar de paciente. Solicito, então, que me
estatística ou passar à "próxima pergunta" que acabe com o contem como foi a escolha do nome da filha. O pai, um pouco
constrangimento com que se fica diante do sem palavras, intervimos surpreso com a pergunta, fala:
sustentando a angústia dos pais para dar lugar ao surgimento de
-Ana é homenagem a uma bailan·na. Gosto muito de ballet e de música
uma fala que está por ser produzida. Ou se sustenta o clássica.
constrangimento de tal questão ou quem acaba por ficar constrangido,
impedido, enquanto todos falam, é o lugar do bebê como sujeito. A mãe hesita em tomar a palavra e acrescenta:

Em transferência sustentamos esta vertigem de significação - Bom, Carolina não tem tanto sentido... tem gente que não acredita
dos pais diante do problema diagnosticado no bebê. Trata-se de nisso dos sonhos, mas para mim é importante. Quando estava grávida, sonhei
poder dar lugar ao estabelecimento de uma borda nessa cratera que que se1ia menina e sonhei com este nome.
se produz na rede de representações parentais pela incidência de Aponto que nesse espaço, sim, importam os sonhos e os
uma patologia, para que não seja o bebê quem, amarrado ao projetos que fizeram e fazem em relação à filha .
diagnóstico, termine caindo no abismo da falta de significação
simbólica para a sua vida. Pois, ainda que hoje em dia bebês que , . Na sessão seguinte, a fala parental já não se apresenta em um
nascem com patologia não sejam mais jogados do monte Taigeto, uruco bloco e é possível começar a escutar as diferentes incidências
como era prática comum na Grécia antiga, não poucos deles chegam que o ~ascir_nento desse bebê, o seu diagnóstico, e inclusive a primeira
entrevista tiveram para cada um dos pais:
até nós em uma condição de morte simbólica, pela qual, ainda que
vivos desde o real, não são supostos como sujeitos. - !}'ão esperávamos por isto, como não há antecedentes ninguém a
espera~a. E preciso aceitá-la, ela não tem culpa, mas é um choque (...) Segundo
2
Ver também a este respeito o capítulo A demanda de tratamento na clínica com a bzblzografia e as estatísticas 111undiais disponíveis a respeito destas crianças,
bebês, nos pontos "Quando a pergunta pelo futuro apresenta uma duplicação" e trata-se de um caso único da síndrome em nosso país de ongem - afirma 0 pai.
"Reconhecimento, filiação e diagnóstico" (N. da A.).

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ENQUANTO O FUTURO NAO VEM ENTRE DOIS NOMES

A partir do enunciado do pai, esta nenezinha fica lançada ou de uma patologia. Justamente por isso, perguntar pela origem do
a uma condição de exceção absoluta, fora da possibilidade de armar nome escolhido tem um efeito de surpresa, pois permite trazer
série parental - como aponta a fala de que "não há antecedentes (em seu novamente à cena o nome ligado ao que espera de uma filha.
país de origem)"-, ou ela é referida à tipologia do Down que cola sua
É então que, em contrapartida às palavras do pai, se produz
imago a diversos estereótipos coletivos da síndrome. Nascimento e
o seguinte enunciado materno:
diagnóstico ficam superpostos pela significação paterna, na qual "não
esperar pelo diagnóstico" passa a ser o mesmo que "não esperar - Eu quero que falem comigo como mãe, não como médica, porque estou
por esse bebê que aí está". aqui como mã5.
Ter síndrome de Down não fica até então inscrito para o pai Pode-se começar a situar a diferença que existe entre saber
em uma série simbólica que circunscreva o diagnóstico, que o sujeite ser mãe e deter um conhecimento de médica. Diante desse bebê
à história do bebê. O diagnóstico, o "Down", apresenta-se como com patologia, a mãe claudica em exercer seu saber inconsciente
um real que não pode ser dialetizado a partir da inscrição de um para a maternidade, mas se dá conta de que, ao procurar recobrir
traço fundante, do nome próprio que permita constituir uma série tal claudicação com o saber médico, novamente fracassa, pois não
singular. Nem o Ana nem o Carolina se sustentam como nome próprio é desde o conhecimento da medicina que pode ocupar a posição
que venha a demarcar a singularidade desse bebê na filiação, entre de mãe.
um e outro o diagnóstico da patologia rasura a inscrição do nome Os pais, então, evocam uma cena de seu cotidiano ocorrida
e coagula o deslizamento significante que possibilitaria fazer série.
havia algum tempo:
Enquanto o pai, diante do diagnóstico, rapidamente tomou A mãe estava reunida com amigas médicas e o bebê de uma delas começou
decisões práticas relativas ao tratamento, a mãe, num primeiro a chorar desconsoladamente, sem que conseguissem acalmá-lo. Nesse momento o
momento, recusou-se a receber a filha e, uma vez que a recebeu, pai de Carolina chegou em casa e, surpreendendo a cena, afirmou: ''E pensar que
passou a chorar enquanto perambulava pela casa ao longo do dia, muitas são pediatras, o que pensariam as mães de seus pacientes!", o que provoca
sem conseguir colocar em palavras a fonte de sua angústia. Se cada 1isos em todos os adultos presentes.
um dos pais formulou respostas sintomáticas singulares, ambos
encontram-se confrontados ao real que esse diagnóstico comporta Neste ponto modifica-se a demanda de tratamento que a
de imutável e incurável, mas que, além disso, toma uma dimensão mãe realiza: não consiste mais em solicitar a reparação do seu bebê
do sem bordas, do que irrompe traumaticamente e cola através de uma série de exercícios pré-programados de estimulação,
imaginariamente o bebê à síndrome. nem em que lhe "ensinem como ser mãe de um bebê excepcional",
mas em poder começar a interrogar-se sobre os efeitos que o
A partir da falta inicial de palavras diante de sua filha, para o diagnóstico recebido tem e terá na vida de sua filha e no exercício
pai passa a ser possível falar dela somente pela via do conhecimento
de sua maternidade.
médico, das estatísticas encontradas pela navegação na Internet, que
a remetem a uma pluralização anônima, pela qual fica enunciada Da universalidade da síndrome à singularidade de seus efeitos
como "estas crianças (com síndrome de Down)''. O saber com o na fantasia materna
qual procura operar ali, a palavra que consegue articular, desemboca
novamente em um fracasso da operação de filiação, pois não Durante o transcurso da primeira entrevista, Carolina está no
recoloca essa bebezinha no lugar de filha, mas como a representante colo de sua mãe, permanece dormindo e coberta com uma manta.

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
ENTRE DOIS NOMES

O tempo da sessão transcorre e, a~nda que Carolina esteja presente,


- Queremos que não se atrase, sabemos que, se a atendermos desde cedo,
parece ficar situada fora da cena. E praticamente impossível vê-la e
vamos correr com vantagem - demanda.
não ocorre nenhum gesto no sentido de apresentá-la a nós.
A mãe se queixa da impossibilidade de falar sobre o problema
Na sessão seguinte, a mãe conta uma cena transcorrida no
da filha com o marido.
supermercado, antes do início do tratamento, na qual, ao perceber
que uma mulher olha para Carolina, pensa: ''Está olhando para seu - Em casa só se fala do cotidiano, como se não estivesse acontecendo
cabe/o". Logo em seguida, vai para casa e corta o cabelo da filha. nada. (. ..) Ele não dedica atenção à Carolina. Com o irmão foi muito diférente.
Ele diz que épelo fato de e/a ser menina.
Trata-se aí de um acting out disso que, "em uma busca da verdade
imita aqui/o que não se pode dizer, porfalta de simbolização (. ..) um acesso de - Ele é diferente. Ele é menino. Com ela eu não posso tomar banho, nem
loucura, destinado a evitar 1-tma angústia demasiado violenta. E/e é a encenação posso trocar as suas fraldas. As meninas são coisas de mulheres - diz o pai.
tanto da n;eição daqui/o que poderia ser o dizer angustiante do outro, como do O temor da mãe diante do olhar do Outro sobre o seu
desve/amento daqui/o qt-te o outro não ouve. E/e é o sina/jeito a alguém de que um bebê comparece em três diferentes dimensões: o social, o familiar e
falso real está no lugar de um impossível de dizer (. ..) algo é mostrado, fora de o paterno. A partir destes três representantes do Outro depara-se
qualquerpossível rememoração." 3
com um olhar que interpreta como denunciador da falha, da exceção
Ao contar na sessão esta cena aparentemente sem sentido em de seu "produto". Atua então na tentativa de subtrair a filha deste
relação ao cabelo da filha, a mãe recorda e começa a falar de uma olhar, evitando o que de psíquicamente doloroso comparece no
vizinha de infância que tinha síndrome de Down e que era chamada ato "dar a ver" esse bebê. O gesto materno, na manta que recobre
de Mongo.1:Jm traço que a impressionava nessa vizinha era justamente a filha, no corte de seu cabelo, tenta esquivar o encontro com um
o cabelo. E a partir da associação Carolina-cabelo-Mongo e da tentativa olhar que, suposto em outro, faz comparecer o sinistro: o estranho
desesperada de apagar, de recortar de sua filha o traço da síndrome e o familiar pelo qual a filha fica associada à Mongo de sua infância.
que essa mãe produz o acting out.
Um ponto de articulação importante se produz quando a
A mãe conta, então, como fez o comunicado do nascimento mãe pode começar a falar do seu temor em relação ao futuro da
da filha para a sua família: filha, não simplesmente a partir do estranhamento ou aceitação do
olhar de outros, mas pelo reconhecimento de sua própria via de
. - Para que eles entendessem, tive que lhes dizer que era como a !11.ongo _
associações. Falar da Mongo permite começar a trabalhar com o
ao dizer isto, sua fala se interrompe pelo choro.
peculiar modo como o diagnóstico da síndrome de Down incide
Para o pai de Carolina, escutar a angústia de sua mulher resulta na fan tasia materna. Ou seja, não se trata mais do fora de série, da
insuportável: exceção absoluta, do "caso sem antecedentes, mas da série singular em
que o diagnóstico se inscreve na rede de significações da mãe.
. ~Temos q:-1e aceitm; não há saída - afirma o pai, numa suposta
aceitaçao a partir da qual passa a demandar a intervenção técnica Ao começar a falar sobre a identidade que "o Down" tem
que possa tudo: na sua própria história, a mãe também poder começar a falar da
imagem constituída antes do nascimento para uma filha ideal e de
3
como tal imagem fica em jogo em relação à Carolina:
Roland Chemama (1993 ), Dicionário de Psicanálise Larousse, Porto Alegre Artes
Médicas, p. 9. '

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM ENTRE DOIS NOMES

- Quando pensava em umafilha, pensava não que elafosse como eu, mas Uma das intervenções que vinha realizando com Carolina
que fosse parecida comigo, que fosse estudiosa.. . talvez ela possa estudar. Eu era a de supor em seus balbucios uma intenção de comunicação,
conheço uma mulher que tem um filho com esteproblema e ele vai à escola - diz devolvendo -lhe os sons produzidos de forma a armar um
a mãe. "diálogo", intercalando convocatórias, silêncios e respostas.
Na sessão seguinte, Carolina, que costumava chegar toda Algumas sessões depois, a mãe, diante dessa cena, diz: ''Ela é
recoberta com a manta, é trazida incorporada no colo de sua mãe muito falante, seu irmão não falava tanto nessa idade".
e com um vestido de menininha. Falo que notei a mudança me
- É que nós, as mulheres, somos.falantes desde muito cedo - marco ali.
·dirigindo a Carolina.
A partir daí pode-se falar da diferença de Carolina com o
- Me deu vontade de começar a colocar-lhe os vestidos... ela está crescendo
irmão não desde a polaridade normal-deficiente, mas desde a
e, daqui a pouco, vão ficar.pequenos - afirma a mãe, sorridente.
diferença estabelecida pela sexuação masculino -feminino, na qual a
É na medida em que passa a ser possível começar a realizar a condição feminina, desde a fala materna, aparece investida como
sustentação simbólica de Carolina, de remetê-la ao ideal-do-eu interessante.
parental, que se dá a possibilidade de investir e vestir falicamente a
sua imagem. Do que se escuta no discurso parental e do que se lê na
produção do bebê
O sintoma parental e o lugar do bebê
Até então situou-se como Carolina é olhada e falada. Mas o
O lugar em que Carolina fica situada na família a partir da que pode ser lido a partir de suas produções?
superposição menina-Down produz extremo mal-estar no casal.
Ao dirigir-nos a Carolina percebemos um olhar rútido e vivaz.
-As meninas são coisas de mulheres - diz o pai. Apresenta uma marcada preferência pelo rosto humano, que observa
atentamente. Ao falar-lhe, ela produz diferentes vocalizações
A mãe, por sua vez, afirma que não quer para a sua filha o
que a familia do marido considera como ideal de mulher. enquanto olha o rosto, constituindo prolongados gorgeios que dirige
a outros e que, eventualmente, são acompanhados de alguns sorrisos.
-As mulheres dessa família não têm nenhum reconhecimento, a não ser D á assim testemunho das primeiras aquisições relativas à matriz do
na condição de servirem aos homens - diz. diálogo e ao sorriso social.
O pai coloca que, na sua família, todos os homens são Apresenta bom controle cefálico e tronco firme, com tônus
chamados pelo sobrenome, e, para diferenciar um do outro, em muscular adequado (ângulo poplíteo de 120 graus). Realiza balconeio
lugar do primeiro nome, utiliza-se, junto ao sobrenome, um apelido: em zona 2 (elevação do tronco com apoio dos braços em decúbito
"o grande'~ "o pequeno'~ "o primo" e assim por diante. ventral). Em decúbito dorsal está em franca linha média. Deste modo,
- Minha jàmília é uma família de homens, só de homens - diz o pai. apresenta a típica atitude psicomotora esperada em bebês de quatro
meses, sem que a hipotonía característica da síndrome esteja
-Ah, é? E então como vocêsfazem (para terfilhos)? - Tal intervenção funcionalmente muito marcada e sem que a mesma faça obstáculo
produz um efeito chistoso para os pais, produz um primeiro corte às suas aquisições.
que permite que suas falas não se situem apenas d esde uma
confrontação polarizada.
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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM ENTRE DOIS NOMES

No que diz respeito à organização de hábitos, tem sono - Minha preocupação é a de que fique com a língua de fora (. ..) como
regular, mama no peito e completa a alimentação com mamadeira. outras crianças que vi. Não sei se isto é normal. 5
Apresenta curva de crescimento de acordo com o esperado. Irrompe ali estranhamento, emerge a imagem do "Down",
No entanto, há algo em suas produções que desperta certa fazendo com que se perca de vista para a mãe a realização de
preocupação: ainda que apresente aqtúsições relativamente adequadas Carolina. Que a mãe possa falar disso permite pontuar a diferença
para sua idade, predomina nela certa tendência a ficar contemplando, que existe entre ficar chupando a língua distraída e repetidamente e
sendo necessário, em alguns momentos, criar uma cena bem fazer brincadeiras que têm a ver com descobrir novos esquemas
convocante para que coloque em exercício os seus esquemas. com a bocti.

E nquanto estou brincando com Carolina, a mãe me diz que A palavra do clínico, o modo em que este significa o gesto
está preocupada com o fato de ela ainda não rolar. Pergunto, então, do bebê na cena, assume aqui o valor de uma sanção desse gesto
se por acaso o irmão de Carolina já o fazia em sua idade. Ela, diante do olhar parental. Que o clínico não fique simplesmente a
surpresa, diz que, na verdade, não se lembra. escutar a vacilação parental em reconhecer a eficácia de uma
produção do bebê, mas que sancione sua eficácia e seu caráter de
Há uma claudicação da mãe em reconhecer certas atividades
produção constituinte, implicando suas próprias palavras a partir
da filha como produções constituintes e não como obstáculos no
da interrogação parental, é uma intervenção necessária e decisiva
desenvolvimento. A partir de leituras clínicas, que vêm sancionar
em certos momentos da constituição do bebê. A palavra do clínico
como eficazes algumas das produções de Carolina, configura-se
vem, deste modo, descolar, desprender, uma e outra vez, diante
para a mãe uma questão:
das produções eficazes do bebê, a irrupção do signo da patologia
-A todo momento fico em dúvida se o que a Carolina faz tem a ver com que se impõe pela leitura dos pais.
a síndrome, se são dificuldades. Mas, em outros momentos paro, olho para ela e
No que concerne ao aspecto cognitivo 6 , Carolina encontra-
a vefo bem - afirma.
se no segundo sub-estágio do sensório-motor, apresentando
Carolina começa a fazer, em alguns momentos, bolinhas de "condutas adquiridas'', tais como fazer bolinhas de saliva, e reações
saliva, num franco jogo prazeroso de descobrimento da boca que, circulares primárias, como levar as mãos à b oca. Quanto ao
no aspecto cognitivo, possibilita o acesso às reações circulares surgimento de reações circulares secundárias (integrar esquemas e
primárias de experimentações centradas no próprio corpo 4 , e que, dirigir-se a objetos externos, como olhar e querer pegar ou olhar,
quanto ao .seu estabelecimento pulsional, dá testemunho da erotização pegar e querer levar à boca tais objetos), há um tímido início, pois,
em relação à cavidade bucal. Dirijo-me a ela em um momento em
que está fazendo bolinhas de saliva.
5
Este "ficar com a língua de fora" se relaciona à protusão da língua que consta
- Está divertido, é? Quantas coisas boas dá para fazer com essa boca - como uma das características descritas de crianças com síndrome de Down. Mas
digo-lhe, sancionando diante do olhar materno essa nova produção ainda que anatomicamente isto possa ficar relacionado com a presença de hipotonia,
de Carolina como uma brincadeira. Mas percebo a insistência do através da clínica, constatamos que sua incidência é muito baixa em crianças que,
além da síndrome, têm estabelecido diferentes explorações cognitivas e
olhar de preocupação da mãe e convoco-a a falar a esse respeito.
estabelecimento pulsional dessa borda corporal (N. da A.).
Ela diz: 6
Tomando como referência os ensinamentos de Jean Piaget quanto à construção
da inteligência (N. da A.).
4
Jean Piaget (1972), EI nacimiento de la inteligencia en el niiio, Madrid, Aguilar.

106 107
"
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM ENTRE DOIS NOMES ..'~·•
em algumas situações, fica bastante fascinada ao simplesmente olhar, -Agora que parei para pensar, acho que o cordão com brinquedos está
sem querer passar a pegar o que olha. bastante longe. Talvez só com o braço bem espichado chegue a roçá-los. Vou
É então que, no início de uma sessão, a mãe traz como pendurá-los um pouco mais perto - reflete a mãe.
preocupação que ela não pegue os brinquedinhos que pendem do Duas sessões depois, a mãe chega contando que Carolina
cordão amarrado sobre o seu berço. Escuto a preocupação materna está dando tapas no cordão. Quando este se move, ela se agita, ri e
e me dirijo a Carolina, constituindo a seguinte cena: grita, configurando uma típica atitude cognitiva de prolongar
espetáculos interessantes. No fim dessa sessão, quando a mãe lhe
Para favorecer a integração entre olhar e preensão, a
oferece leite, Carolina pega a mamadeira com as mãos e olha para
intervenção consiste em segurar Carolina em um plano inclinado
ela e para a mãe intercaladamente enquanto mama.
sobre as minhas pernas, oferecendo meu rosto de modo bastante
próximo - uma vez que a postura do plano inclinado facilita o Aí é que a intervenção revela sua eficácia: diante da
movimento dos braços em relação à gravidade. Enquanto falo com preocupação trazida pela mãe - "Carolina não pega" -, em lugar de
Carolina, dirijo-me a ela com o tom convocante próprio do simplesmente falar disso com a mãe, o que se propõe é uma cena
"manhês". Ela ri e sacode pernas e braços, em um júbilo que toma em que o "pegar" de Carolina assume o primeiro plano. Ainda que
toda sua expressão corporal. Diante desses braços que se sacodem viéssemos trabalhando com a preensão voluntária de Carolina há
e que, sem que haja intenção, batem em meu rosto, lhe digo: "O que várias sessões, produz-se ali um ato decisivo, no qual a mãe pode
você quer pegar?", enquanto ela olha atentamente minha boca, de fato, pela primeira vez, reconhecer tal produção da filha. E m
um segundo momento, quando Carolina pega a mamadeira em
aproximando em movimentos amplos a sua mão. Quando sua mão
sessão, aí sim a intervenção ocorre pela palavra, sancionando a eficácia
se aproxima, brinco de morder seus dedos. E la dá gargalhadas e
de tal produção.
seus movimentos tornam-se mais intencionais.
A partir das produções de Carolina, com um circuito pulsional
É partir dos movimentos involuntários dos braços e seu
de olhar estabelecido, com sorriso social, com seus balbucios e
encontro fortuito com objetos que estão no campo visual e próximos
gorgeios, podemos ler que tem situado o Outro primordial em seu
da mão que se estabelecem as primeiras situações de experimentação
justo lugar. É para ela possível dirigir-se aos outros e também
para integração dos esquemas de olhar e pegar em relação aos
demandar. Quando tem fome, primeiro queixa-se, e é possível
objetos. Nessa cena se dá lugar tanto à integração de diferentes
consolá-la falando ou mostrando-lhe algum objeto interessante, mas
esquemas cognitivos quanto ao prazer no estabelecimento do circuito depois cansa-se e reclama chorando ainda mais forte, tendo
pulsional: pela prevalência que a boca (sua e dos outros) tem como estabelecido o intervalo de espera da resposta da mãe a seu chamado.
zona erógena e por uma cena que lhe oferece a passagem ao terceiro
- d o "f:.azer-se comer ,, .7
tempo d a p ul sao Indagamos clinicamente até que ponto o encadeamento, a
ofuscação que o olhar exerce para Carolina, não é justamente um
Após essa cena, retomo a preocupação trazida pela mãe. efeito do olhar que lhe é dirigido, no qual se faz presente uma
Pergunto-lhe a que distância está esse cordão que Carolina não pega. claudicação na oferta de uma imagem de identificação. Bem sabemos
que ser olhado com estranhamento em alguns momentos faz vacilar
7
a continuidade do que se está a fazer, mesmo para aqueles que já
Ver a este respeito o capítulo A demanda de tratamento na clínica com bebês,
tem um Eu constituído, e isto tem efeitos ainda mais radicais em
ponto "Um pequeno rei com o futuro em xeque", notas 9 e 10 (N. da A.) .

108 109
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM ENTRE DOIS NOMES

um tempo primordial da constituição em que o Outro encarnado irrealizrível no encontro da palavra. Oue precisa uma ficção posta em jogo no
sustenta o Eu do bebê. 8 real que defina o lugar do Outro e aposição do st!feito. 10 A cena que toma 0
bebê produzindo um ato interpretativo que ressitua 0 seu lugar
É ao fazer deslizar, pela escuta e intervenção em relação ao
como sujeito no discurso parental é fundamental no trabalho clínico
discurso parental e pelas cenas ofertadas ao bebê, as imposições de
com bebês. É preciso que a cena tome o bebê, pois é o corpo do
sentido que precipitadamente colam um bebê ou pequena criança à
bebê que encarna a queixa que os pais trazem.
imagem estigmatizada do patológico que vão sendo deslocados
também sintomas clínicos que configuram obstáculos à sua Ao sancionar a produção do bebê diante do olhar dos pais,
constituição e desenvolvimento. Trata-se de um trabalho a ser feito ao abrir, em rugar de fechar com indicações, a interrogação a respeito
e refeito uma e outra vez, sessão após sessão. de que, de como e de quando realizar determinadas ofertas ao bebê,
dando espaço para que este possa, como suposto sujeito, tomar ou
Intervenção em ato na clínica com bebês recusar tais ofertas, o clínico intervém como articulador, sustentando
com o real de sua presença a dobradiça que dá o suporte para que
Muitas vezes, na clínica com bebês, efetuamos intervenções o saber parental possa operar, implicando-se no estabelecimento
em ato. Por que em ato? Porque, ainda que a intervenção ocorra dos circuitos pulsionais do bebê.
sempre a partir do significante, não intervimos apenas pela palavra
e com o discurso parental. Não estamos ali como psicanalistas dos Sustentando a singularidade do bebê, uma e outra vez
pais ou algo parecido. Estamos ali como clínicos do bebê, intervindo
justamente na intrincação, engaste e articulação do discurso parental Em certa sessão - que veio a ser uma das últimas dessa
com as produções do bebê. Intervimos sancionando diversas intervenção, dado que a familia logo teve que mudar-se -, a mãe
produções do bebê como atos diante do olhar parental, atos que o chega muito angustiada, contando que levou Carolina ao
reposicionem como sujeito a cada uma das voltas do discurso que oftalmologista por indicação do pediatra e que o primeiro disse
o sustenta. que ela apresentava mais miopia que uma criança norma~ porém menos do
que "os Down" costumam ter.
"Um ato é sempre significante. O ato sempre inaugura
Então me ocorre perguntar se alguém da família tem miopia.
um corte estruturante que permite a um sujeito se encontrar, no a
posteriori, radicalmente transformado, diferente do que tinha sido Ela ri desconcertada e diz:
antes desse ato." 9 - Sim, eu tenho uma miopia terríve~ você não percebeu porque uso lentes
de contato. Quando era menina, não queria usar óculos por vaidade e enxergava
Algo desta ordem se produz quando a mãe de Carolina afirma tudo mal.
que ela não pega e, diante disto, em lugar de continuar a falar disso
com a mãe, se produz uma cena na qual Carolina e o seu pegar - Bom, como você deve saber, a miopia é hereditária - digo à mãe.
(pegar meu rosto, milha boca e, depois, pegar a mamadeira) estão - Engraçado, para o meu filho mais velhojamaisfizeram a indicação de
situados no centro. Isto porque a cena nos faz aprender que há algo de um exame oftalmológico... TalveZ; se ofizessem, descobririam algo.

8
Ver a este respeito o capítulo A demanda de tratamento na clírúca com bebês,
ponto "Reconhecimento, filiação e diagnóstico" (N. da A.). w Isidoro Vegh ((1997), Las intervenciones dei analista, Buenos Aires, Acme-Agalma,
9 p. 130.
Chemama, obra citada, p. 8.

110 111
:11
ENTRE DOIS NOMES •li
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM 'li
"•
Produz-se um silêncio e logo, surpresa com a possibilidade Ao quebrar o signo de igualdade entre um bebê e o estigma
' 'I
de um novo sentido, a mãe alinhava: da doença remete-se a questão do futuro a um terceiro componente '.:i
!
que jamais fica de fora desta equação: os desfiladeiros significantes ~·
- Claro... sen·a bastante provável que, mesmo que Carolina não tivesse l.
do desejo parental são decisivos na significação que a patologia virá
síndrome de Doivn, tivesse miopia.
a assumir na vida de um bebê, pois o texto que cada sujeito pode
:i'
11

Para que um bebê não fique colado ao estigma da patologia produzir confrontado com o real do organismo é singular, ele não )

que apresenta não basta simplesmente dizer estas crianças não e:>.-. istem 11 está dito desde o conhecimento estatístico. ]

- produzindo uma negação do coletivo da síndrome - , é preciso ..11,


alinhavar a singularidade das significações que a patologia assume
A mãe de Carolina, neste deslizamento discursivo, consegue
recuperar a dimensão pulsional do olhar de sua filha descolando-o
~
na fantasia materna e nos sintomas parentais. Somente a partir daí
da pura medição da visão referida ao diagnóstico, na qual ficou
poderá operar nos pais a denegação 12: uma operação pela qual, ainda
achatada pela sanção médica. Ressignifica-se ali o traço da miopia e
que tal patologia seja inegável, possa, no entanto, não dizer tudo
Carolina pode, uma vez mais, ser ressituada mais além de sua
acerca de um bebê.
patologia, em uma filiação, e seu futuro, em lugar de ficar referido
O estigma da patologia certamente retornará ao longo da a efetuar o anônimo destino imposto pelas estatísticas, pode ser
vida de um bebê, criança ou adolescente, produzindo, a cada novo dialetizado pelo desejo parental.
desafio, o temor do fracasso. Por isso o trabalho clínico, uma e
outra vez, consiste em dar lugar a sua denegação para que o sujeito
e suas produções possam emergir.
Mas ainda que a denegação da patologia não seja uma operação
única e definitiva, sabemos que as primeiras marcas simbólicas são
fundamentais na vida de um bebê. O dito primeiro decreta, legisla, sentencia,
é oráculo 13 e, acima de tudo, trata-se de um oráculo bastante mortífero
se estas primeiras inscrições vêm fechar o futuro com um destino
pré-inscrito desde as estatísticas. Por isso, uma das importantes
intervenções desta clínica consiste em produzir um primeiro deslizamento
na significação do real da patologia que permita abrir um lugar à szmboliZfZção
do destino de um hebé. 14 ~

~
~
11
Ver a este respeito a questão apontada por Lydia Coriat, citada no livro de Elsa
Coriat, obra citada, p. 28 (N. da A.).
12
A denegação da patologia é um dos passos na direção do tratamento na clinica r
J
dos problemas do desenvolvimento infantil situados por Alfredo Jerusalinsky, obra ~
/•'
citada (N. da A.). ~
~

~
13
Jacques Lacan (1960), Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente
freudiano, Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p. 822. ~~
14 ~
Alfredo Jerusalinsky, obra citada, p. 17. 'I

112 113
ADEMANDADETRATAMENTO

Mas, na origem dos diferentes modos de solicitar o tratamento,


podemos encontrar uma pergunta mais recalcada ou mais elaborada,
"I
com respostas já configuradas que podem favorecer ou não que 1
1
um bebê ~eja tomado enquanto filho, ou com uma suspensão de
significação que, ainda que o tempo tenha transcorrido, não lhes 1,
l
possibilita inscrever o bebê na filiação. A pergunta que se apresenta
é: O que podemos esperar dele?
Situa-se aí a laceração produzida no tecido simbólico que
A DEMANDA DE TRATAMENTO estava preparado para recepcionar um filho. Diante da irrupção do
NA CLÍNICA COM BEBÊS: real provocada pelo diagnóstico de um problema do
QUANDO O FUTURO FICA EM XEQUE desenvolvimento, os pais claudicam em endereçar suas expectativas
e ideais ao bebê - ocorrendo uma contraposição entre o filho-ideal
previamente imaginado e o recém-nascido com problemas, que
Quando um bebê chega a tratamento, o que se traz com ele, acima de passa a ocupar o lugar de um impostor.
tudo, é a preocupação com seu futuro.
A interrogação que se impõe nos pais implica um conteúdo
Aqueles que o trazem podem dizer-nos que estão angustiados, que permanece recalcado: o que podemos esperar dele (tíma vez que este
pois, devido ao problema diagnosticado, temem não saber como não é o bebê que foi esperado)? Pois a impossibilidade de imaginar um
ocupar-se dos cuidados e da educação do bebê; que já sabem tudo futuro para o bebê não é mais do que um efeito dos impasses que
a seu respeito porque estiveram estudando a patologia que porta; os pais encontram em sustentar expectativas em relação a ele.
que não acreditam em nada do que os médicos falaram; ou que
simplesmente estão ali porque foram encaminhados pelo pediatra Se, dadas as impossibilidades reais que o problema orgânico
ou neurologista. O pedido de tratamento apresenta-se desde impõe e as limitações que lhe são atribuídas pelo imaginário parental
diferentes enunciados, nos quais sempre comparece a lógica da série e social, um bebê "não está à altura" do que foi antecipado como
simbólica pela qual a existência do bebê está sendo sustentada desde futuro para um filho, se esse futuro imaginado "não lhe serve" - ou
o discurso parental. seja, não pode ser posto a serviço de sua constituição psíquica e seu
desenvolvimento-, então, os pais se encontram num impasse quanto
A partir da confirmação ou suspeita diagnóstica de um ao exercício de suas funções.
problema do desenvolvimento no bebê, começam a constituir-se
nos pais diferentes formações psíquicas para fazer frente a esta Mas da irrupção desta questão até a solicitação de um
irrupção do real. A impossibilidade ou claudicação dos pais em tratamento já ocorre um primeiro deslizamento no qual se dá a
pôr em cena seu saber inconsciente para exercer a maternidade e possibilidade de endereçar esta interrogação ao clínico, a possibilidade
paternidade com este bebê pode dar lugar a uma negação da de encontrar um destinatário com o qual desdobrar os efeitos desta
patologia que foi diagnosticada, a uma tentativa de suplantar esta pergunta, que é relançada do seguinte modo: - Diga-nos, você que sabe:
posição de não saber pela via de um conhecimento técnico, ou o que podemos esperar dele?
ainda a um efeito traumático que os lança em uma dimensão do O que opera na demanda que nos é dirigida enquanto clínicos
"sem palavras". nos convoca em função de um suposto saber sohre ojitturo do bebê quando

114 115
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
A DEMANDA DE TRATAMENTO

as expectativas previamente armadas em relação a um filho ~·J Um bebê, antes de mais nada, é falado, diz-se dele "este é 0
idealizado fracassam em seu endereçamento ao bebê que ali está. João", "esta é a Maria", que faz parte de uma família e, por isso, leva
É no clínico que se deposita a esperança de que, com o saber também um sobrenome. Ele é bebê de e para alguém, um Outro
que lhe é suposto, possa chegar a estabelecer - por meio de não anônimo que efetua em relação ao bebê uma operação de
diagnóstico, evolução e prognóstico - o futuro de um bebê que reconhecimento que permite a inscrição - de um traço-unário 1 - que
comparece como inimaginável. Ou, ainda, que possa modificar o situa o bebê na filiação, na história parental, numa série desde a qual
curso de um futuro que se antecipa como sinistro. Trata-se então de passa a ser contado. Este traço inaugural, ao inscrever o nome,
(
convocar um saber que não apenas saiba sobre ofuturo, mas que também se permite ao bebê ter desde onde tecer o seu próprio conto, sua
supõe como capaz de torná-lo mais promissor. própria vida -ou seja, ter desde onde situar-se para estender a série
, simbólica de tudo aquilo que poderá virá a ser a partir do que, para
Quando a pergunta pelo futuro apresenta uma duplicação o Outro, ele já é.
Sabemos que o lugar do filho se constitui para os pais
Todos os pais se perguntam como irão ser seus filhos no
inconscientemente como uma possibilidade narcísica de transmissão
futuro, isto não acontece apenas diante daqueles que apresentam
de seus próprios ideais, e é justamente esse ponto de endereçamento
patologias. Mas o problema que se apresenta na clínica dos problemas
de uma criança ao ideal-do-eu parental que pode ser flanqueado
do desenvolvimento, tornando tal questão tão dilacerante para os
diante do precoce diagnóstico ou levantamento da suspeita de uma
pais, é que não só não se sabe do futuro do bebê - porque disso,
" patologia. O futuro de um bebê, que geralmente assume na dinâmica
em definitivo, ninguém tem como saber de antemão - , mas também '-'·
fâffiilíar o lugar de uma tela de projeções das realizações parentais,
se desfiguraram para os pais as coordenadas simbólicas que tornam
possível imaginar algum. na clínica dos problemas do desenvolvimento se constitui em fonte
de angústia, pois, a cada desejo acalentado, comparece o temor de
Assim, a pergunta pelo futuro passa a apresentar uma duplicação: que o problema apresentado pelo bebê venha a fazer-lhe obstáculo.
não se trata apenas de não saber do futuro, mas de uma claudicação Deste modo, temas tais como circulação social, amizade,
dos pais quanto à possibilidade de operar com o saber inconsciente independência, sexualidade, estudos, trabalho, constituição de uma
que permite construir imaginariamente algum futuro para seu filho. família e descendência são, desde muito cedo, foco de preocupação
Que os pais claudiquem quanto à possibilidade de sustentar a familiar pela ameaça de que o bebê ou pequena criança não tenha
articulação simbólica de um futuro anterior, de um projeto de vida condições de atingir diferentes realizações da vida, ficando
e uma imagem de futuro para o filho não é sem efeito para o condenado a uma espécie de clausura em uma infância a destempo.
desenvolvimento e constituição do bebê. Efeitos sintomáticos da claudicação na sustentação da filiação
Ao tratar-se de bebês, tal problemática comparece de modo comparecem em modos falhos de certos atos simbólicos, tais como
ainda mais radical, justamente porque o precoce diagnóstico de um nomeação, registro em cartório e apresentação do filho ao social.
problema no desenvolvimento pode vir a se superpor Na intervenção em berçário hospitalar ou UTI neonatal,
temporalmente aos primeiros momentos lógicos implicados na constatamos, diante de um recém-nascido que apresenta problemas
constituição psíquica do sujeito: o reconhecimento "desse corpo no desenvolvimento, que não com pouca freqüência o registro em
que vive" enquanto filho.
1
Jacques Lacan (1961 - 1962), L'identification, Seminário 9, inédito, aulas 11, 12 e 13
(N. da A.).
116 117
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
A DEMANDA DE TRATAMENTO

cartório é postergado, que as visitas dos familiares são suspensas ou bebê, a uma antecipação de fracasso que acabe por inviabilizar 0
rodeadas de constrangimento. Mais adiante, os passeios públicos, seu reconhecimento. Enquanto, no primeiro caso, a impossibilidade
quando ocorrem, transcorrem numa tentativa de esquivar o olhar de realização do ideal é uma constatação a posteriori da constituição
sobre o bebê, pois os pais aí se deparam com um olhar do social psíquica, no segundo caso, tal fracasso fica situado aprioristicamente
que, para eles, incide não sobre o bebê, mas sobre o estranhamento em relação à constituição do bebê. 4
despertado pela sua patologia. 2
Isto testemunha que não é só o nascimento do bebê que Reconhecimento, filiação e diagnóstico
assegura ao pais o acesso a um gozo narcísico. Para serem
Sabemos que certos eventos ou ditos familiares relacionados
reconhecidos enquanto pais, eles dependem, em primeiro lugar, de
ao entorno do nascimento podem fazer obstáculo ao
que este bebê possa dar suporte com seu corpo à promessa de um
reconhecimento do bebê, ainda que este não seja portador de
gozo social, à promessa de realização de certos ideais da cultura. A
nenhuma patologia em seu organismo. Não se trata, portanto, de
criança que não faz com que o c01po socialgoze dessa fonna, ou que não conforma
seu Eu ao ideal que a ideologia propõe, é designada pelos seus epelos outros como que tal destituição tenha uma relação direta com o orgânico, mas de
como a irrupção da patologia é enlaçada pelo tecido simbólico
um margina~ um párt'a, um excluído. 3
através do qual se inscreve o traço unário e se constitui uma imagem
É preciso deixar claro que o fato de um bebê ser endereçado para o bebê.
ao ideal-do-eu parental e social não implica que venha a realizá-lo,
cumprindo, de fato, com o imperativo de como "deve ser". Mas é No entanto não é indiferente que as primeiras inscnçoes
justamente por ser endereçado a este ideal que um bebê poderá, simbólicas e a constituição da imagem do corpo do bebê venham
um dia, vir a constituir suas próprias versões de respostas a partir a se estabelecer a partir da sombra que o diagnóstico da patologia
de uma referência simbólica, assim como o fizeram seus pais, seus lança sobre o tecido simbólico parental. O precoce diagnóstico de
avós ou seus bisavós. Ser inscrito na filiação, ser endereçado aos um problema orgânico freqüentemente desencadeia uma destituição
ideais parentais e sociais, é condição para que um sujeito possa fálica do bebê. Num tempo em que recém-começava a ser possível
constituir-se, para que tenha desde onde constituir uma versão a articulação de uma promessa de futuro, passa a incidir uma palavra
própria de sua vida, ainda que escolha situar-se em uma contraposição que diagnostica, que sanciona o bebê a partir do "déficit", a "falha"
ao~ mesmos ou que fracasse na realização de alguns deles. Pois
ou do fracasso da função. Não por acaso, diversos bebês, em lugar
sempre, pela castração, se está em posição de operar certa realização de serem rec_o nhecidos pelo seu nome, passam a ser nomeados
e certo fracasso do ideal. pela patologia que portam.

Mas dizer que todos os adultos têm que suportar a Que o diagnóstico de uma patologia se estabeleça em um
tempo em que o bebê ainda não tem idade para realizar certas

G
unpossib~lida~e d~ realização do ideal, uma vez que estão submetidos

2
castraçao, nao e o mesmo que estar submetido, no tempo de ser

Ver a esse respeito o caso clínico abordado no capítulo Entre dois nomes, a
conquistas muito valorizadas desde o social pode vir a dificultar
ainda mais as operações de inscrição simbólica e a construção de
uma imagem para o filho, pois, para tanto, é ainda impossível para

certeza de um diagnóstico (N. da A.).


4 Os efeitos da antecipação do _fracasso na constituição de um bebê são retomados no
3
Ver Jean Berges e Gabriel Balbó (1997), A criança da psicanálise, Porto Alegre,
capítulo É possível prevenir ou só resta remediar?, no ponto sobre prevenção
Artes Médicas, p. 45.
secundária (N. da A.).
118 119
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
A DEMANDA DE TRATAMENTO

os pai.s apoiar-se em pro,du?ões já conquistadas pelo bebê que


designação e reconhecimento simbólico que o Outro primordial l,
autentifiquem sua competencia para ser depositário de uma aposta.
faz do bebê, lhe dizendo, diante dessa imagem alheia, "sim, esse é J
. A~sim como o bebê só pode vir a reconhecer-se pela você, meu filho".
designaçao que dele opera um Outro encarnado, em parte é também
Por sua vez, a mãe, ao nomear esse que aí está como seu
~as produ.ções_do bebê, em suas competências e em sua adequação filho, não o faz no simples circuito de fixar seu olhar sobre ele. Para
a normauzaçao cronológica do desenvolvimento que as mães
reconhecer-se na posição de mãe, uma mulher refere-se à função
enco~tram uma comprovação consistente quanto à sua eficácia no
paterna. A função paterna marca o atravessamento de uma legalidade
exerc1C1o da maternidade.
no exercício da maternidade - dado que o bebê não pode ficar
Não se trata de que os efeitos de reconhecimento no laço de situado como um simples objeto de satisfação da mãe, ele tem que 1
uma ~ãe com o bebê operem através de uma reciprocidade. Tal responder ao sobrenome que carrega, que o situa em família, em
laço n~o se.produz nem por uma condição de dualidade, nem por uma cultura. Por isso, quando, pela presença de um problema do
u1:_1a ~imetr~a do bebê e da mãe. Winnicott nos diz que 0 rosto da desenvolvimento, um bebê está situado como incapaz de vir a
mae e o pnmeiro espelho para o bebê5 - para tanto ele toma por encarnar em seu corpo a promessa de realização dos ideais-do-eu e
1
b~sel.Q es~á~io do espelho 6 , texto no qual Lacan aponta como, entre os de refletir o brilho fálico, quando este não cumpre as conquistas e
seis e dezoito meses, o filhote humano, que instrumentalmente é aquisições do desenvolvimento no tempo esperado desde a cultura,
muito mais incapaz que um chimpanzé, já é, no entanto, capaz de os pais também padecem efeitos de destituição de suas funções.
reconhecer a sua ~rópria imagem no espelho. Ao ver sua imagem
Percebe-se assim a extensão dos problemas que podem advir
no espelho, o bebe volta-se para a mãe, que autentifica a imagem
na constituição de um bebê como sujeito e em suas aquisições
\ refletida como sendo a do bebê.
instrumentais quando, no tempo lógico em que iria ser efetuada a
. Assim a constituição do Eu se dá pela alienação do bebê a operação simbólica de filiação do bebê, incide uma significação
\ esta imagç:m que o Outro encarnado lhe apresenta como sendo a"
dele (do bebê). Produz-se aí a zdentijicarão imaginária: o bebê se identifica
que (por efeito do diagnóstico e/ ou demais ditos familiares, sociais
e médicos), o destitui e antecipa seu fracasso em um tempo
co~ esta im~go que lhe oferece a imagem antecipada de um corpo cronológico da vida no qual as suas conquistas e produções ainda
propno una~izado, .em um tempo em que ainda nem sequer pode resultam inconsistentes para servirem de testemunho da sua
ter um dorruruo psicomotor do mesmo. Tal imagem virtual é um competência em ser depositário, em poder vir a encarnar, os ideais
reflexo do espelho constituído pelo investimento do narcisismo sociais e parentais.
materno no bebê, e efeito da antecipação imaginária que a mãe
Quando, diante do problema "Ele é insuficiente para fazer o
produz e sustenta para o bebê.
Outro gozar, então não pode ser reconhecido", uma intervenção se propõe
Mas ta_l ide~tificação imaginária (constitutiva da imago no a adequar o bebê como objeto de gozo, os efeitos produzidos
humano) esta apoiada em uma matriz simbólica, pela nomeação, podem ser ainda mais complicados. Pois, deste modo, cai-se, pela
via inversa, no mesmo problema: o reconhecimento ficará sempre
5
Donald Winnicott (1971), Realidady]11ego, Buenos Aires, Gedisa, p. 147 subordinado a que este bebê seja objeto de gozo do Outro.
Ver.Jacques Lacan (1936), A família, Lisboa, Assírio e Alvim p. 43· e (19~9) E!
6

estadi 0 d J · ' ' '


Entre o traço unário que faz a marca de reconhecimento
p. 86. e espeio como formador del Yo, Escritos 1, Buenos Aires , Siglo Veitiuno , simbólico (S l: significante um) e a demanda do Outro (S2 :

120
121
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM A DEMANDA DE TRATAMENTO

significante dois) precisa haver um espaço para que se dê lugar ao _ser ofalo da mãe 7 • Winnicott situa esta questão ao afirmar que "não
bebê como sujeito, ou seja, para que a série de sua vida possa há bebê sem mãe".
estender-se a partir de seu nome, pelo fato de ele ser quem é, e não
Por isso, ainda que o problema compareça no organismo ou
por ter que responder eternamente como objeto da demanda do
Outro. nas produções do bebê, são os pais que por ele se preocupam e
que apresentam uma queixa. A suposição de saber dirigida ao clínico
De modo esquemático, podemos dizer que, se ocorre uma e a transferência que opera no tratamento tampouco são sustentadas
superposição em tal inscrição tanto pela via negativa - ou so/a, ''ele pelo bebê, mas pelos seus pais.
não faz o Outm gozar e então não pode ser reconhecido" - como pela via
Diferentemente do que ocorre na intervenção com adultos
positiva - ouso/a, ''se fizer o Outro gozar será reconhecido" - o bebê fica
_na qual o paciente supõe no psicanalista um saber acerca dofuncionamento
aprisionado como objeto da demanda do Outro sem produzir um
das marcas efetuadas no passado, demandando-lhe uma intervenção pela
movimento além da demanda, que implica o desejo.
qual venha a ser possível não ter que responder a elas desde um
Estas são algumas questões a considerar na atualidade, dado padecimento sintomático -, no marco da clínica com bebês opera uma
que cada vez mais cedo e com maior freqüência vêm sendo suposição de saber e uma demanda relativas ao futuro, futuro do bebê em
realizados diagnósticos precoces de patologias orgânicas. Tais relação ao qual os pais sofrem antecipadamente.
diagnósticos precoces são realizados a partir da indiscutível
Enquanto no trabalho com adultos se intervém com o infantil,
importância de poder contar, para os efeitos de uma intervenção,
ou seja, com as marcas deixadas em um adulto a partir de sua
com a extrema plasticidade característica dos primeiros meses de
infância e com os sintomas que repetem no presente o circuito
vida do bebê. Mas, lamentavelmente, o que nem sempre fica
estabelecido pelo infantil, no marco da estimulação precoce trabalha-
igualmente considerado é a importância de se intervir também com
se com a primeira infância.
os efeitos que o comunicado de tais suspeitas ou confirmações
diagnósticas podem desencadear no estabelecimento das A infância tem a sua posição marcada pelo desejo que
temporalidades lógica e imaginária que estão intrincadas na comparece no brincar das crianças: o de ter acesso às realizações
constituição de um bebê. que supõem na vida adulta. As crianças brincam de realizar os desejos
aos quais já estão deparadas desde a estrutura mas que, devido a sua
É justamente a desorganização na articulação dessas três
condição de crianças, se encontram real e simbolicamente
temporalidades que comparece quando a interrogação pelo futuro
impossibilitadas de realizar. Diferencia-se assim a intervenção com
do bebê apresenta uma duplicação.
o infantil que se atualiza no adulto e com a infância que corresponde
Um pequeno rei com o futuro em xeque é trazido a tratamento ao tempo de ser criança.
Mas resta ainda um outro esclarecimento que diferencia a
No marco clínico da estimulação precoce, o paciente não posição de um bebê e uma criança: na primeira infância, quando
vem sozinho, ele é trazido. É em relação a ele que se apresenta a ainda não está estabelecido o brincar simbólico, são os pais que se
queixa ou preocupação que os pais vêm enunciar. Neste fato mesmo preocupam e sustentam pelo bebê a expectativa de que este possa
se coloca em cena a condição simbólica na qual um bebê está situado: produzir às conquistas que estabelecerão seu passaporte da infância
ele não é sujeito senão pela suposição do Outro encarnado. É pela
7
sustentação do agente materno que um bebê tem ou não lugar a ser Como situa Lacan em relação ao primeiro tempo do Complexo de É dipo, As
formações do Inconsciente, Seminá1io 5, Rio de Janeiro, Jorge Zahar (N. da A.).

122 123
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM A DEMANDA DE TRATAMENTO

para a vida adulta. São eles que sustentam radicalmente para o bebê cuidados do bebê. Sabemos também que um recém-nascido tem
a articulação de um funcionamento desejante, são eles que conjugam uma intensa motilidade reflexa (gestual, tônica e postural) a partir
para o bebê a temporalidade de um futuro anterio1·. 8 da qual irá estabelecendo assimilações cognitivas e modificando suas
Vemos então como a articulação entre temporalidade lógica, produções à medida em que seu organismo for marcado pelo
temporalidade imaginária e o momento cronológico da vida em circuito de desejo e demanda do Outro. Mas é somente através do
que um sintoma clínico se faz presente tem seus efeitos na demanda Outro que se antecipa imaginariamente e se sanciona simbolicamente
de tratamento: enquanto no adulto a passividade se coloca em relação ao no bebê a autoria de uma atividade, que se supõe nele um desejo,
passado - no ter sido marcado por acontecimentos que não tem uma vontade e uma intenção. Diz-se de um bebê: "ele brinca!",
como modificar, ainda que, até certo ponto, possa ocorrer um mas é através da palavra, do olhar, do toque do Outro encarnado
deslizamento quanto às significações que os mesmos assumem na que tais produções são simbolicamente sancionadas como realizações
vida do paciente -, com um bebê a passividade fica colocada em relação ao de um sujeito que se supõe no bebê.
futuro. Um bebê encontra sustentação como sujeito na medida em É o agente materno quem, neste primeiro tempo da
que é simbolicamente antecipado e imaginarizado em seu futuro constituição, articula o "olha só como ele me olha'', "olha só como
por um Outro encarnado, um futuro diante do qual fica colocado ele me fala", "olha só como ele me come" 9 . A mãe, ao situar-se ora
passivamente porque ainda não se encontra em condições de realizá- como sujeito, ora como objeto que se oferece ao bebê, sustenta a
lo. partir do seu próprio circuito pulsional o funcionamento do circuito
Deste modo, tanto a criança quanto o bebê encontram-se pulsional do bebê. Torna o corpo do bebê erógeno ao articular
situados numa passividade em relação ao futuro. Mas, enquanto para ele três diferentes vozes da pulsão 10 que o implicam ativamente,
uma criança está em condições de responder com o brincar passivamente e reflexivamente - por exemplo no olhar, ser olhado
simbólico, um bebê ainda não conta com este sintoma de estrutura, e fazer-se olhar.
este sintoma constituinte do sujeito, a partir do qual a criança articula Então, enquanto uma criança brinca, pondo em cena aquilo
o ensaio de uma versão própria a respeito das marcas simbólicas que, por sua condição, ainda não pode efetivamente realizar, um
nela inscritas, armando uma passagem da passividade à atividade bebê nem sequer tem a possibilidade do faz de conta. É no corpo
sustentada no "faz de conta". O bebê encontra-se numa passividade
9
ainda mais radical, no tempo em que, a partir do Outro encarnado, Em espanhol é muito comum que as mães utilizem as expressões "me come de
se efetua a inscrição das primeiras marcas fundantes da constituição. todo!" e "no me come nada!" para falar da alimentação do bebê. Fazem evidente no
seu enunciado, por meio da introdução desse "me", o enlaçamento que produzem
Que ocorra esta incorporação do simbólico no bebê é uma condição
do funcionamento corporal do bebê ao seu próprio circuito de desejo e demanda.
necessária para que um dia, a partir delas, possa brincar. O bebê No português, é provavel que tais expressões fiquem reprimidas em relação à
está radicalmente colocado em posição de ser falado, ser tocado, alimentação devido ao uso popular dado ao termo "comer", que evidencia, deixa
ser olhado, ser "brincado" pelo Outro encarnado. totalmente a descoberto sua conotação sexual (N. da A.) .
10
Freud nos apresenta a pulsão (. ..) apoiando-se em todo momento nos recursos da língua e
Não se trata de que o bebê seja um "pedaço de carne inerte". apoiando-se em algo que só pertence a certos sistemas lingüísticos, as três vozes, ativa passiva
Bem sabemos que as urgências vitais a que está deparado impõem e média. - Jacques Lacan (1964), Los cuatro conceptos fimdamentales dei psicoanálisis,
ritmos bastante exigentes para o agente materno a cargo dos Seminaiio 11, Buenos Aires, Paidós, p. 185.
Ver também Marie-Cristine Lazrúk (1995), Poderíamos pensar numa prevenção
da síndrome autistica?, Palavras em torno do be1-ço, org. Darúele \Xlanderley, Salvador,
8
Ver a este respeito o capítulo Temporalidade na clírúca com bebês (N. da A.). Ágalma (N. da A.).
124 125
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM A DEMANDA DE TRATAMENTO

que um bebê suporta as marcas do Outro que vêm a orgarúzar seu em jogo em relação à interrogação sobre o futuro do bebê lançada
circuito pulsional, dando lugar ao estabelecimento de fracassos ou pelos pais?
de realizações no funcionamento de suas funções.
A partir de diversas intervenções terapêuticas, a interrogação
São os pais que sustentam o desejo que situa um bebê como parental sobre o futuro é respondida pela via de um conhecimento
menino ou merúna e o enfeitam ostensivamente com brincos, fitas técnico que passa a funcionar como norteador dos cuidados e
ou camisetas de times esportivos; que dizem "é nosso filho"; "parece expectativas dirigidos ao bebê, que tomam por referência as medidas
a irmã, quanto aos traços do rosto", "lembra a avó no jeito de ser'', estatísticas, curva de desenvolvimento e temporalidades especiais
entre tantas falas que circundam o berço de um bebê. Sexuação, estabelecidas por um padrão da população com patologia. Realiza-
filiação e identificação se ordenam através da função paterna (da se, deste modo, uma obturação da interrogação parental por meio
inscrição do Nome-do-Pai), estabelecendo as coordenadas de um conhecimento absolutamente anônimo que se coloca em
simbólicas da vida de um bebê. posição de saber efetivamente sobre o futuro desse bebê,
É pela travessia por tais coordenadas, inicialmente sustentadas desenhando-o com as tintas e oferecendo-lhe a imagem da tipologia
pelo Outro encarnado, que um bebê poderá devir como sujeito do patológica.
desejo - numa aventura que comporta o percurso do ser falado a Para os pais, apoiar-se em tais certezas constituídas pela
poder falar a partir delas. estatística, ou inclusive construir nefastas predições próprias acerca
A demanda implicada no tratamento sob o modo do: "diga- dos efeitos da patologia no futuro do filho, é uma tentativa de
nos, você que sabe: o que podemos esperar dele?" que os pais dirigem ao aplacar a angústia da incerteza que produz toda espera. E o tempo
clínico, aponta justamente a presença de uma fratura nesses pilares de ser bebê implica esta espera em relação ao futuro, este transcurso
de sustentação simbólica, sem os quais os pais não têm como situar do tempo no qual, muitas vezes, a limitação que a patologia virá a
o bebê, não têm como situar o exercício da materrúdade e da impor ainda não está clara, não está configurada, diferentemente
paterrúdade com ele. do que ocorre com uma criança maior.
Ocorre assim uma colagem precipitada entre diagnóstico da
O saber do clínico face ao futuro do bebê patologia e prognóstico que vem a selar o destino de um bebê
desde um jamais será. 11 Ao fechar toda possibilidade de interrogação
Se é a partir da suposição de um saber sobre ofutum do bebé e de acerca do futuro por uma predição que se apóia na estatística
como torná-lo maú promissor que o clínico é convocado a intervir, a patológica, fecha-se também a possibilidade de dialetizar este futuro
questão é que lugar ele vai ocupar, como vai se posicionar em relação como o efeito de uma produção singular de um sujeito ao longo
a este saber que lhe é suposto.
do tempo, de um vir a ser. Sem uma interrogação sobre o futuro
Estaria o clínico à altura desse saber? que abra caminho para um funcionamento desejante, corre-se o
risco de que a vida do bebê fique achatada em um eterno presente,
Não resta dúvida de que um clírúco que atua no âmbito da
de que o bebê se torne objeto de um oráculo, à espera do
estimulação precoce precisa deter conhecimentos sobre o
cumprimento do trágico destino previsto.
desenvolvimento e sobre suas patologias, mantendo uma interlocução
interdisciplinar permanente com especialistas de diferentes áreas
ligadas à infância. Mas como este conhecimento científico é posto 11
Como apontam Berges e Balbó, obra citada (N. da A.).

126 127
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
A DEMANDA DE TRATAMENTO

É fundamental no tratamento de um bebê a realização do


um bebê antes mesmo de que o pais possam interrogar-se acerca
diagnóstico e, dentro deste, o estabelecimento dos estudos pertinentes
do enigma do desejo que os implica ao filho.
para esclarecer se há algo do orgânico qu~, se. apresent~ ~orno _um
obstáculo em seu desenvolvimento (defic1enoas sensoriais, lesoes, Da realização de um diagnóstico médico a fazer de um bebê
malformações, síndromes genéticas, alterações metabólicas, distúrbios o protótipo de quadros estatísticos há uma grande diferença que
de ordem hormonal, focos irritativos no cérebro, entre outros) . nem sempre é assim sustentada: há um lapso entre diagnóstico (de
Isto permite proceder com o necessário para minimizar tais uma patologia) e destino (de um sujeito) que só pode ser preenchido
obstáculo s, aplicando as medidas médicas pertinentes que por meio de um forjamento de saber.
suspendam o quadro quando isto é possível; quando o quadro Ocorre que, na demanda que é dirigida ao clínico, estes saberes
comporta algo de inexorável que acompanhará um bebê ao longo de diferentes ordens ficam imaginariamente superpostos. Diante de
de toda sua vida, é fundamental que os pais sejam informados acerca tal demanda, a diferença da posição do clínico reside em, a partir
dos efeitos que a patologia em questão pode ocasionar e quais das daí, passar a situar-se como aquele que, de fato, deteria este saber
dificuldades já detectadas no bebê estão diretamente ligadas ao seu sobre o futuro do bebê respondendo à questão parental por via
problema orgânico, pois, mesmo diante de patologias que não têm das estatísticas e até mesmo através de conselhos e sugestões pessoais
cura, a pronta detecção e intervenção podem minimizar possíveis a este respeito; ou situar-se de modo a considerar as diferentes ordens
danos. de saber que ficam nele supostas por parte daqueles que trazem o
Por isso a saída clínica não consiste em retornar a uma espécie bebê: se, por um lado, ele detém conhecimentos científicos, há um
'
de ignorância sobre a patologia, assumindo uma postura saber que lhe é suposto e que não é seu de fato, trata-se do saber
obscurantista, e evitar que sejam feitos diagnósticos precoces pela inconsciente parental acerca do bebê.
via do "é melhor não saber". O estabelecimento do real é um passo Enquanto, na primeira posição, se produz, do lado do clínico,
fundamental no tratamento. Mas devemos estar atentos e também um achatamento entre o conhecimento científico e o "saber sobre
intervir com os danos imaginários e efeitos simbólicos detonados o futuro" que o terapeuta acredita de fato deter, na outra, se faz
no discurso parental e produção do bebê a partir do diagnóstico possível manter aberta a brecha existente entre um e outro, não
precoce de uma patologia. respondendo especularmente à superposição desde a qual é
convocado pela demanda parental.
"É neste lugar que a escuta analítica toma-se imprescindível
para impedir que a resposta do médico, situada como frustrante Em relação à demanda parental de uma resposta sobre o
ou gratificante no imaginário dos pais, reduza a transferência à futuro de um bebê que é dirigida ao clínico em estimulação precoce,
sugestão." 12 os efeitos mais interessantes não se produzem nem quando o clínico
se situa em posição de obturá-la, nem quando se situa em posição
O problema é que, muitas vezes, a partir dos precoces de esquivá-la, mas justamente quando se situa de modo a pôr esta
diagnósticos de patologias orgânicas se colocam respostas sobre demanda a trabalhar.
Ao operar clinicamente pelo achatamento de um saber sobre
12 Poster e Rainieri (1993), La entrevista de admisión - princípio y final de una o outro - seja pela vertente de não dizer nada daquilo que permita
grandiosa misión, Escritos de la Infancia, no. 1, Buenos Aires, FEPI - Centro Dra. aos pais armar a borda entre a limitação real que a patologia impõe
Lydia Coriat de Buenos Aires, p. 16. ao bebê e as suas próprias fantasias; seja por dizer tudo sobre o

128 129
l
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM A DEMANDA DE TRATAMENTO

futuro ao superpor prognóstico e destino -, o que pode acabar O risco é que se instale nos pais uma recusa de implicar seu
esmagado é a possibilidade de que um bebê advenha como sujeito. saber inconsciente em relação a ao bebê. Deste modo, só lhes restará
Pois nesses forjamentos em que conhecimento e saber ficam a possibilidade de perguntar, uma e outra vez, diante dos mais
superpostos, fecha-se a brecha necessária para que, face ao problema variados especialistas: "diga-nos, você que sabe: o que podemos
que se apresenta no orgânico do bebê, os pais possam perguntar-se esperar dele? Porque a este respeito nós nada sabemos". Na recusa I'
não só o que podem esperar dele, mas que esta questão possa "se está lidando com esse paradoxo psíquico no qual determinados
relançar-se de modo a retomar uma outra interrogação primordial sujeitos sabem de alguma coisa e, ao mesmo tempo, não sabem, ou
que foi silenciada: O que querem dele? não querem sabê-lo". 16 Pois "saber disso", responder pela criação
A interrogação fundamental do ''che vuoi?" ou ''que queres de de um filho, implica não só a possibilidade de transmissão e realização
mim? "13 situada por Lacan, consiste na implicação de um sujeito em de certos ideais, também implica deparar-se com a privação,
relação ao seu desejo que se apresenta no ato da enunciação. Ao frustração e castração que comportam a impossibilidade de plena
abrir lugar desde a intervenção clínica à interrogação dos pais acerca realização dos mesmos - e isto não ocorre só diante de bebês que
do que querem de seu filho e do que pensam que ele está querendo, apresentam problemas do desenvolvimento.
aponta-se a que reconheçam a implicação do seu desejo na É preciso que um Outro não anônimo se implique numa
construção de um futuro para seu bebê. A interrogação "o que voCê aposta, ponha em jogo a conjugação de um futuro anterior em
quer?" 14 dirigida ao bebê e presente nos cuidados que lhe são dirigidos relação à "pequena majestade", para que a constituição do bebê
implica um passo além: que os pais desejem a produção de um como sujeito deixe de estar em xeque.
funcionamento desejante no bebê.
É somente na medida em que esta interrogação pelo desejo
fique sustentada pelo parental em relação ao bebê que será possível,
num segundo momento, que ela possa ser articulada pela própria
criança. Para tanto, é preciso que se opere um deslocamento da
posição em que os pais podem ficar tomados:
Se na transferência que os pais endereçam inicialmente ao
clínico opera uma posição de regressão desde a qual este deteria -
como um dia os seus próprios pais detiveram - o saber acerca de
como criar um filho 15 , há um risco para o bebê quando tal posição
se perpetua em um tratamento.

13
Jacgues Lacan (1960), Subversión de! sujeto y dialéctica dei deseo, Escritos 2,
Buenos Aires, Siglo Veintiuno, p. 794.
14
Como situa E lsa Coriat ao referir-se ao modo informal pelo qual o "che vuoi?"
comparece de forma cotidiana no laço pais-bebê. Psicanálise e Clinica com bebês
(1995), Porto Alegre, Artes e Ofícios (N. da A.).
15 .. ,. J P . . ,. La ro11sse, p orto Alegre ' Artes Médicas,
Ver a este respeito: Alfredo Jerusalinsky (1988), Psicanálise e Desenvo/i1imento 16 Chemama (1998), Dzc1onano ue sicananse
lnjàntil, Porto Alegre, Artes Médicas, p. 62. p. 188.

130 131
A INTERVENÇÃO DO CLÍNICO

Depois de alguns meses de preocupação, os pais resolvem


fazer uma consulta, pois seu pequeno filho, em vez de dizer como
primeiras palavras "mamãe" e ''papai", diz "truco".
Durante a consulta, os pais insistem:
- Diz maa-mãe, dizpaa-pai.
- Truco - diz o menino.
- Retruco - responde o doutor ao menininho, como se
A INTERVENÇÃO DO CLÍNICO NO MARCO estivesse a aumentar a aposta do jogo.
DA ESTIMULAÇÃO PRECOCE - Vale quatro - sustenta o pequeno paciente.
- E então, doutor, o que o menino tem? - perguntam os pais.
_, Um bebê é trazido a tratamento porque há algo que fracassa
-Acho que tem um ás de espadas. 1
no circuito de realização entre as suas produções e os ideais sociais
e parentais. É na medida em que as demandas e desejos parentais Para que um bebê possa chegar a brincar algum dia, para que
fracassam em seu endereçamento ao bebê, ou que este fracassa em possa chegar a pôr ativamente seu desejo em jogo, é preciso que,
sua realização, que o clínico é convocado a intervir neste circuito. num primeiro tempo, um Outro não anônimo tenha feito o jogo,
tenha apostado na suposição de um sujeito no bebê.
Quando um bebê não é ende~eçado, pela filiação, a tais ideais,
quando esses ideais não valem para ele, os pais não têm Supor um sujeito no bebê quando ele não está de fato
simbolicamente desde onde sustentar as antecipações que permitem constituído é uma das operações fundamentais sustentadas pelo
ordenar as demandas que, ao serem dirigidas ao bebê, vetorizam o Outro encarnado, que implica, nos termos de \'X!innicott, uma loucura
seu desenvolvimento e constituição psíquica. Perde-se o ponto de necessária das mães. Quando esta operação não se sustenta com um
amarra simbólica que permite a produção do repuxo, do estirão bebê, seja porque suas produções caem ao não serem atreladas a
pulsional no bebê. uma rede simbólica, seja porque são lidas sempre como signos
estranhos relativos à patologia, sua constituição como sujeito fica
· É por isso que, no nó transferencial da intervenção com bebês,
em risco.
o trabalho consiste em ir encontrando as vias de passagem pelas
quais a demanda de tratamento dirigida ao clínico pelos pais possa Nesse sentido, poderíamos dizer que a intervenção com bebês
rearticular-se ao bebê, dando lugar à instauração de um circuito de implica, como no chiste popular, uma espécie de loucura necessária do
demanda e desejo que, ao enlaçar o bebê, motorize sua constituição
como sujeito e seu desenvolvimento.
1
O ás de espadas é a carta mais alta no jogo de truco (literalmente, truque), muito
A loucura necessária do clínico na intervenção com bebês popular em países de língua castelhana e conhecido no sul do Brasil, ainda que com
algumas regras e baralho diferente. Tal jogo, originalmente, utiliza o baralho espa-
nhol e tem regras muito simples, mas torna-se desafiante ao implicar o blefe e a
A intervenção do clínico com bebês guarda sua semelhança aposta em progressão geométrica, seguindo a seqüência de truco, retruco e vale
com seguinte chiste popular: quatro (N. da A.).

132 133
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM A INTERVENÇÃO DO CLÍNICO

clínico, na sustentação das antecipações simbólica, imaginária e Se, ao longo do tratamento, ocorre uma atribuição ao clínico
funcional constitutivas para o bebê. de diferentes personagens (diferentes transferências imaginárias), sua
Mas a intervenção do clínico não se reduz a ser ele quem função não é a de ficar efetivamente colado a uma suplência
produza uma loucura necessária, a ser ele quem sustente, ao brincar imaginária de família ideal, mas de possibilitar os efeitos instauradores
ou ao dirigir-se ao bebê, a articulação temporal - real, simbólica e da constituição do bebê e do exercício das funções imprescindíveis
imaginária - constituinte do sujeito e instauradora do para que ela se dê. 3
desenvolvimento. 2 Como no chiste, tal intervenção aponta também É preciso, no entanto, reconhecer que na clínica com bebês e
a realizar intervenções, cortes de sentido e escanções no discurso pequenas crianças, apresenta-se esta condição diferencial, esta
parental, para que os pais possam vir a ocupar seu justo lugar e especificidade: o clínico intervém durante o momento em que estão
sustentar tal articulação temporal para o filho. É sobre esta dupla se efetuando as marcas primordiais, as marcas fundantes da
operação que incide a intervenção do clínico em estimulação precoce. constituição psíquica do infans. Ao intervir antes de que tal estrutura
O clínico, a partir da transferência parental, passa a integrar a se feche em uma sincronia o clínico fica implicado, através da
constelação do Outro primorQ.ial do bebê; ele opera como um transferência, na constituição desse bebê ou pequena criança. E, para
agente articulador do circuito de desejo e demanda que possa vir a que tal constituição se dê, é preciso que, em certos momentos do
repuxar a corda pulsional do bebê e enlaçá-la ao campo do Outro; tratamento, o clínico empreste seus próprios significantes ao bebê
e opera com os pais no sentido de propiciar que el!!'S possam situar- ou criança. Algo do anonimato do clínico ali se rompe e torna necessário
se como agentes das funções maternas e paterna para o bebê. Tal na clínica com a infância efetuar intervenções de outra ordem que não
articulação, que se encontra com obstáculos, impedimentos ou somente a do ato analítico. 4
fraturas, é inicialmente suportada pela transferência depositada na Mas são os efeitos da intervenção que precisam ser
pessoa do clínico. instauradores da articulação da pulsão do bebê ao campo do desejo
Se, como clínicos, somos convocados pela fanúlia a integrar e da demanda do Outro. O que precisa se inscrever e permanecer é
a constelação do Outro primordial do bebê, é importante considerar tal inscrição, tal articulação à ordem simbólica, e a presença do clínico
que isto é efeito de uma transferência/ resistência a ser trabalhada. cumpre-se ali por um caráter transitório. Por isso, uma vez que o
Através da transferência, o clínico é colocado em diferentes lugares funcionamento pulsional do bebê está enlaçado a um circuito de
pelos pais ao longo do tratamento - pode ser colocado como avó demanda e desejo, uma vez que este circuito opera, quando seu
ou avô, diante do qual os pais ficam situados como crianças; como
a mãe ideal do bebê, dando lugar a movimentos de identificação 3
A partir da transferência se produz uma superposição entre esses pequenos outros
ou de rivalidade; como um terceiro do laço mãe-bebê, enquanto imaginários e a função do Outro na pessoa do analista. Como fica, aliás, claramente
pai que efetua cortes desde a lei; entre tantos outros lugares que evidenciado pelo costume que se tem no Brasil de que a família ou a criança
chamem o clínico a cargo do tratamento de "tio" ou "tia". Mas a diferença da ética
dependerão da tela simbólica parental e do momento do tratamento.
clínica atravessada pela psicanálise implica que o clínico deixa uma brecha aberta,
Mas isto não é o mesmo que considerar que o clínico tome deixa um intervalo desde o qual ora sim e ora não sustenta esta função de Outro
efetivamente para si o lugar de avô, mãe, pai, amigo ou tia. para o bebê. Se ele de fato se acredita como tio ou tia, mãe ou pai, se tenta plantar-
se efetivamente como aquele que sabe do bebê a partir da transferência, impede
que as funções materna e paterna possam articular-se a partir do parental (N.da A.).
' Ver a este respeito Ângela Vorcaro (1999), Crianças na psicanálise, Rio de Janeiro,
2
Ver capítulo Temporalidade na clínica com bebês (N. da A.). Companhia de Freud, p. 16 e 17 (N. da A.).
134 135
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM A INTERVENÇÃO DO CLÍNICO

funcionamento encontra-se instaurado no bebê e sustentado pelo qual pode ter acesso a algum saber que lhe permita realizar uma
parental, passa-se a prescindir do suporte transferencial (da dobradiça escolha de objeto passa necessariamente pelo Outro.
que o articula) encarnado no clínico. Assim, a mãe toma o alarido do bebê como um chamado a
Vale a pena, neste ponto, realizar certos esclarecimentos ela dirigido, e transforma esse alarido em mensagem, em demanda de
conceituais acerca da posição do bebê, do Outro encarnado e do algo particular. A mãe, que encarna este Outro, faz uma pontuação na
modo em que as demandas ficam intrincadas com o desejo, para qual a significação se constitui como produto acabado. 6 Pode então passar a
situar a fundamentação sobre a especificidade da intervenção do oferecer o seio quando supõe a fome ou o afago quando supõe
clínico no marco da estimulação precoce. que o bebê não está mais a demandar a satisfação de uma necessidade
orgânica, e sim a demandar o seu amor.
O circuito de desejo e demanda É a partir do "tesouro do significante" 7 do Outro - esta
reunião sincrônica dos significantes na estrutura - que se faz frente
Desde o começo, na relação de objeto do ser humano não
ao desamparo, significando o alarido do bebê como demanda.
há complementaridade possível, tal relação desde sempre está
atravessada pela linguagem. Mas a mãe não só estabelece a demanda do bebê - colocando
em cena seu saber inconsciente para ler, para outorgar significação
ao choro. -, ela produz outro movimento fundamental: após
formular uma resposta à demanda do bebê, ela se certifica de que
a significação que atribuiu a tal demanda tenha sido acertada. É
como se a mãe se interrogasse: ''Será que é isso mesmo que ele queria?"
Neste movimento, ela supõe st!Jeito no bebê, supõe nele um desejo
que não necessariamente coincidiria com o dela. A mãe sustenta
s S' uma suposição de sujeito desde muito cedo, ainda quando as reações
do recém-nascido são reflexas, carecendo de qualquer
intencionalidade, ela está a supor um desejo no bebê.
Grafo 1:
Também é preciso considerar que a mãe não responde sempre
e da mesma forma às demandas do bebê. Ora ela responde com
presença, ora com ausência. E não se trata simplesmente de uma
ausência física da mãe: diante do choro ela pode, por exemplo,
introduzir a chupeta em lugar de dar de mamar. Assim a mãe vai
armando alternância nos cuidados do bebê, vai armando ritmos de
Este grafo 5 esquematiza como, partindo do desamparo
sono-vigília, fome-saciedade, tensão-apaziguamento, atividade-
primordial, no qual o ser humano carece do saber que lhe permita
relaxamento etc.
encontrar o objeto acertado para sua satisfação, o único modo pelo
Neste circuito, vai-se produzindo para o bebê a inscrição
5
Primeiro piso do grafa do desejo elaborado por Jacques Lacan (1960), Subversión psíquica de satisfação-insatisfação. Satisfação esta que o bebê
dei sujeto y dialéctica dei deseo en e! inconsciente freudiano, Escritos 2, Buenos 6
Idem, p. 785.
Aires, Siglo Veintiuno, p. 784.
' Idem.
136 137
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM A INTERVENÇÃO DO CLÍNICO

procurará reencontrar, reproduzindo suas coordenadas nas desejo seja inarticulável, ele é efeito de uma articulação da pulsão ao
alucinações e sonhos e realizando a prova de realidade, ao comparar campo do Outro.
os objetos que se apresentam ao objeto constituído a partir da
A partir deste breve percurso conceitua! se faz possível retomar
experiência de satisfação. A partir da inscrição da experiência de
algumas considerações quanto à especificidade que se apresenta na
satisfação, para sempre irá se procurar '~·eestabelecer a situação de sati.ifação
clínica com bebês.
original. Um impulso desta espécie é o que chamamos desdo ". 8
A partir daí é possível diferenciar desejo e demanda no laço Quando o circuito de desejo e demanda encontra uma fratura
que uma mãe estabelece com seu bebê.
O surgimento de uma determinada demanda parental relativa
"O desejo situa-se na dependência da demanda - demanda ao desenvolvimento e a precipitação de uma determinada aquisição
que, por articular-se com significantes, deixa um resto metonímico
no bebê não operam de modo simultâneo, há sempre um destempo
que desliza sob ela, um elemento que não é indeterminado, que é
entre elas. Este destempo é logicamente necessário, é constituinte.
a condição, ao mesmo tempo absoluta e inapreensível, um
elemento que está necessariamente em impasse, um elemento Pois, para que ocorra uma realização do bebê, é preciso que esta
insatisfeito, impossível, não reconhecido, que se chama desejo". 9 tenha sido antecipada na articulação do circuito de desejo e demanda
do Outro.
A mãe articula a demanda do bebê ao seu saber inconsciente,
à sua rede sigrúficante, atribui à ação do bebê um ; entido, a partir Tomemos aqui um exemplo qualquer de aquisição:
do qual realiza a oferta de uma ação específica. Mas, neste Ainda que armar trípode, que chegar a sentar-se, seja um
movimento de articulação da pulsão pela demanda, também se passo que faz parte do desenvolvimento neuropsicomotor dos bebês
abre a dimensão do desejo, pois a pulsão não fica toda articulada na de modo em geral, não é possível que tal realização advenha para
demanda, o desejo sempre escapa, sempre insiste na busca da um bebê sem a experimentação necessária.
realização do que ficou inscrito como satisfação. Insiste assim de
É na medida em que se passa a demandar de um bebê, por
um objeto a outro, num movimento que busca o reencontro com
exemplo, que permaneça sentado com apoio nas costas e sem
um objeto mítico irremediavelmente perdido.
contenção lateral que este pode começar a experimentar
Enquanto a demanda articula, colocando o sujeito em relação corporalmente às situações de desequilíbrio psicomotor que lhe
a um objeto, o desejo é inarticulável - pois o objeto causa do desejo permitirão armar o apoio das mãos e, posteriormente, quando
é mítico e nunca coincidirá plenamente com os diferentes objetos conseguir sustentar o seu tronco equilibrado, prescindir de tal apoio.
da realidade.
Ocorre que, se da parte do agente materno não se produz
É por isso que a demanda tem um lugar fundamental na nenhuma antecipação que imagine este bebê como capaz de sentar-
articulação entre a pulsão, que sempre insiste com sua força constante se, esta postura não lhe será ofertada e, sem esta demanda, o bebê
pela descarga, e o desejo, que sempre se situa como irrealizável carecerá da experimentação fundamental para ter acesso a tal
nesta busca pela satisfação. E é por isso também que, ainda que. o realização.
8
Sigmund Freud (1900), A interpretação dos Sonhos, E.S.B., vol. V, capítulo 7, Percebe-se então como a antecipação imaginária - configurada
Rio de Janeiro, Imago, p. 603. a partir dos ideais familiares e sociais - se traduz na possibilidade de
9
Jacques Lacan (1964), Seminan·o 11, Buenos Aires, Paidós, p. 160.

138 139
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
A INTERVENÇÃO DO CLÍNICO

realizar novas ofertas ao bebê. 10 Assim, a mãe não produz


entra o Outro é na articulação da pulsão ao circuito de demanda e
simplesmente antecipações imaginárias, ela também as coloca em
desejo.
ato nos cuidados que dirige ao bebê, produzindo antecipaçõesfuncionais.
"O percurso da pulsão - a satisfação sempre impossível
É através do circuito de desejo e demanda do agente materno da pulsão - não amarra o Outro (...) Na satisfação própria da
que as funções orgânicas do bebê organizam seu funcionamento. zona erógena não se necessita nenhum Outro, mas no desejo e
Isto é o que ocorre quando a mãe estipula horários de mamada e no amor sim. Aí é onde entra verdadeiramente a dimensão do
ritmos de sono e vigília para seu bebê, quando lhe oferece uma Outro, não na pura pulsão, mas no enodamento da pulsão com
nova postura corporal ou quando introduz um novo alimento. Mas, o desejo." 12
quando cai a possibilidade de antecipar o bebê como capaz de
É nesta amarra, neste nó, que intervimos na clínica com bebês,
certas produções, fica também fraturada a instauração de um circuito
como uma dobradiça 13 que, através da transferência, articula o
que, a partir do desejo e das demandas do Outro, vetorize a pulsão
estabelecimento do circuito pulsional do bebê ao circuito de
do bebê e dê lugar à produção de suas realizações.
demanda e desejo do Outro.
É justamente a este obstáculo, a este fracasso na instauração
do circuito de desejo e demanda que remete o conceito de fratura 12
Alfredo Eidelsztein (1995), E/ grafo dei deseo, Buenos Aires, Manancial, p. 181.
da Junção materna.11 Esta fratura pode-se fazer presente tanto no 13
A metáfora da dobradiça para pensar no ofício do clínico apoia-se em outra
ponto de remeter ao bebê demandas (porque não se supõe que ele metáfora anteriormente utilizada nesta clínica, a de que o clínico em estimulação
seja capaz de respondê-las) quanto no ponto de situar-se como precoce interviria como uma "ponte": "Pode-se dizer que uma das funções mais
importantes do Especialista em Estimulação é a de oficiar como ponte específica
receptor de supostas demandas do bebê (porque não se supõe que
para que o ponto no qual o bebê nasceu diferente não acabe por invadir e alterar os
ele seja capaz de realizá-las). Também pode ocorrer que se dirijam demais aspectos de sua vida" Elsa Coriat (1995), Psicanálise e clínica de bebês, p. 119.
ao bebê demandas relativas ao desenvolvimento, mas que se apague A metáfora da dobradiça pode assumir uma extensão interessante ao conceber a
da cena a suposição do bebê como sujeito, que não se sustente a sua intervenção do clínico na articulação entre a superfície corporal do bebê e a superfície
dimensão desejante, que ele não seja suposto como autor de tais significante do Outro.
Lacan concebe o sujeito por meio da forma topológica do toro - que, como uma
produções e fique situado como objeto exercitado, treinado e
bóia ou câ~ara de pneu, tem um buraco no meio -, ou seja, o sujeito se estrutura
adequado à demanda do Outro. em torno de um buraco, de uma falta plimordial, e não como uma esfera global
E é nesta dupla fratura do circuito de desejo e demanda fechada sobre sua própria completude. Isto porque, para que o sujeito se constitua
como desejante e inclusive para que se configure seu Eu como esta imagem especular
entre os pais e o bebê que se faz necessária a intervenção do clínico.
do espelho, sempre ficará um resto inapreensível, a pegada de uma falta inaugural,
esta marca do desencontro com o objeto causa do desejo - objeto a - como esta
Articulando as vicissitudes pulsionais do bebê ao circuito de cavidade central do toro. Por meio do toro Lacan situa a dialética da demanda e do
desejo e demanda do Outro desejo: O desejo pode ser pensado como esse círculo do vazio central do toro e a
demanda como as sucessivas voltas produzidas ao longo do toro como um fio que
A princípio, não há nada que vincule a satisfação da zona se enrola em uma bobina. Estas diferentes voltas da demanda, assim como o fio da
bobina, se emendam umas nas outras e se repetem uma e outra vez, procurando
erógena (Quel/e - fonte da pulsão) do bebê com o Outro. Onde
apreender, nessas sucessivas voltas em que circunscrevem objetos de demanda, o
objeto do de sejo. Assim, a volta em torno do objeto de desejo nunca se completa e
'"Ofertas que se imprimem com a força da demanda de que o bebê as tome (N. da A.).
11
sempre volta a recomeçar relançada nas sucessi vas voltas da demanda. Se
Conceito apresentado no texto de Alfredo Jerusalinsky e Elsa Coriat (1982), descrevermos o percurso que faz a continuidade entre o círculo da demanda e o
Función materna y estimulacíón temprana, Cuademos dei desaTTollo Infantil, Buenos círculo do desejo, chegamos a um novo círculo que integra os dois círculos anteriores.
Aires, Centro Dra. Lydia Coriat (N. da A.). Se traçarmos esta linha sobre o toro teremos traçado a função do desejo.
140 141
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM A INTERVENÇÃO DO CLÍNICO

A intervenção do clínico não consiste em ter que responder à • Este saber suposto no clínico também diz respeito ao saber
demanda de "reparar" o bebê - o que implicaria tomá-lo na cena que os pais claudicam em supor no bebê. Na medida em
clínica como um mero objeto posto a serviço da satisfação parental. que não supõem o bebê como suficientemente capaz para
responder, não se aventuram a dirigir-lhe, nos cuidados da
• O saber que transferencialmente se supõe no clínico é efeito vida cotidiana, nem antecipações funcionais, nem a
do saber inconsciente dos pais que não se articula no sentido interrogação pelo seu desejo. É então ao clínico que
de possibilitar o exercício das funções maternas e paterna endereçam as questões sobre o futuro do bebê.
com o bebê. Os pais supõem que seja o clínico quem deteria Que o clínico possa sustentar o endereçamento de
efetivamente o saber acerca do que ocorre e convém a seu antecipações funcionais articuladas à suposição de sujeito
filho. que situem o bebê como capaz de certas realizações arma
Que o clínico faça semblante de sujeito suposto ao saber o marco desde o qual o bebê poderá vir a ter acesso a
(em lugar de dizer que não sabe nada disso) dá lugar a que certas aquisições e, aos pais, reposicionarem-se diante das
os pais possam, suportados em tal transferência, vir a mesmas.
desdobrar seu saber inconsciente acerca do filho (pois, em
• E, ainda, ao conhecimento que efetivamente o clínico detém
todo caso, o clínico sabe que os pais sabem aquilo que eles
acerca da constituição na infância e suas patologias. O
pensam não saber).
trabalho artesanal desta clínica implica que ele possa operar
com este conhecimento - e a partir da escuta parental e da
leitura das produções do bebê - de modo a produzir atos
O laço entre o bebê e a mãe fica situado em uma complementariedade tó rica: pela clínicos que ressituem os pais quanto ao exercício de suas
cavidade central de um dos toros, passa o outro (como ocorre com os elos de uma funções; sustentem as operações constituintes de um sujeito
corrente). Assim, a cavidade central do desejo de um fica saturada pela demanda do no bebê assim como possibilitem ao bebê experiências
outro. O interessante é que - e aqui retomamos a questão da dobradiça - ao
necessárias para a construção de suas diferentes aquisições
efetuarmos dois cortes no toro - o primeiro, seguindo a linha traçada pelo círculo
pequeno da demanda, que transforma o toro em uma salsicha ou mangueira, e, o instrumentais.
segundo, seguindo a linha traçada pelo círculo grande do desejo-, o toro se transforma A intervenção opera não só através de uma posição de
em wn retângulo, em uma superfície. Ao fazer isso em cada um dos toros teremos escuta e leitura. É a partir de tal conhecimento efetivo que o
um retângulo representando o bebê e outro representando a mãe. São estas duas
clínico pode sancionar como eficazes ou precursoras de
superfícies que se encontram empalmadas nwna simetria quanto à linha que demarca
a função do desejo: pela qual o desejo do bebê está em palmado ao desejo materno.
outras realizações produções do bebê que não são
Mas trata-se aí de uma simeflia espelhada, ou seja, que, assim como o espelho, produz reconhecidas; e implica também que possa introduzir certas
uma inversão entre esquerda e direita. Se abrirmos as duas folhas da dobradiça que demandas constituintes para o bebê, ao diferenciar o que
se encontram empalmadas em um espelhamento entre a mãe e o bebê, encontraremos faz limite da patologia orgânica e o que se impõe como
de um a outro a inversão de desejo e demanda. Reproduz-se no plano especular
limite a partir do fantasístico.
uma situação idêntica à encontrada na complementariedade tórica.
Ver Jacques Lacan (1961/62), Seminário 9, A Identificação, Inédito, aulas proferidas
em 7 /3/62, 14/3/62 e 21/3/62. Ver também o esquema de complementaridade Podemos pensar a constituição de um sujeito no bebê como
tórica entre mãe e filho proposta por Domingos Infante em A fannaçào da subjetividade o estabelecimento de uma dobra em relação ao discurso do Outro
na criança, texto inédito utilizado no trabalho de formação de pediatras no Instituto encarnado. Inicialmente, no bebê, trata-se de una dobradiça que
da Criança, Hospital das Clinicas, São Paulo (N. da A.).
situa seu circuito pulsional de forma bastante pregada e muito pouco

142 143
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM A INTERVENÇÃO DO CLÍNICO

intermediada com,º gozo do agente materno. É por isso que, precoce, dado que é da articulação entre eles que depende a
claramente, em bebes_ bem pequenos (antes do estádio do espelho) constituição do bebê.
os srntomas produzidos precipitam-se em seu corpo, mas se Por isso, para além de escutar o discurso parental, é preciso
sustentam através da representação inconsciente materna. que possamos ler as produções do bebê, diferenciando as que se
. Ocorre que, se num primeiro momento, não se produz a precipitam como sintomas clínicos das que se constituem como
aruculação, a dobradiça que atrela o circuito pulsional do bebê esta realizações. Tais produções põem em cena de forma cifrada o modo
superfície corporal, ao campo de desejo e demanda do Outro'_ se em que o bebê está situado, na sua constituição psíquica e em seu
não se produz esta operação de alienação -, este bebê não terá desenvolvimento, face ao Outro. Trata-se do modo em que as marcas
desde onde sustentar a sua identificação primordial - nem para que significantes efetuadas no corpo do bebê inscrevem o mapeamento
~e produz_a o seu reconhecimento pelo traço unário (pela de seus circuitos pulsionais.
incorporaçao de uma constelação significante a partir do discurso Podemos ler as vicissitudes que as pulsões vão percorrendo
do Outro), nem para constituir seu Eu (identificação imaginária). nas diferentes produções do bebê pelo modo em que vão se
À medida em que um bebê vai se constituindo psiquicamente estabelecendo sua fonação, seu olhar, sua postura, suas oscilações
e que vão comparecendo as diferentes aquisições do seu tônicas, seus ritmos de sono e vigília e de fome e saciedade, suas
desenvolvimento, o rolo que vai sendo desdobrado, que vai sendo reações de sorriso indiferenciado ou de estranhamento, seu controle
estendido é justamente o do encadeamento signifitante. A dobradiça esfincteriano etc. As diferentes produções do bebê, lidas a partir da
então já não ficará tão radicalmente pregada sobre a mestria do articulação que fazem com o discurso parental, nos falam do modo
gozo materno, e poderá começar a constituir-se nesta dobradura em que o bebê está se constituindo face às marcas do Outro quanto
como uma resposta própria do sujeito -pela operação de separação: ao estabelecimento da demanda, suposição de sujeito, alternância e
ou de se parar, parar-se, defender-se diante disto que 0 Outro encarnado alteridade.
14
lhe propõe. Mas, num momento inicial, tal movimento não tem
como se sustentar mais do que como uma resposta invertida à
A intervenção como estiramento da corda pulsional do bebê
dem_anda ~aterna, como podemos constatar nas primeiras
"O objeto da pulsão é aquilo em ou pelo qual a pulsão
marufestaçoes de oposicionismo e negativismo.
pode alcançar sua meta (a satisfação). O objeto é o mais variável na
E é justamente na articulação entre o estabelecimento dos pulsão: não está enlaçado originalmente a ela, senão que é a ela
circuitos pulsionais do bebê e o circuito de desejo e demanda do coordenado somente como uma conseqüência de sua aptidão
~utro que se efetua a intervenção desta clínica. Daí que tal para possibilitar a satisfação." 15
intervenção não se resolva pela via de que um psicanalista "escute" O prazer do funcionamento pulsional não consiste na suposta
os pais enquanto um terapeuta "exercita" o bebê. Pois esta clínica complementaridade que os objetos ofereceriam (em suas formas,
opera na articul_a:ão entre a fala parental, o que dessa fala se precipita cores ou características intrínsecas, que por si seriam "estimulantes"),
enquanto inscnçao, enquanto letra que toma o corpo do bebê. eles não são o fim, o alvo, da pulsão. Os objetos servem de
O corpo (do bebê), a fala (parental) e a letra como marca do argumento para o movimento de arco que a pulsão realiza em torno
significante na carne estão intrincados na clínica da estimulação
15
Sigmund Freud (1915), Las pulsiones y sus destinos, O.C, vol. XIV, Buenos
14
Ver Jacques Lacan (1964), Semi11mio 11, p. 221 e 222 (N. da A.). Aires, Amorrorru, p. 118.

144 145
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM A INTERVENÇÃO DO CLÍNICO

deles, como vazios intercambiáveis que são contornados em busca Em tal esquema fica representada graficamente a dialética do
de satisfação. arco percorrida pelo circuito pulsional, que parte da zona erógena e
A satisfação da pulsão não é absoluta, satisfação e insatisfação retorna a ela. Neste percurso da pulsão, a ida ocorre em busca de
fazem uma série contínua. (. ..) A satisfação como tal é impossível porque satisfação, e a volta sempre comporta um resto insatisfatório que
não se pode evitar que, ao irpelo caminho que ela marca, se torne insatisfatória, 16 retorna sobre a fonte, sobre a zona erógena. 17
já que não há complementaridade com o objeto. Ocorre que os diferentes circuitos pulsionais de um bebê
O circuito pulsional se descreve como um arco pois, como podem vir a inscrever-se como mais extensos ou mais encurtados.
aponta Freud, a meta da pulsão é a satisfação que só pode ser alcançada O estiramento desta corda pulsional pode ficar achatado sobre a
cancelando o estado de estimulação na fonte da pulsão. Assim a pulsão parte zona erógena ou pode armar um longo circuito a partir dela, e isto
da zona erógena (que é sua fonte, Quelle) e a ela retorna (para nela dependerá do modo em que tal pulsão se articule com o circuito
suprimir o estado de excitação), sem nunca conseguir uma satisfação de desejo e demanda do Outro.
completa. As demandas que o Outro introduza em relação ao bebê
podem ser mais propiciadoras do estiramento da corda pulsional -
dando lugar a diferentes produções do bebê - ou podem lançá-la
Circuito Pulsional a um achatamento sobre a zona erógena, condenando o bebê à
pobreza repetitiva da estereotipia - seja porque tal pulsão não estende
a busca da satisfação erótica ao enlaçamento com o Outro (autismo),
seja porque neste laço encontra-se sempre com a mesma leitura do
a Outro acerca do que produz a satisfação. Daí o risco de psicotização
em crianças que apresentam diagnósticos tais como síndromes ou
lesões, pois muitas vezes as suas produções passam a ser lidas a
partir da caracterização da doença, assumindo significações unívocas
que não deslizam.
O estiramento da corda da pulsão ocorre atrelado ao
deslizamento significante (pelo movimento metonímico que implica
o desejo). Tanto mais extenso será o arco percorrido pela pulsão
quanto mais extensa for a cadeia, a série significante produzida na
busca da satisfação.
Para um bebê, a série que produz o estiramento da corda da
Zona Erógena pulsão se inscreve a partir dos significantes que o Outro encarnado
introduz ao dirigir-lhe demandas e ao ler as suas produções supondo-
º como sujeito do desejo. Por isso, a intervenção do clínico no
marco da estimulação precoce aponta a produzir o enlaçamento
16
Alfredo Eidelsztein, obra citada, p. 171.
17
Jacques Lacan, (1964), Seminario 11, p. 185.

146 147
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM

do circuito pulsional do bebê ao Outro e, a partir daí, um estiramento


de seu circuito pulsional. Mas a série significante que será preciso
percorrer para que tal inscrição ocorra é única com cada bebê, não
há como saber dela a priori, será preciso, para tanto, tomar como
ponto de partida a rede significante parental. 18

t2fEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

Certa cena do filme "Frankenstein" 1 capta com rigor estético


o texto de Mary Shelley: a criatura ganha vida e, com a sua enorme
massa corpórea, tenta ficar em pé através de movimentos tão torpes
quanto os de um bebê.
Eni outra história levada ao cinema 2 , desta vez de vampiros,
aparece a personagem de uma menina fazendo uma típica cena de
birra infantil, cheia de reivindicações aos seus cuidadores. Mas revela-
se nesta queixa uma diferença. Por tratar-se de uma menina vampira,
por mais que o tempo passe, ficará para sempre aprisionada em
seu corpo de criança. A infância não se articula ali como condição
de passagem, com a esperança do vir a "ser grande" algum dia,
trata-se de um eterno presente.
Um monstruoso espetáculo é oferecido por estas criaturas
que se apresentam fora de qualquer legalidade: a produção de um
bebê no corpo de um adulto e uma menina aprisionada em um
eterno corpo de criança.
Poderíamos até regozijar-nos e afirmar: "São apenas estórias!"
Mas na ficção, assim como nos sonhos e atos falhos, revela-se algo
acerca da verdade psíquica. As crianças bem sabem disso e por isso

1
Versão dirigida por Kenneth Brannagh, 1995 (N. da A.).
18 2
Tais questões são retomadas a partir de um caso clínico no capítulo Pedro e o Trata-se do livro Entrevista com o vampiro, de autoria de Anne Rice, que se tornou
escorregador - o que desliza quando brincamos (N. da A.). um best-seller entre adolescentes (N. da A.).

148 149
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

pedem que fiquemos mais um pouquinho ou que deixemos a luz ara cada idade pela linha que traça a "curva normal". Tem-se assim
acesa depois que a estória termina. ~m "gráfico de crescimento" do bebê, desse crescime~to que .é
erfeitamente mensurável. Mas o fato de que tal grafico seia
Algo de sinistro emerge quando se rompe a harmonia
pusualmente denominado como " gra'fj1co d e d esenvo 1v 1'men t o "
vulgarmente considerada natural entre crescimento, maturação,
evidencia a confusão que em diversas práticas se produz acerca
desenvolvimento e constituição do sujeito. Rompe-se a ilusão de
que basta a passagem do tempo para que um infansvenha a constituir- desses diferentes conceitos.
se como sujeito ou realizar as diferentes aquisições instrumentais. O uso indiferenciado de tais conceitos poderia acaso sugerir
que crescimento, maturação e desenvolvimento se produziriam de
Crescimento, maturação e desenvolvimento modo semelhante? Que eles seriam um efeito do tempo sobre o
organismo?
Apesar de dizerem respeitD a diferentes aspectos da
constituição, o crescimento, a maturação e o desenvolvimento têm, Dargassies, renomada neurologista infantil, aponta que, apesar
em função de diversas intervenções com a infância, seus sentidos de recorrente confusão, tais conceitos são muito diferentes, pelo menos em
confundidos e superpostos, o que torna necessário fazer um seu aspecto estritamente neurológico. Situa tal diferença afirmando que.ª
esclarecimento conceitua!. dualidade de forças, idade e meio, é a mesma definirão de desenv~lv!m~nto, CU.Ja
organizaçàoflutuante se opõe ao determzmsmo estnto da ~1aturaçao. .Segundo
- O crescimento é mensurável e implica um aumento de
tal definição, as forças em jogo no desenvolvimento seriam pelo
tamanh_o, peso e volume do organismo.
menos duas: o tempo e o meio.
- A maturação diz respeito ao conjunto de transformações Partindo de um ponto de vista evolutivo, o desenvolvimento
sofridas pelo organismo em seu processo de aperfeiçoamento
da criança é considerado ~e modo linear, como a série de aquisições
do sistema nervoso central e das estruturas neuromusculares,
que se sucedem no tempo, bastando que a criança conte com ce~ta
levando-os progressivamente a éoordenações mais complexas e
idade (tempo cronológico) e as condições de ~atura?ªº
possibilitando o pleno exercício de suas funções.
correspondente para que, desde o encontro com o meio favora~el
. - O desenvolvimento, por sua vez, é o termo mais abrangente que a depara com necessidades, exercite diferentes esquemas e rea~ze
dos três, incluindo o crescimento e a maturação, mas não se reduzindo uma acumulação dos mesmos que levaria a uma melhor adaptaça?.
apenas a um caráter orgânico. Ele implica o processo das aquisições Deste modo, um bebê adquiriria balconeio, trípode, bipedestação,
instrumentais - psicomotoras, cognitivas e de linguagem - e está balbucio de valor lingüístico, uso do instrumento, entre tantas outras
articulado ao modo pelo qual um bebê ou criança se apropriará produções tomadas como pautas do desenvolvimento.
psíquicamente do funcionamento das diferentes funções orgânicas. 3
É neste ponto que retomamos o problema lançado pelas
Na pediatria é corrente a utilização de gráficos e tabelas para cenas iniciais de ficção. Nelas comparece a desarmonia que também
avaliar o aumento de peso, de estatura ou de perímetro encefálico se faz presente nos problemas do desenvolvimento: amb~s
de um bebê. Os dados obtidos no exame são lançados em um produzem um efeito de ruptura na normatizçzção cronológica, ou seja,
gráfico no qual podem ser comparados aos resultados esperados
·1 Dargassies (1974), Confronrontion Neurologique de deux concepts: Maturation
3
Lydia Coriat e Alfredo Jerusalinsky (1982), Desarrollo y Maduración, C11adernos et Développement, chez le jeune enfant. Rev. Neurops)'ch. lnj., nº 22, Pans. Citado
dei Desaro!lo Infantil, Buenos Aires, Centro Dra. Lydia Coriat. por Lydia Coriat no artigo an teriormente referido (N. da A.) .

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

nesta linha evolutiva imaginária que se tem acerca da relação entre ,- No entanto os recentes estudos de neurologia têm também
determinadas produções de um bebê (relativos à sua constituição demonstrado que as informações genéticas por si sós resultam
psíquica e aquisições instrumentais) e a "idade certa" em que se insuficientes para a codificação de todos os processos necessários
espera que as mesmas ocorram. Rompe-se a ilusão de que tais na construção das estruturas anátomo-fisiológicas. Por isso, ainda
produções seriam um mero efeito do exercício dos esquemas que o processo de maturação esteja estreitamente determinado pela
propiciados pela maturação X características fisicas do meio ao longo passagem do tempo (pela cronologia), para que este processo ocorra,
do tempo. também é necessário que o sistema neurológico receba o "alimento
Deste modo, elas nos dão a chave para perceber que as funcional" adequado à sua constituição. 5
operações implicadas na constituição psíquica de um bebê e suas . Os neurologistas falam-nos da existência de "janelas" na
diferentes aquisições instrumentais mantêm com a cronologia uma maturação neurológica, ou seja, da existência de momentos
relação que não é de causa e efeito, mas de contingência. Ou seja, o cronológicos da vida (idades) nos quais o organismo estaria mais
tempo da vida inevitavelmente passa para todos, mas tais operações receptivo à inscrição de determinado tipo de informação ou
podem ou não vir a acontecer nesse tempo, ainda que o bebê tenha "alimento funcional" . O "alimento funcional" em questão torna-se
todas as condições maturacionais propícias para isso. necessário para possibilitar a maturação neurológica que está em
Afirmar que o desenvolvimento de um bebê não está causado curso, portanto deixar de recebê-lo em certo momento cronológico
pela passagem do tempo em si não é o mesfllo que dizer que a produz efeitos danosos na constituição do sistema nervoso, pois
passagem do tempo seja indiferente, mas sim que tal passagem resulta não chegam a estabelecer-se, quanto ao funcionamento, certas
absolutamente insuficiente para dar conta de tal advento. Por isso, é estruturas para as quais havia prévio potencial.
matéria do nosso interesse delimitar quais os efeitos da cronologia A neurologia tem demonstrado que a capacidade de
para as aquisições instrumentais e a constituição psíquica de um bebê. compensação pela plasticidade neuronal vai mudando, sendo muito
maior nos primeiros meses e anos de vida. Por isso, não é o mesmo
Limites impostos pela passagem do tempo cronológico ao tentar aprender uma língua com vinte anos ou no tempo de criança,
desenvolvimento
já que, depois de uma certa idade, nossos órgãos fonoarticulatórios
e nossa recepção auditiva estão moldados às marcas recebidas na
.A maturação do organismo é um processo estreitamente
infância e torna-se bastante mais complicado produzir e discriminar
vinculado à passagem do tempo cronológico. Daí que, desde os
sons que não fazem parte de nossa língua materna.
estudos da embriologia, seja possível estabelecer que entre os 15 e
17 dias de idade gestacional (IG) observa-se no embrião humano a Também sabemos que há um tempo para a constituição da
formação da placa neural; que entre 19 e 21 dias de IG se dá início estrutura psíquica - da primeira infância à adolescência. Depois desse
à formação do tubo neural; ou que entre os 35 e 38 dias de IG tempo, ainda que continuem a ocorrer inscrições que venham a
ocorre a diverticulização do prosencéfalo que permite a aparição ressignificar as anteriores, a estrutura psíquica terá seu arcabouço
do telencéfalo e do diencéfalo. Não iremos nos deter especificamente fundamental decidido.
neste processo, mas as informações trazidas já permitem situar o
Apesar de tais conhecimentos, ainda hoje em dia é freqüente
quanto o aperfeiçoamento funcional do processo de maturação
que, diante de um sintoma que está a fazer obstáculo à constituição
ocorre em idades geneticamente determinadas.
5
Ver a este respeito o capítulo Impasses do "estímulo" na clínica com bebês (N. da A.).
152 153
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

psíquica e desenvolvimento de um bebê, se adote a postura de desenvolva - assim como com um bebê -, para além dos tempos
"deL""<ar o tempo passar", contando com a falsa premissa de que a cronológicos estipulados e o equipamento necessário, é preciso que
passagem do tempo solucionaria o problema. Ocorre que o tempo se jogue. Será preciso que, a partir do Outro, fique em jogo um
apenas passa, e em tal passagem modifica as condições de maturação desejo não anônimo em relação ao bebê.
do bebê, mas não efetua por si só as inscrições necessárias à sua Quando se comenta um jogo, o que importa não é comentar
constituição como sujeito e ao funcionamento das diferentes funções. o que aconteceu a cada minuto, não é à pura passagem do tempo
A passagem do tempo, o tempo em seu registro real, como do relógio que nós nos referimos, aquilo de que se fala é da sucessão
magnitude física que transcorre unidirecionalmente e sem retorno, de jogadas, ainda que, para ter valor, elas tenham que ocorrer dentro
está implicada nesta clínica. Que uma determinada produção possa do tempo cronológico legal - fora dele, o gol pode até acontecer,
mas não vale mais, não conta mais como ponto.
ocorrer depende do enlaçamento entre uma temporalidade simbólica
de inscrições e uma temporalidade imaginá1ia que propicie antecipações, De modo análogo, constatamos que o processo de maturação
com uma condição orgânica que seja permeável aos efeitos de ambas neuroanatômica estabelece limites nos tempos cronológicos para
- e tal condição não se dá em qualquer momento da vida, mas em que se produza o funcionamento de determinadas funções. Por
um tempo cronológico específico. isso, o registro real do tempo precisa ser considerado na clínica
com bebês. Mas dizer que o processo de maturação neuroanatômica
Dado que a passagem do tempo impõe um limite à
produz um limite não é o mesmo que dizer que ele é a causa de
permeabilidade que o organismo oferece às inscrições de marcas
uma produção. Ter as condições neuroanatômicas e a "idade certa"
fundamentais para a constituição, há que se considerar o caráter de
não produz, por si só, o advento de uma realização do bebê.
urgência da intervenção quando um bebê ou criança pequena
apresentam um sintoma clínico. Prova disso é o fato de recebermos diversos bebês e pequenas
crianças que, ainda sendo organicamente hígidos, apresentam
O que a passagem do tempo cronológico não resolve quanto problemas em seu desenvolvimento, não produzindo as diferentes
ao desenvolvimento aquisições esperadas para sua idade.
Isto implica considerar o desenvolvimento em outra dimensão
Para pensar a implicação do tempo no desenvolvimento de
que a de um processo evolutivo autônomo que supõe que, à medida
um bebê poderíamos tomar como analogia os tempos de jogo de
em que os esquemas preestabelecidos desde o neuro - anatômico
um esporte. A maturação neuroanatômica e sua estreita relação com
são exercitados ao longo do tempo, postos em prática no encontro
as idades da vida seria o que estabelece legalmente os tempos para
com as características físicas do meio, produzem processos contínuos
que o jogo aconteça - como é o caso dos rounds, ou o primeiro e o de adaptação.
segundo tempo do futebol -, mas não é a simples passagem dos
tempos do jogo (como tampouco é a conclusão do processo de · O que fica suprimido no esquema evolutivo, assim como
maturação) nem a simples presença de jogadores em campo, com nos gráficos que estabelecem uma linha de desenvolvimento pelo
suas luvas, raquetes ou bolas (pensemos aqui em todo o suporte simples cruzamento entre idade e meio, é algo que está intimamente
neuro-anatômico da função) que marca o gol ou ponto. Se nesses intrincado com o advento da produção de um bebê: trata-se do
tempos previamente estabelecidos não se fazem jogadas, não há circuito de desejo e demanda do Outro no qual um bebê é tomado.
nada para contar sobre o jogo, porque, para que um jogo se De bebê para bebê, de criança para criança e até mesmo de
cultura para cultura, encontramos certa variabilidade cronológica
154 155
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

em relação à aquisição dos diferentes marcos do desenvolvimento. organismo do bebê em torno dos quais se gera uma atividade que
Isto demostra o quanto a temporalidade implicada nas aquisições exige cuidados. Portanto tais buracos orgânicos podem vir a se
instrumentais de um bebê não é um simples efeito da cronologia estabelecer como zonas privilegiadas, zonas erógenas, no laço com a
imposta pela maturação, mas também do circuito de desejo e mãe. Que venham ou não a sê-lo depende das marcas que a mãe ali
demanda no qual um bebê está sustentado. Evidentemente uma produzir.
demanda social e cultural não opera sozinha. Não é porque em
determinada cultura se tome como marco que os "bebês caminham r- É a partir das sanções simbólicas do agente materno que se

com um ano" que todos os bebês caminharão com essa idade. imprimem os ritmos de funcionamento de funções orgânicas de
Aqui entra fundamentalmente em jogo o modo em que, desde o um bebê. É por meio da alternância entre fome-saciedade, sono-
exercício da maternidade e paternidade, esta demanda social vigília, repouso-atividade, que o funcionamento pulsional do bebê
anônima fica implicada no desejo não anônimo que toma o bebê, e se organiza de acordo com a letra impressa em seu corpo pelo
de como em tal circuito articula-se a temporalidade real, imaginária gozo e desejo materno.
e simbólica na constituição do bebê. Pelo desejo parental, um bebê Há assim, no início da constituição do bebê, este primeiro
pode ser inscrito ou lançado fora da legalidade da cultura. momento lógico da incorporação simbólica. O corpo do bebê se
constitui como um receptáculo tempora~ na medida em que, ao ser em si
Organismo e marcas simbólicas
mesmo o campo destes ritmos próprios, torna-se capaz de recebê-los do exterior.
Somente haverá competências na medida em que existir uma estrutura supondo
O modo como um bebê é situado pelo Outro imprime
particularidades no funcionamento de suas diferentes funções uma temporalidade ritmada das funções e seus júncz'onamentos. ( ..) Esta
orgânicas. ritmicidade dos oijetos oferecidos e recusados aparece como homotética em relação
aos ritmos biológicos próprios da criança. 7
Desde muito cedo podemos colher os efeitos que o encontro
do organismo com as marcas simbólicas produzidas pelo Outro Parcialidade da pulsão e sujeito do inconsciente
encarnado têm na vida de um bebê. Por isso, há bebês que se
constituem como mais famintos ou mais inapetentes, mais ' Se o sujeito do inconsciente vai se produzir no bebê pela
dorminhocos ou mais agitados, mais sonoros ou mais calados, mais inscrição de um conjunto significante cada vez mais complexo, que
movediços ou mais contemplativos. t~ situar o ~P.j~ t9 __9a satisfação como perdi_q9 -º- lançarLª_l!!P. •.
exercício .~.s:j,ante1 a pulsão vai ser o modo parcial pelo qual esse
É neste laço com o Outro, com sua cadeia significante, que
exercício desejante vai se colocar em movimento em cada zona
as funções do organismo poderão vir a se inscrever como
erógena corporal. 8
funcionamento erógeno dos diferentes circuitos pulsionais.
7
A pulsão desempenha seu papel no fúncionamento inconsciente devido a Jean Berges, (1988), O Corpo e o Olhar do Outro, Escn'tos da Criança, nº 2,
segunda edição, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat, p. 54.
que algo no aparelho do corpo está estruturado da mesma maneira 6 que na
8
linguagem. O organismo e a linguagem têm esta estrutura intervalar, O objeto da pulsão deve situar-se no plano do q11e chamei metaforicamente de St1bjetivação
acéfala (. ..). A outra face é a que faz do sttjeito, devido a suas relações com o significante, 11m
estas estrutura de hiâncias. A boca, o ânus, o ouvido, o olho e a borda sujeito esburacado. Estes buracos hão de provir de alg11ma parte. (. ..) O sttjeito é um aparelho,
palpebral, a fossa nasal, a uretra etc. são diferentes buracos do e esse aparelho tem lacunas e nessas lacunas o sujeito instaura a função de um ce1to objeto como
6
perdido. É o status do "objeto a" entanto está presente na pulsão.( .. ) O sujeito se mantém como
Jacques Lacan (1964), Los c11at,.o conceptos fimdamentales dei psicoanálisis, Se111inario
sujeito desejante por uma relação com t11J1 conjunto sig11ifica11te muito mais complexo. Jacques
11, Buenos Aires Paidós, p. 188.
Lacan (1964), Seminario 11, Buenos Aires, Paidós, p. 191 / 192 (N. da A.).
156 15 7
TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO
ENQUANTO O FUT URO NÃO VEM

"A palavra da mãe para seu filho é aquilo que transborda o


, Essa parcialidade do movimento pulsional se inscreve sobre
funcionamento da função; ela é aquilo que o carrega de libido, de
as diferentes funções do organismo, esses representantes específicos
gozo, aquilo que o erotiza. Se a pulsão não é um mito, é a esta
que, ao funcionarem, se organizarão como os diferentes sistemas palavra que a origina que ela o deve: é ela que erogeiniza as zonas,
instrumentais: o motot~ operceptivo, ofonató1io, os hábitos ou a adaptação. 9 que acaricia com suas modulações, suas amplitudes, e que a
literalidade significante vem inscrever." 14
"O Outro é o lugar no qual se situa a cadeia do significante
que rege tudo aquilo que, do sujeito, poderá se fazer presente, é o
Mas o que acontece se a marca do Outro não produz esta
campo desse ser vivente onde o sujeito tem que aparecer. E tenho
erogeinizaçâo da função?
dito que pelo lado desse ser vivente chamado à subjetividade
manifesta-se essencialmente a pulsão."'º Quando a marca que um bebê recebe não transborda o
funcionamento da função, se não a erogeiniza, a produção
Assim, a criança bebe as palavras da mãe tanto quanto o seu leite 11 e instrumental pode até se dar, até pode ocorrer o funcionamento da
é neste movimento que se produz uma inscrição desde a qual o função, mas é um funcionamento que exclui a extensão simbólica
órgão da pulsão se situa em relação ao verdadeiro órgão 12 . É por essa que o objeto pode vir a ter como representante do laço desejante
passagem pelo campo do Outro que os buracos do organismo com o Outr5:1 Por isso uma pequena criança autista pode sentar-se,
podem vir a funcionar como diferentes zonas erógenas, na medida andar ou correr, enfim, apresentar diferentes aquisições instrumentais,
em que às hiâncias, aos intervalos do orgânico, ~ e superpõem os mas o modo como tal instrumental se coloca na exploração do
intervalos da cadeia significante do Outro, de modo análogo ao meio e no encontro com outros leva a marca de como ela está
que ocorre com um vulcão e seus sucessivos brotes de lava que dele psíquicamente constituída - leva a marca de uma demanda de ex clusão 15 .
saem transbordando e, ao mesmo tempo, duplicando sua estrutura Como desde o Outro encarnado não se constituiu alternância erógena
- o vulcão é ali o buraco do organismo (o verdadeiro órgão) e a entre presença e ausência, na produção do bebê ou pequena criança
lava o ba~ho de linguagem que, ao bordejá-lo, faz dele uma zona vamos constatar que o som emitido, o olhar, o pegar ou o correr
erógena e produz seu movimento pulsional. tampouco vão se situar como jogos de alternância, de aqui-lá, de
· Assim, na medida em que o bebê é tomado pela mãe como estar-não estar, de responder-chamar, de pegar-fugir, mas numa
objeto de desejo, ela produz nos cuidados que dirige a este um repetição que permanentemente repete a exclusão dos outros de
transbordamento no funcionamento de suas diferentes fimções 13 , pois o objeto seu circuito.
que se inscreve desde estes cuidados erógenos já não é mais
puramente o objeto da função - por exemplo, função alimentar do Da parcialidade pulsional à antecipação de uma imagem do
leite -, mas um objeto de libido, gozo ou erotismo, pela dimensão corpo
significante que este adquire enquanto representante no laço com o
.. A incorporação simbólica permitirá um segundo momento
Outro.
fundamental na constituição do suje:ito: trata-se do estádio do
9
Alfredo Jerusalinsky (1988), Psicanálise e Desenvolvimento Infantil, p. 21. espelho, pelo qual o bebê assume um E u ao identificar-se à imagem
'º Jacques Lacan (1964), Seminario 11, p. 212.
14
11
Berges e Balbó (1997), obra citada, p. 186. Idem, p. 187.
15
12 Alfredo Jerusalinsky (1993), La ínfancia de lo real, La clínica de/Autismo, Buenos
Jacques Lacan (1964), Seminario 11, p. 204.
13
Berges e Ba:lbó (1997). obra citada, p. 186. .Aires, Kliné.

158 159
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

que o Outro lhe oferece para reconhecer-se. É o Outro que diz tempo em que o bebê é sustentado, em seu equilibrio e bipedestação,
"esse é você" diante da imagem que o bebê contempla no espelho. há também uma demanda que o convoca a ir além. O pai chama 0
O olhar e a palavra do Outro antecipam para o bebê uma imagem bebê, estende os braços em sua direção. E nesta distância real que
unificada do corpo, em um tempo em que, desde as condições de lhe propõe percorrer se coloca em cena o intervalo simbólico entre
maturação, um bebê ainda não tem um efetivo donúnio instrumental. o que o bebê é e o que deveria se tornar.
Introduz-se por meio de tal antecipação imaginária uma tensão entre
Mas não basta tal sustentação e expectativa do Outro para a
o que o bebê é e o que ele deveria tornar-se.
realização da cena. É a produção do bebê que terá que advir aí
Como vemos, neste segundo momento, trata-se para o bebê como uma precipitação, é o bebê que terá que lançar-se neste espaço
de entrar na dimensão de ter (imaginariamente) um corpo e ter para dar seus primeiros passos, sustentado pela certeza antecipada
domínio voluntário dos diferentes aspectos instrumentais a partir do Outro. É este Outro encarnado que implica seu desejo, que aposta
das funções do Eu. na capacidade do bebê de efetuar uma nova realização, e o bebê se
lança a fazê-la sustentado em tal aposta.
. A antecipação imaginária de um corpo, de um Eu do bebê, dá
lugar à antecipação júncional pela qual os pais, ao antecipar realizações Temos aí a antecipação simbólica, a antecipação imaginária e
instrumentais do bebê, introduzem ofertas e demandas propiciadoras a antecipação funcional do Outro e, do lado do bebê, esta produção
de tais realizações. Assim, por exemplo, ao tomar o balbucio do que só poderá advir como precipitação.
bebê como palavra, produz-se uma antecipação lingüística, ou ao
· O agente materno sustenta o funcionamento da função do
ofertar uma nova postura ao bebê produz-se uma antecipação
bebê: bate as costas para que libere o ar que engoliu na mamada ou
psicomotora.
segura seu corpo para que mantenha e experimente o equilíbrio que
Da antecipação do Outro encarnado à precipitação de uma ainda lhe é impossível sustentar sozinho, por isso ela é uma verdadeira
realização do bebê função vican·ante das júnções da criança. Mas sobretudo, ao ocupar esse lugar
que permite que ofilho sobreviva, ela deve se deixar transbordarpelofuncionamento
No quadro de Van Gogh titulado Pn.meiros passos, vemos que ele produ:zi a partir das funções que ela relança. 16
retratada uma cena típica do início da deambulação. O bebê está . A função rnaterna não é feita apenas de sustentar a função
sendo sustentado em pé pela mãe, que o segura por trás, enquanto do bebê, é preciso também que ela lhe ofereça este espaço no qual
o pai, agachado há poucos passos de distância, tem os braços o bebê terá que se precipitar, se lançar e se implicar como sujeito
estendidos em direção ao bebê. O bebê está implicado no gesto em uma realização.
que o convoca, seus braços e o seu olhar se dirigem ao pai, enquanto
seu corpo ainda cambaleante não prescinde da sustentação materna. · A função materna não só sustenta o bebê e sua função, ela
também o pulsionaliza, produz um estiramento da sua corda pulsional,
Tal cena retrata, recorta, congela o momento de espera, de pois quando o bebê se implica nesta demanda do Outro, quando
expectativa no qual o Outro encarnado antecipa o bebê num lugar procura enlaçar este objeto do desejo do Outro, seu circuito
que ele ainda não ocupa, antecipa para ele uma imagem de caminhante pulsional se espicha, estende a sua cadeia significante na busca pela
que ainda não corresponde à sua realização instrumental. satisfação.
A demanda de que o bebê seja caminhante se coloca em
16
cena pela antecipação funcional. Em tal antecipação funcional, ao mesmo Berges e Balbó (1997), obra citada, p. 14.

160 161
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

, Por isso, quando o bebê se lança em seus primeiros passos, funcionará, mas no registro de responder ou não responder à
se lança em uma realização, o efeito para a mãe é de surpresa. Ela demanda do Outro. O Outro encarnado permanecerá numa
situou a demanda, a antecipação imaginária, e a oferta de uma posição de quem tudo sabe e tudo tem, não se deixando
antecipaçio funcional. Mas ela se deixou transbordar, deixou espaço transbordar, não se deixando surpreender. E o filho ficará condenado
para a alteridade, deixou espaço para que o bebê pudesse vir a a uma posição de objeto do gozo materno sem que se dê lugar a
responder como sujeito com sua realização. que ele possa advir como sujeito do desejo.

Se no primeiro momento - o da incorporação simbólica - a r Por isso, nas psicoses infantis percebemos que as diferentes

mãe é inscrição de presença-ausência nos ritmos que imprime nos produções instrumentais podem até comparecer, mas o que fracassa
cuidados do bebê, no segundo momento a mãe passa a ser a em sua posta em cena é a possibilidade de sustentar a fala, a produção
detentora do ol?Jeto de dom 17 , do objeto que representa o amor da psicomotora ou a construção cognitiva num laço de alteridade com
mãe. É então que ser ou não ser amamentado, ganhar ou não ganhar os outros.
colo, fazer ou não fazer cocô, comer ou não comer a papinha etc.,
Função paterna e constituição na infância
passam a ser, para o bebê, homólogos a ser ou não ser o objet~ ~e
amor da mãe.,b.ssim o bebê fica situado face ao Outro numa pos1çao
Mariana, uma pequena paciente sem nenhum
injàntil proptiamente dita, de se colocar como o!jeto de amor dp outro.. E n~~
comprometimento neuro-anatômico, é encaminhada a tratamento
qualquer outro, mas um outro sem falhas, poderoso, provedor e zncondzczonal.
pelo pediatra porque ainda usa fraldas com três anos.
Mas uma mãe não pode ficar instalada como pura detentora
Nas primeiras entrevistas 20 é possível vislumbrar que este não
e pr~vedora dos objetos de dom para o filho. Assm: como uma é o único problema quanto às suas produções. Mariana pega um
mãe transborda o funcionamento da função, erogene1zando-o, ela
objeto atrás do outro, mas não monta nenhuma cena com eles ela
também interdita tal funcionamento· situando uma borda, uma não brinca. Sua fala se reduz a umas poucas frases que se repe~em
interdição simbólica que venha a limitar os excessos de transbordamento
de modo estereotipado, sem constituir uma matriz dialógica com
funciona~ afim de que afunção não sefa dela dissociada.
19
os outros.
Mas o que acontece se a mãe sustenta o funcionamento da A mãe de Mariana, perto da data de seu nascimento, perdeu
funçio mas não sustenta a alteridade? a própria mãe e entrou em depressão. A partir da morte da avó de
, Se a mãe não sustenta uma in terdição simbólica no Mariana, quem passou a deter a autoridade familiar foram a irmã
funcionamento das funções do bebê, se não atrela suas demandas e materna e o cunhado materno. Tal cunhado - que era bastante mais
ofertas à lei paterna, não abre lugar à operação de alterização q~e velho - havia abusado sexualmente da mãe de Mariana quando ela
também é fundamental para a constituição do sujeito. Então a funçao ainda era menina, e agora era ele quem se encarregava de uma série
de cuidados de Mariana, permanentemente desautorizando o pai e
a tnãe.21
" Jacques Lacan (1956-1957), As relações de objeto, Seminário 4, tradução para
· · p di d p - APPOA 1992·
º
português a partir da versão da Assoc1at1on reu enne e ans, • iu Tal atendimento foi levado a cabo no Servício de Estimulación Temprana dei Hospital
. . ºd d . ul t t utilizado na Diwand em Buenos Aires (N. da A.).
1s Domingos Infante, A formação da sub;etivt a e na criança, a as e ex o Jínicas,
i1AI,
formação de trabalhos com pediatras no Instituto da Criança, Hospital das C , em das sessões que Mariana e que seus país tiveram comigo, a situação de padecimento
Pstquico da mãe fez necessária a abertura de um espaço de escuta para ela, que foi
São Paulo.
conduzido pela psicanalista integrante da equipe Mirra Kuperman (N. da A).
19 Bergês e Balbó (1997), obra citada, p. 187 ·

163
162
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

Em certo momento do tratamento, Mariana começa a dar . O enlaçamento entre as condições reais de maturação, as
claras mostras da sua possibilidade instrumental e psíquica de antecipações imaginárias e a incidência de sanções simbólicas é
responder ao processo de retirada das fraldas. E la percebe 0 constituinte não só da produção instrumental que um bebê possa
momento em que está ocorrendo a expulsão de urina e de fezes e vir a efetuar, mas da posição em que o bebê e sua produção ficarão
consegue reter voluntariamente tal expulsão por alguns minutos, situados face ao Outro.
isola-se para defecar e fica incomodada assim que está com as fraldas
Há determinas aquisições que se inscrevem como atos
sujas, solicitando ser trocada. Começa também a ter interesse por
simbólicos, ou seja, armam um antes e um depois na vida de um
investigar como isto se dá com os outros, pedindo para entrar quando
bebê ou pequena criança - situando, inclusive, diferentes tempos
tem alguém no banheiro. Ainda assim a mãe não fala em retirar as
simbólicos de inscrição e reconhecimento dos pais em relação ao
fraldas.
filho. Assim foi em relação ao penico na vida de Mariana e também
A partir de tais manifestações da menina, o assunto é tratado quanto à possibilidade de os pais se autorizarem quanto ao exercício
com a mãe e pergunto o que ela planejou neste sentido. E la diz: de suas funções.
- O tio disse que lhe compraria um penico, mas no fim ele não comprou Ao longo do tratamento, o pai começou a impedir as
e o tempo foipassando. intromissões do tio na criação de Mariana. Ela, por sua vez, efetuou
.. seu controle esficteriano, começou a brincar, a se enunciar como
- E até quando vamos ficar esperando pelo tio? - interrogo.
"Eu" e a sustentar diálogos.
Para esses pais, o simples fato de poder comprar um penico
para sua filha implica a possibilidade de exercer a função paterna, Em certa sessão, em que o pai está a falar das novas aquisições
de endereçar uma demanda de controle esfincteriano à filha que a da filha, mas também das diferenças que percebia nela em relação a
remeta à legalidade da cultura, em lugar de deixá-la situada como outras crianças, afirma: "Ela, por exemplo, não diz o que gostaria de sei;
objeto da perversão do tio. não }ala dela, não fala de quem é".

Então, ao que se aponta na intervenção, quando se interroga Nesse momento, Mariana, que estava brincando, olha o pai,
até quando vai se esperar pelo tio, não é simplesmente a que Mariana me olha e diz cheia de certeza:
venha a cumprir certos marcos pela simples adequação de sua -Menina!
imagem à nonnati.vização cronológica do desenvolvimento que opera na cultura,
mas de que ela possa ser inscrita, pela função paterna, na legalidade, - É isso mesmo, você é uma menina - lhe digo, enquanto o pai
operando o corte da posição incestuosa em que, pela via do tio, sorri orgulhoso e surpreso.
fica situada. Mariana já não era mais um bebê, mas uma menininha capaz
Que os pais possam pôr a circular uma demanda relativa ao de tomar a palavra.
controle esfincteriano de Mariana, e que possam autorizar-se a
transmitir-lhe este valor da cultura, implica, ao mesmo tempo, retirá- Sobre os diferentes momentos lógicos implicados na
la subjetivamente da posição de objeto de gozo incestuoso. constituição do sujeito

Tal recorte clínico permite pensar o quanto em cada aquisição I Para que um bebê se constitua como sujeito é preciso que o
instrumental de um bebê ou pequena criança está implicada a posição agente materno sustente as operações de estabelecimento da demanda,
na qual fica tomado pelo Outro encarnado.

164 165
ENQUANTO O FUT URO NÃO VEM TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

a suposição do St!)Úto, a alternância e a alteridade22 • Mas também é preciso Desenvolvimento como linha imaginária reconstituída a
um tempo - uma diacronia - para que os efeitos destas operações posteriori
se precipitem como sucessivas inscrições para o bebê. Porque a
constituição do bebê como sujeito não ocorre de uma só vez, é As aquisições instrumentais - de hábitos, comunicação,
preciso que nele se inscrevam os diferentes momentos lógicos de sua aprendizagem e psicomotricidade - que são tomadas como marcos
constituição pela incorporação simbólica, pela posição itifant;ilpropriamente do desenvolvimento seguem determinados passos que se
dita e pelo complFxo de Édipo.23 caracterizam por uma crescente complexização, na qual cada estágio
é necessário para constituir a seguinte. Tal ordem não pode ser
. Assim, a constituição do bebê como sujeito está atrelada a
uma temporalidade simbólica que produz efeitos de retroação e alterada, suprimida ou apressada.
antecipação no estabelecimento da significação psíquica dos eventos. O conhecimento sobre a legalidade implicada no processo
Não é o mesmo um bebê que está no momento de incorporação de aquisições instrumentais torna-se imprescindível para sustentar
do simbólico, no estádio do espelho ou uma criança que se encontra na cena clínica demandas e ofertas que sejam constituintes para o
atravessando o complexo de Édipo. Cada um destes momentos b<:bê. 1Ao provocar facilitações ou introduzir conflitos cognitivos,
da constituição psíquica são estabelecidos por novas inscrições lingüísticos ou psicomotores que levam em consideração as
simbólicas que ressignificam as inscrições ocorridas no momento condições instrumentais do pequeno paciente, criam-se condições
anterior e têm conseqüências também para o que está por se inscrever. propícias para que um bebê possa apropriar-se de novas estratégias
e construir esquemas mais complexos. Caso contrário, as intervenções
Que certas inscrições simbólicas, que certas operações
podem resultar totalmente inócuas, por ficarem muito aquém ou
constituintes do sujeito se produzam antes e outras depois segue
um ordenamento lógico, ill;ªS o seu advento não está amarrado a muito além das efetivas condições de produção de um bebê;
uma cronologia e tampouco é causado pelo processo de maturação. - Mas tais aquisições instrumentais não ocorrem de forma
Deste modo, as inscrições simbólicas não só permitem armar automática, numa sucessão de etapas desencadeadas pelo simples
a série da vida, mas também operam os cortes que situam os encontro _do organismo com o meio. Elas estão limitadas pelos
diferentes mo1.JJentos lógicos na posição psíquica do sujeito face ao Outro. tempos cronológicos que a maturação impõe e também mantém uma
inter-relação com os tempos simbólicos da constituição psíquica do bebê
Considerar a importância que o tempo cronológico cumpre face ao Outro.
na interv~nção com a infância não é o mesmo que sustentar uma
noção evolutiva, como se o mero transcurso do tempo possibilitasse • É por um efeito de inscrição simbólica que enlaça o real do
ao bebê advir como sujeito e aceder às diferentes aquisições organismo que se organiza o corpo de um bebê. A este respeito
instrumentais. Mas sim é preciso considerar que tal temporalidade Lacan aponta:
simbólica da constituição do sujeito só poderá produzir seus efeitos
· ''A passagem da pulsão oral à pulsão anal não é o produto
de inscrição no bebê se incidir no tempo cronológico (tempo rea~ no qual
de um processo de maturação, é o produto da intervenção de algo
o organismo se caracteriza pela permeabilidade a tais inscrições. que não pertence ao campo da pulsão - a intervenção, a inversão
22
da demanda do Outro."24
As quatro operações fundamentais exercidas pelo agente materno (N. da A.).
24 Jacques Lacan (1964), Seminario 11, p. 187. Esta citação é retomada a partir de
23
Três momentos da constituição apontados por Sauret (1997), O infantil e a um caso clínico no capítulo Pedro e o escorregador - o que desliza quando bnncamos, no
estrutura, São Paulo, Escola Brasileira de Psicanálise (N. da A.). ponto "A mudança na primazia da zona erógena" (N. da A.) .
166 167
r ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

O circuito pulsional do bebê se constitui pelo rirão da demanda


palavra nunca antes dita e isto é reconhecido pelos pais -, produz-
do Outro 25 , e é a partir dele que o orgânico - considerando aí os
se um ato, um marco que estabelece um antes e um depois na vida
limites impostos pela maturação - sofre como efeito a mutação da
de um bebê ou criança. É por uma precipitação e não por uma
pulsão. Tais mutações da pulsão, quando realizam os ideais situados
solução de continuidade que advém cada realização. E, se bem 0
na cultura em relação aos marcos de desenvolvimento, podem vir a
que estava antes - desde a sustentação simbólica e imaginária do
ser lidas como aquisições. Outro e desde as condições reais de maturação orgânica do bebê _
O desenlace do que virá a ser lido a posteriori como foi condição necessária para que tal realização pudesse ocorrer, no
desenvolvimento do bebê se produz ao longo de certo tempo, entanto, o bebê ou criança tiveram que se precipitar, se implicar
pois a passagem do tempo cronológico é necessária para que aquilo como sujeito do acontecimento. 27
que fica antecipado pelo Outro e posto em ato nas demandas possa
. As diferentes produções de um bebê decantam como uma
chegar a inscrever-se no funcionamento pulsional do bebê.
precipitação, uma precipitação em que o sujeito se implica em fisgar
Neste ponto é possível pensar o desenvolvimento como a o desejo do Outro. O agente materno produz uma antecipação
ação de "desenvolver, desenrolar, desfazer o rolo". O rolo de lã imaginária e a traduz em ofertas que situam uma antecipação
jogaria o papel do constitutivo, aquilo com o qual o bebê nasce - funcional para o bebê. Mas também é preciso que, num segundo
minimamente sua determinação genética, seu aparelho neuro- tempo, o bebê se lance na produção, solte a mão da cadeira e dê
anatômico e a plasticidade neuronal e sua deficiência instintiva que o seus primeiros passos sozinho, num movimento de ce1teza antecipada
situa o co1po como um receptácu/o 26 às inscrições do Outro. Mas o que quanto à possibilidade de produzir tal realização. 28
imprime o movimento pulsional do bebê, o que imprime o
Percebemos aí a imp ortância de que uma mãe possa apostar
desenrolar de uma produção, é o circuito de demanda e desejo do
e também surpreender-se, que ela possa não saber tudo para que o
Outro.
filho possa constituir-se como sujeito desejante. Quando ocorre
O circuito de desejo e demanda do Outro produz repuxos, um ato falho, um lapso, um esquecimento, enfim, quando ocorrem
estirões na corda pulsional do bebê, e o que decanta destes sucessivos as mais diversas formações do inconsciente, o efeito produzido é o
estirões são as produções que, a posteri01i, poderão ser lidas como de surpresa diante do comparecimento do sujeito do desejo, que
uma linha imaginária de desenvolvimento. fica aquém ou além da intenção. Por isso, que uma mãe se surpreenda
com a realização do filho evidencia que ele foi além do que era
A questão é que somente depois poderemos estabelecer, em
pedido, do que era demandado, comparecendo como sujeito.
relação a cada bebê, uma continuidade imaginária entre cada
produção e as que a antecederam ou virão depois dela. Somente Consideramos bastante interessante ler desde tal perspectiva
depois poderemos ligar os diferentes pontos numa linha, as diferentes a seguinte fala de Lacan:
produções numa seqüência de desenvolvimento como se fosse efeito
de um contínuo progresso. No entanto, quando ocorre uma
realização - quando por exemplo, um bebê deixa escapar uma
27
Esta questão é retomada a partir de um caso clínico no capítulo Pedro e o
25
escorregador- o que desliza quando brincamos, no ponto ''A realização instrumental
A pulsão é escriturada por Lacan como: 30D. Respectivamente: Sujeito barrado,
como precipitação do sujeito e como ato simbólico" (N. da A.) .
punção e demanda (N. da A.). 28
26
Jacques Lacan (1945), El tiempo lógico y el aserto de certidumbre anticipada, un
Jean Berges (1988), O corpo e o olhar do Outro, obra citada. nuevo sofisma, Esctitos 1, Buenos Aires, Siglo Veintiuno.
168
169
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

"Uma coisa aparece como intencional, certamente, mas O Outro repuxa, provoca pela operação da demanda
com uma estranha temporalidade. O que se produz nesta hiância, sucessivos tirões na corda da pulsão. É por efeito deste tirão que se
no sentido pleno do termo produzir-se, apresenta-se como um produz um bebê onde antes havia puro organismo, este tirão que
achado. Achado que é simultaneamente solução (...) que é surpresa, produz sucessivos enlaces da pulsão à demanda e que sempre deixa
aquilo que transborda o sujeito, aquilo pelo que encontra, par a
como resto não articulado o desejo.
par, mais e menos do que esperava: em todo caso, a respeito do
que esperava, o que encontra é inestimável."29 >Por isso, o trabalho clínico com bebês implica a produção
do estiramento da corda pulsional do bebê, que permita despregá-
Ou seja, ao mesmo tempo em que a mãe espera uma la de uma pura dimensão de achatamento, e que, pela extensão da
produção do bebê, que produz antecipação, quando tal produção cadeia significante sustentada inicialmente pelo Outro encarnado, a
se precipita no filho, adquire um valor inestimável que a toma de pulsão do bebê possa também se estender, dando lugar a um
31
surpresa e que não está em uma equivalência com seu saber. i_Para exercício desejante onde antes não havia de fato um.
tanto é preciso que ela não saiba tudo, que possa dar lugar à alteridade,
à inscrição do intervalo, da hiância que possibilite ao bebê e pequena A autoria de uma aquisição instrumental e a subversão do
criança vir abrir a interrogação pelo desejo para além da demand~ desejo

"Este intervalo que corta os significantes, que faz parte da Se no início do capítulo trouxemos recortes de ficção que
própria estrutura significante é a guarida disso que chamei de apontam ao efeito de sinistro que produzem cenas que nos deparam
metonímia. Ali arrasta-se, desliza-se, como o anel da brincadeira, com uma "desarmonia" entre a passagem do tempo cronológico,
isso que chamamos desejo. aquisições instrnmentais e mudança de posição psíquica de um sujeito
O sujeito apreende o desejo do Outro no que não em relação à vida, é chegado o momento de falar também que o
encaixa, nas falhas do discurso do Outro, e todos os porquês da belo não emerge somente da harmonia. Os gregos, fundadores do
criança não surgem de uma avidez pela razão das coisas - se
conceito de beleza pelo qual o belo seria o que é harmônico, nos
constituem mais como um modo de pôr à prova o adulto, um
deixaram também como legado filosófico a relação que o belo
por que me dizes isso? ressuscitando sempre do mais profundo - o
que é o enigma do desejo do adulto." 30 mantém com a ética.
32
Podemos recordar aqui certa cena do filme Meu pé esquerdo ,
Quando, no laço mãe-filho, opera a alteridade, encontraremos na qual o menino protagonista procura demostrar que sabe qual é o
do lado da mãe o lugar à surpresa e do lado do filho a possibilidade resultado da conta que todos querem, mas que ninguém consegue
de vir a abrir a interrogação pelo desejo; do lado da mãe a responder. Mesmo diante da limitação real orgânica de s~a tetraplegia:
sustentação da função instrumental e ao mesmo tempo a ele se apropria do seu corpo e, sustentando um giz com o pe
pulsionalização da demanda que abra espaço para a produção do
filho, e do lado do filho a ousadia de lançar-se, de implicar-se numa
31 A concep.ção de estirame~to da corda da pulsional na intervrnção c~m bebês é
nova produção nunca antes experimentada que se enlaça como
realização no campo do Outro. situada no capítulo A intervenção do clínico no marco da .esumulaçao precoce.
Tomamos como referência para tal concepção a pos~ação que Lacan realiza ao
situar que a pulsão funciona por meio de uma "dialética do arco" efetuada na zona
29
Jacques Lacan (1964), Seminario 11, obra citada, p. 33. erógena. Jacques Lacan (1964), Seminario 11, p. 183/84/85/86 (N. da A.).
30 32 Tal filme é baseado na autobiografia de Christy Brown (N. da A.) .
Idem, p. 222.
170 171
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
TEMPORALIDADE E DESENVOLVIMENTO

esquerdo, escreve o resultado. O traço de giz registra o número . Algo de belo emerge quando, diante das limit - , .
riscado no chão - no entanto, para além dele, inscreve-se ali um ato . . . açoes orgarucas
impostas pela patologia e diante do determinismo st'mb ' li
. . ooo~
simbólico que não poderá ser mais apagado. Algo novo se produz, discurso parental,
e neste funcionamento da parcialidade pulsional, da função motora, , . uma _ criança chega . a formular uma resp esta que
abre lugar a dimensao de seu desejü. Algo fica ali subvertido or
da função cognitiva, é o sujeito do desejo que comparece desejando efeito do desejo e é por isso que, segundo a psicanálise, a estrut~ra
fisgar o desejo do Outro. sobredetermina, mas não inscreve a prioii um destino, pois situa a
. É nesta dimensão que o belo não advém apenas dos atributos implicação da escolha inconsciente de um sujeito diante do
físicos nem da harmonia dos movimentos, mas do brilho causado determinismo significante que lhe coube em sorte. É a esta subversão
pela sustentação do desejo. 33 A ética da psicanálise é, neste ponto, da possibilidade de resposta que aponta nossa intervenção clínica,
norteadora da intervenção com bebês, permitindo que o trabalho na qual consideramos não só a maturação, mas as inscrições do
não opere desde o imperativo de, a partir do fracasso denunciado Outro, e não só tais inscrições, mas também a possibilidade de
por um sintoma, imprimir no bebê uma conduta de harmonia em resposta que um bebê poderá um dia vir a produzir diante destas
relação às tabelas de normatização cronológica do desenvolvimento. marcas que lhe couberam em sorte.

As. tabelas de desenvolvimento não podem ser ignoradas, • Muitas vezes, crianças que apresentam graves problemas
pois elas falam acerca da normatização resultante do enlaçamento orgânicos de base deparam-se com limitações no real do seu corpo
dos limites da maturação com "as idades certas" em que uma pelas quais a ajuda de outros toma-se imprescindível para resolver
produção é esperada desde os ideais sociais que vigoram no mundo diversas situações do cotidiano. Mas sobre este pano de fundo uma
no qual o bebê vive. Mas elas simplesmente não podem conduzir a criança pode ficar tomada desde uma posição de passivização sem
intervenção clínica com o bebê, pois não dizem quais são as que se dê lugar à subversão do desejo. Tal passivização não é uma
operações implicadas para que um bebê possa estabelecer conseqüência da questão orgânica em si, mas de como ela é inscrita
singularmente a série simbólica de sua vida e para que possa chegar enquanto sintoma no laço pais-filho.
a apropriar-se a partir do Eu da enunciação das diferentes aquisições Há uma grande diferença entre ser um bebê e ser tratado
que figuram nas "curvaturas de normalidade" de tais tabelas; nem como um sem sê-lo. Há uma grande diferença de um tempo
tampouco desde onde ler o enigma do sintoma que se estabeleceu constituinte no qual o bebê é situado numa passividade pulsional
como obstáculo à sua constituição como sujeito e às diferentes pelo Outro, tempo no qual ele é tocado, falado, olhado, dando
produções instrumentais. lugar à incorporação do simbólico, e a ser uma criança impossibilitada
' Há um risco quando a intervenção procede com o bebê por de armar uma passagem à atividade, condenada a uma passivização.
meio de uma adequação de sua imagem à normatização cronológica Se o tempo de ser bebê passou sem que tenham sido
do desenvolvimento, pois o que pode ficar perdido aí é o ponto de produzidas operações constituintes do sujeito e das aquisições
inseminação simbólica que articule tais produções à constituição de instrumentais, vamos nos deparar com uma criança com sérios
um sujeito. sintomas clínicos, mas certamente já não será mais um bebê.

33
Ver Jacques Lacan (1959-1960), La ética dei psicoanálisis, Seminario 7, Buenos
Aires, Paidós (N. da A).

172 173
O BEBÊ E O SINTOl\ilA

mulher do que pode causar dificuldades na inscrição da função


pate~na e operações maternas do bebê. Que estas questões estejam
ou nao superpostas define diferentes encaminhamentos clínicos.

Diferenciando o mal-estar dos pais de efetivos problemas na


constituição do bebê

Às vezes, um bebê trazido para avaliação pode estar no lugar


O BEBÊ E O SINTOMA de possibilitar que os pais formulem um pedido de tratamento que
não consi::guem fazer em nome próprio. Que o bebê seja pivô de
uma demanda, que a queixa se enuncie pela via do bebê, ainda
Quando um "suposto bebê com problemas" chega para quando, durante as entrevistas iniciais, fica claro que ele não está
avaliação ou tratamento, num primeiro momento escutamos a queixa apresentando nenhum obstáculo em sua constituiç~o, é uma questão
pela qual ele é trazido. Porém, ao longo das entrevistas iniciais, será que exige intervenção. Em tais casos, será preciso um cuidadoso
preciso discernir se, à tal queixa, corresponde ou não, de fato, um trabalho de escuta, leitura e desdobramento da demanda para que,
sintoma que esteja a fazer obstáculo para a constituição do bebê. a partir do pedido de tratamento que os pais articulam em relação
ao bebê, possa abrir-se lugar a que se interroguem pela sua própria
Isto porque a queixa inicialmente apresentada em relação ao
implicação na queixa trazida. Será preciso diferenciar o mal-estar,
bebê pode ser o modo que a mãe, o pai ou o casal encontram de
preocupação ou sofrimento que o exercício da maternidade ou
enunciar um padecimento próprio e que não está a produzir qualquer
paternidade produz nos pais, da leitura acerca de como o Outro
dificuldade para o bebê.
primordial tem se inscrito para o bebê.
Sempre que se convoca os pais a falarem sobre o filho, em
Trazemos a respeito um recorte clínico: 1
um momento ou outro, eles acabam por falar da própria infância.
Se comparecem falas como: ''sempre pensei que, quando tivesse filhos, itia A mãe de Rodrigo, ao solicitar tratamento para seu filho, diz:
ser diferente do que a minha mãe foi comigo'', "eu não tive pai, por isso agora - Eu não sei se ele é normal. (..)Eu não pude me ocupar dele:prúneiro
não sei como fazer", ou "eu também era assim quando era criança "é porque foi a minha mãe quem se ocupou, logo foi uma bahá de quem não posso me
o narcisismo infantil dos pais, a criança que eles pensam ter sido,
,,
queixarpoisfoi muito competente. (..) É que às vezes Rodrigo chama a hahá de
está inevitavelmente implicado no investimento que dirigem ao filho. mãe e diz que não é mais o meu filho ... tenho medo de que esta situação cause
A chegada de um filho reatualiza no pai e na mãe questões de problemas, não sei se é normal.
suas próprias resoluções do complexo edípico e castração. Um A mãe de Rodrigo é escutada em algumas entrevistas iniciais,
sujeito deparado com o exercício da maternidade ou paternidade nas quais, mais do que falar do filho, acaba por falar de sua
fica exposto a produzir uma reedição sintomática de sua filiação, maternidade. Conta que Rodrigo é filho de uma gravidez postergada
sexuaçâo e identificação. vários anos devido a um acordo matrimonial proposto pelo pai de
Mas é preciso diferenciar o mal-estar que o exercício da
1
maternidade e da paternidade produz em um homem ou uma Este atendimento foi levado a cabo no CEPAGIA, Brasília, contando com a
intervenção da psicanalista Flávia Gomes Dutra (N. da A.).
174 175
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM O BEBÊ E O SINTOlVIA

Rodrigo de não ter filhos . Mas que, ao chegar a uma idade que para repetir uma e outra vez. Nesta cena, o crocodilo persegue e
considerava como b10logicamente limítrofe para engravidar, resolveu quer comer o passarinho mas, quando está perto de pegá-lo, 0
romper o acordo. A gravidez transcorreu ''sem a aceitação "do pai de passarinho sai voando. Rodrigo se põe a rir de satisfação.
Rodrigo, que marufestou a sua desaprovação "não só por reclamacões
Ao repetir a cena, ele me convoca ora a ser o crocodilo, ora
verbais como também pela distânciaJ'lfsica que 111antin
· ,,f,a" cotn ela , "sem zn,.eresse
·+'
o passarinho. Arma atribuição de personagens e, assim como entra
sexual e se!Jl nenhuma manijéstação de ajéto durante toda a gravidez".
na cena da brincadeira, também sai dela para combinar comigo 0
Logo após o parto, esta mulher entra em depressão e não que vai acontecer e o que é para fazer, numa clara sustentação do
consegue ocupar-se de Rodrigo: marco do faz de conta que diferencia fantasia e realidade. Em certo
mornento, em que ele é o passarinho e eu o crocodilo, busca refúgio
- Pedia a D~us que ele me trouxesse uma hoa bahá. Logo apareceu
em sua mãe e diz que "a mamãe vai prnteger''. O jogo vai sendo
uma qHe_ e~amm:o eftctente_e até hqje se ocupa do Rodrigo. Ela era tão perfeita
incrementado e surgem espadas para defender-se do crocodilo. Em
que, no mzczo, nao consegma nem acreditar, parecia qHe Deus havia escutado
certo momento, em que quer tirar a espada da capa e não consegue,
minhas st~licas. O problema foi qtte, quando me recuperei da depressão, era
pede para esperar um pouco antes de prosseguir com a cena e vai
como se 11ao tivesse mazs lugm; tinha que pedir licença para a babá até para
passear com o meu filho ... não sei se oproblema é dele ou é meu. solicitar a ajuda de sua mãe para desenfronhar a espada, retomando
a seqüência em seguida.
~ neste ponto que se produz um desdobramento pelo qual
No final da briricadeira, afirma: "O jacaré morde, mas ele não tem
ela conttnua a ser escutada pela psicanalista da equipe que a recebeu
e se propõe, além disso, um espaço para avaliação de Rodrigo. asas, ele não pode voai:"
Ele está particularmente atento às diferenças entre os objetos,
. É então que entro no caso para realizar algumas sessões com
que toma desde a leitura simbólica de que "uns têm e outros não têm"
Rodrigo a _fim de avaliar se, a partir do que a mãe traz enquanto
determinado atributo. Com esta brincadeira, com esta fala, Rodrigo
preocupa_çao,_ ele :stana apresentando algum obstáculo quanto à
dá mostras de um início na tramitação da operação psíquica de
sua constttu1çao psiqmca ou a suas aquisições instrumentais. Quando
castração. Ele tem possibilidade de começar a situar a falta e arranjar-
o pai de Rodrigo é comunicado da avaliação, escolhe não participar,
se para defender-se do Outro que, por mais poderoso que seja,
afirmando que, para ele, "não há problema algum".
não pode tudo. 2
Rodrigo tem então 2 anos e 4 meses. Chega com a sua mãe
Rodrigo encontra duas cobras de pano que despertam seu
e com sua babá e, na hora de entrar na sala, pega a mão da mãe,
interesse. Reconhecendo que uma é grande e a outra pequena, ele
solicitando sua presença. Ao longo da sessão, produz brincadeiras
diz "é a mamãe e ofilhinho" e entrega a cobra maior à sua mãe enquanto
com diversos brinquedos, reconhecendo suas funções e atribuindo-
a chama para brincar. Diante desta convocatória, a mãe vacila em
lhes _outras a partir do brincar simbólico. Monta alguns jogos de
assumir o papel na brincadeira e insiste em perguntar: 'Você quer que
encaixe de formas geométricas e quebra-cabeça de peças grandes,
mas apresenta uma clara preferência por cenas de brincar simbólico eu seja a mamãe?"
com bonecos.

Constitui-se então uma cena de brincar - a partir de dois 2 Impossível não recordar aqui a metáfora que Lacan utiliza ao falar do Outro
bonecos de mad eira,
· um iacare
· - e um passara
, - que Rodrigo pede primoriclial como um jacaré de boca aberta pronto a devorar. A função paterna
seria a estaca que impede que a boca do jacaré se feche (N. da A.).
176 177
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM O BEBÊ E O SINTOMA

Tal interrogação coloca em ato a vacilação materna, ao É ela quem não consegue reconhecer-se enquanto uma boa
devolver como pergunta a clara atribuição que Rodrigo realiza desde mãe e tudo aquilo que Rodrigo possa vir a falar ou produzir não
sua fala e produção. basta para convencê-la do contrário, pois tal reconhecimento está
para além dele. O sintoma que se apresenta diz respeito à
Apesar de todas as dúvidas dessa mulher acerca de sua 11
subjetividade desta mulher e se relaciona, de certo modo, também
maternidade, Rodrigo encontra-se bem quanto ao modo de situar-
com o laço que ela efetua no casamento.
se como sujeito face ao Outro, quanto aos seus hábitos de vida
cotidiana e quanto às suas diferentes produções instrumentais. A ç.A partir da intervenção pontual com Rodrigo e das sessões
função materna e paterna estão sendo para ele sustentadas, ele tem que essa mulher mantém, a queixa inicialmente apresentada através
recursos para buscar a proteção dos outros e também para defender- do filho vai podendo ser desdobrada. Ela chega a articular que, na
se destes, fazendo valer aí as suas estratégias. Além disso, ele reconhece realidade, não se sente reconhecida como uma boa mãe pelo seu
sua mãe enquanto mãe: é a entrada dela que solicita na primeira marido, que, desde o começo, não estava de acordo com a gravidez
entrevista, é a ela que recorre para proteger-se ou pedir ajuda ao e que, depois do nascimento, assumiu em relação a ela a postura de
mesmo tempo em que pode falar, brincar e colocar-se diante dos desqualificá-la enquanto mãe. A partir daí, fala .das dificuldades que
outros por sua própria conta, sem ter que fazê-lo por intermédio encontrou ao longo de toda sua vida, não só quanto a ocupar o •1·
dela. lugar de mãe, mas também de mulher, de profissional, apresentando i•
permanentes dúvidas acerca do reconhecimento dos outros em
É na mãe que se apresenta a dúvida acerca de ''se conseguiu ser
relação às funções que exerce.
uma hoa mãe para Rodngo enquanto ele em hehezinho "e, agora que ele já é
um pequeno menino com lugar à sua própria palavra, duvida acerca Abre-se, assim, para ela a possibilidade de uma escuta analítica
de se obterá da parte dele o reconhecimento como mãe. É tal em lugar do tratamento inicialmente demandado para o filho.
reconhecimento que ela não deixa de demandar a cada gesto que o Ficando aberta a possibilidade de novos momentos pontuais de
menino realiza. intervenção diante do surgimento de novas preocupações em relação

Conhecer Rodrigo, realizar uma ou duas sessões com ele, é ao meruno.


fundamental para poder pontuar esta questão para a mãe. No O tratamento com um bebê ou criança pequena não pode
encerramento desta intervenção, a mãe associa a frase "não quero que ser iniciado pelo simples fato de que os pais o solicitem. Um pequeno
sefas mais a minha mãe'~ enunciada eventualmente por Rodrigo, a algo paciente só deve ser tomado em tratamento ~u-ando o sintam~ ~m
que ela mesmo diz quando ele não se comporta: "Não quero mais que questão produz um obstáculo à sua constltUlçao ~nquanto suie1to
sefas o meu filho, eu vou te dar de presente para a hahá". e/ ou às suas diferentes aquisições instrumentais. Quando ~m
sofrimento próprio dos pais só pode ser articulado enquanto pedido
- Eu digo isso quando me sinto completamente incompetente diante de
de tratamento para 0 bebê que não está a apresentar nenhuma
Rodrigo - afirma a mãe. E, depois de um silêncio, sentencia: "Talvez
dificuldade, é preciso realizar um cuidadoso trabalho de
sefa ojeito que ele tem de responder ao que eu lhe digo".
desdobramento da demanda. Pois tomar um bebê em tratamento
A mãe pôde escutar na fala do filho as suas próprias palavras nestas circunstâncias é expô-lo a ter que efetivamente encarnar o
e perceber que o menino está ali a devolver de modo invertido um sintoma em seu corpo, obstruindo a fala materna e paterna que,
enunciado que é dela. caso fossem escutadas, poderiam vir a se desdobrar e deslocar seu
foco de queixa do bebê.

178 179
O BEBÊ E O SINTOMA
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM

Quando o bebê apresenta um sintoma que torna necessária a


~á casos nos quais a solicitação de tratamento não provém
dos pats, mas do social representado por pediatra, neurologista, intervenção clínica
profissionais da creche ou escolinha do bebê ou pequena criança. Encontramos como uma manifestação bastante característica
. Algumas vezes os pais estão de tal modo implicados no em bebês e crianças pequenas o que costuma denominar-se, desde
~rntom.a ·do bebê ou criança que não só gozam disso o âmbito médico, como "atraso generalizado do desenvolvimento".
mconsoentemente como tampouco percebem conscientemente Em bebês é freqüente que, quando um sintoma avança para além
gravidade do sintoma apresentado pelo filho. Em tais casos sã; de suas primeiras manifestações, o desenvolvimento fique
outros profissionais - principalmente aqueles do âmbito da s~úde comprometido de modo mais conjunto.
ou educação que norm_almente intervém com a infância _ que Tal generalização sintomática aponta a uma característica
detectam o problema e situam um pedido de tratamento. São casos própria da primeira infância: quanto menor é uma criança, mais
3
bastante complicados, em que há todo um árduo trabalho a se indiferenciados estão entre si os diferentes aspectos instrumentais do desenvolvúnento.
fazer no sentido de que se reconheça o padecimento do bebê ou De modo que, quanto mais cedo incidir um problema, mais
pequena criança e se aposte na modificação da situação em que se probabilidade há de que o obstáculo apresentado em uma área
encontra, dando lugar à formulação de uma demanda de tratamento específica se generalize às demais. Porque quanto mais incipiente é a
na qual os pais se impliquem. aquisição dos diferentes aspectos instrumentais, mais eles se encontram
No caso de pequenas crianças que já circulam em maternais indiferenciados em uma raiz comum.
e/ ou jardins, podem comparecer, desde tais instituições Quando um bebê já chega com diagnóstico de "atraso no
preoc~pações co~ suas pr?duções ou com sua "inadequaçã~ desenvolvimento", quando suas produções não estão ocorrendo
social , como queixas relativas a agressividade, dificuldade de dentro dos tempos esperados, será preciso, junto aos médicos
permanecer na escola e separar-se da mãe ou dificuldade de funcionar implicados, realizar uma investigação acerca de possíveis problemas
d~ acordo com as normas estabelecidas pelo grupo, entre outras.
orgânicos que possam estar impedindo as suas aquisições - trata-se
Sao queixas bastante freqüentes, sobretudo quando se trata da aí do estabelecimento do real. Mas na clinica da estimulação precoce
inclusão no jardim de pequenas crianças que apresentam problemas o trabalho não se conclui ao tomar o sintoma presente no bebê do
n~ desenvo.lvimento e/ ou constituição psíquica. Será preciso ali mesmo modo em que este é tomado pela medicina: no real orgânico
diferen~iar, JUnt~ aos pais e à instituição, se é efetivamente a criança
do seu corpo. A intervenção tampouco consiste em tomar o bebê
que esta a fazer sintoma ou se é a instituição.que está a fazer sintoma em questão como objeto a ser adequado, função por função, por
com ela. meio de técnicas, à demanda social e parental, como uma espécie
As demandas do âmbito social, do âmbito parental ou de de relógio atrasado, para o qual o tempo passa mais devagar que
ambos ~cam implicadas na intervenção com a infância e será preciso para os outros, e realizar uma espécie de ajuste do ritmo de seus
diferenciar se o mal-estar em jogo de fato recai como um obstáculo ponteiros. Trata-se de realizar uma leitura clínica do seu sintoma e,
para o bebê. Para tanto não basta escutar o que se tem a dizer para tanto, será preciso considerar o circuito de demanda e desejo
acerca do bebê, é fundamental poder ler nas produções do bebê
:orno o discurso do Outro se precipita como letra, como está se 3 Ver a este respeito o capítulo Estimulação precoce? Educação precoce? Intervenção
mscrevendo nele. precoce? Problemas epistemológicos na nomeação de uma especificidade clínica
(N. da A.).
181
180
..,,
"'"•u
1

ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM O BEBÊ E O SINTOMA

no qual um bebê fica implicado, ou seja, a imagem de seu corpo e medicina considerou as paralisias histéricas, por estas não terem uma
inscrições simbólicas nele efetuadas a partir da fantasia materna. origem lesional da função. O fracasso do funcionamento de uma
função - locomoção, visão, forração, alimentação, defecação etc.-
Como Freud demonstrou a partir do tratamento da histeria
pode ser ocasionado por um sintoma psíquico. E, mais do que isso,
e da neurastenia, há sintomas que tomam o corpo do paciente,
para lê-lo é preciso recorrer não ao quadro nosográfico de patologias,
estabelecendo transtornos no funcionamento de diferentes funções
mas à escuta da fala do paciente, pois é no significante que se situa a
(por exemplo, cegueira, paralisia, afonia) e cujas causas não são
impedimentos orgânicos. Tais sintomas são formações psíquicas chave de seu enigma.
inconscientes e, portanto, só é possível ler o sentido de um sintoma "A que se prendem os sintomas? - senão à implicação do
se o tomamos em conexão com a vida psíquica daquele que 0 organism o humano a algo que é estruturado como uma
produz. Mas o sentido do sintoma não é acessível à consciência, ele lingLtagem, com o qual tal elemento do seu funcionamento vai
é formado a partir de uma representação inconsciente estabelecida entrar em jogo como significante.'"
em função do seu desejo. 4 Ele se produz como um enigma do Tal questão é de extrema importância em uma clínica tal como
desejo, como um hieróglifo a ser decifrado. a dos problemas do desenvolvimento, em que o orgânico e suas
O sintoma é uma manifestação que fica no lugar de atuar, de patologias permanentemente irrompem. Se o que provém do
dar a ver de modo enigmático, um conflito inconsciente que não orgânico só adquire algum sentido a partir do seu enlace com a
pôde ser representado. O sintoma não é sem sentido, ele produz ordem da linguagem, do mesmo modo, a função - lesionada ou
este efeito de "sem sentido" na medida em que se apresenta de intacta - só passa a ser um sintoma do desenvolvimento a partir do
modo cifrado - por isso, só pode ser lido a partir da rede de momento em que assume uma dimensão subjetiva, constituindo-se
representações psíquicas do paciente. É por isso que a psicanálise enquanto sintoma psíquico de e para alguém. ,..
..i~.1

convoca a fala do paciente, sua associação livre, as redes de • Que haja um sintoma não necessariamente quer dizer que
significação às quais o sintoma fica enodado e possibilita que, no seja preciso realizar uma intervenção clínica, pois nem todos os
andamento de tal trabalho, o conflito possa ser psíquicamente sintomas estão no lugar de produzir obstáculo à constituição psíquica
ressignificado. e aquisições instrumentais. A criança deve passar por conflitos que lhe são
A intervenção não ocorre no sentido de apagar o sintoma necessários para constituir-se psíquicamente. Os mesmos não são #m
ou de corrigir reeducativamente o que ele faz fracassar, pois no ato efeito de uma inadequação ao mundo exterior (exigindo portanto uma postura
falho, no lapso ou no sintoma - nestas formações do inconsciente reeducativa que vise a adequação), mas de mna situação imaginária que ~I ,f

- o que se faz presente, ainda que de modo cifrado, é a verdade deve, pouco a pouco, simbolizar-se 6 à medida em que a criança vai se
inconsciente do sujeito. constituindo face ao Outro.

Abre-se assim, através da psicanálise, uma dimensão na qual . Se a criança com dois anos e meio considera que a "única
o sintoma não se esgota em ser tomado como signo patogênico ou mãe" é a sua, e não consegue estabelecer a classe das mães, ou se ao
a ser considerado como falso ou enganoso quando não se encaixa
na descrição nosográfica de quadros orgânicos, como de início a 5 Jacques Lacan (1955 / 56), As psicoses, Seminário livro 3, capítulo XIV, Rio de
Janeiro, Jorge Zahar, p. 217.
4
Sigmund Freud ( 1916), O sentido dos sintomas, E.S.B., vol. XVI, Rio de Janeiro, 6 Maud Mannoni (1963), A cn"ança, s!la 'doença' e os outros, São Paulo, Via Lettera,
Imago.
p. 30.
182 183
O BEBÊ E O SINTOMA
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM

. Uma vez que o sintoma é o retorno de modo cifrado da


contar o número de irmãos que tem, se inclui na contagem, isto
verdade do desejo inconsciente, é preciso situar de que modo ele se
tem a ver com o modo em que ela está psiquicamente posicionada.
produziria na primeira infância. Se um bebê está num tempo em
Temos aí sintomas de estrutura (sinthome)7. A inscrição da estrutura
que recém está ocorrendo a inscrição das primeiras marcas
psíquica na criança não opera de uma só vez, e encontramos ao
constituintes, como podemos pensar aí o sintoma como um
longo da infância estes sintomas que são efeito das sucessivas
inscrições e que poderão ir encontrando resolução à medida em retorno?
que a criança se constitui.
Sintoma do bebê ou sintoma no bebê?
. O problema se apresenta quando os sintomas, em lugar de
se articularem como respostas inconscientes que permitem a Ao tratar-se de sintomas que comparecem muito cedo na
constituição psíquica da criança, se cronificam como obstáculos, e a vida, constatamos que o sintoma se apresenta no corpo do bebé, mas a
criança fica imobilizada com um desejo de conhecimento (de palavra) que suas sua representação está sustentada pela mãe ou pelos pais - como
reivindicações ou revoltas camuflavam 8 . É aí que uma intervenção clínica aqueles que encarnam o Outro para o bebê.
torna-se pertinente no sentido de devolver ao sintoma clínico (SJ1mptôme) Por isso, ao tratar-se de um bebê, há certas particularidades
o caráter de uma mensagem cifrada que se coloca em cena por um em relação ao sintoma que o situam de modo diferente, não só de
comportamento aparentemente sem sentido ou socialmente um adulto, mas também de uma criança. Um bebê ainda não está
inadequado. em posição de poder operar uma primeira resposta de simbolização
. Se o trabalho com adultos ocorre a partir da associação livre, de sua existência, como uma criança faz no brincar simbólico, e sim
no caso de crianças, o brincar - como situa Melanie Klein - cumpre de estar radicalmente alienado à simbolização que provém do Outro.
no trabalho analítico a mesma função: revela a articulação da rede Então 0 sintoma no bebê implica não a sua própria simbolização,
de representações inconscientes. É através do brincar que é possível mas a simbolização que, a partir do Outro, recai sobre o seu corpo.
ler a representação que o sintoma cristaliza, assim como também É a partir do mapeamento simbólico realizado no corpo do
propiciar a sua ressignificação. bebê pelo Outro encarnado que se constituem as diferentes
Pois bem, ocorre que o bebê, que até nos é trazido, ainda vicissitudes, os diferentes circuitos pulsionais do bebê. O olhar, a
não pode falar por si mesmo na associação livre e nem sequer pode evocação a oralidade, a incorporação do alimento, a def~cação, os
ainda pôr em cena o brincar simbólico. O que ainda está em jogo ritmos de sono e vigília se constituem, na falta de um mstmto que a
no momento da constituição em que o bebê se encontra são as pi·iori organize as diferentes funções, pela legalidade .que ~ mãe
primeiras inscrições alienantes, as marcas necessárias para que possa introduz com a linguagem, recortando com as suas atnbwço~s de
vir, no futuro, a constituir pela fala e pelo brincar suas primeiras significações inconscientes, desde sua fantasia, as bordas s1mbolicas
respostas ao Outro. do corpo do bebê.

"O fantasma sustenta, assim, um certo recorte do real, faz


sutura das bordas por onde se tenta agarrar o real, suprimindo-o,
7 . ,,9
Jacques Lacan (1975-76), Seminálio 23, inédito. Acerca da diferença entre rymptôme
para que se possa, com ele, fazer alguma c01sa.
e smthome na infância ver também nota 6 do capítulo Temporalidade na clínica
com bebês (N. da A.).
8
ldem. 9 Ângela Vorcaro, obra citada, p. 101.
185
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O BEBÊ E O SINTOMA
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM

"Uma criança suporta em seu brincar o dizer do que ainda


É fato que há certas zonas privilegiadas quando à possibilidade
não pode falar. Assim como o bebê suporta, na psicossomática e
de encarnar a função de borda, função de corte da demanda. São
em sua implicação corporal, o traço significante que o captura no
justamente aquelas zonas cuja estrutura real, cuja forma anatômica,
dizer do Outro para além de sua insuficiência verbal." 13
é um verdadeiro corte, tais como olhos, boca, nariz, orelhas, ânus.
Mas, além da estrutura anatômica, o que tem um caráter decisivo A mãe está em posição de mestria em relação à organização
para seu funcionamento é a seleção que sobre os diferentes órgãos pulsional do bebê. Ela organiz.a o gozo ~o bebê a partir. de seu
recai a partir do circuito de desejo e deman.da do Outro. próprio gozo e, portanto, a partlr da sua propna fantasia e .sintom~,
Assim como a mãe outorga o suporte simbólico que organiza ainda que, evidentemente, a significação que ali fica em jogo seja
o funcionamento pulsional do bebê, que inscreve as bordas de seu também inacessível à sua consciência.
corpo, quando se produzem certas falhas destas inscrições, o
funcionamento das diferentes funções se vê alterado, ainda que o "O Outro como sede prévia do puro sujeito do
significante, ocupa' ali a posição de mestria.(...) É por de que o
órgão em questão esteja a princípio em sua perfeita capacidade
sujeito se con5 titui e é do Outro de quem o sujeito recebe mclus1ve
neuroanatômica.
a mensagem que emite." 14
Spitz nos oferece exaustivos exemplos a este respeito, que
incluem desde pequenas alterações funcionais a quadros extremos Assim 0 sintoma se produz no bebê, toma a sua carne, sua
como os de marasmo hospitalar, nos quais bebês e pequenas crianças função, seu circuito pulsional, mas não é ainda um sintoma produzi~o
em estado de privação afetiva entram em desnutrição mesmo por ele enquanto sujeito, ainda não é ele que sustenta a representaçao
recebendo todos os nutrientes necessários, que, no entanto, não são desta metáfora, mas a mãe como aquela que encarna o Outro. M.as,
organicamente absorvidos. 10 Trata-se aí de uma falha no suporte ao mesmo tempo, é encarnar esta metáfora nele o que irá lhe permitir "i
simbólico da organização do circuito pulsional do bebê que perturba começar a ser.
o funcionamento das funções orgânicas.
Trata-se aí de uma escolha forçada do infans. Pois a alienação
Constatamos que vários dos sintomas clínicos presentes em é uma operação necessária à constituição do sujeito. A possibilida.de
bebês permanecem bastante próximos ao campo da psicossomática, de ser implica, num primeiro momento, ser no Outro, implica
no qual a representação que o corpo assume configura um sintoma encarnar em seu corpo o que concerne ao desejo deste Outro
que altera o real do órgão: as lesões psicossomáticas ( ..) introduzem uma encarnado. É porque a mãe enlaça o bebê na metáf~ra que o tom.a
função falha de corte, fora das zonas oferecidas pelo real do corpo: não é o mesmo como objeto de seu desejo que dá a este bebê a possibilidade de vir
a borda da boca que a psoriase no cotovelo. Aí se tem a introdução de um corte
a ser.
num lugar anômalo. 11
"O fantasma se ata no encontro desta experiência para
Ao tratar de bebês, constatamos que osintoma se.fixa como metáfora criar a homogeneidade entre o desejo no Outro (fato de
que toma a sua carne e sua função 12 , mas a significação deste sintoma se linguagem) e o corpo daquele que se pretende concernido por ele;
determina a partir da rede significante da mãe.
10
René Spitz, obra citada. u Alfredo J erusalinsky (1988) Psicanálise e Desenvolvimento Infantil, Artes Médicas,
11 Porto Alegre, p. 49.
Alfredo Eidelsztein, obra citada, p. 159.
1• Jacques Lacan (1960), La subversión dd sujeto y la dialéctica dei deseo en el
12
Jacques Lacan (19 57), La instancia de la letra en el inconsciente freudiano. inconsciente freudiano, Esetitos 2, Buenos Aires, S1glo ve1tmno, p. 786.
Escritos 1, Buenos Aires, Siglo Veintiuno, p. 498. Grifo nosso (N. da A.).
187
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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM O BEBÊ E O SINTOMA

isto com o projeto de trazer para o Outro sua completude, e . Ainda que tal inscrição dependa da passagem pelo complexo
mesmo produzir o seu gozo (...) para poder oferecer sua própria de Edipo e se relance na adolescência, a partir da qual assumirá a
carne para o gozo esperado." 15 sua inscrição definitiva, é preciso considerar que, desde bastante
cedo, podemos ler os sintomas que vão testemunhando a efetiva
Mas, para que um sujeito se constitua, é preciso também uma
inscrição ou o fracasso dos sucessivos movimentos de alienação e
segunda operação: a separação. É preciso que o Nome-do-Pai barre,
separação.
interdite o desejo materno, para que uma criança não fique
eternamente aprisionada a ter que responder como objeto da mãe. Desde bastante cedo, fundamentalmente a partir do estádio
Se uma criança representa o objeto que satura o desejo da mãe, não do espelho, o bebê começa a produzir alguns sintomas como respostas
haverá lugar para que possa vir a ser formulada a interrogação pelo de sua poszçào em relação ao Outro, sintomas que funcionam como
desejo. É o Nome-do-Pai que instaura a pergunta pelo desejo do sustentáculos do que nele já se inscreveu. Tais sintomas não
Outro primordial, pois ao barrá-lo faz dele uma incógnita. representam obstáculos, eles são respostas necessárias à constituição
do sujeito, são sintomas de estrutura. Entre eles podemos situar
É no intervalo entre estes dois significantes (do Nome do Pai e do
todas os charmes e caretas que o bebê realiza ativamente para ser
desejo da mãe) que se al?Ja o desefo que se oferece à localização do stgfito na
olhado pelos outros no início do estádio do espelho, ou a angústia
experiência do discurso do Outro, do primeiro outro com o qual ele tem que
dos oito meses, durante a qual o bebê experimenta o estranhamento
virai; neste caso, a mãe. O des11/o do st!Jeito se constitui na medida em que o
de seu próprio ser, na medida em que depara com pessoas em
desefo da mãe está além ou aquém do que diz (...) na medida em que o desefo da
relação às quais não consegue se reconhecer - pessoas que,
mãe é desconhecido nesse ponto de carência (o sujeito) se constitui 16 •
diferentemente da mãe ou outras pessoas significativas, não encarnam
Grande parte da clínica com crianças intervém com a para ele o Outro primordial.
operação de separação, para que a criança possa constituir uma
Tal é o caso também da aparição de certo oposicionismo
resposta própria que a situe como desejante face a um Outro que
em relação a uma oferta materna. É a criança alimentada com mais amor
não será absoluto, que será também barrado por uma falta. A 19
aquela que rechaça o alimento e usa seu rechaço como um desefo . A oposição
separação implica que a criança possa defender-se, que arrm?fe o necessário é aí um esboço, um modo rudimentar de situar uma resposta própria,
para que os demais tenham que se cuidar dela 17 . pois ao negar-se a satisfazer a demanda da mãe - de que se alimente
É na passagem pelo complexo de Édipo que se inscrevem - o filho produz uma brecha, se ocupa de deixar insatisfeito um
na criança as coordenadas da sua própria fantasia - ou seja, o desejo na mãe que terá que ser satisfeito além dele.
marco simbólico, a combinatória de termos simbólicos inconscientes que sustenta O objeto transicional - paninho, cheirinho, urso de pelúcia
o desejo. 18 Tais coordenadas serão novamente relançadas na este pequeno objeto sem valor intrínseco assume um valor
adolescência. incomensurável no laço do bebê com sua mãe. Tal objeto circula
fazendo a brecha desde a qual não seja mais o bebê quem tenha que
15
Contardo Calligaris (1983). Hipótese sobt? o.fantasma, Porto Alegre, Artes Médicas,
ficar sujeitado ao lugar de objeto do Outro. O objeto transicional
p. 29.
16
Jacques Lacan (1964) seminá1io 11, p. 227.
17 19 Jacques Lacan (1958), La dirección de la cura y los principias de su poder,
Idem , p. 221.
18
Alfredo Eidelsztein, obra citada, p. 146/147. Esc1itos 2, Buenos Aires, Siglo veitiuno, p. 608.

188 189
O BEBÊ E O SINTOMA
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM

próprias metáforas constituídas a partir das marcas que recebeu do


anuncia esta possibilidade de perda, de queda, de separação, em
Outro. Mas já se configura ali uma resposta própria, um sintoma da
que o bebê só é objeto do desejo da mãe transitoriamente.
criança.
Claro que esses diversos sintomas constituintes produzidos
Pensar o sintoma como resposta de um sujeito implica
ao longo da infância vão outorgando uma forma modificável, inceita e
começar a considerar a relação entre fantasia e sintoma: pode-se
fi-ágzl a Hma estrutmll que ainda não está consolidada e se caracteriza
considerar o fantasma como aquilo que o sig"eito é, enquanto o sintoma é o
pela mobilidade. É somente no fim da adolescência que esses 22
sintomas se consolidarão como o que há de fundamentalmente modo como o sigeito se defende do que ele é. 'I

estrutural para um sujeito 20 , tal como o escrever é sintoma de !l


"Enquanto o sintoma está submetido ao funcionamento
estrutura para o escritor. simbólico, sendo portanto uma cifragem, um enigma que
1"
À medida em que um bebê vai se constituindo como sujeito, interpreta e demanda interpretação, o fantasma incide não como 111
1 í~

vai ficando menos pregado à fantasia materna, entre seus circuitos funcionamento, mas como inércia, como o que escapa a essa
cifragem, numa lógica regida pela falta no campo significante: um '"
pulsionais, e o desejo materno vai se interpondo um tecido
real do simbólico que subsiste de modo separado da manifestação
significante cada vez mais denso. A dobradiça vai se estendendo, a
do sintoma." 23 ''I
corda do circuito pulsional vai se estirando junto à cadeia significante
a partir do enigma do desejo instaurado pela função paterna. Mas um bebê pequeno ainda está radicalmente sustentado na
Lacan, no texto "Duas notas sobre a criança", coloca: O sintoma representação que a mãe faz dele: ele é no Outro, ele é na medida
de uma criança está em posição de responder ao que há de sintomático na estmtura em que encarna em seu corpo a fantasia que, a parur do Outro
familiar, representado a verdade do casalparental ou encarnando em seu coipo primordial, lhe dá lugar a ser. É neste sentido que os ~recoces
o o/:jeto da jàntasia materna 21 • E nos avisa que o segundo caso é bem sintomas que um bebê apresenta se produzem nele, mas consistem na
mais complicado, pois justamente se trata de uma criança que está encarnação da fantasia materna que faz metáfora na carne do bebê.
tomada na posição de alienação: como obj eto da mãe.
"O beb ê ainda não desenvolveu possibilidades
Brincar é um sintoma estruturante que se constitui como representativas nestes momentos primordiais de sua constituição ...
resposta da criança. Quando uma criança brinca de faz de conta é ( ...) 0 sintoma não adquiriu o status de significante ~ecalca~o, p01s

porque ela n ão está mais simplesmente em uma condição de a metáfora está nos primórdios de sua construçao, esta sendo
24
alienação à fantasia materna, no mínimo está respondendo ao sustentada pelo Outro primordial."
sintoma parental. Ao brincar que "era" tudo aquilo que ainda não
pode ser enquanto criança mas que, no entanto, lhe é demandado O sintoma que se apresenta no bebê dá a ver de m odo cifrado
que seja desde os ideais parentais, uma criança coloca em cena o seu a verdade da fantasia materna e, mais adiante, do sintoma parental.
desejo de vir a ser - põe em cena as próprias representações, as
22 Alfredo Jerusalinsky (1996), citado por Ângela Vorcaro (1999). Crianças na
psicanálise, Rio de Janeiro, Companhia de Freud, p. 70. .
20
Jean-Jacques Rassial (1999), O sinthoma adolescente, Estilos da Clínica, nº 6, 23 Ângela Vorcaro (1999). Crianças na psicanálise, Rio de Janeiro, Companhia de
São Paulo, USP, p. 92-93.
Freud, p. 70.
21
Jacques Lacan (1969), Dos notas sobre el nino, Intervenciones y Textos 2, Buenos . d b b ' B 1 • d APPOA· Sintoma da
24 Silvia Molina (1997), O smtoma o e e, otetzm a ·
Air.es, Manantial · Infância, nº 13, Porto Alegre, Associação Psicanalítica de Porto Aü;gre.
191
190
O BEBÊ E O SINTOMA
ENQUANTO O FUTURO NÀO VEM
Na cena clínica tomamos o bebê como enigma e sua
O sintoma que nele toma carne e que estabelece suas vicissitudes rodução como uma apresentação do texto hieroglífico que dá a
pulsionais não é efeito do seu recalque, mas do que permanece ~er de modo enigmático a marca que o discurso do Outro escreveu
recalcado para mãe ou para o casal. como letra em sua carne. Por isso, para ler este texto cifrado,
No bebê ainda não está constituído o recalque secundário precisaremos tomá-lo na série significante parental.
que estabelece a divisão entre o eu e sujeito do inconsciente. E Se é no bebê, no seu corpo, que a fantasia materna ou o sintoma
portanto não é desde a sua subjetividade que sustenta, que produz parental tomam carne, o trabalho não po_de ocor:er em ausência
tal sintoma - ele o encarna em seu corpo. Mas é aí que se produz o do bebê_ se 0 sintoma toma seu corpo, entao tambem lhe concerne.
ponto de articulação importante, pois na medida em que ele o aloja Não h á aí como intervir apenas com os pais em um espaço
em seu corpo, em sua produção, tal sintoma passa a lhe dizer respeito, psicanalítico, pois há um bebê se constituindo e é nele que se encarna.
ainda que. tais sintomas se produzam como efeito, como retorno ·
o sintoma clíni.co. Se 0 fiilho pode ser portador do szntoma, do que vaz
do desejo inconsciente materno ou parental ao qual o bebê está mal com os pais (seu ponto cego em relação à questão da castração), então
alienado. , e, responsave
tam bem , / .?6
-
Por isso não nos interessa do discurso parental colher a novela . É neste enlaçamento entre o real do órgão e o simbólico
familiar ou investigar algo da ordem de justificativas etiológicas para parental que se dá a nossa intervenção4 Não se tr~ta de tomar o
o sintoma que se apresenta no bebê. Interessa-nos o modo em que discurso parental por um lado e as funções orgâmcas por outro, ·:~

este discurso se coloca em ato em cada uma das voltas da demanda mas justamente a articulação entre um e outro, o ponto em que 0 .·\,,
que opera com um bebê, constituindo o casulo de desejo que lhe discurso parental, ao fazer seus retornos sintomátic~s, produz
. outorga um determinado lugar no tecido simbólico familiar. É a inscrição, faz letra, produz as primeiras marcas constltwntes do e no 'I

partir do encontro do real orgânico com este tecido simbólico que bebê.
irá se produzir no bebê o fun cionamento de suas funções, o
estabelecimento de seus circuitos pulsionais.
. Ao lermos a atividade espontânea de um bebê ou pequena
criança não estaremos apenas verificando suas aptidões funcionais,
estaremos lendo também o modo em que o discurso parental marca ,,
!..
seu co rpo dando lugar a produções ou estabelecendo
impossibilidades - que, ainda que não provenham do real orgânico, ;:;

podem estabelecer-se enquanto obstáculo à constituição a partir da


fantasia materna ou sintoma parental.
· "O sintoma é aqui o significante de um significado recalcado
da consciência do sujeito. Símbolo escrito sobre a areia da carne
(... ) é uma palavra de exercício pleno porque inclui o discurso do
outro no segredo de sua cifra." 25
26Martine Lerude (1991), Pela felicidade das crianças, O s11jeito, o real do corpo e o
25
Jacques Lacan (1953), Función y campo de la palabra y dei lenguaje en psicoanálisis, casal parental, Salvador, Ágalma, P· 133 ·
Emitos 1, Buenos Aires, Sigla veitiuno, p. 270.
193
192
PEDRO E O ESCORREGADOR

Nas entrevistas iniciais, realiza-se uma avaliação clínica


neuropsicomotora 1 , na qual se constata uma quadriparesia com
hipertonia mais marcada nos membros inferiores, aparecendo apoio
plantar equino. Os membros superiores apresentam características
predominantemente distônicas e há mais componentes espásticos
nos membros do lado direito.
Até aí fica claro que, como consta no encaminhamento, Pedro
tem uma lesão orgânica, mas a questão clínica que permanece em
PEDRO E O ESCORREGADOR: aberto é como esta função motora é posta a funcionar por ele, que
O QUE DESLIZA QUANDO BRINCAMOS lugar ela ocupa no laço com seus pais e qual a apropriação que ele
(CASO CLÍNICO) está podendo fazer de seu corpo.

Do quadro orgânico à leitura clínica do sintoma


- Não fala, não caminha - é a queixa que a mãe apresenta ao
solicitar tratamento para Pedro. Quando é convidado a entrar na sala, Pedro olha para a mãe,
- Prefere brincar com as panelas. Faz barulho com as tampas batendo esperandq a sua aprovação e solicitando a sua companhia, num
:1
: .
umas nas outras, gosta de pegar as coisas da cozinha... éesquisito, mas prefere as claro movimento de diferenciação entre familiares e estranhos.
panelas aos brinquedos - afirma, quando perguntamos o que o filho !1.::
Seu modo de se colocar em cena é assumindo uma atitude
gosta de fazer. Depois cai num silêncio, como se não houvesse nada de observador em reação àquilo ou àqueles que lhe interessam, mas
mais a ser dito. vacila quanto a tomar a iniciativa de interagir com os outros ou de
explorar a sala e os brinquedos que despertaram seu interesse.
No lugar de sua palavra, que não advém na cena, Pedro é
dado a ver, como se o real do seu organismo, a organização de seu Ao perceber o interesse de Pedro, ofereço-lhe o boneco que
corpo e sua produção servissem como a evidência do que não está a olhar. Depois de certo tempo, ele resolve pegá-lo e passa a
pôde ser tramitado pela palavra. explorá-lo sem muito entusiasmo. Logo em seguida, a manta que
traz em volta do pescoço cai. Aproveito a cena para introduzir uma
Ele é carregado no colo. Usa fraldas e babador. Está com
pequena brincadeira: puxo sua manta e acompanho este gesto com
dois anos e seis meses, mas o seu entorno permanece relativo ao de
um som. Ele ri e entra na brincadeira puxando a manta desde a
um bebê.
outra ponta, de forma alternada aos meus puxõ es. Vamos
Seu diagnóstico médico é de paralisia cerebral. Nos seus estabelecendo diferentes velocidades e intensidades nestes puxões,
exames genéticos e auditivos não constam alterações. No seu que acompanho ritmicamente por um som de "plim" para o puxão
eletroencefalograma, exames de contraste e tomografia dele e um "plom" para o meu puxão.
computadorizada não foram detectadas lesões ou alterações, mas
clinicamente apresenta claros signos de lesão neurológica. 1
Tal exame, sempre realizado nas crianças que chegam no serviço de estimulação
precoce do Hospital Durand, foi conduzido pelo fisioterapeuta e psicomotricista
Jorge Garbarz, diretor da equipe (N. da A.).

194 195
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

Pedro ri e, pela primeira vez na sessão, parece estar ativamente nesta posição enquanto se empurra com os braços . Busca
implicado. Quando esta brincadeira começa a ficar animada, a mãe, espontaneamente ficar nesta postura para brincar e explorar 0
que nesse momento fala com outro membro da equipe 2 , faz Pedro ambiente, ainda que a hipertonia dorsal lhe cause eventuais quedas
parar, dizendo "se comporte". Ele inicialmente resiste e continua para trás.
brincando, até que interrompe a brincadeira e aceita ficar no colo
Exerce domínio sobre a preensão voluntária, ainda que
da mãe, apesar de falarmos que não havia nenhum problema e que
apresente certa torpeza imposta pelo quadro orgânico para pegar
era interessante que ele pudesse brincar.
objetos que lhe interessam ou largá-los quando está interessado por
Pedro dirige o olhar àquele que lhe fala, interessado neste outros.
ato. Dá mostras de possuir certa compreensão da linguagem, ainda
Consegue caminhar quando é segurado pelas mãos ou pelo
que seja preciso dilatar bastante o tempo de espera para que possa
tronco por outra pessoa, realizando as flexões necessárias - no
advir uma resposta de sua p'.lrte. Por exemplo, ao final da primeira
entrevista, ao ouvir a pergunta "Vamos colocar o sapato?", depois de
calcanhar, joelho e quadril - mas depende da sustentação de outro ..
!'ih.,,I

~ .1

para manter o equilíbrio ao realizar a alternância de pernas. Apesar .. :.:.·


certa sustentação da cena (em que se continua a falar e a oferecer o
disso, ele chega e é levado embora das sessões carregado no colo.
sapato) e de intervalos de espera por sua resposta, Pedro finalmente
diz "aa", sorri e, olhando o sapato e o interlocutor, oferece o seu A partir destas entrevistas iniciais é possível chegar ao parecer
pé. de que Pedro apresenta um problema no desenvolvimento, com
atraso nas aquisições de diferentes áreas. Há signos clínicos que se
A produção de uma resposta diante do que outro lhe
impõem pela patologia orgânica e que fazem obstáculo às suas
propõe indica a instalação de uma matriz dialógica, ainda que a
realizações - tanto pela torpeza motora quanto pela dificuldade
intenção de dialogar - seja desde a produção sonora ou gestual -
cognitiva. Mas, a tal quadro orgânico, fica superposto um sintoma
não costume partir dele. Quando responde, o faz muito mais através
psíquico de inibição que empobrece ainda mais a produção de Pedro.
da ação, que ocasionalmente vem acompanhada de uma produção
sonora. Se a produção espontânea de Pedro se caracteriza por uma
falta de iniciativa, por não se lançar a produzir e explorar aquilo que
Sua produção espontânea é bastante pobre e repetitiva,
desperta seu interesse, por parte da mãe encontramos a postura de
evidenciando-se certa dificuldade cognitiva. Tal produção fica ainda
não largá-lo para que experimente. O excesso de sustentação no
mais empobrecida por uma posição psíquica de não se decidir a .J!~
real comparece onde fracassam a sustentação simbólica e a
tomar a iniciativa diante do que é evidente que quer fazer. Vacila
antecipação imaginária que poderiam situá-lo, apesar da limitação
quanto a entrar na brincadeira que outro lhe propõe e pela qual se
orgânica, como capaz de certas realizações.
interessa, e facilmente cede à posição passiva à qual a mãe o convoca.
A partir do relato materno é possível começar a recolher
Encontra dificuldades nas mudanças posturais. Senta-se com
quais as marcas simbólicas que inscrevem Pedro nessa posição de
as pernas semi-abertas e esticadas para a frente e tende a deslocar-se
inibição e que são atuadas nos cuidados excessivos que lhe são
2 A entrevista inicial no serviço de Estimulação Precoce do Hospital Durand dirigidos.
ocorre em presença da equipe, sendo conduzida por uma dupla de profissionais. A
partir das entrevistas inicias em grande grupo (geralmente uma ou duas entrevistas) - Ele nasceu prematuro, com 8 meses, era magrinho e pequeno, não
e posterior discussão em equipe, decidem-se os encaminhamentos dos casos e quais pegou no peito para mamar. Com dois diasfoi internado na UTI, na incubadora.
serão os profissionais que conduzirão os tratamentos (N. da A.).

196 197
~.,

li
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
PEDRO E O ESCORREGADOR
"

( ..) Tive que voltar para a minha casa e ele ficou internado cinco dias. Depois vida, produz-se, então, um desamparo propriamente dito: um
devolveram ele para mitn - conta a mãe. desamparo psíquico, da ordem do simbólico, diante do qual emerge
Ora, somente é devolvido aquilo que foi tirado. Tal fala da o traumático. E, tal como é próprio do traumático, a cena se repete
mãe, portanto, evidencia que a passagem de Pedro pela UTI ficou sem poder ser ressignificada.
para ela inscrita numa equivalência com "terem pego o seu filho". - Eu não posso dCZ:xá-lo ( ..) ele chora por qualquer coisa, é muito
Diante deste bebê prematuro magro epequeno, a mãe, nos primeiros sensível. Grita efica bravo quando a irmã pega algo que é dele ( ..)tem ciúmes,
momentos de estabelecimento do laço com seu filho, ficou destituída é ciumento desde pequeno, mesmo antes do nascimento da úmã... Agora ele tem
da possibilidade de pôr em cena seu saber para exercer os primeiros medos, acorda pela noite chorando e eu o troco de cama, lhe faço cafúné, tne deito
cuidados maternos. Agora é um excesso de cuidados que dirige ao do lado dele para que durma. É muito carinhoso, muito preso a mim - diz a
filho, sem deixar lugar à sua produção ativa na medida em que mãe acerca de Pedro.
continua a supô-lo numa insuficiência quanto à sua possibilidade de
viver e se defender. Apesar de ter sido proposta uma entrevista inicial apenas com
os pais, a mãe traz Pedro desde a primeira sessão, enquanto a outra
No texto Inibição, sintoma e angústia, Freud afirma: filha, de um ano e quatro meses, fica aos cuidados da tia. Ela carrega
1

e segura ansiosamente o corpo do filho. Repete, neste excesso de


"Todo e qualquer bebê humano encontra-se ao nascer em
um desamparo primordial - "é longo o período de tempo durante
cuidados, a situação traumática de deparar-se com um bebê
o qual o jovem da espécie humana está em condições de desamparo "pequeno e magrinho" que lhe foi tirado.
ou dependência. Sua existência intra-uterina parece ser curta em O que está em jogo ali não é da ordem de considerar as reais
comparação com a da maior parte dos animais, sendo lançado ao
impossibilidades orgânicas de Pedro, mas a atribuição de uma
mundo num estado menos acabado.( ...) O fator biológico, então,
impotência imaginária, de uma insuficiência para poder defender-
estabelece as primeiras situações de perigo e cria a necessidade de ser
se. Desde este gozo sintomático, Pedro fica suposto no lugar d~
amado que acompanhará a criança durante o resto de sua vida."3
"quem não pode fazer como as outras crianças", e a família claudidt-Jm
O desamparo de um recém-nascido não é apenas orgânico poder operar os cortes simbólicos que são necessários para a sua
- no sentido de que ele não tem como sobreviver sem os cuidados constituição.
de um agente externo -, é sobretudo um desamparo simbólico, já
Do encaminhame.nto médico à formulação de uma demanda
que o humano, ao nascer, carece do saber acerca do que lhe convém.
parental
É o Outro encarnado que~ a partir do seu saber inconsciente, a
partir de sua rede significante, outorga significação à insatisfação do
Quando perguntamos da evolução de Pedro e de como
recém-nascido, trilhando, a partir de tais marcas simbólicas, os
chegaram ao serviço hospitalar, a mãe nos entrega a carta de
caminhos pelos quais o bebê buscará obter satisfação.
encaminhamento realizada pelo neurologista. E la não fala da
Se, diante do real da prematuridade do corpo de um bebê, evolução do filho e insiste em estabelecer uma continuidade entre o
não se opera a sustentação simbólica dos fatos que acometem a sua encaminhamento do neurologista e a chegada ao serviço.
Percebemos, no entanto, que há um grande lapso temporal entre
ambas datas, ainda que a mãe, por diversos rodeios, evite falar
3
Sigmund Freud (1926), Inibições, sintomas e ansiedade, E.S.B.,("ol. x:JRio de
Janeiro, Imago, p. 178. · acerca do que se passou nesse tempo.

198 199
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

O que a mãe procura inicialmente suprimir é que Pedro havia cada um deles se interrogue sobre o que têm a ver com 0 sintoma
realizado anteriormente um tratamento que durou seis meses e que do filho. Pode-se, a partir daí, abrir o espaço em que sejam escutados
tal tratamento foi abandonado porque ela engravidou novamente, por outro profissional da equipe, que poderá intervir em momentos
dando à luz a filha menor, que, na data da atual consulta, conta com cruciais da sintomática parental. Mas a possibilidade de que os pais
um ano e quatro meses. possam chegar a formular tal interrogação sempre se tramita e
sustenta pelo laço transferencial que eles possam ir estabelecendo
- Quero começarlogo, sinto quejá perdi muito tempo... Talvez eu tenha
com o clínico a cargo da direção do tratamento no caso do bebê.
me descuidado um pouco com ele, eu saía e eleficava mal, e quando engravideifoi
pior - diz a mãe, quando consegue nos contar esta história, Intervindo com o sintoma de Pedro e com sua articulação ao
implicando a sua fala neste pedido de tratamento para o filho.
sintoma parental
A mãe se sente responsável pelo que significa como um
"descuido" em relação a Pedro e, ao mesmo tempo, tem pouquíssimas A medida em que vão se sucedendo as sessões, evidencia-se
esperanças de que ele possa chegar a fazer conquistas. Estas duas a simetria existente entre a atitude vacilante de Pedro, sua inibição, e
questões ficam superpostas w laç() mãe-filho, traduzindo-se em 0 modo em que a sua mãe fala dele, sempre muito lacônica e

cuidados que não deixam espaço para que Pedro realize conquistas comedida a respeito do que conta da história de seu filho e de sua
necessárias à sua constituição. Por parte da mãe, escutamos a culpa família. Aparece uma atitude esquiva em relação a falar, que acaba
e o gozo implicados nesta posição de dependência do filho em por denunciar que há algo que não pode ser dito. É só depois que
relação a ela e, por parte de Pedro, podemos ler que, para além do se vislumbrará uma cena de violência do pai em relação à mãe
seu comprometimento orgânico, comparece uma inibição que está durante a gravidez de Pedro.
fortemente ancorada à representação de sua patologia que é - Eu engulo tudo, não descarrego com ninguém (...) nós brigamos muito,
sustentada pelo discurso materno. Deste modo, é necessária uma estivemos aponto de nos separar, não ofizemos pelas crianças. (...) Pedro é como
intervenção com Pedro e também em relação à representação um bebê de nove meses, que baba e não caminha... tenho medo de que não fale -
parental · que, ao antecipar o fracasso de suas produções, diz a mãe.
permanentemente suprime o espaço e a espera temporal em que
Quando os pais "não conseguem" falar acerca do seu filho,
suas realizações poderiam advir.
de sua história e se suas atuais produções, no marco do tratamento,
Mas, se a produção ou fracasso de uma realização em um não há que apressar-se no sentido de tomar tal atitude do lado de
bebê ou menino pequeno como Pedro está tão intrincada ao olhar uma falta de implicação dos mesmos. Não é a partir das intenções
que sobre ele recai a partir do parental, que lugar ocupam os pais conscientes que o sintoma presente no bebê ou pequena criança
nessa clínica? está atrelado à representação da mãe ou do pai e, portanto, não é
Quanto mais o filho é mostrado, dado a ver, no que fracassa, simplesmente por meio da consciência que opera nossa
tanto menos os pais parecem ter algo a dizer acerca do que isso lhes intervenção.
concerne. Justamente por isso, intervir com sintomas apresentados Como aponta Melanie Klein em sua polêmica com Anna
em bebês e crianças pequenas resulta insustentável se, através do Freud sobre a aceitação dos pais quanto ao tratamento de seu filho:
tratamento, não se efetua uma implicação mínima dos pais em que os pais podem estar, te01icamente, bem convencidos da necessidade de análise e

200 201
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

podem desdar conscientemente qjudá-lo com todas as suasfarças mas, no entanto, de tal sintoma em transferência, que pode se resgatar 0 nexo entre 0 ..,
U"
por razões inconscientes, podem criar obstáculos a nosso trabalho em todo momento. 4 sintoma que se apresenta e a rede significante na qual é sustentado. li
1

Tal leitura implica a rede significante parental, a produção da pequena


Se consideramos fundamental que no trabalho com crianças
se intervenha com os pais, e mais ainda ao tratar-se de bebês e cnança e º.s efeitos que a leitura do clínico e a sua escuta relançam
sobre a articulação sintomática que ocorre entre ambas.
crianças pequenas, tal trabalho não pode ocorrer por meio do
imperativo de que "os pais falem do filho". Quando o que A construção de "um saber" sobre o caso de nada serve em
comparece ali é uma impossibilidade de falar, devemos clinicamente si. Qualquer intervenção, construção ou interpretação só adquirem
interrogar-nos pela metáfora que opera nesse silêncio, ou seja, do seu valor num rerceiro tempo, seu valor se reduz apenas a seus
que esse silêncio dos pais nos fala. efeitos clínicos, ele só vale em transferência. Uma leitura desta ordem
No caso de Pedro, suportar na transferência esse silêncio da só importa, só resulta acertada e eficaz se, ao intervir clinicamente
no tempo certo, possibilita os efeitos de deslizamento da significação
mãe como uma atuação sintomática deu lugar ao seu deslizamento,
e saída do padecimento sintomático do bebê ou pequena criança .."
possibilitando à mãe pôr em palavras a culpa parental - pelo ato de ,,"'
no laço em que fica tomada por seus pais.
violência do pai com a mãe durante a gravidez e pelo seu "próprio
descuido quanto a deixar o tempo passar sem trazer Pedro a tratamento'~ Não por acaso, mais ao final do tratamento, quando Pedro
A inibição de Pedro situa-se como um prolongamento do já havia conseguido realizar algumas importantes conquistas, a mãe
silêncio materno. Esse filho dependente, que não pode se valer por veio anunciar que possivelmente estivesse grávida. Tal gravidez
si só, ao silenciar seu desenvolvimento, fica no lugar de garantir que provavelmente aponta uma insistência sintomática no modo em
esse casal ."não se separe". A "causa" da união do casal são "as crianças", que este casal tem de sustentar seu laço matrimonial: "não se separar
e o preço de tal união passa a ser ter que manter em silêncio essa por causa das crianças''. Portanto, ao longo do tratamento, não se
história de violência. Mas, por mais que se tente ocultá-la, esta modificou tal sintoma parental, apesar de ter se modificado o modo
em que Pedro respondeu e ficou situado em relação a tal sintoma.
violência retorna no laço familiar, por exemplo, "no descuido" dirigido
ao filho. Isto vem nos lembrar de que, como clínicos do bebê e da
criança pequena, ainda que realizemos intervenções com o pai, com
Evidentemente tal leitura só se faz possível em um momento
a mãe ou com outros membros da família, os convocamos enquanto
posterior ao de suportar clinicamente o silêncio. Um tempo no qual
agentes que encarnam as funções materna e paterna para o bebê ou
estamos escutando como o sintoma se coloca em cena na
criança. Ou seja, o nosso compromisso clínico é ali o de trabalhar
transferência, num tempo no qual ficamos deparados a um hieróglifo
do qual ainda não se tem a chave para poder fazer uma leitura do para que o laço em que o bebê fica tomado pelo parental não
produza nele graves obstáculos quanto à sua constituição como
enigma - enigma que sempre portará uma parte indecifrável. É
sujeito e suas aquisições instrumentais. Para que as limitações orgânicas
somente num segundo momento que se pode construir uma leitura
de que o bebê padece não produzam obstáculos ainda maiores ao
4
Melanie Klein, Contribuições à psicanálise, São Paulo, Mestre Jou, 1982, p. 228. estender suas fronteiras em supostas impotências imaginárias.
Vale destacar no entanto que, ainda que Melanie Klein tenha apontado a questão
da resistência que se apresenta no trabalho com crianças pela implicação inconsciente
Intervimos para que o b ebê ou pequena criança possa
dos pais nos sintomas de seus filhos, paradoxalmente, a intervenção que propõe enveredar a sua vida para um exercício desejante e, certamente, os
não inclui o trabalho de escuta com os pais como um modo de intervir com esta diferentes agentes que encarnam o Outro da vida de um bebê
transferência/resistência (N. da A.).

202 203
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

ocupam um lugar decisivo em tal inscrição. Por isso a intervenção suporte material para construir a cena que se quer desenrolar. Assim,
não consiste em "curar a família, a mãe ou o pai de seus sintomas", um palito e uma caixa podem ser o caldeirão da bruxa, duas cadeiras
convenhamos que tal tarefa seria grandiosa demais para um único juntas a carruagem e alguns botões coloridos o painel de comando
clínico. Além disso, o modo de armar laço no casal, na família ou da nave espacial.
na filiação sempre se apoiará num sintoma. O ponto é que tal sintoma Pedro vê as panelas, aponta o braço em sua direção, mas não
não assuma um custo excessivo para o bebê ou pequena criança em toma a iniciativa ele pegá-las, esperando que outro alcance o
questão e que esta possa vir a produzir respostas mais interessantes brinquedo para ele. Situa-se aí uma primeira intervenção no sentido
em sua constituição que a de ficar tomada como objeto de gozo de tomar seu interesse e, a partir dele, sustentar o armado de
inconsciente desse Outro encarnado. esquemas corporais que lhe possibilitem chegar até tais brinquedos.
Se, no caso de Pedro, surge na família o lugar para um novo Uma vez que se apodera dos brinquedos que lhe interessam, a aposta
bebê, é porque Pedro saiu do lugar de eterno dependente para é a de constituir com eles cenas um pouco mais extensas
assumir o lugar de um menininho capaz de surpreender os outros simbolicamente: já não só a de remexer a panelinha, mas falar do
com suas produções. O que mudou aí é o ponto de engate do que se cozinha, convocar a mãe para que conte o que Pedro gosta
sintoma de Pedro ao sintoma parental. E o sintoma parental? Bem, de comer e o que não gosta e dirigir-se a ele, esperando a
este continuará a insistir, mas não é Pedro quem terá que pagar tão confirmação ou discórdia acerca disso. Então "a comida" passa a
caro, com seu próprio corpo, por ele. ter diferentes nomes (salsicha, batata frita, bolo etc.) e fazemos caretas
de nojo ou aprovação a partir do nosso gosto acerca da comida.
O tratam.ento como a abertura de um lugar e um tempo para Pedro ri disso e aguarda a reação que vem depois de provar o que
as produções de Pedro se está comendo, apropriando-se de tais caretas.
E ntão, a intervenção consiste não só em que Pedro possa
Os primeiros objetos do consultório que despertam o
constituir novos esquemas psicomotores, cognitivos e de
interesse de Pedro são os brinquedos de cozinha. Inicialmente a
comunicação - propondo-lhe pequenos desafios nas cenas que vão
produção consiste em mexer a panela, servir e convidar os outros
sendo armadas, convocando-o ao diálogo ou, quando ele demanda
com a comida. São esquemas que se apresentam como rituais lúdicos
ou permite que o ajudemos através de um toque, a constituir posturas
e logo se interrompem, sem que tal cena possa derivar em outra
que facilitem sua movimentação. A intervenção consiste também
com maior extensão simbólica.
em armar uma maior extensão simbólica no desdobramento do
Podemos constatar que os rituais lúdicos - descritos por brincar, ainda que para isso, num primeiro momento, seja preciso
Piaget - são produções que antecedem o brincar simbólico em emprestar à cena uma significação que Pedro ainda não pode atribuir
todas as crianças, mas que se caracterizam por ainda permanecerem sozinho. Por isso convoca-se a fala da mãe, presente na sessão, pela
muito apoiadas na função sugerida pelo objeto para a constituição qual podem ser colhidos significantes familiares que permeiam este
da cena.· Ao se cozinhar com a panelinha e levar a colherinha até a brincar.
boca como se estivesse se tomando sopa, não há realmente sopa - 5
Pedro passa, assim, a ocupar uma posição ativa na cena . É
há portanto uma representação simbólica, uma presença em ausência
ele quem nos convida a almoçar ou jantar suas comidinhas.
-, mas a cena não possui toda a extensão e possibilidade de
deslizamento da significação que encontramos no brincar de faz- 5 A respeito da posição de atividade do paciente e passividade do clínico na cena do

de-conta. No faz -de-conta, o objeto é tomado apenas como um brincar ver Elsa Coriat (1996), Psicanálise na clínica com bebês e nia11ças p equenas, cap.
O objeto do especialista, Porto Alegre, Artes e Ofícios (N. da A.).
205
204
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

Em certa sessão, em que continuava se desdobrando tal cena, Da posição de impotência à delimitação do impossível
resolvo perguntar à mãe o que ela mais gostava de fazer.
Experimentar com o seu equilíbrio, com sua postura, com
- Bom, eu não gosto muito das tarefas de casa, de limpar e an-umar,
suas quedas resguardadas por outro, mas já não mais absolutamente
mas me divirto muito cozinhando - ela afirma.
evitadas pelo suporte corporal alheio, vai levando Pedro a deparar-
- Claro, brincar com as panelas não é brincar de qualquer coisa, você se com suas possibilidades e também com suas dificuldades. Pedro
sabe que isso é algo que interessa a mamãe - digo, me dirigindo a Pedro. cai, busca o olhar materno e faz uma expressão facial de choro,
choro no qual fica em jogo não a dor física da queda (da qual é
A mãe sorri e diz que nunca tinha pensado nisso. A produção
resguardado), mas a dor narcícisa desse corpo que arma obstáculo
de Pedro, inicialmente apontada como "estranha" pela mãe, pode
às suas produções, que o faz cair de um lugar fálico diante do olhar
começar a ser minimamente articulada à serie parental, como uma
do Outro. Diante de cada fracasso na realização de um esquema,
produção interessada e com sentido.
perde-se e não consegue retomar o que estava a fazer, fica aprisionado
Inicialmente Pedro não caminha sozinho, mas segurando-se no gozo da impotência.
nas mãos de outro. Posteriormente vamos oferecendo novas
Para a mãe, dar espaço à produção de Pedro, em lugar de
possibilidades de sustentação, como cadeiras ou paredes que lhe
permanentemente conter seus movimentos, implica também
permitem dominar ativamente sua postura e equilfürio. Diante de
deparar-se com suas dificuldades e a angústia que lhe causa ver estas
tais ofertas, que mudam um pouco o esquema que geralmente utiliza,
ações - e"m seus sucessos, mas também no que elas portam de
Pedro demonstra-se resistente, olha desconfiado para a mãe.
fracasso. Diante da cara de choro de Pedro quando este não
Sanciono isso como um pedir permissão: Será, mãe, que posso fazer
conseguir realizar um determinado esquema psicomotor, a mãe
deste jeito? - falo, como se fosse Pedro quem estivesse a falar. Ele,
passa a afirmar: 'Você consegue, T/ ocê consegue!"
pouco a pouco, se aventura e, enquanto vai ficando tomado pela
cena lúdica, passa a utilizar distraída e espontaneamente tais esquemas, Tal enunciação, mais do que poder interrogar Pedro através
demonstrando sua efetiva apropriação dos mesmos. , de um "O que você querpegar?'', um "Como será que dá para ir até ali?" ou
um "Será que fica mais facil segurando nessa cadeira?", que mobilize o seu
A medida em que Pedro começa a experimentar o domínio
desejo e que, ao mesmo tempo, dê sustentação ao armado de
do seu corpo, passa também a deparar-se com o que fracassa nesse
esquemas reconhecendo suas efetivas dificuldades, se detém em um
domínio. Suas reações de equilíbrio encontram-se afetadas pela
tempo anterior, tempo de dúvida em relação às suas possibilidades.
hipertonia, e começam a acontecer algumas quedas em bloco, sem
"Será que vai conseguir?" é a dúvida que irrompe na mãe diante das
que consiga chegar a fazer reações de defesa dos braços contra as
dificuldades do filho, dúvida que ela procura prontamente recobrir
batidas. É preciso tomar aí certos cuidados nas sessões, como brincar
com uma afirmação excessiva do "Você consegue!". Ocorre que tal
sobre o colchonete ou deixar uma almofada atrás para amortecer
afirmação, mais do que sustentar a possibilidade de que Pedro arme
uma queda repentina. É preciso tomar cuidados para que Pedro
alguma estratégia com este corpo que tem, o remete a um corpo
não fique ·exposto a sérios machucados, mas possibilitando sua
ideal que conseguiria tudo.
atividade. Surge então uma nova atitude de Pedro: ele se aventura a
tomar iniciativas por sua conta, mas passa a fazer cara de choro Diante de tal afirmação, Pedro fica, mais uma vez, inibido
quando percebe que encontra dificuldades na realização de certos em sua ação, ao deparar-se com obstáculos e com dificuldades
esquema psicomotores. efetivas que ficam de fora desta fala materna.

206 207
ENQUANTO ü FUTURO NÃO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

Trata-se aí da não elaboração do luto parental em relação à mas faz tempo que fica ali sentado, ao invés de movimentar-se por sua conta.
patologia de Pedro, que ou o situa do lado de uma co~pleta Talvez sda melhor tirá-lo daí". Ou, em relação à alimentação, afirma:
impotência - realizando uma substituição de suas produçoes ao "Ele toma a mamadeira, mas, quando está na mesa, quer tomar no copo, como
carregá-lo no colo ou alcançar-lhe os objetos se1:1 q~e ele faça o opai e eu jàzemos ".
menor esforço, nem psicomotor, nem de comuruc~ça~ - ou que
. d lado do imperativo de uma potencia absoluta, Aponta-se que Pedro está querendo fazer como eles, que
passa a recair o está querendo crescer e fazer coisas de um menino maior e que,
com o 'Você consegue!". efetivamente, ele tem condições de fazer algumas dessas coisas. A
O que se perde de mira em tais formulações, ,e q~e, o la~çam partir da possibilidade de falar disso, a mãe não só começa a
imaginariamente de um extremo ao outro'. da impotencia ª _potencia oferecer-lhe o copo e a tirar o andador, permitindo que Pedro
absoluta, é a borda simbólica que possa illscrever o que e e o que ande pela casa se segurando em móveis e paredes, mas também,
não é possível para ele com o corpo que tem. sem comentar anteriormente na sessão, começa a possibilitar-lhe
A intervenção neste momento implica marcar junto a Pedro comer sozinho, usando uma colher. Sobre isso, afirma:
suas dificuldades quando um esquema de ação falha ~ falar-lhe qu~ -Antes eu não quen·a que comesse sozinho porque se sujava, mas agora
perdeu o equilíbrio ou que seu corpo ficou todo duro estou deixando, e ele vem melhorando.
(hipertônico), que isso às vezes acontecia com ek -, assin: como
Ao brincar na sessão, é Pedro quem passa a me dar de comer
propor novos esquemas que facilitem .sua movimentaçao. Por
na boca, ficando ele numa posição ativa e colocando-me como
exemplo brincamos de nos atirar de diferentes modos sobre o
aquele que é alimentado.
colchon~te ou sobre um grande urso de pelúcia. Ped~o, deste modo,
vai construindo reações de defesa. Ajudo-o a orgaru_zar a mudança Aparecem alguns novos elementos no seu brincar, mas se faz
postural de estar sentado a estar de pé, com as flexoes de joelho e evidente a presença de certa viscosidade de pensamento, com
tornozelo para poder pegar os brinquedos. atividades que apresentam uma tendência à repetição estereotipada.
Pedro, ao ser deixado por sua conta, pode, por exemplo, ficar longo
Começo a situar a diferença entre cair em bloco, comº. corp~
. . . d f dendo "como ocorre com todas as crzanças · tempo martelando palitos de madeira num encaixe sem armar com
todo tenso e cair se e en , isso nenhuma cena simbólica de fazer de conta que era mecânico
Ao marca; esta diferença, Pedro passa a deixar de lado o c~or.~
ou carpinteiro, ainda que lhe ofertemos tal atribuição de sentido.
queixoso, a levantar-se e a retomar o que estava a fazer. Sua. a~ao lª
Tampouco é uma cena na qual esteja em jogo certa regularidade
não fica mais permanentemente interrompida pela co.ndiçao de
lógica do pensamento ou a presença de desequilibrios cognitivos
impotência à qual se via lançado ao deparar-se com suas dificuldades
que d êem lugar a novos esquemas, como martelar armando
motoras. Começa a se inscrever para ele uma borda entre o .que ~z
. , dificuldades impostas por correspondência de formas, classificando cores ou seriando
respeito as . _ sua patologia
. e as
tamanhos. Pode ficar martelando sem perceber que o "palito" não
impossibilida.des relacionadas a sua condiçao de criança.
tem como entrar em determinado buraco, trata -se de martelar
Em luaar da afirmação "você pode!", começam a se produzir aleatoriamente, numa atividade que se esgota no próprio gesto
mãe difer:ntes interrogantes acerca das demandas e ofertas qu_e despertado a partir do uso que o brinquedo sugere.
na d d ta· 'Nao
dirige a Pedro. Por exemplo, em relação ao an a or, comen .
Com jogos de encaixe de diferentes formas, que costuma
sez. se zsso
. e, ou na-o bo•"
,,,, porque Pedro está confortável
':J'
e anda por toda a casa,
pegar nas estantes, introduz as peças em forma de círculo ou cubo

208 209
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

por tentativa e erro, mas é um tenteio que não chega a percorrer enterrar diferentes partes do corpo com areia, parar e depois
todas as possíveis cavidades e que simplesmente insiste nas que ficam movimentar-se até que apareçam, o que ocorre em meio a muitos
bem à sua frente. Se não consegue encaixá-las, depois de certo tempo, risos. Neste jogo brinca-se de fazer aparecer e desaparecer o corpo.
pede que outro o faça por ele ou abandona as peças, evitando o
Para brincar é preciso articular a ausência do corpo, sua
conflito. Ainda quando descobre que uma determinada peça entra
simbolização.6 Justamente, o problema que se apresenta nos sintomas
na cavidade correspondente, na sessão seguinte, quando volta a
psicomotores é que estes tornam o corpo sempre presente, o
escolher o mesmo brinquedo, retorna ao esquema de tentativa e
permanente fracasso da função faz emergir a todo momento o real
erro, sem que sep produzida uma nova estratégia a partir da
do organismo, o tropeço na dificuldade impede que o corpo possa
experiência anterior.
ser esquecido. Daí que seja tão constituinte a brincadeira que Pedro
Não se trata aqui de uma repetição própria do prazer do produz.
brincar, que permita uma elaboração psíquica ou uma assimilação ' ....
cognitiva diante de um conflito, mas de uma produção reiterativa
Pouco a pouco, Pedro passa a querer brincar nos balanços e ....
' 1t ~li

no roda-roda. Prefere inicialmente aqueles brinquedos nos quais


que não produz a articulação e o deslizamento simbólico. Algumas ' ··~
••li!

pode ser empurrado, balançado, enfim, movimentado por outro.


sessões se sucedem nesta reiteração, e as diferentes ofertas que realizo
Com esses brinquedos vamos armando ritmos e alternância nos
..
parecem não produzir muito efeito diante do "circuito de rotina"
movimentos. Brincamos com eles até que, em certa sessão, ao chegar
que Pedro parece ter armado comigo na circulação pelo consultório.
na praça, encontra diversos meninos brincando no escorregador.
É então que me ocorre convidar Pedro a ir até a pracinha.
Pedro os olha de relance várias vezes, mas não toma a iniciativa de
Pedro toma prontamente tal proposta e, nas sessões seguintes, ir lá, até que, finalmente, ele se anima e, timidamente, vamos nos
assim que o recebo no consultório, ele logo aponta na direção da aproximando para olhar de perto como os meninos brincam.
praça, sorrindo e puxando minha mão. A partir da minha oferta
Segurando minha mão, Pedro pede para subir um pouco
inicial, é ele quem passa a me convidar a ir na praça. Ele pede também
pela parte da frente e escorregar um trecho pequeno por ali. Mas
que a mãe nos acompanhe. Do consultório até a praça, que fica
logo percebe que os outros meninos estão escorregando desde cima
dentro do hospital, há um caminho de aproximadamente 80 metros
e tem curiosidade de ir até a escada posterior. Ao chegar, pára diante
que vamos percorrendo enquanto lhe falo acerca de qual brinquedo
da escada .e vacila em subir, olha para a mãe, pedindo sua aprovação.
vai escolher, se nesse dia haverá ou não outros meninos para brincar
Finalmente se atreve e sobe os dois primeiros lances, encontrando
ou do que fizemos da última vez. Pedro, cheio de expectativa, me
uma série de dificuldades corporais, diante das quais o ajudo a ..••",
olha e sorri. Ele inicialmente segura minha mão e, posteriormente,
equilibrar-se, a ir posicionando os pés no degrau e a ir deslocando
vou propondo que se apoie em paredes ou corrimãos durante alguns
as mãos para cima pela barra de apoio, enquanto fico a trás dele
trechos do percurso.
para evitar qualquer queda.
Realização psicomotora, reconhecimento e surgimento do É então que acontece um fato que surpreende a todos. Pedro, "'
1.,
sujeito desde o segundo degrau, olha para cima; se agarra no escorregador
e não quer mais parar até que chegamos no topo da escada. Lá de
Na praça o primeiro objeto que desperta o interesse de Pedro
é a areia, ele a pega, deixa cair e depois a joga sobre suas pernas ou 6 Como situa Jean Berges (1988), Função estruturante do prazer, E scritos da Criança,

minhas mãos. Assim se arma uma brincadeira, que consiste em nº 2, Porto Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, segunda edição (N. da A.).

210 211
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

cima, ri ostensivamente enquanto olha orgulhoso para mim e para Acerca do surgimento do sujeito e do circuito pulsional,
sua mãe, que está a festejar sua conquista. Depois a mãe se posiciona Lacan afirma:
no final do escorregador e chama Pedro. Ele se senta e, decidido,
lança-se a deslizar pelo escorregador. "Freud dá por certo que não há parte alguma do trajeto da
pulsão que possa separar-se de seu vaivém, de sua reversão
Pedro experimenta ali o prazer de brincar com este corpo,
fundamental, seu caráter circular (...) toma o cuidado de assinalar
um corpo que não se faz presente como obstáculo, como torpeza,
muito bem que há três tempos, não dois, nestas pulsões. Há que
mas cujas limitações podem ficar esquecidas na cena movida pelo fazer a distinção entre o retorno no circuito da pulsão e o que
prazer de brincar. Ali as diferentes funções podem articular-se num aparece - ainda que seja por não aparecer- num terceiro tempo. Ou
funcionamento psicomotor no qual o corpo fica situado do lado seja, a aparição de ein neues Suf?jekt, que há ele ser entendido assim
do prazer. Pedro se faz olhar pela mãe, é diante do olhar materno - não é que há um sujeito, o da pulsão, mas que o novo é ver
que ocorre a cena na qual subir e deslizar pelo escorregador adquirem aparecer um sujeito." 9
o estatuto de uma realização psicomotora.
Justamente esta aparição do sujeito é do que se trata na cena
A postura é interessada pela pulsão na medida em que é suscitada pela
do escorregador. Tal cena adquire o estatuto de uma cena fundante,
expectativa do prazer na mãe ( ..) Evidentemente, a realização tem algo a ver
de um prazer articulado no brincar e retomado como realização a
com o desqo do outro, na medida em que esta funçào acontece sob o seu olhar. 7
partir do reconhecimento materno. Pedro se segura, sobe um lance,
Esta é a importante diferença entre o funcionamento da função e
outro e mais outro, e, de repente, está agarrado ao escorregador,
uma realização, que implica o enlaçamento de tal funcionamento ao
não quer mais descer dali. A corda da pulsão ali se estica, não pode
desejo do Outro encarnado.
anular a tensão despertada pela aventura, Pedro já não pode ceder
Nesta cena do escorregador podemos vislumbrar os efeitos diante do desejo que leva adiante seu corpo cambaleante, este corpo
deste estiramento da corda da pulsão para que um sigeito possa advir ali. O que pode até cair, tropeçar, mas que nem por isso fará cair o sujeito
pequeno menino no alto do escorregador se oferece como objeto do desejo implicado nesta realização.
do desejo do Outro - ele ativamente vai em busca de fisgar este
A pulsão não tem um objeto inscrito a priori, por isso o
desejo do Outro e se coloca em cena de modo a ocupar o lugar
trabalho com bebês e pequenas crianças não consiste em produzir
fálico daquele que pode com o seu corpo-, neste fazer-se olhar ele se
exercícios que estabeleçam uma espécie de correta correspondência
implica como sujeito.
entre impulso e finalidade.
Neste terceiro tempo da pulsão, 8 para além de ser olhado ou
de olhar, ele se faz olhar, ele ativamente se precipita numa realização "A pulsão é justamente a montagem através da qual a
que lhe diz respeito. Portanto simultaneamente ocupa ali a posição sexualidade participa ela vida psíquica, e de tal maneira que tem
que conformar-se com a estrutura de hiância característica elo
de objeto ?o desejo do Outro e de sujeito que ativamente procura
inconsciente(...) no referente à instância da sexualidade, a situação
ocupar esse lugar.
é a mesma para todos os sujeitos, sejam eles adultos ou crianças -
todos se deparam somente com a sexualidade que passa pelas
redes do significante" .10
7
Idem, p. 46 e 49.
8
Ver nota 10 do capítulo A demanda de tratamento na clínica com bebês - quando 9 Jacques Lacan (1964), Seminmio 11, Buenos Aires, Paidós, p. 186.
o futuro fica em xeque (N. da A.). 10
Idem, p. 183/184.
212 213
PEDRO E O ESCORREGADOR
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM

, d . A pulsão também tem suas vicissitudes


Se o circuito pulsional é uma montagem é porque não está 0curso d a agua o no. . , . . . .
marcadas pelo modo particular em que o s1mbolico sobre ela mc1diu.
dado, mas sim produzido, armado. Do mesmo modo em que a
água da chuva arma percursos em função das características Vale destacar, para poder pensar nas pulsões, a difere~ça entre
geográficas do solo que a recebe, é sobre a estrutura simbólica que destino e vicissitudes: o destino diz respeito a algo. que vai o~orrer
antecede o bebê que se constituem os trilhos pelos quais se porque está previamente inscrito, também quer ~zer ~ue ~a .uma
organizarão os circuitos pulsionais. determinada finalidade em relação a algo ou alguem. ~a vic1ss1tude
im lica as transformações que ocorrem em uma sucessao de eve~tos
Mas não basta a chuva ou o solo que a recebe para que se
e :ortanto não consiste no que já está dado e pode ser prev:s1~el,
produza um rio, do mesmo modo em que não basta a estrutura
simbólica que antecede o nascimento e a permeabilidade ao
~ois comp~rta uma certa dose de aventura, seu fim ou decorrenc1as
significante como característica constitutiva do filhote humano para comportam certa incerteza.
que se produza um sujeito do desejo. É preciso que haja um Outro Por isso, quanto ao estabelecimento pulsional de um be.bê
• IOllO

encarnado para que, a partir de seu desejo não anônimo, a estrutura (ou criança pequena), como nele ainda está se inscrevendo o circuito ".11 1 ~

simbólica faça marca no corpo do recém-nascido. É este Outro . 1 a intervencão aponta a possibilitar que ocorra um
pu1s1ona , , d ·
encarnado que não só atribui significação às expressões corporais estiramento da corda da pulsão, pela sustentação de um . e_seJ.º que
do bebê como também, com seu desejo inconsciente, marca, . 1 - a ele permitindo-lhe aventurar-se nas vic1ss1tudes
opere em re açao ,
interdita, faz obstáculo ou abre caminho, vetorizando a pulsão do pulsionais, em lugar de condenar as mesmas ao achatamento
bebê. fastidioso da repetição estereotlpada.
"Não somente esta expressão corporal encontra-se idas à praça permitem novas vicissitudes
assujeitada ao outro a quem o gesto é dado a ver, sujeitado ao seu
e om P e d ro, as l' '",Ili
lsionais além da mera repetição estereotipada de martelar pa itos
olhar, como a palavra ao ouvido do auditor (...) senão que o pu ' A • 1 - 1 espaco que vai
e remexer colherinhas em xícaras. [\. circu açao pe o ,
corpo é antes de mais nada um receptáculo, o lugar de inscrição de
da sala à praça é sustentada, para Pedro, pela pal~vra do Outro, àe,
uma trama implacavelmente destinada a imprimir-se com os
ao roduzir uma extensão do encadeamen,to s1grufican~e, pro uz
cenários e as cores de outro." 11
nel~ um estiramento da corda da pulsão. E nesse mov1men_t~ da
Há, deste modo, uma diferença entre considerar que há uma pulsão encadeada ao significante do Outro que vemos surgir um
estrutura que antecede o bebê - a estrutura anônima da linguagem
sujeito.
- e considerar o modo pelo qual tal estrutura produzirá nele efeitos
No final dessa sessão, quando já estamos saindo da praça, a
de inscrição. Para tanto, será preciso uma trama simbólica em que o
desejo de um Outro não anônimo fique implicado, fazendo, a partir mãe comenta:
da mestria do seu desejo, as marcas simbólicas que, no corpo do - Não tive medo porque eu sabia que você estava com ele (. ..) sempre o
bebê, inscreverão seus circuitos pulsionais. ·'pode brincar nestes.
levei a brinquedos de meninos menores, mas agoraJª .
, d arco transferenctal
Assim o circuito pulsional tomará a forma das inscrições que É pela sustentação que ocorre atraves o m , ti
1 d perimentar a angus a
marquem seu curso, como as rochas, depressões e elevações marcam
que se faz possível para a mãe, em dro ugar e ex
poder expenme
. ntar 1· unto a
pela antecipação do fracasso d e P e ,
11
Jean Berges (1988), O corpo e o olhar do Outro, Emitos da Criança, n" 2, Porto ele 0 júbilo da realização.
Alegre, Centro Lydia Coriat de Porto Alegre, segunda edição, p. 51.
215
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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

Esta é uma das posições em que, ao longo de um tratamento, caminhando lado a lado, mas sem dar as mãos. Eventualmente Pedro
ficamos diversas vezes situados pela transferência parental: a de pára, olha· para mim e para a mãe, insiste em solicitar a mão, mas,
supostos avalistas ou fiadores de certas produções da pequena criança quando marco que ele já pode ir andando sozinho e que estaremos
ou do bebê. A partir da transferência fazemos a aposta que dê lugar por perto para ajudá-lo, ele prossegue.
a que a produção possa advir no pequeno paciente, sustentando-a
Não dar a mão a Pedro implica uma intervenção em ato que
por meio da palavra e também pelos cuidados corporais que se
produz um corte, tanto em relação ao lugar em que Pedro se oferece
fazem instrumentalmente imprescindíveis para que advenha uma
- de ser cuidado e protegido, ainda nas situações em que tem recursos
realização. Assim, não se trata só de falar sobre o escorregador
,..
.~
com o Pedro, reconhecendo seu incipiente desejo, mas também de
para se virar sozinho -, como em relação à convocatória da mãe -
que reluta em remetê-lo a uma legalidade, em dizer-lhe "não" e em
ajudá-lo a posicionar os pés e as mãos para subir, para que ali possa
advir uma realização. Esta é uma posição transferencial absolutamente dirigir-lhe demandas constitutivas.
necessária num momento no qual os pais ainda não conseguem Numa sessão anterior, a mãe havia falado do quanto era difícil
correr sozinhos tal risco e ali nos convocam. Podemos assim produzir para ela dizer "não" ou demandar certas produções de Pedro, mas
através da transferência o ponto de pivô para que eles possam vir a que se sentia "aliviada quando isso ocorria nas sessões'~ porque via que
implicar-se em suas próprias apostas nas produções do filho. Pedro conseguia ir respondendo aos desafios que lhe eram
Pedro não só desliza do lugar de impotência diante da lesão propostos.
...
·: que se manifesta em sua motricidade, experimentando o prazer Portanto, tal intervenção não ocorre em qualquer momento.
corporal de brincar. Ele também o faz em presença da mãe, que, Parte da leitura clínica das possibilidades psicomotoras de Pedro,
ao sancionar tal produção como uma realização, reposiciona o lugar da sua condição psíquica de poder começar a aventurar-se em novas
de Pedro no discurso parental: '54gora pode ser levado a brinquedos de realizações e, principalmente das condições transferencias para que
1 meninos maiores". a intervenção desse lugar a uma produção de Pedro em lugar de
1
:1 recair como um imperativo violento para ele e para sua mãe. Apesar
1"! A realização instrumental como precipitação do sujeito e como desse cálculo, a intervenção é sempre uma aposta, e só depois
ato simbólico saberemos dos seus efeitos.

Ao longo do tratamento, Pedro apresenta uma grande Na sessão seguinte, Pedro e sua mãe não comparecem.
evolução quanto à possibilidade de apropriação do movimento de Continuo a me perguntar pelos possíveis efeitos da intervenção
seu corpo e estabelecimento de novas estratégias psicomotoras: surge realizada. Será que, apesar de todos os cálculos, a intervenção não
a flexão de joelho, mudança de postura de estar sentado a estar de incidiu no momento certo? Será que, em vez de dar lugar a uma
pé com desenvoltura e possibilidade de maior equilíbrio estático e produção de Pedro, teria despertado uma resistência parental, a
dinâmico. Ele já !).ão está tão preocupado com seu corpo e consegue partir da qual continuaria a ser suposto num lugar de incapacidade
sobrepor seu interesse em brincar às dificuldades psicomotoras que e de impotência? Foi preciso esperar.
comparecem. No entanto, não se aventura a caminhar sozinho, Uma sessão depois, ao abrir a porta do consultório, encontro
ainda que já tenha condições psicomotoras de fazê-lo. Pedro em pé, sozinho, na metade do corredor. Ele me olha sorridente
É então que, em uma das idas à praça, quando Pedro me e entra na sala caminhando, enquanto a mãe diz, também muito
pede que lhe dê a mão, decido dizer-lhe que, dessa vez, iremos contente:
216 217
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

- Na vezpassada não pudemos vir porque eu não tinha com quem simbólica favorável ao advento de uma realização do pequeno
deixar a irmã de Pedro, então viemos hoje para contar a novidade. Pedro está paciente. Também é fundamental não perder de vista - e é isto que
caminhando. Seu pai está viqjando, não vemos a hora de que ele volte para ficar comparece em relação ao caminhar de Pedro - que, qpando um.a.,
sabendo da novidade. r.rod ção--Ínstrumental é sancionada como unLa-to simbólico~ isto
Como situamos, a demanda do Outro tem efeitos decisivos _ggilié_m_pr_oduz conseqüências 110 disc~rso parental que podetT!
para que se produzam as diferentes aquisições de um bebê que ser propiciadoras da suposição de sujeito no bebê e da aposta em
suaêãpacidade para ter acesso a realizações. -
serão lidas a posteriori como desenvolvimento e para que as mesmas
se estabeleçam como realizações - na medida em que o circuito
A repetição própria do brincar e o acesso ao simbólico
pulsional, na busca pelo prazer, enlace o funcionamento da função
orgânica ao campo do Outro. Uma nova brincadeira aparece nas sessões com Pedro. Ela
( Mas, ainda que desde o anátomo-funcional um infante consiste em fazer torres e derrubá-las. Construímos a torre, cada
encontre-se plenamente capacitado para uma aquisição (registro real vez mais alta, e ele ri com grande prazer ao empurrá-la e destruí-la.
da temporalidade), ainda que estejam operando desde o Outro as Depois, começa a colocar sobre elas um boneco de borracha.
antecipações imaginária e funcional que o situam como capaz (registro Enquanto a torre balança, eu digo "ai, ai, ai!", e ele ri com o suspense
da temporalidade imaginaria), há um momento no qual é ele que que causa. o cai-não-cai. Depois, digo "ele caiu!", referindo -me ao
precisa lançar-se nessa conquista, implicar-se nela como sujeito, boneco de borracha, enquanto ele dá gargalhadas com a situação.
precipitar-se numa certeza antecipada 12 acerca desta ;ealização que Depois de repetir essa cena por alguns momentos, no início de
busca fisgar o desejo do Outro (temporalidade simbólica). diferentes sessões, um dia ele me mostra algo que até então eu não
havia notado: é que o boneco que ele escolheu para tal brincadeira
Na vida de Pedro, caminhar adquire o estatuto de um ato,
apresenta um curativo saliente na testa (feito em relevo com o mesmo
constitui em sua vida um marco simbólico que estabelece claramente,
material que o resto do boneco).
pelo relato materno, um antes e um depois. E justamente por isso
não é um acaso, e sim uma conseqüência de tal ato, que Pedro Pela via deste boneco, Pedro pode começar a representar
comece a ser vestido com roupas de menino e não mais de bebê. algo acerca do ferimento, da lesão em seu próprio corpo. É evidente
Passa a usar tênis, calça jeans e camisas ou camisetas, e não usa mais o prazer do brincar simbólico que se articula nesta produção ao
o babador. Pedro tem então três anos e meio. realizar ativamente o que sofre passivamente - agora quem cai é
outro, é outro quem se machuca, e é Pedro quem produz ativamente
Encontramos aqui a noção própria de estrutura na qual,
tal cena no brincar. Ofereço estas palavras na cena. Pedro me olha
quando um elemento se desloca, desliza, muda de lugar, toda a
enquanto lhe falo e mostra o ferimento do boneco.
estrutura se modifica. Do mesmo modo, é por realizar uma
aquisição instrumental que pode ser modificada a posição na qual o Outra brincadeira que começa aparecer é a de fechar e abrir
bebê ou pequena criançá ficam situados pelo discurso parental. portas, na qual Pedro decide quem entra e quem fica de fora, rindo
quando quem fica de fora pede para entrar e ele não deixa. É uma
Por isso, a intervenção clínica não consiste apenas em escutar
brincadeira que articula presença e ausência, chamados e respostas
e intervir com o discurso parental, a fim de possibilitar uma matriz
sonoras em que desfruta de ser ele quem deixa o outro de fora.
12
Jacques Lacan (1945), El tiempo lógico y el aserto de certidumbre anticipada, un Trata-se de uma produção interessante de ser considerada, dado
nuevó sofis111a. Esctitos 1, Buenos Aires, Sigla Veintiuno.

218 219
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

que a mãe de Pedro não conseguia sair de casa e deixá-lo e que este Surge, então, algo novo: Pedro pega terra num vaso de plantas
estava sempre a controlar onde estava a mãe, sem permitir que se e esfrega no João, que fica todo sujo, e aponta para ele. Então eu
ausentasse e sem tolerar tal ausência. Agora ele pode começar a se digo: "Foi o João, foi o João que fez caca!". Pedro diz que sim com a
sustentar psíquicamente em ausência da mãe, na medida em que, cabeça e ri. Pergunto-lhe o que vamos fazer agora que João fez
simbolicamente, pode contar com ela. É neste momento que a mãe cocô. Ele pega João, o limpa com um papel, faz como se trocasse
começa a ficar na sala de espera e que grande parte da sessão ali suas frald~s e a brincadeira recomeça. Nesta cena ele é o adulto que
tra~scorra, ainda que seja possível para Pedro, por pequenos cuida do menininho que fez cocô.
penodos, começar a entrar na sala sem a mãe.
A partir do interesse de Pedro se constituem brincadeiras
No fim de uma sessão, na hora de ir embora, Pedro esconde que apontam para o controle esfincteriano - brinca depois com
um obje~o de seu interesse na calça para que eu não veja que ele um pequeno vaso sanitário e senta os bonecos ali. Na vida cotidiana,
quer leva-lo. O que aponta que o Outro, antes tão absoluto e isso se acompanha por demostrar interesse em acompanhar os
poderoso, pode começar a ser esburacado já não sabe de tudo e outros ao banheiro, querer acompanhar a troca de fraldas da sua
quem sabe, possa até ser um pouco engan~do. Surgem nesta ép~c; irmã e solicitar que troquem as suas fraldas logo em seguida haver
as pnme1ras palavras, papá, mamá, nene (menino em espaiiol) e caca feito cocô. Marca-se assim a possibilidade de que possa começar a
(cocó). Tem então quase quatro anos. 13
ser oferecido o penico ou redutor de vaso sanitário a Pedro, e que
a demanda de controle esficteriano seja posta a circular pelo parental.
A mudança na primazia de zona erógena
Que a demanda se apresente e que a pequena criança esteja
Recebo Pedro com um fantoche chamado João. Tal fantoche em condições psíquicas e de maturaçã o anatômica para a ela
já vinha fazendo parte de algumas sessões, nas quais Pedro ria de responder são três condições necessárias para que o controle
seus movimentos, tirava-o da minha mão e tentava colocá-lo na esfincteriano possa vir a ocorrer. Por isso as três condições precisam
sua'. demostrand o que havi a desvendado o segredo do ser consideradas no tratamento.
func10namento do brinquedo. E m uma dessas sessões, Pedro chega Mas como surge esse interesse pelo controle esfincteriano
com cocô nas calças, mas se comporta como se nada estivesse em Pedro? O que opera a mudança na primazia de zona erógena
acontecendo, apesar de que resulta evidente para os outros que ele em certos momentos da vida? Consistiria em uma passagem
fez cocô. E ntão é o fantoche João que tapa o nariz e fala do cheiro "natural"? É uma das concepções que se têm a este respeito e que
mas sem dizer de quem é o cocô que ali está. Pedro acha iss; se apoia em certa leitura do texto Três ensaios sobre sexualidade 14 , no
engraçado e c~meça então uma brincadeira na qual João pergunta qual Freud fala do "desenvolvimento psicossexual".
quem fez coco e Pedro acusa um ou outro - a mim, a mãe ou
algué~ qu~ por ali passa,-, apontando e fazendo "aaa!", enquanto Porém é o próprio Freud quem também situa que a
n da s1tuaçao. sexualidade humana não se estabelece por vias naturais. Assim, a
diferença entre os sexos não está previamente e biologicamete
estabelecida para as crianças como uma diferença macho/fêmea
3
' O considerável atraso na fala de Pedro, mesmo depois de sua clara intenção de se que conduz as suas escolhas sexuais. A escolha de objeto dependerá
comurucar, fez com que se levantasse a pertinência clínica de realizar uma nova bateria de processos identificatórios resultantes do estabelecimento das
de exames auditivos - apesar de a primeira não ter apontado dificuldades. Mais tarde
confirmou-se uma perda auditiva por prováveis otites de repetição (N. da A.). ' 14
Sigmund Freud, 1905, E.S.B., vol. VII, Rio de Jan eiro, Imago.
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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PEDRO E O ESCORREGADOR

diferenças simbólicas de passivo/ ativo e feminino/ masculino. Uma As pulsões têm suas vicissitudes marcadas pelo circuito do
longa investigação sexual terá que ocorrer para que tais diferenças desejo, demanda e inversão da demanda produzidas pelo
possam chegar a estabelecer-se e para que caia a primeira das teorias enlaçamento, pelo engaste ao campo do Outro que fazem marca
sexuais formuladas pelas crianças: a da atribuição universal do pênis simbólica ordenando o funcionamento do corpo de um bebê.
a homens e mulheres. 15 Isto indica que a sexualidade humana, os Mas, para que advenha uma realização do lado da criança,
investimentos em determinadas zonas erógenas, necessariamente não basta uma demanda imperativa a partir do parental, é preciso
passam pelos desfiladeiros do significante. Ela não ocorre que o circuito de desejo e demanda parental incida em um tempo
naturalmente pelo processo de maturação, mas está atrelada ao psíquico e em um tempo maturacional do lado da criança, que
campo de desejo e demanda do Outro. 16 permita que os efeitos de tal demanda se precipitem nela como
Que tal passagem na primazia das zonas erógenas não seja uma conquista, como um domínio, como uma possibilidade de
da ordem da maturação, que ela não esteja dada por uma cronologia apropriação de seu corpo e do funcionamento de suas funções.
que independe do sujeito, não quer dizer que ela não siga certo
Deslizamento significante e estiramento da corda pulsional
ordenamento lógico, poú o oral continua sendo oprimeiro e oanal o segundo 17 ,
mas tal ordenamento se estabelece a partir do enlaçamento da pulsão
Panelas, praça, areia, escorregador, boneco que cai, curativo,
do bebê ao campo do desejo e demanda do Outro.
fantoche, terra, cocô não são objetos que portam características
''A passagem do oral ao anal se deve à intervenção da
intrínsecas capazes de propiciar desenvolvimento. Se fazem série na
demanda e não a alguma dimensão do corpo entendido como vida de Pedro, é uma série simbólica o que está em questão. É no
corpo natural. Se a dialética se inicia pela oralidade, não é pela deslizamento de tal série que a corda da pulsão vai sendo estirada, e
preeminência do chupar no começo da vida, mas porque no que também vão ficando como pontos de amarra, como marcos
começo da vida o choro é interpretado por algum Outro como na vida de um bebê ou criança, as diferentes produções que poderão,
chamado dirigido a ele, é o verdadeiro início lógico do humano: a a posteriori, ser lidas como desenvolvimento.
transformação do grito em chamado. E como o Outro faz do
choro uma demanda, se segue o inevitável- o efeito inverso: se Poi; isso brincar é tão importante, pois implica o deslizamento
recebe do Outro sua própria demanda de forma invertida, do desejo, o estiramento da corda da pulsão na série simbólica que
"demanda do Outro", ou seja: controle de esfíncteres. O controle vai sendo constituída.
de esfíncteres é aquilo que inscreve a inversão da demanda. Agora
Com cada bebê ou criança pequena, a série simbólica que
se é demandado por Outro. De modo que o controle de esfíncteres
não faz mais do que metaforizar um efeito de estrutura: que o
permitirá o estiramento da corda da pulsão e a amarra de diferentes
sujeito é demandado somente porque alguém - Outro - tomou aquisições será única e diferente. Só saberemos dela a posterion; pois
seu choro como uma demanda." 18 ela implica uma aventura do desejo. Mas sabemos também que,
para que ela possa ser produzida, será preciso um Outro não
15
Sigmund Freud (1908), Sobre as teorias sexuais de crianças, E.S.B., vol. IX, Rio anônimo que antecipadamente aposte, banque com seu desejo tal
de Janeiro, Imago. aventura ao supor um sujeito no bebê. Como clínicos que intervêm
16
Ver Jacques Lacan (1964), Seminario 11, p. 187; citação realizada no capítulo com bebês, estamos transferencialmente :implicados na possibilidade
Temporalidade e desenvolvimento, referência na nota 24 desse capítulo (N. da A.).
de que se opere tal aposta.
17
Alfredo Eidelsztein (1995), obra citada, p. 181.
18
Idem, p. 182.
223
222
PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

mortalidade infantil como também de morbilidade resultante de


quadros infecto-contagiosos ou de inadequada nutrição, que
repercutem de forma decisiva sobre o futuro de uma criança,
podendo limitar sus capacidades físicas e mentais.
Se a prevenção, de modo amplo, implica a realização de um
ato no sentido de evitar um dano, ou seja, de intervir precocemente
antes de que seja demasiadamente tarde em relação aos efeitos de
una patologia, qual é a função específica da clínica em estimulação
É POSSÍVEL PREVENIR OU SÓ RESTA REMEDIAR? precoce no campo da saúde preventiva? O que se tenta prevenir
PRECOCIDADE E PREVENÇÃO NA por meio desta especificidade clínica com bebês?
INTERVENÇÃO COM BEBÊS 1 E, ao partirmos do corte epistemológico que a psicanálise
produz nesse campo, a pergunta que se apresenta é: seria possível
antecipar-se à inscrição da estrutura no bebê e prevenir autismo,
Os primeiros anos de vida se caracterizam por ser uma etapa
psicoses e quadros de exb'.emo empobrecimento psíquico? Ou estaria
de constituição. Um bebê está em pleno processo de maturação
o nosso exercício clínico inexoravelmente situado do lado de
das estruturas anátomo-fisiológicas; de crescimento corporal; de
"remediar" efeitos da estrutura?
aquisições instrumentais fundamentais quanto a linguagem,
psicomotricidade e aprendizagem; está também no tempo em que A prevenção secundária na clinica com bebês 2
se operam as primeiras insc1ições psíquicas.
' Maturação, crescimento, aquisições instrumentais e constituição , Cotidianamente recebemos, em instituições particulares ou
do sujeito psíquico, se bem que digam respeito ao tempo da infância em serviços públicos, bebês com danos orgânicos já estabelecidos
como um todo, em nenhum outro momento da vida passam por - por deficiências sensoriais específicas ou múltiplas, patologias de
modificações tão radicais quanto nos três primeiros anos de vida. 01igem neurológica, quadros resultantes de patologias genéticas, virais
Daí a importância de se realizar uma intervenção de saúde preventiva ou infecciosas - que comprometem o desenvolvimento.
com a primeira infância. · A intervenção em estimulação precoce, em tais casos, se
. Várias disciplinas, desde a medicina até a assistência social, caracteriza pela prevenção em nível secundátio: se bem que ela ocorra
cumprem importantes tarefas ao se tratar da prevenção na primeira com bebês que sofreram um dano primário em seu organismo que
infância. Muito há para fazer através destas disciplinas em países do já não pode ser evitado, no entanto, a intervenção aponta a reduzir
terceiro mundo, que contam com índices alarmantes não só de o máximo possível as limitações que a patologia impõe ao bebê.
· Para tanto, resulta fundamental que a intervenção clínica não
1
Parte deste capítulo foi utilizada na fund amentação teórica da pesquisa de recaia apenas sobre o aspecto ou função orgânica que sofreu o
estabelecimento de Indicadorns pam a detecção precoce de riscos no desenvolvimento infantil,
realizada junto ao Ministério da Saúde do Governo Federal do Brasil. Ver referência 2
Parte das questões aqui referidas acerca da prevenção secundária foi apresentada
a tal pesquisa na nota 6 do capítulo Situando a clínica com bebês. A partir da no II Encontro Nacional solm clinica com bebês, realizado em Recife (2000) e publicadas
discussão com tal grupo de pesquisa foram feitos alguns acréscimos no texto original, no artigo Quando o que se antecipa é o fracasso, Ate11di111ento ao Bebê, org. Maria do
no ponto "critérios para precoce detecção" (N. da A.). Carmo Camarotti, São Paufo, Casa do psicólogo, 2001 (N. da A.).

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

dano, mas que se conte com todos os recursos potenciais que um exemplos entre tantas outras, o orgânico faz comparecer uma menor
bebê possui, ao invés de focar apenas aqueles afetados pela patologia. permeabilidade na recepção das marcas que provêm do Outro.
Para começar, com a grande plasticidade neuronal característica dos Mas a clínica nos mostra que se tornam ainda mais graves para um
primeiros anos de vida, que não só possibilita certos efeitos de pequeno paciente os efeitos imaginários das patologias quando 0
compensação orgânica diante de uma lesão, mas que aponta a que dele se diz é: "falamos pouco com ele porque não ouve" ou ]alamos
necessidade que o organismo tem de receber o "alimento funcional" pouco porque não sabemos se consegue entender o que lhe dizemos". Aí percebe-
do meio para se constituir adequadamente. Isto porque, no se como algo que é da ordem de uma limitação orgânica passa a
momento do nascimento, as estruturas anátomo-fisiológicas de um operar como obstáculo simbólico e imaginário no estabelecimento
bebê não estão completas e dependem, para sua construção, das do laço entre o bebê e os pais.
vicissitudes de seu funcionamento. Se, por um lado, há uma limitação presente no organismo
. Daí que também seja fundamental na prevenção secundaria, do recém-nascido, e, por outro, a sobredeterminação simbólica da
considerar não só as limitações reais que uma patologia impõe estrutura parental na qual o bebê é recebido, há ainda um terceiro
organicamente ao bebê, mas também as limitações imaginarias aspecto a considerar: as conseqüências que os diagnósticos e
produzidas pelo modo em que tal patologia fica representada. intervenções podem ter num tempo tão precoce, em que o laço
pais-bebê ainda está sendo estabelecido e que, por isso mesmo, se
. É na medida em que, diante do orgânico, se tece alguma caracteriza por ser extremamente suscetível às atribuições e aos
tentativa de inscrição que se produz, a partir do mesmo, um sintoma diferentes dizeres de médicos e clínicos.
psíquico.3 Ou, para dizê-lo em outras palavras, um sujeito não pode
padecer do que não tem registro. Mas, ao tratar-se de um bebê, já Neste sentido, detectamos, de modo bastante recorrente, a
que ele mesmo, por sua condição de infans, encontra-se sujeitado à incidência de dois mecanismos que se interpõem no estabelecimento
tela simbólica dos pais, é no laço com os pais que a patologia assumirá do laço pais-bebê:
inicialmente sua representação. - O mecanismo das profecias auto-realizáveis
· O modo em que um bebê é tomado no circuito de desejo e - A antecipação de insHftciência no bebê
demanda dos pais é decisivo para sua constituição como sujeito e
para seu acesso a diferentes realizações instrumentais. A presença de Na economia denominam-se profecias auto-realizáveis os efeitos
uma patologia pode vir a obstaculizar tal circuito, causando produzidos, por exemplo, pelo rumor de que um banco corre o
secundariamente danos que não estão impostos pela patologia em risco de quebra financeira. A partir do rumor, todos os correntistas
si, mas pela representação simbólica e pelos efeitos imaginários que subitamente retiram seus investimentos e, com isso -
independentemente de que o rumor da quebra tenha sido verdadeiro
ela engendra.
ou não-, seu efeito se realiza, e a conseqüência é a falência bancária.
É inquestionável que um bebê com uma lesão, com uma
síndrome ou uma malformação conta com menos vias ou tropeça Um mecanismo homólogo aos das profecias auto-realizáveis
em mais limitações orgânicas. Diante de certas patologias, como a ocorre no laço de diversos pais com seus bebês. Pois a presença de
deficiência visual, auditiva ou mental, que podemos tomar como uma patologia no bebê, a representação que a mesma assume desde
a tela simbólica parental, pode produzir uma retirada do investimento
no bebê. Deste modo, deixam de ser-lhe dirigidas certas demandas
3 Como aponta Lacan (1975). Seminário 23, Le Si11thome, inédito, o sintoma é o
efeito do simbólico no real (N. da A.).

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ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇAO

por supor antecipadamente que seria incapaz de. responder a ~l~s. .. Para abrir lugar no marco da estimulação precoce à
Ao produzir antecipadamente a retirada do investimento necessano ress1gificação da patologia é preciso trabalhar não só com a escuta
para que tais realizações pudessem advir, a profecia de fracasso dos pais, mas na cena clínica de pais e clínicos junto ao bebê.
acaba por se cumprir, ainda que inicialmente a patologia orgânica
Importantes efeitos desta clínica se produzem no encontro
não as impedisse.
com a diferença de lugares em que um bebê fica suposto pelos pais
Percebemos a incidência de tal mecanismo, por exemplo, no e aqueles que, de fato, pode chegar a assumir a partir de um marco
caso de um bebê, em que o "mamama" que ele produzia em seu favorável à sua produção oferecido pela cena clínica. Muitas vezes a
balbucio não era sancionado como "mamãe" porque os pais tinham intervenção se dirige ao bebê supondo-o, em presença dos pais,
entendido, a partir do diagnóstico, que seu filho jamais iria falar. Ou, como capaz de certa realização. Assim operamos quando tomamos
no caso de um pequeno paciente com mais de quatro anos, ao qual seu balbucio como fala, seu sorriso como endereçado a alguém
não era oferecido o penico porque dele não se esperava - e, portanto, en~e os presentes ou quando ofertamos uma nova postura que os
não se demandava - o controle esfmcteriano. pais não consideram possível, mas que, como clínicos, podemos ler
Quando uma patologia orgânica é detectada no bebê que o bebê está em condições de realizar.
rapidamente prolifera a produção de diferentes respostas que Efetuar tal leitura implica conhecimentos específicos vindos
procuram recobrir a irrupção do real que ela comporta. da neurologia, psicomotricidade, lingüística, entre outros, que
Freqüentemente, médicos e terapeutas vêm oferecer prontamente perffiltam favorecer as aquisições instrumentais de um bebê. Mas
aos pais suas próprias versões acerca do futuro do recém-nascido também fica em jogo ali o modo em que situamos o bebê na cena:
- quais expectativas devem alimentar, quais procedimentos devem não como objeto a ser estimulado e sim como suposto sujeito. Ao
adotar com a criança, que destino podem dar a suas próprias intervir deste modo apontamos a produzir certas operações que
angústias etc. O problema é que tais respostas costumam apresentar- são constituintes do sujeito psíquico: estabelecimento da demanda
se antes mesmo de que os pais possam abrir uma interrogação suposição do sujeito, alternância e alteridade. '
própria acerca do desejo que os implica ao bebê.
Diante de tais cenas clínicas que vêm autenticar a produção
Os comunicados de diagnósticos precoces costumam do bebê c?mo eficaz, com bastante freqüência escutamos os pais
comportar algo de inevitavelmente traumático, porém efeitos dizerem: "E a primeira vez que ele Jaz isso!". O que há de importante
bastante mais problemáticos são engendrados quando, diante da nesta fala é, por um lado, o testemunho dos pais diante da surpresa
angústia que tal comunicado desperta, os médicos ou agentes de com a produção do bebê que se oferece aos seus olhares e que faz
saúde tentam recobrir a irrupção do real provocada pelo diagnóstico operar neles um reconhecimento. Deste modo, os pais podem
com suas próprias versões imaginárias acerca do futuro de um bebê. atribuir "pela primeira vez" à produção do filho um valor fálico. E,
Se o estabelecimento do real é um passo necessário na direção por outro lado, também é preciso considerar que é justamente a
do tratamento, é fundamental, para os efeitos de filiação de um partir de tal reconhecimento do Outro que a produção do bebê
recém-nascido, que os pais, além das informações que precisam assume o caráter efetivo de uma realização. 4
receber, possam pôr em movimento as suas próprias significações
e ressignificações acerca da patologia e à incidência da mesma no
4
futuro sonhado para seu filho. Ver capítulo Pedro e o esco1ngador - o que desliza quando brincamos, ponto "Realização
psicomotora, reconhecimento e surgimento do sujeito" (N. da A.).

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

Não é casual que tal reconhecimento se produza inicialmente armar a passagem postural do trípode à reptação, acendem 0
numa cena na qual os pais contam com uma sustentação interruptor de luz quando o gesto da criança poderia levar ao pular,
transferencial do clínico em estimulação precoce. Pois justamente o intuem o que a criança quer dizer antes mesmo que ela possa concluir
marco da cena clínica aponta a deslocar a bruma da patologia que sua palavra.
nubla o olhar dirigido ao bebê e permitir que opere o
Diante da expectativa que recai sobre o bebê ou pequena
reconhecimento do Outro encarnado que faz da produção do bebê
criança de que não teria condições de produzir as diferentes
uma realização efetiva. 5
aquisições, uma das respostas formuladas é procurar suplantar sua
Outro dos mecanismos que freqüentemente se interpõem suposta insuficiência com a "estimulação a mais" que o saber técnico
no laço pais-bebê em presença de uma patologia orgânica de base viria a oferecer. Diferentes intervenções técnicas acabam por ficar
é o da suposição de insuficiência. tomadas nesse mecanismo sintomático que condena o bebê à
passividade, ao fazê-lo objeto do método que nele se aplica. Quando
Em grande parte dos casos de bebês que apresentam
as manifestações sintomáticas se fazem presentes em vários aspectos
, problemas orgânicos de base encontramos superposto um sintoma
do desenvolvimento, os bebês são levados a múltiplos tratamentos,
de passiviZfição psíquica. Na medida em que um bebê é antecipadamente
que, ao propor intervir sobre cada um dos déficit funcionais, lançam
suposto como incapaz, nos cuidados que lhe são dirigidos fica
suprimida a passagem dos tempos pulsionais entre ofazer no bebê - o bebê à fragmentação anônima das funções.
e11). que este é falado, movido, ou seja, é tomado desde uma É certo que, diante de um problema que se apresenta no
passividade - e o dar lugar para ele fazer- no qual se abre lugar para desenvolvimento de um bebê, fazem-se necessários os
sua atividade. conhecimentos de diversas disciplinas, mas um problema clínico
comparece quando tal diversidade de conhecimentos científicos,
A posição ativa do bebê é inicialmente sustentada pela mãe,
que atribui a ele a autoria de certas produções, mesmo nos primeiros em lugar de ser articulada de modo a produzir um marco propício
à constituição, recortam no bebê os objetos de estudo das diversas
dias de vida, em que o que está em jogo na produção do bebê são
reações neurológicas involuntárias. A mãe supõe o bebê como sujeito disciplinas.
e, em muitos momentos, fala como se fosse ele quem estivesse a Como então, no marco do tratamento, os conhecimentos
falar, traduzindo em palavras as ações deste. A mãe produz, assim, constituídos pelas diferentes disciplinas podem ser colocados a
um diálogo em que se alternam suas falas e as do bebê. Se bem seja serviço da constituição de um bebê?
ela quem coloca as palavras que o bebê ainda é efetivamente incapaz
Em um tempo de intervenção tão precoce, no qual o
de falar, ela o antecipa como capaz, deixando a brecha em que a
pequeno paciente ainda não tem o Eu constituído, é preciso que a
fala ou a produção do bebê pode advir.
intervenção clínica propicie o estabelecimento de um olhar através
Mas, freqüentemente, diante de problemas no . d 6
do qual o bebê possa reconhecer-se em um corpo unanza o e a
desenvolvimento, pode-se perceber como, nos pequenos gestos do
cotidiano, os adultos cuidadores se antecipam, obturando a brecha
na qual poderia advir a produção do bebê ou pequena criança: 6 A este respeito ver Jacques Lacan (1949), El estadio del espejo como formador

alcançam-lhe o brinquedo quando o gesto de esticar-se poderia de la función del Yo CTe) tal como se nos revela en la experiencia psicoanalittca,
Emitos 2, Buenos Aires, Siglo Veintiuno; e (1953) A tópica do Imaginário, Sev11náno
5
Ver Elsa Coriat, obra citada (N. da A.). 1, Rio de Janeiro, Jorge Zahar (N. da A.).

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇÃO
,.
inscrição de um traço unário (ideal-do-eu) que estabeleça uma excluído_da_lei simbó~c~ operada pela função paterna que dá lugar
referência simbólica para o bebê. a sua propna constitwçao como SUjelto do desejo (movimento de
separação).
É neste sentido que consideramos pertinente no campo da
primeira infância a intervenção de um clínico especialista em estimulação - Na tramitação e elaboração do luto dos pais a respeito das
precoce sustentado em uma equipe interdisciplinar7 • Que seja um o clírúco a limitações reais que a patologia impõe ao filho, para que o bebê não ..
cargo da direção do tratamento possibilita estabelecer um referente fique permanentemente situado numa posição de passivização e
transferencia/ por meio do qual as diferentes aquisições do bebê e o tampouco submetido a demandas que se dirigem a um filho ideal
sonhado, mas que em nada levam em conta as reais possibilidades
...
discurso parental possam desdobrar-se e articular-se fazendo série. 1

Ao mesmo tempo, no marco interdisciplinar, são sustentados os do bebê que ali está.
conhecimentos das diferentes disciplinas que são imprescindíveis - Como integrante do Outro encarnado do bebê:
diante de um problema no desenvolvimento, mas articulados em introduzindo no marco clínico ofertas e demandas por meio das ,;
torno de um eixo clínico fundamental: a constituição do sujeito. quais o bebê possa experimentar diferentes esquemas que lhe
Há uma série de intervenções que são propiciadoras do de- permitam ir apropriando-se do seu corpo e estabelecendo um laço
senvolvimento e constituição psíquica do bebê independentemente constituinte com os outros que o rodeiam.
da patologia que esteja em jogo. No marco da estimulação precoce - Realizando uma leitura das produções tônico-posturais,
o clínico intervém: gestuais, sonoras e de esquemas cognitivos do bebê, não só
- Como garante ou testemunha da produção do bebê, para considerando um conhecimento técnico específico e fundamental
que os pais possam, apoiados na transferência ao clírúco, operar o acerca da legalidade que rege de tais aquisições, mas sustentando a
reconhecimento das diferentes produções do filho e reconhecê-lo singularidade pela qual tais produções são tomadas como enigmas
como autor das mesmas em lugar de vacilar em tal reconhecimento de um sujeito em constituição.
pela presença da patologia. - Nos desdobramentos e articulações transferenciais em
- Na articulação do saber parental à interrrogação pelo desejo relação a outros profissionais da equipe quando torna-se necessária
que os implica na constituição do bebê. Propiciando um marco no a intervenção, por exemplo, de um neurologista ou um geneticista
qual sejam os pais quem, a partir da formulação de diferentes questões para estabelecimento do real; ou de um psicanalista que possa realizar
acerca do cotidiano e a,partir do que transcorre na cena clínica, uma escuta específica dos pais em certas questões que estão além
possam ir apropriando-se e construindo suas próprias estratégias do marco com o clínico que intervém com o bebê. Realizando
de sustentação, manipulação e mostração de objetos ao bebê, que com os mesmos uma discussão interdisciplinar que permita
não fiquem obturadas por um modelo imposto pela técnica. estabelecer a direção do tratamento.

- Na sustentação das operações de alienação e separação: - Na interlocução com aqueles profissionais que normalmente
para que o bebê, além de ser tomado como objeto do desejo (ser intervêm com a infância, tais como pediatras ou professores de
tomado na alienação), por apresentar uma patologia, não fique escolinhas infantis, para que o bebê ou pequena criança, por
apresentar um problema do desenvolvimento, não venha a ter
transtornados aspectos da vida que são iguais e imprescindíveis para
7 Ver capítulo Situando a clínica com bebês, ponto "A infância, os bebês e o

surgimento da estimulação precoce" (N . da A.).


toda e qualquer criança.

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ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇAO

1 - Como agente que aponta à inclusão social. Para que, a movimento de reabilitação da função afetada, o b e b e' f'1ca
antecipadamente suposto em posição de fracasso.
partir do exercício da função paterna, o circuito de demandas que
opera em relação ao bebê possa estar em referência à legalidade
A prevenção primária na clinica com bebês
social e aos marcos da cultura.
Daí, por exemplo, que seja fundamental na clínica com A clínica com bebês e crianças pequenas que apesentam
pequenas crianças com problemas do desenvolvimento sustentar a problemas orgânicos de base foi produzindo no campo da
possibilidade de sua inclusão no jardim de infância e remeter a criança estimulação precoce um olhar e uma escuta clínica cada vez mais
às normas de convívio social. Trata-se de efetuar uma efetiva leitura acurados em relação à detecção aos primeiros traços que indicam
clínica acerca das condições da criança para circular em tais âmbitos possíveis problemas no desenvolvimento e na constituição psíquica
a fim de que ela não seja excluída por antecipação e tampouco de um bebê. Neste sentido, sua prax is revela ter importantes
submetida, em nome de uma "adaptação", a imperativos aos quais contribuições a fazer também ao campo da prevenção primária.
não tem como responder. A este respeito a UNICEF afirma:
. Independentemente da patologia que esteja em jogo, tais
intervenções consistem em gerar efeitos constitutivos para um bebê "Se bem seja verdade que suas origens estão relacionadas
e pequena criança. Para que, à já inevitável afecção orgânica, não se com a prevenção do retardo mental e outros danos orgânicos
cerebrais, (...) os programas de estimulação foram ampliados
superponham dificuldades ainda maiores provenientes da
posteriormente para incluir as intervenções dirigidas a crianças de
constituição do bebê face ao Outro. alto risco ambiental, quer dizer, sujeitos que nascem biologicamente
"Síndrome de deprivação materna", "depressão anaclítica", saudáveis, mas que, devido às características negativas do meio
"hospitalismo'', "deprivação afetiva" 8 , "fratura da função materna", em que crescem, requerem uma intervenção para que o seu
"foraclusão da função paterna" são diferentes quadros clínicos cuja desenvolvimento não se veja afetado.
O reconhecimento cientifico acumulando nas últimas
etiologia remete não ao orgânico do bebê ou pequena criança, mas
décadas estende sua aplicação e incidência à totalidade das práticas
ao laço deste com os agentes que encarnam o Outro. O que nos
de criação na infância e, portanto, tem um impacto nas características
demonstra que as aquisições instrumentais não se produzem como da sociedade. Deste modo se constitui como uma área de prevenção
mero efeito da passagem do tempo a partir do previamente inscrito primaria em saúde e educação com extraordinárias
no código genético, mas que as experiências que um bebê vive, o possibilidades". 9
modo como as mesmas são tomadas no circuito de desejo e
demanda pelo Outro produzem aí conseqüências decisivas. Apesar disso, ainda hoje, grande parte dos bebês e as pequenas
Supor um sujeito no bebê é condição para que ele possa crianças costumam ser encaminhados a avaliação ou tratamento
advir como tal, para que possa vir a imaginariamente "ter" um apenas quando suas produções já se encontram configuradas dentro
de um quadro patológico reconhecível em seus diversos sintomas
corpo e utilizar as diferentes aquisições instrumentais em nome de
característicos.
um desejo. É isto que irremediavelmente se perde quando, a cada

8 René Spitz (1965), E/ primer atio de vida dei niiio, Buenos Aires, Fondo de Cultura
9 UNICEF (1978), Estim11lación Temprana - impo1tancia dei ambiente para e/ desam1/lo
dei niiio, segunda edição, p. 15, 22 e 16.
Economica.

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234
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

Podemos reconhecer nisso os efeitos de uma concepção


. Por isso, articular uma detecção precoce da primeira infância
de prevenção no desenvolvimento da primeira infância que fica
que considere o desenvolvimento de modo atrelado à consn·t · -
excessivamente centrada em conferir se as funções do infante são , . , . , . wçao
psiqwca e uma necessidade clínica que nos põe a trabalhar.
hígidas. Quando os exames clínicos ou técnico-laboriais não
denunciam a existência de alterações orgânicas de base, costuma-se .· Dos agentes que normalmente intervêm com a infância _
manter "conduta expectante" até que se tenha uma "maior clareza como pediatras, enfermeiros, pedagogos e demais profissionais de
do quadro". serviços .hospital~res e de educação infantil-, tal questão exige que
possam introduzir, no cerne de sua prática, uma certa dimensão de
A atitude geralmente adotada de "deixar o tempo passar" é
não saber acerca do sintoma que acomete um bebê, além dos
efeito de um procedimento clínico no qual aparecem duas questões conhecimentos específicos de sua disciplina.
problemáticas:
.. E dos que intervêm no campo da clínica em estimulação
- a de conceber o desenvolvimento de modo desatrelado
precoce atravessada pela psicanálise - como é o nosso caso - , tal
da constituição psíquica e como a soma da evolução de cada uma
questão situa a necessidade de trabalhar em relação a uma
das funções;
possibilidade de transmissão de certos operadores clínicos que, ainda
- a de continuar a pôr a tônica da intervenção diante de sendo próprios do nosso campo de intervenção, possam produzir
quadros patológicos já configurados. efeitos no marco do acompanhamento preventivo do
desenvolvimento.
· O que é colocado à margem em tal modo de intervenção é
a importância clínica de se ler como um bebê está pondo a funcionar Se bem este não seja um trabalho fácil, algumas experiências
estas funções, na apropriação de seu corpo, na exploração do espaço clínicas interdisciplinares têm dado o [estemunho do quanto esta é
e dos objetos que o rodeiam e a partir do laço que tem estabelecido uma prática possível.
com o Outro encarnado.
· É preciso, inicialmente, que possamos circunscrever que caráter
Não se trata de que os agentes de saúde sejam insensíveis ao outorgamos à prevenção e em que lógica a situamos quando se
modo que um bebê tem de se colocar diante dos outros, ou o trata de considerar não apenas a higidez das funções mas 0
modo como uma mãe o toma desde o exercício da maternidade. desenvolvimento atrelado à constituição psíquica ao longo da
A questão é que não se costuma. atribuir a tais sinais clínicos a devida primeira infância. Isto porque muitas das concepções que servem
importância, 10 pois, mesmo quando são percebidos, os agentes de de fundamento para amplas práticas de prevenção na saúde não
saúde carecem das ferramentas clinicas que permitem, a partir de mantêm sua aplicabilidade quando adentramos o campo do psíquico.
tais sinais, realizar uma leitura acerca de como está ocorrendo a Se bem que isto não represente um empecilho, certamente exige
constituição psíquica de um bebê. algumas considerações que levantamos a seguir:

10 1) Diversas práticas de prevenção primária no campo da


Tomamos agui as palavras expressas por diversos pediatras com os guais, a partir
de um trabalho clínico interdisciplinar de estimulação precoce - tais como os saúde partem do estabelecimento de critérios de risco por meio dos
desenvolvidos nos hospitais Durand e Santojanni em Buenos Aires - assim como, quais são interrelacionados, a partir de cálculos epidemiológicos,
mais recentemente, a partir da pesquisa para validação de indicadores precoces de variáveis de pertença a determinados grupos com maiores ou
risco para o desenvolvimento infantil realizada junto ao Ministério da Saúde do
menores probabilidades de ocorrência de problemas de saúde na
Brasil, foi possível refletir acerca das práticas geralmente adotadas para
primeira infância.
acompanhamento do desenvolvimento infantil (N. da A.).
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237
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇAü

O levantamento de tais dados é fundamental para que, através então procura, inutilmente, ficar confortável na nova posição
da política, possam ser formulados planos mais eficazes de saúde e indicada para segurar o bebê, mas não consegue. A bebezinha se
educação que atendam às necessidades das diferentes populações desorganiza, não consegue sugar o bico do seio e entra na situação
de estresse descrita por neonatologistas - apresentando crispação
baseando-se num conhecimento de causa pertinente. A partir do
do rosto, descargas tônicas, alteração na coloração da pele e bocejos.
levantamento de grupos de risco, uma série de intervenções podem
O agente se saúde se afasta nesse momento, enquanto a mãe,
ser feitas para ofertar melhores condições sociais, culturais, bastante incomodada, procura acalmar a pequena filha balançando-
econômicas e sanitárias à população. ª na posição que originalmente havia lhe ofertado. Finalmente o
No entanto, uma primeira questão que cabe abordar é que bebê se acalma.
lugar ocupa a presença ou ausência das chamadas "características A mãe me olha, certifica-se da ausência do agente de saúde
e oferece o seio à sua filha na posição que ela inicialmente havia
negativas do meio" quando intervimos no nível da prevenção
proposto. A bebezinha passa a mamar com bastante vigor.
primária com um bebê. E, mais ainda, que lugar ocupam estes
Continuo a acompanhar a cena a uma certa distância. No
critérios de risco em uma clínica da estimulação precoce exercida a final da mamada, a mãe continuou a segurar a filha no colo e,
partir do corte epistemológico da psicanálise. quando o agente de saúde voltou a se aproximar para perguntar
Desde o "aconselhamento a pais" até a elaboração de se o bebê tinha mamado, a mãe sorriu e disse: "Sim, sim.. . dei de
mamar a cinco filhos, cof!l esta não vai ser diferente".
"programas de exercícios" encontramos um critério que prevalece
ao tratar-se de intervenções consolidadas no marco da prevenção
O que fica em jogo nesta cena não é quão verdadeira ou
primária: a concepção de que, por meio da "educação parental"
potencialmente eficaz é a nova postura apresentada pelo agente de
exercida pelo "agente de saúde", poderia se garantir um melhor
saúde - não vamos entrar no mérito dessa questão, provavelmente
porvir a um bebê incluído nas classificações estabelecidas pelos
acertada segundo os novos conhecimentos gerais de pediatria e
critérios de risco.
puericultura -, trata-se de interrogar os efeitos que tal intervenção
Propomos trabalhar o problema contido em tal questão a produz.
partir de um recorte clínico:
A intervenção, nesse recorte clínico, fica guiada pela suposição
Uma mãe - incluída no critério de risco "baixo nível sócio- de um futuro nefasto imposto pelo meio ao bebê (por exemplo,
econômico" - comparece à sala de neonatologia para dar de mamar engasgar e asfixiar) cujo cumprimento o agente de saúde seiia encarregado
pela primeira vez à sua bebezinha prematura. Depois de passar de evitar ("ensinando" a postura adequada para que o bebê não engasgue).
por todos os procedimentos necessários para reduzir ao máximo Mas percebemos as conseqüências desastrosas que pode ter uma
o risco de contaminação de neonatos internados, finalmente intervenção supostamente preventiva quando esta é conduzida por
sustenta o bebê no colo e a situa em um ângulo de 45 graus para meio dos efeitos imaginários que a pertença do paciente a
dar-lhe de mamar. Este é um momento extremamente esperado determinados grupos de risco desperta no agente de saúde.
pela mãe e que foi adiado em razão de uma recaída no quadro de
saúde do bebê. No momento em que a mãe está a ponto de dar- Este é um ponto muito delicado da clínica, pois uma
lhe de mamar, intervém um agente de saúde para efetuar uma intervenção que visa aplicar um conhecimento científico, ao partir
mudança postural do bebê, afirmando que, com base nas últimas do pressuposto de "fazer o bem", de "produzir a melhor oferta ao
pesquisas, o engasgo e a asfixia são comuns na posição em que o bebê'', pode, na prática, vir a atropelar as estratégias parentais,
bebê estava e que a posição mais indicada era a vertical. A mãe

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

destituindo o saber dos pais - os únicos capazes de armar um


Por isso, ainda que possamos recolher desde a prática no
sentido simbólico para a vida do bebê.
âmbito da saúde que há uma maior incidência de dificuldades dentro
Quando a intervenção ocorre a partir de uma suposição de de determinadas condições - como, por exemplo, em longos
ignorância absoluta nos pais, que, em lugar de permitir a sua períodos de internação de um recém-nascido em UTI -, nossa
sustentação como agentes das operações constitutivas para o bebê, intervenção é conduzida, antes de mais nada, por escutar desde 0
promove sua destituição, então seus efeitos podem vir a se inscrever parental e ler através das produções do bebê como estas supostas
do lado da iatrogenia. Em tais casos, os conhecimentos do agente condições de risco se inscrevem para cada bebê e sua familia.
de saúde, em lugar de favorecer a constituição de um marco
2) Uma segunda questão importante a considerar é o lugar
favorável ao desenvolvimento do bebê, vêm situar-se como uma
outorgado aos conhecimentos de puericultura na intervenção
profecia relativa ao futuro deste que, dependendo de quanto a
preventiva com a primeira infância.
mesma tome o imaginário parental, pode chegar a cumprir seus
efeitos nefastos. Trazemos a este respeito outro pequeno recorte clínico:

Neste ponto é que é preciso recordar que as estatísticas que Uma mãe cujo bebê está internado na UTI vai dar de
mamar, pela primeira vez, ao seu bebê prematuro. É uma mãe
estabelecem a relação entre determinado problema e a pertença a
que queria muito dar de mamar ao filho e que conseguiu manter
um grupo considerado de risco podem ser uma afirmação geral
a produção de leite durante a internação do bebê.
correta, mas não dizem nada acerca da verdade de um sujeito. Ou
O bebê encontra-se em pleno processo de recuperação,
seja, elas são uma grande mentira quando aplicadas a cada um, já está fora de risco e entra na fase em que organizar a alimentação e
que, a princípio, não temos como saber se estamos diante dos 99% ganhar peso são os aspectos decisivos para receber alta.
ou do 1% de uma determinada população e, muito menos, em que A mãe oferece o peito, mas o bebê não apresenta uma
lógica discursiva se insere para cada sujeito o pequeno dado pinçado sucção muito vivaz e não se agarra ao peito. Diante da produção
para um levantamento estatístico. do bebê, a mãe começa a ficar preocupada e diz que o bebê não
quer mamar porque não está saindo suficiente leite de seu peito e
Ao recebermos uma mãe de 14 a 19 anos - incluída dentro pede ajuda à pediatra.
de um grupo de risco amplamente conhecido por todos aqueles A pediatra-neonatologista, que vinha sustentando a cena,
que clinicam em hospitais públicos, o de "mãe adolescente" --, é diz à mãe que certamente ela tem leite e que, se quiser, pode
preciso que a intervenção clínica abra lugar a interrogações e não apertar o peito de tal modo que fique leite no mamilo e que o
que as considere antecipadamente respondidas pela idade da paciente bebê possa experimentá-lo. A mãe procura seguir a orientação da
que consta na ficha clínica. Como ela está se situando como mãe do pediatra, mas não consegue.
recém-nascido? O que este recém-nascido representa para ela nesse O bebê começa a chorar e a apresentar tensão corporal,
momento da vida? Ou, mais ainda, essa moça, para além de sua diante do qual a mãe fica cada vez mais ansiosa.
A pediatra, então, pergunta à mãe se quer que ela faça o
idade, está ou não em uma posição psíquica de adolescente? Se
movimento. A mãe concorda e, com a intervenção da pediatra, sai
supomos que tais questões estão respondidas de antemão pelo
um pequeno jato de leite. Diante disso, a mãe ri, realiza o
simples fato de ela estar incluída em um grupo de risco, fazemos movimento duas ou três vezes, facilitando que o bebê experimente
obstáculo a escutar qual é a lógica discursiva singular segundo a qual o leite que é gotejado em sua boca. A partir daí, o bebê começa a
ela está situada face a esse bebê. sucção.

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

A mãe sai da sala de neonatologia sorridente contando a biunívoca causa-efeito. Além disso, um determinado evento
todos que seu bebê mamou pela primeira vez. biográfico tampouco assume seu valor definitivo no momento em
que ocorre. Os eventos psíquicos posteriores vêm ressignificá-lo,
Os conhecimentos de puericultura são de grande utilidade minimizando sua importância ou elevando-os ao valor de
quando permitem a singular apropriação que deles fazem os agentes detonadores de um sintoma.
que exercem a maternidade e paternidade com um bebê e não são
impostos como modelos que vêm a destituir o saber de tais agentes. "Os materiais presentes sob o modo de traços mnêmicos
Mas quando se trata da posição em que um bebê é tomado pelo sofrem, de tempos em tempos, em função das novas condições,
desejo parental, entramos num campo diferente do comportado uma reorganização, uma reinscrição." 11
pelo "aconselhamento e treinamento de pais". Neste sentido, é
preciso recordar que não é simplesmente sobre a condição intelectual De modo que a causalidade psíquica não depende de uma
e sobre as intenções conscientes que se articula a posição psíquica simples ação do passado sobre o presente, mas se estabelece com
que permite o exercício das funções materna e paterna, já que o efeitos de retroatividade - a posteriori na obra de Freud e aprés-
desejo é inconsciente e, portanto, não pode ser "ensinado". Daí que coup na obra de Lacan.
seja fundamental na clínica uma posição de escuta acerca da lógica "Então o problema não reside em conhecer, dispor de
em que um bebê é tomado pelo discurso parental dados privilegiados apriori, sejam concernentes à história do sujeito
ou às suas desventuras. O problema consiste em conhecer seu
3) Uma terceira questão a considerar é a lógica biunívoca
contexto e este deve ser reconstruído na sessão por meio do próprio
causa-efeito, utilizada com tanta eficácia na metodologia de saúde
discurso." 12
preventiva, mas que se revela inaplicável ao campo da constituição
psíquica. Um bebê é recebido em uma estrutura simbólica que
determina seu lugar. Isto é o que recolhemos quando escutamos o
Ao prevenir, parte-se da relação existente entre causas e
discurso parental que antecede a chegada de um bebê. Mas não
efeitos. Assim, a partir da doença ou problema que se apresenta,
podemos, a partir desse discurso, chegar a saber como será a
pesquisa-se a causa e elabora-se, por exemplo, a vacina. Assim, uma
constituição desse bebê como sujeito. É diferente escutar o discurso
vez estabelecida e isolada a causa, é possível eliminá-la para evitar
parental de considerar como tal discurso se coloca em ato com a
seus efeitos nocivos.
chegada do filho. E, mais ainda, de ler quais dos significantes de tal
Ocorre que, quando se trata da constituição de um bebê como rede que são efetivamente pinçados pelo bebê, produzindo
sujeito e de seu desenvolvimento, as causalidades psíquicas não se conseqüências de inscrição.
estabelecem de modo linear e geral. O evento biográfico não possui
valor em si mesmo, sua significação advém do contexto no qual se
inscreve, portanto não está dado de antemão do mesmo modo 11
Sigmund Freud (1887-1902), Aus den Afagen der Psychoana!Jse, citado por
para todos. Laplanche e Pontalis em Vocabulário da Psicanálise, obra citada, p. 33. A questão
da temporalidade psíquica é mais amplamente abordada no capítulo Clínica
Se bem seja possível, ao escutar um paciente, perceber o nexo com bebês: da estrutura ao nascimento do sujeito, no qual também é retomada
existente entre certos acontecimentos e certas conseqüências em sua a citação que aqui situamos (N. da A.) .
vida psíquica, tal correlação é tecida a partir de significações subjetivas, 12
Godino Cabas, obra citada.
não tendo, portanto, o caráter universal e extrínseco da lógica

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PRECOCIDADE E PREVENÇÃO
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM

de efetuar o corte sincrônico que consolida seu modo de


Por isso, nesta clínica, não basta escutar o discurso parental, é funcionamento. 13 Com bebês que funcionam de modo autístico ou
preciso ler como ele se precipita enquanto marca no bebê. É a pequenas crianças que funcionam de modo psicótico, a intervenção
partir de tal leitura que poderemos situar como tem ocorrido sua pode v"Ír a ter importantes efeitos de reestruturação dos sintomas
constituição como sujeito. fundamentais, pois ainda se conta com certa permeabilidade da
Mas, então, se não basta "ensinar conhecimentos" para que o estrutura a novas inscrições.
ambiente de um bebê torne-se propício à sua constituição, e se só 4) Uma quarta questão a considerar é que nem tudo o que
sabemos a posteriori os efeitos de um determinado acontecimento ocorre produz marca no bebê, sua memória não é como uma fita
para sua constituição, é possível prevenir ou só resta remediar? de vídeo na qual tudo é gravado e editado, separando o que será
O desejo é inconsciente e, portanto, não pode ser ensinado. esquecido pelo recalcamento e o que será possível recordar. O que
Neste sentido, a intervenção a partir do corte epistemológico da produz marca simbólica, o que se inscreve não é aleatório, já vai se
psicanálise na estimulação precoce possibilita que, pela escuta e inscrevendo em relação a uma rede simbólica - no caso de um
intervenção do clínico, certos eventos relativos ao bebê e seu bebê, aquela na qual ele é sustentado inicialmente pelo agente materno
nascimento possam vir a ser ressignificados pelos pais. Como não e também pelo discurso parental. Mas entre o que de um bebê já
se trabalha com a imposição de um modelo de mãe ou pai, está antecipado na estrutura e o modo em que isto irá se inscrever
tampouco a questão é culpabilizá-los ou desculpabilizá-los pelo que nele há uma hiância na qual se processa a constituição de uma criança,
estariam cumprindo ou falhando em relação ao modelo. Trata-se e não temos como saber de antemão como ocorrerá esta inscrição.
sim de abrir um espaço no qual eles mesmos possam começar a Neste sentido podemos recordar que é bastante freqüente
escutar-se em relação ao que do seu desejo os implica em relação encontrar crianças autistas cujas mães passaram por uma depressão
ao bebê, dando lugar a deslizamentos na significação inconsciente nos primórdios do laço mãe-filho. Mas isso não nos permite afirmar
que para eles assume o filho e sua patologia. Trabalhar com o laço que toda mãe depressiva terá um filho autista, por exemplo. Se
pais-bebê é fundamental para que se dêem as condições nas quais assim fosse, bastaria escutar os pais para determinar qual viria a ser
esse bebê possa advir como sujeito do desejo. a estrutura psíquica do filho.
O fato de que um determinado acontecimento adquira seu Por isso, na detecção precoce, é preciso ler tanto aquelas
valor psíquico somente a poste1iori não significa que, a qualquer primeiras marcas simbólicas, que já se precipitaram no bebê e que
momento, tudo possa ser absolutamente reinscrito: sabemos que a comparecem em suas produções, quanto o modo em que o discurso
constituição psíquica apresenta um tempo de abertura à inscrição parental se põe em ato nos cuidados dirigidos ao bebê.
de sua estrutura, a partir do qual se fecha, e, se bem determinadas
significações possam ser reorganizadas, a estrutura fundamental, uma Critérios para detecção precoce de problemas no
vez estabelecida, não pode ser modificada. Por isso, não se trata de desenvolvimento e na constituição psíquica
esperar que a estrutura esteja fechada para intervir clinicamente. Se
assim fosse, nos dedicaríamos apenas a "remediar" patologias É a partir das questões levantadas que concebemos a
constituídas - como autismo, psicose e graves neuroses. prevenção primária relativa ao desenvolvimento e constituição
A intervenção clínica com crianças ocorre no tempo em que 13
Clemencia Baraldi (1996), Urgencia y subjetivación. Escritos de la Infancia, nº 7,
ainda está acontecendo a constituição psíquica, num tempo no qual Buenos Aires, FEPI - Centrn Dra.Lydia Coriat de Bs . As.
a diacronia necessária à inscrição da estrutura ainda não terminou
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ENQUANTO O FUTURO NAO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

psíquica como a precoce detecção de certos traços que apontam saber em relação ao sintoma do bebê na prática de acompanhamento
que algo não está bem com o bebê ou pequena criança. Então, mais pediátrico. O alerta despertado é o de que "algo não está bem"
do que prevenção, trata-se, a princípio, de uma precoce detecção, com o bebê sem estabelecer a priori a correspondência disso com 0
pois estamos intervindo com o que já está ocorrendo. diagnóstico de uma patologia específica que poderia ser já apontado
No campo da constituição psíquica sempre estamos lidando pelo pediatra.
com os efeitos deixados pela estrutura e, portanto, sempre estamos Deste modo, também se minimizam os efeitos de profecias
intervindo a poste1iori ou apres-co11p, mesmo quando fazemos um auto-realizáveis que podem advir quando procura-se evitar um dano
trabalho de detecção precoce. Ocorre que não é clinicamente que já se antecipa imaginariamente na vida de um bebê.
indiferente poder detectar e intervir com os primeiros indicadores
que apontam, na produção do bebê, que algo não está correndo Daí a importância de que o trabalho preventivo se apoie na
bem, ou esperar que sua produção seja classificável dentro de um possibilidade de transmissão acerca do modo em que comparecem
quadro patológico plenamente configurado para proceder com um na produção de um bebê certos momentos fundamentais relativos
à sua constituição psíquica e desenvolvimento, sendo o não
trabalho clínico.
comparecimento, a ausência de tais produções que desperte alerta,
Um caminho interessante para a precoce detecção resulta, invés de difundir critérios de correlação fechada e direta entre um
justamente, do estabelecimento de indicadores clínicos que funcionam indicador clínico positivo e uma determinada patologia.
de modo negativo, em lugar de consistirem em procurar os traços
positivos da patologia. Isto porque a clínica com bebês e crianças Por outro lado, também sabemos que um determinado
pequenas tem nos ensinado que, antes de se produzir uma indicador de alerta clínico está sujeito a modificações devido aos
manifestação patognomônica relativa à constituição psíquica e ao acontecimentos da vida de um bebê. Portanto, que um único
desenvolvimento, podemos constatar que uma certa produção, que indicador desperte alerta em um determinado momento da vida é
seria de se esperar em determinado momento da vida, não advém. insuficiente para estabelecer sua correlação fechada com uma
determinada patologia.
Há, por exemplo, uma importante diferença clínica entre
considerar o "não enlaçamento do circuito pulsional escópico" do Da mesma forma, o fato de que diferentes indicadores
bebê de quatro meses ao campo do Outro como um indicador clínicos apontem que o desenvolvimento e a constituição psíquica
clínico que aponta que, nesse momento, algo não está correndo de um bebê estejam indo bem em certo momento não é uma garantia
bem quanto à sua constituição psíquica e considerá-lo, desde já, de que ele jamais terá problemas na vida, pois também podem
como um indicador de autismo. incidir aí novos acontecimentos que despertem novas conseqüências
para a sua constituição.
São modos diferentes de pensar a precoce detecção: enquanto
uma continua a tomar como ponto de partida o patognomônico e Tal é o caso, por exemplo, de um menino que vinha se
a gênese da patologia, a outra se apoia na consideração de certos constituído bem psiquicamente até que, perto dos dois anos de
momentos nodais da constituição do bebê, que, ao não idade, deixou de falar as poucas palavras que pronunciava, deixou
comparecerem, despertam alerta. de sorrir e passou a realizar uma evitação ativa daqueles que o
rodeavam. Foram realizados nele diversos exames orgânicos que
Estabelecer indicadores negativos, tem também efeitos não permitiram diagnosticar nenhuma alteração orgânica.
interdisciplinares interessantes: introduz algo da ordem de um não Finalmente concluíram diagnóstico de autismo.

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

Ao receber em tratamento o menino e sua família quando ser tomado como um apelo, abrindo a possibilidade de vir a se
ele tinha aproximadamente quatro anos, percebo uma coincidência estabelecer efetivamente como um chamado.
temporal entre tais perdas no menino e a saída de sua babá. Ao
apontar isto, os pais concordam: "Ele ficava aos cuidados da babá. A O bebê é antecipadamente situado no lugar de sujeito pela
gente não percebia o que estava fazendo, a gente ia e vinha, achava que matriz simbólica da mãe e isto é constituinte para ele. Assim, no seu
esta/Ja tudo bem. Deix amos ele de lado e, quando a babáfoi embora, eleficou diálogo com o bebê, a mãe interroga-o acerca do seu estado - está
perdido", diz a mãe. 'V1!1a vev na igreja, pouco tempo depois de ela ter ido com fome?, está com frio?, quer meu colo?, o que você quer? A
embora, elegritou e esticou os braços na direção de uma mulher que estava mãe, por um lado, interpreta com o seu saber inconsciente e
de costas. Quando ela se virou, ele começou a chorai· ( ..) ela tinha o cabelo consciente o que supõe como uma demanda do bebê, mas ela
preto como o da babá. Penso, agora, poderia ser que sentisse saudade dela", ressitua a sua interpretação a partir das produções do bebê, supondo
diz o pai. as mesmas como respostas do bebê, supondo que o bebê "saberia
o que quer", que o bebê desejaria além do que ela pontua como
Dado que o sintoma de estrutura de um bebê e de uma demanda.
pequena criança não está decidido, mas radicalmente sustentado por
aqueles que encarnam o Outro para o bebê, perdas ou alterações Deste modo, a mãe e xerce seu saber com o bebê
abruptas em tal laço com o Outro podem vir a ter efeitos de queda estabelecendo a significação das demandas deste, mas mantém no
no modo de funcionamento psíquico que vinha se produzindo no o
laço com bebê uma certa dimensão do não-saber, pois a produção
bebê. do bebê comporta um enigma no qual ela se reconhece mas cuja
decifração ela ignora.
Ist? torna necessário que, na detecção precoce, se leve em
conta tanto a sustentação por parte do agente materno e paterno Tanto se a mãe exerce um saber pleno com o bebê - deixando
das operações constituintes do sujeito - suposição do sujeito, de fora a condição enigmática no laço com este - quanto se a mãe
estabelecimento da demanda, alternância e alterização - quanto não chega nem sequer a estabelecer um reconhecimento de um
aquelas produções do bebê que testemunham as sucessivas inscrições enigma que a implica e que toma carne, se "corporifica", no seu
e reinscrições de que tais operações nele. bebê, ficam em risco as condições de instauração de um sujeito.

Apesar de tais operações terem sido abordadas ao longo de Estabelecimento da demanda: consiste em que as diferentes
todo o texto, propomos retomá-las a seguir de modo condensado: produções do bebê possam ser supostas pela mãe como um pedido
que o bebê dirige a ela e que a mãe se coloque em posição de
Suposição de sujeito: ainda que as diferentes reações que
responder. Isto inicialmente implica uma interpretação em que a
um bebê apresenta ao nascer sejam involuntárias (na medida em mãe "traduz" em palavras as ações do bebê, pontuando nelas um
que são regidas pelos automatismos dos reflexos arcaicos), a mãe sentido.
as toma como produções de um sujeito, atribui a autoria das
mesmas ao desejo que supõe no bebê. Se inicialmente a mãe supõe uma demanda no bebê
(demandando que este demande algo dela) ainda quando as reações
Trata-se aí de uma suposição, pois o bebê não se encontra do recém-nascido, como descargas tônicas-posturais, choros ou
ainda de fato constituído como sujeito. Tal constituição depende expressões faciais são absolutamente involuntárias, num segundo
justamente de que ela seja inicialmente suposta ou antecipada. É a momento, quando esta operação inscreveu seus efeitos, o bebê passa
partir dessa suposição, por exemplo, que o grito do bebê poderá efetivamente a demandar.

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

Quando este circuito encontra-se instalado, os diferentes maneira, que ele se adeqüe a certo ideal. No entanto é fundamental
objetos que circulam entre a mãe e o bebê passam a ser investidos que o reconhecimento de um bebê na filiação não fique condicionado
como objetos de dom, o dom que o bebê supõe na mãe, como a que ele responda à demanda do Outro. Do mesmo modo, é
Outro primordial investido de toda potência, de satisfazê-lo ou de importante que a mãe possa dizer "não" diante de determinadas
introduzir uma privação. Assim, o que o bebê passa a pedir em demandas do bebê, não se sentindo obrigada a satisfazer tudo que
diferentes momentos, além do objeto em si, é que a mãe lhe entregue este quer. O seja, que tanto o que se demanda do bebê quanto as
o seu amor (representado nesses diferentes objetos que demanda). respostas que são dadas às suas demandas estejam submetidas a
Do mesmo modo, se pensamos na reversão da demanda com a uma lei.
mudança de zona erógena do oral para o anal, também
Alternância presença-ausência: implica que a mãe, nos
constataremos que é à mãe que - como indica Freud - o bebê
cuidados que dirige ao filho, não responda apenas com presença ou
entrega suas fezes, como um presente, como um objeto de dom.
apenas com ausência, mas que produza ali uma alternância.
A demanda é sempre, em última instância, demanda de amor.
A presença e a ausência são aqui tomadas em sua dimensão
Poderíamos pensar aqui no gesto de quem puxa as pétalas de uma
psíquica e não física. Uma mãe pode estar fisicamente presente,
rosa dizendo "bem-me-quer, mal-me-quer". O fundamental da cena
prestar mecanicamente os cuidados básicos ao seu bebê e, entretanto,
não é a pétala em si, ela serve apenas como pretexto, assim como
não estar ali com seu desejo, seu investimento, sua atenção voltados
na vida de um bebê circulam vários pequenos objetos da demanda
para o bebê, por exemplo. Ou, ao contrário, a mãe pode ausentar-
sobre os quais o que se coloca em cena, por parte do bebê, é um
se fisicamente, e tomar tantas precauções para que nenhuma diferença
"me-quer, não-me quer" no laço com o Outro encarnado.
compareça que o bebê pode não registrar sua saída.
Por isso, a p{ilsão não responde ao campo do biológico,
É preciso que o grito do bebê possa ser interpretado pela
possuindo uma espécie · de evolução natural. Ela implica um
mãe tanto em termos de apelo de presença quanto de apelo de
representante e opera as suas transformações como respostas aos
ausência. Esse valor diferencial dado ao grito faz dele um ato com
tempos que o circuito de desejo e demanda do Outro introduz
sentido. É a alternância simbólica entre presença e ausência que
para o bebê. 14 É no laço com a mãe que estes pequenos objetos
permitirá, juntamente com a ação específica, a inscrição pulsional
são investidos de valor, enlaçando e articulando a satisfação pulsional,
do bebê, que abandona então o puro funcionamento da necessidade
a satisfação da zona erógena, ao circuito do amor e desejo.
e passa a construir um funcionamento no qual a obtenção de prazer
Ainda é preciso uma terceira consideração acerca da demanda: fica atrelada à série de presença-ausência e aos ritmos de alternância
os pais não só supõem uma demanda no bebê, eles também que o Outro lhe propôs. Um Outro primordial que é só presença
demandam que o bebê ou pequena criança "seja" de determinada ou só ausência não permite essa inscrição.
Alterização: consiste em que o bebê fique referido, em suas
14
Por isso Lacan propõe a seguinte inscrição para a pulsão: $<>D, (sujeito barrado reações e manifestações, não a seu próprio corpo, mas a uma ordem
punção demanda): O que implica que o sujeito está ao mesmo tempo em relação à simbólica. Ele não fica situado apenas em um circuito de satisfação,
demanda mas impossibilitado de unir-se a ela, há aí uma es tmtura de hiância, de mas em uma satisfação cujo circuito passa pelo Outro e, portanto,
intervalo. Assim como as zonas comportam intervalos, a linguagem também tem
precisa, para poder operar, partir de certas condições que dependem
esta mesma estrutura intervalar. Então, o modo como o sujeito comparece em
relação à demanda é como objeto de dom, ele oferece vários pequenos objetos à da introdução de uma arbitrariedade do Outro.
demanda do Outro, e nisto se produz o movimento, o circuito pulsional (N. da A.).
250 251
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM
PRECOCIDADE E PREVENÇÃO

Esta arbitrariedade, no entanto, para produzir uma alterização,


quatrimestre, que
• não haja
. preferência
. pelo rosto human o, ou que,
tem que responder a uma ordem que, uma vez estabelecida, passa a
quando o b~~e tem mrus de oito meses, não apareça a diferenciação
ter o valor de uma referência no laço mãe-bebê. Essa ordem, no
entre familiares e estranhos - podem ' além do re gistro ·
início, apresenta-se na simplicidade de um ritmo sustentado pela
fenom~n.ológico de adequação ou inadequação à normatização
mãe no exercício dos cuidados da criança - ritmos de sono-vigília,
cronologica do desenvolvimento, ser lidas como efeitos do modo
alimentação-saciedade etc. - e que não tem uma determinação
e~ q~e tem se inscrito nele as operações constituintes do sujeito
natural, mas de inserção do bebê nos modos culturais da criação.
ps1qwco. Ao mesmo tempo, o indicador clínico que desperta alerta
Chamamos essa ordem arbitrária de lei. A alternância, que introduz
não é tomado como o problema em si que deveria ser "adequado"
um ritmo de seus cuidados, é sua primeira formulação; a negativa,
ou "eliminado", mas como o efeito do modo em que o bebê tem
dizer que não à demanda, introduzir uma restrição, é sua segunda
formulação; e a terceira forma é a interdição, ou seja, a proibição se constituído e tem sido tomado no laço com os pais.
ou a forma social da lei. Situamos, a seguir, algumas manifestações clínicas bastante
Para que a alterização se instale é preciso que, em primeiro freqüentes em bebês em sua correlação com as operações
lugar, a mãe situe a lei como uma referência terceira em seu laço constituintes do sujeito. Apontar a importância clínica de tais
com o bebê, não fazendo deste um objeto que se presta unicamente manifestações tem se revelado extremamente eficaz na clínica
à sua satisfação (daí que o reconhecimento do bebê na filiação não interdisciplinar para a detecção precoce junto aos serviços de
fique condicionado ao fato deste responder como objeto que satisfaz pediatria:
a demanda do Outro). O não estabelecimento de ritmos na organização dos ciclos vitais:
Situar tais operações permite sair de uma dimensão imaginária As atividades mais simples que constituem a vida de um bebê
acerca do que é ser bom pai ou boa mãe de um bebê e de culpabilizar em seus primeiros meses - como dormir e acordar, ter fome e
os pais quando não respondem a tais ideais. O que está em jogo estar satisfeito, chorar e estar contemplativo, reter as fezes ou defecar,
não é se uma mãe ama mais ou menos o seu filho, ou se planejou regurgitar ou reter o alimento, estar em estado tônico ou de
ou não a gravidez para preencher na anamnese o campo destinado relaxamento - dependem não puramente da higidez dos órgãos
a responder à questão de se o bebê é ou não "desejado", mas a que sustentam tais funções, mas das marcas simbólicas efetuadas
sustentação das operações constituintes para o bebê. E,
pelo Outro encarnado que, sobre o equipamento neuroanatômico,
evidentemente, tais operações podem ser ser sustentadas desde vários
vêm a organizar o seu funcionamento.
estilos diferentes no exercício da maternidade e paternidade.
Os pediatras têm ampla experiência acerca de quanto os
Que os agentes de saúde tenham conhecimento acerca destas
estados ansiogênicos, maníacos ou depressivos maternos imprimem
operações possibilita sair de uma concepção puramente
ritmos particulares nas atividades de um bebê. Do mesmo modo,
fenomenológica do sintoma e adentrar na lógica acerca do que é
quando um bebê apresenta alterações na organização de seus ciclos
constituinte para um bebê. Isto oferece elementos para realizar uma
vitais, tal mudança não passa em branco e desperta certo alerta para
efetiva leitura clínica na qual cada produção do bebê ou dos pais
a mãe que se encontra posicionada segundo sua preocupação materna
não tem uma valor intrínseco, mas depende do contexto em que
primária. 15 Se isto ocorre é justamente porque tais atividades, no
fica .situada.
Assim, a produção de um bebê e as suas dificuldades - por 15
Conceito proposto por Winnicott (1986 (1964]). Los bebés y sus madres, Buenos
exemplo, que não haja organização do sono no final do primeiro Aires, Paidós , p. 57.
252 253
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM. PRECOCIDADE E PREVENÇAO

início da vida, ocupam um lugar central no estabelecimento do laço operação de alteridade - pelo fracasso na sustentação do bebê
entre o bebê e sua mãe, articulando o funcionamento pulsional deste para produzir aquilo que ainda não tem como realizar sozinho, ou
ao circuito de desejo e demandas da mãe. Os objetos que ali circulam pela supressão das brechas em que a sua produção poderia advir;
- peito, fezes, chupetas, canções de ninar - instauram, através da no estabelecimento da demanda, pelo não enlaçamento das
alternância presença-ausência, as experiências de prazer-desprazer, produções do bebê aos ideais sociais ou parentais; ou pela vacilação
definindo o modo em que o bebê fica referido, alienado, ao Outro em supor o bebê como capaz de ser autor de uma determinada
primordial. produção.

Assim o estabelecimento de ritmos no funcionamento dos ciclos Não articulação das produções do bebê ao circuito de desejo e demanda:
vitais é um modo bastante precoce pelo qual podemos ler quais os Tal leitura clínica costuma apresentar uma maior dificuldade
efeitos das marcas significantes do Outro na produção do bebê, que as duas situações anteriores, dado que implica conhecimentos
por isso, a falta de organização ou desorganização dos mesmos se que não são próprios do campo médico. No entanto ela é possível
torna um importante indicador clínico. Sintomas no sono, na se tomamos como referência certas produções do bebê ou pequena
alimentação, no funcionamento intestinal, na respiração são criança que indicam a instalação de tal circuito. São algumas delas: a
manifestações clínicas importantes que dizem como vem ocorrendo preferência pelo rosto humano ao longo do primeiro quatrimestre;
a inscrição dos circuitos pulsionais de um bebê face ao Outro. a incidência do sorriso social e o interesse em olhar aqueles que lhe
A não realização das diferentes aquisições instrumentais dentro dos tempos falam e dirigir gorgeios a estes durante o segundo; o surgimento de
esperados para o desenvolvimento: estranhamento diante de pessoas que não são familiares e a tentativa
de fazer gracinhas para chamar a atenção durante o terceiro; o
Sua ocorrência é facilmente detectada pelo âmbito médico
interesse do bebê em descobrir o que desperta o interesse dos outros
devido ao conhecimento amplamente difundido nesse meio das
- tal como olhar o que a mãe olha e querer pegar objetos muito
pautas de desenvolvimento, ou seja, das idades consideradas como
investidos, como chaves, celulares etc. Em todas estas produções
referência para as aquisições de um bebê.
fica claro que não se trata da dependência que o bebê tem da mãe
Quando um atraso desta ordem é detectado, se faz necessário na medida em que esta simplesmente satisfaria suas necessidades
proceder com os exames clínicos pertinentes para realizar o orgânicas, ou que simplesmente responderia às suas demandas, mas
estabelecimento do diagnóstico orgânico. O problema é que a de que o bebê, para obter prazer pulsional, precisa engatar-se ao
detecção costuma se deter nesse aspecto, quando também é preciso circuito de desejo e demanda do Outro, precisa fisgar este desejo.
considerar como tais produções instrumentais do bebê ou seu Por isso, se o bebê primeiro olha para a mãe porque é nela que
fracasso ficam enlaçadas ao circuito de demanda e desejo do Outro. ancora seu próprio reconhecimento, num segundo momento o bebê
busca olhar o que a mãe olha, interrogando-se acerca do seu desejo.
Isto porque o desenvolvimento de um bebê - nos aspectos
psicomotor, cognitivo e de aquisição da língua - não é um efeito É somente quando as operações constituintes estão
do puro processo de maturação (que impõe certas condições fracassando em sua inscrição que comparecem no bebê ou pequena
orgânicas às aquisições), mas da articulação deste real orgânico à criança sintomas clínicos tais como a passivização, evitação ativa
tela simbólica parental, dando lugar às antecipações imaginárias e dos outros ou produções estereotipadas. Estes sintomas são uma
funcionais que os pais sustentam e colocam em cena para um bebê. manifestação positivada de uma inscrição que não ocorreu, ou
Atrasos em tais aquisições podem ser efeito de problemas na

254 255
PRECOCIDADE E PREVENÇAO
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM

ocorreu de modo falho e, portanto se produzem num segundo A partir da instauração de tal prática, os clínicos em estimulação
precoce podem realizar eventuais entradas nas consultas de rotina
tempo.
ou visitas à escolinha quando o agente de saúde detecta algum fator
Diferentes modalidades de intervenção para a detecção que levanta preocupação na produção do bebê ou sustentação
precoce: parental. 16

Os hospitais constituem um âmbito privilegiado para detecção Estas são duas modalidades de intervenção que permitem
precoce de problemas no desenvolvimento e constituição psíquica que possamos pôr os conhecimentos do nosso âmbito a operar na
de bebês, justamente porque é nos hospitais que eles nascem e é precoce detecção em vez de ficarmos esperando que bebês e
também nos hospitais ou postos de saúde que realizam os controles pequenas crianças cheguem até os consultórios ou serviços
pediátricos de rotina. ambulatoriais com funcionamentos patológicos francamente
instalados.
As creches, os berçários e as escolinhas infantis são outro
âmbito importante para a prevenção primária, dado que são
instituições pelas quais grande parte dos bebês e pequenas crianças
passam.
Intervir junto ao serviço de acompanhamento pediátrico do
desenvolvimento e às escolinhas infantis, realizando a transmissão
de certos conhecimentos que permitam aos agentes de saúde efetuar
uma leitura clínica do desenvolvimento de um bebê de modo
atrelado à sua constituição psíquica, é uma primeira modalidade de
intervenção a ser considerada na detecção precoce.
Nas consultas pediátricas comparecem todos os elementos
necessários para poder efetuar uma leitura acerca de como está
ocorrendo a constituição do bebê, sem que, para isso, seja preciso
nenhuma outra proposta ou situação específica. Tais consultas
costumam ser compostas por diferentes momentos: o primeiro
em que o pediatra fala com a mãe e colhe dados importantes acerca
da evolução da criança e dos pontos de preocupação materna; um
segundo momento em que o bebê é examinado pelo pediatra; e
um terceiro momento em que a mãe veste o bebê após o exame. É
importante destacar que, se bem que estes três momentos ofereçam
elementos acerca de como estão se inscrevendo as operações
constituintes do sujeito psíquico, o terceiro momento é extremamente
rico e nem sempre costuma ser tão levado em conta quanto os dois
16
primeiros nas práticas de rotina. Claudia Sikuler (1991), ~Qué viene a ser un equipo de E.T. en pediatria?, trabalho
apresentado nas jornadas do Hospital Lanus "Narciso López", Buenos Aires.

256 257
DA ESTRUT URA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

nem sequer inscritas as coordenadas psíquicas que fazem possível a


enunciação do seu desejo.
Uma criança, se sua constituição se dá relativamente bem, se
caracteriza por brincar simbolicamente. O brincar é uma sintoma
constituinte na infância, é uma resposta da criança à estrutura. É a
forma que a criança tem de começar a tecer ativamente uma rede
singular de representações a partir daquilo que a marcou. Deste
modo, já há ali um sujeito que começa a produzir seus sintomas,
CLÍNICA COM BEBÊS: suas respostas singulares diante da estrutura. Certamente trata-se de
DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO um sujeito em constituição, que ainda precisa ser sustentado pelo
desejo e pela rede de representações do Outro encarnado - e, por
isso, legalmente, são os pais que respondem pelos atos da criança,
O que caracteriza a intervenção clínica com bebês e crianças pois, por mais que ela fale, sua fala ainda não é tomada como ato
é que ela ocorre em um momento da vida em que, diferentemente pelo social. E ntão, ainda que na criança esteja em jogo um sujeito
dos adultos, a estrutura psíquica do paciente não está decidida e os em constituição, já há um sujeito do desejo ali que, a partir das
diferentes aspectos instrumentais encontram-se em pleno processo marcas primordiais, começou a tecer suas próprias respostas.
de aquisição. Ao tratar-se de crianças acometidas de graves patologias -
Porém, ao tratar-se especificamente de clínica com bebês, a que têm limitado o recurso do faz-de-conta e que, portanto, não
intervenção opera não só com uma estrutura que não está decidida, têm no brincar simbólico uma possibilidade de elaboração de suas
mas também em um tempo da vida em que estão se efetuando as próprias versões diante daquilo que as marcou -, também vamos
suas primeiras inscrições. lidar com uma constituição psíquica que, mesmo que não esteja
fechada, já tem instalado um modo de funcionamento das respostas
Se o bebê, ao nascer, é deparado com uma estrutura simbólica
sintomáticas e dos seus circuitos pulsionais. Ou seja, por mais que as
que o antecede e se há um logos, um lugar para ele previamente
marcas do Outro e as respostas da criança a tais marcas não tenham
determinado nessa estrutura - pela cultura em que nasce, pelo modo
se encaminhado na direção de possibilitar à criança funcionar de
em que se articulam os laços parentais nela, pela posição que vem a
modo desejante, ela já não é mais um bebê. Não estaremos
ocupar na família, pelo nome que lhe coube, entre tantas outras
intervindo ali no tempo das primeiras inscrições da estrutura no
sobredeterminações simbólicas com as quais terá que lidar sem tê-
bebê, mas com as respostas que já foram constituídas a partir delas.
las escolhido -, também é certo que, uma vez que não chega ao
mundo constituído, será preciso um tempo para que esta estrutura Já na clínica com bebês, o sujeito ainda terá que se produzir,
simbólica produza nele inscrições constituintes. terá que se inscrever a partir da suposição que dele faz o Outro
encarnado. Nesse sentido, estamos aí num tempo da pré-história
O tempo de ser bebê corresponde à posição lógica do infans,
do sujeito da enunciação, pois ainda não se inscreveram no bebê as
que etimologicamente denomina aquele que ainda não fala, e,
marcas fundantes que, pela inscrição da fantasia e pelo recalque,
portanto, que é ainda incapaz de contar a sua própria história. Não
produzirão o sujeito do inconsciente, ordenando sua enunciação,
se trata apenas de que não tenha adquirido a legalidade sintática da
permitindo-lhe contar sua história e contar-se.
língua e a sua correta modulação fonoarticulatória, mas de não ter
258 259
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

O bebê, então, mais do que brincar simbolicamente, está em ser efetuadas as identificações e escolhas de objeto sexuais, e tampouco
posição de que um Outro encarnado o leve em conta, faça o jogo, serem acolhidas com justeza as da criança que é procriada a partir da
implique a sua aposta 1 nele. Por isso, é por meio da fantasia ma terna relação com um paitenaire. 2
que o bebê é sustentado em seu funcionamento pulsional.
A partir disso, é preciso considerar a diferença que há entre
O bebê e a estrutura edípica um bebê - quanto ao modo em que nele operam os sintomas que
tomam seu corpo e produção e quanto à sua posição psíquica face
A sexualidade do humano não está garantida pela simples ao Outro - e uma criança para a qual a castração já está inscrita em
maturação biológica, por ter corpo de macho ou corpo de fêmea. sua constituição psíquica como operação simbólica, a partir de sua
Diferentemente do que ocorre com os animais, no humano a passagem pelo complexo de Édipo. Um bebê encontra-se no que
sexualidade se tramita em dois tempos, separados um do outro poderia ser considerado como pré-história do sujeito da enunciação,
pelo período de latência. O primeiro tempo implica a tramitação como um tempo no qual ainda não se produziu nele a inscrição, o
do complexo de Édipo, no qual as posições masculina ou feminina ponto de inseminação desta ordem simbólica que preexiste ao s11Jeito infantil.
se decidem simbolicamente em um tempo anterior ao da maturidade Pois ainda que o bebê já esteja deparado a tal estrutura, é uma
anatômica que permite a reprodução. É somente no segundo tempo estrutura em relação à qual ainda precisará estruturar-se. 3
que ocorre a puberdade ou maturidade orgânica que dá acesso a É preciso diferenciar a concepção do tempo de ser bebê
um exercício sexual propriamente dito. Tal exercício irá se dar a como uma pré-história do sujeito da enunciação à de tomá-lo como
partir da posição masculina ou feminina relançando, de~se modo, a um tempo pré-edípico.
resolução simbólica efetuada durante o complexo de Edipo.
O termo pré-edípico gera polêmica em psicanálise. E le foi
Em um período situado aproximadamente entre os 3 e 5 introduzido por Freud tardiamente em sua obra para referir-se ao
anos, as crianças encontram -se no apogeu dos conflitos pe1iodo de vida anterior ao da instauração na criança da ameaça de
desencadeados pelo complexo de Édipo, experimentando um castração 4 e do conflito edípico em que o pai encarna um agente
conjunto de desejos amorosos e hostis em relação aos pais. Mas,
além da novela edípica, com o caráter imaginário de todas as suas 2
Jacques Lacan (1958), La Significación dei Falo, Esctitos 2, Buenos Aires, Siglo
rivalidades, importa o que está se tramitando a partir da estrutura: a Veintiuno, p. 665.
saber, a castração como operação simbólica pela qual se constitui a 3
Tomamos aqui o que Lacan fala acerca do momento em que a criança produz o jogo
diferença sexual, as identificações e escolha de objeto amoroso desde do Fort-da como resposta diante da estrutura da linguagem. Jacques Lacan (1958), La
uma posição masculina ou feminina, assim como a constituição da clirección de la cura y los princípios de su poder, Escritos 2, p. 574 (N. da A.).
4
instância do supereu pela "introjeção das imagos parentais" - como Ele o introduz especificamente ao falar da sexualidade feminina, para refetir a
importância que tem para a menina o período anterior ao da entrada no complexo de
situa Freud - concomitantemente à operação de recalque secundário
Édipo, no qual, pelos efeitos do complexo de castração, seu amor se voltaria ao pai.
no aparelho psíquico. Aponta que, no entanto, tal mudança de objeto da mãe ao pai por parte da menina não
A operação inconsciente da castração tem uma função central é tão simples, sendo necessário considerar que algumas mulheres, em lugar de operarem
tal mudança de objeto em relação aos homens, permaneceriam detidas em uma
quanto à constituição psíquica: na estrnturação dinâmica dos sintomas; na
ligação original com a mãe. E aí coloca: "Assim sendo, a fase pré-edipiana nas mulheres
instalação no s1geito de uma posição inconsciente sem a qual não poderiam obtém uma importância que até agora não lhe havíamos atrib uído (.. .) Nossa
compreensão interna dessa fase ptimitiva, pré-edipiana, nas meninas nos chega como
1
Em espanhol utiliza-se o termo jugar para brincar e a expressão jugm:re, que uma surpresa ... " Sigmund Freud (1941), Sexualidade Feminina, E.S.B., vol. XXl,
significa implicar-se numa aposta, arriscar-se (N. da A.). Rio de Janeiro, Imago, p. 260 (N. da A.).

260 261
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

ameaçador, um rival inoportuno, na relação da criança com a mãe. da constituição do sujeito seriam o efeito de uma leitura retroativa
Mas apresença da instância paterna desde o início da vida obiiga a relativizar do que está na estrutura edípica, como situa Lacan.
essa noção 5 .
Então, se considerarmos que não se nasce com uma estrutura
A existência de um tempo pré-edípico é questionada pelas previamente inscrita, a questão passa a ser saber em que momento,
proposições de Melanie Klein, que, ao analisar as fantasias mais como e através de que modo de acesso a ciiança pode ser introduzida na
arcaicas da vida psíquica, situa a existência de um complexo de estrutura.7 Ou como esta estrutura que preexiste ao nascimento
É dipo precoce em bebês. Uma vez que o bebê ainda não teria começa a inscrever-se produzindo efeitos de constituição no bebê.
passado pelo conflito edípico, a existência desse complexo de Édipo Temos aí uma questão central.
precoce é fundamentada por tal autora como um estado pré-
Freud aponta o complexo de Édipo como um conflito
formado na criança por herança filogenética.
resultante da interdição do incesto - que faz incidir sobre a vida
A este respeito, Lacan afirma que não haveria nada mais sexual da criança uma proibição a partir da qual a mãe, que é o
contrário a tudo o que foi escrito por Freud, e propõe considerar primeiro objeto de amor tanto para meninos quanto para meninas,
as produções de Melanie Klfin acerca do complexo de Édipo é interditada pela lei paterna. Posteriormente às suas descobertas, os
precoce não a partir da fundamentação teórica apresentada por tal trabalhos de Lévi-Strauss a respeito das estruturas elementares do
autora, mas a partir da sua sensibilidade clínica quanto às concepções parentesco vêm demostrar que a interdição sexual é concomitante
das fantasias inconscientes que operam na origem do sujeito. Ele ao nascimento da cultura. Ao falar em seres humanos atravessados
situa que tais fantasias seriam um efeito retroativo da estrutura edípica: pela cultura, não há nada anterior à estrutura da interdição sexual.
"Esses fantasmas, bem entendido, não tem como efeito Assim, o fundamental do complexo de Édipo é o que ele comporta
senão um caráter retroativo, é a constituição do sujeito que ver=os de estrutural ao atrelar a sexualidade do humano a uma lei simbólica.
reprojetar-se sobre o passado a partir de pontos que podem ser Na carência de instinto, a sexualidade do humano passa
muito precoces, porque desde os dois anos e meio nós já vemos necessariamente pelas marcas da linguagem, o circuito da pulsão
a Sra. Melanie Kein ler (. ..) ela lê retroativamente no passado de (na falta de um objeto predeterminado) passa pelo desfiladeiro dos
um sujeito extremamente adiantado, ela encontra um meio de ler
significantes. 8
retroativamente algo que não é outra coisa senão a estrutura
edipiana." 6 Por isso, que o bebê se encontre psíquicamente em um
momento anterior ao da inscrição da castração em sua constituição
Ainda que tanto Klein quanto Lacan coincidam que, atendo-
psíquica é diferente de supor que ele estaria fora da estrutura edípica,
se à clinica e ao texto freudiano, não há como sustentar a existência
pois é justamente desde tal estrutura que ele é tomado, recebido,
de um tempo pré-edípico, ambos o fazem desde postulados
pelo agente materno quando chega ao mundo. 9
divergentes. Pois é bastante diferente afirmar que o bebê já nasceria
com fantasias originárias por herança filogenética, como postula Um bebê está situado no primeiro tempo do complexo de
Klein, a considerar que tais fantasias relativas aos primeiros tempos Édipo: o de ser o falo da mãe. É a operação simbólica da castração

5 7
Roland Chemama (1993), Dicionário de Psicanálise Laro11sse, Porto Alegre, Artes Idem, p. 37.
Médicas, p. 166. 8
Jacques Lacan (1955-1956), Seminário 3, As psicoses, Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
6
Jacques Lacan (1956), A relação de objeto e as estmt11ras freudianas, Seminário 4, p. 226.
Porto Alegre, versão editada pela APPOA para trabalhos internos, p. 35. 9
Idem, p. 37.
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ENQUANTO O FUTURO NAO VEM DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

efetuada na mãe - a partir da passagem desta pelo complexo de mesmo tempo em que se dá conta que o Outro primordial
Édipo - que permitirá que ela invista o bebê falicamente 10 . E é por tampouco é absoluto.
isso que, como vemos, a função paterna está, desde o início,
É certo que, para o bebê, o agente da função paterna ainda
contemplada no laço da mãe com o bebê, pois se bem a castração
não se constituiu como um suposto rival encarnado que detém o
ainda não esteja inscrita nele, a princípio, sim está inscrita pela estrutura
falo (como ocorrerá no segundo tempo do complexo de Édipo),
em que a mãe o toma.
mas o laço dele com a mãe nunca é dual, não há complementaridade
Se no primeiro tempo do complexo de Édipo o bebê é o possível - a não ser a que é imaginada míticamente - pois o laço
falo da mãe, no segundo tempo, o pai ocupará a posição de um mãe-bebê sempre comporta pelo menos três termos estabelecidos
rival aterrorizante para a criança em relação ao amor da mãe. O pai, pela estrutura: mãe-falo-bebê.
no segundo tempo do complexo de Édipo, é porta-voz da ameaça
Mesmo que para o bebê a operação simbólica de castração
de castração e é suposto pela criança como o "detentor do falo''.
ainda não tenha se inscrito em sua constituição psíquica -articulando
No terceiro tempo, o pai aparece como doador do falo e a criança
sua sexuação, filiação e identificação - , ele está, de qualquer modo,
se inscreve na sexuação do lado masculino (ao renunciar à mãe
sustentado pela estrutura edípica. Se bem ele ainda não esteja
como objeto .de amor e identificar-se ao pai, para ser o portador
atravessando os efeitos do conflito edípico, ele já está deparado
do falo, recalcando a conflitiva edípica) ou do lado feminino
com os efeitos que a mesma produziu em seus pais. Por isso, mesmo
(reconhecendo-se num primeiro momento como castrada e
num tempo em que o bebê não sabe nada acerca do que é um
identificando-se à mãe que, ainda que não tenha o falo, sabe onde
menino ou uma menina, com quem se parece ou de quem é filho,
buscá-lo: assim os homens passam a ser tomados como objeto de
, . li são os pais se ocupam em sustentar e produzir as marcas que o
amor - isto marca a entrada no complexo de Edipo).
inscrevem nesta diferença. O bebê é recebido a partir da fantasia
Evidentemente não dá na mesma que um bebê esteja tomado materna e, no melhor dos casos, não só daquela da mãe, mas do
na estrutura edípica - no primeiro tempo - como falo da mãe, e casal parental, ou seja, a partir das fantasias inconscientes que neles
que uma criança chegue a assumir de modo mais ou menos simbolizado que se engendraram como montagens a partir da castração e que ficam
ela mesma está desprovida de algo que exige da mãe, se apercebendo de que não implicadas na constituição do laço conjugal e familiar.
é ela que é amada, mas alguma outra coisa que é uma imagem, 12 que é uma
Há então um primeiro momento lógico em que o filhote
certa miragem fálica, Q.a qual a mãe é desejante e que está para além
humano ainda não está constituído como sujeito da enunciação, em
dela. Temos aí a operação simbólica de castração, pela qual a criança
que está radicalmente a mercê do desejo e da rede de representações
se inscreve na diferença sexual e se situa como castrada, em falta, ao
do Outro encarnado. Nesse momento lógico ocorrem as primeiras
experiências de vida, ocorrem as primeiras inscrições que sucumbirão
10 Como Freud aponta ao situar a equação pênis-bebê e como retoma Lacan ao
ao recalque primário, constituindo o núcleo do inconsciente e
estabelecer o primeiro tempo do complexo de Édipo. Sigmund Freud (1924). A
dissolução do complexo de Édipo, E.S.B., vol. XIX, Rio de Janeiro, Imago, pág. estabelecendo no cerne do sujeito a marca do que lhe é mais estranho
223 . Jacques Lacan (1957-58). Seminário 5, As formações do inconsciente, Rio de - dado que vem do Outro - e, ao mesmo tempo, mais familiar,
Janeiro, Jorge Zahar, p. 189 (N. da A.). dado que o constitui.
" Ver a este respeito os três tempos do complexo de Édipo. Jacques Lacan (1957- Portanto, na clínica com bebês intervimos em relação às
58), Seminário 5 (N. da A.).
condições logicamente necessárias para que se suponha um sujeito
12 Jacques Lacan (1956) Seminá1io 4, A 1~/açào do objeto, p. 37-38.

264 265
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

que, além de não estar dado, tampouco irá se produzir por efeito no qual cada elemento de estudo é posto em relação aos demais
da simples passagem do tempo, na medida em que há uma ausência elementos pertencentes ao sistema que o cerca. Cada elemento tem
de cronologia evolutiva na constituição das estruturas do st!Jeito. 13 o seu valor determinado, limitado e precisado na estrutura a partir
dos critérios de relação e oposição a cada um dos outros elementos
Mas, se por um lado a constituição psíquica de um bebê e as
que existem simultaneamente nela. 14
suas diferentes aquisições instrumentais não são um efeito da simples
passagem do tempo cronológico (não ocorre por simples diacronia), Uma estrutura comporta três características: totalidade, tran.iformação
15
há outro ponto fundamental a considerar acerca da temporalidade e autorregulação. A autorregulação, caraterística essencial da estrutura,
que opera na constituição de um bebê: tampouco se trata de que ele implica certa estabilidade do sistema, sendo este suscetível a
estivesse, desde sempre, dado como sujeito na estrutura (na sincronia autoconservar-se; a totalidade resulta de que a reunião de todos os
dos seus elementos), uma vez que é preciso um tempo para que a elementos que a compõem é necessariamente diferente da soma
estrutura que o antecede inscreva nele seus efeitos, dando ou fechando deles; e a transformação implica que não há uma imutabilidade,
lugar à sua constituição como sujeito. certas transformações podem ocorrer como estruturantes de uma
realidade com a qual sempre nos deparamos como estando já
Para avançar nesta questão é preciso que abordemos o
estruturada. 16
conceito de estrutura para, posteriormente, articular sua relação com
a temporalidade. A produção de Saussure e o pensamento estruturalista - assim
denominado pela escola de Praga - teve efeitos que se estenderam
Considerações acerca do conceito de estrutura em psicanálise: para além do campo lingüístico e abriram um novo modo de
conceber o objeto de estudo em diversas disciplinas, entre elas a
O estruturalismo nasce com as elaborações propostas por psicanálise.
Ferdinand de Saussure acerca da lingüística. Até suas produções, a
lingüística era uma ciência dedicada principalmente ao estudo da Lacan retoma o texto freudiano desde uma articulação com
história das palavras, ou seja, da etimologia. Saussure inaugurou um a lingüística e os preceitos nela introduzidos pela concepção
estruturalista.
novo modo de estudo da língua, concebendo que este não poderia
ser reduzido à sua perspectiva histórica (diacrônica), já que não é Se Freud já havia situado a "cura pela fala" nos primórdios
simplesmente da etimologia que depende a significação de uma da psicanálise e a "associação livre" passa a ser uma técnica central
palavra, mas do sistema da língua no qual ela é situada, sendo que é na condução do tratamento, Lacan, retomando o texto freudiano,
do contexto que depende a sua significação. Por isso ele propõe afirma que "o inconsciente é estruturado como uma linguagem". A
que podemos estudar uma língua realizando um corte sincrónico (e partir da falta de instinto, é pelos desfiladeiros do significante que se
não mais histórico ou diacrônico), pois, partindo de tal corte, organiza no humano o circuito pulsional. É por isso que a legalidade
poderemos encontrar simultaneamente todas as leis e elementos
que integram esta língua e constituem sua estrutura. 14
Ferdinand Saussure, Curso de lingüística general, Buenos Aires, Losada, p. 7, 138 e
O estruturalismo rompe com a concepção de abordar um 139.
15
objeto de estudo pela simples descrição isolada de suas qualidades Jean Piaget (1970) Le Esh71ct11ralis111e (Q_11e sais-Je?), Paris, PUF, p. 6-7. Citado por
e como um puro efeito de sua história. Inaugura um novo paradigma Joel D or (1989), Introdução à leitura de Lacan, Porto Alegre, Artes Médicas,
p. 24.
13 16
Alfredo J erusalinsky (1988), Psicanálise nos problemas de desenvolvimento infantil. Ver a este respeito Joel Dor, obra citada, p. 24.

266 267
ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

que opera na estrutura psíquica segue as leis próprias da linguagem na clínica psicanalítica o analista está estruturalmente tomado como
e que os processos inconscientes de condensação e deslocamento objeto da transferência pela fala do paciente. O analista não está
que operam nos sonhos, atos falhas, chistes, lapsos, sintomas e no numa posição de observador contemplando a transferência que
movimento próprio do desejo - já descritos por Freud em sua fina organiza a fala do sujeito para classificá-lo. Importa o lugar em que ele
relação com a linguagem - são homólogos às figuras de linguagem mesmo está colocado pela fala do paciente na transferência. A partir do momento
de metáfora e metonímia, respectivamente. em que existe transferência, a fala do s1geito desdobra sua estrutura e, nesta
estrutura, o analista está incluído. É apartir desta posição, na qual ele é colocado
"De fato o significante, com o seu jogo e sua insistência
pelafala do paciente na transferência, que o analistapode, event14almente,farmular
próprios, intervém em todos os interesses do ser humano - por
uma idéia diagnóstica. 21
mais profundos, primitivos e elementares que nós os suponhamos
(...) no ser humano, as significações mais próximas da necessidade, A estrutura do inconsciente é a estrutura da linguagem e é no
as significações relativas à inserção do animal no meio enquanto ato da palavra que o inconsciente se constitui. As formações do
nutritivo e enquanto cativante, as sii:,'11.ificações primordiais, estão inconsciente -· os sonhos, os sintomas - são um enigma cuja lógica
submetidas, em sua seqüência e em sua própria instauração, às leis
se constitui como o de uma língua perdida. Por isso Freud aponta
que são aquelas do significante". 17
que é preciso ler o sintoma como se lê um hieróglifo.
Lacan não só toma por base a concepção estruturalista para
A clínica psicanalítica consiste em escutar as formações do
situar a constituição psíquica e a clínica psicanalítica como também
inconsciente, lendo o sintoma, escutando o lapso ou equívoco que
propõe uma nova leitura acerca das proposições de Saussure a
subverte a intenção do que se queria dizer, porque ali advém o
respeito da arbitrariedade do signo lingüístico 18 , radicalizando tal
sujeito do inconsciente revelando o desejo além da intenção de
arbitrariedade. A partir das postulações saussurianas, rompe a elipse
comunicação. Deste modo, o inconsciente não é uma espécie de
que compõe o signo lingüístico ao afirmar que o signficante tem suas
"lugar psíquico" ou uma "camada mais profunda'', não é uma espécie
leis próprias, independentemente do significado 19 , situando o significado
que defina na realidade psíquica o cí1w!o daquilo que não tem o atributo (ou a
como aquilo que decanta do deslizamento de um significante a
viitude) da consciência. O incomciente é o que dizemos. 22
outro. 20
Diferentemente da lógica clássica em que um enunciado pode
Mas que lugar assume esta estrutura da linguagem na psicanálise
ser considerado como verdadeiro ou falso, Freud advertiu a existência
que a diferencia do lugar que ocupa no estudo lingüístico?
de um terceiro valor de verdade, o "em falso" ou "falho" pelo qual
A psicanálise é uma clínica estrutural num sentido farte, pois se desdobra o sujeito do inconsciente comparece no ato de falar. Então, Lacan,
a partir e na transferência. Diferentemente de uma concepção ao retomar a descoberta freudiana, não o faz por meio da mesma
fenomenológica, que considera e descreve os fenômenos da vida lógica que a lingüística, pois considera nesta estrutura da linguagem
de um paciente para tirar uma conclusão nosográfica a seu respeito, a produção de um sujeito pela ordem simbólica.

"Quanto à psicopatologia da vida cotidiana, outro campo


17
Jacques Lacan (1955-1956) Seminá1io 3, As psicoses, p. 225. consagrado pela obra de Freud, está claro que todo ato falho é um
18
Ferdinand Saussure, obra citada, p. 92, 93, 94.
19 21 Contardo Calligaris (1989) Introdução a uma clínica diferencia/ das psicoses, Porto
Jacques Lacan (1955-1956), Seminá1io 3, obra citada, p. 225.
Alegre, Artes Médicas, p. 31.
w Ver, a este respeito, Jacques Lacan (1957), La instancia de la letra en el Inconsciente
o la razón desde Freud, Emitos 1, Buenos Aires, Siglo Veitiuno (N. da A.).
22 Jacques Lacan (1964), Posição do Inconsciente, Escritos 2, p. 809

268 269
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

discurso bem-sucedido, inclusive bastante e belamente polido, e Quem fala diz mais do que pensa estar dizendo. Esta é a
que, no lapso, é a mordaça a que gira em torno da palavra justamente diferença fundamental do lugar da linguagem na lingüística e na
com o quadrante que faz falta para que um bom entendedor psicanálise: na psicanálise se trata de reconhecer aquilo que a
encontre ali o que precisa." 23
linguagem impõe como estrutura à constituição do sujeito e ler aquilo
"Retomemos a obra de Freud na Traumdentung para
que do sujeito do inconsciente comparece pelas suas formações do
recordar, deste modo, que o sonho tem a estrutura de uma frase,
inconsciente, nas quais o desejo se serve do significante subvertendo
ou mais precisamente, se vamos ater-nos à sua letra, de um rébus,
isto é, de uma escritura da qual o sonho de uma criança representaria a significação intencionada e dizendo mais do que queria dizer.
a ideografia primordial, e que no adulto reproduz a utilização Que o enunciado de um sujeito e as intenções conscientes do
fonética e simbólica e ao mesmo tempo dos elementos que quer dizer tropecem no ato da enunciação com irrupções de
significantes, que tanto encontramos nos hieróglifos do antigo
lapsos ou equívocos não quer dizer que o que diga seja estabelecido
Egito quanto nos caracteres cujo uso a China conserva.
ao acaso.
Mas isso ainda é apenas a decifração do instrumento. É na
versão do texto onde começa o que importa, o importante do que Freud, nos textos A interpretação dos sonhos, Psicopatologia da vida
Freud nos diz que está dado na elaboração do sonho, isto é, em cotidiana, Os chistes e sua relação com o Inconsciente, entre outros, demostra
sua retórica. Elipse e pleonasmo, hipérbole eu silepse, regressão, que as formações do inconsciente, assim como a associação livre,
repetição, aposição, tais são os deslocamentos sintáticos, metáfora,
estão sob o jugo da sobredeterminação inconsciente. Na
catacrese, antonomásia, alegoria, metonímia e sinédoque, as
sobredeterminacão inconsciente ficam implicados diversos conteúdos
condensações semânticas em que Freud nos ensina a ler as
intenções ostentatórias, demonstrativas, dissimuladoras ou latentes em torno ,de um conteúdo que se apresenta de modo manifesto, dando
persuasivas, retaliadoras ou sedutoras, com que o sujeito modula lugar, no trabalho da interpretação, a diversas leituras sucessivas.
seu discurso onírico. Sem dúvida postulou como regra que sempre Isto não implica um número indefinido de interpretações possíveis:
é preciso buscar nele a expressão de um desejo." 24 ainda que nas formações do inconsciente o processo seja bastante
mais complexo, poderia ser comparado ao de uma palavra que se
Assim, se, por um lado, a estrutura da linguagem preexiste ao
presta, devido ao contexto em que seja colocada e à polissemia que
sujeito, háuma questão central da qual a psicanálise ocupa-se: implica
comporta, a diversas leituras. Estas diversas leituras, em uma
considerar não só como o sujeito entra na ordem simbólica, mas
formação do inconsciente - por exemplo, o sintoma - se intercruzam
também e, principalmente, como um sujeito é produzido pela ordem
em torno de um ponto nodal e não permanecem como
simbólica, pelo significante. 25
independentes umas das outras.
23
Jacques Lacan (1953), Función y campo de la palabra y dei lenguaje en e! ''Verdadeiras seqüências de idéias associadas encontram-
psicoanálisis, Escntos 1, p. 258. se entre a emoção e seu reflexo. Aqui temos a determinação através
24
Idem, p. 257. do simbolismo. O que une a emoção ao seu reflexo é muitas
25
É preciso apontar que, para avançar na questão da constituição do sujeito, Lacan vezes algum trocadilho ridículo de associações pelo som." 26
- sobretudo a partir de 1962 com o Seminário 9, A identificação - não se atém mais
a uma lógica estruturalista (de pensar o sujeito como efeito da metáfora e metonímia
"Se, para admitir um sintoma na psicopatologia
desde os eixos sintagmático e paradigmático) e passa a lançar mão de um pensamento psicanalítica, seja ele neurótico ou não, Freud exige o mínimo de
topológico por meio do qual pode situar a estrutura de borda e, a partir dela, o sobredeterminação que constitui um duplo sentido, símbolo de
estabelecimento do circuito pulsional, assim como os movimentos de alienação e
separação como fundantes do sujeito. Jacques Lacan (1964), Posición dei 26 Sigmund Freud (1895), E studos sobre a histeria, E.S.B .. , vol. II, Rio de Janeiro,

Inconsciente, E scritos 2 (N. da A.). Imago, p. 262.


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ENQUA.t'\JTO O FUTURO NÃO VEM
DA ESTRUTURA AO N ASCil'YIENTO DO SUJEITO

um conflito defunto, além de sua função, num conflito presente


O que está em jogo numa psicanálise é o advento no
não menos simbólico, e se ele nos ensinou a acompanhar, no texto
sujeito da pouca realidade que este desejo sustenta nele em
das associações livres, a ramificação ascendente desta linhagem
comparação com os conflitos simbólicos e fixações imaginárias."]()
simbólica, para nela detectar, nos pontos em que as formas verbais
se intercruzam, os nós de sua estrutura - fica claro que o sintoma
se resolve inteiramente na análise da linguagem, porque ele mesmo Numa passagem de Alice através do espelho, a menina encontra-
está estruturado como uma linguagem, porque é a l.inguagem se com o personagem Humpty Dumpty. Tal personagem faz parte
cuja palavra tem que ser libertada." 2; de uma cantiga de crianças que narra a sua estória. Ele é um ovo
que se equilibra em cima de um muro e, quando acaba caindo, não
A natureza da linguagem impõe às formações do inconsciente pode ser salvo nem por todos os cavaleiros do rei. Alice, que conhece
um poder combinatório. Quando se produz a associação livre, as a estória, quando encontra Humpty Dumpty, logo põe as mãos
associações que ali advêm já estavam latentes na escolha na qual tomaram embaixo para amparar a queda que a canção antecipa. No entanto,
seu ponto de partida. Não se trata aqui de compreendê-las no âmbito Humpty Dumpty não está nada preocupado em cair, mas sim em
da superstição como constituindo o destino do sujeito, mas é preciso fazer uma série de trocadilhos, de subverter o sentido, ou como ele
admitir que é na ordem de existência de suas combinações, isto é, na linguagem mesmo diz: pôr as palavras a trabalhar. 31
concreta que eles representam, que reside tudo o que a análise revela ao sujeito Retomando esta estória, Lacan afirma:
como seu inconsciente. É também nesta estrutura própria do inconsciente,
"Nós temos que lidar com escravos que acreditam ser
pela ambigüidade que lhe confere a linguagem, que se apresenta a outra cara de
senhores e que encontram em uma linguagem de missão universal
seu poder de regalia, armando 'a saída'pela qual sua ordem inteira é aniquilada
a sustentação de sua servidão com as ligas de sua ambigüidade.
num instante - saída na qual sua atividade oiadora revela sua gratuidade Deste modo, poderia se dizer com humor que nossa meta é
absoluta.28 restituir-lhes a liberdade soberana da qual dá prova Humpty
Dumpty quando lembra à Alice que, depois de tudo, ele é o senhor
"A psicanálise consiste no pulsar sobre os múltiplos do significante, se não o é do significado no qual seu ser tomou
pentagramas que a partitura da palavra constitui nos registros da sua forma." 32
linguagem: daí decorre a sobredeterminação, que só tem sentido
nessa ordem." 29 Isto nos permite situar o modo em que a estrutura se apresenta
"Os símbolos efetivamente envolvem a vida do homem na psicanálise: ainda que ela implique uma sobreteterminação que
com uma rede tão total que conjugam, antes que venha ao mundo, antecede o sujeito - este é produto da estrutura - também implica,
aqueles que vão engendrá-lo 'em carne e osso'(...) pelo deslizamento de sentido que a linguagem faz possível, um sujeito
Servidão e grandeza na qual se aniquilaria o vivente, se o
do desejo capaz de subverter as significações de sua existência. De
desejo não preservasse seu papel nas interferências e nas pulsões
tal forma que, se bem a estrutura sempre esteja ali precedendo o
que fazem convergir sobre os ciclos de linguagem(...)
sujeito com a rede simbólica que o recebe no mundo já estendida,
e se bem seja nesta "teia de aranha simbólica" que o sujeito ficará

27
Jacques Lacan (1953), Función y campo de la palabra y dei lenguaje en el
30
psicoanálisis, Emitas 1, p. 258. Idem, p. 268.
31 Lewis Carroll (1871), Alice através do espelho, São Paulo, Sumus, p. 191 a 202.
211
Idem, p. 259.
32
29
Idem, p. 280. Jacques Lacan (1953), Función y campo de la palabra y de! lenguaje en el
psicoanálisis. Escritos 1, p. 282.
272 273
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM
DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

tomado e sobredeterminado pelo efeito da combinatória da bateria


imaginário e simbólico parental. Concebemos assim 0
significante que ali se apresenta, o que não está escrito de antemão é
sintoma do bebê como um enigma estabelecido a partir do
o que um sujeito fará com isto. Por iss o se situa a questão da modo em que as marcas simbólicas do Outro primordial
subversão do sujeito, pois este não é uma espécie de vítima da nele se efetuaram, organizando seu corpo.
estrutura, cabe a ele, a suas escolhas inconscientes, a responsabilidade
acerca do que faz a partir de tal sobredeterminação que lhe coube • Todo sujeito, para advir como tal, terá que lidar, "se virar'',
em sorte. Pode-se dar lugar aí a um ato criativo que subverta toda a com os significantes da estmtura parental que lhe couberam.
ordem. Mas, ainda que o sujeito esteja sujeitado pela estrutura que o
antecede, pode nela tecer, por meio da "subversão do
A partir de tal percurso é possível retomar os fundamentos desejo", diferentes significações a partir dessas constelações
que sustentam a clínica com bebês: significantes pelas quais foi recebido. Há aí uma escolha,
• A estrutura psíquica de um sujeito não está previamente uma implicação do sujeito, mesmo que inconsciente. No
inscrita no bebê por herança filogenética, e sua constituição tempo de criança, um sujeito começa a tecer com estes
tampouco ocorre como um simples efeito cronológico. significantes suas próprias versões e, por isso ele pode "dar
as suas tiradas" surpreendendo a todos. 33
Há um tempo delimitado cronologicamente para que ocorra
a inscrição simbólica de certas operações lógicas implicadas • Se bem o tempo de ser bebê implique estar radicalmente
na constituição do sujeito psíquico. atrelado à fantasia (fantasias fundamentais) materna, quando
um sintoma se precipita no corpo do bebê, tal sintoma
• Todo recém-nascido, para sua constituição psíquica,
passa a lhe dizer respeito. Isto porque, por mais que tal
depende de como seja tomado pelo Outro encarnado nesta
sintoma seja produzido como efeito da fantasia materna,
estrutura simbólica que o antecede. O que implica não só
"ser no Outro" - esta alienação - é o primeiro tempo da
considerar a rede simbólica que o antecede, mas também o
constituição psíquica, e portanto já implica a incipiente
desejo de um agente materno que lhe dirija um desejo não
constituição do bebê. Assim, ele não é uma espécie de
anônimo pelo qual o recém-nascido possa ser tomado como
simples "vítima" da estrutura, ele já está implicado neste
o bebê de alguém.
sintoma que vem a alojar-se em seu corpo e em sua
• A estrutura simbólica que antecede um recém-nascido produção.
sobredetermina sua existência de modo inconsciente (ou
Por isso, diante da queixa parental é preciso diferenciar se a
seja, não se trata de tomar esta questão no nível de más ou
mesma é ou não acompanhada de sintomas clínicos
boas intenções parentais).
presentes no bebê. Quando o bebê não apresenta sintomas
• A intervenção consiste em tomar o bebê e os sintomas em clínicos, podemos proceder com um trabalho de escuta
sua constituição psíquica e desenvolvimento sujeitados/ dos pais, mas quando há um sintoma que está a fazer
sustentados por esta estrutura simbólica. Por isso escutamos obstáculo à constituição do bebê, quando o sintoma se
o discurso parental, pois os sintomas apresentados no bebê precipita em seu corpo, a intervenção o implica.
não são situados apenas pelo estabelecimento do real de
seu quadro orgânico, mas também lidos no contexto 33
Ver: Jacques Lacan (1964). Los cuatro conceptos fimdam entafes dei psicoanálisis,
Seminan·o 11, Buenos Aires, Paidós, p. 195.

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ENQUANTO O FUTURO NÃO VEM DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

Percebe-se assim a importância de que, na intervenção com paciente, em seu sintoma e na transferência ao analista, repete as marcas essenciais
bebês e crianças, se considere os tempos implicados na constituição de sua infância supostamente esquecidas, repete "não apenas para seu médico,
do sujeito face à estrutura que o antecede, dado que a infância é um mas para todos os outros aspectos da situação atual. '135
momento da vida no qual a estrutura ainda está produzindo seus
Sublinhamos nas citações momento, presente e situação atual, pois
efeitos de inscrição.
tais expressões nos permitem elucidar, desde a obra freudiana, o
A estrutura psíquica e suas temporalidades:
que é próprio da temporalidade psíquica, na qual os conteúdos
inconscientes, por mais antigos que possam resultar pelo aspecto
Podemos reconhecer na temporalidade que opera na vida histórico, comparecem nas formações do inconsciente de modo
psíquica as mesmas leis que regem a linguagem: totalmente atual. É por isso que, num sonho, uma antiga lembrança
da infância e um resto diurno de uma experiência vivida há poucas
• Os conteúdos do inconsciente não se organizam
horas podem ser condensados no mesmo elemento onírico.
cronologicamente, apresentam uma atemporalidade
(cronológica), como postula Freud. Sua organização, Freud, ao elucidar a lei de atemporalidade que rege os conteúdos
portanto, não é simplesmente histórica ou diacrônica. inconscientes (e, portanto, todos aqueles conteúdos integrantes da
instância psíquica do Isso), demostra que a temporalidade do
• Encontramos também na vida psíquica os efeitos de
inconsciente não corresponde aos critérios de cronologia:
retroatividade significante:
Assim como, ao falar, o que se diz depois ressignifica o que "No Isso não existe nada que corresponda à idéia de
se disse antes, um acontecimento da vida só assume seu tempo; não há reconhecimento da passagem do tempo, e - coisa
valor psíquico devido às sucessivas significações e muito notável e merecedora de estudo no pensamento filosófico
resignificações da série significante em que é inscrito. - nenhuma alteração em seus processos mentais é produzida pela
passagem do tempo. Impulsos plenos de desejos, que jamais
É disto que nos fala o conceito de a posteriori, na obra de
passaram além do Isso, e também impressões, que foram
Freud - conceito que é retomado por Lacan sob o nome mergulhadas no Isso pelas repressões, são virtualmente imortais;
de apres-coup -, ou seja, dos efeitos de retroatividade depois de se passarem décadas, comportam-se como se tivessem
significante que operam na vida psíquica. ocorrido há pouco." 36
Se nos albores do que viria a constituir a psicanálise, por meio
da técnica de catarse, buscava-se enfocar diretamente o momento em Como vimos, Saussure deu lugar ao estabelecimento da
que o sintoma se formava, na tentativa de que a cena traumática do passado epistemologia estrutural partindo do princípio de que, ao realizar
pudesse ser revivida, posteriormente, na psicanálise propriamente um corte vertical em um único momento da história de um objeto
dita - pelo estabelecimento da regra de associação livre - o analista de estudo, podemos encontrar de modo sincrônico todos os
abandona a tentativa de colocar emfoco um momento ou problema espec[ftcos. elementos estruturais que possibilitam o conhecimento científico de
Contenta-se em estudar tudo o que se ache presente, de momento, na tal objeto; Freud, por sua vez, propõe que, para intervir nos sintomas
supetjicie da mente do paciente e emprega a arte da interpretação, principalmente de um sujeito, não é necessário empreender uma espécie de viagem
para identtficar as resistências que lá aparecem. 34 Isto se faz possível pois o
3; Idem, p. 197. Grifo nosso (N. da A.).
34
Sigmund Freud (1914), Recordar, repetir, elaborar, E.S.B., vol. XII, Rio de Sigmund Freud (1914), Novas conferências introdutórias à psicanálise, conferência
36

Janeiro, Imago, p. 193. Grifo nosso (N. da A.). XX.'G, E.S.B., vol. XXII, Rio de Janeiro, Imago, p. 95.

276 277
ENQUANTO O FUTURO NAO VEM DA ESTRUTURA AO NASCIMENTO DO SUJEITO

ao passado, já que os nexos de seus sintomas se apresentam na E o texto prossegue afirmando:


atualidade da vida psíquica, ou - se introduzirmos aí a terminologia
proposta pela epistemologia estrutural, com a qual Freud ainda não "Dessa forma o passado o presente e o futuro são
contava - poderemos dizer que os nexos de seus sintomas se entrelaçados pelo fio do desejo que os une". 38
apresentam na atualidade de sua "estrutura psíquica", e é por isso
Fica claro então que, se bem a estrutura psíquica não se organize
que é nesta atualidade que se desdobra o trabalho com as formações
como efeito de uma cronologia, há sim uma temporalidade que
do inconsciente.
tem os seus efeitos nesta estrutura. É o desejo que une passado,
A lei de atemporalidade que rege os conteúdos inconscientes presente e futuro impondo uma lógica à temporalidade que opera
demostra uma não-correspondência cronológica, mas também na vida psíquica inconsciente. E é aqui que entra o efeito de retroação,
começa a elucidar outro tipo de temporalidade, uma temporalidade a posteriori ou aprés-coup nesta estrutura.
na qual passado e presente ficam articulados na sincronia da
Os materiais presentes sob aforma de traços mnêmicos sofrem de tempos
estrutura.
em tempos, em júnção de novas condições, uma reinscrição. 39 O conceito de a
Sustentar esta dimensão sincrônica da estrutura psíquica, posteriori .introduzido por Freud é fundamental para situar-nos acerca
sustentar a lei de atemporalidade cronológica do inconsciente, de da temporalidade que opera na estrutura psíquica. Na qual um
modo algum significa afirmar que os conteúdos inconscientes se determinado evento histórico não possui valor em si mesmo, nem
mantenham como cristalizados e imutáveis: o assume imediatamente ao acontecido, pois a significação que venha
a assumir na vida psíquica depende de uma rede de associações na
"Não devemos supor que os produtos dessa atividade