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Cultura e Literaturas Africanas e Afro-

Brasileira

2017 /2

Professora: Cristina Prates


Um retrato sem moldura -
Mia Couto
Aconteceu num debate, num país europeu. Da assistência, alguém me lançou
a seguinte pergunta:
– Para si, o que é ser africano?
Falava-se, inevitavelmente, de identidade versus globalização. Respondi com
uma pergunta:
– E para si, o que é ser europeu?
O homem gaguejou. Não sabia responder. Mas o interessante é que, para ele,
a questão da definição de uma identidade se colocava naturalmente para os
africanos.
Nunca para os europeus. Ele nunca tinha colocado a questão ao espelho.
Recordo o episódio porque me parece que ele toca uma questão central:
quando se fala de África, de que África estamos falando? Terá o continente
africano uma essência facilmente capturável? Haverá uma substância exótica
que os caçadores de identidades possam recolher como sendo a alma
africana?
Leila Leite Hernandez conhece a resposta. Ou melhor, a impossibilidade da
resposta. Afinal, é a própria pergunta que necessita ser interrogada. São os
pressupostos que carecem ser abalados. E onde se enxergam essências devemos
aprender a ver processos históricos, dinâmicas sociais e culturas em movimento.
A África vive uma tripla condição restritiva: prisioneira de um passado inventado
por outros, amarrada a um presente imposto pelo exterior e, ainda, refém de
metas construídas por instituições internacionais que comandam a economia.
A esses mal-entendidos somou-se uma outra armadilha: a assimilação da
identidade por razões da raça. Alguns africanos morderam essa isca. A afirmação
afrocentrista sofre, afinal, do mesmo erro básico do racismo branco: acreditar que
os africanos são uma coisa simples, uma categoria uniforme, capaz de ser reduzida
a uma cor de pele.
Ambos os racismos partilham o mesmo equívoco básico. Ambos se entre ajudaram
numa ação redutora e simplificadora da enorme diversidade e da complexidade do
continente. Ambos sugerem que o “ser” africano não deriva da história, mas da
genética. E no lugar da cultura tomou posse a biologia.
Outro lugar-comum nesses exercícios de dar rosto ao continente africano é o peso
concedido à tradição. Como se outros povos, nos outros continentes, não tivessem
tradições, como se o passado, nesses outros lugares, não marcasse o passo do
presente. Os africanos tornam-se, assim, facilmente explicáveis. Basta invocar
razões antropológicas, étnicas ou etnográficas. Os outros, europeus ou americanos,
são entidades complexas, reservatório de relações sociais, históricas, econômicas e
familiares.
Leila Leite Hernandez esteve atenta a todo este universo de
equívocos. Seu texto percorre esse mar de enganos e constitui-se
como um permanente alerta. Como ela escreve a dado passo: “[...]
a África ao sul do Saara, até hoje conhecida como África negra, é
identificada por um conjunto de imagens que resulta em um todo
indiferenciado, exótico, primitivo, dominado, regido pelo caos e
geograficamente impenetrável”.
É esta a marca primeira e mais profunda dessa procura em Leila
Hernandez: o desfazer permanente de estereótipos e o convite para
um olhar aberto, disponível e crítico. Leila Leite Hernandez conhece
bem os terrenos minados dessa procura de identidades. Todo seu
percurso, ao longo deste texto, é um aviso aos falsos navegantes. O
destino, aqui, é a própria viagem. São as dinâmicas próprias e os
conflitos particulares que definem identidades plurais, complexas e
contraditórias. O rosto do continente só existe em movimento, no
conflito entre o retrato e a moldura. A sala de aula para a qual Leila
está conduzindo a África não é um lugar fechado, mas uma proposta
de uma relação nova com algo que se pensava, de antemão, já
conhecer.

Mia Couto
Mia Couto
Antônio Emílio Leite Couto nasceu em
Beira, Moçambique, em 1955. O nome
“Mia” é proveniente de sua paixão pelos
gatos e pelo fato de seu irmão menor, em
tempos de infância, não conseguir proferir
seu nome corretamente.
Cursava Medicina, quando logo iniciou os
primeiros trabalhos no Jornalismo.
Abandonou a medicina e passou a se
dedicar inteiramente à escrita.
Tornou-se o primeiro africano a vencer o
prêmio União das Literaturas
Românticas, recebido em Roma. A obra
Terra Sonâmbula foi eleita um dos 12
melhores livros de todo continente africano
no século XX.
Sobre as Leis:

LEI Nº 9.394, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1996;

LEI Nº 10.639, DE 09 DE JANEIRO DE 2003;

LEI Nº 11.645, DE 10 DE MARÇO DE 2008.


Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e
médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino
sobre História e Cultura Afro-Brasileira. (Incluído pela Lei nº
10.639, de 9.1.2003)

§ 1º O conteúdo programático a que se refere o caput deste


artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a
luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na
formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do
povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à
História do Brasil.(Incluído pela Lei nº 10.639, de 9.1.2003)

§ 2º Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-


Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo
escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de
Literatura e História Brasileiras. (Incluído pela Lei nº 10.639,
de 9.1.2003).
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio,
públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-
brasileira e indígena. (Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008).

§ 1º O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos


aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população
brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história
da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a
cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da
sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social,
econômica e política, pertinentes à história do Brasil. (Redação dada pela Lei
nº 11.645, de 2008).

§ 2º Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos


indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar,
em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história
brasileiras. (Redação dada pela Lei nº 11.645, de 2008).
África: uma ferida ocidental
Livro: África na sala de aula – visita à história contemporânea

Paulistana, bacharel em licenciatura em Ciências Sociais


pela PUC de São Paulo, mestre em Ciências Políticas pela
USP e doutora em Ciências Políticas pela PUC de São
Paulo. Em 1991 ofereceu pela primeira vez em São Paulo
cursos de História Contemporânea da África na
coordenadoria geral de Especialização, aperfeiçoamento e
extensão da PUC e no curso de Relações Internacionais.
No ano seguinte passou a ministrar a disciplina de
História da África no departamento de História da
faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
USP.
O livro “África na Sala de Aula: Visita à História
Contemporânea" é, na verdade, a primeira pesquisa
historiográfica e iconográfica realizada no Brasil que leva
em consideração a história do continente africano como
um todo. A obra é uma empreitada de fôlego, fruto de
uma pesquisa de quase uma década sobre o assunto. A
leitura do texto vai alargando e aprofundando nossa
compreensão sobre a frequente movimentação de caráter
sociopolítico do continente africano.
Revisão dos conceitos preconceituosos incutidos pela visão
eurocêntrica a respeito do continente africano.

SÉCULO XIX: UMA ÁFRICA SEM HISTÓRIA

Os interesses no continente africano foram


todos exclusivamente de exploração
econômica, com a implementação de
grandes corporações sob o intuito de fazer a
grande nação africana prosperar, ora pelo
comércio, ora pela religião com as
“civilizações” desenvolvidas. Os africanos
eram identificados principalmente pelas
características fisiológicas: raça negra e
ficariam conhecidos por isso como algo
depreciativo, reduzindo-o em inferioridade
e subjugando-o ao primitivismo.
A África inventada: África como uma invenção
construída por um olhar imperial.

A visão
preconceituosa como Conhecimento hegemônico e privilegiado do
Ocidente: desconhecimento da complexidade do
se a História
continente africano→ “A África não tem povo,
estivesse começando
não tem nação e nem Estado; não tem passado,
com a chegada dos logo, não tem história”;
europeus;

Influência das ideias


racialistas: África Cisão entre as Áfricas e
Branca versus África estereótipos raciais:
Negra; pretexto para justificar
a barbárie ocidental.
Europa: conceitos que legitimavam o seu domínio
sobre os povos “bárbaros”.
• Aristóteles: Século V a.C : certa aptidão de alguns sobre a incapacidade de outros.

19. A natureza distinguiu os corpos dos escravos e do


senhor, fazendo o primeiro forte para o trabalho
servil e o segundo esguio e, se bem que útil para
trabalho físico, útil para a vida política e para as
artes, tanto na guerra quanto na paz. Contudo, o
contrário muitas vezes acontece – isto é, que alguns
tenham a alma e outros tenham o corpo dos homens
livres. E, sem dúvida, se os homens diferem uns dos
outros, na mera forma de seus corpos tanto quanto as
estátuas dos deuses diferem dos homens, tudo indica
que as classes inferiores devem ser escravos das
superiores. Se isso é verdade quanto ao corpo, não é
mais do que justo que diferença similar exista entre
almas? Mas a beleza do corpo pode ser vista e a da
alma, não.
20. É evidente, portanto, que alguns homens são
livres por natureza, enquanto outros são escravos, e
que para estes últimos a escravidão é conveniente e
justa.
(ARISTÓTELES, Livro I, 19)
Carl Linné ( Suécia, 1707-1778)
Como biólogo, utilizou o esquema
reprodutor das plantas através do qual
estabeleceu um conjunto hierárquico que
agrupa os seres vivos em cinco grupos mais
abrangentes: o homem selvagem, o
americano, o europeu, o asiático e na quinta
categoria, viria o africano, cuja descrição
aqui transcrevemos:
“Africano. Negro, fleumático, relaxado.
Cabelos negros, crespos: pele acetinada;
nariz achatado, lábios túmidos; engenhoso,
indolente, negligente. Unta-se com gordura.
Governado pelo capricho.”
Friedrich Hegel (Alemanha, 1770 - 1831)
Filósofo alemão, que defendeu a superioridade
europeia em relação à Ásia e à África, sob o
ponto de vista geográfico, material e espiritual.
Hegel concebe, ainda, a divisão do continente
africano em três partes distintas: a parte
setentrional, ligada à Europa pelo
Mediterrâneo, e que, segundo ele, pertenceria
não à África, mas sim à Espanha; a segunda
parte do continente seria representada pela
África meridional, que contém o Egito e,
finalmente, “a África propriamente dita”,
aquela que fica ao sul do Saara, identificada
pela escuridão, barbárie e selvageria: “Não
tem interesse histórico próprio, senão o de que
os homens vivem ali na barbárie e na
selvageria, sem fornecer nenhum elemento à
civilização. (...) Nesta parte principal da África,
não pode haver história”, afirma, convicto, o
filósofo alemão.
Charles Darwin (Inglaterra, 1809-1882)

Teoria da origem das espécies por


meio da seleção natural.
Naturalista britânico que alcançou
fama ao convencer a comunidade
científica da ocorrência da evolução
e propor uma teoria para explicar
como ela se dá por meio da seleção
natural e sexual.
Augusto Comte (França, 1798-1857)

Filósofo francês,
fundador da
Sociologia e do
Positivismo.
Hyppolyte Taine (1828 – 1893)
Filósofo e historiador francês, que, influenciado
pelas ideias darwinistas, criou o darwinismo social,
ao tentar explicar tanto as obras artísticas como os
fatos históricos, através do Determinismo, a partir
de três fatores: raça, meio e tempo.
As noções trabalhadas por Darwin acabaram não se
restringindo ao campo das ciências biológicas.
Pensadores sociais começaram a transferir os
conceitos de evolução e adaptação para a
compreensão das civilizações e demais práticas
sociais. A partir de então o chamado “darwinismo
social” nasceu desenvolvendo a ideia de que algumas
sociedades e civilizações eram dotadas de valores que
as colocavam em condição superior às demais.
A África Inventada: Ideias racialistas do século XIX:
Neocolonialismo afro-asiático
• As ideias defendidas pelo darwinismo social, na prática, acabam
sugerindo que a cultura e a tecnologia dos europeus eram provas vivas
de que seus integrantes ocupavam o topo da civilização e da evolução
humana. Em contrapartida, povos de outras regiões (como África e
Ásia) não compartilhavam das mesmas capacidades e, por tal razão,
estariam em uma situação inferior ou mais próxima das sociedades
primitivas.

• A divulgação dessas teorias serviu como base de sustentação para que


as grandes potências capitalistas promovessem o neocolonialismo no
espaço afro-asiático. Em suma, a ocupação desses lugares era colocada
como uma benfeitoria, uma oportunidade de tirar aquelas sociedades de
seu estado “primitivo”. Por outro, observamos que o darwinismo social
acabou inspirando os movimentos nacionalistas, que elaboravam toda
uma justificativa capaz de conferir a superioridade de um povo ou
nação.
SÉCULO XX: A ÁFRICA E SUA HISTÓRIA
• Conferência de Berlim (1884/1885) > Partilha da
África;
Interesses europeus provocaram a realização
da Conferência de Berlim, realizada entre 15 de
novembro de 1884 e 26 de fevereiro de 1885, da
qual participaram quatorze países europeus,
Estados Unidos e Rússia e cujas decisões
resultaram em um mapa geopolítico da África que
desconsiderava completamente os direitos dos
povos africanos e suas especificidades históricas,
religiosas e linguísticas, ou seja, que traçava
fronteiras desconhecendo as da África pré-
colonial. Estava criada, assim, a estratégia para que
a conquista do continente tivesse uma base legal.
Discurso histórico africanista
Somente no séc. XX é que obteve
seu devido reconhecimento como
continente importante para a
humanidade e começaram
trabalhá-lo sob outra perspectiva,
com a devida identificação de
suas complexas multipluralidades
culturais, religiosas, étnicas; sua
historia foi enriquecida pelos
manuscritos dos europeus,
viajantes e toda comunidade Relato dos viajantes
errante que por aí passava.

Desde a década de 70 começaram explorar


através da arqueologia e das tradições orais o
riquíssimo contexto africano, pois as tradições
orais eram responsáveis por identificar todo o
modo de ser e agir desses povos. Era encontrada
na área rural onde se destacavam os “guardiões
da palavra falada”, responsáveis por passar
adiante a história das lendas, bem como as
caravanas nômades e suas passagens, eram tidos
como figuras religiosas.
Pan-Africanismo: 1900 - Conferência
Pan-Africana
A ideia de união pan-africana não nasceu no
continente negro. Um de seus principais
líderes foi Sylvester Willians, um advogado de
Trinidad que conseguiu organizar a Primeira
Conferência Pan-Africana em 1900, na cidade
de Londres. Essa conferência teve como
objetivo primordial a criação de um
movimento que gerasse um sentimento de
solidariedade com relação às populações
negras das colônias. Sylvester Willians era um
dos vários intelectuais negros da região do
Caribe e sul dos Estados Unidos que juntos
buscavam uma condição mais digna para as
populações negras das áreas colonizadas.
Uma das primeiras resoluções dessa
conferência realizada em Londres foi em
defesa dos negros da atual África do Sul que
estavam sofrendo com o confisco de terras por
parte de ingleses e de descendentes de Sylvester Willians
holandeses (africânderes).
Outro líder importante nos primórdios do pan-
africanismo foi William Du Bois, que fundou a
Associação Americana para o Progresso das
Pessoas de Cor (NAACP) e, em seguida,
organizou o Primeiro Congresso Pan-Africano
em Paris, no ano de 1919.

Marcus Mosiah Garvey foi um comunicador,


empresário e ativista jamaicano. É considerado um
dos maiores ativistas da história do movimento
nacionalista negro. Garvey liderou o movimento
mais amplo de descendentes africanos e é
lembrado como o principal idealista do movimento
de “volta para a África”, inclusive, seu nome é
citado em músicas de vários artistas como Burning
Spear e Bob Marley.
Movimento da Negritude
Movimentoescrito por da
O termo "Negritude" aparece pela primeira vez
Aimé Césaire, em 1938, no seu livro de
poemas, Caderno de um regresso ao país natal
(Cahier d'un retour au pays natal); está
intimamente associado ao trabalho reivindicativo
Aimé Césaire de um grupo de estudantes africanos em Paris -
(1913-2008) - l'étudiant noir -, nos princípios da década de 30, de
Martinica que se destacam como principais responsáveis e
dinamizadores Léopold Sédar Senghor (1906)
senegalês, Aimé Césaire (1913), martinicano, e
Leon Damas (1912), ganês. Estes autores da
Negritude legaram-nos uma obra literária da
máxima importância; mas foi Senghor que, com a
Presidência do seu país (Senegal) e uma larga
Léopold Sédar Senghor aceitação Ocidental (política literária e acadêmica)
(1906-2001) - Senegal contribuiu decisivamente para a divulgação da
Negritude.

É de capital importância referir-se ainda que a


"Negritude" não surgiu apenas com o objetivo da
recuperação da dignidade e da personalidade do
Léon Damas homem e da mulher africanos, mas também como
um movimento que contribui para impulsionar o
(1912-1978) -
processo de descolonização do continente africano.
Gana
Discurso histórico africanista: A África Plural
 Pesquisas que se debruçam sobre a documentação encontrada em
arquivos da África e da Europa;
 Criação de sociedades e revistas cujos ensaios se voltam para a
elaboração da história da “África descolonizada”. É o caso, por exemplo,
da “Société Africaine” que, a partir de 1947, dedicou-se a elaborar uma
história da “África descolonizada”.
Importância da releitura crítica dos textos de autores do Velho Mundo
como Zurara, Cadamosto, Diogo Gomes, André Álvares D’Almada e
Leão, o africano, nos seus relatos de viagens pelo Saara e suas incursões
pela costa do Atlântico.
Destacam-se, ainda, as obras de I.B.N. Battuta e I.B.N. Khaldun,
datadas do século XIV que trazem à tona conhecimentos sobre as
regiões ocidental-central da África, assim como relatos do Império do
Mali.
África plural: Variedade e qualidade das cerâmicas, peças de osso,
ferro, vidro e metal cujo estudo arqueológico aponta preciosas
informações sobre regiões e povos, sobretudo daqueles que não
possuíam nem escrita, nem crônicas orais.
• Os “guardiões da palavra falada” e os “tradicionalistas”, ou seja,
aqueles encarregados de transmitir a palavra como elemento sagrado.
• Figura dos griots, contadores de história que, auxiliados pela música e pela coreografia,
tornam-se os animadores públicos, transmitindo as tradições, os feitos dos valorosos heróis,
modelos de honra e coragem para o seu povo.

• Georges Balandier > saber transformador: “a heterogeneidade, a complexidade e o


dinamismo sociocultural, como características próprias da historicidade africana.”

• África pré-colonial de 1500 a 1800: estabeleceu-se um rico comércio entre diferentes cidades
e regiões do continente, destacando-se, nas rotas transaarianas, o comércio de escravos.

• Causas da escravidão:
1. Guerras internas causadas pelo rapto de mulheres;
2. Conflitos entre Estados e as guerras de expansão;
3. Penhora humana, como forma de pagamento;

 Escravidão resultante de acordos como, no caso entre o Egito e os reis da Núbia; no Segu,
como meio de subjugar os “pagãos”.
 Complexa rede comercial: mercado do ouro, sal, dos produtos agrícolas,
do cobre, dos produtos manufaturados, da noz de cola, do gado bovino,
das pedras preciosas; objetos de luxo, marfim, minérios de ferro e, no
século XIV, o importante centro de Kilwa como importador de porcelana
chinesa.

 África complexa e heterogênea: complexa rede comercial, ocorre, é


claro, o dinamismo cultural, através do encontro dos mais diversos povos
como os árabes, indianos, egípcios, persas, chineses, iraquianos, europeus,
comprovando-se, pois, a existência de uma África plural, mas que mantém
uma unidade histórica, desconstruindo, dessa forma, a ideia de
homogeneidade do continente africano, e demolindo, de forma radical, o
preconceito de uma África pobre, selvagem e primitiva, tão necessitada
dos “cuidados” do Ocidente.

 Século XIX: visão positivista e que, pautada nas experiências das


ciências naturais, ocasionou sérias distorções e preconceitos etnocêntricos
quando adaptada às ciências humanas África como lugar selvagem,
atrasado, inculto.

 Século XX: novo olhar sobre a história, que, de forma interdisciplinar,


dialogando com a sociologia, a antropologia, a linguística, a psicanálise e
outros ramos do saber, desconstrói a lógica linear, rompe hierarquias,
abala modelos canônicos e classificatórios  Continente africano, rico em
cultura e religiosidade, minérios e artes.
Repensando o continente africano

• Uma nova historiografia, uma nova arqueologia, criação de centros de


estudo, valorização da oralidade, valorização da história por historiadores
africanos;
• África: continente multifacetado, multicultural e plurigeográfico;
Plurigeográficos: desertos (Saara, Calahari); floresta tropical; savanas; rios
(Nilo, Níger, Volta, Congo, Zambizi, Kwanza). Ruanda: “Tibet da África”;
• Variedade de povos, línguas e culturas; Norte: egípcios, líbios, núbios, etíopes
e uma variedade de povos nômades. Oeste: outros grandes impérios como
Gana, Reino do Mali, Songhai;
• No Mali, uma grande cidade como elo entre a África negra e o mundo
muçulmano, centro comercial de sal, ouro, tecidos, marfim: Tombuctu;
• África Ocidental: muito afetada pelo comércio de escravos com povos como
os bambaras, mandingas, fulas e iorubás (Daomé), em áreas como Senegal,
Benin, Nigéria, Guiné Bissau;
• Historicidade das sociedades subsaarianas: complexidade social e política; a
África tem uma história antes da chegada dos europeus→ estudos
arqueológicos, complexidade técnica e artística (iorubás de Ifé, Oió, Benin);
tradição oral (os tradicionalistas e o conhecimento esotérico e os griots,
contadores de histórias).
E-mail da turma

literaturasafricanas2016@gmail.com
Senha: pratesuva2016