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João Antonio de Paula é profes- Neste ensaio várias são as ex-

sor titular da Faculdade de Ciências plícitas homenagens e referên-


Econômicas da UFMG. Seus temas
O COLE˙ˆO
cias que, com certeza, não esca-

Ra zes da modernidade em Minas Gerais


HISTORI -
de ensino e pesquisa são baseados tto Maria Carpeaux surpreendeu-se ao chegar à noite em Ouro Preto. AL parão ao leitor avisado. Trata-se,
na ampla confluência entre a histó-
Depois de uma curva, em meio à neblina, como se suspensa no ar, ele viu a no fundamental, de afirmar uma
ria e a economia. Professor da
igreja, as luzes que a recortavam contra uma paisagem de serras apenas suge- postura, para além dos modis-
UFMG desde 1976, orientou deze-
mos, que, sem abrir mão dos
nas de dissertações, teses, escreveu ridas na noite fria e calma. Então ele percebeu que à paisagem natural, às mon-
avanços dos estudos recentes,
artigos, livros, conduziu pesquisas, tanhas e pedras devia somar-se uma outra paisagem, a paisagem resultante da-
dirigiu órgãos acadêmicos, coorde- reitera o essencial de certas per-
quelas construções – igrejas, sobrados, casas simples, chafarizes, pontes, ruas spectivas historiográficas. Se
nou seminários, participando de
– paisagem cultural, feita de pedra e madeira, mas, também, dos sons de vo-

[ [
tantas e diferentes são as referên-

Raízes da
conferências e debates. Ao lado das
atividades acadêmicas, participa zes e instrumentos, de esculturas e pinturas. Paisagem humana e social feita de cias historiográficas, também
também do conjunto de nossa vida “homens bons” e escravos, de gentes múltiplas em seus cuidados e condição. múltiplas são as matrizes teórico-
política e cultural. conceituais. Se são variadas as

modernidade em
Uma paisagem histórica como a América portuguesa não teve outra.
Ra zes da mo der ni da- de em Mi perspectivas metodológicas, con-
nas Ge rais é, em certo sentido, uma É este cenário, este mundo, que se busca decifrar neste texto: a estrutura ur- ceitos e os há um traço comum
síntese de mais de 20 anos de estudos bana, a economia, o aparato estatal, a vida política e cultural de uma região – àquelas contribuições que é a in-

Minas Gerais
sobre Minas Gerais: é, sobretudo, um
capitania – província – estado – que anunciou a modernidade entre nós. teligência crítica em busca do
convite para pensar a trajetória histó-
Raízes da modernidade em Minas Gerais é um ensaio. Ensaio diversifica- desvelamento de ums região par-
rica de Minas Gerais, suas potenciali-
ticularmente esquiva em deixar-
dades e limites em momento de tan- do em suas referências e andamento: história, sociologia, economia. São re-
ta desesperança e dificuldades.
se explicar.
gistros de um discurso que não quer ser apenas ofício acadêmico. Buscou-se um pouco da inspi-
Resultado de uma longa visitação de temas mineiros, este texto é um ração dos clássicos para a tarefa
pequeno testemunho da certeza de que uma terra que viu nascer o grande que tem consideráveis dificulda-
COLE˙ˆO
Antônio Francisco Lisboa, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Gui- des: o mistério dessa terra medi-
HISTORI -

João Antonio de Paula


AL terrânica, variada, diversa, com-
Ou tros t tu los da co le ªo: marães Rosa tem o direito de esperar e construir o melhor.
plexa, ambígua, paradoxal: as Mi-

Joªo Antonio
• 500 anos de educa ªo no Brasil -
Eliane Marta T. Lopes, Luciano Mendes F.
nas dos Matos Gerais, como veio
Filho, Cynthia Greive Veiga (orgs.); lembrar o grande Pedro Nava.
• Car to gra fia sen ti men tal - de se bos e li Minas Gerais e sua singula-

-
vros- Márcia Cristina Delgado; ríssima trajetória, matriz da mo-
• Ar ma di lhas da se- os du roªoman
-
dernidade no Brasil, dotada de
ces de M. Delly - Maria Teresa Cunha;
insuspeitadas sintonias, em va-

de Paula
• In f n cia no -s Luciano tªo Mendes
de Faria Filho e Cynthia Greive Veiga; riados campos, com o sentido
ISBN 978-85-7526-380-8
• Abrin do os baœs - tra di ı es e va lo res geral da modernidade ocidental,
das Mi nas e das Ge - Tanya
raisPitanguy e síntese das contradições essen-
de Paula;
ciais que marcaram a formação
• A educa ªo exilada - ColØgio do Ca-
ra a- Mariza Guerra de Andrade. 9 788575 263808 histórica brasileira.
Raízes da modernidade
em Minas Gerais
João Antonio de Paula

Raízes da modernidade
em Minas Gerais

Belo Horizonte
2000
Copyright © 2000 João Antonio de Paula

COORDENAÇÃO EDITORIAL
Rejane Dias dos Santos
DIRETORA DA COLEÇÃO HISTORIAL
Eliane Marta Teixeira Lopes
CAPA
Jairo Alvarenga Fonseca
(Sobre aquarela in: Mapas, estatísticas e alguns
desenhos reunidos em um volume, séc. XVIII, manuscrito nº 49.)
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Luiz Gustavo Maia
REVISÃO
Vera De Simone

P324r Paula, João Antonio de


Raízes da modernidade em Minas Gerais / João Antonio de
Paula. — Belo Horizonte — : Autêntica, 2000.
156 p. — (Coleção Historial, 8)

ISBN 85-86583-80-4

1.Minas Gerais-história. 2.Sociologia. 3. Economia I.Título.


II. Série

CDU 981.51
572

2000
Todos os direitos reservados pela Autêntica Editora.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, seja por meios mecânicos,
eletrônicos, seja via cópia xerográfica sem a autorização prévia da editora.

AUTÊNTICA EDITORA
Rua Tab. Ferreira de Carvalho, 584, Cidade Nova — 31170-180
Belo Horizonte/MG — PABX: (55 31) 481-4860
www.autenticaeditora.com.br
SUMÁRIO

07 Introdução

09 Minas Gerais e a modernidade


A tessitura da modernidade
A modernidade em Minas Gerais

23 O semeador e a colheita:
estrutura urbana em Minas Gerais
Cidade e modernidade: trajetória de realidades e conceitos
A trajetória histórica das cidades no Brasil
A formação das cidades em Minas Gerais
Especificidades da estrutura urbana mineira
Indicadores da urbanização mineira

59 Fundamentos da economia mineira


A economia colonial mineira
Padrão monetário e estrutura tributária colonial
A economia da província e a questão do mercado
Trabalho e industrialização
87 O sistema colonial, o Estado e a sociedade
em Minas Gerais
A condição colonial como limite
O Estado em Minas Gerais
A estrutura social

109 Vida política e cultural em Minas Gerais:


a dialética do nacional-popular
Um sistema cultural
A vida política
O nacional-popular interditado

137 Imagens

149 Referências bibliográficas

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

INTRODUÇÃO

N este ensaio várias são as explícitas ho-


menagens e referências que, com certeza, não
contribuições que é a inteligência crítica na bus-
ca do desvelamento de um país particularmen-
escaparão ao leitor avisado. Trata-se, no funda- te esquivo em deixar-se explicar.
mental, de afirmar uma postura, para além dos Se tantas e diferentes são as referências his-
modismos, que, sem abrir mão dos avanços toriográficas, também múltiplas são as matri-
dos estudos recentes, reitera o essencial de cer- zes teórico-conceituais. Há a tradição da análise
tas perspectivas historiográficas, e que, sem ten- histórico-sociológica weberiana, há o podero-
tar lista exaustiva, têm nomes como: Antonil, so influxo da historiografia da Ècole des Annales,
Teixeira Coelho, Capistrano de Abreu, Sérgio e há o insuperável da lição de Marx e alguns de
Buarque de Holanda, Eduardo Frieiro, Fran- seus cultores mais interessantes como Gramsci
cisco Iglésias, Caio Prado Jr., Celso Furtado, Fer- e Henri Lefebvre entre outros.
nando Novais, Jacob Gorender, Ciro Flamarion Neste ensaio, buscou-se um pouco da ins-
Santana Cardoso. Não se esqueça o grande en- piração destes clássicos para tarefa que tem con-
saísta português António Sérgio. sideráveis dificuldades: o mistério desta terra
Se são variadas as perspectivas metodoló- mediterrânica, variada, diversa, complexa, am-
gicas, conceitos, há um traço comum àquelas bígua, paradoxal, as Minas dos Matos Gerais,

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como veio lembrar o grande Pedro Nava. Mi- Lisboa, gênio que honraria qualquer cultura. Daí
nas Gerais e sua singularíssima trajetória, matriz ver a maravilha modesta daquelas gentes: suas
da modernidade no Brasil, dotada de insus- cidades, suas comidas, sua música, suas festas,
peitadas sintonias, em variados campos, com o sua fala, sua literatura, a rebeldia e a inesgotável
sentido geral da modernidade ocidental, e sín- paciência que também lhe marcam a fisionomia.
tese das contradições essenciais que marcaram Este ensaio buscou captar apenas parte do
a formação histórica brasileira. inumerável da trajetória histórica mineira. Toman-
Acompanhar as vicissitudes da formação do-se o essencial da constituição da modernida-
histórica de Minas Gerais é atualizar uma dis- de ocidental, buscou-se fixar as maneiras
cussão necessária, a busca do entendimento de específicas como as instituições da modernidade
nossas raízes, de nossas especificidades, para que foram transplantadas e aclimataram-se à realidade
possamos ser sujeitos de nossa emancipação. mineira nos séculos XVIII e XIX. Assim, em se-
É este o sentido fundamental dos estudos qüência, foram discutidos os seguintes temas: 1)
históricos. O olhar retrospectivo que é promessa a modernidade ocidental e sua versão mineira;
do novo, a memória que é resgate e superação, a 2) a constituição da estrutura urbana de Minas
busca da cor local para compor-compartilhar o Gerais; 3) a complexa e diversificada economia
cromatismo da cultura universal. Daí ver o Pro- mineira; 4) a herança colonial e suas marcas so-
meteu no Sertão, as musas no Ribeirão do Car- bre o Estado e a sociedade mineira; 5) as vicissi-
mo, um Mozart mulato, Antônio Francisco tudes da vida política e cultural em Minas Gerais.

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Minas Gerais e a modernidade

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Mas só Minas Gerais possui uma “paisagem cul- de algum modo. O texto de Carpeaux é, tam-
tural”, no sentido em que a possuem – guarda- bém, um desafio. Como entender que, nestes
das as dimensões, evidentemente – Florença ou
a Umbria. Lugares em que obras da mão do ho- confins, nestes sertões, se constituísse, no sé-
mem, a cúpula do Duomo ou a Basílica de São culo XVIII, “paisagem cultural”, que na mo-
Francisco de Assis – chegam a fazer parte da déstia e nos limites de suas formas são ainda
paisagem intimamente civilizada e como que in-
mais comoventes? Como explicar este flores-
vocando o céu. Uma terra redimida.
cimento cultural considerando as imposições
Assim se me afigurava Ouro Preto quando a vi
pela primeira vez, chegando de noite, as igrejas do “Pacto colonial”, os constrangimentos da
fantasticamente construídas em cima das coli- dominância do trabalho escravo, as precaríssi-
nas de que parecem fazer parte. Uma “paisagem mas condições de transporte e comunicação?
cultural”, como talvez não exista outra na Amé-
Como explicar a altitude artística de Antônio
rica Latina. (CARPEAUX, 1960, p. 169).
Francisco Lisboa, de Athaíde, de Cláudio Ma-
Este texto, nascido da generosidade e sen- noel da Costa, de Tomás Antônio Gonzaga,
sibilidade de Otto Maria Carpeaux, é mais que de Lobo de Mesquita? Como entender a for-
um elogio, um reconhecimento que nos envai- mação de um “sistema de cidades” naquela ca-
dece e alegra, vindos do grande homem e in- pitania mediterrânea e distante, como entender
telectual que foi este austríaco, que nos deu a constituição de um efetivo ethos urbano e mo-
mais que pudemos retribuir, se já o fizemos derno naquelas Minas?

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A grande questão aqui, e Roberto Schwarz O ar da cidade liberta, dizia-se na Idade
foi pioneiro em constatar isto, é, como estas “im- Média. O ressurgimento das cidades, a supera-
portações” modernas – o liberalismo, a idéia de ção do ruralismo feudal, são traços decisivos da
autonomia da esfera privada, a idéia de uma esfera modernidade. Max Weber e Sombart, Pirenne e
pública baseada em valores universais – coexistem Braudel, não se esquecendo de Marx, são unâni-
nos quadros de uma sociedade escravista e, acres- mes em apontar a centralidade do fenômeno
cente-se, periférica? A questão é, assim, buscar urbano como sintoma e determinante das gran-
entender as implicações da “recepção”, na Colô- des transformações sociais, políticas, econômicas,
nia-Império, dos influxos da modernidade. culturais e psicológicas que vão marcar o Oci-
Sob vários aspectos, Minas Gerais tem sin- dente moderno. As cidades significam um novo
gularidade no relativo à recepção-aclimatação padrão de sociabilidade, permitem novas rela-
de certas criações da modernidade. Vão se de- ções políticas e econômicas, moldam novos cos-
senvolver em Minas Gerais vários sistemas – tumes, sensibilidades, mentalidades.
um sistema urbano, um sistema estatal, um sis- Não por acaso são as cidades do Norte da
tema cultural, um sistema religioso, um sistema Itália, espaços urbanos libertos do poder feu-
monetário-mercantil – que têm especificidades dal, autônomas e dinâmicas, que estarão na base
no quadro brasileiro. Trata-se, assim, de buscar da primeira expansão capitalista. Não por acaso
compreender os limites do processo de implan- também será em Florença, no século XIV, que se
tação da modernidade em Minas Gerais do pon- vai assistir à primeira grande rebelião de traba-
to de vista sócio-político-cultural à luz dos lhadores urbanos, os ciompi, em 1378. Não por
constrangimentos determinados pela presença e acaso será nas cidades norte italianas que se
dominação aqui do antigo sistema colonial e seus constituirão a idéia e a experiência do Estado
desdobramentos históricos – dependência eco- moderno. Não por acaso será nas cidades do
nômica, tecnológica e financeira; marginalização Norte da Itália que vão ser forjados os dados
política e social; interdição de direitos sociais bá- essenciais da cultura moderna – o humanismo,
sicos... Isto é, neste ensaio, buscar-se-á registrar a renascença artística, filosófica e científica.
as especificidades da modernidade em Minas Trata-se de reconhecer, como quer Argan,
Gerais, destacando, em particular, a forma como que a cidade é também obra de arte, e, de outro
se impuseram um sistema urbano, um sistema lado, é dominação, como quer Braudel, capaci-
estatal, um sistema cultural, um sistema religioso dade de comando, espaço de exercício do po-
e um sistema monetário-mercantil. der; e muito mais é a cidade: é memória coletiva,

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

no sentido de Halbwachs, é língua, é artefato, é É assim que o conceito de cidade para


índice do desenvolvimento histórico global. Weber, do ponto de vista econômico, implica
Assim houve a cidade antiga, a cidade da reli- na centralidade do fenômeno do “mercado”,
gião e dos impérios escravistas; houve a cidade e decorrente daí, nos conceitos de divisão do
renascentista, o espaço do comércio e da ra- trabalho, consumo, produção, renda, dinheiro. De
zão; houve a cidade barroca, dos séculos XVII resto, há uma outra dimensão decisiva para ca-
e XVIII, a culminância do poder absolutista e racterizar a cidade, para Weber, que é a “diversi-
de sua crise; e houve (?) a cidade industrial, do dade”. Diz Weber:
século XIX, a vitória dos novos materiais, das
Assim, não poderiam chamar-se “cidade” aque-
novas técnicas construtivas, do concreto arma-
les assentamentos, que se compõem de mem-
do e do aço, da via “macadamizada”, da reor- bros de um clã com um só tipo de ocupação
ganização dos espaços; a disciplinização e o industrial, hereditariamente ligado, por exem-
controle como regra, a discriminação e a exclu- plo, a “aldeias industriais” da Ásia e da Rússia.
Haveria que acrescentar, como outras caracte-
são como resultados. rísticas, certa “diversidade” das ocupações in-
Há também um sentido econômico na rea- dustriais. (WEBER, 1964, p. 939)
lidade urbana. Werner Sombart vê a cidade
E é exatamente como “diversidade” que se
como resultado da concentração de riqueza,
constituem as cidades mineiras: diversidade pro-
como espaço formado pelo luxo, pelo consu-
dutiva, diversidade social, diversidade cultural. É
mo, dirá Veblen, conspícuo, pela busca da frui-
ção do prazer. (SOMBART, 1965, p. 52-53). como um quadro amplo, nuançado, complexo
que se deve ver a estrutura urbana mineira desde
Weber, no belo e erudito capítulo VIII de
o século XVIII. Sérgio Buarque de Holanda, em
Economia e sociedade diz:
texto ainda inexcedível em sua fatura e propósi-
Falaremos de “cidade” no sentido “econômico” tos sintéticos, “Metais e pedras preciosas”, esta-
quando a população local satisfizer uma parte
belece o principal do que se quer afirmar aqui – as
economicamente essencial de sua demanda di-
ária no mercado local e, em parte essencial tam- Minas como território de novas atividades pro-
bém, mediante produtos que os habitantes da dutivas além da mineração, uma ampla gama de
localidade e a população dos arredores produ- atividades, de relações, de estruturas: o desenvol-
zem ou adquirem para colocá-las no mercado.
Toda cidade no sentido que aqui damos à pala-
vimento da manufatura, da agricultura, da pecuá-
vra é uma “localidade de mercado”. (WEBER, ria, da manufatura agrícola, da mobilidade social;
1964, vol. II, p. 939). da expansão urbana; da expansão demográfica;

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do desenvolvimento artístico e cultural; do de- Trata-se, assim, de reconhecer, desde o século
senvolvimento de mercados; a presença de uma XVIII, a existência, em Minas Gerais, de uma so-
complexa burocracia judiciária, tributária e ad- ciedade diversificada do ponto de vista social e
ministrativa. Diz Sérgio Buarque: produtivo, dotada de estruturas burocráticas com-
plexas, de mobilidade social, de vida cultural e ar-
As Minas Gerais, dizia com efeito Silva Pontes,
nos últimos doze anos do século XVIII, são hoje tística com uma insuspeitada força, tudo isto nos
no continente de nossa América o país das co- limites dos constrangimentos coloniais. Numa
modidades da vida, e só o ouro o fez assim. palavra, trata-se de surpreender, nas Minas Gerais
Passando ao confronto com outras regiões bra- setecentistas, uma sociedade urbana, uma rede ar-
sileiras realça ainda a posição especial que ocu- ticulada de núcleos urbanos que se estrutura rapi-
pava a sua entre as mais capitanias do Brasil,
onde se produziam apenas gêneros em estado damente. Se se considerar que a ocupação do
bruto, ou pouco menos, “sem mãos intermé- território ocorre na última década do século XVII,
dias”(...) algodão, açúcar, cacau, café (...). já em 1711 são erigidas as primeiras vilas na
Uma relação breve, embora, e muito salteada, de região mineradora central, espalhando-se pelo
produtos tão vários, que naturalmente se hão de território tanto a população quanto a vocação
somar aos outros, comuns a esta ou aquela região
do Brasil, que quase todos se acham ali represen- “semeadora de cidades”, levando a que, em mea-
tados, pode dar alguma razão ao escritor, onde dos do século XVIII, praticamente todos os qua-
afirma que suas Minas não se davam apenas, como drantes da capitania já tivessem núcleos urbanos –
nas mais capitanias, gêneros em bruto, sem “mãos o extremo Noroeste, com Paracatu, o Nordeste,
intermédias”. Que deles, e não só de minerais
preciosos, já houvesse exportação, nada irrele-
com Minas Novas, o Sul, o Leste, o Norte, numa
vante por vezes, é tanto de notar quanto nas sucessão de vilas refletindo tanto a itinerância da
próprias Minas existia um mercado consumidor atividade mineradora quanto as exigências de di-
numeroso. (HOLANDA, 1960, p. 293-4) versificação produtiva que ela significa, seja pelas
É também significativo o fato de que o prin- crescentes necessidades de abastecimento, seja pelo
cipal produto de Minas, o ouro, é, ele próprio, próprio esgotamento das riquezas minerais.
meio de circulação, dinheiro, que, legal ou ilegal- De tal modo é assim, que Minas Gerais
mente, circulou amplamente na capitania incre- constituirá, no século XVIII, nos limites da
mentando as trocas, estimulando os mercados, dominação colonial sob os constrangimen-
permitindo um grau de mercantilização sem para- tos de todas as precariedades decorrentes do
lelo na colônia brasileira. isolamento, das distâncias, do incipiente da

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

base material e tecnológica disponível, uma “ci- A modernidade significou a emergência de


vilização urbana”, o que não significa negar a instituições, de valores, de concepções, de ati-
presença ampla e marcante da dimensão rural tudes, de modos específicos de vivência do tem-
na constituição das Minas Gerais, senão que po, de apropriações do espaço, de produção e
afirmar a diversidade da Capitania, da pro- reprodução material, de organização da vida
víncia, do Estado que, ainda hoje, é o conjun- política, de vivências subjetivas, que redefiniram,
to não inteiramente articulado das minas de fato, o projeto civilizatório ocidental.
urbanas, dos sertões e dos gerais. Diversidade Lembre-se, nesse sentido, aquela caracteri-
física, geográfica, botânica, humana e cultural; zação decisiva que Koyré nos dá da moderni-
diversidade econômica, social e demográfica. dade como uma revolução na concepção do
Como está em Guimarães Rosa – “pois mundo: a dissolução do conceito de “cosmos”,
Minas Gerais é muitas. São, pelo menos, várias que predominou durante a antigüidade e a Ida-
Minas”. de Média ocidentais, e que estabelecia o mundo
como realidade “hierarquizada, finita, heterogê-
A tessitura da modernidade nea e fechada”, e sua substituição por uma nova
concepção do mundo, resultado de diversas con-
A modernidade como processo histórico, tribuições de Nicolau de Cusa, Giordano Bru-
como etapa específica da trajetória histórica, abre- no a Galileu/Newton/Descartes, e que passou
se em diversas dimensões, admite inúmeras ca- a pensar, representar e intervir sobre o mundo, a
racterizações, periodizações, conceituações. Na partir daí, considerado uma realidade “homo-
verdade é um processo aberto, pluridimensional, gênea, infinita, aberta, em expansão, geometriza-
polissêmico. Considerada como processo cultu- da e quantificável” (KOYRÉ, 1982, p. 152, 172).
ral, tem diversas interpretações, considerada Mas, se a modernidade implicou esta re-
como fenômeno técnico-material, como fenô- volução no conceito de “cosmos”, significou
meno político ideológico, considerada como fe- também outras revoluções – a revolução nas
nômeno religioso, considerada como fenômeno mentalidades, maravilhosamente descrita por
ético-comportamental, considerada como fenô- Huizinga em seu O outono da Idade Média, por
meno econômico, como fenômeno geográfico- Paul Hazard em seu A crise da consciência européia;
espacial, a modernidade tem sido a referência a revolução nos conceitos e usos do espaço, do
essencial de diversas disciplinas e campos teóri- tempo, dos corpos, do trabalho; a revolução
cos, de variados matizes filosóficos-ideológicos. nas formas de conceber o Estado e a religião; a

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revolução dos transportes, dos meios técnicos, no que antecedeu à época moderna, senão que
dos usos e conceitos da natureza, seu definitivo constatar a sua generalização, a universalização
“desencantamento” como nos disse Max We- dos seus resultados, a sua virtual hegemonia so-
ber, sua apropriação por meio da racionalida- bre todas as relações econômicas, a transforma-
de técnico-instrumental; revolução nas formas ção da terra, da natureza, do trabalho em
de viver e morrer, de adoecer e curar, de lidar mercadorias, as fantásticas possibilidades de au-
com a loucura e com as transgressões; revolu- mento de produtividade do trabalho, criadas pela
ção urbana, revolução mercantil, revolução bur- divisão técnica e social do trabalho e ressaltadas
guesa, a invenção de novos modos de produção pelos teóricos da economia política clássica.
e reprodução material. Estes aspectos considerados centrais por
São tão amplas as implicações da moder- Marx, por Polanyi, na constituição da moderni-
nidade, que é preciso algum critério aglutina- dade, a vitória do mercado, das relações capi-
dor para que se fixe o essencial do processo. talistas de produção, foram também objeto da
Uma primeira aproximação talvez possa en- consideração de uma tradição historiográfica
quadrar o principal da modernidade como que se desdobrou a partir das obras de Braudel,
constituído por quatro grandes eixos estrutu- Wallerstein e, mais recentemente, de Giovanni
rantes de significados e conseqüências: um pri- Arrighi e Charles Tilly.
meiro eixo seria o representado pela imposição O terceiro eixo a ser considerado, fundante
de uma forma específica de organização do da modernidade, é o que está associado à contri-
poder, o “Estado moderno”, cujas caracte- buição decisiva de Max Weber e que se baseia na
rísticas estabelecidas por Maquiavel talvez pos- centralidade da “razão instrumental”. A análise de
sam ser caracterizadas como a constituição de Weber buscou mostrar que há, produto de um
uma esfera de organização política, cujo poder encadeamento de circunstâncias não determinístico,
normatizador-coercitivo é exercido por uma es- uma particular revolução no campo “cultural”,
trutura autônoma, apontando decisivamente para no Ocidente, nos séculos XIV, XV e XVI, cujo
a hegemonia do interesse público sobre os inte- núcleo é a autonomização das esferas da “éti-
resses privados. São essas promessas do “Esta- ca”, da “ciência” e “das artes” dos contingen-
do moderno” que fizeram dele uma das ciamentos religiosos-metafísicos que tinham
instituições centrais da modernidade. predominado durante todo o período pré-mo-
Outro eixo é o relativo ao “mercado”. Tra- derno, e que, na prática, significou o aprisiona-
ta-se, não de estabelecer a inexistência do mercado mento daquelas esferas – o que posso fazer

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

legitimamente, o que é a verdade, o que é a que o elemento dinâmico, o que se transforma e


beleza – a uma ordem estática e hierárquica in- transforma os dois outros, que são estáveis, é a
fensa ao novo, à transformação. cultura. (BURCKHARDT, 1944).
Processo dinâmico e contraditório, a mo- Na proposta de Burckhardt, trata-se de
dernidade para Weber não tem um sentido úni- pensar a modernidade como o resultado da
co ou determinístico, sendo legítimo considerar ação da cultura sobre o Estado e a religião, bem
a sua visão como crítica das conseqüências obli- como as interações das influências recíprocas,
terantes de uma nova servidão, diz ele, resultan- daí determinantes, e as maneiras como afetam
tes da hegemonia burocrático-instrumental. os indivíduos e as coletividades.
O quarto eixo da modernidade diz respeito A tríade de Burckhardt contempla aspec-
às mentalidades, aos costumes e pode ser sinteti- tos do mundo da “superestrutura”, para utili-
zado na idéia da constituição da individualidade, zar uma linguagem que, derivada de um certo
na afirmação da separação entre a espera públi- marxismo, padece de unilateralidade. Contudo,
ca e a esfera privada, na consolidação da subjeti- situada a questão nos seus contornos devidos,
vidade como critério de ação e aferição ética. A trata-se de aporte utilíssimo para o entendimento
modernidade significa, neste sentido, a institui- do que se propõe aqui. As especificidades da
ção de um critério geral de sociabilidade, cujo modernidade, tal como transplantadas e acli-
sentido é dado pela liberdade individual. matadas em Minas Gerais.
Foram esses quatro eixos, promessas de O Vocabulário técnico e crítico da filosofia, de La-
uma humanidade autônoma, livre, próspera e lande, dá definição de “sistema” que é insuperá-
feliz que permitiram aos modernos, desde o vel em sua síntese – “conjunto de elementos,
século XVII, olharem para a Antigüidade com materiais ou não, que dependem reciprocamen-
a jactância com que adultos instruídos olham te uns dos outros de modo a formar um todo
para as ingênuas e toscas construções de uma organizado” (LALANDE, 1953, vol. II, p. 1223).
infância brilhante. Há neste texto um enunciado que se abre ampla
São possíveis outras articulações, outras e compreensivamente. Trata-se, primeiro, de
maneiras de agrupar o essencial da modernidade. reconhecer que um “sistema” tanto pode ser
O grande Burckhardt, em Reflexões sobre a história composto de elementos materiais como não-
do mundo, destaca que os três grandes fatores da materiais, elementos simbólicos, ideais, pura-
civilização são: o Estado, a religião e a cultura e mente mentais, e, de outro lado, a idéia de sistema

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remete à interação recíproca, à múltipla fecun- E não só no campo político-econômico
dação, às referências cruzadas, à contemporâ- afirmou-se o pioneirismo da modernidade da
nea idéia de “rede”. Daí que, tanto mais península. Também lá vai nascer o romance de
elementos contenha, mais interrelações contem- cavalaria, com o Amadis de Gaula, os instrumen-
ple, mais “complexo” e rico é o sistema. No tos de crédito e seguros marítimos, o direito
que vai ser discutido aqui, trata-se de traçar internacional.
genealogias dos sistemas estatal, cultural, reli- É exatamente pelo confronto entre a am-
gioso, urbano e monetário-mercantil tais, como plitude e força desta precoce hegemonia mo-
vivenciadas em Minas Gerais. derna e a decadência, que surpreende a península
já ao final do século XVI, que se ressalta o as-
A modernidade em Minas Gerais sombro e a perplexidade que não mais aban-
Para quem se acostumou a ver a Península donarão o horizonte das cogitações ibéricas. A
Ibérica, sobretudo neste século, como espaço do mais acabada representação deste destino in-
atraso, talvez seja surpreendente a afirmação de fausto, e seu impacto dilacerante sobre a men-
que a modernidade ocidental é, sob vários aspec- talidade ibérica, está no insuperável Dom Quixote, que
tos, uma invenção ibérica. Contudo, foi em Por- é, entre outros atributos, a súmula daquela gló-
tugal, no século XII, que se constituiu o primeiro ria perdida.
Estado-Nação moderno; foi em Portugal, no sé- Cervantes, que fez literatura superlativa,
culo XIV, que eclodiu a primeira revolução bur- fez também com seu livro a mais percuciente
guesa do Ocidente; que as grandes navegações, a das análises da trajetória da decadência ibéri-
expansão marítima, as conquistas da África, Ásia, ca. O fidalgo da Mancha, em seus devaneios e
a invenção do Novo Mundo, são obras de Portu- anacronismos, a tentativa patética e sublime de
gal e Espanha, da tomada de Ceuta, em 1415, aos viver os valores da cavalaria, o código cultural
sucessos Cabralinos, em 1500. De tal modo, que medieval, estão no romance como a represen-
não andam equivocados os que vêem os séculos tação, no plano artístico, do essencial da expli-
XV e XVI como séculos ibéricos. É de 1519 a cação da decadência ibérica. Carlos V e Filipe
eleição do imperador Habsburgo, Carlos V; é de II queriam, com o império imenso que herda-
1571 a grande vitória de seu filho, Filipe II, sobre ram-ampliaram, o passado, o controle do Me-
os turcos, consolidando a hegemonia ibérica so- diterrâneo, do Mare Nostrum, quando a via
bre o Mediterrâneo. principal do comércio e da economia já era o

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Atlântico; queriam a unidade cristã sob a hege- nos campos econômico, urbano, político, social
monia católica, quando a realidade era a da afir- e cultural serviu antes à reprodução de privilégi-
mação das reformas das Igrejas nacionais; os, à exclusão e à marginalização social e econô-
queriam a universalidade do Império quando a mica, e à interdição de direitos políticos, já que
realidade era a da consolidação dos Estados na- foram recorrentes as práticas discricionárias, as
cionais... É, então, assim, que se afigura o sentido centralizações autoritárias, as ditaduras.
último da modernidade ibérica, precoce e apri- A historiografia tem insistido que o maior
sionada, bloqueada pela perspectiva medieval que e verdadeiro pecado que se pode cometer na
move seus dirigentes, modernidade paradoxal- escrita da história é o anacronismo. Anátema
mente voltada para o passado, para a feudalida- definitivo acautelam-se todos para evitá-lo; de
de e os privilégios estamentais, quando já se outro lado imputa-se-lhe, nem sempre com
impõe a ordem burguesa e a lógica do capital e acerto, a quem se quer desqualificar.
do mercado capitalista. É este, fundamentalmen- No caso em tela, trata-se de discutir se faz
te, o grande significado da derrota da Invencível sentido falar-se em “modernidade” em Minas
Armada Ibérica, em 1588, para a Inglaterra: “ou- Gerais nos séculos XVIII ou XIX. Diga-se,
tro valor mais alto se alevantando”. Essa trajetó- inicialmente, que a palavra “moderno” tinha
ria foi fixada no livro clássico de Fernand Braudel curso amplo o suficiente, seja na capitania, seja
sobre o Mediterrâneo e seu fugaz senhor, Filipe II, no conjunto do reino, para já estar dicionari-
publicado em 1949. zada na primeira edição do Dicionário da língua
É a partir desse quadro geral que se deve portuguesa, de Antonio de Morais e Silva, em
buscar entender a modernidade em Minas Ge- 1789, quando registra – “adj. novo, recente v.g
rais. Também aqui tem-se a mesma arquitetura – uso moderno; estilo moderno; doutrina mo-
básica de uma modernidade precoce, incompleta derna; livro moderno; autor moderno etc.”
e bloqueada. Também aqui se assistirá à atrofia (1789, p. 89, 2o vol.).
do impulso moderno, que não resultará, como Em sua quinta edição, de 1844, o mesmo
nos países centrais, em democratização de direi- autor acrescenta ao verbete “moderno” o seguin-
tos políticos, em universalização de direitos sociais, te – “adj. (do Lat. mos hodiernus, costume de
em desenvolvimento material autônomo. hoje, dos nossos dias). Da época mais próxima a
Na verdade, a modernidade em Minas Ge- nós, que é moda, novo, recente;...” (1844, p. 343,
rais, que produziu efetivos “sistemas modernos” 2o vol.). Agregue-se que, nesta edição, aparecem

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as palavras “moderníssimo” e “modernista”, recentemente formuladas” (LALANDE, 1953, p.
que não estavam na 1a edição. 825, 2o vol.), diga-se que ela já é freqüentemen-
O exercício da historiografia remete a um te empregada, desde o século X, nas polêmicas
permanente cuidado com relação ao pecado religiosas e filosóficas. Mais ainda: há quem iden-
mortal do anacronismo, como disse Lucien tifique a palavra no século V, com Santo Agos-
Febvre. Daí a ocupação quase obsessiva dos his- tinho – “a palavra latina tardia modernus
toriadores com a contextualização de seus “ob- expressava a rejeição ao paganismo na inaugu-
jetos”. Freqüentemente este esforço incide em ração da nova era cristã” (KUMAR, 1996, p. 473).
minuciosas reconstituições sobre o uso e o senti- Ao lado da questão referente ao anacro-
do das palavras, sobre os significados das pala- nismo, há uma outra, igualmente complexa, que
vras, dos conceitos ao longo do tempo. Esta seria, é a multiplicidade de sentidos que a palavra e
desde a lição inaugural de Lucien Febvre, em seu suas derivações foram ganhando ao longo do
livro sobre Rabelais e a descrença religiosa no tempo. As diversas palavras – moderno, mo-
século XVI, a maneira por excelência de se pe- dernice, modernidade, modernismo, moder-
netrar na mentalidade de uma certa época. A “apa- nização – foram apropriadas, plasmadas por
relhagem mental” de uma época manifesta-se, diversos campos do conhecimento e motiva-
nesta perspectiva, por meio da compreensão das ções. Se a matriz é a palavra “moderno”, ela
maneiras e sentidos de suas palavras. ensejou derivações – “modernismo” – que tem,
Assim, ao colocar-se a questão da “moder- sobretudo, sentido estético e religioso, como nos
nidade em Minas Gerais”, nos séculos XVIII e diz Ferrater Mora; outra derivação – “moderni-
XIX, está implícita a necessidade de atestar-se a zação” – mais recente, a partir dos anos 1950,
“legitimidade” da própria questão. Isto é, faz buscou apor-se-lhe sentido sócio-político-
sentido falar-se em “modernidade” naquela econômico-cultural. Finalmente, a palavra “mo-
região, naquele momento, ou não será tudo isto dernidade” tem amplo curso hoje, exatamente à
apenas a presença da insidiosa anacronia? medida que se discute a “crise da modernida-
Se se tomar, como índice desta possível de”, seu esgotamento, suas promessas irrealiza-
anacronia, o uso da palavra “moderno” e suas das, e a emergência de uma “pós-modernidade”.
variações, com o sentido que tem ainda hoje, Sobre isso, há uma extensa literatura em que se
isto é, como o que diz respeito “aos fatos mais destacam os nomes de Lyotard, Baudrillard,
recentemente descobertos ou às idéias mais Virillio, Vattimo, Lipovetsky, do lado dos que

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

vêem virtudes absolutas nesta suposta “pós- de instauração da modernidade, sua dinâmica es-
modernidade” emergente, enquanto, de outro pacial e histórica, não é linear ou homogênea, e
lado, Habermas, Callinicos, entre outros, apon- sua gênese e elementos constitutivos vão na con-
tam essas tendências como, na verdade, mani- tra-mão da sua configuração atual. A moderni-
festações de um neoconservadorismo que seria dade é “invenção ibérica”, em muitos sentidos,
o sinal destes tempos de globalização capita- modernidade aprisionada, diga-se, bloqueada pe-
lista e conformismo. los compromissos feudalizantes que movem estes
Henri Lefebvre tem texto fundamental so- mesmos impulsos modernos ibéricos. Esta contra-
bre o significado da modernidade em que rastreia dição está na base dos limites que determinarão a
seus usos e sentidos, dá-lhes consistência concei- atrofia e a subordinação política, econômica e
tual. Utilizando Marx, Baudelaire, Nietzsche, Le- cultural da península, a partir do século XVII.
febvre constrói um conceito de modernidade em Contudo, as vicissitudes da modernidade
que são decisivas as idéias de Estado, de vida coti- ibérica não devem ser consideradas como sig-
diana, de fugacidade, de moda e mundanidade, de nificando derrota absoluta.
velocidade e vida urbana; de alienação e inautenti- E é como parte decisiva dessa moderni-
cidade, de diversidade cultural em que se ressalta o dade, que deve ser visto o projeto colonizador
caráter contraditório da modernidade, diz ele: ibérico. De tal modo que, cada colônia, à sua
maneira, a América Hispânica e a América Por-
Muito mais do que por uma “estrutura” estabele-
cida ou estabelecendo-se por tendência constatável tuguesa, são “produtos” e “instrumentos” da mo-
uma coerência, a modernidade caracterizar-se-ia dernidade ibérica, são empresas que visam lucros.
pelo esforço impotente pela estrutura e pela coe- São resultados de uma nova concepção do mun-
rência. Tudo se passa como se a “desestrutura- do, de seu alargamento; são resultados de um
ção” atingisse as estruturas antes mesmo que elas
tivessem conquistado equilíbrio e coerência inter- notável desenvolvimento da tecnologia náuti-
nos, integrando-as em novos conjuntos já amea- ca; são resultados da ação de um Estado, mo-
çados pelas contradições e pelo negativo. narquia marítima, no caso de Portugal, na
(LEFEBVRE, 1969, p. 219) rigorosa expressão de Antônio Sérgio, traços
Outra questão, também decisiva, é quanto à inequívocos da modernidade que se alevantou
extensão da modernidade à “periferia”. Diga- na península precocemente.
se, inicialmente, que se se quer rigor no tratamento Por outro lado, os sucessos e feitos da Co-
desta questão, é preciso lembrar que o processo lônia, a sua produção de riquezas, a descoberta

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do “outro”, do mundo e das realidades das po- típico da época medieval, e caracterizado pela
pulações nativas, são eles mesmos processos ruralização, pela fragmentação do poder político,
que terão incidência na constituição da moderni- pelo localismo, pela hegemonia absoluta da reli-
dade européia. Que se lembre aqui da página giosidade, pela estratificação rígida da estrutura
compreensiva e antecipatória de Montaigne so- social, pela ampla presença das relações de de-
bre os povos primitivos do Novo Mundo. pendência pessoal.
De tal modo, que ver modernidade na traje- Trata-se, assim, de ver a trajetória da mo-
tória histórica de Minas Gerais, em sua vocação dernidade em Minas Gerais como um capítulo,
urbana, em sua estrutura estatal, em seu sistema secundário, com certeza, do quadro geral da re-
econômico, em sua vida política e cultural, é impe- alidade portuguesa, de processo sui generis de
rativo antes que anacronismo. É este o sentido apropriação da modernidade, em que os inequí-
profundo do quase inacreditável que foi a execu- vocos aspectos da instauração do novo estão
ção, nos confins de Minas, por músicos da terra, prisioneiros de uma ordem arcaica, sanciona-
mulatos, em Diamantina, de peças de Haydn, dora de privilégios aristocráticos.
Mozart, poucos meses depois de compostas. Esta De resto, é possível lembrar o filósofo Hen-
sintonia cultural, em vários de seus elementos, re- rique Vaz, que apresenta perspectiva fundamen-
mete ao inequívoco “pertencimento” da capitania tal sobre o conceito de modernidade. Para ele, a
a aspectos centrais da modernidade européia. modernidade seria “instância de compreensão e
Mas, se a palavra “moderno” tem curso no julgamento do passado” (VAZ, 1991), isto é, cada
contexto histórico-geográfico que aqui se discu- época histórica colocar-se-ia, com relação ao pas-
te, não é este o aspecto central a ser destacado. O sado, como uma instância crítica. Nas palavras
que interessa é que, mesmo que os coevos não o de um comentador da tese de Henrique Vaz:
nomeassem, a realidade de Minas Gerais, naque- Neste sentido, não há uma modernidade, mas di-
les séculos XVIII e XIX, era marcada pela mo- ferentes modernidades a se sucederem num pro-
dernidade no sentido em que esta foi definida cesso de reiteração e radicalização incessantes.
(ALMEIDA, 1991, p. 492).
aqui, isto é, como um conjunto de instituições –
as cidades, o Estado, o mercado, um sistema cul- Daí que seja legítimo se falar numa “mo-
tural – que resultaram em significativa alteração dernidade mineira” e buscar fixar suas especifi-
com relação ao quadro até então prevalecente, cidades e limites.

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

O semeador e a colheita:
estrutura urbana em Minas Gerais

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

O grande estudioso da Pré-História, Gor-


don Childe, fala da existência de uma “Revolu-
os impérios modernos, também se apoiavam
em cidades – núcleos concentradores de po-
ção Urbana” como momento culminante de der e capacidade expansiva. Há mais de um
uma segunda revolução, que se seguiu à revolu- aspecto em comum entre as grandes cidades
ção neolítica – resultado de um conjunto de antigas e o fenômeno urbano da modernidade.
transformações, invenções, descobrimentos, de Se se considerar a forma da cidade, o traçado
conhecimentos científicos – topográficos, geo-
urbano, há uma reiterada continuidade da in-
lógicos, astronômicos, químicos, zoológicos, fluência de Vitrúvio, retomada na Renascen-
botânicos – de saber e destreza práticos, aplicá- ça por Paládio e Alberti, no sentido da
veis à agricultura, à mecânica, à metalurgia e à predominância da geometria das retas, das
arquitetura... (CHILDE, 1959, p. 174)
praças centrais, que concentram o poder po-
Esse poder econômico, político, religio- lítico e religioso... A forma quadricular mo-
so, científico e cultural concentrado nas cida- delará todas as cidades modernas com exceção
des, resultado do desenvolvimento da divisão das islâmicas, que são cidades que se voltam
do trabalho, como disse Marx, está na base para dentro, que cultivam a reclusão, a con-
dos grandes impérios antigos que, tais como tenção e a modéstia. Diz Benevolo:

25
O Islã acentua o caráter reservado e secreto da Depois será o tempo da migração dos po-
vida familiar. As casas são quase sempre de um
vos, como disse Ranke, da queda do Império
andar só (como prescreve a religião) e a cidade
se torna um agregado de casas que não revelam, Romano, da decadência do mundo antigo, do
do exterior, sua forma e sua importância. As ruas longo domínio feudal, da ruralização da socieda-
são estreitas (sete pés, diz uma regra de Maomé) de. Quando a cidade ressurgir, ela será uma outra
e formam um labirinto de passagens tortuosas –
muitas vezes também cobertas – que levam às realidade. Se a forma quadriculada é a mesma da
portas das casas mas não permitem uma orien- cidade dos impérios antigos, se o modelo arqui-
tação, uma visão de conjunto do bairro(...) Nes- tetônico-urbanístico é um eco longínquo do es-
ta tessitura irregular se abrem – e adquirem pleno
valor – os grandes pátios regulares das mesqui-
plendor clássico, outra é a motivação, outros os
tas. (BENEVOLO, 1983, p. 226) valores, outras as forças hegemônicas, os inte-
resses materiais no referente à cidade moderna.
É então, na visualização desse contraste, em A cidade moderna, criação da burguesia em sua
que as formas regulares cuja simetria e o rigor trajetória histórica, é uma súmula compreensiva
geométrico parecem atributos adscritos à reli- desta mesma trajetória histórica. Ler o corpo da
gião, que se ressalta a grande diferença entre a cidade, examinar suas cicatrizes e marcas, detec-
cidade pré-moderna (a cidade medieval, a islâ-
tar suas continuidades e rupturas, acompanhar
mica), e a cidade moderna, em que a racionali-
as mudanças de seus papéis e funções, identificar
dade do traçado quadriculado impõe-se sobre
suas clivagens e conflitos é estar no coração do
forma e funções, sobre espaços públicos e pri-
fenômeno moderno.
vados, sobre realidades leigas e religiosas.
Fustel de Coulanges, em texto clássico, es- O que se vai ler aqui busca captar a trajetó-
tabeleceu o papel fundamental da religião na ci- ria da modernidade em Minas Gerais a partir
dade antiga. Diz ele: do estudo das vicissitudes do fenômeno urba-
no mineiro nos séculos XVIII e XIX. O ponto
A cidade antiga foi fundada por uma religião e de partida é, de um lado, a constatação da di-
constituída tal como uma Igreja. Daí a sua força,
mensão superior que o fenômeno urbano terá
daí também a sua onipotência e o império abso-
luto que ela exerceu sobre os seus membros. pioneiramente em Minas Gerais, e, de outro lado,
Numa sociedade organizada sobre tais princípios, os limites deste processo, isto é, as razões do
a liberdade individual não pode existir. O cida- bloqueio desta modernidade, que aqui, sabemo-
dão estava submetido em todas as coisas, e sem
reserva alguma, à cidade, pertencia-lhe inteira- nos, não resultou em desenvolvimento econô-
mente. (COULANGES, 1941, p. 370) mico, político e social includente, senão que na

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

reiteração de processo economicamente débil, a sociedade em corporações, estamentos, clas-


politicamente não-democrático e socialmente ses, localismos infensos à mobilidade, à intera-
marginalizador, ao contrário de outras socieda- ção, à mudança. Dividido, de um lado, entre duas
des onde a modernidade, plenamente inventa- grandes instituições universalizantes – o Papa-
da e experimentada, significou desenvolvimento do e o Império – e de outro lado às miríades de
material e abertura de perspectivas emancipa- instituições particularistas e fechadas, o mundo
tórias no campo político, social e cultural. feudal congelou, por séculos, as perspectivas
Ao colocar a questão nesses termos, não se emancipatórias, à medida que interditou o in-
está desconhecendo a circunscrição de Minas tercâmbio, a associação, a construção de identi-
Gerais ao quadro geral do Brasil, senão que bus- dades coletivas.
cando as especificidades da trajetória da moder- Nesse sentido, o ressurgimento das cidades
nidade mineira dentro do marco geral, tanto da no Ocidente, nos séculos XI e XII, como nos
América Portuguesa quanto do Brasil imperial, mostrou Pirenne, é um dos momentos centrais
quanto do conjunto da modernidade ocidental. da constituição da modernidade, afirmação ine-
quivocamente emancipatória. Diz Pirenne:
Cidade e modernidade: trajetória
Quaisquer que sejam as diferenças e mesmo os
de realidades e conceitos contrastes que a riqueza estabeleceu entre os
homens, todos são iguais quanto ao estado ci-
Dentre as várias criações da burguesia, ape- vil. “O ar da cidade torna livre”, diz o provér-
nas a cidade moderna tem, de fato, universalida- bio alemão, e esta liberdade observa-se sob
de. Ao contrário das outras invenções da todos os climas. A liberdade era antigamente o
monopólio da nobreza: o homem do povo só
modernidade burguesa que têm, de algum modo,
gozava dela a título excepcional. Devido às ci-
caráter particularista – o Estado moderno, a ra- dades, ela toma o seu lugar na sociedade como
cionalidade instrumental, o mercado capitalista... um atributo natural do cidadão. Doravante bas-
– a cidade é, plenamente, realidade emancipatória, tará residir no solo urbano para a adquirir”.
(PIRENNE, 1973, p. 149)
possibilitadora da liberdade. Esta dimensão es-
sencial da cidade ressalta-se, sobretudo, quando É possível que, hoje, esse sentido democrá-
se a compara com o quadro feudal marcado tico e libertador da cidade esteja obscurecido pelo
pela ruralização e pela multiplicidade de cons- caráter regressivo que a dominação burguesa
trangimentos sociais, políticos, culturais, econô- tem assumido. É possível mesmo detectar cer-
micos e espaciais, que fragmentam, rigidamente, tas formas de segregação urbana praticadas pela

27
burguesia nesta fase neoliberal, que ameaçam um Além da centralidade que tem na obra de
retorno a uma espécie de “particularismo hightech”, Pirenne, a cidade é também objeto privilegiado
em que condomínios fechados e polícias priva- na obra de grandes pensadores como Marx,
das, sucateamento e deterioração dos espaços Werner Sombart, Max Weber, Fernand Brau-
públicos, concentração da propriedade urbana, del, Immanuel Wallerstein, Charles Tilly. Desta-
produzem um esgarçamento dessa estrutura que quem-se ainda dois nomes, Henri Lefebvre e
reflete o processo geral, em curso, do aprofun- Giulio Carlo Argan, que marcados pelo marxis-
damento da exclusão econômica e social, da mar- mo, deram à “cidade” a dignidade de um objeto
ginalização política e cultural. pleno e expressivo.
Contudo, não se veja nisso processo irre- Numa periodização que fez escola, Fernand
versível ou sem contestação, pois também exis- Braudel, em seu Civilização material, economia e
tem movimentos que buscam reverter o processo, capitalismo, publicado em 1979, no terceiro tomo,
e as cidades, hoje, também são palco de inúme- “O tempo do mundo”, vê a história do capita-
ras manifestações, movimentos, instituições, lu- lismo como uma sucessão histórica e espacial
tas, que buscam realizar o espaço urbano como de “Economias-mundo” cujos centros hegemô-
domínio da liberdade e da justiça. nicos teriam sido Veneza – Antuérpia – Gênova
De qualquer modo, a cidade moderna é, tal- – Amsterdã – Londres – Nova York (BRAUDEL,
vez, a mais decisivamente democrática e progres- 1996). Nesta seqüência, avulta a centralidade das
siva das instituições da modernidade. Acompanhar “cidades-líderes” destas economias-mundo. As
as vicissitudes históricas das cidades, compreen- cidades como síntese, como concentração, como
der os diversos modos como as sociedades, paí- matrizes de diversos processos expansivos. Em
ses, regiões, culturas, estados experimentaram o primeiro lugar, e decisivamente, a concentração
fenômeno urbano é, certamente, ter em conta de capital, mas também, concentração de poder
um dos mais expressivos meios de apropriação coercitivo, concentração de informações, concen-
do essencial da modernidade. tração de atividades e experiências que só a cidade
Trata-se, assim, de estabelecer a cidade como pode absorver e ampliar. Isto é, a cidade como
objeto privilegiado da modernidade, isto é, o exa- uma realidade que é mais que um suporte, um
me da trajetória histórica das formas como as so- invólucro de relações sócio-materiais. A cidade
ciedades criaram e reproduziram suas cidades revela como realidade dotada de um atributo específico
aspectos centrais destas mesmas sociedades. e intransferível, que é ser a condensação de um

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

patrimônio de experiências coletivas permanen- Weber dirá que uma cidade tem como caracte-
temente potencializadas pela interação de diver- rísticas centrais: 1) abrigar um assentamento
sas redes de intercâmbios materiais e simbólicos. humano; 2) conter atividade industrial; 3) con-
E a densidade das interações que suscita, e ter atividade industrial diversificada; 4) abrigar
a força concentrada decorrente da massa das intercâmbios regulares de mercadorias, isto é,
relações e atividades que a cidade produz e re- ter mercado regular e 5) estar inserida numa rede
produz, amplamente, levaram os estudiosos da de divisão do trabalho (WEBER, 1964, p. 938-9).
cidade às clássicas analogias com os fenômenos As características apontadas por Weber para
físicos, falando-se então em pólos, em forças designar o fenômeno urbano têm como objeti-
gravitacionais, para designar os fenômenos de vo diferenciar a “cidade” do “campo”, pela pre-
atração, concentração, expansão e dominação, sença da atividade industrial, e diferenciar a
que as cidades exercitam, seja no seu entorno, “cidade econômica” da “cidade político-admi-
seja a grandes distâncias. nistrativa”. Daí a pouca ênfase dada às atividades
A cidade moderna é uma criação do Norte de serviços. Contemporaneamente, entende-se
da Itália. Não por acaso também no Norte da cada vez mais característico da cidade a diversifi-
Itália nasceram outras dimensões constitutivas cação de suas atividades terciárias. É, sobretudo,
da modernidade – o Estado, o desenvolvimen- pela capacidade de polarização das atividades ter-
to mercantil, a Renascença artística e filosófica. ciárias, pela capacidade de atrair renda, riqueza
Não há que se falar de determinações unilate- e populações, que as cidades irão se diferenciar,
rais, senão que constatar que a cidade é um es- hierarquizando-se, criando redes de complemen-
paço privilegiado para o desenvolvimento tariedade e subordinação.
econômico, político, social e cultural. Max We- Nesse sentido, acompanhar a trajetória da
ber vê a cidade como fenômeno complexo e di- sucessão de cidades dominantes – Veneza, An-
versificado em sua genealogia e características. tuérpia, Gênova, Amsterdã, Londres, Nova York
Como Marx, também entende essencial para a – como fazem Braudel ou Wallerstein, é traçar
existência da cidade a dimensão econômica. Se- as condições das sucessivas etapas do desenvol-
gundo Weber, para ser cidade uma localidade vimento capitalista do ponto de vista da abran-
precisa abrigar intercâmbios regulares de mer- gência espacial, econômica, política e social do
cadorias, isto é, a cidade é fenômeno que pres- seu domínio: da hegemonia imposta pela cida-
supõe a existência da divisão social do trabalho. de-estado comercial (Veneza – Antuérpia –

29
Gênova – Amsterdã) à hegemonia de uma cida- Os homens, as sociedades não criam o seu am-
biente apenas para satisfazer certas necessidades
de (Londres) que é base de um mercado nacio-
físicas ou sociais, mas também para projetar
nal articulado, à hegemonia de uma cidade (Nova num espaço real de vida algumas de suas am-
York) que é centro de uma dominação virtual- bições, das suas esperanças, das suas utopias.
mente imperial. (apud RONCAYOLO, 1986, p. 396-7)

Esses traços distintivos da linhagem das As cidades são produtos históricos, são sín-
cidades hegemônicas foram sublinhados por teses de experiências históricas. Ler o corpo ex-
Giovanni Arrighi, a partir das influências de pansivo e mutável da cidade é buscar apropriar-se
Braudel-Wallerstein, em seu livro O longo século do sentido geral de uma época, de uma socieda-
XX (ARRIGUI, 1996, p. 222-3). de, de uma cultura. Ler o corpo da cidade é exer-
Trata-se, assim, de reconhecer que se o fe- cício complexo, exigente. Kevin Linch, que
nômeno urbano, se a centralidade da cidade são procurou estabelecer os princípios de uma gra-
características permanentes de toda a trajetória mática da cidade, regras para a sua legibilidade,
da modernidade, cada período, cada etapa his- disse que este esforço de leitura tem que consi-
tórica, cada realidade histórica concreta produ- derar e incorporar, como dados desta mesma lei-
zirá um tipo específico de cidade. Mais que isto, tura, a subjetividade do olhar, a percepção de
em que pese aspectos centrais comuns – a con- quem vê e vive a cidade. (LYNCH, 1982, p. 13).
centração de poder político, econômico, cultu- Um exemplo inexcedível disto é o que disse
ral e social – cada formação social concreta Sartre quando visitou Nova York pela primeira
construirá sua forma específica de cidade, re- vez, Nova York que ele chamou cidade colonial:
sultado tanto de condicionamentos físico-eco- Eu sabia que ia gostar de Nova York (...)
nômicos-políticos quanto, sobretudo, do Nova York é uma cidade colonial, um chão para
irredutível do fenômeno cultural. Assim, numa acampamento. Toda a hostilidade, toda a malda-
mesma época, com os mesmos materiais, sob de da natureza está presente nessa cidade, o mais
prodigioso monumento que o homem jamais er-
as mesmas influências técnico-científicas, sob gueu a si mesmo. É uma cidade leve; sua notável
a mesma hegemonia urbano-arquitetônica nas- falta de peso surpreende a maioria dos europeus.
cem cidades tão diferentes, cujas fisionomias Nesse espaço imenso e malévolo, neste deserto
refletem tão incisivamente o caráter e os so- de rocha que não tolera qualquer vegetação, cons-
truíram-se milhares de casas-de-tijolo, de madei-
nhos de seus habitantes. Como nos disse Fran- ra ou de cimento armado, que parecem a ponto
castel, citado por Roncayolo: de levantar vôo. (SARTRE, 1960, p. 37)

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

As cidades, como as pessoas, têm fisiono- hegeliano, permite a realização da “liberdade”, na


mia, caráter, pulsões. Algumas são solares e le- medida em que é locus de realização da eticidade,
ves, outras têm o peso da culpa e da expiação. da transição dialética da esfera da família (da “ime-
São obras de arte, como disse Argan, não apenas diaticidade”), para a esfera da sociedade civil, e
porque abrigam objetos artísticos, são obras de desta até a realização da “liberdade”, momento
arte na medida em que suas construções, suas representado pela construção do “Estado”. É,
ruas, seus espaços, suas paisagens, o conjunto de então, no corpo plástico e aberto da cidade, é na
suas materialidades e os sonhos que inspiram, inexcedível interação-experimentação-exercício
projetam-se como obras de arte, imprimem-se da vivência coletiva que a cidade permite e incen-
em nossas sensibilidades como realidades estéti- tiva, que se construirá nossa melhor tradição de-
cas. De outro lado, são as cidades também reali- mocrática e emancipatória.
dades éticas, não só porque partilham significados, Não se pense, contudo, em trajetórias line-
aproximações no sentido da palavra ética-ethos, que ares, em escaladas irreversíveis para o Bem e a
quer dizer caráter, modo de vida habitual. A ci- Liberdade, que as cidades, também, têm sido
dade é, para Aristóteles, por excelência, o espaço espaços da derrisão e da venalidade, da opres-
do zoom politikon, o espaço da irresistível tendên- são e da injustiça, da barbárie e do regressismo.
cia do ser humano para a associação, para a vida
coletiva, para a vida ética. A trajetória histórica
das cidades no Brasil
Aristóteles identificará vários tipos de ethos,
de caráteres segundo as paixões (a cólera e o dese- É comum perceber-se certo espanto entre
jo), as disposições (virtudes, vícios), as idades e as os que se acostumaram a ver a Península Ibéri-
diferenças de fortunas. No fundamental, a lição ca a partir de sua posição de atraso relativo na
de Aristóteles, na Arte Retórica, visa estabelecer as Europa contemporânea, quando são lembrados
maneiras como os homens dotados de cólera, os vários aspectos de sua precoce vocação pelo
desejos, vícios, mas também capazes de virtude, moderno. Também no referente à realidade
podem construir a felicidade e o bem coletivo, urbana, há que se ressaltar o pioneirismo ibé-
de cada um e da cidade (ARISTÓTELES, Arte Retó- rico. Diz Zenha:
rica, livro I, Cap. V e Livro II, Cap. XII).
Com os forais o município atinge, tanto em Portu-
De outro lado, a cidade, espaço por exce- gal como em Espanha, o ponto mais alto de seu
lência da vida social, num sentido rigorosamente desenvolvimento, rematando uma evolução que tem

31
seu ponto de partida no século X quando já temos eleitos. A estes membros eleitos juntava-se, por
notícia incontestável destes documentos escritos.
A península tem a precedência, na Europa, da res-
imposição régia, um juiz-de-fora, que repre-
surreição municipal. (ZENHA, 1948, p. 15) sentava os interesses da Coroa. Este colégio
dirigente do município escolhia os outros
Esta tradição urbana, a legislação e os mo- membros da câmara – juizes de vintena, almo-
dos de regular e administrar os municípios, tem
tacés, depositários, quadrilheiros e outros fun-
em Portugal uma longa trajetória, que acabou
cionários (LEAL, 1975, p. 60, 61, 62).
por se transplantar para o Brasil. A legislação
sobre os municípios em Portugal foi contem- O controle da legalidade dos ordenamentos
plada nos três grandes ordenamentos legais e decisões da câmara era atribuição do Ouvidor,
portugueses: nas Ordenações Afonsinas, de que tinha a função de corregedor da comarca.
1446; nas Ordenações Manoelinas, de 1521; e Para constituir câmara, a localidade teria que
nas Ordenações Filipinas, de 1603. Nos três ter pelo menos a categoria de “vila”, a qual era
casos, há a continuidade de uma mesma pers- concedida por ato régio mediante alvará.
pectiva, que teria como grande característica Tanto eleitores como eleitos, o conjunto
geral a garantia de certa autonomia municipal. dos administradores municipais, eram recruta-
Nas Ordenações Afonsinas e Manoelinas, pre- dos entre os chamados “homens bons” da Co-
via-se que o poder municipal seria exercido por
lônia. Este termo, genérico e impreciso, queria
uma instituição, a Câmara Municipal, que teria
designar as elites locais definidas a partir do
funções executivas, legislativas e judiciárias. Este
patrimônio que detinham.
dispositivo será alterado nas Ordenações Filipi-
nas, que buscará fixar funções puramente ad- Pierre Deffontaines estabeleceu tipologia
ministrativas para as câmaras. da criação das cidades no Brasil que contem-
A criação de um município, no Brasil, até o plou sete matrizes básicas: 1) as cidades nasci-
Império, era resultado de autorização real median- das das reduções religiosas; 2) as cidades nascidas
te documento chamado Carta de foral. A organiza- de fortificações militares; 3) as cidades nascidas
ção básica dos municípios no Brasil, nos séculos da mineração; 4) as cidades nascidas dos pou-
XVI e XVII, estava centrada na Câmara Muni- sos, das estradas; 5) as cidades nascidas da na-
cipal, que tinha a seguinte estrutura: 2 juizes vegação; 6) as cidades nascidas das estradas de
ordinários, eleitos; 3 vereadores eleitos; um pro- ferro; 7) as cidades nascidas nas bocas de ser-
curador, um tesoureiro e um escrivão, também tão. (DEFONTAINES, 1941).

32
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Durante os séculos XVI e XVII, para a completamente aquela destreza que apresenta-
ram principalmente no século anterior. O das
maioria dos estudiosos do assunto, teria preva-
minas é um século importantíssimo na nossa his-
lecido uma relativa autonomia municipal. Or- tória porque é nele que o rei ganha elementos e
lando de Carvalho coloca assim a questão: autoridade para penetrar profundamente na co-
lônia onde se vai articulando uma nebulosa de
O Senado da Câmara, cujas funções, a princípio Estado que se configurará plenamente no IIo
administrativas, foram absorvendo aos poucos Império. (ZENHA, 1948, p. 165)
atividades de caráter político representando, por
vezes, nas cidades mais adiantadas, um elemen- Durante o século XIX, a legislação muni-
to de forte contradito aos representantes do go- cipal brasileira terá quatro momentos decisivos.
verno da metrópole. Muitos senados de Câmara
chegaram a por em xeque a autoridade dos O primeiro, em 1828, é o que marca a organiza-
governadores gerais das respectivas capitanias, ção municipal do primeiro reinado e que reti-
por seu espírito de indisciplina e de resistência à rou poder político dos municípios reduzindo-os
centralização real exercida por delegados da a simples unidades administrativas, sem quais-
Metrópole. (CARVALHO, 1946, p. 24-25)
quer atribuições judiciais, submetidos à tutela
Esta posição é contestada por Capistrano dos conselhos gerais e dos presidentes de Pro-
de Abreu, que criticou a tese de uma suposta víncia. Diz Victor Nunes Leal:
“onipotência das câmaras municipais” que teria
As câmaras, pelo diploma de 1828, ficaram sub-
prevalecido no Brasil colonial. De qualquer metidas a um rígido controle exercido pelos con-
modo, com as descobertas das minas, haverá selhos gerais, pelos presidentes de província e
mudança do quadro com a busca de crescente pelo Governo Geral. Chamou-se precisamente
doutrina da “tutela” a essa concepção, que con-
centralização e presença do Estado na Colônia. sistia em comparar o município, na ordem admi-
De tal modo, que é possível dizer-se que o sé- nistrativa, ao menor, na ordem civil, sua
culo XVIII no Brasil é marcado por uma outra incapacidade para o exercício das funções que
dinâmica urbana, seja do ponto de vista do cres- lhe eram próprias, impunha a criação de um aper-
tado sistema de assistência e fiscalização, a cargo
cimento dos núcleos urbanos, seja do ponto de de poderes adultos. (LEAL, 1975, p. 74-75)
vista da alteração da política metropolitana com
relação a esta realidade. Diz Zenha: O segundo momento da legislação munici-
pal é o representado pelos dispositivos descentra-
Todos os autores são unânimes em acertar para a
lizadores contidos no Código do Processo
decadência do município no Brasil o início do sé-
culo XVIII. A data é verdadeira e dela, em diante, Criminal, de 1832, e no Ato Adicional à Constitui-
nossos conselhos vão definhando até perderem ção, de 1834. Sobretudo o Código do Processo

33
trará considerável reforço ao poder local na me- medida que o fundamental da vida econômica e
dida do fortalecimento dos juizes de Paz, eleitos social da Colônia e do Império era a escravidão, e
localmente e com amplos poderes na arbitragem que a disputa pela autonomia municipal visava,
dos conflitos locais. O Ato Adicional transferirá sobretudo, os interesses dos “homens bons”.
para as Assembléias Provinciais o poder de legis- Uma exceção nesse quadro é o representado pelo
lar sobre os municípios. conteúdo de algumas das revoltas do período re-
Um terceiro momento da trajetória dos mu- gencial, 1831-1840, que chegaram a ter efetiva
nicípios no Brasil, no século XIX, é o represen- dimensão democrático-popular.
tado pela Lei de Interpretação do Ato Adicional,
em 1840, que retirou todas as prerrogativas que A formação das cidades
o Ato Adicional havia dado às províncias, con- em Minas Gerais
solidando a centralização absoluta que marcará
o 2o reinado. Durante todo o período colonial, Minas
Gerais só conheceu um núcleo urbano que re-
O quarto e último momento da legislação
cebeu o título de cidade. Trata-se de Mariana,
municipal brasileira, no século XIX, é o referente
que sendo sede de bispado, a partir de 1745,
à Constituição Republicana, de 1891, que fortale-
tinha, forçosamente, pela legislação de então, que
cerá estados e União, em contraste com o virtual
ser “cidade”, com todas as prerrogativas e pri-
enfraquecimento dos municípios. Mesmo a auto-
vilégios que estas tinham se comparados às res-
nomia dos municípios permaneceu ambígua na
trições que se impunham às “vilas” e “arraiais”.
redação do artigo 68 da Constituição, situação que
só será alterada com a Reforma da Constituição, Apesar disso, de só ter um núcleo urbano
de 1926, que assegurará, sem ambigüidades, a au- com o título de cidade, foi Minas Gerais, du-
tonomia municipal (CARVALHO, 1946, p. 78). rante todo os séculos XVIII e XIX, a região
No fundamental, a trajetória da legislação mais urbanizada e populosa do Brasil. Mais que
municipal no Brasil reflete as vicissitudes gerais isto, os níveis de urbanização e a dinâmica de-
da tensão permanente entre sociedade civil e mográfica de Minas Gerais ressaltam-se num
Estado no Brasil, isto é, a disputa entre tendênci- plano mais geral de comparação com o padrão
as descentralizadoras e centralizadoras que têm urbano-demográfico do conjunto do Novo
marcado nossa história desde a Colônia. Não se Mundo e mesmo do prevalecente na Europa.
veja nos vários momentos dessa disputa qualquer Fernand Braudel apresenta estimativas da
conteúdo consistentemente democrático, à população de cidades norte-americanas, em 1700,

34
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

cujos números são: Boston 7 mil habitantes; Fi- Para 1775, o quadro da população na Nova
ladélfia 4 mil; New Port 2.600; Charleston 1.100 Inglaterra, região que começou a ser coloniza-
e New York 3.900 (BRAUDEL, 1970, p. 407). Para da, no início do século XVII, era o seguinte:
o mesmo período, a população já presente em
TABELA 2
Minas Gerais, menos de uma década depois das
descobertas auríferas, já é de cerca de 30 mil pes- População das principais cidades
da Nova Inglaterra - 1775
soas, e crescerá sistematicamente durante todo o
século XVIII. Veja-se a tabela 1: CIDADE POPULAÇÃO
Boston 16.000
TABELA 1 Philadelphia 40.000
População em Minas Gerais New Port 11.000
Charleston 12.000
ANOS POPULAÇÃO
New York 25.000
1751 223.686
TOTAL 104.000
1776 319.739
FONTE – BRUCHEY, S.D., p. 28.
1786 326.285
1806 406.915 Para 1776 tem-se o seguinte quadro da
1813 480.000 população em Minas Gerais:
1821 800.000
TABELA 3
1833 900.700
População em
1854 1.081.909 Minas Gerais (comarcas) – 1776
1873 2.151.725
CIDADE POPULAÇÃO
1888 3.040.627 Vila Rica 78.618
1900 3.594.471 Rio das Mortes 82.781
1920 5.934.613 Sabará 99.576
1928 7.308.853 Serro do Frio 58.794
TOTAL 319.769
FONTE – ANNUÁRIO DEMOGRAPHICO DE MINAS GERAES,
Anno 1, 1928, Bello Horizonte, Imprensa Official. FONTE – MAXWELL, 1978, p. 300.

35
São números expressivos que confirmam Hamilton, e cujo centro era a defesa do grande
o fato sabido da relativamente pequena urbani- capital, da urbanização e de aceleração da moder-
zação estadunidense, quando comparado à da nização capitalista (FICHOU, 1990).
América Ibérica, pelo menos até a guerra civil. Não existem levantamentos sistemáticos
A taxa de urbanização dos USA passa de 5,1% sobre a distribuição espacial e ocupacional da
em 1790, para 7,2% em 1820, para 15,3% em população em Minas Gerais durante o século
1850 e 28,2% em 1880, só em 1910, a popula- XVIII que permitam quantificar rigorosamente
ção urbana americana (59,6%) superará a po- a estrutura urbana da região. Contudo, há indíci-
pulação rural (BOLTSHAUSER, 1959, p. 90). os e evidências variados, que apontam na direção
Esse modelo de concentração rural da popu- de um singular processo de urbanização nas Mi-
lação corresponde a um longo processo histórico nas Gerais, sem paralelo na colônia brasileira. Um
em que disputaram a hegemonia político-econô- sintoma disto, além do já citado rápido
mica e cultural nos Estados Unidos, de um lado, crescimento demográfico da região, é a marcha
uma perspectiva sintetizada por Jefferson, que vertiginosa de ereção de vilas em Minas Gerais, o
defendia uma sociedade baseada na pequena que determinará, em poucos anos, a virtual ocu-
propriedade rural, com forte inspiração rousse- pação do território em todos seus quadrantes.
niana, e, de outro lado, a perspectiva, que acabou Veja-se o quadro 1 sobre a ereção de vilas em
por prevalecer, identificada com o programa de Minas Gerais no período colonial.
QUADRO 1
Cronologia da criação de vilas em Minas Gerais
ANO LOCAIS ANO LOCAIS
1711 Vila Leal de Nossa Senhora do Carmo 1715 Vila Nova do Infante (Pitangui)
(Mariana) 1718 Vila de São José del-Rei (Tiradentes)
Vila Rica (Ouro Preto) 1730 Vila de Nossa Senhora do Bom Sucesso
Vila Real de Sabará das Minas do Fanado (Minas Novas)
1712 Vila de São João del-Rei 1734 Demarcação do Distrito Diamantino
1714 Vila do Príncipe (Serro) 1745 Elevação de Mariana à cidade
Vila Nova da Rainha do Caeté do Mato 1789 Vila de São Bento do Tamanduá (Itapeci-
Dentro (Caeté) rica)

36
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

QUADRO 1
Cronologia da criação de vilas em Minas Gerais (continuação)
ANO LOCAIS ANO LOCAIS
1790 Vila Real de Queluz (Conselheiro Lafaiete) 1814 Vila de São Carlos do Jacuí (Jacuí)
1791 Vila de Barbacena Vila de Santa Maria do Baependi
1798 Vila da Campanha da Princesa da Beira
(Campanha)
Vila de Paracatu do Príncipe (Paracatu)
FONTE – JANCSÓ (org.), 1994.

É digno de registro o fato desta considerá- (IGLÉSIAS, 1974). Até então, a presença do Esta-
vel expansão urbana, em Minas Gerais, não ter do no Brasil era rarefeita e pontual. A desco-
conhecido senão uma localidade com o título de berta do ouro e a expansão econômica, social,
cidade. Na verdade, essa sonegação do “status” política e demográfica daí decorrentes determi-
de cidade àqueles dinâmicos núcleos urbanos narão, tanto a rápida expansão urbana quanto a
mineiros foi expressão de política geral que o efetiva imposição do Estado no Brasil, definin-
poder metropolitano tentou praticar em Minas do assim um dos traços centrais do pioneiris-
Gerais, tida, desde o Conde Assumar (1716-20), mo da modernidade mineira.
como “terra de tumultos e motins, tumba da paz”. Trata-se, assim, de buscar entender as de-
Assim, ao discriminar Minas, impedindo-a de ter terminações decorrentes da estrutura e dinâmi-
cidades, buscava-se maior controle da região já ca da economia mineira, no período colonial,
que entre outras restrições os habitantes de vilas isto é, como determinadas estruturas de pro-
estavam proibidos de usar a pistola, a faca de priedade produtivas, de distribuição de renda, e
ponta e o punhal (ZENHA, 1948, p. 102), que eram padrão monetário determinaram-propiciaram-
privilégios apenas dos moradores de cidades. consolidaram um processo complexo e multi-
É este mesmo caráter turbulento e a rápi- facetado, de que são expressões a imposição do
da expansão da produção mineral, que deter- Estado, a consolidação de rede urbana, a diver-
minarão a efetiva imposição do Estado em sificação de estrutura social, ocupacional, polí-
Minas Gerais, como o disse Francisco Iglésias tica e cultural em Minas Gerais.

37
Especificidades da urbano em Minas Gerais, singular nos quadros
estrutura urbana mineira da trajetória histórica brasileira.
Atente-se, em primeiro lugar, para a pró-
Os que lidam com os estudos históricos
pria multiplicação de núcleos urbanos. Minas
sabem que precisam evitar vários perigos e mo-
Gerais como capitania, como província, como
dismos, que, sobretudo, precisam evitar o mal
Estado, terá sempre o maior numero de unida-
maior do anacronismo. No caso de um estudo
des urbanas do Brasil.
sobre estrutura urbana, trata-se de ter em con-
ta a variabilidade histórica e espacial do “con-
ceito”, “forma”, “imagem” e “significado” TABELA 4
material e simbólico da “realidade” da cidade. Vilas/Cidades em Minas Gerais
Isto é particularmente notável se se comparar Século XVIII – Século XX
a realidade urbana de algumas das maiores ci-
dades contemporâneas e o que prevalecia no ANOS NÚCLEOS ANOS NÚCLEOS
início do século XVIII. Em 1690, Tóquio 1711 3 1868 65
(Yedo) tinha 500 fogos; Nova York, em 1700, 1789 11 1890 117
3900 habitantes; a taxa de urbanização da Fran-
1814 17 1920 178
ça era de 15%, no final do século XVIII; mes-
1823 20 1924 212
mo a Inglaterra, neste mesmo final do século
XVIII, não tinha a maioria de sua população FONTE – Anuário Demográfico de Minas Gerais, 1928.

em cidades (BRAUDEL, 1970).


De qualquer modo, o fenômeno urbano Na tabela anterior, foram consideradas ape-
tem uma continuidade básica, que é a decorren- nas antigas vilas e cidades do período colonial,
te dos efeitos cumulativos propiciados pela as vilas e cidades do período provincial, e os
combinação dos diversos processos interativos municípios do período republicano, isto é, não
típicos da vida urbana. Assim, é legítimo falar- foram considerados os distritos que eram 106
se de uma vocação urbana em Minas Gerais, em 1823, 305 em 1868, 536 em 1890, 787 em
em que pese ser esta trajetória entrecortada por 1920 e 835 em 1924 (Anuário, 1928, p. 24).
diversas diferenças, em variados campos da re- De tal modo é assim que, já em 1858, Mi-
alidade urbana. Trata-se, enfim, de reconhecer nas Gerais contava com 20 comarcas, 58 muni-
a existência de uma história densa do fenômeno cípios, 268 paróquias e 454 distritos. Uma

38
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

distribuição regional destas comarcas encontra- a tabela 5 que apresenta os municípios mineiros
se no quadro 2: em 1858.
QUADRO 2 Minas Gerais é múltipla, dizem todos que
Distribuição Regional das a estudam. Diversidade física – a mata e o cam-
Comarcas Mineiras – 1858 po, a montanha e as planícies abertas, o sertão.
Diversidade ecológica e econômica – a pecuária
REGIÕES CIDADES sertaneja é a mais desenvolvida do Sul. A agri-
Centro Ouro Preto, Rio das Velhas,
cultura e a manufatura, as minas do ouro e dos
Piracicaba, Rio das Mortes diamantes. A diversidade social e cultural, o cro-
matismo da estrutura da propriedade, as várias
Norte/Nordeste Serro, Jequitinhonha, Rio
Pardo, Rio São Francisco categorias ocupacionais, a alta cultura – a músi-
ca erudita, a literatura arcádica, a arquitetura
Noroeste Paracatu
barroca – e a cultura popular, as diversas apro-
Triângulo Paranaíba, Paraná
priações das matrizes culturais de indígenas e
Sul Sapucaí, Jaguari, Baependi, africanos, dos colonos europeus pobres.
Rio Verde
Também no campo da estrutura urbana a
Oeste Rio Grande, Indaiá
diversidade será a marca. Se o impulso inicial da
Mata Paraibuna, Pomba, Muriaé urbanização é dado pela mineração, desde o iní-
FONTE – BARBOSA, 1979, 3º vol., p. 570-572. cio este é um processo complexo e múltiplo. A
urbanização em Minas Gerais é fruto da expan-
Deste quadro, dois aspectos devem ser res- são mineratória, que desde as primeiras desco-
saltados: 1) a virtual ocupação e consolidação bertas multiplicou-se – plantaram-se roças,
urbana de todo o território e 2) a diversidade da construíram-se manufaturas, criaram-se animais.
origem desses núcleos urbanos. Se todos nas- De resto, atividade itinerante, centrada na ex-
ceram, de alguma forma, da expansão minera- ploração do ouro aluvional, a mineração terá
tória, a continuidade do processo, seja no século ritmos regionais distintos. Se dura mais o surto
XVIII, seja no XIX, mostrará o surgimento-ex- na região Central, é curto o auge na região Nor-
pansão-diversificação de municípios, regiões in- te, e logo as “Minas Novas” adquirirão o epíte-
terinas sobre o influxo de outras atividades, de to, de “fanadas”; é também resumido no tempo
motivações político-administrativas etc. Veja-se o surto na região do Rio das Mortes e no Sul, o

39
TABELA 5
Municípios Mineiros em 1858

Comarcas Municípios Paróquias Distritos Comarcas Municípios Paróquias Distritos


Ouro Preto Ouro Preto 11 16 Sapucaí Passos 4 5
Queluz 7 13 Jacuí 4 7
Bonfim 5 12 Caldas 5 6
Indaiá Pitangui 3 8 Jaguari Pouso Alegre 6 10
Dores do Indaiá 2 7 Itajubá 4 4
Pará de Minas 4 7 Jaguari 4 5
Rio das Velhas Sabará 9 11 Baependi Baependi 5 6
Curvelo 4 11 Cristina 3 3
Caeté 4 8 Aiuruoca 7 9
Santa Luzia 5 7 Rio Verde Campanha 8 9
Piracicaba Mariana 10 12 Três Pontas 4 5
Santa Bárbara 8 10 Lavras 5 9
Itabira 7 9 Rio Grande Formiga 3 5
Ponte Nova 8 11 Piuí 3 4
Serro Serro 7 9 Tamanduá 4 9
Conceição 5 13 Rio das São João del-Rei 6 15
Diamantina 6 10 Mortes São José del-Rei 5 6
Jequitinhonha Minas Novas 8 9 Oliveira 5 10
Araçuaí 4 6 Paraibuna Barbacena 3 16
Rio Pardo Rio Pardo 2 5 Paraibuna 5 9
Grão Mogol 3 4 Rio Preto 3 4
Rio São Montes Claros 5 7 Pomba Pomba 2 4
Francisco São Romão 1 6 Leopoldina 4 10
Januária 2 5 Mar de Espanha 2 7
Paracatu Paracatu 4 7 Muriaé São Januário do
Paranaíba Araxá 2 7 Ubá 5 7
Patrocínio 2 8 Piranga 5 9
Bagagem 2 4 São Paulo do
Paraná Uberaba 3 4 Muriaé 5 6
Desemboque 2 4
Prata 4 5

FONTE – BARBOSA, 1979, 3o vol., p. 570-572.

40
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

que explica a precoce especialização destas re- “ocupação” do território é processo dos sé-
giões em atividades agropecuárias. culos XVIII e XIX.
Falou-se aqui de espaços regionais – Norte, Mário Leite, em livro de 1961, Paulistas e mi-
Sul. Lembre-se, contudo, que a regionalização con- neiros, relata a marcha da ocupação e do povoa-
creta da capitania, da província mineira não pode mento de Minas Gerais, apontando a cronologia
deixar de considerar que este é um processo e a localização espacial desses feitos, resultando
histórico, ou seja, que não é apenas a geografia disso quadro marcado pela dispersão dos núcle-
que define o que é “região”, “fronteiras regio- os de povoamento pelo território e pela exis-
nais”, “identidade regional”, “regionalismo”, que tência de várias etapas no processo de ereção
a construção destes conceitos é determinada por de povoados, arraiais, vilas e cidades.
processos sócio-político-econômico-culturais. E é, exatamente, esta dispersão espacial –
Trata-se, no fundamental, de acautelar-se defasagem temporal do processo de povoamen-
contra um perigo freqüente que é ver as atuais to, o primeiro e decisivo elemento que determi-
“regiões” mineiras como realidades “naturais”, nará a conformação das “regiões”, a “estruturação
fixas, inamovíveis desde o início da coloniza- de redes” e a hierarquização destes núcleos. De
ção. Na verdade, as “regiões” têm dinâmicas e tal modo que, se o fenômeno tipicamente urba-
trajetórias que refazem, permanentemente, os no marca precocemente a região onde a minera-
fluxos de pessoas, mercadorias e informações, ção será mais forte na capitania (Mariana, Ouro
determinando variados processos de polariza- Preto, Sabará, São João del Rei, São José del Rei,
ção e hierarquização urbana e regional. Caeté, Pitangui, Serro, Diamantina, Minas No-
Nesse sentido, é preciso pensar o pro- vas), a realidade urbana muito tardiamente vai
cesso de urbanização em Minas Gerais, como consolidar-se na Bacia do Mucuri; nos baixos rios
um capítulo de um processo maior de consti- Doce e Jequitinhonha, que são regiões ocupadas
tuição das “regiões” mineiras do ponto de na segunda metade do século XIX.
vista econômico, político e cultural. Assim, De tal sorte que é preciso ver o processo de
se é possível dizer que grande parte da capi- constituição da urbanização em Minas Gerais
tania já tinha sido percorrida, desde o século como processo diversificado e complexo em que,
XVII, e mesmo desde o século XVI, como ao par do influxo inicial dado pela mineração,
mostrou Capistrano de Abreu, em Caminhos somar-se-ão diversos outros determinantes – a
antigos e povoamento do Brasil, (1982), a efetiva agricultura e manufatura conformando, já no

41
século XVIII, os núcleos de Campanha, Baependi, o Vale do Jequitinhonha, o Vale do São Francis-
Jacui, Airuoca; a pecuária e a agricultura determi- co, o Noroeste de Minas e o Triângulo Mineiro,
nando a ocupação e posse do Triângulo Mineiro, destaquem-se os seguintes trabalhos: sobre a
no início do século XIX; o café determinando o Zona da Mata – de Manoel Xavier de Vasconce-
significativo dinamismo, que, a partir da segunda llos Pedrosa – Zona silenciosa da historiografia minei-
metade do século XIX, experimentará a Zona da ra – A Zona da Mata, de 1962; sobre o rio Mucuri
Mata; um explícito projeto de colonização, à luz e o rio Doce – de Frei Jacinto de Palazzolo – Nas
das experiências com imigrantes estrangeiros que Selvas dos Vales do Mucuri e do rio Doce, 1973; sobre
se estavam gestando em São Paulo, que foi a mar- a colonização no Vale do Mucuri, a obra coletiva
ca da ocupação do Mucuri, a partir da Compa- publicada pela Fundação João Pinheiro, em 1993,
nhia do Comércio e Navegação do Mucuri, dos A colonização alemã no Vale do Mucuri; sobre o Vale
irmãos Ottoni, na segunda metade do século XIX. do rio Doce – de Salm de Almeida – Rio Doce,
De tal modo, que a realidade urbana e regi- 1945, e de Ceciliano Abel de Almeida – O desbra-
onal mineira terá vários momentos, cada qual vamento das selvas do rio Doce, 1959; sobre o Vale do
configurado por uma estruturação-hierarquiza- São Francisco – de Geraldo Rocha – O rio São
ção, por um perfil de fluxos e interações. Francisco, de 1940, do Pe. Martinho Nantes – Re-
Assim que, reconstituir a trajetória urbana lação de uma missão no rio São Francisco, 1979, e de
e regional de Minas Gerais é considerar as di- Wilson Lins – O médio São Francisco, de 1960; so-
versas dinâmicas, os diversos espaços-tempo de bre o Norte de Minas, de José Moreira de Souza
um processo de nenhum modo linear. Uma – Cidade: Momentos e Processos – Serro e Diamantina
questão importante aqui é a referente à necessi- na formação do Norte Mineiro no Século XIX, de 1993;
dade de se estabelecer uma diferença entre os sobre o Noroeste de Minas, de Bernardo Mata
processos urbano-regionais gerados pela dinâ- Machado, História do Sertão Noroeste de Minas Ge-
mica mineratória, que no século XVIII consti- rais (1690-1930), de 1991; sobre o Triângulo
tuiram-se nos principais núcleos urbanos da Mineiro, de Eliane Mendonça Marquez de Re-
capitania, e os outros processos de formação zende, Uberaba: uma trajetória Sócio-Econômica (1811-
urbano-regionais em Minas Gerais, que tiveram 1910), de 1991.
nas atividades agro-pastoris as matrizes essen- Essa multiplicação na constituição de
ciais de sua dinâmica. Sobre estas regiões, a Zona “regiões” e de núcleos urbanos tem várias de-
da Mata, o Vale do Mucuri, o Vale de Rio Doce, terminações e conseqüências. De um lado, ela é

42
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

indicador de expansão demográfica, de dinamis- sede do governo da capitania, e única cidade


mo econômico. Um aspecto também decisivo do período colonial mineiro, teve seu núcleo
desta vocação pela construção de identidades central razoavelmente próximo do modelo
regionais e urbanas é o referente à formação de quadriculado.
redes de interação política. Este aspecto, consi- Não se pense que a rápida urbanização
derado pela primeira vez por John Wirth, signifi- mineira é resultado de uma causa única – a ri-
cou a instalação de uma espécie de “um queza produzida na região. Mais rica e por mais
minissistema federal, o que permitiu que os inte- tempo foi a região açucareira, no período colo-
resses regionais fossem balanceados e compen- nial, sem que isso tenha gerado urbanização
sados”... (WIRTH, 1982, p. 67). como a experimentada pela região mineira.
Trata-se, na verdade, de ver na multiplica- A urbanização mineira não foi produto di-
ção urbana e regional o instrumento principal reto e linear da geração de riqueza, mas da forma
para equilibrar, distribuir, compensar, punir li- como esta riqueza foi produzida e distribuída, da
deranças políticas locais e regionais, bases de sus- estrutura da propriedade e da renda, do padrão
tentação de um poder fortemente oligárquico. monetário e mercantil prevalecentes etc.
As especificidades da estrutura urbana Diga-se, então, para começar a responder à
mineira com relação ao prevalecente no con- questão sobre as especificidades da estrutura ur-
junto brasileiro são menos salientes no que bana mineira, que a expansão dos núcleos urba-
diz respeito ao traçado e à geometria de suas nos em Minas Gerais, no período colonial, está
vias e espaços. Sérgio Buarque de Holanda, associada a um conjunto de determinantes recí-
no clássico Raízes do Brasil, estabeleceu dico- procos decorrentes, de um lado, do conteúdo e
tomia básica entre as cidades coloniais por- forma da economia mineratória – a) atividade iti-
tuguesas e espanholas, que aponta para a nerante; b) que exige poucos recursos para sua
improvisação, para o caráter fortuito da estrutu- exploração; c) que não pressupõe concentração
ra urbana criada pelos portugueses vis-à-vis o ri- de propriedade; d) que dá origem a um produ-
gor geométrico, quadriculado, do modelo to, ouro/diamante, que é padrão monetário; e)
urbano espanhol. Neste sentido, os núcleos que dá origem a um produto que tem alto valor;
urbanos mineiros não se distinguem de ou- f) que dá origem a um produto que tem baixo
tros senão a partir de exceções, que reforçam peso facilitando o transporte. De um outro lado,
a tese, como o caso de Mariana que, primeira a atividade mineratória, pelas expectativas que

43
gera de apropriação de renda e riqueza, atraiu quando a produção oficial atingiu em média cer-
populações, cabedais e prestadores de servi- ca de 10 mil quilos ao ano (PINTO, 1979). Se é
ços, atraindo também a atenção do Estado que, número expressivo, se se considerar o quadro
pela primeira vez, instalará na Colônia o prin- da produção aurífera no mundo até então, não
cipal de seu aparato de justiça-polícia-fisco. De tem comparação com o que se segue no século
tal modo que, desde os primeiros descober- XIX com a produção da Califórnia, da Austrá-
tos, a capitania será marcada pela emergência lia e da África do Sul.
de diversas atividades produtivas, pela rápida
Assim, grande parte da historiografia so-
ocupação do território, pela consolidação de
bre Minas Gerais passou a ter como tema pri-
diversas interações sociais e regionais, confi-
vilegiado a busca da explicação da decadência
gurando um verdadeiro espaço econômico com
diferentes graus de integração. mineira após o “século do ouro”. Recentemen-
te, houve argumentação nova sobre o tema que,
São esses elementos combinados que es-
partindo de uma crítica à tese de que teria havi-
tão na base da expansão urbana mineira. A
do regressão econômica após o ciclo minera-
multiplicação dos núcleos urbanos e o aumen-
dor, mostrou a existência de um dinamismo
to da complexidade e densidade das relações
econômicas, políticas, sociais e culturais que econômico insuspeitado, porque “silencioso”,
ocorrem são resultados da implantação e expan- que explicaria a continuidade das importações
são de uma economia que implica na diversifi- de escravos num século XIX, o qual teria sido,
cação e intensificação de sistemas típicos da para a tese consagrada, só decadência e estag-
modernidade: o Estado (a burocracia civil e nação (MARTINS, 1982).
militar), a divisão do trabalho, a empresa mo- No que interessa discutir aqui, trata-se de
derna, a expansão e diversificação dos serviços. reconhecer que a dinâmica da urbanização em
Diga-se, então, que mais do que abrigar Minas Gerais, nos séculos XVIII e XIX, não
fábricas, o que caracteriza a cidade é se consti- pode ser lida como uma simples e linear conse-
tuir sede de atividades diversificadas de servi- qüência da produção aurífera. Esta, por si só,
ços. É isto, o ter atraído e consolidado uma trama não explicaria a qualidade e complexidade da-
de atividades de serviços que distingue Minas quele processo. Mesmo a tese de Slenes, que
no Brasil colonial. busca mostrar a importância da economia dia-
Contudo, todos o sabem, a atividade mi- mantina no século XIX, não explica o que é
neratória de ouro teve auge curto (25 a 30 anos), preciso (SLENES, 1985). E o que é preciso, na

44
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

perspectiva que informa este trabalho, é: 1) de Também importante é registrar que, a par-
um lado, reconhecer a existência, em vários tir de 1713, com a instalação da primeira olaria
sentidos, de manifestações típicas da moderni- em Mariana, há melhoria do material construti-
dade em Minas Gerais desde o século XVIII e vo, num processo que será incrementado so-
2) de outro lado, explicar as vicissitudes e limi- bretudo na segunda metade do século XVIII
tes que impediram que esta mesma moderni- (FRANCO, 1971).
dade, aqui, fosse instrumento da ampliação de A presença de 18 chafarizes e 10 pontes
direitos sociais, de desenvolvimento econômi- em Ouro Preto, construídos durante o século
co e democratização política. XVIII, dão conta da preocupação com o abas-
Os sinais da modernidade espalham-se con- tecimento de água, e com aspectos da higiene
traditórios e ambíguos pela terra mineira. Todos pública e pessoal, que são dignos de registro,
os estudiosos do tema surpreendem-se com a sobretudo pelo que destoam do panorama co-
qualidade da civilização urbana que se estabelece lonial brasileiro (BANDEIRA, 1963).
em Minas Gerais, no século XVIII. Trata-se de Indicadores expressivos da qualidade e den-
processo mais amplo e denso que a simples aglo- sidade da vida urbana é a presença de profissio-
meração demográfica. É processo de enriqueci- nais prestadores de serviços em atividades
mento dos padrões construtivos, da ampliação artísticas. Neste particular, a capitania de Minas
de serviços e equipamentos urbanos, de incre- apresenta quadro que não tem rival na Colônia:
mento da sociabilidade e das relações simbólicas. o número de músicos profissionais existentes
Em primeiro lugar, registre-se o engenho das na capitania excedia o existente no conjunto do
soluções construtivas baseadas na tríade pedra Reino, como o disse Teixeira Coelho, em 1780
sabão-madeira-alvenaria, de que são exemplos (FRIEIRO, 1957, p. 250). Também expressiva é a
conspícuos, tanto certas construções civis (caso constatação da existência de corpo médico na
da Câmara e Cadeia, Palácio dos Governadores e capitania, que era dos mais atualizados do país
Casa dos Contos em Ouro Preto) quanto um (NETTO, 1965).
número significativo de edificações religiosas Tem-se, assim, quadro urbano marcado
(abundantemente representadas em todo o terri- pela qualidade do padrão construtivo, pela exis-
tório). A qualidade técnico-artística destas edifi- tência de equipamentos urbanos e, sobretudo,
cações se pode inferir pela quantidade e qualidade pela diversidade e qualidade das manifestações
de mestres e artesãos que povoaram a região mi- artísticas e profissionais típicas das civilizações
neradora durante o século XVIII (BOSCHI, 1988). urbanas – a música, o teatro (a Casa da Ópera

45
de Ouro Preto é de 1769), a escultura, a pintu- A civilização urbana de Minas Gerais no
ra, a literatura, as práticas médicas, os ofícios século XVIII é a manifestação concreta, exem-
jurídicos etc. plar da natureza e limite do sistema colonial tal
Uma paisagem cultural, uma civilização como praticado no Brasil: a Colônia rica na gera-
urbana, a cultura barroca tal como aclimatada ção de excedentes que são carreados para o exte-
pelo gênio e pelas circunstâncias das gentes da rior, deixando no lugar a estagnação, a pobreza e
terra. Um Barroco que, em lugar de ser a ex- o brilho mortiço do antigo fausto (SOUZA, 1982).
pressão dos interesses do Absolutismo e da O fundamental a se reter aqui é que o ma-
Contra-Reforma, foi, nas Minas Gerais, expres- ravilhoso da civilização urbana, que se manifes-
são da liberdade criativa (MACHADO, 1973). tou em Minas Gerais no século XVIII, não é
Em seu belo livro, Angel Rama (1985) fala fenômeno estranho nem à teoria, nem à histó-
das cidades latino-americanas, da cidade como ria das cidades.
síntese da nossa cultura, resultado da interação Werner Sombart, mostra o quanto as cida-
entre os interesses e ações do colonizador e do des são resultado de concentrações, num deter-
colonizado desde a conquista até os nossos dias. minado espaço de uma camada de consumidores.
No centro das várias modalidades de cidade, que Uma cidade nasce da concentração de consumi-
se foram construindo na América Latina desde dores, que exigirão, para satisfazer seus interes-
o período colonial, está a mesma marca barroca ses e demandas, a ampliação do fornecimento
– a exigência ordenadora, a cidade contra a bar- de variados serviços. Tanto Cantillon quanto
bárie do campo, a cidade marcada pelos signos, Quesnay definiram, no século XVIII, as cida-
como controle do imaginário, como hierarquia, des como resultados da concentração de rique-
cidade controlada. zas, como espaços formados pelo luxo, pelo
Todos esses aspectos encontram-se particu- consumo conspícuo, pelos prazeres (SOMBART,
larmente sublinhados na paisagem urbana de 1965, p. 52-53).
Minas Gerais do século XVIII. A arquitetura e o Trata-se, assim, de afirmação que consolida
traçado são instrumentos pedagógicos. Toda a o fundamental da trajetória da civilização urbana
criatividade dos artistas mineiros é instrumento de Minas Gerais no século XVIII. Os núcleos
para a maior glória das Irmandades e estas são urbanos nascem da expansão do ouro, mas, so-
as formas possíveis tanto da sociabilidade quan- bretudo, da concentração de uma burocracia ci-
to do controle ideológico (BOSCHI, 1986). vil e militar, de uma plutocracia de contratadores,

46
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

da capacidade de gerar serviços – religiosos, ju- preservá-la no tempo. Eis aqui o papel da transfe-
rência da renda colonial para a metrópole: o surgi-
rídicos, comerciais, artísticos etc.
mento e manutenção de uma estrutura parasitária,
Os limites desse processo – que de um lado consubstanciada em elementos como a hipertro-
são em vários aspectos similares, nos termos fia do Estado e a hegemonia do fidalgo-merca-
dor e de sua contrapartida, o mercador-fidalgo.
em que isto é possível na Colônia, aos da mo- (FRAGOSO E FLORENTINO, 1996, p. 26)
dernidade vitoriosa no Ocidente, e, de outro
lado, são reafirmação do “arcaismo como pro- Há na análise anterior inquestionável luci-
jeto”, como disseram Fragoso e Florentino dez. Contudo, ainda assim, é perspectiva que
(1996) – foram apontados por vários autores merece reparo porque desconsidera o contradi-
antes. Marx, no capítulo XX, do livro III de O tório do processo da vivência da modernidade
Capital, mostra o declínio das antigas e pionei- em Minas Gerais.
ras potências mercantis (Veneza, Gênova, Por- Trata-se, nesse sentido, de apontar para
tugal, Espanha, Holanda). Fernand Braudel, em vários aspectos da forma como a modernidade
seu clássico Mediterrâneo, mostra o anacronismo foi transplantada e apropriada em Minas Gerais
da expansão espanhola do século XVI, com e que, em alguma medida, foram mais que sim-
Carlos V e Filipe II, que, num paradoxo formi- ples correias de transmissão do projeto metro-
dável, constituiu-se numa espécie de poderosa, politano. É possível ver isso, claramente, no
irreversível, avassaladora corrida para o passa- campo cultural, quando se considera o sentido
do: o restabelecimento do velho Império Ro- “nacional-popular” que o Barroco assumiu aqui.
mano-Germânico, a reunificação cristã, num É possível ver isso nas próprias ambigüidades
momento em que o capitalismo se instala, que a do projeto da Conjuração Mineira, quando houve
fragmentação religiosa se amplia. quem (Alvarenga Peixoto) defendesse a abolição
Nesse sentido, trata-se de reconhecer, que da escravidão como requisito para o sucesso do
toda a modernidade mineira tinha um decisivo movimento. É possível ver isso, finalmente, na
travamento: seu compromisso com o passado. própria “consolidação de uma estrutura urbana
Nas palavras de Fragoso e Florentino: cuja única e verdadeira riqueza era sua capacida-
de de atender à demanda por serviços”: os mui-
Como resposta feudal à grande crise por que
tos artesãos, artistas, oficiais e mestres, músicos
passava a economia e sociedade portuguesas, a
Expansão Marítima e a ulterior colonização e padres, advogados e cirurgiões, atores e profes-
modificaram a antiga sociedade lusitana para sores que povoaram as Minas Gerais.

47
É, enfim, essa concentração de serviços, se trata mais da Colônia no contexto da acumu-
essa insubstituível rede de atendimento de ne- lação primitiva. Agora é a vez do domínio do
cessidades de sociedades complexas, o grande grande capital inglês numa etapa de consolida-
aspecto a qualificar Minas Gerais no contexto ção imperialista.
colonial, a explicação decisiva para a complexa É no horizonte dessas complexas relações,
rede urbana criada. em que a colônia e o império brasileiro são su-
Mas, a modernidade mineira, se tem raízes jeitos parciais e objetos absolutos da domina-
no século XVIII, não se restringe a este período. ção externa, que é preciso considerar os limites
Durante o século XIX e parte do século XX, da trajetória da modernidade mineira.
Minas Gerais continuará a ter a maior população
De resto, trata-se de acompanhar as vicissi-
do Brasil. Se desaparece o brilho do ouro de alu-
tudes de um processo que tem sido marcado,
vião, continua a exploração do diamante e de-
sobretudo, pelo descompasso entre as idéias e as
senvolve-se a mineração subterrânea. Expande-se
atitudes, entre as formas e o conteúdo material
a produção agrícola e manufatureira, desde o sé-
das instituições, entre o universalismo do discur-
culo XVIII, como diz Sérgio Buarque de Holan-
da (HOLANDA, 1960, p. 293-295). so e as práticas particularistas, entre a concentra-
ção absoluta de privilégios, de renda, riqueza,
O que explica a expansão da estrutura ur-
poder e informação e a interdição de direitos so-
bana mineira, o que explica a sua hierarquiza-
ciais para a maioria, marginalizada de todos os
ção, o que explica a capacidade de atrair renda,
frutos da modernidade e da democracia.
cabedais, mercadorias e gentes às cidades mi-
neiras, é menos o ouro, que logo se esvaiu, e Indicadores da urbanização mineira
mais a própria qualidade e quantidade dos ser-
viços urbanos oferecidos por estas cidades. Tudo o que foi dito até aqui buscou subli-
Por outro lado, estas cidades, a economia nhar a singularidade da realidade urbana minei-
que engendram, as relações que ampliam, não têm ra desde o período colonial. Em que pese a
autonomia absoluta, estão condicionadas pelo ausência de levantamentos estatísticos exausti-
manto geral das relações de subordinação ao ca- vos e sistemáticos, ainda assim é possível lan-
pital mercantil metropolitano no período colo- çar-se mão de registros e presenças que são
nial. No período imperial, a dominação mudará inegáveis no detectar a qualidade e quantidade
de titularidade e inserção no quadro global. Não da trajetória urbana de Minas Gerais.

48
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

São vários os registros, as marcas que per- absoluto capazes de inverter o que se sabe so-
mitem aferir a densidade da experiência urbana bre o caráter precário da vida na província, dão
mineira. Há, além do próprio inventário da mar- quadro dos limites deste mesmo processo de
cha da ereção de vilas e do crescimento demo- urbanização no contexto de uma sociedade es-
gráfico, as inovações políticas, administrativas cravista, dependente e excludente.
trazidas com a efetiva imposição do Estado; há Tome-se, em primeiro lugar, o referente à
a própria ampliação da estrutura judiciária que Instrução Pública. Os números levantados por
terá em Minas Gerais quatro comarcas durante Maria do Carmo Salazar Martins mostram que
o período colonial. houve preocupação por parte do governo pro-
Ainda durante esse período, registre-se a vincial com a instrução pública, que esteve sem-
importância decisiva de irmandades religiosas, pre entre as prioridades orçamentárias da
que foram numerosas em Minas Gerais, e que província, mas que isto não foi suficiente para
são, talvez, as mais importantes instituições da alterar o quadro de analfabetismo na região, que
sociedade civil de então, isto é, os únicos espa- se manteve alto durante todo o período.
ços capazes de garantir algum grau de organiza-
Dá conta disto a fala do presidente da Pro-
ção autônoma, de busca de defesa de interesses
víncia, João Capistrano Bandeira de Melo, em 1877,
coletivos etc.
citado por Maria do Carmo Salazar Martins:
São também indicadores importantes do
processo de urbanização em Minas Gerais, as A população livre em idade de freqüentar as es-
colas é de 233.468, 1/7 de 1.668.276 que é a
evidências de uma diversificada estrutura ocu- população livre da província, segundo o relató-
pacional urbana que teria marcado tanto a reali- rio do diretor geral da estatística do império;
dade da capitania quanto da província mineira. destas só estão matriculados nas escolas públi-
Agregue-se a isso as atividades tipicamente ar- cas 27.104, o que importa dizer que 211.304 cri-
anças não penetram o limiar da escola. E dado
tístico-culturais (pintura, escultura, música, tea- que o ensino particular tenha tantos alunos como
tro, literatura), que foram praticadas em Minas o público, ainda assim o número de analfabetos
Gerais de forma a configurar um verdadeiro sis- eleva-se ao algarismo de 184.260, mais do triplo
tema cultural. da população matriculada nas aulas públicas e
particulares. (MARTINS, S.D., p. 15)
Para o século XIX, é possível encontrar
informações quantitativas sobre a realidade As tabelas 6 e 7 reportam informações so-
urbana de Minas Gerais que, se não são em bre a instituição pública em Minas Gerais.

49
TABELA 6
Orçamento provincial e orçamento com instrução pública em Minas Gerais – 1834-1889

ANOS ORÇAMENTO ORÇAMENTO PARA % PRIORIDADE


PROVINCIAL TOTAL INSTRUÇÃO PÚBLICA ORÇAMENTÁRIA
1834 35:099$867 13:897$398 39,6 1ª
1835 269:889$200 54:719$200 20,3 2ª
1836 305:579$928 58:249$200 19,1 2ª
1837 360:870$166 79:449$200 22,0 1ª
1838 364:177$254 80:219$200 22,0 1ª
1839 393:056$974 93:900$000 23,9 1ª
1840 444:027$424 96:290$000 21,7 1ª
1841 430:725$374 104:542$000 24,3 1ª
1842 414:819$573 95:646$000 23,1 1ª
1843 445:054$000 90:196$000 20,3 2ª
1844 454:196$468 76:306$000 16,8 4ª
1845 402:793$468 76:956$000 19,1 2ª
1846 449:355$261 83:960$000 18,7 3ª
1847 423:525$232 81:590$000 19,3 2ª
1848 459:143$028 94:990$000 20,7 2ª
1849 – – – –
1850 474:908$332 94:200$000 19,8 2ª
1851 480:209$680 92:000$000 19,2 3ª
1852 462:906$666 92:000$000 19,9 2ª
1853 625:190$000 93:600$000 15,0 3ª
1854 795:285$486 153:271$000 19,3 2ª
1855 783:667$109 150:000$000 19,1 2ª
1856 890:637$658 172:440$000 19,4 2ª
1857 933:295$800 190:000$000 20,4 1ª
1858 1,151:711$943 204:000$000 17,7 3ª
1859 1,110:976$672 201:600$000 18,1 2ª
1860 1,347:722$780 320:244$000 23,8 1ª
1861 1,349:979$452 287:299$999 21,3 1ª

50
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

ANOS ORÇAMENTO ORÇAMENTO PARA % PRIORIDADE


PROVINCIAL TOTAL INSTRUÇÃO PÚBLICA ORÇAMENTÁRIA
1862 1,339:507$137 270:400$000 20,2 3ª
1863 – – – –
1864 1,339:035$506 273:400$000 20,4 2ª
1865 1,334:363$812 245:800$000 18,4 2ª
1866 1,386:547$426 283:700$000 20,5 2ª
1867 1,328:745$194 313:450$000 23,6 1ª
1868 1,329:036$032 312:580$000 23,5 1ª
1869 1,412:942$883 335:380$000 23,7 1ª
1870 1,684:931$789 311:700$000 18,5 2ª
1871 1,865:303$807 411:840$000 22,1 2ª
1872 2,096:438$249 565:530$000 27,0 1ª
1873 2,177:910$643 601:600$000 27,6 1ª
1874 2,137:459$609 554:300$000 25,9 1ª
1875 2,222:880$000 570:340$000 25,7 1ª
1876 2,572:829$000 646:794$000 25,1 1ª
1877 2,610:916$360 682:155$000 26,1 1ª
1878 2,631:006$400 708:083$000 26,9 1ª
1879 2,760:369$974 782:900$000 28,4 1ª
1880 2,708:923$050 760:340$000 28,1 1ª
1881 2,876:198$854 875:900$000 30,5 1ª
1882 3,048:940$000 894:073$333 29,3 1ª
1883 – 967:753$333 – 1ª
1884 3,290:600$000 1,026:523$333 31,2 1ª
1885 – – – –
1886 3,410:200$000 1,035:030$000 30,4 1ª
1887 3,474:000$000 1,031:295$000 29,7 1ª
1888 3,697:500$000 1,036:555$000 28,0 1ª
1889 3,947:967$800 1,062:935$000 26,9 1ª

FONTE – Coleção das Leis da Assembléia Legislativa da Província de Minas Gerais. Anos 1835 a 1889; MARTINS, Maria do Carmo Salazar, Estudo
Introdutório sobre Instrução Pública na Província de Minas Gerais, mimeo, CEDEPLAR/UFMG, Belo Horizonte, s.d.

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TABELA 7
Instrução Pública em Minas Gerais – 1840-1877

ANOS ESCOLAS ESCOLAS ESCOLAS ALUNOS ALUNOS ALUNOS


EXISTENTES PROVIDAS (*) VAGAS MATRICULADOS FREQÜENTES PRONTOS
1840 180 141 39 8000(**) 6494 –
1841 184 134 50 9000(**) 7013 –
1842 184 116 68 – 7002 –
1844 184 90 94 – 5810 –
1845 179 78 101 – 5260 –
1848 137 83 54 6000(**) 5321 –
1855 276 – – 14857 14857 –
1859 385 301 84 16600 12808 –
1862 367 283 84 12918 7083 1678
1868 372 296 76 14083 8648 607
1869 385 314 71 13428 6778 550
1870 414 344 70 14667 8365 454
1871 470 279 191 15620 9615 –
1872 558 327 231 18450 10008 864
1873 633 503 130 21182 11475 825
1874 651 484 167 20706 11330 970
1875 705 517 188 23319 12793 1921
1876 768 616 152 27104 15400 1502
1877 829 620 209 26074 14500 1281
(*) Escolas providas significam aquelas escolas que tinham um professor efetivo ou vitalício encarregado de ensinar as crianças de 7 a 12 anos. Geralmente cada
escola tinha apenas um professor.
(**) Estes números são estimativas feitas pelos presidentes da província.
FONTE – Os dados desta tabela foram coletados nos relatórios dos presidentes da província dos respectivos anos, parte referente à instrução
pública. Para os anos de 1868 a 1877, foi copiada a tabela apresentada no Relatório de 1879; MARTINS, Maria do Carmo Salazar –
Estudo Introdutório, op. cit.

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Um outro campo em que é possível acom- Carmo Salazar Martins mostra que houve esforço
panhar a evolução do gasto público com um item do governo provincial e que o orçamento com
que tem uma implicação urbana direta é o refe- obras públicas esteve quase sempre bem repre-
rente às obras públicas. Também, aqui, Maria do sentado no conjunto do orçamento provincial.

TABELA 8
Orçamento provincial e orçamento com obras pública
Minas Gerais – 1834-1889

Anos Orçamento Orçamento para % Anos Orçamento Orçamento para %


provincial total obras públicas provincial total obras públicas
1834 35:099$867 9:700$000 27,6 1853 625:190$000 112:472$000 18,0
1835 269:889$200 39:170$000 14,5 1854 795:285$486 161:300$000 20,3
1836 305:579$928 25:000$000 0,8 1855 783:667$109 152:472$000 19,5
1837 360:870$166 40:000$000 11,1 1856 890:637$658 180:000$000 20,2
1838 364:177$254 50:800$000 13,9 1857 933:295$800 184:400$000 19,8
1839 393:056$974 50:800$000 12,9 1858 1.151:711$943 296:892$755 25,8
1840 444:027$424 51:200$000 11,5 1859 1.110:976$672 280:000$000 25,2
1841 430:725$374 61:600$000 14,3 1860 1.347:722$780 280:000$000 20,8
1842 414:819$573 77:200$000 18,6 1861 1.349:979$452 280:000$000 20,7
1843 445:054$000 78:100$000 17,5 1862 1.399:507$137 351:820$000 25,1
1844 454:196$468 78:000$000 17,2 1863 – – –
1845 402:793$468 63:540$000 15,8 1864 1.339:035$506 179:103$426 13,4
1846 449:355$261 66:940$000 14,9 1865 1.386:547$426 272:200$000 19,6
1847 423:525$232 64:040$000 15,1 1866 1.190:287$568 152:000$000 12,8
1848 459:143$028 62:040$000 13,5 1867 1.328:745$194 178:948$689 13,5
1849 – – – 1868 1.329:036$032 261:165$280 19,7
1850 474:908$332 62:040$000 13,1 1869 1.412:942$883 264:665$280 18,7
1851 480:209$680 112:200$000 23,4 1870 1.684:931$789 306:265$280 18,2
1852 462:906$666 80:000$000 17,3 1871 1.865:303$807 303:985$287 16,3

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TABELA 8
Orçamento provincial e orçamento com obras pública
Minas Gerais – 1834-1889 (continuação)

Anos Orçamento Orçamento para % Anos Orçamento Orçamento para %


provincial total obras públicas provincial total obras públicas
1872 2.096:438$249 273:171$331 13,0 1881 2.876:198$854 406:353$040 14,1
1873 2.177:910$643 330:425$640 15,2 1882 3.048:940$000 349:186$724 11,5
1874 2.137:459$609 219:030$000 10,2 1883 – – –
1875 2.222:880$000 293:233$683 13,2 1884 3.290:600$000 250:508$525 7,6
1876 2.572:829$000 338:930$000 13,2 1885 – – –
1877 2.610:916$360 427:880$000 16,4 1886 3.410:200$000 364:815$420 10,7
1878 2.631:006$400 416:380$000 15,8 1887 3.474:000$000 347:217$313 10,0
1879 2.760:369$974 433:900$000 15,7 1888 3.697:500$000 504:375$716 13,6
1880 2.708:923$050 408:900$000 15,1 1889 3.947:967$800 510:099$716 12,9

FONTE – MARTINS, Maria do Carmo Salazar. A repartição de obras públicas na província de Minas Gerais. Mimeo, CEDEPLAR/UFMG, Belo
Horizonte, S.D.

É preciso considerar que nem sempre este consolidação da burguesia fluminense. Diz ele –
orçamento foi executado integralmente, eviden- “Efetivamente, no regime monárquico forjou-se
ciando, assim, mais a intenção do governo pro- no Rio de Janeiro – capital política, econômica e
vincial que sua prática efetiva. cultural do país – um padrão de comportamento
A vinda da Corte Portuguesa para o Brasil que molda o país pelo século XIX afora e o século
terá fortes conseqüências sobre a Colônia como XX adentro” (ALENCASTRO, 1997, p. 23).
se sabe. No campo da vida urbana, a grande trans- Capital da Colônia, desde 1763, do Im-
formação decorrente foi a expansão e consolida- pério desde 1822, da República desde 1889, o
ção, no século XIX, do Rio de Janeiro como grande Rio de Janeiro foi durante o século XIX a mais
centro urbano do país. Luís Felipe de Alencastro, populosa, urbanizada e moderna das cidades
em texto recente, dá notícia circunstanciada da brasileiras. A hegemonia de São Paulo será

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

fato das primeiras décadas do século XX. XIX, permite avaliar características do avanço
Comparações, ainda mais quando não são da modernidade nas duas províncias.
rigorosamente contextualizadas, são sempre Veja-se o referente às ferrovias, que é indi-
problemáticas. Contudo, com os cuidados de- cador expressivo do dinamismo econômico e
vidos, certas comparações podem ser indicado- modernidade, e ter-se-á quadro que mostra Mi-
res de tendências gerais expressivas. Comparar nas Gerais e São Paulo na liderança da expan-
São Paulo e Minas Gerais, no final do século são ferroviária do Brasil.

TABELA 9
Ferrovias brasileiras no final do século XIX
PROVÍNCIAS ESTRADAS DE FERRO DATA DE INÍCIO MÉDIA DA
EM TRÂNSITO (KM) DAS CONSTRUÇÕES PROGRESSÃO ANUAL
Minas Gerais 4.496.795 1869 109,6
Corte 173.633 1858 3,3
Bahia 1.391.574 1860 28,5
Rio de Janeiro 2.422.185 1854 43,2
São Paulo 4.724.000 1867 109,8
Rio Grande do Sul 1.962.408 1882 70,0

FONTE – PIRES, 1997, p. 145.

Uma comparação entre a capital de São e se tornar a grande matriz da transformação


Paulo e a capital de Minas Gerais, no final do econômica do Brasil.
século XIX, permite avaliar o considerável Compare-se então Ouro Preto e São Paulo
grau de urbanização e modernidade, que a a partir de dados do Almanack da Província de
principal cidade mineira manteve, mesmo no São Paulo, 1873, (1985) e do Almanack do Mu-
contexto de uma economia sem qualquer di- nicípio de Ouro Preto, 1890, (1990) a partir de
namismo especial, vis-à-vis uma cidade mais alguns indicadores de urbanização e moderni-
antiga, capital de uma província poderosa, que dade, fazendo-se os descontos devidos à defa-
já estava prestes a liderar a expansão cafeeira sagem temporal dos dados.

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TABELA 10
Urbanização e modernidade: São Paulo e Ouro Preto / 1873-1890

São Paulo/1873 Ouro Preto/1890


N de advogados
o
28 35
N de médicos
o
12 15
N de professores particulares
o
18 34

FONTE – Almanack da Província de São Paulo..., (1985) e Almanack do Município de Ouro Preto...
(1990).

Estes sinais de modernidade, a presença de exibiu, quando o fez, apenas o seu lado superfi-
instituições e de certa vocação para o moderno cial e decorativo, aliando-se, de outro lado, com
que marcam a trajetória de Minas Gerais; a pre- o mais conservador e arcaico das velhas estru-
coce estrutura urbana; a imposição do Estado; turas oligárquicas que dominavam e ainda do-
o dinamismo econômico e cultural; a constitui- minam o país.
ção de interações sociais, embriões de uma so- Um exemplo conspícuo disto é a trans-
ciedade civil autônoma; tudo isto não deve ferência de capital e a construção de Belo Ho-
obscurecer o fato básico e determinante: esta rizonte, que é, de um lado, símbolo do mais
modernidade teve limites, teve bloqueio estru- atualizado da arquitetura e urbanismo moder-
tural – o fato mesmo de ter sido, em última ins- nistas, e, de outro lado, a reposição do velho
tância, uma modernidade sancionadora, padrão excludente, à medida que o plano, a ci-
reprodutora de uma estrutura social excluden- dade planejada e higiênica, nascida da razão
te, de uma estrutura econômica dependente, de positivista e republicana de seus construtores,
uma estrutura cultural incapaz de forjar uma interditou o espaço urbano aos pobres, à pre-
perspectiva efetivamente nacional-popular, isto sença popular.
é, a modernidade aqui não se fez instrumento Belo Horizonte, em mais de um aspecto é
emancipatório, democratizante. Trata-se, como a síntese da própria trajetória da modernidade
se sabe, de processo que marcou o conjunto da mineira. A cidade nascida do avanço científico
trajetória da modernidade no Brasil, que aqui e tecnológico, das novas técnicas construtivas,

56
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

das inovações urbanísticas de Haussmann, da ques e jardins, espaços distribuídos funcional-


ruptura política com a velha ordem colonial-im- mente. E, no entanto, por detrás desta fachada
perial. Cidade contemporânea das grandes trans- moderna, como um cenário de Potenkin, a mes-
formações do auge do modernismo europeu – ma continuidade da exclusão, os pobres inter-
as vanguardas artísticas, o cinema, a emergência ditados, a terra urbana privatizada e concentrada,
das sociedades de massas, da velocidade e da a velha sonegação de direitos sociais que
explosão urbana. Cidade sintonizada com os acompanha, como uma sombra, a luz, por ve-
novos termos da urbanização modernista – zes intensa, da modernidade mineira. Retrato
amplas avenidas, amplos espaços públicos, par- fiel e expressivo dos dilemas históricos do país.

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58
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Fundamentos da economia mineira

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60
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

A história de Minas Gerais, como a de


outras regiões que viveram um certo momento
Carlos V e seu filho, Filipe II, vencedor dos tur-
cos, senhor do Mediterrâneo; a beleza absoluta,
de auge e supremacia a que se seguiu decadên- mística e erótica, trágica e grandiosa, de Veláz-
cia e atrofia, tem algo de uma dupla reiteração: quez, Murillo, Zurbaran; o romance-súmula de
o grandioso, que se foi e que se lamenta, e o um mundo que desaparecia, o testamento cul-
modesto, mas inabalável, orgulho de uma tradi- tural e matriz fundante da literatura moderna,
ção que se quer superlativa. É este o traço mais D. Quixote... E mais a invenção do direito públi-
decisivo da historiografia, da ensaística, da lite- co, do direito internacional com Francisco de
ratura ibérica, por exemplo. A lembrança da- Vitória (1480-1546), com Francisco Suárez
queles tempos de esplendor e hegemonia, os (1548-1627). E mais a invenção do romance de
séculos XV e XVI, “siglos d’oro”, a reafirmação cavalaria, obra portuguesa, no século XIV, com
da presença inapagável dos grandes construto- o Amadis de Gaula. E mais a consolidação do
res destas glórias, que também são heróis da primeiro Estado-nação moderno, no século XII,
instauração da modernidade – o infante navega- em Portugal. E mais a primeira revolução bur-
dor; o almirante das Índias; o poeta de gênio e a guesa que se viu, em Portugal, no século XIV...
epopéia lusitana; o último grande imperador, Jóias da passada glória ibérica, a cada momento

61
recordadas para abrandar, um pouco, a me- com isso se torna evidente, que apesar das gran-
des dificuldades sempre encontradas para o pro-
lancolia de quem, hoje, vive mergulhado em
gresso, Minas Gerais foi, no decorrer do século
atraso, decadência, dependente dos grandes XIX, de todas as unidades da federação, a que
do mundo. mais prosperou. Prosperou não só com o ferro e
com o café, como prosperou no setor da pecuária,
A história de Minas Gerais é uma reposi- dado o grande desenvolvimento verificado na sua
ção modesta em sua condição periférica deste indústria de laticínios; prosperou nas suas diver-
ostinato réquiem de um tempo de maravilhas sas indústrias, especialmente na de tecidos de al-
que se foi. godão; prosperaram os seus meios de transporte
rodoviários, como especialmente os ferroviários;
No campo da história econômica, até os prosperaram enfim, dentro desse século XIX, to-
anos 1970, prevaleceu uma tese e uma periodi- das as suas demais espécies de atividades, materi-
ais e culturais. (MENDONÇA, 1957, p. 141)
zação que implicavam em desconsiderar cerca
de cem anos da história da região. Por essa vi- A partir do final da década de 1970, haverá
são, consagrada em toda a literatura econômica revisão profunda do entendimento da trajetória
sobre Minas Gerais, após a crise da mineração da economia mineira no século XIX em que se
aurífera, 1760, a economia mineira passaria a destacam os trabalhos de Alcyr Lenharo (1979),
viver involuções e decadência, que só seriam Roberto Borges Martins (1980 e 1982), Robert
revertidas, em parte, com a expansão cafeeira Slenes (1985), Douglas Cole Libby (1987) e João
da segunda metade do século XIX. É como se Fragoso e Manolo Florentino (1993). Em que
entre o fim do auge mineratório e a consolida- pese as divergências, e mesmo o caráter polê-
ção da economia cafeeira nada tivesse ocorri- mico de algumas destas intervenções, estes tex-
do de significativo na capitania, na província tos constroem um novo quadro da economia
mineira, o que explicaria o quase absoluto silên- mineira no século XIX, em que a prostração, a
cio da historiografia sobre a região durante esse paralisia que quiseram ver como típicas da eco-
longo período. nomia mineira naquele período, cedem lugar à
As exceções, como é praxe, confirmam a afirmação de uma economia diversificada e di-
regra, e entre os que ultrapassaram a visão tra- nâmica, nos limites da ordem geral da econo-
dicional, a que via Minas no século XIX, como mia brasileira de então: “escravista, exportadora,
estagnação-involução, destaque-se Francisco mercantil e dependente”, como mostrou Celso
Iglésias (1955) e Marcos Carneiro de Mendonça Furtado, no seu grande, pioneiro e esquecido
(1956) que diz: livro, de 1954, A economia brasileira.

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Para o século XX, todos os estudiosos, to- entre Portugal-Inglaterra, colonialismo infor-
das as informações são consensuais em apontar mal, como diz Sandro Sideri (1978), deve re-
duas características centrais para a economia mi- conhecer que a quantidade de ouro e diamantes
neira: em primeiro lugar, a continuidade de uma produzida no Brasil, no século XVIII, não ul-
considerável base agropecuária e como outra trapassou os excedentes e rendas gerados pela
característica central a especialização produtiva atividade açucareira nordestina no século XVII
baseada na mineração e em bens intermediários (AZEVEDO, 1973).
altamente demandantes de terra, energia e recur- Nascida mineratória, primeiro o ouro e, a
sos naturais – siderurgia, celulose etc.. Marilena partir de 1729, os diamantes, a economia de
Chaves, em artigo de 1990, dá quadro geral – Minas Gerais não se limitará a esses produtos.
“Economia mineira: avaliações e perspectivas” Desde o início do século XVIII, as sucessivas
(1990) – que sintetiza o essencial da economia crises de abastecimento, em 1699-1700-1701,
mineira, nas décadas de 70/80, em que estão a carestia dos gêneros importados, a rápida
postos seus principais desafios e características e decadência de muitas áreas mineratórias, indu-
que iluminam o essencial da trajetória da moder- ziram à diversificação produtiva, fazendo com
nidade em Minas Gerais, no século XX, do pon- que ao lado da atividade mineratória dominante
to de vista da economia. se expandissem a agricultura, a pecuária, diver-
sas atividades manufatureiras. Em trabalho que
A economia colonial mineira
busca fazer balanço da agricultura mineira no
Vista em perspectiva geral, a trajetória da século XVIII, Carlos Magno Guimarães e Liana
economia mineratória de Minas Gerais, no sé- Maria Reis, são enfáticos e convincentes em
culo XVIII, tem dimensão inferior a que se mostrar que a atividade agrícola em Minas
acostumou divulgar certa tradição historiográ- Gerais não deve ser vista como realidade resi-
fica. Trata-se de corrente interpretativa que foi dual, decorrente da crise da mineração, e vol-
partilhada por autores estrangeiros. Um exem- tada apenas para o autoconsumo. A tese básica
plo conspícuo disto é Werner Sombart que dirá dos autores citados, a partir do exame de car-
que a Revolução Industrial inglesa foi produ- tas de Sesmarias outorgadas na primeira meta-
to direto e unívoco do ouro brasileiro. Balan- de do século XVIII a agricultores em Minas
ço mais equilibrado, sem minimizar a Gerais, é que a agricultura que se praticava ali
inequívoca participação do ouro brasileiro na tinha dinamismo e complexidade consideráveis.
transferência da riqueza que marca as relações Dizem eles:

63
A agricultura nas Minas Gerais desde o início milho e outros ‘mantimentos’, canaviais, enge-
teve, parcialmente, caráter escravista e mercan- nhos de cana, moinhos de farinha, fubá etc.,
til e que, de nenhuma forma este duplo caráter gado e mineração. (COSTA FILHO, 1963, p. 160)
foi produto da decadência da atividade minera-
dora. O mercado constituído pela sociedade No referente à pecuária, também se revela
mineira, desde o início, existiu enquanto estí- quadro que afirma a complexidade e diversifi-
mulo para o desenvolvimento da produção in-
cação da estrutura produtiva mineira no perío-
terna da capitania. Sendo seu consumo feito
parcialmente pela produção interna, as Minas do colonial. Caio Prado Jr., na ainda insuperável
terão que importar o restante. (GUIMARÃES e REIS, visão de conjunto do passado colonial brasilei-
1986, p. 27) ro, Formação do Brasil contemporâneo, mostra a exis-
Um outro registro clássico sobre a ativida- tência de uma estrutura dual da pecuária colonial
de agrícola em Minas Gerais, no período colo- mineira. De um lado, um amplo setor, a pecuá-
nial, é o que traz Miguel Costa Filho. Analisando ria sertaneja, são-franciscana, que reproduz as
a atividade açucareira em Minas Gerais, Costa mesmas precárias características da pecuária
Filho mostra que, apesar das proibições me- nordestina. De outro lado, a pecuária sul-mi-
tropolitanas que se impuseram ao desenvolvi- neira, que experimentou os mais altos níveis de
mento da agromanufatura açucareira em Minas desenvolvimento tecnológico no conjunto da
Gerais, sobretudo aos engenhos de aguardente pecuária colonial brasileira
a partir de 1714, esta atividade continuou a Enfim, estas e outras medidas denotam cuida-
ocorrer na capitania. Mais ainda, Costa Filho dos que sem terem nada de notável, em termos
absolutos colocam apesar disto a pecuária sul-
revela a existência de uma realidade, a “Fazenda
mineira em nível que não tem paralelo na colô-
mista”, que marcará a fisionomia produtiva de nia. Em conseqüência, o gado parece ser de porte
Minas – “a maioria das fazendas estabelecidas e qualidade superiores, sendo notado por sua
em Minas Gerais possuía conjuntamente roças força e tamanho. (PRADO Jr., 1963, p. 195)

e lavras; eram essas fazendas, simultaneamente, Se é amplo, hoje, o reconhecimento da


de agricultura e mineração.” “Os mesmos escra- existência de uma estrutura agropecuária com-
vos que mineravam também roçavam e planta- plexa nas Minas setecentistas, também se di-
vam no devido tempo”. funde a perspectiva de uma significativa
estrutura manufatureira que teria marcado a
Podemos acrescentar, baseado em outros docu-
mentos, que fazendas havia em grande número fisionomia produtiva da capitania. Na ainda
ainda mais complexas, com plantações de feijão, hoje melhor síntese da economia da capitania

64
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

mineira, Sérgio Buarque de Holanda, em “Me- conhecida, que jamais se saberá ao certo quan-
tais e Pedras Preciosas”, diz: to ouro foi produzido em Minas Gerais. Para
E assim sucede que da lavra do ouro se passa um grande período dos séculos XVIII e XIX,
facilmente à lavra dos tabacos, senão à das ca- toda a informação disponível sobre o assunto
nas, e que um negro faiscador se faz não raro um decorria do cálculo derivado do ouro tributado.
“torcedor” entendido: assim se designam os que Chegava-se a produção total de ouro a partir
sabem enrolar, encapar e curar as folhas, apron-
tando-as para o consumo” (...). do ouro “quintado”, isto é, multiplicava-se o
As Minas Gerais, dizia com efeito Silva Pontes, ouro arrecadado pelo “imposto do quinto” por
nos últimos anos do século XVIII, são hoje no cinco, obtendo-se assim a produção total. É
continente de nossa América o país das comodi- ocioso lembrar aqui o quanto tal procedimento
dades da vida, e só o ouro o fez assim. (HOLAN-
DA, 1960, p. 293)
tem de precário se se quer estabelecer as reais
quantidades produzidas.
Relatos coevos dão conta da existência de Mais recentemente, na década de 1980,
uma ampla e diversificada estrutura manufatu- Michel Morineau revelou novas fontes para o
reira na capitania mineira, que incluía a produ- estudo da produção aurífera em Minas Gerais,
ção de doces, queijos, chapéus, calçados, tecidos, baseadas nas “Gazzettes hollandaises”. É interes-
sabão, carnes de porco e de vaca, couros, além sante notar que se estas fontes redesenham uma
das forjas de ferro que juntamente com os tea- nova periodização para a produção aurífera mi-
res marcarão a fisionomia produtiva mineira nos neira, e mesmo alteram os números referentes
séculos XVIII e XIX. à quantidade produzida, há, por outro lado, a
Se são consideráveis as presenças da agricul- reafirmação do essencial do processo descrito
tura, da pecuária e da manufatura em Minas Ge- nos trabalhos de Teixeira Coelho, Eschwege,
rais, no período colonial, não se subestime com Pandiá Calógeras e Virgílio Noya Pinto, quanto
isso a produção mineral que foi, sem dúvida, a a três aspectos centrais: 1) ainda que significati-
mais dinâmica de quantas existiram na capitania. vo, isto é, ser o surto de mineração aurífera o
A produção de ouro e diamantes é o núcleo mais importante verificado no mundo até en-
dinâmico de uma economia que se diversificou tão, a produção brasileira, mineira em sua gran-
durante o século XVIII, mas que continuou tendo de maioria, no período colonial, está muito
como referência geral a atividade mineratória. aquém do que se verificará nos Estados Uni-
João Pandiá Calógeras, um dos mais acredi- dos, na Austrália, na África do Sul no século
tados especialistas no tema, disse, numa página XIX; 2) o período de auge da mineração aurífera

65
será relativamente curto, não excedendo 25, 30 segunda metade do século XVIII. A ação pom-
anos; 3) finalmente, que este período de auge ocor- balina, suas inúmeras políticas e reformas, a
reu na primeira metade do século XVIII. continuidade desse esforço mesmo depois da que-
Registre-se, também, como aspecto consen- da de Pombal, em 1777, com a “Viradeira”, as inú-
sualmente admitido na caracterização da econo- meras “Memórias” e estudos, visando reverter a
mia mineratória em Minas Gerais no período decadência do “Reino”, são manifestações, às
colonial, a precariedade da base técnica daquela vezes agônicas, de uma percepção cada vez mais
atividade que, basicamente, funcionou a partir de incontornável e generalizada, de que Portugal e
tecnologia consagrada no século XVI. As poucas seu império viviam crise profunda e irreversível.
inovações tecnológicas introduzidas no século Se esse é o quadro da segunda metade do
XVIII não foram suficientes para alterar o quadro século XVIII, na primeira metade prevaleceu a
geral, que é o de uma atividade baseada na explo- alegre dissipação do reinado de D. João V (1706-
ração do ouro aluvional, utilizando-se de instru- 1750). Oliveira Martins, historiador, vingador da
mentos e técnicas mineratórias atrasadas. gente portuguesa, viu assim a época joanina:
O Barão de Eschwege, crítico implacável da E D. João V, enfatuado, corrompeu e gastou, per-
incúria das autoridades estatais no referente à vertendo-se também a si e desbaratando toda a
riqueza da nação. Tal foi o rei. O povo, pastore-
política mineral, e autor de um clássico sobre o ado pelos jesuítas, beato e devasso, arreava-se
assunto – Pluto Brasiliensis, de 1833 – diz que a agora de pompas, para assistir como convinha à
crise, a decadência da mineração aurífera no Bra- festa solene do desbarato dos rendimentos do
Brasil. (MARTINS, 1913, 2o vol., p. 150)
sil, eram, sobretudo, reflexos da ausência de uma
política de melhoramentos no campo da explo- No fundo da vida econômica de Portugal,
ração mineral, limitando-se a autoridade estatal a esteve sempre presente a velha tradição mercan-
culpabilizar os extravios e o contrabando como tilista, o metalismo radical. As exceções a esta
as causas únicas da queda da produção, para a tendência geral como a política “industrialista”
qual só tinham como remédio a fiscalização e a do Conde de Ericeira, no final do século XVII, e
repressão (ESCHWEGE, 1979). o reformismo pombalino (1750-1777) não fo-
É verdade que houve esforço reformista, ram capazes de alterar o sentido geral do mer-
iluminista, visando reverter o quadro de crise cantilismo português que, disse o grande Antônio
que marcou o Império Português por toda a Sérgio, se especializou em transferir para fora a

66
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

riqueza da nação, “política de transportes”, ma- do longo reinado de D. João V, em que o ouro
nifestação exemplar do mercantilismo português brasileiro adornou a monarquia, construiu palá-
(SÉRGIO, 1972). cios e conventos, mas, sobretudo, enriqueceu a
O ouro brasileiro, descoberto no final do Inglaterra. Diz Oliveira Martins:
século XVII, em Minas Gerais, foi a confirma- Pois esta soma quase incalculável de riquezas não
ção de uma velha aspiração portuguesa, a rea- bastou para encher a voragem do luxo e da de-
lização de um sonho, a materialização das mais voção do espaventado e beato monarca. O in-
glês sentava-se com ele à mesa, e aplaudia os
fundas esperanças e motivações da aventura desperdícios, porque todo o ouro do Brasil pas-
expansionista portuguesa. Sérgio Buarque de sava apenas por Portugal, indo fundear na Ingla-
Holanda, naquele extraordinário Visão do pa- terra, em pagamento da farinha e dos gêneros
raíso, mostrou as raízes medievais, profundas e fabris, com que nos alimentava, nos vestia. A
indústria nacional constava de operar e devo-
míticas, que impulsionaram as navegações e ções. O português só sabia ser lojista: todo o
conquistas ibéricas: a busca do “Eldorado”, a comércio externo estava nas mãos dos ingleses,
busca do paraíso terreal, a busca da terra sem principalmente, e de italianos. (MARTINS, 2o vol.,
mal, motivos edênicos, que moveram o coloni- 1913, p. 151)

zador ibérico (HOLANDA, 1969). Já se discutiu muito as implicações do Tra-


Portugal sempre viu com ansiedade e frus- tado de Methuen, de 1703, na consolidação da su-
tração os sucessos da mineração hispânica nas bordinação de Portugal à Inglaterra: Sandro
Américas, enquanto a América Portuguesa pare- Sideri (1978) fala de colonialismo informal, Carl
cia sonegar suas riquezas minerais. Assim, quando Hanson (1986) fala das relações entre Portugal
se revelaram as pepitas do Tripuí, parecia que o e Inglaterra como matriz da dependência:
velho sonho se realizava: a redenção do reino aba-
Definida como as relações de dependência entre
lado ainda pelo longo período de dominação es- o centro, a semi-periferia e a periferia, que
panhola e por todas as concessões que se teve de surgiram na disputa do precoce desenvolvimen-
fazer à Inglaterra (os Tratados de 1642 e 1654), to da agricultura e da industrialização capitalista
pela ajuda recebida no processo da Restauração. da Inglaterra. (HANSON, 1986, p. 297)

Então, o ouro é descoberto e parece abrir- Desse modo, Minas Gerais, por meio da eco-
se para Portugal o tempo da retomada de uma nomia mineratória, participou do processo mes-
nostálgica e já longínqua hegemonia. É o tempo mo da consolidação da hegemonia industrial

67
inglesa, encarnando um papel que tem um duplo TABELA 11
sentido de reiteração de dependência: de um lado, Produção Aurífera
à medida que a descoberta do ouro atrai para a de Minas Gerais (em Kg)
capitania toda a maquinaria de controle e espoli- Século XVIII
ação do poder metropolitano e, de outro lado,
porque a descoberta do ouro reforça em Por- ANOS PRODUÇÃO
tugal a velha tradição mercantilista, “a política 1700-1705 1.470
de transporte”. Diz Antônio Sérgio: 1706-1710 4.410
1711-1715 6.500
Poderemos chamar as duas escolas, portanto, a 1716-1720 6.500
“política da fixação”, e a “política do transpor-
1721-1725 7.000
te”; a política da produção e a política da circula-
1726-1729 7.500
ção; a política da estabilidade e a política do
aventureirismo; a política nuclear e a política pe- 1730-1734 7.500
riférica; a política de D. Pedro e a política de D. 1735-1739 10.637
Henrique; a política da boa capa e a política do 1740-1744 10.047
mau capelo. (SÉRGIO, 1972, p. 70)
1745-1749 9.712
Trata-se, assim, de considerar a produ- 1750-1754 8.780
ção mineral de Minas Gerais no contexto da 1755-1759 8.016
1760-1764 7.399
reafirmação de mecanismos estruturais de
1765-1769 6.659
subordinação, que limitam e condicionam tan-
1770-1774 6.179
to a dinâmica da capitania quanto a da metró-
1775-1779 5.518
pole subalterna.
1780-1784 4.884
Um quadro da produção aurífera em Mi- 1785-1789 3.511
nas Gerais, no século XVIII, encontra-se bem 1790-1794 3.360
organizado no livro de Virgílio Noya Pinto, O 1795-1799 3.249
ouro brasileiro e o comércio anglo-português, de 1979.
FONTE – PINTO, 1979, p. 114.
Neste livro, a partir dos levantamentos e siste-
matização de Pandiá Calógeras, é possível cons- Agregando mais as informações e buscan-
truir-se tabela que descreve a produção aurífera do periodização compreensiva do processo, tem-
mineira no século XVIII. se o seguinte:

68
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

TABELA 12
ANOS NOYA PINTO MORINEAU*
Periodização da Produção Aurífera 1735-1739 14.134 11.304
de Minas Gerais – Século XVIII 1740-1744 14.147 13.126
(Médias Anuais) 1745-1749 14.812 12.376
1750-1754 15.760 11.588
ANOS PRODUÇÃO ETAPAS
(EM KG) 1755-1759 12.616 10.002
5.800 Implantação 1760-1764 10.499 9.364
1701-1734
9.500 Auge 1765-1769 9.759 6.400
1735-1759
5.000 Declínio FONTE – PINTO, 1979, p. 114; MORINEAU, 1985, p. 139.
1760-1799
* Os dados de Morineau referem-se ao ouro brasileiro chegado à Europa e
FONTE – PINTO, 1979, p. 114. reportado pelos jornais holandeses.

Michel Morineau, com base nas informações


Morineau não pretende que seus dados se-
da chegada do ouro brasileiro à Europa, isto é,
jam infalíveis. Contudo, suas informações, a
não apenas o ouro de Minas Gerais, mas também
partir de fontes até aquela época não utilizadas,
o oriundo do Mato Grosso e Goiás, publicadas
as “incroyables gazzettes hollandaises”, como
pelos jornais holandeses, estabelece um novo con-
as chama, são de grande utilidade na ampliação
junto de números, que recalculados e comparados
do nosso conhecimento sobre a realidade bra-
aos de Virgílio Noya Pinto estão na tabela 13.
sileira do século XVIII. Diz ele:
TABELA 13
On espère fournir de la sorte un tableau assez représen-
Produção Aurífera Brasileira (1711-1769) tatif des arrivages a l’or brésiliens en Europe, malgré
Segundo Noya Pinto e Morineau de inévitables imperfections. Sa válidité est surtout grand
(Médias Anuais em Kg) pour lo periode 1712-1760, ce que laissait prévoir la
liste des flottes repérées. Les chiffres postérieurs à 1770
ne representent guère plus que des fragments: il fondra
ANOS NOYA PINTO MORINEAU*
faire appel à d’autres documents pour rendre aux trans-
1711-1715 6.500 9.183 ports que se pour suivaient ampleur et homogénéité.
1716-1720 6.500 6.404 (MORINEAU, 1985, 135)
1721-1725 7.600 9.512
Uma das mais salientes diferenças que os
1726-1729 8.500 14.625
1730-1734 9.000 16.491
dados de Morineau apresentaram com relação
aos de Noya Pinto é que eles redesenham um

69
novo perfil da trajetória da produção aurífera no Cabe menção aqui também à descoberta das
minas de diamante em Serro Frio, norte de Mi-
Brasil, que teria seu auge, não entre 1750-54,
nas. Sua produção logo se revelou suficiente para
como está em Noya Pinto, mas, entre 1730-34. depreciar o valor dos diamantes no mercado in-
Outra diferença é que os dados de Morineau pa- ternacional em 75 por cento. No total foram ex-
recem indicar, sobretudo para o período 1711- traídos cerca de 615 quilos durante o século
XVIII, a esses números devem ser acrescidos os
1734, produção significativamente superior àquela
diamantes extraídos na Bahia, em Mato Grosso
reportada por Noya Pinto. Finalmente, em que e no Goiás. Durante algum tempo continuou
pese as diferenças apontadas, ainda assim não há sendo um item importante da balança comercial
alteração do quadro geral da produção senão no portuguesa. (MAURO, 1997, p. 468)
referente ao período do auge que teria sido bem Durante todo o tempo da expansão dia-
anterior, 20 anos, ao apontado por Noya Pinto. mantífera, a política portuguesa foi marcada por
Não há que tomar partido aqui, senão conside- uma obsessão frustrada, conter a oferta e impe-
rar que os dados de Morineau vêm confirmar, dir a queda, que foi sistemática, dos preços do
dar coerência ao que se sabe da formidável eufo- diamante ao longo do tempo. Para tanto, os ad-
ria dos anos de 1730, vividos por Ouro Preto, e ministradores metropolitanos experimentaram
de que são exemplos a festa do Triunfo Eucarís- três grandes regimes de exploração que resulta-
tico, 1733; a construção da matriz do Pilar, em ram sempre em aumento da produção e conse-
1733; a construção da matriz de Nossa Senhora qüente queda dos preços. Da descoberta dos
da Conceição de Antônio Dias, em 1727. diamantes, até 1740, prevaleceu o chamado re-
O outro grande produto mineral de Minas gime da “Livre Extração”. O resultado deste
Gerais, no século XVIII, foi o diamante. Desco- processo foi a explosão de oferta e queda dos
bertos em 1729, ao norte do núcleo central mine- preços. Para reverter o quadro, em 1740, passa a
rador, os diamantes abrirão uma nova frente de vigorar o regime dos “Contratos”, baseado na ar-
expansão, atraindo população e negócios. Rápido rematação, por um certo número de anos, do di-
é o processo de ocupação e já em 1734 a Coroa reito monopolista da exploração dos diamantes,
Portuguesa resolve instituir a Demarcação Diaman- devendo o contratador restringir o número de es-
tina e a Intendência dos Diamantes no Arraial do cravos envolvidos na mineração, no século XVII.
Tejuco. Trata-se de área que terá administração di- Esse regime, que durou até 1771, não foi capaz de
retamente vinculada ao governo central em Por- reverter o quadro de aumento da oferta e queda
tugal, refletindo a importância que essa atividade dos preços, já que sempre foi prática generalizada
tem para os negócios do Reino. Diz Mauro: a lavra clandestina e o contrabando. Finalmente,

70
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

na época pombalina, em 1771, há a instituição TABELA 15


do monopólio régio da exploração de diaman- Produção de Diamantes no Período dos
tes, que prevalecerá até 1832. Contratos – 1740-1771
A tabela 14 mostra a evolução dos preços
QUILATES MÉDIA
dos diamantes.
EXTRAÍDOS ANUAL
(quilates)
TABELA 14
Preços dos Diamantes brasileiros 1o contrato – 1740-43 134.071 33.517
na Europa – Século XIX 2o contrato – 1744-47 177.200 52.679
3 contrato – 1749-52
o
154.579 38.644
ANOS PREÇOS (o quilate) 4o contrato – 1753-59 390.094 55.728
1740 11$980 5 contrato – 1760-62
o
106.416 53.203
1747 10$200 6o contrato – 1762-71 704.209 70.420
1752 9$302 FONTE – PINTO, 1979, p. 218-220.
1771 8$674
1790 8$625
Padrão monetário e
FONTE – PINTO, 1979, p. 218-220.
estrutura tributária colonial
A economia mineira no século XVIII tem
Registre-se, ainda, que também prevaleceu,
posição de destaque no contexto da Colônia,
no referente à economia diamantina, um ou-
não só pelo dinamismo que vivenciou, mas, so-
tro fator da evasão e dependência externa, que bretudo, pelo conjunto variado de implicações
foi o absoluto controle da comercialização e que engendrou. Destaquem-se dois aspectos
lapidação exercido por casas européias. A mar- desses desdobramentos do dinamismo mineiro.
cha da produção encontra-se na tabela 15. Um primeiro aspecto é o referente às implica-
Durante o período da Real Extração, ape- ções mesmas da atividade mineratória sobre o
sar da redução da produção oficial, apesar das conjunto da circulação mercantil e sobre o pró-
medidas draconianas contidas no Regimento de prio padrão monetário. Outra dimensão central
2 de agosto de 1771, o chamado “Livro da Capa decorrente do dinamismo da economia mineira,
Verde”, o quadro geral da queda de preços não naquele período, é a complexa trama tributária
foi revertido (PINTO, 1979, p. 223). que se abateu e sufocou a capitania.

71
A descoberta do ouro, a rapidez com que de recuperar uma hegemonia já longínqua, do sé-
atraiu gentes e cabedais, o desequilíbrio que isto culo XV. Durante os séculos XVI e XVII, sempre
gerou no sistema de abastecimento da Colônia houve escassez de numerário em Portugal, que
e sobre os preços relativos, marcam o início da obtinha o ouro e a prata de que necessitava, da
economia mineira. Antonil, escrevendo no iní- Espanha, mediante a exportação de sal.
cio do século XVIII (1711), dá conta deste fe- O ouro de Minas Gerais e a riqueza e dina-
nômeno, seja por meio do registro da explosão mismo gerados assim foram os mecanismos
da carestia que se segue à descoberta do ouro, utilizados por Portugal para restabelecer supe-
seja pela denúncia que faz da desorganização rávit em sua balança comercial, em suas contas
que isto provoca sobre o conjunto da atividade públicas, por meio da transferência direta líqui-
efetivamente produtiva da Colônia, a lavoura, o da das riquezas para a Metrópole, do sistema tri-
cultivo da cana e do tabaco, a pecuária. Fisiocrata butário, do monopólio do comércio típico do
“avant-la-lettre”, Antonil abomina a atividade mi- “Exclusivo metropolitano”. O conjunto desses
neratória, considerada por ele jogo, contrária à mecanismos de transferência de excedentes para
diligência e à ascese, também por motivos teoló- as metrópoles configuraram o principal instru-
gicos, como já o fizera o grande Antônio Vieira mento de concentração de riquezas do processo
(ANTONIL, 1966). da “Acumulação primitiva de capital”.
De qualquer forma, o dinamismo aurífero, Nesse amplo, longo e complexo processo
mais tarde a expansão diamantina, estabeleceu de “Acumulação primitiva”, as relações de do-
um novo quadro para a circulação mercantil na minação direta das metrópoles com referência
Colônia. Mais que isso, ao funcionarem eles pró- às suas colônias devem ser agregadas às rela-
prios com “dinheiro universal”, ouro e diamantes, ções intermetrópoles que resultarão na forma-
criaram as condições para a consolidação de uma ção de uma rede hierárquica. A assimetria das
economia monetária na Colônia, isto é, para a
relações entre metrópoles, a existência de uma
generalização das trocas e do sistema de preços. sucessão de economia-mundo, diria Braudel,
É também essa expansão monetária e mer- aparece em Marx, pioneiramente, no capítulo
cantil que atrairá o Estado, que vai se impor aqui XX do livro III de O Capital, ensejando estu-
com todo o seu aparato jurídico-policial-fiscal. dos como o de Sandro Sideri sobre as relações
Para Portugal, a descoberta do ouro em Mi- entre Portugal e Inglaterra. Visão global sobre
nas Gerais era o longamente esperado momento o tema, que, de fato, estabeleceu as conexões

72
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

presentes no conjunto do Antigo Sistema Colo- economia escravista do Brasil, tanto no período
nial é a que formulou Fernando Novais. Na mes- colonial quanto no imperial, sendo assim, fonte
ma direção, vão os estudos de Peter Kriedte. adicional de “lucros coloniais”, além da própria
Diz Kriedte: transferência de ouro e diamantes. Diz Kriedte:
No século XVIII tornaram-se mais definidos os Para Malachy Postlethwayt o comércio de escra-
contornos assimétricos do mercado mundial que vos era “a origem primeira e o fundamento de
já se haviam perfilado, claramente, no século tudo o mais, o impulso principal do mecanismo
XVII. Surgiu um sistema capitalista mundial cuja que punha em movimento todas as rodas” (...)
base era a submissão da periferia às necessidades “Entre 1700 e 1810 foram importados como
de reprodução das metrópoles. Seu centro des- escravos cerca de 6,4 milhões de africanos. Na
locou-se, no século XVIII, definitivamente, para quarta década do século XVIII a Inglaterra des-
a Inglaterra; a França assegurou o segundo lugar locou Portugal como primeira nação no comér-
entre os estados metropolitanos europeus, en- cio de escravos” (...) “Os centros do comércio
quanto a Holanda desceu para o terceiro. Espa- de escravos na Europa Ocidental eram Liverpo-
nha e Portugal afirmaram seus impérios coloniais ol e Nantes. Os lucros não eram de pouca mon-
porém a exploração destes impérios passou cada ta. No caso da Inglaterra foram estimados em
vez mais para as mãos do capital comercial in- 9,5% (1761-1807). (KRIEDTE, 1985, p. 156)
glês e francês. (KRIEDTE, 1985, p. 155)
Economia dinâmica, altamente demandante
Minas Gerais teve papel importante no de mão-de-obra escrava, importadora líquida
contexto do processo da acumulação primitiva. de mercadorias européias, Minas Gerais é um
A produção de ouro e diamantes, do lado da dos núcleos importantes do processo de acu-
oferta, a ampla pauta de importações a que a mulação primitiva.
capitania se acostumou, do lado da opressiva
As peculiaridades de sua base produtiva,
trama tributária que se lhe impôs, significaram produzir mercadoria que é numerário, dinheiro
a geração de “superlucros coloniais”, que tive- universal, determinam uma aceleração e diversi-
ram papel de destaque na consolidação do modo ficação dos circuitos de troca, internos e exter-
de produção capitalista. nos, que impulsionaram o Estado a buscar e a
Entre todos os grandes negócios que mar- aproveitar-se disso mediante a generalização da
caram a acumulação primitiva, e que têm parti- imposição tributária. De modo tal, que os vários
cular importância na trajetória da economia regimes tributários e as várias modalidades e fa-
colonial de Minas Gerais, registre-se o tráfico de tos geradores de tributos são o outro lado de uma
escravos. Minas Gerais foi a mais importante diversificada experiência monetária na capitania.

73
Acompanhe-se a cronologia da dinâmica Agregue-se a isso que a Coroa Portuguesa
monetária em Minas Gerais: utilizou-se, também, do expediente clássico de
1) 1701-1725 – circulação do ouro em pó. reduzir o peso das moedas, ou seu título (teor
2) 1725-1735 – circulação do ouro em barra e do ouro), mantendo o mesmo valor em réis,
proibição da circulação do ouro em pó fora como forma de aumentar as receitas/reservas
da capitania. do erário. Tudo isso, no entanto, foi em vão e,
já no início do século XIX, Spix e Martius são
3) 1735-1750 – circulação do ouro em pó, proi-
testemunhas de um quadro de grave crise – “em
bida a circulação monetária.
vez do metal precioso só se tem papel-moeda e
4) 1751-1803 – circulação do ouro em pó, em miséria daí decorrente. Na capitania de Minas
barras, das moedas de prata e cobre, e proi- Gerais puseram-se em circulação, há cerca de
bição da circulação das moedas de ouro. quinze anos, em vez de pequenas moedas de
5) 1803-1832 – proibição da circulação do ouro dez, vinte, quarenta, oitenta, cento e sessenta,
em pó. (BESSA, 1981; LEVY, 1986). trezentos e vinte réis, cédulas impressas, que va-
Estes vários padrões monetários visavam man- lem segundo a base do ouro (um vintém de ouro
ter o preço do ouro que, ainda assim, oscilou muito = trinta e seis réis e meio e não vinte réis), pro-
durante o período, como se vê pela tabela 16. duzido em quatro fundições na capitania” (SPIX
e MARTIUS, 1981, 1o vol., p. 182).
TABELA 16 Havia, então, clara intenção de manter o
Preço do Ouro não Fundido (1 oitava) lastro destas cédulas emitidas, sendo a medida
Minas Gerais – 1725-1832 forma de garantir o monopólio do pouco metal
então existente. No entanto, o papel-moeda en-
PERÍODO PREÇO
Até 1725
controu forte resistência entre a população e
1$500
1725-1730 1$200
logo se desmoralizou pela considerável quanti-
1730-1732 $320 dade de notas falsas que circulavam, atribuindo
1732-1735 1$200 os mineiros, sobretudo aos ingleses, a falsifica-
1735-1751 1$500 ção. (SPIX e MARTIUS, 1981, p. 182-183).
1751-1823 1$200 O outro lado dessa equação, cujo sentido é
1823-1832 1$500 a busca da retenção dos excedentes gerados na
FONTE – ESCHWEGE, 1979, p. 134. economia mineira, é o tributário. Ali, ao lado dos

74
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

tributos diretamente arrecadados pela Coroa Divididos em dez categorias, os principais


sobre o ouro e sobre os diamantes, praticaram- tributos praticados em Minas Gerais, no perío-
se dezenas de tipos de tributos. do colonial, encontram-se na quadro 3.

QUADRO 3
Estrutura Tributária na Capitania de Minas Gerais

CATEGORIA TRIBUTOS
I. Impostos sobre a Produção 1. Sobre o ouro e diamantes
2. Dízimos (reais e mistos)
II. Impostos sobre a Circulação 3. Direitos de Entradas
de Mercadorias 4. Subsídio voluntário
5. Postagem
III. Impostos sobre Prestação de Serviços 6. Terças-partes
7. Donativos de ofícios
8. Propinas
IV. Impostos sobre a Renda 9. Dízimos pessoais
V. Impostos Especiais 10. Subsídios Literários
11. Subsídios Extraordinários
VI. Impostos sobre a circulação 12. Direitos de Passagem
de pessoas e animais
VII. Impostos sobre a Propriedade 13. Décimas de Prédios Urbanos
VIII. Impostos sobre a Transmissão 14. Sisa
e Transferência de Propriedades 15. Meia-sisa
16. Legados e heranças
IX. Contribuições de Melhorias 17. Não-comum
X. Impostos Diversos Diversas contribuições destinadas à Igreja e ao Estado.

FONTE – BESSA, 1981; MATOS, 1981; OLIVEIRA, 1964; REZENDE, 1981.

75
Um quadro da arrecadação dos tributos mais importantes em Minas Gerais, no século XVIII,
está na tabela 17.

TABELA 17
Arrecadação Tributária em Minas Gerais – Século XVIII

TRIBUTOS ANOS/PERCENTAGEM DA ARRECADAÇÃO


1725 1740 1755 1770 1785 1799
Quinto do ouro 74,0 65,5 58,0 57,4 58,0 50,0
Quinto do diamante – 11,0 14,0 18,0 – –
Entradas 14,0 14,5 21,0 16,0 27,0 30,6
Dízimos 11,2 8,3 6,2 8,0 14,1 18,3
Passagem 0,8 0,7 0,8 0,6 0,9 1,1
Arrecadação em mil réis 692.561 1.232.713 979.341 788.367 463.177 395.824
FONTE – PINTO, 1979.

O imposto do quinto sobre o ouro sofreu diversas alterações. Doze modificações entre
1700 e 1827.

QUADRO 4
Trajetória do Imposto sobre o Ouro – Minas Gerais – 1700-1827
PERÍODO IMPOSTO
I 1700-1710 Quinto do ouro em pó
II 1710-1713 Quinto por bateia (12 oitavas de ouro por escravo empregado na mineração)
III 1714-1718 Convênio – mínimo de 30 arrobas anuais
IV 1718-1722 Convênio – mínimo de 25 arrobas anuais
V 1722-1725 Quota fixa de 52 arrobas
VI 1725-1730 Quinto do ouro fundido
VII 1730-1732 Doze por cento do ouro em pó
VIII 1732-1735 Quota fixa de 100 arrobas

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

QUADRO 4
Trajetória do Imposto sobre o Ouro – Minas Gerais – 1700-1827 (continuação)
PERÍODO IMPOSTO
IX 1735-1751 Captação sobre escravos, ofícios e negócios
X 1751-1803 Quinto do ouro fundido, mais a quota fixa de 100 arrobas
XI 1803-1808 Décimo do ouro fundido
XII 1808-1827 Quinto do ouro fundido
FONTE – MATOS, 1981.

Quanto aos impostos sobre os diamantes, Kenneth Maxwell fala que eles compunham o
também aí houve muitas modificações. Entre núcleo principal da plutocracia da capitania, ca-
1730-1734, prevaleceram diversas taxas de capi- mada social com extensas redes de interesses e
tação por escravo – de 5$000 a 40$000 por escra- interligações políticas, econômicas e sociais. Isto
vo. De 1734 a 1739, praticou-se o confisco de é particularmente explícito quando se conside-
diamantes acima de 20 quilates e o imposto so- ra o episódio da “Conjuração mineira” e a par-
bre lojas e terrenos. Entre 1739-40, chegou-se a ticipação de importantes contratadores no
praticar capitação de 230$000 por escravo. De processo como Joaquim Silvério dos Reis e João
1740 a 1771, adotou-se o regime de contratos, e Rodrigues de Macedo (MAXWELL, 1978, cap. 5).
entre 1771 e 1832, a Real Extração (BOXER, 1969).
No referente aos outros impostos impor- A economia da província
tantes – Dízimos, Entradas e Passagens –, pre- e a questão do mercado
valeceu a privatização da arrecadação por meio Durante muito tempo, a historiografia bra-
do regime de “contratos”, que muitos prejuízos sileira deixou-se dominar por perspectiva, que,
trouxeram ao erário, sendo fórmula explicita- derivada de João Lúcio Azevedo, em Épocas de
mente condenada por grandes teóricos de fi- Portugal econômico, 1928, cunhou a ainda hoje dis-
nanças públicas, como Adam Smith (SMITH, seminada tese dos “ciclos econômicos”, e aca-
1983, vol. II, p. 247-248). bou por influenciar muitos historiadores
Lembre-se, também, do papel importante brasileiros a partir de Roberto Simonsen, com
que tiveram em Minas Gerais os contratadores. a sua História econômica do Brasil, de 1937. Nessa

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perspectiva, a história econômica do Brasil é (1980 e 1982), Douglas Libby (1987) e Ro-
transformada em história comercial do produto bert Slenes (1985).
exportado. Daí a série – ciclo do Pau-Brasil; Desses estudos vai emergir uma nova ima-
ciclo do açúcar, ciclo do ouro, ciclo do café... gem da economia mineira no século XIX. Os
A crítica dessa historiografia está bem feita no traços principais desta nova fisionomia que a
livro de Jacob Gorender, O escravismo colonial,
historiografia tem traçado para Minas Gerais,
de 1978.
no século XIX, são: 1) presença de importante
No referente à história econômica de Mi- estrutura agropecuária, que localizada inicial-
nas Gerais, isso significou, durante muito tem- mente na comarca do Rio das Mortes, espraiar-
po, ver a trajetória econômica de Minas Gerais se-á para a Zona da Mata, Sul e Triângulo
marcada por uma espécie de longo intervalo, o Mineiro durante o século XIX; 2) presença de
que vai da crise da mineração aurífera, 1760, até
unidades de manufaturas têxteis espalhadas por
a expansão cafeeira, 1860... Nesse período, é
toda a província, abastecendo toda a região e
como se Minas Gerais desaparecesse, involuís-
mesmo exportando para as províncias vizinhas;
se para padrão econômico de subsistência. Essa
3) presença de uma ampla rede de forjas e ma-
perspectiva encontra-se em Celso Furtado, sob
nufaturas de ferro; 4) presença de grandes em-
todos os aspectos um autor lúcido e arguto.
preendimentos mineratórios.
Já se disse aqui das exceções – Francisco
Iglésias e Marcos Carneiro de Mendonça, na De tal modo que, ao contrário daquela pai-
década de 1950, que apontaram para a existência sagem de absoluta paralisia que teria marcado o
de um tecido econômico na província mineira, século XIX mineiro, o que se revela a partir desta
orgânico e articulado, ao contrário da tese da nova tradição historiográfica, é um panorama
atrofia e da involução. econômico diversificado e dinâmico nos limi-
tes do contexto periférico, que marca toda a re-
No final da década de 70, com o texto de
Alcyr Lenharo, As tropas da moderação, de 1979, alidade brasileira.
as indicações de Sérgio Buarque de Holanda, Mais ainda, é possível, se se fizerem estu-
quanto à existência de uma diversificada es- dos de trajetórias econômicas comparadas, de-
trutura econômica em Minas Gerais, desde o tectar, em vários aspectos, posição hegemônica
período colonial, foram ampliadas e aprofun- de Minas Gerais, quando comparado com São
dadas com os estudos de Roberto Martins Paulo. Veja-se o referente à indústria têxtil.

78
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

TABELA 18 Uma resposta exaustiva a essa questão im-


Indústria Têxtil plica em estudo comparativo, que não será feito
Minas Gerais X São Paulo – 1885 aqui. Contudo, há um aspecto central, base de
qualquer resposta conseqüente à pergunta, que
LOCAL MINAS SÃO BRASIL
GERAIS
é possível ser adiantado. Trata-se, de um lado,
PAULO
de constatação, que é amplamente aceita: a eco-
Nº de Fábricas 13 13 48 nomia cafeeira, em São Paulo, suas vicissitudes
Nº de Teares 767 ... 2.111
e características, acabou por transformar a pró-
Nº de Fusos 16.772 12.000 66.466
pria estrutura do modo de produção, institu-
Nº de Operários 1.807 1.670 ...
indo novas relações sociais de produção e
FONTE – CARVALHO, 1916; PESTANA, 1923. novas forças produtivas. De outro lado, quan-
... Dado não disponível.
do se compara com o prevalecente em Minas
Gerais, tem-se a continuidade de uma reali-
A constatação deste fato, isto é, que Minas dade cuja síntese seria a ausência de uma
Gerais tem economia diversificada e dinâmica acumulação primitiva de capital, com as seguin-
durante o século XIX, aponta, então, para outra tes características centrais: 1) caráter restrito,
questão, esta sim a desafiar interpretação. Trata- quantitativa e qualitativamente, do processo de
se de, reconhecendo este dinamismo, explicar por- proletarização; 2) ausência de mecanismos efe-
que isto não gerou, como em São Paulo, processo tivos de concentração e centralização do capi-
de “modernização – industrialização”, em “esca- tal; 3) ausência de estrutura eficaz de transportes
la” e “complexidade”, capaz de constituir-se, de e comercialização; 4) ausência de efetivo mer-
fato, em base de um novo processo de acumu- cado capitalista.
lação de capital. Um exemplo conspícuo disso está no dis-
Dito de outro modo, por que Minas Gerais, curso da burguesia mineira, no Congresso Agrí-
que teve trajetória econômica dinâmica no sécu- cola, Comercial e Industrial, de 1903. Se diz lá:
lo XIX, se atrasou, consideravelmente, quando Não constitui poderoso auxílio à agricultura e
comparado com São Paulo, no processo de apro- às indústrias a repressão à vadiagem (...) Não
priação dos novos elementos tecnológicos, or- é conveniente o restabelecimento das colônias
correcionais modeladas sobre bases que garan-
ganizacionais e financeiros típicos do “modo de tem seu perfeito funcionamento e os fins alta-
produção especificamente capitalista.” mente humanitários que devem visar? (...) A

79
falta de braços para os trabalhos agrícolas e in- quem ascender na hierarquia social necessa-
dustriais, a alta de salários, a desorganização do riamente implica em tornar-se membro da aris-
serviço doméstico são males devidos, principal- tocracia. Por isto, aliás, a enorme propensão
mente, à falta de leis reguladoras do trabalho e dos meios mercantis à aristocratização. Como
repressivas da vadiagem. (CONGRESSO, 1981, p. 162) resultado, canalizam-se vultosos recursos ad-
quiridos na esfera mercantil para atividades de
Esse texto é eco de um outro, de 1833, quan- cunho senhorial, muitas vezes esterilizando-os.
do Eschwege, indignado, fala da ausência de ins- Daí podemos pensar que o “atraso” portugu-
trumentos capazes “de obrigar os homens ao ês, em pleno século XVIII, não seja um estra-
cumprimento de seus deveres e torná-los perfei- nho anacronismo, fruto da incapacidade de
acompanhar o destino manifesto capitalista eu-
tamente submissos e obedientes” (ESCHEWEGE,
ropeu; ao contrário, o arcaísmo é, isto sim, um
1979, 2o vol., p. 249). verdadeiro projeto social, cuja viabilização de-
São manifestações de uma espécie de sau- pende no fundamental da apropriação das ren-
dade, de nostalgia, “saudades da Acumulação das coloniais. Na verdade, as tentativas de
modernização assentadas na manufatura, ocor-
Primitiva do Capital”, que picaram tanto o ba- ridas nos séculos XVII e XVIII, somente sur-
rão alemão, em 1833, quanto a emergente bur- giram em meio a conjunturas nas quais a
guesia mineira setenta anos depois. Nos dois reprodução deste tipo de projeto se via amea-
çada: uma vez passado o perigo, o ideal arcai-
casos, a cobrança da ausência de mecanismos
co retornou com força total. (F RAGOSO e
capazes de ofertar e disciplinar o trabalho, tor- FLORENTINO, 1993, p. 27)
ná-lo disponível e abundante. E ainda, o mes-
mo fundo de motivação que sintetiza o essencial António Sérgio, em 1926, já havia detecta-
do essa tendência e chamou-a a “permanência
da questão em pauta: a inegável modernidade
da política de transporte”, a prevalência de um
mineira, nos séculos XVIII e XIX, como capí-
certo tipo de prática mercantilista, que signifi-
tulo de um projeto estruturalmente limitado por-
cou a reiteração do interesse da aristocracia
que não-capitalista, porque apegado aos
mercantil portuguesa.
privilégios e ao favor, porque prisioneiro de um
Na verdade, os traços básicos dessa tendên-
horizonte material e simbólico apegado à tradi-
cia, a complexa relação que ela contempla entre
ção, ao “arcaísmo como projeto” como disse-
modernidade e medievalismo, estão postos na
ram Fragoso e Florentino, 1993. Dizem eles:
admirável análise de Braudel sobre o fim da he-
Estamos, enfim, diante de uma realidade na gemonia hispânica no século XVI. Depois de dois
qual prevalecem valores não capitalistas, para séculos de dominação, o século XV, português, o

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

século XVI, espanhol, depois da culminância do ponto de vista da divisão social do trabalho
que foi a eleição de Carlos V, imperador, em e da complexa estrutura social-ocupacional daí
1519, depois da vitória sobre os turcos em 1571, resultante. Contudo, toda essa modernidade, sa-
a Península Ibérica afunda-se em decadência ir- bemos, não foi capaz de se sintonizar seja com
reversível, no momento mesmo em que realiza- o principal do processo de democratização po-
va a União Ibérica, em 1580, episódio que o lítica resultante da modernidade, seja com o es-
grande historiador português Oliveira Martins tabelecimento de relações econômicas capazes
chamou de “o abraço de dois cadáveres”. de produzir a melhoria das condições de vida
Trata-se, assim, de reconhecer que a Penín- do conjunto da população.
sula Ibérica é uma das matrizes centrais da mo- Não se deve ver nessa ambigüidade, nessa
dernidade em vários sentidos: 1) na precocidade contradição da modernidade ibérica e mineira,
da constituição do Estado nacional, no século o resultado de um déficit, de uma ausência. Isto
XII; 2) no pioneirismo de uma revolução bur- é, a Península Ibérica não foi capaz de moder-
guesa, no século XIV; 3) na expansão marítima nidade expansiva porque lhe faltou alguma coi-
para a África, Ásia e América, no século XV; 4) sa, ou porque começou depois a caminhada
no desenvolvimento da ciência náutica; 5) no moderna. Se for esta a questão, então que se
desenvolvimento dos seguros marítimos; 6) no diga, que é o contrário. A Península Ibérica co-
desenvolvimento de sistema tributário que al- meçou antes, é pioneira da modernidade. Não
cançou a nobreza e o clero. falta nada à modernidade ibérica, não se trata
Trata-se, também, de reconhecer que essa de um processo atrofiado por carência. Trata-
pioneira modernidade ibérica esteve sempre se, na verdade, de processo completo, a moder-
aprisionada, limitada pelo horizonte mental e nidade ibérica, e mineira, fizeram-se inteiras. O
material de seus líderes e beneficiários. que determinou o estiolamento da peculiar tra-
No que interessa aqui, trata-se, por fim, de jetória que percorreram, foi que eram moderni-
reconhecer que a trajetória de Minas Gerais re- dades atreladas a uma ordem arcaica, à reposição
produz o essencial da problemática ibérica, no de uma sociedade aristocrática, em que a ativi-
que diz respeito a esta ambígua relação com a dade econômica, a produção de riqueza servi-
modernidade. Minas Gerais, é, sob vários as- ram a objetivos não-capitalistas.
pectos, e desde o início, moderna, do ponto de Veja-se o referente à constituição do merca-
vista da estrutura urbana, do ponto de vista da do. Sabe-se que o mercado interno, sua generali-
estrutura do Estado, do ponto de vista cultural, zação, seu funcionamento pleno são condições

81
indispensáveis, são elementos essenciais da ca- Em outras palavras, a estrutura da produção co-
lonial gera os seus mercados de homens e ali-
racterização do capitalismo. Sabe-se, também,
mentos, o que por sua vez, viabiliza a oposição
que desde o século XVIII, Minas Gerais vai de circuitos internos de acumulação para além
desenvolver circuitos de troca, redes comerci- das trocas com a Europa. (FRAGOSO e FLOREN-
ais, apesar das várias restrições impostas pelo TINO, 1993, p. 28)

poder metropolitano, que proibiu estradas e ca- Nesse sentido, no caso brasileiro, será ape-
minhos, que interditou atividades produtivas etc. nas com a expansão cafeeira que serão criadas
Ainda assim, vai se desenvolver a atividade as condições para a constituição do mercado ca-
comercial em Minas Gerais que tanto buscará pitalista. Se é verdade que a “Lei de terras”, de
abastecer o mercado interno com produtos lo- 1850, criou o mercado de terras, se é verdade que
cais e importados quanto exportará a produção com a proibição do tráfico, em 1850, impôs-se a
local para as regiões vizinhas. necessidade da introdução do trabalho livre, só
Fragoso e Florentino, aprofundando tese com a expansão cafeeira e a concentração fundi-
derivada de Ciro Flamarion Cardoso e Jacob ária que ela implicou; só com a imigração em
Gorender, buscam mostrar que esse mercado que massa, a partir de 1880, é que, no Brasil, efetiva-
se forma na Colônia tem dois aspectos centrais: mente, tanto se constitui o mercado de trabalho
o primeiro, que os autores insistem ser inovação quanto se completa a proletarização.
em relação ao corrente na historiografia, é a afir- E isto, exatamente, porque tanto o traba-
mação de que esse mercado será controlado pelo lho escravo quanto a terra, antes de serem ins-
capital mercantil colonial, sediado no Rio de Ja- trumentos da acumulação de capital eram, para
neiro; o segundo aspecto é que esse “mercado o conjunto da economia brasileira, no século
colonial e atlântico” é de “natureza não capitalis- XIX, instrumentos da reprodução de uma so-
ta” (FRAGOSO e FLORENTINO, 1993, p. 28). ciedade patriarcal e aristocrática.
Trata-se, assim, de reconhecer a existência Trata-se, assim, de ver a burguesia cafeeira
de um mercado colonial, que foi capaz de man- paulista como a matriz da construção do merca-
ter volumes consideráveis de importação de es- do capitalista no Brasil. Não só do mercado ca-
cravos, e conseqüentemente de produzir volumes pitalista, mas das instituições que lhe darão
consideráveis de excedentes, e mesmo de reter suporte, consistência e legitimidade. Tanto a Re-
parte destes excedentes. Contudo, esse mercado pública, em 1889, como a Constituição, em 1891,
não tinha como finalidade viabilizar a acumu- com o Código Civil, em 1916, são expressões
lação capitalista. Dizem Fragoso e Florentino: da consolidação da hegemonia do interesse

82
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

ideológico burguês. Mesmo a Abolição, em 1888, ocorrido em Minas Gerais no século XVIII.
é resultado indireto da expansão das relações ca- Discutir essas duas questões permite en-
pitalistas na cafeicultura paulista, exatamente na frentar mitos e incompreensões, que ainda hoje
medida em que esta expansão se fez prescindin- impedem perspectiva mais esclarecida sobre a
do da mão-de-obra escrava. realidade mineira.
Minas Gerais, a capitania que inaugurou a Inicie-se pela discussão sobre as implicações
modernidade no Brasil, a província que continuou da hegemonia do trabalho escravo. Diga-se, logo,
urbana, populosa e dinâmica, que desenvolveu sis- que apesar de forma dominante, sobretudo na
tema político e cultural, que diversificou ativida- atividade mineratória, a escravidão não foi a úni-
des econômicas e comerciais, que continuou a ca relação de trabalho que a capitania e a provín-
manter grande contingente de escravos, o maior cia conheceram. Mesmo na atividade mineratória,
do Brasil, durante o século XIX, Minas Gerais, não foi incomum a presença do “faiscador”, isto
foi tudo isso. Viveu toda essa modernidade sob a é, do minerador autônomo que não usava escra-
tutela de uma economia não-capitalista, isto é, vos na atividade mineratória.
uma economia incapaz de transformar os frutos De qualquer modo, Minas Gerais, nos sé-
da modernidade em estímulos ao desenvolvimen- culos XVIII e XIX, terá o maior contingente
to em escala ampliada da produção material, exa- de escravos do Brasil, e, ao mesmo tempo, esta
tamente, porque concentradora de renda e população escrava será sempre inferior ao con-
riqueza, marginalizadora e excludente. junto da população livre.
Outra característica geral do quadro da es-
Trabalho e industrialização
cravidão em Minas Gerais é a relativamente des-
Discutam-se, agora, dois temas que têm centralizada posse de escravos (predominante
freqüentado, quase sempre, a historiografia so- em Minas Gerais durante os séculos XVIII e
bre Minas Gerais. Trata-se, de um lado, das XIX), quando se compara aquele quadro com o
implicações da predominância do trabalho es- dominante na economia nordestina açucareira,
cravo sobre o conjunto da vida econômica, po- onde predominou a concentração de escravos
lítica, social e cultural da capitania e da província por unidade produtiva.
mineira. De outro lado, uma questão também Fixem-se, assim, do visto até aqui, duas ca-
recorrente da historiografia sobre Minas Ge- racterísticas básicas da escravidão em Minas Ge-
rais é a referente a uma lamentada perda da rais: a ampla presença de escravos que, ainda
oportunidade de industrialização, que teria assim, não é população majoritária, e a estrutura

83
desconcentrada da posse de escravos, que pre- Em outras situações históricas concretas, como
dominou todo o tempo, com exceções, é claro. nos engenhos nordestinos dos séculos XVII e
Passe-se, então, para uma outra questão. O XVIII, como nas minas subterrâneas de Minas
que faziam, onde estavam ocupados estes es- Gerais do século XIX, casos de manufaturas –
cravos? Estão, no século XVIII, sobretudo, nas atividades complexas, verdadeiras unidades
atividades mineratórias. Mas não só nestas. Estão produtivas modernas – a mão-de-obra escrava
na pecuária sul-mineira, estão na agricultura e foi usada em todas as etapas do processo pro-
nas atividades urbanas. No século XIX, serão dutivo, inclusive naquelas que exigiam “saber téc-
usados nos grandes empreendimentos minera- nico”, mesmo em atividades de supervisão,
tórios, e nas atividades manufatureiras, além de como mostraram Stuart Schwartz, em Segredos
se manterem, também, na agropecuária. internos (SCHWARTZ, 1988) e Douglas Libby em
Registre-se, ainda, que o trabalho escravo Trabalho e transformação (LIBBY, 1988).
não será a única forma de trabalho praticado Outra questão, a grande questão na verda-
em Minas Gerais, nos séculos XVIII e XIX, de, aqui, é discutir não a compatibilidade entre
que também ocorreram o trabalho familiar (no escravos e técnicas modernas, mas a compa-
campo e em atividades domésticas) e o traba- tibilidade entre escravidão, como forma domi-
lho “por jornal” de trabalhadores livres, além nante do trabalho, e acumulação capitalista, isto
de diversos tipos de trabalho autônomo de é, discutir os limites absolutos à “acumulação
mestres e oficiais artesãos. capitalista”, representados pela presença hege-
Tema também recorrente é o que discute a mônica do trabalho escravo. Trata-se, de reco-
compatibilidade entre o escravo e a técnica. Nes- nhecer a rigidez estrutural que o trabalho
te campo, há equívocos antigos, que se tornaram escravo, como forma generalizada e dominan-
regras. Mesmo analistas tão lúcidos e críticos, te, traz para o processo de acumulação capita-
como Marx, enganaram-se sobre esse tópico. lista, cujo centro é, exatamente, a busca
Marx, baseado em fonte secundária, John Cair- permanente da redução do valor da força de tra-
nes, que havia estudado a escravidão nos Esta- balho. A predominância do trabalho escravo sig-
dos Unidos, conclui pela incompatibilidade entre nifica a compra de um “estoque de trabalho”
“escravos” e “técnicas modernas” ao analisar uma (representado pelo corpo do escravo), pelo qual
situação histórica, a Plantation extensiva norte- é pago um preço que corresponde às condições
americana, onde a presença de abundância de ter- de produção e reprodução do escravo. Nesse
ras permite e induz à exploração depredatória. sentido, todos os aumentos da produtividade

84
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

do trabalho, que se seguirem, não serão inteira- partilhe experiências, lutas, formas de organi-
mente apropriados pelos capitalistas, à medida que zação, uma cultura enfim.
estes já compraram e pagaram pelos escravos se- Nesse sentido, os escravos no Brasil, duran-
gundo uma estrutura de custos maior. Assim, não te todo o tempo, manifestaram-se, organizaram-
é porque os escravos sejam incompatíveis com a se, reivindicaram como classe. Lembre-se a longa
técnica que eles são substituídos pelo trabalho li- trajetória da rebeldia escrava, a vasta experiên-
vre, mas, sobretudo, porque a escravidão, como cia dos quilombos, e uma manifestação exem-
forma generalizada de trabalho, significa um blo- plar que foi o “Tratado de Paz”, de 1789,
queio às próprias condições da acumulação. proposto pelos escravos rebelados do Engenho
De resto, lembre-se, que foram os escra- Santana de Ilhéus. Diz Barros de Castro:
vos africanos que trouxeram para o Brasil téc-
O documento, notável a muitos títulos, vem levan-
nicas que dominaram amplamente a paisagem tar uma ponta do véu de ignorância que encobre a
produtiva, como se vê no caso da produção de atuação dos escravos como agentes históricos, ca-
ferro pelo “método dos cadinhos”, que foi o pazes de traduzir os seus interesses em reivindica-
ções, e exercer pressões no sentido da transformação
mais disseminado dos métodos de produção de do regime que os oprime. (CASTRO, 1980, p. 96)
ferro no Brasil nos séculos XVIII e XIX.
Também motivo de controvérsia é a quali- Não se veja nisso, porque não é esta a ca-
ficação dos escravos como, constituindo ou não, racterística da Colônia nem de qualquer realida-
uma classe social. Há quem tenha insistido que de concreta, ausência de ambigüidade, relações
os escravos não poderiam constituir classe so- puras entre categorias puras. Afirmar o caráter
cial exatamente porque a “condição de coisa”, de classe da escravidão no Brasil não deve im-
que se impunha a eles, impedia-os de tornarem- pedir que se considere o muito de ambíguo que
se “sujeitos históricos”. também marcou as relações entre os escravos e
Sabemos, hoje, aprendemos com Edward seus senhores. É esta a base objetiva que per-
Thompson, que o conceito de classe social não mitiu que Gilberto Freyre pudesse construir os
pode se reduzir à dimensão econômica. Thomp- mitos da democracia racial e do caráter com-
son mostrou que, para ser uma classe social, um passivo da dominação lusotropical.
grupamento humano, precisa ter mais que a iden- De tal modo, que Décio Saes buscou contem-
tidade dada pela inserção na estrutura produtiva plar estas duas dimensões de realidade escravista, a
e pela relação com a propriedade. Para ser classe “classista” e a “estamental”, chamando a atenção
social, é preciso, também, que este grupamento para as diferenças entre os escravos “domésticos” e

85
os escravos do eito ou das minas (SAES, 1985). para a industrialização, é no sentido rigoroso do
Finalmente, lembre-se que Minas Gerais termo que se deve buscar entender o processo.
foi a última região a aceitar a “abolição”, foi a Tendências historiográficas contemporâ-
região onde a escravidão se manteve funcio- neas, sintetizadas sob o título de “Proto-indus-
nando até o final, reafirmando, também aí, as trialização”, têm trazido contribuição impor-
peculiaridades e paradoxos de sua inegável e tante para a discussão historiográfica ao
singular modernidade. analisarem “casos” de “industrializações” que
Outro tópico recorrente da historiografia fugiram ao “modelo inglês”. Não há como não
sobre Minas Gerais é o referente às razões de considerar valiosa e propiciadora de um novo
sua não-industrialização, no século XVIII, quan- campo historiográfico a contribuição da “cor-
do, aparentemente, estavam presentes todos os rente da proto-industrialização”.
elementos capazes de promovê-la. Contudo, há que distinguir aqui duas ques-
Esta discussão, quase sempre, tem sido fei- tões. Uma coisa é estudar as peculiaridades histó-
ta de forma tal, que há tanto abstração das con- ricas dos processos nacionais-regionais de
dições históricas concretas quanto imprecisão constituição da produção fabril. Outra coisa é bus-
conceitual. car entender por que nem todas as experiências
de constituição de fábricas resultam em processos
No referente aos conceitos, diga-se logo
de industrialização, isto é, em processos de consti-
que a palavra “industrialização” não pode ser
tuição de forças produtivas maquinofatureiras.
usada como significando, estritamente, presen-
ça de fábricas. Industrialização, rigorosamente, No caso de Minas Gerais, trata-se de reco-
significa constituição de um “conjunto deter- nhecer que as chamadas condições favoráveis para
minado de forças produtivas”, portanto, “pro- a industrialização – 1) economia dinâmica; 2) es-
cesso de alteração qualitativa e quantidade das trutura da propriedade descentralizada; 3) mer-
relações técnicas de produção”. Nesse sentido, cado interno potencial – tinham a obstaculizá-las
o processo de “industrialização” ocorreu, his- a condição mesma da Colônia, o pesado e asfixi-
toricamente, na Inglaterra, entre os séculos ante da dominação metropolitana.
XVIII e XIX, 1760-1830, quando o capitalis- Dito isto, lembre-se que ver Minas Gerais em
mo, finalmente, constitui as suas bases técnicas: condições de industrializar-se, é ver Minas Gerais
o sistema de máquinas, a grande indústria. capaz de substituir a Inglaterra como pioneira na
Assim, quando se diz que foram criadas, Revolução Industrial, o que é, mesmo para o mais
no século XVIII, em Minas Gerais, condições ufanista dos analistas, uma demasia.

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

O sistema colonial, o Estado e a


sociedade em Minas Gerais

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

J á se disse, e com razão, que a compreensão


das sociedades criadas no Novo Mundo pela ex-
inescapável considerar as metrópoles e suas im-
posições coloniais.
pansão mercantilista européia implica em consi- Muito já se discutiu sobre as diferenças
derar o peso decisivo das tradições e instituições entre os projetos colonizadores de portugue-
impostas pelo colonizador sobre o conjunto da ses, castelhanos e ingleses. Não se quer aqui fa-
trajetória histórica destas sociedades. Assim, cada zer balanço exaustivo do tema. No entanto, vale
país do Novo Mundo, hoje, ainda é, de alguma a pena lembrar alguns momentos dessa longa
forma, tributário da matriz colonizadora que o interrogação, que acaba sendo sempre a expres-
forjou. Nesse sentido, a colonização das Améri- são de uma busca permanente de identidade de
cas, apesar da presença de projetos coloniais fran- sociedades que se fizeram pelo amálgama de di-
ceses e holandeses, deve ser vista, basicamente, versas influências e elementos.
como resultado da ação formadora-deformadora Inicie-se por um texto de Oliveira Lima,
de três grandes matrizes: a Portuguesa, a Caste- América latina e américa inglesa, resultado de con-
lhana e a Inglesa. De tal modo, que se se quiser ferências proferidas nos Estados Unidos, em
entender as vicissitudes e características destas so- 1912, e que estabelece um parâmetro analítico
ciedades americanas, há muito independentes, seja que será retomado várias vezes e que tem entre

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seus títulos mais expressivos o livro Raízes do Bra- Tocqueville em seu clássico sobre a democracia
sil, de Sérgio Buarque de Holanda, de 1936; o livro nos Estados Unidos.
Bandeirantes e pioneiros, de Vianna Moog, de 1954, e, Uma outra discussão é a que busca estabe-
mais recentemente, 1988, o livro de Richard Mor- lecer diferenças entre a colonização castelhana e
se, O Espelho de Próspero. a portuguesa. Dentre os trabalhos mais signi-
O ponto central aqui é a comparação entre ficativos sobre isso registre-se, além do capítulo
as colonizações ibérica e inglesa. Trata-se de IV, de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Ho-
tema polêmico que mobilizou simpatias e fran- landa; deste mesmo autor, o capítulo final de Vi-
cas aversões. Entre essas, lembre-se o manifes- são do paraíso, de 1959, e o livro de Eulália Maria
to antiestadunidense e anti-republicano, de Lahmeyer Lobo, Administração colonial luso-espanhola
Eduardo Prado, A ilusão americana, de 1893. Em nas Américas, 1952.
um sentido também crítico à matriz inglesa, é Visão de conjunto, comparativa dos vários
publicado, em 1900, um texto, Ariel, do uruguaio padrões de colonização prevalecentes nas Amé-
José Enrique Rodó que estabelecerá dicotomia ricas, é Origem da desigualdade entre os povos da
– Ariel x Caliban; a cultura da compreensão uni-
América, de Frédéric Mauro, que teve tradução
versalista, organicista e solidária x a cultura uti-
portuguesa em 1986.
litarista, pragmática, individualista e localista; a
América Ibérica – Ariel x a América Inglesa – Várias são as diferenças entre os modos de
Caliban – que se tornará paradigma na discus- colonização de portugueses e castelhanos. Uma
são sobre a trajetória histórica dos povos ame- diferença sempre realçada é a referente à cen-
ricanos. Há outro aspecto importante dessa tralização da colonização portuguesa vis-à-vis a
disputa entre “americanistas” e “iberistas” na descentralização da colonização castelhana. Para
história das idéias no Brasil. Luiz Werneck Vi- alguns autores, essa tendência castelhana traduz
anna, em A revolução passiva, 1997, fixou-a na processo maior, definidor da própria trajetória
reprodução do debate entre Tavares Bastos (o espanhola, que é a fragmentação, a natureza “in-
americanista) x Oliveira Vianna (o iberista) que vertebrada” da Espanha, segundo Ortega y
repercute à maneira de cada um deles a dico- Gasset, que dirá, frase terrível por suas implica-
tomia básica entre uma perspectiva comunitá- ções, que a única instituição unitária da Espa-
ria e organicista, inspirada em Rousseau, e a nha foi... (é?) a Inquisição (ORTEGA y GASSET,
matriz da corrente individualismo-privativis- 1946). A isso contrapor-se-ia a precoce centra-
mo-localismo anglo-saxão e sublinhada por lização da monarquia portuguesa, tradição que

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

será transplantada para o Brasil e que aqui terá interesses capitalistas, são, sobretudo, criações
fortes conseqüências. estadunidenses.
Trata-se, assim, de pensar a constituição de A esse modelo de apropriação-transforma-
instituições políticas, econômicas, sociais e cul- ção do modelo europeu típico da trajetória esta-
turais no Brasil como o resultado de um com- dunidense contrapõe-se a reiterada ambigüidade
plexo e multideterminado processo de brasileira, sua incapacidade de construir, a partir
imposição – assimilação – contestação do pro- dos vários elementos que lhe conformaram, uma
jeto do colonizador. cultura autenticamente nacional-popular para fa-
Nesse sentido, vale a pena registrar que a lar como Gramsci.
grande diferença entre brasileiros e estaduni- Aqui, temos sido incapazes de transformar
denses, no referente à “recepção” do modelo as matrizes de nossa formação – a européia, a
do colonizador, é que lá os colonos america- africana, a aborígene – em “coisas nossas”, trans-
nos apropriaram-se inteiramente da tradição in- formadas por nós, transgredidas por nós, con-
glesa naquilo que ela ajudava a consolidar uma servadas por nós, daí que nossa trajetória política
sociedade individualista, privatista, pragmáti- e cultural seja marcada por assimilações acríticas
ca, utilitarista e localista. Isto é, os colonos ame- – absolutas ou recusas xenófobas e estreitas, num
ricanos tornaram “coisas deles” a tradição da movimento pendular e dicotômico que separa-
metrópole: sua religião – o puritanismo, o me- segrega, que estabelece oposições rígidas e in-
todismo; sua filosofia – o liberalismo de Lo- transponíveis: o estrangeiro x o nacional; o erudito
cke e a defesa da propriedade; sua cultura e x o popular; o arcaico x o moderno; o local x o
modo de vida. E não se tratou apenas de trans- universal; o regional x o nacional...
plantação e aclimatação mecânicas. A matriz O resultado dessas aporias recorrentes é a
político-ideológica inglesa foi, efetivamente, as- incompletude do processo de construção na-
similada e amplificada nos Estados Unidos a cional, é a reiteração da exclusão social, da mar-
um tal ponto que, quando Max Weber quis ginalização cultural, do autoritarismo político.
construir “o tipo ideal da ascese protestante”, Se esse é o quadro geral, que marca a histó-
o modelo a que recorre, a encarnação perfeita ria brasileira, ressalte-se a trajetória de Minas
deste tipo que encontra, é Benjamin Franklin. Gerais que é exemplar no explicitar as virtualida-
Assim, a ideologia burguesa, em sua plenitu- des e limites da construção da sociedade e do
de, a perspectiva por excelência da lógica e dos Estado no Brasil no contexto da modernidade.

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A condição colonial como limite Caio Prado Jr.. Em 1942, ele publicou o livro, For-
mação do Brasil contemporâneo, que é um clássico e
Não se trata de limite absoluto. O decisivo que conserva até hoje sua força. É o primeiro gran-
aqui é considerar as peculiaridades da imposi- de painel da sociedade colonial brasileira, sintético
ção colonial em Minas Gerais. Isto é, as formas e compreensivo, que busca entender a colônia bra-
como a Metrópole usou de suas prerrogativas e sileira no contexto da expansão comercial euro-
privilégios para impor uma certa ordem, e como péia, a partir de uma idéia-chave que é o “sentido
a Colônia reagiu a isso.
da colonização”, isto é, a compreensão das rela-
Sabe-se que a descoberta do ouro em Mi- ções entre as colônias e as economias européias
nas Gerais, no final do século XVII, e as turbu- metropolitanas. Trata-se, assim, de estabelecer os
lências e conflitos gerados pela explosiva mecanismos que produziram uma sistemática
transumância para a região mineradora, induzi- transferência de excedentes da Colônia para as
ram o poder metropolitano a impor, pela pri- metrópoles e as conseqüências desta exploração
meira vez na Colônia, o aparato estatal como colonial sobre a formação social colonial. É essa
polícia, justiça e fisco, àquela emergente e pro- a verdadeira motivação do livro: explicar como a
missora capitania. A pioneira imposição do herança colonial pesou e pesa sobre o nosso des-
Estado é um dos aspectos que distinguiram tino contemporâneo.
Minas Gerais, que também apresentaria outras
Na década de 1970, essa tese, pioneira e
singularidades no referente à estrutura social e à
consistente no essencial, inspirou dois tipos de
vida política e cultural.
desdobramentos analíticos. De um lado, apre-
Essa densidade relativamente maior da vida sentou-se a perspectiva representada por Fer-
política, social e cultural de Minas Gerais no con- nando Novais, que, à luz de pesquisa de fontes
texto da colônia brasileira não significou que, primárias e do desenvolvimento da historiogra-
no geral, a capitania não estivesse submetida aos fia internacional sobre sistema colonial, em tese
mesmos mecanismos que caracterizaram o sis- defendida em 1973, que tem o título de Portugal
tema colonial. Ao contrário, exatamente porque e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808),
dinâmica e produtora de “dinheiro universal” e publicada em 1979, trouxe decisiva contribui-
sobre a capitania praticaram-se, ao extremo, as ção que é o entendimento do conjunto comple-
imposições e interesses metropolitanos. xo de implicações decorrentes do lugar do
Quem, no Brasil, primeiro compreendeu “Antigo Sistema Colonial” na “Acumulação Pri-
esses mecanismos de dominação colonial foi mitiva de Capital”. Diga-se que, se esta idéia está

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

implícita no livro de Caio Prado Jr., é Fernando A América Colonial de Novais tem estruturas
Novais quem a explicita e extrai dela todas as que parecem ser meras conseqüências ou proje-
ções de um processo cuja lógica no fundo lhe é
conseqüências do ponto de vista das percepções exterior. (CARDOSO, 1980, p. 119)
do papel central do sistema colonial na constitui-
ção do capitalismo. De tal modo que, entre ou- Ou ainda, Antônio Barros de Castro, que
tros méritos, a tese de Fernando Novais é, no também participou do debate:
essencial, uma explicitação, o desenvolvimento
Diante do que precede, que dizer do “sentido da
empírico e conceitual do argumento de Marx, no colonização”, definido, seja por mercadores, seja
capítulo sobre Acumulações Primitivas de Capi- pela política colonial? A serem válidas estas co-
tal, sobre se o sistema colonial é o mais impor- locações, a vida material da colônia seria algo
tante instrumento de acumulação de riqueza que amorfo. Uma matéria sem consistência própria,
indefinidamente plasmada e replasmada em fun-
caracteriza a acumulação primitiva. ção de interesses externos. (CASTRO, 1980, p. 58)
De outro lado, também a partir da mesma
matriz teórica que informou os trabalhos de Caio Jacob Gorender, em Escravismo colonial, de
Prado Jr. e Fernando Novais, o marxismo, sur- 1978, vai buscar dar consistência teórica e histo-
giram os trabalhos de Ciro Flamarion Santana riográfica a este objetivo de construção do con-
Cardoso e Jacob Gorender, que buscaram criti- ceito de modo de produção colonial. Seu livro,
car a tese Prado Jr.-Novais, imputando-lhe pers- meritório sob vários aspectos, busca, rigorosa-
pectiva que teria anulado-desconsiderado a mente, estabelecer as “leis específicas de modo
existência de uma realidade econômica específi- de produção escravista colonial” (GORENDER,
ca, relativamente autônoma, da Colônia, um 1978, 3a parte).
“modo de produção colonial”. Para Cardoso- Se nos anos 1970 esse debate teve certo
Gorender, a tese Prado Jr.-Novais teria hiper- fogo polêmico, a partir dos anos 1980 buscou-
trofiado a dimensão comercial da relação entre se perspectiva mais equilibrada de que é exem-
a Colônia e as metrópoles, em detrimento de plo o livro de João Fragoso e Manolo Florentino,
uma compreensão mais rigorosamente marxista que na verdade, funde as teses, artificialmente
do processo, que teria que se basear na centrali- tomadas como aporéticas. Trata-se de ver a eco-
dade da “esfera da produção” e não na “esfera nomia colonial como parte do sistema atlântico
do consumo”, como teriam feito Caio Prado Jr. português. Dizem eles:
e Fernando Novais.
seguindo os passos de Caio Prado, Novais e Ciro
Sobre isto, diz Ciro Cardoso: Cardoso, acreditamos que o entendimento de

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constituição da economia colonial passe neces- Trata-se de reconhecer estas realidades, Estado
sariamente pela compreensão da economia e so-
e Sociedade, como expressando o resultado
ciedade lusitanas do Antigo Regime. Afinal, a
Colônia resulta da expansão metropolitana, e a complexo da interação-contradição-superação
estruturação de seu sistema produtivo obedeceu entre duas matrizes de interesses, estruturas, su-
as vicissitudes do projeto português de coloni- jeitos, símbolos: a matriz metropolitana e a ma-
zação. (FRAGOSO e FLORENTINO, 1993, p. 25)
triz colonial, esta formada nos interstícios do
Diga-se, para não omitir dado importante, poder metropolitano, nascida nos intervalos de
que essa perspectiva, a que vê a Colônia como um poder que não se mostrou sempre presen-
marcada por um modo de produção específico, te, que se consolidou e se expandiu, adquiriu
mas submetida, de algum modo, à dominação autonomia, à medida que a colônia se mostrava
metropolitana, está explicitamente contempla- mais rica e dinâmica para a metrópole.
da no texto de Fernando Novais, quando diz – Pesam, assim, tanto sobre o Estado quan-
“Não terminam porém aqui as implicações do to sobre a Sociedade, em Minas Gerais, realida-
‘modo’ que assume a ‘produção colonial’ ” (NO- des, sob mais de um aspecto, relativamente mais
VAIS, 1979, p. 108). Os grifos da frase anterior densas e complexas que as prevalecentes em
são do próprio Fernando Novais e destacam o outras capitanias da Colônia.
essencial – a existência de um modo de produ-
ção colonial – conceito que ele, por não ter isso O Estado em Minas Gerais
como objeto naquele texto, não discutirá em
profundidade, mas que sempre esteve implícito Burckhardt é cético quanto à possibilidade
em seu argumento, como ele várias vezes disse. de se constituir uma teoria com validade uni-
De resto, o vezo polêmico, a insistência em ver versal para a gênese do Estado, tamanhas as
autonomia quase absoluta da Colônia, como diferenças das trajetórias dos Estados nacionais.
muitas vezes aparece em Ciro Cardoso, acaba Contudo, arrisca uma explicação geral que seria
por subestimar a existência da explosão colo- decisivamente fecunda. Diz ele – “Cual queira
nial, senão desconsiderá-la. que sea el origen de un Estado (“expressión
Para os propósitos de compreensão da for- política de una nacionalidad”), no llegará a ser
mação do Estado e da Sociedade em Minas Ge- viable más que transformando la violência en
rais estabeleça-se, como dado preliminar e fuerza” (BURCKHARDT, 1944, p. 44).
essencial, o quanto a condição colonial vincou É exatamente daí que emergirá a contri-
a constituição e a dinâmica destas realidades. buição de Weber para uma teoria do Estado

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

sintetizado na fórmula clássica – “o Estado é ponto de vista sócio-institucional; Pasukânis, o


o monopólio legítimo da violência”. Fórmula especialista marxista em teoria do Direito, mos-
sintética e compreensiva que, desdobrada, per- trou que todas as relações econômicas, desde a
mite identificar os elementos centrais da es- troca simples, pressupõem o Estado, à medida
trutura e natureza do Estado: a) a autoridade que toda troca é a realização de um “contrato”,
central; b) território; c) a existência de um apa- o que significa reconhecer que a economia, que
rato jurídico autônomo; d) a existência de uma as relações econômicas têm como pressuposto,
burocracia civil especializada; e) a existência da como suporte e moldura institucional, o Esta-
capacidade de tributação; f) a existência de do, o aparato jurídico-coercitivo capaz de ga-
moeda com curso legal. rantir “contratos”.
Vários autores, de diferentes matrizes teó- Em seu livro, Linhagens do Estado absolutista,
ricas, ressaltaram o papel central do Estado na Perry Anderson traçou uma útil genealogia, os
gênese da modernidade: Burckhardt viu nele Estados europeus. Estão ali as circunstâncias his-
uma “obra de arte” tão decisiva para o Renasci- tóricas, os encadeamentos de circunstâncias que
mento italiano, a obra de Maquiavel, tão bela e determinaram a precocidade do surgimento de
funcional, quanto a grandiosa arte de Miche- alguns Estados, os ibéricos, vis-à-vis o caráter
lângelo; Heckscher, o grande historiador do mer- tardio da consolidação-unificação do Estado na
cantilismo, mostrou o quanto a constituição do
Itália e na Alemanha.
capitalismo deveu às transformações trazidas
pela constituição dos Estados nacionais e a uni- Nesse sentido, é exemplar a trajetória por-
ficação empreendida por eles no referente aos tuguesa. Pequeno condado castelhano até o sé-
sistemas monetários, tarifários, aduaneiros; Marx culo XII, Portugal será rigorosamente o
viu o Estado moderno, por meio da acumula- primeiro Estado moderno a se consolidar: vi-
ção primitiva do capital, como o “produtor dos venciará a “primeira revolução burguesa” da
produtores”, instrumento essencial daquela ala- Europa (1383-85) e liderará a expansão comer-
vanca decisiva da constituição dos elementos po- cial e marítima dos séculos XV e XVI, entre ou-
líticos, ideológicos, institucionais, financeiros e tros aspectos de uma insuspeitada modernidade.
sociais que conformaram o capitalismo; Polanyi Trata-se de processo profundamente decorrente
dirá, em A grande transformação, que o Estado foi da ação do Estado. A monarquia centralizada
o agente estruturante do “mercado”, seu arti- portuguesa, consolidada com a vitória do mes-
culador, sua garantia em última instância do tre de Avis, em 1383, será um instrumento de

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expansão do capital mercantil português, desde Num outro registro, é possível mostrar o
a conquista de Ceuta, em 1415, até os sucessos quanto o Estado, a centralização política-admi-
de Vasco da Gama e Cabral. Diz Antônio Sérgio, nistrativa são instrumentos decisivos, universais
o grande ensaísta português: na gênese de condições e dominação do capital
em geral. É esse, por exemplo, o objeto central
O grande rei D. João II dá o combate decisivo
à aristocracia (no que lhe serviu, aliás, a superi-
do grande livro de Hecksher sobre o “mercanti-
oridade financeira que logrou do comércio da lismo”. Contemporaneamente, esse tema foi re-
costa da África). Foi ele um grande estadista tomado, nuançado nos estudos de Charles Tilly,
que organizou no máximo grau a solução do que buscou tipologia compreensiva para o pro-
problema do Oriente. Tipo do príncipe do Re-
nascimento, não tinha escrúpulos morais ante cesso da consolidação da modernidade identifi-
as exigências da razão do Estado. Os nobres, cando três grandes vetores na constituição dos
atacados, conjuraram. O rei fez decapitar o Estados modernos: a) aqueles decorrentes da
duque de Bragança, apunhala ele próprio o de
ação do grande capital mercantil, e que, apesar
Viseu; encarcera, persegue, manda aprisionar
quem se lhe oponha. Assim vence, e organiza de seu dinamismo, não consolidaram “Estados-
[senhor absoluto] a conquista do comércio da Nações”, mas formas modernas de “Cidades-
Índia. (SÉRGIO, 1981, p. 53) Estados”, como as cidades do Norte da Itália,
Gênova, Florença, Veneza, Milão, e mesmo os
Este trecho lembra o imaginário criado em
Países Baixos; b) aqueles que se conformaram
torno de Florença, as intrigas e o crime postos a
pela pressão da “coerção centralizada” que re-
serviço da consolidação do poder do príncipe.
sultaram afinal em Estados com forte tradição
Contudo, isto é, precocemente, obra lusitana. Lá autoritária, cujo exemplo conspícuo é a Rús-
a qualidade da disputas, o exercício da violência sia; c) finalmente, aqueles Estados nascidos de
em nome da centralização do poder, sempre es- uma dupla determinação “a coerção capitali-
tiveram presentes e fizeram do pequeno país um zada”, isto é, frutos da ação do capital e do
gigante – a maior potência ocidental do século Estado, o exemplo máximo aqui seria a Ingla-
XV, com presença importante no cenário euro- terra (TILLY, 1996).
peu até a segunda metade do XVI. Nas palavras Contudo, o que é decisivo é destacar a
de Ranke – “Por volta de 1579 e 1580, Lisboa era centralidade do Estado, sob suas diversas for-
talvez o maior centro comercial do mundo” mas e genealogias, na constituição da mo-
(RANKE, 1979, p. 124). Hegemonia essa conquis- dernidade, do nosso tempo. Destaquem-se, em
tada, produzida pela ação do Estado. primeiro lugar, as expectativas nascidas com a

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

gênese do Estado. O elemento mais decisivo dimensão efetivamente democrática ou de aten-


para explicar a abrangência e generalização da dimento do interesse público. Estas duas ques-
experiência estatal foi a promessa da afirmação tões, como se percebe, deixaram cicatrizes e
do interesse público, que passou a se confundir heranças que explicam parte das vicissitudes da
com a própria idéia de Estado. É esse o sentido precária experiência democrática entre nós.
profundo daquela teoria do Estado nascida com Num texto notável por sua concisão e ca-
Maquiavel – a afirmação da autonomia da cida- pacidade iluminadora, Francisco Iglésias vai
de contra todos os constrangimentos: os decor- chamar a atenção para o fato de que é com a
rentes da disputa com as outras cidades rivais, descoberta das minas, no final do século XVII,
os decorrentes da pressão imperial ou papal. É em Minas Gerais, que a Coroa Portuguesa vai
como um antídoto contra esses “inimigos” da buscar, de fato “impor”, o Estado no Brasil
República, que Maquiavel escreve o O Príncipe e (IGLÉSIAS, 1974).
Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio – Nas
Nos séculos XVI e XVII, teria prevalecido
palavras de Quentin Skinner:
no Brasil presença frouxa do Estado e mesmo
Maquiavel dá a resposta mais inequívoca possível. hegemonia patrimonialista, no sentido webe-
Não tem dúvida de que a meta de manter a liberda-
riano. Isto é, o poder político confundido é exer-
de e segurança de uma República representa o va-
lor mais elevado, e mesmo decisivo, da vida política” cido segundo o controle que indivíduos-grupos
(...) “Por “liberdade”, ele entende, antes de mais têm sobre a propriedade, sobre o patrimônio,
nada, a independência em face da agressão externa sobre a riqueza e a renda. Aqueles dois séculos
e da tirania. (SKINNER, 1990, p. 203 e 177)
foram também os da forte presença das Câ-
É esse ideal luminoso de independência e maras Municipais, do poder dos “homens
liberdade que fez do Estado uma instituição bons”, locais que, muitas vezes, se contrapuse-
decisiva da modernidade. ram ao poder metropolitano.
No relativo à presença e natureza do Esta- Uma periodização da trajetória do Estado
do em Minas Gerais, avultam duas questões: 1) no Brasil pode ser a seguinte: 1) 1500-1549 –
o fato de que é em Minas que, pela primeira período de fragmentação das capitanias heredi-
vez, vai efetivamente se impor o Estado na Co- tárias; 2) 1549-1700 – período da centralização
lônia; 2) a natureza mesma do Estado que vai se política do Governo Geral e do poder das Câ-
implantar aqui, sua exclusiva atuação discricio- maras Municipais; 3) 1700-1750 – início da efe-
nária, coercitiva, tributária vis-à-vis ausência de tivação da centralização político-administrativa

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e enfraquecimento do poder municipal; 4) 1750- absoluta no período colonial, o Brasil indepen-
1777 – auge da perspectiva de um Estado cen- dente também não se libertou inteiramente da
tralizador e reformista; 5) 1777-1808 – crise do pressão externa, da hegemonia imperialista dos
Antigo Regime e emergência de movimentos ingleses e depois dos norte-americanos.
nativistas; 6) 1808-1831 – Implantação do Es- No Brasil colonial, as relações entre o poder
tado Nacional brasileiro; 7) 1831-1840 – perío- local e o metropolitano foram marcadas por um
do de avanços e recuos na democratização do misto de tensão, autonomia e compromisso. Se
Estado Nacional brasileiro; 8) 1840-1888 – auge as Câmaras Municipais tiveram relativa autono-
da centralização do Estado Nacional brasileiro; mia durante certo tempo, com a imposição dos
9) 1888-1916 – com a Abolição, 1888, a Repú- “juízes-de-fora”, o poder metropolitano, efetiva-
blica, 1889, a Constituição, 1891, e o Código mente, limita esta autonomia. Esse processo, a
Civil, 1916, constituição do Estado burguês no busca de efetiva hegemonia sobre a Colônia, in-
Brasil (SAES, 1985). tensifica-se no século XVIII, em Minas Gerais,
A mais marcante das características do Es- daí decorrendo duas conseqüências: 1) a consti-
tado no Brasil, desde sempre, é a sua perma- tuição, na Colônia, de um amplo aparato estatal e
nente impermeabilidade para a democracia. o exercício de um poder quase sempre discricio-
Privatizado, explicitamente, no período das ca- nário por parte desta estrutura jurídico-político-
pitanias hereditárias, foi “oligarquizado” durante administrativa e 2) a constituição, por contraste e
o restante do período colonial. Não foi diferen- contradição, de um conjunto de interesses e su-
te o quadro no período imperial. E se, na Repú- jeitos atingidos pela imposição do Estado. Veja-
blica, não dominam mais os interesses dos se o que diz Décio Saes:
cafeicultores e seus aliados, dominam outras Para que a implementação dessas medidas não
oligarquias, as bancárias e financeiras, os gran- fosse frustrada pela resistência das classes domi-
des grupos estrangeiros, como o comprova, nantes locais, era necessário o fortalecimento do
ramo central do aparelho do Estado (= governo
cotidianamente, a atual política de Estado no
central): mais tropas armadas, mais fiscais, impo-
Brasil e suas privatizações e sua explícita sub- sição dos “juízes-de-fora” (nomeados pelo gover-
missão à ordem internacional excludente. no absolutista português) como autoridades
supremas das “Câmaras Municipais”, criação de
Outra característica permanente do Estado
um novo órgão burocrático, simultaneamente fis-
no Brasil é a sua relação de subordinação a inte- calizador, judiciário e coletor – a Intendência – na
resses externos. Se isso era imposição formal e região aurífera. A contrapartida desse processo

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

foi o progressivo enfraquecimento das câmaras Na verdade, considerando-se uma perspec-


municipais, agora dominadas por funcionários
tiva ampla sobre a natureza e funções do Estado,
do governo central. (SAES, 1985, p. 96)
no sentido de “Estado ampliado”, tal como o
A máquina judiciária montada em Minas trabalhado por Althusser, tem-se, em Minas Ge-
Gerais também reflete o cuidado da Metrópo- rais, uma efetiva ampliação do aparato estatal.
le com o controle da capitania. Enquanto em Um aspecto particularmente expressivo
outras capitanias o aparato judiciário está con- desta busca de ampliação da influência e con-
centrado numa única comarca, em Minas Ge- trole estatal é o referente às relações entre Igre-
rais, no período colonial, serão instaladas quatro ja e Estado em Minas Gerais. Diferente da
comarcas (Vila Rica, Rio das Mortes, Sabará e tradição de outras capitanias, em Minas Gerais,
Serro), distribuídas pelo território de forma a durante o período colonial, será praticamente
garantir a proximidade da imposição da lei nula a presença das ordens religiosas. Disto re-
(LIMA JR., 1965, p. 25). sultou que a vida religiosa em Minas Gerais não
No referente à estrutura arrecadadora, em tenha sido marcada pelo influxo contra-refor-
Minas Gerais constituiu-se sistema híbrido em mista, que caracterizou a ação dos jesuítas.
que alguns tributos eram arrecadados diretamen- A conseqüência mais importante disso é a
te pelo Estado (“quintos” sobre o ouro e os manutenção, em Minas Gerais, de uma prática
diamantes), enquanto os outros tributos eram religiosa em grande medida pré-reformada, isto
arrecadados segundo o regime de “contratos” é, com fortes vínculos com a religiosidade me-
arrematados por particulares mediante leilões. dieval em que há decisiva participação dos lei-
Vale a pena o registro de que entre os tri- gos, vis-à-vis, uma menor influência dos clérigos.
butos arrecadados indiretamente pelo Estado A proibição das ordens religiosas, em Mi-
estão os “dízimos” destinados à Igreja. Essa cir- nas Gerais, a partir de 1709, foi explicada assim,
cunstância, a interveniência do Estado na em 1780, por Teixeira Coelho:
arrecadação e distribuição dos dízimos, fruto Os Frades de diversas religiões, levados pelo espí-
da posição de mestre da Ordem de Cristo, atribu- rito do interesse, e não do bem das Almas, acres-
to dos reis portugueses, desde a época medie- centaram em grande parte o número do povo:
eles, como se fossem seculares, se fizeram minei-
val, por concessão papal, significou na prática a
ros, e se ocuparam em negociações e em adquirir
subordinação do clero português, sobretudo o cabedais por meios ilícitos, sórdidos e impróprios
secular, ao interesse do Estado. de seu Estado. (COELHO, 1903, p. 448)

99
Não menos culpados e dignos de descon- Eram essas instituições que regulavam-orga-
fiança, aos olhos de Teixeira Coelho, Desembar- nizavam-garantiam diversas manifestações da
gador do Tribunal da Relação do Porto, eram os vida social: a assistência social, as festas, a de-
padres seculares. Diz ele: fesa de interesses individuais e coletivos. São
as Irmandades que se encarregam de realizar
Os clérigos são revoltosos; que faltam com pas-
to espiritual às ovelhas, que são ambiciosos, si- batizados, casamentos, funerais, que são naque-
moníacos, e que são rebeldes em pagar os le contexto, sobretudo, atos de afirmação da
quintos, pertencendo não mais a isto obriga- cidadania. De tal modo que a vida social na
dos, ocultando os Escravos na repartição das
capitania, que a dimensão pública e cidadã da
Bateias. (COELHO, 1903, p. 448)
vida na capitania, passam, necessariamente,
Há uma série de conseqüências políticas, pelas Irmandades.
sociais, culturais e, claro, religiosas decorrentes Existem muitos trabalhos importantes so-
da proibição das ordens religiosas em Minas bre o papel das irmandades em Minas Gerais.
Gerais no período colonial. A mais saliente de- Entre esses, são dignos de nota, o livro de Fritz
las é que, de fato, a religiosidade em Minas Teixeira de Salles – Associações religiosas do Ciclo
Gerais, até a Reforma de Dom Viçoso, em do Ouro, de 1963, e o livro de Julita Scarano –
1850, manteve-se pré-tridentina, leiga e, relati- Devoção e escravidão, de 1976. Estudo abrangen-
vamente, menos sujeita à austeridade e rigor da te sobre o tema é o que realizou Caio César
contra-reforma. Boschi – Os leigos e o poder, de 1986. Neste livro,
As instituições fundamentais da vida reli- há a explicitação do fundamental no referente
giosa, em Minas Gerais, que vigoraram nesse ao papel das Irmandades em Minas Gerais. Res-
contexto, foram as Irmandades, as Ordens ter- ponsáveis pela construção de capelas e igrejas,
ceiras, as Pias Uniões, as Confrarias e Arqui- congregando homens livres e escravos, bran-
confrarias. Estas instituições, pela abrangência cos, pardos e negros, os “homens bons” e os
de sua presença na capitania, pela atração que “desclassificados” da terra, as Irmandades são
exerceram sobre todas as camadas da popula- associações que visam a assistência social e espi-
ção tornaram-se, na verdade, as mais expressi- ritual de seus membros, sendo, nesse sentido, os
vas, senão as únicas formas de exercício de mais importantes, porque permanentes e gene-
sociabilidade autônoma, organismos por exce- ralizados, organismos da sociedade colonial em
lência e quase exclusividade da sociedade civil Minas Gerais. E é exatamente por esta centrali-
na capitania. dade que tinham na vida social da Colônia que as

100
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Irmandades atraíram a atenção e o crivo do Es- Ao contrário, o que se verifica é que, por inter-
tado metropolitano. Diz Caio Boschi: médio das irmandades, a religião em Minas Ge-
rais per maneceu sendo um dos seus
Por isso, repita-se, nas Minas Gerais, pertencer a
uma irmandade era condição indispensável, mes- sustentáculos, isto é, para além de ser uma for-
mo depois da morte, pois nem todos possuíam ma de consolação dada por Deus aos homens,
sepultamento garantido. Daí, a sua grande rele- também ali deveria funcionar como – “o me-
vância histórica e social na região. Daí os olhares
lhor ou mais seguro meio para conservar a
atentos e diligentes que sobre elas arremessava a
Metrópole. Ao vislumbrar nas irmandades um tranqüilidade e a subordinação necessária para
importante aliado, o Estado lançou mão de vári- os povos” (BOSCHI, 1986, p. 105).
os estratagemas para obter o seu apoio, um dos De tal modo é a ação do Estado nas Minas
quais, o essencial, o auxílio financeiro. (BOSCHI,
1986, p. 106-107) Gerais que se configurará, desde o período co-
lonial, uma precoce engenharia de dominação
Assim, deu-se a apropriação e o controle, política que mesmo inventa seus “aparelhos ide-
por parte do Estado, de instituições nascidas ológicos”, que se apresenta como “Estado am-
da própria ausência deste no campo social – “As pliado”. Essa característica, a precoce, ampla e
irmandades, já se disse, nasceram como forma “moderna” presença do Estado, marcante na
de expressão local, em virtude de consciente história das Minas desde a Colônia, explica a
omissão do Estado, cumprindo função social posição de destaque que Minas Gerais teve na
extremamente importante na mutualidade. Ao política brasileira no período imperial e em gran-
subvencioná-las o Estado detinha o controle de de parte do período republicano. Os mineiros
suas ações” (BOSCHI, 1986, p. 105). foram acostumados ao Estado desde há muito.
Trata-se, assim, de estratégia que buscou Dessa relação, nasceram aptidão e experiência
anular-controlar as únicas formas efetivas da para lidar com a maquinária estatal; nasceram
vida associativa na Colônia e que teve afinal, cooptação, adesão e manipulação, uso da má-
sucesso, porque, de fato, as irmandades não fo- quina pública como moeda de troca de favores
ram instrumentos contestatórios, funcionando, e benesses; nasceram revoltas e repúdio como
ao contrário, como elementos estabilizadores- se viu no movimento da Conjuração, na revolta
sancionadores da ordem colonial – “A religião contra a consolidação autoritária de Pedro I,
nas minas coloniais, encarnada nas irmandades, na Revolução de 1842, na ação republicana de
não foi fator de contestação do Antigo Regime. Teófilo Otoni... Uma análise da trajetória da vida

101
política em Minas Gerais está em A importância circunstâncias decorrentes da estrutura da pro-
de Minas na política nacional, de Souza Sobrinho priedade, do regime de trabalho, da tecnolo-
(1973). José Honório Rodrigues, em Conciliação gia, da estrutura urbana, da presença e natureza
e reforma no Brasil, livro de 1965, mostra o quan- do Estado, do padrão de distribuição de ren-
to a estratégia da “conciliação” foi fundamental da, da estrutura tributária, do padrão monetá-
na consolidação do poder das elites brasileiras e rio e da dinâmica dos mercados verificados em
o quanto os políticos mineiros foram impor- Minas Gerais.
tantes na engenharia destes expedientes.
Inicie-se a discussão considerando o fato de-
cisivo da escravidão como forma dominante de
A estrutura social
trabalho em Minas Gerais no período colonial.
Hoje, sabe-se não ser possível sustentar vi- A capitania receberá consideráveis contin-
são sobre a estrutura social do Nordeste brasilei- gentes de escravos durante os séculos XVIII e
ro, no período colonial, como baseada numa XIX, tornando-se, tanto no período colonial
desigual e absoluta dicotomia entre uma peque- quanto na época do Império, a capitania, e de-
na camada de grandes proprietários e uma am- pois a província mais populosa do Brasil, seja
pla população escrava. Trabalhos como o de considerando-se o conjunto da população, seja
Stuart Schwartz, Segredos internos (1988), vieram considerando-se apenas a população escrava.
mostrar um quadro mais nuançado e diversifi-
cado, tanto da estrutura social quanto da estru- TABELA 19
tura econômica do Nordeste. De qualquer População escrava em Minas Gerais
forma, quando comparado com o que ocorreu 1719-1873
em Minas Gerais, é notável a diferença. Minas
Gerais apresentará, no período colonial, tanto ANOS ESCRAVOS
1719 33.000
do ponto de vista econômico, quanto do ponto
1742 94.128
de vista social e cultural, padrões insuperados
1746 163.240
no conjunto da Colônia, no referente à diversi- 1786 174.135
ficação e complexidade de suas estruturas. 1808 148.772
Tanto a diversificação quanto a complexi- 1821 181.882
dade, verificadas nos campos econômico, so- 1873 381.893
cial e cultural da capitania mineira, refletem as FONTE – MARTINS, 1982; GORENDER, 1978.

102
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Se foi importante a presença de escravos na existência, durante todo o período colonial em


produção mineratória, esta atividade (ao contrá- Minas Gerais, de estrutura mais desconcentra-
rio da economia açucareira, que exigia volumes da no que diz respeito à posse de escravos. Mes-
consideráveis de capital e trabalho) comportou a mo a estrutura fundiária foi mais desconcentrada
existência do minerador autônomo, sem escra- em Minas Gerais que na economia açucareira
vos, o “faiscador”, determinando uma situação nordestina, à medida que grande parte da econo-
nova na Colônia com conseqüências tanto sobre mia mineira estava voltada para a mineração e o
a estrutura da posse de escravos quanto sobre a que conta nesta atividade é menos o tamanho da
propriedade e a renda em geral. área, mas, sobretudo, a quantidade e qualidade
O sentido geral desse processo foi a de mineral precioso encontrado na data mineral.

TABELA 20
Proprietários: distribuição quanto aos escravos
possuídos em Minas Gerais (1718-1804)

NÚMERO DE PARTICIPAÇÃO NO TOTAL DOS PROPRIETÁRIOS


ESCRAVOS
Pitangui Serro do Congonhas São Caetano Vila Rica
POSSUÍDOS
Frio do Sabará
1718 1723 1738 1771 1790 1804 1804
1 4,1 16,3 37,6 26,8 33,1 19,2 35,3
2 24,4 17,0 18,4 17,4 19,4 21,2 19,6
3 4,1 15,6 10,1 14,0 9,7 18,3 12,6
4 14,3 9,6 7,8 5,5 9,7 4,8 9,6
5 10,2 11,1 4,5 7,2 3,2 6,7 5,2
1a5 57,1 69,6 78,4 70,9 75,1 70,2 82,3
6 a 10 30,6 15,6 12,0 12,8 16,1 15,4 12,2
11 a 20 8,2 8,9 5,9 12,8 6,4 8,7 4,4
21 a 40 4,1 4,4 2,8 2,6 2,4 2,9 0,8
41 e mais – 1,5 0,9 0,9 – 2,8 0,3

FONTE – COSTA e LUNA, 1982.

103
Da tabela depreende-se, que apesar de osci- “democracia” nas relações escravistas prevalecentes
lações e diferenças temporais e regionais, preva- na região mineratória. Jacob Gorender, em seu O
leceu, por todo o período, a tendência de que a escravismo colonial, diz:
grande maioria dos proprietários tivesse até 5
com a ressalva que merecem tais comparações, pode-
escravos, sendo o ponto de maior concentração se afirmar que o regime de vida do escravo na mine-
relativa o referente à região de Pitangui, em 1718, ração não foi melhor do que nas plantagens de cana
quando 57,1% dos proprietários tinham até 5 ou de café. Sob alguns aspectos, foi indiscutivel-
escravos, enquanto 30,6% deles tinham entre 6 a mente pior. Em especial, no referente às condições
de trabalho. (GORENDER, 1978, p. 442).
10 escravos. O ponto de maior desconcentração
relativa é o referente a Vila Rica, em 1804, quando O que se quer afirmar é que a capitania
82,3% dos proprietários tinham até 5 escravos e mineira não só teve o maior contingente de
12,2% detinham de 6 a 10 escravos. escravos, mas a que também teve a mais diver-
Como contraponto, lembre-se de que os sificada das estruturas sociais da Colônia. Lem-
engenhos açucareiros nordestinos chegaram a bre-se aqui, texto de José Carrato, que,
empregar centenas de escravos, determinando reportando-se ao Livro de devassas (Visitações
tanto uma concentração fundiária absoluta Eclesiásticas de Minas Gerais), referente aos
quanto uma significativa concentração de pos- anos de 1733-34, dá conta da existência de uma
se de escravos por proprietário. estrutura de ocupações na capitania, que agru-
Tudo isso não deve ser entendido como uma pada em sete categorias gerais revela um cro-
eventual melhor “qualidade de vida”, ou maior matismo social considerável.

QUADRO 5
Estrutura Ocupacional / Minas Gerais – 1733/34
CATEGORIAS OCUPAÇÕES
1. Agricultores 1. os que vivem de suas roças
2. os que vivem de seus engenhos
2. Artesãos alfaiates; carapinas; ferradores; ferreiros; entalhadores; marceneiros; ourives; pedreiros;
pintores; sapateiros; seleiros; tanoeiros; torneiros
1. os que vivem de sua agência
3. Comerciantes 2. os que vivem de seu negócio

104
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

QUADRO 5
Estrutura Ocupacional / Minas Gerais – 1733/34 (continuação)
CATEGORIAS OCUPAÇÕES
4. Mineradores 1. os que vivem de suas faisqueiras
2. profissionais da mineração
3. os que vivem de mineirar
5. Mineradores/Agricultores os que vivem de suas lavras e roças

6. Oficiais funcionários régios; militares ou titulares


7. “Profissionais Liberais” padres, freiras, cirurgiões, músicos e professores

FONTE – CARRATO, 1968.

Se é amplo o espectro de atividades e ocu- Paiva sobre as listas nominativas dos habitantes
pações nas Minas no período colonial, no sécu- de distritos de paz em Minas Gerais, em 1831-
lo XIX há ampliação desse quadro, como 32 e 1838-40. Destas listas, é possível organizar
comprovam os estudos de Clotilde de Andrade o seguinte quadro geral de ocupações:

QUADRO 6
Estrutura de Ocupações/Minas Gerais
1831-32/1838/40
SETOR GRUPOS DE ATIVIDADES
I. Lavoura 11 grupos de atividades
II. Pecuária 3 grupos de atividades
III. Comércio 8 grupos de atividades
IV. Mineração 2 grupos de atividades
V. Fiação e Tecelagem 4 grupos de atividades
VI. Artes e Ofícios 10 grupos de atividades
VII. Funções Públicas 4 grupos de atividades
VIII. Serviços e outros 10 grupos de atividades

FONTE – PAIVA e ARNAUT, 1990.

105
Outros trabalhos, como o de Marco Antô- Nordeste açucareiro. Diz Schwartz:
nio Silveira, trazem novos elementos para a con-
Embora existissem alguns engenhos que ope-
firmação da existência em Minas Gerais, no século rassem com menos de quarenta escravos, na
XVIII, a partir do exame de fontes primárias, de Bahia a maioria deles possuía entre sessenta e
estrutura social complexa e diversificada. Com base oitenta, número esse que podemos supor como
nos documentos das devassas civis em Ouro Pre- sendo o mínimo necessário para o funcionamento
eficaz. (SCHWARTZ, 1988, p. 136)
to, entre 1750 e 1769, é confirmada tanto a diver-
sificação da estrutura ocupacional quanto a Se é possível falar-se de uma certa “classe
existência de uma “ocorrência simultânea de vasta média” em Minas Gerais, nos séculos XVIII e
fragmentação de parte da riqueza – significando, XIX, com alguma expressão quantitativa, re-
em larga medida, uma distribuição da pobreza – e gistre-se também a extensa camada de pobres
de uma tendência à concentração” (SILVEIRA, 1997, que vincaram a fisionomia da região, desde a
p. 94). Isto é, há uma majoritária parcela dos pro- pioneira página de Antonil, em 1711, passan-
prietários que detém, em média, poucos escravos, do pelo registro, do final do século, 1780, de
enquanto uma pequena parte dos proprietários Teixeira Coelho, até o quadro visto pelos via-
controla a maior parte dos escravos. Diz Silveira: jantes estrangeiros do início do século XIX,
Podemos verificar claramente o processo de con- que fixaram a extensão da pobreza da região
centração por meio dos dados expostos acima, naquele momento.
referentes ao distrito mais populoso da vila. De
Laura Mello e Souza, em mais de um texto,
um lado, a maioria das lojas possuía de um a
quatro escravos (73); boa parte delas não tinha chamou a atenção para a ampla presença desses
escravo algum (22); em sete lojas, havia entre cin- “desclassificados”, dos “homens livres pobres”
co e nove cativos e em outras seis, mais de dez. na paisagem social mineira (1982). Eduardo Fri-
Em outras palavras, 67,6% das lojas controla-
vam 55,3% dos cativos, com média de 1,8 escra-
eiro, vê assim o fenômeno:
vos por loja; 6,5% delas possuíam 17,1% de O inglês John Mawe visitou-a em 1809. Foi o pri-
escravos, com média de 6,0; e apenas 5,5% ti- meiro estrangeiro que teve licença para penetrar
nham 27,6% deles, com uma relação de 11,3. De nos distritos de ouro e dos diamantes. Os privilé-
um total de 108 lojas e 246 cativos, somente 13 gios, de que os súditos britânicos gozavam em
das primeiras (12%) concentravam 110 dos últi- Portugal e seus domínios, haviam-lhe conferido
mos (44,7%). (SILVEIRA, 1972, p. 93) tal primazia. No seu relato de viagem o inglês de-
clarou que ficara admirado da pobreza da capital
De qualquer modo, mesmo esta concen- mineira e contou que, conversando com alguns
tração não se compara à que predomina no dos principais comerciantes vila-riquenses sobre

106
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

a enorme quantidade de ouro que era fama ter-se Herdeira de um mundo estamental, mas profun-
produzido ali, aqueles pareceram contentes por damente marcado pela inconstância do ouro, ela
terem a oportunidade de lhe dizer que todo o ouro buscava sobreviver em meio a valores opostos e
ia para a Inglaterra, um deles acrescentando que a em choque. Sua indistinção não estava na ausên-
cidade devia chamar-se na atualidade Vila Pobre, cia de classificação, mas sim na dificuldade de se
em vez de Vila Rica. (FRIEIRO, 1957, p. 169-170) compreender o lugar de cada um em um univer-
so cujos critérios de ordenação eram díspares e
Rigorosamente, trata-se de reconhecer que em flexíveis. Sempre houve estratificação nas Minas;
Minas Gerais, desde o século XVIII, constituir- mas, qual a importância do dinheiro nela? A ri-
se-á tecido social complexo, hierarquizado, em que queza era capaz de igualar doutores e comerci-
antes? Até que ponto a necessidade deveria
de permeio à polarização básica, senhores x escra- respeitar obrigações e lealdades? Era possível a
vos, desenvolve-se uma larga faixa em que vivem, ascensão de negros e pardos mediante a riqueza
relacionam-se, reproduzem-se os “homens livres e patentes? Era exatamente essa flexibilidade das
pobres” e diversas categorias sócio-econômicas in- referências que fazia das Gerais um universo do
indistinto. (SILVEIRA, 1997, p. 139)
termediárias. É o quadro que analisa Luciano Fi-
gueiredo em O avesso da memória: E aqui, de novo, depara-se com o singular
Todos os estudiosos do tema parecem concordar da trajetória da modernidade em Minas Gerais.
no sentido de que nesta região constituiu-se uma Moderna no apagamento parcial das diferenças
sociedade sui generis com uma população predomi- estamentais, moderna no sentido de criar uma
nantemente distribuída por centros urbanos e onde
o desenvolvimento das atividades primárias cha-
estrutura social cromática, moderna no sentido
mava a si uma série de funções terciárias. A partir de permitir a mobilidade social, de ampliar os es-
daí, é notável o surgimento entre proprietários e paços da vida privada, de consolidar uma efetiva
escravos de uma camada média, intermediária,
dedicada a profissões urbanas de trabalho livre e
vida urbana, de criar condições para o surgimen-
autônomo, percebendo muitas vezes um salário to de relações de assalariamento. Minas Gerais
em troca de serviços. (FIGUEIREDO, 1993, p. 27) permitiu-se tudo isso nos limites de uma imposi-
Há, no fundamental, em Minas Gerais, uma ção estrutural – a condição colonial. É essa, no
fluidez social que, sem significar rompimento fundamental, a motivação e a explicação profun-
com a estratificação, permitia interação e trans- da da “Conjuração Mineira”, que é a tentativa, tam-
gressão, conflitos, disputas, permissividade e bém limitada, de autonomização de uma sociedade
alteridade de costumes e práticas que já não são que tinha adensado suas relações econômicas, po-
as de uma sociedade tipicamente estamental e líticas, sociais e culturais, o suficiente para se cho-
patriarcal. Diz Marco Antônio Silveira: car com os limites da condição colonial.

107
108
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Vida política e cultural em Minas Gerais:


a dialética do nacional-popular

109
110
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

A historiografia contemporânea já fez a


crítica do equívoco que é tomar a história do
Não se trata de processo acabado. Pesam-
nos, ainda, demasiadas ambigüidades e perple-
Brasil como sendo inaugurada pela expedição xidades sobre o que somos, como povo e Nação.
cabralina. No essencial, trata-se de reconhecer que Paulo Emílio Salles Gomes, numa página notá-
o Brasil é mais velho e mais novo que a viagem vel, como de hábito, disse:
de Cabral, que suas raízes se afundam, de um
Não somos europeus nem americanos do norte,
lado, na gênese dos povos indígenas, que, há mi- mas destituídos de cultura original, nada nos é es-
lhares de anos, habitam o continente, e, de outro trangeiro, pois tudo o é. A penosa constituição de
lado, no mais recente do século XVIII, quando nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita
entre o não ser e o ser outro. (GOMES, 1973, p. 58).
se constrói a idéia de Brasil-Nação. O Brasil, nesse
sentido, é uma realidade compósita, sincrética, do Também importante é o referente à ten-
ponto de vista étnico-cultural. A idéia do Brasil, sionada relação entre a sociedade e o Estado no
como realidade dotada de identidade, é uma cons- Brasil. Se temos dificuldades em afirmar nossa
trução histórica, é invenção que tem início no identidade nacional, mais temos dificuldades em
século XVIII e que se afirma no processo da In- aceitar o Estado, que, historicamente, nunca se
dependência-Abdicação. manifestou aqui como instrumento de garantia

111
de direitos coletivos. Daí a desconfiança, a rei- Trata-se, no fundamental, de explicar como
teração de práticas e mentalidades que desqua- e porque o complexo de sistemas nascidos em
lificam o Estado como sujeito legítimo no Minas Gerais – um sistema literário; uma esco-
encaminhamento de certas questões. Daí a re- la musical; uma pintura e uma arquitetura; um
cusa ao pagamento de impostos, daí a culpabi- ethos urbano; um falar e hábitos alimentares es-
lização permanente do Estado tomado como pecíficos – não resultou em efetiva cultura na-
parasitário, ineficiente e corrupto. Se pode ha- cional-popular.
ver exagero nestes juízos, não se pode negar o Harold Bloom disse:
quanto a, no mínimo bisonha, trajetória do Es-
Qualquer poema é um interpoema e qualquer lei-
tado no Brasil contribuiu para isto.
tura de um poema é uma metaleitura. Um poema
No que interessa discutir aqui, trata-se de não é escritura, mas re-escritura, e, apesar de um
buscar traçar a singularidade da vida política e poema forte ser um novo ponto de partida, esse
início é sempre um reinício. (BLOOM, 1994, p. 15)
cultural, tal como se verificaram em Minas Ge-
rais, a partir do século XVIII, como fundantes E nisso já estamos mergulhados na rede, na
do processo de construção nacional, processo trama ultra-intrincada que é o sistema cultura.
este que pode ser caracterizado como marca- Toda a literatura, todas as artes, todo o pensa-
do pela dialética da afirmação/bloqueio do na- mento, toda a filosofia, não são senão diálogos
cional-popular. Colocando a questão em termos cruzados, cujas referências básicas todos reco-
“gramscianos”, trata-se de buscar entender as nhecem como fundantes da civilização, da cultu-
vicissitudes de um projeto de construção de uma ra. Todos os poemas remetem a Homero, como
cultura nacional-popular que, inicialmente, rica toda a filosofia remete-se às cosmogonias, aos
e fecunda, acabou por estiolar-se, não realizan- sofistas, a Sócrates, a Platão, a Aristóteles. Todo
do suas mais caras promessas de ser expressão poema, toda narrativa, por mais originais que se-
da universalização de direitos sociais, democra- jam, são sempre o refazimento de um diálogo.
tização do poder e da cultura. Trata-se, assim, de entender a cultura como
O que se vai buscar aqui é entender tanto “sistema”. Sistema “simbólico” e “material”
as determinações da emergência de um signifi- composto de: 1) “símbolos”, material simbóli-
cativo embrião da cultura nacional-popular em co, expresso sob a forma de “obra”; 2) “produ-
Minas Gerais, a partir do século XVIII, quanto tores de símbolos”; 3) “receptores de símbolos”.
as razões de sua atrofia e abortamento. Esses três elementos pressupõem a existência

112
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

de um tecido comum que os liga, permitindo a total da nação, sem efetivos compromissos es-
senciais com as velhas classes, mas, pelo contrá-
interação simbólica e que é dada pelas referên-
rio, subordinando-as às próprias finalidades.
cias comuns, da “língua”, do “meio” e do “de-
(...) Esta maciça construção intelectual explica a
senvolvimento histórico-material” (CÂNDIDO, função da cultura francesa nos séculos XVIII e XIX,
1964, 1o v., p. 25). funções de irradiação internacional e cosmopolita
e de expansão de caráter imperialista, hegemônico
Tudo isso aponta na direção de ver a cultu- de modo orgânico, conseqüentemente muito di-
ra como espaço por excelência da formação das versa da italiana, de caráter imigratório, pessoal e
identidades coletivas. Isto é, a cultura como sín- desagregado, que não reflui sobre a base nacional
para potenciá-la, mas, pelo contrário, concorre para
tese dos processos subjetivos-objetivos a partir
impossibilitar a constituição de uma sólida base
dos quais as sociedades constituem seus meca- nacional. (GRAMSCI, 1968, p. 17)
nismos de integração e produção de hegemo-
nia: língua, literatura, sensibilidade, imaginário, O sistema cultural traduz o inumerável do
formas de organização, símbolos, crenças, va- espírito humano; sua diversidade é a realização
lores, hábitos, ethos, sonhos... da liberdade. É, sobretudo, como atributo da
liberdade que se poderá explicar as diferenças
Cada sociedade produzirá uma configura-
ção particular das relações entre a cultura e o culturais, o fato permanentemente surpreen-
todo social. Num extremo, ter-se-ia o caso do dente da criatividade, da invenção, que faz da
mandarinato chinês em que os intelectuais, como trajetória cultural a tessitura permanente de sig-
produtores da estrutura simbólica, são a pró- nificados diversos e coletivos. No sentido de
pria expressão da dominação direta. No outro Clifford Geertz:
extremo, poder-se-ia invocar o iluminismo fran- O conceito de cultura que eu defendo, (...), é
cês como resultado de uma cultura eminente- essencialmente semiótico. Acreditando, como
mente integradora e emancipatória. Nas palavras Max Weber, que o homem é um animal amarra-
do a teias de significados que ele mesmo teceu,
de Gramsci: assumo a cultura como sendo essas teias e a sua
análise; portanto, não como uma ciência expe-
A França fornece um tipo completo de desen-
rimental em busca de leis, mas como uma ciên-
volvimento harmônico de todas as energias na-
cia interpretativa, à procura do significado.
cionais e, particularmente, das categorias
(GEERTZ, 1989, p. 15)
intelectuais. Quando, em 1789, um novo agru-
pamento social aflora politicamente à história,
ele está completamente apto para todas as suas Assim, tanto Bloom quanto Gramsci quan-
funções sociais e, por isso, luta pelo domínio to Geertz, em que pese todas as diferenças que

113
têm, apontam para um sentido de cultura que é afirmação da liberdade criadora, da construção
essencial para o argumento que está sendo de- de uma identidade nativista, nas palavras de Lou-
senvolvido aqui: cultura como sistema de refe- rival Gomes Machado – “Se o barroco europeu
rências cruzadas, como realidade intertextual, foi a expressão do despotismo dominador, o
como produtora de identidades coletivas, como barroco brasileiro o foi da liberdade criadora.”
teia de significados. Do que decorre o seguinte: (MACHADO, 1973, p. 150).
quanto mais complexa e tensa a trama, a tessitu- Considere-se, também, parte decisiva des-
ra, mais rica a cultura e mais amplos os horizon- se processo de construção cultural o referente à
tes emancipatórios, as perspectivas de autonomia, vida política. É de Gramsci a tese sobre a du-
de desenvolvimento includente e democrático. pla dimensão da hegemonia – “a política e a
Também nesse sentido a trajetória histó- cultura”. E, também nesse sentido, Minas Ge-
rica de Minas Gerais apresenta especificidade rais terá, não por acaso, lugar de destaque no
no quadro brasileiro. Se são fortes na região as panorama da Colônia à medida que vai abrigar
manifestações de cultura popular em variados o primeiro movimento que questiona, de algu-
aspectos, também se deu naquele local uma com- ma forma, o estatuto colonial. A Conjuração
plexa apropriação de formas e linguagens da cul- Mineira, como se insiste em dizer-se hoje, até
tura erudita conformando o que Otto Maria nos limites e ambigüidades de seus propósitos,
Carpeaux chamou de “paisagem cultural”. revela aspectos essenciais, tanto de Minas Ge-
Trata-se, assim, de reconhecer, nos confins rais quanto da história brasileira.
daquela terra colonial, a emergência de uma rede
Um sistema cultural
cultural em que pintores, arquitetos, escultores,
músicos, escritores, artesãos produziram, molda- Diga-se logo que, ao se falar de um sistema
ram, construíram uma fisionomia em que os sig- cultural, não se quer considerar apenas o refe-
nos e modos adventícios são transformados, rente às artes, ao discurso letrado, que também
aclimatados à cor local. No essencial, é impor- o cotidiano e suas várias tramas são partes do
tante considerar os processos que determinaram sistema cultural. Essa realidade pletórica, que
que uma cultura nascida do impulso contra-re- rigorosamente é inumerável, tantas são suas di-
formista, o Barroco, subordinada à uma imposi- mensões, desafia definições e circunscrições.
ção absolutista, ao reforçamento do poder Trata-se de ver a cultura como, sobretudo, o
colonial, tornou-se, em Minas, instrumento de espaço da diferença, onde o novo está sempre

114
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

em gestação, onde a tradição e a ruptura vivem literatura, pela música, pela arquitetura que pro-
tensão permanente. duziram, mas, também, pela forma como inven-
Alceu Amoroso Lima, em Voz de Minas, pro- taram suas comidas, e apropriaram-se da língua
cura entender a cultura em Minas Gerais circuns- portuguesa.
crevendo-a. Diz ele: No referente à alimentação dos mineiros,
lembre-se de que, se esse é aspecto cultural, é
A cultura de um povo é sempre um conjunto de
atividades pedagógicas, artísticas, científicas, também, e essencialmente, um fenômeno his-
filosóficas, éticas e religiosas. Procuraremos ver tórico-econômico. Assim, não há como não con-
se existe, em algumas dessas atividades, quais- siderar a dimensão social e econômica do
quer características especificamente mineiras.
processo, que é aquela que atribuirá os diferen-
(LIMA, 1945, p. 119-120)
tes níveis de acesso e formas de produção e
Em que pese a abrangência que o autor dá consumo dos alimentos. Nesse sentido, a con-
ao conceito de cultura, ele é restritivo. Fixou-se clusão a que se chega hoje, 1998, é a mesma a
apenas nas formas de sua produção mental, que chegou Eduardo Frieiro, em 1966:
deixando de lado manifestações fundamentais
Considerada em bloco, a população mineira está
da cultura – as técnicas do cotidiano, a culinária, mal alimentada, fato que certamente corre por
as festas, a prosódia, o artesanato, as maneiras conta da pobreza econômica. No interior rural e
de sociabilidade e convívio. De tal modo que nas favelas da capital é notório o estado de suba-
limentação que se observa nas classes mais des-
se a cultura é constelação “estética” é, também, favorecidas, num quadro de miséria que apresenta
constelação “antropológica”. quase invariavelmente os mesmos aspectos: ig-
Nesse último sentido, citem-se dois exem- norância e atraso, prole numerosa, desocupação
e fome. (FRIEIRO, 1966, p. 34)
plos. O primeiro é o ensaio de Eduardo Friei-
ro, Feijão, angu e couve, de 1966, que leva o subtítulo Lembre-se de que, se a alimentação é um
“Ensaio sobre a comida dos mineiros”. O ou- fato cultural, é, também, um fato histórico, que
tro exemplo é o texto de José A. Teixeira, O se transforma ao longo do tempo, que não ad-
falar do mineiro, de 1938. Nos dois casos, há a re- mite juízos fixos. De qualquer modo, no que
velação de aspectos da cultura mineira, que são interessa discutir diretamente aqui, trata-se de
tão constituintes de sua identidade quanto o de- perguntar-se sobre a existência ou não, de uma
corrente de suas manifestações estético-religio- culinária, ou de hábitos à mesa tipicamente mi-
sas. Os mineiros caracterizam-se certamente pela neiros. A resposta de Eduardo Frieiro é que,

115
quanto à existência de uma culinária mineira, Assim, ainda que no quadro de uma eco-
deve-se admitir uma ambigüidade – existe e não nomia sem brilho especial, longe do curto e
existe uma comida tipicamente mineira, isto é, mítico esplendor do século XVIII, mantiveram-
que há elementos que são exclusivos da culi- se os traços essenciais de uma “civilização ur-
nária mineira e outras preferências que eles par- bana”, de um tipo de sociabilidade, de interação
tilham com outros brasileiros. (FRIEIRO, 1966, sócio-cultural, que não tiveram paralelo na Colô-
p. 274-275). No referente aos hábitos à mesa, Fri- nia e mesmo continuaram significativos no sécu-
eiro dá resposta igualmente equilibrada. Ele apon- lo XIX. O mencionado John Luccock, num sítio
ta para um aspecto geral, que marcou o conjunto próximo a São João del-Rei, pôde constatar no
da Colônia e mesmo grande parte do Brasil inde- jantar que lhe foi servido – “Além de muita prata
pendente, que foi a rudeza e a precariedade dos e louça inglesa, havia rosca da cidade, cerveja in-
mineiros à mesa, a prática comum de comer sem glesa engarrafada e bom vinho do Porto servido
o uso de talheres, entre outros costumes “inci- em cangirões de cristal lapidado”.
vilizados”, como talvez dissesse Norbert Elias. Esses luxos não eram raros nas casas abastadas.
De qualquer forma, entre as elites mineiras, vários Entre os bens seqüestrados aos inconfidentes mi-
viajantes, no início do século XIX, identificaram neiros, pessoas da melhor qualificação social, en-
contravam-se louças finas da Índia e de Macau e
hábitos, sociabilidade, que lhes pareceram mais outras de procedência inglesa e portuguesa, assim
civilizados que os prevalecentes em outras capi- como talheres de prata. (FRIEIRO, 1966, p. 105)
tanias. Diz Frieiro:
Do referido até aqui, não se deduza ho-
Mais de um viajante estrangeiro, ao penetrar no mogeneidade ou fixidez, que Minas Gerais tem
território de Minas, depois de ter conhecido São
várias regiões culinárias como também decisi-
Paulo, Rio de Janeiro, pôde observar que havia
mais luxo no vestir da gente mineira do que na vas clivagens e desigualdades socioeconômicas
de outras partes do país. Quase todos notaram que repercutem, permanentemente, sobre o
também, registrando-o em relatos de viagem, o quadro cultural.
que havia de acolhedor e afável no seu trato. O
mencionado John Luccokc, inglês atilado e ve- Se é esse o quadro no referente à questão da
raz, que não poupava críticas, às vezes malig- culinária, não é outro quando se considera o rela-
nas, aos defeitos de nossos costumes e às falhas tivo ao “falar mineiro”. Se é notória a existên-
da nossa organização social e econômica, lou-
cia de um “falar” típico do originário da região
vou a “civilidade calorosa” com que o trataram
nos lugares de Minas por ele percorridos em central das Minas, incluam-se outros falares nes-
1817. (FRIEIRO, 1966, p. 103) sa coleção de dialetos que é o falar mineiro: o

116
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

falar do Norte, são-franciscano, abaianado; o fa- Minas Gerais a partir do século XVIII. Inicie-se
lar do Noroeste, urucuirano, que tem algo dos por um aspecto geral que marca, decisivamente,
gerais de Goiás; o falar do Nordeste, do Jequiti- o conjunto da trajetória cultural mineira, e que é
nhonha-Mucuri, abaianado; o falar da Mata, do a extraordinária capacidade demonstrada pelos
Sul, do Triângulo... diversos. mineiros, ao longo do tempo, de se apropria-
José A. Teixeira, em seu estudo do falar rem dos influxos externos plasmando esses ele-
mineiro, apresenta as diversas características que mentos a partir de uma genuína “cor local”.
conformam o subdialeto mineiro no referente Trata-se, de reconhecer, de um lado, uma sinto-
à fonologia, morfologia, lexicologia e sintaxe, nia, com insuspeitada pequena defasagem tem-
apontando para um aspecto central que é a pe- poral, verdadeiramente impressionante, entre a
quena influência dos imigrantes estrangeiros produção cultural européia e a sua apropriação
sobre o falar mineiro (TEIXEIRA, 1938, p. 11) pela Colônia, e, de outro lado, a efetiva trans-
Trata-se, nesse sentido, de surpreender a criação processada na Colônia destes materiais
constituição de um subdialeto a partir da fusão metropolitanos. E isso é tão mais significativo
da contribuição, quase que exclusiva, do portu- quanto mais se considerem as precariedades dos
guês, da fala indígena e da fala africana, num con- sistemas de transportes e comunicações, entre
texto em que se ressaltam: a ausência da influência o sertão das Minas e a Europa.
educacional jesuítica, a interdição da imigração De qualquer modo, são inúmeros e siste-
de estrangeiros, uma forte presença africana, uma máticos e não puros acidentes, os exemplos de
sociedade com relativo grau de mobilidade, o rapidez e fluência com que os repertórios cul-
maior contingente populacional da Colônia, uma turais europeus foram assimilados e transfor-
estrutura produtiva diversificada, considerável mados nas Minas. E mais impressionante ainda
nível de urbanização e presença do Estado. O é como esses códigos da cultura erudita euro-
resultado da complexa interação desses elemen- péia não eram apenas “copiados”, mas resulta-
tos, no campo da cultura, foi a formação de um vam em efetivas apropriações em que a
efetivo “sistema cultural”, isto é, de um conjunto criatividade, a ampliação de significados, super-
articulado e interativo de elementos, que tanto punham-se e transcendiam a motivação da ma-
produziu instituições quanto símbolos, mentali- triz européia. Veja-se o exemplo citado por Júlio
dades e representações. Medaglia – “Professor Sr. Hans Holm, o sr. que é
Importa aqui tentar caracterizar o especí- diretor do arquivo nacional de Munique e a maior
fico desse sistema cultural que se formou em autoridade européia na música pré-clássica terá

117
tempo ilimitado para identificar o autor desta Colhendo ensinamentos em material da época
chegado da Europa, não tardaram a emancipar-
música, onde viveu e em que época” – ... Disse,
se e, falando a linguagem musical do seu tempo,
depois de muita pesquisa – “É música de pri- entraram no campo da invenção e do experimen-
meira qualidade, escrita por um “grande mes- to, chegando a soluções muitas vezes incomuns
tre”, estilisticamente o mais puro pré-clássico, e e outras precursoras em relação a fenômenos
semelhantes da cultura musical européia. (ME-
foi composta dentro desta região” (indicou no DAGLIA, 1988, p. 186)
mapa um perímetro geográfico que atingia mais
ou menos o Sudoeste alemão, Noroeste da Áus- E não só no referente à música deu-se isso.
tria e Norte-Nordeste da Itália, proximidades Lourival Gomes Machado, estudioso importante
onde circularam com freqüência mestres como do Barroco Mineiro, diz o seguinte:
Johann Christian Bach, Sammartini, Gluck, Vi- esta Minas das árcades e da Inconfidência, que
valdi e Mozart). – “Quanto à primeira parte de constitui a culminância e o fecho dos três sécu-
sua resposta estou de pleno acordo, mas quan- los de existência brasileira anteriores à translada-
to à localização da obra, houve um pequeno en- ção do Estado português, esta mesma Minas
ainda possui mais um título a proclamar, entre
gano de quase 10.000 km”... – “Isto é uma os mais altos, a colocam na história de nossa so-
anedota, ou desafio à minha autoridade?!” – dis- ciedade: o de haver desenvolvido uma cultura,
se já sem humor o mestre interrogado – “Como cujo avanço e cujo requinte podem ser avalia-
queira, esta música foi escrita por um mulato, dos, com exatidão, pela capacidade de assimilar
inteiramente os padrões europeus, para, em pro-
em pleno sertão brasileiro, em 1782!!!” (MEDA- funda reelaboração, formular seus próprios va-
GLIA, 1988, p. 175-176). lores e conceitos no que apresentam de mais
Essa história, assombrosa e verídica, faz básico, isto é, na própria estrutura mental que os
gera e sustém. (MACHADO, 1973, p. 170)
parte de um texto que Júlio Medaglia chamou
de “O milagre musical do barroco mulato” e Na discussão sobre a cultura mineira, no pe-
que trata das descobertas fundamentais do ríodo colonial, a referência ao Barroco é inevitá-
Professor Francisco Curt Lange, de uma es- vel. Tema universal, ainda hoje desperta
cola musical mineira, no século XVIII, que polêmicas. Se houve tempo em que se o quis des-
congregou os nomes de Lobo de Mesquita, qualificar como estilo cheio de desequilíbrios e
Marcos Coelho Netto, Francisco Gomes da desarmonias, como no período ilustrado, houve
Rocha e Ignácio Parreiras Neves, que alcan- revisão deste juízo posteriormente, e houve mes-
çou qualidade técnica e inventividade notáveis. mo quem, como Lezama Lima, lhe atribuirá
Diz Júlio Medaglia: virtudes fundantes da cultura latino-americana,

118
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

à medida que funde as influências ibéricas, indí- cultura barroca – o seu caráter dirigido, massivo,
genas e africanas. Diz Lezama Lima: urbano e conservador. Contudo, mesmo esse
aspecto conservador da cultura barroca abre-se
Assim como o índio Kondori representa a rebe-
para um paradoxo, que, talvez, tenha sido funda-
lião incaica, rebelião que termina com uma espé-
cie de pacto de igualdade, em que todos os mental na caracterização do Barroco em Minas
elementos de sua raça e de sua cultura têm que Gerais. Maravall coloca assim esse paradoxo:
ser admitidos, já no Aleijadinho, que representa
a rebelião artística dos negros, o triunfo é incon- Pode colocar-se o caso que, precisamente, para
testável, posto que se opõe aos modos estilísti- obter resultados eficazes de signo conservador
cos da sua época, impondo-lhes os seus (...) sobre a mentalidade das multidões, que se agi-
tam nas cidades, faça falta contar com a atração
A arte do Aleijadinho representa a culmina-
do novo. Isto é, que tenha que servir-se da for-
ção do barroco americano, a união em uma ça da novidade para consolidar o sistema esta-
forma grandiosa do hispânico com as culturas belecido. (MARAVALL, 1990, p. 269)
africanas. (LEZAMA, 1988. p. 104-106).
E é esse paradoxo que, talvez, explique que
E o que quer, fundamentalmente, Lezama
o Barroco, “arte da contra-reforma”, como o
Lima é caracterizar esta apropriação do Barroco
disse Weisbach, tinha-se tornado, em Minas
na América Latina, como o aspecto decisivo da
Gerais, um instrumento da afirmação de uma
singularidade de nossa cultura no conjunto da mo- liberdade criativa, de uma vocação crítica, que,
dernidade ocidental, Barroco ibero-americano, afinal, são dissolventes desta mesma ordem,
contestando a tese de Weisbach, como – “a arte absolutista e colonial, que se queria preservar.
da contra conquista” (LEZAMA, 1988, p. 80). É esse, Agregue-se, ainda, que se interditou a presença
também, o sentido que Richard Morse vai atribuir jesuítica e de outras ordens religiosas, em Minas
à maneira como, na América Ibérica, vão ser assi- Gerais, durante o período colonial, impedindo,
miladas-transformadas as matrizes da modernida- assim, que a mais eficiente e consistente das
de européia. A América Ibérica, a partir de suas armas da contra-reforma, a Companhia de Je-
próprias raízes metropolitanas, estaria mais próxi- sus, exercitasse ali sua pedagogia, seus métodos,
ma de um projeto efetivamente emancipatório que sua catequese, sua estética. Todos esses aspec-
a América Anglo-Saxã e seu apego ao individua- tos, e mais a insularidade mineira, seu virtual
lismo, privatismo, localismo (MORSE, 1988). isolamento físico, que não impedia o influxo
Num outro registro, José Antônio Maravall, externo, mas que bloqueava maior contato dos
um dos maiores especialistas contemporâneos mineiros com o mundo europeu, produziram
em Barroco, vê quatro características centrais da um ambíguo instrumento que tanto sancionava

119
a ordem absolutista e colonial quanto a contes- excelência, é o século XVII. Contudo, mesmo na
tava, à medida da transformação que impunha Europa, há manifestações tardias, há permanên-
ao modelo europeu. cias do Barroco, como no caso da música barro-
Trata-se, assim, de ver no Barroco em Mi- ca, que avançou até meados do século XVIII.
nas como marcado por fissuras, que permitiram Então, trata-se de ver o “Barroco” em Mi-
que se desenvolvessem manifestações de alguma nas Gerais como um complexo cultural cujas
forma críticas ao Barroco oficial, caracterizado características centrais devem ser apreendidas
assim por Weisbach: de diversas perspectivas. Uma referência bási-
ca aqui é Maravall, com as quatro característi-
– Considerado em suas relações com os proble-
mas sociais e culturais da época, o barroco se mos- cas que ele vê no Barroco – o caráter dirigido,
tra chamado a criar meios de expressão para as massivo, urbano e conservador – que são pon-
novas e essenciais potências de então: A Contra- tos de partida decisivos para a compreensão
reforma e o absolutismo. (WEISBASH, 1934, p. 15) do fenômeno do Barroco em Minas Gerais.
Usou-se, até aqui, a palavra Barroco sem De fato, manifestou-se nas Minas um comple-
que se a definisse com rigor, nem se discutisse a xo cultural que reproduziu o essencial do es-
sua aplicabilidade à realidade de Minas Gerais quema de Maravall, até na ambigüidade de sua
motivação conservadora.
no período colonial. Definir, rigorosamente, o
que é “Barroco” é tarefa que escapa aos propó- É como espetáculo, é como espetáculo pú-
sitos deste texto. Contudo, impõe-se alguma blico, dirigido pelo Estado e seus “aparelhos ideo-
qualificação, tamanhas são as possibilidades de lógicos (a Igreja, as Irmandades), é como fenômeno
significados que a palavra permite. urbano de massas que se põe o essencial do Bar-
roco Mineiro. É esse o sentido de festas como o
Diga-se, então, que a palavra “barroco”, que Triunfo Eucarístico, de 1733, e do Áureo Trono
o sentido de “barroco”, que se quer aqui, é me- Episcopal, de 1745. Diz Affonso Ávila:
nos o relativo à dimensão estilística, e mais o
que afirma o caráter global, característica de uma Verifica-se, por exemplo, no ritual das solenidades
religiosas, que sublimam a vida espiritual e social da
época, de uma cultura “barroca”. coletividade mineradora, a mesma pompa, o mes-
Mesmo isso é, como se sabe, problemático mo fausto decorativo dos templos, numa reverbe-
e ambíguo. O fenômeno do Barroco Mineiro é ração lúdica paralela ao adorno imagístico na
linguagem poética e à riqueza do detalhe composi-
realidade do século XVIII, período que na Euro- tivo nas realizações plásticas. O ouro, bem de pro-
pa já é o da Ilustração. O século barroco, por dução da economia mineira, converte-se

120
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

simultaneamente em símbolo da ambição material, ele certamente jamais viu. Daí que seu camelo
em ornamento da vida espiritual (...)
seja, de fato, uma mutação genética, não menos
Numa sociedade que se esbate contraditória maravilhosa e comovente por isto. Dragões e
entre o primado humano dos sentidos e o apelo camelos, pagodes e castelos, no sertão, transcri-
sobrenatural da fé, confirma-se a fórmula defini- ados pela imaginação e pelo domínio seguro da
dora do Barroco sintetizada por Leo Spitzer: técnica. Eis o milagre do Barroco Mineiro. É
esse, também, o sentido de outros prodígios e
o fator espiritual parece sempre encarnado, e a
estranhamentos: as musas do classicismo, os
carne apela sempre para o espiritual
pastores e suas improváveis ovelhas, entre as
Porque na verdade se transplantou, para as Mi-
nas no século XVIII, um estilo mais de civiliza- pedras e as asperezas da paisagem mineira. Diz
ção que estritamente de arte, o qual, favorecido Antônio Cândido:
pelas condições geográficas da região, acabou
cristalizando-se no seu insulamento e marcando Talvez seja possível, mesmo, afirmar que a vitupe-
fundamente a trajetória mental do povo das mon- rada quinquilharia clássica tenha sido, no Brasil, ex-
tanhas. (ÁVILA, 1967, 1o vol., p. 8-9) celente e proveitoso fator de integração cultural,
estreitando com a cultura do Ocidente a nossa co-
Trata-se, assim, de reconhecer a transplan- munhão de coloniais mestiçados, atirados na aven-
tação, a assimilação e a transformação de uma tura de plasmar no trópico uma sociedade em molde
europeu. O poeta olhava pela janela, via o mons-
matriz cultural, no contexto de uma colônia, e, truoso jequitibá, suspirava entre “a grosseria das
mais ainda, de uma região insular, que se abre gentes” e punha resolutamente uma queixa no po-
para fora, que recebe a influência adventícia, mas ema; e fazia bem, porque a estética segundo a qual
que, até por sua insularidade, dá a esta matriz compunha exigia a imitação da antigüidade, graças
à qual, dentre as brenhas mineiras, comunicava es-
um sentido e uma forma específicos, estranha- piritualmente com o Velho Mundo e dava catego-
dos de seu veio original. ria literária à produção bruxuleante de sua terra.
(CÂNDIDO, 1964, 1o vol., p. 77)
Não pode ser senão com estranhamento e
assombro que os mineiros verão, no século XVIII, De tal modo que não se trata de imitação a
as chinesices dos “quebra-ventos” da capela de cultura barroca mineira. Há quase uma impossi-
Nossa Senhora do Ó, de Sabará, e da Sé de bilidade física para isso. Se o modelo é o euro-
Mariana. Não é senão como uma espécie de peu, e ele chega rápido às Minas, o tempo das
antecipação do realismo mágico que Silvestre frotas e carreiras, se há um permanente abasteci-
de Almeida Lopes, no final do século XVIII, mento de partituras, livros, é menor o fluxo de
no Serro, terá pintado um camelo, animal que viagens e viajantes, são poucos os que foram à

121
Europa, e houve maiores restrições ainda no sen- do Estado, em Minas Gerais, na Colônia, são tri-
tido da presença de viajantes estrangeiros, em butárias, são expressões da modernidade ibérica,
Minas Gerais, no período colonial. Daí, que o de seu projeto colonial, da contra-reforma e do
modelo europeu tenha-se transformado pela dis- Absolutismo. Modernidade ibérica cuja expres-
tância de suas fontes originais, pelo insular do são básica no campo cultural e político é o Bar-
meio em que veio aclimatar-se, pela deforma- roco: tanto do ponto de vista “estético”, a tensão
ção típica do trabalho da imaginação e da me- entre as luzes e a sombra, quanto do ponto de
mória do nunca visto, mas sonhado, adivinhado. vista “político”, “ideológico”, a tensão entre o
É assim que se configurou, em Minas Ge- medievalismo da fé e a crítica renascentista. É
rais, no período colonial, um complexo cultu- isso que Octavio Paz surpreende na realidade
ral, sem paralelo na América portuguesa: uma mexicana e que também nos diz respeito:
literatura, uma pintura, uma escultura, uma ar- A Espanha é uma nação ainda medieval, e mui-
quitetura, uma música. Teve músicos, atores, re- tas das instituições que erige na colônia e muitos
pertórios, casas de espetáculo, o primeiro teatro dos homens que as estabelecem são medievais.
Ao mesmo tempo, a descoberta e a conquista da
da América do Sul, em 1769, vida cultural en- América são uma empresa renascentista”. (...)
fim. Diz Affonso Ávila: “Por outro lado, os conquistadores não são mais
repetições do guerreiro medieval, que luta contra
Na capitania de Minas Gerais, onde a atividade mouros e infiéis. São aventureiros, isto é, gente
musical atingiu segundo a opinião erudita de F. que se interna nos espaços abertos e se arrisca pelo
Curt Lange, um nível de qualidade comparável desconhecido, traço também renascentista. (...)
no tempo à dos grandes centros europeus, era Se a Espanha se fecha para o ocidente e renuncia
natural que a ópera encontrasse excepcional am- ao futuro, no momento da Contra-Reforma, não
biente para desenvolver-se. (ÁVILA, 1978, p. 9) o faz sem antes adotar e assimilar quase todas
as formas artísticas do Renascimento: poesia,
Se não há homogeneidade no Barroco Mi- pintura, romance, arquitetura. Estas formas
neiro, se certas manifestações estético-culturais como também outras filosofias e políticas -, mis-
têm outros signos, como a música que é pré-clás- turadas a tradições e instituições espanholas de
fundo medieval, são transplantadas para o nos-
sica, como a literatura que no essencial produz
so continente. (PAZ, 1976, p. 90-91)
matriz arcádico-neoclássica não é, contudo, ile-
gítimo afirmar que é “barroca” a influência bási- É, então, como ambíguo instrumento de
ca da cultura mineira no período colonial, num dominação que o Barroco impõe-se na Colônia.
sentido essencial. No sentido de que tanto as Se sua motivação é a reiteração do poder metro-
manifestações culturais quanto as manifestações politano, seus modelos e influências acabam por

122
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

desfocar este objetivo. Se é conservadora a pro- Se o diabo estava na livraria do Cônego,


posta, ela, em sua expressão, acaba permitindo a como disse Eduardo Frieiro, e inquietou espíri-
transgressão e o questionamento do modelo tos e armou sedições, ele também estava em
metropolitano. Diz Lezama Lima: outras bibliotecas, mesmo na do bispo de Mari-
ana, frei Domingos da Encarnação Pontevel.
Esse barroco nosso, que situamos nos fins do sé-
culo XVII e ao longo do XVIII, mostra-se firme- Por outro lado, abria-se às ciências e à ilustração,
mente amistoso da Ilustração. Em ocasiões, contemplando autores como Atanásio Kircheri,
apoiando-se no cientificismo cartesiano o antece- Ignacio Gravesande, Antonio Genovesi, William
de. Os quinhentos polêmicos volumes que Sor Ju- Robertson e Teodoro de Almeida; e em títulos
ana tem em sua cela, que a devoção excessiva do como História natural do Brasil, eléments de mathéma-
Padre Calleja faz ascender a 4.000, muitos “precio- tique, eléments de geómétrie e aritmética. Acolhia, ainda;
sos e raros, instrumentos matemáticos e musicais”, o Cursus theologicus et moralis, da Universidade de
o aproveitamento que faz para Primeiro Sueño, da Salamanca, no qual haveria um trecho que refe-
quinta parte do Discurso do método; o conheci- rendava as relações sexuais e o estupro de mulhe-
mento da Ars Magna, de Kircher (1671); onde se res; o proibido Bento Pereira; os malvistos
volta às antigas súmulas do saber de uma época, atricionistas, e, talvez, Anectodes ecclésiastiques,
tudo isto leva o seu barroquismo a um afã de co- contenant la police et discipline de l’Eglise chrétienne; livro
nhecimento universal, científico, que a aproxima da censurado em Portugal. (VILLALTA, 1997. p. 364)
Ilustração (LEZAMA, 1988, p. 83-84)
Não se tratava, é certo, de fenômeno mas-
E esse mesmo espírito ilustrado e crítico, sivo a posse de livros, em Minas Gerais. Ainda
que habita a cela da monja mexicana, também hoje não o é. Contudo,
freqüenta a livraria do cônego inconfidente Luis
Vieira da Silva, em Minas Gerais, e não só a dele. Em Minas Gerais, no período colonial, poucas pes-
soas possuíam livros, representando parcela insigni-
Diz Villalta: ficante da população e, até mesmo, dos homens livres.
A propriedade de livros, porém, ao que parece, dis-
Os padres inconfidentes eram mais sensíveis às ino- seminou-se mais que nas outras capitanias nos sécu-
vações que ocorriam nas idéias políticas, filosóficas los anteriores, tendo sido favorecida pela constituição
e científicas. O padre Toledo possuía a Lógica, de de uma civilização urbana, com um expressivo setor
Luís Antonio Verney, enquanto o padre Costa ti- de serviços (VILLALTA, 1997, p. 361-362)
nha uma obra do poeta satírico inglês Alexandre
Pope e cinco livros de ciências, reunindo títulos de Com taxas de alfabetização baixas, seme-
medicina, biologia, matemática e botânica. O cô-
lhantes às do Reino; sem sistema público de ensi-
nego Vieira da Silva contava com uma livraria re-
cheada com autores dos mais importantes na cultura no; com restrições à circulação de idéias e a
ocidental... (VILLALTA, 1997, p. 364) presença da Inquisição; e a proibição de imprensa

123
na Colônia, ainda assim, constituir-se-á “sistema condições, mesmo as mais ínfimas. Inácio Cor-
cultural” nas Minas Gerais, cujas características rea Pamplona lembra de um episódio em que
centrais são, de um lado, a considerável dimen- Manuel Pereira Chaves, abordado por um men-
são criativa e crítica que assumiu, e, de outro, os digo que pedia por sua caridade e perguntando
limites deste mesmo processo, que, afinal, não a este se já arrecadara bastantes donativos, o
resultaram em constituição de uma autêntica cul- pobre lhe respondeu, queixoso,
tura nacional-popular, apesar dos significativos que tudo estava perdido, e agora muito mais, por-
elementos que apontavam nesta direção. que sua Excelência [o governador] queria lançar a
Derrama, tocando oito oitavas de ouro por cabeça,
e que o povo estava para levantar-se, dizendo que
A vida política queria viver em sua liberdade (JANCSÓ, 1997, p. 399)
Situe-se o quadro da vida política, em Mi- Se esse é o panorama do final do século, o
nas Gerais, no final do século XVIII – “Em ambiente que incluiu a Conjuração, todo o sé-
Minas Gerais fala-se em levante por toda parte: culo XVIII, em Minas Gerais, é marcado pelo
nas ruas, em estalagens, em ranchos de beira de conflito, pela tensão, pela revolta. Veja-se, a cro-
estrada, envolvendo homens das mais diversas nologia destes eventos.

QUADRO 7
Conflitos em Minas Gerais no Século XVIII

DATAS CONFLITOS
1701 Extermínio da população indígena da região do Rio das Velhas, por bandeirantes
1703 Primeiros conflitos entre paulistas e “emboabas” na região do Rio das Mortes
1708 Início da Guerra dos Emboabas
1709 Massacre de paulistas por “emboabas” – Capão da Traição
1719 1) Agitações de mineiros contra cobranças de impostos
2) Tentativa de motins de escravos em Ouro Preto, Itabira, São João del-Rei, Furquim, Ouro Branco, São
Bartolomeu, Casa Branca
1720 1) Revolta liderada por Domingos Rodrigues Prado contra a cobrança de “quintos”, na Vila de Pitangui”
2) Revolta liderada por Felipe dos Santos contra o estabelecimento de casas de fundição de ouro, em Vila
Rica
3) Revolta do São Francisco liderada por Nunes Vieira

124
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

DATAS CONFLITOS
1728 Revolta contra a obrigatoriedade da fundição de ouro em oficinas reais, em Vila Rica
1736 Sedição dos grandes proprietários de terras do Norte de Minas que se recusavam a pagar a taxa da
capitação
1788/1792 Inconfidência Mineira

FONTE – JANCSÓ, 1994; ANASTASIA, 1989; GUIMARÃES, 1988.

Lembre-se, ainda, de que Minas Gerais foi justiças; outro impondo a pena de morte a quem
a região com o maior número de quilombos do pagasse quintos, sendo ferido Jeronymo Pedro-
so e morto seu irmão Valentim Pedroso, e o ter-
Brasil, seja no século XVIII, seja no século XIX, ceiro com a expulsão de João Lobo de Macedo,
registrando, entre 1711 e 1798, cerca de 126 qui- impedindo que o ouvidor tomasse conhecimen-
lombos, e a concessão de 401 patentes de capi- to do delicto. (CARVALHO, 1931, p. 36)
tães-do-mato e 66 patentes-mores. Diz Carlos
Não são todos movimentos com uma mes-
Magno Guimarães:
ma motivação. São movimentos heterogêneos em
É importante frisar que em todos os momentos suas conseqüências e características. Não se os
do período por nós estudado o sistema escravis- tome todos como manifestações de um emer-
ta exigiu um corpo especializado na prevenção e
punição às fugas e quilombos, e que a criação,
gente sentimento “nativista”.
ampliação e manutenção desse corpo deu-se fun- Se há a ampla revolta dos escravos em 1719,
damentalmente a partir dessas necessidades. há também a pura contestação do fisco, “Sedição
(GUIMARÃES, 1988, p. 98)
portuguesa”, como o chama Feu de Carvalho, em
De tal modo era tensa e conflagrada a re- Vila Rica, em 1720.
gião mineratória, que ficou famosa a denúncia- Um dos episódios mais significativos desses
justificativa do Conde de Assumar, Pedro de conflitos na capitania de Minas Gerais foi o do
Almeida, da dureza de sua ação repressiva. Na motim de escravos planejado para ocorrer em 1719.
verdade, sobretudo nos seus inícios, a região mi- Vários estudos fixaram o episódio, lembre-se o que
neratória foi, de fato, “a tumba da paz, exalava escreveu Oiliam José – “Era o ápice do primeiro
motins”. Veja-se o ocorrido em Pitangui e re- grave conflito social ocorrido nas Minas e o mais
portado por Feu de Carvalho: audacioso esforço de emancipação dos negros” (...)
Em Pitanguy, houve três motins, um no seu des- E tudo chegou a parecer bem estabelecido para
cobrimento, impedindo a entrada de reinóis e das a eclosão do movimento armado na noite de

125
“quinta-feira de Endoenças”, 30 de março. Nes- tenham tido sentido contestatório geral, que ques-
sa noite, aproveitando-se da presença da popula-
tionasse, efetivamente, a ordem colonial. Não
ção branca nas igrejas, subtrairiam os revoltos
quantas armas achassem nas casas dos brancos haveria neles, como haverá no caso da Conjura-
e, juntando-as às existentes com eles, massacra- ção Mineira, um sentido “nativista” claro.
riam seus dominadores e as autoridades que vi-
A palavra “nativista” aparece aqui menos
viam nas Minas. Teriam mesmo os sublevados
chegado a escolher seu “Rei” e os ministros que como resultado de um consenso que dirimiria a
ajudariam a governar o país negro, com o qual questão, impondo conteúdo universal, e mais
deixaria de haver escravos africanos no Brasil. como “problema”. Afinal, o que seria o “nati-
(JOSÉ, 1962, p. 64-65)
vismo”? Rogério Forastieri da Silva, busca res-
É possível que a documentação que infor- ponder isso em livro recente, onde a tese básica
ma a análise desse episódio, toda ela oficial, te- é desvincular, como necessária seqüência, as eta-
nha exagerado a verdadeira dimensão do pas colônia ! nação, apontando para outras cli-
movimento, para assim justificar as medidas re- vagens: capital mercantil ! colônia x capital
pressivas adotadas. Mas, ainda assim, não há industrial ! nação (SILVA, 1997, p. 91).
dúvida que, pela violência das medidas propos- No essencial, o esforço do livro em ques-
tas, incluindo a aplicação do Code Noire e da tão é apontar para as inúmeras possibilidades
pena de morte para escravos rebelados, havia divergentes de entender o fenômeno do “nati-
em curso um movimento importante de resis- vismo”. O que ele não enfatizou, e que é essen-
tência escrava. Diz Oiliam José: cial, é que tanto a idéia de nativismo quanto a
idéia de nação que a consolida, são “constru-
Apesar de tudo e do fracasso do movimento da
gente escrava, os fatos a ele ligados impressiona-
ções ideológicas”, são elementos de um proces-
ram o Governador das Minas, para quem o mai- so permanente da imposição de hegemonia
or perigo à autoridade portuguesa, nessa parte política e cultural. No caso do Brasil, trata-se de
do Brasil, provinha da gente escravizada, que ur- um longo e complexo processo, marcado pela
gia, segundo ele, ser exemplarmente castigada.
(JOSÉ, 1962, p. 69-70)
ambigüidade, pela constante interdição da expli-
citação de suas dimensões disruptivas: a Inde-
Em 1720, em Pitangui, Vila Rica e São Fran- pendência, que resultou, afinal, na continuidade
cisco; em 1728, em Vila Rica; em 1736, no Norte da escravidão e da hegemonia do senhoriato
de Minas, ocorrerão revoltas cujo sentido básico oligárquico; a Abdicação e o tensionamento de-
é a resistência ao fisco e às casas de fundição de mocrático e popular do período das regências;
ouro. Não há consenso que esses movimentos o Segundo Reinado e a consolidação de um

126
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Estado Nacional, centralizado e conservador; a posterior, há revisão do juízo sobre a Inconfi-


Abolição, única efetiva revolução social brasilei- dência Mineira ainda que continuasse a prevale-
ra e sua incompletude com a interdição da Re- cer a perspectiva imperial bragantina.
forma Agrária; a República, a Constituição de A assimilação da Inconfidência Mineira
1891 e o Código Civil, de 1916, marcas da cons- por parte de Varnhagen é o outro lado da in-
trução do Estado burguês no Brasil. terdição de outros movimentos políticos como
No que interessa aqui, trata-se de afir- a Inconfidência Bahiana e a Revolução Pernam-
mar que alguns dos impasses centrais, que bucana de 1817. Reconhece-se a Inconfidên-
marcam, até hoje, a realidade brasileira, no re- cia Mineira à medida que se suprime da
ferente à construção da nação, isto é, da afir- historiografia a Conjuração Bahiana, cujo ca-
mação dos processos da hegemonia política ráter social popular fez dela nossa “primeira
e cultural, estão, exemplarmente, postos na revolução social” (RUY, 1970).
Conjuração Mineira.
A Inconfidência Mineira é episódio carac-
Não deve ser exagerada a importância po-
terístico da crise da economia mineira. Incon-
lítica da Inconfidência Mineira. Trata-se de
fidentes e seus denunciantes, algozes e vítimas,
movimento circunscrito, com programa polí-
são partes de uma mesma realidade: a crise da
tico limitado, com dimensão social e econô-
mineração, as exorbitâncias e incompetência da
mica restritas.
metrópole, a corrupção e a fraude fiscal.
Episódio-símbolo, tornado modelo assumi-
do por nossa historiografia oficial, a Inconfidên- Os inconfidentes são grandes proprietários,
cia Mineira tem trajetória historiográfica mineradores ricos, funcionários graduados. Al-
atribulada. É, hoje, símbolo “bem comportado” varenga Peixoto é fazendeiro – também o padre
de uma história social, que nossa historiografia João Toledo e Melo e o Coronel Francisco An-
oficial tenta pasteurizar. História hipostasiada em tônio de Oliveira Lopes. Advogado, minerador e
grandes brados retumbantes, de heróis e elites, fazendeiro é Cláudio Manuel da Costa. Álvares
em que o povo parece não existir, em que o con- Maciel é capitão-mor e grande proprietário de
flito e a ruptura foram substituídos pela concilia- Vila Rica. Tomás Antônio Gonzaga é Ouvidor
ção e pela continuidade. Geral, principal cargo jurídico de capitania. O
Na primeira edição de sua História geral do padre José da Silva de Oliveira Rolim era filho do
Brasil, Varnhagen apresenta versão desfavorável principal tesoureiro de diamantes e notório con-
e negativa do movimento mineiro. Em edição trabandista e fraudador do fisco.

127
De outro lado, a corte de favoritos de Cunha A Inconfidência Mineira é sinal, é índice
Menezes – governador da capitania, o fanfarrão dos movimentos que solapavam as bases da
Minésio – onde se destacam notórios prevarica- hegemonia colonial. Em sua dinâmica com-
dores como Joaquim Silvério do Reis, que devia à binou aspectos contraditórios. Era projeto das
Fazenda Real o relativo aos contratos de arrenda- elites mineiras em confronto com os privilé-
mentos de tributos, que ele arrecadava e não reco- gios metropolitanos
lhia ao Erário. Este o pano de fundo da Em verdade, não havia parcela da elite no po-
Inconfidência Mineira como mostrou Maxwell. der em Minas que não fosse afetada, de um
Conflitos de interesses, questões nascidas numa modo ou de outro, pelas “Instruções” de Melo
e Castro e pelo iminente abalo da administra-
conjuntura de crise econômica, incapacidade ad- ção do Distrito Diamantino. E, subjacente ao
ministrativa, corrupção e truculência. A Inconfi- confronto dos grupos de interesse, havia o an-
dência é sobretudo a reação das elites mineiras tagonismo mais profundo entre uma sociedade
cada vez mais consciente de si e autoconfiante
contra o abusivo do poder espoliador e corrupto.
(em um ambiente econômico estimulador de auto-
A Inconfidência Mineira tem caráter em- suficiência, em que punha ênfase) e a metrópole
blemático; é o primeiro e eloqüente sinal da cri- interessada na conservação de mercados e no res-
guardo de um vital produtor de pedras preciosas,
se política que questiona o Sistema Colonial, no ouro e receitas. (MAXWELL, 1979, p. 133)
Brasil, o Antigo Regime, em Portugal. Também
característica é a tentativa desesperada de rever- O movimento conjurado mineiro, em mais
são do quadro que intenta Martinho de Melo e de um sentido, é a reposição do essencial dos
Castro, nas Instruções para o Visconde de Barbacena impasses da Colônia e da Metrópole naquele
e a sua ação “moralizadora”. O “desgoverno” momento: crise interna – da produção aurífera,
de Cunha Menezes e a “política dura” do Vis- das tentativas frustradas de reversão dessa crise
conde de Barbacena, são partes de um mesmo por parte da metrópole; crise externa – as vári-
processo: a crise geral da hegemonia absolutista as formas do questionamento do antigo regime
da Casa Bragança, do sistema colonial. O outro no contexto de uma capitania dotada de verte-
lado desta crise vinha de fora. A definitiva vitó- bração, de vida urbana, política, econômica, cul-
ria burguesa no campo econômico, com a Re- tural e social, que lhe permitem a ousadia da
volução Industrial; a transformação burguesa do revolta contra a metrópole.
Estado, com a Revolução Francesa; a vitória da Nesse sentido, é preciso dizer, contrarian-
descolonização, com a Revolução Americana. do teses que querem ver a Conjuração Mineira

128
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

como movimento irrelevante, que o movimento fundamental decorrente de vários constrangi-


foi ambíguo, contraditório e heterogêneo em suas mentos: do caráter elitista do movimento, de sua
propostas, amplitude e motivações. Se havia en- pequena inserção social, da fragilidade ideoló-
tre os inconfidentes que Colônia, houve quem gica de suas lideranças. Mas, sobretudo, decorre
defendesse apenas a emancipação da capitania; da hegemonia das elites coloniais e sua estrutural
se havia quem quisesse regime republicano para aversão a qualquer projeto, efetivamente, distri-
a região emancipada, houve quem defendesse a butivo e democrático. Estas elites coloniais, que
forma monárquica; se havia quem defendesse a lideraram também o processo da Independência
libertação dos escravos, houve quem quisesse a e a consolidação do Estado Nacional, e mais tar-
manutenção da escravidão. Houve também pon- de a construção do Estado Burguês no Brasil,
tos consensuais entre os conjurados, como a cri- têm sido, historicamente, cerceadoras da consti-
ação de uma universidade, a transferência da tuição de uma cultura nacional-popular, isto é,
capital, o estímulo ao desenvolvimento de ma- têm sonegado a ampliação de direitos sociais, a
nufaturas. De tal forma que é possível identificar universalização da cidadania, reiterando meca-
um “programa mínimo” da Conjuração Mineira. nismos de exclusão social e econômica, de mar-
Afonso Arinos de Melo Franco, em texto de 1939, ginalização política.
sumariza assim o projeto: Assim, tanto a Inconfidência Mineira quan-
a) mudança da capital para São João del Rei; b) to o processo de Independência carregam con-
constituição de uma universidade; c) constitui- tradição que acompanhará o Brasil até a
ção de fábricas de tecidos, ferro e pólvora; d) Abolição e que, transformada, vigora até hoje.
política de povoamento e defesa por meio de
milícias populares; e) emissão de papel-moeda; Trata-se de reconhecer a existência de uma fra-
f) aumento do preço do ouro; g) criação de uma tura social, representada, de um lado, pela es-
casa de moeda; h) liberação da circulação de dia- cravidão, e, posteriormente, pela reprodução
mantes. (FRANCO, 1939, p. 85-114)
de grandes maiorias desprovidas de direitos so-
Os pontos desse programa refletem diag- ciais básicos (saúde, educação, habitação etc.),
nóstico e perspectiva de como enfrentar a crise e, de outro lado, pela reiteração de privilégios
da região, que não podem ser desqualificados para o senhoriato dominante e para frações dos
porque lúcidos e reveladores de uma consciên- segmentos médios.
cia aguda dos problemas de então. De tal modo que é possível identificar nos
Contudo, pesa sobre o movimento limitação dilemas e limites da Inconfidência Mineira o

129
essencial dos impasses históricos brasileiros: o singularíssima, porque competidora à altura de
travamento do processo de distribuição da ren- sua metrópole, a quem derrotou. A Independên-
da, da riqueza, do poder e da informação, resul- cia Americana é o modelo político dos inconfi-
tando, disto, a incompletude do projeto nacional, dentes mineiros. A democracia americana foi e é
a reiteração de regimes políticos autoritários, a saudada, desde o início, como a realização mais
marginalização econômica e social da maioria acabada deste modelo político, de Tocqueville à
da população. Hannah Arendt.
O nacional-popular interditado Sua história, a constituição do Estado nos
Estados Unidos, da Independência (1776) à Cons-
Inicie-se pela quase sempre incompreensiva, tituição (1787), a disputa política que colocou em
e, às vezes, odiosa, comparação. Há, na verdade, confronto gigantes como Jefferson e Hamilton,
pouco propósito em comparar a realidade dos isto é, a disputa entre uma perspectiva de demo-
Estados Unidos da América do Norte com a bra- cracia social, baseada na pequena propriedade e a
sileira. Contudo, no referente à discussão que se clara opção pelo grande capital, reproduz em in-
vai fazer aqui, faz sentido trazer o método compa- tensidade e escala as mesmas contradições que,
rativo. Trata-se de buscar entender as razões do vivenciadas pela Inglaterra no século XVII, pela
tão grande fosso que se manifestou entre as traje-
França no século XVIII, resultaram também ali
tórias históricas das duas grandes ex-colônias, a
na vitória do grande capital, em formas de Estado,
partir de uma tese básica. Assume-se assim, que,
economia e sociedade burgueses.
sem prejuízo de outros aspectos determinantes, a
grande matriz explicativa, no campo político e cul- Onde, então, a especificidade americana? De
tural, da exitosa trajetória americana, vis-à-vis a rei- saída, diga-se logo que a mais notável das carac-
teração de precariedade que marca a nossa própria terísticas históricas dos Estados Unidos é a rapi-
trajetória, está referenciada à extensão e profundi- dez e exuberância com que o capitalismo
dade do processo de constituição de uma cultura penetrou e se aclimatou lá. Trata-se de um casa-
nacional-popular, especificamente estadunidense, mento perfeito, a mão e a luva, diria o velho Ma-
com tudo que isto significa em termos políticos, chado. Nunca, nem em outro lugar qualquer, o
econômicos, sociais etc. capitalismo encontrou solo tão propício para se
Tome-se os Estados Unidos da América instalar e se alastrar; o sucesso foi vertiginoso.
como objeto. Objeto ideal, talvez, pelas pecu- Tocqueville, talvez o mais importante ana-
liaridades de sua trajetória histórica. Ex-colônia, lista das características fundantes do Estado e

130
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

da nação americanos, vê a especificidade do É completamente maleável. Acolherá qualquer


hipótese, segue-se daí que no campo religioso
quadro na hegemonia que ali se vai dar ao po- mantém-se em grande desvantagem, tanto so-
der local, na implantação de instituições sociais bre o racionalismo religioso, com o seu interesse
e políticas sem quaisquer bloqueios, constran- exclusivo pelo remoto, pelo nobre, pelo simples
e pelo abstrato no sentido da concepção. (JAMES,
gimentos feudais. Os Estados Unidos são, nes-
1974, p. 22)
te sentido, a materialização, tanto quanto
possível, ideal dos interesses e valores de uma Trata-se, enfim, de um pensamento, de uma
classe média. Diz Tocqueville: prática social, que toma toda experiência, todo o
mundo, todas as idéias, como realidades possíveis
Os imigrantes que se foram estabelecer nas
praias da Nova Inglaterra pertenciam todos às
de aclimatação, de absorção, de “nacionaliza-
classes independentes da metrópole. A sua reu- ção”, isto é, de serem “apropriados-americani-
nião em solo americano apresentou, desde o iní- zados”, por meio de um processo de
cio, o fenômeno singular de uma sociedade na institucionalização legitimado pela transforma-
qual não se encontraram nem grandes senhores,
ção destas realidades universais em “realidades
nem povo, nem, por assim dizer, pobres ou ri-
cos. (TOCQUEVILLE, 1962, p. 33) locais”, fundadas no primado da soberania do
indivíduo e da propriedade. É assim com a ciên-
É nesta tábula rasa social, quando, é claro, cia, com a arte e com a religião.
se ignora o genocídio da população indígena Essa característica geral, o gigantesco me-
autóctone, realizada pelos piedosos e idealistas tabolismo cultural dos Estados Unidos, que, em
peregrinos, que será inscrita, a ferro e fogo, uma última instância, pode ser sintetizado na frase –
ordem: o “individualismo”, o “privatismo” e o ou é assimilado-nacionalizado ou é repelido –
localismo. São essas as categorias sociológicas explica, por exemplo, a paradoxal relação dos
fundamentais de um possível, se existir, ethos Estados Unidos, vis-à-vis os povos hispanos-
americano. Filosoficamente, isso foi plasmado americanos com relação a Colombo. Hoje, a
pelo “Pragmatismo” que é, não por acaso, a úni- perspectiva do pensamento crítico hispano-
ca tendência filosófica especificamente ameri- americano com relação a Colombo é vê-lo como
cana. Na perspectiva de William James, um de inaugurador do genocídio, da brutalidade, da
seus criadores: conquista. Ao contrário, nos Estados Unidos,
O pragmatismo, de fato, não tem quaisquer pre-
Colombo é visto como herói, e foi transforma-
conceitos, quaisquer dogmas obstrutivos, quais- do no primeiro peregrino, herói colonizador.
quer cânones rígidos do que contará como prova. Trata-se aqui de uma sutil e complexa operação

131
de assimilações em que o conquistador vira he- local, é essa capacidade de institucionalização
rói e modelo de um projeto – o expansionismo, cultural permanente que cimenta a construção
a hegemonia do empreendimento e do empre- do Estado e da nação americana, que permite
endedor, a supremacia do interesse individual. construir a hegemonia política e cultural da bur-
É essa enorme capacidade de deglutição, guesia legitimada pela cultura, pela religião trans-
de “estadunizar” tudo, que explica também as formados-construídos, efetivamente, em
peculiaridades do fenômeno religioso nos Es- realidades “nacionais-populares” no sentido de
tados Unidos. Diz Harold Bloom: Gramsci. Nas palavras do próprio Gramsci,
comentando a diferença entre o pensamento
Existem milhões de cristãos nos Estados Unidos,
porém a maioria dos estadunidenses que acredi- religioso na Itália e nos Estados Unidos:
tam que são cristãos são na realidade outra coisa;
A insuficiência dos intelectuais católicos e o pou-
são intensamente religiosos porém devotos da re-
co sucesso da sua literatura são um dos indícios
ligião estadunidense: uma fé que já antiga entre
mais expressivos da ruptura interna que existe
nós, que vem em diversas modalidades, com dife-
entre a religião e o povo: isto se verifica num
rentes disfarces e que determina grande parte de
estado muito miserável de indiferentismo e de
nossa vida nacional. (BLOOM, 1994, p. 36)
ausência de uma vivaz vida espiritual: a religião
Em outro trecho, Bloom discute Emerson permaneceu no estado da superstição, mas não
foi substituída por uma nova moralidade laica e
e William James para sintetizar as características humanística pela impotência dos intelectuais lai-
centrais da religião estadunidense – “a solidão, a cos (a religião não foi substituída nem intima-
individualidade, o pragmatismo dos sentimentos, mente transformada e nacionalizada como
noutros países como na América o próprio je-
desejos e memórias” (BLOOM, 1994, p. 21). suitismo...). (GRAMSCI, 1978, p. 379)
Ou, ainda,
Trata-se, então, de reconhecer que as tra-
De maneira menos óbvia, isto é, Cristo para to- jetórias exitosas do desenvolvimento econô-
dos os estadunidenses que querem chamar-se a
si mesmos cristãos. Talvez seja o Cristo de todos
mico de alguns países são, de alguma maneira,
os estadunidenses, sejam mórmons ou judeus, tributárias da existência de tecidos culturais
muçulmanos ou livre pensadores, posto que o consistentes, “nacionais-populares”, isto é, re-
Cristo estadunidense é mais um estadunidense alidades político-culturais apoiadas em proje-
que um Cristo. (BLOOM, 1994, p. 21)
tos nacionais integradores. Assim, a capacidade
É essa capacidade de traduzir cada aspec- de sintonia entre Estado e Nação, a capacida-
to da vida social a partir da realidade nacional- de de apropriação e “nacionalização” do dado

132
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

universal, estaria na base da força nacional de (1795) e instituiu o Museu Nacional de História
Natural (1794) o primeiro verdadeiro centro de
países como a Inglaterra, a França, a Alema-
pesquisa fora das ciências físicas. (HOBSBAWN,
nha, os Estados Unidos, o Japão. 1974, vol. II, p. 494)
Contudo, não se veja estes processos como
Mais complexa e contraditória é a trajetória
homólogos, homogêneos. Na verdade, a traje-
da Alemanha. Marx, num texto conhecido, já
tória desses países, no sentido da constituição
havia apontado as peculiaridades do desen-
do Estado e da Nação, é diferenciada, havendo
volvimento histórico alemão. Para Marx, enquan-
em comum apenas o fato de que todos esses
países constituíram grandes e fortes economi- to Inglaterra e França realizaram revoluções no
as, capazes de gerar e de se apropriarem dos campo político e econômico, a única revolução
frutos da modernidade, à medida que realiza- experimentada pela Alemanha foi a filosófica.
ram “reformas-revoluções” que garantiram a Isso, segundo ele, impunha uma série de conse-
ampliação de direitos sociais básicos – terra, qüências e era o resultado da forma como a Ale-
educação, saúde... manha vivenciou a modernidade. Enquanto a
reforma protestante, na Inglaterra e na Holanda,
São esses elementos, sintetizados na “dis-
esteve articulada diretamente ao capitalismo, na
tribuição primária da renda”, que permitiram
Alemanha, o luteranismo foi instrumento de re-
a consolidação de culturas nacionais-popula-
res, de sistemas institucionais na produção de forço e de sobrevida do feudalismo. Essa circuns-
ciência e de tecnologia, de processos de de- tância, o atraso político institucional da Alemanha,
mocratização política e desenvolvimento eco- e o processo histórico de sua superação, a “via
nômico e social. prussiana” comandada por Bismark, explica, em
parte, as vicissitudes do desenvolvimento políti-
No caso da França, esse processo é clara-
co da Alemanha, a violência das experiências an-
mente obra da Revolução francesa
tidemocráticas, que culminaram no nazismo.
A Revolução francesa transformou a instrução
O dito até aqui é que os países desenvolve-
científica e técnica em seu país com a criação da
Escola Politécnica (1795) – escola para técnicos rão seus próprios e inimitáveis caminhos para a
de todas as classes sociais – e o primeiro esboço construção nacional, e que cada caminho destes
da Escola Normal Superior (1794), que seria fir- resultará em um conjunto específico de institui-
memente estabelecida como parte de uma refor-
ma geral do ensino secundário e superior por ções políticas e culturais, mais ou menos univer-
Napoleão. Também fez viver a Real Academia sais, includentes, democráticas e emancipatórias.

133
No caso dos Estados Unidos, se são visí- econômica, marginalização política e fratura
veis e consistentes os mecanismos capazes de cultural, a cultura ibero-americana teria um fun-
promover a prosperidade material, em outros do ético-filosófico que a qualificaria a cons-
campos pesa a hegemonia política e cultural que, truir um futuro efetivamente emancipatório.
baseadas no individualismo-privatismo-localis- É aqui que volta a inspiração e o exemplo da
mo-pragmatismo, deixa pouco espaço para as cultura mineira do século XVIII. Já os modernis-
perspectivas solidárias, para processo efetiva- tas, Mário de Andrade, principalmente, tinham
mente emancipatório. visto no Barroco Mineiro o primeiro e fundamen-
Richard Morse, lembrando Rodó, recupe- tal elo da construção de uma cultura autentica-
rou a denúncia do sentido “calibanesco” da cul- mente nacional e popular. Isto é, uma cultura
tura americana vis-à-vis o “arielismo” da cultura que sem abrir mão do repertório simbólico, in-
ibero-americana, e seus compromissos com as ternacional aclimata estas influências, apropria-
idéias de comunidade, de universalidade, de so- se delas e transforma-as, utilizando-as, muitas
lidariedade. vezes, em sentido contrário ao do interesse me-
De tal modo, que haveria aí um paradoxo tropolitano. É esse o sentido profundo da co-
e uma esperança. O paradoxo é que esse fun- moção que, ainda hoje, essas obras nos
do cultural organicista-universalista ibero-ame- comunicam, é esse o sentido profundo da per-
ricano, tem sido, sistematicamente, incapaz de manente atualidade dessas obras – o fato de que
ser a imantação ideológica de processos histó- eram produtos da mão popular, dos mulatos e
ricos efetivamente distributivistas e democrá- negros mineiros, e destinavam-se a todo o povo
ticos. Ao passo que a cultura estadunidense, e também à sensibilidade popular.
individualista-privatista, conseguiu de tal for- E, então, este auspicioso embrião atrofiou-
ma se enraizar “nacional-popular” que resul- se à medida que foi a contraparte, isolada e
tou em efetiva hegemonia política e cultural, constrangida, de uma revolução que não hou-
suporte no plano das mentalidades e do ima- ve, a revolução política e social. Em texto re-
ginário de uma sociedade do consumo, da com- cente, Luiz Werneck Vianna qualifica assim o
petição, do mercado e do capital. A esperança dito aqui:
é a que Richard Morse apontou: ainda assim,
Assim, neste país que desconhece a revolução,
embora, até aqui, padecendo de recorrentes e que provavelmente jamais a conhecerá, ela não
processos de precarização material, exclusão é uma idéia fora do lugar, como não o foi o

134
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

liberalismo que inspirou a criação do seu Estado- histórica brasileira, e apontam para o mesmo
Nação. Com efeito, o Brasil, mais que qualquer ou-
fenômeno: a interdição de direitos sociais bási-
tro país da América Ibérica, esta vasta região do
continente americano que chega à modernização cos no Brasil, e suas deletérias conseqüências
em compromisso com o seu passado, pode ser ca- sobre a democracia e o desenvolvimento eco-
racterizado como o lugar por excelência da revolu- nômico e social entre nós.
ção passiva. (VIANNA, 1997, p. 12)
Daí que seja cada vez mais necessário reto-
Tanto a expressão “revolução passiva”, de- mar a lição dos velhos mestres do Barroco Mi-
rivada de Gramsci, como a idéia da reiteração neiro no campo cultural: a construção de uma
de uma “conciliação conservadora”, tal como cultura nacional popular, como parte de um
formulada por José Honório Rodrigues, em li- processo mais amplo de distribuição de renda,
vro de 1966, são traços decisivos da trajetória riqueza, poder e informação.

135
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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Imagens

137
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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

A modernidade nos confins: Ouro Preto.

139
A cidade.
A praça principal de Vila Rica – Século XIII.

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

A gramática da terra.
O Brumado e o Inficionado.
Catas Altas do Mato Dentro e Catas Altas da Noruega.
Solidade e Glória.
Lençóis e Engenho.
O rio Doce, o rio das Mortes, Mariana e Vila Rica,
toda a terra, as minas e os gerais.

141
O trabalho nas minas.

Outros trabalhos,
no risco do ex-voto a presença
da atividade agropecurária.

142
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

A fé e o poder;
as igrejas de São Francisco e
Nossa Senhora do Carmo, em
Mariana, e o Pelourinho, símbolo do
poder do Estado, em dois momentos:
no início do século e hoje.

143
Os homens bons.
A exuberância da forma: a Igreja do Pilar em Ouro Preto.

A imposição do Estado.
O fisco, a prensa de cunhagem.

144
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

A gente do povo.
A elegância da forma: a Igreja de São José da Irmandade dos
Homens Pardos, Ouro Preto.

145
Um sistema cultural: a música
Partituras do grande José Emerico Lobo de Mesquita – 1779.

146
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

Um sistema cultural: a pintura.


Painel do forro da sacristia da Igreja de
São Francisco, em Mariana, de Manuel
da Costa Athaíde.

Um sistema cultural: as maravilhas


de Antônio Francisco Lisboa.
A Igreja de São Francisco de Assis,
em Ouro Preto.

147
Os profetas da nação.

148
RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

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RAÍZES DA MODERNIDADE EM MINAS GERAIS — JOÃO ANTONIO DE PAULA

155
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João Antonio de Paula é profes- Neste ensaio várias são as ex-
sor titular da Faculdade de Ciências plícitas homenagens e referên-
Econômicas da UFMG. Seus temas
O COLE˙ˆO
cias que, com certeza, não esca-

Ra zes da modernidade em Minas Gerais


HISTORI -
de ensino e pesquisa são baseados tto Maria Carpeaux surpreendeu-se ao chegar à noite em Ouro Preto. AL parão ao leitor avisado. Trata-se,
na ampla confluência entre a histó-
Depois de uma curva, em meio à neblina, como se suspensa no ar, ele viu a no fundamental, de afirmar uma
ria e a economia. Professor da
igreja, as luzes que a recortavam contra uma paisagem de serras apenas suge- postura, para além dos modis-
UFMG desde 1976, orientou deze-
mos, que, sem abrir mão dos
nas de dissertações, teses, escreveu ridas na noite fria e calma. Então ele percebeu que à paisagem natural, às mon-
avanços dos estudos recentes,
artigos, livros, conduziu pesquisas, tanhas e pedras devia somar-se uma outra paisagem, a paisagem resultante da-
dirigiu órgãos acadêmicos, coorde- reitera o essencial de certas per-
quelas construções – igrejas, sobrados, casas simples, chafarizes, pontes, ruas spectivas historiográficas. Se
nou seminários, participando de
– paisagem cultural, feita de pedra e madeira, mas, também, dos sons de vo-

[ [
tantas e diferentes são as referên-

Raízes da
conferências e debates. Ao lado das
atividades acadêmicas, participa zes e instrumentos, de esculturas e pinturas. Paisagem humana e social feita de cias historiográficas, também
também do conjunto de nossa vida “homens bons” e escravos, de gentes múltiplas em seus cuidados e condição. múltiplas são as matrizes teórico-
política e cultural. conceituais. Se são variadas as

modernidade em
Uma paisagem histórica como a América portuguesa não teve outra.
Ra zes da mo der ni da- de em Mi perspectivas metodológicas, con-
nas Ge rais é, em certo sentido, uma É este cenário, este mundo, que se busca decifrar neste texto: a estrutura ur- ceitos e os há um traço comum
síntese de mais de 20 anos de estudos bana, a economia, o aparato estatal, a vida política e cultural de uma região – àquelas contribuições que é a in-

Minas Gerais
sobre Minas Gerais: é, sobretudo, um
capitania – província – estado – que anunciou a modernidade entre nós. teligência crítica em busca do
convite para pensar a trajetória histó-
Raízes da modernidade em Minas Gerais é um ensaio. Ensaio diversifica- desvelamento de ums região par-
rica de Minas Gerais, suas potenciali-
ticularmente esquiva em deixar-
dades e limites em momento de tan- do em suas referências e andamento: história, sociologia, economia. São re-
ta desesperança e dificuldades.
se explicar.
gistros de um discurso que não quer ser apenas ofício acadêmico. Buscou-se um pouco da inspi-
Resultado de uma longa visitação de temas mineiros, este texto é um ração dos clássicos para a tarefa
pequeno testemunho da certeza de que uma terra que viu nascer o grande que tem consideráveis dificulda-
COLE˙ˆO
Antônio Francisco Lisboa, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Gui- des: o mistério dessa terra medi-
HISTORI -

João Antonio de Paula


AL terrânica, variada, diversa, com-
Ou tros t tu los da co le ªo: marães Rosa tem o direito de esperar e construir o melhor.
plexa, ambígua, paradoxal: as Mi-

Joªo Antonio
• 500 anos de educa ªo no Brasil -
Eliane Marta T. Lopes, Luciano Mendes F.
nas dos Matos Gerais, como veio
Filho, Cynthia Greive Veiga (orgs.); lembrar o grande Pedro Nava.
• Car to gra fia sen ti men tal - de se bos e li Minas Gerais e sua singula-

-
vros- Márcia Cristina Delgado; ríssima trajetória, matriz da mo-
• Ar ma di lhas da se- os du roªoman
-
dernidade no Brasil, dotada de
ces de M. Delly - Maria Teresa Cunha;
insuspeitadas sintonias, em va-

de Paula
• In f n cia no -s Luciano tªo Mendes
de Faria Filho e Cynthia Greive Veiga; riados campos, com o sentido
ISBN 978-85-7526-380-8
• Abrin do os baœs - tra di ı es e va lo res geral da modernidade ocidental,
das Mi nas e das Ge - Tanya
raisPitanguy e síntese das contradições essen-
de Paula;
ciais que marcaram a formação
• A educa ªo exilada - ColØgio do Ca-
ra a- Mariza Guerra de Andrade. 9 788575 263808 histórica brasileira.