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HIPERTENSÃO ARTERIAL E FATORES PSICOSSOCIAIS NO TRABALHO EM UMA REFINARIA DE PETRÓLEO

ARTIGO

Hipertensão Arterial e Fatores Psicossociais no


Trabalho em uma Refinaria de Petróleo
Julizar Dantas¹
René Mendes²
Tânia Maria de Araújo³

RESUMO
A reestruturação produtiva e suas repercussões sobre a organização do trabalho conduzem à elevação da
carga de trabalho e ao desgaste dos trabalhadores, podendo desencadear novas formas de adoecimento.
Este estudo, tipo caso-controle, investigou a associação entre fatores psicossociais no trabalho e hipertensão
arterial. Incluiu 229 trabalhadores (65 casos/hipertensos, 164 controles/normotensos) do refino do petróleo.
Investigou-se a associação entre as variáveis: desgaste no trabalho, horário de trabalho e pressão arterial.
O desgaste no trabalho foi avaliado pelo job strain model. Os resultados não mostraram associação estatística
entre trabalho de alto desgaste e hipertensão. O suporte social no trabalho foi maior nos trabalhos com
baixo desgaste e ativo comparados com alto desgaste (p < 0,001). Insegurança no emprego foi associada
com trabalho de alto desgaste (p < 0,001). Não constatamos associação entre: a) trabalho de alto desgaste
e uso de fumo/consumo de bebidas alcoólicas; b) prolongamento da jornada de trabalho e hipertensão; c)
trabalho em turnos e hipertensão/consumo de bebidas alcoólicas/fumo. Embora neste estudo não houvesse
associação estatisticamente significante entre os fatores psicossociais do trabalho estudados e hipertensão,
observa-se que o trabalho em alto desgaste associa-se a condições de maior risco de adoecimento. Entre as
medidas de Promoção da Saúde no Trabalho para reduzir a carga de trabalho e o desgaste do trabalhador
torna-se necessário uma organização do trabalho mais flexível (maior controle sobre o próprio trabalho, uso
racional das habilidades e criatividade do trabalhador e regulação das demandas), redução da insegurança
no emprego e melhoria do suporte social proveniente da gerência, supervisão e colegas de trabalho.

Palavras-chave: Saúde Ocupacional; Estresse Psicológico/Complicações; Hipertensão; Trabalhadores;


Indústria Petroquímica; Ergonomia.

INTRODUÇÃO pessoas e países, e por conseqüência, no viver e adoe-


cer das pessoas.1
O processo de reestruturação produtiva é uma nova
forma de produzir que foi viabilizada pelos avanços Nos países industrializados, as inovações tecnoló-
tecnológicos e por novas formas de organizar e gerir o gicas propiciaram melhoria das condições ambientais,
trabalho. É, também, denominado de Terceira Revo- tornando o trabalho menos insalubre, menos agressi-
lução Industrial. Tem uma abrangência global e vem vo e menos pesado, caracterizando uma tendência
introduzindo mudanças radicais na vida e relações das para redução da carga física. Por outro lado, as novas

1. Médico Especialista em Cardiologia e Medicina do Trabalho; Mestre em Saúde Pública/Saúde & Trabalho; Médico Sênior
da Petrobras; Presidente da Comissão Técnica da ANAMT; Doenças Cardiovasculares Relacionadas ao Trabalho.
E-mail: julizardantas@petrobras.com.br.
2. Médico Especialista em Saúde Pública e Medicina do Trabalho; Mestre, Doutor e Livre-docente em Saúde Pública pela
Universidade de São Paulo; Professor Titular do Departamento de Medicina Preventiva e Social da Faculdade de Medicina
da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Área de Saúde & Trabalho, Belo Horizonte, MG (1991-1997); Presiden-
te da Associação Nacional de Medicina do Trabalho - ANAMT.
3. Doutora em Saúde Pública; Professora Titular do Departamento de Saúde da Universidade Estadual de Feira de Santana.

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tecnologias têm imposto cada vez mais exigências de O controle no trabalho compreende: a) aspectos refe-
natureza cognitiva ao trabalhador. Estas se configuram rentes ao uso de habilidades: o grau pelo qual o traba-
por meio de diferentes processos decisórios envolvi- lho envolve aprendizagem de coisas novas, repetitivi-
dos no controle do processo de trabalho e na resolu- dade, criatividade, tarefas variadas e o desenvolvimento
ção de problemas dele resultantes2. A aceleração do de habilidades especiais individuais, e b) autoridade
ritmo, a elevação da complexidade e da intensidade de decisão – inclui a possibilidade do trabalhador de
do trabalho, associados à organização do trabalho au- tomar decisões sobre o seu próprio trabalho, a influên-
toritária e inflexível conduzem a um aumento da carga cia do grupo de trabalho e a influência na política ge-
de trabalho e ao desgaste dos trabalhadores, introdu- rencial4. A demanda psicológica refere-se às exigênci-
zindo novos elementos determinantes da saúde-doen- as psicológicas que o trabalhador enfrenta na realiza-
ça e, conseqüentemente, alterando o quadro da mor- ção das suas tarefas, e inclui pressão do tempo (pro-
bimortalidade relacionada ao trabalho. Para se enten- porção do tempo de trabalho realizado sob tal pres-
der e intervir na saúde dos trabalhadores no momento são), nível de concentração requerida, interrupção das
atual torna-se necessário combinar distintas aborda- tarefas e necessidade de se esperar pelas atividades
gens e enfoques que considerem o processo de rees- realizadas por outros trabalhadores.
truturação produtiva na globalização da economia1. A partir da combinação entre essas duas caracte-
O job strain model (Figura 1) proposto por Kara- rísticas centrais (níveis de controle e de demanda psi-
sek3 foi desenvolvido para investigar ambientes nos cológica) são estabelecidos quatro tipos de situação
quais os fatores psicossociais, resultantes da sofistica- laboral: trabalho de baixo desgaste (envolvendo alto
da relação das tomadas de decisões no complexo con- controle e baixa demanda psicológica), trabalho passi-
texto da organização social do trabalho, agem como vo (combinando baixo controle e baixa demanda), tra-
estressores crônicos e produzem impacto e limitações balho ativo (alta demanda e alto controle) e alto des-
importantes no comportamento individual dos traba- gaste (situação de baixo controle e alta demanda). O
lhadores. O modelo fundamenta-se nas característi- modelo prediz que os riscos para a saúde física e men-
cas psicossociais do trabalho: a demanda psicológica tal estão associados ao trabalho de alto desgaste, reali-
envolvida na execução das tarefas e atividades ocupa- zado em condições de alta demanda psicológica e
cionais e o controle exercido pelos trabalhadores so- baixo grau de controle do trabalhador sobre o seu pró-
bre o próprio trabalho e o suporte social no trabalho. prio trabalho5.

Demanda Psicológica
Baixa Alta

Diagonal B

Motivação
3 2 para desenvolver
novos tipos de
Alto

Baixo Trabalho comportamento


Desgaste Ativo
Grau de Controle

4 1
Baixo

Trabalho Alto Riscos de exigência


Passivo Desgaste psicológica e
adoecimento psíquico
e físico

Diagonal A

Figura 1. O modelo bidimensional de demanda-controle de Karasek3.

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Neste estudo buscou-se promover a agregação do diagnóstico prévio e/ou casos novos de hipertensão.
conceito básico da ergonomia sobre a carga de traba- Para a definição dos controles, estabeleceu-se uma pro-
lho – que fornece elementos para entender os meca- porção de 2,5 controles para cada caso diagnostica-
nismos e explicar a conexão entre a atividade do tra- do. Assim foram selecionados 164 controles com pres-
balho e o desgaste do trabalhador – aos fundamentos são arterial normal (PAS < 130mmHg e a PAD <
teóricos do job strain model. Esse esforço pretende 85mmHg). Os controles são constituídos pelos traba-
contribuir para melhor entender a utilidade do mode- lhadores que foram selecionados por procedimento
lo proposto por Karasek nas pesquisas do desgaste no aleatório (sorteio), entre os 288 trabalhadores do sexo
trabalho. masculino sem diagnóstico prévio de hipertensão ar-
A introdução do job strain model na investigação terial e com níveis de pressão arterial normal durante
da relação entre o trabalho e as doenças cardiovascu- a fase de coleta de dados da pesquisa.
lares tem mostrado uma evidente correlação entre o A coleta de dados constou dos seguintes itens: en-
trabalho de alto desgaste e a doença coronariana. Vá- trevista, exame clínico, leitura e assinatura do Termo
rios estudos mostraram uma relação significativa entre de Consentimento Livre e Esclarecido e o preenchi-
a pressão arterial durante a atividade no local de tra- mento de uma ficha de coleta de dados que incluiu:
balho e o desgaste ocupacional, estando significativa-
mente relacionada com a hipertensão arterial6. 1. o questionário (Job Content Questionnaire – JCQ),
que consta de 48 questões auto-aplicadas, dispos-
Esta pesquisa foi idealizada sob a perspectiva de
tas em escalas que variam de um a quatro e avali-
investigar a associação entre os fatores psicossociais
am os principais elementos no ambiente de traba-
no trabalho, alguns deles avaliados pelo modelo de
lho: o controle sobre o próprio trabalho, as deman-
demanda-controle-suporte social (job strain model) e
das psicológicas, a insegurança no emprego e o su-
a hipertensão arterial, em trabalhadores do ramo de
porte social no trabalho, entre outras. O JCQ foi
refino do petróleo. Outros aspectos também são in-
elaborado por Robert Karasek (University of Massa-
vestigados, tais como: as associações entre o trabalho
chusetts, Lowell), traduzido e adaptado para o Bra-
de alto desgaste, o trabalho em turnos, o uso de fumo
e o consumo de bebidas alcoólicas e a hipertensão sil pela Profa Dra Tânia Maria de Araújo – UEFS;
arterial entre os trabalhadores da Refinaria Gabriel 2. a medição da pressão arterial, segundo procedimen-
Passos/PETROBRAS – REGAP/PETROBRAS. tos recomendados pela SBC7;
3. informações sobre idade, sexo, estado civil, escola-
MATERIAL E MÉTODOS ridade, horário de trabalho, prolongamento da jor-
nada de trabalho (horas extras), data da admissão
A caracterização do estudo é do tipo caso-contro- na empresa, consumo semanal de álcool, consumo
le. Os casos são 65 trabalhadores com hipertensão ar- de cafeína, uso de fumo, peso, estatura e o cálculo
terial. Os controles são 164 trabalhadores com pres- do índice de massa corpórea – IMC, estimativa da
são arterial normal. Utilizamos os critérios diagnósti- capacidade física.
cos recomendados pelo III Consenso Brasileiro de Hi- O estudo das variáveis incluiu:
pertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardio-
logia – SBC7. Todos os indivíduos incluídos no estudo a) as variáveis explicativas – fatores psicossociais no
são empregados próprios da Refinaria. A população trabalho: (a) trabalho de alto desgaste – a combina-
geral dos trabalhadores corresponde a 648 pessoas, ção entre alta demanda psicológica e baixo grau de
categorizadas em três grupos segundo a área de atua- controle sobre o próprio trabalho; (b) trabalho ati-
ção e a natureza das atividades desenvolvidas: a) Pro- vo – a combinação entre alta demanda psicológica
dução (285); b) Manutenção Industrial (126) e c) Apoio e alto grau de controle sobre o próprio trabalho; (c)
(237) trabalhadores. Entre a população geral da refi- trabalho de baixo desgaste – a combinação entre
naria, 50,8% trabalham em horário de turnos ininter- baixa demanda psicológica e alto grau de controle
ruptos de revezamento e 49,2% em horário adminis- sobre o próprio trabalho; (d) trabalho passivo – com-
trativo. Os critérios de exclusão do estudo adotados binação entre baixa demanda psicológica e baixo
são: não consentimento (6); sexo feminino (55); tem- grau de controle sobre o próprio trabalho e (e) uso
po de serviço na empresa menor que cinco anos (0) e de habilidades, autoridade decisória, controle so-
pressão arterial normal-alta (239) isto é, pressão arteri- bre o próprio trabalho, demandas psicológicas do
al sistólica (PAS) ≥ 130 < 140mmHg ou pressão arteri- trabalho, insegurança no emprego, suporte social
al diastólica (PAD) ≥ 85 < 90mmHg. dos colegas de trabalho, suporte social proveniente
O estudo constou de 65 casos de hipertensão arte- do supervisor e suporte social no trabalho;
rial (PAS ≥ 140mmHg ou PAD ≥ 90mmHg) constituí- b) a variável resposta – pressão arterial (normal ou hi-
dos pelos trabalhadores próprios da refinaria, com pertensão arterial);

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c) e as co-variáveis – idade, horário de trabalho (tur- dos trabalhadores concluíram pós-graduação. Os dois
no, HT, e administrativo, HA), prolongamento da grupos (Hipertensão e PA normal) de trabalhadores ava-
jornada de trabalho (horas extras), consumo de álco- liados apresentaram distribuição semelhante quanto
ol, cafeína e fumo, Índice de Massa Corpórea (IMC) ao nível de escolaridade. Quanto à área de atuação
e estimativa da capacidade física. na empresa, 44,8% dos trabalhadores atuavam na área
Para a composição dos quadrantes do modelo job de produção, 30,3% na área de apoio e 24,9% na área
strain bidimensional (os grupos gerados pela combi- de manutenção. Não há diferença estatisticamente sig-
nação de diferentes níveis de controle e de demanda nificante na distribuição por área de atuação dos tra-
psicológica) procedeu-se à dicotomização em dois ní- balhadores nos dois grupos estudados: Produção – PA
veis, baixo e alto, para as variáveis controle e deman- normal (48,4%) e Hipertensão (35,9%); Manutenção
da. Utilizou-se como ponto de corte (cut off) a media- – PA normal (24,8%) e Hipertensão (25,0%); Apoio –
na de toda a amostra; considerou-se como nível baixo PA normal (26,8%) e Hipertensão (39,1%).
≤ mediana e nível alto > mediana. A Tabela 1 mostra a distribuição do IMC dos traba-
As comparações entre casos e controles, quanto às lhadores por grupo. A análise dos resultados revelou
variáveis IMC (< 25 e ≥ 25kg/m2), faixa etária, horário que há uma diferença estatisticamente significante
de trabalho (administrativo, HA, e turno, HT), hábito (p < 0,001) entre os dois grupos: o IMC (média =
de fumar (sim ou não), consumo de bebidas alcoólicas 28,9 ± 3,9kg/m2) foi maior no grupo com hipertensão
(sim ou não) e os quadrantes do job strain model foram do que no grupo com PA normal (média = 24,9 ±
realizadas utilizando-se o teste de “qui-quadrado”8. As 3,1kg/m2). Quando o IMC foi estratificado em duas
demais comparações foram realizadas utilizando-se o faixas < 25 (normal) e ≥ 25kg/m2 (excesso de peso), os
teste de Kruskal-Wallis9. Todos os resultados foram con- resultados obtidos foram confirmados. A diferença é
siderados significantes ao nível de 5% (p < 0,05). estatisticamente significante (p < 0,001; O.R. = 5,5 –
I.C. = 2,6 – 12,1) para IMC ≥ 25kg/m2: casos de Hi-
Os aspectos éticos foram contemplados com o cum-
pertensão (83,1%), controles com PA normal (47,2%).
primento dos termos propostos pela Resolução 196,
de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de A análise dos escores de atividade física para os
Saúde. Todos os participantes da pesquisa aderiram dois grupos estudados mostrou que existe diferença
ao “Termo de Consentimento Livre e Esclarecido”, com significativa (p = 0,025) entre os dois grupos: os tra-
exceção de seis pessoas que foram excluídas da pes- balhadores com PA normal apresentaram melhores ín-
quisa (não participaram). Obteve-se a permissão for- dices de capacidade física (mediana 2 = capacidade
mal do JCQ Center para uso desse instrumento na física boa) do que o com hipertensão (mediana 3 =
pesquisa. Foi obtida a aprovação do Conselho de Éti- capacidade física média).
ca em Pesquisa (COEP) da UFMG. Quanto à distribuição por horário de trabalho (ad-
ministrativo e turno) não encontramos diferença es-
tatisticamente significante entre os dois grupos estu-
RESULTADOS
dados: Hipertensão (HA = 62,9% , HT = 37,1%) e PA
Foram estudados 229 trabalhadores do sexo mas- normal (HA = 57,9% , HT = 42,1%). O tempo da
culino, selecionados entre os 648 trabalhadores pró- admissão dos trabalhadores na empresa foi semelhan-
prios da REGAP/PETROBRAS, divididos em dois gru- te nos dois grupos. Os trabalhadores estavam na em-
pos: 65 (28,4%) casos de hipertensão arterial e 164 con- presa, em média, há 17 anos, 9 meses e 18 dias e, no
troles com pressão arterial normal – PA normal (71,6%). mínimo, há 6 anos para o grupo com PA normal e 8
Quanto à distribuição geral dos trabalhadores, anos para os hipertensos. A Tabela 2 mostra o número
62,6% estavam na faixa etária entre 36 e 45 anos, de horas extras trabalhadas ao longo dos últimos 12
32,9% estavam entre 46 e 60 anos e apenas 4,5% es- meses que antecederam a aplicação do JCQ nos dois
tavam entre 26 e 35 anos. A diferença existente entre grupos estudados. Não existiu diferença estatisticamen-
os dois grupos de trabalhadores é estatisticamente sig- te significante (p > 0,05) entre eles.
nificante (p < 0,05): 50,8% dos hipertensos possuíam Entre os 229 trabalhadores pesquisados 33 (14,4%)
idade acima de 45 anos, enquanto esta proporção era eram fumantes. Não houve diferença estatisticamente
de 25,8% entre aqueles com pressão arterial normal. significante entre os casos (Hipertensão) e controles
A distribuição geral pelo estado civil mostrou que (PA normal) quanto ao hábito de fumar. Na população
82,1% são casados, 9,6% solteiros, 5,7% separados e estudada, 76,9% dos trabalhadores faziam uso de ca-
2,6% divorciados. Não há diferença significativa entre feína. Observou-se uma distribuição semelhante quan-
os dois grupos com relação à situação conjugal. Na to ao uso da cafeína entre os dois grupos de trabalha-
análise da escolaridade da população estudada, en- dores (p > 0,05). O uso de tranqüilizantes (1,3%) e
contramos: 5,7% com o primeiro grau completo, 56,8% antidepressivos (1,3%) foi muito pequeno em toda a
com o segundo grau, 29,5% com o terceiro grau e 7,9% amostra. Cerca de 76,4% de todos os trabalhadores

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Tabela 1
Medidas Descritivas do Índice de Massa Corporal (IMC) dos Trabalhadores, por Grupos
(Hipertensão e PA Normal), REGAP/PETROBRAS, Betim, 2002

Medidas Descritivas

Variável* Grupos Mínimo Máximo Mediana Média d.p.

IMC PA normal (controles) 17,6 35,4 24,9 24,9 3,1

Hipertensão (casos) 20,2 42,9 28,4 28,9 3,9

*Nota: para essa variável perdeu-se informação para três casos.

Tabela 2
Medidas Descritivas das Horas Extras Trabalhadas em 12 Meses, na Amostra Geral e por Grupo
(Hipertensão Arterial e PA Normal), REGAP/PETROBRAS, Betim, 2002

Medidas Descritivas

Variável* Grupo Mínimo Máximo Mediana Média d.p.

Horas extras PA normal 0,0 842,8 185,3 225,1 171,0

Hipertensão 0,0 845,1 180,1 205,8 159,1

Total 0,0 845,1 181,8 220,1 167,8

*Nota: para essa variável perdeu-se informação para quatro casos.

disseram dedicar tempo semanal para o lazer. Não mente significantes. As medianas de toda a amostra
houve diferença significativa entre os casos (70,7%) e (N = 229) calculadas para as variáveis controle e de-
controles (78,7%) sob este aspecto. Quanto à bebida mandas psicológicas são 70,08 e 33,00, respectivamen-
alcoólica, 62,8% dos trabalhadores relataram seu con- te. Elas são elementos necessários para a definição dos
sumo, contra 37,2% que se declararam não usuários. quadrantes do job strain model, cuja distribuição dos
A Tabela 3 mostra a quantidade de álcool consumida trabalhadores de acordo com os quadrantes na amos-
por semana. Os hipertensos consumiam maior quan- tra estudada foi: trabalho de alto desgaste (34,5%), ativo
tidade de álcool do que os empregados com pressão (15,9%), baixo desgaste (20,0%) e passivo (29,6%). A
normal, porém as diferenças observadas não foram Tabela 5 e a Figura 2 mostram a distribuição da PA
estatisticamente significantes. Quanto ao horário de normal e hipertensão em relação aos quadrantes do
trabalho, não houve diferença entre o consumo de job strain model. Entre os hipertensos, observa-se ele-
álcool pelos trabalhadores do HA = 61,4% e HT = vado percentual de trabalhadores (37,1%) no grupo
65,9%, nem entre o uso de fumo (p = 0,08) pelos de trabalho passivo (baixo controle e baixa demanda
trabalhadores do HA = 11,2% e do HT = 19,6%. psicológica). Por outro lado, apenas 6,5% dos traba-
Os escores das variáveis explicativas dos aspectos lhadores tinham trabalho ativo (alto controle e alta
psicossociais do trabalho estudados pelo job strain demanda). Entre os trabalhadores com PA normal, o
model – como componentes unidimensionais isolados maior percentual encontrado foi o trabalho de alto
– são apresentados na Tabela 4. A análise das variáveis desgaste (36,1%). Comparando-se os dois grupos es-
“uso de habilidades”, “autoridade decisória”, “controle tudados (casos e controles), observa-se que o trabalho
sobre o próprio trabalho”, “demandas psicológicas do em alto desgaste foi situação freqüente em ambos os
trabalho”, “insegurança no emprego”, “suporte social grupos, representando aproximadamente 1/3 dos tra-
dos colegas de trabalho”, “suporte social proveniente balhadores estudados em cada grupo. O trabalho ati-
da supervisão” e “suporte social no trabalho”, mos- vo foi mais freqüente (p < 0,05) entre os trabalhado-
trou que as diferenças encontradas, para os dois gru- res com PA normal (19,6%) em comparação com os
pos (Hipertensão e PA normal), não foram estatistica- hipertensos (6,5%); o trabalho de baixo desgaste e o

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Tabela 3
Medidas Descritivas do Consumo Semanal de Álcool, por Grupo (Hipertensão e PA Normal),
REGAP/PETROBRAS, Betim, 2002

Medidas Descritivas

Variável Grupo Mínimo Máximo Mediana Média d.p.

Consumo semanal PA normal 2,0 80,0 8,5 13,0 12,3


de álcool
(1 unidade = 10g) Hipertensão 2,0 96,0 14,0 18,3 19,3

Geral 2,0 96,0 10,0 14,6 15,0

Tabela 4
Medidas Descritivas dos Escores dos Aspectos Psicossociais no Trabalho, por Grupo
(Hipertensão e PA Normal), REGAP/PETROBRAS, Betim, 2002

Medidas Descritivas

Variáveis Grupos Mínimo Máximo Mediana Média d.p. p*

Uso de habilidades PA normal 18,0 48,0 36,0 36,0 1,39 0,082


(escala de 12 a 48)
Hipertensão 21,6 45,6 36,0 36,0 1,39

Autoridade decisória PA normal 12,0 48,0 36,0 34,8 1,73 0,149


(escala de 12 a 48)
Hipertensão 12,0 48,0 36,0 36,0 1,73

Controle PA normal 31,2 93,6 69,6 69,6 1,96 0,058


(escala de 24 a 96)
Hipertensão 43,2 88,8 72,0 72,0 1,96

Demandas psicológicas PA normal 18,0 48,0 33,6 32,4 1,73 0,955


(escala de 12 a 48)
Hipertensão 24,0 45,6 32,4 32,4 1,39

Insegurança no emprego PA normal 3,0 9,0 5,1 5,1 1,04 0,073


(escala de 3 a 12)
Hipertensão 3,0 8,1 5,1 4,8 0,69

Suporte dos colegas PA normal 6,0 16,0 12,0 11,6 0,80 0,926
(escala de 4 a 16)
Hipertensão 7,2 16,0 12,0 11,6 1,00

Suporte da supervisão PA normal 4,0 16,0 11,6 10,8 1,00 0,544


(escala de 4 a 16)
Hipertensão 4,0 16,0 11,2 11,2 1,00

Suporte social PA normal 11,2 32,0 23,2 22,4 1,13 0,594


(escala de 8 a 32)
Hipertensão 11,2 28,0 23,2 23,2 1,13

*Nota: O valor de p refere-se ao teste de Kruskal-Wallis.

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trabalho passivo foram mais freqüentes (p < 0,05) en- ção (5,7%). Há tendência para maiores percentuais de
tre os trabalhadores com hipertensão. Já o trabalho de trabalhadores em alto desgaste entre os trabalhadores
alto desgaste não diferiu significativamente entre os da produção (43,7%) do que nos demais setores avali-
dois grupos estudados: Hipertensão (30,6%) e PA nor- ados, manutenção (30,2%) e apoio (25,0%), contudo,
mal (36,1%). essa diferença não é estatisticamente significante. A
A Figura 3 mostra a distribuição dos trabalhadores Figura 4 mostra que houve uma associação entre o
por área de atuação de acordo com o tipo de traba- trabalho de alto desgaste e trabalho ativo com o horá-
lho. Há diferença estatisticamente significante (p < rio de trabalho em turnos (p < 0,001), isto é, o traba-
0,05) entre as áreas de atuação no que se refere ao lho de alto desgaste e trabalho ativo ocorreram com
trabalho ativo que foi mais freqüente entre os traba- maior freqüência nos trabalhadores de turnos do que
lhadores da produção (22,9%) em relação à manuten- o trabalho passivo e de baixo desgaste.

Tabela 5
Análise Comparativa entre os Grupos (Hipertensão Arterial e PA Normal) de Trabalhadores quanto
aos Quadrantes do Job Strain Model, REGAP/PETROBRAS, Betim, 2002

Quadrantes e Tipo de Trabalho* Grupos

PA normal Hipertensão

n % n %

1 – Alto desgaste 57 36,1 19 30,6

2 – Trabalho Ativo 31 19,6 4 6,5

3 – Baixo desgaste 28 17,7 16 25,8

4 – Trabalho Passivo 42 26,6 23 37,1

Total 158 100,0 62 100,0

*Nota: p refere-se ao teste qui-quadrado; para essa variável perdeu-se informação para nove casos.

100
90
Tipo de trabalho
80
1 – Alto desgaste
70
2 – Ativo
Porcentagem

60
3 – Baixo desgaste
50
36,1 37,1 4 – Passivo
40 (57) 30,6 (23)
26,6
(19) 25,8
30 19,6 (42)
(16)
(31) 17,7
20 (28)
6,5
10 (4)

0
PA normal Hipertensão
Grupos
Figura 2. Distribuição dos trabalhadores por quadrantes do job strain model* e grupos (hipertensão e PA normal), em
trabalhadores da REGAP, Betim, 2002.
*Nota: p = 0,039 (O valor de p refere-se ao teste qui-quadrado); para essa variável perdeu-se informação para nove casos.

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50
43,7
45 (42)

37,5
40 (24)
33,9
35 (18)
30,2 30,2
(16)
Porcentagem

(16)
30 25,0
24,0 (16)
22,9 21,9
25 (22)
(23)
(14)
20 15,6
(10)
15
9,4
10 (9)
5,7
(3)
5

0
Produção Manutenção Apoio
Área de atuação
Tipo de trabalho
1 – Alto desgaste
2 – Ativo
3 – Baixo desgaste
4 – Passivo

Figura 3. Caracterização dos trabalhadores de acordo com a área de atuação* e quadrantes do job strain model, na
REGAP/PETROBRAS, Betim, 2002.
*Nota: p refere-se ao teste qui-quadrado; para essa variável perdeu-se informação para 16 casos.

100
Horário de trabalho
90 81,4
HA (35)
80 71,9
Turno (46)
70
60,0
56,0 (21)
Porcentagem

60 (42)

50 44,0
(33) 40,0
(14)
40
28,1
(18)
30
18,6
20 (8)

10

0
1 – Alto desgaste 2 – Ativo 3 – Baixo desgaste 4 – Passivo
Job Strain Model

Figura 4. Distribuição dos trabalhadores de acordo com os quadrantes do job strain model e o tipo de horário de
trabalho* (administrativo ou turno), REGAP/PETROBRAS, Betim, 2002.
*Nota: p < 0,001 (o valor de p refere-se ao teste qui-quadrado); para essa variável perdeu-se informação para 12 casos.

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HIPERTENSÃO ARTERIAL E FATORES PSICOSSOCIAIS NO TRABALHO EM UMA REFINARIA DE PETRÓLEO

Apesar de haver uma maior proporção de fuman- todos os três grupos (trabalho de baixo desgaste, ativo
tes entre os trabalhadores dos grupos de trabalho de e passivo) o suporte social dos colegas foi maior do
alto desgaste (18,4%) e ativo (20,7%) em relação ao que no grupo de trabalho de alto desgaste (p <
baixo desgaste (6,8%) e passivo (10,8%), a diferença 0,001). O suporte social da supervisão foi maior no
não é estatisticamente significante. O mesmo se apli- grupo de trabalho de baixo desgaste do que no tra-
ca entre os quadrantes do job strain model e o consu- balho de alto desgaste (p = 0,003). O suporte social
mo de bebida alcoólica: alto desgaste (60,5%), ativo no trabalho foi maior nos grupos de trabalho de baixo
(67,6%), baixo desgaste (62,8%) e passivo (60,9%). desgaste e ativo do que no grupo de trabalho de alto
A Tabela 6 mostra as medidas descritivas de esco- desgaste (p < 0,001).
res de aspectos psicossociais do trabalho por quadran-
tes do job strain model. Pode-se ver que a insegurança
no emprego foi maior (p = 0,001) no grupo de traba- DISCUSSÃO
lho de alto desgaste em relação aos outros três grupos Limitações do Estudo
(ativo, baixo desgaste e passivo). O suporte social dos
colegas foi maior no grupo de trabalho de baixo des- Este estudo, do tipo caso-controle, é um desenho
gaste do que no trabalho passivo (p < 0,001) e em em que os casos de hipertensão arterial são casos pre-

Tabela 6
Medidas Descritivas de Escores de Aspectos Psicossociais no Trabalho por Quadrantes
do Job Strain Model, REGAP/PETROBRAS, Betim, 2002

Variáveis Quadrantes e Medidas Descritivas


Tipo de Trabalho
Mínimo Máximo Mediana Média d.p. p*

Insegurança no emprego 1 – Alto desgaste 3,0 9,0 6,0 6,3 1,04 0,001

2 – Ativo 3,0 9,0 5,1 5,1 1,04 1 > (2 = 3 = 4)

3 – Baixo desgaste 3,0 8,1 3,9 4,8 0,87

4 – Passivo 3,0 8,1 5,1 4,8 0,87

Suporte social dos colegas 1 – Alto desgaste 6,0 13,2 11,2 10,8 0,8 0,001

2 – Ativo 8,0 15,2 12,0 12,0 0,8 3>4>1

3 – Baixo desgaste 8,0 16,0 12,0 12,4 0,8 2>1

4 – Passivo 7,2 16,0 12,0 11,6 0,8

Suporte social da supervisão 1 – Alto desgaste 4,0 14,0 11,2 10,0 1,2 0,003

2 – Ativo 7,2 12,0 12,0 11,2 1,0 3>1

3 – Baixo desgaste 5,2 16,0 12,0 11,6 1,0

4 – Passivo 4,0 16,0 12,0 11,2 1,0

Suporte social no trabalho 1 – Alto desgaste 11,2 24,8 20,8 20,8 1,1 0,001

2 – Ativo 15,2 30,4 23,2 23,2 1,1 (3=2) > 1

3 – Baixo desgaste 16,8 32,0 24,8 24,0 1,1

4 – Passivo 11,2 28,0 23,2 22,4 1,1

*Nota: O valor de p refere-se ao teste Kruskal-Wallis.

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valentes: a hipertensão já era pré-existente na época mente significantes pode ter decorrido do pequeno
da pesquisa. Gordis10 afirma que, geralmente, é pre- número estudado.
ferível usar casos incidentes da doença no estudo caso-
controle para avaliação etiológica. A razão é que qual-
A Aplicação do Questionário
quer fator de risco identificado em um estudo usando
casos prevalentes pode estar relacionado mais com os Em média, a resposta ao questionário durou 25
sobreviventes do que com o desenvolvimento (inci- minutos. Algumas questões suscitaram dúvidas que
dência) da doença. precisaram ser esclarecidas; dentre estas questões, as
Nos estudos de natureza ocupacional, com proce- mais freqüentes foram: 8 (O que tenho a dizer sobre o
dimentos metodológicos similares ao que foi aqui con- que acontece no meu trabalho é considerado), 27 (Meu
duzido, geralmente, está presente o chamado efeito trabalho é desenvolvido de modo frenético), 31 [Seu
trabalhador sadio. Os fatores de risco identificados trabalho é: ( ) Regular e estável ( ) Sazonal ( ) Tempo-
podem estar relacionados apenas com os sobreviven- rário ( ) Temporário e Sazonal], 36 (Em 5 anos, minhas
tes ao efeito estudado e não com o desenvolvimento qualificações ainda continuarão válidas), e 48 (Qual o
da doença. Não é possível estabelecer uma relação nível de qualificação requerido para seu trabalho em
temporal entre a exposição e o início da doença. As- termos de treinamento formal). As questões 15 e 16
sim, a associação entre as variáveis refere-se ao mo- referentes ao sindicato de classe foram as que apre-
mento da observação, sem imputar em qualquer infe- sentaram maior abstenção nas respostas, 13,1% e
rência etiológica entre as variáveis estudadas. 16,6%, respectivamente. As questões 37 a 41 referen-
O modelo de Karasek assume relação de interação tes à supervisão tiveram em média 8,0% de abstenção
com base em alguma definição de níveis de demanda nas respostas.
e graus de controle, mas não dispõe de método con-
sistente para identificar pontos de corte desses indica- A Discussão dos Resultados
dores11. Nesta pesquisa, o ponto de corte usado na
dicotomização das variáveis, controle e demanda, para Na análise da faixa etária constatou-se que 50,8%
possibilitar a distribuição dos trabalhadores no mode- dos trabalhadores hipertensos e 25,8% dos trabalha-
lo bidimensional, é feita com base na mediana de toda dores com PA normal tinham idade acima de 45 anos.
a amostra. O procedimento foi repetido com a utiliza- Esta diferença é estatisticamente significante (p < 0,05).
ção da mediana do grupo controle que apresentou o Esta distribuição já era esperada frente ao conheci-
resultado semelhante. mento já estabelecido: há uma relação direta entre a
Contudo, ao avaliar-se a distribuição dos trabalha- prevalência da hipertensão e a idade. A análise dos
dores nos quadrantes do job strain model, utilizando a resultados do IMC confirmou (p < 0,001) que o ex-
mediana como ponto de corte para dicotomização de cesso de peso e a obesidade podem estar associados à
controle e de demanda psicológica, observamos que, hipertensão arterial. O exercício físico regular reduz a
na população geral, 34,5% foram classificados como pressão arterial, produz benefícios adicionais, tais como
expostos ao trabalho de alto desgaste. Considerando- diminuição do peso corporal, além de contribuir para
se que este percentual de expostos foi mais elevado a redução do risco de indivíduos normotensos desen-
do que o observado em outros estudos utilizando o volverem hipertensão arterial7. Nesta pesquisa, os tra-
JCQ, inclusive no Brasil, que encontraram percentu- balhadores da REGAP/PETROBRAS com PA normal
al de expostos variando de 19 a 23%12,13, não se pode apresentam capacidade física melhor que os hiperten-
afastar a possibilidade de que erros de classificação sos (p < 0,05). Isto é, enquanto estes apresentam ca-
da exposição tenham ocorrido. Nesse caso, indiví- pacidade física média, os do grupo com PA normal
duos não expostos ao baixo controle e à alta deman- têm a sua capacidade física categorizada como boa.
da podem ter sido classificados como tal enfraque- Alguns autores relataram que a hipertensão arte-
cendo a associação entre exposição e o efeito à saú- rial pode estar associada ao trabalho em turnos e au-
de estudado. O estabelecimento de pontos de corte mentar o risco de doença cardiovascular14,15. No Bra-
mais conservadores, como, por exemplo, o último sil, Dantas e Teixeira16 não encontraram diferença es-
quartil, pode ser um procedimento alternativo útil tatisticamente significante na prevalência de hiperten-
em investigações futuras. são arterial entre trabalhadores em turnos ininterrup-
Uma outra limitação importante nesse estudo re- tos de revezamento (12,2%) e em horário administra-
fere-se ao número de indivíduos estudados, especial- tivo (10,4%). Os resultados desta pesquisa não mos-
mente com relação ao número de casos (62 trabalha- traram diferença estatisticamente significante (p >
dores). Em que pese tratar-se de uma situação real (to- 0,05) entre os dois grupos estudados (hipertensão ar-
dos os casos existentes foram incluídos no estudo), o terial e pressão arterial normal) em relação ao horário
fato de não se ter encontrado diferenças estatistica- de trabalho (diurno e turnos).

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HIPERTENSÃO ARTERIAL E FATORES PSICOSSOCIAIS NO TRABALHO EM UMA REFINARIA DE PETRÓLEO

O número de horas extras trabalhadas ao longo dos pertensão arterial. Os resultados também mostraram uma
últimos 12 meses que antecederam a aplicação do Job associação do trabalho de alto desgaste e do trabalho
Content Questionnaire foi semelhante, isto é, não existe ativo com o horário de trabalho em turnos (p < 0,01).
diferença estatisticamente significante (p > 0,05) en- A diferença na faixa etária observada entre casos e
tre os dois grupos referente à pressão arterial. Portan- controles (os casos sendo mais velhos do que os con-
to, na população estudada, os achados da literatura troles) pode ter implicações relevantes na exposição
de que o prolongamento da jornada de trabalho pode ocupacional. Um aspecto que tem sido descrito na li-
aumentar a pressão arterial17 não foram confirmados. teratura é o ordenamento interno das posições de tra-
É sabido que o consumo excessivo de álcool au- balho com o decorrer do tempo na ocupação. Traba-
menta a pressão arterial e a variabilidade pressórica; lhadores com maior tempo de trabalho em uma em-
eleva a prevalência de hipertensão; é fator de risco presa, em geral mais velhos, tendem a ocupar postos
para acidente vascular encefálico; além de ser uma de trabalho menos expostos a situações de risco ou de
das causas de resistência à terapêutica anti-hipertensi- demanda elevada13. Como o presente estudo não in-
va7. Na REGAP/PETROBRAS não se observou diferen- cluiu análise da história de exposição ocupacional pode
ça estatisticamente significante (p > 0,05) entre os gru- ser que os trabalhadores mais velhos tenham migrado
pos com hipertensão arterial e PA normal no que se para postos de trabalho menos penosos. Portanto, os
refere ao consumo de bebida alcoólica. Também, não arranjos organizacionais (promoções, mudanças de
se encontrou diferença significativa entre os tipos de função, etc.) poderiam diminuir a exposição atual dos
trabalho do job strain model e o uso de bebida alcoó- trabalhadores hipertensos e intensificar a dos normo-
lica, nem entre o consumo de álcool entre os traba- tensos ao trabalho de maior risco ambiental e exigên-
lhadores de turno e de horário administrativo. Segun- cias físicas, interferindo na avaliação da associação
do Fischer e Lieber18 estudos realizados no Brasil, com entre o desgaste no trabalho e a hipertensão arterial e
petroquímicos também não evidenciaram maior con- explicar os resultados obtidos nessa investigação.
sumo de álcool entre os trabalhadores em turnos com- A introdução do job strain model na investigação
parados com trabalhadores diurnos da mesma empre- da relação entre o trabalho e as doenças cardiovascu-
sa, faixa etária e tempo no emprego. lares mostrou evidente correlação entre o desgaste no
O uso do fumo, apesar de haver uma maior pro- trabalho e a doença coronariana, que é mais consis-
porção de fumantes entre os trabalhadores dos grupos tente do que entre o desgaste no trabalho e os fatores
do trabalho ativo (20,0%) e alto desgaste (18,4%) em de risco coronariano, tais como, o colesterol sérico, o
relação aos grupos de trabalho passivo (10,8%) e bai- fumo e a pressão arterial medida de maneira conven-
xo desgaste (6,8%), a diferença não é estatisticamente cional. Os achados relativos a estes últimos podem
significante (p > 0,05). Os escores das variáveis expli- indicar a existência de mecanismos alternativos subja-
cativas dos aspectos psicossociais no trabalho avalia- centes à associação entre o desgaste no trabalho e a
dos pelo job strain model como componentes unidi- doença coronariana19.
mensionais foram semelhantes nos dois grupos estu- Vários estudos mostraram associação entre a pres-
dados. Isto é, os hipertensos e os normotensos apre- são arterial durante a atividade no local de trabalho e
sentaram percentuais semelhantes quanto ao uso de o desgaste no trabalho: a combinação de alta deman-
habilidades, autoridade decisória, controle sobre o da e baixo controle sobre o próprio trabalho parece
próprio trabalho, demandas psicológicas do trabalho, ser de particular relevância, estando significativamen-
insegurança no emprego, suporte social dos colegas te relacionada com a hipertensão arterial6. Entretanto,
de trabalho, suporte social proveniente da supervisão Schnall et al.20, revendo nove estudos, encontraram
e suporte social no trabalho. apenas um que demonstrou a associação significativa
A distribuição dos trabalhadores pelos quadrantes entre medidas casuais da pressão arterial e o desgaste
do job strain model foi: trabalho de alto desgaste = no trabalho. Acredita-se que as medidas convencio-
34,5%, trabalho ativo = 15,9%, trabalho de baixo des- nais da pressão arterial no consultório médico podem
gaste = 20,0% e trabalho passivo = 29,6%. Os traba- estar menos correlacionadas com o desgaste no traba-
lhadores do grupo com a pressão arterial normal apre- lho e serem menos informativas sobre ao prognóstico
sentam níveis de trabalho ativo, significativamente su- cardiovascular e o desenvolvimento de hipertrofia ven-
periores (p < 0,05) aos de hipertensos. Trabalho de tricular esquerda do que as obtidas durante a ativida-
baixo desgaste e trabalho passivo foram significativa- de de trabalho.21 Schnall et al.20 encontraram cinco
mente mais freqüentes entre os hipertensos do que entre nove estudos com resultados significativos e to-
entre os normotensos. Neste estudo, o trabalho de alto dos os nove estudos mostraram tendência positiva para
desgaste foi distribuído de forma semelhante entre os a relação entre o desgaste no trabalho e a hipertensão
dois grupos estudados, não se confirmando uma rela- arterial, com a utilização de métodos mais sofisticados
ção significativa entre o desgaste no trabalho e a hi- de avaliações ambulatoriais da pressão arterial.

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JULIZAR DANTAS, RENÉ MENDES & TÂNIA MARIA DE ARAÚJO

A insegurança no emprego foi mais encontrada (p diminuem. Portanto, podemos recomendar que entre
= 0,001) no grupo de trabalho de alto desgaste do as estratégias de Promoção da Saúde no Trabalho com
que nos demais (trabalho ativo, baixo desgaste e pas- o objetivo de reduzir a carga de trabalho e o desgaste
sivo). O suporte social dos colegas foi menor no grupo da saúde do trabalhador está a necessidade de tornar
de trabalho de alto desgaste (p < 0,001); foi maior no mais flexível a organização do trabalho, isto é:
grupo de trabalho de baixo desgaste do que no traba- a) permitir a ampliação das “margens de manobra” e
lho passivo (p < 0,001). O suporte social da supervi- a adaptação aos modos operatórios dos trabalha-
são foi maior no grupo de trabalho de baixo desgaste dores;
do que no trabalho de alto desgaste (p = 0,03). O
b) aumentar o controle sobre o próprio trabalho. Isto
suporte social no trabalho foi maior nos grupos de
implica oferecer condições para que o trabalhador
trabalho com baixo desgaste e no trabalho ativo do
possa: desenvolver habilidades especiais; aplicar a
que no grupo de trabalho de alto desgaste (p < 0,01).
sua criatividade; aprender coisas novas; diversifi-
Estes achados vêm reforçar a importância de reduzir a
car suas tarefas; ampliar sua capacidade decisória
insegurança no emprego e aumentar o suporte social
e autonomia para tomar decisões sobre o próprio
no trabalho fornecido pelos próprios colegas, pela su-
trabalho; e influenciar no grupo de trabalho;
pervisão e pela gerência imediata na atenuação do des-
gaste no trabalho, especialmente em ambientes de c) regular as demandas que estão relacionadas às exi-
trabalho complexos e nos processos produtivos contí- gências psicológicas a que o trabalhador é subme-
nuos, em que os trabalhadores se organizam em fun- tido na execução das suas tarefas: o trabalho ex-
ção da situação de trabalho. cessivo, as demandas conflitantes, o ritmo excessi-
vo e a alta complexidade do trabalho, o tempo in-
Na REGAP/PETROBRAS, o trabalho é coletivo. Exis-
te cooperação explícita para a realização conjunta de suficiente para a execução das tarefas, o nível de
uma mesma tarefa. As responsabilidades são compar- concentração requerido, a freqüência de interrup-
tilhadas e os operadores disponibilizam as suas com- ção das tarefas e a dependência de atividades rea-
petências na situação real de trabalho, numa intera- lizadas por terceiros.
ção dinâmica e voltada para um objetivo comum. O Torna-se necessária a formulação de políticas de
ajuste dos modos operatórios tanto no plano individu- real reconhecimento, valorização e respeito pelos tra-
al quanto no coletivo ocorre em tempo real. A coope- balhadores estabelecendo relações assertivas no tra-
ração implica centralização no mesmo objeto de tra- balho. A assertividade pressupõe uma atitude firme
balho, numa relação de interdependência entre os em defesa dos interesses e direitos básicos, sem negar
operadores. Neste contexto, o suporte social, envol- os deveres e os direitos de terceiros. Deve pautar-se
vendo a sociabilidade dentro do local de trabalho, atua pela liberdade de expressão das idéias, sem constran-
como um fator protetor. Essa proteção depende do gimentos, de forma adequada, imediata e oportuna,
grau de integração social e confiança entre os colegas sem receios de desqualificações, repreensões ou reta-
de trabalho e supervisores, isto é, o suporte socioe- liações. Deve proporcionar a oportunidade para dis-
mocional. O baixo suporte social no trabalho intensi- cussão, propiciando o diálogo e reconhecendo a au-
fica o risco associado ao trabalho de alto desgaste. Esta toria das contribuições efetivas. É necessário adotar
é, hipoteticamente, a pior situação prevista pelo mo- processos de gestão capazes de conciliar a produtivi-
delo tridimensional. Por outro lado, o alto suporte so- dade com a redução da insegurança no emprego e,
cial no trabalho atenua o desgaste no trabalho5,19,22. ao mesmo tempo, estabelecer diretrizes para aumen-
O apoio social percebido pelos trabalhadores refe- tar o suporte social provenientes da gerência, da su-
re-se à natureza das interações que ocorrem nos rela- pervisão e dos colegas de trabalho.
cionamentos sociais, especialmente a forma pela qual As condições ambientais adversas no local de tra-
essas interações são interpretadas e avaliadas pela pes- balho também contribuem para aumentar a carga de
soa quanto à possibilidade do fornecimento de apoio. trabalho. Os riscos ambientais de natureza física (ca-
Existem, ainda, outros tipos de apoio social, entre eles lor, frio, vibrações, ruído, entre outros), química e bio-
o afeiçoamento, a integração social, a oportunidade lógica e as condições ergonômicas inadequadas po-
de ser cuidado, o reconhecimento do valor de alguém, dem interagir com uma organização do trabalho auto-
o senso de aliança confiável, a obtenção de orienta- ritária e inflexível, intensificando a carga de trabalho e
ção, a ajuda material, os serviços e o apoio de infor- provocando o desgaste do trabalhador.
mação23, que não foram objeto de investigação desta Finalmente, devemos considerar que, apesar de
pesquisa. várias críticas conceituais e operacionais terem sido
A carga de trabalho aumenta quando a flexibilida- feitas ao job strain model, não há dúvidas quanto à
de da organização de trabalho e as alternativas opera- sua contribuição para o melhor conhecimento da or-
tórias frente à variabilidade das situações de trabalho ganização do trabalho e suas conseqüências sobre a

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HIPERTENSÃO ARTERIAL E FATORES PSICOSSOCIAIS NO TRABALHO EM UMA REFINARIA DE PETRÓLEO

saúde dos trabalhadores. O modelo demanda-con- tatamos associação entre: a) o trabalho de alto desgas-
trole-suporte social proporciona estrutura conceitual te e o uso de fumo/consumo de bebidas alcoólicas; b)
integrativa para o estudo do desgaste no trabalho e o prolongamento da jornada de trabalho e hiperten-
as críticas são contribuições visando ao seu aperfei- são arterial; c) o trabalho em turnos e a hipertensão
çoamento sem negar a sua utilidade nas investiga- arterial.
ções em saúde e trabalho4. A idade acima de 45 anos, o excesso de peso e a
obesidade estão associados à hipertensão arterial. Os
CONCLUSÕES trabalhadores com PA normal apresentam melhores
níveis de capacidade física do que os trabalhadores
Na investigação da associação entre os fatores psi- com hipertensão arterial. O consumo de cafeína e
cossociais no trabalho, alguns deles avaliados pelo job bebidas alcoólicas e o uso do fumo não estão associa-
strain model e a hipertensão arterial, na REGAP/PE- dos à hipertensão arterial neste estudo.
TROBRAS, não se observou que o trabalho de alto Entre as medidas de Promoção da Saúde no Traba-
desgaste está associado à hipertensão arterial entre os lho, objetivando diminuir a carga de trabalho e o des-
trabalhadores da refinaria de petróleo, não se confir- gaste do trabalhador, é necessário intervir na organi-
mando a hipótese aqui investigada. As limitações re- zação do trabalho para torná-la mais flexível. Isso im-
ferentes ao pequeno número estudado, potenciais er- plica delegar maior controle do trabalhador sobre o
ros de classificação da exposição e possível remaneja- próprio trabalho, incentivar e permitir que os traba-
mento de trabalhadores com hipertensão para postos lhadores façam uso racional das suas habilidades es-
de trabalho de menor exposição devem ser conside- peciais e que tenham oportunidades reais para aplicar
rados aqui e os resultados, avaliados cautelosamente. a criatividade no seu trabalho e adequar as demandas
O suporte social no trabalho é significativamente do trabalho às competências dos trabalhadores. Além
maior (p < 0,01) no grupo de trabalhadores com bai- disso, os modelos de gestão das empresas devem pre-
xo desgaste e trabalho ativo do que no grupo de alto ver metas de redução da insegurança no emprego e
desgaste. A insegurança no emprego está associada aumento do suporte social proveniente da gerência,
com o trabalho de alto desgaste (p < 0,001). Não cons- da supervisão e dos colegas de trabalho.

SUMMARY
Arterial Hypertension and Occupational Psychosocial Factors in an Oil Refinery
Productivity restructuring and its repercussions on work organization are related to an increase in both labor
burden and workers´ strain, which may determine new forms of diseases. The aim of this study was to
investigate the relationship between some selected psychosocial factors at work and the prevalence of arte-
rial hypertension. A case-control study design was used, involving 229 workers (65 hypertensive and 164
normal blood pressure workers), in a oil refinery. Three types of associations were explored: arterial pressure,
work strain, and working hours. “Work strain” has been assessed according to the “Job Strain Model”. The
outcomes of this study have not shown any association between high strain and hypertension. However this
study has shown that social support was higher in low strain and active jobs when compared with high strain
jobs (p< 0.001). Also, the risk of losing one’s job was associated to high strain jobs (p<0.001). This study
was unable to demonstrate any association between: a) high strain jobs and smoking/consumption of alco-
holic beverages; b) long journeys and hypertension; c) shiftwork and hypertension/consumption of alcoholic
beverages/smoking. Although this study has not shown any association between psychosocial factors and
hypertension, there is some evidence that high strain jobs may determine new forms of disease. We conclude
that Health Promotion at Work should include efforts to reduce work burden and workers´ strain, through
more flexible schemes of work organization (improvement of decision latitude; intelligent use of workers´
skills and creativity, and regulation of working demands), reduction of job insecurity and improvement of
social support, provided by both management and workers themselves.

Key Words: Occupational Health; Psycological Distresss; Hypertension; Work Organization; Petrochemical
Industry; Ergonomy.

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JULIZAR DANTAS, RENÉ MENDES & TÂNIA MARIA DE ARAÚJO

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