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DE PAPEL A DOCUMENTO: UMA REFLE

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XÃO ANTROPOLÓGICA SOBRE OS PRO-
CEDIMENTOS NOTARIAIS
Danilo Cézar Pinto
Antropólogo. Possui graduação (2004) em ciências sociais e mestrado (2007) em ciências sociais (com
ênfase em antropologia social) pela Universidade Federal de São Carlos. É Doutor em antropologia
social pela mesma instituição, com a tese “Homenagens do Legislativo: Uma etnografia dos processos
simbólicos do estado”. Também esteve como investigador visitante júnior no Instituto de Ciências
Sociais de Lisboa. Tem experiência na área antropologia, com ênfase em antropologia do estado e
da burocracia, atuando principalmente nos seguintes temas: Burocracia, Política, educação e diver-
sidade étnico-racial, educação indígena e sociedade brasileira. Atualmente é professor adjunto de
antropologia social na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, campus de Jequié e membro dos
grupos de pesquisa “Antropologia do Estado e da Guerra” e Grupos de Estudos de Temática Indíge-
na(GETI/IFBA)

RESUMO
O artigo trata de uma reflexão a partir de uma etnografia realizada em um
tabelionato de notas e protestos. O objetivo é refletir sobre o processo de
construção prática que ocorre na operacionalização dos procedimentos
formais e burocráticos que culminam na invenção de uma ideia reificada
e permanente do estado e de seus instrumentos. Mais do que observar a
subversão cotidiana do oficial, pretende-se examinar como se fabricam
reificações, a partir de seus instrumentos mais elementares: o carimbo,
a assinatura, o papel, a escrita jurídica, a fé pública, o documento e a so-
lenidade do processo de oficialização. É por meio dessa combinação que
se analisa a mudança de status e de natureza entre um discurso oficial e
outro não oficial, a mudança de um papel escrito para um documento.

Palavras-chave: Etnografia, estado, burocracia, documento, escrita.

Revista Antropolítica, n. 41, Niterói, p.328-356, 2. sem. 2016
Antropolítica

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ABSTRACT
From paper to document: an anthropological reflection on notarial pro-
cedures

The article is a reflection that is a result of an ethnography taken place in
a notary’s office. The objective is to think about the process of practical
construction that occurs in the operationalization of formal and bureau-
cratic procedures that culminate in the invention of a reified and perma-
nent idea of the state and its instruments. More than observing everyday
subversion of the official, the intention is to examine how reifications are
manufactured from the most basic instruments: the stamp, signature,
paper, legal writing, public faith, the document and the solemnity of the
process of formalization. It is through this combination that the change in
status and in the nature of an official and an unofficial, the switching from
a paper written to a document speech, is analyzed.

Keywords: Ethnography, state, bureaucracy, document, writing.

O artigo é mais um esforço de pesquisa antropológica sobre institui-
ções estatais. É notável que a antropologia brasileira das últimas duas déca-
das tem realizado empreendimentos no sentido de descrever e produzir lei-
turas sobre esse dado da realidade cotidiana1, ainda que se tenha constatado

1
Teixeira e Souza Lima (2010) realizaram um esforço de mapeamento dos estudos sobre “adminis-
tração e governança”. Dentro dessa ampla gama mapeada, um olhar autointitulado Antropologia
do Estado e da Política é reconhecido. Em 2014, os mesmos autores organizaram uma coletânea
para pensar os desdobramentos metodológicos deste ramos de estudos. Incidindo sobre uma temá-
tica relacionável, Lowenkron e Ferreira (2012) destacam os estudos e as potencialidades analíticas
das pesquisas com documentos, esses artefatos de grande prestígio no interior da dinâmica estatal.
Para uma elaboração de um panorama e tentativa de demarcação de um campo análogo de estudos,
ver Sharma e Gupta (2006) ou Hull (2012a), este mais próximo teórico e metodologicamente do
presente artigo. Percebe-se um recrudescimento de pesquisas sobre a temática no Brasil desde os
finais da década de 1990.

Antropolítica Revista Antropolítica, n. 41, Niterói, 2. sem. 2016

Id. 2. dito de objetos centrais. Niterói. 2005. É necessário examinar o processo político por meio do qual esta incerta. O objetivo neste caso deixa de ser estudar e definir a fronteira. pois tabelionatos são híbridos pri- vado-estatais. unidade absoluta e autonomia que marcam outras abordagens (cf. 2006: 170-174). por meio de uma abordagem que o entenda como entidade que realiza quaisquer mono- polizações. Não se quer aqui falar sobre o Estado de maneira geral. concessões a particulares. corretores e despa- chantes requerendo documentos a instituições estatais. 2013). característica muito trabalhada pelas demais ciências sociais. uma etnografia realizada em um tabelionato de no- tas. da filosofia política e. dis- tinção é produzida. medição da quantidade de trabalho dos escreventes e concorrência. intitulada A bu- rocracia vista do cartório: uma análise antropológica da burocracia estatal (AUTOR. realizada em 2005. 2014) que esse campo do estudo. doravante grafado em minúsculo (exceto nos momentos em que se referir a reificações das ciências sociais. durante pouco mais Antropolítica Revista Antropolítica. do direito. o interesse deste artigo recai na forma como histórica e localmente a ideia de Estado é produzida.330 (LEIRNER. mas evi- tando atribuir a ele a coerência. para a elaboração da dissertação. mas se debruçar sobre o processo que a produz – um questionamento antropológico. ocupa uma posição periférica na antropologia. 2006. opera. ainda que em muitos contextos o “Estado-ideia” surja como um dispositivo ideológico da ideia de unidade. O artigo trata de refletir sobre um aspecto de minha pesquisa de cam- po. sem. têm estratégia empresarial. atentando-se para a relevância do fenômeno. Utilizando a terminologia de Abrams (2006). primeiramente. Além do acompanhamento de cidadãos. 2007). GOLDMAN. o nexo palpável entre a prática e a estrutura institucional. ainda que poderosa. 41. O próprio campo. 2016 . diferentemente da forma como o “Estado-sistema”. n. portanto. PINTO. especialmente. já foi constatada em várias pesquisas antropológicas (HERZFELD. empresas que visam ao lucro. já deixa isso evidente. A tal multiplicidade do estado. universo ao qual pertencem os próprios nativos). Mitchell (2006) ao pensar sobre a caracterização do Estado como algo oposto à sociedade traz pistas sobre as formas que as investigações deveriam operar.

pois são co- locadas no papel e reconhecidas pelo Estado. chefe e conces- sionário. ou entre particulares e o Estado. O serviço notarial etnografado era dirigido por um tabelião concursa- do. Contudo. com irrefutabilidade de data e conteúdo. n. numa cidade média do interior paulista. e protestos. uma mistura entre o domínio público-estatal e famí- lia. Portanto. o que acarreta na dupla invenção e estranhamento: o antropólogo criou protocolos de abor- dagem de acordo com a especificidade do objeto incomum. ainda que do ponto de vista da classificação nativa tenha sido alocado como “estagiário que não trabalhava”. de modo que a pesquisa não se encerra nos balcões do cartório. que leva em conta tanto os textos escritos por es- pecialistas jurídicos quanto o que dizem os trabalhadores e as pessoas que frequentam esse serviço. escrituras. o que oca- siona autenticidade. advinda do período colonial. peritos em registros. 2. uma impureza continuamente combatida nos discursos oficiais estatais (HERZFELD. sem. como uma forma de desvinculação da ideia de cartório e hereditariedade. permaneci uma semana em cada seção: reconhecimento de assinatura e autenticação. Por determinação do tabelião. sem fé pública. procurações. os então cartórios passaram a ser denominados por Serviços Notariais e de Registro. 2016 . Manterei o vocábulo cartório. já o nativo classificou e lidou com esse estranho profissional na categoria de “estagiário que não trabalha- va”. que executava serviços seme- Antropolítica Revista Antropolítica. 41.331 de um mês encarnei um antropólogo no cartório. Tabelionatos. à revelia do texto constitucional. Com a Constituição de 1988. eficácia legal e publicidade ao documento. Há basicamente três tipos de trabalhadores nessas organizações: o tabelião. proprietário. e os auxiliares de escreventes. minha leitura sobre esse estado é tributária deste lugar específico. objetivando ações mais seguras. Tabelionatos têm a função de registrar e arquivar ações ou negócios realizados entre particulares. posto que não me era permitido ajudar no trabalho. 2001). tabelionato e serviços notariais como sinônimos. Niterói. os escreventes. havia outro tabelionato ao lado. como forma de marcar a abordagem. apenas observar e perguntar. É sabido que não é usual a presença de antropólogos em organizações dessa natureza.

o papel. ainda que admitissem que outros realizavam procedimentos diferentes. o documento. 2. enquanto neste ar- tigo objetiva-se averiguar o processo de construção prática desta invenção. Faz-se a ressalva de que a discussão sobre a formalidade dos procedi- mentos burocráticos refere-se na verdade ao que os escreventes e tabeliães fazem da abstração essencializante do formalismo estatal. aquele que seguia todos os procedimentos – o que constatei em conversas breves com os funcionários de lá. a forma essencializa- da. mediante quais procedimentos e matéria-prima. Se a imagem do oficial e imu- tável é dissolvida na prática cotidiana. p. Pode-se consentir. sem. 41. que “confronta a fixidez das regras e regulamentações oficiais com as implicações mutáveis de tudo o que se diz ou faz na vida social real”. que o tabelionato contíguo igualmente se considerava correto. n. ainda que esteja na boca e nos escritos dessa gente – divergência de procedimentos formais e de forma de concessão. estamos na mesma direção. a assinatura. Os escreventes frisavam o tempo todo o fazer correto dos procedimentos formais. Contextualizando e estranhando o estado Com a função de registrar. Para usar uma metáfora mecânica. 201) e sua noção de dissemia. a escrita jurídica. uma das tarefas do olhar antropo- lógico sobre o estado é investigar como ela é fabricada na ação. e a concessão era uma herança de seu pai. Aqui estamos um tanto deslocados de Herzfeld (2001. Mais do que espreitar uma prática da relatividade. é examinar como se fa- brica uma ideia reificada do Estado e de seus procedimentos. já que ele quer observar a subversão cotidiana do oficial-imutável-transcendente. nas palavras de Herzfeld (2001). tanto o tabelião quanto os escreventes deixa- vam claro que aquela não era uma empresa qualquer: suas ações eram dotadas Antropolítica Revista Antropolítica. 2016 . O cartório era di- rigido por um tabelião designado. Um primeiro vislumbre sobre a situação do tabelionato vizinho já desmonta a criação de uma imagem unívoca de Estado. embora pudesse seguir outros protocolos. a partir de seus instrumentos mais elementares: o carimbo. mas em sentido oposto. Niterói.332 lhantes. simetricamente. uma retórica de regularidade.

2002). adicionalmente. dentre outros aspectos. estranharam o poder criador de documentos: 2 Termos como fé pública. A relevância desse aspecto é uma dica nativa. Na etnografia. Goody (1986. Mais do que tratá-la como uma prerrogati- va inquestionável. Não marcarei todas as categorias em itálico para não carregar o texto. 2016 . n. O aspecto simbólico-performá- tico desses expedientes. A etnografia do tabelionato leva o antropólogo a pensar sobre as formalidades dos procedimentos. Por exemplo. como se constrói um documento. 1982. uma vez que é disso que os nativos tratam. mesmo com objetos distintos. Esse agrupamento.333 de fé pública2. cabe observar como ocorre sua operacionalização e agencia- mento. nos dá a oportunidade de construir uma reflexão sem a necessidade de remetimento às categorias sociológicas mais abrangentes como racionalidade. eficácia jurídica. Niterói. 2. Antropolítica Revista Antropolítica. Peirano e Bourdieu. mas elas devem percebidas a partir das premissas aqui declaradas. 2007). muitas vezes olvida-se como. 41. ao se debruçarem sobre o fenômeno estatal. Algumas catego- rias são formalizadas em regulamentos (fé pública e eficácia jurídica). levando em conta o mundo do direito e a prática cotidiana do cartório. 1995). BOURDIEU. principalmente em termos êmicos. é proposital para marcar o caráter não formalista da etnografia e o caráter contextual tanto das nor- mas como dos termos elaborados na prática cotidiana. sobre essa categoria nativa e tentar entender como funciona sua operacionalização. 183) fala sobre “o valor da inscrição no registro notarial e o poder quase mágico da palavra escrita”. Muito já se falou sobre o que seria uma característica distintiva da an- tropologia frente às suas coirmãs (PEIRANO. 2005). consta- taram ou sugeriram uma espécie de resíduo mágico. metacapital etc. o que os escreventes queriam me ensinar relacio- nava-se aos procedimentos de registro. Diversos autores. Ao se debruçar sobre as práticas dos agen- tes do estado mirando uma dessencialização. (WE- BER. sem. utilizando-se de que expedientes e fórmulas. é isso que refletem e discutem como sen- do central. categorias nativas. monopólio. papel e documento são categorias nativas empregadas pelos trabalhadores do tabelionato na reflexão sobre o tipo de trabalho realizado. os mecanismos estatais cons- troem essencializações (HERZFELD. A intenção deste texto é refletir. mas pela produção de um ponto de vista descentrado sobre a realidade (MAGNANI. Ela não se caracteriza por seu objeto. p. outras (papel e documento) são utilizadas no cotidiano da explicação sobre o trabalho.

de um ponto de vista de uma teoria do Estado. 2016 . pública e universalmente.334 Há um elemento de magia nessa associação: o indivíduo torna-se cidadão por sua carteira de identidade. A carteira faz o cidadão. Ao enunciar. mas. isto é. Aqueles que já viram sua identidade forja- da ou reconheceram sua assinatura falsificada em um cheque. o Estado exerce um verdadeiro poder criador. na Lei dos Notários e Registradores Comentada. p. de professar. o que ela é. até então. O veredicto do juiz ou do professor. 113). existe em verdade (veredicto) em sua definição so- cial legítima. 46). de eleitor. 2002. de pai. casa- mento ou falecimento. uma declaração pública. averiguações ou atas de sessão. quase divino (uma série de lutas. 41. pelos agentes autorizados e devidamente registrada nos registros oficiais. n.935/1994. do nascimento. a partir de um discurso reificado e hipertrofiado: Antropolítica Revista Antropolítica. reconhece. pela magia da nomeação oficial. cumprida nas formas prescritas. de exercer (por oposição ao exercício ilegal). por exemplo. o ser social que ele tem o direito de reivindicar. 2. os homossexuais – a ser oficialmente. esse poder ao lhe pedir que autorize uma catego- ria de agentes determinados – as mulheres. atos destinados a produzir um efeito de direito. O próprio discurso nativo colocado em lei (artigo 3º da Lei nº 8. ao se descobrir sem a carteira. com autoridade. etc. ou pessoa. ou os atos de venda. Lei dos Cartórios) define o tabelião como profissional de Direito dotado de fé pública. ele não possui mais a identidade (que é civil e pública).). isto é. Niterói. aparentemente dirigidas contra ele. que um ser. coisa. como os atos do estado civil. conhecem o mal-estar da cópia falsa do seu “eu” (PEIRA- NO. isto é. tem a capacidade de criar (ou de instituir). de fato. os procedimentos de registro ofi- cial. de contribuinte. discorre sobre o que seria essa categoria. p. de proprietário. Walter Ceneviva. 2007. apenas para si mesma (BOURDIEU. é o que está autorizado a ser. sem. de identidades sociais socialmente garantidas (as de cidadão.

no exercício da função. para observar e narrar as práticas executadas3. Por meio de seu estranhamento. façamos um exercício. perguntei a ela o porquê da conferência. 41. Por exemplo. sem. reconhecemos razoavelmente sua eficácia e função. Corresponde à especial confiança atribuída por lei ao que o delegado (tabelião ou oficial) declare ou faça. no reconhecimento autên- tico. já que a pessoa estava assinando na sua frente. Sabemos quando procurá-lo.335 A fé pública afirma a certeza e a verdade dos assentamentos que o no- tário e o oficial de registro pratiquem e das certidões que expressam nessa condição. 2016 . que atesta o ocorrido como sendo verdade. que desnaturalize essas práticas. pois compara o documento com a Ficha de Identificação (que contém a relação de documentos pessoais e três assinaturas) arquivada. Embora nós (não burocratas e com alto grau de es- colarização) não utilizemos cotidianamente o tabelionato. supostamente. Ela me 3 Este tipo de procedimento é análogo ao empregado por Latour (2000). de profissionais de Direito (CENEVIVA. poderia ver. Antropolítica Revista Antropolítica. suas atribuições. Niterói.) A título de um esforço distanciador. como ele. mesmo quando a pergunta não versava exclusivamente sobre esse assunto. mesmo que vagamen- te. Ela era invocada sempre. ao perceber que uma escrevente conferia todas as assinaturas. Afirma a eficácia de negócio jurídico ajustado com base no declarado ou pra- ticado pelo registrador e pelo notário. atribuída ao notário e ao registrador. inclusive as que faziam parte do reconhecimento autêntico4. 4 Na linguagem burocrática do tabelionato. em determi- nada ocasião. nomearemos um antropólogo estrangeiro a essas práticas. Reconhecimento de firma refere-se ao procedimento muito empregado no qual o escrevente ou tabelião atesta que de- terminada assinatura foi realizada pela pessoa indicada no documento. n. O conteúdo da fé pública se relaciona com a condição. 2. Dito isso. um antropólogo azande. Conhecemos. 2002. 2. A fé pública: 1. Há duas modalidades de reconhecimento: por semelhança. com presunção de verdade. 56. o escrevente atesta que a assinatura depositada em dado docu- mento pertence à pessoa descrita. a pessoa assina na frente do escrevente. descrever e analisar esses atos produ- zidos em cartório? A expressão “eu tenho fé pública” foi a que mais ouvi durante minha estada no tabelionato. firma é o equivalente à assinatura. p.

já que apenas um funcionário a detinha. Ele é concebido como encarnação do Estado quando está atuando. estabelecia-se a diferença entre os detentores e os não detentores dessa capacidade. Essa qualidade caracterizaria tal corporação de agentes do estado. pois é um perito na linguagem burocrática e jurídica. embora seus auxi- liares fizessem boa parte do serviço. A depender de quem assina. A seção de protestos é bem ilustrativa desse aspecto. o curso tinha por objetivo ensinar os escreventes a estu- dar e analisar os elementos gráficos constitutivos da escrita manual. a pessoa que assinou. pois as pessoas tanto intencionalmen- te quanto involuntariamente podem vir a produzir duas assinaturas bem distintas. guardadas as devidas proporções. 41. ao notário. 2. n. Apenas o escrevente havia passado pelo curso de escrevente. Essa caracterização especial. adquirida no exer- cício de sua função. atribui-lhe uma distinção. é a mesma que o Estado recebeu de seu povo. após o treinamento como escrevente.336 respondeu que se deve conferir todas. Embora sejam trabalhadores do tabelionato e realizem trabalho semelhante. tem a prerrogativa de transformar um papel em documento. e a fé pública é um marcador dessa clivagem. Essa formação distinguia esse funcionário dos demais da seção. sem. com o intuito de individualizá-la. E acrescentou: “Eu tenho fé pública. é o Estado que concede poderes de verdade ao tabelião. mesmo entre os funcionários do tabelionato. por meio de sua assinatura. não”. só a sua assinatura possuía fé pública. O agente da burocracia é possuído pela fé pública que lhe é outorgada. E este sabe muito bem como abordar aquele. Isso nos leva a uma observação necessária: há uma diferença fundamental que depende daquele que assina os papéis. por exemplo. só ele poderia produzir o documento com valor de documento. Assim. Niterói. Do ponto de vista de uma teoria nativa sobre a fé pública. com formação em Grafotécnica que o habilita a tal função. Além de noções sobre Documentoscopia. mas restrita a garantir e certificar uma segurança nas Antropolítica Revista Antropolítica. o valor das mesmas palavras é diverso. apenas o escrevente. di- vidiria as pessoas em detentoras e não detentoras de fé pública. Especificamente essa crença atribuída. como ilustra a explicação da escrevente. 2016 .

Carimba. confere as assina- turas. O escrevente. encaminha-se para o tabelionato de notas. sem. doravante referido como RG. vige a crença popular de ser correto. de identificação civil emitido pelas Secretarias de Segurança Pública es- taduais. onde irá pedir uma cópia 5 Exemplos como esses abundam.337 relações sociais (atos jurídicos) que todos desejam como princípio de justeza ou certeza daquilo quanto ao efetivamente acertado. Feito isto. salvo incontestável prova em contrário. 2. são documentos pessoais que individualizam seu portador. Antropolítica Revista Antropolítica. reconhecendo a importância dos documentos pessoais. o outro é fiscal. o que o transforma em documento. nesta conjuntura individua- lizada na figura do notário. pelas palavras tanto dos teóricos sobre a fé pública do ta- belionato quanto dos teóricos do direito que versam sobre a questão. ilustrado por alguns exemplos. é uma das mais amplas já conhecidas. sela e assina. seu inestimado valor e o trabalho que se tem para emiti-los. já que a sociedade não pode ser traída em nenhuma hipótese (REZEN- DE. A fé pública. 6 O Registro Geral. n. 29). validando-o juridicamente. Para tanto. CPF. dirige-se ao tabelionato para reconhecer firma das assinaturas. Percebe-se. de posse do contrato. 41. O primeiro é um documento “policial”. ele prepara a redação do docu- mento e recolhe os documentos pessoais e assinaturas do proprietário (ele mesmo) e do inquilino. e o Cadastro de Pessoas Física. pois ao detentor dessa atribuição cabe-lhe a expressão da verdade. Esses casos específi- cos servem mais para marcar contextos e serviços distintos. também conhecido como Identidade. autêntico em tudo aquilo que dita e escreve. para que não precise portar o original por toda parte. reconhecendo-as como legítimas. Niterói. ou melhor. 2016 . deseja autenticar seu Registro Geral6. uma noção de que há algo transcendente que confere uma qualidade distinta ao discurso colocado no papel. p. es- criturado e trasladado. Os nomes são fictícios para preservar a fonte. Maria. Por isso. Vejamos agora como são os atos do cartório. 2004. uma amostra prática da atuação da fé pública desses atores: Luís5 necessita reconhecer firma das assinaturas depositadas em um contrato de aluguel imobiliário.

Chegando lá. a cópia bastará. pois sua declaração agora possui eficácia jurídica. Vai ao cartório e pede ao es- crevente para redigi-lo. Sua mãe deveria redigir uma procuração (ele sugere a Procuração para Foro em Geral) em seu nome. De posse de todos os documentos. José deseja uma Declaração de Dependência Econômica para que sua companheira seja incluída no convênio médico. o escrevente efetua uma cópia de seu documento. números de RG e CPF). brasileiro. nomeia e constitui seu procurador (nome. um papel com o brasão da República Federativa do Brasil e do Estado de São Paulo. 2. compareceu como ou- torgante (nome. onde a chamado compareci. reconhecida por mim. a mim apresentada. Luiza não precisará portar seu documento original. então. Marca a data e o horário. Este solicita RG e CPF de ambos. Ele acabou por falecer durante a operação e sua mãe adoeceu. A partir de agora. aposentada. consoante a documen- tação acima citada. Pedro. maior. pode incluir sua esposa no convênio médico. além do número do livro de registro: Aos (data). Então. Ela teria de viajar a São Paulo e percorrer a cidade para perceber o dinheiro devido. Antropolítica Revista Antropolítica. A aposentadoria dela e a pensão após a morte do marido ficaram difíceis de serem recebidas. O escrevente diz então que irá se deslocar até a residência. n. brasileira. na residência da outorgante. me foi dito que. Se precisar apresentá-lo.338 autenticada. distrito. Pedro diz que não. Digita a declaração e José assina. pela outorgante. Seu pai iria sofrer uma cirurgia e passou uma procuração a sua mãe. O escrevente informa todos os documen- tos necessários para a redação e pergunta se ela poderia se dirigir ao cartório. ele insere os da- dos na procuração. situado na (endereço). 2016 . ser- vente. já que devem ser retiradas em dois bancos dife- rentes na capital paulista. por este instrumento e nos termos de Direito. então. 41. nesta cidade. município e comarca de (nome da cidade). pergunta ao escrevente como proceder. residente e domiciliada no endereço retromencio- nado. Também carimba “Docu- mento autêntico” e assina. Niterói. viúva. carimbando “1º Tabelionato de Notas e Protesto”. como a própria. sem. Pedro é filho único. Estado de São Paulo. Ele. números de RG e CPF).

o escrevente faz uma preparação. ao buscar entender o que se passava nessas situações. a digitei. Há um prédio denominado tabelionato. procurações ou escrituras. Niterói. fazer e assinar declara- ções de vida. da cida- de de São Paulo. O escrevente lê o documento em voz alta. fazer e assinar requerimento e declarações. como no último caso. assinam. auxiliar de enfermagem. assinar quaisquer tipos de termo para recadastramento. junto à agência do (nome do banco). outorgou e assina. E. inclusive substabelecer. selos. nas quais todos ficam em Antropolítica Revista Antropolítica. preencher formulários. escrevente e outor- gante. a subscrevi. papéis. maior. dar quitações gerais. a quem confere pleno e ilimita- dos poderes para o fim especial de fazer recadastramento e receber a pensão que é paga a ela pelo Instituto de Previdência Social do Esta- do de São Paulo IPESP. podendo. carimbos. causando uma diferenciação no tempo. na leitura e na as- sinatura do documento. 1º Tabelião de Notas de Bragança Paulista. Todos. E eu. enfim. para tanto. passar recibos. apresentar e assinar papéis e documentos. instaura um clima de solenidade. fornecer dados da outorgante. praticar todos os demais atos indispensáveis ao fiel e completo desempenho do presente mandato. 2. percebe a distinção que ocorre nessas ocasiões mais austeras. com uma postura séria de corpo e de voz. de como assim o disse. notaria que os procedimentos estudados têm lugar para acontecer. Eu (assinatura e nome do escrevente). escrevente. residente e domiciliado no mesmo endereço retro mencionado. juntar e desentranhar documentos. repleto de pessoas engravatadas. Quem já acompanhou leituras de testamento. me pediu e eu lhe lavrei este instrumento que depois de lido em voz alta e achado em tudo conforme. 41. O tabelião assinara antecipadamente. aceitou. 2016 . sem. Se não for possível. n. Em seguida. Nosso antropólogo estrangeiro hipotético. computadores. redigindo o docu- mento e encaminhando-se à casa da pessoa. receber quantias. (as- sinatura do tabelião). e Pedro agora pode representar sua mãe. assinar folhas de pagamentos.339 solteiro.

340 silêncio para acompanhar a leitura daquele que tem voz de Estado. 2016 . Caso o popular xerox do documento (no cartório. tanto nas pessoas como nos pró- prios documentos. juntos. Agora. n. que estão para além do univer- so organizacional. 41. modificam-no. será resolvida pelas cláusulas contratuais. a cópia deve vir com um carimbo que informe o local onde foi realizado o serviço. em última instância. carimbos e selos. Quando Maria vai ao tabelionato pedir a autenticação de seu RG. pois o tabelionato reconheceu que as pessoas assinaram de acordo com seu livre consentimento. A impressão solene desses momentos funda uma temporalidade que parece importante e irreversível. ganhou eficácia jurídica. sem. este é um documento. diferença salientada diversas vezes pelos escreventes para mar- car a ausência ou presença de fé pública. que será fortalecida e corroborada pela assinatura de todos. postos no papel. que produzem pessoas e as relaciona entre elas e a outros materiais. De qualquer forma. Carimbo. selos e assinatura do escrevente. de autori- dade e de verdade. as pessoas já se acostumaram a reproduzi-lo ali mesmo. Os instrumentos exclusivos Antropolítica Revista Antropolítica. No caso de Luís e o reconhecimento das assinaturas. Pode-se até dizer que há uma espécie de “parada no tem- po”. 2. os utensílios utilizados para dar um caráter de verdade jurídica são o selo de reconhecimento por semelhança. Nosso convidado também percebe que os escreventes e tabeliães pos- suem alguns utensílios característicos: assinaturas. Qualquer problema que ocorrer nessa relação contratual. de algo que parece estar além deles próprios e daquele momento específico. Niterói. no qual os escreventes revestem-se de uma certa “potência”. Hull (2012b) cunhou a expressão “artefatos gráficos” para dar vazão a uma leitu- ra sobre as mediações operadas nos documentos. Eis o poder de criação desses procedimentos: de papel a documento. o escrevente utiliza como instrumentos a sua assinatura e dois carimbos: o ca- rimbo que informa que a cópia foi feita ali mesmo e o carimbo de Documen- to Autêntico. é chamado de cópia reprográfica) não seja feito ali. assinadas por ambos e garantidas por uma legislação e jurisprudência relacionadas às ins- tituições de serviços auxiliares de justiça. o carimbo em formato de uma mão apon- tando para a assinatura e informando o nome do tabelionato e a assinatura do escrevente.

ganha em eficácia se procedimentos específicos forem seguidos. faz-se necessário uma fé pública maior.341 do tabelionato para esse procedimento são a assinatura do escrevente e o carimbo de documento autêntico. contida na assinatura do tabelião. Nos outros dois casos. Para fins jurídicos. com símbolos que ostentam o Estado (Brasão da República e do Estado de São Paulo) e numeração. os documentos são lidos em voz alta e séria. É possível observar que há uma mudança no caráter solene de acordo com o documento. Reconhecimentos e autenticações são requeridos num clima de menor solenidade. sem. Apesar de dispensar carimbos e selos. Assim como na ampliação Antropolítica Revista Antropolítica. a linguagem é inteiramente elaborada pelo escrevente e pelo tabelião. O procedimento transforma uma cópia em documento. distingue nosso convidado. veredicto. Outros documentos. embora seja necessária toda a utilização de ins- trumentos exclusivos desses procedimentos para serem realizados. como declarações. Essa ampliação de solenidade que ocorre conforme os documentos tem paralelo na divisão do espaço físico do prédio. Se o reconhecimento de firma e autenticação (tam- bém nos documentos expedidos pela seção de protestos) não requeriam a assinatura dele. são realizados em caráter de maior formalidade e solenidade e necessitam da assinatura do tabelião. muitas vezes. como os escreven- tes. portanto podem ser realizados por pessoas de menor fé pública. no caso destes últimos. bastava a dos escreventes. com o documento. pro- curação e escritura. a palavra de uma pessoa. os carimbos e selos deixam de ser necessários. não se dispensa a assinatura do tabelião. fazendo-se necessárias assina- turas com fé pública. Portanto. n. procurações e escrituras. esses procedimentos são mais apurados (envolvem mais elementos). No tabelionato. sendo que. 41. 2. é o tabelionato que fornece toda a linguagem e material. Niterói. já nos casos de declaração. percebe nosso antropólogo. ele deve assinar duas vezes no documento (caso da procuração e escritura). uma afirmação. o serviço notarial fornece parte do ma- terial. a declaração para José e a procuração para Pedro. realiza-se a transformação de uma assertiva em discurso verdadeiro. O próprio tabelionato fornece o papel em que será redigido (traslado). 2016 . contudo.

2016 . 2. esta compartilhada entre os que documentam e aquela também pelos documentados. CPF. 41. Niterói. ocorre um deslocamen- to no local ocupado pelos funcionários. se o tabelionato possui ins- trumentos tais como assinaturas.342 da solenidade. Antropolítica Revista Antropolítica. Se observarmos panoramicamente o galpão do cartório. no terceiro. no primeiro caso. comprovante de residência e assinatura de ambos. Em alguns documentos. será necessária uma reunião da fé pública desses agentes. já que se torna necessária a assinatura do tabelião. selos e carimbos. veremos que os documentos de maior solenidade são redigidos mais interiormente (espaço físico). RG. repleta de termos que não são utilizados pela maioria das pessoas em seu cotidiano. Tudo se passa como se. observaria o antropólogo azande. nessa escala de fé pública. que pode distribui-la aos escreventes. A fé pública é desigualmente distribuída entre eles e entre os próprios documentos. O estado e a escrita O nosso atento antropólogo pondera que. n. o tabelião fosse um acu- mulador. entretanto a agência não é equivalente entre os próprios detentores da fé pública. com seus artefatos específicos. RG e CPF do casal e assinatura do marido. A fé dos escreventes só é va- lidada pois há um tabelião que a substabelece. Esses papéis remetem a toda uma forma de dizer jurídica. sem. à medida que se caminha do reconhecimento e autenticação para a escritura. bem como são destinados aos escreventes mais antigos. O documento produz uma agência coletiva e uma ideologia gráfica (Hull. observa-se mais uma vez como o “Estado-ideia” é dis- solvido no cotidiano das relações entre os próprios funcionários do tabelio- nato. A linguagem que consta nos documentos é diferenciada: é burocraticamente diversa da cotidiana. ocorre um aumento de fé pública contida no documento. Desse modo. afinal cada um ocupa um papel distinto. especialmente nas procurações e escrituras. Utiliza-se de expressões e vocabulários distintos. 2012b). no último. as pessoas que se dirigem a ele precisam fornecer os ingredientes que serão utilizados no procedimen- to: assinaturas e documentos pessoais. mais potentes. o RG original no segundo. Trata-se de mudanças em espaço físico e na quan- tidade de fé pública.

Esses ingredientes da fabricação documental iluminam o poder da lin- guagem escrita. “praticar todos os demais atos indispensáveis ao fiel e completo desempenho do presente mandato. redigido em papel. nesse caso específico. Deve- -se saber exatamente o que se está fazendo. ou a escrita como idioma do poder. o escrevente se vira para mim e diz: Aparecem muitos analfabetos. Antropolítica Revista Antropolítica. 2005. pois eles podem voltar para reclamar e tudo deve ser feito para resguardar o escrivão da responsabilidade do negócio. 2. aquela dos documentos que não podem ser desfeitos. inclusive substabe- lecer”. política e econômica” (HERZFELD. assim como o nome de muitos dos docu- mentos produzidos em cartório. 41. para fazer procuração. Os sociolinguistas de- nominam esse processo de diglossia. num lugar onde a palavra escrita é im- prescindível. 31). ou mesmo para abrir ficha. sem. Após o atendimento de um casal analfabeto. Essas expressões não são comumente utilizadas no dia a dia. 2016 .343 A ação é sempre descrita por meio de um vocabulário jurídico e de estado.) um dis- positivo de exclusão social.. O lugar onde tudo deve ser documentado. É interessante perceber que. n.. Um rebuscamento e arcaísmo são acionados para marcar uma diferencia- ção. apareça tantos analfabetos. no qual “o chamado registro ‘alto’ cos- tuma exigir acesso a recursos educacionais pouco abundantes (. a atenção deve ser redobrada. onde há transações entre pessoas semi ou completamente analfabetas. “endereço retromencionado”. Nestes casos. fazem parte de um vocabulário jurídico. p. Basta observar a redação da procuração citada. assinado. em nível microscópico. da alfabetização estatal frente ao “problema do analfabetismo” – uma hierar- quização básica nas sociedades dos estados nacionais. é frequentado por aqueles que não dominam sequer a escrita. toda a potência de controle agenciada pela literacia frente à oralidade. A distinção pode ser notada na utilização de palavras como “outorgante”. Niterói. “consoante a documentação”. O valor da palavra escrita sob um vocabulário não cotidiano recupera.

juntamente com a impressão digital do outorgan- te. que também vão depositar suas assinaturas na ficha. O cartório estudado.344 No que que se refere às condições para abrir firma no cartório. geralmente. cada escrita é individual. os procedimentos mudam. pois participou de cursos para escrevente. Se o indi- víduo sabe assinar. Redige-se a procuração. Todavia. É a partir dessa noção que se pensa poder reconhecer e diferenciar a relação entre escrita e seus autores. Antropolítica Revista Antropolítica. Nesse caso. que assina a procuração “a rogo”. que ficará guardada nos arquivos e servirá para consulta. o escrevente também recolhe informações. mas não ler nem escrever. Já a pessoa analfabeta que não sabe assinar deve nomear um alfabetizado como seu procurador. dar validade a algum contrato etc. o advogado a representá-lo. Esse é o procedimento normal com pessoas que sabem ler. Segundo esse tipo de análise. O reconhecimento de firma se dá na comparação que o escrevente realiza entre a assinatura que se deseja reconhecer e a assinatura depositada na ficha. 2. A pessoa deve assinar duas ve- zes na ficha. Caso a pessoa seja casada. então. um parente. Cada pessoa possui gestos gráficos. além de um dos documentos mencionados acima. contanto que seja acompanhado por duas testemunhas. carteira de conselhos profissionais. assinar. toda vez que o fichado ou outrem quiser reconhecer a assinatura. onde se aprendem noções sobre gra- fotécnica. sem. deve apresentar a Certidão de Ca- samento também. nunca podendo ser reproduzida de maneira exata. 2016 . deve-se portar alguns dos documentos de identificação exigidos pelo regulamento. Um advogado também pode ser nomeado como procurador. para pessoas que não dominam a linguagem escrita. solicita o CPF. O funcionário tem condições de reconhecer uma assinatura por semelhança. o que permite identificar características individuais na escrita. Niterói. tais como endereço e profissão. o analfabeto necessita de uma testemunha. 41. n. autorizando. é claro. Carteira Nacional de Habilitação (CNH). cédula de identidade militar. que os habilita a tratar cada escrita como individual e como conten- do características identificáveis de cada assinante. pode abrir uma ficha. escrever e. na qual o anal- fabeto deposita suas impressões digitais. Registro Nacional de Estrangei- ros. como RG. Exibidos os devidos itens. autorizando o procurador a assinar por ele.

O termo “capaz” foi diversas vezes citado pelos escre- ventes. que conseguiria atingir a individualidade na classificação. são índices de individualidade. portanto.345 Instituições como os tabelionatos funcionam como dispositivos de produção da individualidade. maior. sem. n. já que se concebiam as impressões digitais como inalteráveis. A assinatura e. sendo que a “capacidade de exercício” é alcan- çada durante o transcorrer da vida. Para tanto. o Brasil foi o primeiro país a usar as técnicas datiloscópicas na identificação de criminosos. segundo a terminologia utilizada) está autorizado pelo estado a celebrar contratos. uma prova da in- divisibilidade da pessoa dos estados-nação. Por meio dessas marcas naturais. uma vez que se postula que cada pessoa tem sua assinatura e impressão. à capacidade de exercício (capacidade para exer- Antropolítica Revista Antropolítica. que pretendem mediante numeração qualificar um indivíduo sem equívocos. logo essa técnica de identificação foi estendida à toda a sociedade. é detentora da denominada “capa- cidade de aquisição”. na intenção de es- tabelecer um mecanismo de vigilância policial universal. profissão. Niterói. Segundo Carrara (1984). Todo documento produzi- do realiza uma descrição individualizante. lúcido. na sua ausência. A gradação da incapacidade refere-se. Contudo. capaz (isto é. Segundo um artigo publicado no site da Associação dos Registrado- res e Notários do Brasil (ANOREG-BR): Toda pessoa. estado civil e os fundamentais documentos pessoais. 2016 . pensava-se haver encontrado a prova inequívoca da exis- tência da individualidade. utilizam-se de vários procedimen- tos e fórmulas para caracterizar e individualizar. a impressão digital são componentes impor- tantes desse procedimento. ao nascer com vida. Há uma assertiva êmica de que esses elementos são absolutamente individuais. em 1903. 2. composto por informações como endereço. o cidadão e sua correspondência burocrática e autônoma. imutáveis e variáveis de indivíduo para indivíduo: um verdadei- ro sistema totêmico aos moldes levi-straussiano. Os indivíduos que detém as duas são considerados plenamente capazes. todo cidadão. 41. A partir dos procedimentos mencionados.

sobretudo. por si só. Sem ela seria impossível a comunicação à distância e o armazenamento da informação. s. Isso é decorrente. Segundo Goody (1986) a escrita foi imprescindível no desenvolvimento do estado burocrático. 41. segundo seu livre consentimento.346 cer. Todavia. a profissão de jurista torna-se uma ocupação para especialistas letrados. enquanto outros somente estarão aptos com o auxílio de testemunhas. ainda. e a lei é cada vez mais retirada das mãos “ama- doras” do homem de rua. no desenvolvimento de especialistas letrados: Os registros escritos implicam a presença de escritores cujo trabalho dá uma forma permanente aos pleitos e decisões verbais. 1986. n. segundo a impressão do tabelião ou escrevente. A afirmação da lucidez é importante já que a função do ser- viço notarial é dar publicidade aos atos que sejam realizados pelas partes. p. As normas jurídicas já não residem na me- mória de qualquer indivíduo (pelo menos de qualquer ancião) mas podem ser literalmente enterradas em documentos a ser exumados apenas por especialistas na palavra escrita (GOODY. ao passo que a outra (capacidade de aquisição). uns podem exercê-los livremente. contudo. Também os juízes precisam compreender a palavra escrita à medida que a lei é cada vez mais incorporada em resumos e summae. todos têm. 165). classificados como plenamente capazes os maiores de dezoitos anos considerados pelo tabelião e pelo escrevente como lúcidos. O tabelionato. atos na vida civil). Todos são cidadãos no exercício de seus direitos. portanto. Ela atuou. Sob estas circunstâncias. do tipo de lingua- gem adotado pelo modo de comunicação estatal: a comunicação burocrática. 2003. portanto.p. observa-se claramente um crité- rio diferenciador desses cidadãos plenamente capazes: o domínio da lingua- gem escrita. as limitações de idade e boa saúde mental. São. além de promover a autenticidade nos atos. deve também examinar a pertinência desses atos segundo as regras estatais. bastando que estejam vivos (PANTALEÃO.). 2. sem. Niterói. Antropolítica Revista Antropolítica. 2016 .

iletra- dos ou parcialmente letrados têm sido privados da terra que era ori- ginalmente sua. Os que não têm poder são simbolicamente iletrados: mais uma vez é a deficiência que os define (HERZFELD. em Puerto Rico ou no sudoeste americano. a subs- crevi. 2. de como assim o disse. E eu. O poder é o controle do discurso. a prova documental de posse foi exigida por co- missários. sem. em Fiji. aceitou. a escrita separa e hierarquiza os cidadãos frente ao estado nacional. surgimento do estado burocrático e valorização da escrita. Por causa disto. Antropolítica Revista Antropolítica.” (GOODY. me pediu e eu lhe lavrei este instrumento que depois de lido em voz alta e achado em tudo conforme. n. 2016 . 41. E. juízes e colonialistas letrados. 2001: 62) Os documentos do tabelionato são redigidos em primeira pessoa. 1986: 178) Portanto. o que não deixa dúvidas sobre a autoria. os registros atuaram como forma de expropriação e assim por todo o mundo. no início das formações na- cionais. outorgou e assina. 1º Tabelião de Notas. povos não-letrados. reorganiza a experiência para satisfazer os caprichos dos poderosos.347 E esta formação de especialistas. Eu (assinatura e nome do escrevente) escrevente a digitei. trouxeram consigo uma divisão entre os que sabem e dominam a escrita burocrática e os que estão privados dela. Disto resultou que. e o ato de escrever. Niterói. ratificada pela potência da escrita e assinatura. ele mesmo um índice e uma metonímia do poder dos que sabem escrever so- bre o resto do mundo. principalmente do documento escrito. (assinatura do tabelião).

o que explica. Em consequência. a eficácia que esses documentos passam a possuir7. pois “aceitou. n. Apenas aque- les que detêm a fé pública podem realizar o registro e a oficialização/estabi- lização das ações. Isso ocorre com sucesso. sem. convencionalmente. em contextos institucionais. por 7 Para um maior detalhamento sobre esse aspecto. chegando a operar no domínio prático. por similitude ou contiguidade. produtora. Ao citar o documento de uma pessoa. que é distinguível de assinaturas produzidas por outro punho. outorgou e assina. algo que a pessoa aceitou e. Aqueles são citados na elaboração da procuração e operam como metáforas dos referidos indiví- duos. 2. 2016 . transcende o domínio do simples entendimento. O registro.348 De papel a documento Estranhando. Austin (1962). ela carrega a marca da aceitação. além de representar determinado indivíduo no documento. ver Tambiah (1985) e Peirano (2001). só que numa linguagem burocrática. as coloca em outro patamar de verdade. Assim. em suas reflexões sobre o poder criativo da linguagem. Contudo. análoga a frases como “eu prometo” ou “eu desafio”. Antropolítica Revista Antropolítica. Eu. transfor- mando a pessoa em cidadã registrada e o documento em metáfora daquele que é representado. Pensando sobre o exemplo da procuração. a subscrevi”. nosso antropólogo hipotético percebe que estes enuncia- dos possuem qualidades especiais. chama isso de força ilocutória. sejam performativas. Niterói. que é o mais completo que possuímos. mas também façam coisas. Tabelião de Notas. representam apenas um indivíduo. E eu. O autor consta- ta que há elementos que estão para além da representação. a assinatura representa uma relação metonímica de determinado indivíduo frente ao documento. escrevente a digitei. em parte. mais do que descrever as ações. Refiro-me aos documentos pessoais e à assinatura. cada pessoa possui uma assinatura. A força ilocutória do enunciado permite que as palavras não apenas digam coisas. Indicam apenas um indivíduo concreto: aquele que possui o número “x” em seu RG e um número “y” em seu CPF. cita-se a ela mesma. nota-se que na produção de documentos entram componentes que. os quais ele chama de constatativos. possui uma força intrínseca. quando dito no lugar certo e pelas pessoas certas. sobretudo. 41.

e a ação contida no documento passa a ser lida como legítima perante as instituições estatais. n. Há uma crença apriorística de que os documentos. sem ela. Elas simplesmente o fazem. em oposição ao casamento sem registro. ilustra muito bem essa valorização do registro. serão legítimas. Todos os documentos reconhecidos. quando passam pelo serviço notarial. mas elas só terão fé pública.349 isso. as pessoas passam a ser burocraticamente inteligíveis. pois existe uma força criadora que realmente produz essa mudança. conferindo uma solução de contiguidade entre indivíduo e documento. Dessa maneira. Nesses casos. ao associar pessoas concretas a nomes e assinaturas. Com os procedimentos. de um simples papel para um documento. Mas não é só isso. 2016 . seguindo todas as formalidades apregoadas por ele. Qualquer um poderia redigir algo parecido com uma procuração ou uma escritura (basta ser alfabetizado). 41. se pro- duzidas pelo tabelionato. e também porque todo mundo assim procede. segundo os procedimentos pelos cartórios. pois foi assimilada pelo idioma em que o documento está escrito. após o cumprimento de todos os procedimentos necessários. Gue- des (1999). nesse sentido. que os procedimentos que ele adota têm eficácia. com a sua função reguladora. sem. Niterói. De um papel escrito passou a documento legítimo. o que indica a extrema valorização da vida legalizada. ao estudar o valor cultural que o documento tem entre os trabalhadores. pois levam em conta todo o poder coercitivo estatal e sua autoridade de fazer cumprir. Todos acreditam (inclusive o tabelião). possuem fé pública. O pa- pel passa ser documento à medida que adquire fé pública. têm maior valor. E sabem onde e quem procurar. pois estão sob o crivo do Estado. pois foi traduzida para o idioma do oficial. porque todos acreditam que eles realmente são distintos. Os trabalhadores classificam o casamento registrado em cartório como sendo “casamento de verdade” ou “casamento mesmo”. há uma ideia criadora de uma troca de estado em direção a uma linguagem e eficácia jurídico-estatal. e com razão. qualquer um poderia produzir os Antropolítica Revista Antropolítica. o estado não precisa em- pregar a violência física para que as pessoas procurem registrar e oficializar suas ações. 2. A ação passa a existir oficialmente. Tudo isso só ocorre. autenti- cados e produzidos. depositou sua marca.

Niterói. por este instrumento e nos termos de Direito. 2. seriam apenas papéis. “eu a subscrevi”. a fé públi- ca investida no tabelião é a condição da validade dessa transformação. carimbos e assinaturas). E essa força criadora que garante a eficácia simbó- lica operada pelo tabelião pode ser encontrada na noção de fé pública. os documentos não possuiriam valor. prerrogativa daqueles que trabalham como agentes do estado.350 documentos que quisesse. pela outorgante. É por meio da combinação entre agente do estado (o tabelião). instru- mentos (selos. também rei- ficada) às pessoas e às coisas que estão em jogo. um elemento de crença e também de experiência e autoridade. segundo o discurso dos escreventes. os procedimentos são iguais em todos os tabelionatos. que devemos encontrar a resposta para a mudança de status e de natureza entre um discurso oficial e outro não oficial. Sem a força dela. nomeia e constitui seu procurador”) e fé pública. os mecanismos estatais fabricam a ideia de univocidade. n. me foi dito que. esse apagamento e fabricação de univocidade. agora o Estado garante a verdade. ouvi diversas vezes os escreventes di- zerem não realizar determinado procedimento (reconhecer uma assinatura de um contrato sem todas as páginas. Passou pelo Estado. força elocucionária do discurso (contida em expressões como “eu lhe lavrei este instrumento” “eu a digitei”. daquele que produz um voice over e cala a polifonia. “Então. a mudança de um papel escrito para um documento. mas sugerirem o enca- Antropolítica Revista Antropolítica. sem. re- vela ruídos. ingredientes (documentos pessoais e assinatura). A despeito da afirmação de que a lei é uma só. 41. Se a assinatura e os documentos pessoais são a representação da transformação do discurso sendo efetuada. Esse é um dispositivo retórico e performático fundamental nas ações. algo foi declarado sem volta. quando olhado com lupa. isto é. Dessa forma. A dimensão de solenidade constatada nos procedimentos de oficializa- ção de contratos ou ações ratifica aquela impressão de definição peremptória. sacramentou-se a ação. 2016 . Ela dá valor (eficácia jurídica. liberando a “força” necessária para a oficialização do ato. por exemplo). Contudo. ser- vindo como prova de uma ação realizada aos olhos da Justiça. é condição da experiência legitimadora operada no registro. de Estado como um ente que tem a última e definitiva palavra.

linguagem adotada. Niterói. via registro. 2. Como estamos falando de dezenas de milhares de certidões. 2006. uma demonstração de perfectibilidade e apagamento de diver- sidade. penal. em todas as esferas do Direito (trabalhista. uma máxima notarial. Uma vez registrado. não pode ser apagado e questionado. Entretanto. como discorrem os teóri- cos do direito. ficaria imortalizado nos arquivos notariais. ou os pleitos estuda- dos por Bezerra (1999). Considerações finais ou por que se deve refletir sobre as formalidades Procurei trazer minha contribuição no que se refere aos estudos sobre a burocracia olhando para aspectos como: fabricação de documentos. nada garante que outros não registrem outras informações. muitos estudos na antropologia já apontaram caminhos. Muitos dizem que o único modo teoricamente seguro de comprar qualquer imóvel no Brasil seria tirar todas as certidões de todos os donos do imóvel nas últimas duas décadas anteriores à compra. no qual se pode observar a influência da rede de relações pessoais atuando sobre a formalidade dos procedimentos burocráticos. Se quem não registra. circu- lação. dos negócios e ações realizados por particulares. 41. procurei analisar o lado oficial da rede de comunicação burocrática.). alhures. podendo ser resgatado com validade jurídica a qualquer momento. 2016 . s. cível. como o sugerido por Da Matta (1997). n. em que as lideranças políticas locais recorrem aos parlamentares por acreditarem que estes possuem um poder de atuar junto a burocracia estatal. Em tese. seus aspectos formais. ele garante a eficácia como ato jurídico. a segurança absoluta é inviável. não é dono. que. não ne- gligencio o que ocorre de modo informal. sem. Nesse sentido. enfim.p. autoria. sabemos que a busca por essa segurança absoluta inviabilizaria qualquer negócio (MAGALHÃES. Contudo. fiscal) e em todos os estados e municípios do país. uma vez realizado. ou até mesmo os cartórios judiciais pesquisados por Mi- Antropolítica Revista Antropolítica. pois talvez o façam – e como dizer que o mesmo também não foi proposto pelo concorrente? A razão de ser dos procedimentos dos tabelionatos de notas é garantir a segurança.351 minhamento ao cartório ao lado.

Niterói. 2. o intuito do artigo foi captar o que esse lado um tanto ignorado. n. mas entender essa escrita documental como uma das mais relevantes tecnologias de governo. sem. 41. examinei procedimentos que funciona- vam como catalisadores da circulação dos documentos. 2013). Contudo. a formalidade dos procedimentos. em Autor (2007). como demonstram Lowenkron e Ferreira (2012) em suas pesquisas sobre a produção de documentos das polícias federal e civil do Rio de Janeiro. tem relevância. como o transforma em ofi- cial e legítimo. Eu mesmo. Levar à sério a fala nativa sobre buro- cracia e documentos significa não pensar essas práticas apenas como formas de ineficiência ou trabalho inútil dos agentes de estado. como utilizar um idioma que as pessoas não utilizam no cotidiano. enfim. É verdade que olhar só para os procedimentos não basta. mas que é ne- cessário quando se dirigem ao estado. como se constrói um documento. Eles podem nos dizer muito sobre o que é o estado. Antropolítica Revista Antropolítica. Deve-se ob- servar como são manipulados. baseados numa retórica de troca de favores entre conhecidos. como se não tivessem importância.352 randa (2000). como se fossem apenas o resultado de acertos políticos ou derivados das relações pessoais. Mas as formalidades não são epifenômenos de acertos informais. como as pessoas lidam com eles. Há expedientes que estabelecem circulação e aceleração ou retardamento de prazos. como se elabora corretamente uma procuração. para onde vai. que identificou tratamentos diferentes a alguns advogados na requisição de documentos. Por esse motivo e também porque os próprios nativos insistiram tanto. tem a nos dizer. 2016 . como funciona uma parte da comunicação ou qual é o idioma “falado” por este. “apenas preencher papel” (Ferreira. A formalidade. qual a linguagem adequada para se referir a determinada autoridade. averiguando o que o estudo dos meca- nismos formais tem a acrescentar à gama de estudos que versam ou tangen- ciam a problemática da burocracia e do estado. práticas com grande potencial ana- lítico. é que prestei tanta atenção ao modo como são construídos os documentos. o que não pre- cisa. como as aborrecem e como funcionam. já que na etnografia brotam eventos nos quais se disputa o modo de elaboração do documento: o que precisa.

o irmão questionou a transação na justiça algum tempo depois. sem. e não o tabelião. Oral/Escrito. Uma antropologia que leve a sério o discurso que os agentes estatais produzem e aceite como dignos de nota e análise tanto o que eles fazem quanto aquilo que dizem fazer – e isto. deve estar em desacordo – deve prestar atenção aos formalismos e à capacidade perfor- mática desses enunciados no papel. o tabelionato foi obrigado a pagar uma inde- nização ao irmão do escrevente. em que se convida ao estudo dos aspectos centrais de nossa sociedade. corre-se o risco de não haver o registro ou o reconhecimento. Numa época em que se discute tanto os Grandes Divisores (Primitivo/Civilizado. e. de formalidades e acertos. enfim. ao mirar o estado só olhar Antropolítica Revista Antropolítica. é mister em olhar para os interstícios. ele não é aceito. Não me foi dito quem era o escrevente da história. desobedecendo ao protocolo para estes casos. por isso. Ele funcionava como um lembrete a todos do porquê seguir todas as formalidades. Niterói.353 Quando não se adotam todos os procedimentos entendidos como ne- cessários e obrigatórios por determinado tabelionato. Ouvi esse relato em diversos momentos. ainda que o estado possa nem ser concebido como central (central para quem?). 2008). Segundo o relato. Ciência/Religião. é possível olhar para ele sem a purificação de determinadas análises. Um documento todo “amarrado” é mais difícil de ser questionado. para que ele não necessitasse se dirigir ao serviço notarial a fim de confirmar o negócio. um híbrido de oral/escrito. Se o xerox vem sem carimbo de ori- gem. Não basta estudar o estado ou a ciência para se fugir do Grande Divisor – se é que isso é possível. Nós/Eles). 41. Se a antropologia. 2016 . Um estado com gente dentro e. Quando um dos escreventes reconheceu uma assinatu- ra por semelhança como sendo autêntica na Autorização para Transferência de Propriedade de Veículo (ATPV) vendido por seu irmão. Elas seriam uma forma de proteção dos próprios funcionários. como o protocolo não foi cumprido. o juiz determinou o ressarcimento dos danos. não necessariamente. teve que efetuar a indenização. n. de boa-fé e confiando em seu irmão. A antropologia. devido a sua abordagem microscópica (GEERTZ. Contudo. para o modo como as coisas funcionam na prática. O próprio escrevente. 2. ele agiu desse modo para “facilitar a vida” do parente.

Espíritos do Estado: gênese e estrutura do campo burocrá- tico. In: _____. 4. 5. experimenta ritos. GUPTA. 2007. AUTOR.354 para as “panelinhas”. ao co- locar a etnografia como o estudo mais daquilo que é falado e menos do que é escrito. 236 da Constituição Federal. os nativos dizem que a forma como se escreve e os elementos utilizados são importantes. In: SHARMA. Regulamenta o art. não custa realizar um esforço estranhador sobre eles. BRASIL. por assim dizer. a sociedade. 41. redes informais. olhemos para os nossos. são elementos de disputa. ou “pôr debaixo do pano”. The Anthropology of the State. Ainda que com cautela. Niterói. Diante de um número considerável de trabalhos que desvelam aquilo que ocorre nos interstí- cios e fendas. este texto tentou recuperar o formal como proce- dimento mágico e interessante para leituras de caráter antropológico. “Todos os dias. John L. 2006. 2. Oxford University Press. 1999. Philip. HUBERT. dispondo sobre serviços notariais e de registro (Lei dos Antropolítica Revista Antropolítica. 3.1962. sem. 2007. Rio de Janeiro: Relume-Du- mará. BOURDIEU. n. cabe olhar para eles com a seriedade e o cuidado que essa dica merece. Dissertação (Mestrado) Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. AUSTIN. ordena novos mágicos. do não público. 2016 . Se os pró- prios agentes dizem que os aspectos formais são importantes. penso que continuamos a reproduzir a Divisão. Em nome das “bases”. ainda que outros elementos que estejam para além disso também o sejam. A burocracia vista do cartório: uma análise antropológica da burocra- cia estatal. têm eficácia. que são sempre os mesmos” (MAUSS. 1974. Razões práticas. Campinas: Papirus. Akhil. 6. escuta contos inéditos. Universidade Federal de São Carlos. Se em determinado contexto. Aradhana. Pierre. com es- forço estranhador. Notes on the dificulty of studying the State. REFERÊNCIAS 1.935 de 18 de novembro de 1994. 2. Se eles transformam o discurso. Lei nº 8. Oxford: Blackwell Publishing. p. 167). BEZERRA. vale a pena não os negligenciar. How to do things with words. para não ir mais longe do que a comparação permite. ABRAMS. para o que ocorre extraoficialmente. Marcos Otavio. como nos tabelionatos.

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