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A redução da complexidade para decidir


judicialmente conflitos tratáveis.

Aula


Meta da Aula
Mostrar que a “redução a termos”, ou seja, a redução da complexidade do

\
conflito para seu enquadramento em um ordenamento jurídico só tem alguma
validade para os conflitos tratáveis e que, mesmo assim, o sistema jurídico não
consegue após sua operação, “recomplexificar” a decisão sobre o conflito na
sentença de forma que ela (sentença) possa ser útil para a sociedade.

1. Identificar o papel das partes e do sistema jurídico frente aos valores e


lugar da sociedade e no sistema normativo vigente no direito ocidental.
2. Conhecer duas chaves temporais que o sistema jurídico pode acionar
para a sua tomada de decisão.
3. Compreender o processo de redução da complexidade das disputas como
uma ocultação/difração dos objetos, valores e significados conflitantes e
que é necessário produzir uma “abertura cognitiva para o mundo empírico”
para que o Direito possa ter ampliada sua possibilidade de tratar
adequadamente os conflitos tratáveis.


Atenção!
O texto desta aula e das seguintes não está formatado no padrão do
CEDERJ. Entretanto, o conteúdo é exatamente o mesmo que vocês
receberão no livro texto. Pedimos desculpas, mas temos certeza que
eventuais dificuldades serão superadas com a qualidade da discussão
com os tutores!
Boas aulas.
Professores Conteudistas e Tutores.
A redução da complexidade para decidir judicialmente conflitos tratáveis.

INTRODUÇÃO Nesta aula nos voltaremos um pouco mais detidamente para o universo
jurídico, apoiado em autores controversos, mas exatamente por isso,
interessantes para nossa análise.
Mostraremos que, no Ocidente, o sistema penal, ao adotar no século XIX a
pena restritiva de liberdade como principal sanção (até bem pouco tempo
praticamente a única), retirou da relação agressor vs. agredido, reclamado vs.
reclamante, acusado vs. vítima o elemento de reparação existente em outros
sistemas penais pretéritos. A efetivação da sanção passou a satisfazer os
anseios da sociedade, não mais do agredido, reclamante ou vítima.
Mesmo assim, é preciso reconhecer que há duas chaves temporais que
podem ser acionadas pelos operadores do Direito na formação de sua
convicção. A primeira, e mais comum, corresponde a uma lógica de
antecedentes. A posição do agressor e do agredido na sociedade, sua imagem
social, seu temperamento, e outros atributos são a chave para agregar o
elemento “causal” na decisão judicial. A segunda, em nosso ordenamento
jurídico mais recente, diz respeito a uma lógica de consequentes, voltada para
a “religação” ou transformação das relações entre reclamante e reclamado,
de forma que a sociedade possa efetivamente se beneficiar da decisão
judicial.
A busca por uma posição “equidistante” entre as partes, faz com que o juiz,
centro do processo judicial, mantenha-se informado apenas pelo que está
dentro do processo. Afinal, o que “não está nos autos, não está no mundo”.
Ora, nada mais falacioso do que este adágio, dado que para entrar nos autos,
o conflito teve que ser reduzido ao relato das partes e ao enquadramento que
o escrevente, estagiário ou o agente policial que faz o Boletim de Ocorrência
promove. Alguns complementos podem ocorrer durante as diligências ainda
na esfera do inquérito policial, mas possivelmente, apenas através de laudos
periciais, poderá se levar o mundo empírico para o processo. Pretendemos
que você reconheça a necessidade desta “abertura” ocorrer em todas as fases
do processo de administração judicial de um conflito.
Mas tudo isso não fará nenhum sentido se o resultado do processo, o fim da
“Lide”, a sentença, não produzir seus efeitos nas partes. E para isso é preciso

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devolver ao texto, o que foi “perdido” no início: a complexidade do conflito,


dos significados e das mudanças de posição por parte dos contendores. O
processo judicial é, ele mesmo, um espaço conflitivo, onde as partes
defendem suas posições. É forçoso notar que, nem sempre, ou quase nunca,
estas posições dizem respeito ao momento inicial do conflito, de seu objeto,
de seus significados. Também dentro do sistema jurídico ocorrem
ressignificações a partir nas pré-compreensões de novos atores, que não são
tão inertes quanto gostariam, não são tão neutros quanto pensam, muito
menos tão imparciais quanto deveriam.
Mas comecemos aos poucos!

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1. A QUEM INTERESSA A Michel Foucault em “A verdade e as Formas Jurídicas” produziu um relato
DECISÃO JUDICIAL?
sobre as práticas judiciarias no Ocidente, ou sobre as várias formas sócio-
COMO REDUZIR A
COMPLEXIDADE DO históricas de se administrar conflitos. Em seus termos, como nossa sociedade
MUNDO SOCIAL?
produziu tipos de subjetividade, formas de saber, ou seja, as relações entre o

homem e a verdade. Esse relato teve como fonte a trajetória do Direito Penal
na tradição heleno-judaico-cristã.
Ao buscar os fundamentos do conhecimento, ou da própria Ciência, Foucault
estabeleceu uma interessante posição entre “origem” e a “invenção”. Para
este autor, por exemplo, a religião não teria uma origem, teria sido inventada.
Como são as relações de poder que dão origem à invenção, temos que o
conhecimento também foi inventado e que o conhecer não tem relações de
afinidade como mundo a conhecer. A implicação disto para o mundo do
Direito é que a Verdade Jurídica passou a ser inventada através do
testemunho fidedigno!
Para esta operação ter alcançado sucesso, alguns mitos tiveram que ser
inventados também. No Antigo Testamento vemos que a Verdade, a Palavra,
não pertence ao poder político e que este é cego. Os gregos inventaram o
mito que há uma antinomia entre o saber e o poder, ou que se haver o saber
é preciso que ele renuncie ao poder. Onde há Ciência, não há Política. Ora,
para Foucault, o poder político não está ausente no saber, ele está tramado
com o saber!
Nas diversas culturas jurídicas que se amalgamaram na trajetória do Ocidente
pode-se identificar que no Direito Germânico a ação penal era uma disputa
entre partes, sem intermediários, árbitros ou mediadores. Não havia uma
autoridade intermediando as partes. O Direito era uma forma regulamentada
de fazer a guerra, pois impunha uma forma e um ritual para tal.
No direito feudal, a resolução de um conflito entre duas partes se dava pelo
sistema da prova. As provas podiam ser sociais, através do testemunho de 12
pessoas fidedignas, ou da retórica, com a recitação de divinações pelos
advogados. Em todos os casos, a estrutura era binária, um vencia e o outro
pedia. Vencia quem acumulava mais poder e, portanto, controlava a razão.

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No início do Renascimento, no século XIII, se impôs a esse sistema um


representante do poder oficial, que decidia os conflitos: o procurador. Em
seguida, para facilitar sua vida, inventou-se a infração, onde havia uma vítima
e seu agressor, que correspondia à ofensa, por uma das partes à Ordem, ao
Estado ou à Lei. Em todos os casos, o Estado era a parte lesada que exigia
reparação. A sentença era estabelecida pelo inquérito: o procurador reunia
os elementos necessários para seu convencimento; o poder se exercia na
busca da informação; o poder se dirigia aos notáveis para construção da
verdade. O inquérito nada mais era do que uma forma de saber-poder.
Com o desenvolvimento do Renascimento, a infração foi consolidada como
uma ruptura com uma prescrição legal, uma norma, emanada de uma fonte
autorizada para tal. A infração danificava a Sociedade, o infrator era um
inimigo social. O dano causado deveria ser reparado ou sua repetição evitada
da forma mais segura possível.
As penas para esse sistema se enquadravam em quatro tipos:
• como a infração causara o rompimento dos laços de sociabilidade do
infrator com a sociedade, uma punição razoável seria o afastamento
do infrator da rede de valores que produzira a norma. Degredo,
banimento, deportação eram penas típicas;
• uma alternativa mais branda seria expor o infrator a um afastamento
temporário da vida social. As penas neste tipo seguiam o principio da
degradação moral, do escândalo, da exposição pública com vistas a
produzir sentimentos no infrator de vergonha e humilhação;
• quando o dano à sociedade poderia ser reparado através a produção
de algo útil, a pena poderia ser algum trabalho, forçado ou não, que
recompensasse a Sociedade;
• a pena mais radical visava impedir que o dano fosse novamente
cometido. O arrependimento deveria ser atingido pela aplicação ao
infrator da falta que havia cometido: confiscava bens de quem
roubara, matava-se que havia matado. Seguia-se o princípio de Talião:
“olho por olho, dente por dente”.

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Foucault chama a atenção que foi no início do século XIX que no Ocidente se
disseminou uma pena que não tinha nenhum paralelo com os sistemas penais
anteriores, nem fora instituída com alguma fundamentação teórica prévia: a
pena restritiva de liberdade. Produziu-se um deslocamento do foco da
sanção, que era vincular-se a algo socialmente útil e voltou-se para o ajuste
do indivíduo. A partir daí, a legislação penal abandonou a defesa da sociedade
para buscar o controle e o ajustamento psicológico e moral das atitudes e dos
comportamentos.
A noção de periculosidade foi levada ao patamar dos indivíduos, grupos ou
classes perigosas no nível de suas virtudes e potenciais e não de seus atos.
Para tanto, o sistema penal não poderia residir exclusivamente em um poder
autônomo, o Judiciário. A ortopedia social passou a ser executada por outras
instituições de controle e vigilância não judiciarias, como a Polícia Militar,
Hospitais, Escolas, Asilos e, no Brasil contemporâneo, o Ministério Público.
Para esse arranjo, o panóptico de Jeremy Bentham foi o instrumento que
efetivou a utopia de uma sociedade do poder. Para Foucault, o panoptismo se
apoiou na ideia do exame, não do inquérito. Com isso um novo saber-poder
se instalou. Não mais para determinar o que acontecera, o que se buscava no
inquérito, mas para saber se as pessoas se comportaram de acordo com as
normas, examina-las sob a chave do “normal”, no sentido de padronizado,
adequado ao comportamento esperado, definido por quem teria poder para
tal.
O exame, para atingir seu objetivo precisou do auxílio precioso das ciências
humanas modernas – psicologia, psiquiatria, sociologia, antropologia – que se
tornarão as depositárias desse novo saber-poder.
Por outro lado, o ideal de justiça focado no indivíduo remetia para o universo
do divino, em função da busca da afirmação da semelhança do homem com a
imagem de Deus. A construção do Estado Nação como uma “comunidade
política imaginada” (Anderson, 1989) esteve necessariamente associada á
necessidade de um controle permanente – o panóptico – sobre uma
sociedade que, em seu conjunto, não partilhava de um mesmo sentido de
justiça.

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Sobre o Panóptico
Jeremy Bentham, filósofo e jurista inglês do século XVIII propôs uma prisão em forma de
“U”, na qual, a partir de um ponto central, um vigilante poderia ter visão de todas as celas.
Estava lançada a ideia do panóptico. Na primeira metade do século XX, George
Orwell, romancista inglês, escreveu uma obra prima, “1984”, e incluiu avanços
tecnológicos para um panóptico e o denominou “Big Brother”. Procure assistir
o filme ou ler o livro e compare com o uso que Foucault faz do panóptico para
a construção de seu conceito Ortopedia Social. Reflita sobre os sistemas de
vigilância atuais em nosso cotidiano.
Comentário
Não há dúvida que ha um forte desejo que tenhamos um Big Brother “olhando para nós”.
Aliás, o sucesso de um programa com esse nome é bastante revelador do desejo de termos
um ajustamento de comportamento em função das expectativas dos outros, em detrimento
das nossas. Esse processo já teve um nome mais conhecido, como o “colonialismo”, mas que
travestido de novas roupagens, chega até nós como um “neocolonialismo”, que aceitamos
sem qualquer contestação.


Rompera-se a ideia de uma punição de um infrator que haveria se desviado
dos laços de sociabilidade estabelecidos em um padrão de solidariedade
mecânica (Durkheim, VER), para, em um contexto de uma solidariedade
orgânica (idem), ou funcional, reparar ou prevenir, na meda do possível, o
dano causado à sociedade, ou ao “organismo”.
Nesse movimento de recomposição dos laços de sociabilidade, as prisões,
hospitais, escolas, oficinas deixaram de exercer suas formas de vigilância a
partir dos valores dos próprios grupos. Passaram a ser estruturas de vigilância
que, ao chamar para si os indivíduos, tomando-os individualmente e,
buscando (re)integrá-los, congregou esses sujeitos enquanto um grupo
secundário da sociedade. Os que ficaram de fora, tiveram imediata e
logicamente assegurada sua inocência (Messuti, 2003).
Essas instituições, para Foucault Instituições de Sequestro, têm a propriedade
de implicarem o controle, a responsabilidade sobre a totalidade, ou a quase
totalidade, de toda a dimensão temporal da vida dos indivíduos. Também são
instituições destinadas a controlar seus corpos (Foucault, 1999a).

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Se no período feudal fora o espaço que determinara a forma de controle


Solidariedade Mecânica
vs. Solidariedade sobre os indivíduos, a sociedade moderna não se interessava pelo controle
Orgânica
Em seu livro Da Divisão espacial dos indivíduos através da vinculação a um único ugar, mas através do
do Trabalho Social, Émile
Durkheim apresentou
controle do seu tempo. Era preciso que o tempo dos homens fosse oferecido
dois conceitos ao sistema produtivo. Que este sistema pudesse controlar o tempo de vida, o
importantes para a
análise social. Ambos tempo da existência dos homens
qualificam os laços de
solidariedade na vida em A pena, ou o tempo enquanto pena poderia ser visto como medida de
conjunto. A Solidariedade
Mecânica seria segurança como terapia (Messuti, 2003). A terapia poderia ser vista como
constitutiva de
sociedades nas quais o
auto-regenerativa, pois com o passar do tempo o infrator iria se recuperando
indivíduo está ligado (Idem). Mas essa mesma prisão, vista como uma instituição total na
diretamente à sociedade
pelo lugar que ocupa na perspectiva de Erwin Goffman, deve produzir a mortificação do Eu, para
sociedade, sem
possibilidade de através dos ajustamentos secundários, alcançar o renascimento do eu social.
mudanças. Neste modelo
de sociedade impera o Apesar da pena restritiva de liberdade ser estabelecida em termos de tempo –
Direito Repressivo e a
ruptura da solidariedade
determinado números de anos de reclusão – a relação entre o tempo da
se configura como um sociedade e o tempo do apenado podem ser pensados como a suspensão de
Crime, que enseja uma
sanção social na forma da um tempo pelo outro, ou das setas do tempo da sociedade e do condenado
pena.
A Solidariedade Orgânica estarem em direções transversais, para usar uma imagem de Walter
é constitutiva de uma
vida social na qual o Benjamin.
indivíduo é dependente
Na prisão, o ritmo do tempo é o oposto do ritmo do tempo da rua. Ele flui
da sociedade, pois é uma
das partes que a lentamente, repetidamente, em ciclos cuja rotina pretende produzir efeitos
compõem e seu papel é
fundamental para o poderosos. Estaria em processo uma “ressocialização”.
perfeito funcionamento
desta. Neste modelo de Nessa rotina, todos os aspectos da vida dos internos estão sob supervisão de
sociedade, cabe a
presença de um Direito uma autoridade. Cada atividade diária é realizada na companhia de um grupo
Restitutivo, pois a
ruptura da ordem
e de agentes policiais. Essas atividades seguem rigorosamente horários e
representa um conflito sequências impostas aos internos, de acordo com um sistema de regras
sobre o qual devem agir
forças no sentido de formais explícitas e sob a supervisão de um determinado grupo de
restauração da ordem, ou
seja, uma ação funcionários. São elementos de um plano racional único, que visaria atender
reparadora
ao objetivo de reintegrar socialmente o infrator à sociedade.
Entretanto, para a própria segurança da instituição total, predomina uma
lógica de antecipação de acontecimentos indesejáveis que coloca a disciplina
e a certeza como fundamentais à ordem institucional. Essa lógica
antecipatória acarreta a adoção de um princípio da suspeição sistemática e de

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uma lógica disciplinar para garantir a estabilidade da ordem institucional,


fornecendo sensações de segurança.
Nesse processo vemos ocorrer o inverso do processo esperado pela redução
de complexidade, que corresponderia ao aumento da confiança mútua, em
uma relação de solidariedade orgânica. Nesse tipo de instituição, é a
desconfiança sistemática que visa fornecer uma sensação de segurança e
tranquilidade, assinalando uma “normalidade” institucional e indicando que o
processo “terapêutico” está em curso. Entretanto, para a segurança da
instituição, predomina uma lógica de antecipação de acontecimentos
indesejáveis que coloca a disciplina e a certeza como fundamentais à ordem
institucional. Essa lógica antecipatória acarreta a suspeição sistemática sobre
o apenado (lógica disciplinar) para tentar garantir a estabilidade da ordem
institucional e fornecer uma sensação de segurança para a sociedade e que o
processo de reajustamento estaria em curso.
Segundo Goffman, esse processo institucional percorre dois caminhos de
mortificação: exposição contaminadora e o efeito circuito. O primeiro
caminho expõe o interno a situações indesejadas por ele, tais como despojá-
lo de seus bens, exames físicos em público, invasão de sua individualidade (ler
suas correspondências em um processo de triagem, por exemplo). O segundo
caminho implica no registro do somatório das ações negativas dos internos,
com vistas à aplicação de sanções disciplinares, que podem ser encaminhadas
a instâncias do Judiciário.
Na perspectiva dos internos, podem ocorrer vários processos identificados
por Goffman (1987). O primeiro corresponderia a ajustamentos secundários,
quer dizer, a criação ou recriação pelos internos de códigos e regras de
conduta em relação à instituição e seus agentes. Um segundo seriam as
táticas de intransigência, ou seja, os momentos nos quais os internos
procuram fazer valer suas vontades. Em oposição a esta, alguns internos
podem adotar a tática da conversão, ou seja, o cumprimento estrito das
normas institucionais. Podem também adotar uma tática de afastamento,
quando buscam evitar ao máximo o contato com os agentes institucionais. Em

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oposição a esta tática, a instituição pode significar para alguns uma


alternativa de “casa”, incorporando a instituição total à sua vida.
Essas estratégias múltiplas sugerem que há um descompasso entre o processo
desenvolvido pela instituição e a forma como ele é vivenciado por aqueles a
quem o processo se destina. O tempo da “cura”, o tempo “morte do infrator”,
não está na mesma temporalidade do tempo do infrator. O problema estaria
na teoria? Na aplicação prática?
Podemos sugerir que não há problema algum nem com a teoria, nem com a
prática. O problema pode residir em uma significação fixa do tempo na lei e
nas chaves de sentido na direção do tempo bem como na busca pela redução
da complexidade do mundo social.
Trataremos disso a seguir.

Sessão Pipoca!

Vocês já devem ter assistido muitos filmes sobre as prisões norte-americanas, mas
assista a “Um Sonho de Liberdade” e procure identificar os processos descritos acima
sobre o tempo da pena e as estratégias de controle em uma prisão. Note, entretanto,
que o personagem principal, vivido por Tim Robbins está condenado à prisão perpétua, o
que significa que ele não “deveria” mais ser reintegrado à sociedade.

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2. CHAVES O que vimos até agora nos permite ver com alguma clareza o que ocorre
TEMPORAIS PARA A após uma condenação, uma sentença judicial, dentro do que conceituamos
CONSTRUÇÃO DA
SENTENÇA JUDICIAL como “conflitos tratáveis”. Ou seja, conflitos onde havia um mesmo
OU A CONCLUSÃO DA significado para avaliar os eventos, que pelo menos foi compartilhado pelo
LIDE.
Juiz e por uma das partes, a acusação. O que veremos neste tópico são as

chaves temporais que podem ser acionadas nas diversas culturas jurídicas
e como em todas as chaves temporais há uma redução da complexidade
dos acontecimentos, para que eles possam ser trabalhados como “fatos ou
eventos jurídicos”.

Para a primeira das lógicas, a dos consequentes, seguiremos duas


descrições clássicas na Antropologia do Direito. A de Max Gluckman sobre
as cortes Barotse, um grupo africano, na década de cinquenta do século
passado e a descrição sobre a lógica do Tribunal do Qadi Islâmico, como
descrita pelo antropólogo Lawrence Rosen, para o Marrocos do início da
década de setenta.
Para a segunda lógica, a dos antecedentes, seguiremos a discussão de
Roberto Kant de Lima sobre os tribunais brasileiros, nos quais preside (ou
presidia, até os recentes processos sobre corrupção) a lógica dos
antecedentes, ou seja, as sanções são aplicadas em função da posição
social pretérita dos envolvidos, quem sabe para que a estrutura social
permaneça estável, ou estática.

2.1 A “corte” Barotse e “homem razoável”

Em seu ensaio denominado “The Reasonable Man in Barotse Law”,


Gluckman relata quatro casos ocorridos na corte do povo barotse, onde de
forma análoga ao direito inglês, ele pôde reconhecer a figura central de um
homem ‘razoável’ no centro das decisões jurídicas. Assim como há um
comportamento correto de um homem ‘razoável’, também existe o
‘criminoso razoável’, o que quer dizer que, para Gluckman, também há um
comportamento desviante típico, em cada sociedade, informado também
pela moral própria do grupo social local.
O tribunal barotse é formado por doze juízes, fortemente hierarquizados

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em termos sabedoria e experiência. O método de julgamento, além da


exposição do caso pelo reclamante e posterior defesa por parte do
acusado, inclui também a inquirição direta às partes. Afinal, em um sistema
onde não há “polícia ou detetives, nenhum perito em digitais, nenhum
advogado, para auxiliar na coleta e análise das evidências” (Gluckman,
1968, p. 263), assim como não há códigos, a obtenção da verdade é um
exercício de repetidos exames dessas evidências.
Os elementos de uma ‘razoabilidade’, na ausência de leis escritas, são
fundados em julgamentos morais e éticos, onde a corte exerce um papel
central na sua definição e reprodução. A ética barotse influencia
diretamente o tribunal, e, por exemplo, para estes tribunais, um ‘um
homem razoável significa um homem honesto”.(id., ibid., p. 265). O papel
dos juízes nessa cultura é reconduzir um faltoso a um comportamento
social ditado pela moral, assim como, em um sentido oposto, é este o
resultado que o povo barotse deseja na arbitragem do tribunal.
Mas os aspectos morais nunca estão isolados de outras categorias sociais.
Entre os barotse, o direito é influenciado pelo costume, por enunciados do
rei local, por normas preconizadas pelos colonizadores ingleses, e por
precedentes jurídicos. Os aspectos ligados à natureza e ao meio ambiente,
e à psicologia humana cumprem o mesmo papel que as etapas científicas
das leis ocidentais. Mas, acima de tudo, o papel do tribunal barotse é
interpretar a realidade e as leis. Neste sentido, a natureza oral das leis
locais, e sua imprecisão, facilitam o estabelecimento de uma lógica jurídica.
Para Gluckman a “lógica jurídica tem regras próprias: através da lógica
formal sozinha nenhum juiz pode transformar a crueza das evidência e dos
fatos em categorias jurídicas. Nem poderia fazer justiça” (id., ibid., p. 273).
Esta lógica, na sociedade barotse é, segundo Gluckman, ‘absorvente’, pois
é influenciada por inúmeros aspectos morais da vida social e também
‘permeável’, pois aceita plenamente os múltiplos condicionantes da vida
social, que variam ao longo do tempo e do espaço ocupado pelo povo
Barotse.
A “razoabilidade” barotse poderia ser associada ao conceito de
consequencialismo de John Stuart Mill, no qual o bom e o correto devem

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se associar. No caso barotse, o costume e os anseios do grupo


corresponderiam ao que define os estados de coisas que devem ser
significados como bons. Esta mesma tradição, transladada para a corte
barotse fornece a chave de comparação do que seria correto fazer ou
decidir. Em ambos sistemas, o correto consiste em maximizar o bom, ou
seja, criar condições para tal ou restabelecê-lo, se ele tiver sido abalado.
Entre os Barotse o objetivo do processo é construir pontes para que a
virtude da sociedade no futuro seja ampliada ou restabelecida, de forma a
beneficiar a coletividade.

2.2 O tribunal do Qadi e a lógica das consequências

Em uma etnografia sobre um tribunal islâmico, Lawrence Rosen parte em


busca da compreensão sobre as categorias do entendimento acionadas
pelos participantes de um conflito e que têm a ver com os mecanismos
através dos quais compreendem suas experiências e orientam-se uns
frente aos outros em seu cotidiano (Rosen, 1990).
Rosen afirma que o significado dos procedimentos jurídicos só podem ser
apreendidos por operarem também em contextos mais amplos que a
simples observação do fenômeno jurídico, o que aproxima o Direito da
Antropologia. Neste sentido, afirma que, mais que ligados, direito e
antropologia se constituem em dois lados de uma mesma configuração.
A chave para a compreensão da vida social no Marrocos e,
consequentemente do Direito, segundo Rosen, são as noções de contrato e
o papel da negociação, típicas das transações no mercado, nos bazares.
São relações públicas, que estabelecem verdades circunstanciais e
particulares aos participantes do “negócio”. Segundo Rosen,
“no centro da vida marroquina reside, não um conjunto de
grupos sociais - tribo, família, vila - definida por um
ambiente coletivo ou uma estrutura rígida, mas o indivíduo,
que se utiliza de mecanismos regulares para estabelecer
acordos com os demais, e consequentemente, construir um
rede de obrigações tão extensa ou frágil quanto for a suas
próprias capacidades de negociante” (Rosen, 1990, p. 11).

Mas esta forma de individualismo não deve ser encarada como a mesma

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concepção de individualismo construída no Ocidente. Enquanto esta última


reflete uma capacidade da pessoa em afirmar sua individualidade perante
instituições políticas, religiosas, etc., o indivíduo no mundo árabe é o
veículo através do qual o ambiente, o contexto social e as associações se
expressam e através dos quais as formas particulares de realização de
alianças são realizadas.
O tribunal do Qadi, é uma corte na qual apenas um juiz assume
publicamente sua proeminência. As partes tem oportunidade de
apresentarem suas questões, até a descrição da polêmica propriamente
dita. A partir daí se estabeleceria uma gritaria infernal, de onde o Qadi
retira informações para sua decisão. Suas decisões são tomadas
rapidamente e, segundo Rosen, não é pouco comum que em menos de
duas horas um Qadi tenha julgado mais de doze processos. Em suas
decisões, ele usa aspectos centrais da tradição do Direito Islâmico.
No Marrocos os enunciados positivos tinham precedência sobre os
negativos, da mesma forma que a mentira não seria repelida ou
criminalizada. Dado o contexto local da linguagem, uma afirmação não
poderia ser considerada como verdadeira ou falsa até que ela, como um
preço no mercado só é estabelecido se o vendedor encontra um
comprador, seja aceita, ou confirmada por outro.
No Tribunal do Qadi se decide se uma afirmação era apenas uma
consequência não verificada, como um preço apregoado num bazar, ou
uma afirmação válida, cujas consequências a lei deveria apoiar. Uma
mentira proferida no tribunal, seja como parte ou como testemunha, ou
em termos mais adequados à realidade local, uma assertiva não verificada,
não traria maiores consequências para aquele que a proferiu. Seria como
uma venda de um produto que não foi concretizada.
Neste cenário fica evidente que as testemunhas exercem um papel central
na certificação da confiabilidade dos relatos trazidos ao tribunal do Qadi.
Este processo pode ocorrer de duas formas: através de um notário público
ou através da concessão do estatuto da confiabilidade a uma testemunha.
Mesmo que estas declarações sejam feitas através de documentos
escritos, a validade destes só é configurada porque se tratam de

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transcrições de afirmativas verbais. No caso de não haverem sido


providenciadas provas através dos notários, as informações sobre o caráter
do reclamante, ou acusado, feitas por pessoas das suas relações, também
podem produzir o efeito de consagração da verdade jurídica. A fisionomia
das pessoas, seu comportamento, são também fatores que o Qadi costuma
levar em consideração em seu julgamento.
Este sistema complexo é regido por uma lógica bastante distinta da que
estamos acostumados, inicialmente apartada daquela descrita por
Gluckman. Aqui não se busca identificar razões, ou intenções, que
desvendam aspectos morais das ações e dos indivíduos. Em lugar de uma
moral, surge o conceito de utilidade, ou interesse social. Em termos mais
específicos, na cultura marroquina, o que é bom para o indivíduo é bom
para a sociedade. Segundo Rosen, o direito ocidental seria fundado numa
lógica das intenções, reveladoras de uma moral preexistente, que poderia
ser identificada pela razão. O direito islâmico, pelo contrário, poderia ser
classificado como um direito fundamentado numa lógica de
consequências, cujo contexto não é moral, mas pragmático, sensível.
Em uma grande classificação, realizada para efeito de contraste entre
várias tradições do direito, Rosen classificou o direito anglo-americano, ou
a Common Law Tradition como jurisprudencial, ou fruto de critérios de
razoabilidade. O sistema jurídico da Europa continental, ou a Civil Law
Tradition, foi identificado como um direito interpretativo sobre um
ordenamento positivado, que decorre de uma razão especializada. Já o
sistema islâmico seria eminentemente pragmático e local. Não haveria
uma tentativa de elaboração de códigos ou compêndios sobre
jurisprudência. Seus conceitos se apresentariam sob a forma de idéias
gerais que pairariam acima das decisões concretas. São aplicados em
determinadas situações de forma a fazer com que suas consequências
sejam compreensíveis. Em outros termos, o processo jurídico islâmico não
pretende realizar nenhum processo de normalização da vida social, ou
mesmo criá-la. Ao contrário, procura definir apenas quais formas de
contrato não são admissíveis, porque prejudiciais ao estabelecimento das
redes de relações típicas de um processo negocial e de afirmação

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individual.
Enfim, a chave de produção da verdade esta em sua orientação para o
presente, para que a realização do negócio seja positiva para o maior
número possível de participantes.

2.3 A Produção da Verdade no Processo Penal Brasileiro – a lógica dos


antecedentes
O primeiro trabalho de Roberto Kant de Lima a ser considerado é sua
etnografia da polícia do Rio de Janeiro, e na confrontação das práticas
policiais com os preceitos legais, sejam da Constituição Federal ou do
Código de Processo Penal. Kant de Lima identificou um paradoxo no
sistema legal brasileiro, no qual uma ordem constitucional igualitária seria
aplicada de maneira hierárquica pelo sistema judicial.
A ordem constitucional brasileira estabelece que todos são iguais perante a
lei, que todo acusado goza de amplo direito de defesa, que não há
tribunais de exceção, e que o processo penal deve obedecer ao princípio
do contraditório entre as partes. Nesta conceituação, o sistema penal
brasileiro se equipararia ao sistema americano, o due process of law.
Entretanto, ao serem aplicados, estes princípios são atualizados pela matriz
hierárquica fundadora da sociedade brasileira. Sendo assim, “solução
jurídica brasileira para essa contradição foi conceder poderes
discricionários à polícia” (Kant de Lima, 1995, p. 6). Com isto a polícia
passou a ser a primeira instituição a comprovar a existência de um crime e,
em muitos casos, ela mesma encontrar a solução para a infração à norma.
Entretanto, outro aspecto fundador de nosso processo penal é sua matriz
romana. Esta matriz imputa ao legislativo a exclusividade da produção das
leis. Assim, esta esfera procura elaborar códigos que prevejam todas as
possibilidades de sua aplicação, produzindo, segundo Kant de Lima, um
processo penal com todas suas ações previstas e com natureza execução
compulsória. Neste contexto, o poder discricionário da polícia, solução
para o paradoxo de uma legislação igualitária num contexto hierárquico,
introduz mais uma situação paradoxal em nosso sistema.
Em certa medida, a verdade produzida na esfera policial teria o menor

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peso no ritual de produção da verdade do processo penal. Kant de Lima


afirma que o processo judiciário penal brasileiro está divido em três etapas,
ou três sistema de produção da verdade., por um lado. Por outro, as
normas jurídicas que informam estes procedimentos estão separados e
fortemente hierarquizados. Se os princípios constitucionais que regem o
sistema como um todo, informam sua vertente igualitária, do princípio do
contraditório, da ampla defesa, etc., o Código de Processo Penal os três
sistema de produção da verdade: a policial, a judicial e a do Tribunal do
Júri.
Essas três formas de produção da verdade têm características distintas e,
porque não dizer, contraditórias. A fase do inquérito policial se desenvolve
através dos princípios inquisitoriais, sem respeitar o princípio do
contraditório. Sua verdade é uma verdade unilateral, onde o policial atua
como um ente “todo poderoso onipresente e onisciente, sempre na busca
incansável da verdade ... que embora sendo funcionário do Executivo, tem
uma delegação do judiciário e a ele está subordinado.” (Kant de Lima,
1997, p. 174).
A segunda fase corresponde ao processo judicial. Nele se busca a “verdade
real, crível além de qualquer dúvida” (id., ibid., p. 176). Esta verdade
emanará dos autos, através da decisão do juiz. Este é “capaz de formular
um julgamento racional, imparcial e neutro, que descubra não só a

‘verdade real’ dos fatos como a intenção real dos agentes.” (id., ibid., p.
177). O inquérito policial estará entranhado nos autos e novas diligências
poderão ser feitas. O importante é que o julgamento se baseará
exclusivamente nos autos e o juiz tem poder de vetar o que dele não
conste. A verdade e a intenção serão objeto da interpretação do juiz, com
base na realidade constante dos autos, e na sua capacidade de desvendar a
verdade onde quer que ela esteja.
A terceira etapa ocorre no tribunal do júri. Apesar do processo ser lido aos
jurados, e de se ouvirem novamente as testemunhas e o acusado, a fase
mais importante é a argumentação da defesa e da acusação. Esta fase
corresponde a um disputatio escolástico onde “os advogados defendem
‘teses’ opostas, que não podem encontrar-se jamais, sob pena de se
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declarar-se ‘inepta’ a defesa” (id. ibid., p. 178). Aqui ocorre uma verdadeira
disputa de verdades, obrigatoriamente opostas. Os sete jurados irão
decidir segundo sua consciência individual qual das verdades prevalece,
pois não podem conversar entre si sobre o veredicto.
Em resumo, Kant de Lima enuncia os procedimentos da produção da
verdade no processo penal brasileiro: “o inquérito policial enfatiza
procedimentos de inquirição, o processo judicial enfatiza procedimentos
de inquérito, e o tribunal do júri enfatiza procedimentos do sistema de
prova legal , ou de justiça divina” (id., ibid., p. 180). Estas lógicas distintas e
competitivas acabam por se desqualificarem sucessivamente, sendo a
verdade produzida em cada etapa válida. Entretanto, o que as une, não é a
busca da verdade em si, de uma decisão razoável, ou de consequências
adequadas ao restabelecimento ou produção da ordem social, mas o
“ethos da suspeição e da punição sistemática - ou do perdão/absolvição

dos acusados - cujas intenções acabam por valer mais que seus atos” (id.,
ibid., p. 181).
A verdade está no passado, nas intenções e antecedentes dos acusados.

Sessão Pipoca!
Assista no YouTube um vídeo sobre o Timor Leste cujo título é “Sé Mak

Sala Tenkeser Selu Sala – aquele que erra te que pagar pelo erro”
(acesso: https://www.youtube.com/watch?v=CyKnw2Vgz6M).
Procure compreender as dificuldades de tradução dos sentidos justiça
de um sistema tradicional para um moderno. Por outro lado, reflita que
mesmo em sociedades tradicionais a comunicação e os sentidos são compartilhados no âmbito
da vida social, o Processo judicial e o Direito produzem sentidos que não são compartilhados da
mesma forma por todos os participantes.

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3. A RECOMPLEXIFICAÇÃO Um ilícito aparentemente tratável seria o de furto de energia. O conhecido


DA SENTENÇA E A “gato” é definido pelo Código Penal, em seu artigo 155, como a subtração
POSSIBILIDADE DE
VIAJAR PELO TEMPO NO para si ou outrem de coisa alheia móvel. O parágrafo terceiro deste artigo
PROCESSO JUDICIAL equipara a energia elétrica a “coisa móvel”. Quem faz um gato sabe o que

pretende “furtar” e a Companhia de quem a energia foi subtraída sabe que
perdeu algo. Entretanto uma etnografia sobre a identificação, qualificação,
enquadramento e processo penal de um furto de energia sugere que além
dos significados, o consequencialismo, a intencionalidade, a redução da
complexidade e o poder de andar tempo pelo processo, criam uma
defasagem insuperável entre o mundo empírico e a Lide.

Em artigo publicado em 2012, Ronaldo Lobão, Marcus Romano e David Bastos


e descreveram um caso de furto de energia desde os operativos de uma
empresa concessionária visando seu combate até as audiência iniciais do
processo judicial respectivo. Vamos a uma rápida transcrição seus pontos
principais.
Uma empresa concessionária de energia elétrica adotava várias estratégias
para reduzir suas perdas na distribuição de energia – calculadas pela energia
que ela compra do sistema estatal e quanto ela arrecada de seus
consumidores privados.
Um caminho seguia a via administrativa, com a aplicação de Termos de
Ocorrência de Irregularidades (TOI), quando identificava que o consumidor
deixava de pagar, alterava seu padrão de consumo e outras ocorrências
identificadas administrativamente. Nesta via, o protagonismo era sempre da
empresa e o consumidor tinha poucas chances de recorrer com alguma
efetividade, a não ser pela via judicial. A “verdade” estava sempre do lado da
empresa.
Outro era na esfera tecnológica. Medidores digitais, equipamentos mais
precisos e procedimentos no fornecimento visavam facilitar a identificação do
furto, seja visualmente seja por técnicas eletrônicas.
Um terceiro era a via midiática. Campanhas de consumo consciente, contra o
gato e os possíveis efeitos sobre o sistema e o mercado, visavam construir

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uma consciência de mercado de consumo onde existia uma consciência de


serviço público, e portanto de todos, do Estado, etc.
Uma estratégia recente era a associação com a Organização Não
Governamental (ONG) Disque Denúncia. Além da inteligência administrativa e
a inspeção visual pelos técnicos as denúncias por particulares foram vistas
como importante complemento para as ações de redução das perdas
operacionais.
Por fim, tínhamos os “operativos” ou campanhas, que correspondiam a ações
que reuniam alguns dos mecanismos anteriores. Tais operativos eram feitos,
em geral, acompanhados da mídia. O efeito midiático de uma prisão por furto
era visto como tendo um grande potencial para inibir muitos infratores, ativos
e potenciais. Realizados em comunidades onde a “inteligência” da empresa
identificava um número elevado de perdas em evidências administrativas ou
inspeções visuais de possíveis “gatos”. No plano de ação do operativo
também poderiam estar lançados clientes denunciados por vizinhos à ONG.
Enfim, os próprios operativos também eram vistos como associados a um
amplo um efeito–exemplo.
Além de equipes da empresa, dos setores técnicos, administrativos e jurídico,
essas operações contavam com a participação de agentes e peritos da
Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD). Era um grande cortejo
percorrendo ruas de comunidades de baixa renda. É, conforme relato de um
inspetor da DDSD, esses operativos nunca atuavam junto ao grandes
consumidores...
O ritual era mais ou menos o mesmo. Identificado previamente um endereço,
a equipe se deslocava até lá e os técnicos da empresa verificavam a
ocorrência. Uma análise técnico-jurídica era feita e caso se identificasse o
furto potencial, entrava em ação a equipe da DDSD. Os inspetores verificavam
as condições da ocorrência e o perito atestava a passagem de energia pela
dispositivo do furto em questão.
Por exemplo, um “gato clássico”, um fio contornando o relógio não
configuraria um furto até que se comprovasse que havia energia passando
pelo desvio em direção a casa. Um casa fechada ou sem passagem de energia

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não era propícia para um processo de furto de energia. Nesses casos, as


equipes técnicas da empresa desfaziam o mecanismo fossem fios adicionados,
fio terra desligado no relógio, dispositivos de retardo entre tantos.
Entretanto, quando identificava-se o desvio de energia do sistema de medição
do consumo da residência, o enquadramento tornava-se penal. Com o laudo
do perito, os inspetores lavravam o Boletim de Ocorrência, e se o titular da
conta estivesse presente era levado preso em flagrante.
Foi o que aconteceu em uma casa num bairro de São Gonçalo. Em uma
instalação de uma casa havia um “tigre”, mostrado na figura 4.1., colocado no
alto de um poste, no caminho de fornecimento de energia para a residência.
Após a verificação visual, o perito confirmou a passagem de energia pelo
dispositivo e pela linha “normal” o flagrante de furto estava confirmado. A
titular da conta de energia estava em casa e foi autuada em flagrante e levada
para a delegacia no Rio de Janeiro.








Figura 3.1. O by-pass, colocado nos fios de força antes do medidor de energia,
tem dentes que “mordem” o fio e fazem um contato direto com a rede da
casa. Parte da energia é medida, mas outra parte busca percorrer um caminho
mais curto, e assim, a maior parte não é medida, caracterizando o furto, ou a
subtração de “coisa móvel”.

Passado os rituais do flagrante e do relaxamento da prisão, o processo judicial
seguiu seu curso. Mas não sem “conflito”. Um juiz (o segundo do caso) decidiu
que o processo não poderia prosperar porque não havia nos autos nenhuma
prova da intencionalidade ou de materialidade da autoria do furto (vide o Box
Saiba Mais).O juiz seguinte, revogou esta decisão e seguiu com o processo.
As duas primeira audiências buscaram a oitiva de testemunhas e partes sobre
o que teria acontecido: no momento ao prisão e antes, no “momento” do

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furto. Havia, também, por parte do Ministério Público, a oferta de suspensão


condicional do processo, já que em sua opinião este delito não deveria ser
levado na esfera penal até seu final: prisão do infrator. Por outro lado a
acusada queria que o processo fosse até seu final para provar sua inocência e,
quem sabe, processar a empresa na esfera civil, por danos morais. Houve,
também, por parte da empresa uma mudança na forma de acompanhamento
do processo, já que ele estava sendo acompanhado por pesquisadores da
universidade. Enfim, o processo segui lenta, mas seguramente para o
desfecho da lide. O tempo do processo não estava em sintonia com o tempo
social e estava pleno de “tempos mortos”, lapsos de tempo no qual as partes
e o juiz esperavam ações recíprocas.
Até que ocorreu mais uma troca de juiz. O quarto, até então. E, às vésperas de
mais uma audiência, o juiz tomou a seguinte decisão:
Compulsando os autos, verifico que a decisão de fls. 52/53 foi
revogada pela de fls. 55, a qual, por sua vez, não possui qualquer
fundamentação. A Constituição da República, no artigo 93, inciso X,
positivou o princípio do livre convencimento motivado, nos seguintes
termos: ´IX todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão
públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade,
podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias
partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a
preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não
prejudique o interesse público à informação;´ Verifica-se, de pronto,
que a ausência de fundamentação fulmina de nulidade a decisão.
Dessa forma, forçoso concluir que a decisão de fls. 55 é
absolutamente nula, eis que imotivada e, consequentemente, também
nulos são todos os atos posteriores. Pelo exposto, DECLARO A
NULIDADE da decisão de fls. 55 e de todos os atos posteriores,
restabelecendo, portanto, a decisão de fls. 52/53. Dê-se ciência ao
Ministério Público e à Defesa. Operada a preclusão, cumpra-se a
decisão de fls. 52/53, dando-se baixa e arquivando-se o feito.

Fora “decretada” o fim da Lide! Esta decisão foi tomada em 16/09/2014. A


decisão citada, que consta às folhas 52/53, fora de 28/01/2011. Mas de três
anos havia se passado. Os acontecimentos do mundo social até o momento
da aceitação da denúncia e instauração processo foram intensamente vividos
pelas partes. Os procedimentos judiciais ao longo de mais de três anos foram
também vividos pelas partes com muitas expectativas. Por parte da empresa
e por parte da acusada, que chegou a trocar de advogado, para um mais
experiente na seara do direito penal.

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Entretanto, uma avaliação sobre o “devido processo legal” produziu a


pacificação do processo, ou o fim da Lide.
A possibilidade de “viajar” no tempo, retroceder três anos de processo judicial
e da vida das pessoas, e apagar o tempo vivido é uma potência peculiar ao
direito, quase que exclusiva em seu modus operandi. Isso porque o mundo
social foi reduzido aos termos, técnicas e princípios do próprio Direito. Trata-
se do “fechamento operacional” que falou Niklas Luhmann. Que também
trabalhou com o conceito de “abertura comunicacional”, ou seja, a Sociedade
comunica-se com o sistema do Direito (um subsistema do Ambiente
Sociedade) e este deveria se comunicar em retorno ao Ambiente. Mas a
leitura da decisão acima não permite tal interpretação. Ela se dirige apenas
para o mundo do Direito, para o subsistema. Não houve a menor
preocupação com o vivido pelas partes e pelo próprio judiciário num lapso de
tempo de quase quatro anos. A faculdade do fechamento operacional implica
em poder operar fora da temporalidade do mundo social, claramente
irreversível, como já demonstrou François Ost, em O Tempo do Direito.

Saiba Mais!
Baixe o artigo acima em http://www.ufjf.br/eticaefilosofia/edicoes/anteriores/ numero-xv-
volume-2-dezembro-de-2012/ .
Veja que a decisão transcrita na página 115 o Juiz oferece uma interessante discussão sobre o
princípio da causalismo versus o principio do finalismo. Reflita sobre estes princípios em termos
das lógicas de antecedentes e das lógicas de consequências.

Comentário
Não há dúvida que a decisão interpõe um obstáculo ao desejo da empresa concessionária que seria o
fim do furto de energia e a efetivação um “mercado de consumo e consumidores de energia”. Por
outro lado, o argumento do magistrado foca o passado, o evento. O acusado havia tido a “intenção”
de furtar? Fora ele o autor? Ou o processo deveria focar no dano que o “gato” provoca na sociedade,
quando os consumidores arcam com os prejuízos da empresa causado pelas perdas de energia?

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CONCLUSÃO Ao final desta aula podemos fazer uma revisão dos conceitos trabalhados até
o momento. A trajetória do Direito Penal construída a partir das palestras de
Michel Foucault permitiu identificar a partir de mudanças de posições e no
relacionamento das partes em um conflito, que no Direito contemporâneo o
processo judicial visa reparar à Sociedade o dano causado por algum, ou mais
de um, de seus integrantes. Neste sentido, o destinatário da reparação deve
ser a Sociedade e não as partes em conflito ou o Estado que preside o
procedimento judicial.
Em termos mais amplos, há duas chaves temporais que presidem o processo
judicial em várias culturas jurídicas. Em todos os casos vistos, há uma seta do
tempo unidirecional, ou seja, através a lógica dos antecedentes, o juiz procura
avaliar o caso a partir de um momento no passado até chegar ao
acontecimento, que também está no passado. A partir do presente, pretende-
se dar significados ao acontecimento de forma que ele se torne um evento
jurídico e possa ser tratado adequadamente. Já na lógica dos consequentes, o
juiz, a partir do momento do julgamento, dá significados às versões sobre o
acontecimento trazidas pelas partes e, a partir de sua posição projeta no
futuro a solução que julga mais interessante para a sociedade.
Na cultura jurídica brasileira, entretanto, a redução a termos e um excesso de
garantismo (outro nome para o consequencialismo) produz um perverso
distanciamento do acontecimento e o que se torna o evento para o Direito é o
próprio processo, e é ao processo, ou à Lide que os operadores do direito
têm que se reportar.
Mostrar que a “redução a termos”, ou seja, a redução da complexidade do
conflito para seu enquadramento em um ordenamento jurídico pré-
formatado só tem alguma validade para os conflitos tratáveis e que, mesmo
assim, o sistema jurídico não consegue após sua operação, “recomplexificar”
a decisão sobre o conflito na sentença de forma que ela (sentença) possa ser
útil para a sociedade.
Uma possibilidade para outro cenário pode ser a produção de uma “abertura
cognitiva para o mundo empírico” por parte dos operadores do Direito com

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vistas a produção de um acoplamento comunicacional bidirecional entre a


Sociedade e o Sistema do Direito e entre este e a Sociedade.

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Vimos que mesmo os conflitos tratáveis, aqueles sobre os quais se tem uma
RESUMO mesma significação acerca do objeto da disputa (como o fornecimento de
energia elétrica), o tratamento judicial pode, como ocorre na grande maioria
das vezes não produzir
os efeitos desejados, ou prometidos, à Sociedade.
Formas de representar o Tempo no Direito e seus usos pode minar a
possibilidade do processo produzir algum efeito no conflito. Com isso,
podemos propor que novas formas de administrar os conflitos são urgentes e
necessárias, principalmente aqueles ligados ao meio ambiente e seus usos
pela Sociedade.

Apresentamos um exemplo de conflito socioambiental no qual as mudanças


de significado e dos atores em uma disputa sugere que além dos conflitos
tratáveis, há uma outra categoria, os conflitos intratáveis, que resistem à sua
“solução”, e que devem ser administrados de outra forma, que veremos mais
adiante.

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