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Um velho chamado Osvaldo.

J. H.

Nota do autor.

Esse é o relato da vida simples e sofrida de um camponês


chamado Osvaldo. Ele nasceu por volta de “sabe-se lá Deus quando” e
tinha em torno de 100 anos quando morreu.

Durante os registros de sua vida estarão anexados alguns trechos


de seu diário. Apenas trechos porque ele não sabia escrever direito no
começo, e muito do que escreveu é até hoje ilegível.

Sem mais, comecemos...

Diário de Osvaldo, 1999.

“Não me lembro de quando nasci, mas minha morte será difícil de


esquecer.”

...

Não se sabe muito sobre a vida do velho Osvaldo, pois ele sempre
foi muito esquisito e reservado. Muitos o tinham como um velho bruto
pelo jeito com que se escondia das pessoas em seu casebre de barro.
Chamavam-no de “Seu Pita”, não se sabe ao certo por que motivo. Mas
descobriu-se depois de muito tempo que ele gostava muito de seu
cachimbo. Ele, quando jovem, morava em um sítio no interior de
Alagoas, não sabemos o lugar exato, o que podemos afirmar é que era
muito precária a situação do dito lugar. Não havia água encanada nem
energia elétrica, era “balde e candeeiro”, como ele mesmo costumava
dizer.

Trabalhava na roça plantando de tudo: cenoura, couve, pimenta,


cana, pitomba, maçã... Plantava até bananeira.

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Ele sempre fora um trabalhador e começara cedo. Casou-se e
viuvou-se muito rápido, passando assim a maior parte do tempo
sozinho.

Osvaldo mudou-se para a cidade de Maceió em 1998; foi morar


com sua irmã Luzia - um doce de mulher, se querem saber. Tinham
uma casinha pequena pra dividir, pintada de rosa e azul – o que foi
motivo de discórdia entre ele e a velha Luzia, pois cada um queria uma
cor, acabaram pintando metade de uma e metade de outra – era jeitosa
a tal casa. Pequena como era só podia abrigar umas coisas: um sofá
velho, uma mesa com duas cadeiras, duas camas, apenas um guarda-
roupa, que também fora pintado de azul e rosa; era tudo muito velho,
aliás, era uma casa velha, “mas o que isso importa quando se é o dono
e pode chamar um canto nesse mundo de seu?” Ao menos era a
ladainha que Luzia contava para Osvaldo toda vez que ele reclamava do
estado das coisas. Claro que o sermão vinha acompanhado de um
“tapão” na cabeça, as mulheres em sua maioria são assim mesmo,
reclamam e batem, é o jeito de amar feminino, vai lá saber porque é que
tem que ser assim.

Ele tinha o hábito comum de todo velho de sentar-se a porta em


uma cadeira de balanço, com um rádio debaixo do braço e um porrete
de madeira no colo, “pros mijãozinho” dizia ele sempre que questionado
a respeito, nuca explicava mais que isso, e nunca se ousava questionar
mais, corria-se o risco de acabar sendo um dos tais e levar umas
cacetadas, mas é óbvio que Osvaldo nunca chegou a bater em alguém
com o porrete, era uma forma de manter as crianças afastadas, ele
esbravejava mas não fazia mais que isso.

Na verdade, houve uma ocasião em que o velho teve de usar o


porrete, mas não foi em uma criança ou jovem, foi há muito tempo. Não
vamos contar isso aqui, pois existem coisas que ficam mais
interessantes quando não se sabe delas, pois depois que se descobre
tudo perde a graça.

De Luzia podemos afirmar com certeza absoluta que gostava


mesmo de bater perna. Indo e vindo o dia todo sempre arrastando seus
chinelos cor de rosa e fofocando ao máximo. Um hábito nem um pouco
saudável, mas deixemos a pobre Luzia em paz.

Mais uma informação importante: os dois eram inegavelmente


analfabetos. Não sabiam nada de nada da língua portuguesa.

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Certa ocasião eles foram pegar um ônibus para ir ao centro
confundiu-se todo e fora parar na beira da lagoa. Foi um Deus nos
acuda pra Luzia o achar.

Quando os moleques troçavam dele por ser analfabeto,


entregando-lhe o jornal e pedindo que lesse as notícias do dia, ele dizia
– Não sei ler, vocês sabem disso, mas isso só é assim porque tive que ir
pra inchada cedo, senão morria de fome – levantava o porrete e os
garotos se punham a correr em disparada pela rua. Era uma
brincadeira comum para eles. Divertida até, eles nem pensavam que
estavam ferindo o pobre velho.

Dentre aqueles moleques havia um chamado Getúlio, mas todos o


chamavam de “bala” por causa do presidente, ou de Túlio. Ele era
esperto e sabia das coisas.

Certo dia ele viu os meninos a caçoar do velho e os observou. Viu


toda a cena indignadíssimo, depois saiu correndo para contar aos seus
pais o que estava acontecendo na rua; eles fizeram pouco caso, era hora
da novela.

Contou no dia seguinte aos pais dos moleques, eles também não
fizeram nada exceto por um pai, chamava Pedro, que o levou pela
orelha até a sua casa e recomendou a seus pais que o castigassem por
ser boca grande.

Levou uma surra nesse dia.

Decidido, ele foi à escola na segunda e pediu ajuda dos seus


professores. Eles disseram que ele era jovem demais para entender tudo
isso e que o velho era velho demais para poder mudar ou aprender,
senão já teria feito.

Quando voltou para casa viu a cena da troça novamente, mas


dessa vez o velho parecia não reagir, estava de cabeça baixa olhando o
jornal, curvado e com os braços pendendo da cadeira; parecia sem
forças.

Túlio viu lágrimas nos olhos dele.

Pegou uma vara de bambu fino e saiu em disparada, sem nem


pensar, deu bambuadas em muitos meninos até que o bambu partiu-
se, feito isso desceu a mão e levou uma surra depois. Mas os meninos
deixaram o velho, ele achou melhor assim.

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Ainda estava no chão quando seu pai o pegou pelo braço – os
vizinhos haviam visto e o haviam chamado – sacudiu-o e mostrou-lhe o
cinto.

O velho olhava tudo. Seu rosto era quase uma pedra de tamanha
tristeza e raiva misturada.

Diário de Osvaldo, 1998 – hoje.

“[...] Eu estava triste pelo garoto e com muita raiva daquele


pamonha do pai, ai que ódio que me dá isso.”

...

Passaram-se algumas semanas e o menino resolveu fazer alguma


coisa pelo velho, mesmo que lhe custasse outra surra.

Ele permanecia, enquanto isso, de guarda. Todo dia ia e ficava na


esquina com uma vara de bambu na mão, nem é preciso dizer que os
garotos não apareceram mais.

Tomou coragem um dia e foi até o velho, pediu licença e disse:

- Como o senhor chama?

- Osvaldo.

- Sem querer ofender, o senhor sabe ler?

- Não, mas isso foi porque trabalhei muito na roça, senão morria
de fome.

- Quer aprender?

O velho pareceu espantar-se, ele havia desistido de resistir às


troças, perdera o ânimo. Acreditava que o garoto iria fazer o mesmo.
Isso é comum a pessoas que sucumbem à tortura.

- Como é? – respondeu quase confuso.

- Aprender a ler, eu ensino o senhor, nem sou lá muito bom, mas


é o que posso fazer – falou isso com aquela inocência típica das
crianças.

- Não sei se posso guri, sou velho e enfadado, o sol me levou as


forças.

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- Prefere a troça senhor?

- Não.

- Então, vamos.

O velho pareceu hesitar por um momento, mas concordou.


Acordaram que todas as tardes depois do colégio Túlio iria à casa de
Osvaldo para ensiná-lo as letras.

Antes Osvaldo lhe perguntara o que seria preciso, e o menino


respondeu:

- Lápis e borracha, ah! Um caderno também.

Osvaldo não tinha muito dinheiro então comprou um lápis e uma


borracha, o caderno Luzia arrumou com as lavadeiras, era usado, mas
iria servir.

Diário de Osvaldo, 1998.

“No começo foi difícil, mas aprendi, mas foi complicado; quase
desisti. Deus é testemunha disso.”

...

Osvaldo aprendia rápido e o moleque não sabia muito, logo os


dois estavam se ajudando com a tabuada e o assunto novo da escola,
afinal de contas conjugar verbos é para os fortes.

Assim foram-se as tardes de 1998 e chegou 1999, este também


partiu e chegou o ano 2000.

Osvaldo sabia ler melhor agora, também sabia fazer contas e


conjugar verbos.

Mas Getúlio ficou doente e teve de ficar em casa acamado, os pais


não o deixavam sair e isso o deixou triste, pois pensava no pobre
Osvaldo, e agora? Ele se questionava. Tinha para si que sem ele o velho
seria novamente assediado pelos moleques da rua e isso o deixava
tenso.

Passaram-se três meses.

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Em uma tarde de terça-feira alguém bate na porta. Era Osvaldo.
Trazia o lápis que estava miúdo e sua borracha, junto o caderno velho
todo rabiscado.

Ao ver o velho Túlio agitou-se alegre. Osvaldo, porém não parecia


feliz, estava com uma cara murcha e tinha lágrimas nos olhos.

O que houve?

Diário de Osvaldo, 2000, 13 de março. Hoje.

“Aí senhor que dor, ai que dor! aprendi a ler e escrever e não
pude suportar perder Luzia, ai meu Deus! O que será de mim?”

“Eu queria ensinar ela a ler...”

“Queria que ela lesse a Bíblia como eu...”

“Se foi. Minha vida se foi. Morri.”

...

A vida segue, tudo segue e Osvaldo continuou a estudar com o


pequeno Túlio. Vinte anos se passaram e o garoto tornou-se Jovem e o
jovem tornou-se adulto. E adultos não tem tempo para velhos.

Osvaldo ficou só.

Getúlio agora era Doutor Getúlio Fontes. Trabalhava no hospital


da cidade e casou-se com uma bela mulher.

Estava ele a caminhar por uma avenida quando viu um esmoleiro


do outro lado, ele estava dormindo no chão e havia moleques lhe
chutando as costelas para ver se acordava, eles gritavam:

- Rato, rato, rato. Vamos acordar o velho rato!

O doutor atravessou a pista e espantou os moleques com


empurrões e repreensões de gente adulta. Ajudou a por o esmoleiro em
pé e o deu algum trocado.

Os olhos do senhor se iluminaram ao reconhecer Getúlio.

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- Túlio? – perguntou.

- O senhor me conhece de onde?

- Da rua onde morava com meus pais, era pequeno e distraído,


mas me recordo bem.

- de quê?

- O senhor quando moleque bateu em mim com um bambu,


lembra-se? Por causa do analfa... Do velhinho.

- Deus! – disse recordando a história toda de sua infância e de


como havia deixado o velho de lado - Mas como foi que você veio parar
aqui, assim?

- Sempre fui vagabundo e passava o dia na rua, nunca fui à


escola e nem sequer sei ler, tudo pela vadiagem.

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