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através de sua "estrada real", a quesuo do

Freud sonho - a qual desemb~ . enfim,


numa crítica epislemológlca do modo de
explicação e <b racionalidade analfticas

e - o que dá lugar :ro diagnóstico de


"mitologia".
A resposta precisa de Freud, do fundo de

Wittgenstein seus textos, sobre cada um desses


opítulos e o cOlejo dos dois corpus
permitem elucidar um commtc
importante do pensamento
Freud e Wittgenstein, cada um à sua contemporâneo, relativo
maneira, tiveram um efeito subversivo simultaneamente ao inconsciente e à
sobre o saber. Daí resultou uma vocação linguagem, à racionalidade c à ética e até
"a.nalític~" comum: um c outro retalham mesmo ao "mal-estar" da Kullur. Prova
o tecido do inconsciente e da linguagem. de verdade para Wittgenstein, seu debate
~1as alnda que se considçre pertencerem com a psicanáJise mostra·se também
ao mesmo universo cultural (vienense) revcl:rdor de uma interrogação lúcida
tudo parece ter-se conjur.ldo pat.l to rnar sobre o gênero de saber que é a
imJX>.~sível o encontro dos dois. Para psicanilise c o st2rus do sujeito que ela
além desse rendeZ-l.'OUS malogrado, o deve supor, em suma, sobre a esC'rita
confronto de "entendimentos" não freudiana em suas zonas estr-•.ttégicas.
podcri~ ser adi~vd por mais remp<), sem
se converter numa ne~tiv-.l filosófica.
Re-.tli7.ar a arqueologia dessa conjunção é,
portanto, rcco nstiruir, como um quebra-
cabeças, o espaço no qual o fundado: da
psicanálise c o teórico dos "jogos de
linguagem" se encomr.un para dialogar.
O pomo dç pârtida tangível é fomeddo
peJo conjunto de: enunciados de
Wittgenstein sobre a psicanálise c, em
especial, essas Cotwersações sobre Freud
onde se capta ~o vivo o que
Wingenstcin, ''discípulo de Freud",
segundo suas próprias palavras, af
considerou upmruno reafirmar. O
confronto baseia-se, de certo modo, na
temática dessa "atitude crítica": tendo
partido de uma crítica da lógica do
assentimento psic-.malítico, Wiugen<;tein
abre o caminho [Y.lra um rcCXJme da
tc::om freudi:ma da interp retação -
Paul-Laurent Assoun

Freud
e
w· .
,iJttgenstein
Tradução
Álvaro Cabral

Licenciado em Ciências Históricas e Filosóficas pela Faculdade


de Letras, UnW8rsidade Clássica de Lisboa.
Oooriijinel:
FtwdecW~.
Copyrigll1 ~ 19118. , _ ~de f1ance.
e 19110, Edlbe ~ L~~~L
lOdos os dinlitO$ ·resen.ac~os e ptOtegidos pela lAli !ll88 de 14112173.
N&l'lhtrnl pane desle liYIQ. sem alltorizllçJo pme 1)1)( MUitO da
edirO<B, podeQ oer ~2~ ou lnm$mi1icla ..,jam quais f<nm os
meíos empregedos: elell6nicoe. mednicos. fotogrificos, gt311eÇio
ou quaisquer ouuos..
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Ruoo Bado de ~lpe 56 Río Comj)rido
li!iefone: 10211 293 6443 T<~~e~<; 1021132606 EDCP BR
FAX 10211 ~Sil83
.202&1 Rio de J.-.eW AJ 8luit
Endenço Tetesl~w;Q: CAMPUSRIO
ISBN IIIS' l00\-814-X
(Ediçlo otigónal : ISBN 2·13-0411187·9, P . - Univ;ef!5ÚilflS de Fnlnce,
?llrie, franca. I

fic.t. c.t.logr6flca
CIP·&atil. Calll~,._fonte.
SindicalO NKioNI doe Ed!ton5 de L"'-. R.l

AEoun. PaU I.JI<not


A8ll9f Freud e W~ I Pllul-uuo.nt Assoun; ~do Alvaro C.bral. - Río
de JaneR: Campus, 1990.

Traduçlo do: Freud ec Wm~.


ISBN 86-7001-614-X

1. Freud, Si9mund, 1868-1938. 2. Wrttgenstein, l..udwig, 18111-1961 - Opjnil!ec


som a psicanM-. 3. Psíc.aNiiM. I. lltuiO.
::oo - 150.196Z
~ cou - 169.964.2

961M93929t90 987654321

lnlptessio • ecabam.n1o
(com ltJIMs fot,...;ído$}:
EDITMA ~ANTVMió
Fone (0125) 36·2140
APARECIDA • SP
SUMÁRIO

lntrotlufiíO .. . . . . . . . . . .. .. .. .. . .. . . . . .. .. . . . . . . . . . . . .. .. .. . . . . .. .. .. .. . .. . .. 1
Freud e W ittgenstein ou a dupla análise . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2
Viena ou o encontro gorado .. .. . . .. . .. . .. .. . .. .. .. .. . . .. .. .. . . .. 4
Para uma arqueologia das "Conversações sobre Freud" ..... 7
A fala de Wittgensteio sobre Freud . . . . . . . . .. . .. . .. . . . . . . . . . . . . 10
W ittgenstein e a psicologia . . . . . . . .. . .. . . .. . . .. . . . . . . . . . . .. . . . . .. B
O p~digrm _viene~: a crit.ica da razão psi~2lítica . . . . . . 14
Entre mconscren~ e lmguagem! o lance ético . . . . . . . . . . . . . . . . 18
'U-açado do percurso . .. .. .. . .. .. .. . . . . .. .. .. .. .. . . . . .. . .. .. . . . . . . . . 20
Notas ......... ................................................ ....... 22

PJUMEIRA PARTE
WJTIGENSTEIN, CRÍTICO DA PSICANÁLISE
Arqueologia do Debate

LIVRO I
ClÚTICA DA LÓGICA DO ASSENTIMENTO
PSICANALÍ71CO ................................................. 31
Capítulo 1
Crftira wittgemtrinillna do assentimento........ .. ..... .... ... ....... 33
1. A "atitude crítica" e seus lances .. .. . .. . .. .. .. . .. . .. .. .. . .. .. 33
2. A questão do assentimento analítico ...... .......... . . .. . . . . 34
3. A exigência de uma "gramática do assentimen to" . . . . . . . 39
4. O problema <h crenca analítica: o transtorno da sedução 41
Capítulo 2
A lógiçll da CTI!nfll llllllf'tti&ll .... .......................... ...... ........ . 45
L A crença e a transferência .. .................... ...... ... ..... . 45
2. O eclipse do entendimento .. ............ ... ... .. ....... ... . .. 46
3. Do assentimento ao consentimento ... ... .... ... ... ...... .. . 49
4. A contestaç2.o intelectual: da falsa lembrança à denegação 54
5. Da construção ao sujeito do assentimento ................ . 57
6. Do sujeito do assentimento ao real ..... .. .... ... ... .... .... . 67
7. Da convicção ao real ... ..... ...... ..... .. .... ... ... ... .. ...... . 71
Capítulo 3
Os lances do deb11te do tmentíme111o ........ ... ..................... . 75
1. O objeto do recalque e o sujeito do assentimento . ...... . 75
2. · O sujeíto da perlaboração e a verdade .... ... ... ... ..... ... . 79
3. A anfibologia freudiana: subjetividade e verdade ....... . 80
4. O diagnóstico de Wittgenstein: o sujeito estético ....... . 81
5. A função de alteridade e o momento do oráculo ........ . 84
Notas........................... ........... ........... ......... ... ... ..... : .. 93

UVROll
CRÍ11CA DA TEORIA DA INTERPRETAÇÃO
PSICANAúnCA .. .. .. . ... .. .. ..... . .. ... ... ..................... . 97
Da estética ao objeto da interpretação .... ... .......... ... .... . 97
Capítulo 1
Critic11 da imerprelllf40 de sonhos .......... ... ...... ...... .... .... ... . 101
1. A questão do simbolismo onírico ................. ......... .. 101
2. Os sonhos de Wicrgenstein .. .......... ..................... . . 105
3. Crítica da teoria da realização do desejo .... .... ..... ...... . 108
4. Crítica dos paralogismos da projeção ... ... ..... ... ... ... ... . 112
Capítulo 2
A lógica oniric11 em Frellli ........ .. .. .... ...................... .. ... ... . 115
1. A teoria da WunscherfüUung e do simbolismo .. ..... .... . 115
2. O sonho e o pensamento .. ... ... ... ... ... ... .... .... ... ... ... . 119
3. O onírico sob suspeita: "os sonhos de complacência" ... . 126
Capítulo 3
Os lances do deb11te: lingwgem e ínterpretllfiio .. ..... ... .. .... ... . 133
1. Do quebra-cabeça freudiano ao quebra-cabeça wittgenstei-
ruano: o objeto da interpretação.''.' ..... ... ... . ' ....... ... . 133
2. Sonhos e "jogos de linguagem'' ........... . · .. :: : .. ... ...... . 138
3. Do Witz à psicopatologia da vida ~otidiana: jogos de lin-
guagem e causalidade psíquica .... ·..... ... ... ... ... ... ...... . 140
4. A questão da ceneza: inconsciente e jogos de linguagem 143
Notas ........ ... ... ... .... ... ... ..... ..... ... .... ....... .. ............. ..... . 146
SEGUNDA PARTE
FREUD E WITTGENSTEIN

UVROID
CJÚTICA DA EXPLiCAÇÃO PSICANAÚUCA . .. . .. .. . .. .. 151
Crítica da dcscobena psicanalíúca ..... ...... ... ...... ... ....... 152
Capítulo 1
Crítica dos postulados metlljJsicológicos . ·: ..... . .. . . . . . . . . .. . . . . . . . . . 155
1. Crítica do postulado metapsicológico . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . 15 5
2. Crítica da explicação pelo desejo............................. 158
3. Crítica do postulado inconsciente ...... ...... . . . . . . .... . . . . . 159
4. Para um.a gramaricalização da mcrapsicologia ... .. .... ... . 164
Capítulo2
Mitológicas em Freud e Wittgensteín .. .. . .. .. ... .. .. . .. . .. .. .. . .. .. .. 169
1. O diagnóstico wittgcnstciniano: a. psicanálise como mito-
logia .. ................... ...... ................................... 169
2. Cr~tica do pantragicismo psicológico ..... .. ... ... .... .... ... 172
3. A crianca freudiana e a criança wittgensceiniana... ... ... . 174
Capítulo 3
Destinos do wgos . . . .. .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 181
l Crítica da teoria psicanalítica: Wittgensrein e Popper . . . 181
2. Crítica da mitologia evolucionista ................ ........... 185
Notas................................. .. ..................................... 191

LIVRO IV
DE UMWGOS AO OUTRO: LANCES DA DIVERGÊNCIA
FREUDIWITIGENS'I'EIN' .. .. .. . .. . .. . .. . ... . .. .. . .. . .. .. .. . .. . 193
Da confrontação temática à confrontação sistemática .... ... 193
Capítulo 1
Inconsciente, rllcionalidllde e lingu11gem . . . . . . . .. . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . 197
1. Metapsicologia e jogos de linguagem . . . . . . . . . . .. . . . . . . . .. . . 197
2. Sujeito, linguagem e inconsciente ................. .......... 198
3. As "coisas últimas": do enigma à bruxaria...... .. ......... 204
Çapítulo 2
Etíc11, íncomciente e linguagem.. ..... ... ... ...... ........ . . . . . . . . . . . . . 209
L Do agnoúcismo à ética . .. . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . 209
2. O skJtus do simbólico: crença, culpabilidade e ordem pa-
terna ................................................ ... ... ........ 212
3. Do niilismo terapêutico (Wittgensteín) ao imperarivo freu
diano ........... ... ...... ... .... ..... .... ........... ... ......... .. 216
Capitulo 3
Destinos átl Kultur .. ........... ... ........ ... .... ....... ................ . 221
1. Do antiprogresso ao mal-estar da civilização: o
..nesuoy•smo
, .. de Freu d e w·ntgenstem · ................ ... . 222
2. As figuras da Anánkê: história, cultura e política ... ..... . 226
3. O futuro das ilusões: o nome e a ficção ................... .. 230
Notas .......... ........... ........ .... ......... ... ......... .. ......... ...... . 23S
Conclusão ................ ...................... .... ....... .. ............. .. 239
Índice Onomástico ................ ..... ..... .... ...... ... . . ... .... .. ..... 247
INTRODUÇÃO

Inserir uma copulaciva no meio de um título, entre dois no-


mes próprios d e tamanha envergadura ,.constitui u m ato gerador
de: formidand o imperativo: fundamentar o d ireiro de se falar con-
juncameme de Freud e de Wirtgenstcin satisfaz uma necessidade
- na medida em que, de certa maneira, eles se atraem - , m as sus-
cita, ao mesmo tempo, um risco, qual seja, o de atenuar a singula-
ridade de cada um desses empreendimentos, titânicos em seus res-
pectivos gêneros. Os grandes magistérios do pensam c mo associam-se
ma1, parecem exigir, ames de tudo, que se conservem reciprocameme
a distância para proteger suas monstruosas reservas de inovação.
Falar de Freud e de Wittgensrein impõe, portanto, segundo
as modalidades de uma arqueologia da conjunção que produzimos
anteriormente 1 • a exposição à vertigem de uma oposição mais con-
siderávd para se determinar em que é q ue ela alimenta a proble-
mática filosófica. O desd obramento dos magistérios ralvez seja a
esuada real q ue res[a para um enfoque sistemático, na condição de,
jusrameme, a dominar. Freud e Wi rrgenstein impõem -nos, p or seu ..
tão problemático diálogo, que nos siruemos, não como uma resul-
tante ou um compromisso emre dois modos de pensar, mas em al-
guma parte no cerne de seu parentesco apórico. É isso, rão contra-
ditório de se p ensar, o que, segundo nos parece. mais dá que pensar.
l
Eles estão aparentados demais, por um certo lado, para que
essa confrontação seja adiá vei por mais tempo sem se converter nu-
ma denegação filosófica. Mas a exploração desse "parentesco"·sen-
sível é demasiado rica em "aporias" para que tal afinidade não exi-
ja a análise de uma dissonância mais importante.

Freud e Wittgenstein ou a dupla análise ·

Cada um à sua maneira, Freud e Wittgenstein exerceram um


efeito subversivo comparável sobre o que é designado, de forma tão
sumária, como - respectivamente - "psicologia" e "filosofia''.
Sob a designação de "psicologia da profundidade", Freud enxer-
tou no chamado saber psicológico um modo de pensar novo que
não só lhe adiciona um novo objeto, mas também uma espécie de
entendimento apropriado ao pensamento do inwnsciente2 • Witc-
g~nstein , por seu 'lado, ainda que considerado filósofo, instaura uma
relação inédita no modo de pensar filosófico. Um e outro adotam
uma posrura em seus respectivos campos feita de pertença e de es-
tranheza. É essa "pQsição de objeto" qbjetivamemç (~. por vezes,
subjetivamente) irônica que cria uma espécie de parentesco, tão se-
creto qua:nto determinante, entre seus empreendimentos respec-
tivos, apoiados, por outro lado, em "racionalidades" tão diferen-:
res. Como se Freud e Wittgenscein tomassem o saber- psicológi-
co e filosófico - por aquilo que nele constitui sintoma, respe~~i­
~ente c;> inconsciente e a linguagem, daí extraindo até o fim to_-
das as conseqüências.
Nesse sentido, aliás, trata-se menos de formas de pensamen-
to erigidas em magistério do que de tentativas de se tomarem mes-
tres, forjando um modo de pensar ad hoc, o qual escapa às formas
consagradas do saber. Foi justamente ao desafiarem, no mesmo es-
tilo, formas magistrais de saber dominantes qu~des, um e outr9l
foram recebidos, na esteira de seu labor crítico, como mestres n~
ane de pensar uma alteridade que escapa a esses saberes triunfantes.
Frcud e Wittgenstein têm ainda em comum a paixão pela aná-
lise, a qual remete para uma "escolha de racionalidade"
determinante.
2
A psicanálise reivindica a "decomposição" (Zerlegung) e~ "de-
sagregação" (Zersetzung) como modalidades reconhecidas de to-
mada de consciência de sua objetividade, em analogia explícita com
a química3. Trata-se de explicar, separando-os da textura dos cor-
pos, seus componentes elementares, no caso, os 'Eiebregungen, esses
movimentos pulsionais recalcados de que depende a economia glo-
bal do corpo psíquico. São igualmente "substwcias explosivas" que
fazem do analista um experirnentador perigoso.
Wittgenstein jamais produziu outra coisa senão uma análise
da linguagem. O TractatuJ postula: "Existe uma análise, nada mais
do que uma análise integral da proposição." 4 Em seguida, é uma
anáJise gramatical das estruturas sintáticas que será construída na
Gramã"tica filosófica. Enfirp, os "jogos de linguagem" fornecerão,
mais ainda do que as unidades de uma análise, o princípio de uma
dispersão ordenada, obrigando a procurar no funcionamento di-
ferencial das ~egras o princípio de uma análise integral. Isso equi-
vale também a jogar com a potência explosiva da linguagem..
Essa afinidade analltica fornece o ponto de partida e a base
de uma confrontação que de forma alguma é anulada pela hetero-
geneidade do objeto da análise em questão e dos pressupostos epis-
temológicos ~ que o presente estudo se propõe justamente eluci-
dar. Freud e Wittgenstein trabalham na análise: contra as tentações
ou as facilidades das "sínteses", eles retalham o tecido da lingua-
gem e do inconsciente.
Da autoria de Wittgenstein, encontramos nas Vermisc~te Bé-
merkungen, datada de 1939-1940, uma formulação capital dessa
"originalidade" analítica que o autor das lnvestigaçõeJfilosóficas
(Philosophische Untersuchungen) se atribui, não fortuitamente,
em geminalidade com a de Freud: "A minha originalidade (se é essa
a palavra certa) é, segundo creio, uma originalidade do terreno, não
da semente. (Thlvez eu não possua nenhuma semente que me seja
própria. )Jogue-se uma semente ao meu terreno e ela crescerá de
um modo diferente em qualquer outro terreno. A originalidade de
Freud, em minha.opinião, é desse mesmo gênero." ~
Em outras palavras, a originalidade procede da reconstrução
de uma realidade, não de uma invenção. Trata-se, portanto, de de-
limitar o terreno dele e de aí fecundar todas as sementes, sempre-
tender inventar nada de novo, nem o menor "pedacinho de erva".
3
A análise da linguagem assim concebida como a psicanálise só po-
de reivindicar o slogan da autofundação: fora das é . São, de resto,
estranhos proprietários aqueles que apenas dispõem da riqueza do
terreno.
Assim é que Wittgenstein pode assegurar: "Creio que nunca
inventei um caminho de pensarJ?ento, mas que ele sempre me foi
dado por outrem. Tudo o que fiz foi apoderar-me imediatamente
dele com paixão para o meu próprio uabalho de esclarecimemo."7
Talvez não seja sem boa razão que ele situou Freud na mesma fa-
mília de "originais analíticos". O original em questão não é aq ue-
le que inventa um "caminho de pensamento", nem sequer um pen-
samento, por menor que seja, mas aquele que submete - severa-
mente - o pensamento dos outros - do Outro - a um esforço
de elucidação implacável e sem precedente. Assim é essa originali-
dade ·que nasce do plano geral do pensamento. É quando o pensa-
mento do objeto revela a sua constituição mais íntima que~ justa-
mente porque não foi inventado, ele pode ser reinventado com uma
radicalidade singular e dado a ver a um Jogos convertido em olho
analítico de penetrante poder.

Viena ou o encontro gorado

Mas~ pela penença cultural que o parentesco nos acena, em


primeiro lugar. Parece útil tomar a medida da comemporaneida-
de dos nossos dois autores. Cumpre situá-los igualmente em sua
proximidade espacial. Circulando no mesmo espaço cultural, am-
bos participam, com efeito, pelo menos em pane, do mesmo mundo
histórico: o vienense, onde se forja esse duplo "ideal analitico".
No tocante à origem, Wittgenstein é quem será o verdadeiro
vienense. Pois se, como se sabe, é na Morávia que nasce Freud, só
sendo transponado para Viena aos três anos de idaP.e, é em Viena
que Wittgenstein nasce8 • Entre os dois existe o espaço de uma ge~
raçio (185 6-_1889). Mas, dos dois, aquele que permanece em Viena
mais obstinadamente, se bem que com um perpétuo mal-estar, é
o fundador da psicanáJise9. Wittgenstein, pelo contrário, não se
cansará de circular longe de sua cidade natal. Há nessa simples cons-
tatação um símbolo de suas penenças contrastadas. Também.é ver·
4
dade que um e outro morrerão em ex.ílio na Inglaterra- um em
Londces, o outro em Cambridge, com doze anos de intervalo
(1938-1951) 10• Mas Freud acabava de ser arrancado à sua pátria do-
lorosa, cnqwmto Wittgenstein já rompera há muito com suas
origens 11 • Estranhos vienenses, pois, um ddes detestando Viena e
o ouuo (quase) nunca na cidade!
Por isso é ainda mais .instrutivo indagarmos quando·Freud e
Wittgenstein poderú1m ter se cruzado ou encontrado: Cabe distin~
gu ir três etapas, as quais apenas· enumeram as ocasiões de.encon·
tro gorado!
Ames da Primeira Guerra Mundial, no momento em que s~
consuma a "travessia do deserto" do fundador da psicanálise, o jo-
vem Wingenstein está em seu peúodo de formação. Aluno da Tech-
nische Hochschule de Berlim a panir de 190612 , seu destino leva-
o a Manchester e a Cambridge para seus estudos 13, depois à Norue-
ga, onde passa os últimos meses que precederam a gucrra14 . Quan-
do Freud se lamentava sobre as devastações da guerra, não sabia que
um jovem austríaco, tendo-se alistado como voluntário, batia-se nas
frentes leste e sul, guardava em sua mochila o manuscrito de uma
das mais importantes obras da filosofia do século, o famoso Tracta-
tus logico-philosophicus1 ~.
Nos anos que se segujra.m aofmal da guerra, foi quando Freud
e Wittgenstein estiveram "fisicamente" mais próximos. Embora
Freud nada saiba disso, _e~rece tçr sido nesses anos do ~s-guerra
que Wittgenstein descobriu Freud16 , mal regressa.ra à Austria17 •
·Mas foi esse o momento por ele escolhido para essa espécie de "exí-
lio interior" que é a sua experiência pedagógica na Áustria Baixa
(i920-1926) e que o afasta de Viena 18 • Após o fracasso dessaexpe-
r.iência, é em Hütteldorf, num mosteiro, que vai refugiac-se 19 • É
pouco depois, no outono de 1926, que Freud e Wittgenstein po-
deriam ter se cruzado nas ruas de Viena20 • Se Freud, é verdade, se
isolava na Berggasse, Wi ttgensrein, transformado em pedreiro e ar-
quiteto, ocupava-se da casa de sua irmã Margarete, na
Kundmangasse21 , essa irmã com quem, segundo parece, Freud eCQ.
pessoa tinha conversações e por intermédio de quem Wittgenstein
transmitia sonhos para que aquele os interpretasse (ver infra, I. II,
cap. 2 ). Resta o último período: durao te os úl rimos dez anos da ~i­
da de Freud, Wittgenscein está de volta a Cambridge, onde leoo-
5
na. Repane seu tempo entre as aulas no Tnnity College, e viagens
(à União Soviética e à Suécia)22 , antes de ser nomeado, no mesmo
ano da mone de Freud, para a cátedra de Moore. Quando estiver
em Viena, os últimos m eses que antecederam seu próprio
falecimenco21, somente o espírito de Freud aí estará pairando...
A p ertença vienense comu m de Freud e Wingensrein
manifesta-se por afinidades análogas.
Ambos leram e meditaram Schopenhauer e ambos se reen-
contraram em águas nietzschianas. Um e outro apreciam o humor
estridente de Wilhelm Busch. Num registro muito diferente, ad-
miram a obra de Gottfried Keller. Encontram nos aforismos de Lich-
tenberg os princípios de um espírito comum. 1ãnto um como o outro
conheciam os paradoxos de Otto Weininger, o autor de Sexo e ca-
ráter, em bora manifestando opiniões diferentes a seu respeito, e a
"filosofia do Como Je" de Hans Vaihinger, acerca da qual se man-
tiveram reservados. Não podiam escapar, num momento ou outro,
· ao carisma de Karl Kraus, a encarnação cáustica do espírito víenense:
mas se W ittgenstein se manteve fiel até o fim à admiração um tan-
to exagerada por Kraus, Freud anunciaria seu divórcio do autor de .
Die Fack.el(A tocha). Do mesmo modo, se ambos leram Dostoievski
com admiração, Wiugenstein alimenta-se tanto dele como do pen-
samento tolsroiano, ao passo que Freud nâo pode deixar de confes-
sar sua pouca simpacia pelo homem cuja "profunda psicologia"
admira.
Pode-se, assim, inventar uma discussão enue os dois homens
nesse terreno cultural comum. Na falta de um encontro entre eles,
resta apenas imaginar um Diálogo dos Mortos, o qual revela seus
verdadeiros lances de um exame da lógica das obras. Assim, em con-
traste com o grande interesse de Wittgenstein por Tolstoi, sabe-se
que " Freud não alimentava grande entusiasmo por Tolstoi", pois
''o mundo em que To Isto i vivia e por ele descri to era-lhe estranho",
ao passo que "a enérgica posição dele contra a sexualidade" não po-
dia "despertarem absoluto(sua)simpatia". Divergência exemplar:
homem de cultura autêntica, Freud não pode, entretanto, deixar
de abordar seus autores auavés do que neles discecne de "comple-
xos infantis", aí onde Wittgenstein faz funcionar a letra das obras
em sua pr6pria economia de leitor, soberanamente seletivo. Ocor-
re que ele aborda o próprio texto de Freud como o de um "autor".
6
Parece, pois, q ue um singular destino obstinou-se em tornar
inverossímil um encontro entre os dois "monstros" vienenses, en-
contro esse que, escudando o estranho vínculo, s6 nos é permitido
in'ITntar. Restam, felizmente, essas Conversa/tons Jur Freud14 de
1942-1946, onde Wittgenscein, pouco depois da morte de Frcud,
<:sboça vigorosamente esse: diálogo.

Para uma arqueologia das "Conversações sobre Freud"

Acomcce, porém, que essas Conversações sobre Freud, doeu·


mento privilegiado, tiveram por efeito fixar uma imagem de Witt-
genstein, crispad c:' numa atitude crítica - da qual se vislu~bra, por
outro lado, o backgrou11d de ambivalência. O caráter prectoso des-
se testemunho facilitou a sua utilização como "vinheta" que esgo-
ta o discurso wittgensteiniano sobre Freud, à maneira de uma "opi-
nião" decretada.
Parece-nos que uma avaliação dessas Conversações é a base ne-
cessária a partir da qual se fará uma confrontação dos dois pensa-
dorc:s..Mas isso supõe uma reconstrução do conjunto dos pressupos-
tos e alternativas que permitem ler esse documento. Não basta ou-
vir essas Conversações para compreender o que nelas está em jogo:
de cena maneira, seria mais provável que impedissem de ouvir o
que nelas se diz. Mas, inversamente, um confronto sério de proje-
tos deve rcvener incansavelmente a essas Conversações para entendê-
las em sua própria letra.
No fündo, é como se Wittgcnstein tivesse tentado, mediant~
cssé texto, dar corpo ao que não pud~ra produzir-se em vida de
Frcud, ainda que só tivesse podido realizá- lo por sua própria voz
-- o que confere a essa tentativa mono lógica seu caráter involunta-
ciamente patético. Mas isso não nos deve fazer perder de vista que
esse "diálogo monológico" foi mantido na obra de Wittgenstein
e em seu pensamento de maneira crônica - se bem que, em mo-
mentos determinados, deixe uma impressão fulgurante por razões
que teremos de descobrir.
Por outro lado, esse "diálogo dos mortos" - o qual foi ~sbo­
çado por um dos vivos- mergulha suas raizes na cultura dos tnte-
ressados: é esta que, de çecto modo, o suscita. Portam o, devemos
7
adotar o necessário recuo a fim de compreender como ele se radica
em certos pressupostos dessa cultura - ao mesmo tempo comum
e tão sincopada pelos interesses próprios de cada um - ames de
desenhar a temática pela qual essa atmosfera cultural se convcrre
em necessidade león"ca. .
Parece-nos. com efeito, que se fez insuficientemente jus a es-
sa necessidade teórica. Não que o problema d~ encontro entre o fun-
dador da psicanálise e o autor do Tractatus não tenha sido evocado
ou tratado com comperência2 ~ . Mas, na m.aioria das vezes, é a tí-
~ulo de contribuição para o pensamento de Wittgenstein, como base
temática interessante ou com o episódio curioso. Nesse caso, a psi-
canálise funciona como um tema da crítica wittgensteiniana, e Freud
como um espírito de encontro. A revocação e a análise dessa temá-
tica crítica reduzem-se, ponanto, a compreender por que Wittgen-
stein censura a pretensão analítica ou o modo de pensar freudiano.
Em suma, Wittgenstein está no número dos críticos da psicanáli-
~~· com a nota de originalidade c de sutileza que lhe convém . Tan-
to quanto possível explica-se pOr que Wittgenstein era conseqüente,
do ponto de vista de seus próprios requisitos, ao emitir tal veredic-
to e ao formular tal diagnóstico. ·
Ésignificativo que essa revocação raramente.acarreta uma ver-
dadeira dialética com o pensamento de Freud. Assinale-se, no mo-
mento oportuno, que Freud te da tido os meios de responder às o~­
jeções de Wittgenstein. Mas ofaro de que não se analisa com preci-
são o que e~e teria então dito ou, melhor, que não se facultam os
meios de estabelecer o que ele já respondeu com firmeza, em seu
próprio texto, remete o problema para o plano de uma doxografia
ºo pensamento wittgensteiniano. Melhor ainda: Witrgenstein.pa-
rece confirmar, por sua obstinação em negar a contribuição de Freud
~.da psicanáJise, a suspeita de Freud quanto ao caráter decididamente
aporético da psicanálise e do logos filosófico.
Talvez seja porque, de nossa pane, abordamos incontinenti
a questão em termos de confrontação de duas racionalidades26, a
fim de percorrer a psicanálise de um extremo ao outro, que fomos
pouco tentados a reduzir o confront~Freud /Wittgenstein a tal status
doxográfico. Deparamos de imediato com ele em termos do que
esse confronto efetivamente é 2 7 : um magnífico desafio à raciona-
lidade psicanalítica, endereçado tanto ao pensamento de Freud
8
quanto à psicanálise, não por um filósofo como tantos outros, mas
por um contemporâneo que~scava ele próprio en~ajado numacrí-
cica da linguagem que aborda a filosofia corno Sintoma._
~ue ele tenha acabado por colidir com o pensamento de Freud
não é certamente fortuito. Mas essas objeções querem ser levadas
a sério por quem vê no "entendimento freudiano" um imponan-
te problema de constituição que diz respeito, de muito perto, ao
entendimento filosófico. N ão se trata, ponanto, de acusar efetiva-
mente o recebimento, dOtlado freudiano, dessas objeções, não em
qualquer sentido "apologético", acrescente-se- visto que o logos
promovido por Freud é, de certa forma, ~rancAam_ente abalado P?r
rais objeções-, mas de acompanhar a dtvergencta com aquela SlS-
tc:maticidade requerida por esses dois pensadores, por outro lado
cão desconfiados em relação à sistematicidade do logos filosófico.
Aliás , é uma ironia, tanto de Freud quanto de Wittgenstein, o em-
prego dos recursos de praxe do pensamento e pô-los à prova com
um rigor justamente decuplicado pelo fato de que a sistematicida-
de já não lhes está associada.
Em suma. cumpre-nos colocar Freud e Wingenstein não só
em diálogo mas também em luta. para recolher daí todos os ensi-
namentos tanto para um "campo" quanto para o outro e, ao mes-
mo tempo. para ver construir-se, de certo modo ao natural, a pro-
blemática e os lances decorrentes do confronto. A.entrevist.a entre
Freud e Witrgenstein não passaria de um fútil duelo se se limitasse
a explicitar um diálogo de surdos, interrompido de quando em
quando por uma consonância sedutora ou mesmo por uma disso-
nância eloqüente. É uma problemática que se constrói e se desen-
volve nesse " diálogo", como se os dois interessados Lhe emprestas-
sem suas vozes: O dueJo forn ece sua dramaturgia ao que se encon-
tra substancial e literà.lmeme p osto em causa através dela.
É precisamente nesses termos agonísúcos que Wittgenscein
aborda Freud: é porque sente essa obra e esse estilo de pensamento
ramo provocantes que ele inicia wna verdadeira "queda de braço".
Como se fosse para ele uma questão de poder: não é por acaso se
o próprio termo e suas constelações semânticas se repetem amiúde
tm sua apreciação do freudismo e da psicanálise. É P<?rque existe
um "grande pod~r" na coisa psicanalítica que se faz necessário tes-
tar seu poder intrínseco: uma prova que é, nesse senúdo, incontor· .
9
nável. Também está aí em jogo o seu próprio poder de pensar por
si mesmo: é assim que se deve entender, em toda a sua violência in-
trínseca, a observação de Wittgenstein nas Convenafões a propó-
sito de Freud, a saber, que "levará ainda muito tempo para perder-
mos nossa subserviência para com a psicmálise".211 •
Desse ponto de .vista, é sem ilusões que Witcgenstein inicia
a sua "emancipação" em relação ao magistério freudiano. Sua crí-
tica marca simplesmente esse tempo de reflexão sobre as causas e
as modalidades desse magistério. É justarnen te porque, a seus oihos,
não pode deixar de ser "um discípulo de Freud" e um "seguidor
de Freud" 29 , que Wittgenstein precisa entender o princípio de se-
dução q uc torna possível essa enfeudação - o que coma talvez pos-
sível , com o tempo, baldar os efeitos obscurantistas ligados a esse
magistério. Não que \Yittgenstein tenha alguma vez suspeitado de
Freud, nem ao de leve, como um "inimigo da razão": é do diálogo
de um racionalista (Aufkliirer) com um outro racionalista que se
trata, é conv~niente que isso seja enfatizado desde o começo e de
uma vez por cod~s. Mas Wittgensteín apresenta-se como candida-
to para fazer a teoria desse efeito de magistério sobre o pensamen- ·
to que o entendimento freudiano produz. O mais notável é que esse
empreendimento se sincroniza com wn outro. Assim se compreende
que ~sse "seguidor de Freud" muito especial esteja, com efeito, a
~ inho de forjar seu próprio magistério, fundamentado parado-
x~lmeme na arte de denunciar toda e qualquer forma de usurpa-
ção da razão e da linguagem.

A fala de Wittgenstein sobre Freud

Segundo uma indicação capital de ~hees, foi "pouco depois


de 1919" que se produziu o "contato" de Wittgenstein com Freud
-entenda-se com a sua obra. Isso ocorreu sob o signo de um agra-
dável "sobressalto de surpresa". É o verbo freudiano que faz assim
sobressaltar Wittgenstein, e é a partir desse momento da verdade
que vão se enlaçar a admiração incondicional pela riqueza das "ob-
servações" e "sugestões" da obra e uma reação de alena em face do
perigo de sua "influência" - sempre, decididamente, o tema do
"poder" do Jogos analítico. que Freud representa.
10
Seria, ponanro, nesse momento-chave, quando do seu regresso
à Áustria, após a guerra, com o Tractatus já redigido e prestes a ser
publicado, que Wicrgcnstein iria entender f reud em sua própria
escrita. ·
Em seguida, assinalam-se: indícios da presença freudiana nos
momentos da "segunda filosofia" de Wingenstein30• Ela exprime-
se: mais fácil e mais diretamente no modo de alusão significativa nos
anos 30, como o ateslaill especialmente os Cahiersi' e as "Witt-
gc:nstcin's Lectures" de Moore32 , e recebe um esclarecimento no-
vo da passagem do logicismo do Tractatus para a concepção da ''_gra-
má rica filosófica" H e, depois, para as Investigações filos6ficas. Fi-
nalmente, ela culmina nas Palestras e conversações de 1938-1945_.
Até mesmo nos últimos indícios, os Verbetes (1945-1948), o trata-
do Da certeza (1950-1951), as Observações sobre tiS cores (1950) e
as Observações variadas (Vermischte Bemerkungen), a arqueologia
da psicanálise na escrita de Wittgenstein pode encontrar aí os pon-
tos de referência de um debate persistente. Em suma, um interesse
de:- mais de trinta anos, pontuado por uma significativa escansão:
uma dc:scobena entusiástica, uma contestação motivada e uma des-
pedida eloqüente.
Temos ai, tanto quanto um problema teórico, o traçado de uma
verdadeira relação passional. Cumpre, com efeito, avaliar bem o que
Wittgenstein diz acerca da atração que Freud exerce sobre ele, não
somente como uma confissão pessoal, relativa à sua própria doxa,
mas como a comunicação de um diagnóstico sobre o gênero de efeito
produzido por um "saber'' como o saber analítico ou, melhor di-
zendo, freudiano - de tal maneira a psicanálise se d istingue co-
mo "um saber-com-efeitos".
Ser "discípulo" ou, melhor, "seguidor" de Freud, experimen-
tar até "uma subserviência para com ele" ~, não é simplesmente
adc::rir ao conteúdo das teorias freudianas, é estar nessa relação de
"encadeamento" (o vínculo que implica, ao mesmo tempo, paixão
e coerção) característica, precisamente, por antecipar-se ao diagnós-
tico ulterior, da situação "estética". Freud foi e continua sendo aos
olhos de Wittgenstein um autor "cativante" (fesseldnerj3~, insubs-
tituível à maneira como pode sê-lo um grande metfeur-en-scbze
de diálogo estético. Devemos supor, ponanto, em conformidade com
a nossa definição, gue ele manipula essas begnffliche Fragen {ques-
11
tões abstratas] com uma mestria que impõe respeito. Acontece, po-
rém, que seria funesto, porque ilusório, supor que a mudança no
plano da Anschauung [visão pessoal, intuição pessoal Jé da ordem
da Wissenschaft [ciência]. É essa anfibologia que Wittgenstein quer
com bater pelos elementos fornecidos numa espécie de crítica da ra-
zão psicanalitica.
É curioso observar que a data indicada por Wittgenstein co-
mo sendo a de sua leitura de Freud é aquela em que ele ingressa
nos cursos de formação de professor do ensino primário em Viena.
s~ existe aí mais do que coincidência, é caso para se indagar
se não é no momento em que ele abandona em definitivo o seu in-
teresse pela "técnica científica" e se àbre para as "relações huma-
nas" que o texto psicanalítico asswne para Wittgensrein, de um mo-
do bastante repentino, consistência. Não teria ele o pressentimen-
to de que esse saber do inconsciente podia equipar sua prática nas-
cente? Ou de que esse momento de verdade do "encontro com o
Outro" -lance de sua "missão pedagógica" nascente - impunha-
lhe levar em linha de conta o texto freudiano, subitamente anima- ·
do de lances atuais? Ou pode-se, em todo o caso, pensar que o in- ·
teresse pela psicanálise toma a vez do interesse anterior pela psico-
logia experimental, na própria medida em que a prática social do
Outro substitui o que podia recomendar-se corno ideal técnico-
científico da primeira fase.
Nada disso impede que Wittgenstein retraduza os lances da
psicanálise para o plano da teoria da lógica da linguagem onde se
desenvolverá o confronto de racionalidades. Uma interpretação
"existencial" do encontro de Wittgenstein com a psicanálise não
deve dissimular que esta última traduz-se.ptofundarnente como
uma mutação da rdação com a sua própria teoria.
Não basta, portanto, constatar que Wingenstein fala espora-
dicamente de Freud, como em seus momentos ociosos. Freud faz
Wittgenstein falar em momentos precisos. De súbito, o seu silên-
cio onde se esperaria vê-lo citado- Freud não é mencionado uma
única vez nas Observl1fões sobre a filosofo da psicologta' 6.! - ao
passo que ele surge onde menos se esperava a prion"- merece uma
interpretação.

12
Wittgenstein e a psicologia
Cumpre sublinhar, aliás, que a descoberta de Freud por Witt- ..
genstejn teve lugar contra o fundo de seu ceticismo geral - e de
certa forma genérico - em relação à "psicologia". Nesse terreno,
ele é formal: iulgava a psicologia "uma perda de tempo". Por isso
resistiu à leitura de Freud- pelo menos até 1919- já que acredi-
rava estar Freud "fazendo psicologia". No efeito de surpresa causa-
do pela leitura de Freud entra uma parcela de espanto sobre a na-
tureza do discurso freudiano, tanto quanto sobre o seu conteúdo.
"Ali estava alguém que tinha alguma coisa a dizer" - no momen-
ro em que os "psicólogos'' já não lhe "dizem" grande coisa...
Eis, com efeito, um "dizer" que põe fim ao vazio das lenga·
lengas psicológicas. Freud é recebido por Wittgenstein como alguém ,
que fala num outro palco- imagem com que Freud, à sua manei-
ra, teria concordado. Daí a etiqueta preciosa que Wittgenstein lhe
atribui: "um dos poucos autores dignos de serem lidos". A fórmu-
la deve. com efeito, ser tomada stncto semu- tanto isso é verdade
· que. aos olhos de Wittgensteín, a massa de discursos repane-se em
duas ·categorias: aqueles que só falam no seu próprio texto e não
despertam nenhum interesse vital,~ aqueles cuja escrita tem lugar
na sua. São estes últimos discursos os que "têm alguma coisa a di-
zer''. Freud ocupa seu lugar, portanto, na linhagem dos (raros) elei-
tos, ao lado de Spinoza, Tolstoi ou Schopenhauec.
Mas eis que elucida também a ambivalência com a qual de
recebe esse efeito de "surpresa". Terá ele, então, alguma coisa a di-
zer, emhoraseja "um psicólogo" - algo muito pai:ticular, é verda-
de, mas parte diretamente envolvida e absorvente da "corja" dos
psicólogos--, ou então haverá aí o sinal e a promessa de um outro
discurso muito diferente_? O interesse da posição de Wittgenstein
é que ele não resolve essa questão, mesmo que se explique inces-
sante e implicitamente-com ela. É por isso que ele aceita pela me-
tade esse "discurso" em sua originalidade epistêmica e, de certo mo-
do, em todo o seu brilho.
Reencontramos aí o problema genérico das relações de Witr-
gensteín c~m a "psicologia".
Norman Makolm sublinha que Wittgenstein, durante seus
anos de formação, "interessava-se pela psicologia experimenta1" 37 •
13
Trata-se, neste caso, de psicologia de ''laboratório". Assim, de men-
ciona "experiências sobre os ritmos musicais". Dír-se-ia que Win-
genstein buscava na experimentação psicológica um meio de esda-
recer "cenos problemas de estética que lhe rinham particularmente
interessado' '.
Mas ele teria confidenciado a Rush Rees que, "quando estava
em Cambridge, ames de 1914, julgara a psicologia uma perda de
tem pó". Parece, portanto, que a negação do interesse pela psicolo-
gia coincide com o fim do período de formação- nos anos que pre-
cederam a guerra. fui logo após a guerra que ele descobriu Freud
num outro cenário que não o da psicologia!
De fato, a preocupação com os problemas suscirados pela psi-
cologia manter-se-á em Wirtgenstein: ele até se acentuará com a
ressaca da primeira ambição logicista do Tractatus. Não é um acaso
se, nos anos 30 - na época dos Cahier.r e até as Observaçóes sobre
as cores dos anos 50, essa preocupação mostra-se insistente. Mas,
ao mesmo tempo, trata-se de demonstrar a necessidade de conver-
ter esses (pseudo) problemas psicológicos no registro lógico da no-
va teoria da linguagem. Não é fortuito, portanto, que a psicanálise
se encontre, a cada instante, no caminho dessa problemática psi-
cológica: é o contexto dessa renegociação periódica de Wittgen-
stein com a psicanálise. Se o nome de Freud é omíúdo quando Witt-
genstein fala explicitamente de psicologia, é porque se produziu
uma disj unção: seja que Freud faz Wingcnsrein falar em alguma
outra pane que não a cena da psicologia, seja que Freud não tem
~m lugar apropriado na psicologia... no sentido de Wittgenstein.

o paradt'gma vzenense:
a crítica da razão psicanalítica

. Se existe uma questão de fundo a respeito da racionaUdade,


esta adquire forma em relação com as afinidades intelectuais de seu
meio ~omum , pelo que o debate ganha sua acuidade própria.
E possível localizá-lo num ceno detalhe: como se sabe, foi nos
Annalen der Naturphilosopme, de Ostwald, que o Tractatus foi pu-
blicado em 1921, em lingua alemã38 • Ora. uma dezena de anos an-
tes, Freud tinha sido convidado pelo ilustre diretor dessa revista,
14
fundador do energetismo, a escrever para osAnnalen. Se bem que
0 projeto, o qual suscitou a ambivalência de freud , não tenha da-
do em nada .l<J , pode-se pensar que Freud foi leitor da revista, a qual
desempenhou um papd decisivo na vida inrelectual vienense, ale-
mã c até européia. É muito possível, portamo, que ele tenha tomado
co nhecimento do rrabalho do seu jovem compatriota - embora
nada tenha filtrado a tal respeito.
Esses dois franco-atiradores do mundo cienúfico alemão eram,
pois. objetivamente vizinhos nas redes onde se propagavam os mais
importantes evenros.
Entretanto, que o texto capital de Wirtgenstein não lhe atraiu
a arenção pode ser inferido da sua concepção de racionalidade: Freud
manteve-se, em certo sencído, fiel à sua formação nas águas da Na-
tllrwissemchaft por excelência, a física, e o logicismo de que se cer-
cava o Tractatus parece ser uma daquelas coisas de que ele se des-
viava com a soberana indiferença de que se credenciava a busca mes-
ma do seu entendimento, atemo somente àquilo que pudesse orien-
rar sua própria pesquisa.
Mas, p-ara al~m dessa perrença vienensc com um - pro blemá-
tira ramo para um quanto para o outro - o diálogo entre Freud
e W ittgenstein, instaurado por este último, deve situar-se nos lan-
(' CS que são propiciados pelo próprio clima intelectual vienense. Este,

como se sabe, é cada vez melhor conhecido. Um erro metodológi-


co seria, contudo, limitar a confrontação de Freud e Wirrgensteín
a um certo clima cultural. Tal interpretação culturalista, além de
que oão poderia.a plicaresse fato maciço que é o exílio - externo
?u interno- que os nossos dois vienenses bem peculiares se
1mpuseram40 , poderia reduzir. ainda por cima, o ' 'valor de verda-
de" próprio dessas iniciativas. Ora, é nesse terreno que Freud e Witt-
genstcin se encontram e, em última instância, dialogam.
Onde o "clima" intervém, de maneira importante e talvez de-
terminante, é para esclarecer o próprio estilo em que Wittgenstein
formula suas çríticas a respeito de Freud. O discurso de Wíttgen- ·
Stein sobre Freud exige, ponanto, ser situado, para que seja correta-
me me apreciado, em relação a uma espécie de paradigma preciso
que é a critica vienense da psicanálise..Freud estava objetivamente
<:orreto ao considerar a cidade natal da psicanálise aquela de onde
partira a mais acerba incompreensão; melhor ainda: ~sa inc~m-
IS
preensão estava aí munida de um aparelho de refutação sobrema-.
neira precoce e talvez de uma violência inigualada na panóplia da
''mísanálise' '.
Pogemos situar esse paradigma crítico nos anos de 1910 a
1938 4 1 • E ainda mais curioso assinalar que, quando Wittgenstein
reatou críticas que procedem, ainda que em parte, desse paradig-
ma em suas Palestras e conversações dos anos 40- quando já se
encontra há muito imerso no mundo anglo-saxão- ele ainda se
sima em relação a esse r:tmndo cultural42 •
Contentemo-nos em apontar o efeito da crítica da psicanáli-
se de tradição vienense: o questionamento da psicanálise como lín-
gua e como Jaber.
Apoiando-se a cultura intelectual víenense numa teoria da lin-
guagem, como o indica a problemática de Karl Kraus·He a de Fritz
Mauthner44, todo evento ou reivindicação intelectual é forçosa-
mente encaminhado para uma avaliação em termos de Sprachleh-
re. É como tal que a psicanálise estava, pois, destinada a ser "ava-
liada" na cena víenense. É esse gesto que Wittgenstein reproduzi-
rá, à sua maneira, em face do saber freudiano: desse pomo de vis-
ta, nada tem de furtuito que Freud seja um assumo das Pa/e;tras
e conversações de Wittgenstein. Mais do que isso, objeto de "con-
ve.rsas": teste de uma linguagem para a qual a própria psicanálise
convoca.

Por outro lado, a psicanálise é abordada por um prisma epis-


têmico particular: oda validade de um saber, mas também o que
pode fundamentar uma aprovação. Não é apenas da validade de ~as
hipóteses que se tratará - ponto de vista que o jovem Popper evo-
ca tão bem quanto Wittgenstein (infra, L III, cap. 3)- mas do
status da adesão que é possível dar-lhe, como "sujeito racional" de
uma crença e de uma aprovação.
Na encruzilhada desses dois pomos de vista- "linguagista
e epistêmico" - um tema sobe ao primeiro plano, o qual liga, de
certa maneira, a crítica de Wittgenstein à de um Popper ou de um
Kraus,.ou seja, a possibilidade de entrar em contradição com o sa-
ber analítico. Essa questão tem urn status mais "dialético" do que
''lógico-analítico'' (no sentido aristotélico), porquanto eroca a ques-_
cão do falar-contra e- corrdativamente - a·do "pensar-.ront~a".
16
Esse ponto é fundamental para se compreender, pelo menos,
a partir de onde vai Wittgenstein retomar o problema. Seus argu-
mentos antipsicanalíticos n.ão constituem uma banal tática de fus-
tigação ou de humor acerca do caráter "não convincente'' da psica-
nálise. Eles partem de um questionamento, até de uma inquieta-
ção radical sobre o que advém do sujeito da contradição racional
110 regime de saber e de linguagem que o modo de pensar (e de fa-
lar) freudiano promove.
Um aforismo krausiano talvez seja o que melhor reconstitui
a atmosfera reinante, com a violência polêmica que revela tanto o
que está em jogo quanto o "oúeto": "A ciência de outrora negava
a sexualidade dos adultos. A nova (a psicanálise) pretende que o
bebê já experimenta volúpia durante a defecação. A amiga visão
era melhor: os interessados podiam, pelo menos, contradizê-Ia: ' 4 ~
Assim, "melhor" designa, não o valor de verdade eventual, mas a
sorre reservada ao sujeito-receptor da "verdade" que lhe é propos-
ta. Essa impossibilidade de facto de "contradizer" é o que alerta
Kraus desde 1908, tal como mobilizará Popper em 1919; OCél, é com
uma problemática desse gênero que se explica ainda o Wittgen-
stein dos anos 40. É ~rdade que ele inserirá essa crítica numa teoria
do conhecimento e da linguagem que confere a ess~ ·inquietação
um alcance muito diverso do afeto krausiano ou mesmo da discus-
são popperiana. Para um e outro, especialmente, a objeção é, de
cena maneira, redibitória: a psicanálise é desqualificada por essa
"observação", tanto em Kraus como em Popper (embora com ou-
tros aspectos muito distintos). Em Wittgenstein, ela marca o pon-
to de partida de um debate como "teste" de algo essencial para a
racionalidade e a linguagem.
É ainda como êmulo de Kraus que Wittgenstein se enfurece
em 1946: · ~pseudo-explicações fantásticas de Freud (justamen-
te porque estão cheias de espírito) prestaram ll:ffi mau servico. (Qual-
quer asno dispõe agora dessas imagens freudianas para 'explicar'
si ntomas patológicos com a ajuda deles.)" 46
Assinale-se que Wittgenstein, como sempre, distingue o en-
tendimento propriamente freudiano do geralmente admitido em
que ele acredita. Que o gênio freudiano tenha podido legitimar "to-
lires" não serve, zPso ft1Cto, para inculpá-lo de obscurantismo. Nem
fica menos apropriado interrogar-se sobre o que, na "explicação"
17
fre udiana, pode nutrir a ilusão sobre explicações fáceis. O q.u idam
- a expressão retoma todo o seu significado em Wittgenstein -
que pretende ter resposta para tudo, faz uso ilegítimo das "ima-
gens freud ianas", quando se trata apenas de um pretexto para dei-
xar de pensar: as "imagens" em questão têm a vircude equivoca de
explicar-se a si mesmas, até de pensar sozinhas. Mas é lícito, aos olhos
· tanto de Wittgensrcin como de Kraus, suspeitar de que o que, nesses
epígonos, autoriza essa pretensão ingênua e desmedida, é a presun-
ção- nada ingênua mas talvez desmedida - do fund ador da psi-
canálise de criar uma t~ria estruturada de tal maneira que deva ''ter
resposta para tu do". E nesse ponto que a polêmica se transforma
em problema episrêmico. ·

Entre inconsciente e linguagem: o lance ético

Mas isso não é tudo: essa abordagem crítica da psicanálise tem


um la~ce ético. E é igualmente do seu meio ambiente que Witt-
genstem recebe, de alguma forma, a notificação desse lance.
I~ exprime-se pelo çomentário capital de Wirtgenstein: "Sa-
bedona é algo que eu jamais esperaria de Freud. Sagacidade, sim.
certamente. mas não sabedoria." 47 Se esta frase merece uma imer-
pr~tação es~encial sobre o fundamento do conjunto da posição de
Wmgenstem acerca da psicanálise48 , cumpre assinalar desde já que
é ~a posição inspirada na d;tquele que desempenhou o papel de
"d1retor de consciên cia" de Wittgenstein, ludwig Hansel49. Foi ele
quem refutou Freudcom o argumento de que ele " nada entendia
~e morai nem de religião". É verdade que, da exclusão da ps~caná­
hse e~ nome de uma ética católica puritana até a " rejeição" da psi-
canáltse em nome de uma ética da linguagem, há todo um mun-
-do. ~u?siste ~~rém o fato de q~e é nesse .terreno que desemboca..
em uloma anáhse. o processo eplStemológKo que Wittgenstein ins-
taura contra a psicanálise: como se a ilusão lógica fosse sustentada
do pri_ncípio ao fim, por um pecado "axiolõgico", a linguagem·.'
E aí que Freud e Wittgenstein travam o diálogo mais intenso.
Enquanto Freud estava separado p0r um verdadeiro muro episte-
mológico do logicismo wingensteiniano, ainda que atenuado pc-
la problemática lúdica da linguagem comum; e·nquanto Wittgens-
IH
rein, por seu lado, era levado pela an~ da suspeita para a racionali-
dade psicanaJítica, de certo modo consubstanciai com a "razão vie-
nensc'', é efetivamente no terreno étic9 que eles tinham mais a di:
zer um ao outro. Paradoxo reforçado pda afirmação dos dois ime-
r(·.o:sados do caráter não problemático da ética ou ainda do caráter
supérfluo e redundante de um díscurso de (sobre) ética. A ética é
rurnada no registro do que é auto-evidente (Se/bsverstiind/iches)
ti11jfa, I. IV, cap. 2). Mas talvez seja exaramente por isso que ela for-
mula a questão do próprio ser do discurso como limite.
Portanto~ quando Wiugenstein designa a ética como a arma
que fere o próprio âmago da psicanálise, levanta uma questão de-
cisiva. Se se considera, por outro lado, que Frcud e Wittgenstein
não rêm um discurso nem uma atitude de aparênáa muito d ife-
rtnre no roca me à ética~o , pode-se suspeitar de que é nesse cerre-
no gue eles têm dç se definir. ·
Mas, prccisameme, a ética não é um cema suplementar do con-
fronto: ela é o próprio lugar onde a conjunção que analisamos re-
vtla sua natureza decisiva. É por isso que teremos de lhe fazer jus,
ao final de uma reconstrução rigorosa dos lances temáticos do con-
fronto, não apenas como tema final mas também como o momen-
co de verdade da contradição com a qual não deixa de explicar-se.
Essa questão, quc _articula ética e linguagem •.poderia muito
bem não ser outra coisa do que a questão da escrita. Não é por aca-
so, provavelmente, se são estes os termos em que Wit tgenstei~ se
despede de Freud: "Freud escreve excelememencc::, é um prazer lê-
lo; mas jamais ele é grande em sua maneira de escrever.")t O que
se exprimia pela oposição de sabedoria e sagacidade - no plano
ético-· no julgamento das Palestras e conversações, reativa-se nas
Remarques mêlées pdaoposiçã.oda "grandeza" ao " prazer" - no
plano da " maneira de escrever". Poderia muito bem ser que Witt-
g:nstein significasse a mesma coisa nos dois julgamentos. Mas pre-
Cisamente para fazer jus a esse veredictO mordaz - o que é "escre-
ver grande'' ?- é roda uma reconstrução que se requer - aquela
q uc:: vai nos permitir experimentar o destino ético da quesrão da lin-
~ u agern e as rnões pelas quais o saber do inconsciente aí está
Implicado.

19
Traçado do percurso
Essa postura de Wittgenstein em relação a Freud impõe-nos.
portanto, um pomo de partida- o que mosrraser, ao mesmo tem-
po, uma limitação e um recurso. Limitação, porque não existe ou-
tro meio de abordar a conjunção "FreuJ e Wittgenstein" senão atra-
vés da incidência maior "~ingenstein e a psicanálise". Devemos
deixar-nos. poct.anto, impor esse constrangimento, o qual, em cer-
ta medida, serviu no passado para protelar o confromo dos dois
pensamemos-mesues. Recurso, também, pois que isso desenha uma
via de acesso à conjunção. posta em perspectiva, o que nos dispen-
sará de especular desde o exterior sobre um "condicional'' teórico.
Mas o que Wiugenstein diz d~ psicanálise apenas nos forne-
ce, nem mais nem menos, ~m esquema que a confronraçãq siste-
mática deverá especificar: nesse nível, cumpre-nos construir, para
além do discurso do próprio Wittgenstein, a substância de um diá-
logo parao qual é requerida a "resposta" de Freud, extraída de se~
texto.
A primeira balizagem precedente revelou a riqueza da pro-
blemática: da limita com a_c iência- e com o saber psicológico (que
deve ser concebido como algo diferente do saber da psicologi~. con~
quanto se lhe refira) em uma de suas bordas e está em contato com
a ética - que também deve ser definida, por isso mesmo - na ou-
era borc;ia. Além disso, o que permite esse "uajeto" não é outra coisa
senão a q:!Jestão.primeira da linguagem e do inconsciente, e do Ja--
ber "Iuigenens" que se lhe refere. É aí que se desenha o Jance filo-
sófico excelente que dá .sua dimensão ao confronto Frc:ud/
Wíttgensrein.
· Para atingir o objetivo de elucidação da textura sistemárica do
diálogo, é preciso fazer jus, portanto, ao enfoque temático - iden-
tificável na crítica de Wittgenstein- sem deixar de introduzir aí
a hierarquização neceSsária para passar da controvérsia para a pro-.
blemática que lhe é subjacente. Desenrolaremos, pois, a trama da
controvérsia, expondo a crítica de Wittgenstein pomo por ponto,
a fim de informar a "réplica" de Freud. Veremos que essa cri'tica
tem, pelo menos, a virrude de designar os pontos particularmente
sensíveis da economia teórica freudiana. A temporalidade da críti-
ca é, portanto, deveras determinante. É ela que organiza o nosso
desenvolvimento.
20
Ela ganha seu tmpulso a partir do pomo que nos é designado
posítiv·.tmeme, de alguma forma, pela identificação histórica do gê-
nero a partir do qual a crícica de Wittgcnsrein se desenvolve (se bem
que: ela o radicali?.a de maneira singu lar): a problemática do assen-
timento e de suas razões (I. II).
Ela culmina por isso mesmo - segundo uma lógica que tere-
mos de reconstituir- numa crítica da hermenêutica freudiana, da
qual a int erpretação de sonhos é a peça-mestra (1. li ).
Mas essa crítica, na medida em que a restringimos ao proble-
ma do assentimento, requer, num último tempo, o tratamento da
questão da racíonalidade psicanalítica - que controla a discussão
da exj;/icação metapsicológica e o questionamento literal em rela-
ção àsua alrcridade mitológica (I. III) - o que constitui, simulta-
ne am ence, a· passagem para o segundo tempo do confronto: a
sistemática.
Iremos, portanto, das razões para as significações, c destas para
a.~ causas - num trajeto que nos permiti rá ver desenrolar-se a crí-
tica wirtgensteiniana. sem deixar de se expor o seu valor crítico pa-
ra a racionalidade psicana.lítica (e não como uma doxa brilhante e
exterior).
Esse trajeto nos permitirá, num segundo tempo, instruir o con-
teúdo destacado pelo debate. Esse segundo tempo da respiração teó-
rica é tanto mais importante porquanto, segundo a nossa constata-
ção precedente, o confronto efetivo foi, com freqüência, evitado ou
adiado pelo que deveria ser t.ão-someine o seu preliminar. Em ou-
tras palavras, o tema 'Wittgenstein e a psicanálise" evitou a ques-
rão " Freud ~ Wittgenstein": mais ex.arameme, o caráter ad homi-
nem dos argumentos wirtgensteinianos (adFreud!) serviu para des-
co nhecer o choque de: racionalidades (l. IV).
Ao introduzir a resposta freudiana no próprio cerne da expo-
sição da crítica wirtgcnsteiniana (na nossa primeira parte) e unin-
do os efeitos do debate ao plano da divergência (de certo modo) ob-
it'riva dos pressupostos e do método (na nossa segunda parte), pro-
n Jramos fazer jus à substância de uma confrontàção, da qual expe-
rimentamos, ao efetuá-la, o caráter de caminho real para instruir
a problemática da racionalidade da linguagem c do sujeito- com
risra. através da questão da ética, para os destinos da ilusão c da pró-
pria Kultur.
21
NOTAS

I. Freud et Nietzsche, PUF, 1980: 1982, pp. 5-6.


2. Ver o nosso L'entendemem.frcudien. Logos et Ananke. Gallim:ud, 1984 .
3. Ver a nossalnJroduction à/'épi..rté?nologie.freuáienne. Pa)'Ot, 1981, cap. H., pp.'
51-65. Sabe-se que, para Frcud, a síntese é axiomática (cf. lntroduction à l'éprs-
Jémo/ogie freudienne. p. 51 ss. , e L'entendement freudien, pp. 25-27).
4. Tractatus logico-philosophicu!, ~Ji imard, "ldée5", 3.25, p. 60.
5. Remarques mê/ées, md. franr. ler, 1984, p. 48 (datada de 1938-39).
6. Cana aJung de 1911 (em reação ao-biologismo de Sabina Spielrein).
7. Op. cit., p. 28. Sobre essa idéia essencial, remetefll{)s o lc:itor para a nossa con-
dus~o, rnjr11, p. 241. Não é oeccssiria, de maneira nenhuma, a presente in-
vcsuSll-ç.ào para torná-la audível.
8. Wiuge_nstein nasceu em 26 de abril de 1889, de um:~. família emigrada doSa-
xc, na Austria; Freud em Freíbcrg, a 6 de maio de 1856. donde sai para Viena
em 1859, passando por l.cipzig.
9. Sabe-se a extraordinária ambivalência que Freud manifesta em relação à cida-
de que ele considera hostil ao advento da psicanálise:ao ponto de fingir que
nio mais se lembrava dele quando Freud a deixou. Sobre esse ponto, remete-
mos o leitor para o nosso estudo "Freud et Ie lien viennois", Ausln'aca, n? 21,
198), Cahie.rsd'infocmarion sur I'Auaíche. Unive.rsité de Haure-Normand.ie
pp. 11-19. . •
10. Freud &leceu em Londres em 23 de setembro de 1939. onde escava exilado desde
1938. Wiugenscein morreu em Cambridge no dia 27 de abril de 1951.
11 . A panir de 1908, orientar-se-á para a lngla.terra, que o atraiu aré as vésperas
da guerra. e que o ocupou definitivamente (c de maneira quase exclusiva) a
panir de 1929. Sabe-se que problema filosófico essa dupla pertença postula
quanto à própria interpretação do projeto de Witrgeostein.
12. Para~crmos precisos: Wingenstein viveu no meio familiar vienense até 1903.
ou SCJa, até os seus quatorze 11105. Fe:l os estudos secundários em l..inz. na Áustria
Alta, que concluiu em 1906. Foi então que se matriculou na Technísche Hoch-
schul~ (Instituto Superior Técnico) de Berlim-Charlottenburg.
13. Na pnmavera de 1908. Wittgenstein panju para a Inglaterra: indo residir no
Dc rb~hir7 No outono de 1908. matriculou-se na seção de med.nica prática
da Umverstdade de Maochester. Em 1911, tendo abandonado seus estudos téc-
nicos, mudou-se para Cambridge a fim de seguir os cursos de Benra.nd Rus-
sell, por recomendação de Frege. Ficou no Trinicy C<>Uege até o final de 1913.
Após o intervalo pedagógico austríaco, regressou em 1929 a Cambcidge, on-
de morrerá.
14. É noiníciodooutonode 1913 que Wiugensteinparte para a Noruega, de on·
de sairá para ínstaJar-se numa granja em Skjolden, no Sogn, onde construirá
sua própria casinha.
I~- Wingenstcin serviu a bordo de uma belonave no Víscula, depois num depó-
sito de anilha ria em Cracõvía: depois em Olmüt:z na Morávia participou dos
com bates nas fremes leste c: sul. Capturado pelas tropas iulianas, peno de Mon-
22
Cassino, t:arregava na mochila o manuscrito de sua obra, que só seria publi-
~:da em 1921 e 1922 (em alemão e depois em inglês}.
t6 Ver infra, PP· 10-ll. ; . .
· É rn agosto de 1909 que d e retoma à AusUia, mas fot em :tgosto de 1918, em
17 e . . _.] d '1"- .
· Vic:na, durante um2 licença, que tercmnou a rcuaçW o _.uaclalu~. .
Wiugenstcin lecionou de 1920 a 1926 em algumas aJdetas dos dlStntos de
8
L · Schncebc:rg e Semrnering, na ~~uia. Baixa, TrattCf:1bach, ~tte_nhal ~ Puch-
berg. Ver, sobre esse período, W1lham Bartley UJ, Wzttgenstetn, une tJte, 1973,
uad. franc. . Ed. C<Jmplex.e. 1978. .
. 0 conV(:nto de Hütteldorf fiuva perco de Vtçna: tratava-se do convento de
19
Klostt:rncuburg. . . .
20
É verdade que Freud, nessa época, passava por dtficuldades particulares de vt-
. da c de saúde (cf. E.Jones, Lavieet l'o!uvre de Sigmund Freud, PUF, voi.III,
p. 136 ss.). · . . ..
21. Norman Malcolm compara "a harmomosa beleza de proporções e de ~mbas
dessa casa com "a estética apurada do Tractatul' (op. cri., p. 321). Wmgens-
tein merecera o interesse do arquireto loos e figura no Wiener Adres:bJJ.ch,
entrt 1933 e 1938, como: " Dr. Ludwig Wittgenscein, profissão: arqutteto".
22. Nomeado FeUow no 'llinicy College em 1930, viajou à URSS em 1935. ~z uma
estada em Skjolden em 1936·1937.
23. 1endo-se aposentado em 194 7, W ittgcnscein divide seu tempo entre a Irlan-
da (1948), os Estados Unidos (1_949). Cambridg~ e Oxford, a Noruega (1?50)
e Oxford de novo. Fez uma úluma estada em Vtena em 1940. t conheCida a
aversão de Freud a viagens. . .
24. Essas Conversations sur Freudforam publicadas em 1966 em Cyril Barrett_(org.}.
Conversations on Aesthetics, Psychology antiReligi01u Belief e ~uz1das na
colecânea.Leçons etC01J11erJaiÍOns, Gallimard, 1911: [A ed~ão b~asileir~ ~e 1970,
public,ada pela Ed.itora Cultrix.. incitula-se EJtétzca, pszcologtJJ e relzgr~o. (N.
do T.)} . . .
25. Ver, na França, os trabalhos deJacqucs Bouveresse, em espeoal Wz!tg~mteen:
la n"me et laraison. Science; éthiqueel esthéhqui.Les~ditions_de Ml;l,lm~. 1973,
cap. V, pp. 205-2ll. e cap.lV, pp. 190·1~. ~er tam~m F. Ct~ • . Wmge~­
stcin's Freud", em P. Wíoch (otg.), Studtes m lhe Philosophy ofWzttgenstezn,
pp. 184-2LO, e C. Hanly, "Wittgcnstein on Psychoanalysis", em A. Ambrose
c M. Lazcrowitz (orgs. ), Ludwig WitJgemlein. Phílosophy andúzngutJge, pp.
73-94. Cioffi refuta a psicanilise não-científica, ao passo que Hanly a defen-
de e diagnostica as resistências em Wittgenscein . .
26. Freud, laphilosophieetlesphi/osophe.t, PUF, 1976;FreudetNzetzsch~, 1980;
lntroduclion iil'éplstémologie.freudienne, 1981; L'entendement.freuáren:l..o-
goJ et Ananke, 1984. .. . . .
2 7. Prometemos em 1981 voltar a abordar essa questão no estudo W ntgenstctn
séduit par Freud, Freud saisi par Wittgenstein", publ_icado em Le TemfJJ de
la Réjlexion, n? 2. Gallimard. O prcsenre estudo reahza a promessa fena ~a
conclusão desse anigo (p. 383) de desenvolver ~-a confrontação de ma.netra
sistemática.
28. Leçom et wnversatiom, p. 88. ("Palestras e Úlnversações", p. 74 da edição bra-
~i lei ra , op. cit. Ver nota 24 supra. (~ -. do T.}} . _
29. Op. cit., ibid. [p. 73 da edição brastlctra, op. ctt. }. Pel~ menos essa expressa.o
vale para o Wittgenstein da época do TratlaluJ, ver mfra.
23
30. kmbremos que as~ im se designa esst' importanct· ponco dl' mur açào, visível
em fins dos anos 20- após o intervalo da Áustri-. Baixa t' u regresso a Caro-
bridge- em qut: W ittgt'nstein recusa os princípios do Tractatus. Rtmrdemos
que as Investigações filosófi~·as, redigidas enrre meados da década de 30 e o
final·dos anos 40, só foram publicadas em 1953(0xford . Anscombe& Rhccs.
trad. franc., Rechercher philosophiqucs. por P. Klossowski em 1961).
31. The BlueandBrownBook.r(l933-19.35), Oxford, 1960, tcad. franc., Le Cahier
bleu e1/e Cahier bnm, por G. Durand em 1965.
32. "Wittgenstein's Lecrures, 1930·1933 ",em G. B. Moore, PhiiOJophü·a/ Popm.
I.ondres, pp. 252-324.
33. Leçons et converJations, p. 88.
34. Jbid.
3'> . Op. cit., p. 87.
36. Remarh on thc PhilosophyofPsychology, ed. coordenada porG. E. M. Ans-
combeeG. H . von Wright, Oxfurd, Basil Blackwell, 1980 (os manuscritos da-
tam de 1946-1949).
.3 7. Lydwig Willgenslein, reproduzido em posfácio na ed iç~o francesa do Cahier
bleu et /e Ca6ier brun, pp. 316· 317.
38. Editado em Leipzig. A obra fo i traduzida pan o inglês no aoo seguinte.
39. Sobre o episódio das relações de 1-'ccud com os Annalen, ocurrido dez anos antes,
remetemos o leitor para a nossa análise na Introduction à l'épi!témologie freu ·
dienne, p. 166 ss. Freud não leria mais os Annalen depoi~ disso. o que: lhe te-
ria feito perder o Tractatus, cujo autor era irmão de uma conhecida dele, in-
clusive sua analisanda ?
40. Se Wirrgensteio passa uma boa pane de sua vida em Viena. Freud, como se
sabe, só permanece ali num sentimento permanente de exílio interior. Um
e outro, contudo.,conservam-se ligados a Viena por um vínculo estreito e um
tanto perverso. E em Freud, porém, que o discurso sobre Viena é mais
arnbivaleore.
41. Algumas referências cronológicas são úteis, neste pomo, para fixar as idéias.
roi Karl Kraus (1874-1936) quem. por volta de 1908.lançou os primeiros e vi-
rulentos ataques contra a psicanálise, antes de elevaramisanálise a um verda-
deiro gênero em sua revista Die Fackel. Na outra ponta do "paradigma" t'ncon.
tram-se os átaques de Egon Friedell (1878·1938}em sua História cultural dos
tempoJ m otlemoJ (1932). Um jovem vicnense chamado ~ri Popper mantém
certa distância de Freud e da psicanálise nos anos que se seguem à Primeira
Guerra Mundw. Em suma, Wittgenstein é contemporâneo de um movimenco
insistente de crítica da psicao~lise , de que Viena era o foco.
42. Não é um dos menores pontos de interesse dessa relação de Wiugenstcín com
a psicanálise mostrar a persistência da pertença vicnense de W ictgcnstein -
elemento não desprezível para a compreensão de sua famos:~. "dupla perten-
ça". Também é yerdade que o discurso wittgensteiniano sobre Freud nos anos_
40 deve ser situado em rdação ao estado das discuss<ks na Inglaterra nessa época.
43. Cf. Thomas Szasz , Kar/Kraus etles doctezm de i'âme, trad. franc., Hachcrce,
1985.
41. Autor de Búlriige zur Sprachkritik. (19()3-1910).
45. Sobre a comparação das críticas da psicanálise, ~r infra, pp. 168-172.
46. Remarques mêlées, p. 67.
47. Convenations sur Freud. op. cit., p. 89 [p. 74 da edição brasileira, ver nota
24
N .r11jmr. (N. do T)J.
48. Ver infra, pp. 211-2l2. . . • .
William Bartlcy 111 chamou a au:nção para a 1mpona~o~ desse personage~.
. .j<).
rorn quem Wittgenstein se rdat:1onou durante s~u catJveuo em Monte Cass!·
no. Esse católico puritano, mestre-escola e depots professor num estabeleCI-
de
rnenro secundário Viena, desempenhou juntO a Wittgenstein "um papel
próximo do de um d iret~r de: co~ciêncía e de confessor" (WiltgenJiein, 1 9~ 3,
uad . franc. Witlgenstem, une 1ite, Ed. Complexe, pp. 30-.31). Em seu opus·
cu lo Die jugendund die leiblich~ Liebe SeXtla/piitkgogische Betr11chtungen
( l nnsbrück-Vi~na-Munique. Tirolia Verlag, 1938), Ludwig Hiinsel declarn que
Freud " lamemavelmeme não entendia nada de moral nem de religião''. Al-
guns anos de~is , essa c_oloração ~uritana passou para o .discurso de Wittgens-
tein. Talvez seJa a relaçao com a etJca, em sua complcxtdade, o que pode~­
plicar esse fato curioso (ver infra). Recordemos que Wittgenstein. de origem
judaica. foi batizado na fé c.arólica, pensou em tOrnar-se monge e teve fune -
rais <:atõl icos.
)0. A bem dizer, a comparação só poderá efetuar-se no final da reconstrução dos
dois projetos. Cf. infra, p. 109 ss. . . .
51. Remarques mtlées, op. ciJ., p. 103. A fórmula é tanto ma1s tmpresswnante
porquanto data do ano da própria morte de Wittgenscein (195 1}.

2'>
PRIMEIRA PARTE

Wittgenstein, crítico
da psicanálise

Arqueologia do debate

No limiar deste confronto, deparamos com duas considera-


ções metodológicas um tanto contraditórias: por uma parte, a que
requer a globalidade dos lances - como fazer ouvir o choque dos
dois projetos no conjunto de suas dimensões-, a singularidade da
proposta, por ~utra pane, uma vez que Wittgenstein aborda a psi-
canálise de um ângulo muito específico, que não se trata de reduzir.
Um confronto objetivo deveria panir da definição mais satis-
fatória que Freud nos dá da psicanálise a fim de ajustar-lhe a crítica
wittgensteiniana, ponto por ponto. "Psicanálise é o nome:

1. De um método para·a investigação de processos psÍquicos


quase inacessíveis de outro modo;
2. De um método baseado nessa investigação para o tratamen-
to de distúrbios neuróticos;
3. De uma série de concepç~ psicológicas adquiridas por esse
meio e que se desenvolvem em conjunto para formar progressiva-
mente uma· nova disciplina científica.'' 1 ·

Tal é, pois, a psicanálise, apreendida em sua globalidade, quer


ela se·proponha como uma "investigação" dos processos i.nconscien-
27
tes- nesse caso, ''psicologia da profundidade" - ou como um certo
tipo de método terapêutico centrado nas neuroses- o que reme-
te para a técnica da cura analític.a, enfim - como se se fosse do par-
ti cu lar para o geral- ou ainda como uma "teoria" da psique que
tende para a cientificídade como um ideal regulador, ao que faz
jus a teoria chamada metapsicológica.
Isso pode apresentar simultaneamente como seqüência hie-
rarquizada dos momentos mais marcantes da proposta psicanalí-
tica e "índice de assuntos.. analíticos. Nada tem de fortuito, por
certo, que Wittgenstein aborde cada um desses capítulos quase
exaustivamente.
Entretanto, seria f.Usear desde já o estilo da crítica wittgen-
steiniana partirmos dos "assuntos" assim ordenados. A entrada deve
ser feita a partir de uma questão ao mesmo tempo mais indiferen·
ciada e mais "pontiaguda": a do modo de administração da " men-
sagem" analítica.
A definição freudiana, por sua fria objetividade, mascara es~
sa questão, na medida em que ela retoma à posição de uma objeti-
vidade: estudo de processos, método de investigação de distúrbios,
concepção metapsicológka, a psicanálise apresenta-se, antes de tudo,
.aos olhos de Witcgenstein, como algo que se apóia num certo ti p0
de lógica do assentimento que, por não ser questionada como tal,
é ainda mais fortemente constitutiva. É a partir da;, portanto, que
a suspeita wittgensteiniana será exercida - ou seja, aquém de to-
da posição hermenêutica, técnica ou teórica.
Mas'assínalar-se-á, ao mesmo tempo, que o que vai ser privi-
legiado é o nível da inreração - central na definição freudiana. É
aí, com efeito, que tem lugar, do modo mais vital, a administração
da interpretação. Portanto, Wittgenstein vai abordar a psicaná1ise
pelo que ela é, essencialmente, a seus olhos: a legitimação de um
dispositivo interpretativo, o qual se ilustra no seio de uma relação
(o tratamento), de um processo hermenêutica e de uma lógica
explicativa.
NOTA

1. P.ricanálise e ''teoria da libido" (1923 ), GW. Xlll, 21\. Para o comen tário do
semido global dessa definição em si mesma, remetemos o leiror para o nosso
artigo. "Lcs grandes décou~nes de la psychanalyse", em HiJtoire rk la psycha-
11,J/y.re, Hachetre, 1982. I, p. 145 ss.

29
LIVRO I

Crítica da lógica
do assentimento
psicanalítico

.H
C:\P! Tl "LO 1

Crítica wittgensteiniana
do assentimento

Levando-se em conta a caracterização precedente do discurso


wittgensteiniano sobre a psicanál ise, d ispomos, ponanto, de uma
e ntrada magnífica em sua argumentação: é aquela que apresenta
a questão do assentimento (Zustimmung) do conteúdo analítico
como taL

1. A "atitude. crítica" e seus lances

O pomo de partida é a atirude definid a em conversa com Rush


Rhecs: "Para aprender com Freud, a pessoa cem de manter uma .ati-
cude crítica." 1 Ora, "a p sicanálise geralmeme impede isso", afirma
Wirtgenstein . Assim, a atitude crítica rem de vencer uma tendên-
cia que seria inerente à própria racionalidade psicanalítica, a ten-
dência para funar-se a tal crítica, algo como o adormecimento do
sentido crítico pelo " torpedo" freudiano. Nesse semtdo, a crítica
wittgensteiniana é, em si mesma, um protesto contra o argumento
de autoridade que seria próprio da análise; portanto, um protesro
contra o que, na psicanálise, imporia tal ultimato. É por isso que
a psicanálise, aos olhos de Witcgensrein, tem vocação para suscitar
a q uestão do assenti memo, justamente porque seria cronicamente
propensa a dissuadir dele.
.. Ora - e aí está um ponto determinante da crítica wingens-
tetntana, a questão do assentimento designa também o conteúdo
da própria crítica. Assim, a questão das modalidades da aprovação
da psicanálise como teoria remete irresistivelmente para a das mo- ·
dalidades de assentimento constitutivas da própria relação analíti-
ca: Que o mesmo tema do assentimento se reencontre na própria
ongem do projeto crítico de Wittgenstein e como tema mais im-
portante dessa crítica já revela que a posição de objeção assumida
por Wíttgenstein supõe uma identificação- sobre cuja natureza
é prematuro interrogar-se - com a posição daquele a quem a pró-
pria interpretação analítica é destinada, qual seja, o "analisando"
ou, pelo menos, o destinatário da teoria freudiana.
.É preciso compreender que essa "atitude críticd ' já responde
por st mesrru a uma posição epistêmica, aquela que problematiza
o critério de produção da "certeza" no sujeito a quem o saber psi-
canalítico se dirige.
Ao centrar, correlativamente, a sua própria leitura da psica-
nálise na questão da adesão, por um sujeito, ao conteúdo de obje-
tividade do saber (analítico), Wittgenstein levanta de uma assen-
tada três questões de monta: psicológica- visto que o assentimento
supõe um motivo psicológico - , lógica - uma vez que a questão
de julgamento passa para o primeiro plano- e até metafisica -
dado que a função de verdade é a que se vê questionada de imedia-
to. Mas Wittgenstein, em seu questionamento crítico, parece reduzir
essas três dimensões a uma só, na medida em que as mete num ca-
dinho comum: o da produção de linguagem.

2. A questão do assentimento analítico

Isso permite localizar a passagem das Conversações sobre Freud


onde se enuncia o que está em jogo: "Em su~ análises, Freud for-
nece explicações que muitas pessoas se inclinam a aceitar. Ele sa-
lienta que as pessoas têm desinclinação a aceitá-las. Mas se a expli-
cação é de molde a fazer as pessoas relutarem em aceitá-la, é alta-
mente provável, outrossim, que seja a explicação que estão incli-
nadas a aceitar. E foi isso que Freud de fato pôs em relevo etc.' ' 2
Tal é a questão do "assentimento": o fato de que um sujeito
esteja "propenso" a aceitar um conteúdo explicativo dizendo: "É
:\4
c:xaramence isso:· Ora, por uás da questão do assentimento escon-
de-se a questão da autoridade: "Umas vezes, ele diz que a solução
correra, ou a análise certa, é aquela que satisfaz o paciente. Outras
vezes, afirma que o doutor conhece qual seja a solução ou análise
correra do sonho, ao passo que o paciente não o sabe: o doutor po-
de dizer que o paciente está errado." J É o caso de se dizer. já que
Wittgenstein fala do "doutor" - como o próprio Freud, em tan-
tas ocasiões - e não do "analista", que ele está na posição de uma
pessoa "douta", aquela que "sabe" c enuncia ou induz o que se deve
saber, o que é verdadeiro ou não.
É essa questão do assentimento e seu " inverso", a questão da
autoridade, a que está, portanto, no âmago da argumentação de
Witrgenstcin: cumpre ajnda precisar que ele articula essa proble-
mática a partir da questão da Linguagem. A questão consiste em
saber como "o doutor pode dtzerque o paciente se engana", ou o
analisando pode dizer que é verdade. É nesse terreno que a ques-
tão deve ser formulada, que a crítica do próprio Wittgensrei,n de-
n :, portanto, situar-se. Trata ·se da psicanáJise como prática-de-lin-
guagem - expressão cujo 2.lcance neutralizaremos de momemo,
na ausência do contexto que, em Wittgenstein, inclui essa crítica.
Pode-se, não obstante, adivinhar que é no contexto da sua teoria
dos jogos de linguagem (SprtJChspiele) que ele imerpda assim a
psicanálise.
Se o primeiro efeito filosófico determinado pela crítica witt-
gcnsteiníana da psicanálise consiste, portanto, em re.P<1r na ordem
do dia a questão do assentimento, será conveniente situá-lo em pers-
pectiva na problemática histórica: ou seja, entendê-lo, segundo a
dt:finição clássica, como "ato do espírito que adere a uma proposi-
ção, ou estado que resulta desse ato" 4 •
Essa definição atesta que CS[amos no elemento da teoria do
conhecimento, uma vez que se evoca o problema da adesão a um
conteúdo de verdade, de molde que este seja reconhecido (como
"verdadeiro"). Isso equivale, com efeito, a "ter-por-verdadeiro'' (Für-
wahrhalten), de tal sorte que o sujeito dê seu consentimento
fZustimmung).
Por conseguinte, não existe "assentimento" sem "crença"-
naquilo em que o sujeito tem de "assentir". Mas essa crença é um
"ato". Sendo o assentimento o próprio movimento da crença, ele
35
seria caracterizado com bastante correção como uma "crença em aro".
É esse movimemo que transforma o consensus em assensus.
Não é fo nuito que os termos latinos que conotam o assenti-
mento (assentin: afsentio, assensus) tenham servido para traduzir
a palavra grega (sugkatathesis) imposta pela lógica dos estóicos. Ori-
ginariamente, o assentir é uma "síncatátese", ou seja, o assentimento
dado a uma "representação compreensiva" -de onde nasce a "com-
preensão" (katálepsis). É por aí que o espírito adere à verdade.
Tampouco é fortuito que o termo tenha adquirido seu status
específico com uma teoria do conhecimento que enfatiza doravante
o efeito de verdade sobre o agente e já não apenas sobre a relação
ôntica, a fim de anicuJar com a ética o processo de conhecimento.
Cícero forneceu dessa relação do assentimento com a com-
preensão sua representação seo.sível quando evocou o que poderia
chamar-se "o gesto de Zenão": "Ele mostrava sua mão, os dedos es-
tendidos: 'Eis a representação (visum)' dizia ele, e depois dobrava
um pouco os dedos: 'Eis o assentimento (assensus)'; em seguida,
quando tinha a mão completamente fechada e mostrava o punho,
declarava ser essa a compreensão (comprehensio), e foi por isso que
lhe deu o nome de katálepsis, o qual não era utilizado ames dele.
Em seguida aproximou a mão esquerda do punho cerrado c aper-
tou-o estreitamente e com força, dizendo estar aí a ciência (scien-
tia) , que ninguém possui exceto o sábio."5
Assim. a representação apenas retrata o primeiro choque en-
tre o sujeito e o objeto, séndo o assentimento a marca da reapre-
sentação subjetiva: temos aí a representação como "causa próxima".
O assentimento não pode produzir-se, com efeito, se não tiver sido
"sacudido por uma representação". Por esta última, a imagem gra-
va-se no espírito, o assentimento rebatendo a máquina.
Notar-se-á que estamos claramente numa perspeaiva mais de
processo do que de sujeito: "assentir" vem dt> sujeito, mas prolon-
ga um movimento. O assentimento é, nesse sentido, um movimento
subjerivado. Por isso todas as teorias do assentimento enfatizarão
os graus da operação imelectual.
. ~ignificativamente, a noção não está isenta de um matiz "pro·
babJIJSta''. Mas foi reativada, de maneira específica, visando a uma
te~ ria da certeza, como presença imediata e espontânea do verda-
dei ro no espírito.
36
Verifica-se, aliás, uma evolução norãvel na doutrina do asscn-
rimenro, no seio da doutrina estóica. No Antigo nloici'smo, o as-
sentimento é desencadeado p ela própria evidência da representa-
ção. Só no Pórtico médio (Crisipo) équeo assentimento seconver·
te num julgamento crítico e comparativo de diferentes sensações.
Sinal de que a função do sujeito se encontra exposta à objet.ividade
- sob suas duas formas extremas (representação e ciência). É o in-
dicador do sujeito no processo.
Cumpre não perder de vista, entretanto, que a teoria do as-
semimenro adquiriu fOrma numa lógica das proposições: é sobre
esses "segmentos discursivos" que se exerce, de forma deriva, uma
lógica do assentimento. Assinalar-se-á, corcelativamente, que o as-
sentimento apóia-se numa "positividade": não remete para uma
Ji bcrdade vertiginosa de escolha, mas tem de certa maneira, por vo-
cação, a determinação de um conteúdo da linguagem.

No paradigma cartesiano, o assemus acha-se significativamente


subordinado ao consenso. A questão mais importante passa a ser,
com efeito, a do "consentimemo" que o entendimento Pode dar
às suas representações. É porque a "vontade", infinita por nature-
za, determina o juigWtento que, esse, está limitado a dar seu con-
semimento a coisas de que possui apenas um conhecimento con-
fuso, que se toma possível o erro6 •
Portanto, o assentimento é o ato da vontade deteoninando o
que o entendimento "percebe": o consentimento é o encontro com
a objetividade da representação. Em suma, trata-se de mostrar que
é pela vontade que "nos enganamos" e que a melhor terapêutica
consiste em dar seu consentimento ao que o entendimento perce-
be dara e distintamente.
Ao identificar a vontade e o entendimento 7, é claro que Spi-
noza liga o mais estreitamente possível o assensui e o comemus -
que em Oescanes ainda conservavam um espaço de tensão. O "er-
ro'' nada mais faz do que medir a "incompletude consensual" -
segundo as idéias percebidas-afirmadas sejam mais ou menos "com·
Pktas" ou, pelo contrário, "mutiladas e confusas".
Em Kant, o problema do assentimento converte-se no de
t:e r-por-verdadeiro (Fürwahrhalten).

37
O "assemimento" é definido como o lado "subjc:rivo" da ver-
dade, definida esta como " propriedade objetiva do conhecimen -
to": "O julgamento pelo qual alguma coisa é representada como
verdadeira- a relação com um enrendimcmoe, por consegu inte,
com um sujeito particular - é subjetivo, é o assemimem o.''ll
Nessa b~se, Kant distingue três graus: um "assentimento in-
cerro", insuficiente tanto subjetiva quanto objetivamente: a opi-
nião; um assentimento inceno, objetivamente insuficiente, mas sub-
jetivamente suficiente: a crença; um assentimento objetiva e sub-
jetivamente suficiente: é a certeza, ou o saber. Se a opinião é pro-
blemática, a crença é assenóric~ c o saber apodíctico.

Não foi por acaso. enfim , que o problema do assentimento


se viu reativado em torno d o problema da crença, nas metafísicas
de inspiração cristã do século XIX, de Rosmini a Newman. Onde
o "fideísmo" 9 rinha marcado a resistência da verdade da fé à razão,
essas "lógicas do assentimento'' ligam-se a esse "julgamento real"
que aresta uma presença do sujeito em seu "acreditar" - p elo <?fUe
a problemática p~calian a da " persuasão" retoma seu valor
apologético.
Rosmini definiu o "assentimento" como o "ato pelo qual o
homem anui v9luntariamente ao objeto que se apresenta à sua in-
teligência", de modo que "assentir a um objeto equivale a afirmá-
lo com uma eficácia subjetiva'' 10 • ''O conhecimento subjetivo na-
da acrescenta ao conhecimento objetivo, mas acrescenta algo ao su-
jeito." Observação capital que, ecoando o tema de Hume da nacu-
rezasubjetiva da crença, abre o caminho para um problema lógico
que não tinha seu status na lógica formal de tipo aristotélico: a do
efeito subjetivo das " razões".
Não é por acaso que se verifica que esse problema reaparece
com freqüência nas duas problemáticas empírico-cética e " fideís-
ta ··; nos dois casos, se bem que com conseqüências simetricamen.
te opostas, a aresta viva da subjetividade vê-se reativada e proble-
matizada, contra o racion;1lismo de tuna " razão administrada" da
"coisa". No máximo, a tensão observável em Descanes entre enten-
dimento e vontade poderá ser sublinhada como o sin tom.a de uma
razão que não reduz a espontaneidade do "espírito" que exige a
adesão a uma "realidade" suigeneris.
:\8
É em Newman que se desenvolve o projeto de uma Gramáti-
, ..1 do assentimento 11 • Aí reencontramos uma teoria dos "graus":

0 que Newman denomina "assentimento conceptual" pane da sim-


ples ''profissão verbal", torna-se "crença'', depois "opinião", " pre-
sunção" e, enfim, "assemimemo especulativo". Contudo, mais além,
sirua-se um "assemimemo real" (real assent) pelo qual o espírito
encontra o próprio real de seu objeto. É na mesma perspectiva que
ele pretenderá isolar um "sentido ilativo" específico como facul-
dade de adesão quase perceptiva da realidade.
O efeito notável da problemática newmaniana é emancipar
o assem us de roda a lógica do consensus- à qual está subordina-
da desde Descartes, pelo menos. Desse modo se encontra posto a
nu o problema do "assentir" em seu deito de realidade mais ~traente
- ainda que Newman subordine esse efeito ao seu uso apologéri-
co, que serve para abrir um esp aço próprio e inviolável para a fé. Mas
não é por acaso que essa questão da fé - do próprio ser da crença
·- é justamente a que leva ao questionamento wittgensteiniano da
psi<;análise, onde o que está em jogo é a própria natureza da con-
vicção. É a questão do sujúto da fé que vai ser rearivada no seio do
entendimento freudiano. .
Quanto à crença anaJitica. enconrrar-se-á em posição de re-
fletir sobre o que N~an procurava penS":fSOb o nome desse "sen-
tido ilativo", misterioso e concreto ao mesmo tempo: espécie de in-
ferência na rural, capacidade instintiva do espírito de condensar, num
objeco preciso, todas~ suas faculdades para ir direto a uma con-
dusão irredutível à explicação, em suma, para "assentir" realmen-
te, em ':uma aquiescência completa do espírito" que encontra a pró-
pna cotsa.

3. A exigência de uma ''gramática do assentimento''

Pode-se ver agora em que consiste a contribuição própria de


Wittgenstein para a problemática filosófica do assentimento. Esce
deixa-se medir pela consideração paradoxal que a repõe na ordem
do dia e, ao mesmo tempo, a especifica, ao transpô-la parao plano
dessas práticas lingüísticas que são os " jogos de linguagem"
(Sprachspiele).
39
Doravame, com efeito, a questão da "convicção" já não remete
para um "mentalismo" qualquer: ela joga-se no plano da lingua-
gem - expressão que Wittgenstein nos permite usar ao pé da le-
tra. Portanto, nada seria.rilais errôneo do que interpretar a questão
da "inclinação" para admitir a razão psicanalítica como um pro·
blema "psicológico" ou mesmo "mental": é no plano do que é di-
to que a q uesrão do assentimento deve ser posta. Está fora de ques-
tão, portanto, um pano de fundo linguagíscico; tudo se joga no pro-
cedimento da própria linguagem. Não é o "motivo" do dizer que
interessa a Wíttgenscein, mas o próprio dizer, na medida em que
"se motiva" a dizer.
Mas subsiste o fato de que o sujeito do dizer- que o Tr~ta­
tus definia como " um limite do mundo" 12 - retoma ao centro de
suas práticas: é o seu im/ice, de modo que a linguagem deixa de ser
''imagem do mundo" para tomar-se o destino das "convicções'' do
locutor.
A questão do assentimento acha-se, pois, rad icalizada na me-
dida em que ela é escoimada, em Wiugenstein, de sua conotação
mentalista - como metafísica do espírito - e, ao mesmo tempo,
de seu esteio ontológico.
Mas, por isso mesmo, ela faz-se acompanhar de um verdadei-
co diagnóstico: se esse ponto de vista do assentimento é irredutí-
vel, é porque revela o que poderia chamar-se "a cláusula de sedu-
ção", ela própria reveladora de um tipo dado de "explicação" de na-
mreza estética.
Wittgenscein exprime essa idéía em suasLeçons sur l'esthéli-
que (1938): a explicação anaütica tem para da certa sedução. As-
sim, a propósito de uma interpretação de sonho: "As conexões que
(Freud) estabelece interessam imensamente às pessoas. Têm certo
encanto. É encantador destruir preconceitos." 13 Em outras pala-
vras, a psicanálise penence a esse " tipo de explicações" que "exer-
cem uma atração irresistível". Ora: "Em determinado momento,
a atração de ceno tipo de explicação é maior do que tudo o que po·
deis conceber. Em particular, uma explicação do tipo: 'Isto, na rea-
lidade, é somente isto.' " '
Por conseguinte, Wittgenstein extrai a força das "razões psi·
canalíticas" de seu valor "dialético" de persuasão: "Se formos le-
vados pela psicanálise a dizer que realmente pensamos de cal ou qual
40
maneira, ou que realmente o motivo que tínhamos era tal ou qual,
não se trata de descobcna, mas de persuasão. "Têm formas parti·
cularmente persuasivas aquelas sentenças que dizem: 'Isto é real-
mente isto'."t4 Portanto, se a razão psicanalítica se reduz a um
"efeito", é na ordem da " persuasão" que deve ser abordada, con-
tra a sua pretensão de "descobrir", de elucidar algo que existiria in-
dependentemente desse mesmo ato de linguagem.
Ora, como da dialética da persuasão ao sofisma é apenas um
passo, Wictgenstein acaba ~r falar da ilu~ão induzida: "F~eud ~em
razões muito sagazes para daer o que dtz, uma grande unagma-
ção e um preconceito colossal, preconceito muito possivelmente ca-
paz de enganar as pessoas." n

4. O problema da crença analítica:


o transtorno da sedução
Não haja enganos, de resto, a respeito do termo "encanto".
Wittgenstein assim designa, de maneira mais impressionista, o prin ·
cípio de "sedução". "Pode ser muito bem o fato, diz ele a esse res-
peito, de a explicação ser extremamente repulsiva que nos leva a ado-
rá-la." tG Ora, Freud faz do caráter " repulsivo" um fator de resistên-
cia à explicação psicanalltica- pelo menos, é isso o que Wittgen-
stein dela retém. Ponanto, ele "omite" dizer que talvez esteja aí,
muito pelo contrário, o fundamento da adesão à explicação analí-
tica, a chave de sua sedução, o nec plus ultra do seu encanto
"falacioso".
Tudo isso, na verdade, 11ada nos diz ainda pró ou contra o va-
lor de verdade da própria explicação analítica. Do mesmo modo,
Wittgenscdn jamais diz com nitidez que tal explicação analítica é
''verdadeira'' ou ''falsa"; limita-se ocasionalmente a subscrever sua
pertinência. Ele prefere indagar se se trata realmente de uma ex-
plicação, ou de que gênero é essa explicação - o que, num senti -
do, pode mostrar-se mais radicalmente crítico. Entretanto, uma vez
que Freud - que está sob o colimador de Wittgcnstein como por-
ta-voz da·razão aoalídca - faz uma coisa diferente do que diz -
ou seja, não "explica", de fato, ou não no sentido em que o prctcn-
41
de fazer, toma-se imprescindível chegar ao diagnóstico de um equí-
voco que confina com a "trapaça". Que o ponha na coma de uma
operação. deliberada, de um mal-entendido ou de um erro dera-
cionalidade depende de Úm "diagnóstico" ulterior. Resta a ques-
. tã~ preliminar: identificar o que se passa, de faro, naexpJicaçãoana-
líttca, a que "lógica do assentimento" ela recorre.
O "encanto" e a sedução de que as explicações analíticas se
aproveitam são relacionadas por Wittgenstein com uma característica
desse saber particular: a referência às "profundidades". Em outras
palavras, é essa suposta ''sondagem" em algum submundo que fun-
damenta uma atração, a qual não pode deixar de ser um "transtor-
no'' para aquele que busca a verdade nessa divisão esclarecedora entre
o que pode ser ou não objeto de linguagem.
. Wittgenstein exprime lapida.rmence esse encanto das profun-
dtdades numa frase das Leçons sur l'esthétique: "Eis um labirinto
para extr:avi.ar as pessoas.' ' 17 Fórmula que sugere que o mistério p~­
de substn~ar a resposta nesse tipo de "explicações". Wittgenstdn
sugere asstm que o sujeito pode achar-se panicularmeme "gratifi-
cado"- por qualquer pane de si mesmo - ao ver-se designar co-
mo "explicação" algo que ele não compreende ou que lhe deixa al-
gumas reservas de sombra, embora fazendo-o participar do mistério.
. Assim: "Existem muitas coisas em que a pessoa se dispõe a acre-
dttar porque são misteriosas." 18 Assinale-se neste ponto a interes-
sam.e :onsecução: não é apesar do mistério mas por causa dele que
o SUJeito "se prende obstinadamente" à explicação. Eis o que é cen-
tralpa acusação de sedução levantada contra a explicação analíti-
ca. E por isso que "a imagem segundo a qual as pessoas têm pensa-.
:nent~s subconscientes tem s~u encanto". Esse "encanto singular"
c relacronado com uma espécre de romantismo abissal: "A idéia de
um submundo, de um porão secreto. Algo de oculto, de inquietan-
te." O exemplo que acode ao espírito de Wittgenstein mostra que
ele não está longe de evocar o Unheimlich (estranheza inquietan-
te): é o das "duas crianças que colocam uma mosca viva dentro da
cabeça de uma boneca, enterram a boneca e depois fogem"-:--- tQ-
mado de Goufried Keller. ·
Mas Jogo se observará que, por um lado, esse pressentimento
do Unheim/ich que, em Freud, envolve todo um trabalho de dis-
secação e reconstrução, Wittgenstein contenta-se em apontar sua
42
existê ncia: "Existe o misterioso." É apenas "a espécie de coisa que
fa zemos, de fato", não nos cabe mais do que constatá- lo. Que exis-
ra uma lógica específica do inconscienre escapa decididameme a
~-' ircgenstein, justamente porque ele se refere a uma "reserva" in-
consciente, de uma vez por todas.
Por outro lado, é a própria explicação analítica que ele faz par-
ticipar do encanto penurbador do Unheimlich. Idéia original que
obriga. com efeito, a aplicar a análise freudiana da "estranheza in-
quietante" à dialética do retorno do recalcado que a própria expli-
cação analítica aciona 19 .
· Em Wi ttgenstein, esse tema da sedução é essencial, porquanro
diz respeito à patologia do assentimento. Este, na medida em que
t um efeíro do próprio sujeito, comporta de fato a posição de uma
fàscinação do engodo. Este, ponanro, não é somente um acidente
externo mas a possibilidade crônica de que o assentimento seja "de-
flagrado" por um engodo, possibilidade essa que faz pane da pró-
pria economia do assentimento. O saber analítico vai, por conse-
guinte, ser questionado, não por ser pura e simplesmente inculpa-
. do de incitamento ao erro, mas por determinar que gênero de as-
sentimenroé requerido. O encanto da explicação analítica provém
dessa evocação da "co.isa": é esse Unhúmlich- em seus reflexos
metafísicos., em suas bases psicológicas e em seus procedimentos ló-
gicos- que Wittgenstein procura desmontar.

43
CAPÍTUW2

A lógica da crença analítica

Permitimos que Wittgenstein nos impusesse o ângulo sob o


qual deve ser formulada a questão da crença analítica. Precisamos
ouvir agora a resposta freudiana, o que supõe, ao mesmo tempo,
ouvir no texto freudiano o que é suscetível de rebater essas obje-
ções e o que impõe um deslocamento das objeções, refratadas pe-
las exigências da "coisa analítica"

1. A crença e a transferência

Põe-se a questão de saber se cabe postular desde já uma ins-


tância da crença e do assentimento - na administração da "verda-
de" - como teoria e/ou na p.rópria relação analítica, visto que Witt-
genstein, apesar dos esforços de Freud para definir a psicanálise co-·
mo "saber" autônomo, optou por atingi-la "de frente" através desse
problema do assentimento.
O alcance da crítica de Wittgenstein ultrapassa, ponanto, o
plano da interpretação analítica - dos sintomas e dos sonhos: ela
aponta, se.a examinarmos atentamente, para a teoria analítica co-
mo tal. Entenda-se: não só a teoria proposta a um analisando, mas
a dirigida a um ser racional que a teoria analítica pretende convencer.
Essa extensão é verificável pelo fato de que a problemática ela-
borada páginàs atrás é válida, mutatis mutandis - isto é, mesmo
45
que tenha de ser transposta da situação analítica para a situação dia-
lética da relação do texto freudiano com o seu leitor - tanto para
uma teoria quanto para a outra. E se, com efeito, Freud não estava
em outra posição a não ser a de propor ao leitor uma "construção"
que este último devia au tcn ticar com seu próprio inconsciente, mas
por intermédio do seu próprio "entendimento" ? Essa aproxima-
ção só seria suspeita se partíssemos da relação racional para remar
reencontrar um equivalente na relação analítica- o que significa-
ria liquidar nada menos do que a transferência. Mas é o contrário
que se deve pensar, graças à insistência da objeção wittgensteinia-
na: é no âmago da relação ttansferencial que convém- sem a es-
tragar- trazer para a luz uma verdadeira relação cuja lógica está
por formular. Nada tem de surpreendente, portanto, que se assi-
nale, na p~rópria exposição freudiana, os traços de uma simação ho-
móloga. E porque a "razão" permanece ativa na situação transfe-
rencial que algo da transferência- quando se trata do saber analí-
tico - também continua sendo determinante na situação racional
de transmissão.
O texto freudiano - sobretudo quando sua função transfe-
rencial é dominante - nada mais faz do que elaborar o problema
que formulamos mais acima.

2. O eclipse do entendimento

Sobre a natureza da relação analítica, Freud é formal até o ci-


nismo: não se trata de uma estrutura de "cooperação intelectual"
pela simples razão de que a relação de autoridade a impregna e a
define.
Assim, lê-se no texto de seus Conselhos aos médicos sobre o
tratamento psicanalíttco (1912 ): ''É contra-indicado dar ao paciente
instruções tais como, por exemplo, reunir lembranças, pensar num
certo período da vida etc. Pelo contrário, o analisando deve apren-
der ames de tudo, o que nenhum admite com facilidade, que cer-
tas atividades mentais como aplicar seu pensamento a determina-
do assunto, concentrar sua vontade e sua intenção, não permitem
nem contribuem de forma alguma para ajudar a resolver os enig-
mas da neurose." 20 Em suma, as "virtudes intelectuais" de nada
46
servem quando o indivíduo está diante dos enigmas de sua própria
verdade. Mesmo com muita atenção e boa vontade- mesmo com
a mais profunda "generosidade cartesiana", o que significa usar tanta
vontade quanto a requerida por seu entendimento- o paciente
não progredirá um milímetro, no que tange ao seu próprio "segre-
do", por essa via intelectual.
A essa rudimentar concepção da "cooperação intelectual" opõe
Freud a regra de obediência... ao próprio inconsciente: "Somente
a obediência à regra psicanalítica que ordena abster-se de toda crí-
t íca formulada a respeito do inconsciente e de seus derivados po-
derá culminar num resultado favorávd." 21 Estranhamente, Freud
preconiza aqui uma forma de "quietismo": combate, em todo o caso,
o ''voluntacismo'' que só pode resultar numa racionalização de de-
fesa. Nada afasta mais da cura e da prova real do que o comentário
de seu próprio estado. Toda a sabedoria do mundo não vale a obe-
diência à regra da livre associação. Essa privação é que constitui o
início da "sabedoria" em psicanálise. Não pode deixar de parecer
passiva, até um pouco cega, para um entendimento cartesiano... ou
wittgensteiniano que, de imediaco, como sempre, pede explicações
ao Outro da relação. Mas, para Freud, essa privação é que comanda
a eficácia do trabalho de que o paciente é portador: é, paradoxal-
mente, pondo de lado todas as suas virtudes a respeito da lei- exi ·
gência kantiana interna à cura - que ele ficará em condições de
conquistar a prazo sua liberdade. Uma hipervigilância sobre todo
e qualquer outro "objeto" - seja sobre si mesmo e seu próprio pen-
samento - não passaria de uma protelação estériL
Outrossim, a relação ulterior reserva para o nosso indivíduo
os meios de se desvencilhar dessa renúncia, pelas vias diretas da
contestação.

Não é que Freud despreze o fator intelectual no processo ana-


lítico. Ele reconhece em outro crabalho22 que "o interesse intelec-
tual suscitado no paciente, sua compreensão" 2 3 desempenham
igualmente um papel no tratamento. Mas, uma vez mais, é um re-
conhecimento bastante relativo: o interesse intelectual "mal entra
em linha de coma em face das outras forças envolvidas na luta"; é
que as resistências são fumes ativas.de "transtornos de julgamento".

47
Por outro lado, o paciente "só se utiliza de suas novas luzes" H
na medida em que "se lhe incita a transferência". A compreensão
- que permanece num nível específico do processo - só tem efei-
to, portamo, na medida em que é "animada" pela transfctência.
Assim, tudo se passa como se o paciente estivesse em posição de
"compreender" duas vezes - pelos recursos do seu próprio "en-
tendimento" e pelos da transferência. Mas é o mesmo que dizer que
é na esteira da transferência que o seu entendimento se coloca a
serviço da dinâmica inconsciente. Significa que, unicamente com
o seu entendimento- não fecundado pela transferência - , opa-
ciente pode muito bem "entender" (intelectualmente) sem "com-
preender" nada do essencial em seu próprio recalcado. A inteligência
não tem o menor domínio sobre o recalcado: falta-Lhe o choque da
transferência..
Mas resulta que o pomo de vista da transferência frustra o pró-
prio entendimento, a ponto de Freud recomendar ao analista que
negocie as razões: o analista deve, com efeito, "esperar que se esta-
beleça uma poderosa transferência a fim de prestar seus primeiros
esclarecimentos". Isso é o mesmo que dizer, de forma bastante crua
- até cínica, aos olhos do lmpugnador wittgensteiniano -:- que
a comunicação com o entendimento do paciente permanece su bor-
d'inada - inclusive enfeudada - a uma relação transferencial fa-
vorável de forças. Como se o entendimento do paciente não pudesse
"entender" a verdade como a sua própria, a não ser por intermé-
dio desse Outro.
Freud chega mesmo a dizer que os esclarecimentos s6 devem
ser comunicados depois que "essa transferência deixou de ser per-
turbada por todas as resistências que se lhe opõem, umas atrás das
outras". Quer isso dizer que somente desarmado e atado de pés e
mão~ pela transferência é que o "saber" pode ser " transferido" pa-
ra o interessado? Cenamente que não, dado .que, como já vimos,
o entendimento intervinha desde o início do processo. Mas é signi-
ficativo que Freud seja tentado a identificar a "compreensão" co-
mo uma recompensa que atesta o êxito do processo,
Em resumo, a "compreensão" está, ponanto, bem espremi-
da entre a força das "resistências" - que a restringem- e a da trans-
ferência, que a domina. Será, nesse caso, um "lugar vazio"? Isso seria
não contar com a pugnacidade do "paciente", muito pouco disposto,
48
de faco, a aceitar, seja em nome de que '\:ausa" for, essa forma sutil
de "interdição-de-pensar'' l).
O pomo de panida freudia no sobre a questão é, por conse-
guin te. que o entendimento do "pacie_?te" está necessariamente
ofuscado pelo trabalho das resistências. E o que ele afirmará até nos
.;cus últimos textos de técnica analítica. Por um lado, não se pode
·;'esperar do paciente ... uma forte convicçã~ quanto ao po~er.cura­
tivo da análise" 16 ; por outro lado, sob o efeno da transferencra ne-
ativa "o analista só é ... para o paciente um ser estranho" 27 ; ele
~não ~credita em nada"; em suma, " tenta mostrar ao paciente e
corrigir uma de suas deformações produzidas no decorrer da defe-
sa. dado que o considera sem compreensão e inacessível a bons ar-
gumentos". Um eclipse do entendimento que deve ser realmente
assu mido... .

3. Do assentimento ao consentimento

Não é por acaso que, logo.num dos primeiros textos onde a


resistência é mencionada, o antagonismo é o que se apresenta em
primeiro plano: "A ;esistênci~ é, no_fim de,con~as, o ~ue e.ntr~'?
o tratamento e não e outra cotsa senao o carater infanul do tndLVt-
duo... Graças ao meu trabalho, desenterro-o, ele recalcitra, e opa-
ciente até aí tão bom, tão leal, torna-se grosseiro, falso ou revolta-
do si~ulador até o momento em que lhofaço ver(o grifo é nosso)
, '. , b "28Ad . .
e em que constgo fazer com que seu carater se su "!eta. IVI·
nha-se que 9 que acima se descreve, embora especificado de ma-
neira decisiva pela descoberta da transferênóa, vai marca~ de ~m~
vez por todas a relação analítica com esse caráter de domtnaçao: e
preciso "fazer ver'' a verdade e "fazer o sujeito submeter-se", o qual
continua sendo profundamente - e não sem motivo - uma
"çriança".
Freud fornece a pequena teoria dessa ética da convicção nu-
ma passagem dos Estudos so~re ahisteria: "Agimos, tanto quanto
possível, como mestre-escola quando a ignorância provoco1,.1 o te-
mor,.como professor, quando expomos uma concepção do mundo
livre, elevada e maduramente refletida, enftm, como confessor q~c·
graças à persistência de sua simpatia e de sua esúma, uma vez fetta
49
a confissão, dá uma espécie de absolvição."29 Tal é, ponamo, a de-
finição ideológica "pré-histórica" do analista: a combinação de
Aufkli:irer, deLebrerede Beichtborer. Thdosoba égide de uma fun-
ção: "Representante de uma concepção do mundo mais livre ou mais
rdletid~" (Vertreter einer frezeren oder überlegenen ~ltauffos­
sung). E essa função que confere imp licitamente- mas com fir-
meza- autoridade para quebrar, pela causa da verdade, as resis-
tências do sujeito. Mas Freud saberá, sob a pressão deste último, cor-
rigir substancialmente o seu programa. Não é certo que lhe tenha
renunciado por completo, pelas razões que Wittgenstein ajuda a
identificar.
É do lado da histérica que se manifesta o pro blema da relação
da "verdade" com o assentimento. Isso transparcce com nitidez num
"debate" entre Freud e Emmy von N. relatado nos Estudos sobre
a histeria.
·- Para eliminar um sintoma anoréxico intempestivo, na sua opi~
mao, Freud recorre a um ultimato verbal. Diante da ineficácia de
suas "garantias" e para quebrar a "revolta" no nascedouro, Freud
formula o seu ultimato suspendendo significativamente a relação
hipnótica: "Renunciei a hipnotizá-la, anunciei-lhe que lhe dava 24
hora~ para refletir e para convencer-se de que suas dores gástricas
provmham somente de seus temores, e, ao fim de oito dias, pergun-
tar-lhe-ia se continuava pensando que se pode ficar doente does-
tômago durante uma semana em conseqüência da ingestão de um
copo de água mineral e de uma refeição frugal." 30 A ameaça que
se segue é clara: "Se essa crença persis~. então eu lhe pediria que
fosse embora." Reconhece-se nesta cena dramatizada de Freud com
a paciente histérica~ 1 todo o registro do problema que ocupa Witt·
genstein: c~ença, convicÇão, fórmula "autoritária" de pôr à prova.
O efetto é surpreendente: "Reencontrei-a dócil e submissa"
. constata Freud. M~ tem o cuidado de notar a fórmula pela qual
ela efetua sua rend1ção: " Quando a interroguei sobre a origem de
suas dores gástricas, incapaz de dissimular, da respondeu-me: 'Creio
que elas vêm das minhas apreensões, mas unicamente porque 0 se-
nhor o disse.' '' Observe-se que a posição está perfeitamente deter-
minada, com a ironia apropriada. O paciente responde à ordem de
cre'j mas ac.rescen ta uma cláusula à sua crença: " Éporque o senhor
o dJSSe." Não é, como se poderia supor, uma falsa crença, um dizer
50
puramente fo rmal: a involução do sintoma atesta a efetividade da
crença. Mas o que é dito literalmente é que a crença alegada tem
por causa o discurso daquele que diz ser preciso crer. O sujeito "crê",
porramo. está preseme em sua crença, dá todos os sinais de consen-
timento, mas algo nele não assentiu realmente.
Não é o conteúdo de verdade da interpretação que está em
jogo, mas o fato de que foi registrado- e confumado- sem que
o sujeiro "assentisse" em pessoa.
Não é fortuito, por certo, que as objeções de Wittgenstein, num
eco da posição histérica, permitem reativarum problema originá-
rio presente na relação freudiana anterior ao advento da relação ana-
lítica propriamente dita, ou seja, ao reconhecimento da " transfe-
rência" como elementq constituinte da análise. O que poderia ter
sido considerado resolvido pelo reconhecimento da transferência
mantém-se como problema crônico da própria relação analítica, em
vez de ser "domesticado" por uma suposta "técnica".

É mais revelador ainda que Freud formule em termos seme-


lhantes a questão do assentimento na interpretação analítica e a de
sua "atitude" em relação ao ingresso em tratamento- como se fosse
o mesmo problema que se apresentava na origem, quando da en-
trevista preliminar no momento em que se fecha o ''contrato'', e no
seio da própria relação - o que nada tem de surpreendente na pers-
pectiva da relação transferencial.
Assim, no escrito consagrado ao início do tratamento (1913 ).
Freud refuta a idéia de que seja deternUnante a esperança desper-
tada no paciente pelo novo tratamento. Se a análise ainda fosse da
ordem da sugestão, seria lógico, com efeito, pensar que " tal doen-
te deve ser fácil de tratar, dada a sua grande confiança na psicanáli-
se e a sua convicção na eficácia desse método" 32 , ao passo que "o
cético" -verdadeira categoria do sujeito do tratamento- "que
se recusa a crer seja no que for" dará "mais dificuldades", "antes
de ter constatado em si mesmo os bons resultados". Ora, Freud é
focmal e conseqüente com o ponto de vista que lhe conhecemos:
' 'Na realidade, a atitude do paciente pouco importa." Reencontra-
mos aqui os mesmos termos que usará para evocar a atitude em re-
lação à construção analítica, no escrito ulterior.
Esse desprezo ajmente para com "a aútude" baseia-se na idé~a
51
de que "sua confiança ou sua desconfiança são quase desprezíveis
quando comparadas com as resistências interiores que protegem a
neurose". Em outras palavras, a afetividade do paciente, sua boa
ou má vontade, pesam muito pouco em face do que emana das re-
siStências inconscientes. Aí está o verdadeiro parceiro da relação ana-
lítica: o resto é apenas uma questão de sa11oir-11ivre!
Isso torna ainda mais interessante observar como vão evoluir
seus "sentimentos", positivos ou negativos, sob o choque da reali-
dade da transferência. No que se refere ao indivíduo favoravelmente
disposto, cumpre preveni-lo de que "seus preconceitos favoráveis
vão ser destruídos pelas primeiras dificuldades que surgirem no de-
correr do tratamento" - tão pouco pesam os "bons sentimentos",
diante da dura realidade do tratamento. Quanto ao "cético", será
preciso dizer-lhe que, "em psicanálise, a confiança não é indispen-
sável ao êxito do tratamento". Por conseguinte, o direito à crítica
está reconhecido, mas de um modo que dá a esse reconhecimento
uma aparência bastante condicional: "ele tem o direiro de criticar
e de duvidar de tudo à sua vontade", visto que "não se auibui ab-
solutamenre essa atitude ao seu julgamento, pois o paciente não
está capacitado para julgar validamente sobre esse ponto" 33. Em
suma, "a sua desconfiança é apenas um sintoma, semelhante aos
outros sintomas, e não poderá prejudicar o tratamento se o paciente
obedecer conscienciosamente à regra psicanalítica fundamental".
Vê-se como é em nome da regra psicanalítica de livre associa-
ção- como se diria "em nome da lei" - que Freud despreza, nQ
caso, a pretensão de autonomia de julgamento. É um forma de di-
zer que o essencial vai se desenrolar numa outra cena qu ~ não a do
"julgamento". Compreende-se a inquietação que um impugnador
wittgensteiniano poderá expressar a respeito: setá essa uma nova for-
ma, singularmente draconiana, do "argumento de autoridade", pois
que exercida em nome da verdade? Mas isso também quer dizer que
o "ceticismo" pode ser uma técnica de purificação da própria rela-
ção analítica: não se pede simpatia para com a verdade - ainda que
seja a do analista - mas para com "a regra", graças à qual o sujeito
se porá em condíções de adquirir novas luzes sobre o seu próprio
desejo.

Seria errôneo concluir do acima exposto que o sujeito do as-


52
o cimento desaparece da problemática freudiana. É tão-somente
; r efeiro de contraste com a determinação ~e Wittgenstei~Ae abor-
dar a " razão analítica" por meio do assentimento, que uvemos de
fazer ouvir com nitidez o que, em Freud, "secundariza" a questão
do assentimento, referindo-a à ilusão enraizada no próprio su jei-
to. Isso não quer dizer que ela seja "secundária": pois é justamen-
te porelaser referida a esse horizome da,..~ependênci~ - a respeito
do recalcado e do outro da relação anahuca (a auropdade tcansfe-
rencial)- que iremos poder ver destacar-se, de cerro modo, o que
0
sujeira (analítico) do assentimento reinuoduz de ~ia!ética.
Freud pode então ser formal sobre esse ponto: "A análise se
supõe o consentimento da pessoa de quem se quer fazer a análise
e, entre o analista e o analisando, o estabelecimento d~ relações de
superior e de subordinado." }4 O assentimento é requendo, porcan-
co, mas tem como correlato certo tipo de "subordinação". O fato
curioso e revdador é que Freud procede a essarememoração no âm-
bito do exame da "dissidência" dos grandes "cismáticos" da psi-
canálise, Adie r eJung. Portanto, é evocando a grande crise de cren-
ça e assentimento no seio do próprio movimento psicanalítico que
Freud enuncia essa fórmula.
É, além disso, para afastar uma tentação: o fato de "recorrer
à análise" para "elucidar a atitude dos dois dissidentes". Para ven·
ccr essa tentação, Freud trata de lembrar a si mesmo, de certo mo-
do. que a análise não se deixa empregar como "arma de polêmi-
ca", porquanto supõe um assentimento.
Existe ademais um perigo, diz Freud nesta passagem surpreen-
d ente, no fato de que "o analisando volta conua ele (o analista) a
arma da análise e de que a discussão ganha características que colo-
(am uma terceira pessoa imparcial na impossibilidade ahsolutade
adquirir uma convicção". É por isso que Freud decide reduzjr ao mí·
nimo ''o emprego da análise" na crítica. . • . . ~.
freud coloca assim - nesse contexto de vtOlencla dtalenca -
a rt lação analítica em posição de exterioridade em relação ~o de-
bate racional. Apresenta-se aí a posição dessa "terceira pessoa" q~e,
no próprio seio da teoria psicanalítica, parece decididamente dts-
tinguir a situação analítica da situação diaJético-racionaP~ ·

53
4. A contestação intelectual:
da folsa lembrança à denegação

Para conseguir saber onde Freud foi buscar essa resposta, cum-
pr: determi.nar ~que zona da experiência freudia na as objeções de
Wmgenstem dtzem respeito.
Assinalemos em primeiro lugar que, se se pensar de imedia-
to em ~ermos de "transferência" e de "resistência", a pertinência
das obJeções é frustrada. Ora, isso seria deveras lamencável, canto
pe!o peso das objeções quanto pelo fato de que Freud rampouco
detxa de apresentar esse tipo de problemas em termos de "assemi-
mento". Onde, pois, encontraremos tal resposta? Precisamente nos
textos onde Freud evoca o que, por certo, concerne à "vivência" e
à_"resi_srência'_' transfcrenciais, mas, de um modo ainda mais pre-
mo, dtz respeJto a figuras e situações onde se defrontam a razão do
analisando c a do analista. São aqueles momentos em que "eles têm
palavras'' - que se devem entender literalmente como debate e
''confrontação" - no sentido próprio de combate. São os momentos
de ''antagonismo verbal ''.
. , R~conhece-se aí a seqüência dialética: uma asserção subme-
uda a discussão, duas convicções que se defrontam, de sorte que se
desencadeia uma "crise", a qual requer um desfecho "racional" de
dete~inado ~ênero. C! que é justa'mente notável é que as objeções
de W mgenstean perm1 tem levar em conta uma verdadeira família
de textos freudianos que são dedicados a esse gênero de "situações"
de confronto.
É possível ~sboçar, a_liás, uma pequena tipologia. O primeiro
gênero- o mats determmante na aparência - é o de uma inter·
pretação que é objeto de um debate entre os parceiros da análise.
E!se debate foi encontrado por Freud, de maneira precoce e espe·
ctfica, em torno da questão dos sonhos; é ali, com efeito, que 0 de·
bate "hermenêutica" se revela mais vivo (infra, J. 11). Mas seria fi-
~almenre !ormulado, em sua generalidade, através da questão da
construçao' '.
O segundo tipo é fornecido por uma controvérsia sobre uma
asserção determinada: é ~esse gênero que se pode classificar o "fal.
so reconhecimento de lembrança" e o fenômeno da "denegação".
Nesses casos, o problema da "construção" coloca-se às avessas: diz
'54
respeito a uma asserção ou uma formulação do analisando, a qual
dá lugar a um verdadeiro lirígio intcleccual que culmina numa evo-
lução da própria relação. Esse gênero de "casuística'', que pane de
peq uenas cenas típicas, assume sua verdadeira significação vincu-
lada ao problema genérico do assentimento analítico e da lógica es-
pecífica que Freud aí introduz.
Começaremos pelo exame desses dois momentos em que are-
lação se mostra, de cerra maneira, "ao vivo", antes de voltarmos à
questão da consrrução, a qual constitui a resposta mais sistemática
ii questão da interpretação e do assentimento.
Com efeito, há muitos casos em que o analisando se encontra
em posição ativa de contestação :intelectual.
Isso manifesta-se sempre através de uma pequena cena preci-
sa de antagonismo em que o sujeito argumenta com base numa cer-
reza que o analista não pode compaailhar. Assinale-se que, nesse
caso, é o analisando quem, de fato, se coloca em posição de autori-
dade intelectual, enquanto em oucros é o analista quem está em
posição de "decidir".
O analisando retira essa autoridade de sua convicção pessoal.
Assim: "Acontece com freqüência, no decorrer de uma sessão de
análise, o paciente acompanhar o relato de um evento de que aca-
bou de se lembrar com esta observação: 'Mas eu já lhe contei isso',
quando o analista tem a ceneza absoluta de estar ouvindo essa his-
tória pda primeira vez." 36 Eis a situação de antagonismo típico:
qual dos dois "tem razão"? Como Frc:ud o reconhece com argúcia:
"Uma das duas opiniões deve necessariamente ser falsa."
O analista não se apóia no pretendente à verdade para invali-
dá-la- como Wingensteín poderia supor. Ele constata, com efei-
to. que: "Se, em semelhantes casos, se chega a contradizer o paciente,
este protesta com energia, dizendo estar certo de que tem razão,
que está pronto a jurar etc." Em suma, ele coloca sua crença em jo-
go- e talvez a relação toda. "Ora, o analista está cada vez mais con-
vencido, em idêntica medida. da novidade do que acabou de ouvir
da boca do paciente." Assinale-se que, nesta fase do "debate", es-
tamos apenas diante de um choque de "opiniões" entre duas pes-
soas de boa-fé que descobrem a incompatibilidade das respectivas
asserções.

55
Acontece que, nessa relação particular em que o inconscien-
te de um dentre eles está associado ao proçesso, é efetivamente o
in co~sciente que deve decidir. Freud sugere-o quase nesses termos;
é o inconsciente do sujeito que sabe quem tem razão e especialmente
no que se refere ao caráter inédito ou não da lembrança. · ·
Nesse meio-tempo, é o analista quem deve ceder. " É preciso,
portao to, ceder nesse ponto ao analisando e aguardar uma ocasião
favorável para restabelecer a verdade." 37 Pois na maioria dos casos
"é o analisando quem se engana e o analista poderá então levá-lo
a reconhecer seu equívoco". É que se está em presença de um " fal-
so reconhecimento" de lembrança, ou seja, de uma impressão de
déjà raconté (já dito, já contado), que constitui um dos momentos.
de verdade do "t.ratamento psicanalítico".
Como o que nos importa, no caso, é a questão de assentimento,
observa-se que o analista está em posição de abdicar - provisoria-
mente- da razão, de fazer crer, aos olhos do analisando- com
ceneza, sentindo-se um pouco triunfante - num lapso de sua pró-
pria memória, pon amo, de sua "razão". Em suma, ele aceita ter o
ar de quem se submete na relação.
É que esse erro de memória tem características muito pani-
culares. Ele consiste em que "o paciente parece ter tido realmente.
a intenção de contar o fato em apreço e que, por uma ou mais ve~
zes. tenha formulado a seu respeito alguma reflexão preliminar, mas
uma resistência, tendo-o impedido de realizar seu projeto, o fez em
seguida confundir intenção e realização". Em resumo, ele cr~
reconhecer-se como locutor - ao contar o episódio ao seu analis-
ta, quando reconhece apenas a intenção que teve de o fazer ..:
Compreende-se que, no tratamento, esse " buraco de memória" vá
buscar sua significação, tanto quanto no próprio conteúdo, na re-
l~ção com aquele a quem julga ter contado a história, quando efe-
ttvamente não o fez.
. O exem pio citado por Freud não é outro senão a descrição da
a~uctna~ão do dedo cortado de "O homem dos lobos": "Um pa-
ciente d•z-me, durante suas associações: 'Eu tinha então cinco anos,
um dia brincava no jardim com uma faca e cortei o dedo mínimo...
quer ?izer, eu somente imaginei que o tinha conado - mas já lhe •
comet esta história.' "38 Eis a pretensão, cujo tom aftimatim e pe-
remptório é patente. Desta~. porém, é Freud quem objeta: "Afir-
S6
rno então não conhecer absolutamente essa história." Segue-se a in-
dicação típica de insistência: "Ele insiste com u;na crescente con-
vicção, garantindo estar certo de não se enganar." Donde a estraté·
gia freudiana: não insistir, mas retornar ao próprio conteúdo: "Po-
nho fim à discussão da maneira que descrevi mais acima e peço-lhe,.
seja como for, que me repit.a sua história. Nós a julgaríamos em se-
guida."
Eis que surge o "nós", essa instância do consenso esperado,
com base no conteúdo a examinar. Isso culmina na capitulação: " O
paciente admite rapidamente que não podia ter-me contado an-
ces a história dessa visão ou dessa alucinação." A prova disso é que
"eu certamente não teria deixado passar, sem um comentário, se-
melhante prova de um medo de castração experimentado aos cin-
co anos de idade". Frcud declara até que "ele, que se mostrara até
então muito cético no tocante a esse complexo, reconheceu desde
então a sua existência". E há mais: o paciente anicula a pergunta
tão pertinente: " Porque, então, estaria eu convencido de já lhe ter
contado essa história?"
Assim, não basta ter rechaçado a convicção ilusória: é neces-
sário fa zer dela a teoria retrospectiva. Aí se vê desalojada e posta a
nu a recordação encobridora, tão importante que o sujeito uma vez
mais confundiu a intenção de dizer e a sua concretização.
O caso do falso reconhecimento é decididamente imponan·
te, pois o tema da ilusão é o mesmo da cura. A prova disso está em
que Freud não admite melhor sinal do fato de que ''o problema da
análise est.á resolvido" do que o fato de, "após ter-se conseguido
fazer o paciente admitir, a despeito de todas as resistências, o inci-
d~~te real ou de natureza psíquica e de, de algum modo, ter-se rea-
biltrado este último, ouvimos o paciente dizer, às vezes: 'Agora pare-
ce-me que nunca o deixei de saber.' ''}9 Isso equivale a dizer que
ele sempreJe soube- de, sujeito de setl recalcado - mas que um-
bém precisou de tempo para compreender, ou seja, para chegar ao
lugar de sua verdade. Lugar do falso reconhecimento tornado
Patente.

O fenômeno de "denegação" -tão freqüentemente citado


-nos imeressará aqui por sua natureza ..dialética", no sentido acima
sublinhado. À força de se lhe solicitar o conteúdo próprio, talvez
57
tenha sido mal avaliado o seu lugar no gênero - dialécíca do as-
sentimento - que procuramos enfatizar.
O seu centro é. com efeito, o pacien te-locu ror e a maneira co-
mo ele apresenta "no decorrer do trabalho. (suas) idéías inciden-
tes" (Einfállej4°. Mas a especificidade dessa asserção particular con-
siste em que, longe de abrir o debate com o analista ou mesmo de
se defender como ''convícção' ', ela parece pôr fim por si mesma. de
forma peremptória, a toda e qualquer discussão. Ou, melhor ain-
da, da dirige-se efetivamente ao analista como destinatário aparente,
mas é com o propósito de pôr fim a uma objeção antecipada: "Vo-
cê vai pensar agora que quero dizer alguma coisa ofensiva" ou "vo-
cê talvez esteja perguntando quem poderá ser essa pessoa no sonho"
- e depois vem a invalidação: ''Mas eu não tinha efetivamente es-
sa intenção", "Não é a minha mãe." Observe-se, neste tittimo exem-
plo dado por Freud, que estamos uma vez mais no debate sobre a
interpretação onírica.
Mas justamente, não estando abeno o debate - uma vez que
o paciente monologa, ainda que seja com a atribuição ao Outro de
uma "opinião" -. o analista nem mesmo tem ocasião de se colocar
como impugnador. Quando Freud diz: "Compreendemos que é.
o retomo, medían te projeção, de uma idéia incidente que acaba de
emergir" ou: "Nós corrigimos: é sua mãe", essa compreensão ou
essa retificação (literalmente: essa "reparação") antecipadas são si.:·
lenciosas. É preciso traduzir a asserção: "É como se o paciente ti.f.
vesse dito: 'Sem dúvida, a propósito dessa pessoa foi a idéia de mi~·
nha mãe que realmente me acudiu, mas não tenho o menor prazei.
em dar crédito a essa idéia incidente.' " ~:
Reconhece-se a estratégia freudiana de dilação, característica
desse tipo de situações. Trata-se de obter o "esclarecimento:· - por·
tanto, a confirmação da hipótese - através de uma pergunta-ar..
madilha para a "denegação", do gênero: "O que poderá você con~
siderar o mais inverossímil em toda essa situação?" 41 Note-se que~
neste pomo, o sujeito do assentimento está, de ceno modo, con-<
tornado: procura-se fazer, por antítese, que o sujeito inconsciente,
designe aquilo em que teria menos probabilidades de assentir!
• É justamente porque a denegação é típica da separação da
"funçio intelectual" e do " processo afetivo" que seria inútil soli·
citar a menor adesão consciente. Mas como, por outro lado, houve.:
de fato, "uma espécie de acei~ção intelectual do recalcado, ao passo
que persiste o essencial do recalcamento" 42 , é possível apoiar-~ na
dialética do sujeito com o seu recalcado, até em seus concomitan-
tes intelectUais.
A "negação" toma-se, portanto, a "marca de fábrica" do re-
calcamento, o que encontra sua significação na dialética da assun-
ção e da exclusão. Percc~-se que·Freud não poderia tratar a fun-
ção de julgamento nem mais nem menos d~ .q ue o .que ela é, o~
seja, um cena jogo com o recalcamento. Auvtdade mtel~ctual SI-
multaneamente preciosa e subordinada a outra economta.
Ainda sobre isso, não fonuiwnente, a prova de que se atin-
giu o objetivo desejado é um desses enunciados produzidos por tal
economia parasitária da economia do julgamento: "Não há prova
mais fone de que conseguimos descobrir o inconsciente do que ver-
mos o analisando reagir com estas palavras: 'Não pensei isso' ou 'não
tinha pensado (nunca) nisso.' ''43

5. Da construção (I() sujeito do assentimento

É notável que seja no momento em que se decide a especifi-


car a questão da interpre~ção levando em conta a "convicção" do
paciente que Freud inuoduza um ponto de vista da "construção"
- ou seja, no início dos anos 20. É na base de tais t~os que o diá-
logo entre Freud e Wittgenstein parece começar, como se o texto
freudiano produzisse ent.ão um "ec_o" das admoestações que lhe
eram feitas (sem que se desse con~) por seu futuro detrator.
Freud assinala essa evolução no principio do capítulo III de
Para além do prindpio de prner, quando reconhéce que, sob s.u a
primeira forma, "a psicanálise era, antes de mdo, uma arte de m-
terpret~ção"«. Sob a pressão insiStente das "resistências", impôs-
se a realidade da relação terapêutica: "O paciente não pode lem-
brar-se de tudo o que nele está recalcado, e talvez, precisament~,
o que ele não pode recordar seja o essencial. Assim,.ele não ~dqu~;
re a convicção da peninência da construÇão que lhe foa comuruc:ada. ·
Freud solta, por assim dizer, esse novo tenno a prop6stt? do
fenômeno de "repetição" -citado como suscetível de abrevaac o
processo de rememoração. Esta fornece, portanto, a ocasião de re-
59
cordar que o essencial se desenrola no eixo da rememoração, a qual
exige, ela própria, uma "comunicação". Tal é a "interpretação" que
deve, com efeito, ser uansmitida e suscitar essa "convicção", sem a
qual fracassa "o efeito terapêutico" 4 ). É esse aspecto "relacional"
que a idéia de construção adiciona à idéia de "interpretação": se
esta última está centrada no objeto, a primeira lembra que ela se
inscreve nwna dialética do assentimento. Ao mesmo tempo, Freud
penetra, enfim, no mesmo nível da problemática que Wittgen-
stein explorou.
Mas, nessa primeira fase, acontece que Freud apresenta a cons-
trução e a informação em dois tempos separados. Assim, em 1920:
"Num grande número de casos, a análise divide-se ... em duas fa-
ses nitidamente separadas: numa primeira fase, o médico adquire
os conhecimentos (Kenntnisse) necessários sobre o paciente, faz-
lhe conhecer os pressupostos e os postulados (Voronderstellungen
und Poslulaten) da análise e desenvolve diante dde a construção
da gênese (Entstehung) do seu mal, para o que se crê autorizado
(berechtigt) na base do material fornecido pela análise. Numa se-
gunda fase, o próprio paciente apossa-se do material posto à sua dis- .
posição, uabalha-o,lembra-se daquilo de que é capaz de lembrar-
se entre tudo aquilo que nele se dá por recalcado; e, quanto ao res- .
to, esforça-se por repeti-lo numa espécie de reanimação
(Neubelebung)."46
Essa apresentação ''bifásica'' coloca o analisando em posição
de espectador-destinatário na primeira fase, durante a qual, de ceno
modo, só o analista parece "trabalhar". Observe-se, além disso. que
a informação dos "pressupostos e postulados" da análise está pre-
sente no mesmo "pacote" de construções que os conhecimentos so-
bre o paciente- como se tudo isso devesse preparar o assentimen-
to. A "construção" apresenta-se, ademais, como uma espécie de re-
lato reconstruído de sua própria história: o analista tem de fazer o
. papel de romancista da história do sujeito, na condição de que só
utilize o "material" fornecido por este último.
É numa segunda fase que o analisando se dedica a "trabalhar"
por sua conta nessa construção, a qual se converte, por sua vez, em
material de remem oração e de repetição. Freud apresenta as coisas
como se a construção fosse destinada à rememoração e, complemen-
tarmente, à repetição (como efeito que deve ficar sendo subsidiário).
60
É só então que o sujeito pode ''formar uma opinião" sobre a
validade da construção: "Assim fazendo, ele pode confirmar (bes-
tiitigen), completar (ergiinzen) e retificar (nchtigstellen) as teses
(Aufitelfungen) do médico." Freud parece querer subordinar rigo-
rosamente a avaliação da "tese" ao seu trabalho preliminar. É que
os momentos do assentimento e do consentimento não são prévios,
mas consecutivos ao trabalho ("'frabalhem primeiro a construção
e logo acreditarão nela"): "É somente durante esse trabalho que
ele experimenta, ao superar as resistências, a mudança interior que
se tem por objetivo final, e que adquire as convicções que o tornam
independente da autoridade médica." Por conseguinte, é somen-
te ao ser convencido pelo analista que o analisando encontra sua sal-
vação e sua autonomia.
Freud compara essas duas fases à dos preparativos da viagem
e do próprio viajante. Quer isso dizer que, durante a construção,
"o sujeito não avança um único quilômetro" em direção ao seu ob-
jetivo. Mas não poderia viajar sem esses preparativos. Se bem que
"dialetize" esse processo no seu texto ulterior, Freud revela aqui o
que continua sendo essencial: a divisão de tarefas. Esta possui prin-
cipalmente um efeito que interessa ao impugnador wittgensteinia-
no: o assentimento é sempre reação a alguma coisa que lhe é "ofe-
recida'', mesmo que seja ''construída" expressamente para ele e ainda
que o material tenha sido por ele fOrnecido. Deve-se justamente "tor-
nar o sujeito propenso" a aceitá-la. na ausência do que nada se passa.

É em Constructions dans l'analyse (1937) que Freud foq:nula


a questão do assentimento na análise com uma precisão tal que pa-
rece responder de antemão às objeções formuladas apenas uma de-
. zena de anos mais tarde.
O impugnador - "um cientista de mérito" por quem Freud
afirma alimentar estima, como que para prevenir a idéia de uma
hostilidade de princípio para com a psicanálise, e que teria "feit6
justiça à psicanálise num momento em que a maioria dos outros
não se acreditava em condições de apoiá-la"47 - teria podido ser
Wittgenstein, a tal ponto seus argumentos se assemelham aos das
Conversações.
Trata-se de uma "declaração" (Aüsserung) qualificada como
"contundente", tanto quanto "injusta". Freud mostrará no que ela
61
é "injusta" -será em seguida interessante indagar-se em que é que
também a considera "contundente" (kriinkend).
A formulação da objeção é a seguinte: "Quando propomos
nossas interpretações a um pacienre", diz Freud, "agimos em rela-
ção a ele segundo o famoso princípio: 'Cara eu ganho, coroa você
perde.' Ou seja: se ele está de acordo (zustimmt) com a interpreta-
ção, tudo bem; mas sede a contradiz (widerspricht), isso nao passa
de um sinal (Zeichen) de sua resistência e continua a dar-nos ra-
zão." Desse modo, temos sempre razão contra esse pobre ser impo-
tente (hilflose) que analisamos, seja qual foro seu componamen-
to em face das nossas afirmações (Zumutungen) .
Percebe-se que ·cada palavra pesa aqui, pois eslamos em ple-
na resposta freudiana ao Impugnador racional. Tudo pane da "pro-
posição" do analista- a quem gostaríamos de chamar, neste caso,
"analisador" - ao analisando. Ao "propô-la", ele expõe-na a uma
"validação" pelo interessado. Isso transforma a " interpretação" -
que, literalmente, se baseia "na própria coisa" - numa "proposi-
ção", da qual alguém é destinatário. O impugnador, sublinhe-se;
quer que se formule o problema da validade em termos universais:
trata-se do "paciente" como sujeito racional que está em posição
de reagir a essa "proposição" de interpretação. Teria assim que pro-
por-se acerca de sua "exatidão".
Ora, o impugnador constata que o jogo está falseado, uma vez
que a aprovação é invalidada: ela expressa-se infalivelmeme em pro-
veito do analista "proponente", condutor do jogo·de "cara ou co- ·
roa". Há um, nessa interação, que tem sempre razão, que tem ara~
zãó do seu lado. A aprovação é acolhida como ponto pacífico, pois
que "valida" a proposição; a ''negação", pelo contrário, é tratada
como "sinal" de resistência. Freud escolheu bem o termo: o "sim"
é axiomático, o "não" é tão pouco axiomático que assinala outra
coi.sa, a quai não é senão a resistência. O analista é colocado em po-
. síçãode ''má-fé'', uma vez que trata uma vinualidade(positiva)como
um foto e aoutra (negativa) como um sinal, o que equivale a invali-
dá-la. Ora, a possibilidade de que uma ou outra sejam verdadeiras
nada mais é do que a da " liberdade" do sujeito.
Isso conduziria a desprezar o destinatário da interpretação. Me-
lhor ainda: ele é posto fora de jogo, por perda de seus direitos de
contestação. Ei-Io à mercê do grande Interpretador, que terá razão
62
·onera ele e- detalhe singularmente agravante-
l .
com
.
base na pró-
.
pria fala dele, paciente, atado à fala do analista. Ets o que·susctta
a "resistência" legítima do impugnador.
Ao evocar com uma ironia um tanto pesada "esse pobre ser
impotente", Freud aponta, não nos enganemos sob~e isso. o af~to
do impugnador racional , que simpat~zacomo.servíttmad_e tal vto-
lação dos direitos do interlocutor. Po1s, nessasttuação, es(ao envo~­
vidos três termos: o analista (ou seu represent;m te, Freud), o anali-
sando-tipo e o impugnador - a respeito de quem haverá oportu-
nidade de indagar qual é o seu lugar e a que título intervém entre
os outros dois.
Isso é "injusto", responde Freud- porque não é o que nós
fazemos: portanto, o processo do analista está deslocado. Mas t~­
bém é "contundente" porque isso afeta a inregridade do analtsta
- mais ainda em sua " função" (ética) do que em sua "pessoa". Por-
tanto, o impugnador levantou, pelo menos, uma questão impor-
tante: que gênero de "dever" obriga o analista a regular seu com-
portamento a respeito de um interlocutor de ocasião. o seu
analisando?
O impugnador é um "desmascarador" (Freud fala a seu res-
peito de Entlarvung) da técnica analítica - isso porque ~l.e pode
fazer o jogo dos adversários da análise. argumento apologeuco que
jamais deixa indiferente o promotor da psicanálise. Ele vai ~ostr~r,
portanto, que n:io se trata de " máscara", mas de uma práuca CUJO
espírito escapou ao impugnador. .
Para inocentar-se dessa acusação, Freud não uá reafirmar for-
malmente-os supostos direitos menosprezados do analisando. Man-
tém o problema no plano do analista como "juiz": "Va,l~ a pena
apresentar em detalhe como. durante o tra~amento analmco. ava-
liamos (einschi#zen) o 'sim' e o 'não' do paetente, ex.I?r:ss<>es d~ seu
assentimento (Zustimm ung) e de sua contradtçao (Wt~er­
Jpruch)."48 Assim fazendo. nada se .ensinará ao próp;i? anahsta.
mas muita coisa ao impugnador, le1go da própna prauca.
Tudo pane da regra de rememoração- "ele deve lembrar-
se...". Por conseguinte, ele coloca à disposição do analista "ma~~­
riais", "fragmentos de lembranças'', cuja "exploração" deve per~1t1r
ao segundo "enveredar pelo caminho das lembranças perdtdas -
c
com base na relação de transtcrencta.
A • 1mervem, a1" a função do ana-
63
lista como "construtor": " É preciso que, de acordo com os indícios
que escaparam ao esquecimento, ele adivinhe ou, mais exatamen-
te, construa o que foi esquecido." 49
Essa noção de "construção", ao especificar a de "interpreta-
ção", instaura uma forma especial de comunicação. Observa-se, com
efeito, que enquanto Freud acentuava a interpretação o centro de
gravidade continuava sendo agora o próprio objeto, estando fixa-
da a divisão de tarefas: ao analisando cumpria rememorar, ao ana-
lista construir. Resta uma " interfuce" dos dois "estaleiros": "O modo
e o momento de comunicar essas construções ao analisando, as ex-
plicações com que o analista as acompanha, eis o que constitui a
ligação entre as duas partes do trabalho analítico, a do analista e a
do analisando." Assinale-se ainda que as "explicações" são, en pas-
sant, introduzidas como complemento persuasivo das "construções".
"Explicar" signifaca, neste contexto, "motivar" suas construções para
tomá-las admissíveis e dignas de crédito para o analisando.
A questão do assentimento é, portanto, deslocada: já não se
trata apenas de entregar -se à interpretação, mas de se convencer do
fundamento objetivo da construção do analista. Assim. de um la-
do, a noção de "construção" é o reconhecimento mais acentuado
do problema que a interpretação constitui: ela refina-lhe, aprimo-
ra-lhe, a moddização. Mas, por outro bdo, a reivindicaçãõ de ob-
jetividade do analista reforça-se - se, pdo menos, se abordar a ques-
tão do ponto de vista para o qual W ittgenstein justamente nos
sensibilizou.
Intervém aí a famosa comparação com a arqueologia, como
reconstituição de um material deteriorad<Y 0. Mas esse material tor-
nou-se presente pela repetição ativa. Sobretudo, a construção é um
trabalho fragmentário e seqüencial: "O analista conclui um frag-
mento de construção e comunica-o ao analisando para que aja so-
bre ele; com a ajuda do novo material que aflui, outro fragmento
é ~onstruído, que o analista utiliza da mesma maneira, e assim por
dtante, até o ftm."~ 1 Ponanto, se o analisando "age", é como "as-
sociado" ao trabalho do analista. Este "comunica-lhe" asua cons-
rrução - alicerçada q1111 m4/ef'ÍII sobre suas rememorações, mas qua
forma sobre o trabalho artístico do analista: este devt, ponanto, "fa-
zer ~guma coisa". Sublinhe-se que a questão do assentimento, ainda
efeuva na problemática da intecpretaç.ão, é aqui recobena e "su-
64
plantada" pela da produção de novas rememoraç~s. Ele deve con-
sentir em rememorar-se: é essa aceleração da práuca da rememo ra-
ção que assinala o êxito da construção, muito mais do q~e um "sim"
(ou um " não") que seria apenas " rendição". Pode-se mdagar se o
objetivo primacial d e Freud não seria definir a c~ c~OfoOO um p~o­
cesso de rememoração, não passando o resto de penpectas ou meios
subordinados. Em todocaso, a "construção", interpostaenueoana-
Jista e o analisando, tem como efeito- se bem que não redutível
mecanicamente a essa finalidade- fazer calar os ·"estados de al-
ma" subjetivos e dubicativos.
.Assim fazendo, Freud está perfeitamente cônscio de quedes-
loca a questão da validade do conteúdo da interpretação para ale-
gitimidade do trabalho de construção: "O que é que nos garante,
enquanto trabalhamos nas construções, que não enveredamos por
um caminho errado e não comprometemos o êxito do tratamento
sustentando uma construção inexata?"n Uma vez mais, Freud
apela para a "experiência analítica" contra todo o enfoque formal
da questão, e é para afirmar a inocuídade do erro: "Não provoca-
mos dano se nos enganamos uma vez e apresentamos ao paciente
uma construção inexata como sendo a provável verdade histórica."
Esse direito ao eTTO único revela, en passant, até que ponto Freud
se conserva próximo, por sua temática da "construção'', de uma con-
cepção "objetivista" (um único eno separaria, portanto, uma "cons-
t rução" aceitável de uma verdade histórica "incontestável" ou "in-
conrestavelrneme provável" ?!).
É não menos revtlador que ele apresente a questão do eTTO
eventual em tennos de ganho ou de perda na credibilidade: "Aquele
que só sabe propor ao paciente combinações constantemente fal-
sas não produzirá nele uma b()(l impressãc (o grifo é nosso)- o que
é tão embaraçoso quanto " não ir longe no uatamento". No caso de
um erro p2SSageiro, "o paciente não parece afetado~ não reage com
um sim nem com um não". Cabe ao anaHsta compreender que se
enganou : " Podemos concluir que nos equivocamos e, ~m perder
por isso a nossa autoridade, confessá-to-emos ao nosso paoente numa
ocasião propícia." Quando, pois, se imporá a "confissão" ao escin·
dalo? Quando o material for assinalado de novo: "Qu~do apare-
cer um now material que permita uma construção m a•s adequa-

65
da, portanto, a correção do erro." Por conseguinte, a "consecução
errônea não deixa mais vestígios do que se nunca tivesse sido feita".
Este último ponto confirma haver momentos em que o ana-
~ista pode enganar-S(, corrigir-se e depois tirar-se de apuros sem que
1sso acarrete uma incidência sensível sobre a própria relação - o
que atc;sta não tratar-se, a bem dizer, de uma "relação", mas de outra
coisa. E que Freud imagina o sujeito tão implicado em seu traba-
lho de rememoração que o trabalho do analista constitui apenas um
elemento secundário quanto aos prazos de sua própria investiga-
ção. Portanto, é lícito supor que a "construção" só interessa ao ana-
lisando e o implica segundo suas incidências sobre a rememo ração.
Portanto, numa obs~rvação minuciosa das circunstâncias, é por-
que Freud considera a "construção" como a serviço do "rememo-
radar" que ele pode atribuir-se paradoxalmente direitos tão ativos
em sua própria função de ''construção''. É algo desse paradoxo que
Wittgenstein ajuda a reinterrogar.
Isso permite perceber que a conotação arqueológica da Kons-
truktion freudiana nada tem de funuíta. Ela obriga a concebê-la
como reconstrução de wn objeto que, emhora atualmente fragmen-
tado, remete a uma totalidade e a uma integridade passadas. Tra-
ta-se de exumar "uma morada destruída e soterrada" ou "um mo-
numento do passado"B. Neste caso, o material é fornecido por
"pedaços de lembranças, associações e declarações ativas do anali-
sando". Precisar que esse objeto está "ainda vivo" (como um cadá-
ver que ainda se mexe?) só faz reforçar a imagem de uma objetivi-.
dade por exumar.
Freud, entretanto, corrige essa idéia po~ meio de dois comple-
mentos. Por um lado, essa "reconstrução" não poderia ser feita no
objeto sem a sua cooperação: "Ambos (analista e analisando) man-
t~m . sem contestação, o direito de reconstruir, completando e reu-
mndo os restos conservados." Por conseguinte, o analisando está en-
volvido duas vez es, como "material" vivo e como recons-
trutor-adjumo(!).
Por outro Jado, a "reconstrução", "meta" e "finalidade" do
esforço do arqueólogo, é para o analista apenas um "trabalho pre-
liminar". O que é ainda preciso?Justamente o consentimento real
que permite ao sujeito-destinatário da construção (terceiro papel
66
do analisando) autenticara construção vinculando-a ao seu próprio
movimento de rememoração.

6. Do suj eito do assentimento ao real

Em sua argumentação contra o impugnador, Freud volta da


"construção" à questão da avaliação do assentimento. Isso signifi-
ca que este é int eiramente " ava liad o" levando em co nta a
''construção''.
Ele pode agora afirmar que "não estamos absolutamente dis-
postos a negligenciar os indícios (Anzeichnen) que se possam de-
duzir da reação do paciente à comunicação de uma de nossas cons-
truções". 54 Assim, o "sim" e o "não" têm de ser relacionados com
essa dialética da construção e da explicação descrita mais acima. Não
emanam de algum sujeito autônomo; enquanto "re-ações", podem
e devemsertratadoscomo "indícios". Portanto, "sim" e "não" na-
da querem dizer em si mesmos: "É verdade que não consideramos
um 'não' do analisando inteiramente válido, mas isso não significa
que um 'sim' tenha maior aceitação."
Recorde-se que o impugnador acusava o analista de transfor•
mar tudo em "sim", explícito ou virtual (deformado pela resistên-
cia). Freud, por sua precedente mudança de cena, pode desacredi-
tar o valor absoluto do "sim", tanto quanto o do "não": o sujeito
que oferece um assentimento positivo pode achar de "seu interes-
se que tal consentimento continue escondendo a verdade não des-
coberta". O verdadeiro "sim" não provém do assentimento verbal ,
mas da produção rememorante ulterior, se "o paciente produzir no-
vas lembranças que completem e amp!Íem a construção". Desta vez,
o analista pode reconhecer que "o seu 'sim' coloca um ponto final
no problema em apreço". O certificado de autenticidade pode ser-
lhe (provisoriamente) fornecido com base nesse trabalho de
conscrução.
Quanto ao "não", não diz mais do que isso: de" não prova· · ·
nada quanto à exatidão da construção". Tampouco é insignifican-
te: significa que "mantém sua contradição em função da pane ainda
não desvendada". Fórmula essencial, a qual atesta que Freud en-
tende unicamente o /JSsensus, nesse contexto, como uma "sonda-
67
gem" no processo de o-vn.remus, e nada mais do que isso. Portanto,
o "não" é privativo: de mede o estado do relacionamento do sujei-
to com o conhecimento. É preciso, pois, compreender que, quanto
mais essa parte da verdade não desvendada for imponame, mais
o sujeito será propenso à contradição. É na medida em que suas idéias
forerà menos "mutiladas e confusas", que sua adesão positiva au-
mentará: "De um modo geral, ele só dará seu acordo depois de ter
conhecido a verdade inteira, o que está freqüentemente muito longe
de ser alcançado."
Nada de mais "spinozista", nesse sentido, do que o veredicto
de Freud: "A 6nica interpretação segura do seu 'não' é, potUnto, que
a construção ficou .incompleta e cert2mente não lhe revelou tudo."
Mas, tendo chegado a eSse ponto, Freud, no fúndo pouco.sa-
. tisfeito com essa formulação em que o assentimento tende a redu-
zir-se ao consentimento (mais ou menos completo), sente a neces-
sidade de designar os indícios que, do lado do próprio sujeito, mllr-
cam o assentimento. Pois se ele deve "consentir na coisa", é ele pró-
prio quem deve fazer o sinal aprovador. Mas de que natureza será
essa aprovação? Certamente não é um assentimento consciente e
explícito - cujo valor acaba de ser relativizado. Ponamo, o fará pelos
"modos indiretos" de "confirmação", por uma dessas fórmulas es-
tereotipadas que se assemelham a um tique verbal: "Nunca pen-
. sei (ou jamais pensaria) nisso.'')) Freud, tão desconfiado em face do
''sim'' explícito, torna-se categórico: "pode-se confiar inteiramen-
te" nessa aprovação, visto que "pode-se traduzir essa expressão por:
Sim, nesse caso você atingiu em cheio o inconsciente". A verdadei-·
rafurma de dizer: "É isso-mesmo!" é dizer, de maneira camuflada:
"Touché!"
Vê-se que Freud ~neu por completo a situação fawrável que
o impugnador wittgensteiniano tinha: ele nada pede ao.rujeito v.er·
bal do assentimento. Encontra-o no sujeito do incomciente, mas
à revelia de sua própria verbalização. Dír-se-á neste caso: mas é ele,
o analista, quem traduz assim. Freud sublinha o fato de que essa·.
fórmula de aprovação não pôde sequer ser imaginada pelo analista
- supondo-se mesmo que ele a tivesse sonhado como a confirma-
ção ideal. É inteiramente ao analisando que cabe tal i.ni.ciaciva. Como
no caso da denegação, existe aí uma "marca de fábrica" que asse·
gura a proveniência inconsciente. Isso é inacessível à estratégia de
68
sugestão, por menor que seja, salvo se pensarmos que o próprio in-
consciente do sujeito lhe foi "sugerido'' pelo analista: "Tenha um
inconsciente para me dar prazer!" Fórmula que, de resto, não é in-
teiramente absurda, porquanto poderia revelar o conteúdo real da
suspeita levantada pelo impugnador wittgensceiniano em relação
à prática analítica.
Em face dessas confirmações preciosas, embora, no fim de con-
tas. raras e limitadas, asaprovaçõesverbaissão "equívocas". Não exis-
te, decididamente, um momento decisivo em que toda a verdade
seria exposta: é necessário transferir esse momento para o processo,
tendo como único imperativo a fórmula nesuoyiana: "No decor-
rer dos acontecimentos tudo ficará daro.'', 6
Existe, aliás, uma contraprova tão estranha quanto interessante
em que o analisando peca, aos olhos de Freud, por um excesso de
consenso. lDnge de se rejubilar com isso, como Wittgenstein deve-
ria pressupor, o analista sente a necessidade de desbloquear a situa-
ção: como no caso do "Homem dos lobos", que "considerava seu
estado atual muito confortável e não queria dar nenhum passo que
o avizinhasse do final do tratamento". Freud viu aí ''um caso de au-
to-inibição da cura".
Desta vez, aquilo de que é necessário convencer - sem mais
delongas- o sujeito, é da determinação de pôr fim ao "contrato".
É desse lado que se decidirá o destino da transferência: "Declarei
ao paciente, quando de um regresso de férias, que esse próximo ano
seria o último do uatamenco, o que quer que ele pudesse fazer du-
rante o tempo que Jhe era concedido. Ele não me deu de começo
nenhum crédito, mas, depois que se convenceu da seriedade ina-
balável de minha intenção, sobreveio nele a mudança desejada, ou
seja, a redução das resistências.''
Essa "medida de extorsão" é uma verdadeira violência verbal
que tem por efeito e finalidade quebrar o consenso. Nesse caso, o
analista, como o leão, só tem que dar um salto. " Meio técnico vio-
lento", o qual mostra que a lógic,a do assentimento deve ser que-
brada a fim de se apreender, para além do consenso formal, o aces-
so ao próprio real do inconsciente.
Mas a própria imagem mostra que o consenso, no qual Witt-
g_enstein vê o triunfo do analista, pode suscitar justamente o mai~
fume golpe de força do analista. E que este se empenha em que so
69
se adira à própria coisa. É necessário, ponanto, encurralá-lo. impe-
di-lo de agir, e só dar um salto sobre a própria coisa, que ele evitava
cuidadosamente, acobertado pelo "assentir" docilmente ao ana-
lista. Prova de que Freud prefere que o sujeito lhe prefira sua coisa!
No máximo, consente em fazer-se amar para "convencer" o sujei-
to a retornar à própria coisa. Mas nesse caso deve reconhecer que
a tensão enrre um e outro pertence à própria estrurura do tratamento.
O essencial é levar o sujeito a situar-se nele.

Eoconua-se, entretanto, um último ressalto nesse manifesto


da construção analítica. Ele é anunciado, no fundo, pelo fato de que
desse imperativo maior - o de diferir sempre para a seqüência do
processo o ad vemo da verdade - poderia ser dada uma interpre-
tação justamente vaudevilesca: como um argumento preguiçoso para
evitar o confronto com o antagonismo.
Normalmente, "o destino da 'suposição' (do 'construtor') é
'transformar-se' em convicção no paciente". Há apenas um " mas":
quando "o caminho que pane daconstruçãodoana.Listadeverialevar
à recordação do analisado", é forçoso constatar que " nem sempre
de conduz a isso". Acontece que, "com muita freqüência, não se
consegue faur com que o paciente se recorde do recalcado". Está
todo ele comprometido? Não de todo, visto que " uma análise cor-
retamente conduzida o convence firmemente da verdade da cons-
trução"; ou, "do ponto de vista terapêutico", isso .. tem o mesmo
efeito que uma lembrança recalcada".
Assim, Freud confia in extremis em que os destinos da reme-
moração e os da construção, aparentemente tão li~dos, podem sepa-
rar-se "com freqüência". O que não logrou soar como platonismo
paradigmitico con~ne-se num firme pragmatismo. Mas Freud adi-
ciona a esse pragmatjsmo um insistente objecivismo. Por uma par·
te, ao dizer que isso se passa "com freqüência", ele mantém a pos-
sibilidade de um desenvolvimento "normal" ou "dominante" em
que a construção deve conduzir ao recalcado. Ponanto, nio gene-
raliza o pragmatismo, como s~ sugerisse: é preciso ser "construcio-
nista", tanto quanto possível. E permitido, entretanto, em casos de-
terminados, comentar-se apenas com a construção. como se fusse
melhor contentar-se com os ''andaimes'' quando não se pode c:ons-
70
uuir o edifício todo, dizendo: "Thnto p~or, isso vem a dar no mes-
mo". A construção, meio da rememoração, convene-sc em fim, de
fato, por assimilação ao fim propriamente -~to que ~eve ,d~ ser aban-
donado. Assinalemos que, nesse caso, o SUJeito desnnawto da cons-
trução reencontra um papel constituinte, visto que o efeito da cons-
trução sobre ele é doravante o único crit_ério de sua validade.

7. Da convicção ao real

Mas isso não é tudo: Freud, não podendo decidir-se a nos for-
necer esse pragmatismo como a última palavra de sua posição, vai
voltar a jogar toda a sua problemática num ousado lance de presti-
digitação. Enfraquecendo a ambição da construção, reduzindo-a
a um "efeito subjetivo", ele vai panir agora desse efeito para nos for-
necer nada menos do que a própria realidade, mais real do que a
construção-suposição, mais real do que o objeto da rememo ração,
o qual, como vimos há pol,lco, pode revelar-se inatingível.
Curiosamente, essa "realidade" é por ele introduzida sob a
forma de uma alucinação- a do paciente, que se converte, na pe-
na de Freud, na alucinação do próprio leitor que acredita ter en-
contrado ele mesmo o real. Trata-se do "fenômeno surpreendente
e inicialmente incompreensf~l" que produz na ocasião a comuni-
cação de uma construção: os analisandos sentem emergir lembran~
muito vivas, "excessivamente nítidas (überdeutlich)H, verdadeira
reativação de "traços mnésicos significativos". Em suma, um ~·frag­
mento de ~rdade histórica" é reexumado com a violência de uma
percepção.
Freud acolhe pressurosamente esses fenômenos, pois a fun-
ção de verdade da construção encontra-se singularmente reforçada
neles. Não é como "adequação do espírito à realidade" que a ver-
dade encontra sua definição mais certa? Ora, se o pr6prio real se
mostra, é como presenfa de um mais-além do colóquio do espírito
exposto à verdade. Em nenhuma parte, melhor do que nessa pr~­
sença, o problema é mais radicalmente "solucionado". Com efet-
to, o "duvidador" deveria calar-se, porquanto lhe colocam sob os
olhos o reaparecimento, mais ainda do que o real do recalcado, o
recalcado originário como rea!.
71
Mas justamente esse momento - muito localizado - não~
aquele em que o real histórico quebra o fio inteiro do discurso? Mo-
mento um tanto "místico" - e literalmente psicótico - da análi-
se em que o real da história retoma à cena atual para ocupá-la, sob
os olhos assombrados tanto do analisando quanto do analista. Mo-
mento do espetáculo~ que a construção "invocou" tão bem o real
recalcado que ele, à semelhança do Diabo no Farulo mostra-se. Para
1

terminar, o que Freud postula é um mais-além da construção. A


questão está em saber o que, para um olhar wittgenstciniano que
não concebe que se possa justamente sair da linguagem, isso revela
a economia da posição freudiana. Esse "buraco" na linguagem não
revelará que, em Freud, esta nunca funcionou fora da órbita de um
re,J?
Do ponto de vista de Win genstún, o problema que se apre-
senta é saber se taJ evento é realmente possível. Não é por acaso. pro-
vavelmente, que o Caderno pardo conclui com uma reflexão acer-
ca da "impressão de retorno ao passado")8 • Wittgcnstein pergun-
ta-se aí "qual poderá ser a diferença entre a imagem-recordação ...
e uma imagem do devaneio". Convida o interessado a explicar o que
entende por "reconhecer como tal uma imagem-recordação" c
apresenta-lhe, de cena forma, uma questão de confiança: ''Em que
momento você sabe de que gênero de imagem se rrata?" )9 Ele ad-
mite ser possível, para além da ducidação de "traços característi-
cos" da imagem.em apreço, "expor as impressões características de
lembrança, de expectativa etc., que podem acompanhar as imagens,
assim como panicubrickdes diversas, rw circuostânc.ias mais ou me~
nos próximas em que essas imagens nos apareceram". Mas o que é
então acionado nessa "evocação" são apenas as diferenças ineren-
tes aos "jogos de linguagem a que se referem os termos de declara-
ç<ks", por exemplo: "Lembro-me de sua cnuada no meu quano",
"Ele vai entrar no meu quano."60
Re5túãber se "a imagem-recordação não se faz ainda acom-
panhar ... de uma impressão característica de 'retomo ao p~·
do' " 61 . Esta n:io está necessariamente vinculada à experiência de re-
cordação ("quando me lembro de alguma coisa, nem sempre te·
nh~ esse gênero de impressão''). No máximo, é uma questão de pro-
sódia, entenda-se, de acenruação do "tom" com que exprimo a im-
pressão: " Há muito, muito tempo", como uma "tonalidade musi-
72
cal". Mas reencontra-se aí o círculo que será reaprcsentado - na
mesma época- por Freud com a noção de "verdade histórica": "Po-
derei dizer que o fato de ouvir essa melodia na interpretação que
lhe convém constitui realmente a expressão do retorno ao passado,
ou deverei dizer que a impressão de retorno ao passado acompa-
nha essa melodia que determina essa impressão? ... Poderei desco-
brir a.lgo - a essência da imp ressão do retorno ao passado - que
subsistiria, depois que todas as experiências pdas quais essa impres-
são se exprime tivessem sido afastadas?" De fato, não existe outro
sentido senão aquele que é determinado pelas "regras do meu jo-
go pessoal de xadrez"62.
A "verdade histórica" freudiana- em sua própria pontua-
lidade- reduz-se, portanto, a uma tonalidade expressiva que ser-
ve de indicador para uma "irnpressão" 63 que encontrará seu rcs-
pondente na expressão determinada no interlocutor.
Ela é simultaneamente problematizada. É o que indica um
aforismo das Fiches onde Wittgenstein parece reagir desta vez à con-
cepção freudiana: "Lembrar-se: ver no passado. Sonhar poderia ser
qualificado assim quando o sonho nos faz aparecer o passado. Mas
não lembrar-se; o que a lembrança nos ensina, em primeiro lugar,
mesmo quando nos mostre cenas de uma clareza alucinatória, é que
o que nos mostra é o passado."64 Mas se a memória nos mostra o
passado, como nos mostra ela que é passado? Justamente ela não
nos mostra o passado. Assim como os nossos sentidos tampouco nos
mostram o preseme."6)

73
Os lances do
. debate do
assentunento ·

À. luz desse exame das figuras em que se cristaliza o debate


intelectual próprio da análise, pode-se formalizar o que está em jogo
na controvérsia abena por Wiugenstein: reveladora de uma ques-
tão de fundo, essa controvérsia permite assinalar a diferença da pro-
blemática em Freud e em seu impugnador.

1. O ohjeto do recalque e o sujeito do assentimento

A diferença prende-se ao fato de que para Freud, no debate


das razões entre os dois parceiros da relação (anaürica-intetpretativa),
intervém um "objeto" -o objeto recalcado. Enquanto objeto do
recalcado, o objeto recalcado está presente no debate. É ele quem,
em última análise, o arbitra. É esse "lastro de objetividade" e de
"objetalidade" que permite solucionar o "debate". É por isso que
este não pode ser simétrico. A estrntégia de Freud consiste realmente
em levar o sujeito à "convicçãó' de que o objeto designado é o bom.
É também por isso que o analista deve ser necessariamente o suposto
detentor das vias de acesso da verdade do objeto.
Desse ponto de vista, os argumentos wittgensteinianos só po-
dem apresentar-se a Freud como os do "duvidador". Eles estão con-
denados à formalidade de uma abordagem que não vê que o pon-
75
to d~ vista do objeto- ponto de vista propriamente "clínico" -
superdetermina necessariamente o debate. Falta-lhes, com efeito,
a referência a esse "preconceito" indispensável à crença analítica;
a da Coisa que atua no sujeito e que impona elucidar, logicamen-
te mas também contra a lógica verbal, mesmo a mais refinada.
Assinale-se que essa "coisa", cujà caracterização metapsicológica 66
Freud descreve em outro nível, januis é apresentada fora de sua par-
ticipação narelllfâO verbal do sujeito consigo mesmo e com o outro
Ja relação analítica- e, portanto, não objetivada como tal. Ela só
pode sobressair melhor do confronto no sentido em que se apre-
senta como aquilo que Wittgenstein não admite que superdeter-
mine a relação e que Freud, por sua pane, admite em seu disposi-
tivo - tanto recurso quanto restrição. ·
Isso equivale a dizer que o debate entre os dois parceiros da
relação analítica é interrompido por um debate do sujeito consigo
mesmo ou, mais precisamente, com o seu objeto recalcado, o obje~
to de seu recalque.
Comptttndemos que a resiStência e a transferência alimentam
a crença do paciente em que o cssehcial se decidirá entre ele e o ana-
lista. O analista, parece dize:: r Freud, deve encaminhá-lo para o de-
bate consigo mesmo - por onde passa a sua própria relação divi-
dida consigo mesmo. Por isso recomenda: "O paciente deve encon-
trar a coragem necessária para fucac sua atenção em suas manifesta-
ções mórbidas, deve deixar de considerar sua doença como algo des-
prezívd, mas encará-la como um adversário digno de apreço, co-
mo uma parte de si mesmo cuja presença está bem motivada e de
onde lhe convirá extrair preciosos dados para sua vida ulterior." Não
se depreende, pois, que Freud recomenda ao paciente que entre em
debate com o seu recalcad.o, tido como esse adversário ao qual era
preciso dar seu próprio rosto? É para esse verdadeiro debate que o
analista deve orientar o paciente.
Cabe supor ponanto que, inversamente, a evitação e a "tole~
rância a respeito do estado mórbido" podem acompanhar um ce-
ticismo decidido do analisando para com o analista. Talvez o sujei-
to mais vigilante na critica seja também - e pelas mesmas ra2ões
- o mais dogmaticamente complacente em relação ao adversário
interno. Talvez a resistência também seja uma forma de significar
a impotência em face do "recalcado'_' - o que cria esse misto de
76
ceticismo e de resistência que Freud resume na fórmula: ·'Atentem
um pouco parao que acontece quando dou livre curso a tudo isso!
Não tinha eu razão em tudo confiar ao recalcamento?" 67
Uma passagem muito reveladora das Conferências introdu-
tórias sobre pJicanálúe expressa que papel Freud atribuía ao deter-
minante intelectual no esclarecimento hermenêutica dessa "coisa"
que é o recalcado.
Ao que parece, a inteligência intervém, diante do desejo de
cura do paciente, como uma "força puJsional" específica e deter-
minante. Acontece que se trata de uma inteligência sustentada pela
interpretação (Deutung). Argumenta Freud: "Não há dúvida de
que a inteligência do doente poderá mais facilmente reconhecer a
resistêcia e encontrar a tradução correspondente ao recalcado, se Jhe
tivermos dado as representações de expectativa (Erwartungsvorstel-
lungen) adaptadas:·68 O exemplo que se segue esclarece essa sur-
preendente didática transferencial: "Se lhes digo: 'Olhem o ctu ,
aí verão um balão aeróstato', encontrarão este mais facilmente do
que se eu apenas lhes disser que ergam os olhos para o céu, sem pre-
cisar algo de determinante a descobrir."
Tal é, portanto, a orientação que o interpretador fornece à in-
teligência. Esta erraria num horizonte sem fim se um dedo não apon-
tasse algo (quod) ou, melhor. que existe (quid) algo para ver. A se-
gunda imagem indica claramente a dimensão m2,gistral que isso in-
troduz: "Do mesmo modo, o estUdante que olha pela primeira vez
num microscópio, é instruído por seu professor sobre o que deverá
aí ver, na falta do que de não vê absolutamente nada daquilo que
se encontra bem visível."
É neste ponto que Wittgenstein virtualmente se inquieta: o
consentimento no objeto visto - em última instância, o objeto re-
calcado - estará então subordinado ao assentimento dado ao Mes-
tre? Freud, ao mesmo tempo que confirma existir aí um problema
. que Wittgenstein designa por sua crítica, fornece também impor-
tantes esclarecimentos, por muito pouco que cada termo pese.
Em primeiro lugar, só o sujeito pode ver e ninguém mais: e
não será acompanhando o dedo do intérprete que o fará. Observe-
se, de resto.. que mesmo no caso de designação de um objeto espa-
cial, não existe consecução direta entre a designação c a descober-
ta: a fortion· no espaço de projeção da verdade do próprio sujeito.
77
O que Freud quer dizer, de fato, é que a inteligência do paciente
para que dê uma contribuição efetiva, só poderá ter efeito se for co-
locada em ''posição" mediante uma "representação de expectati-
va". Esta contém uma informação destinada a um sujeito que deve
ser avisado de que existe aJgo para ver.
O exemplo e~olhido é ponanto, em última análise, um pouco
~ngana~or: o anahsta não é somente aquele que viu primeiro 0 ob-
Jeto, pors não está seguro de o ter visto enquanto o outro não 0 ti-
v~r co~firmado. A Erwartungsvorstel/ung é, portanto, uma espé-
cte de 1magem que se encherá de conteíído quando o sujeito a tiver
abordado para certificar-se de que, com efeito, ex.iste ai algo de "im-
porcante" ~ver. log?, é uma coisa muito diversa de uma sugestão
banal - amda que tsso confirme a persistência de um momento
sugesti~ na relação analítica -, aquilo a que, no fundo, se redu2
~ sus~e1 t~ ger_aJ de Wittgensrein, que reintroduziu o problema da
mflue,ncza evitada excessivamente depressa.
E que se trata de encontrar ''a tradução correspondente ao re-
calcado". A "representação de expectativa" destina-se a produzir
e~~.tr~duçã~: aí está o prazo decisivo. A validade da "representa-
ça? . so se verrfica, ponanto, pela uad ução, e;xecutada pelo próprio.
SUJe1to, que responde ou não à expectativa. E justamente essa rela.
ção, que passa pelo discurso, o que Wittgenstein rotulará natural-
mente como o "jogo da linguagem" propriamente analítica.
Freu~ n~o escolheu, por certo, um ''objeto" material qualquer ·
pa~a consuturr a metáfora desse "objeto" de designação analítica.
Al_Lás. ele parece demasiado preciso para ser fortuito. Ora, 0 pró- .
pno Freud fucnece-nos o sentido onírico do mesmo em Die Thium-
deutung [A interpretaçJo de sonhos]. ''Pode-se indicar como sím-
bolo onírico muito recente do membro viril o dirigível (literaJmente,
o barco voador, Luftschiff), o quaJ, tanto por sua finalidade de voar
quanto, ocasionalmente, por sua forma, justifica tal uso."69 As
Conferên~ia_.s introdutórias precisam: ''A notável propriedade do
~em bro v~li de poder erguer-se con rra a gravidade, fenômeno par.
c1al de ereçac:>, leva a uma representação simbólica por balões (Luft-
bal/one!, aVLões, máquinas de mais recente data, pelos dirigíveis
Zeppelm."?o
,, , Se é verdade que, como diz Freud, "o exemplo é a própria coi.
sa • e realmente o "objeto fálico" que Freud designa nesse objeto
7H
que o anali sta-interpretador tem ele mesmo que apon tar.
c ompreende-se que esse "objeto voador" seja tão difícil de iden-
tificar, mais ainda do que de localizar. visto que o sujeito compro-
mete nisso o mais preciosamente impalpável de seu ser desejoso.
Curiosamente, wn dos últimos aforismos das Fiches sugere nes-
se tipo de designação um jogo de linguagem deveras arcaico: "Po-
nha ali" - e, dizendo isso, indico o local com um dedo - é uma
indicação de lugar absoluta. E se se considera que o espaço é abso-
luto, poder-se-á alegar como argumento para esse efeito: "Existe
certamente um lugar: alt:" (Nota marginal: "Isso pertence, talvez,
ao domínio dos primeiros jogos de linguagem." 71 ) Que dizer en-
tão de um jogo que fizesse do "ali" o próprio lugar do sujeito -
o que situaria a designação analítica do lado do mais "originário"
dos jogos de linguagem?...

2. O sujeito da perlaboração e a verdade

Visto do lado do sujeito, o lugar onde o assensus se converte


em coniensus recebeu de Freud o nome de Durcharbeiten (perla-
boração ]. Enquanto as resistências forem conhecidas sem ser reco-
nhecidas - tendo sido ·'reveladas'' pelo analista, o fim não terá si-
do alcançado. É preciso que o paciente esteja apto, por sua própria
vivência (Erleben), a "<:onvencer-se (überzeugt) da existência e da
força da resistência" 72 • Intervém aí o trabalho em comum (Ge-
meinsamer Arbeit) dos dois parceiros.
ObservaFreud ser exatamente nesse nível que a análise rom-
. pe·de uma vez por todas com as técnicas de "sugestão": a perlabo-
ração vem ocupar o lugar da "ab-reação" do antigo modelo. Assina-
le-se porém que, se a verdade deve ser assimilada pelo sujeito, isso
faz-se através do tratamento das resistências (e não da própria ver-
dade). Por conseguinte, é desde o momento em que se convence
das resistências que o sujeira pode voltar ao "trabalho em comum"
e colocar-se diante do seu próprio recalcado.
O que vem preencher a "perlaboração" é esse tempo vazio en-
tre o momento em que o analista "pôs a descoberto" (aufdeckt) as
resistências e aquele em que o analisando pode "reconhecê-lo" (er·
kennen)n . Portanto, cumpre literalmente "aprofundar-se" (sích
79
uertieft n) nessa resistência desconhecida dde. É desse modo que
ela adquire a "maior influência modificadora sobre os pacien-
tes··- ·. Quer dizer, trata-se de, por sua própria conta. alcançar o co-
nhecimento da resistência que o analista já conhece mas que o su-
jeito deverá apreender como a sua própria.

3. A anfibologia freudiana: subjetividade e verdade

Mas Freud não sai inteiramente imune. Se atentarmos bem~


ele está em posição de manter duas linguagens: a do confronto sub·
jeüvo entre dois sujeitos e a da primazia do objeto que imporia ao
debate seu peso determinante. A fim de preencher o espaço de jo-
go entre as duas dimensões, ele vê-se obrigado, como vimos, are.
correr a uma concepção da realidade que se julga marcar a convic-
ção do sujeitÓ. Apresentada sob a forma de "indícios de realidade"
da crença, a teoria culmina na idéia da " realidade histórica" - a
qual se vê ser inteiramente necessária à economia da teoria freudiana.
Com efeito, só a realidade histórica pode resolver de pronto o de-
bate. O modelo freudiano resulta, portanto, numa espécie de ra·
lismo que deve dissipar as brumas da subjetividade. Não terá issÓ
por efeito - quando não por finalidade -confundir o Analista..
com a figura da Anánkê, entendida na acepção mais total como a
própria realidade... do Recalcado (mais ainda do que como o seú
"descobridor")? É essa, pelo menos, a vantagem obtida pelo nosso
duvidado r impenitente__: cujo papel Wictgeostein assume tão bem
- a saber, ·a de revelar essa conseqüência.
Que pensar, com efeito, das fórmulas em que Freud diz qut
se trata, para trazer as resistências para a luz, de "servir-seda trans·
ferência para a pessoa do médico a fim de o faz er compartilhar a .
nossa convicção (o grifo é nosso) da inutilidade do recalcado esta~
belecido na infância e da impossibilidade de dirigir sua vida de acor·
do com o princípio de prazer"? A uansferência é aqui enunciada,
de maneira extrema, talvez, mas sintomática, como transferência
da convicção do analista, agravada pela coloração de "renúncia" que
confere a essa transferência de convicções um aspecto quase didático.
Do mesmo modo, Freud oio hesitará, num de seus últimos
escritos, em falar do "parceiro ativo" e do "personagem passivo"
00
d ''situação analftica- nos quais é preciso reconhecer o analista
a "paciente", que parece aqui merecer seu nome. Não Exa Freud
eo meta, no Esboço de psicanálise, que o saber do anai'lsta ("o nosso
pof . ifi . .
saber") torna-se o do analisando (o seu)- um sagn tcauvo Jogo
de possessivos? _ .
O sentido fundamental do debate descobre-se entao: res1de
na própria concepção do sujeito, entenda-se, do "destinatário" do
objeto a revelar.
A questão real- a do aparecimento do objeto recalcado -
está condicionada, com efeito, pda do sujeito para quem esse ob-
.eto se torna acessível. Para Wittgenstein, esse sujeito continua sendo
~acionai, até sem se dar conta disso; são, contudo. as próprias razões
do objeto e da linguagem que devem continuar sendo-lhe acessí-
veis ou, pelo menos, o modo de emprego da interpretação em que
ele está "interessado". O sujeito de que fala Freud- aquele que
se vê desenhar-se nessas experiências de bloqueio - é o sujeitO que,
sabendo, de cena forma. não pode saber. É o focus ongJ.narius, que
designa a falsa recordação, a denegação e, finalmente, o sonho e o
sintoma como "construções". Em nenhum momento Freud chega
a tratar esse sujeito dividido em si mesmo como desprovido dera-
zão. ou até mesmo "inepto": mas atua como se essa razão fosse frus-
trada, em certo nível, por uma lógica subversiva. Não é com a razão
que o sujeito encontrará sua coisa; tampouco é com razões que o
analista "persuadirá" o sujeito de sua verdade: "o enigma da neu-
rose" requer outra lógica. Aí está o constante ataque a que Freud
submeteu a lógica e que Wittgenstein parece ter deixado escapar.

4. O diagnóstico de Wittgensfein;
o sujeito estético

Por seu lado, Wittgenstein assinala o caráter de irredutí~l da


explicação psicanalítica "bloqueando-a" nessa função do destina-
tário (no sentido literal em que explicar alguma coisa significa ex-
plicar a alguém). Éo sentido de sua afirmação segundo a qual a ex-
plicação psicanalítica é de natureza estética. Isso signifi.ca fazer de-
rivar o conteúdo analfrico e seu valor de verdade do efeato que essa
explicação tem sobre o sujeito, determinando sua adesão a ela. Isso
81
equivale a extrair as conseqüências desde o ponto de vista de uma
" lógica do assentimento": é "boa" a explicação que se apresenta
de tal modo que o sujeito possa reconhecer sua própria linguagem.
Nesse sentido, da não explica a coisa (o que, no entanto, Freud d iz
fazer, no que é suspeito de " trapacear''}: ela fornece "descrições su-
ple~entares", por "c~omparações" e "agrupamentos de casos". O
efetto esperado - " E realmente assim, é isso mesmo!" - não é,
~or~an;o, um ~eito da verdade, mas do dispositivo de linguagem
tnsmwdo. Asstm, a noção d <; "explicação estética" áplicad a à psi-
canálise significa apenas isto: o processo de linguagem concinua sen-
do constituinte do efeito de assentimento produzido (e não um meio
(sub)ordinado à "verdade"). A boa explicação analítica nada mais
(nem menos) é do que um quadro bem-sucedido. A reação ao q ua-
dro é, nesse sentido, constituinte do seu efeito estético, porquanto
resolve a perplexidade do destinatário.
~ .É. nesse s~ntido preciso que ele confia a Moore que, "o que
e mats tmpresslOnante no caso de Freud é 'o enorme Ieq ue de fatos
psíquicos que ele ordena.' '' n Aí está o efeito típico da explicação
es.tética, descobrindo - na acepção de revelar - " fenômenos e co-
nexões que não eram conhecidos antes" 76 e, sobretudo, fa:zendo
com que fossem ratificados pelos interessados.
Se Wittgenstein sublinha de maneira tão insistente o aspec·
to atrativo da explicação analítica, não é pela preocupação em fa-
zer dela um saber de qualidade inferior, mas para designar-lhe q:
J~gar epist~":'lico apropriado. O ra, é o lugar de separação da ciênf·:
Cla e da estettca que estamos apontando aqui de novo. Um trechc;,.
de Venmschte Bemerkungen exprime-o com limpidez: "Questões'.
científlcas podem interessar-me, mas jamais me apaixonam (fes-~
seln). E esse, pelo contrário, o efeito que as questões abstratas (be-.
gnffliche) e esrécicas me produzem."77
O verbo empregado por Wittgenstein para designar o efeito
que as questões científicas não podem pretender produzir evoca,
por sua conotação semântica, a idéia d e uma paixão que acorrenta
o sujeito ao objeto (cf. Fesseln, cadeias). Em contraste com o "inte·
resse" ~ue deixa o sujeito ainda disponível, essa paixão acorrenta·
o ao obJeto de sua chama- segundo uma preciosa metáfora que,
~o caso, se mostra reveladora, de modo que já não existe a alterna-
uva entre querer ocupar-se dele ou não: o sujeito está literalmente
X2
pregado ao objeto. Ora, o que se descreve aqui é o efeito de um ti-
po de questões que envolvem interesses mais íntimos, no sentido
próprio do que depende do próprio ser d o interessado: para desig-
ná-las, Wittgensteín emprega, além do qualificativo estético, o ad-
jetivo (begrifflich) q ue parece remeter para aquele tipo de ques-
tões em que o queestáenvoividoé mais a capacidade d~ "compreen-
são" do que de explicação, o u sej a, o q ue é designado como
Lebensanschauungen.
Sublinhemos bem que essa distinção não é de ordem psico-
lógica: a " reação" dos interessados só é evocada como sinal su bjeti-
vo de uma d iferença relativa à natureza d as questões (Fragen) o que
1

atesta de algum m odo sua especificidade e sua heterogeneidade.


Pôde-se observar que, na comprovação da interpretação, Wiu.
genstein designa o resultado em termos de percepção. Não é for-
tuito que seja um registro visual o que sobe ao primeiro plano: " Eu
vejo agora por que este fragmento se apresenta assim, vejo como
tudo isso se acomoda e de que maneira, o que os detalhes repre-
sentam."78 O reste de uma interpretação é a percepção pelo inte-
ressado de uma certa configuração representativa - a tomar, por-
tanto, no sentido quase material - que antes não era acessível ao
olhar.
Seria errado ver aí apenas uma m etáfora. É que, para W itt.
genstein, o próprio d essa pedagogia particular que é a transferên-
cia de um "saber estético" não é "ensinar'' (lehren) alguma coisa,
mas fozer ver o que não tinha sido visto até então e do que não se
terja apercebido sem essa intervenção. O enunciado que valida a
interpretação - posso dizer: "Por certo..." - deve ser, ponanto,
compreencUdo como o preenchimento de uma percepção ou sua
ocorrência no olhar. Por conseguinte, quem quer que trabalhe em
"fazer ver" nesse sentido- a psicanálise inclusive - trabalha si·
multaneamente na estética - nessa acepç.ão.
A estética refere-se "ao efeito que a obra de arte gera em nós".
Além disso, a " percepção" em questão não diz respeito somente
à sensação como fato: a aísthésis em questão é antes esse enlace do
dito e do sentido- um " poder dizer": "eu vi", que é uma coisa
muito diferente de um conceito ou de um pensamento.
Mas. correlativamente, o efeito estético é inseparável de uma
relação discursiva pela qual alguma coisa é endereçada ao interlo-
83
cu to r, a qual deve ser legitimada por uma percepção: tal é o que po~
derramas chamar a süuação estética propiciadora desse sentido
específico.
Vê-se que Wingenstein refere a situação interdiscursiva cons-
tituída pelo roteiro psicanalítico da interpretação a uma situação.
estética desse gênero, e a intima, de certo modo, para reconhecer~
lhe uma consistência e uma legitimidade próprias, a manter-se no
âmbüo das exigências próprias e singulares dessa situação.
N:io se conclua precipitadamente que, aos olhos de Wittgen-
stein, o analista-interpretador é apenas wn "artista'' que propõe uma
interpretação ao analisando, colocado na posição artística de "e~
pectador". Compreenda-se, outrossim, que a própria situação, pon-
do em contato os dois parceiros da r dação assim instituída, cria de
cena forma uma "maneira de ver" que pede para ser aprovada. Uma
passagem das Recherchesphtlosophiques estabelece com bastante
clareza um tal roteiro estético: "Eu queria colocar essa imagem diante
de seus olhos e o seu reconhecimento (Anerkennung) dessa ima-:-
gem consiste em que ele está propenso (geneigt), no momento, ~
considerar de outro modo um caso (Fali) dado: a saber, a compa-
rá-lo com essa série de imagens (Biide"eihe). Eu mudei sua ma~
neira de ver (Anschauungsweise)." 79
Tal é a operação "estética" que dá a ver de outro modo uma
certa imagem introduzindo uma relação contextual com uma es·
pécie de ratio icônica, série de imagens. Uma vez reconhecida, essa
relação faz com que o destinatário da mensagem estética considere
as coisas de outro modo (anden betrachten), o que equivale a uma
mutação da maneira de ver.
Trata-se evidentemente de mudança de percepção, mas, pa-
ra além disso, de mutação da visão: passou-se para o registro da
Anschauung.

5. A função de alten'dade e o momento do oráculo

De fato, não se pode considerar a problemática do assentimen-


tO sem referência a uma/unção de alteridade. É essa função de Ou-
tro que realiza a mediação entre o sujeito e a crença.
H4
Em Fceud, o que faz calar os dois parceiros do "debate", ana-
lista e analisando, é o próprio Orác~lo do inco~scient~ 110 • É o qu~
confere seu peso ao objeto e seu efetto de real a própna relação. E
esse Oráculo que "bloqueia" a questão do assentimento ao fazê-la
incidir sobre a própria Coisa que se faz ouvir no discurso-silêncio
do analista, tanto quanto na fala do analisando. O momento de-
terminante é aquele em que, justamente, um e outro devem de-
por as armas diante da necessidade do Oráculo: é por isso que o Orá-
culo tem o rosto de Anánkê. O paradoxo consiste em que esse mo-
mento da revelação da própria verdade talvez seja o momento mís-
tico da relação analítica.
Tudo. se passa como se Wittgcnstein permanecesse surdo a esse
momento de necessidade, pela qual a linguagem se impõe ao "par"
constituinte da relação analítica. É por isso que ele se mantém, de
certo modo, ''ligado'' ao momento do :assentimento- suspensivo
da própria relação. Em termos freudianos, ele seria o de antes do
advento do Oráculo- em suma, aquele em que o "duvidador"
ou o "cético" crê triunfar. A esse título, pode também representar
uma espécie de declaração aos direitos daquele de quem o assenti-
mento depende - o analisando- em face da autoridade daquele
que parece querer, de algum modo, impô-lo: algo como um "di-
reito de resistência" intelectual, que Freud não nega de todo, mas
só admite como provisório ou - no caso de perdurar - como re-
sistência à Anánkê do próprio inconsciente.
Que não haja enganos: Freud não acredita gue seja possível
violentar a "convicção pulsional" do analisando. E o caso se "se fa-
la ao paciente da eventualidade de outros conflitos pulsionais" e
"se despena nele a expectativa de que conflitos semelhantes pos-
sam produzir-se nele". "Espera-se então que essa comunicação e
essa advertência tenham por resultado ativar no paciente ... um dos
conflitos." Mas eis a resposta verdadeira do interessado: "O resul-
tado esperado não ocorreu. O paciente ouve perfeitamente a men-
sagem, mas não teve eco." . .
Nenhum eco: eis a sanção mais grave para o anahsta - subh-
nhe-sc: mais grave do que a resistência ou a recusa. Isso deve ser tra-
duzido, segundo Freud, por: "É tudo muito interessante, por cen-
to mas não sinto nada disso." O que equivale a dizer que "aumen·
to~ o seu saber, mas, por outro lado, nada mudou nele."
85
Isso prova, em todo caso, que a transferência de saber está longe
de esgotar a questão do consenso. Não se trata de "interessar" opa-
ciente, ds: modo a mobilizar sua atenção, mas de o incomodar. Fi-
ca-se exposto a um "Continua falando, tu me interessas", que é a
sanção mais severa.
Nesta passagem, Freud aproxima a situação, de um modo de-
veras significativo, dos "esclarecimentos sexuais" dados às crianças:
"Elas nada aproveitam desses conhecimentos novos que lhes foram
oferecidos." Ponanto, devemos convencer-nos de que "elas não es-
tão dispostas a sacrificar tão depressa aquelas teorias sexuais ... que
foram formadas em harmonia com sua organização libidinal incom-
pleta e na dependência desta" - à semelhança de "os primitivos
a quem se impôs o cristianismo, mas que continuam, em segredo,
a adorar seus velhos ídolos".
Em suma, que o analista não se tome por um missionário: a
difusão das luzes é radicalmente relativizada pelo preconceito que
é o sujeito- tanto quanto pelos preconceitos do sujeito. Convém
lembrar que a verdade do sujeito não é daquelas que se lhe podem
"oferecer" numa bandeja. 'Thmpouco é o que o próprio sujeito es-
tá apto a adquirir por seus próprios meios. É decididamente neces-
sário um mediador que "sonde" o sujeito. Se este não sabe o que
é, ele sabe - por uma espécie de "saber absoluto" - o que fala
ou não ao seu desejo. Tal como a criança, o primitivo... assim o lei• ·
cor de textos psicanalíticos, leitor simultaneamente seletivo e
lúcido81 •
Nesse efeito contrastado de ignorância e de caaa de ressonância
reconhece-se, uma vez màis, a função de "oráculo". A boa inter-
pretação é aquela que o analisando faz falar - aquela que, pelo
menos, "diz. lhe alguma coisa", que, portanto, faz em comrapar-
úda a interpretação &lar, de modo que o saber do analista conver-
te-se no dele. 1àl é o par inseparável fOrmado pelo oráculo e seu
"consulence".
Recorde-se, a propósito, a definição de oráculo dada por He-
ráclito: "O oráculo n~ diz , não dissimula, ele dá os sinais." Defi-
nição que se aplica literalmente ao modo como Freud evoca o ana-
lisando, que ele está nesse caso em posição de "consultar". Mas jus-
tamente, um tal oráculo não pode proferir nem "sim" nem "não",
nem verdade servida de bandeja nem mentira maquiavélica. Não
H6
deixará, porém, devidamente interrogado por um consuleme su-
ficientemente versado na prática ocular, de fornecer sinais, nume-
rosos e preciosos. Mas é verdade que, no caso da prática analítica.
os "sinais" são os "sintomas": é por eles que a verdade se mostra
_ dividida pela linha que o inconsciente aí traça. Em suma, é tão-
somente o oráculo de sua verda~e. desconhecida dele mesmo.
É por isso que o analista não poderia tratar os "jogos de lin-
guagem" que se realizam entre ele próprio e o analisando como "pe-
ripécias'' da "consulta". Seria o mesmo que "sugerir" ao oráculo
que dissesse: só se pode interrogá-lo de acordo com as regras.
Nada cem de surpreendente, tampouco. que o analisando es-
teja em posição de se dirigir ao analista como aquele que detém uma
chave, um "segredo" -o que se pode considerar uma seqüela da
situação pré-analítica. É nessa precisa medida e nesse terreno que,
segundo parece, as objeções de Wittgenstein conservam uma im-
portância não desprezível, mesmo que tenhamos de interrogá-las
em seus pressupostos. O analista, em todo caso, considera o pior
obstáculo ter sugerido uma verdade sob medida ao analisando.
É necessáno que saia da própria boca do sujeito desejoso a forma
de verdade que lhe é própria.
Mas, precisamente para esse fim, ele não pode deixar de "con-
sultar": deve ser também um pouco ''adivinho", ou seja, antecipar·
se suficientemente ao processo de surgimento da "verdade", tor-
nar-se o profeta do que o analisando vai dizer. É por isso que o orá-
culo que é o analisando pode encontrar-se paradoxalmente na po-
sição de "consulente".
É precisamente para o que serve um "adivinho", segundo o
próprio dizer de Freud. Freud parte desse indício significativo, de
que os consulentes, ao sair dos gabinetes desses charlatães, "decla-
ram-se em geral satisfeitos com essas consultas e não manifestam
o menor ressentimento se as profecias não se realizam depois" 82 •
Eis qual é o segredo deles: "O adivinho (Wahrsager) tinha expri-
mido os pensamentos das pessoas que o consultam, em especial os
seus desejos secretos." 8 ~ Em suma, eles dizem o que o sujeito espe-
ra ouvir: de onde resulta que este não pode querer mais mal àque-
le que disse a fantasia do que a si mesmo por ter fantasiado. o adi-
vinho, na impossibilidade de conhecer a verdade, confere um con-
teúdo verbal à fantasia. É, ponanto, um "desejo de verdade", na
87
própria medida em que o desejo pode, por seu intermédio, ser to-
mado p or uma realidade ou, pelo menos, projetar nela a sua "som-
bra". E um caçador de fantasias, tão eficaz que as profecias podem
ser analisadas como verdadeiras fantasias.
O que o "adivinho" atesta ser possível é um aspecto do que
se passa na relàção do analista com o seu "consulente". Este deve,
em certo sentido, permitir dar consistência às suas fantasias para en-
frentar seu ser desejoso. Wittgenstein poderia dizer que o pacien-
te está propenso a aceitar a explicaçio do analista corno o consu-
lente a profecia d o adivinho. Só que, acrescente-se imediatamen-
te. ao invés do adivinho, o analista devolve a fantasia ao analisando
para fazê-lo reconhecer que é o "autor" dela. Aliás, é por não po..
der fantasiar à sua vontade, que ele contrairá aversão pelo anaJisra
e sairá da sessão analítica num estado de espírito muito d iverso do
do consulente da casa do adivinho...
Mas isso não impede que o próprio Freud renuncie de bom
grado ao seu voto de saquear diretamente o inconsciente do sujei-
to para oferecer-lhe- como Wahrsager- a "verdade" que ele possa ·
reconhecer como tal. Não indica ele uma certa inveja secreta do adi-
vinho que satisfaz cada um de seus clientes, mesmo que suas "cons-
truções" não ofereçam o menor começo de r~ação?
É verdade que o charlatanismo do adivinho revela-se juswnen-
te na positividade superficial de wna transferência de fancaria. Mas,
na outra octrernidade do processo analítico, Freud não podia sonhar
com nada melhor do que a coincidência da 'lerdade daquele que
~cimenta a verdade e daquela que é dita (Wahr-Jagen).
Mas há melhor: é o que se realiza efetiv.unente na mais bem-
sucedida elucidação do recalcado. É o momento preciso - embo-
ra frágil - em que o Inconsciente fala, ultrapassando o "debate"
do analista c do analisando, que se tomou quase insignificante. É,
pelo menos, para fazer falar a verdade que tende, com todas as suas
forças, o analista: talvez esteja ar, por sua pane, a fantasia consti-
tuinte e condutora da cura. Nesse sentido, ele possui realmente vo-
cação de "adivinho", na condição de situar essa posição em com-
plen:temo dessa outra função de "consulente'' do oráculo, defini-
da mais acima.
Esse adivinho tampouco capta a verdade de uma s6 vez: ele
a co nstrói - segundo o procedimento estudado ames- para an-
HB
reópar o que o sujeito irá encher de conteúdo. Tal é a dimensão
''prospectiva", até "profética", da construção. Nada de misterioso,
por conseguinte, em que a "construção" se antecipe suficientemente
ao próprio sujeito, a frm de que ele esteja em posição de declarar
seu "assentimento" àquela. A "construção" poderia, portanto, con-
sisrir em sugestionar o sujeito com a Jua próprúz verdade, anteci-
pada por esse Outro que lhe "adivinha" os procedimentos.
Isso mesmo assegura a inteligibilidade dessa transferência em
face do testemunho que a teona psicanalítica comporta. Talvez se-
ja no estudo sobre A questão da análise p rofana que Freud susc.i-
rou mais claramente esse terceiro personagem, que ele fantasia, de
faro. sob o nome de "o imparcial" (Unparteiischen), que se trata
de instruir (unterri&hten). Supõe esse terceiro personagem um ''ig-
norante" (unwisJend) e, ao mesmo tempo, um "impugnador"
ímpenitente.
Mas é para acrescentar imediatamente que a "si mação analí-
rica" não tolera terceiros. Portanto, ele não pode intervir como "es-
cutador" (Zuhorer) nessa relação fechada a dois. Em contraparti-
da, retoma todos os seus direiros como desrinatário da argumenta-
ção anal1ticaenquanto teoria. Pode até, corretamente informado,
ser aquele a quem compete decidir. Existe, portanto, uma insrânp
cia, a do "ouvinte imparcial" (unparteiischer Zuhorer)IJ4, que é
própria da "situação racional". Mas ela deve pressupor a outra ce·
na, analírica- o que supõe especialmente "fiar-se" no discurso
daquele que se lhe recomenda.
O destinatário deve, portanto, admitir que existe uma expe-
riência detentora de seus útulos de legitimidade: sobre quem po-
de c deve então exercer-se a sua "objeção"? Ele deve determinar se
pode assentir na ordem de razões que lhe é proposta. Um bom "ou-
vim~ imparcial" deve esforçar-se por "compreender a psicanálise
com a ajuda de conhecimentos anteriores, ligando-a a alguma ou-
l ra coisa que ele já sabe". Mas não é tudo: "Temos agora a tarefa di-
fícil de tomar-lhe claro que isso não terá êxito por si só, que a análi-
~~ é um procedimento (Verfohren) sui generis, algo de novo e de
Particular, que só pode ser inteiramente compreendido por meio
de novas visões intuitivas {Einsichten)- ou, se se quiser, novos pres-
supostos (Annahmen)." Tal é o contraste entre as duas partes: para
o autor da exposição analítica, nunca se recusar a apresentar razões,
89
a inscrever o conteúdo analítico na ordem da argumentação; para
o "ouvinte", partir dessa regra da especificidade sem que por isso
se renuncie a questionar a psicanáJise como se faria com qualquer
outro tipo de saber. Em suma. deve-se aceírarque exponha seu en-
tendimento das "visões" e "pressuposições" do entendimento ana-
lítico, sem jamais se lhe render.
Vê-se como Freud apresenta a questão, relativamente a Witt-
genstein: o sujeito exterior à posição analítica não pode estar pro-
penso a aceitar a explicação psicanalítica, jusramente.porque ela su-
põe um "desengate", colocando-o na órbita dos "pressupostos", os
quais são nada menos do que naturais ao entendimento. " Não hi
nada para que o homem, por sua organização, esteja menos apto
do que para a psicanálise." 8 ) Isso pode parecer arbitrário. pois que
as razões dependem desse choque com a especificidade de um "pro-
cedimento", ou seja: em primeiro lugar, compreender como isso fim-
cio na e por que deve funcionar assim -na base de pressupostos
que alicerçam esse campo de experiência; somente em seguida dis-.
cu ti r, ou seja, reinvestir, por seu próprio entendimento, a objetivi-
dade "designada".
Isso implica especialmente recusar a prioridade dos proble-
mas racionais mais elementares na aparêncià. que Freud só pôde
batizar de "puramente convencionais". Assim, pergunta-se apriori:
"O que é neurose e o que não é?" AJoseph Wortis, que aborda a
psicanálise por essas questões de bom senso tomadas de uma prob]~
mática commcional, F.reud indica o bom método. "Com~ por apren.
der alguma coisa sobre as neuroses, depois saberá o que isso é_"86
Com o impugnador, não se trata de debater "se a análise é sen-
sata ou insensata, se dá direito às nossas afirmações (Aufitellungen)
ou se cai em erros grosseiros". Trata-se de desenrolar "as nossas ce~
rias dia me dos senhores" e assim "esclarecer que conteúdo de pen-
samento (Gedankeninha/t) a análise possui, de que pressuposições
(Voraussetzungen) ele pane quando começa a ocupar-se de um
doente e como lidar com ele". Em suma, ele deve começar por
"explicar".
Quanto a convencer "o imparcial" sobre a exatidão das teo~
rias, é outra questão: para compreender nesse semido, não é preci:
so considerar "as doutrinas psicanalíticas com a mesma frieza de ou:
eras abstrações de que elas se nutrem"_ Tampouco basta "querer ser
90
convencido": têm de exislir "indícios" efetivos de que ocorreu o as-
sentimento. É preciso, como na "auto-análise", "experimentar efe-
Livamente em seu próprio corpo- mais exatamente, em sua pró-
pria alma- os processos cuja existência é afirmada pela análise":
é assim que se chega a "adquirir as convicções". O analista , na ori-
gem , não é outro senão aq ude que tomou sobre si o enrargo da ''con-
vicção": compreende-se que Freud diga de bom grado que deve "fa-
zê-la compartilhar", pelo mesmo canaL
É por isso que Freud recomenda que se suspenda cerra forma
de atitude crítica prévia, para que o analista possa "mostrar" em
que é que "crê" - para que assim possa ajustar sua "convicção"
própria. ·
Nada de surpreendente, portanto, que o nosso "imparcial"
recakitre particularmente diante da própria idéía de interpretação
- que Freud reduz cuidadosamente à prática efetiva da interpre-
tação. De um modo mais curioso, Freud atribui- lhe essa aversão par-
ticular pdo fato de a própria palavra lhe anular "toda a certeza"
(Sicherheit) e não porque a explicação redundaria num conteúdo
arbitrário. É justamente o fato de estar entregue a um arbitrário que
rransrorna toda e qualquer "certeza", o que justifica a rebelião so-
bre esse ponto-chave. Daí que se sugira, uma vez mais, estar o nos-
so ''imparcial" condenado a errar desde um ceticismo - fundado
na ignorância- até um dogmatismo - baseado na necessidade
instintiva de que uma "certeza" absoluta e "natural" se imponha
por si mesma. O entendimento analítico teria de curar simultanea-
mente um e outro.
O mais notável é, finalmente, que Wittgenstein trata a pró-
pria relação anaütica como um processo de interpretação de obje-
to a dois. Por conseguinte, ele apresenta a validade da interpreta-
ção como a resultante de duas interpretações: a do analisando -
o Einfali, ou seja. a associação curiosamente considerada por Wi tt-
genstein como a contribuição hermenêutica do analisando - e a
do analista, que propõe a sua. Ponanto, é normal observar que es-
sas duas teses interpretativas não coincidem necessariamente. Esse
ral:iocínio próximo do truísmo provém do seguinte trecho das Con-
versaç6es sobre Freud: "Existem vários critérios para a interpreta-
ção correta: por exemplo (1), aquilo que o analista diz ou prediz com
base na sua experiênóa prévia; (2) aquilo a que o sonhante é levado
91
pelo freier Einfall. Seria interessante e importante se ambos coin-
cidissem t>ID gera l. Mas seria esquisito pretender (como Freud pa-
rere fazê-lo) qu e ambos devem sempre coincidir". 117
Isso quer d1zer que Wittgensreín se recusa a considerar a in-
terpretação analíitica como um processo de advemo de uma verda-
de, como na construção em que se instaura um movimento de in-
tera~·ão. A "coneção da interpretação", concebida por Freud como
efeito de um processo de interação-construção-rememoração, é
apreendida por Wittgenstein como o encontro de duas "séries in-
ce rprerat i vas' '. Ao passo que em Freu d deve criar-se uma espécie de
Anánkê que torna inevitável , a prazo, o surgimento de uma verda-
de e garante contra o arbitrário da interpretação, Wittgenstein, por
seu lado, pensa na ordem da Tukhê: virtualidade da coincidência
ou da não-coincidência que Freud tampouco ignora, visto ser ela
o que dá forma. propriamente contingente, a uma análise.
Ora, o que permite a Freud postular essa Anánkê é a realida-
de rransferencial, pela qual o desejo de um dos sujeitos pode en-
contrar mediação pela presença do Outro. É essa mediação que Witt-
genstein não leva em conta quando reduz o "dizer" do analista e
o do sonhante a simples "critérios'' - de certo modo externos-
da correção da imerprccação. Portanto, a interpretação deixa de ser
uma questão exata, cortada da questão da relação com o Outro, que,
segundo Freud, a condiciona estreitamente.

92
NOTAS

1. Conversations sur Freud, op. cti., p. 88. [Conversações sobre Freud, 3 ~ Pane
de Ertética, psicologia e religiào, op. cit., p. 74. (N. do T)].
2. Op. cit., pp. 90-91 (p. 76 da edição br~i.leir:l. op._cit. }.
3. Op. cit., p. 90 [p. 7 ~ da tradução ?ras!letra: ?P· czt.]. . . ~.
4. André Lalande, VoctJbulaire techmque et cnltque de la philorophte, Félix Al-
can, 1926, t . r. p. 68.
5. Academia Priora, "L.lcullus", XLVII.
6. Cf. Princípios da filosofia e Medilllções metafoicas.
1. Ética, livro 11, prop. 49, corolário. .
8. Lógica, Inuodução, § lX (ed. franc. Libraírie philosophique Vrm, 19?~· P· 73. ).
9. Recorde-se que é no padre Bautain, no século XIX. que a problemauca se en-
contra definida.
10. Antonio Rosmini, Théone de l'tzJJenti=t (Degli assensi), l.IJgique ( 18~1),
livro I, an. 1, tradução francesa de Emmanuel Vitte, 1956, p. 105.
li. GramnUJr of Assent, 1870. . . ,. . .
12. Tractatur, 5.641: " O eu filosófico ... {é) o SUJeito metillsJCo, o hnute- não
uma pane do mundo", op. cit., p. 144. . . ..
13. LeÇQnSsurl'esthétique, § 20, p. 27 [p. 48 da 1rad. brasdeua Pr~!eções sobre
estétie2", m. § 20, no 110lume Estética, psicologia e rekgião, op. c:t. (N. do T )].
14 . Op. cit., § 34. p. 62 (p. H, lll. § 34 da trad. bras!le~ra).
15. Op. cri., § 29, p. 60 (p. 51. lll, § 29 d a tra.d. brastl~t~].
16. Op. cil., §23m p. 58 [p. 49, HI, § 23 da trad. bras1le•ra].
17 . Op. cit., § 25. p. 58 {p. 49, lll, § _25 da trad. bras~e~ra].
18. Op. cit., § 26, p. 59 [p. )0, lll. § 26 da uad. brasileira). . ..
19. Ver o ensaio de 1919 e a nossa análise "C'est, donc, la chose, tou}ours , em
Nou11elle Revue de Psychanaiyse, n? 29, 1984, pp. 33-60. . .
20. Em úz lechnique psychanalytique, PUF, pp. 70-71 (ponto 1}.
21. Op. cit., p. 71. . f .
22. Le début du traitement, 1914 , in fine, em úz techmque prychatJ/1 yt1que.
23. Op. ciJ., p. 104. . ..
24. Notar-se-á o termo que parece implicar uma cspéctc de Aujklarung. .
2 5. Sobre o Denllverbot, remetemos ao exposto em nosso L'entendement freudten,
pp. 76-78.
26. Ibid.
27. Ibid.
28. Etuáer sur /'hystérie, PUF, 1971. pp. 62-63.
2'). Op. cit., cap. IV, § 2, p. 228.
30. Op. cr't., cap. Jl, p. 63.
31. Para a significação de semdhante cena no plano da feminilidade, remetemos
o leitor para o nosso Freud et la femme, Calmann-I.évy, 1983, P· 51.
32 . Em úz technique psychanalytique, op. cit., p. 83.
H . Op. út., p. 84.
;4. Conlrihution à l'biJtoire du mouvemenl psychanalytique, § 3, uad. france-
sa, P~yot, p. 130.
35. Cf. La quult01J de l'analyu profane, 1925.
36. De la fous.se recomuuisrmce (déjà ra&onté) au cotm dufT(IÍtement psychgnfliy.
tique, 1918, trad. francesa, em Úl Jechnique psychanlllyJique, p. 72. 'Assina·
le-se: que a cxprc:ss~o fousse reconnaissance figura em fra.flcês no texto origi-
nal alemão.
37. Op. cit., p. 73.
38. Op. cli., pp. 75-76.
39. Op. cit., p. 79.
40. Die Verneinflng, G IP, XJV, 12, trad. franc. em ldées, réJultats, problêmes,
PUF, c. fi.
41. Trad. franc., op. cit., p. 13~ .
42. Op. cit., p. H6.
43. Op. cÍJ.., p. 139.
44. Au-delà du principe de plaisir, Gw. XIll, trad. francesa, Payot, p. 57.
45. Op. cit., p. 17.
46. Sur la psychogenese d 'un ctJJ d'homosexttalité fominine, trad. franc. em Né-
tJrose, psychose, pert~emon, PUF, p. 250.
47. Konstrukliorren in rler Andyse, GW: XVII. 43.
48. Op. cít., pp. 'H-44.
49. Op. cit., p. 45.
50. Op. cit., pp. 45-46.
51. Op. cit., p. 47.
52. Op. cit., p. 48.
53. Op. cit., p. 45.
54. Op. cit., p. 49.
55. Op. cit., p. 50.
56. Alus~o ao mordomo de Nescroy, repetindo: "No decorrer dos aronrccimen·
ws, tudo ficará claro." Sobre Nesttoy, ver infra, p. 222.
57. Op. cit., p. 53.
58. Le Cahier büu etle cabi4r brun, GaJlimard, 1965. § 25, p. 303 ss.
~'). Op. cíl., p. 304.
60. Exemplo que cahez seja aqui a própria coisa. ..
61. Op. cit., p. 305.
62. Op. cit., p. 306.
63. Op. cil. , p. 307.
64. Fiches, § 662. p. 167.
65. Op. út., § 663, p. 167 .
66. &quissedeprychologüscientifique, emliJngiJsance delapsychtmiJ!yse, on-
de ela designa o corceb.civo objetivo da percepção, suscitada pela dialética da
identific~o da realidade (p. 376), mas também a mediação da necessidade
pelo Nehmmem ch.
()?. Op. cit.
68. Conférencel tl'introductiOII iJ la psychanalyJe, xxvne Conférence, GW, XI,
4H.
G9. GW, ll-HJ. 362 (cap. VI. E).
70. Décima Contl:rência, em Vorlesungen zur Einführung in die Psychot~nalystJ,
GW, XI, 454.

94
; \. Fiches. § 713: p. 177.
72. Remémoralton, répétition er perlaboration, 1914, trad. francesa em La tech-
nique psychanalytique, op. cit., p. 115, GW. X. 136.
73. Op. cit.. p. 135.
74. Op. cít., p. 136.
75. G . E. Moore, " W ingenstein's Lecturcs in 19.'W-1933''. em PhitoJophicül Pa-
pers, Londres, Allen & Unwin, 1959. p. 316.
76. Op. cit., pp. 310·311; Remarques mêlées, 19-19, p. 94.
77. Ver infra.
78. Conversatiom sur Freud. p. 95.
7'). Recherches philosophiqrm.
80. Cf. I:cntendement freudien, p. 84 ss.
81. Cf. u nosso artigo "Eiéments d'une métapsychologic: du Lire" c:m Nouvelle
Revuc de P.sychanalyse, XXXVll, primavera dt: 1988, p. 132 ss.
82. Segunda das Nouve/lcs conférences sur la jJiyclxmalyse. GW, XV, 42.
83. Op. Ctt.• p. 45.
84. La que.rtion de l'analyse profane, § I. GJP, XIV, 211.
85. Carta a Ludwig Binswanger de 28 de maio de 1911.
86. Joseph Wonis. Prychanalyse à Vienne, 1934: Notes surmon analyse avec Freud.
Denoel. 1974, p. 68.
S7. Conversations sur Freud, p. 96 (p. 81 da uad . brasileira, op. cit. }.
LIVRO 11

Crítica da teoria da
interpretação psicanalítica

Da estética ao objeto da interpretação

Tendo partido da q uestão do assentimento, chegamos à ques-


tão da explicação estética: como vimos. esta distingue-se pelo fato
Je subordinar a objetividade à força d e convicção que tem para o
indivíduo a que se endereça- destinação subjetiva que a finaliza
e lhe determina a própria natureza. Portanto, na lógica da argumen-
lação wíttgensteiniana, trata-se de um elo importante: designa, pelo
menos, o ponto de comrapeso da qu estão do sujeito ao objeto da
interpretação- que se pode designar. descritivamente, como a di-
mensão hermenêutica.
Por conseguinte, é essencial observar que, na perspectiva de
Wittgenstein, a questão do assentimento está ligada à da interpre-
tação. A teoria da explicação estética consiste, no fundo, em inserir
uma questão na outra, tanto seus destinos estão ligados. O "saber
do inconsciente" está, pois, a seus olhos, eivado de "subjetivismos":
é por isso que são pré-compreensíveis os argumentos materiais que
ele vai dedicar à interpretação freudiana.
Mas acabamosde ver que, em Freud , oquese opõe a es.<;acen-
sura de subjetivismo é uma teoria original da ''construção" - a quaJ
constitui, mutatis mut11ndis, o ''operador estético'' próprio da psi-
canálise. É o que habilita Freud , p or seu lado, a manter-se firme
no que se refere à questão da objerividade de sua interpretação.
97
O "debate" vai ter assim que prosseguir de acordo com o ri-
gor de seus termos precedentes, adaptados ao nívd considerado.
Parece, pois, que a investigação deve deslocar-se agora para o
terreno do próprio conteúdo da interpretação: Wittgenstcin empe-
nhou-se não fortuitamenre em examinar o capítulo que Frcud con.
sidcrava "o caminho real da interpretação do inconsciente", ou se-
ja, a teoria do sonho.
Mas esse desdobramento da forma (assentimento) e do con-
teúdo (inconsciente oníríco) não nos deve fazer perder de vista' que,
segundo o enfoque próprio de Wirtgenstein, essa dualidade é o si-
nal do caráter irredutível da interpretação ao seu caráter subjetivo.
Do "diagnóstico" precedente sobre o caráter estético da explicação
já se depreende suficientemente que interpretar não se refere, pa-
ra Wittgenstein, a um "objeto" próprio, mas a um deslocamento
da leitura segundo essa lógica singular, a qual, ao fazer ver uma coisa
como ela é (como se reputa que seja) produz um efeito de ''satisfa-
ção" ad hoc. Aliás, é por isso que a questão do símbolo - ponto
de apoio da interpretação- vai servir de entrada obrigatória para
a sua crítica da concepção freudiana do sonho.
Mas essa teoria, que envolve o status da imagem no sonho, re-
mete para a questão da interpretação freudiana do sonho como "rea-
lização do desejo" - com o seu correlato, o pensamento do sonho.
Enfun, cumpre não perder de vista que essa crítica se situa na pro-
blemática geral da suspeita que envolve a explicação freudiana de
se produzir como "sugestão" ao interessado (o que explica que a
tenhamos visto evocada regularmente a propósito da lógica do ·
assentimento).
Se, tanto em Freud quanto em Wittgenstein, o sonho postu·
la a questão global da hermenêutica de maneira privilegiada. de
nos levará a evocar, de algum modo, em sua esteira, daí aduzindo
as conseqüências do onírico, os outros grandes capítulos da herme-
nêutica freudiana - desde o "chiste" até o sintoma, passando pe-
la psicopatologia da vida cotidiana.
Julgaremos da radicalidade da crítica de Wittgeostein a essa
fórmula: "Isto se relaciona com algo que Freud realiza. Freud fez
uma coisa que me parece enormemente errada. Procede àquilo que
se chama uma interpretação de sonhos." 1 Não se deve deduzir daí
que Wittgenstein nada retém dessa interpretação de sonhos. V~-
98
lo-e mos em posição de aderir de forma resoluta a alguns de seus as-
percos mais importantes. Mas o q ue ele su.~mete ~ d!scussão é esse
vcsw: "Dar uma inte rpretação de sonhos consnru1o que, a seus
~l hos, é extremamente falso. É apresentar um certo saber dos so-
nhos, por outro lado incontestável, como uma " interp retação de
~o nhos". Co~o reccr ce rtos capítulos imponantes de Die Traum ·
detttung sem aderir a esse gesto, como conceder o ganho herme-
nêurico sem credenciar a categoria h ermenêutica, eis o paradoxo
não desprezível que se uata de elucidar, compreendendo o que neste
u 1pítuloseexpõe. É, ao mesmo tempo, abordara categori.a de "jo-
gos de linguagem" cujo uso anima o ~eba~e .her~enê~uco e que
nesce debate se vê ducidada de manetra pnvdcg1ada. Suponha-
mos que encarássemos o sonho como uma espécie de jogo que o so-
nha me jogasse ..." 2: tal é o desafio que o teórico dos jogos de lin-
guagem lança à Traumdeutung freudiana.

99
CAPÍTCLO I

Crítica da interpretação de sonhos

1. A questão do simbolismo onín'co

Não é um acaso se Wingenstein faz recair todo o peso de sua


crítica do sonho sobre o corpo simbólico do objeto onírico. Enquanto
o simbolismo exprime em Freud o código que regula a translação
entre "conteúdo manifesto" e "conteúdo latente" - o que o su-
bordina de imediato ao trabalho do inconsciente onfrico -, Wítt-
gensrein problematiza essa translação: o simbolismo é, ponanto,
o ponto sensível da interpretação freudiana. Aos olhos do teórico
dos jogos de linguagem, o simbolismo é mais do que um meio ex-
pressivo: é aí que se expõe uma questão que Freud jamais formu-
lou com uma nitidez tão brutal, qual seja, a de saber que gênero
de linguagem é o sonho.
Além disso, em conformidade com o que se descreveu em de-
calhe acerca da questão da interpretação-assentimento, é o ponto
onde se decide o arbitrário ou a legitimidade da interpretação.
Devemos, pois, adiando uma visão global do trabalho do so-
nho -tal como Freud a forneceu - , partir da contestação wittgen-
steiniana relatiw ao simbolismo onírico em StU frescor próprio e, daí,
pelas mediações que sua suspeição demolidora comporta, remon-
tar às questões do pensamento do sonho e do sentido (realização
do desejo) que se dcsco brem, de algum modo. no background da
101
teoria do simbolismo. Em suma, precisamos discernir, através da
crítica wittgensteiniana do simbolism o onírico, o que ele se dispõe
a questionar do sonho como simbolismo sui generiJ.
Wittgenstein vai buscar seus exemplos de interpretação freu-
d iana da simbólica onírica no capítulo de A interpretação de so-
nhos consagrado à ''figuração simbólica no sonho" >. Aliás, é de-
veras notável que ele passe por alto a introdução do capítulo, onde
Freud emite suas reservas a respeito da noção de simbolismo. para
concentrar-se na discussão d e alguns dos exemplos típicos, a seus
olhos - aqueles mesmos que conserva na memória no decorrer de
suas Conversações com Rhees.
"Freud, diz ele, m enciona vários símbolos: cartolas são siste-
maticam ente símbolos fálicos; wisas de madeira, tais como mesas,
são mulheres etc." 4 Na outra conversação, ele volta ao exemplo do
chapéu, pelo qual parecia ter especial predileção (" Quando Freud
refere certas coisas - digamos. a imagem de urn chapéu - como
o
símbolos...")>. De fato, é primeiro exemplo uatado em detalhe
por Freud nesse capítulo d e A interpretaçiia de sonhos: " Um cha-
péu como símbolo de um homem (ou dos órgãos genitais m asculi-
nos)"6- e constitui o objeto de uma explicitação na base do so-
nho de uma paciente. Quanto ao outro exemplo citado por Witt-
genstein, é mencionado um pouco mais acima no texto de Freud:
''Mesas, mesas postas para uma refeição, e tábuas também repre-
sentam mulheres - com certeza por antítese, visto que os contor-
nos de seu s corpos são elimina.dos nos símbolos. A madeira, a.liás,
parece representar, de modo geral, por suas conexões lingüísticas,
a substância fem inina (Maren·e, matéria, maliere)."7 Do mesmo
modo, nas Conferência.r inlrodutórias de psicanálise lê-se que: "Têm
também significação simbólica (do aparelho genital feminino) cenos
materiais, como a madeira e o papel, assim como os objetos feitos
com esses materiais, por exemplo, mesa e li11ro."
Wittgenstein tem toda a razão em apontar esse exem pio pre-
ciso de simbolismo, porquanto Freud a ele retoma por várias vtzes,
num enfoque que pode servir para responder à obj~ão que ele for-
m ula aqui.
A questão formulada por Wittgenstein é sobre se haverá a ne-
cessidade absoluta de, na imagem do chapéu, privilegiar um sim-
bolismo sexual: trata-se de reduzir essa necessidade a mera virtua-
102
!id ade: " Mas sonhar - empregar tal espécie de linguagem- em-
borapossa ser usado para referir-se a uma mulher ou a um falo, tam-
bém pode não ser usado para isso, absolutamente."s Por exemplo,
"o fato de que estejamos inclinados a reconhecer a cartola como um
símbolo :fálico não quer dizer que o artista (ao desenhar dois ho-
mens usando tais chapéus) estivesse necessariamente se referindo
a um falo, de qualquer maneira que fosse , ao pintá-la."9 Sabe-se
agora que não se trata de um vago ceticismo acerca ~o fu~damento
da interpretação. O "cético wittgensteiniano" é m.Utto difere~te do
banal duvidador que se mostra incrédulo a respeito de uma mter-
pretação: se ele enfraquece resolutamente o alcanc~ obj: tivo. da in-
terpretação simbólica em apreço. é porq~e quer remsenr .a .lmgua-
gem onírica na virtual idade dos jogos de lmguage~, admiundo as-
sim a inerência da imagem para um uso determmado.
Enconua -se num artigo curto sobre Uma relaçiio entre um sím-
bolo e um sintoma (1916) um reexame desse exemplo preciso. Que
Freud parece - sob o efeito do dispositivo intermediário que nós
próprios inuoduzimos -:- responder ~e ante~ão, e de uma. forma
tão precisa, a Wittgenstem, apenas assmala ate ~~e ponto W1tt~~­
sccin designa um ponto sensível para a economta mtana d~ propr:a
explicação freudiana. Isso também atesta que a r~s~ost~ o ao era tao
unívoca, inclusive tio esquemática, quanto podena infenr-se da acu-
sação de Wittgenstein. .
Freud parte do chapéu como símbolo do "ór~o genttal,_so-
bretudo do órgão masculino" como um fato "sufiaentemeote es-
tabelecido pela experiência das análises de sonhos", m as é pa:a acres-
centar imediatamente que "não se pode afirmar que esse sunbolo
seja daqueles que se compree ndem" 10 . Iss~ significa que o senti-
do simbólico de um objeto pode ser estabelecrdo sem que se conheça
a razão desse conteúdo simbólico. A impressão de arbitrário que
subsiste não deve, portanto, ser atribuída de imediato a uma vir-
tualidade interpretativa muito diferente. É forçoso const~t~...po·
rém, que, e.n quan~o não fo~ fundamem..ad~ o.vínculo, substsUra es·
sa interrogação sobre a validade da propna mterpretação sexual.
Ora, Freud propõe uma via de elaboraçã~ ~esse vínculo que
postula uma alternativa à concepção wittgenstem1ana do sonho co-
m o jogo de linguagem entre outras que veremos se destacar~m ..Ele
jnsiste, pelo contrário, em que se fundamente nela a espectfictda-
103
de, por intermédio do sintoma. É .essa articulação entre simbolis-
mo e sintomatologia que fornece, de fato, uma hipótese sobre o pró-
prio sentido do conteúdo simbólico: "É muito possível que a sig-
nificação simbólica do chapéu derive da da cabeça, na medida em
que o chapéu pode ser considerado como uma cabeça prolongada
mas própria para ser retirada" 11 - o que confirma a associação ao
tema da castração. Intervém aí a referência a um sintoma obsessivo
incongruente rdarivo aos chapéus: tais indivíduos estão " incessan-
temente à espreita para ver se alguém de suas relaÇões os cumpri-
mentou primeiro tirando o chapéu" - o que determina a atitude
ulterior deles para com os interessados. Esse sintoma social assenta
sua significação no motivo inconsciente que encontra a fonte do seu
"reforço na relação com o complexo de castração".
· É, pois, a reapresentação, pela lógica do sintoma própria do
sujeito, da força semântica inerente no símbolo que, aos olhos de
Freud, constitui suficiente demonstração do conteúdo simbólico.
Em outras palavras, ele não busca sua justificativa em alguma rela-
ção espontânea com o objeto- a qual nunca fez mais do que cons-
tatar. Wittgenstein, pelo contrário, apresenta a explicação simbó-
lica como fundamentada numa correlação (necessãria) com o ob-
jeto: é essa correlação que ele afirma- por conta de Freud - para
a refutar.
Quanto a Freud, pode-se dizer, com a ajuda de termos witt- .
gensteinianos, que ele "demonstra'' ou confirma o sentido simbólico
pelo uso sintomtJI. Mas, longe de ser um jogo entre outros, esse uso,
na medida em que o sujeito o vincula à relação inconsciente com
o seu próprio desejo, reforça o sentido sexual do simbolismo. É o
próprio fato de que o sujeito o interpreta, para os fins de sua sinto-
matologia, que o objeto (chapéu) se impregna, por assim dizer, de
seu conteúdo simbólico. Em suma, o "simbolismo", longe de ser ·
uma simples nomenclatura, é incessantemente ''retomado" pelo
movimento do sintoma, que traduz um trabalho inconsciente.
É verdade que essa articulação sfmbolo/sintoma só é possível
pela mediação "causal" de um "motivo" inconsciente. Éaí que Witt·
genstein espera Freud: quer então dizer que o simbolismo não po-
de deixar de sustentar-se de um "causalismo" psicológico, por muito
específico que seja?
2. Os sonhos de Wittgenstein

Podemos estabelecer que esses dois exemplos de simbolismo


onírico - referência ao objeto fático, por uma parte, à " matéria ex-
tensa", por outra- longe de representarem um caso fortuito, re-
metem para a temática privilegiada do próprio Wittgenstein so-
nbante. Dispomos, com efeito, do texto de dois importantes sonhos
que Wittgenstein teve em 1919-1920- ou seja, prec~menre na
época em que se süua o seu encontro com o texto freudtan o. Pod~­
ria muito bem ser até para decifrar seus sonhos, num período dect-
sivo de sua vidaJz, que ele se decidisse a ler Freud, sobretudo essa
Interpretação de sonhos, de que se tornou um leitor aremo.
Verifica-se, com efeito, que esses dois sonhos remetem para
essa dupla temática. O primeiro. a que poderíamos chamar "o so-
nho de Monte Cassinó', enuncia-se assim: "Era noite. Eu estava do
lado de fora de uma casa cujas janelas resplandeciam de luz. Diri-
gi-me a uma janela para espiar o interior. Então vi, no assoalho, um
tapete de oração de uma beleza requintada, que senti imediatamen-
te o desejo de examinar. Tentei abrir a porta da frente, mas uma ser-
pente arremeteu para impedir-me de entrar. Tentei outra porta, mas
também ai uma serpente surgiu para me barrar o caminho. Serpentes
apareceram igualmente nas janelas e opuseram-se a todas as minhas
tentativas de alcançar o tapete de oração." u
O segundo sonho, que poderia ser batizado como "o sonho
de Trattenbach", atesta a perenidade do simbolismo: "Eu era pa-
dre. Na sala da frente da minha casa havia um altar. Do lado direi-
to do altar partia uma escada. Era uma escadaria atapetada de ver-
melho, um pouco como a da Alleegasse. Ao pé do altar, e recobrin-
do-o parcialmente, havia um tapete onental. Outros objetos reli-
giosos e ornamentais estavam colocados sobre o altar e ao Lado des-
te. Um deles era um bastão de metal precioso." 14 Mais adiante, o
bastão acaba de ser roubado, ao passo que o tapete revela ser "um
tapete de oração" (como no primeiro sonho): "A cercadu~a era de
uma cor mais clara que o belo motivo central. Estranhamente, pa-
recia estar desbotado. No entanto, estava ainda forte e firme." 1 ~
Assinalemos que, nos dois casos, a temática de uma superfí-
cie extensa desempenha um papel central, enquanto a temática fática
vem completá-la, ames de a absorver, de ce11o modo.
105
Resistindo a qualquer temaúva de explicação analítica global
desses sonhos. rcgisnaremos simplesmente o faro d e que, uns vin-
te anos depois, são esses os sonhos que parecem :>riemar a leitura
wingensteiniana da simbólica freudiana. Pode-se até compreender
a alusão ao "bdosonho" em 1938, que Wittgensteinconfundecomo
o "sonho das flores" 16. A reminiscência da descrição desse Blu-
mentraum em A interpretação de sonhos permitirá ajuizar do pa-
rentesco: " Decoro com flores o centro de uma mesa para um ani-
versário." E Temos aí como que a versão, hipersimplificada e empo-
brecida, é verdade, de uma mesma situação: alguém ocup ado nu-
ma " prática" cujo esteio é uma superfície dotada de um " cen-
tro"1l!. O altar de Wittgensrein faz simetria com o m odesto "altar
doméstico" que a sonhame decora. Pode-se, em todo caso, conje-
turar que Wittgenstein procurou febrilmente em A interpretação
de sonhos uma atusão à sua própria situação onírica e que essa, por
sua vaga analogia, reteve sua atenção. Por isso a conservou em sua
memória, ao ponto de dar origem à confusão apontada.
1àmbém se compreenderia que um afeto preóso se acenda uns
vinte anos ames em sua evocação, quando menciona a sua interpre-
tação: ''Em seu livro A interpretação de sonhos, descreve um sonho
a que chama ' belo'... Freud mostra o que chama de 'significado' do
sonho. As mais grosseiras bobagens sexuais, obscenidades da pior
espécie- se quiserem assim chamá-las -licenciosidade de A a
Z ... E não era belo o sonho? Eu diria à paciente: 'Por acaso tais asso-
ciações fazem com que o sonho não seja belo? Ele era belo. Por que
não o seria?' Mas eu d iria que Freud tinha defraudado sua
paciente." i9
É como se Wittgenstein imaginasse e refutasse de antemão a
interpretação a que Freud teria submetido seus dois "belos sonhos'',
se tivesse tido ensejo de o fazer. 'frata-se de mostrar que, seja qual
for o seu conteúdo sexual - que Wittgenstein não recusava -, a
" beleza" desse tipo de sonho devia permanecer intata. Somente
no caso de se conceber a interpretação como uma "explicação" -
no sentido já sublinhado - é que a beleza dificilmente poderia so-
breviver. Assim, se o afeto de Wittgenstein nesse caso não esgota
o alcance objetivo de sua crítica, não se pode deixar de observar que
ele lhe indica um dos lances determinantes.

106
Essas aproximações são confirmadas por outro "sinal": o "so-
oho das flores" é um sonho típico de virgindade, segundo Freud.
Ora, segundo as Conversaç6es, foi igualmenre esse o diagnóstico
formulado pessoalmente por Freud à irmã de Wictgenstein a res-
peito de uma situação oníríca representada pelo q u~dro acima ev~­
cado: "Oh, sim, é um sonho bastante comum" -ligado com a vir-
gindad e. 20 Wittgen~ste~n _vê-se, pois, desp~cha~? ~o r F:e~d, .~or in-
rcrmédio de sua propna trmã, uma especte de dtagnosttco sobre
a sua pessoa, porquanto estava claramenre fascinado pelo quadro
em questão. Daí a concluir que era também desse lado que Freud
teria procurado para interpretar seus sonhos, como o indica opa-
rentesco apontado por de mesmo com o sonho de virgindade, não
é mais que um passo.
A relação entre os dois sonhos de virgindade é tanto mais per-
rurbadora porquanto, no de W ittgenstein, o arrombamento se apre-
senta igualmente sob a forma de um roubo: "Ocorreu um roubo.
Um ladrão entrou pela esquerda e roubou um bastão. O fato teve
que ser comunicado à polícia. Esta enviou um delegado que pediu
uma d escrição do bastão. Por exemplo: de que espécie de metal era
feito? Não pude dizer -lhe. Não pude sequer dizer-lhe se era de ouro
ou de prata. O policial perguntou se esse bastão teria realmente
existido.'' 21
Assinale-se que, no próprio sonho de Wittgenstein, é a ques-
tão da interpretação que se põe, de maneira inquisicorialn , de for-
ma a colocar sob suspeita até seu próprio objeto... O que Wittgen-
stein recusa é justamente que o simbolismo encontre sua razão de
ser fora de si mesmo, na Wunscherfüllung [realização de desejo].
Thdo se passa como se Wingenstein se irritasse diame do enun-
ciado ou, melhor, do "tom" de desenvoltura que sustenta a inter-
pretação- "Oh, sim, é um sonho bastante comum" -mais ain-
da do que contra o seu próprio conteúdo. Uma prova flagrante dis-
so é a interpretação que, segundo o relato de W. Bartley, ele deu
a seus sonhos incontinenti: o " tapete de oração" simboliza a busca.
de uma " integração de sua libido", por um conteúdo fático inequí-
voco, "energia aterradora .. . retida em limites simultaneamente belos
e sólidos" - tendo como pano de fundo sua luta contra uma ho-
mossexualidade lancinante. Do mesmo modo, a simbólica do bas-
tão, por sua significação fálica e suas associações bíblicas {os bo~-
107
dões de Moisés e Aarão), permitia associar a idéía de desejo à de as-
censão espiritual (o que é confirmado pelo entourage litúrgico, pelas
metáforas de "alto" e "ba.ixo", assim como pela metáfora alquími-
ca da transformação dos metais).
Assim apanhado em flagrante delito de auto-interpretação,
Wittgenstein revela-se, até para além do que Freud teria criticado
nessa interpretação, um hiperfreudiano, em última análise. A re-
ferên cia à libido e ao tema fálico funciona como verdadeiro "êm-
bolo" interpretativo. Ela funciona ai, entretanto, cómbinada com
uma preocupação: situar a problemática pulsional em interação com
a da sublimação e da idealização. O mais notável é, talvez, esse du-
plo texto, simultaneamente justaposto e sintetizado segundo uma
espécie de "colagem" reveladora.
Em outros termos, Wittgenstein parece poder permitir-se, co-
mo intérprete, ser muito mais rigorosamente "freudiano", porquan-
to aborda.a sua problemática pulsional de um outro cenário, o de
certo " ideal" que poderia perfeitamente revelar sua própria "vo-
cação", vinualmente ameaçada pela " banalização" da interpreta-
ção, monal a seus olhos.
Talvez seja isso o que sustenta de maneira profunda a relati-
vização da explicação pelo desejo, por outro lado praticada sem ro-
deios pelo próprio Wittgensteín.

3. Crítica da teona da realização do desejo

Tocamos agora num ponto essencial da crítica wittgensreiniana


relativa ao desejo, sobre o qual importa ver claro. É o que concerne
à teoria da satisfação alucinatória, a qual remete para o mecanis-
mo de prQ,jeção: " Certos sonhos são obviamente realizações de de-
sejos... Mas ele [FreudJ parece estar em plena confusão ao afumar
que todos- os sonhos são realizações alucinadas de desejos."23
Assinale-se que a contestação da universalidade do enuncia-
do relativo à realização do desejo- cuja forma metapsicológica te·
remos de analisar24 - cristaliza-se nesse ponto nodal do conteú-
do da própria teoria, ou seja, o modo alucinatório. Este é, com efeito,
apresentado como o correlato obrigado da teoria geral contestada:
"Ex hypothesis, não é permitido ao desejo realizar-se, e alguma outn
108
coisa se alucina em seu lugar." É essa lógica que Wittgensrein con-
testa através de seus dois extremos: o pólo da satisfação (movimen-
to desejoso) e o pólo da substituição (alucinação).
Trata-se, em primeiro lugar, de ver aquilo em que se apóia es-
sa reconstituição rápida da teoria freudiana. Isso remete-nos para
a noção de "experiência de satisfação" (Befriedigungserlebnís).
Wittgenstein não visa às cegas, pois essa é, de falO, uma das peças
fundamentais da metapsicologia freudiana, até mesmo da racio-
nalidade explicativa do psiquismo - proposta desde o Projeto de
psicologia científica e situada no capículo VII de A interpretação
de sonhos como o principal supor_te do proccdimcmo que afeta o
aparelho psíquico e permite explicar o mecanismo onírico. Para além
do sonho, diz respeito ao regime de formação fanrástica e sintomá-
tica. Ponanto, é bem no coração que Wittgenstein visa quando con-
testa o valor explicativo do mecanismo.
No momento das Conversações sobre Freud, W ittgenstein,
que rompeu com a forma integrista do seu "fisicalismo" do tempo
do Tractatus, está em posjção de considerar o modo de pensar psi-
canalítico como a expressão de tal racionalidade.
É assim que se deve ler a relativização do conceito de lei em
psicologia. A introdução de categorias como as de "lei", de "expe-
rimentação" c de "determinismo" procede, a seus olhos, de que
" nós" consideremos a física como nossa ciência ideal2 ). Esse ''nós'',
que se refere, mais do que a um preconceito difundido no mundo
científico, ao pilar da crença cientista, alude mais precisamente a
um preconceito comum ao jovem Wittgenstein e a Freud: aquele
que ainda podia compartilhar por volta de 1919 sob uma certa for-
ma, quando o leu pela primeira vez, mas que, muitos anos depois
(por volta de 1942), abjurou.
A coisa complica-se peÍo fato de que Wittgenstein, ao tempo
em que se interessava pela "psicologia", tinha efetivamente aderi-
do a esse ideal, mas também de que a psicanáljse era um dos ele-
mentos que o levaram para ouuos domínios que não os desse ideal
experimental fui também contra a psicologia, como se viu, que Freud
foi descoberto como "alguém que tem algo a dizer". Devemos acre-
ditar, portanto, que a psicanálise tem de situar-se, para Wittgen-
stein, em algum ponto enue esse "dizer" eficaz e esse ideal fisicalista.

109
~ma reflexão relativa a Frcud em Remarqrte.r .rurles couleurs
wnfirma o sentido da leitura wingenstciniana de Die Traumdeu-
tung. A alusão a Freud, aparentemen te inesperada no meio dessa
reflexão sobre "a lógica das cores", w nfirma que Wíttgenstein, até
em .~c~s derradeiros escrirosu-, continuava seu diálogo com o autor
d~ A mterpretação de sonho.r: é ainda a teoria da realização dos de-
:eJOS que aí está em causa: "Um 'fe~ômeno original' (Urphiinomen)
e, por e~emplo, o que Freud acrednou descobrir nos simples sonhos.
dt deseJO. O fenômeno original é uma idéia preconcebida que se
apodera de nós." l~
Wittgenstein emprega aqui o termo goethiano, destinado a
pensar uma essência (Ur) que se refletiria nos fenômenos essência
Iiteral mente fenomenológicalH. Ora, as Remarques .rur /e; couleurs
gravitam em torno dessa idéia de uma cor pura, que Wi rtgensteio
reduz,a um " ideal'', levada ao extremo de um jogo de linguagem.
~então ~u e parece acudir-lhe ao espírito a aproximação com
a teona freudt ana do desejo- como se se lembrasse de suas refle-
xões dos anos 1930-1940: o "desejo" que·se reflete como tal nosso-
nhos não é, em certo sentido, análogo ao " branco puro" de
lichtenberg2'>?
Wittgenstein fala dos ''sim pies sonhos de desejo'' (einfocháJ·
Wumchtriiumen). Parece referir-se aí aos sonhos infantis, "realiza-
ções primitivas" ou "elementares" de movimentos de desejo. Descre-
ve-os como "sonhos breves e simples", que se revelam, de resto, "me;.
nos interessantes do que os sonhos de adultos"; mas, "embora não
se ~nco~trem ai quaisquer enigmas", Freud faz deles "um argumenr-
co mesumá~e.~ par__a provar que a essên~ia do sonho é a realização
de um deseJO JO. E que eles mostram hteralmente o desejo, o que
lhes permite exibir a essência desejosa do sonho, que eles realizam
deu~ modo simultaneamente esquemático e emblemático.
E notável que Wittgenstein veja nesses sonhos, de cerca ma-
neira demasiado claros para que Freud faça deles outro uso senão
o ilustrativo, o protótipo do sonho de desejo. Com efeito, 0 desejO
~ ostra-se neles de maneira "urfenomcnal", visto que, ao conuá-
CJO.~os sonhos complexos e confusos, submetidos à elaboração sim-
bó~Jca, a essên~ia desejosa aí se reflete. Esse pequeno desejo que se
antcha pura e simplesmente num fragmento onírico apresenta-se,
porranto, como " uma idéia preconcebida" (eine vorgefasse Jdee)
11(1
que, por assim dizer, se apossa do sonhante. Ele dá a medida de uma
espécie de avidez rudimentar, pela qual a criança-sonhame se
manifesta.
Wittgenstein não parece contestar esse caso de figura: mas,
em conformidade com o contexto da teoria lógica das cores, redu-
ziu-o a uma dessas situações depuradas e simplificadas em qt,Je um
" ideal" parece realizar-se muito mais "simplesmente" na medida
em que neutraliza uma rede de outras virtualidades. Onde o "fe-
nômeno originário" produzia uma espécie de valorização metafí-
sica da aparência, o autor do Tratado das cores identifica apenas um
efeito de idealização-simplificação do espectro dosjogos de
linguagem.
Além disso, enfatiza a passividade do sujeito, "possuído" por
essa idéía que se lhe impõe sem mediação: esse "original" é, nesse
sentido, o menos original dos "jogos de linguagem" !
A nossa análise precedente permite apreciar o sentido dessa
alusão lapidar: Freud, com sua teoria do sonho do desejo, seria nem
mais- nem menos - do que um Goethe da ciência dos sonhos.
O desejo seria, nesse sentido, a chave de uma botânica onírica cuja
abordagem pelos jogos de linguagem viria relativizar o simplismo
da linguagem!
Bc:m vistas as coisas, essa aproximação da lógica das cores c da
problemática psicanalítica não é fortuita. Na crítica da teoria da rea-
lização do desejo, vemos desenhar-se uma crítica da noção de pro-
jeção, que remete quase literalmente para um modelo óptico. Cer-
tamente não é um mero acaso se o debate iniciado pelo Tratado das
cores de Gocthe se liga, através da crítica de Newton, à teoria da
luz, sendo as cores a suposta manifestação de "como a luz se com -
porta" e "se submete", ao mesmo tempo que se reinterroga a pró-
pria natureza do vínculo - o que abre caminho para a reflexão do
último Wittgenstein sobre a lógica de parecer, a qual requer uma
problemática fenomenológica. Por isso mesmo os pseudoproble-
mas psicológicos acham-.se sujeitos a um tratamento lógico.
A reflÕcão sobre o status contraditório da cor - ponto limite
da aparência e da linguagem - diz respeito, portanto, a algo de
essencial na problemática wittgensteiniana - aquilo mesmo em
que a psicanálise está implicada. É possível abordá-lo explorando
os recursos da própria meráfora: o que Wingenstein censura em subs-
111
tância à Wunscherfüllung freudia na não é o fun cionar como esse
princípio que, ao definir o especrro das cores e revelar o segredo da
cor, reabsorve sua fenomenalidade, sem deixar de fazer-lhe jus, em
cc:rra m edida, precisamente à maneira do Urpbanomen goethia-
no. o q ual só salva a aparência revestindo-a, por assim dizer, de um
ratio que a sustenta ao irradiar dela? Para Witrgenstein, não há mais
formação psíquica inconscienre verdadeira - emenda-se: dotada
de um ser e de uma verdade como repercussão do ser de desejo -
do que existe "cor verdadeira" - entendamos: reverberação subs-
rancial_da substância luminosa. O que se mostra é apc:nas o colori-
do... dos jogos de desejo, entenda-se, onde há desejo sem que este
explique uma formação inconsciente como expressão de um " mo-
vimento desejoso".
Mas compreende-se. ao mesmo tempo, que, nesse rerreno, o
q ue está em jogo é o status primordial da " representação" (Dar-
steliung}. ·Problema propriamente pictórico de relação da visão com-
o espaço, cujo revelador é o problema da figuração. O problc:ma con-
siste em determinar como o desejo "se estende" ao corpo psíquico,
como aí se resolve e se dissolve. É possível que Witrgenstein quises-
se assinalar neste ponto, à sua maneira, o problema da própria re-
presentação metapsicológica.
É por isso que o vimos incessantemente em posição de reati-
var, contra a imagem de um investimenro do espaço inconsciente ·
-notadamente onírico- pelo ''representado'' desejoso, a resis-
tência fenomenológica. Assim, o Urphanomen sofre a imposição
de uma deliberada refração impressionista.

4. Crítica dos paralogismos da projeção

Com efeito, o que·Wittgenstein problematiza fundamental-


m ente é a lógica da projeção. Esta, como foi suficientemente veri-
ficado, tem por função descrever uma passagem do "interior" pa-
ra o "exterior". Ora, o que Wittgenstein afirma é que " não faz o
menor sentido falar de um método de projeção da associação" (Pro-
jektionsmethode des Assoziations)3•.
Compreendamo-lo no sentido mais radical: a junção do ter-
mo "méwdo" e do termo " projeção" não é um enunciado dotado
11 2
de sentido. Ora, sabe-se que o propósito do termo freudi ano Ein-
fil/1 foi sugerir um uso metódico da livre associação- o que nos le-
..va ao princípio da análise como método psicológico e teoria do apa·
rclho psíquico.
A argumentação da Gramática filosófica sobre esse pomo me-
rece ser examinada de peno, porquanto fornece a base dos com en-
tários de Estética, psicologia e religião (palestras e conversações).
Wittgenstein fornece aí a chave da guerrilha que leva a efeito nes-
ses comentários, situando-os em sua própria concepção da racio-
nalidade c da linguagem . "A diferença de significação entre 'asso-
ciar' (Assoziieren) e 'copiar' é atestada pelo fato de que não faz sen-
tido falar de um método de p rojc:ção (regra de transferência)." Di-
zemos: "Você não copiou corretamente", mas não: " Você não as-
sociou corretamente.'' ;2
Assim , para que se pudesse falar de "método" projetivo, se-
ria necessário, em conformidade com a exigência "gramatical", que
a projeção fosse, à maneira do Kopieren, suscetível de exatidão, de
reei dão e de "erro" (corrdação que, como se sabe, traduz a nature-
za gramatical de uma linguagem suscetível de " regras" ). Ora, a ex-
pressão de "associar incorreto" é absurda: não é por acaso que os
dois termos parecem "jurar" somente por sua vizinhança. Dizer que
existe: um método de linguagem em que Einfall seria suscetível de
uma qualificação nesse sentido é cair, portanto, numa espécie de
anfibologia: qualificar o "associar" que, por natureza, não é
qualificávd.
Ponanto, se não fazsentido falar de "associação correra", é por-
que a própria idéia de um princípio causal projetivo está descarta-
da. O ''desejo" perde, por conseguinte, sua legitimidade como prin-
cípio de explicação.
É para essa lógica da associação, no próprio Frcud , que somos,
pois, remetidos.

11 .~
CAPÍTULO 2

A lógica onírica em Freud

l. A teoria da "Wunsr:herfül!ung" e do simbolismo

Wittgenstein convoca-nos agora para formu lar uma questão


que é tão elementar quanto raramente formulada, portanto, de uma
evidência incongruente: c; omo foi que Freud estabeleceu o seu prin-
cípio do sonho, realização do desejo?
É no final do capítulo II que Freud estabelece o seu princípio:
.. Quando o trabalho de imerpreração fica concluído, percebemos
que um sonho é a realização de um desejo" H, o que lhe permite
tàzer do axioma o título do capítulo seguinte: "O sonho é a reali-
zação de um desejo" H. Como se sabe, foi a análise de um sonho
particuhu e privilegiado, o da "injeção de Irma", que serviu de tram-
polim para o estabelecimento desse " postulado". Mas o mais im-
portante para o nosso objetivo é o sentido da própria abordagem.
Freud afeta justamen te não partir desse "postulado", mas desco-
bri-lo. Que haja aí também um artifício de exposição não descarta
uma questão: é que o "axioma" só pode justamente ser a presema-
do como produto obrigatório de um "método de interpretação".
Freud não diz, portamo, que a essência do sonho- ainda que fos-
se psicológica - é o Desejo, mas que o método de interpretação
escolhido impõe que só se investigue o sentido da formação psíquica
onírica na realização de um desejo e em mais nenhuma outra parte.
I I ';
Assim, os outros métodos correntes de hermenêutica onírica
- simbólica e de decifração - que Freud rotula como '' rota !men-
te inutilizáveis para a investigação científica" ~~ não teriam impos-
to semelhante resultado. E não sem motivo: se se ''considera o con-
teúdo do sonho como um todo" e se "se procura substituí-lo por
um conteúdo análogo mas inteiramente inteligível", ou se:: se "tra-
ta o sonho como um enigma cifrado em que cada sinal é traduzido
por um sinal correspondente, graças a uma chave fixa", é a uma es·
sência do sonho que precisamente o investigador se dedica, de sor-
te que se assegure de, no final, reconhecer a essência simbólica ou
a "chave:" que recebeu de amem~o.
Tiara-se de uma coisa mui co diferente na hermenêutica oní-
rica freudiana: ou seja, panir da rede associativa do p cóprio sonhanre,
o que equivale a "inserir o sonho no encadeamento dos estados psí-
quicos" 36, Mémdo literalmente analítico- já que orientado pa-
ra os "fragmentos", em contraste com os métodos globais, "consi-
dera o sonho desde o começo um composto, um 'conglomerado'
de fatos psíquicos". É, inclusive, o ponto de partida obrigatório da
oní rica freudiana que falte ao son ho um sentido globaL
Compreende-se correlativameme que o axioma do sonho cea-
lização do desejo nada possui de um "sentido simbólico" ou de urna
"chave". É precisamente porque não existe essência simbólica ou
cifrada do sonho- no senrido definido mais acima- que se deve
destacar a "verdade científica" inacessível por qualquer outro mé-
todo que não o analítico: ou seja, o sonho linguagem do desejo. Pare-
ce-nos sumamente revelador que Wittgenstein censure a Freud, jus-
tamente, o manipular essa verdade científica como uma tese rela-
tiva à essência simbólica ou à "chave". Ou mais exatamente: finge
constatar que Freud recomenda, pelo uso que faz da tese do sonho
realização de um desejo, uma variam e das teorias do ''símbolo" ou
da "chave".
Portanto, o que está em jogo no debate entre Freud e Witt-
genstein não é uma divergência sobre o sentido do sonho mas so-
bre a ciemificídade de um saber ínterpretadvo do sonho. Tudo o
que um e outro questionam é tão-someme o projeto de uma Traum·
detttung que uace uma linha de demarcação decisiva entre um sa-
ber científico do sonho e t9do o demais saber, anterior ou poste-
rior, relativo ao "sonho". Tanto Frcud quanto Wittgenstein não
11 6
crêem , em certo sentido. num saber do sonho como essência sim-
bó lica significante: é do sonho abordado "cientificamente", como
formação psíquica suigeneris. que se trata. Mas aí é que está o pro-
blema: onde Freud pretende traçar com mão firme a linha de de-
marcação que imegra o sonho numa ciência que lhe seja própria,
W ittgenstein questiona a possibilidade de uma ciência do sonho
propriamente dita, que lhe respei.ta o valor próprio. , .
Digamo-lo nos termos combmados das duas problc~aucas:
é como se Wittgc:nstein suspeitasse a Traumdeutung freud•ana de
subscrever, por intermédio da linguagem da ciência, a ambição (pré-
freudiana, segundo o próprio Freud) de uma decifração simbóli -
ca. Portanto, seria o "dc:sejo" que desempc:nharia c:sse papel de es-
sência simbóli('a submetida à jurisdição de: uma etiologia propria-
rnenrt científica.
A divergência pode esclarecer-se pela incerpretação da abor-
dagem de Freud na Traumdeutung, segundo o próprio freud e se-
gundo o que Wittgenstein diz (que Freud faz) . . . .
Ao "analisar" um de seus sonhos, Freud quer exxb•r o efeito
do método de·interpretação, desenhando um camp~ associativo e
mostrando o efeito elucidativo que nele se processa. E esse resulta-
do que faz apontar a pesquisa para esta suposição r~con~ecid.a: tu -
do se passa como se esse sonho assumisse seu sent~do própno .em
razão do método (proposto, recorde-se, e não em s1) como realtza-
çâo de um desejo. Isso deve ser mostrado num exemplo, antes de
~xaminar a pretensão à universalidade desse enunciado - o que
oc:orre na fase seguinte.
Wittgensrein suspeita, por seu lado, de que Freud tenha ex-
traído de um sonho qualquer - fornecen do alguns fragmentos de
''enunciados experimentais'' - algo como uma essência do sonho,
promulgada pela razã<fexplicariva. Portanto, não se crataria de uma
afirmação correlativa de um método de imerpretação, mas de ou-
tra coisa: um preconceito epistemológico, por assim dizer,
''dou trina!''.

. Wittgenstein localiza no que é comunicado do conteúdo do


sonho no instante do despertar o momento de verdade do sab,e~ do
sonho, onde se revela justamente o seu caráter pr~ble~auco.
Compreenda-se que o que se encontra problematizado ~aqUtlo que
117
é comunicado é me o os o caráter completo ou objetivo do relato do
que a natureza do saber que o sonhante pode adquirir do seu pró-
prio sonho.
"As pessoas contam-nos certos eventos que lhes aconteceram,
depois de acordar (que estiveram aqui ou ali etc.). Chamamos en-
tão a atenção delas para a expressão 'eu sonhei' que introduz ore-
lato... Devo emitir então a hipótese de que a memória traiu essas
pessoas ou então que, durante o sono, tiveram efetivamente essas
imagens diante dos olhos, ou· então que isso só lhes aconteceu de-
pois que dc:spenaram?'' 37 Eis, aparentemente, uma quescão de fato.
Mas o que se segue mostra o que c:scá em jogo na interrogação: "E
que sentido tem essa pergunta? E que interesse? Acontece-nos for-
mular a questão quando alguém nos conta seu sonho? Ese não, se-
rá porque estamos ce nos de que sua morte não o traiu? (E supondo
que se tratasse de um homem dotado de uma memória particular-
mente ruim.)"
Em outras palavras, o que está em jogo nesse problema é me-
nos a autenticidade da informação do que o critério em conformi-
dade com o qual o interessado pode determinar se o seu sonho está
corretamente reconstüuído. Verifica-se, com efeito, que só um si.s~
rema de regras inerente ao jogo de linguagem pode fornecer tal cri-
tério. Ora, o sonhante não pode fornecer tais regras.
De faco, Freuq evoca em A interpretação de sonhos a questão
~a memória onírica. Mas esta depende. muito mais do que da ap-
udão memorizao te do sujeito (segundo tenha " boa" ou "má" me-
mória), do coeficienre de nitidez do próprio sonho. Ora, a darez~
é f?rnecida pel~ ''elaboração secundária", processo pelo qual o pró-
pno sonhame mtroduz ordem no caos das represemaçôes38. Esse
" remanejamento", operado pelo "pensamento parcialmente des-
peno", introduz uma continuidade psíquica entre o sonhante em
trabalho e o sonhame vígil, de modo que a memorização é propor"
cional à amplitude do campo da elaboração secundária.
Se Wittgensreín insiste nesse problema, é porque examina os
títulos pelos quais o sonho pode ser considerado como linguagem:
o.ra, a primeira e fundamental condição é que ele possa ser subme-
ti~? a :·regras". Nesse caso preciso, o imeressado não poderia ar-
~u~r .rats regras, pela boa razão de que o sonhame é um locutor so-
lttano. Como, pois, assumir o paradoxo de uma "língua privada"?
liH
É o desafio que Freud levanta e que a Wittgenstein só pode
apresentar-se como um paradoxo que vai até a contradictio in
terminis.

Compreende-se que Wittgenstein seja levado, pelas necessi-


dades de sua crítica, a centrar sua leitura da realização de desejos
(Wunscherfüllung) no caráter "preenchedor" do movimento_ de-
sejoso, o que, no limite, o assimila à satisfaç ão de u~a "necesstda-
de" (sexual). I.ogo, o aspecto deficitário do desejo passa para segundo
plano, a saber, o aspecco de te~~ que a repetição representa: é no
"reaparecimento da percepção", como tenrativa de "reinvestimento
da imagem mnésica dessa percepção", que consiste a " realização
do desejo" propriamente dita- o que prova suficientemente que
da é acionada por uma dialética da "imagem mnésica". Também
é verdade que esse movimento tende a seguir "a identidade de per-
cepção", retorno à percepção da satisfaçlio originária, mas registra·
se aí uma "atividade de pensamento complicada, a quaJ se desen-
rola desde a imagem mnésica até o estabelecimento da identidade
de percepção pelo mundo exterior": "O ca.minho que lev~ à re:ti-
zação do desejo" é, por conseguinte, o que tmpõe um constderavel
" desvio". .
É-esse caráter falho, por assim dizer crônico, do movimento
desejoso que o articula à atividade fantasiosa - cor.re~a~o obriga-
do da noção de realização de desejo que não possu1 vJSive~mente
status em Witrgenstein, não mais do que o caráter necessaraamen-
te conflituoso da reaJização de desejos, essenciaJ na gênese do sin-
toma. Em suma, tudo se passa como se esse ideal regulador do de-
sejo (Wunsch), no qual Wittgenstein vê um caráter explicativo li-
ceralmeme determinante, não fosse outra coisa senão o que abre
0 caminho ao que é problemático no mais alto grau, ou seja, a dia-
lética do sujeito com o próprio objeto de seu desejo - o que co_ns-
títui o material propriamente clínico da experiência psicanalíuca.

2. O sonho e o pensamento

Wittgenstein formula uma questão relativa ao sonho que en-


contra sua formulação mais direta numa conversas com Rhees em
119
1943: "Se um sonho será um pensamento. Se sonhar é pensar em
algo."39
Essa questão evoca uma outra, a qual foi tratada por Freud no
capítulo VI de A interpretação de sonhos: a da "atividade imelec-
rual nos sonhos''. Mais precisamente, se uma questão evoca a outra
e se lhe sobrepõe, importa distingui-las. Freud considera a ques-
tão da "atividade intelectual em sonho" 4o um aspecto panjcular
do trabalho de "elaboração", ao passo que W ittgensteín formula
a questão em termos de o "sonhar" como "pensar". Portanto, de-
vemos compreender, ao mesmo tempo, por que razão o nível de
abordagem da questão é necessariamente diferente e de que mo-
do, feita essa ressalva, pode ser fixada uma divergência no plano da
concepção do Denken pelo Traumen.
Wittgenstein interroga-se sobre o gênero de pensar, de repre-
sentação e de linguagem que constitui genericameme o sonhar. Por-
tanto, dirige uma espécie de ultimato ao sonho: em que medida
ele responde às exigências do pensar ou que gênero de pensar é esse?
Freud depara com um problema aparentemente análogo em
face de uma constatação relativa ao conteúdo (manifesto) do sonho:
o seu " absurdo". O problema do pensar onírico é suscitado, po.is,
pela investigação relativa à "origem e significação desse absurdo".
Ponto tanto mais sensível de vez .que é aí que se apóiam os adversá-
rios de um sentido do sonho, fatal para o próprio projeto de uma
Fraumdeutung, segundo os quais o sonho não passa de um " pro-
duw, desprovido de sentido, de uma atividade psíquica reduzida
e fragmentada". Este último ponto atesta que, mais do que um as-
pecto do problema geral da elaboração onírica, o problema do pensàr
condiciona a interpretação global do gênero de . 'produto psíqui-
co" que é o sonho per se. Mas justameme, Freud, nunca será de-
mais sublinhar, não se interroga sobre a essência do sonho, ainda
q ue fosse psíquica. Uma questão do gênero de "Se o sonho será pen-
samento" é de um nível filosófico demasiado geral.logo, não per-
tinente para uma "ciência dos sonhos''. Em contrapartida, o exa-
me do status do pensar no sonho- o lugar da "atividade intelec-
rual" na "atividade onírica" - recebe seu lugar de pleno direito
no âmago do problema da "elaboração" do sonho.
Ora, verifica-se que Freud, nisso de acordo coma lógica for-
mal, faz do "julgamento" o ato intelectual por excelência exercido
120
em (mais do que por) o sonho. Depois, ele mostra que "um julga-
mento, em sonho, nada mais é do que a reprodução de um pensa-
mento do sonho"4t_Pensar no sonho é, portanto, reproduzir um
pensamento do sonho. Fórmula cuja sintaxe cumpre apreciar: não
existe, ponanto, pensar no sonho, pois que... existe um "pensamento
do sonho", o qual é reproduzido sob a forma de julgamento.
O sonho não é, portanto, um pensamento e, sobretudo, não
um pensamento confuso: é o que dá ocasião ao exe.r:cício de cena
atividade judkativa cuja única finalidade é repetir passavelmente
-mais para pior do que para melhor: ''Na maioria das vezes, essa
reprodução é mal conduzida, mal adaptada ao conjunto" - um
pensamento do sonho. É esse "pensamento" que faz o sonhante
pensar em seu sonho (o que é algo muito diferente de um pensa-
mento inerente ao próprio sonhante). Acontece que essa reprodu-
ção, assinala Freud, "pode aí ser inseúda tão habilmente que dá a
impressão de ser uma operação ímdectual própria do sonho". O
sonhante imita assim o pensamento, quando não faz senão enxer-
gar o pensamento do sonho num contínuo psíquico de fachada.
O debate iniciado pode especificar-se numa questão especí-
fica que constitui, de certa forma, o principal fator metapsicológi-
co de A interprelafiio de sonhos, qual seja: o trabalho do sonho e,
mais precisamente, a modificação que o "pensamento do sonho".
teve que sofrer "para culm.inar no sonho manifesto, tal como ore-
cordamos ao acordar"42_ É revelador que Freud contraste o princí-
pio de realização do desejo e a aparência manifesta do sonho, e que
aborde a questão da "transposição" para explicar esse contraste.
Neste pomo, o impugnador wittgensteiniano pode encorttrar
um motivo para confirmar suas suspeitas: não se repassou para uma
ambição explicativa " maciça" do sonho, visto que se di~e de uma
chave, "o pensamento do sonho", do qual o sonho sena a expres-
são simbolizada? E a especificação do axioma obtida por esse des-
vio- "o sonho é a realização (disfarçada) de um desejo (reprimi-
do, recalcado) - não fará senão confirmar essa suspeita. .
Com efeito, a questão do gênero de linguagem que o sonho
constitui como objeto de interpretação confunde-se com. a que~­
tào bem centrada do tipo de relação que mantêm entre s1 os dots
elementos do sonho: o seu "conteúdo latente" (o pen~ento de:?
sonho) e o seu "conteúdo manifesto" (seu conteúdo aparente). E
121
no início do capítulo dedicado à "elaboração dos sonhos" que Freud
fornece elementos de resposta a essa questão, onde ele parece pre-
cisar, contra o impugnadorwiugensteiniano. o tipo de relação a pen-
sar. Mas se presrarmos atenção a isso, tal formulação é apenas o pro-
longamemo LOnseqüem e do que foi dito de início sobre o carárcr
não-simbólico do modo de interpretação analítica.
Ora, a comparação que se impõe nesse caso é a do ''enigma".
Parece que Freud teve de aguardar esse momento da verdade para
indicar a especificidade do seu método, aproximando-o de um modo
de expressão bastante p rosaico.
Assim, a concepção do sonho:enigma, longe de ser uma ob-
servação didática acessória, domina o conjunto da concepção da ela-
boração onírica. É interessante sublinhar que, por essa razão, o ~on­
jum o das características da elaboração termina por esvaziar de sen-
tido a idéia de uma correlação expressiva do conteúdo e do pensa-
mento do sonho. A esse respeito, essa concepção deve ser relida C<?-
mo uma especificação do gênero de linguagem que é o sonho aos
olhos de Freud.
· Em primeiro lugar, a própria idéía de "condensação" (Verdich- ·
tung) é requerida pela "desproporção entre o conteúdo do sonho o

e o pensamento do sonho" 1 3. Isso implica que "não só os elemen-


tos do sonho são determinados várias vezes pelo pensamento doso-
nho", mas que ''cada um dos pensamentos do sonho aí está repre-
sentado por diversos elementos"44. Assinale-se que essa idéia jo-
ga por terra a idéia de uma correlação expressiva que exigiria, a ri-
gor, o princípio de um elemento/um pensamento. Se é verdade que
''associações de idéias levam de um elemento do sonho a vários pen- .
sarnentos, de um pensamento a vários elementos", fica impossível
sustentar que ''o sonho forma-se ... a partir do resumo de um pen- o
sarnento ou de um grupo de pensamentos do sonho, ao qual ou- o

tros resumos viriam justapor-se etc. Em suma, os elementos doso-


nho são procedentes de toda a massa de pensamenws do sonho, e
cada um deles oferece determinações múltiplas em relação aos pen-
samencos do sonho".
Não basca tratar a condensação como um "processo" do tra-
balho do sonho: convém indagar que gênero de funcionamento sin-
tático o sonho requer para ser suscetível de uma tal lógica. Confir-
ma-se então que o desejo não é o que ~overna o conjunto do con-
112
reúdo do sonho, com a ajuda do pensamento dominante; é prefe-
rível pensar na existência de uma rede que dissuade de se postular
alguma isotropia do tecido onírico.
Do mesmo modo, o "deslocamento" Verschiebung) revela que
"o que é visivelmente o essencial do p(:'nsamenro do sonho não é,
por vezes, representado por este último, de maneira nenhuma"~>,
o que explica a aparência "caprichosa" da relação entre pensamento
e conteúdo. Também nesse caso, é uma "determinação múltipla"
que se deve pensar. Se elementos de alto valor podem tomar-se me-
nos intensos, ao passo que elementos de menor importância são in-
tensificados- o que complica o fenômeno de "superdetermina-
ção" (Überdeterminierung)- a idéia de uma correlação de natu-
reza entre os dois conjuntos está definitivamente prejudicada.
Não queremos significar com isso que o desejo impõe esse dis-
farce. É verdade que o deslocamento constitui a " transposição de
um desejo inconsciente", mas tudo se passa como se o trabalho da
linguagem do sonho funcionasse, com base nessa limitação- a
"censura" como "defesa endopsíquica"- , segundo o seu próprio
mecanismo. A realização do desejo não vem modelar a massa do
·sonho: o sonho trabalha sob a restrição, ao mesmo tempo insisten-
te e exterior, da censura, mas obedece à lógica de sua própria me-
cânica. É justamente notável que, apesar da suspeita de Wittgens-
rein, Freud encontra o meio de não sacrificar a autonomia do tra-
balho do sonho - como linguagem suigeneni - à sua tese de do-
minação do movimento desejador. É como se o "espúito do sonho"
se efetuasse levando em coma a restrição do desejo, sem se lhe su -
bordinar o·seu trabalho próprio nem suas exigências inatas.
É essa estranha relação que confirma a "conversão do sonho
em imagens". É a mesma descontinuidade que se constata, ou se-
ja, "as diferenças de intensidades das diversas imagens e as diferenças
de nitidez das diversas panes do sonho ou de sonhos inteiros com-
parados entre si". 46 Portanto, nada de tapeçaria que organize nem
que seja uma máscara fundamental ou um "motivo" oculto: a hi-
perprecisão é vizinha ocasional de uma ''vaguidade excitante''.
o Esse claro-escuro tem muito a ver com a satisfação do desejo,
de modo que "os elementos pelos quais se exprime a satisfação do
desejo são representados de maneira especialmente intensa"·17 •
~as isso não significa que o movimento desejoso colore de for~a
123
homogênea as partes do sonho onde ele se projetaria: isso significa
apenas que "é dos elementos mais vivos do sonho que parte o maior
número de pensamentos'', o que evoca os ''coloridos'' de Witt.gen-
stein. Melhor ainda: "A intensidade mais furte recai sobre os elemen-
tos do sonho cuja formação exigiu o maior trabalho de condensa-
ção". Assim, cumpre descartar a hipórese segundo a qual a imensi-
dade de um elemento se liga a uma "senSílÇãO real", ou segundo
a qual "a imensidade sensível (a vivacidade) das diversas imagens
do sonho está em relação com a intensidade psíquica dos elemen-
tos correspondentes no pensamento do sonho". Em suma, "entre
a matéria do sonho e o sonho, há uma completa mudança de todos
os valores psíquicos"48.
Essa " transvaloração" resume o trabalho de sapa do signifi-
cado que o trabalho do sonho represema. Isso poderia ser ilustra-
do, tanto quanto simbolizado, pelo fato de que "o trabalho doso-
nho utiliza o próprio fato de sonhar como uma espécie de recu-
sa"4'>. Se Freud acrescenta que isso corrobora a "nossa afirmação de
que o sonho realiza um desejo", isso também mostra ser essa estra-
nha língua que trabalha, sob o efeito do desejo, em recusa de si
mesma.
Bem vistas as coisas, essa imagem do enigma está destinada
a fornecer a figuração do divórcio mais decidido entre o sentido oní-
rico e o sonho como um todo. Em outras palavras, o sonho não é
dado como tal. de maneira que se trataria de extrair dele o segredo
ou a chave. É a desconexão entre o pensamento e o conteúdo que
é essencial, não só no sentido de que o primeiro seria disfarçado pelo
segundo, mas porque é preciso haver-se com os fragmentos suces-
sivamente. Na interpretação (analítica) do sonho, como na do enig-
ma, é necessário passar por esse momento em que nem o todo em
si mesmo nem suas panes reivindicam um significado.
Uma vez realizada essa renúncia à solidariedade de significa-
do entre o todo e as imagens, será imponante esforaçar-se por ''subs-
tituir cada imagem por uma sílaba ou uma palavra que, por uma ·
razão qualquer, pode ser representada por essa imagem"~o. É en-
tão que, assim reunidas, as palavras não estarão mais destituídas de
significado, "mas poderão formar alguma bela e profundá fala".
Compreenda-se que essa " bela fala" somente surge da interpreta-
ção para si mesma da imagem : porran to, o ·'sentido" não está pre-
·124
sente de maneira homogênea, dominando a série de imagens, br~ta
desse "contexto de imagens", como uma espécie de construto
analítico.
Para empregar outra metáfora, próxima da do enigma: "O con-
teúdo do sonho nos é dado sob a forma de hieróglifos, cujos sinais
devem ser sucessivamente traduzidos para a língua dos pensamen-
tOS do sonho." 51 Portamo, nada de significante dominador (o pen-
samento do sonho) presente de maneira isóuopa em .seu significa-
do metafórico: pense-se, antes, nessa cadeia de pequenas unidades
que impõem à incerprctação uma diacronjasincopada de onde nas-
cerá por refração uma mensagem inteligível.
É sob essa modalidade que Freud considera o paralelismo do
sonho com uma língua, ou seja, sob a sua forma mais material de
cranslação de uma língua estrangeira para outra: "Os pensamen-
tos do sonho e o conteúdo do sonho apresentam-se-nos como duas
exposições dos mesmos fatos em duas línguas diferentes; ou me-
lhor, o conteúdo do sonho apresenta-se-nos como uma tradução dos
pensamentos do sonho, graças a um modo de expressão de que só
podemos conhecer os sinais e a sintaxe quanto tivermos compara-
do a tradução e o oríginal."52
Mas, nesse caso, o desejo é algo muito diferente do significa-
do do sonho- o que equivaleria a colocar o desejo, "coisa em si",
no lugar do pensamento do sonho e o sonho efetivo no lugar de um
corpo destinado a dotá-lo de uma expressão. Nem mesmo se pode
dizer que o sonho é a linguagem do desejo (o que seria, no mini-
mo, pouco rigoroso). O "desejo" é, nem mais nem menos, o que
se apresenta como resultado (e, de certa forma, como resíduo) da
transcrição hieroglífica de cada fragmento de conteúdo correspon·
dente a um fragmento de pensamenco.
O sonho não "exprime", portanto, o desejo: senão se teria de
pensar num enigma dotado de uma imagem e de um pensamento
único, confundidos e reveláveis. Poder-se-ia quase formular opa·
radoxo de que a "verdade" do sonho, sua fórmula desejadora -
''o belo pensamento" do enigma on:írico-, é exterior ao sonho, visto
que cada imagem e cada pensamento trabalham por conta própria,
na ignorância de sua unidade. Se um enigma se pensasse a si mes-
mo, deixaria de ser um jogo para ser urna revelação. lmpossível, pois,
extrair "o desejo" do sonho, já que ele não é encontrado em parte
125
alguma do tecido onírico. Tal como a "solução" do <:nigma, ela orde-
na-o na condição de que se tenha saído da série de pequenos enig-
mas para ler a correlação e a disposição sucessivas.
Assim entendida, a "doutrina onírica" de Freud torna-se, aos
olhos de Wirtgenstein, um precioso documento sobre o modo de
"reprodução" - no sentido quase pictórico (Ahbzldung) que é pró-
prio do pensamento do sonho em relação com "a imagem dos fa-
ws": "Se existe alguma coisa na doutrina freudiana da interpreta-
ção de sonhos. lê-se em Vermischte Bemerkungen, é que da nos mos-
rra de que maneira complicada o espírito humano se proporciona
uma imagem dos fatos (Btlder der Tatsachen)."H
Assinale-se a generalidade da fórmula que nos leva a um a for-
mui ação em termos de teoria do conhecimento: o sonho é visto aqui
como um modo particular de reprodução (psiquéica/icônica) dos
"fatos". Ora, ele revela-se um modo d~ reprodução (Art der Ab-
bifdrmg) "tão complicado e tão irregular" (unregelmassig) que di-
fictimente se poderá falar ainda de reprodução.
A consecução das idéias é reveladora: parcindo de um pomo
de vista resolutamente "representacionista" ou "icônico" -o so-
nho como "modo de:: rc::produção"--; Wirrgensrein sai da leitura
- que se adivinha por isso mesmo atenta- de A interpretação de
sonhos com o sentimento do caráter anômico desse modo de repro-
dução. Daí a sugestão irônica que adquire todo o seu sentido: o so-
nho é um modo de reprodução excessivamente complexo e aber-
rante - e, num sentido, demasiado rico- para que possa ainda
ser decifrado em termos de "reprodução". Na melhor das hipóte-
ses, é apenas uma "maneira de falar' ', mas seria fútil, devemos com-
preender, abordá-lo de outro modo. É decididamente uma espé-
cie de reprodução icônica quase aberrante.
O mériro de Freud, nessa perspectiva, está em ter acompanha-
do, com o máximo de rigor compatível com o seu objeto, as moda-
lidades dessa atividade reprodutora.

3. O onírico sob suspeita: "os sonhos de complacência"


Resta uma suspeita, final e radical ao mesmo tempo, sobre a
própria objetividade dessa hermenêutica onírica, suspeita que nasce
da combinação da censura tormal de Wittgenstein- a de ilegiti-
126
midade do procedimcnco de extorsão do assentimento à interpre-
tação - c de seu reprochc material - relativo à validade do pró-
prio conteúdo da interpretação: esse ''pensamento do sonho" não
teria podido ser "soprado" ao sonhame pelo intérprete-analista,
de modo qu~ estaríamos lidando, na realidade, com um "incons-
ciente de complacência" ?
Não se trata de um simples artifício. porquanto o próprio Freud
não ignorou o problema. Ele dedicou a seção VII de seus Comen-
tários JObre a teoria e a prática da interpretação de sonhos (1923)
a essa questão da influenciabilidade dos sonhos pela ''sugestão'' do
médico.
Freud reconhece essa influência, não sõ sobre ''os pensamen-
tos manifestos", mas também sobre "os pensamentos latentes" do
sonho. Do primeiro ponto de vista: "Não é um milagre se o paciente
sonha com coisas sobre as quais o médico falou com ele ou para as
quais lhe chamou a atenção."5•i Como o sonho é o próprio pensa-
mento do sonho, não se pode evitar a questão de "saber até que pon-
to, na análise, o paciente é a-cessível à sugestão''. Freud não desco-
nhece a influência do analista até no âmago da produção onírica.
Mas a1 ele depara com ··o duvidador" (der Zweifler): este ar-
gumentará que •'os próprios movimentos recalcados do desejo (ver-
drangten Wunschregungen) fazem sua aparição no sonho, ~orque
o sonhante sabe que os deve aí apresentar. que eles são obJeto da
expectativa do analista". O analista.é de outro parecer, e "com ra-
zão". Eis mais um daqueles textos em que Wingenstein parece emer-
gir no que o próprio Freud escreveu, sob as roupagens do ''duvida-
dor" ou do "cético" - ·pçrsonagein genérica a que ele parece dar
seus traços.
Freud esquiva-se tão pouco à questão que fala de "sonhos de
confirmação" (bestatigenden Triiumen). Importa saber se são ou
não "sonhos de complacência" (Gefalligkeitstraume). O recalca-
do seria inspirado ao paciente pelo analista - portanto, o efeito de
uma transferência?
Como procederá ele, pois, para justificar uma suspeita tão di-
rimente? Esse aparecimento da realidade não passaria, afinal. de
uma "ilusão da memória"?
Freud parte de uma constatação cheia de sabor: quando se po-
deria esperar classificar os sonhantes em dóceis e cétkos, o que se
127
verifica? ''Os pacientes que só fornecem sonhos de confirmação são
os mesmos em quem a dúvida desempenha o papel da resistência
principal! "~' O "duvidador' ' junta as duas coisas como se quises-
se produzir apenas confirmações. Sublinhe-se que o homem do
"nem sim nem não" é abundante em "sim" enquanto sonhante!
Como sempre em tais ocasiões, Freud inclina-se para uma es-
tratégia dilatória: "Não se tenta gritar mais forte do que essa dúvi-
da pela via da autoridade, ou abatê-la mediante argumentos." Por
conseguinte: nem quebrar a resistência, nem tentar extorquir o as-
sentimento. O problema está em outra parte: ''Ele deve persistir até
que se liquide no transcurso ulterior da análise."
É de outra pane, com efeito, que chega a "certeza" esperada:
da realização do "enigma". Freud impõe, portamo, que se dissocie
o debate analisando/analista do advento do "conteúdo de verda-
de". Quando a revelação deste se conjuga com a expectativa do ana-
lista, aparece a objetividade da construção.

Apresenta-se a questão de saber para o que tende essa "com-


pulsão de contradição" (Zwang zum Widerspruch). O que quer
aquele que "duvida" até a loucura (no sentido em que se fala de
"loucura de dúvida" obsessiva)? A resposta lê-se no procedimento
precedente: ele quer fazer do analista (de sua "expectativa" de ver-
dade) a causa (exclusiva, ou seja, simultaneamente final, material
e motriz) de seu próprio inconsciente (e não apenas de seu advento).
Esse estranho segredo da dúvida sistemática aparece na his-
tória com que Freud conclui essa seção das Remarques.
Trata-se de uma "discussão'' - Freud emprega o termo ma-
terialmente mais dialético (Diskussion) à sua disposição com um
paciente em " posição extraordinariamente amhival enre",
manifestando-se na "mais fone dúvida compulsiva". A dúvida não
se referia ao próprio conteúdo da interpretação. "Ele não contesta-
va as interpretações de seus .sonhos e estava muito impressionado
com a concordância (Ubereinstimmung) entre elas e as suposições
(Mutmnssungen) que eu exprimira.")6 Assinalemos que é assim
que Wittgenstein procede também na sua própria "discussão" da
interpretação freudiana: a cada vez ele deixa de lado o conteúdo
para concentrar-se no próprio procedimento.
12R
Mas - aí está o primeiro tempo da argumentação - ''ele in-
dagava se esses sonhos de confirmação não poderiam ser a expres-
são de sua docilidade (Gefügigk.eit} a meu respeito". Quanto ais-
so. Freud "faz valer que esses sonhos tinham fornecido também uma
grande porção de detalhes de que eu não podia suspeitar, e q'ue o
resto de seu comportamento na cura não era testemunho precisa-
mente de sua docilidade". Estranha posição, a de ter que se descul-
par por tet' encontrado a verdade, liquidando com a suspeita de ser
a "causa" dela! Freud dedica-se, portanto, a mostrar que não "in-
ventou" nem sugeriu essa verdade.
O "duvidador" retoma, pois, uma segunda vez à carga: "Ele
volcou-se para outra teoria, para indagar se não era o seu desejo nar-
císico de curar que o tinha levado a produzir tais sonhos, porquan-
co eu lhe tinha proposto a perspectiva de uma cura se ele pudesse
aceitar as minhas construções." Vê-se que o nosso cético procede com
a sistematicidade calcada sobre a do próprio Freud. Desta vez, ele
mesmo se postula como "desejo narcísico", como princípio de "pro-
dução" de sonhos- enquanto aparece a palavra "construções". "fra-
rar-se-ia, desta vez, de uma sutil negociação: "Se aceitas as minhas
construções, pago-te uma cura." Chantagem sutil que cheira a bar-
ganha. Convenha-se em que Freud respondeu, desta vez, de for-
ma bastante evasiva: "Tive de responder-lhe que não tinha o me-
nor conhecimento de cal mecanismo de formação do sonho." Mas
apressa-se a acresceo tar que ''a decisão chegou por outro caminho''.
Pelo conhecimento de uma "lembrança" do duvidador crô-
nico. "Ele lembrava-se de sonhos que tivera antes de entrarem aná-
lise, e mesmo de antes de ter aprendido fosse o que fosse, e a análi-
se desses sonhos, livres de toda e qualquer suspeita de sugestão, che-
gou às mesmas interpretações que os sonhos subseqüentes." Estra-
nho argumento, que se elucida pelo fato de Freud ver o sonhante
considerar providencialmente que seus sonhos, desprovidos de qual-
quer influência do analista, exibiam o mesmo conteúdo. Assina-
le-se que ele desconta assim todo o efeito de transferência, único
meio de demonstrar a perfeita "objetividade" da interpretação.
"Por certo, sua compulsão para contradizer encontrou ainda
a saída de afirmar que esses sonhos anteriores eram menos eviden-
tes (deutlich) do que aqueles que tivera durante o tratamenco, mas,
no que me diz respeito, essa concordância (Ubereinstimmung) me
129
basta." H É aí que cumpre deter-se, como na história judaica que
Freud aprecia particularmente -a que ele contou a Fliess em 1899:
"Um casal que possuía um galo e uma galinha decide oferecer a si
mesmo, por ocasião das festas, uma refeição de ave e consulta a esse
respeito um rabino.
- Diga-nos, rabino, o que fazer? Só temos um galo e uma ga-
linha. Se matamos o galo, a galinha se afligirá, se matamos a gali-
nha é o galo que se senti rá infeliz, mas desejamos comer ave nesse
dia de festa. O que fazer?
- Matem o galo! - disse o rabino.
- Mas então a galinha terá um grande desgosto.
- Sim, é verdade, é melhor que matem a galinha.
- Mas, rabino, o galo sofrerá.
- Azar dele, que sofra.">s
Pensa-se, neste ponto, na suspeita de Wingenstein: "Freud
nunca nos mostra como é que sabe onde deter-se, jamais nos mos-
tra como sabe onde está a'solução correta." Sabê-lo-á o rabino da
história tão apreciada por Freud?Em todo caso, ele o diz e o seu di-
zer tem força de lei. Rompe círculo do dilema, ordenando o fato
que não se pode cvüar. detendo a espiral obsessiva. Com efeüo,
observar-se-á o imperativo que rem por virtude pôr flm à discus-
são, c que assinala a irrupção da autoridade no debate.
Seria falso, parece, interpretar o desfecho como um momen-
to de irritação do rabino, procurando livrar-se do caso. Se ele "de-
bate" com o consulente, isso é só na aparência. Se o faz mencionar
sucessivamente as soluções, é para fazê-lo sentir que a escolha feita
não é dele. É então que lhe significa a orde~ que equivale a dizer:
"Veja bem - na base do seu próprio discurso---, você não tem real-
mente a escolha", que se está diante de um "falso problema". O
que ele lhe ordena, de fato, é agir em conformidade com o seu dis-
curso. O "douto" e o "leigo" devem, portanto, saberao mesmotem-
po que não existe outra solução, que é aí, nesse ponto, que se deve
parar. A lição da história é que a questão do assentimento é solu-
cionada pela resposta final do rabino, de modo que seria "insensa-
to" insistir. É o momento da Ubereimtimmung que sublinha o
desfecho.
Vê-se que, para Freud. o debate é conado pela intervenção ma·
gisttal, que por sua própria autoridade mostra a verdade no discurso.
1:\0
De fato, mostra-a dizendo-a. É essa "evidência" que, aparememen-
te. o ''duvidador" Wittgenstein ntio vivencia de forma suficiente
- daí ele recriminar o "doutor" um tan~o rabino que é o funda-
dor da psicanálise! É que, para este, a linguagem serve para revelar
a verdade, pela intervenção do mediador que é o analista: ela.per-
mite assim que a convicção se sacie de uma assentada. a partu do
momento em que soa a concordância (Ubereinstimmung) -em
que o "saber" se converte índissociavdmeote no patrimônio comum
do analista e do analisando.
Para Wittgenstein, a linguagem, se é realmente o terreno do
debate e seu horizonte intransponível, jamais apaga por inteiro o
problema do assentimento: remete, ponanro, para uma tensão ja-
mais reabsorvida, que é no que consiste a "lúdica" da linguagem.
Em outro anigo5?, Freud menciona os tipos de sonho em
que, segundo Wirtgenstein, o analista-imérprete deveria triunfar
de uma annadilha contra a qual previne o analista principiante: cha-
ma-lhes "sonhos de dependência ou de atestação". Têm por carac-
terística serem "fáceis de interpretar", mas estéreis, visto que "a tra-
dução nada mais fornece além do que o tratamento já pôde desco·
brir nos materiais dos dias precedentes" 6o. "Tudo se passa, ironi-
~a Freud, corno se o paciente tivesse a amabilidade de fornecer, sob
a forma de sonhos, exatamente o que nós tínhamos acabado de lhe
'sugerir' antes." Um pouco de experiência cedo o fará saber que "as
simples confirmações que de desejava só se produzem em cenas con-
dições, sob a influência do u atamemo". Em suma. as apólices ana-
líticas só têm valor simbólico; ou melhor, o uatamenco é que reve-
lará qual foi a "cotação" que elas alcançaram. .
Esse esclarecimento técnico indica que Freud não tgnorava o
problema da sugestão, mas abordava-o como obstáculo relativo, por-
quanto ela não poderia obter uma interpretação "efetiva": ainda
precisa interpretar o peso dessas ''confirmações'', as quais são, com
efeito a forma de uma "amabilidade" equívoca de que o incons-
ciente,do analisando sonhame é capaz. Isso também revela que Witt-
genstein toma Freud, em suma, pelo analista principiante contra
quem ele próprio adverte! Faz-se, pois, em poucas palavra~, u~a
imagem pouco polida da experiência analítica. a qual jama1s rena
saído do terreno da "sugestão barata".

13 1
( . \ J>li l 'L() 1

Os lances do de bate:
linguagem e interpretação

Por trás desse m aciço dossiê ti e A interpretação de sonhos va-


mos encontrar de novo uma peça capital do debate entre Frcud e
Wittgenstein: a que se refere ao objeto da interpretação.
O mais exuaordinário é que a série de reproches endereçados
por Wittgenstein - sugestibilidade da interpretação, realização do
desejo, pertinên cia da teoria do simbolismo, pensamento do sonho
- unifica-se em torno de um debate q ue se reduz a uma divergên-
cia relativa à estrurura em "quebra-cabeça" do objeto hermenêu-
tico, o que nos vai dar aces;;o ao problema considerável de uma gra-
mática genérica das formações do inconsciente.
Mas, simetricamente, a pro blemacização do objeto requer uma
reativação da questão do sujeito da interpretação.

I. Do quebra-cabeça freudúmo ao quebra-cabeça


wiltgemteiniano: o objeto da interpretação

É muito revelador que Freud recorra a essa. metáfora do que-


bra-cabeça num contexto decisivo da origem da psicanálise, no mo-
mento de defender a teoria do papel etiológico da cena pri mordia]
desde A etiologia da histena (1896). Em apoio da "impressão de
que os pacientes devem ter verdadeiramente vívido as cenas da in-
133
fância que reproduzem sob a coerção da análise", acabará alegan-
do "uma prova" que "decorre da relação que existe entre as cenas
infantis e o conteúdo de codo o resto da história do paciente": "Nos
quebra-cabeças das crianças. após toda a espécie de tentativas, adqui-
re-se fina lmente a cerccza absolma dt que tal peça corresponde ao
c:spaço vazio, porqut só da complera o quadro c, ao mesmo tem-
po. seu denreado irregular encaixa-se no das outras peças, de mo-
do que só resta esse espaço val: io c nenhuma sobreposição se im-
pôc. O mesmo ocorre com as cenas infantis; das apresentam-se co-
rno complemen cos indispensáveis à cst rumra associativa e lógica da
neurose. sendo sua inst-rção o único elemento que coma compreen -
sível - pode-se mesmo dizer: evidmre- a gênese do caso em seu
wdo."(· 1
Assinale-se que a imagem do quebra-cabeça destina-se a ex-
plicar o sentimento de necessidade de um complememo, pelo qual
o conjunto se organiza como significante. O quebra-cabeça freu-
diano só se refere à fragmentação para destacar melhor o sencido
desse demcmo em falta, cuja presença se impõe para que se reali-
ze o sentido global: esse "espaço vazio" que ordena, de cerra for-
ma, pelo fato de ter preenchido é bem representativo dessa concep-
ção. Além disso, no caso presente, a neurose é assimilada à "estru-
tura associativa e lógica" de conjunto, ao passo que as "cenas in-
fantis" são assimiladas aos elementos que, por sua adjunção, rece-
bem seu sentido do conjunto estrutural, ao mesmo tempo que o
confirmam. A imagem do quebra-cabeça é, portanto, mais sutil do
que parece à primeira vista. Entre o conjumo e as peças, a questão
não consiste somente num todo e panes, mas numa estrutura sig-
nificante e seus e tememos. Portao co, o '' elemen co'' não ocupa sim-
plesmente seu lugar nesse conjunto como aquilo que deve preen-
cher um "caso" vacante num espaço, mas como o que anima um
conjunto relaciona!, ao mesmo tempo que é aquilo por que esse con-
junto relaciona! se anima.
É o que permite o uso, ao mesmo tempo pertinente e ambí-
guo, do termo. Pois Freud sugere, por um lado, que a estrutura neu-
rótica é que impõe o sentido das cenas infantis mas, por outro, ca-
racteriza as cenas infantis po r seu conteúdo de sentido à luz dessa
estrutura neurótica de conjunto. Círculo revelador que ele assumi-
rá com muito maior nitidez quando river reconhecido que a reali-
134
dade da cena primordial não constitui elemento ind ispensável de
sua operatividade significante.
Tal é o sentido do quebra-cabeça: como metáfora do conhe-
cimento, obriga a pensar uma solidariedade da estrutura e do ele-
mento. Mas tudo se passa como se Freud fizesse dela um uso em
que a adjunção de sentido adquire ipso f(IÇtO valor de "verdade",
em suma, de "prova".
Não é fortuito, portanto, que em Remarques sur l'interpré-
tation des rêves, cuja importância assinalamos mais acima62, essa
imagem do quebra- cabeça adqu ira toda a sua medida . Freud
introduziu-a não aleatoriamente para equilibrar a obstrução
céticaeí3.
O leitor julgará, pela seguinte comparação de textos, até que
ponto Wittgenstein acompanha de perto, nesta "co nversação" -
portanto, de memória - , o raciocínio freudiano:

O que finalmente o leV2 à cer· Poderíamos dizer sobre um so-


teza (o anaJista)é precisamente a com- nho, uma vez interpretado, que ele se
plicação do problema que lhe é apre- i nsece num contexto em que deixa de
sentado, compar~vel à solução de um ser perturbador. Nesse sentido, o so-
desses jogos infantis chamado que- nhame sonha de novo seu sonho num
bra-cabeça. Um desenho em cores co- ambiente tal que o sonho muda de as-
lado sobre uma chapa de madeira e pecto. É como se nos fosse apresenta-
r.xatamente adaptado a uma moldu- do um fragmento de tela no qual um
ra de madeira foi recortado em nume- artista teria pintado uma mão, uma
rosos pedaços, cujas fromeiras dese- porção de rosto e algumas outras for-
nham as linhas curvas mais irregula- mas num arranjo que nos parece in-
res. Se se consegue organizar esse congruem e e nos deixa perplexos.
montão desordenado de pedaços de Suponha-se que e.sse fragmento se
madeira, cada um dos quais contém apresenta no centro de uma grande te-
um desenho incompreensível, de mo- la virgem e que nos puséssemos a pin-
do que o desenho adquire um senti- tar segundo formas - aqui um bra-
do, que tudo se encaixa sem uma úni- ço, ali uma perna etc.- que se con-
ca falha, e que o todo preenche por catenam exatamente, preexistem no
<:ompleto o quadro, se todas essas con- fragmento original e se lhe adaptam;
dições são satisfeitas. 5abe-se que foi e que chegássemos a um resultado que
encontrada a solução do quebra-ca- nos permita dizer: "Vejo agora por
beça, e que não existe nenhuma q ue este fragmento se apresenta as·
ouuaG4. sim, vejo como tudo isso se encaixa e
de que maneira, o que representam
estes diversos detalhes..." e assim por
diantef•) .
135
Essa referência ao quebra-cabeça esclarece-se, porém, de mo-
do diferente no uso que dele fazem Freud e Wittgenstein, respec-
tivamente. Uma passagem complementar do Caderno azul reve-
la-se preciosa para en unei ar essa diferença: ao evocar o modo de re-
fletir sobre " nossas experiências" e de as submeter "a uma análise
científica", Wittgenstein observa: "Temos a impressão de tentar
montar um quebra-cabeça de que não possuúnos todas as peças.
É um erro, pois todas as peças aí estão, só que misturadas; e o exa-
me delas assemelha-se ainda ao jogo de quebra-cabeça neste pon-
to: não servirá de rtada tentar ajustar as peças à força. Não temos
outra coisa a fazer senão examiná-las todas com o maior cuidado
e atenção, afunde descobrir sua ordem de montagem." 66
Essa abordagem esclarece a divergência de racionalidade en-
tre Freud e Wittgenstein, ao mesmo tempo que elucida a crítica witt-
gensteíniana da interpretação analítica (notadamente dos sonhos).
Sç não é um acaso se tanto num como noutro a imagem do que-
bra-cabeça se impõe para denotar o objeto hermenêutico. é remeten-
do-a para dois tipos de lógica que a referência ao quebra-cabeça to-
lera. Em Freud, o quebra-cabeça dá imagem a um objeto tot~ . mas
atualmente fragmentado que importa reconstituir mediante a aqui-
sição dos elementos em falta: modelo sucintamente exposto na con-
cepção freudiana da construção-rememora.ção, e confirmado na con-
cepção da interpretação de sonhos.
Para Wittgensteín, o quebra-~beça não é o reflexo fragmen-
tado de um objeto que importaria refazer para coincidir consigo mes-
mo: aliás, não existem, de certa maneira, panes realmente em fal-
ta. Tudo já aí está, o jogo está completo desde o começo, m~ em
desordem. Melhor ainda: a desordem é apenas uma aparência: basta
olhar atentamente- o que, é verdade, constitui a ane intdectual
suprema- para que se patenteie claramente essa ''ordem de mon-
tagem" que sempre animou o conjunto.
É verdade que a mudança parece muito sutil: não procura o
próprio Freu_d descobrir a ''ordem de montagem'' de sew "objetos
oníricos"? De fato, tudo se passa como se ela existisse para dotar
Freud de um meio de reconstituição do objeto: a "construção" ru.
põe, ponanto, a introdução, à medida que se desenvolve o traba-
lho, de novos elementos até o ,ponto de ~curação do quebra-cabeça.

136
No "quebra-cabeça wirtgensteiniano", a interpretação nada mais
faz do que passar de um estado do jogo ao ouuo (e n~o de um ob-
jeto incompleto ao seu "emprego" como conjunto). E por isso que
se necessita apenas do tempo de compreender que é realmente as-
sim que funciona o jogo: não se trata, portanto, de construir ou de
interpretar dizendo "a verdade" do objeto (em contraste com a apa-
rente desordem do jogo), como se se passasse de um caos a uma or-
dem; deve-se, pelo contrário. examinar e descrever o que, para além
da aparêcia de ininteligibilidade, organiza o jogo. Isso equivale a
trazer para a consciência o funcionamento do "jogo" - por exem-
plo, onírico.
É por isso que Wittgcnstein pode recusar a ilusão não somen-
te da psicanálise mas a do próprio sujeito cognosceme, de injetar
a verdade no quebra-cabeça. O quebra-cabeça é que é o alfa e o ôme-
ga do jogo e do próprio conhecimento: "saber" é apenas, em últi-
ma instância, um novo estado- subjetivadci pelo "conhecimen-
to" do próprio jogo. Se temos a "impressão" de completar o que-
bra-cabeça, é porque não estamos bem esclarecidos sobre a natu-
reza do próprio "jogo de linguagem". Em suma, interpretar - um
sonho, por exemplo- não é atribuir-lhe sua significação, a qual
lhe animaria a forma; é exibir o sistema de regras que justamente
"regula" o jogo. Entre o objeto e sua interpretação, há a diferença
do jogo que se joga por si mesmo e do jogo cuja "regra" se torna
perceptível. .
Tudo o que Wittgenstein escreve sobre o sonho em confronto
com Die Traumdeutung esclarece-se por seu fascínio pelo sonho co-
mo "fragmento vivo", revelador da história do indivíduo. Portan-
to, o que ele recrimina, paradoxalmente, na concepção causalista
de Freud é a extinção, por assim dizer, do caráter significante pró-
prio desse fragmento: "O que é fascinante no sonho não é o·seu vín-
culo causalcom os acontecimentos da minha vida etc. , mas, antes
de tudo, o fato de que ele age como um fragmento, e um fragmen-
to muito vivo, de uma história cujo resto permanece obscuro."
Passàgem capital, pois mostra a preocupação de Wittgenstein
de conservar para a formação onírica seu valor histórico, na escala
biográfica do próprio indivíduo. Por conseguia te. o sonho não és~­
meme o efeito de uma história, ele é consubstâncial com essa his-
tória: "age", pois, no sentido de que produz'literalmente um sen-
137
lido singular. Além disso, esse efeito iluminante é tal que se recor-
ta sobre o fundo de uma história que permanece obscura.
Existe, portamo, um caráter "inspirador" - nesse sentido es-
tético- do sonho: um sonho inspira o seu sonhante, que é o único
público interessado: "Pode-se dizer. é verdade, que contemplamos
a imagem do sonho sob o estímulo da inspiração, que estamos, com
efeito, inspirados. Pois se conta rmos o nosso sonho a outrem, a maior
pane do tempo sua imagem não lhe inspira absolutamente nada.
O sonho afeta-nos como uma idéia prenhe de desenvolvimentos"
(entwiklungsschwangere Idee)ú7 - o que nos leva a pensar no Ur-
phanomen goethiano.
A crítica wittgensteiniana do "quebra-cabeça" freudiano con-
siste, portamo, em que o desdobramento do sonho dissolve-o num
contexto de onde recebe um sentido de certo modo condicionado.
Wiccgens.tein quer, como sonhame, poder jogar com as possibili-
dades indefinidas que seu sonho implica.

2. Sonhos e "jogos de linguagem"


É verdade, à luz dos exemplos precedentes{supra, p . 55 ss.).
que Freud, pela própria maneira como temporiza, parece ter por
ceno o aparecimento de uma relação nova entre o sujeito e o que
ele diz: está assim em posição. para parafrasear Wittgenstein, de
usar " os jogos de linguagem". Pode-se, a rigor, descrever o resulta-
do desse "jogo" como aquele em que o analisando se vê forçado a
reconhecer o que "sabe" - o conteúdo inconsciente, no caso -
c~mo fundámemo, inabalável e incontestável , de seus jogos de
lmguagem.
Acontece, porém , que subsiste uma diferença importante: o
jogo de linguagem, para Wiugenscein, não se resume a jogar com
um referencial - nem externo nem interno: ele tem justamente
por função mocivac a economia de um tal referencial. Tudo se pas-
s~ como se, em Freud, os "jogos de linguagem" continuassem gra-
v.ltando ~m torno d~ um "referencial", ainda que de um gênero par-
u cular, e verdade. E desse referencial, no fundo, que a metapsico-
logia extrai a teoria. De sorte que o desfecho do ''debate" consiste
m~i~o mais em "anular" o jogo de linguagem - precipitando o
SUJetw para o referencial do seu próprio desejo - do que em
1."'8
restabelecê-lo. É exatamente pela mesma razão que a "lógica do as-
sentimento" - se ela tem uma função "tárica" na fase fenomeno-
lógica da resistência, aquela que idemificamoscomo a do " debate
intdecrual" entre analista e analisando (supra) - deve encontrar
sua "solução", assim como sua "dissolução". no surgimento de uma
verdade, de um consensus que absorve o assensus.
Assim, o famoso "Azar dele, que sofra!" (supra, p. 130) soa
como um "Acabe de jogar!" que a concepção wiccgensteiniana da
linguagem não pode admitir - porquanto remete para o desen-
volvimento sem fim dos "jogos de linguagem": é o caso de se dizer
que nunca se acabou de jogar...
A noção de "jogo de linguagem'' permite finalmente pensar,
através da liberdade de linguagem, numa possibilidade essencial,
a de continuar a dizer, a produzir significação mudando as regras.
Um aforismo das Fiches o diz claramente: "Cozinhando segundo
regras diferentes das regras corretas, faz- se má cozinha; mas ao jo-
gar de acordo com outras regras que não as do xadrez, está-se jo-
gando um outro jogo e ao falar segundo outras regras gramaticais
que não estas e aquelas, não se está falando errado por isso, mas fa-
lando uma outra coisa."67bit Assim, a diversificação da linguagem
em jogos nada tem de "laxisca": ela não abranda g ratuitamente sua
coerção, mas mostra a possibilidade d e se produzir ainda um sen-
tido, para além da univocidade. Como se a linguagem encontrasse
ainda e sempre o meio de dizer, para além do jogo que a determi-
na num dado momento - e a limita provisoriamente.
Assim, convém ler aí a idéía de que "o conceito de ser vivo tem
a mesma indeterminação que o de linguagem"68. É essa possibili-
dade de determinar ainda para além da determinação atual o que
fascina Wittgenstein em seus jogos de linguagem . Mas esse "vita-
lismo" aparente não significa uma teleologia da linguagem. Wi tt-
genstein sublinha, pelo contrário, que, se "o emprego da lingua-
gem é autônomo", é porque, ao contrário de outras práticas, não
é definido por "fins", é porque "não se define para nós como um
recurso dtstinado a preencher determinado fim".
O próprio "uso" não poderia, portanto, introduzir um fim
externo para a linguagem : ele permite pensar esse fecundo para-
doxo de que a linguagem consiste apenas nessa possibilidade de fazer
variar seus usos.
139
3. Do Witz à p sicologia da vida cotidiana:
jogos de linguagem e causalidade psíquica

Entre as formações do inconsciente invemariadas por Freud,


existe uma que suscita em Wittgenstein um interesse especial: é o
"chiste" (Witz). Na medida em que é possível julgá-lo por suas de-
clarações, Wirtgenstein exprime-se positivamente sobre esse capí-
tulo. Com efeito, enquanto submete a concepção do sonho a uma
crítica segura e detalhada, credita a Freud o cer incluído nessa cate-
goria uma massa de produções psíquicas. .
Mas isso não elimina a dificuldade da "explicação causal". É
justamente a título de exemplo do uso da expressão "causal", onde
a "estética" se imporia, que intervém a referência a O chiste e suas
relações com o inconsciente nas Preleções sobre estética: "Freud es-
creveu sobre o chiste. Você poderia chamar de causal a explicação
que Freud deu." Ora: "Tudo o que poderíamos dizer é que, se tal
explicação lhe é dada, você diz: 'Sim, é isso mesmo'."69 Em outras
palavras: "Freud transforma o chiste numa forma diferente, a qual
reconhecemos como uma expressão da cadeia de idéias que nos le~.
va de um extremo a outro do chiste." Quer dizer, não se trata de
uma "justificativa que concorde com a experiência", mas de uma
"justificativa aceita". Ela é legitimada pelo assentimento. O erro,
é preciso entender, seria acreditar que tal justificativa explica a rea-
lidade do motivo, que está "conforme" com ela: sua "objetivida-
de" só é preenchida pda aceitaçio que provoca - no que ela é exem-
plar do caráter fStético da explicação analítica. .
Se Wittgenstein é, neste terreno, mais "positivo" do que no
da teoria dos sonhos, isso não significa que o princípio de sua críti-
ca seja diferente. Mas, no terreno do chiste, o procedimento expli-
cativo está, de certo modo, legitimado - pojs basta que a explica-
ção do chiste satisfaça o interesse para que ela seja considerada ....
satisfatória. A ilusão causalista, crônica na explicação freudiana, pa-
rece ter sido aí~ portanto, relativamente neutralizada.
Aliás, é significativo que Freud examine o vínculo do chiste
com o jogo, que encontre em certa teoria do cômico a definição do
Witz como spielendes Urteil (o chiste como julgamento em forma
de jogo)7o. Mas, precisamente, a ênfase sobre esse componeme lú~
140
clico, se não é desprovida de importância, antes esconderia o que
o jogo dissimula e quem o anima em troca. Freud fornece-nos dis-
so uma notável metáfora: após ter evocado "a dupla raiz de prazer
do chiste" (Wtlzeslust), "jogo com as palavras c jogo com os pen-
samentos", ele precisa que "esse prazer do chistc" associa "um ca-
roço de prazer de jogo (Spiellust) originário e uma casca de remo-
ção do prazer de inibição (eine Hülle von Aufhebungslust)"1 1 •
Eis precisamente descrito o sentido do debate futuro em tor-
no do Witzeslust. Este não poderia esgotar-se em seu caráter lúdi-
co verbal: se o núcleo energético é, de fato, um puro prazer-do-jo-
go, cumpre acrescentar que o jogo com os pensamentos "sucum-
biu a uma repressão muito enérgica" e que "o prazer que ele está
disposto a fornecer não é outro senão o da remoção da inibição"
(Hemmung). É, portanto, se assim quiserem, um jogo impuro, pois
que trabalha por conta da inibição. Todas as teorias da lucidez do
Witz, seja qual for o seu fundamento, redundam, aos olhos de Freud,
em desconhecimento dessa heteronomia do jogo, tolhido na depen-
dência de uma lógica do recalcamento. Elas só exaltam a criativi-
dade para negar-lhe a causalidade. Em suma, neste c~o, o "caro-
ço" lúdico serve para ocultar a "casca", que se mostra JUStamente
como sendo a parte essencial. Em outras palavras, esse prazer é in-
compreensível sem e5se ganho de ludibriar a críúca e frustrar ore-
calcamento... o que une sua função social e sua funç.ão inconsciente.
Mas existe uma razão mais precisa pela qual Wingenstein
acompanhou com interesse a elaboração freudiana do Witz:.é que
esse domínio exibe da maneira m~s direta uma problemánca da
'.'intenção" - termo não fonuitamente recorrente na elaboração
que se seguiu ao desmoronamento do logicismo d~ Tractatus. A
enunciação tem implícita um~ intenção que necessanamente a mo-
dula, não como um pequeno motivo psíquico suplementar- nesse
sentido, a teoria da intenção não é psicol9gica ---; mas como pres-
suposto interno, do lado do locutor, da enunci~ção. É, aliás.• a~­
zão pela qual a inenção se objetiva na patol~gaa ~a comumcaçao
(no "Que quer você dizer?" que problemauza a mtenção).
Mas isso significa também que essa possibilidade de certa m.a-
neira crônica de tensão entre enunciação e intenção revela uma ~u­
tualidade humorístíca da própria enunciação. Ela anuncia-se na In·
flexão de um enunciado que permite, de algum modo, a todo o mo-
141
menta do seu processo de enunciação, aceitá-lo cum grano salis. Para
um ''bom entendedor", o locutor pode significar que ele entende
c:cprimirumacoisadiferentedoquediz ou, melhor, que o seu enun-
Ciado encobn: uma intenção que não compona decifração imedia·
ta. É e~sa a mais efetiva forma do "inconsciente" que Wittgenstein
po~er_1a pensar, radicalmente imanente na linguagem. Existe aí um
Wrtz merenre na própria enunciação: o qual é passível de ser bati·
z.ad? co~o "c~isre gramatical" (grammatischer liVitz), que subs-
u~uJ a pstcologta profunda do Witz por uma gramática das profun-
drdades reveladoras do humor da lingua e da letra.
. _Tod~ a co~cepção freudiana de uma "psicopatologia da vida
cond1ana apóia·se numa certa teoria da causalidade interna: "Cer·
t.as insuficiências do nosso funcionamento psíquico ... e certos atos
que s~o, na.aparência, não-intencionais.revelam-se, quándo sujei-
tos à tnvesugação psicanalítica, perfeitamente motivados e deter·
minados por razões que escapam à consciência."n Postulado de
cerro modo gramatical que ordena os Ver-{sprechen, -lesen, -schrei-
betJ,
.
-greifetJ}
. como modalidades d.isfuncionantes' revelando uma
mtenctonalidade inconsciente.
P~rece que Wittgenstein dedicou sua atenção a esse ponto, de·
senvol~tdo ~o capítulo final da Psicopatologia da vida cotidiana,
c~mo mduzt.ndo a.ques~ão do determinis~o psic.ológico: "Os psi-
cologos deseJam dtzer: Deve haver uma let', muuo embora lei al-
guma tenha sido encontrada. (Freud: 'Querem dizer, cavalheiros,
que as_ mudanças, nos fenômenos me mais, são produtos de acaso?')
Todavra, a meu ver, o fato de não existirem efetivamente leis desse
gênero é que me parece imporrante."H Wittgenstein visa aí a pas-
sagem em que Frcud, desvencilhando-se da superstição, afirma sua
recusa de um acaso interno e de uma espécie de necessidade excer·
na, ao afirmar sua crença num acaso externo .e numa necessidade
interna (psíquica)74 • Essa "Psicologia do inconsciente" apóia-se
nu~a r~~tação da crença (preguiçosa) no acaso psíquico. Wittgen-
stem adivinha nessa argumentação uma espécie de ultimato: se.não
se de~e abandonar a psique ao acaso, então cumpre postular uma
legaltdade, de modo que " uma manifestação não-intencional da
minha própria atividade psíquica me revela algo de escondido".
. S_:m se deixar impressionar pela vivaâdade com que Freud ex-
uat da1 todas as conseqüências conhecidas, e às quais não deixa de
142
ser sensível, Wíttgenstein reapresenta a questão do lado do víncu-
lo entre a imencionalidade e os jogos de linguagem.

4. A questão da certeza: inconsciente e JOgos de


linguagem

Mas precisamente ao concluirmos este livro li esbarramos com


um problema homólogo daquele que havíamos assinalado no fi-
nal da investigação apresentada no livro I, relativo ao assentimen-
to: refere-se ao sujei co da cerreza em sua relação com o inconsciente.
É pela mesma razão que o "saber do inconsciente", que a psi-
canálise pretende ser, obriga a reapresenrar a questão da relação do
sujeito com a sua linguagem. Se o sonho dá acesso ao jogo de lin-
guagem, é realmente o sttjeito (como "jogador") que vemos perfi-
lar-se. Do mesmo modo, o que se joga ao nível da "psicopatologia
da vida cotidiana" não é, antes de uma causalidade abissal, uma
relação do "jogador" com seus jogos de linguagem?
Desse pomo de vista, é significativo que o Tractatus despre-
zava o ceticismo em nome da lei da linguagem, ao passo que vol-
tou a estar na ordem do dia na "segunda fi losofia". "O ceticismo,
dizia-se, não é irrcfutáve), mas desprovido manifestamente de sen-
tido quando quer pôr em dúvida o que não tem possibilidade al-
guma de ser interrogado. Pois a dúvida só pode existir onde existe
uma interrogação; uma interrogação só pode existir onde existe uma
resposta, e esta só pode existir onde algo pode ser dito." 7 ~
Isso não significa que a idéia de linguagem como lei desapa-
reça na teoria dos jogos de linguagem. Mas, pelo fato de que estes
se convertem em "formas de vida" (Lebemfomzen), a linguagem,
sempre constituinte, tende a "subjetivar-se", não pelo acréscimo
de uma subjetividade (cuja economia os jogos de linguagem per-
mitem que seja feita de um modo ainda mais radical), mas pela in#
tradução desse ponto de vista "operativo" que estabelece uma censão
na efetuação da própria linguagem.
Compreende-se que, correlativamente, quem é, como Witt-
genstein, sensível a essa lúdica de linguagem, vai estar em condi-
ções de relegitimar a posição de "cético" em relação ao funciona-
mento das teorias da linguagem que podem ser globalmente de-
143
signadas como " referencialistas". É esse o caso na sua crítica da psi:
canálise, onde, como vimos, ele argumenta do ponto de vista do
cético. Seria errôneo concluir daí que Wittgenstein dá razão ao cé-
tico: isso seria permanecer no drculo que a própria concepção refe-
rencialista mantém, e o meio mais seguro de deixar escapar o lugar
mais adequado para essa crítica. 'frata-se, antes, de reintroduzir ''o
ponto de vista cético" a fim de dialetizar a linguagem pelo que ela
é, ou seja, a efetuação lúdica da linguagem. Por conseguinte, Witt-
genstein não comunga no ponto de vista cético a não ser como lem-
brete do que existe de virtualidade na própria linguagem.
Portanto, não é fortuitamente através da teoria dos "jogos de
linguagem" que a questão da certeza retoma ao primeiro plano da
filosofia de Wittgenstein.
Compreendemos, com efeito, que a teoria dos jogos.de liri-
guagem. pelo próprio fa to de que rdativiza a idéia de uma lingua.-
gem-referendal e enfatizao uso, introduz uma questão: a da "cons-
uução'' da convicção. ''A alguém que dissesse: 'Não sei se existe ali
uma mão', poder-se-iaresponder: 'Examine mais de peno.'- Essa
possibilidade de construir sua convicção penence ao jogo de língua·
gem, constitui um de seus traços essenciais."76D~ -se reconhecer,
com efeito, que, na concepção "ôntica" queeraado Tractatus, atri•
buía-se à linguagem a função própria de um "mundo-quadro". O
jogo de linguagem reinrroduz a questão da convicção do locutor.
Ao jogar sua linguagem, o locutor vê-se em posição de ter que cons--
truir sua convicção.
De fato, a "certeza" é um efeito subjetivo do próprio jogo dê
linguagem: "A certeza é como um tom de voz segundo o qual se.
verifica um estado de fatos, mas não se conclui desse tom de voz
que esse estado está estabelecido."" Na medida em que "a signi·
ficação de uma palavra" é reduzida a "um modo de sua utilização"
- o que desorienta o referencial - , a convicção é remetida para o
próprio processo de desenvolvimento da linguagem como jogo: a
convicção é o efeito de uma involução p rogressiva da "dúvida".
F.m outras palavras: "Dizer de um homem ... que ele sabe al-
guma coisa", "só é verdade na medida em que constitui um fun-
damento inabalável de seus jogos de linguagem." O inconsciente
e suas formações não designariam o que se joga incessantemente
de novo nos confins do jogador e de seus jogos?
144
Em suma, o que Wittgenstein denuncia, na hermenêutica
freudiana, incrustada num causalismo estrito, é a idéia de uma chave
única que abriria a estrutura patológica: "A idéía de Freud: na lou-
cura, a fechadura não é quebrada, é somente mudada; a velha cha-
ve já não pode mais abri-la, mas uma chave que tivesse uma outra
forma muito diferente (ein anders gebildeter SchlüJJel) poderia
fazê-lo."78
· É para essa questão da "fechadura" que vai ser pre~iso n~s vol-
tarmos , ou seja, a questão dos fundam entos da racronahdade
explicativa.

145
NOTAS

I. I.eçotu .rurl'e.rthétique, ~ 20 (lll). pp. )). 56 IP· 47 da edição hr.I.Silt'ira, op. cit.].
2. Conver.rations StiT Freud. p. l01[p. 85 da trad. brasileira. op. cit.].
3. 1rala-se da seção E do cap. Vf relativo à "Elaboração dos sonhos".
4. Converufijes sobre Freud. p. 92 IP· 77 da lrad. brasileira].
5. Op. cit.. p. 94 [p. 71) da trad. hra.~ile i ra, up. Cli. ).
6. Die Traumdeutung. cap. VI,§ 5. I, p. 197 IP· 384 dovol. V, A interpreltlfiío
de .wnhos, 2~ Pane. <"ap. V. § E. I, da edição brasileira Jmago. (N. do T.)]: É
um cen o "chapéu de palha de formato peculiar: sua parte central escava vira-
da para cima c suas abas pendiam de forma desigual".
7. Cap. VI, Int rodução, op. cit., p. 195 IP· 379 na rrad. !mago).
8. Conver.rations, p. 92 (p. 77 da rrad. brasileira, op. ciJ.j.
9. Op. CIÍ., ibid.
10. Une re/ation entre un symbole et un symptõme. 1916, 1rad. francesa em Idées,
résuitats, problemer, I, 237. ·
11. Op. Cli.. p. 238.
12. Devemos a William Banley In (Wiugemtein, l973}as inforrm.çõessobrees- :
se aspecto, que de próprio obteve em conversas e outr"d.S comunicações com
amigos de Wiugenstein (Wittgenstein, u11evie, uad. francesa, Ed. Comple-
xe, p. 28, nota). Esse "primeiro sonho" daca do inverno de 1919: ocorreu quando
Wingenscein era prisioneiro de guerra em Monte Cassmo (ao norte de
Nápoles).
13. Banley, op. cil., p. 28.
14. Bardey, op. cit., p. 31. Este sonho situa-se em dezembro de 1920. A Allecgas· ·
se é a casa natal de W ittgenstein, o palácio Wittgeosrein.
15. Op. cit., p. 32.
16. É Freud quem emprega a expressão ao aplicá-la ao sonho das flores.
17. Trata-se do exemplo dado na seção 10 do Cap. VI de Die Traumdeutung, sob
o extraordinário tírulo "Contribuição para a quescão da simbólica do sonho
nas pessoas saudáveis", op. cit., p. 20~.
18. O texto do sonho refere-se a "rhe cc:nrre of a table", que Freud desraca corno
· um:\ "expressão pouco habicual''. Esse sonho, de uma jovem em vésperas de
casar. é relacionado com o tema da defloração, da virgindade e do objetO f:il.ico.
19. Ú f()msurl'esthétique, § 20, pp. 56-57 [pp. 47-48 da trad. brasileira, op. eti. J.
20. ÔmversaJion; sur Freud. p: 91 [p. 77 da trad. brasileira, op. cit.J. ·
21. No sonho das flores, o tema manifesta-se pelo equívoco entre as palavras "vio-
leta" c "violada".
22. Comunicando Wingenstcin seus sonhos a Freud, como o :to ver aí uma irrup-
çio do Traumdeuter Iintérprete do sonho) oo próprio seio de seu sonho?...
23. Cunversations sur Freud, pp. 98-99 Ip. 82 da rrad. brasileira, op. cil. }.
24. Infra, p. 158 s.s.
25. Op. cil., p. 89. (p. 75 da trad. brasileira, op. et't.. ].

146
26. Bemerk.ungen über die &rben, de 1950J reata uma reflexlio sobre as cores cu-
jos pródcomos se enconti"Wl emrc.l929 c meados de 1930. Ver, sobre esse pomo,
o posfácio de Elisabeth .Rigal à edição francesa, Remarquu Jur les coule•m,
Ed. TER, 1983. p. 75 ss.
27. Remarques sur ies couleuu, op. cit., § 230; p. 55.
28. No sentido em que há pua Wirtgenstein "problemas fenomenológicos" (e
não "uma fenomenologia").
29. Op. cit., § 201, no semidÇI de "a mais clara das cores", p. H.
30. Die Traumdeutung, cap. III, op. cit., p. 72.
31. Grammaire philosophique, §50, p. 24.
32. Op. cit.
33. Die TrtJumdeutung, op. cit., p. 68. IP- 130 da edição !mago).
34. Op. cit., p. 69. [p. 131 da edição Irnago. op. út.J.
35. Op. cit
36. Op. cit.
37. Recherches phiiomphiques, 2~ pane, seção VII (crad. francesa. op. cit., p. 317).
A tradução está aqui adaptda.
38. Die Tramn.deutrtng, up. VII, seção IX.
39. Conversations, p. 99 [p. 83 da uad. brasileira, op. cit.].
40. Die Traumdeutung, cap. VI,§ 7, p. 231 [na edição !mago, §G. p. 455, op. cit.J.
41. Op. cit.
42. Op. cit.
43. Op. ciJ. É o que abre o caminho para a idéia do sonho-texto em Freud. Cf.
o nosso artigo "Eléments pourune rnétaps~hologie du Lirechez Freud", Nou-
veile Re'l!ue de Psychanaiyu, o? 39, primavera de 1988, pp. 144-146.
44. Op. cit.
45. Op. cil.
46. Op. cit.
47. Op. cit.
48. GW, Il -IIl, 3IS,. Ver, sobre este ponto, Freudet Nietzsche. op. cit., pp. 32· 33.
49. Op. cit.
50. Op. cit.
51. Op. cit.
52. Op. CÍI., p. 85. _
53. Op. cit., TER, p. 56 (datada de 1944).
54. "Remarques sur la th&lrie de la prãtique de 'I:inteq>récation des rêves' ", §
VII, em ldées, résu!Jats, problemes, rol. li, p. 84.
55. Op. cit., p. 87.
56. Op. cit.
57. Fato que merece ser assinalado: é o mesmo texto que impressionou Popper.
Uma nota das Conjectures et réfutations refere-se, com efeito, ao crecho so-
bre "os sonhos de confirmação" em que, extraindo-o do contexto de sua ar-
gumentação, recolhe a confissão, pela cena do próprio Freud, de que "a maioria
dos sonhos utilizáveis no decorrer da análise têm por origem uma sugestão do
analisca"...
Deve-se presumir, P.Ortanco, que Wircgenstein e Popper leram esses Bemer-
k.ungen z11r TheorÜ! und Praxis der Tra~tmdem~tng, por exemplo, oo tomo IH
de Gesammeite Sclmften, publicado em 1925 (edição citada por Popper).
58. Canaafliessde28de maio de 1899. emúznaúrance delapsychanalyse, p. 49.

147
59. " Le ma.niement de l'imerprétation des rêvcs en psychanalyse", 1912, em La
technique prychanalytique, p. 49.
60. Op. cit., ibid.
61. L'étiologie de l'hi$tirie, §H, trad. francesa, em Né~rose, psychose, perversion,
p. 97.
62. Cf. a seção vn citada.
63. Frcud inrroduziu-o naseçào VII a fim de mostrar como o analista deve resistir
à dúvida introduzida pelas regras de confimiação em cascata. Trata-se, por-
tanto, da gênese da certeza do analista.
64. Remarques sur la théone et la pratique de l'interprétation deJ rêveJ, op. cit.,
p. 86.
65. Convemztions sur Freud, p. 95 (pp. 79·80 da uad. brasiJeira}.
66. Le cahier bleu et /e cahier bnm.
67. Re11UirqueJ mêléer (1948), p. 82.
67. bis. Fiches, § 320, p. 90.
68. Fíches, § 326, p. 91.
69. Leçons Jurl'etthélique, IJ, § 39, p. 46 (p. 39 de "Prc:leções sobre estética", em
Estético, psicologia e religião, op. cit. ].
70. É a alusão às teorias de K. Fischer (Überden Witz, 1899), na introdução (GW.
VI. 7, uad. francesa, p. ll). ·
71. Essa abordagem decisiva para o nosso intento aparece na conclusão do cap.
Hl sobre "o mecanismo de prazer e a psicogênese do chiste", GW: Vf, ~~~-
72. Psychopathologie de lrHie quotidt'enne, cap. 12, GW. IV, uad. francesa, Pa-
yot, p. 257. [p. 168 na trad. brasileira, Psicopatologia d4 vid11 cotidiana, b,.
har Editores, 1964. {N. do T.)J
73. Conversations sur Freud, op. cit., pp. 89·90 [p. 75 da trad. brasileira, op. cit.J.
74. Op. cit.
75. Tractalus, proposição 6. 51, p. 174.
76. De la cerliJude, § 3, p. 312.
77. Op. cil., § 30, p. 37.
78. Remarques mêlées, 1938, p. 45.

I -ia
Freud e Wittgenstein

Chegamos ao ponto em que, tendo exposro a cótica witcgens-


feiniana da psicanálise e assinalado as articulações do "diálogo",
cumpre-nos levara questão parao seu terreno próprio: do Assenti-
mento e da Interpretação, temos de remontar à divergência deter-
minante, aquela que envolve o próprio Logos, ou seja, o tipo dera-
cionalidade aplicada.
Num primeiro tempo, vamos precisar de panir de novo da mes-
ma crítica wittgensteiniana: com efeito esta desemboca numa crí-
tica da metapsicologia. Esse terceiro tema é, ademais, a chave dos
dois outros, visto que fOrnece de certo modo, após a descnÇão críti-
ca, um verdadeiro diagnóstico sobre o cntendimenro freudiano.
Mas, num segundo tempo, teremos de, para além dessa mes-
ma crítica, proceder a uma reconstrução do conjunto de elementos
do confronto, para fazer entender, além da argumentação ad ho-
minem, a divet;gênczaFreud/ W ingenstein em seu lugar apropriado.

l -i 9 .
LIVRO I!!

Crítica
da explicação
psicanalítica

A teoria dos sonhos conduziu-nos a uma implicação dos mais


imponantcs conceitos da explicação psicanalírica- desejo c incons-
ciente. É o sinal de que devemos passar de uma análise da herme-
nêutica para uma exploração da concepção da racionalidade que
nela está envolvida, em conformidade com o nosso projctot. Witt-
genstcin contesta em Freud um "causalismo", tendente a encon-
trar a "lei" que ordena os fenômenos (psíquicos), segundo "um tipo
de explicação" comwn, gerador de "uma explicação unitária". Como
se viu, é a ambição de "encomrar a essência do sonho o que anima-
va Freud, segundo Wittgenstein - ambição que ele relaciona com
uma atitude cientista característica do seu tempo, de acordo com
"a idéia de dinâmica própria do século XJX" z.
Correlarivamc:nte, Wictgenscein está em posição - graças ao
seu duplo operador de "explicação estética" e de "jogos de língua-
gcm" - de formular um último diagnóstico que, desta vez, diz res-
peito à própria natureza da racionalidade envolvida na psicanálise
(e não somente sobre os seus dispositivos de saber e de linguagem),
ou seja, o diagnóstico de "mitologia": por trás dessa ambição cien-
tista e, cumpre insistir, correiacionada com ela, não se descobre "uma
poderosa mitologia' ' 3? Conclusão simbólica das Conversações so-
bre Freud, essa fórmula exige ser decifrada pelo que é: um diagnós-
rico, por assim dizer, genealógico sobre a racionalidade psicanalítica.
15 1
Crítica da descoberta psicanalítica
W ittgensrein parece visar esse tipo preciso de raciocínio de
Freud quando afirma em suasPre/eçõu sobre estética: "Conside-
ram-se cc;rros resultados da psicanálise como uma descoberta feita
por Frc:ud, como independemes d e algo em que um psicanalista
o persuade a crer, e quero declarar que não é esse o caso." 4 O duvi-
dador impenitente que Freud evoca nos textos anteriormente cita-
dos (supra, p. 127 ss.) persiste, portanto, e assina, chamando-se aqui
Wittgensreín. Só que, em vez de ingressar na lógica da explicação
freudiana para encontrar motivos inconscientes mais refinados -
aqui lo po rque o im pugnador evocado por Freud permanece freu-
diano ao ponto de revalorizar incessantemente seus próprios argu-
mentos - o impugnador Wíttgenstein convoca a psicanálise a
redecifrar-se por imeiro no terreno dos " jogos de linguagem".
Ele dota assim o impugnador de uma contrafilosofia analíti-
ca, porquanto se encarrega de explicar o que se passa efetivamente
no confronto, coma ajuda dessa "lúdica". Apresenta-se, pois, a ques-
tão de saber se ele encara essa alternativa com seriedade bastante
pata projetar o que seria uma prática da linguagem analítica assim
"relida" e se consegue impor essa alternativa.
Isso não impede que se reconheça, a crer em Moore, que "Freud
tinha realmente descoberto fenômenos e conexões que não eram
conhecidos antes" 5. Como harmonizar essa afirmação com a pre-
cedente? O ponto essencial diz respeito à oposição entre o antes de .
Freud e o depois de Freud: o que Wittgenstein admite é que se
"vêem" agora elementos e relações que, antes 'de Freud, não esta-
vam "claros", ao alcance do olhu. Isso resulta do fato de que Frcud
conseguiu ordenar uma massa de "fatos"; o que é mais impresn'o-
nante no caso de Freud é "o imenso leque de fatos psíquicos que
ele ordena"6 _ Isso é "admirável" e causa uma legítima "impres-
são", mas, entenda-se, isso não implica que ele tenha encontrado
a causa universal desses fatos, apenas que os tornou " nítidos" (no
sentido de übersichtliche Darstellung). Aos olhos de Wittgenstein,
Freud é um grande "arranjador" de fatos psíquico-s, de sorte que
pode fazer crer- aos outros, tanto quanto a si mesmo- que os
"descobriu".
Uma vez mais, Wiugenstein atinge aí o mais íntimo da am-
bição freudiana. Conhece-se, com efeito, a reivindicação de Freud
152
de ser julgado não essencialmente por seu pensamento mas com
base no estado de suas descobertas.
Situada em contraste com essa pretensão, a resposta de Witt-
genstein poderia insírever-se falsamente com a maior brutali~ade.
O que ele quer dizer, com efeito, é que Fre~d nad~ descobr~u, no
sentido em que isso subentende uma ten-a mcognzta conquistada
para o saber. Nessa acepção, não existiria n~nhum "~bje~o:· novo
na psicanálise. Mas, se atentarmos bem, W~tt~~nste~n ~t:tde em
duas a idéia de descoberta: conserva-lhe a tdeta de medtto, mas
limitando-o à sua literalidade, por assim dizer, escópica. Se Freud
não descobriu fenômenos ou mesmo conexões novas - de modo
que se poderia lançar a seu crédito uma objetivid~de inédita--; ~le
os fez ver radicalmente de outro modo. Melhor amda: ele modJfi-
cou 0 olhar, alterou a estrutura do nosso olhar. Pode-se chegar até
a admitir que ele criou um olho novo, com a ajuda do qual se efe-
tuou uma outra forma de "esclarecimento''.
Essa metáfora nos conduz, não por mera casualidade, ao re-
gistro da explicação estética. Nesse sentido, Wittgenstein, embora
contestando o causalismo freudiano, restaura-lhe a ambição de es-
clarecimento ao transportá-la para o campo da estética. Freud se-
ria um dos grandes demiurgos estéticos da modernidade.
AD recusaressaambiçãode "descobridor'' de Freud, Wittgen-
stein não está, decididamente, visando à toa. Afirmou-o literalmente
quando o situou entre os "conquistadores": "De um modo geral,
só se reconhece valor a essas pessoas se elas triunfaram, se descobri-
ram realmente alguma coisa: caso contrário, são descanadas." 7 Essa
célebre profissão de fé, Wittgenstein permite que aí se desconine
um verdadeiro pressuposto epistemológico, expresso neste caso com
o romantismo do conquistador, herói da descoberta e da conquis-
ta: o saber é assim concebido como o desvendar de um continente
desconhecido pelo primeiro que aí põe o pé.
Nada é mais característico da ilusão epistêmica segundo Witt-
genstein, pela simples razão de que toda a iniciativa de Witt~ens­
tcin consiste em mostrar que não se faz nada melhor do que d1spor
as coisas de outro modo para a linguagem. É por isso que um mes-
mo imaginário mitológico anima a ambição explicativa e a preten-
são de descoberta. Freud diz que descobre, acredita sinceramente
153
que descobre, quandQ não faz mais do que "pôr-se de acordo com
a sua lí~guagem".
Uma conseqüência essencial é que, ao contrário de uma ex-
plicaç~o cicnrífica, uma explicação estética não possui valor predi-
tivo. " Muitas dessas explicações (isto é, da psicanálise) não surgi-
ram por via de experiência, como ocorre com uma explicação em
f'J.Sica. A atitude que exprimem é importante. Dão-nos uma imagem
que tem um atrativo peculiar para nós."s Mas: "Ela não nos ajuda
a predizer seja o que for." É revelador que Wittgcnstein oponha a
atração à predictibilidade- ainda que essas duas noções não for-
mem uma oposição semântica óbvia. É necessário deduzir que a atra-
ção tem por efeito ftxar em seu lugar, de certo modo, o destinatário
da explicação, e mesmo o de o imobilizar numa espécie de retros-
pecção imediata: "Então era bem isso." Ela confirma e conforta, de
maneira que, longe de antecipar, age de forma recorrente.
O valor estético acompanha, portamo, uma certa esterilida-
de prospectiva. Deve ser vinculada à recusa por Wittgenstein da pre-
tensão de descoberta psicanalítica: uma vez que esse saber apenas
"põe a claro", no sentido de revelar uma motivação comemyorâ-
nca da persuasão como dispositivo, ele nada cria de novo. E uma
pontuação que finaliza um processo, em vez de o abrir. Assinale-se
que essa diferença não equivale, em absoluto, a desvalorizar acha-
mada explicação estética: esta preenche sua própria função de um
modo que não deixa a desejar, a respeito da natureza das razões em-
pregadas. Mas, na medida em que a explicação estética se dá por
científica, ela é geradora de uma espécie de anfibologia; em suma,
induz ao erro sobre a racionalidade empregada.
A ambição de descoberta objetiva, apoiando-se e legitiman-
do-se pela idéia de uma explicação metapsicológica suigene ris, eis
onde cumpre fixar o último tempo forte da confrontação.

154
c .-1 r r!l Lo 1

Crítica dos postulados


metapsicológicos

I. Crítica do postulado metapsicológico

É tempo de indagar a que título Wittgenstein problematiza


as noções freudianas de extensão explicativa geral, tais como as de
"desejo" e "inconsciente".
O que se deve ver aí são " postulados''. Estes são efetivamente
requeridos, e seria errôneo pensar que Wiugenstein contesta sua
utilidade e legitimidade para a psicanálise. O problema não se si-
tua aí: está na espécie de mal-entendido quanto à identificação pela
psicanálise de seus próprios instrumentos, mal-entendido que, longe
de ser fonuito, resulta, se acompanharmos a postura de Wittgen-
stein, de wna espécie de desconhecimento de sua natureza de ra-
cionalidade, a qual, por sua vez, tem raízes num desconhecimento
da relação enue linguagem e conhecimento ou, mais exatamente,
da própria natureza dessas formações discursivas e de seu status de
racionalidade.
lndaguemos, pois, o que pode ser um "postulado" na con·
cepção wittgensteiniana, tal como ficou definida em sua ''segun-
da filosofia".
Encontramo-la explicitada em sua Gramática filosófica. Com
efeito, é como ".proposições gramaticais" (grammatische Siitze) que
tais " postulàdos" devem ser identificados e avaliados em seu mo-
tS<;
do de funcionamento lingüístico-gnosiológico. Cumpre lembrar
que, segundo a definição proposta, "a gramática descreve o uso das
palavras na linguagem"9 e, por conseguinte, "relaciona-se com a
língua (Sprache) do mesmo modo que a descrição de um jogo, que
as regras de um jogo se relacionam com o próprio jogo". É essa ra-
cionalidade puramente imanente nas regras do jogo da língua que
a "gramática filosófica" teoriza, que retoma e radicaliza, como "gra-
mática das profundidades" (Tiefengrammatik), o que a gramáti-
ca corrente, também chamada "gramática das superfícies" (Ober-
jlikhengrammatik) IO, produz, ou seja, exibir a sintaxe do uso.
A questão peninente é, pois, a seguinte: que gênero de "enun-
ciado gramatical" é o "postulado"? É o produto de transformação
de um "enunciado de experiência" (Erfohrungssatz}, ou seja, ad-
quirido como modo de uso da linguagem informadora da experiên-
da - C? que nos devolve ao cerne da teoria dos "jogos de lingua-
gem" e da concepção de aprendizagemn. Nesse sentido, o Erfoh-
rungssatzopõe-se ao "enunciado gramatical" propriamente dito,
que é aquele que enuncia uma "regra" 12. Além disso, como Witt-
genstein precisará em Da certeza, nem ''tudo o que tem a forma
de um ErfohrungJSatz " pode só por isso ser considerado como tal:
é preciso determinar de cada vez o papel respectivo que aí desem-
~enha a referência à regra e à própria experiência.
Ora: "Todo o enunciado da experiência (Ehrfohrungssatz) po-·
de ser transformado (umgewandelt) num postulado (Postulat)."lJ
O efeito disso t que ele "converte-se então numa norma da repre-
sentação" (ein Norm der Darstellung). Daí se deduz que o status
desse postulado depende da compreensão dessa Umwandlung
[transformação Jpela qual o enunciado da experiência adquire um
tal status funcional.
Ora, os Comentários filosóficos esboçaram uma gênese desse
postulado. Ele ê o fruto de uma decisão (Entscheidung) de não voltar
a questionar "cena parte da minha hipótese" que assume o valor
de descrição da experiência. Assim, "estabeleci um modo de repre-
sentação (Darstellüngsweise) e cada pane da hipótese é agora um
postulado." 14 Assim, o postulado define-se ab ongine como essa
fonte de enunciado experimental e in fine por esse valor represen-
tativo. O postulado serve para representar outra coisa sem revener
ao valor de experiência primitivo.
156
Mas. como roda e qualquer norma, esta também tem suas li-
mitações: "Um postulado deve ser de natureza tal que m:nhuma
experiência pensável possa refutá-la, por mais dificultoso que seja
(iiusserst unbequem) ater-se ao postulado."n Compreendemos ser
af que reside a·ambigüidade do postulado aos olhos de Wittgens-
tein: legítimo e até indispensável segundo a lógica do jogo de lin-
guagem que a gramática revela, faz passar o usuário para a ordem
da norma representativa que o incita, de algum modo, a esquecer,
mais ou menos depressa, que justamente essa " norma" nada mais
é do que uma opção de uso. É como se o post ulado, ao faz er-nos
panicipar nos favores da "representação" e nas fac ilidades de uso
da norma. nos ameaçasse de esquecer a sua verdadeira natureza. Ora,
nada é mais grave, nessa perspectiva, para a higiene do nosso uso
da linguagem, do que confundir o uso e a norma. Isso significa na-
da menos do que o restabelecimento aqui do pendor metafísico.
O que se passa, com efeito, quando o postulado, fruto da sin-
gularidade do "enunciado de experiência", põe-se a exercer sua fun-
ção de norma representativa, esquecendo sua própria origem ? Ele
funciona seletivamente (o que é legítimo, pois é para isso que ser-
ve), mas, dessa mesma forma, chega a credenciar-se, por muito pouco
que o uso se tenha obscurecido para o usuário, como valor explica-
. . .
nvo sut genens.
Compreende-se agora a narure.za das objeções wittgensteinia-
nas à explicação psicanalítica, mormente quanto à sua possibilida-
de de concorrer com outras explicações. Não se trata de um vago
ceticismo ~eado num empirismo sumário, como se poderia infe-
rir de uma leitura imediata. Wittgenstein não se mostra contraria-
do com o caráter aparentemente "forçado" da teoria analítica. na
qual se reconhece o ceticismo barato que se omite de p ensar seu ob·
jeto e se compensa através de uma pseudo-exigência intelectual.
Sua objeção condensa-se num ponto muito preciso, cujas vi-
cissitudes são de monta. O postulado analítico seria apenas o uso
de cerro material - a conceber como enunciado de experiência-
o qual seria "tranSformado'' em modo de explicação. Ao mesmo tem-
po, à representação tornar -se-ia normativa e violematia, não os pró-
prios fatos- cuja consistenda Wittgenstein não nega-. mas o mo-
do de apreensão cognitivo e de discursividade efetivamente
apropriado.
157
Em outras palavras: os mais importantes enunciados meta-
psicológicos - relativos ao desejo e ao inconsciente, e cujos funda-
mentos foram experimentados na explicação edificada para o so-
nho e o sintoma - seriam colhidos nas redes de um sofisma gra-
matical. Entenda-se: des assentariam numa espécie de gramatica-
li'Z1Jfão da experiência, ou seja, um curto-circuito entre a experiên-
cia e a " regra" - Freud falando de regras, mas acreditando- e
dizendo-que fala de "causas". A ilusão metapsicológica redun-
daria, portanto, em confundir o instrumento com o objeto. A crí~
tica da metapsicologiaseria assim um proveitoso trabalho de " gra-
mática filosofica" aplicada, na medida em que fornece um exem-
plo do que acontece quando não se levam em conta, na efetuação
da linguagem, o seu modo de uso e o efeito da regra sobre a mesma
ratio.

2. Crítica da explicação pelo desejo

Uma passagem do Caderno azul mostra que a questão do de-


sejo foi evocada, a panir dos anos de gestação da teoria dos "jogos
de linguagem" - em meados da década de 30- como se elas es-
tivessem associadas, justamente, à reflexão de Wittgenstein sobre
a psicanálise: "Se analisarmos a significação lógica de palavras co-
mo 'desejar', 'pensar', 'compreender', 'significar', não teremos ra·
z~o nenhuma ~ara nos acreditarmos inferiores à nossa tarefa quando
tivermos descnto certo número de casos paniculares de pensamento,
de desejo etc." l6 Segue-se o exemplo que nos interessa: "Se al-
guém nos vem dizer: 'Não é verdadeiramente isso o que se ch~a
desejo', responderemos: 'É evidente que não, mas você pode, seis~
so lhe convém, conceber casos mais complexos.' E, no fim de con-
tas, não existe nenhuma categoria de características perfeitas, defi-
nidas e suscetíveis de aplicação a todos os casos possíveis de desejo
(pelo menos, no sentido em que essa palavra é geralmente em pre-
gada)." Ora, como se sabe, a ambição freudiana é falar do "dese-
jo" dt: modo unívoco: t nisso que se empenha a teorização analíti-
ca do desejo. Parece que Wittgenstein é incapaz de conceber uma
determinação unívoca, na pr6pria medida em que ele tem em vis-
ta a acepção da linguagem comum ou de uso geral, única realida-
de realçávd pela linguagem.
15M
Ele não exclui, portanto, uma limitação deliberada: "Se, por
outra parte, você se empenha em definir o desejo [é essa, de fato,
a ambição de Freud, poderíamos acrescentar), ou seja, em limitar
estreitamente a aplicação do termo, terá toda a liberdade para tu-
çar esse Jimjte segundo a sua conveniência; mas [eis o germe das ob-
jeções ulteriores] esse limite jamais se harmonizará perfeitamente
com o uso habitual, o qual não comporta limites precisos."
Com efeito, Freud não se cansa de sublinhar a n~essidade de
tomar cenas liberdades no tocante ao uso habitual dos termos que
· se referem ao registro do desejo- Eros, libido-, mas é para deli-
mitar a esfera de objetividade própria em cujo âmbito procura pen-
sar. Assim, quem estiver familiarizado com o uso an:Ucico enten-
derá muito bem o que é determinado por esse uso. E nada menos
que um progresso "científico", aos olhos de Freud, pois que a apren-
dizagem desse uso permite perceber o que o uso comum não per-
mite ver e até dissimula.
Ora, é justamente isso o que desperta a desconfiança de Witt-
genstein, porquanto vê aí uma "limitação" do "uso habitual", o
que contém em germe o perigo de uma espécie de hipóstase: acredi-
tar-se-ia poder falar do desejo, quando não se faria mais do que ex-
por-lhe um uso. Daí a acreditar numa essência do desejo, depois
em sua virtude causadora, não vai mais que um passo. Assim se es-
clarecem as inquietações das Conversações sobre Freud, analisadas
antes, acerca da ambição -explicativa da psicanálise.
O próprio Freud adverúa para não se ceder a respeito das pa-
lavras, sob pena de ser obrigado aceder a respeito das coisas. Witt-
genstein foi mais além, advertindo Freud para não ceder sobre luas
próprias palavras, conferindo-lhes o valor de invocação de "coisas".

3. Crítica do postulado inconsciente


Do inconsciente, Wittgenstein confere à passagem um3: ca-
ram:rizaçâo que pode parecer trivial: citando no Cade"!o azul a ex-
pressão "doía-nos um dente sem o saber", comenta: "E exatamen-
te nesse sentido que a psicanálise fala de pensamentos inconscien-
tes." 11 O " pensamento inconsciente" é aqui assimilado sem o _sa-
ber. Mas o contexto desse exemplo banal esclarece a idéia de Wttt-
159
~e~~tein: o que ar se estabelece, uma vez mais, é a questão da pos-
stbthdade de descrição correlativa de um enunciado referente a uma
"impressão". O que é examinado é, ponamo, a possibilidade de levar
em conta ... um ce no "estado" - o que coloca na ordem do dia a
q_uestão de sabe: e de sua refração na linguagem, ou seja, o que é
vtsado como obJero através desse "saber" do afeto.
Impõe-se ar a alusão à psicanálise: " Pode-se achar cômodo, ob-
serva Wittgenstein, utilizar a expressão 'dor de dentes inconscien-
te' para descrever uma cárie dentária que não se faz acompanhar
de uma sensação dolorosa, e poderíamos dizer que, nesse caso, 'doía-
nos um dence sem o saber' ". Isso é interpretado como a produção
de uma ''nova convenção''; ''Tenho inconscientememe dor de den-
tes" -graças à qual se torna possível "distinguir entre um mau den-
te do~oroso e um mau dente indolor". Convenção que dificilmen-
te resrste à evocação de "representaÇões e analogias" enganadoras.
A emrada em cena de um saber inconsciente faz-se com o sen-
rimemo de "realizar uma descoberta surpreendente, uma desco-
berta de certo modo assombrosa para a nossa compreensão", atra-
vés de uma fascinação perplexa: "Uma dor de demes inconsciente
como será possível tal coisa?" Impõe-se aí a defasagem entre o in~
teressado e o "homem de ciência" -identificado implicitameme
com o psicanalista: " Você será então tentado a declarar que essa 'dor
de dente inconsciente' é impossível, mas um homem de ciência lhe
~irá~ ue tal coisa existe, porque já foi feita a prova", e ele explicará:
...extste essa dor de dentes que você não conhecia, acabamos de
a descobrir." Assim, como sempre, Wittgenstein apreende o saber
~s~canalí~i~o) do inconsciente como essa "elucidação" em que fas-
c~nlO e ce(lc.tsmo se conservam indivisíveis, o que faz dela um anú-
clo em forma de ultimato: "Sobre o que você não será satisfeito mas
tampouco saberá o que responder."
O exemplo é, ponanto, mais interessante do que sua triviali-
dade sugeriria. Eu sou, com efeito, o sujeito rio enunciado: "Dói-
me o dente", na própria medida em que estou sujeito à ''dor de den-
~es" eàsua "impressão" corrdativa. Nadaémais(dolorosamente)
mefutável do que essa "impressão", mas o cúmulo é que não sei
o_que digo precisamente quando o exprimo. De uma .intervenção
vtolenta - no próprio campo discursivo- o homem do saber in-
consciente (Freud), ao designar "aquela coisa" - "uma dor de dcn-
160
res inconsciente" -altera e confunde a minha "impressão", me-
lhor ainda: inocula-me, criando-a na "ímegra", essa impressão inau-
dita, " uma dor de dentes inconsciente" que me intima a pensar
(em nome de seu saber). Irrefutável, tanco quanto inverificável (so-
mente p elos seus recursos).
Tal é a vertigem que se desenha por ttás dessa aparente argú-
cia: " Quem sou eu, sujeito de uma 'dor de dente inconsciente'? Eu.
que a digo. mas- por definição- não a sinto? " Invertamos a fór-
mula e teremos o enunciado (fantástico) que poderia ser muito re-
velador da solicitação de Wittgenstein endereçada ao saber psica-
nalítico: se, pelo menos, o inconscieme pudesse sentir-se como uma
dor de dente! Mas. ao invés do sujeito da dor dentária, o sujeito do
sintoma inconsciente não encontra nenhuma impressão distintiva
da sua "experiência". Éalgo que a crítica de Wingenstein nos per-
mite enuncíar. em seu próprio caráter enigmático. Não posso dei-
xar de formular a questão habitual: ''Vejamos como, neste caso, são
utilizadas as palavras 'inconscience', 'saber' etc., e até que ponto esse
uso é idêntico."
O que descobrimos, portamo, por trás dessa revelação, é esse
interessado que permanece sem voz. embora não convencido. So-
bras da argumentação analítica, " resto" ou " reserva" do saber ana-
lítico, mas também, muito simplesmente, sujeito do inconsciente
- que tem dor sem saber de quê e, entretanto, é sujeito desse saber.
Mas Wittgenstein, que mal havia ainda desentocado esse sa-
ber tão singular, resuinge-se ao uso e seu " nós": " Vejamos como
nos servimos dessas palavras.' ' T11 é o gesto de Wittgenstein, reco-
mendado explicitamente no Caderno azul- a ftm de "afastar a ten-
ração de crer na necessidade do que se chama um processo mental
de pensamento, de esperança, de desej o, de crença etc., indepen-
dente do processo de expressão", procura-se "substituir o pensamen-
to, a expressão de um pensamento" etc.: o que se obtém então é
"uma frase" que só "tem sentido no âmbito de um sistema de
linguagem".
F, n~o;e senúdo que Wittgenstein procura colocar em frases o
saber de supostos processos de desejo e de inconsciente, a fim de
restituir-lhes o fraseado e, ao mesmo tempo, curara crença alojada
no "último plano" do sistema (tal como NietzschefaJava de "últi-
mos mundos"). Mas, por isso mesmo, o mantenedor do processo
161
-decifrável como "sujeito" - reduz-se a um usuário do fraseado
relativo a quemão se tem mais nem mesmo o direito de chamar seus
desejos ou seu inconsciente.

Uma passagem do Caderno azul mostra como Wittgenstein,


desde começos dos anos 30, furmulava a questão de um "pensamen-
to inconsciente" : ''Podemos ter pensamentos inconscientes? Pode-
mos nos sentir inconscientemente?" Diante de tal debate, duas po-
sições foram formuladas: insurgir-se contra a própria idéia da exis-
tência de pensamentos inconscientes ou então recorrer à p sicanáli-
se para recusar a equivalência entre pensamento e consciência: "Ou-
tros declaravam , pelo contrário, que os primeiros faziam mal em
acreditar que não podia existir outro pensamento além do conscien -
te, e que a exist~nc ia de pensamentos inconscientes tinha sido pro-
vada pela psicanálise."
É significativ? que a psicanálise seja citada em apoio de uma
tese num debate. E nesse nível que a psicanálise interessa a Witt-
genstein : ou seja, menos como teoria do inconsciente a discuti r co-
mo tal do que como legitimação de uma tese: acredita-se ser possí-
vel dizer que há pensamentos inconscientes porque se supõe pro-
vada pela "psicanálise" a existência de tais "pensamentos". Não
se deve p erder de vista que Wittgenstein não inscreve sua própria
crítica contra o conteúdo da teoria, mas contra sua ambição heu-
rística e explicativa que serve para escorar uma tese num debate. Ora,
trata-se, para ele, de mostrar que o debate não tem objeto, tal co-
mo está formulado. Para enunciá-lo em seus verdadeiros termos.
cumpre transpô-lo para o plano da expressão.
Assim, "aqueles que se opunham à teoria de um pensamen-
to inconsciente não se davam conta de que suas criticas não se en-
dereçavam contra a realidade dos fatos expostos, mas visavam as ex-
pressões que serviam para descrevê-los". Entenda-se: o que está
efetivamente em causa são as expressões descritivas de fatos e não
os próprios fatos. É por isso que Wittgenstein procura furmular a
tese conte~tadora em seus termos corretos; "Não queremos utili-
zar a expressão 'pensamentos inconscientes', pretendemos limitar
o uso do termo 'pensamento' ao sentido do que designamos por
'pensamento consciente'." O que é inaceitável é dizer: "Só pode ha-
ver pensamentos conscientes, portanto não existe pensamento in-
162
consciente." Neste caso, com efeito, contestar a existência do incons-
ciente ficaria na mesma problemática que a afirmação " probató-
ria" de fatos inconscientes (em conformidade com uma lógica do
" portanto").
Essa formulação permite ver que Wittgenstein não pretende,
em momento algum, invalidar a existência de pensamentos incons-
cientes ou negar o inconsciente -o que teria, a seus olhos, tão pouco
senso quanto afirmá-lo. O que ele interpela é o uso do tipo de ex-
pressões nas quais se utiliza o predicado " inconsciente", sobretu-
do em relação com o termo " pensamento". É verdade que Freud
não estaria muito longe de ver em tal posição apenas uma forma
sofisticada de negação dos processos inconscientes e do saber cor-
respondente. Mas, se atentarmos bem, Wittgenstein não correspon-
de à caracterização genérica que Freud forneceu dos filósofos de-
negadores do ínsconscinte1s.
Wittgenstein admite, portanto, sem dificuldade que o incons·
ciente possa dar lugar à simulação: "Um homem pode fingir que
está inconsciente", dizem as Fiches, " mas poderá ele igualmente
fingir que está consciente? "19 Esta simples observação atesta que
o inconsciente wittgensteiniano é entendido ainda no elemento da
"ficção", em contraste com a realidade co~sciente. Pelo menos, a
possibilidade de fingir está exclusivamente vinculada à noção de
" inconsciente", ao passo que o simples fato de se fàlar de "ser cons-
ciente" já toma problemácica a ficção.
Isso se esclarece em especial pelo fato de que, para de, o in-
consciente é, como o resto, o objeto de uma proposição: "Aquele
que me diz: 'Sou inconsciente' diz a rüo-verdade (e a verdade quan-
do ele o diz, enquanto inconsciente)?" 2o Verdade e não-verdade
são concebidas, ponanto, como propriedades do enunciado relati-
vo ao inconsciente, aí onde, na experiência analítica, valem como
"funções" do próprio sujeito inconsciente.
É nesse mesmo sentido que Wittgensttin se pergunta se "o
verbo 'sonhar' tem ... um presente" 21 , referindo o inconsciente a
uma temporalidade da pcópr.ia enunciação.
O que finalmente é impressionante, no uso wittgensteinia·
no do termo " inconsciente", é que ele permanece expressamente
no sentido "descritivo" - o que se exprime, aliás, pelo:fato de se5
objeto de um emprego como adjetivo e não como substantivo. E
163
mesmo todo o efeito da ambição explicativa de substantivar uma
propriedade, e é contra essa ambição que ele se manifesta.
Mas se Freud, por sua pane, se dedicou a tornar rigoroso o em-
prego do termo, fazendo dele a denominação de um "sistema" psí-
quico (o que é propriamente inconcebível para Wittgensrcin), só
é ainda mais reveladoro fato de Freud , desde o início, pensar em
termos de sistema para explicar o aparelho psíquicon, antes de uti-
lizar o termo "instância".
Essa referência " tópica" é essencial ao modo de pensar
metapsicológico1 3 , já que ela permite atribuir à classe dos fenôme-
nos psíquicos correspondentes características distintivas: assim, a
"ausência denegação, d~ dúvida, de graduação nacerreza", " indi-
~e~ença à realidade"24. E justamente na medida em que essas pro-
pnedades não se referem a um princípio inconsciente, mas desig-
nam as características funcionais de um "sistema", que elas rom-
pem com uma visão "essencialista" do inconsciente.
Além disso, o "conteúdo" desses sistemas- os representan-
tes ~as pulsões regidas pelo processo primário - remete para uma
dinâmica do conteúdo recalcado: aí, Wittgenstein depara com o mo-
do de pensa.r "processual" que não pode subscrever. O que ele re-
cusa é justamente a idéia de um espaço onde se desenrolariam pro-
cessos, com dispêndio correlativo de energia. Em suma, o imagi-
nário metapsicológico é o que, a seus olhos, permanece ininteligívd.

4. Para uma gramatica/ização da metapsicologia


Por sua própria inclinação, Wittgenstein suscita um proble-
~a que envolve o cerne da ratio metapsicolõgica. É na própria me-
dida em que aborda o edifício metapsicológico por esse flanco que
ele produz o mais imponanre enunciado de contestação: o da na-
tureza das "hipóteses reóricas" que puderam ser usadas como ali-
cerce de um sistema psicanalítico.
Observe-se, enuetanto, que Wittgenstein não se dirige con-
. era o núcleo prop.~riamente conceptual do edifício. Este é represen.
tado pdo Gnmdbegriff[conceito fundamental) analítico, a "pul-
são'_' - nesse sentido mais originário do que as noções metapsico-
lógtcas de "desejo" e de "inconsciente" . .E que justamente a refe-
rência ao "objeto metapsicológíco" é solidária com a ambição pro-
164
priam cntc especulativa da teoria psicanalítica. Wittgenstcin recu-
sa-se, de forma espontânea, considerando os seus próprios princí-
pios, a decifrar a ambição metapsicológica como tal: ele mantém-
se de certo modo, num grau (de racionalidade) aquém, no plano
das generalidades metapsicológicas abrangidas pela "explicação"
psicanalítica. O que ele interroga, por conseguinte, são os ''postu-
lados" e "pressupostos" da explicação psicanalítica - o fraseado
teórico correspondente, e não a "unidade" de base. _
Mas há mais: através da relação desses postulados com o " ma-
terial" (sendo a clínica a vertente analítica da "experiência"), Witt-
genstein formula uma questão ainda mais elementar: a da repre-
sentação (Darstellung) mecapsicológica. Esta é o espaço de proje-
ção teórica segundo o qual os fenômenos inconscientes se tornam
visíveis e legíveis, segundo a tríplice dimensão: dinâmica (das for-
ças), tópica (dos lugares) e econômica (das quantidades). O faco de
essas dimensões serem adotadas da físicaZ> adquire um significa-
do imediato no contexto da crítica wiugensteiniana: trata-se, no ca.So,
de um ideal de imeligibilidade que foi tomado à letra. Ora, essa
fidelidade só poderia ser metafórica, visto que a oposição da expli-
cação física e da explicação estética não coloca a psicanálise, segun-
do Wittgenstein, em condições de satisfazer as exigências desse ti-
po de racionalidade "dura". Aliás, isso leva Wittgeoscein a distin-
guir o nível "do que Freud d iz quando se empenha numa explica-
ção" do que ele faz "em sua postura clínica" 1 6.
Assim, o que Wittgenstein tem em mira é o enunciado me-
tapsicológico, o que explica a apresentação sumária e um pouco bru-
tal que dele faz, numa ocasião: "Diz Freud: 'Há várias instâncias
(cf. Let) em nossa mente.' " 27 É o Freud metapsícológico que f~a
aqui, tanto quanto "a metapsícologia" (neste ponto: em sua veta
tópica). É esse ato de linguagem que interessa a Wíttgenstein, as-
sim como as modalidades correlativas da Darstel/ung.
Pode-se assinalar aqui um efeito surpreendente da crítica de
Wittgenstein: sua crítica da lógica da projeção psicológica (ver su-
pra, p. 112 ss.) enconua seu eco numa crítica da cacion~dade me-
taj,sicológica como apoiada numa lógica da projeção. E essa noção
de espaço (meta)psicolõgico que ele objetiva em sua crítica. .
Reenconuamo-nos aí diante de um pensamento do deseJO
(Wunsch).
165
Wittgenstein, de resto, é sensível à legitimidade de ceno modo
soberana da inovação e da liberdade de linguagem testemunhadas
pelo criador da psicanálise. A plasticidade da linguagem faz até dela
um exemplo legitimador a que Wittgenstein se refere para justifi-
car a sua liberdade de inovação por assim dizer contra-semântica:
" Porque não devo empregar expressões de encontro ao seu uso o ri-
ginai?1Não é o que faz, por exemplo, Freud quando chama 'sonho
de desejo' mesmo a um sonho de ansiedade?"2s
Assinale-se que a expressão ''sonho de desejo" {Wumchtraum)
é concebida como substituição da expressão- tanto original quanto
"ordinária" .,...-- de "sonho de angústia" (Angsttraum). Emenda-
mos que, onde o sonhante ordinário falaria de um sonho de ansie-
dade, Freud coloca a expressão "sonho de desejo". Wittgenstein re-
cusa portanto, de facto, a idéia de que a introdução da palavra
Wumch tenha um valor explicativo propriamente dito: é apenas uma
forma, mais ou menos legítima, de exprimir uma coisa de maneira ·
contrária ao uso e, de certo modo, com um sentido inverso.
Se essa possibilidade de criar novas virtualidades de expres-
são (Ausdrücke) adulterando ouso (Gebrauch) deseustermosnão
é contestada, ela suscita uma questão essencial: "Na perspectiva cien-
tífica, o novo uso (derneue Gebrauch) é justificado por uma teo-
ria. E se a teoria é falsa, então cumpre abandonar também esse no-
vo uso, esse uso por extensão (ausgedehnte Gebrauch) - a menos
que ele se apóie somente em conjeturas (Meinungen)- de modo
que nenhum fato o justifique, nem possa servir-lhe de apoio."
Assim, não poderia existir uma teoria do Wunsch tal que ex-
plique as fonnações do inconsciente, especialmente o sonho. Há ape-
nas um uso excessivo- uma extrapolação motivada -do uso do
termo que cria, por exemplo, Q composto TTaum-Wunsch e esfor-
ça-se por dotá-lo de títulos de nobreza teóricos.
O sofisma começaria a partir da tentação, à qual, segundo Witt-
genstein, Freud tem dificuldade em resistir, de encunar a exten-
são semântica com a reivindicação teórica. Por conseguinte, cabe--
nos entender que o termo extrapolado pelo uso (Wunsch) torna-se
ipso facto e indevidamente portador de uma ratio explicativa pró-
pria. Compreende-se por quê, segundo Wittgenstein, não tenho
direito algum a dizer que o desejo é causa do sonho (de maneira
queosonhoérealizaçãodeumdesejo). Como "freudiano", tenho
166
apenas o direito, por certo incontestável, de declarar que darei do-
ravante à expressão "sonho de ansiedade" a acepção de "sonho de
desejo", em outras palavras, que o entendereidoravante assim e ex-
trairei disso todas as conseqüências.

A busca de um Grundbegriff, que Freud anuncia como ine-


rente à racionalidade metapsicológica, é estranha, por conseguin-
te, a Wittgenstein. Sua tomada de posição a respeito da matemá-
tica oferece-lhe o ensejo de refutar nos termos mais nítidos a idéia
de uma fundação: se "as proposições matemáticas" não têm neces-
sidade de uma fundação, mas de ''uma clarificação de sua gramá-
tica" 29, a idéia de um saber metapsicológico só pode, a forlíori,
passar por uma matematização arbitrária de um saber que não se
presta a isso. Na melhor das hipóteses, os "fundamentos" susten-
tam o saber correspondente como "o rochedo pintado sustenta o
castelo pintado"3o. Isso nada mais é do que uma metáfora pictó-
rica, a qual não pode ser tomada por ratio, a não ser por uma ilusão
característica.
Em contrapartida, Wittgenstein podia aprovar a ênfase con-
ferida por Freud, em sua célebre introdução de Os tnstint~s e suas
viciJsitudes, ao caráter de "convenções" desses Grundbegrilfe: "O
verdadeiro começo de toda atividade científica consiste ... na des-
crição de fenômenos, os quais são em seguida reunidos, ordenados
e inseridos em relações.'' 31 Mas não é por acaso que ele acrescenta,
já na descrição, que é impossível deixar de aplicar ao material cer-
tas idéias abstratas, às quais o material que parece ser a fonte delas
está " na realidade submetido". Em suma, o Begriffmetapsicoló-
gico continua sendo um Gnmd, um ''fundamento':. em rela~ão ao
qual o "material" começa a falar, aí onde, ~a Wutgenstem, ele
só poderia designar certa estrutura gramaocal que requer uma
"clarificação".
Parece ser nesse sentido que se deve tomar a idéia de Wingen-
stein segundo a qual o que a psicanálise articula deve ser suscetível
de ser retraduzido na linguagem comum. ·
Em verdade, Wittgenstein nada mais fez do que aplicar ao ob- .
jeto metapsicológico- o incoQSCiente- o tratament~ que el:
finiu a propósito da metafísica: "Como tudo o que_e metafistco,
~e­

a harmonia entre pensamento e realidade, dizem as Fichei, tem que


167
s~ desco_brir na gr~~ática da linguagem.">l É_também na "gramá-
tica da h~guage~ que ele sugere que se deofre a relação do pen-
sam~nto tnconsaeme com a realidade desejosa. Mas isso implica,
preCISamente, renunciar às "superstições" do inconsciente e do de-
sej"o. O diálogo epistemológico entre Freud e Witrgenstein aguça-
se neste ponto, uma vez que Freud se apega muito especialmente
a essas: "superstições" lingüísticas, que eleva à categoria de objetos
metapsicológicos.

J6H
Mitológicas em Freud
e Wittgenstein

Trataremos agora do "diagnóstico'' que Wittgenstein se viu,


de certo modo, na necessidade de formular sobre a teoria psicana-
lítica, a partir de sua crítica da "razão explicativa": referimo-nos ao
diagnóstico de mitologia.

1. O diagnóstico wittgensteiniano:
a psicanálise como mitologia

Mas seria, precisamente, falsear esse diagnóstico reduzi-lo a


alguma invectiva do gênero: "Tudo isso não passa de mito." A pró-
pria noção de " mito" só se torna compreensível desde que seja re-
constituída a cadeia argumemaüva que, em Wittgenstein, demons-
tra o impasse da explicação. Digamo-lo nos termos em que se ex-
põe o estudo precedente da crítica temática: Freud quer com toda
a força "explicar", atribuindo uma razão a uma massa de sjgnifica-
ções: ora, é ao próprio princípio explicativo, com toda a sua carga
de "sedução", que se deve dar o nome de " mitológica". Reconhe-
ce-se, com efeito, o enunciado mitológico na medida em que ele
explica uma grande quantidade de fatos de um modo convincen-
te, porque sedutor.
Wittgenstein não diz, portamo: ' 1A psicanálise não é cienú-
fica, portanto é mitológica" (fórmula grosseira em que se acomo-
169
daria, em última instância, a crítica do senso comum, e até mesmo
a crítica de tipo popperiano). É, aliás, o que se poderia inferir de
uma)eitura espontânea e não informada das Conversações sobre
Freud, da qual se retivesse apenas a acusação de "mitologia" - lei-
tura que seria nada menos do que de inspiração wittgensteiniana.
O que Wittgenstein significa é que o tipo de lógica persuasiva que
o entendimento psicanalítico promove, explicando à margem de
uma exigência primordial de "verificação", rem ete para uma dis-
cursividade de tipo mitológico.
O diagnóstico de "mitologia" diz mais, portanto, do que o
de explicação persuasiva. Esta refere-se a uma estrutura do tipo: "Isto
é na re~alidade aquilo"; a "mjto-lógica" vai mais longe, enuncian-
do: " E tudo o resultado de algo que aconteceu muito tempo
atrás.'' 33 Em outras palavras, a mitologia em apreço retoma a estru ~
tura expletiva característica da razão explicativa: "É apenas isso",
mas provido de uma projeção no tempo que refere a explicação a
um processo.
O mito tem, portanto, uma vocação etiológica, já que se pro-
põe para fundamento- estritamente fatual- da explicação. Por-
tao to, não é exagerado afirmar que a explicação contém em si mes-
ma um efeito virtual de arrebatamento mitológico: o mito exibe,
de fato, a explicação em estado puro e serve-lhe de fundamento.
Esse efeito de fundação, retornando ao sujeito a quem o "mito" se
dirige, tem um efeito de "tentação" que se exprime pelo enuncia-
do: "Sim, deceno, deve ser assim." Aí se exprime o "poder" mito-
lógico. Dizer que a mitologia que a psicanálise oferece - oblativi-
dade típica do mito - é ''poderosa'' é reconhecer que, para o en-
te-9dimento, ela é mais do que uma "sedução" (nível da explica-
ção): uma "tentação". Não só o sujeito pode ser ( episodicamente)
s~duzido por uma explicação (por exemplo, analítica), mas pode
:unda ser tentado a julgar-se o su jeito de que fala o ''mito''. É mes-
mo esse o objetivo da operação (discursiva). É também aí que o que
está em jogo na crítica de Wittgenstein atinge o seu momento de
verdade propriameme ex..istenda.l: a psicanálise seria para o sujei-
to-destinatário uma armadilha tanto mais "perigosa" porquanto
não se trata somente de se deixar seduzir por tal ou qual asserção,
mas de colocar aí em jogo o seu próprio ser. "Eu" seria no enuncia-
do.mitológico aquele que o mito diz que ele .
é. O que, em lingua- .
170
gem corrente, significa que eu seria o que a psicanálise diz que sou,
como ser desejoso-inconsciente. Não só cu acreditaria nisto ou na-
quilo, mas acreditar-me-ia (como o mito me diz ser), ao ponto de
passar em pessoa para essa outra cena que me oferece a cena analí-
tica. Vê-se que o "cético" que negociava ao n1vel precedente o seu
assentimento às razões analíticas está doravante em posição de ne-
gociar, ainda mais do que a sua posição própria em face da verda-
de, a sua "encarnação'' dessa verdade. É, portanto, nesse momen-
to preciso que a contestação wittgensteioiana da psicanálise assu-
me todo o seu significado.
A questão vai poder especificar~ se pelo exame de dois pontos
essenaaJs.
Por um lado, trata-se de mostrar, do lado do "emissor" (Freud),
que, em vez e no lugar de uma "explicação científica", foi um mito
o que se forneceu: o que é que "Freud, na realidade, fez" ?Ele "não
deu uma explicação científica do mito amigo. O que fez foi propor
um novo mito." 34 Por outro lado, cumpre constatar que, do lado do
"destinatário", o ganho que justifica a adesão ao mito representa
um "alívio" pela referência, na qual o sujeito pode deixar-se inse-
rir, a um quadro trág~o: o mito analítico "comporta o atrativo de
dar à .vida de cada um uma espécie de bosquejo trágico": o sujeito
pode, com efeito, "experimentar wn imenso alívio caso se esteja em
condições de mostrar-lhe que a vida dele obedece ao padrio de uma
tragédia" - função que é exemplarmente preenchida pela teoria
da "cena primordial" (Urszene). .
Thl é o "contrato'' entre "mitólogo" e "mitificado", no qual
Wirtgenstein vê o avesso real da relação analítica. Ele não se con-
tenta em dizer que um é "enganado" pelo outro: propõe uma re-
transposição da relação na qual os dois parceiros estão engajados,
" bosquejo" credenàado pela forma analítica do logos. Ponanro,
é esse bosquejo que convém analisar para pensar em sua radicali-
dade a crítica wittgensteiniana.
Cumpre substituir, enfim, a crí rica da ambição explicativa di-
vulgada por Freud na declaração de guerra que segundo Wingen-
stein endereça à racionalidade explicativa como tal, aquela que se
encontra naslnvestigaçtJesfilos6ficas: "Toda explicaç4o deve desa-
parecer e ser substituída apenas pela descrição." n

17 1
Esse imperativo fenomenológíco, na medida em que é trans-
gredido, produz um causalismo cujo reverso não é outra coisa se-
não a ilusão mitológica. Desta vez, é o próprio sujeito que se pos-
tula como causa (de si).

1
2. Crítica do pantragicismo psicológico

A posição de Wiugenstein consiste, pois, em denunciar na mi-


tológica analítica uma variante (particularmente aguda) do pan-
tragicismopsicológico. Para neutralizá-la, ele vai, portanto, repor-
tar-se às noções-chaves dessa mitologia trágica, a fim de as "desar-
mar". O melhor meio é, com efeito, com prender que problemáti-
. ca elas representam no plano do funcionamento imanente da lin-
guagem , para escoimá-las de sua carga.
Uma vez entendido esse princípio; pode-se, com efeito, deci-
frar a série de textos onde Wittgenstein, desde os Cadernos até as
Fiches, como se viu36, se defronta com as noções principais da psi-
canálise - desejo, inconsciente- e propõe sua desconstrução.
Percebe-se muito melhor que, nesse nível, a crítica wittgensteinia-
na da linguagem cumpre sua função de anúdoto para a estrutura
trágica do discurso. É desde esse ponto de vista que tais comentá-
rios lacônicos podem ser relidos e analisados como esboço preciso
de uma conceptualidade metapsicológica. Wittgenstein nos inti·
ma assim a dirigir à própria metapsicologi a a questão de sua iden-
tidade trágica. É verdade que a questão só pode ser abordada me-
a
·aiante referência àquela de que ela mesma depende: estrutura
trágica que se desenrola na própria clínica37 .
De fato, a "cena primordial" é o ponto sobre o qual se pro-
cessou a própria origem da psicanálise. Freud vê desenrolar-se na
descrição da Urszene neurótica o que de considera, em primeiro
lugar, causa da perturbação neurótica. Ponanto, situa essa estrutu-
ra trágica no próprio interior da fala neurótica. É ao relativizar a am-
bição etiológica e ao pôr em dúvida, simultaneamente, o relato feito
pelo paciente e a sua própria teoria, que ele vê vacilar a sua "neu~
rótíca". Só sairá dessa importante crise pela descoberta de que a "ver-
dade" do relato está contida na relação do paciente com a sua pró~
pria estrutura de fantasia.
172
A objeção de W! ttgenst~in é, pois. ~otá':'~l ~a .m:~ida em que
atribui à própria teona freudaana um c.arater . tra~tco p~~ u~ do
receptor da teoria, ou seja, o próprio neurónco. E a teona an~eara­
rnente constituída que se faz objeto da crítica, corno se ela uvesse
sido finalizada para produzir esse efeito (ao mesmo tempo "fatali-
zanre" e "aliviado'r'').
De fato, Freud deixou-se impor o trágico da fala n~urótica em
sua amemicidade. É ao refletir sobre a verdade e a realidade do re-
lato que ele exp~rimemará a ambigüidade de~.te co.~o se~do a do
sujeito-locutor. E igualmente ao curar-se desse tragJCtsmo -mo-
mento de confusão do sujeito e do discurso - que, _superan~o a
crise mortal da explicação psicanalítica, ele pôde abnr o camanho
para u~ saber do sujeito inconscient~. . ~ . .
Ao fucar-se nesse momento uágtco da pstcanálJse, Wmgen-
stein sublinha, à sua maneira, que a experiência analítica pennane-
ce dependente desse "tragicismo" que constitui s~u sintoma: É como
se, a seus olhos, o neurótico encontrasse um meto de extraJI de seu
transtorno uma satisfação estética, reorientando-se através da teo-
ria psicanalítica. É aí onde Freud pretende ter-se :~~ncip~do ~~
sua ambição etiológica, ao mesmo tempo que desse mttologasmo ,
prestígio da própria fala neurótica.
Verifica-se então que o que é propriamente "trágico" numa
teoria do desejo é a crença no objeto do desej~. Não é por acaso q~e
Wittgenstein, no Caderno azul, se declara vtgorosamente contra-
rio à "idéia de que o objeto de nosso desejo de~ ~~cogt_rar-se pre-
sente sob cena forma de reflexo em nosso desqo 38 • E Igualmen-
te essa teoria realista do ''reflexo" que deve refutar uma análise das
expressões de que o desejo é o referente.
Patenteia-se, nesse caso, que a questão do desejo leva a uma
equivocidade importante da seguinte forma (a q ua~, de u~ modo
não fonuito, a articula com o problema da expressao do m~ons­
ciente"): como posso eu empregar a mesma palavra - ~e.seJo -
no sentido de "desejo consciente" e no sentido de "d~~J.O mcons-
ciente"? Wittgenstein não se vale, portanto, de um cnteno.~ue s~­
pare 0 que é um "desejo inconsciente", em relação.~ um_ ~eseJO
consciente". Ele pane da duplicidade dos usos de deseJo para
interrogar-se sobre o que deve ser um cal signíficante para ser em-

173
pregado assim, de maneira simultaneamente homonímka e
polissêmica.
Assim, a leitura não-trágica do problema do desejo incons-
ciente procederia da recusa do objeto-reflexo e da articulação de um
problema - determinante e modesto ao mesmo tempo: por que
me digo ter um desejo dessas duas maneiras diferentes? Como se
mantêm juntas, por que não dizem a mesma coisa, porque, final-
mente, é a mesma palavra que digo para não dizer a mesma coisa?
Tal é o modo de dissolução do trágic~ que Wittgenstein tem em vista:
é dissecando-o que poderemos testar sua eficácia.
Isso remete-nos para aquelà em torno da qual se tece o trági-
co edipiano: a criança, "pai do homem".

3. A criança freudiana e a cn(mça wittgensteim(ma

É muito revelador que Freud tenha elaborado sua noçio de


mito em relação com as "teorias sexuais ínfantis"39. A criança é o
primeiro m.itólogo, até o mitólogo propriamente dito- de modo
que será enquanto "criança" que o mitólogo produzirá suas "teo-
rias". Se o conhecimento dessas teorias influi na compreensão dos
mitos, é porque a criança converte-se em "teórico", não "de ma-
neira espontânea, mas sob o acicate de pulsões egoístas"40 e em re-
lação com a "urgência da vida" (Lebensnot).
Freud acentua de modo significativo o fato de que a criança
opõe às explicações dos adultos, ainda que elas mesmas sejam mi-
tológicas, o seu próprio trabalho de consuução mitológica. Ninguém
senão ela pode, com efeito, enfrentar a questão-mistério (Riitsel-
frage) de sua própria relação com a sexualidade, através de sua ori-
gem. Ele deve, pommto, produzir por sua própria conta mitos etio-
lógicos, pelos quais se deixará persuadir, a fim de arbitrar os con-
flitos de sua relação edípiana.
É por isso que "essas falsas teorias sexuais" contêm "uma par-
cela de verdade"4 1: "Não foi o arbitrário de uma decisão psíquica
ou o acaso das impressões o que fez nascer essas hipóteses (Annah-
men), mas as necessidades da constituição psicossexual": daí o seu
caráter "típico", atestado pela presença dessas "opiniões errôneas"
em todas as crianças "cuja vida sexual nos é acessível".
174
Assim, é um verdadeiro trabalho do mito o que Freud des-
creve: a atribuição de um pênis a todos os seres humanos, a teoria
doacal, a concepção sádica do coito marcam as etapas epistemofí-
licas dessa investigação que procura obstinadamente .impor ordem
e razões, mesmo que se desoriente em conseqüência de lacunas.
Wittgenstein expressa de maneira direta, no Caderno pardo,
o vínculoenueacriançae o "jogo de linguagem": "O 'jogo de lin-
guagem' é a língua da criança que começa a utilizar as paJavras.''tz
Não é certamente fortUito que uma das primeiras definições do ''jogo
de linguagem" o designe como "a língua da criança".
Isso não quer dizer que Wittgenstcin produza por isso uma
"psicologia da criança". Ele aponta somente essa vocação da crian-
ça enquanto usuária original da linguagem para fornecer vislum-
bres de seu funcionamento originário: "O escudo dos 'jogos de lin-
guagem' é o estudo das formas primitivas de linguagem ou das lín-
guas primitivas.'' H Isso seria para entender-se no sentido em que
a criança "fala como joga" e "coloca em jogo" sua linguagem.
Tampouco se quer dizer com isso que a "linguagem infantil"
seria o modelo ou paradigma de toda linguagem. Isso atesta somente
que o desempenho lingüístico efetuou-se na origem - na criança
-sob a forma de ''jogos". Não se trata, pois, de subordinar a teo-
ria da linguagem a alguma psicologia genética da criança: Wittgen-
stein tem tanto apego à autonomia de sua teoria da linguagem quanto
Freud à da teoria analítica. Simplesmente, a criança está ligada, no
plano estrutural, à "entrada em cena" da linguagem: ao ponto de
que a segunda concepção de Wittgenstein poderia ser muito bem
caracterizada pelo fato de que a linguagem aí é abordada "do pon-
to de vista da criança".
A linguagem da criança poderia muito bem ser, nesse senti-
do, "o pai" de toda a linguagem do homem - estmdo Wittgen-
stein, neste ponto, secretamente em posição de parafrasear Freud.
É impressionante, com efeito, que a teoria dos ")ogos de lin-
guagem" tenha reintroduzido uma concepção da linguagem cuja
genese impõe uma referência à criança. Para compreender a teoria
da "aprendizagem" aqui envolvida, talvez seja preciso d~tacar, mais
fundamentalmente, o sentido dessa referência à produç~o infantil
da linguagem. Assim se destacará uma imagem wittgensteiniana
da criança, em face da imagem freudiana.
175
O próprio Wittgenstein interroga-se em certo ponto de um
aforismo das Fiches:·"O que eu faço será psicologia da criança?'' 44
Com o que alertar quem sabe o que a criança significa para Freud.
Não foi , por isso mesmo, levado para a órbita da psicanálise? A essa
auto-interrogação, Wittgenstein responde de imediato: "Eu rela-
ciono os conceitos de ensino e de significação." Assim, o status da
significação na segunda filosofia encontra-se necessariamente as-
sociado a uma problemática "pedagógica" da transmissão.
Não éfortuito, portanto, que no célebre começo do Caderno
pardo, onde ele introduz os "jogos de linguagem", Wittgenscein
refira-se à descrição que Santo Agostinho fazia do "modo como
aprendia a linguagem"4) . É a passagem do livro I das Confissões
(§ VIII) que parece ter servido de ponto de demarcação para a con-
cepção wittgensteiniana. É ao explicitar por que essa concepção se
mostra insuficiente que ele se vê levado a apresentar uma das pri-
meiríssimas caracterizações da reforma que requer a introdução do
ponto de vista "lúdico" na concepção da linguagem.
O que disse Santo Agostinho? "Dessa época eu já me lembro,
e mais tarde adveni como aprendera a falar. Não eram pessoas mais
velhas que me ensinavam as palavras, com métodos, como pouco
depois o ftzerarn para as leuas. Graças à inteligência que Vós, Se-
nhor, me destes, eu mesmo aprendi, quando procurava exprimir
os sentimentos do m eu coração por gemidos, gritos e movimentos
diversos, para que obedecessem à minha vontade. Não podia, po-
rém, exteriorizar tudo o que desejava, nem ser compreendido da-
queles a quem me dirigia. Retinha tudo na memória quando pro-
.n~nciavam o nome de alguma coisa, e quando, segundo essa pala-
. vra, moviam o corpo para da. Via e nocava que davam ao objeto,
quando o queriam designar, um nome quedes pronunciavam. Esse
querer era-me revelado pelos movimentos do corpo, que são como
que a linguagem natural a todos os povos e consiste na expressão
da fisionomia, no movimenro dos olhos, nos gestos, no tom da voz...
Por este processo retinha pouco a pouco as palavras conveniente-
m ente dispostas em várias frases e freqüentemente ouvidas como
sinais de objetos. Domando a boca segundo aqueles sinais, expri-
mia por eles as minhas vontades."46
No Caderno pardo, Wittgenstein evoca essa passagem nos se-
guintes termos: de "diz-nos que soube falar quando aprendeu o
176
nome das coisas; o que nos faz pensar na maneira como cada um
de nós, em sua infânáa, aprendeu a conhecer palavras como 'ho-
mem', 'açúcar', 'não', 'mas', 'talvez'". 47 0ra, "Santo Agostinho des-
creveu corretamente a aprendizagem de uma linguagem mais sim-
ples do que a que utilizamos" -até mesmo quando acreditava ter
descrito a aprendizagem fu ndamental da própria linguagem.
Essa constatação tem por reverso uma crítica mais radical que
esclarece a versão completa da passagem cuja leitura impressionou
Wittgenstein. Santo Agostinho sublinha a espontaneidade funda-
mental da aprendizagem: não é por ensino, mas por sua própria con-
ta c ''graças somente a sua inteligência" -em última instância,
divina - que a criança enconua o caminho da linguagem. A pró-
pria idéia de aprendizagem é, portanto, relativizada, visto que o
indivíduo teve que ensinar-se a si mesmo pela correlação dos sons
e das coisas. A mesma fala acompanha a percepção dessas correla-
ções repetidas, a fim de enunciar suas "vontades". Assim , haveria
uma língua pronta, em forma de "nomenclatura", que o indi:v:íduo
investiria pela compreensão e logo pela proferição - de sorte que
a "fala" seria necessitada pela própria forma da língua modelo.
Ao dizer que o processo descrito por Santo Agostinho é tão-
só uma possibilidade, simplificada e, nesse sentido•. empobr~cida
do funcionamento efetivo da linguagem falada, Wttt~nstclfl re-
jeita a sua pretensão -exemplar da concepção da linguagem-re-
flexo - de explicar a própria linguagem. A concepção "ôntica" não
é falsa, portanto, mas incompleta, visto que admite como a lingua-
gem uma forma pobre e elementar de " jogo de linguagem" (me-
diante o qual se torna, além disso, errônea). A pseudo~'lingua~em
natural e universal" de que fala Santo Agostinho vê-se reduztda,
por conseguinte, a uma vinualidade elementar da combinatória dos
jogos de linguagem q~e ~ engloba. . . , . . .
Assinale-se que a cnança agosumana e a cnança wtttgenstel-
níana são atribuídos dois status opostos em sua relação com a lin-
guagem e, correlativamente, com a crença: quanto à ptimcir~. a
existência de uma linguagem natural a asstrrular de forma espon-
tânea garante que o indivíduo possa ingressar "na tem~estuos~ so-
ciedade da vida humana, sob a autoridade de meus paJs, e a oneo-
tação dos mais velhos"48: como se a linguagem natural tive~e a fi-
nalidade - providencial - de preparar o terreno para a ltngua-
177
gem da Autoridade parenta!. É esse efeito- ou mesmo essa fina-
lidade- que Wittgenstein recusa.
Assim, "a relação enrre o nome e o objeto ... não é outra coisa
s~enão essa grafia inscrita no objero"49 e que tor.r:ta possível um uso.
E o que a "filosofia primitiva" desconhecia que resulta em "con-
densar nessa noção de relação do nome com o objeto ... todas as for-
mas de uso desse nome". Nada de surpreendente, portamo, no fa-
to de que essa filosofia produza anificialmente um " mistério", de-
vendo postular uma relação misteriosa. É isso que a apreensão da
linguagem em termos de " jogos" permite desmistificar (na acep-
ção literal de tornar supérflua essa referência ao mistério de que se
alimenta a relação da coisa com ó nome).
Isso permite referir o modo de pensar freudiano como fun-
damento nessa "filosofia primitiva" de que constitui uma varian-
te. Assim, a crença numa correlação do "desejo" (como nome)com
o desejo como objeto real - na medida em que é uhívoca - tem
por efeito creditar a crença ao "desejo" como tal, o que impõe."uma
parte de inexplicável e de misterioso" - sedumra, aliás, por essa
razão.
Vê-se que essa análise d ucida o "diagnóstico" wittgensteiniano ·
acerca do vínculo entre a "psicologia de profundidade" e o encan- ·
to do mistério (supra). Não é somente uma questão de atmosfera:
é para uma concepção "primitiva" e " referencialisca" que o misté-
rio é requerido, como correlato da "superstição" de uma relação de
fundamento venical entre "nome" e "coisa". Só uma concepção
"horizontal" da relação dos sinais entre si pode tomar supérfluo
o mistério.
A criança edipiana é, à sua maneira, submetida à linguagem
de seus ascendentes, na mesma medida em que está sujeira ao de-
sejo do Outro. O problema da referência da coisa ao nome vê-se aí
singularmente complicado pda relação do sujeito com o Outro. É
o que iremos reencontrar com a questão do referente paterno (infra).
Do lado de Wittgenstein, relativizar tão radicalmente a "ra-
zão explicativa" é revelar, de forma inversa, uma lógica da apren-
dizagem: "o fundamento de toda explicação é o adestramento" (die
Abn'chtungpo.
A consonância nietzschiana de tal enunciado confirma que es-
tamos diame de um diagnóstico genealógico, o qual atribui à "razão"
178
explicativa pôr em jogo o que a condiciona - quando o que é pró-
prio de uma razão explicativa é credenciar sua própria auronomia e,
nesse sentido, sua própria incondicionalidadc.
Talvez seja preciso ler, em WittgenStein, o desejo de reencon-
trar a inocência soberana -nesse sem ido, pré-edipiana - da crian-
ça, "metamórfose" que lhe faria descobrir o lugar de onde vem e ja-
. mais saiu verdadeiramente, o jogo com a linguagem...

179
C:1. Pl fL 10 '

Destinos do logos

1. Crítica da teoria p sicanalítica:


Wittgenstein e Popper

Para sublinhar o caráter específico da crítica wittgensteinia-


na da psicanálise concebida em sua globahdade, é útil compará-la
com a que Popper formula. Se elas não deixam de ter algum pa-
rentesco- inteleccual e culturaJ)t -; também revelam, num exa-
me atento, suas diferenças.
Popper encontra a obra de Freud na biblioteca de seu p ai, que
"tinha a mesma idade que Sigmund Freud, de quem possuía as
obras que tinha lido no momento de sua publicação" 52, É nesse
exato momento- porvoftade 1919 - que Wittgenstein e Popper
descobrirão Freud, aliás, ao mesmo tempo que Alfred Adie r e Karl
Marx. Mas, a panirdadécada de 1920, na esteira do encontro com
o pensamento de Einstein, estabelece-se o que ele chama "a demar-
cação entre teorias científicas (como as de Einstein) e as teorias pseu-
docientíficas {como as de Marx, Freud e Adler)"H. Isso se m ede pe-
la aptidão para "eliminar ou excluir certos eventos possíveis", assu-
mindo a questão: "Quais são os fatos concebíveis a cujo respeito eu
admitiria que fornecem refutações, ou falsificações, da minha teo-
ria?" De modo que "som~nte as tentativas de refutação que fra -
cassavam como refutações podiam ser consideradas 'verificações' ''.
lHl
Aí começam a ser.depreciados os psicanalistas como "capa-
zes de interpretar qualquer fato imaginável como vindo em apoio
de suas teorias", logo, não esboçando sequer uma tentativa de fal-
sificabilidade. Portanto, "teorias como as teoiras psicanalíticas de
Freud, Adler eJuilg, ou como o saber (suficientemente vago) da as-
uologia ", não "são falsificáveis nem testáveis".
É, aliás, pela questão da "crença" que Popper, como Wittgen-
stein e a tradição vienense mencionada (supra), aborda a questão do
saber qua saber: é essa exigência de "um pensamento crítico" que
o leva a forjar essa oposição que, em seu entender, é monal para a
psicanálise como teoria. À semelhança de Wittgenstein, ele tam-
bém será sensível ao caráter não necessitante da interpretação ana-
lítica. Podemos assim aproximar o que Popper disse mais acima de
tais fórmulas de Witcgenstein onde ele sublinha que uma outra in-
~erpretação muito diferente também poderia ter sido verdadeira.
E essa "permeabilidade" aparente da interpretação que ambos res-
sentem como uma imponante fraqueza.
Mas assinale-se também que Popper fala de "teoria psicana-
lítica" em sua relação com "eventos" que ela permite ou não pen-
sar- capacidade aferida pela "falsifi.cabilidade". Em compensa-
ção, ~a ''explü(Jfiío analítica que interessará a Witrgenstein em pri-
meiro lugar, e ela será avaliada considerando o que institui de rela-
ção com o seu "destinatário", como técnica de "persuasão". Ao mes-
mo. tempo, a questão da " interpretação" analítica será aferida tan-
to em um quanto no outro segundo dois diferentes padrões, em-
bora o resultado seja em ambos os casos refutatório. Com efeito, o
que interessa a Popper no arbitrário (suposto) da interpretação ana-
lítica é que ela demonstra rua natureza não científica e, em última
instância, não "teórica" -na medida em que somente a "verda-
deira" teoria, fals.ificáveí, pode reivindicar-se como teoria. Em Witt-
genstein, é a ambição explicativa propriamente dita (científica) que
cumpre recusar à psicanálise, o que se revela pelo caráter de fato ar-
bitrário e não necessitante da interpretação.
Uma importame conseqüência tangível é que, para Poppc:r,
a questão é solucionada de uma vez por todas, uma vez que se te-
nha reconhecido o caráter não falsificável da teoria analítica: ou-
trossim, essa renega.çio da psicanálise é por ele mencionada como
um epi~ódio que demonstra o advento de uma verdadeira relação
182
crítica. Ao passo que é "eliminada" pela crítica popperiana, a psi-
canálise não pára de reaparecer na crítica wittgensteiniana, visto que
repõe incessantemente- de maneira privilegiada. mas não exclu-
siva- a questão do limite frágil entre "explicação científica" e "ex-
plicação estética'': ela remete, com efeito, para a questão do assen-
timento e da sedução do lado do sujeito- ou seja. o excesso de "con-
fia bilidade'' (aparente).
É por isso que, enquanto a psicanálise não preocupa Popper
mais do que qualquer outra "pseudoteoria", ela reapresenta inces-
santemente, em Wittgenstein, a questão da sedução, em seu vín-
culo com a linguagem e a racionalidade.
E há mais: por esse mesmo fam, Wittgcnstein, apesar de seu
pouco interesse e escassa competência "clínicos'·, está em posição,
por sua crítica, de interpelar a psicanálise no ptóprio exercício de
sua prática. É por esse motivo que, enquanto Popper e Freud estão
destinados a ocupar dois ''terrenos" totalmente distintos, Wittgen-
stein fica se projetando a todo instante, por sua crítica, na arena psi-
canalítica. Ele interroga bem mais do que a natureza epistemoló-
gica: o estilo de racionalidade e seus lances quanto ao status da "con-
vicção" que ela promove para o sujeito. É nesse sentido, mais do que
uma "despedida" como em Popper, o pomo de partida de uma
''confrontação'' que interpela os dois projetos, por mais diferentes
que sejam as "cenas" onde eles se desenrolam.
Essa diferença de tratamento da psicanálise. longe de ser for-
tuita, remete para a diferença de concepção da racionalidade: en-
quanto em Wictgenstein o problema determinante é, originaria-
mente, o da significação, em Popper é a questão da demarcação das
teorias que sobe ao primeiro plano. A impossibilidade de contra-
dizer a psicanálise demonstra, portanto, aos olhos de Popper, a não-
falsificabilidade de uma teoria.
Torna-se ainda mais interessante constatar o que, em um e em
outro, acontece coma "clínica". Popperddiniuas "obse~çõesdí­
nicas" como "interpretações feitas à luz de teorias" H. E por isso
que "somente as observações empreendidas a fJID de testar as teo-
rias (tentativas de ''refutação'') podem verdadeiramente sustentá·
las", o que supõe a definição ''antecipada de cn'ténos de refutação':
Ora, no caso da psicanálise, eles ficam inutilizados: "Que tipo de
reações clínicas", indaga Popper, " poderiam persuadir um analis-
183
ta de que não só tal ou qual diagnóstico mas também a própria psi- .
canálise são refutados?" Reencontra-se o argumento implícito: o psi-
canalísta tem sempre razão, pois que "irrefutável" - no sentido
de que não pode justificar seus critérios de refutação, logo, de ad-
missão de uma interpretação.
É notável que Wittgensteín, se bem que muito próximo des-
se reproche endereçado a Freud, não aborde a questão da interpre-
tação em termos de teorias. A interpretação é, em si, inValidada como
modo ilegítimo de "explicação". Ponanto, não podia sequerserques-
tão de "observações clínicas" - e a clínica, de fato, interessa-lhe
muito pouco em si mesma como ''problema". Mas, paradoxalmente,
em virtude de apresentar a questão por referência ao sujeito a quem
se destina a "explicação interpretativa", sua crítica tem total voca-
ção para reencontrar o que poderia muito bem ser o âmago da ex-
periência clínica, o que define a análise. Em outras palavras, Pop-
per tem aparentemente mais consideração pela dimensão de ob-
servação clínica da psicanáiise: admite que Freud tenha tido "uma
representação exata de cenos fenômenos"s5. Mas, justamente, tra-
ta a teoria analítica como qualquer outra teoria a que faça as exi-
gências básicas de uma teoria, ao passo que Wittgenstein, abordan-
do-a por outro ângulo, reconhece-lhe uma especificidade- de na-
tureza "estética": nesse sentido, invalida-a mais rigorosamente em
sua pretensão epistemológica, mas questiona mais de peno sua
especificidade.
Isso não é tudo: Popper deparou com um tema central da crí-
tica wíttgensteiniana, a saber, a influência do analista sobre a pro- .
dução da interpretação. Propõe até a expressão um pouco estranha
de "efeito Édipo" para designar o efeito que uma teoria, uma ex-
pectativa ou uma predição exerce sobre o próprio evento que ela pre-
diz ou descreve. Em outras palavras, "as expectativas e as represen-
tações (conscientes ou inconscientes) do analista influem sobre as
'reações clínicas' do paciente" (para não falar das tentativas feitas
conscientemente a fim de influenciá-lo quando lhe propõe inter-
pretações etc.). Mas esse argumento da sugestão - decididamen-
te tópico - é mencionado por Popper como fator de perturbação
da objetividade da própria teoria, ao passo que, em W ittgenstein,
ela é reveladora de sua referência a uma ordem da persuasão. Sin-
toma de sua natureza de "pseudoteoria" em Popper, esse fator "sub~
184
jetivo" é revdador, em Wittgenstein, de um "para além" da expli-
cação propriamente científica. É por isso mesmo que a psicanálise
se mostra comprovadamente preciosa para interrogar esse espaço
de jogo, margem da ciência e do saber.
Isso permite compreender, enfim, como a recriminação co-
mum de "mitologia" endereçada à psicanálise por Popper e Witt-
genstein remete, se atentarmos bem, para dois tipos diferentes de
crítica.
Para o primeiro, "as teorias psicanalíticas estudam certos fa-
tos, mas procedem à maneira dos mitos" 56, Em outras palavras,
uata-se de teorias fantasistas: entenda-se, de teorização de fatos que
não chegam a alcançar a objetividade científica. Para o outro. oca-
ráter mitológico remete para o alcance subjetivo - de sedução -
do tipo de explicação fornecida. Assim, Popper é mais sensível à na-
tureza mitológica da teoria freudiana, onde Wittgenstein percebe
seu efeito mitológico sobre o sujeito-destinatário da "explicação".
Eis um dos motivos pelos quais o diagnóstico de "mito" em Pop-
per basta para exonerar a psicanálise de suas pretensões científicas
de uma vez por todas, ao passo que em Wittgenstein uma questão
se abre: a das "razões da sedução", do lado do sujeito.
No limite, Popper poderia admitir a validade do sistema in-
terpretativo analítico, se os analistas pudessem argüir na base de "cri-
térios de refutação examinados ou escolhidos de comum acor-
do"}7. Quanto a Wiugenstein, recusaria tal "acordo" como o cú-
mulo da pretensão explicativa.
Enquanto em Popper a questão do sujeito não aparece, em
Wittgenstein ela é, sem dúvida, o aspecto mais sintomático da teoria
analítica. Ela é, por isso mesmo, posta a nu.

2. Crítica da mitologi4 evolucionista


Para avaliar o sentido preciso do diagnóstico wittgensteinia-
no sobre a psicanálise como "mitologia", uma constatação pode
orientar-nos: é que, pela mesma época, exerce-se a crítica, em ter-
mos semelhantes, contra uma outra teoria, esta etnológica: a de
Frazer.
Uma frase dos Remarques sur "Le rameau d'or" de Prazer o
atesta: "Na verdade, as explicações de Prazer não seriam, de ma-
185
neira alguma, explicações se não recorressem, em última instância,
a uma inclinação em nós mesmos." ~s A articulação e o sentido des-
sa crítica aparentemente unívoca endereçada à explicação frazeria-
na e à explicação freudiana são, de resto, muito mais complexos
do que essa analogia poderia fazer crer.
De uma parte, sublinhe-se, o caso de Frazer postula a ques-
tão do mito como "objeto de explicação: aí está a questão propria-
mente etnológica. Quando Wittgenstein aplica o termo à explica-
ção analítica, ele parece, ponanto, fazer uso de uma analogia cujo
terreno de origem é a etnologia. É precisamente o efeito de sua crí-
tica realçar a dimensão "etnológica'' do que pretende ser uma teo-
ria. A analogia entre as duas críticas iria portanto de Frazer a Freud,
no sentido de que reencontraria em ação na teoria analítica o tema
que examinou em sua reflexão sobre a etnologia frazeriana.
Mas é também no outro sentido que se deve pensar a relação:
pois o que Wittgenstein questiona em Frazer é, radicalmente, o sta-
tus da explicação etnológica produzida em sua relação com o "mi-
to" - assim como explicação dos mitos. Senamos, pois, tentados
a dizer que, desta vez , ele vai antes de Freud para Frazer, visto que,
tanto num como no outro, o que se postula é a questão da interface
entre racionalidade e mito: racionalidade do mito e mito da racio-
nalidade. É como se Witqt4:nstein experimentasse as duas faces de
uma mesma problemática, o que nos obriga a pensar no efeito de
espelho das Conversations sur Freud e das Remarques sur Prazer.
Isso não quer dizer, simplesmente, que Freud fosse, aos olhos.
de Wi ttgenstein, o Frazer do inconsciente. Se um e outro gravitam
em torno da mesma contradição - a da interface de mitologia e
de racionalidade, em suma, do problema do Jtatus da explicação
-,se ambos pecam, em seu entender, pela imprecisão do pensa-
mento sobre a relação entre as duas dimensões, o status deles é bem
diferente. Tudo se passa, de fato, como se Frazer "induzisse em er-
ro" e conduzisse ao "absurdo", enquantt •Freud se mantém numa
espécie de ambigüidade fecunda: o grau diferente de severidade da
avaliação das duas tentativas poderia muito bem ser revelador do
status decididamente especial - e, nesse ~entido, privilegiado -
que Wittgenstein confere a Freud.
Em swna, a diferença deixa-se reduzir a uma alternativa. Fra-
zer, sob a aparência de explicar os miws (e os rituais), reduz os mi·
lt-!6
tos ao modelo de sua própria explicação - esvaziando-os, assim,
de seu sentido. Freud, por seu lado, acreditando explicar, produz
de fato uma variedade particular de mito. É por isso que Wingen.
stein, leitor vigilante dos dois textos, está em posição, no primeiro
caso, de "defender" a especificidade dos mitos, diante do espelho
deformador da explicação; ao passo que está, no segundo caso, em
condições de atribuir à explicação o seu componente mitológico-
ignorado dela própria e acreditando-se uma explicação.
Se o caso Frazer é, portanto, mais grave que o de Freud, é por-
que o primeiro mata o mito ao tomar sua própria explicação pela
restituição do mito à sua mesma realidade, ao passo que o segundo
produz, de fato, um mito particular e singularmente fecundo -
ignorando sua natureza e tomando-o por uma explicação científi.
ca. Eis por que, contra Frazer, é preciso denunciar o erro maior da
"razão explicativa", a que falta a essência discursiva própria do mi-
to, enquanto, em face do segundo, trata-se de efetuar um balanço:
salutar para uma justa apreciação da relação entre razão e mito, es-
ta não abala o "poder do mito" assim, entregue à sua própria na-
tureza. É. por isso que a objeção de Wittgenstein, dirimente contra
Frazer, não atenta diretamente contra a prática da análise - se bem
que lhe indique um ponto de contradição vitaL
Portanto, o que nos interessará aqui é tão-somente a explici-
tação do contexto da crítica de Freud que contém a crítica de Fra-
zer. Com efeito, pode-se encontrar nesse texto, além de uma expli-
cação do que Wittgenstein entende por "mito'' - portanto, do que
o termo pode significar aplicado a Freud -, uma precisão sobre o
ponto de .ruptura entre mito e racionalidade.
O fracasso frazeriano contém, com efeito, uma lição, relativa
à apoeia do mito e da razão, a qual tem de ser pensada para uma
justa apreciação da relação entre as duas dimensões. Ora, nessa apre-
ciação, a psicanálise está especialmente interessada: porque o caso
da psicanálise a ilustra aos olhos de Wittgensteio e, ao mesmo tempo,
porque permite, talvez melhor do que nenhwn outro, descrevê-lo.
O que Wittgenstein visa no projeto de Frazer, assim como no
de Freud, é, ponanto, uma cena concepção do processo, associada
à ambição explicativa como sua justificação imediata. Ora, é essa
ambição que Wittgenstein relativiza radicalmenre: "A explicação
histórica, a expli ca~ão sob a forma de uma hipótese de evolução, é
1H7
apenas uma espécie da coleta de dados - de sua sinopse." É essa
racionalidade do processo, determinante de pleno direito nesses mo-
delos explicativos, que Wittgenstein relativiza essencialmente.
Ora, isso revela-se ainda mais quando de opõe a essa concep-
ção processual uma representação taxinômica. "Também é muito
possível ver os dados em suas relações mútuas e reuni-los num quadro
geral sem formular qualquer hipótese a respeito da forma como as
coisas evoluíram no tempo."
Thlvez se encontre aí uma sugestão sobre a maneira corno Witt-
genstein gostaria de redistribuir os elementos do processo analíti-
co- justan'le.m e emancipando-os dessa racionalidade processual:
seria necesSário imaginar um quadro de virtualidades que são tam-
bém outros tantos "jogos de linguagem".
Ao modelo explicativo, tendente a atribuir aos "fatos" urna
causa que aí agiria de modo "processual", Wittgenstdn opõe o mo-
delo da übersicht/iche Darstellung, "representação" que permite
ver globalmente: ''Pois que tudo está exposto diante de nós, nada
há a explicar" )9, dizem as Investigações filosóficas. llata-se de
compreender. "o que se supõe 'nos fazer ver' as conexões".
Essa oscilação do entendimento é determinante no pensamen-
to de Wittgenstein e interessa à explicação metapsicológica de um
modo mais preciso do que se poderia pensar.
Não é por acaso que, desde as Investigações às Fiches, passan-
do pdos Comentários sobre " O ramo de ouro': Wittgenstein da-
boca essa noção que lhe serve para frustrar literalmente uma lógica
da explicação. É esse gênero de saber que serve para ver sem.des-
truir o tecido do visível. Correlativamente, é um saber de ducida-
ção inventiva. Isso se opera mediante "a descoberta e a invenção de
sinais ou termos intermediários'' (Zwischengliedem).
Significa isso que esse saber, à maneira da explicação, apóia-
se em "mediações"? Esses termos intermediários hipotéticos não
serão uma variante refinada da explicação? Os Comentários sobre
Frazerefetuam um esclarecimento imponante: ''um termo inter-
mediário hipotético não deve, em tal caso, fazer outra coisa senão
orientar a atenção para a semelhança e o encadeamento dos fotos".
Enquanto a explicação introduz uma generalidade que faz neces-
sariamente perder de vi'sttJ os fatos, na esperança de voltar a eles,
os Zwischengliedern wittgensteínianos são suportes da "atenção"
IAA
aos fatos. Eles fazem ver a semelhança. à maneira de lemes ópticas
que fizessem emergir "formas" do torvelinho de fatos: " Da mes-
ma maneira que se ilustraria uma relação interna da forma do cír-
culo para a elipse, fazendo passar pouco a pouco uma elipse para
o estado de círculo; mas não para afirmar que certa elipse, nos fa-
tos, historicamente falando, seria derivada de um drculo (hipóte-
se de evolução). mas somente a fim de apurar o nosso olhar pela cap-
tação de uma conexão formal."
Em outras palavras, contrariamente às mediações de pensa-
mento que deduzem propriedades pelo efeito de um processo evo-
lutivo, esses elos intermediários faz~m ver conexões forma is. A no-
ção serve visivelmente para conjurar um modo de pensar em ter-
mos de causas e de processos, a fim de substituí-lo por um modo
de.pensar simultaneamente visual (formal) e estrutural. Poder-se-
ia chamar a esse modo de pensar fenomen ológico por sua preocu-
pação em fazer surgir o "logos" do visível. Daí transparecer a idéia
de que, em contraste com o modo de pensar ''explicativo", esse modo
de pensar "sinóptico" está enraizado em nosso modo de represen-
tação: "Ele designa (o conceito de representação global) a nossa for-
ma de representação, a maneira como vemos as coisas."6o O modo
de pensar explicativo-evolutivo é tão-só "a vestimenta". O que quer
dizeé, ao mesmo tempo, que a verdadeira explicação é de natureza
"sinóptica" (no sentido definido) e que onde se crê "explicar" (no
sentido etiológico-processual). o que se está fazendo não é outra
cois~ senão extrapolar um modo de represeoração übersicht/iches. ·
Vejamos o que isso implica quanto à explicação meta-
psicológica.
Esta decifra-se com facilidade, e mesmo de forma coercitiva,
segundo o metapsicólogo (Freud). como explicação no sentido fí-
sico (segundo o registro econômico-dinâmico-tópico e seu plano
de fundo "evolucionista''). Deve~se acreditar, se seguirmos Wítt-
genstein, que só existe aí o registro de uma metáfora iludente. De
foto, o saber rnetapsicológico se desenvolveria segundo uma lógica
da übersicht!iche Darstel!ung (representações nítidas]. ao mesmo
tempo porque esta é a modalidade genérica da Weltanschauung em
que o saber humano se engloba e porque a psicanálise não pode,
como se viu, ter pretensões ao modo de explicação física de que se
vangloria.
189
Remontando à origem desse modo de pensamento processual
que Wictgcnstein crítica em Freud, entre oucros, aí encontramos,
de certo modo, a condição de possibilidade doutrinai , ou seja, uma
''filosofia evolucionista". Embora Wittgenstein vise explicitamente
Darwin, o inventor da "doutrina", o evolucionismo designa aq ui
uma tendência básica que liga o destino intelectual da explicação
a um Pensamento do Processo.
Não é por acaso que, na passagem das Preleções sobre estéti-
ca dedicada a Freud61, Dacwin é mencionado como por associação
- ao ponto de Wittgenstein parecer denunciar no modo de pen-
s:tr metapsicológico as seqüelas de um "darwinismo psicológico"
- o que, aliás, poderia ser hiscoricamence reivindicadoM. Seria
mais correto dizer que, seguindo o exemplo do próprio Freud, Witt·
genstein efetua um paralelo entre as duas figuras. A alusão ao "ca-
so Dacwin" - "Um círculo de admiradores que diziam 'Claro que
sim' e outro círculo de inimigos que diziam 'Claro que não' " -
poderia perfeitamente aplicar-se mutatis mutandis ao "caso Freud".
Nos dois casos, trata-se de crença no Processo, batizado de
"Evolução". Com efeito: "Alguém viu jamais tal processo aconte-
cer? Não. Viu-o alguém acontecer agora? Não... Mas houve milha-
res de livros em que se disse ser essa a solução óbvia." Em suma, tni-
ta-se de uma certeza, "crer na Evolução".
Ora, não há somente um paralelismo formal: a crença na evo-
lução poderia bem ser, se acompanharmos Wittge-nstein, a crença
mer:apsicológica tão elementar quanto fu ndamental, não como rema
à parte, mas como modo de intdigibilidade irradiante no próprio
estilo da oêplicação.

190
NOTAS

1. Cf. s-11pra, introduçio, p. 21.


2. Cont~erullions sur Freud, p. 98 [p. 77 da rrad. brasileira).
3. Op. cit., p. 105 (p. 88 da trad. brasileira].
4. Leçon .mr l'e1Jhétique, § 33, p. 62.
5. Wittgenstein's Lectures, p. 3.
6. Op. ui.
7. Carta a Fliess de J? de feve reiro de 1900. citada por Max Schur, La mort dans
la vit de Freud. Cf. la naúsance de la psychamJ/yre, p. 170.
8. Leçonn url'esthétique, § 28, pp. 59-60 [pp. 50· ~ I da tr~d . brasileira, op. cit.j.
9. Grammaire philosophique, § 23, trad. francesa, Gallrmard, p. 68.
10. Ver infra.
11. Op. cti.
12. Op. cit.
13. Op. cit.
14. Op. cit.
15. Op. cit.
16. Le Cahier bleu eJ le Cahier bnm, p. 51:
17. Op. cit., p. 57.
18. Cf. o nosso Freud, la philosophie et les phzlosophes, PUF, 1976.
19. Fiches, § 395. p. 105.
20. Op. út., § 396. p. 106.
21. Op. cit., § 399, p. 107.
22. Die Traumdeutung, cap. Vll.
23. Sobre este pon.to, remetemos o leitor para a nossa ltllroductions à l'épiiJémo-
logie freudienne, 2~ parre, cap. I, p. 99 ss.
24. " Clnconscieot", em Milllpsychologie, GW, X, 286.
25. lntroduction à l'épistémologie freudienne.
26. Ver infra. . . .
27. Leçons sur l'esthitique, op. cit., § 28, p. 59 [p. 50 da crad. bcas1lerra, op. ctt.].
28. Remarques mélées, 1944, p. 56.
29. Ver infra.
30. Cf. sobre este pomo, J. Bouveresse, !.a rime e/ 14 raisotJ, op. cit.
31. Pulsiom etdettins des pulsions, GW, X, 210. Sobre a natureza e a origem desse
" relacionismo", cf. itJJroduction ii l'épistémologie freudienne, p. 81 ss.
32. Fiches, § 55, p. 24. . . .
33. Conversatiom sur Freud, op. cit., p. 104 (p. 87 da 1rad. brastlma, op. czt. J.
34. Op. cit., p. L04 [p. 87 da crad, brasileira. op. ctt. [.
35. Recherchesphilosophiques, § 109, p. 164 (lrJvt!Jiigaçõnfilos6ficas, Co!. "Os
Pensadores", Ed. Abril Culcural, 1975, p. 57. (N. do T.)J.
36. Supra, pp. 158-164. . .
37. Cf., a título de ilustração, as Mémoires de I'Homme aux loups, que assun pr~n­
cipiam: "Gostaria de lembrar a situaç[o em que se encontrava um neuróuco
191
ames do nasúmento da psicanáJise." O encontro com a psicanálise no relato
mítico do neurótico ocorre em dois tempos: "Desde as primeiras horas (de con-
tato com Freud), semi ter finalmente encontrado o que vinha procurando há
muito." Ou: " Imagina-se facilmence o alívio que senti quando Freud me fez
várias perguntas sobre a minha infância." Pankejeef, convenido em Homem
dos Lobos - sua denominação trágica - ilustra o efeico diagnosticado por
Wittgenstein nesses mesmos termos.
38. Cahier b/eu e/ Cahier brun, p. 79.
39. Les exp/icatiom sexue//es données aux enfonts (1907), trad. francesa em 14 vie
sexuelfe.
40. Op. cit.
41. Op. cit.
42. Cahier bleu el Cahier brun, op. cit.
43. Op. cit.
44. Fiches, § 412.
4~. Cahier brun.
46. Confissões, § 8. (Col. "Os Pensadores", vol. VI, § 8, "Como aprendi a falar",
pp. 31-32, Ed. Abril Cultural, 19H.)
47. Cahier brun.
48. Confiuõu, op. cil.
49. Cahíer brt~n.
50. IM ia não iseiua de uma conotação nietzschiana.
51. Popper panicipado modelo vienensc cujos efc:itOs sobre a críticada psicanáli-
se recordamos em nossa introduçio (p. 15 ss.).
52. Segundo o testemuoho do próprio Poppc:r, Unended Quesi, 1976; Une qui-
te inachevée, Calmann-Lévy, cap. III, p. 20.
53. Op. cit., cap. IX, p. 63.
54. Op. cít.
55 . Op. cit.
56. Op. cit.
n. op. cit.
58. Remarques sur ''Le ra.,n.eau d'or" tú Prazer, Ed. r:A~ d'Homme.
59. Recberches phelosophiques.
60. Ver supra.
61. Leçons surl'esthétique, op. cít., § 32, p. 61. [p. 52 da trad. brasileira, op. cit.]
62. Sobre o darwinismo de Freud, remetemos o leitor paraa lnlroduclion ii l'épis-
timologie freudienne, p. 199 ss.

192
LIVRO IV

De um logos ao outro:
lances da divergência
Freud/Wittgenstein

Da confrontação temática
à confrontação sistemática

De nossa reconstrução do quebra-cabeça temático preceden-


te, extraímos de faro, em conformidade com o nosso projeto, uma
problemá tica que se estrutura em torno de três alternativas
. . .
pnncapa1s:

-Seguindo o caminho das razões e do assentimento, desem-


bocamos na apoeia entre uma dialética do saber e da verdade -
aquela a que Freud faz jus no processo·analítico- e uma "gramá-
tica do assentimenro", solicitada por Wittgenstein : isso equivale a
recusar a ambição de "elucidação'' de uma verdade inconsciente,
relativizada em "explicação estética".
- Seguindo o caminho das significações, vimos a maior am-
bição da interpretação analítica contestada como um modo de pensar
"referencialista", contra o qual convém introduzir uma decifração
em termos de "jogos de linguagem".
-Seguindo, enfim, o caminho dos processos e das causas, vi-
m os a ambição de racionalidade explicativa própria da teoria psi-
canalítica relativizada em modo de pensar mitológico, ao qual se
opõe, do lado de Wirrgenstein, um modo de pensar "de.scricionista".
193
A crítica, como se vê, é decapante: a psicanálise não é, por ceno,
riscada do mapa do saber humano, mas é aí ressituada pelo que efe-
tivamente é: um "Jogos estético", uma interpretação lúdica e um
modo de pensar mitológico (proporcionando a cada uma dessas qua-
lificações um conteúdo propriamente wíttgensreiniano ).
Reintroduzindo nessa formulação o conteúdo propriamente
freudiano, obteremos três questões a que daremos sua forma mais
brutal, sobre a quaJ Freud e Wittgenstein procuram diferençar-se:

- O inconsciente é objeto de crença?


- O desejo é decifrável como jogo de linguagem?

Tendo-se a função sujeito revelado irredutível nos dois casos:

- Inconsciente e linguagem são tão-somente o mito do


''sujeito"?

Perguntas cuja forma despojada não deve dissimular o fato de


que são a resultante de uma desconstrução.
Ora, se procurarmos situar o focus originarius de onde é pos-
sível ter acesso a esse tríplice problema que dele recebe sua unida-
de fundamental, serão problema da ética o que encontramos: ven-
cimento da crença - cuja questão do assentimento já indicava o
reverso da linguagem - através do reverso da alteridade, da qual
é portadora a noção de jogo - , enfim, do próprio sujeito, mais pi-
vô do que tema da ética.
Pensamento do Outro, cujo sujeito é a linguagem, a psicaná-
Lise mostra ser, nesse sentido, o que está em jogo num considerável
problema de racionalidade, até o ponto de uma ética indecidível.
É nesse pomo que o diálogo de Freud e Wingenstein adquire sua
dimensão própria. A desconstrução temática terá nos servido de in-
dicador para dar corpo a uma verdadeira confrontação sistemática.
Enfim, no horizonte dessa questão ética, revela-se a questão
das perspectivas. É como se, à sua maneira, Freud e Wittgenstein
tivessem de efetuar o trajeto escandido pela tríplice interrogação kan-
tiana. Ao "que posso eu saber?" - posto em crise pelo saber do
inconsciente e a linguagem- sucede - mas por que consecução?
isso mesmo torna-se problemático- a indagação sobre "que devo
19 -'Í
eu fazer?", ética redefinida juslamcme pela crise do saber do
inconsciente-linguagem- ames de impor uma figura nova, a do
''que posso eu esperar?", que repensa a posição do sujeito em rela-
ção à religião, à política, até mesmo à história- figuras diversas
do processo de significado.
Em suma, será isso a respiração dessa confrontação sistemáti-
ca, possibilitada pela confrontação temática precedente.

195
< .\PI/1.!(>!

Inconsciente, racionalidade
e linguagem

I. Metapsicologia e Jogos de linguagem

No ''jogo de linguagem", a cada etapa da desconstrução, Win-


genstein defronta-se com o verdadeiro "primitivo" -que frustra,
precisamente, a ilusão de um Ur- causal e principaL Ao ponto
de o confundir com o "instinto": "O nosso jogo de linguagem é
um desenvolvimento do nosso comportamento primitivo (pois o
nosso jogo de linguagem é comportamento) (instinto)." • Não ca-
be postular um finalismo nesse "instimivisrno": isso sigrufica sim-
plesmente que a linguagem-jogo precede a reflexão. Éo que já fun-
ciona sempre, antes que o usuário se aperceba disso.
Ponanto, não é exagerado dizer que o jogo de linguagem ocupa
em Wittgenstein o lugar do Tn'eb freudiano, "objeto metapsicoló-
gico" primário2. O jogo de lingua~em não é um instinto, é o pró·
prio instinto "feito linguagem". Eo termo pelo qual se denota a
originalidade funcional do jogo de linguagem, no sentido em que
o homem "fala como respira".
Isso não quer dizer que a linguagem seja uma função óbvia.
da mesma forma que a pulsão não encerra o problema da identifi-
cação da pulsão. Uma e outra constituem a coerção primitiva a par-
tir da qual se estabelece um sistema aberto. O metapsicólogo está
determinado a questionar de modo incessante as vicissitudes das
pulsões (I'nebem chiksale), ao passo que o "pragmático" da lingua-
197
gem enconrra sua vocação em reinterrogar constantemente como
o su jeiro joga com sua linguagem. O caráter cissiparitário do escri -
to mera psicológico freudiano, assim como do aforismo wittgens-
ceiniano é o reflexo discursivo desse o bjeto tão originário quanto
desmultiplicado. Isso leva a pensar, sem contradição, num ongJnán·o
indejimdo.
É no mesmo espírito que Wittgenstein recomenda, ao abor-
dar esses " jogos": " Não diga: 'Algo deve ser comum a eles, senão
não se chamariam 'jogos' -mas veja se algo é comum a todos
eles'."} A diversidade dos jogos é, portamo, o pom o de partida
o briga tório: cumpre deixar-se im por"por esta a interrogação relati-
va ao seu uso imanente, protelando a interrogação sobre a essência
do "jogo". Assim: "É como se olhássemos a cabina do maquinista
de uma locomotiva: lá estão alavancas de mão que parecem ser mais
. ou menos iguais. (Isto é compreensível, p ois devem ser todas das
manobradas com a mão.) Mas uma é a alavanca de uma manivela
que deve ser continuamente deslocada (ela regula a abertura de uma
válvula); uma outra é a alavanca de um interruptor que tem ape-
nas duas espécies de posições eficazes: para àma e para baixo; uma
terceira é a alavanca de um freio e quanto mais fone ela for puxa-
da, tanto mais fortemente trava; uma quana, a alavanca de uma
bomba que só funciona quando se llie imprime um movimento de
vaivém."4 Enttetanto, essa diversidade de usos não designa nenhu-
ma nomenclatura de funções.

2. Sujeito, linguagem e inconsciente


Porque não pode ou não quer pensar esse sujeito anão ser co-
mo usuário, Wittgenstein desvenda justamente o paradoxo em que
Frcud força a pensar: é que o su jeito está presente, de algum mo-
do, duas vezes: no " jogo" (de linguagem) e em seu "jogo". Talvez
o inconsciente freudiano designe essa " repicagem" do sujeito que
está fora de ;ogo, embora se invente em jogos de linguagem
decifráveis.
Compreendemos que nada existe aí de "místico", embora
Wittgenstein não possa deixar de desconfiar de algo desse gênero
num tal fora-de-jogo lingüístico. Isso obriga, outrossim , a pensar
uma outra posição do sujeito na linguagem.
19M
Eis. com efeito, o que Freud ousa fazer pensar contra Witt-
genstein: que o inco nsciente é irredutível a uma "forma de vida"
o u a uma pragmática. Em ourras palavras, o homem não é o usuá-
no de seu inconsciente e tampouco o gerente de uma psique " for-
ma de vida".
O problema é, aliás, resumido no começo das Preleções so-
bre estética: "Como aprendemos a expressão 'Sonhei isto e aqui-
lo'? O interessante é que não nos mostraram um sonho para que
o aprendêssemos ."~ Eis perfeitamente expresso, sob a rudeza qua-
se simplória de uma constatação, o que singulariza a linguagem oní-
rica - e a que rítulo ela é emblemática do inconsciente-linguagem:
se não há necessidade de aprender a sonhar, não é que existe a ne-
cessidade de aprender a falar com o sujeito desejoso? O gesto zom-
beteiro evocado como uma passagem ao absurdo - mostrar um so-
nho para aprender a sonhar - só se recusa pelo simples fato de que
essa linguagem se exclui da transmissão pela aprendizagem .

Compreende-se que Wittgensteín não conceba a scxualida·


de em funcionamento na psicanálise a não ser como " uma mot iva·
ção" secreta que cumpre admitir como tal: " Imaginemos que~­
guém como Freud acentue enormemente a importância dos mou-
vos sexuais: (1) Os motivos sexuais são de imensa importância;
(2) Amiúde, as pessoas têm boa razão para ocultar um motivo se-
xual como taJ."6 De repente, a explicação psicossexual reduz-se a
uma generalização indevida: " Não é essa também umà boa razão
para admitir o sexo como motivo de tudo, para dizer: 'Ele está real-
mente na base de t udo?' " ; N este ponto, Wittgenstein ade re à
idéia propagada do pansexuali.smo freudiano, o que reduz a sexua-
I idade a um motivo dotado de uma generalidade máxima e de uma
espécie de universalização da crença correlativa. Trau.-se de mos-
trar assim que não se sai de uma lógka da crença.
Em suma, Wittgenstein não diz que Freud esteja errado a?
conceder uma importância tão exorbitante a esse "motivo" parti-
cular - embora isso transpareça no seu texto. O essencial está em
outra parte: Freud erra ao tratar essa "razão", dotada de uma at~a­
ção efetivamente máxima, do status de causa, com seu corrdauvo
universal.

199
Ora, eis de fato o arbitrário que é menos o da psicanálise do
que o de seu objeto: a sexu~lidade não é um motivo geral da enun-
ciação, mas aquilo de que "se motiva" o sujeito inconsciente, pré-
texto de sua inapercepção. Digamos de outro modo: é a propósito
da sexualidade que o sujeito se cinde.
Se fosse necessário dizê-lo em termos psicanalíticos: é a posi-
ção desse sujeito em face da castr11fão que faz com que a sexualida-
de não possa ser um ''motivo'' de componamento, fosse ele lingüís-
tico, tão geral quanto se o supõe. Éjustamente porque o sujeito não
crê "na sexualidade" que ele não pode instalar-se nessa crença e or-
ganiza a sua linguagem em corno dessa falta.
Poder-se-ia dizer que ele "joga" com essa falta, de modo que
a experiência analítica exploraria, em sua infinita complexidade,
os "jogos de linguagem" relativos à castração. Mas essa questão in-
congruente é precisamente aquela que Wittgenstein não pode ou
não quer formular: quais são as "regras" desse jogo com a Falta e
que gênero de sujeito o supõe (que não possa ser "aprendido" se-
gundo as regras conhecidas da transmissão)?
Isso nos leva ao problema da posição da alterídade. O que se
revela na "cena primordial", da qual Wittgenstein faz, não fonui-
tamente, o ápice da mitologia psicanalítica (supra, p. 172), é essa
colocação em órbita sobre o desejo do Outro que estrutura o sujei-
to na relação com o objeto, cujo inconsciente será doravante o co-
mentário contínuo. O Outro em Wi ttgenstein é nem mais nem me-
nos do que o pólo da aprendizagem e da comunicação:. é identifi-
cável através dos "efeitos" da persuasão que se refletem na prag-
mática: nesse sentido, é o pólo vazio do efeito estético.
É por isso, aliás, que o sujeito conserva sempre a possibilida-
de de "refletir" sobre seus modos de enunciação. O "desenfeici-
çamento da linguagem" poderia muito bem consistir nesse "des-
garramento" do sujeito do enunciado de sua captação nos equívo-
cos do que se joga nessa relação com os outros (os seus outros), no
espaço incerdiscursivo. Como se viu, o constante reproche de Witt-
genstein àdiscursividade credenciada_pela psicanálise é que da fa-
vorece a produção de tais equívocos. E, em Freud, na estrutura do
sujeitoqueassenta, de fato, essarelaçãocomoOutro-uma "equi-
vocidade estrutural", de certo modo.

200
Portamo, é a esse fora-de-jogo que cumpre retornar. Freud
confere-lhe um status com a noção de Urverdrangung (recalcamento
originário). Por esse processo, opera-se uma fJ.xação consecutiva a
uma exclusão do "representante psíquico da pulsão"s. O sujeito se
organizará, ponanco, após a ocorrência desse desgarramento ori-
ginário, o qual não deixará de exercer sua atração sobre o presente
do recalcamenco. Caberá suspeitar de que a atração exercida pelo
dizer analítico deve situar-se do lado desse processo, como se este
se oferecesse para reativar a atração do ~ecakado originário, a~ran­
dandoo "contra-investimento'' (Gegenbesetzung) requerido. E esse
o "bosquejo" que a explicação analítica fornece.
É lícito pensar, por isso, que o sujeito do recalcado originário
é aquele mesmo que se reintroduzíncessantemente a título de fo.
ra-de-jogo presente. O sujeito saboreia de novo o seu recalcado ori-
ginário graças à explicação analítica: é o que faz com que lhe en-
contre ceno "charme".
Como Wingenstein, por razões agora claras, não quer nem
ouvir falar de um tal "Ur", nem do sujeito correlativo, de só pode
ver nesse fenômeno o .fascínio do mistério, efeito de prestidigita-
ção produzido pelo dizer, com a cumplicidade eventual (culpável?}
do destinatário. Isso não o impede de produzir, como já vimos, uma
bela fenomenologia desse balé da sedução e da "coisa". Mas como
de nega esta última, tem que reduzir esse balé às peripécias de uma
linguagem que joga. Lúdica que não reflete "coisa" nenhuma e da
qual o sujeito é o usuário, que não tem nem mais nem menos con-
sistência que uma Lebensform [forma vital). .
Podemos indagar agora a respeito do princípio de sedução ana-
lítica, assinalado por Wittgenstein no início de sua crítica, a fim de
se ver em que medida poderá ser explicado do próprio ponto de vista
freudiano.
A que pretexto a "explicação psicanalítica" exerce um atrati-
vo sobre o seu destinatário? É que ela diz respeito a algo que é, si-
multaneamente, característico da própria intimidade do sujeito e
em relação ao que o sujeito permanece numa relação de alteridade
interna. Ao designar esse hic, o dizer analítico situa o interessado
em condições de usufruir dessa alteridade, uma estranheza que lhe
é, no fundo, muito familiar. Não é seduzido por essa."coisa" que
é a dele que o sujeito sucumbe ao auativo de quem a d1z e ao enun-
201
ciado que a apresenta? Assim, o princípio de sedução analítica re-
sidiria na aptidão desse enunciado particular para exibir ao sujeito
uma pane de sua alteridade e fazer com que esta o empolgue.
Wittgenstein identificou muito bem essa pane do sujeito que
se empolga e "ama" o dizer analítico- ao passo que Freud acen-
tua o seu caráter contrastante, como se essa possibilidade de "fazer
maJ" e de suscicar a reprovação fosse um sinal de veracidade do enun-
ciado analítico. Mas Wirtgenstein, ao não pensar a alteridade que
já uabalha o sujeito, somente o aborda como "destinatário" da "ex-
plicação". Desse ponto de vista, o destino do sujeito e o da relação
de comunicação são cindidos em sua representação. Ele dedica co-
da a atenção ao último aspecto, o que equivale paradoxalmente a
fazer do ''conteúdo" da explicação o elemento determinante: o que
sobe para o primeiro plano é a reação do interessado ao que é
proposto.
Corrdativamente, Wittgenstein enfatizao sujeito, mas en-
quanto apreciador de "razões'' e operador pragmático de uma per-
muta verbal. Em sua especificidade, a subjetividade fixa-se na no-
ção de "estética", apreciação do destinatário por referência ao seu
próprio "gosto".

É notável que Wittgenstein depare com o problema da iden- ·


tificação - de suma imponância para a psicanálise, através de uma
~eflexão sobre a descrição - onde vinualmeme não se esperava que
tSSo ocorresse.
Em 1938, refletindo sobre a experiência do indescritível, men-
ciona inesperadamente um fenômeno típico e até banal de identi-
ficação: "Poderiam vocês imaginar: não é um &to esuanho que imi-
temos por vezes outra pessoa? Lembro-me de estar caminhando pela
rua e dizer: 'Estou andando exatamente como RusseU'. "9 Evocan-
do essa "sensação", Wittgenstein parece reviver seu caráter incon-
gruente: "Vocês poderiam dizer que se tratava de uma sensação ci-
nestésica. Muito curioso."
Essa pequena confissão situa-se no contexto de uma reflexão
sobre o vínculo da sensação e do gesto com o caráter indecidível da
interpretação-descrição das sensações cinestésicas e dos gestos. Qual
é, pois, o sentido dessa alusão? Ela atesta uma imitação inconsciente
perfeita. Mas Wirrgenstein fica, por assim dizer, maravilhado com
202
o fenômeno: ele não explora esta advertência de A interpretação de
sonhos: "A identificação não é simples imitação, mas apropriação
fundamentada numa etiologia comum." to Em outras palavras, ela
"exprime um ' tudo como se' e relaciona-se com um elemento co-
mum que reside no inconsciente". É desse modo que um indiví-
duo assimila um aspecto de outrem por imcrmédio de um traba-
lho da fantasia.
Witrgenstein atém-se à sua fenomenologia da sensação cines-
tésica, cuja "estranheza" constata - pelo que a vivência ·s upera a
descrição. Exemplo tanto mais simbólico porquanto exprime essa
"investida" do sujeito pelo Outro - do qual está, num dado mo-
mento, ''possuído'' -que Wittgenstein não pode nem quer abordar
com sua linguagem própria, analítica.
A identificação, ao contrário da "imitação", subentende, com
efeito, a instauração de uma relação em que o sujeito e o seu Outro
se tornam, com base num "traço único" (einzige Zug),
indiscerníveisn. E é isso o que, para Wittgensrein, confere ao fenô-
meno seu caráter fascinante: como, no espaço de um momento, ele
parece confundir-se com o Outro. Surpreendendo ao vivo essa con-
fusão, Wittgenstein torna-se sensível ao "mistério" da identifica·
ção, mas não pode designá-la como tal, não por falta de perspicá-
cia, mas porque se trata visivelmente de um evento que supera o
entendimento dos jogos de linguagem. É ceno que, num sentido,
Wittgensrein brinca de andar como se fosse RusseU, mas, de fato,
essa "captação" emana de uma instância que, para ele, é desprovi-
da de status, o do sujeito inconsciente - que se revela "obstruí-
do" pela imago do Outro. Poderíamos parafrasear agora o que Witt-
genstein diz a propósito do sonho: o que há de interessante é que
ninguém ensinou o sujeito a identificar-se, que não se mostrou ao
interessado uma "identificação" para aprender a identificar-se. A
identificação "apossa-se" diretamente "do" Outro. É mesmo por-
que o sujeito se identifica espontaneamente - sem aprendizagem
para isso- que a identificação pode tornar -se o modelo dessa for·
ma particular de aprendizagem do seu desejo como sendo o do
Outro.
Resta saber que status pode caber ao Outro da linguagem e
do saber humanos.

203
~. As ''coisas últimas": do enigma à bruxana

Freud e Wittgenstein estiveram em posição de experimentar


. de maneira radical a questão do limite do conhecimento e da lin- .
guagem. Nada é mais revelador do que o fato de a formularem de
tal modo que lhe fornecem uma resposta sutilmente diferente.
Dessa questão última, Wittgenstein deu uma formulação ines-
quecivd no enunciado final do Tractatus: ".Aquilo de que não se
pode falar é sobre o que se deve calar" (Wó von man nicht sprechen
kann, darübermuss men schweigen} 12. Resultante de toda a con-
cepção da raciona.! idade e da questão da mística, nem por isso a fór-
mula deixa de emergir, para além da evolução da filosofia wittgens-
teiniana, como o ponto de fixação de seu pensamento, numa espé-
cie de saturação tautológica.
Ora, Freud, numa passagem de Para além do princípio de pra-
zer, estudo curiosamente contemporâneo do enunciado de Witt-
genstein, forneceu de um problema pelo menos análogo uma fór-
mula paralela. Com efeito, ele vê-se em posição de evocar "as coi-
sas últimas", os grandes problemas da ciência e da vida (die letzen
l}inge, die grossen Probleme der Wissenschaft und des Lebens)!3.
E precisamente aquilo de que "não se pode falar"- não em si, co-
mo no caso de Wittgenstein- mas porque "cada um é dominado
por preferências profundamente enraizadas no íntimo" (innerlich
tiefb~gründeten Vorlieben). ·
E bem um mesmo muro, embora se trate, na versão wiugens-
teiniana, do muro da própria linguagem, ao passo que na evoca-
ção freudiana trata-se dess~ Significado mudo que Freud convene
em "coisas últimas" e enigmas fundamentais. Por conseguinte, a
resposta de Wittgenstein será o silêncio ou, melhor, o "cal:u"
(schweigen) como ato radical, como se o locutor devesse deixar-se
"esvaziar" pelo choque com essa "coisa" que nenhuma metalin-
guagem jamais atingirá. Em Freud, o mesmo choque recambia sig-
nificativamente para o sujeito, que, sabendo-se incapaz de fazer falar
a coisa sem equívoco, deve, entretanto, continuar falando.
Assim, em Wittgcnstein, o choque que revela a ressonância
mística do reverso da linguagem impõe como dever- ético - o
silê~c~o (darüber muss men schweigen). Em Freud, uma vez que
o SUJeito tenha recebido a revelação do outro lado de sua própria
204
linguagem, ele deve integrá-la numa ética do continuar-a-pensar,
ostentando uma "calma benevolente em relação aos produtos de ·
seu próprio esforço de pensamento" (Denkbemiihung) .
Do mutismo místico wittgensteiniano ao trágico "esforço" do
pensamento freudiano, há a distância que também permite formular
uma alternativa real do destino da razão que se sabe atingida, no
mais íntimo dos seus poderes, pela limitação do pensar e do dizer.
Em suma, a escolha de racionalidade ducida-se com a dife-
rença de objetos: uma linguagem que exige tributo sobre o pensa-
mento (Wittgenstein ), um inconsciente que exige tributo sobre o
sujeito (Freud). Um e outro estão impentívamcme convocados para .
forjar um entendimento ad hoc que sustente o que, de resto, um
evoca como "tarefa" e o outro como "destino" (na medida em que
o "trágico" de seu objeto o admite). Neste último caso, deve-se fa.
zer sua religião do "Logos" e da "Anánkê", reconhecidos por Freud
como as únicas divindades tutelares de seu empreendimento.
É que, para Wittgenstein, "o enigma não existe". Com efei-
to: "Se há uma questão que pode ser apresentada de forma abso-
luta, então elapode também encontrar sua resposta.'' A referência
à proposição constitui, em si mesma, reabsorção do enigma, o qual
cai ao mesmo tempo fora do mundo e fora da linguagem.
Se Freud pode referir-se à existência de "enigmas" oa esteira .
de um ceno discurso cientista dos "enigmas do mundo", é porque
~ste "para de um momento próprio do choque do sujeito cognos-
ceme contra tais "limites". Écontra "a coisa" -e não somente contra
a linguage~- que Freud meneia a cabeça, em tais ocasiões.
· .Atitude que não podia deixar de parecer "trágica'' - portànto.
ilusória - a Wíttgenstein. Mas, justamente, Freud responde-lhe
com uma ironia específica que se adequa ao momento do enigma.
Ponamo, não seria falso dizer que, em Fceud, o momento ético
acompanha o encontro do próprio real (do enigma, como para além
do conhecimento), enquanto em Wittgenstein o momento ético
o precede: pois que é a escolha de nada pensar para além d3. Iin- ·
guagem que é, em si, recusadora do enigma. .
Éprecisamente nesse ponto que deparamos com "o místtc?"·
limite do inexprimível (Unaussprechliches). É notável que ~1tt­
genstein aborde um e outro, mas é por isso mais importante amda
assinalar-lhes a diferença tópica.
205
O Tractalus constata, em final de percurso: "Existe cenamente
o inexprimível. Este mostra-se (zeigt), é o místico." •-t Note-se que
é no mesmo sentido que "o enigma" (das Riitsel) não existe e que
há ''o místico". I
Na mesma época, Freud prefere reprochac que "se precipita
na mística'' quem sofre uma tentação que não pode ser culpada aos
olhos de um Aufkliirer, q ue confunde facilmente mística, obscu-
rantismo (Schwiirmerez) e ocultismo~>. Para Freud. para além do
saber, identificado à Wissenschaft -, não existe a mística, mas a ilu-
são, que consiste em fazer falar o inexprimível, de maneira neces-
sariamente arbitrária. Não existe mística como posição lógica (ou
seja, como a-lógica e radicalização da lógica). Só existe mística co-
mo Erleben: daí não poder designar-se um limite; o que precisa
explicar-se é um processo c um "efeito" correlativo. De resto, Freud
pergunta-se, em seus últimos escritos, como será isso possível, co-
mo pode, para um indivíduo, exigir o místico: "Assim, pode-se ima-
ginar perfeitamente que seja possível, median{e certas práticas mís-
ticas, chegar a penurbar as relações normais entre as diferentes ins-
tâncias psíquicas particulares, de modo que, por exemplo, a per-
cepção possa conceber (erfossen) relações no Ego profundo e no Id,
que de outra maneira lhe seriam inacessível." Ou. dito com a con-
cisão eficaz que não apaga o mistério do processo: "Misticismo: a
autopercepção obscura do reino, para além do Ego, do Id." l6
A rrústica evidencia ser, aos olhos de Freud, uma espécie de
"psicologia da profundidade" convertida em atos. Envolve o dese-
jo, porquanto supõe que o "id" do sujeito se mostra, não somente
ao ego, mas ao próprio id por interposição do ego! Aí temos, sem
dúvida, o "inexprimivel" que "se mostra", em conformidade com
a definição de Wittgenstein: mas essa possibilidade enraíza-se nu-
ma automostração da "coisa" que jaz no fundo da representação.
Freud, ao caracterizar o inconsciente como "representação de coi-
sa" pura e simples- ao passo que o consciente supõe a adjunção
da "representação de palavra" - a mística marcaria, ponaoco, a
escora da "representação" contra a coisa, o que é da ordem do
indizível.
Em todo caso, a nústica não leva mais em Freud do que em
Wittgenstein a uma "fusão" com uma alteridade transcendente:
é um ponto de suspensão e quase de inibição que não fornece qual-
206
quer vínculo. No máximo, um "bosquejo" e o sentimento de um
limite (que pode transformar-se em fruição). Diante da "oceâni-
ca" à maneira de Romain Rolland, Freud mantém-se literalmente
insensível. Quamo a Wittgenstein, se era propenso a certa "reli-
giosidade", esta nunca é mais do que o horizonte do mundo.

Freud e Wingenstein encaram, porcamo, o problema do li-


mite do conhecimento como o da ciência. Mas eles avaliam-no de
maneiras notavelmente distintas.
Os Cadernos constatam: "A tendência para a Míscica proma-
na de que a ciência deixa os nossos desejos insatisfeitos. Sentimos
que, mesmo depois que todas as questões científicas possíveis esti-
vessem resolvidas, o nosso problema ainda não teria sido aborda-
do."11 A conclusão de O futuro de uma ilusão entende-o de outro
modo: "Procurou-se, enfim, desacreditar radicalmente a ciência di-
zendo que, vinculada às próprias condições da nossa organização,
da só pode nos dar resultados subjetivos, enquanto a verdadeira na-
tureza das coisas fora de nós permanece-lhe inacessível... Não, a nossa
ciência não é uma ilusão. Mas seria ilusório acreditar que podería-
mos encontrar alhures o que ela não nos pode dar." 18
Wittgenstein constatava, em conseqüência: "A bem dizer, não
haveria então mais perguntas, e é isso o que constitui a resposta." I?
Freud, pelo contrário, deposita sua esperança na "aproximação" su-
cessiva que permite contar, pelo menos, com "um núcleo de conhe-
cimentos assegurados e quase imutáveis". lO De um lado, portan-
to, um resíduo da ciência no lugar deixado vago pelas questões pa-
ra o problema continua sendo o mais valioso. Do outro, um resto
que precisa ser trabalhado.
Em suma, existe para Wittgensrein um outro lugar da ciên-
cia- nada de transcendência, mas "outra cena" que ele delimi-
tou com uma circunspeção particular ao longo de sua evolução. Pa-
ra Freud somos obstinadamente reconduzidos à ciência como me-
dida de ~ossa finitude e forma de nossa "~ondição": a suprema ilusão
seria "encontrar alhures" o que a ciência não pode dar.
. O que é não menos revelador é que essa atitude diferençada
em relação à instância do enigma faz -se acompanhar de uma pos-
tura intelectual correlativa a respeito do que se poderia chamar a
"instância da bruxa".
207
Freud reconhece explicitamente a necessidade, nesse momento
em que o "material" não fala mais e o entendimento colide com
esse limite, de " recorrer à ajuda da bruxa" 21 , para voltar a experi-
mentar, logo depois, que os oráculos dessa bruxa metapsicológica
não são, afmal, "nem muito claros nem muito detalhados". De resto,
essa "fantasmatização" não passa, para Wittgenstein, de "pseudo-
explicação fantástica" zz.
Diante disso, Wittgenstein brada: "A nossa divisa poderia ser:
'Não nos deixemos enfeitiçar.' "23 É essencial conservar para o ter-
1110 aqui empregado a sua conotação demoníaca (behexen signifi-
caliteralmente deixar-se enganare seduzir pela feiticeira, Hexe, se-
jam quais forem seus prestígios).
É verdade que, sobre este úlcimo programa, Freud e W ingens-
tein , enamorados dos poderes da razão, poderiam facilmente che-
gar a acordo: manter a autonomia do pensamento em face de sua
possível "ocultação". Mas subsiste o fato de que Wittgenstein apre-
senta esse ''desenfeitiçam ema'' do pensamento (radicalizando o de-
sencanto do mundo em curso depois do Aufklarung, da filosofia
das luzes)como uma "divisa" (Motto), como o que deve impulsio-
nar codo o uso do entendimento: ou seja., em primeiro lugar, para
vencer a bruxa, aprender :1 conhecê-la. Freud parece admidr, mui-
to mais do que como uma flor de retórica, a necessidade de um mo-
mento de "enfeitiçamemo", pelo qual o entendimento, longe de
ser siderado ou "detraído", pode reativar sua dinâmica.
Quem é, pois, a feiticeira wittgensteiniana? Na verdade, tra-
ra-sc mais do enfeitiçamento como fenômeno do que dafeiticejra.
As Investigações filosóficas dão-nos sua fó rmula através de uma de-
finição de filosofia: ''A filosofia é um combate contra o enfeitiça-
menta (VerheXIIng) do nosso entendimento por intermédio da nossa
língua."24 Não se conclua daí que a língua é a feiticeira, pois seria
então necessário postular a pureza au tãrcica de um entendimento
que seria por ela corrompida. Nem todo o enfeitiçamento supõe
a crença em bruxas, pois é o que se joga no limiar do entendimento
e da linguagem que é aí determinante. Isso tem conseqüências so-
bre o ''exorcismo'', que incide muito menos sobre os demônios ine-
rentes à linguagem humana do que sobre um entendimento que
desconheceo sentido da língua ou, melhor, um indivíduo pensante -
e falante q ue não controla seus poderes nem sua repartição.
20H
~
1
CA.PJTL '1.0

Ética, inconsciente e linguagem

1. Do agnosticismo à ética

Fato extraordinário: Freud e Wittgensteín põem-se de acor-


do para situar a ética do lado de um ponto zero de problematiza-
ção: "Se eu só pudesse explicar a outrem a essência do que é a ética
por intermédio de uma teoria, o que é a ética não teria valor de es-
pécie nenhuma", diz Wittgenstein a Waismann 2 ~ . É o "evidente
por si mesmo" (selbstverstiindlich), diz Freud a Putnam26: o que
implica que não há por que formular uma "teoria". A ética não é
para fazer compreender, ela já está sempre presente, incide sobre
os nossos sentidos.
Entretanto, à constatação de que nenhum "problema ético
ou moral autêntico" é localizado nos "livros que tratam da éti-
ca"z7, Wittgenstein reage com uma reflexão sobre o enunciado éti-
co e o problema ético. A constatação de que "a pura descrição dos .
fatos nada contém a que possamos chamar uma proposição ética"
suscita uma investigação sobre a especificidade dessa proposição..
Em Freud tem-se mais a impressão de que a referência à Selbstvers-
tiindlichkeit da ética tem por objetivo encerrar o problema. Aliás,
não se encontra nela qualquer "Conferência sobre a ética".
Éque Wittgenstein esbarra com a especificida~e da ética a par-
tir da linguagem: nio se trata, por ceno, de um sr~ples fo~a-de­
Jinguagem- como "o místico"-, mas de um restduo do Julga-
209
mento de constataç.âo que impõe uma espécie de "ressaca" lingüís-
tica. Em Freud, a ética designa algo como uma fatualidade que po-
deria muito bem ser alei. Além disso, onde a ética manda, em Witt-
gensrein, "entrar em cena como pessoa e dizer eu" 2s, estando ex-
posta na conduta individual, Freud menciona também que é uma
"espécie de ordem de marcha pará uso das transações dos homens
entre si"2!1: sinal de que num a ética obriga a questionar o sujeito
do julgamento ético, ao passo que noutro se notifica uma "ordem"
na qual o sujeito é apanhado numa antecedência irrecusávd.
Mas o efeito comum dessa abordagem da ética é a imPossibi-
lidade de um livro da ética. Como Wittgenstein o diz de forma elo-
qüence: ''Se um homem pudesse escrever um livro sobre a ética que
fosse realmente um livro sobre a ética, esse livro, como uma explo-
são, aniquilaria todos os outros livros do mundo."3o Bela fórmula
que inscreve um pungente pesar pelo malogro da constatação de-
finitiva desse impossível: é porque não existe livro possível sobre a
ética que não há mais nenhuma possibilidade de livro (propriamente
dito). É à margem desse livro impossível que se inscrevem, talvez,
os escritos de Wittgenstein, desde o Tractatus, que é a paródia mais
direta àquele, até às bem intituladas Investigações filosóficas [Phi-
losophúche Unlersuchungen], que lhe elaboram as pompas
fúnebres.
Em Freud, paradoxalmente, é porque não existe livro de éti-
ca que pode emergir para ele mesmo esse texto do inconsciente que
gravita em torno dessa relação com alei e o interdito. Pode declarar
com toda a sinceridade: "Não me quebro a cabeça a respeito do bem
.e do ma1 " 31 , uma vez que a relação com a lei e com certo bem im-
põe-se como pressuposto de sua experiência analítica. Em outras
palavras: "Se alguém sustentasse o paradoxo de que o homem nor-
mal não é somente muito mais imoral do que o crê, mas também
muito mais moral do que supõe, a psicanálise, em cujas descober-
tas se baseia a p rimeira parte de tal afirmação, tampouco teria na-
da a objetar contra a sua segunda metade."32 Thl é a relação, irôni-
. camas consistente, com a lei que a psicanálise credencia. Pode ser
~ue o s_inroma seja a ratio cogn oscendi da lei para o sujeito
mconsoeme.
Wittgenstein, por seu lado, formula a questão do ponto de
apoio ético da cura analítica com clareza: "Fazer·se analisar é um
210
pouco como se comesse da árvore do conhecimento. O saber assim
adquirido apresenta-nos problemas éticos (novos): mas não ofere-
ce nenhuma contribuição para a sua resolução." H
A formulação é até, num sentido, bastante clara: Wittgen-
stein recorda, à sua maneira, que a psicanálise como processo de co-
nhecimento deixa virgem a problemática ética. Isso equivale a di-
zer que a psicanálise pode "fazer o bem", sem "resolver" a questão
do Bem. Nesse aspecro. ela é inútil.
Mas, acrescenta Wittgensrein, para ir aonde? Não só inexiste
poderia passar por um lugar-comum, encampado, de resto, por
Freud ao rejeitar toda a "salvação das almas" pela psicanálise. Em
primeiro lugar, é significativo que, ao referir-se à função de conhe·
cimento atribuída à psicanálise, Wittgenstein recorre a uma metá·
fora bíblica: não se trata simplesmente da aquisição de um "adi-
cional" de conhecimemo, mas de "comer da árvore do conhecimen-
ro". "Consumação" que indica, ao mesmo tempo, que se trata de
um conhecimento vital e que pressupõe a transgressão de um in-
terdito- mesmo "secularizado''. Fazer-se psicanalisar" supõe, por-
tanto, passar por essa prova- como o diz a expressão ulterior, "passar
pela análise".
Mas, acrescenta Wittgenstein, para ir 110nrle? Não só inexiste
um para além da análise, de natureza ética, mas a interrogação éti-
ca vê-se aguçada: o conhecimento analítico assim " ingerido" é ge-
rador de "novos problemas" (neue ethische Probleme). Na medi-
da em que ele em nada contribui para a resolução (Lõsung) desses
problemas - o que Freud admite de bom grado---, cabe descon-
fiar e deplorar que recrudesça a penúria relativa à ética. Compreen-
de-se ainda melhor, à luz dessa "queda", a conotação bíblica do iní-
cio do comentário.
Wittgenstein assinala muito bem, portanto, do que se trata:
que o "conhecimento analítico'' põe a nu o problema ético- por-
que lhe aumenta a urgência e, ao mesmo tempo, porque não o faz
progredir um milímetro. Se, por um lado, aos olhos de Wittgen-
stein, é um problema - poder-se-ia perceber um certo pesar nessa
abstinência ética da psicanálise - também é um desafio: talvez o
problema ético fosse sensível, em sua árida, até desesperadora nu-
dez, somente para aquele que saboreou o fruto da árvore do saber
freudiano. Mas talvez seja essa, justamente, a aresta mais viva da
211
ética que a psicanálise trouxe para a luz, de um modo tão negativo
quanto realista, determinando aí um fosso profundo que só con-
corre para avivá-la.
Cabe suspeitar de que esteja aí o vivo do sujeito- em sua rea-
lidade ética.
É precisamente aí que se poderia situar a questão witrgens-
teiniana de um certo "espiritual" que faltaria na psicanálise, a qual
permanece bloqueada na relação da "satisfação" com o seu " im-
pedimento". Mas "esse mais" deveria justamente ser procurado e
"saboreado" aquém ou além da lei. Ora, isso supõe, de certo mo-
do, uma recusa simbólica da herança paterna - destituição de um
"patrimônio" que Wiugenstein, como se sabe, aplicou à letra. Reen-
contramos aí, por intermédio da desconsuuçâo teórica, o que era
dado a entender nos sonhos de Wittgenstein (supra, pp. 105-108).

2. O status do simbólico:
crença, culpabilidade e ordem paterna

Chegamos assim ao problema da culpabilidade. Na famosa


Conferência sobre a ética34, onde ele caracteriza a ética como "a in-
vestigação do sentido de vida, ou do que a torna digna de ser vivi-
da, ou da maneira correta de viver"3~, o "sentimento de culpabi-
lidade" é incroduzido como uma das "experiências" pelas quais "os
traços característicos" da ética são, de algum modo, exibíveis36.
Assinale-se de imediato que a culpabilidade está desligada de uma
substância ética que ela manifestaria: ela é apenas uma das "expe-
riências" valorizadoras que permitem literalmente "fotografar" o
ethos.
Essa "experiência" relaciona-se com uma alteridade: é por is-
so que ela se deixa descrever "pela frase segundo a qual Deus re-
prova a nossa conduta". Ora, segundo Wittgensteín, o que aí exis-
te, precisamente, nada mais é do que a acoplagem de uma "expe-
riência" - num lugar e momento dados - e de um fraseado, o
que rransforma esse evento num absoluto (num "dizer"). Aí se no-
tifi~a_u~ po_nto de suspensão e de reforço da descrição, cujo papel
deciSivo Já VImos no entendimento wittgensteiniano: "Nenhuma
descrição que eu pudesse conceber conseguiria descre,-ero que de-
2 12
signo. em meu espírito, por valor absoluto''; e melhor: "Eu rejeita-
ria ab initio qualquer descrição portadora de sentido que me pu-
desse ser sugerida em razão do fato de ser significante: em outras
palavras, referimo-nos a expressões cuja 'essência consiste em não
ter nenhum sentido'."}; Ora, essa resistência cega não é outra senão
a da linguagem: é um "para além do mundo". Escrever ou falar so-
bre a ética ou a religião resume-se, nesse sentido, a "enfrentar os
limites da linguagem', o que equivale a "bater de frente contra as
paredes de nossa gaiola" 38.
Eis-nos no cerne da questão ética e do que se articula enue
a instância do pai e a da linguagem.
O que falta, com efeito, nesse esquema é, para nos expressar-
mos nos termos de Witrgenstein, o do que ligaria a "experiência"
de culpabilidade à "frase" que a "comenta". É precisamente para
isso que serve o referente paterno no inconsciente: de permite li-
gar a experiência edipiana ao que, para além da angústia do real,
permite apontar a culpabilidade>'>. É o que, ao mesmo tempo, per-
mite explicar essa tendência para a "absolutizaçâo" de uma expe-
riência que a linguagem traduz.
É justamente isso o que Wittgenstein se recusa a levar em conta,
sendo essa a razão pela qual ele interpreta a ética através dessa a po-
ria da experiência e da linguagem. O imediatismo da "vida" - pane
diretamente envolvida em sua definição·eudemônica da ética -
ocupa assim o lugar da lei. Temos aí algo de sumamente sintomáti-
co de sua atitude em relação ao dizer psicanalítico.
Isso não impede que a sua concepção da ética seja uma notá-
vel fenomenologia dessa aporia que a referência à lei paterna nem
por tal razão encerra. Wiugenstein sublinha bem , na conclusão de
sua Conferência, que a ética "nada acrescenta ao nosso saber, em
nenhum sentido''4o. A lei de que a psicanálise identifica a função
distingue-se de ser esse "saber" muito particular que nada acres-
centa ao saber do objeto, mas coloca um ferrolho simbólico que
aponta para a alteridade. Em contraste, Wittgenstein não pode dei-
xar de limitar-se à ipseidade do sujeito falante, ligando-a a "uma
ten.d ênda que existe no espírito do homem". Essa "tendência" é
de tal monta, porém, que suscitao respeito (sintoma da lei), "ten-
dência que, quanto a núm, não posso deixar de respeitar e não po~
der ia converter em motivo de zombaria". O "sagrado" figura aqUI
213
com? inclinação ind~ctível do sujeito para apegar-se ao que é tão
prectoso quanto sua vtela. Mas, outrossim - é outra maneira de dizer
- ,a l~í (paterna) não é a mediação obrigatória da vida, muito me-
nos amda a fiadora de um "desejo".
O problema da crença não se reduz, portanto, ao tête-à-lête
de~~ sujeit? e de um o~jeto, de um sujeito e de uma "represen-
taçao de obJeto: na medtda em que se desenvolve no elemento da
linguagem, remete necessariamente para a mediação do Ouu:o.
. Wittgenstein exprime-o, aliás, com muita simplicidade quan-
do dtz, em seu trabaJho Da certeza: "A criança aprende crendo no
adul~o. A dúvida vem após a crença."4t É dessa antecedência dosa-
ber d~ Outro qu~ procede e~a implicação da questão da crença na
relaçao com o Pat, tanto ma1s que esse problema da antecedência
si~bóJica é de natureza lógica. É que o sujeito só crê (em alguma
cotsa) em nome do Outro. ·
0>mpreende-se que, pondo-se na pele do "duvidad.or", Witt-
gen.stetn ~ora-se no contestador da "crença analítica" - que po-
de:ta ~utto bem ser o caminho real para se formular a questão do
propno ser da crença, num lugar onde ela se mostra indissociavel-
mente lógica e ética.
. Digamo-Io.nos termos da problemática freudiana. Wittgen-
stem _apanha a ~tança no momento em que ela institui sua própria
reJaçao com a lmguagem. Ora, essa linguagem está fundamental-
m~nte empenhada numa relação com o Pai, em decorrência do pró-
~no valor estrut~rador da re~a~ão edipiana. Apresenta-se a ques-
tao de saber se a linguagem ediptana não se tomou, com efeito, "uní·
voc_.a" pelo fat? de possuir um "referencial" que é, por definição,
umvoco, ou seJa,pt~lerno - o qual comanda, ele próprio, uma re-
lação unívoca com o desejo.
Tudo o~~rre c~mo se, por sua crítica, Wittgenstein quisesse
separar a especte de hnguagem de que a criança é o usuário-jogador
dessa "indexação~' da linguagem ao Pai (ver supr11, pp. 176-178):
Por con~e~Ulte, apresenta-se a questão de saber se a lingull-
gem de reforencra paterna é redutível a uma lógica dos jogos de lin-
g~agem. Fr~ud, porseu.lado, identificou muito bem asfigurasdí-
ntcas desse Jogo com a hnguagem do desejo indexado à referência
pa t~rna, morm~nte na dialética çbsessiva. E é verdade que é possí-
vel;ogarcom a hQguagem do Pai. Outra questão é saber se essa mes-
214
ma linguagem pode ser considerada um jogo como qualquer ou-
tro. É com essa idéia que, com efeito, Wittgenstein "joga", visto que
recusa conceder privilégios a esse "jogo de linguagem" particular
que a psicanálise institui. Tocamos aí, sem dúvida, na questão do
"lance" proposto por sua crítica, animada pelo tema (deveríamos
dizer, a esperança?) de que a linguagem do Pai é, com efeito, um
jogo entre outros. O "sujeito desejoso'' pensa de outra maneira: para
de, é tão pouco um jogo entre outros, a acreditar em Freud, que
empenha :a1 todo o seu ser e desvia, por assim dizer, todos os de-
mais jogos de linguagem. Admitamos até que isso depende da "mi-
tologia"; nesse caso, devemos pensar que o sujúto é para si 11 sua
própria mitologia e que isso desorganiza - de uma vez por todas
- a repartição de seus jog~s de lin~agem.
Isso dá-nos acesso ao problema religioso, que Freud equacio-
nou sempre como o da relação do pai com Deus.
Desse ponto de vista, um dos primeiros pensamentos dos Ca-
dernos relativos a Deus adquire todo o seu significado: "Podemos
dar o nome de Deus ao sentido da vida, ou seja, ao sentido do mun-
do. E associar-lhe a metáfora de um Deus pai:'4l Portanto, Witt-
genstein parte da vida, dos Cadernos, para a Conferência sobre a
ética: a paternidade inscreve-se como metáfora ético-religiosa. Se-
ríamos tentados a dizer, a ftm de acentuar a tensão com Freud, que
este é levado pelo prõpóo movimento da experiência do inconscien-
te. a fazer do Outro paterno muito mais o mediador do sujeito pa-
ra a sua vida e o seu desejo.
Com Freud, a "lei" é constitutiva do ser desejoso; com Witt-
genstein, a "lei" inscreve-se como simples metáfora sem afetar a "vi-
da". Corrdativamente. ao passo que, no inconsciente freudiano, a
linguagem vale como lei para o desejo do sujei co, em Wictgenstein
a linguagem resolve-se em "jogos" cujo efeito- ou talvez a finali-
dade- consiste em fazer a economia de uma lei constituinte.
Se é verdade que Wittgenstein combate doravante, nesse sen-
tido, todas as formas de um "augustinismo lingüístico'', emão é lí-
cito pensar que o que de visa, através de Freud, é a idéia de um ver-
bttm mentis que se uniria a uma fala plena - o tempo de compreen-
der que ele é, de algum modo, falado por essa fala. O próprio fato
de acentuar os jogos de linguagem resulta em desfazer essa proxi-
midade da fala e do sentido. Cabe pensar, portanto, que na crítica
2 15
de Wittgenstein da teoria freudiana do inconscieme, é uma forma
larvada desse modelo agostiniano que eJe reencontra: tanto no so-
nho quanto no sintoma, estaria oculta a dictio mentú referida ao
desejo. Mas esta só poderia aderir ao seu sentido próprio, à sua Be-
deutung, mediante referência a esse Outro qu e mede a fala por seu
padrão, ou seja, a figura do Pai. É essa lógica que repugna a Wiu-
genstein, outra maneira de dizer que ele lhe é hipersensível ao pomo
de lhe consagrar talvez, a contrario, o conjunto de seu pensamento.
Assim se pode compreender, corrdativamente, por que Wi u -
genstein está em condições de reinquirir a questão do objeto do de-
sejo (d. supra, p. 173), a qual foi rcdescobena aquém da proble-
. mática simbóLica (edipiana-paterna) e ex:perimen tada como seu as-
pecto irredutível. É aí, com certeza, que se deveria reimerrogar o
fascínio pela temática da pureza fática, sobre a qual depõe com tanta
nitidez o inconsciente do sujeito Wittgenstein (supra, p. 108).

3. Do niilismo terapêutico (Wittgenstein)


ao imperativo freudiano

O indiferentismo deliberado ao discurso ético, cruzado com


uma implicação determinante na "coisa ética", encaminha-nos para
a complexidade do problema final: "Que fazer? " ou melhor: que
"fazer" abre a problemática ética?
Na verdade, não se pode fazer coisa melhor do que detalhar
a matéria ética de algum modo, a fim de delimitar o espaço do jo-
go que ela possibilita.
A ética tem, para Wittgenstein, estreita ligação coni a lingua-
gem. ''Enfrentar os limites da linguagem, eis o que é a ética", disse
ele a Waismann em 192943.
É preciso entender essa idéia em dois sentidos. Por uma par-
te, ela põe fim a "toda a tagarelice sobre a ética" - programa que,
sem dúvida, Freud subscreveria inteiramente. Devemos compreen-
der que é impossível dizer a respeito das questões éticas: "Tenta-se
sempre dizer algo que não atinge a ess~ncia do que está em ques-
tão nem pode atingi-la." Por um caminho diferente do de Freud,
Wittgenstein viria, pois, a colocar a ética na ordem de uma espécie
de "fatualidade" que o homem sempre encontraria diante de si.
216
Mas, por outro lado, há o próprio movimento que consiste em
"enfrentar" essas limitações. Ora, "a tendência, o enfrenramenro,
indica alguma coisa"! Em outras palavras, isso não é nada, e é af que .
reside a ética. Se houvesse apenas o para além da linguagem, so-
mente existi ria uma posição mística possível (no sentido conven -
cional). Mas há o próprio enfn:ncamcmo dos limites da linguagem
- o que ratifica uma posição ética.
Não se pode ignorar que essa frase de Wittgcnscein é literal-
mente calcada na bela conftssão de Kraus: "Estou muitas vezes perto
da muralha da linhagem e não percebo mais do que seu eco. Bato
fn:qücncemente com a cabeça contra a muralha da linguagem ... Se
não consigo ir mais longe, é porque esbarrei na muralha da lingua-
gem. Então eu me retiro, a cabeça em sangue. E gostaria de ir mais
Ionge."44 Ao ler essa confissão, Wittgenstein deve ter reconhecido
logo algo de essencial do seu próprio movimento, nesse sentido ético..
Talvez ele não tenha feito outra coisa, em sua obra, senão bater com.
a cabeça comra a linguagem: é apropriadamente ético o ''preço do
sangue" a pagar por esse choque.
Mas o corpo-a-corpo de Witcgenstein com o pensamento de
Freud é revelador do seu próprio projeto. Dá à passagem, em suas
Preleções sobre estética ( 1938), uma característica preciosa: "Tudo
· quamo estamos fazendo é mudar o estilo de pensar; tudo quanto
esrou fazendo é mudar o estilo de pensar; tudo quanto estou fa-
zendo é persuadir as pessoas a mudarem seu estilo de pensar." 4 5
Nesse programa, a psicanálise está duplamente envolvida. Por
uma parte, ela mesma pretende ser uma ral revolução no "estilo de
pensar": e fui precisamente isso o que deve ter impressionado Witt-
genstein na leitura de Freud. Éo que faz com que haja alguém que
tem algo a dizer, que obriga a pensar de outra maneira (e não que
acrescenta algum complemenro ao saber existente). Belo desafio
para Wíttgenstein, que vai ter de se defrontar com essa tentativa,
cujo dilema é ter de mostrar que ela não é bastante "imensa" do
ponto de vista que lhe importa: ou seja, uma mudança radical do
'.'estilo de pensar" por uma crítica da linguagem .
. Mas, por outro lado, ele mesmo expõe o seu projeto como es-
forço para "persuadir as pessoas a mudarem seu estilo de pensar".
Portanto, cabe indagar o statuJ dos destinatãrios de tal programa:
cumpre perguntar, ao mesmo tempo, por que eles deveriam estar
2 17
propensos a aceitá-lo ou a resistir-lhe. Witcgenstein parece justa-
mente ver na inclinação para aceitar a explicação analítica- se bem
que negada por Freud em proveito da resistência -um sinal de que
esse modo de pensar é atraente demais para ser realmente novo e
subversivo. Quanto ao projeto de Wittgcnsteín. precisamente por-
que não é "explicativo", pretende descrever o que nele se insere da
prática da "linguagem das pessoas", mas até mesmo isso impõe uma
"reforma do entendimento".
Atingimos aí um dos pontos onde se distinguem os projetos
de Freud e de W ittgenstcin.
Se Wittgenstein se institui "terapeuta" no Tractatus, ele tam-
bém afirma, a panir desse momento e cada vez mais, que "a lin-
guagem deve falar por si mesma" 4G e que "a lógica deve cu~?~~ ~e
si mesma"47. Sua posição não está longe, portanto, de um nuhs-
mo cerapêutico"4s. Seu projeto antropológico - a linguagem -
não poderia, com efeito, ser curado, assim como não se trata de "cu-
rar" o homem da linguagem - já que esta é, em si mesma, a sua
própria terapêutica.
Mas a arte suprema consiste em não ouvir e não afirmar nada
além do que a linguagem diz: isso mesmo é uma "higiene" singu-
lar. É por esse m<?tivo que o "niilismo terapêutico" p~de ser, em
contraste com sua própria natureza, um poderoso esumulante: o
que indica, aliás, a temática "vital" da evocação da linguagem (co-
mo Lebensform). Isso pode ser conciliado mediante a formulação
de um terceiro projeto, entre essas duas posições (niilista e român-
tica): uma verdadeira "clínica da linguagem", de modo que o su-
jeito - como " limite" ou "usuário" - possa ressituar-se nela.
É assim que se deve compreender a alusão das ln'Pestigações
filosóficaJ: "Queremos estabelecer uma ordem no nosso conheci-
mento do uso da linguagem: uma ordem para uma finalidade de-
terminada; uma ordem dentre as muitas possíveis; não a ordem.
Com esta finalidade, salientaremos constantemente diferenças que
nossas formas habituais de linguagem facilmente não deixam per-
ceber. Isso poderia dar a aparência de que considerássemos com~ .
nossa tarefa reformar a linguagem. Uma tal reforma para determi-
nadas finalidades práticas, o aperfeiçoamento da nossa terminolo·
gia para evitar mal-entendidos no uso prático, é bem possível. Mas
esses não são os casos com que temos algo a ver. As confusões com
21H
as quais nos ocupamos ~ascem quando a linguagem·, por assim di-
zer, caminha no vazio, não quando trabalha."49 Assim, não existe,
nesse sentido, projeto "reformador" ou "terapêutico". Se se pode
falar de "niilismo terapêutico". é na medida em que é ceno "regi-
me em vazio" da linguagem que a análise da linguagem trata. Co-
mo se, quando a linguagem "trabalhava" como linguagem comum,
ela fosse " infaüvel"; mas essa "infalibilidade" provém unicamen-
te de que o uso funciona como regulador.
Isso significa que a análise dos "jogos de linguagem" não se
prevalece de nenhuma esperanç.a de "regulamentação futura da lin-
guagem"jo, nem tampouco de um refinamento ou de um aperfei-
çoamento do "sistema de regras para o emprego de nossas pala-
vras" H. Trata-se apenas de "distinguir" e de comparar. Nisso,
Wittgenstein adere à sua maneira ao programa fundamental da ra-
cionalidade freudiana, centrado no termo duplo de Scheídung (se-
paração) e de Gliederung (articulação): mas é sobre a linguagem
que ele se exerce. São os jogos de linguagem como ''objetos de com-
paração'' que permitem a plena reforma do entendimento da lin-
guagem. justamente ao anular toda e qualquer ilusão de
••normarivismo".
Existe em Freud um Sollen que confere sua articulação estru-
tural ao famoso "Wo Es war sol/ Ich werden" [Onde era Id será
Ego)52_ Não se uata, como em Wittgenstein, de um Sapere aude:
''Peçam e exijam que se faça luz!"H É uma reorganização da rela-
ção do.sujeito com o objeto de seu desejo e com o interdito, c de
suas próprias modalidades correlativas de idealização.
É esse sujeito do ideal que Freud se empenhou em pensar a
partir desse importante fato que foi a introdução do narcisismo, ver-
dadeiro sismo metapsicológico54. Se lembramos que "a formação
do ideal" é, "do lado do ego, a condição do recalcamento" 55,
entende-se que Wittgenstein não pudesse reconhecer-lhe um sta-
tus conceitual apropriado.
É nas tensões do Ich e do Ichideal [do ego e do ideal do ego]
que se alimenta uma dialética da representação do Eu que consti-
tui o âmago da experiência. Na medida em que instância ideal-
egóica funciona como o ersatz do narcisismo primitivo, ela propõe-
se ao ego tanto como instrumento de avaliação quanto como vetor
do objeto narcísico originário~6. Tal é o Gewissen que ele "obser-
2 19
va incessantemente o ego-realidade e o afere pelo ideal" H - o que
ilustra a "vergonha", esse sentimento de autovacilação narcísica.
Éapenas mais significativo que Wittgenstein, preocupado com
a "vergonha", esse afeto de culpabilidade nardsica, voJ~e a colidir
incessantemente com da: "Ter vergonha de um pensamento. Aquilo
de que se tem vergonha é de se dizer a si mesmo, em sua represen-
tação, tal ou qual proposição?")s Como se vê, a questão é transpos-
ta para o plano do enunciado de auto-representação. O registro da
idealidade vê-se, pois, reduzido a certo regime pelo qual o sujeito
endereça a si mesma cena "proposição". lfata-se apenas de saber como
isso se diz e se representa, que eco isso encontra no locutor-pensador.
À relação de estorvo do sujeito com o seu desejo e seus modos
de idealização opõe-se a sua relação de estorvo com a sua lingua-
gem e seus modos de representação. Aqui e ali, uma espécie de "con·
versão" é muito necessária: mas ao passo que, no primeiro caso, tra-
ta-se de se reposicionar em relação ao Outro- o que nos reíntro-
duz na referência paterna)9 - no segundo trata-se apenas de rea-
bilitar a sua linguagem. Onde a minha linguagem me falava, eu
devo suceder. Tal seria a paráfrase wittgensteiníana do imperativo
freudiano.

220
CAPÍ Tl !lO 3

Destinos da Kultur

É, de certo modo, por um último "ressalto" que a dupla "ana-


lítica'' encontra a questão da K uftur. Esta desenvolve-se sob a cate-
goria do "mal-estar": o termo freudiano, tão pertinente para o que
está em causa (Unbehagen)6o, remete igualmente para uma con-
dição que Wittgenstein companilha, a comemporaneidade- pelo
menos parcial - que se faz acompanhar de um enraizamento cul-
tural predso. É esse duplo elemento que manda abordara questão
daKultur, tanto em Freud quanto em Wittgenscein, por uma con-
testação da categoria de "progresso''. É, além disso, o que abre a ques-
tão dos destinos da Kultur e o horizonte da (pós-)modernidade.
Em Freud e em Wirtgenstein, a Ku/tur remete para a ques-
tão do ordenamento, que se deve entender como ordem que regu-
lamenta as relações inter-humanas.
O eco das definições é eloqüente. Para o au tor de O mal-estar
na cit~ilizayão, a essência (U*sen) da civilização, para além da "so-
ma total de ações e instituições., (úistungen und Einrichtrmgen)M
assenta na "proteção do homem contra a natureza e na regulamen-
tação das relações dos homens entre si" (Regelung der Beziehrm-
gen der Menschen tmtereinander). Para o autor de Remarques mê-
lées, "a civilização é uma observância (Ordensrege/). Ou, pelo me-
nos, pressupõe uma observância"6l,
22 1
1. Do antiprogresso ao mal-estar uà civilização:
o "nestroyísmo" de Freud e Wittgemtein

Pode-se destac:u um detalhe revelador dessa participação de


Freud e de Wittgenstein num universo comum de discurso. Witt-
genstein escolheu para epígrafe de suas três sérias Investigações
filosóficas6J uma fórmula do autor vienense de vaudevtlles. Nes-
troy - "Em geral. o progresso parecer ser maior do que realmente
é" - pela qual Freud mostrou ter especial apreço. ao ponto de a
citar em plena exposição psicanalítica. Assim, Freud, em A ques-
tão da análise leiga, disse estar propenso a dar razão ao veredicto
(A uspruch) pessimista do grande satírico vienense Nestroy: "Todo
progresso nunca tem mais da metade das dimensões que parece ter
no infcio" (Et'n jeder Fortschrittis immernurhaib so gross ais er zuerst
ausschaut)64.
Por muito pouco que se leve essa fórmula ao pé da letra - sem
deixar de conservar sua ressonância nestroyiana a tomar cum grano
salis---. era perfeitamente admissível que Freud e Wiugenstein com-
partissem profundamente essa atitude de desafio cético em face de
toda a pretensão a produzir um significado de modo univocamen-
te "positivo". De fato, a visão do mundo de Wittgenstein, assim
como a Weltamchauung psicanalítica, estão basicamente opostas
a um hino ingênuo ao Progresso.
Caberia então situar o adágio nestroyiano, a que Freud e Witt-
genstein reagem, cada um à sua maneira, em relação a uma inda-
gação fundamental da Filosofia da História claramente articulada
por .Kant: "Estará a espécie humana em progresso constante no sen-
tido do melhor?"6> Ao que ele indicava três respostas possíveis:
"terrorista" - "o gênero humano encontra-se em perpétua regres-
siio''; ''eudemonista" - "está em constante progressiio em relação
ao seu destino moral" - e "abderita" - "permanece em estag-
nação e fica eternamente no grau atual do seu valor moral entre os
diversos membros da criação (estagnação que sê confunde com a
eterna rotação circular em torno de um mesmo ponto)".
A essas três possibilidades acrescenta-se a resposta nestroyia-
na, com cujo humor Freud e Wittgenstein simpatizam espontanea-
mente: poderíamos defini-la como dando as costas à eventualida-
de "terrorista", mas s~spendendo-se algures entre um semi-eu-
222
demonismo e um semi-abdericismo- conforme se enfatize a se-
mi-realização do progresso reduzido ou a semidecepção de sua rea-
lização. Portanto, seria necessário retomar sempre o seu únpeto para
dar corpo ao princípio do progresso, para voltar sempre a "chocar
de frente" contra o muro do "abdericismo". Filosofia adaptada à
realidade idiossincrásica da humanidade. O humor consiste no fa-
to de que se deve proceder. entretanto, como se um progresso de-
vesse ser possível - condicional e imperativo ao mesmo tempo - ,
mas com a certeza da predestinação para uma estagnação relativa.
Mas é aí que se pode assinalar uma diferença que, a partir de
uma "nuança", poderia muito bem ser reveladora de uma dissen-
são determinante entre Freud e Wittgenstein.
Em Freud. permanece viva a determinação do Sapere aude,
do Aufkliirerque deve basear sua ação no preconceito favorável ao
avanço da verdade, para não ter de reexperimentar incessantemente
a miséria de sua realização: ''Viram alguma vez os homens fazerem
outra coisa senão confundir e desfigurar (verwirren und verze"en)
tudo o que lhes cai nas mãos?" G6
Em Wittgenstein, parece que se está de antemão liberto da
própria ilusão do desejo de progresso. Há algo de "nülismó' -ainda
que sereno e confiante na própria força de seu objeto, a linguagem
humana - que faz com que o componente "abderítico" seja mais
acentuado, ao ponto de redundar numa forma de "quietismo" -
que Freud só reencontra após um desvio marcado pela busca de um
progresso. Isso não quer dizer q ue em Wittgenstein inexista qual-
quer "avanço": mas este, como se viu, consiste em experimentar por
que era inerente à " natureza das coisas" e ao ser do mundo e da
linguagem que isso fosse precisamente assim. O aforismo nestroy-
iano do semiprogresso encontra, pois, sua ressonância em outro cam-
po. Dois matizes de azedume jocoso, portanto. cuja diferença efe-
tiva só se deixa medir pelo percurso precedente dos dois projetos.
Registre-se que, a essa possibilidade tão ambígua, Freud e Wittgen-
stein respondem com a ambição, simultaneamente irônica e deci-
dida, de pensar de outro modo.

Isso implica que a mudança pretende ser qualitativa - por


oposição a uma mudança quantitativa de multiplicação das estru-
turas que caracteriza precisamente o modelo de progresso. Conforme
223
se diz no prefácio de Philosophische Bemerkungen, ao passo que
o progresso, ideal da cultura moderna, consiste numa ' 'construção
de estruturas sempre mais extensas e mais complexas", trata-se de
produzir "um esforço para chegar à clareza e à transparência das
estruturas, sejam elas quais forem" 67. Programa de Aujkliirung es-
trutural, cu jo espÍrito Freud aprova e subscreve.
Isso supõe, em ceno sentido, frear o movimento cissíparitá-
rio de multiplicação das estruturas, que poderia perteitamente
acomodar-se numa obscuridade crônica da na tu reza da estrutura,
reduzindo a questão, de maneira obstinada, à questão da transpa-
rência das estruturas existentes. Se, portanto, o modelo dominan-
te do Progresso assim caracterizado pode ser chamado ''progressis-
ta", a atitude de Wittgenstein, tal como a de Freud, poderia pare-
cer conservadora, no sentido de que se trata de fazer sempre o farol
incidir sobre a estrutura.existente e de se "retirar" sempre para a
estrutura existente, a ft.m de lhe pedir incansavelmente explicações.
Mas se compreendermos que essa retirada é estratégica, o retorno
à estrutura das estruturas assume um aspecto crítico em face de teo-
rias cujo "progresso" - cego, nessa acepção muito particular- é
o último e tenaz preconceito.
É também nesse sentido que Freud e Wittgenstein arvoram
a atitude de " moralistas", recordando, cada um no terreno de sua
própria experiência, que existe um não-dito no agir e no pensar.
Importa, pois, aprofundar essa "ordem" que o progresso legitima,
a fim de lhe pedir contas. É esse efeito conservador do discurso do
progresso que Freud e Wittgenstein, cada um à sua maneir~.
desestabilizam. ·
Conforme sublinha o prefácio dosBemerkungen, esse ''espí-
rito distinto" do da "vasta cocrente da civilização européia e ame-
ricana em cujo seio vivemos" "quer apreender o mundo" em seu
núcleo - sua "essência" - ao passo que o outro o apreende pela
"periferia". Menos do que um essencialismo, trata-se dessa vonta-
de, afirmada à sua maneira por Freud, de captar "o único ponto obs-
curo", "centro" da coisa e, ao mesmo tempo, aquilo que incessan-
temente a descentra. Isso supõe um "marcar passo" que, longe de
ser um progresso impotcnfe, manifesta a vontade de denominar "a
coisa". "Daí resulta, diz Wingenstein, que o espírito dominante
da Kultur ajusta construção ap6s construção para acrescentá-las à
224
série de construções; dat resulta que impulsipna sempre para mais
longe, como de grau em grau, enquanto aq ude outro fica onde es-
cá e aplica sua vontade ná apreensão sempre da mesma coisa." Isso
supõ.e a obstinação intelectual correlativa de uma "boa vontade",
característica do "esforço teórico".
Sejamos ainda mais precisos: se convém antes falar de Unbe-
hagen [mal-estar] da Kulturdo que de Unglück {infortúnio), é por-
que este último termo não faz senão entravar o "prazer": ele é as-
sediado obsessivamente pela "pulsão de morte". Ação corrosiva de
que a análise contém os vesdgios, assim como o antídoto.
Essa ''pulsão de morte'' - à qual, como facilmente se conce-
be, Wittgenstein não pôde conferir status - foi, no entanto, re-
gistrada por ele como um fato.
É necessário entender, com efeito, que a postura assim defi-
nida por Wittgenstein apóia-se em sua própria versão do "mal-es-
tar da civili2ação". Em contraste com a cultura propriamente dita,
em que o pensador está englobado em "uma grande organização,
a qual indi<:a seu lugar a cada um de seus membros, um lugar onde
ele possa trabalhar no espírito do todo e onde sua força possa, da
maneira mais legítima, ser medida por suas conseqüências felizes
para o todo", trata-se hic et nunc de se definir em relação à "época
de não-cultura", onde "as forçasse dispersam", de modo que "a do
indivíduo esgota-se por causa de forças opostas e de resistências de-
vidas aos atritos"6s. Por conseguinte, "não é em todo o compri-
mento do caminho percorrido que ela vem exprimir-se, mas somen-
te, talvez, no calor que se desprende desses atritos, quando ela os
transcende".
Imagem capital para situar a posição do analista da lingua-
gem em relação à sua condição cultural objetiva: "a energi~ perma-
nece energia" mas está doravante "privatizada". Já não extste uma
totalidade feliz nem a harmonia preestabelecida da Kultur. Isso re-
quer do indivíduo objetivamente deixado só que atue sobre os "atri-
tos" do sistema.
Wittgenstein é menos niilista do que o observador sem a~e­
nidade de uma crise de que o ideal de progresso é o .lugar. É asstm
que se deve compreender a fórmula: "E sem simpana que observo
o caudal da civilização européia, sem compreensão alguma por seus
fins", aquela civilização cujo progresso é a "forma,'. Mas no ideal
225
da "claridade" (Kiahrheit) ou da transparência (Durchsichtigkeit)
como au tofinalidade (Selbstzweck) prepara-se uma espécie de ai-
. ter~ativa ética, a qual se apóia na consideração de que "o desapa-
recimento de uma cultura não significa o desaparecimento d o va-
lor humano, mas, simplesmen te, certo modo de expressão desse
valor".
Não é menos significativo que Freud continue aderindo, no
tocante à sua representação do processo da Kultur, a uma visão si-
multaneamente fragmentada e cumulativa. Wingenstein opõe-
lhe a imagem de um desenvolvimento " em curvá" : "Quando pen-
samos no futwo do mundo, visamos sempre o ponto onde estará
se continuar seguindo o curso q ue hoje o vemos seguir; não presta-
mos atenção ao fato de que não avança em linha reta, mas segue
uma curva, e de que muda constantemente de direção."69
Freud subscreve, de certo modo, o ideal daKultur; através do
preço ftxado para as "atividades psíquicas superiores" - filosofia,
arte e reJigião ---, mas sublinha a cada vez o caráter ilusório dessas
atividades em face da ciência. Quanto a Wittgenstein, faz intervir
a cada vez a ilusão para desvencilhar-se dela mediante o u tra práti-
ca da filosofta, outra relação com a an e, até uma cena religiosidade.

2. As figuras da Anánkê: hi.stóna, cultura e política

O que está em jogo é uma das figuras que passou a ocupar um


lugar na modernidade pós-hegeliana. Com efeito, tomou-se sen-
sível a "separação" do destino histórico e do devir p olítico do
indivíduo.
A cren-ça na política só é fone à p roporção que se produz uma
filosofia da história que a apóia e a legitima- o que encontrou em
Hegel sua síntese mais completa. O que se descobre nas oscilações
dessa sintese é, por uma pane, um desnudamento do político e, por
outra , sua reativação do lado de uma problemática da subjetividade.
Éessa coincidência que, de ceno modo, fica palpável em Witt-
~e?stein e Fre~d, cada um à sua maneira. A redução maciça da po-
l~t~ca na sua <ilmensão histórica pode dar a impressão de um "apo-
IJttsmo", ou seja , de destituição p ura e simples de uma racionali-
dade política (e não somente de uma indiferença pelas coisas polí-
226
ricas). De fato, se atentarmos bem, sobre as ruínas d a política co-
m o ratio, é o político que em erge em outro lugar ou, para empre-
garmos uma imagem freudiana, em outra cena.
Que a problemática do indi víduo suba ao primeiro plano e
pareça evitar a dimensão política não deve esconder um evento de
idêntica importância: a reforma de um entendimento que liberta
um pensamento do político.
Compreender como isso se realiza, de maneira simultanea-
mente comparável e significativamente diferente em W ittgenstein
e Freud, seria equivalente a reduzir a contribuição d essas teorias do
sujeito a um pensamento d o político e da história.
N ão é certamente por acaso que é no contexto vienense que
essa posição surgiu. Tanro cabe suspeitar de toda redução cultura-
lista do problema, que se basearia em alguma idiossincrasia que não
d eixaria nada por explicar, quanto devemos nos referir de novo a
essa cena vienense como a que impõe uma posição histórica da sub-
jecividade insurgida contra uma ordem sociopolítica em que ela se
vê a si mesma como sintoma.
Musil deu seu nome a essa realidade que aparece aos comem-
porâneos como um sintoma vivo - o mal cacaniano7o- , mas o
que nos deve interessar é justamente o indivíduo que vive doravante
a po lítica como um mal fundamentaL
Quais são os componentes dessa "síndrome cacaniana" ?
É que a ordem dá-se como tudo e ao contrário de tudo: ele
desespera de procura r uma finalidade, visto que conve ne qualquer
desordem em ordem aparente, demonstrando-se assim como apa-
rência de ordem - o q ue se inscreve essencialmente por essa deno-
minaÇão que exprime sua duplicidade e seu ridículo. O que se apre-
senta nesse barroco convenido em realidade é a idéia d e uma ano-
malia em funcionamento. Prova de que o absurdo não incomoda
a existência- o que ilusrra a deiscência do Conceito c da realidade.
Que tenhamos de colocar esse modelo sob a égide de uma me-
táfora satírica- aquela que transforma a "Kaiserliche-Kõ nigJiche
Monarchie" em "Cacânia"n - já é simbólico d esses statui
metafórico.
Reexaminemos nesse contexto a unidade q ue se formou em
contraponto à visão agostiniana, reduzida a um caso p articular da
d escrição de "jogos de linguagem". O que, deceno modo, se toro~
227
pensável com alguma crueza E a "linguagem da tribo" - enten-
da-se, uma comunicação lateral e recíproca que se sustenta por si
mesma, sem referência ou subordinação a uma referência vertical.
A linguagem não é transmitida da própria Coisa do O urro (o
texto) por intermédio dos outros. Ela nasce, sem nenhuma perda,
do entregenre. A tribo é o único transcendental verdadeiro da
linguagem.
Isso mesmo é a Cidade wictgensteiniana. Sem Céu por cima
dela (nem Cidade do Céu, nem Cidade da Terra). Não existe Rei-
no da Linguagem . Mas é justamente por isso que o homem fala.
Portanto, cumpre seguir com os olhos em que é que isso de-
saloja a relação do político, como o anverso e o reverso da mesma
placa de impressão.
Em Wittgenstein, isso se processa mediante uma espécie de
etnologia lingüística.
Do que precede ressalta uma implicação da política na ilusão,
que é o seu elemento apropriado. Retorno que dá a medida essa mu-
tação do entendimento pós-hegdiano. A política, de manifestação
na ordem intersubjetiva do Conceito, converte-se na mais cotidia-
na forma da prática coletiva da ilusão.
A política é essa grande ilusão que o sujeito ericontra à borda
de suas práticas (inconscientes, lingüísticas). Ela compartilha esse
status com a religião - mas também se recusa a tornar-se cúmpli-
ce dessa promoção da política ao plano de religião moderna- con-
~epção napoleônica ligada ao plano especulacivo por Hegel. É por
tsso que ela se cerca de desconfiança em relação ao Estado, mate-
rialização desse Bem político na história.
O Estado freudiano, se se pode empregar essa expressão ob-
jetivamente irônica, se é a antinomia do Estado Reino de Deus, não
é tampouco "o mais frio dos monstros frios" niec2schiano. É a mais
comum fo!ma do Outro do indivíduo, o que sempre lhe pede um
pouco mats do que seria razoável, espécie de libertinagem tolerá-
. vd em certa medida, sob atenta vigilância. O Estado não poderia
extinguir essa vigilância, mas o indivíduo não pode nem deve que-
r,era moHe do Estado (como se diz "querer a morte do pecador").
E apenas um mal necessário. O essencial é que esse mal necessário
não ~e apresenta como a figura do Bem -o que não exclui que possa
ocasionalmente fazer o bem. Não existe em Freud o menor traço
22H
de anarquismo da morte do Estado, assim como não há passagem
do diagnóstico de "mal-estar da Kultur" para um anticuhuralis-
mo (nesse sentido, nada é mais estran ho a Freud do que uma .
l.ebempht!OJophie).
Mas, justamente, se a Ku/tur é uma verdadeira necessidade,
o Estado é, a seus olhos, um hóspede simultaneamente inevitável
e incômodo, inserido na Kultur e impondo a lei ao indivíduo.
Não é menos verdade, porém , que inexiste em Freud qual-
quer futuro da ilusão política. Em vez de o deplorar, antes de ten-
tar suprir essa falta (tarefa que a presente abordagem permite exe-
cutar), trata-se de interpretar o que traduz essa diferença de trata-
mento. Qual deve ser a relação do político com o Wtmsch para jus-
tificar semelhante diferença de tratamento?
Pois a política está do lado da ilusão em Freud. Mas, ao con-
trário da religião, ela parece indispensável para suportar a realida-
de no que esta rem de mais material (até de mais trivial). Tanto é
possível situar a ciência para além da ilusão religiosa (sem deixar
de conceder-lhe um belo futuro), como seria "idealista" reduzir
a política ao Wunsch. É uma ilusão que se confunde de facto com
o vínculo de homem a homem no seio da cidade real. A aversão de
Freud ao idealismo, como culto da ilusão política (por exemplo, em
W. Wilson), traduz essa convicção de que a política é o lugar de uma
tarefa que exige uma atenção muiro especial à realidade. Nada é
mais funesto, justamem e nesse terreno, do que deixar falar o
Wunsch.
Essa posição sobre a política é levada a invocar um aquém da
determinaçro política, de que Frcud fornece uma fórmula cuja men-
sagem pode ser apreciada à luz da dialética do sujeito e do político:
" Deveríamos, diz ele a quem o acusa de se determinar pela relação
com a política, poder ser cor carne." n
Por trás do que esse apelo ao apoli tismo pode sugerir de ingê-
nuo desligamento, deve-se ver um efeito da sutil relação de enga-
jamento na política, que recusa bloquear o semido do homem e
o da história. A política distingue-se por reclamar uma pertença.
Intimado a declinar essa pertença - é preciso ser alguma coisa em
polírica- Freud apela para o que, por trás da roupa, revelaria uma
nudez. Isso não acarreta a adoção de uma política descolorida -
metáfora para a qual o nosso sujeito nos encaminha decididamen-
229
ce. Éa "carne'' do sujeito que aí se designa, como redução da per-
tença da política, sujeito virtualmente de carne e osso- o condi-
cional permanece essencial - de sua limitação histórica.
Nem por isso esse sujeito é desencarnado de sua posição. Pelo
contrário, esta converte-se no próprio real da relação com o políti-
co, mas nunca se fixa numa "pertença". Reporta-se ao político co-
mo possibilidade crônica de se desengajar da máquina política, como
·da razão histórica, mostrando-lhe o lado do avesso.
Porcanw, nada de surpreendente que se opere uma redução
a uma ética aparafusada ao próprio sujeito- que, no fundo, não
tem um ser próprio que não seja ético. Assim, é possível que a lição
desse modelo seja a recusa de.uma ordem da história como creden-
cial para uma religião da política em nome de uma ética do sujeito
que toma possível uma posiçãc do político.

3. O futuro das ilusões: o nome e a ficção


Freud e Wittgeostein são, pois, cada um à sua maneira. os her-
deiros do médico da civilização nietz.schiana, emitindo .um diag-
nóstko sobre o mal crónico da civilização. Mas não existe mais re-
curso possível a qualquer saúde do instinto- resta apenas~ com- ·
placência no sintoma. Trata-se tão-somente de estar em dia com o
custo dos danos e de restabelecer o m1nimo de relação consigo mesmo
que não agrave o maL
Acontece, porém, que onde Wittgenstein opõe seu niilismo
rerapêutico, por muito ativo que seja, Freud alimenta uma espe-
rança. tão limitada quanto precisa. Enconua-se a sua formulação
mais clara, não fortuitamente, nas Condições atuais sobre a gue"a
e sobre a morte (1915 ), em pleno sismo dos ideais da Kultur. Ao mal
ambiente, Freud opõe a idéia de uma "verdade psicológica" n.
Considerando "aconswue repremo pulsional", "aquele que é assim
obrigado a reagir constantemente no sentido d.e prescrições que não
constituem a expressão de suas tendências pulsionais, vive, psico-
logicamente falando, acima de seus meios", o que merece, o mais
estritamente, o termo de "hipocrisia" (Heuchelei). Ponanto, se "a
civilização assentanessahipocri.sja", dC"Ye-se acrescentar que da "seria
forçada a consentir em transformações em profundidade:, se os ho-
mens re~lvessem subordinar sua vida à verdade: psicológica".
2 30
Vê-se, nessa passagem tão discreta quanto capital. que a teo-
ria freudiana da Kultur, eqüidistance de um culto do interdito cul-
tural e de um romantismo da dissidência individual, coloca sua es-
perança, de certo modo dosada segundo uma economia da repres-
são, no retorno da "verdade psicológica" - tal como pode ser ob-
jetivamente obtida pda psicanálise- e em sua própria rr~nsfor­
mação. Assim se encontra 4iscreta mas firmemente autenucado o
caráter ético- e nesse sentido normativo- do saber analítico. Se
a psicanálise não é a inimiga nem a cúmplice dos "ideais da civili-
zação", ela oferece a parte de "verdade psicológica" que traz para
a luz como instrumento de reoriemação dos modos de vida. Esse
seria ainda o cálculo menos mau, inclusive o mais "sensato", para
não viver acima de seus meios e adaptar sua vida ao conteúdo de
verdade do seu ser psicológico.
Freud forja, portanto, um termo deveras audacioso: falar de
psychologische Wahrhe-il [verdade psicológica] é fazer sair a "psi-
cologia do inconsciente" de seu status "fatual" para devolvê-la ao
próprio sujeito como ideal. Um ideal, é verdade, que não pode ser
mais núnimo, porquanto não poderia exceder o dado de sua pró-
pria essência. Não se trata, portanto, de viraserumacoisadif~ren­
te daquilo que se é -amenosqueo homem recue sem cessar diante
da revelação do seu ser. A psicanálise chama "verdade psicológica"
à sua própria obstinação em colocá-lo diante de suas obrigações. Isso
mesmo desestabiliza virtualmente a relação do in4ivíduo com a
Kultur.
Se atentarmos bem para ela, essa divergência. ao mesmo tempo
relativa e significativa, entre o diagnóstico freudiano e o diagnós-
tico wittgensteiniano, remete-nos, uma última vez, para a questão
do "simbólico".
Em Freud, é justamente porque existe um Wun:ch antropo-
lógico constituinte que existe uma estrutura da. ilusão. E no Wunsch
que a ilusão vai buscar sua força, assim como o seu limite e, em _su-
ma, o seu belo futuro! Em Wittgenstein, o homem está, outrossun,
colhido no nó de ilusões que a sua relação com a linguagem desig-
na: Nos dois casos, trata-se efetivamente de tentar ver mais claro,
mas enquanto em Freud a.iste um sujeito do Wunsch, em Witt-
gensteín há apenas um regime de linguagem no qual o homem se
insere a tírulo
. . de . "usuário".
231
Em segundo lugar, essa relação com a ilusão enraíza-se em dois
modelos fundamentalmente opostos de relação com a alteridade,
como a temos incessantemente experimentado. Em Freud, o "mal-
estar" é, em última instância, o que se reinscreve, naKultur, do as-
sassínio do Pai - "mal-estar primitivo". A história recona-se por
inteiro, ponanto, sob a égide dessa metáfura. Todo o esforço de Witt-
genstein dirige-se antes no sentido de reinstawar uma outra rela-
ção, propriamente lúdica, com a origem.
Essa divergência pode ser recapitulada em torno de uma in-
terpretação do significante mosaico. Com efeito, é isso, como se sa-
be, o que permite a Freud, in extremis, repor a questão da relação
do Pai fundador com a ficção histórica, apêndice a Totem e tabu
que a especifica sem a anular. Não foi por acaso, talvez, que ames-
ma questão preocupou Wittgenstein.
Termo apropriado da nossa investigação, se é verdade que, sob
a questão da crise daKultur, é a questão do ser do referente pater-
no (nominal) que efetivamente se reativa uma última vez.
Trata-se, de fato, de um detalhe penurbador que a confron-
tação global dos textos freudiano e wittgensteiniano não poderia
negligenciar.
Um parágrafo das Investigações filosóficas discute.um enun·
ciado, proposto como exemplo e analisado por sua forma e seu ai·
cance, mais do que per seu conteúdo, mas cujo teor é penurbador:
"Moisés nunca existiu." Perturbador, ao mesmo tempo, porque
Freud, em seu ensaio Moisés e o monoteísmo, elaborado na mes-
ma época74, o confronta: não gravita inteiramente sua tese em ce-
do~ da questão ''Se Moisés realmente exisciu" e desemboca nomes·
mo enunciado cuja dissecação é feita por Wittgenstein no âmbito
de seus jogos de linguagem? ---:- "Moisés nunca existiu enquanto
judeu·~ o Moisés judeu é uma ficção de que dependeu o conjunto
do mito eletivo do povo judeu e sua história. Quanto a Wittgen-
stein, é a ocasição de reco.tdar o enunciado freudiano de que "o ocem-
. pio é a própria coisa" e de que o conteúdo escolhido não poderia
deixar de ser essencial. ·
A confrontação desses dois en'unciados, provenientes de Freud
e Witt.genstein, tendo Moisés por alvo, poderá, portanto, consen-
tir que avancemos na in teligibílidade dos lances- neste porto em
que a questão da linguagem se encontra com a daKultur, em seu
232
ponto de flXação judaico. O que querem, pois, respectivamente,
Freud e Wittgenstein de Moisés, que condiciona talvez uma parte
dos lances lógicos e éticos da identidade deles - a quem um dedi-
cou um estudo completo, embora sincopado, e o outro um aforis-
mo, embora incisivo?
O fundo comum às duas problemáticas é o problema da rela-
ção do "miw" com a "verdade histórica", de que Moisés é o ponto
de imcrseção - conquanto Freud não problematiz~ a existência
de Moisés, contentando-se em questionar sua origem judaica para
atribuir-lhe uma origem egípcia, não deixa, porém, de evocara ques-
tão da relação da figura mosaica com o ''lendário'' e não hesita mes-
mo em batizar sua própria especulação de "romance histórico" (Bil-
dungsroman). Ponanto, a existência de Moisés foi submetida a uma
reconstrução veniginosa em que a questão de sua identidade su-
biu ao primeiro plano.
Quanto a Wittgenstein, faz de Moisés, ainda que seja como
referente discursivo, o sujeito de um enunciado que afirma a não-
existência dele - o que não pode deixar de refletir a questão do
status do enunciado em sua dimensão mico-histórica.
Ora, o que é que Wittgenstein sustenta a propósito desse enun-
ciado? Que esse enunciado pode significar coisas diferentes propor-
cionalmente à definição q ue.se forneça do sujeito ''Moisés''. O que
está em jogo é o uso do nome próprio. Enquanto não se apresentar
a definição de "Moisés", a comunicação pode operar-se sem pro-
blema. Mas a partir do instante em que se restabeleça a questão da
extensão do conceito, ou seja, do que nele cabe de maneira preci-
sa, passa a ser mais do que uma explicação do uso corrente prece-
dente o que se requer, ou seja, uma verdadeira reforma do nosso
uso precedente do nome "Moisés". Mtrmar que "Moisés nunca exis-
tiu" seria, portanto, subordinar à impossibilidade de encontrar na
realidade um correlato com, pelo menos, um dos elemeiuos cons·
titudvos da definição - no lugar de uma simples modificação de
sua "imagem".
O que parece interessar a Wittgenstein nesse exemplo é a lo-
calização exata desse limite que seria necessário alcançar para que
se possa dizer: "Portanto, eu não o chamo mais de Moisés." Mas su-
blinha que todos os conceitos em cujos termos Moisés poderia ser
(re)definido gerariam tantos problemas quanto ''Moisés'' em pes-
233
soa: seria preciso definir o que se entende por "egípcios", "israeli-
tas", em suma, tudo o que é designado como o "acessório"
(Nebensãchliche).
O que Wittgenstein quer estabelecer, assim como experimen-
ta r acravés desse exemplo, é a natureza do uso como constiruime
da Linguagem . tal como a conhecemos. É preciso mostrar que não
se trata dé descobrir os limites dos conceitos ligados aos term os, mas
de os traçarmos nós próprios. O que equivale a recusar a ilusão da
essência e a reduzir a precisão (Gen11uigkeit) a um simples ideal,
de certo modo regulador dos jogos de linguagem.
Mas, considerado de ourro pomo de vista, esse exemplo pa-
rece significativo: é como se W ittgenstein aniculasse que, mesmo
com o nome de MoúéJ, é não só possível mas inevitável "jogar". O
que leva a suscitar a pergunta: até onde é possível jogar com o no-
me do Urvater [pai primordial)?
Pode-se pensar, com efeito, que o exemplo desempenhará sua
função didática de m aneira tanto mais eficaz quanto mais enrai-
zada estiver a crença a refutar- a da essência real fora da lingua-
gem - incluindo, talvez, a alimentada pelo próprio locutor. Ora,
é um efeito - quem sabe até a finalidade? - do pensamento .em
termos de jogos de linguagem pôr em movimento essa creQça, vi-
ver a su a dissolução (mais, de resto, do que refutá-la como -tal).
Assinale-se, com efeito, que a comprovação do aspecto " lú-
dico" do processo de linguagem faz vacilar a imagem ou a "figu-
ra" mosaica: ou melhor, em termos mais autentic.a mente wittgen-
steinianos, ao fazer "jogar" o conceito, vê-se esboçar a eyentualida-
de de que se eclipse a própria figura que ele visa; melhor ainda: a
sua natureza discursiva revela-se com o a possibilidade constitutiva
desse eclipse.
Esse jogo com o nome do pai fundador rem por finalidade
visível experimentar uma espécie de vertigem envolveqdo a existência
ou não-existênCia de " X". Trata-se também, de fato, de verificar o
que resúte a esse verdadeiro rranse redutor. O fundador da psica-
nálise aí veria legitimamente uma meditação sutil e obstinada so-
bre o que é um pai morto. Mas precisamente, em Freud, alude-se
à fixação simbólica, ao mesmo tempo fictícia e material, do desti-
no do sujeito e d a Kullur. Em Wittgenstein, temos o lugar onde
se joga intensamente a repartição da ficção e da lei.
2~4
NOTAS

1. Fiches, § 545, p. 141.


2. Pulsionut deiiÍns deJ pulsiorii, GW, X , 211. (O título dessewlume na edi-
çio .rtanba'brasileira da Imago é OI imfinloi e was flicisiiturles. (N. do T.)].
3. Recherdm philosophiques, § 66, p. 147 [p. 42 da ed . brasilrin, op. cÍJ. (N.
do T.)l-
4 . Op. ai., § 12, p. 120 [p. 18, ibid. , op. cit.] .
5. Uf011I surl'uJbétique, op. cit., § 5, pp. 16-17 [p. 14 da uad. brasileira, op.
cit. (N. do T.)].
6. LeçonJJurfeithétique, op. cit., § 30, p. 60 [p. 59 da uad. brasileira, op. cit. J.
7. Op. cit., § 31. pp. 60-61 [p. 51 da trad. brasileira, op. cit.] .
8. Le refoulement, GW, X, 250.
9. "Note 111rune leçon extraite d'un cours surla descn'ption ·: em Leçons eJ con-
versationi, op. cil., p. 82. ("De uma palestra integrante de um ciclo de pales-
tras acerca da descrição", ern Estéfzca, psicologia e religião, op. cit., p. 70. (N.
do T.)].
10. Die Tra11mdeutung. cap. IV, GW. 11-IJI, 15j.
11. Psychologic colletive ettmalyu du Moi, c2p. VII, GW, XUJ, 117.
12. Tractatus logi.co-philosophícm, 7.
13. GW. XIII. 64.
14. Tractat~. 6, 522.
15. Cf. a polêmica com Groddeck, em Co"espondance, Ça et Moi, Galljmard.
Sobre a dcscri~ão e imerpretaçio desse debate, ver L'etJJemlement freudien,
EP· 118-120.
16. E um dos últimos aforismos de Frc:ud (GW, XVli, 1~2) datado de 22 de agos-
to de 1938. Cf. J.:entendement freudien, p. 127.
17. Carnets, 25 de maio de 1915.
18. GW, XIV, 380.
19. Op. cit., ibid.
20. Op. dt.
21. Analyse finie et analyie infinie, GW, XVI, 69. Sobre este ponto, cf J:enten-
dement freudien, op. cit., p. 87 ss.
22. As Remarquei mêlies falam dos "phamastischen pscudo-Erklarungen" de
Freud (op. cit., p. 67).
23. Imperativo de forma negatiV2.
24. Recherches philosophiques.
25. No tas sobre conversações com Witcgenstein. A conversa em apreço é datada
de 17 de dezembro de 1930, em Leçom eJ convmations, op. cit., p. l 58.
26. Carta a Putnam de 8 de julho de 1915, a qual se refere a umaf.tlade Theodore
Vischer.
27. Ver infra.
28. Op. cit., p. 158.
29. Carta a pflStc:r de 24 de fevereiro de 1928 (Co"espondance, p. 178).
235
30. Conferência sobre a ética. em l.eçons e f conver.rotiom. p. l·'Í7. Sab~-se que Spi-
noza tentou alguma coisa no gênero. É talve7. o lUto da ética spinozista que
deve ser lido aí, com tudo o que isso comporta de nostalgia...
31. Ele declara-o, é verdade. ao pastOr Pfistcr. em 9 dt: ou rubro Je 191&(Com.'J·
pondance Freud!Pfoter, GaHimard , p. 103).
32. O Egoeold, cap. V. GW. XIIJ.
33. Remarques mêlées, op. cit.. p. 46. O comentário data de 1939.
34. Trata-se da conferência pronunciada em Cambridge (segundo os editOres numa
data compreendida entre sccemhrode 1929 c dezembro de 1930) na socieda-
de "Thc Hcrerics". Não tem título. O texto. cranscrição das notas de rriedrich
Waismann, foi publicado pela primt>ita ve?. na Phifmophical Review (vol.
LXXIV, n? I, janeiro de 19M). f'Oi pu blicadacm franrês na coiClânea Leçonr
et conversatwm suivú.r de Conférence surl'éthique (op. cil.). p. 141 ss.
35. Op. cit., p. 144.
36. Op. cil., p. 1) 1.
37. Op. àt., p. 154.
38. Op. cit., p. IS5.
39. Sobre este ponto, ver o nosso artigo " La jouissance en réglc", em Palio, n? 7,
. . Ed. de I'Epi.
40. Op. cit.. p. 154.
41. De la certitude, § 160, p. 61.
42. Carnels, 11 de junho de 1916.
4 3. "Note sur les conversations avec Wittgenstein;· op. cit., p. 156. Reflexo da con-
clusão da Conférence sur l'éthique, citada acima.
44. Citado em Szacz, Kra~~s et les docteurs de l'âme, op. cit.
45. Leçons .rur l'u thétique, op. ú t., § 40, p. 65 [p. 55 da trad. brasileira, op. Clt. ].
46. Op. cit.
47. Op. cit.
48. ~bre o "niilismo rerapêULico" da tradição médica vienense. cf. Johnson, op.
crt., cap. 16, p. 267 ss. ·
49. Recherches phi/osophiques, § 132, p. 169 [pp. 61-62 da ediçio brasileira, op.
cit.}.
50. Op. cit., § 130, p. 168 [p. 61 da edição brasileira, op. cit.].
51. Op. ciJ., § 133. p. 169 [p. 62 da edição brasileira, op. ciJ. }.
52. NouvelleJ conftrences de psychanalyse, GW. XV.
'> 3. Cf. Grammaire phifosophique, 2~ pa:rte, cap. V, § 25: "Todo matemático fi.
cará, com ceneza, horrorizado com as minhas observações, pois sua aprendi-
zagem sempre o desviou de se dedicar aos pensamentos e ils dúvidas que: eu
desenvolvo. Ele aprendeu a considerá-los d esprezíveis e, para empregar uma
analogia extraída da psicanálise, conservou a mesma repulsa que alimenta por
rodo o que se relaciona com a infância (todo este parágrafo não deíxa de nos
recordas Freud). Quer dizer que eu desenvolvo todos os problemas que uma
crian~ expe~imenta como dificuldades quando aprende matemática e que
o ensmo repnme sem resolver. E eu digo a essas dúvidas reprimidas: têm toda
a razão, p~am e exijam que se faça lw!" (op. cit., pp. 387-388).
54. Ver, sobre este pomo, o nosso an:igo ··~.cs grandes découvcnes de la psycha-
nalyse", em HiJtoire de la psychanalyse, vol. I, pp. 182-185. É na rerceiraseção
de Pour introduire !e narci.Jsisme que se apresenta pela primeira vez a noção
de Ideal do Ego.
2:S6
55. Pour introd11ire /e mm:iuiJme, GW. X. 161.
56 . Acerca dt: mda essa diali:tica. remetemos o leitor para.Li:nlendemenl freudim,
op. cit.. cap. V. p. 183 ss.
')- . Pour introduire /e narcú.ri.rme. GW. X. 162.
) 8. Ficim. § 656. p. 165. ·
'> 9. Evocando "o nascimenw do ideal d o ego", Freud recorda que "por trás dele
esconde-se a primei r" c mais importante identificação do indivíduo: a iden-
tificação com o pai da pré-história pessoal" (GW. XIII, 259).
60. Sah.:-st que Freud preferiu esse termo a Ungliick. (infortúnio) para dar ao tÍ·
tulo de sua obra de 1929 seu cunh o pr6pno.
61. GW. XIV, 448 (seção 111).
62. Remarques mêlies (1949). p. 98.
63. Op. cit.
64. GIP, XIV. 220 (seção 11).
6) . Der Streit der Fak.ulliiten (O conflito das faculdades), 1798.
66. Sentimento de confusão característ ico em Frcud.
67. Remarques philosophiqueJ, prefácio.
68. Exuaido da muito reveladora versã<>primitiva das Philusophúche Bemerkun-
gen, in Remarques mêléeJ, p. 16.
69. Remarqr1eJ m.êlées, op. cit.
70. L'Homme sam qua/ités, uad. franc , fo lio, pp. 53-54 . Cf. " freud , habitant
de la Cacanie", em L'entendement freudien. pp. 232-234.
71. Ibid.
72. Sobre este ponto, ve r "Freud ct la politique", emL'e ntendementfreudien, p.
231 ss.
73 . Freud enuncia a hipótese (desejo): ''Se os homens resolvessem subordinar sua
vida à verdade psicológica", em &sais de PJychanalyse, p. 21.
74. Recherches phifosophique.r, trad. franc., § 79. p. 153 (p. 47 da edição brasi-
leira. op. cít.].

2:'7
CONCLUSÃO

Chegados ao término deste uajeto, cumpre-nos assumir o seu


paradoxo, o qual sustenta, pelo menos, uma du pia formulação que,
ao mesmo tempo, expõe a complexidade das relações de Freud e
Wittgenstein.

• Esttanho "discípulo e seguidor de Freud" esse Wittgen-


stein que quase nada fala do "mestre" que ele reconhece no funda-
dor da psicanálise, a não ser para afastar-se dele.
• Mas também: estranho encontro frustrado esse que sere-
vela um encontro tão ativo!
Enfim, estranho diálogo de surdos que, uma vez reconstituí-
do, mostra ser tão eloqüente.
Cada um desses paradoxos é portador de sua parte de verda-
de. Quem, pois, a não ser o mais exigente dos discípulos, está me- ·
lho r colocado para confrontar o mestre admirado à luz do seu pró-
prio ideal e das condições de seu próprio magistério? Portanto, quan·
do Wiugensteín se diz discípulo de Freud contestando sistemati-
camente seus enunciados, ainda os menores de todos, e pondo a
nu a menor das articulações de sua racionalidade, ele produz o tra-
balho do discípulo esotérico, talvez o único verdadeiro, o que só abor-
da o discurso daquele de quem se diz "seguidor" através da con-
testação - o que está em oposição ao discípulo que poderíamos
qualificar de "exotérico", incondicional mas, no fim de contas, m e-
nos fiel ao ideal que ele encarna. Nesse sentido, é realmente a "ati-
tude crítica" que convém ao verdadeiro discípulo, entenda-se, o me-
nos "sectário". É para o discípulo que a questão do assentimento
ao mestre e do conse ntimento na parte de verdade que ele revela
é a mais problemática mas também a mais "vital". Visto sob essa
perspectiva, Wittgenstein desempenhou-se muitíssimo bem da sua
rarefa de "discípulo", chamando a si a responsabilidade de tratar
aquestãodo "servilismo" emrelaçãoaFreud. Sacudirojugoé, em
última análise, uma forma de homenagem, das mais belas, presta-
2:W
da àquele que assume de bom grado a figura de uma Anánkê do
pensamenro conremporâneo.
Talvez Wittgenstein tenha sido o primeiro que se deu coi1ta
desse evento - a conseqüência imediata do advento da psicanáli-
se como destino do pensamento contemporâneo- e decidiu ela-
borar uma cena postura do entendimento em face da psicanálise
-motivo pelo quaJ foi o primeiro a apresentar a questão da escn·-
ta psicanalítica.
Compreende-se, ao mesmo tempo, porque, ao elaborar o seu
próprio projeto na contemporaneidade de Freud, ele dialoga de ma-
neira tão ativa, experimentando justamente o oceano que o separa
da psicanálise. Essa mistura de distanciamento e de implicação con-
firma que Wittgenstein fala de Freud na sedução conjurada. É nesse ·
ponto excêntrico que os dois se encontram.
Entendemos que, para falar de psicanálise, é preciso ter sido
atingido pela letra de Freud e pelo espírito que a habita. Wittgen-
stein mostra que fói, nesse sentido tão preciso quanto misterioso,
atingido e afetado pelo "dizer" freudiano. Para falar da psicanáli-
se, é necessário, nesse sentido, falar a partir de Freud e, por conse-
guinte, sentir-se em ctna dele. Experimentamos que Wittgenstein
sabe falar, nesse sentido, como se estivesse na pele de Freud, o que
lhe permite ir direto aos pontos nevrálgicos de sua economia apro-
priada. Para compreender o que Freud tem a dizer, é indispensá-
vel, precisamente, ter atingido essa forma de empatia teórica.
Mas, simultaneamente, vimos confmnar-se a impressão que
ressalta do seu discurso sobre Freud , que Wittgenstein fala d~ ou-
tro lugar, o que introduz uma defasagem crônica em relação à fala ·
freudiana - q ue. estranhamente, admite sem resistências a mais
íntima relação com o pensamento freudiano- que em momento
nenhum ele separou da psicanálise. Tal é o Unheimliche da rda- ·
ção de Wittgenstein com Freud, que se faz hóspede do texto freu-
diano, que lhe saboreia as iguarias, reservadas justamente para os
"familiares", mas sem deixar de simular "falta de apetite", de ex-
cluir-se repetidamente do código e do consenso requeridos.
fui esse "transtorno da fruição" que ele converteu em crítica
de racionalidade. A psicanálise é reavaliada nesse sentido concre-
to, e quase sensual, em que as "iguarias" são saboreadas de novo e
julgadas fora do contexto onde se presume que geram o acordo. Po-
240
de-se duviqar de que as críricas epistemológicas ulteriores. por mais
inspiradas que tenham sido por Wirtgenstein, tenham logrado evi-
denciar o mesmo respeito pelo sabor próprio da psicanálise.
É essa dosagem de exterioridade e de consideração pela ratío
freudiana que confere à posição de ·wiugenstein sua dimensão es-
tética, na acepção quase kantiana: trata-se de uma critica do julga-
mento analítico que se construiu na base de seus dois concomitan-
tes: o epistêmíco (saber do inconsciente) e o linguagístico.
Mas essa crítica vem precisamente culminar na questão deci -
siva: a do sujeito da psicanálise, no duplo sentido em que ela are-
vela como ponto de apoio do saber.freudiano e em que a própria
crítica de Wittgenstein vem a atolar-se nela.
Esses dois aspectos estão tão longe de ser incompatíveis que
não existe virtualmente outro meio, para elucidar a problemática
do sujeito do inconsciente - que é a resultante de toda a experiência
freudiana- senão "atolar-se" nela. Em outras palavras, é~ para
situar o nosso próprio "diltgnóstico" -porque o mesmo Wittgen-
stein se arola por conta própria na questão do sujeito que de traz
para a luz, a contrano, o problema do pressuposto de um sujeito
em Freud. •
A força desse "diálogo" de surdos cão eloqüente parece-nos
· promanar do fato de que Wittgensceintematiza, por sua crítica ''de-
capante", essa questão do sujeito da psicnálise - o que, por uma
. ironia do debate, retoma a ele sob a forma de "sintoma": de onde
decorre que Wittgenstein , levando em conta sua própria economia
teórica, não consegue fazer jus a um sujeito inconsciente? ·

Devemos retornar a essa idéia desconcenance emitida com in-


sistência por Wittgenstein, de que a fecundidade da psicanálise pode
ser demonstrada na condição de se concordar em que... Freud na-
da inventou'. Como teria Freud compreendido "tudo" sem ter in-
ventado nada? É em torno desse paradoxo que se desenvolve toda
a leitura wingensteiniana de Freud e sua avaliação da psicanálise.
A grande virtude de Freud foi perfeitamente reconhecida por
Wittgenstein: é a coragem, a qual se confunde (por uma espécie de
pleo~o) com a coragem de dizer. Ora, é essa a virtude decisiva
a que Wittgenstein aspira também, como correlato ético do em-
241
pree ndimcnro analítico de "clarificação": "A atividade de esclare-
cimento deve ser conduzida com coragem: se esta falta, ela reduz-
se a um simples jogo de inteligência." Em suma: "A coragem está .
sempre na origem."l
Mas a culpa de Freud. aos olhos de Wingenscein. foi a de nos
fazer crer. quando afinal não fez mais do que nos fazer ver as coisas
(magistralmente) de outro modo, que descobriu·coisas novas c in-
ventou um "caminho de pensamento" (Gedankenbewegung)-
"confusão" essa que é reveladora de todo o empreendimento. Por
isso ironiza em relação a Freud, parodiando o personagem de Busch:
"~ão é que ele rem um ar tão altivo como se tivesse sido ele pró-
pno quem se amamentou?" I Contra esse sonho de gestação ou de
parto de uma criança de tenra idade, trata-se de manter a psicaná-
lise onde d a tem algo a dizer: modéstia analítica que, aliás, Freud
teria de bom grado subscrito. Mas Wittgenstein suspeita de que essa
extrapolação da "ambição da descoberta" para além do méwdo é
reveladora de uma racionalidade causalista e explicativa que "ade-
re" perfeitamente ao produto analítico.
Ora, o Jugar fu ndamental, reivindicado por Freud como o de
seu inedirismo e de sua "originalidade", não é outro senão a revo-
lução relativa ao saber do sujeito e que contém, nos termos da fa-
mosa parábola, na informação de que "o ego não é amo e senhor
em s~a própria casa"4 , a sua própria psique- "humilhação psi-
cológica" que completa e radicaliza a humilhação cosmológica in-
flígida por Copérnico- nos termos da qual o ego não é amo e se-
nhor do universo - e a humilhação biológica - segundo a qual
o ego não é' amo e senhor da espécie animal.
Mostramos em outro livro tudo o que essa parábola foi bus-
car no discurso cientista5, o que reforça a ambição de descobena
freudiana. Ora, Wirtgenstein tem suas idéias a respeito da revolu-
ção copérnico-darwiniana que serve de precedente para legitimar
a de Freud: "O verdadeiro mérito de um Copérnico ou de um Dar-
win não foi a descoberta de uma verdadeira teoria (Entdeckung rei-
nerwahren Theorie), mas a de uma nova e frutuosa maneira de ver
(eines /ruchtbaren neuen Aspekts)."6 Reencontramos o eco, no
pLano do progresso do conhecimento, da concepção geral do "pro-
gresso": não se trata de um aprofundamento do valor de verdade
teórica, mas de uma ampliação perspectivista, aliás decisiva. Freud
242
não conquistou um fragmento suplementar de verdade teórica; de
somente inovou de maneira fecunda, elucidando novos "aspectos"
- no sentido mais enfático de elucidação.
Mas o cerne do c;tebate está em outra parte: Freud enraíza seu
'' perspectivismo'' - o qual não é incompatível com as fórmulas de
Wittgenstein - numa teoria da função sujeito- pois que se trata
de reposicionar, no sentido mais literal, o "ego" em relação às suas
ilusões, a fim de o fazer aceder, para além de sua barragem narcísi-
ca, a um saber de sua verdadeira condição. O "ego" é, portanto, o
lugar apropriado dessa ilusão autoconstituinte. Compreende-se sua
ambição de chegar à mesma raiz da ilusão e de lhe opor um cami-
nho de saída.

Entretanto, se existe um ponto cego que a análise wittgens-


teiniana não deixou de explorar, é a armadilha na qual o sujeito é
apanhado quanto à identificação de sua própria verdade. Assim,
cumpre entender a observação que ele expressa com uma simplici-
dade pungente: ''Nada é mais difícil do que não se enganar a si mes-
mo'' (Nichts ist so schwer, ais sich nicht betrügen)'. Mas essa cons-
tatação de "moralista", à qual a análise das sinuosidades dos pro-
cedímen tos lingüísticos confere todo o seu peso. não pode apontar
sua causa na própria estrutwa do sujeito. Tudo se passa como se Witt-
gensteín devesse remeter todo o diagnóstico sobre a causa da arma-
dilha para a descrição incansável das modalidades e das "peque-
nas causas" dessa armadilha, lá onde Freud fixa, por assim dizer,
uma estrutura na qual toda a sua experiência se alicecça.
"Tudo se passa na lt'nguagem'tJ ." Tal é o enunciado fundador
de Wittgenstein. Mas Freud aponta a razão desse evento no sujei-
to, o que inaugura um saber do inconsciente. Este apóia-se no pres-
suposto de uma experiência própria da neurose. Sua fórmula mais
impressionante encontra-se no texto em que Freud se desculpa por
ir buscar todos os seus exemplos nessa esfera: "Tem-se a obrigação
de usar a moeda em circulação no país que se explora - no nosso
caso, a moeda neurótica."9 Foi essa "cláusula simbólica" da moe-
da dominante no país freudiano que Wingenstein colocou em
debate.
Com efeito, o sintoma único a que Wittgensrein deu forma
e, de certo modo, legitimidade. é esse Tn'eb pelo qual ele investe
24~
comra as fronteiras da linguagem. Uma passagem das Conversa-
ções com JPaismann, no momento preciso em que se encontra em
gestação a sua teoria dos jogos de linguagem (1929). mostra ser de
grande valia para o nosso propósito - tanto mais que se trata de
nada menos que a angústtafundamemal evocada por Wittgenstein
em referência a Heidegger. Com efeito, é o seu próprio projeto que
ele evoca através dessa "pulsão" própria do "homem", de "arremeter
contra as fronteiras da linguagem'' (ein Trieb, gegen.die Grenzen
der Sprache anzurennen)w. Mais precisamente, Wittgenstein não
tem outra justificação de seu próprio esforço senão a fenomenolo-
gia dessa " pulsão" simultaneamente inútil e incurável.
É realmente porque existe o.Trieb __:objeto e Rrojeco de sua
filosofia - que ele admite, enfim, uma formulação metafísica, in-
clusive ontológica: "Pensem, por exemplo, no espanto diante do
fato de que alguma coisa existe. Esse espanto não pode ser expresso
sob a forma de uma interrogação e, naturalmente, tampouco exis-
te qualquer resposta. Tudo o que gostaríamos de dizer só pode ser
a prion' absurdo. E, no entanto, precipitamo-nos contra os limites
da linguagem." Parece, pois, que essa "precipitação" constituí o úni-
co ser - do homem e da angústia. Ora- e aí tocamos, de certo
modo, no fundamento da iniciativa wingensceiniana. "Essa preci-
pitação é a ética."
Entenda-se bem que não existe somente um aspecto ético nessa
iniciativa: esse Tneb é que é, ipso facto, a própria ética.
Teorizar a ética equivale, portanto. a extrair as últimas conse-
qüências desse Tneb, que é menos "uma tendência" antropológi-
ca do que a tese antropológica. Essencialmente, o homem não é mais
um animal racional do que um "bípedesem penas": é o sujeito desse
Tn'eb, esse "ser" estranho e obstinado que arremete contra os mu-
ros da linguagem, ''fantasia" que lhe é a mais apropriada. Ter "aces-
so" à realidade humana é obcecar-se, portanto, de alguma forma,
a respeito desse Tneb.
Portanto, o homem não tem outro remédio senão a sua pró-
pria angústia: é "quebrando a cabeça" contra as muralhas de sua
linguagem que ele experimenta sua angústia e restabelece seu equi-
líbrio. E cal é Witrgenstein que, parafraseando Níeczsche, não des-
cansa enquanto não desvendar o menor erro de linguagem. condi-
ção sine quo non para ver o seu equilíbrio restabelecido.... até o pró-
.H4
ximo mal-estar. Talvez tenha sido aí que Wiugcnstci n captou esse
"senso clínico" que o coloca, ocasionalmeme. em harmonia com
a experiência analítica.
É nessa paixão do dizer bem que Frcud c Wingensteín se jun-
tam, possivelmente da maneira mais autêntica. "Se eu tivesse es-
crito uma boa frase e, por acaso, ela consistisse em duas linhas que
rimam então isso seria um e1ro" 11 , escreve Wittgcnstein. Sur-
preend,ente p~rismo que abomina a "rima". que transforma um
enunciado correto e precioso em lengalenga. Talvez não tenha exis-
tido nenhuma outra pajxão em Freud a não ser a de "chegar co rre-
tamente" a esse enunciado que, cal -o enigma da Esfin ge, não rima
com nenhum outro.
NOTAS

1. Curiosamente, Wingenstein rel:~ciona essa idéia com o d iagnóstiro sobre: 2


" reprodurividade judia" (jütlische Reproduktiviliil) (RemtJTquei mêléei, 1931,
p. 29): "Poder-se-ia dizer (com ou sem ratio) que o espírito judaico n2o é ca-
pa2 de produzir o menor brotinho ou a menorflorúnha, m:~s que sua manei-
ra própria consiste em reproduzir o brotinho ou a flor que despontou no es-
pírilO de ourrem, e dt projetar, a panir daí. um quadro de conjumo" -o
que lht pcnnite comparrilhar com Freud numa cerra maneira de obrar. Avizi-
nhe-se des.sa idéia: "Semprt acreditei- sem saber por quê -que o germe
autêntico da psicanálise provinha de Breuer. não de Freud" (op. cit.. 19.38-1939.
p. 48).
2. Remarques méléeJ', p. 48: " Ptrmitam-mc reivindicar apenas um :mibuco de
grande qualidade:· uma espécie d~ coragem não aferada pelas convenções"
(frcud a Ftrtncz.i, 4 de abril dt 191 5).
3. Op. cit.. p. 30. Citação deLe rêve d'Edouard. de Wilhelm Busch, que freud
provavelmente teria apreciado.
4. Une difjitulté de la psychanalyse, GW. XII. 3-12.
5. lntroduction à l'épútemo/ogie freudienne, p. 191 ss.
6. Remarques mélées. 1931. p. 28.
7. Op. àt.
8. Grammaire ph;Jophique, § 95 , p. 151.
9. "formulations sur lcs deux principe.ç du cours des rnnemenrs ps~-chiques",
em ldées, réiultafs, prob/cmes, vol. I, p. 142.
10. Entrevista de 30dedezembrode 19 29 (com Schlick). op. cri., p. 68, reprodu-
zida em tndução francesa em ltfanijeJte du Cerde de Vienne, A. Soulez e ou-
tros, PUF, p. 250.
11. Remarquei mêlées, 1947, p. 71.

246
ÍNDICE ONOMÁSTICO

A-B Hc:ideggec, 244


Hed.clito, 86
.Adler, M., 181
Jung, C.G., 53
Ag~~ Santo, 176, 177
Baucain, 93 K
Busch, W .. 6, 242
Kam, 37-38, 222
c Kelk:r. G ., 6, 42
Kraus, 6, 16·18, 24, 217
Cícero, 36 üéhteobc:rg. 6, 110
Copérnico, 242

D M
Oarwin, 190 , 242 Marx, 181
Oescanes, 37 Moore, 6 , 11, 152
Oostoievski, 6 Musil, 227

F-G N
Fliess, W., 130 Nestcoy, 69, 222
Frazc:r, 185·187 Newman, 38-39
Frc:ud, ptmim. Newton, lll
Goeche, 111, 138 Nietzsche, 6, 161, 244
Groàdeck. 206
0-P
H-J Ostw:lld. W.. 14
Hansd, L., 18 Platio, 70
Hegel, 226, 228 Popper, 16-17, 147, 182-185
247
R Thlsroi, 6, 13
Vailiinger, 6
Rhees, 10, 14
Rolland, R., 207
Rosmini, A.• 38 W-Z
Russdl, 202-203 Waismann, 209
Weininger. 6
S-T-V Wilson, W., 229
Schopenhauer, 6, 13 Wittgenstein, passim
Spinoza, 13, 37, 236 Zen2o, 36

248