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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.662.322 - RJ (2015/0234996-5)

RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI


RECORRENTE : GAFISA S/A
ADVOGADOS : FERNANDO ANTONIO A DE OLIVEIRA - SP022998
RODRIGO MATTAR COSTA ALVES DA SILVA E OUTRO(S)
- RJ107861
RENAN REIS ROCHA - RJ151567
RINALDO ZAMPONI - RJ014577
JOÃO VICENTE BERRIEL NETTO - RJ169957
RECORRIDO : RAFAEL AUGUSTO QUARESMA SIFUENTES FERREIRA
RECORRIDO : LEIDIMAR ROCHA POSENATO FERREIRA
ADVOGADOS : SIMONE MARIA RODRIGUES LEAO - RJ147021
LEIDIMAR ROCHA POSENATO FERREIRA E OUTRO(S) -
RJ128270
EMENTA

PROCESSUAL CIVIL E CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DE


REPARAÇÃO DE DANOS MATERIAIS E COMPENSAÇÃO DE
DANOS MORAIS. ATRASO NA ENTREGA DE IMÓVEL. EMBARGOS
DE DECLARAÇÃO. OMISSÃO, CONTRADIÇÃO OU OBSCURIDADE.
NÃO OCORRÊNCIA. PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA.
SÚMULA 211/STJ. FUNDAMENTO DO ACÓRDÃO NÃO
IMPUGNADO. SÚMULA 283/STF. REEXAME DE FATOS E PROVAS.
INADMISSIBILIDADE. LUCROS CESSANTES. PRESUNÇÃO.
CABIMENTO. ATRASO NA ENTREGA DE IMÓVEL QUE GERA
ADIAMENTO DO CASAMENTO. DANO MORAL CONFIGURADO.
1. Ação ajuizada em 09/06/2010. Recurso especial concluso ao gabinete em
26/08/2016. Julgamento: CPC/73.
2. O propósito recursal, além de analisar acerca da alegada ocorrência de
negativa de prestação jurisdicional, é determinar se o atraso da recorrente
na entrega de unidade imobiliária, objeto de contrato de compra e venda
firmado entre as partes, gera danos morais e materiais (lucros cessantes) aos
recorridos.
3. Ausentes os vícios do art. 535 do CPC, rejeitam-se os embargos de
declaração.
4. A ausência de decisão acerca dos argumentos invocados pela recorrente
em suas razões recursais, não obstante a oposição de embargos de
declaração, impede o conhecimento do recurso especial.
5. A existência de fundamento do acórdão recorrido não impugnado –
quando suficiente para a manutenção de suas conclusões – impede a
apreciação do recurso especial.
6. O reexame de fatos e provas em recurso especial é inadmissível.
7. A ausência de entrega do imóvel na data acordada em contrato gera a
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presunção relativa da existência de danos materiais na modalidade lucros
cessantes. Precedentes.
8. Muito embora o entendimento de que o simples descumprimento
contratual não provoca danos morais indenizáveis, tem-se que, na hipótese
de atraso na entrega de unidade imobiliária, o STJ tem entendido que as
circunstâncias do caso concreto podem configurar lesão extrapatrimonial.
9. O fato de os recorridos terem adiado casamento – com data já marcada, e
não apenas idealizada –, o que redundou na necessidade de impressão de
novos convites, de escolha de novo local para a cerimônia, bem como de
alteração de diversos contratos de prestação de serviços inerentes à
cerimônia e à celebração, ultrapassa o simples descumprimento contratual,
demonstrando fato que vai além do mero dissabor dos compradores, já que
faz prevalecer os sentimentos de injustiça e de impotência diante da
situação, assim como os de angústia e sofrimento.
10. A frustação com a empreitada mostra-se inegável, de modo que o
evento não pode ser caracterizado como mero aborrecimento, evidenciando,
de forma inegável, prejuízo de ordem moral aos recorridos.
11. Recurso especial parcialmente conhecido e não provido.
ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Terceira


Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas
taquigráficas constantes dos autos, por unanimidade, conhecer em parte do recurso
especial e negar-lhe provimento, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs.
Ministros Paulo de Tarso Sanseverino, Ricardo Villas Bôas Cueva e Moura Ribeiro
votaram com a Sra. Ministra Relatora. Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Marco
Aurélio Bellizze.

Brasília (DF), 10 de outubro de 2017(Data do Julgamento)

MINISTRA NANCY ANDRIGHI


Relatora

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RECURSO ESPECIAL Nº 1.662.322 - RJ (2015/0234996-5)
RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI
RECORRENTE : GAFISA S/A
ADVOGADOS : FERNANDO ANTONIO A DE OLIVEIRA - SP022998
RODRIGO MATTAR COSTA ALVES DA SILVA E OUTRO(S)
- RJ107861
RENAN REIS ROCHA - RJ151567
RINALDO ZAMPONI - RJ014577
JOÃO VICENTE BERRIEL NETTO - RJ169957
RECORRIDO : RAFAEL AUGUSTO QUARESMA SIFUENTES FERREIRA
RECORRIDO : LEIDIMAR ROCHA POSENATO FERREIRA
ADVOGADOS : SIMONE MARIA RODRIGUES LEAO - RJ147021
LEIDIMAR ROCHA POSENATO FERREIRA E OUTRO(S) -
RJ128270
RELATORA: MINISTRA NANCY ANDRIGHI

RELATÓRIO

Cuida-se de recurso especial interposto por GAFISA S/A,


fundamentado nas alíneas "a" e “c” do permissivo constitucional contra acórdão
proferido pelo TJ/RJ.
Recurso especial interposto em: 15/06/2015.
Atribuído ao Gabinete em: 26/08/2016.
Ação: de reparação de danos materiais e compensação de danos
morais, ajuizada por RAFAEL AUGUSTO QUARESMA SIFUENTES
FERREIRA e LEIDIMAR ROCHA POSENATO FERREIRA, em desfavor da
recorrente, em virtude de atraso na entrega de imóvel, objeto de contrato de
compra e venda firmado entre as partes, e que, inclusive, acabou implicando no
adiamento da data de casamento daqueles (e-STJ fls. 2-25).
Sentença: julgou parcialmente procedentes os pedidos, para
condenar a recorrente ao pagamento de: i) R$ 15.000,00 (quinze mil reais) a título
de compensação dos danos morais; ii) R$ 970,43 (novecentos e setenta reais e
quarenta e três centavos), tendo em vista a perda da garantia dos eletrodomésticos
comprados ou recebidos em razão do casamento; e iii) lucros cessantes,
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equivalentes a R$ 980,00 (novecentos e oitenta reais) –1% (um por cento) do
valor do imóvel – por mês de atraso na entrega da unidade imobiliária (e-STJ fls.
424/425).
Decisão monocrática: negou provimento à apelação interposta pela
recorrente (e-STJ fls. 486-496).
Acórdão: negou provimento ao agravo interposto pela recorrente,
mantendo a decisão unipessoal do relator, nos termos da seguinte ementa:

AGRAVO INTERNO em Apelação Cível. Relação jurídica de consumo.


A temática que nutre a demanda está afeta a contrato particular de promessa de
compra e venda relativo à unidade habitacional. Elementos coligidos aos autos
aptos a coadjuvar a decisão objurgada. Delonga injustificada na entrega de
unidade autônoma de empreendimento imobiliário. Autores que fazem jus à
efetiva reparação dos danos materiais e imateriais suportados em razão da
conduta desidiosa da empresa ré. Inexistência de direito de retenção, vez que a
obtenção de linha de crédito pelos promitentes compradores com vistas à
quitação do saldo devedor estava condicionada à averbação da certidão de
“habite-se”. Teoria do risco-proveito. Princípio da boa-fé objetiva. Dano
extrapatrimonial configurado. Quantum reparatório adequadamente fixado.
Adquirentes que tiveram de adiar o próprio casamento, em razão do atraso na
entrega do imóvel, tratando-se de desgosto íntimo pela frustração na
expectativa de inaugurar nova moradia ou dar-lhe o destino que fora
idealizado, cujo empreendimento não logrou receber na data fixada, daí porque
a importância de R$ 15.000,00 (quinze mil reais), afigura-se compatível com
as circunstâncias do caso concreto e os princípios da proporcionalidade e da
razoabilidade. Orientação firmada no Enunciado nº 116 Aviso nº 100 de
15/12/2011 desta Corte. Reexaminando toda a hipótese fática verifico que a
decisão agravada, que passa a integrar este voto, deve ser mantida. Nenhum
argumento válido ou novo trouxe o agravante para justificar a reforma
pleiteada, limitando-se, apenas, a reproduzir os mesmos argumentos já
deduzidos na Apelação Cível (e-STJ fls. 521/522).

Embargos de declaração: opostos pela recorrente, foram rejeitados


(e-STJ fls. 553-568).
Recurso especial: alega violação dos arts. 332, 397, 402, 476, 491,
884, 944 do CC/02; 458 e 535 do CPC/73; 52 da Lei 4.591/64, bem como dissídio
jurisprudencial. Aponta a ocorrência de negativa de prestação jurisdicional.
Insurge-se contra a condenação a título de lucros cessantes, sob o argumento de

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que os recorridos jamais possuíram a intenção do locar o imóvel, sendo o pleito
manifestamente hipotético. Aduz que, ainda que concedida a indenização pelos
lucros cessantes, jamais poderia dar-se com base no valor total do imóvel, mas
sim com base no percentual do preço quitado no momento previsto para a
conclusão das obras. Ademais, defende que o termo final para a fixação dos lucros
cessantes não pode ser considerado a data da averbação do “habite-se”, mas sim a
data de sua concessão, que representa, efetivamente, a data de conclusão das
obras. Pugna para que o termo inicial de incidência dos juros moratórios seja a
data do respectivo vencimento das obrigações. Assevera que a garantia dos
eletrodomésticos adquiridos pelos recorridos não guarda qualquer relação com o
negócio firmado entre as partes, não se podendo afirmar, sequer, que viriam a
apresentar defeitos, tratando-se, também, de danos meramente hipotéticos. Por
fim, sustenta que não há que se falar em compensação de danos morais, por
tratar-se de mero inadimplemento contratual, pugnando pela sua exclusão ou, ao
menos, pela redução do quantum compensatório fixado (e-STJ fls. 584-621).
Prévio juízo de admissibilidade: o TJ/SP inadmitiu o recurso
especial interposto por GAFISA S/A (e-STJ fls. 669-673), ensejando a
interposição de agravo em recurso especial (e-STJ fls. 683-709), que foi provido e
reautuado como recurso especial, para melhor exame da matéria (e-STJ fl. 776).
É o relatório.

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RECORRIDO : LEIDIMAR ROCHA POSENATO FERREIRA
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VOTO

O propósito recursal, além de analisar acerca da alegada ocorrência


de negativa de prestação jurisdicional, é determinar se o atraso da recorrente na
entrega de unidade imobiliária, objeto de contrato de compra e venda firmado
entre as partes, gera danos morais e materiais (lucros cessantes) aos recorridos.

Aplicação do Código de Processo Civil de 1973 – Enunciado


Administrativo n. 2/STJ.

I - Da negativa de prestação jurisdicional (arts. 458 e 535 do


CPC/73)
1. A recorrente aponta violação dos arts. 458 e 535 do CPC/73, sob o
argumento de que o acórdão recorrido teria desconsiderado as suas alegações sem
expor nenhum fundamento para tanto, mesmo após a oposição de embargos de
declaração.
2. Mais especificamente, nas razões de seu apelo extremo, a
recorrente aponta a negativa de prestação jurisdicional quanto à condenação a

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título de lucros cessantes (e-STJ fl. 596) – pois teria deixado de se manifestar
sobre o fundamento de ausência de intenção de exploração econômica do bem – e
a título de danos morais – diante da ausência de análise quanto aos argumentos de
não configuração de dano moral quando do mero inadimplemento contratual e de
desproporcionalidade do quantum compensatório fixado (e-STJ fl. 616).
3. No entanto, verifica-se que o acórdão recorrido não padece dos
vícios de omissão, contradição ou obscuridade, porque, de forma clara e
fundamentada, examinou todas as questões levadas à sua apreciação, tendo se
manifestado expressamente sobre os argumentos relativos à condenação a título
de danos materiais e morais.
4. Na verdade, a pretexto da ofensa ao art. 535 do CPC/73, a
recorrente demonstra seu inconformismo com as conclusões adotadas no acórdão
recorrido, o que, conforme a pacífica jurisprudência desta Corte, não autoriza a
oposição de embargos de declaração (AgRg no REsp 1.500.251/DF, 3ª Turma,
DJe de 03/05/2016; e REsp 1.434.508/BA, 3ª Turma, DJe de 04/06/2014).
5. Assim, não se vislumbra a alegada negativa de prestação
jurisdicional.

II – Da ausência de prequestionamento
6. O acórdão recorrido, apesar da oposição de embargos de
declaração, não decidiu acerca dos argumentos invocados pela recorrente em seu
recurso especial quanto aos argumentos i) de impossibilidade de se considerar o
valor total do imóvel para o cálculo da condenação a título de lucros cessantes; ii)
do termo inicial para a incidência dos juros moratórios; e iii) da configuração de
danos meramente hipotéticos quanto aos valores adimplidos a título de garantia
estendida de eletrodomésticos, o que inviabiliza o seu julgamento. Aplica-se,
neste caso, a Súmula 211/STJ.
7. Ressalte-se que, nas razões de seu recurso especial, a recorrente
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não aponta negativa de prestação jurisdicional quanto aos pontos, motivo pelo
qual inviável reconhecer a existência de prequestionamento com relação aos
temas.

III – Da existência de fundamento não impugnado


8. Quanto ao termo ad quem para a reparação dos danos materiais
supostamente sofridos pelos recorridos, tem-se que, em 1º grau, foi considerada a
data da averbação do “habite-se” (e-STJ fl. 425).
9. A recorrente insurge-se contra o termo final fixado, defendendo
que deveria ser considerada a data da concessão do “habite-se”, uma vez que
representaria, efetivamente, a data de conclusão das obras. Aduz que, “ao
determinar o pagamento da indenização por danos materiais até a data da
averbação do habite-se, o acórdão acabou violando o direito da Recorrente de
reter a unidade até o pagamento do preço, beneficiando os Recorridos da própria
inadimplência ” (e-STJ fl. 601). Afirma, ainda, que, após a concessão do
“habite-se”, os recorridos não providenciaram o pagamento integral do saldo do
preço, motivo pelo qual não poderia ser obrigada a entregar a unidade antes da
quitação do negócio.
10. Contudo, a recorrente não impugnou o seguinte fundamento
utilizado pelo TJ/RJ:

No que tange ao alegado direito de retenção, melhor sorte não assiste à


recorrente, vez que a obtenção de linha de crédito pelos promitentes
compradores com vistas à quitação do saldo devedor estava condicionada à
averbação da certidão de “habite-se”.
Nesse passo, forçoso reconhecer que a agravante descumpriu
primariamente com sua obrigação de averbação do referido ato administrativo
na data aprazada, impossibilitando, assim, a contratação do mútuo pelos
autores, e em consequência, a liquidação do saldo devedor remanescente na
data assinada.
Demais disso, cada contratante está sujeito ao estrito cumprimento do
pacto bilateral, não podendo nenhum deles exigir a observância de uma
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obrigação do outro sem antes cumprir a sua, ante a dependência recíproca das
obrigações (e-STJ fl. 536).

11. Assim, não impugnado esse fundamento, deve-se manter o


acórdão recorrido. Aplica-se, neste caso, a Súmula 283/STF.
12. Ademais, ainda que transposto mencionado óbice sumular, outro
se imporia.
13. É que o TJ/RJ reconheceu expressamente que “somente após a
averbação do aludido ato administrativo os consumidores deixaram de suportar
as consequências danosas do atuar desidioso da agravante ” (e-STJ fl. 537).
14. Tem-se, desta feita, que alterar o decidido no acórdão impugnado
quanto ao ponto exigiria o reexame de fatos e provas, o que é vedado em recurso
especial pela Súmula 7/STJ.

IV - Dos danos materiais (lucros cessantes) – arts. 402, 884 e 944


do CC/02
15. Quanto aos danos materiais, o TJ/RJ considerou devida a
indenização dos lucros cessantes em razão do atraso na entrega de unidade
autônoma do empreendimento imobiliário (e-STJ fl. 536).
16. Com efeito, o atraso injustificado da entrega do imóvel é
incontroverso nos autos.
17. Ora, com a inexecução do contrato pela recorrente, é mais do que
óbvio terem os recorridos sofrido lucros cessantes a título de alugueres que
poderia ter o imóvel rendido acaso tivesse sido entregue na data contratada, pois
esta seria a situação econômica em que se encontrariam se a prestação da
recorrente tivesse sido tempestivamente cumprida.
18. Trata-se de situação que, vinda da experiência comum, não
necessita de prova (art. 335 do CPC/73).
19. Consideram-se provados, portanto, os lucros cessantes na sua
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existência (an debeatur) .
20. Partindo dessa premissa, o STJ possui entendimento no sentido de
que a ausência de entrega do imóvel na data acordada em contrato gera a
presunção relativa da existência de danos materiais na modalidade lucros
cessantes. Nesse sentido: AgRg no AREsp 689.877/RJ, 4ª Turma, DJe
10/03/2016; AgRg no AREsp 229.165/RJ, 3ª Turma, DJe 27/10/2015; AgRg no
Ag 1.319.473/RJ, 3ª Turma, DJe 02/12/2013.
21. Deve ser mantida, portanto, a reparação dos danos materiais
fixada pelo TJ/RJ.

V – Dos danos morais – arts. 884 e 944 do CC/02


22. Por oportuno, convém tecer algumas considerações a respeito do
dano moral, para analisar se, na hipótese, ele restou configurado, o que ensejaria,
consequentemente, a condenação da recorrente à sua compensação.
23. De fato, para haver a compensação dos danos morais, devem estar
preenchidos os três pressupostos da responsabilidade civil em geral, quais sejam:
a ação, o dano e o nexo de causalidade entre eles. Apenas nessa hipótese surge a
obrigação de indenizar. Esse destaque é importante porque “nem todo atentado a
direitos de personalidade em geral é apto a gerar dano de cunho moral ”
(BITTAR, Carlos Alberto. Reparação Civil por danos morais. São Paulo: Saraiva,
4ª ed., 2015, p. 60), pois os danos podem esgotar-se nos aspectos físicos ou
materiais de uma determinada situação. Diga-se, não é qualquer situação geradora
de incômodo que é capaz de afetar o âmago da personalidade do ser humano.
24. Pode-se acrescentar que dissabores, desconfortos e frustrações de
expectativa fazem parte da vida moderna, em sociedades cada vez mais complexas
e multifacetadas, com renovadas ansiedades e desejos e, por isso, não se mostra
viável aceitar que qualquer estímulo que afete negativamente a vida ordinária
configure dano moral.
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25. Nesse contexto, a jurisprudência do STJ vem evoluindo, de
maneira acertada, para permitir que se observe o fato concreto e suas
circunstâncias, afastando o caráter absoluto da presunção de existência de danos
morais indenizáveis.
26. Convém lembrar que esta Corte possui entendimento pacífico no
sentido de que o mero inadimplemento contratual não causa, por si só, dano moral
a ser compensado.
27. Salienta-se, inclusive, que a Segunda Seção deste STJ, em análise
de recurso repetitivo, consagrou o entendimento acerca da inocorrência de abalo
moral indenizável pelo atraso de alguns meses na conclusão da obra, em razão das
circunstâncias do caso concreto (REsp 1.551.968/SP, 2ª Seção, DJe 06/09/2016).
28. No entanto, muito embora o entendimento de que o simples
descumprimento contratual não provoca danos morais indenizáveis, tem-se que,
na hipótese de atraso na entrega de unidade imobiliária, o STJ tem entendido que
as circunstâncias do caso concreto podem configurar lesão extrapatrimonial
(AgInt no AREsp 301.897, 4ª Turma, DJe 22/09/2016; AgRg no AREsp
809.935/RS, 3ª Turma, DJe 11/03/2016; e REsp 1.551.968, 2ª Seção, DJe
06/09/2016).
29. A título exemplificativo, na hipótese de atraso considerável, por
culpa da incorporadora, é possível cogitar-se da ocorrência de abalo moral, tendo
em vista a relevância do direito à moradia (AgRg no AREsp 684.176/RJ, 4ª
Turma, DJe 30/06/2015).
30. Vale analisar, portanto, a situação específica versada nos
presentes autos, a fim de que se possa concluir se o atraso na entrega do imóvel
foi considerável a ponto de produzir nos adquirentes dano moral, hábil a ser
compensado.
31. Pode-se extrair da sentença que a data contratualmente prevista
para a entrega da obra era 31/12/2009 – nesta data já computado o prazo de
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tolerância de 180 (cento e oitenta dias) previsto contratualmente.
32. O início da mora da recorrente deu-se, portanto, a partir da data
mencionada.
33. É fato incontroverso nos autos que a entrega do imóvel deu-se em
01/03/2011 (e-STJ fl. 425).
34. Dessarte, pode-se dizer que, para os recorridos, a recorrente
atrasou na entrega da unidade imobiliária por período aproximado de 1 (um) anos
e 2 (dois) meses.
35. Há nos autos, ainda, a informação de que o casamento dos
recorridos foi adiado diante do atraso na entrega da unidade imobiliária.
36. A própria sentença deixa expressamente consignado que “O dano
moral é presumido, pois quem compra um apartamento para poder casar-se e
nele residir, e vem a ser frustrado em suas legítimas expectativas, sem culpa
alguma, merece ter seu sofrimento compensado ” (e-STJ fl. 425).
37. Sobreleva-se destacar que consta dos autos documentação
comprobatória do adiamento do casamento, que contava, inclusive, com a
impressão de convites em data anterior à entrega do imóvel (e-STJ fls. 88 e 92).
Ademais, constata-se a assinatura de novos contratos de prestação de serviços de
buffet e de foto/filmagem com a nova data de celebração da cerimônia (e-STJ fls.
93-96). Não somente, pode-se constatar, ainda, a alteração de local para a
realização da cerimônia religiosa, em virtude de o local anteriormente eleito já
contar com agendamento de outro casamento (e-STJ fl. 103).
38. Há de se reconhecer, portanto, que, na hipótese, foi invocado fato
extraordinário que ofendeu o âmago da personalidade dos recorridos, de forma a
se constatar o abalo moral, hábil a ser compensado.
39. O fato de os recorridos terem adiado casamento – com data já
marcada, e não apenas idealizada –, o que redundou na necessidade de impressão
de novos convites, de escolha de novo local para a cerimônia, bem como de
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alteração de diversos contratos de prestação de serviços inerentes à cerimônia e à
celebração, ultrapassa o simples descumprimento contratual, demonstrando fato
que vai além do mero dissabor dos compradores, fazendo prevalecer os
sentimentos de injustiça e de impotência diante da situação, assim como os de
angústia e sofrimento.
40. A frustação com a empreitada mostra-se inegável, de modo que o
evento não pode ser caracterizado como mero aborrecimento, evidenciando, de
forma inegável, prejuízo de ordem moral aos recorridos.
41. Assim, reputa-se razoável o valor de R$ 15.000,00 (quinze mil
reais), arbitrado a título de compensação pelos danos morais na espécie (e-STJ fls.
425 e 537).

Forte nessas razões, CONHEÇO PARCIALMENTE do recurso


especial interposto por GAFISA S/A e, nessa parte, NEGO-LHE PROVIMENTO,
para manter o acórdão recorrido quanto à condenação da recorrente a título de
danos materiais (lucros cessantes) e danos morais.
Mantidas as custas e honorários advocatícios conforme estabelecido
pela sentença (e-STJ fl. 425).

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CERTIDÃO DE JULGAMENTO
TERCEIRA TURMA

Número Registro: 2015/0234996-5 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.662.322 / RJ

Números Origem: 00218036120108190203 201524559764 218036120108190203


PAUTA: 10/10/2017 JULGADO: 10/10/2017

Relatora
Exma. Sra. Ministra NANCY ANDRIGHI
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro MOURA RIBEIRO
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. ANTÔNIO CARLOS ALPINO BIGONHA
Secretária
Bela. MARIA AUXILIADORA RAMALHO DA ROCHA
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : GAFISA S/A
ADVOGADOS : FERNANDO ANTONIO A DE OLIVEIRA - SP022998
RODRIGO MATTAR COSTA ALVES DA SILVA E OUTRO(S) - RJ107861
RENAN REIS ROCHA - RJ151567
RINALDO ZAMPONI - RJ014577
JOÃO VICENTE BERRIEL NETTO - RJ169957
RECORRIDO : RAFAEL AUGUSTO QUARESMA SIFUENTES FERREIRA
RECORRIDO : LEIDIMAR ROCHA POSENATO FERREIRA
ADVOGADOS : SIMONE MARIA RODRIGUES LEAO - RJ147021
LEIDIMAR ROCHA POSENATO FERREIRA E OUTRO(S) - RJ128270
ASSUNTO: DIREITO CIVIL - Responsabilidade Civil - Indenização por Dano Material

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia TERCEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Terceira Turma, por unanimidade, conheceu em parte do recurso especial e negou-lhe
provimento, nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora.
Os Srs. Ministros Paulo de Tarso Sanseverino, Ricardo Villas Bôas Cueva e Moura
Ribeiro (Presidente) votaram com a Sra. Ministra Relatora.
Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Marco Aurélio Bellizze.

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