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MICHEL FOUCAULT (França, 1926 – França – França, 1984)

A história da sexualidade 1: A vontade de saber (1976) [Há uma essência gay?]


(...) Quiçá chegará o dia em que a gente se espantará. Não se compreenderá que uma
civilização tão voltada, por outro lado, ao desenvolvimento de imensos aparatos de
produção e de destruição tenha encontrado tempo e paciência infinita para se
interrogar com tanta ansiedade sobre o que acontece com o sexo; sorrirá, quiçá
recordando que esses homens que fomos acreditavam que no sexo havia uma
verdade ao menos tão preciosa quanto a que tinha pedido que a terra, as estrelas e as
formas puras de seu pensamento lhes proporcionassem; surpreender-se-á com o
esforço que empregamos em fingir que arrebatávamos à noite uma sexualidade que
tudo – nossos discursos, nossos hábitos, nossas instituições, nossos regulamentos,
nossos saberes – produzia a plena luz do dia e impelia com estrépito. (...)

A história da sexualidade 2: O uso dos prazeres (1984) [Como era na Grécia


Antiga?]
(...) A noção de homossexualidade é bem pouco adequada para envolver uma
experiência, formas de valorização e um sistema de recorte tão diferentes do nosso.
Os gregos não opunham, como duas escolhas excludentes, como dois tipos de
comportamento radicalmente diferentes, o amor dirigido ao próprio sexo e amor
dirigido ao outro sexo. As linhas divisórias não seguiam essa fronteira. O que opunha
um homem com temperança e dono de si mesmo a um que se deixa levar pelos
prazeres era, do ponto de vista da moral, mas importante do que o que distinguia entre
elas as categorias dos prazeres aos quais era possível dedicar-se livremente. (...)

Sobre a genealogia da ética: uma revisão do trabalho (1983) [Problemas gregos]


(...) A grande diferença na ética sexual para os gregos não se encontrava entre as
pessoas que preferiam mulheres ou rapazes ou que faziam sexo deste ou daquele
modo, mas era uma questão de quantidade e atividade ou passividade. Você é um
escravo dos seus próprios desejos ou seu mestre? (...)

História da sexualidade 1: a vontade de saber -1976 [Como e quando “surgem”


os homossexuais?]
(...) O homossexual do século XIX torna-se um personagem: um passado, uma
história, uma infância, um caráter, uma forma de vida; também é morfologia, com uma
anatomia indiscreta e, talvez, uma fisiologia misteriosa. Nada daquilo que ele é, no fim
das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas
as suas condutas, já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo destas;
inscrita sem pudor na sua face e no seu corpo já que é um segredo que se trai
sempre. É-lhe consubstancial, não tanto como pecado habitual, porém, como natureza
singular. É necessário não esquecer que a categoria psicológica, psiquiátrica e médica
da homossexualidade constitui-se no dia em que foi caracterizada – o famoso artigo
de Westphal em 1870, sobre as “sensações sexuais contrárias” pode servir de data
natalícia – menos como um tipo de relações sexuais do que como uma certa qualidade
da sensibilidade sexual, uma certa maneira de inverter, em si mesmo, o masculino e o
feminino. A homossexualidade apareceu como uma das figuras de sexualidade
quando foi transferida, da prática da sodomia, para uma espécie de androgenia
interior, um hemafroditismo da alma. O sodomita era um reincidente, agora o
homossexual é uma espécie.

Da amizade como modo de vida (1981) [Nem confessar, reconhecer ou


descobrir, mas criar]
Outra coisa da qual é preciso desconfiar é a tendência de levar a questão da
homossexualidade para o problema "Quem sou eu? Qual o segredo do meu desejo?"
Quem sabe, seria melhor perguntar: "Quais relações podem ser estabelecidas,
inventadas, multiplicadas, moduladas através da homossexualidade?" O problema não
é descobrir em si a verdade sobre seu sexo, mas, para além disso, usar de sua
sexualidade para chegar a uma multiplicidade de relações. E isso, sem dúvida é a
razão pela qual a homossexualidade não é uma forma de desejo, mas algo de
desejável. Temos que nos esforçar em nos tornar homossexuais e não nos
obstinarmos em reconhecer que o somos. Isso para onde caminha os
desenvolvimentos do problema da homossexualidade é o problema da amizade. (...)
É uma das concessões que se fazem aos outros de apenas apresentar a
homossexualidade sob a forma de um prazer imediato, de dois jovens que se
encontram na rua, se seduzam por um olhar, que põem a mão na bunda um do outro,
e se lançando ao ar por um quarto de hora. Esta é uma imagem comum da
homossexualidade que perde toda a sua virtualidade inquietante por duas razões: ela
responde a um cânone tranquilizador da beleza e anula o que pode vir a inquietar no
afeto, carinho, amizade, fidelidade, coleguismo, companheirismo, aos quais uma
sociedade um pouco destrutiva não pode ceder espaço sem temer que se formem
alianças, que se tracem linhas de força imprevistas. Penso que é isto o que torna
"perturbadora" a homossexualidade: o modo de vida homossexual muito mais que o
ato sexual mesmo. Imaginar um ato sexual que não esteja conforme a lei ou a
natureza, não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se
amar, e ai está o problema. A instituição é sacudida, intensidades afetivas a
atravessam, ao mesmo tempo, a dominam e perturbam. Olhe o exército: ali o amor
entre homens é, incessantemente convocado e honrado. Os códigos institucionais não
podem validar estas relações das intensidades múltiplas, das cores variáveis, dos
movimentos imperceptíveis, das formas que se modificam. Estas relações instauram
um curto-circuito e introduzem o amor onde deveria haver a lei, a regra ou o hábito.
(...)
Isso em que devemos trabalhar, me parece, não é tanto em liberar nossos desejos,
mas em tornar a nós mesmos infinitamente mais suscetíveis a prazeres. É preciso, e é
preciso fazer escapar às duas fórmulas completamente feitas sobre o puro encontro
sexual e sobre a fusão amorosa das identidades. (...)
A homossexualidade é uma ocasião histórica de reabrir virtualidades relacionais e
afetivas, não tanto pelas qualidades intrínsecas do homossexual, mas pela posição de
"enviesado", em qualquer forma, as linhas diagonais que se podem traçar no tecido
social, as quais permitem fazer aparecer essas virtualidades. (...)
Eu queria dizer, enfim, que qualquer coisa refletida e voluntária, como uma publicação,
deveria tornar possível uma cultura homossexual, isto é, possibilitar os instrumentos
para relações polimorfas, variáveis, individualmente moduladas. Mas a ideia de um
programa e de proposições é perigosa. Desde que um programa se apresenta, ele faz
lei, é uma proibição de inventar. Deveria haver uma inventividade própria de uma
situação como a nossa e que estas vontades disso que os americanos chamam de
comming out, isto é, de se manifestar. O programa deve ser vazio. É preciso cavar
para mostrar como as coisas foram historicamente contingentes, por tal ou qual razão
inteligíveis, mas não necessárias. É preciso fazer aparecer o inteligível sob o fundo da
vacuidade e negar uma necessidade; e pensar o que existe está longe de preencher
todos os espaços possíveis. Fazer um verdadeiro desafio inevitável da questão: o que
se pode jogar e como inventar um jogo? (...)