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Política e classes sociais


no Brasil dos anos 2000
Armando Boito Jr. e Andr éia Galvão ( orgs. )

Alameda
Governos Lula :
a nova burguesia nacional no poder

Armando Boito Jr.

A nova onda de internacionalização da economia capitalista, caracte-


rística do último quartel do século xx, induziu alguns autores a afirmar ou
sugerir o desaparecimento das burguesias nacionais (Miglioli, 1998; PIJL,
1998). Contrariando essa expectativa, assistimos, no Brasil da década de
2000, à ascensão política de uma nova burguesia nacional no interior do

bloco no poder vigente no Estado brasileiro.


Não se trata da velha burguesia nacional, aquela que, na análise de au ¬

tores marxistas e de partidos comunistas do século xx, poderia formar


uma frente anti-imperialista com a classe operária. Trata-se, na verdade,
de uma nova burguesia nacional, uma fração da classe burguesa à qual se
aplica, sob medida, o conceito de burguesia interna elaborado por Nicos
Poulantzas (Poulantzas, 1978). Escrevendo no segundo lustro da década
de 1970, esse autor nos alertava, no momento mesmo em que a noção de
globalização nascia da pena dos autores anglo-saxões, para a ideia de que
subsistia, no plano nacional, uma burguesia interna, que não se encontra ¬

va em vias de desaparecimento com a nova onda de internacionalização da


economia capitalista. Nos países dependentes, essa burguesia ocuparia, na
análise de Poulantzas, uma posição intermediá ria entre a antiga burguesia
nacional, passível de adotar práticas anti-imperialistas, e a velha burguesia
compradora, mera extensão do imperialismo no interior desses países. A
burguesia interna ocuparia, então, uma posição intermediá ria entre dois
extremos - entre a burguesia nacional e a burguesia compradora - teria
68 Armando Boito Jr. e Andréia Galvã o (orgs.) Polí tica e classes sociais no Brasil dos anos 2000 69

base de acumulação própria e poderia buscar, ao mesmo tempo, associar- arredia à pureza dos modelos, o que cabe e o que não cabe num modelo
-se ao capital imperialista e limitar a sua expansão no interior do país. capitalista previamente definido. Esse é um problema geral do trabalho
Pois bem, no Brasil de hoje, foi o Governo Lula que promoveu a ascen ¬ científico. Tal problema se torna mais dif ícil ainda - e esse é um terceiro
são política dessa fração da burguesia brasileira ( Boito Jr, 2005). Façamos, tipo de dificuldade - em situações em que os modelos já caracterizados
de passagem, uma advertê ncia. Não desejamos que a expressão sintética e conhecidos começam a se modificar, como é o caso de que agora nos
do título deste artigo - a nova burguesia nacional no poder - induza o ocupamos - o neoliberalismo da década de 1990 não é o mesmo que o
leitor ao erro. A grande burguesia interna brasileira nunca esteve fora do da década de 2000. Tais situações ensejam a questão de saber se estamos
poder. Como fração da classe burguesa, ela tem compartilhado o poder de diante de uma mudança de modelo ou, simplesmente, de uma mudan ¬

Estado com as demais frações de sua classe social, isto é, ela tem integrado ça no modelo. Apesar dessas três ordens de dificuldades, acreditamos ser
o bloco no poder ( Poulantzas, 1968 ). O que ocorreu é que ela melhorou possível definir, ainda que provisoriamente, o neodesenvolvimentismo:
sua posição no interior desse bloco. Teria se convertido na fração hege ¬ trata -se do desenvolvimentismo possível dentro do modelo capitalista ne-
mónica no interior desse condomínio político ? Ou seja, os seus interesses oliberal perifé rico.
específicos de fração teriam se convertido, sob o Governo Lula, no ob ¬ O capitalismo brasileiro, na década de 2000, cresceu, em m édia, o do ¬

jetivo prioritário da política económica? Nessa etapa da nossa pesquisa, bro que na década de 1990. Porém, se insistimos no prefixo “ neo” é para
preferimos deixar essa questão em aberto. Queremos apenas afirmar que indicar a existência de diferenças importantes em relação ao desenvol ¬

a trajetória recente da política económica do Estado brasileiro é tal que os vimentismo do per íodo 1930 -1980. Três diferenças merecem particular
interesses da grande burguesia interna têm um peso cada vez maior nas destaque. Todas elas são adequadas aos interesses da grande burguesia in ¬

iniciativas e medidas do Estado brasileiro. O marco inaugural desse pro ¬ terna brasileira e representam, também, o compromisso dessa burguesia
cesso foi a passagem, em 2002, da “ era FHC para a “ era Lula”. Mais tarde, com o capital financeiro internacional. A primeira característica é que o
em 2006, na passagem do primeiro para o segundo Governo Lula, a as ¬ novo desenvolvimentismo produz índices mais modestos de crescimen ¬

censão política da grande burguesia interna no interior do bloco no poder to económico porque está limitado pela acumulação financeira ainda em
tornou-se mais evidente. O projeto económico que expressa essa relação vigor, aspecto fundamental do modelo capitalista neoliberal. O peso da
de representação política entre os governos Lula e a grande burguesia in ¬ rolagem da dívida pública e do juro elevado sobre a receita do Estado e
terna é o projeto que poderíamos denominar neodesenvolvimentista. sobre o lucro das empresas do setor produtivo inibe o investimento e o
Antes de apresentar uma rápida caracterização do neodesenvolvimen- crescimento econ ómico.
tismo como uma proposta de política económica que representa os in ¬ Uma segunda caracter ística diferencial do novo desenvolvimentismo é
teresses de classe da grande burguesia interna, façamos uma observa ção que ele aceita a especialização regressiva, recuo que o modelo capitalista
metodológica. A caracterização de projetos e de modelos de desenvol ¬ neoliberal impôs aos pa íses dependentes que tinham logrado desenvolver
vimento capitalista é uma tarefa complexa. A primeira dificuldade é de um parque industrial mais complexo, como foi o caso do Brasil. Assim,
ordem teórica e se apresenta no momento de se definir os crité rios per ¬ o novo desenvolvimentismo concentra-se nos setores de processamento
tinentes para se dividir as etapas do desenvolvimento capitalista e para de produtos agr ícolas, pecuá rios ou de recursos naturais e, no caso da
caracterizar os respectivos modelos; a segunda é de ordem empírica e se indústria de transformação, est á focado nos segmentos de baixa densida ¬

apresenta no momento de detectar, na realidade histórica que é sempre de tecnológica. O velho desenvolvimentismo, diferentemente, forçava a
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abertura de brechas na divisão internacional capitalista do trabalho - em promover as empresas e os investimentos brasileiros no exterior. ( Não
primeiro lugar, a própria política de industrialização e, em seguida, as su ¬ abriremos aqui a questão de saber se o capitalismo e o Estado brasileiros
cessivas tentativas, mais ou menos bem -sucedidas, de internalizar setores estabeleceram, ou não, uma relação imperialista com os demais países
produtivos mais sofisticados como ind ú stria de base, bens de consumo da América Latina. Apontaremos a complexidade da situação. As gran ¬

durável, bens de capital, ind ústria aeroná utica, informática, ind ústria bé¬ des empresas brasileiras que têm investido fortemente na Venezuela
lica e outros. No modelo neodesenvolvimentista, as grandes empresas na ¬ dão apoio ao Governo Chavez. Marcelo Odebrecht, presidente geral da
cionais, classificadas entre as empresas mais fortes dos seus respectivos construtora que leva o seu sobrenome e que assumiu construções pesa ¬

segmentos em escala mundial, são - feita a exceção de praxe representada das naquele país, tem defendido o Governo Chavez e criticado a grande
pela Embraer - a Friboi, a Brazil Foods, a Vale, a Gerdau, a Votorantim imprensa brasileira por ela divulgar, segundo seu entendimento, uma
Celulose e outras que processam produtos de baixo valor agregado. imagem negativa e deformada do presidente venezuelano.)
Finalmente, estamos, na década de 2000, diante de um desenvolvi- Pois bem, se os governos Lula representam a grande burguesia interna,
mentismo voltado, muito mais que o seu antecessor, para o mercado devemos considerar um erro afirmar, como faz grande parte dos analistas
externo, isto é, para a exportação. Também essa caracter ística resulta da e dos críticos desse governo, que a burguesia brasileira o apoia, funda ¬

manutençã o do modelo capitalista neoliberal. O processo de reconcen ¬ mentalmente, porque ele seria o governo mais bem situado para manter o
tração da renda ocorrido nas d écadas neoliberais e a abertura da eco ¬ movimento operário e popular dentro dos limites da moderação. Um dos
nomia brasileira estimulam o foco nas exportações. Ademais, tendo os problemas dessa tese é que grande parte da burguesia não apoia o gover ¬

demais pa íses dependentes também passado por processos de abertura, no. Vemos isso na ação política e parlamentar do PSDB, do DEM e de ou ¬

uma economia capitalista dependente, poré m mais forte, como é a do tros partidos menores e também na agitação política de cunho oposicio ¬

Brasil, pode se valer dessa superioridade para ocupar mercados até en ¬


nista conservador promovida por órgãos da grande imprensa. A questão
t ão inacessíveis devido ao protecionismo mais ou menos generalizado. se coloca: por que é que temos uma burguesia oposicionista? Para enten ¬

Nesse particular, o comportamento político da grande burguesia inter ¬ dermos isso é preciso considerar que, além da grande burguesia interna,
na foi exemplar. Na década de 1990, a postura dominante da ind ústria temos também, no Brasil, uma grande burguesia perfeitamente integrada
voltada para o mercado interno foi uma posição defensiva , e também t í ¬ e subordinada ao capital estrangeiro. Ora, essa fração burguesa, que plei ¬

mida, diante da abertura comercial: os industriais reclamavam do ritmo teia uma política económica neoliberal extremada, teve os seus interesses,
acelerado da abertura e da falta de uma pol í tica de Estado que preparasse em diversas medidas, preteridos pelo Governo Lula. É por isso que essa
a ind ústria brasileira para a concorrê ncia aberta. Na década de 2000, a burguesia compradora, aliada subalterna do grande capital financeiro in ¬

burguesia interna abandonou aquela posição defensiva e, acomodando- ternacional, pleiteia, hoje, o retorno do PSDB ao poder governamental. A
-se ao modelo neoliberal, abriu mã o do protecionismo herdado do velho parte da burguesia que apoia o Governo Lula o faz, fundamentalmente,
desenvolvimentismo e partiu para a conquista dos mercados vizinhos devido a essa disputa no interior do bloco no poder, e não devido a uma
que també m tinham sido abertos. O Estado brasileiro no per íodo Lula avaliação de que Lula seria o melhor governo para segurar o movimento
adotou, em consonância com essa postura da grande burguesia interna, operário e popular.
uma política externa focada nos pa íses do Hemisfério Sul e uma agres ¬ Para levar de vencida a grande burguesia compradora e o capital fi ¬

siva política de financiamento, através do BNDES, ambas voltadas para nanceiro internacional, que são as forças burguesas mais poderosas
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economicamente e mais influentes nas agê ncias privadas de hegemonia É essa frente que o Governo Lula, manobrando em meio a dificulda ¬

( Gramsci ), a grande burguesia interna teve de aceitar integrar uma frente des, procura manter e consolidar. O presidente tem um trunfo político
com o movimento sindical e popular. Essa frente, contudo, padece de um
1 próprio: pode se apoiar, graças aos programas de transferência de renda,
pecado original: ela n ão resultou , no fundamental, da iniciativa da sua nos trabalhadores pauperizados e desorganizados, com os quais logrou
força hegem ónica , que é a grande burguesia interna. Ela foi, antes de tudo, estabelecer uma relação política de tipo populista. A política económica
0 resultado indireto e, at é certo ponto inesperado, da luta do movimento do governo propiciou também algum ganho ao sindicalismo - aumento
sindical e popular. Por que podemos afirmar isso ? Porque a luta sindical do emprego no setor público e privado, melhoria salarial do funcionalis ¬

e popular foi o principal fator, ao longo das d écadas de 1980 e 1990, para mo público, pequena recuperação do salário mínimo - além de oferecer
a constru çã o e afirma ção do Partido dos Trabalhadores e de um campo uma isca ao movimento sindical: a oficialização das centrais sindicais.
reformista eleitoralmente viá vel dirigido pelo PT. A grande burguesia n ão Como resultado, ganhou o apoio da maior parte do movimento sindical. 2

pôde creditar fundamentalmente para si a vitó ria da candidatura Eula na O governo implementou, também, políticas públicas dirigidas a reivindi ¬

eleição presidencial de 2002. A capacidade de pressão e, ao mesmo tem ¬ cações populares organizadas. O maior exemplo é o programa de cons ¬

po, as limitações pol í ticas do movimento oper á rio e popular empurra ¬ trução e financiamento da casa própria denominado “ Minha casa, minha
ram, ent ão, a grande burguesia interna para uma frente pol ítica que o vida”, programa que atende, ainda que de maneira limitada, reivindicações
próprio movimento operá rio e popular n ão tinha condições de dirigir. A dos atuantes movimentos de sem -teto espalhados por todo o Brasil.3 Essas
frente est á unificada , ainda que de maneira precá ria , em torno do neode- concessões a algumas reivindicações populares são motivo de insatisfação
senvolvimentismo da grande burguesia interna , mas depende, para o seu da burguesia, inclusive da grande burguesia interna que o governo repre ¬

sucesso, e em grande medida , do movimento oper á rio e popular - que, senta. As publicações da FIESP, por exemplo, criticam o que os industriais
no entanto, demonstra insatisfa ção com os limites desse projeto de desen ¬ consideram ser o excesso de gasto do Estado com pessoal. O governo,
volvimento. Vale dizer, o movimento operá rio e popular n ã o é a força he ¬ no entanto, preserva os interesses estratégicos da burguesia interna: não
gem ónica da frente, isto é, aquela que define os objetivos da luta , mas é a desencadeou nenhum processo amplo de regulamentação do mercado de
sua força principal, isto é, aquela de quem mais depende o sucesso da luta. trabalho ou de recuperação dos serviços públicos e dos direitos sociais.
Esse desajuste entre a força hegem ó nica ( burguesa ) e a força principal O que ele faz é impor sacrifícios menores à grande burguesia interna de
( operá ria e popular ) gera conflitos e instabilidades no interior da frente modo a lhe propiciar, através da formação de uma frente política, uma
pol ítica neodesenvolvimentista. posição no interior do bloco no poder que, por si só, essa fração burguesa
não teria força para obter. Ainda, o fato de parte significativa da equipe
1 Frente e alian ça n ão sã o a mesma coisa . A alian ça re ú ne classes ou fra ções de
governamental ser oriunda do movimento sindical desinibe a necessá ria
classe que agem , cada qual, organizada de modo independente, com base em um
programa pol í tico próprio, e que estabelecem um programa m í nimo comum . ação disciplinadora do governo frente à classe que ele próprio representa.
A frente re ú ne, de maneira mais informal , classes e fra ções de classe, n ão ne ¬ Estamos em presença, portanto, de algo semelhante àquilo que os co ¬

cessariamente organizadas de modo independente, em torno de objetivos con ¬ munistas da d écada de 1950 imaginaram como solução para os problemas
vergentes, mas cuja convergê ncia nem sempre est á clara para as forç as sociais
envolvidas na frente. A força social que est á envolvida na frente sem o saber n ão
pode dirig í - la. Mesmo que radicalize a sua a çã o, poderá, ao fazê- lo, funcionar 2 Cf. artigo de Andréia Galvão, nesta coletânea.
como instrumento da força dirigente. 3 Cf. artigo de Francini Hirata e Nathalia Oliveira, nesta coletâ nea.
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pol í ticos e sociais do Brasil: uma frente ou alian ça que unisse parte da bur
¬
interna, a fração hegemónica no interior do bloco no poder, a política
guesia brasileira ao movimento oper á rio organizado. Mas, al é m das seme ¬
de desenvolvimento estará priorizando o grande capital monopolista em
lhanças indicadas, as diferenças existentes entre aquilo que ambicionavam detrimento das pequenas e médias empresas e em detrimento também
os comunistas e a situa ção pol í tica atual são igualmente importantes. dos interesses dos trabalhadores. O que é que distingue, ent ão, essas duas
Nos próximos itens deste artigo tentarei apresentar alguns elementos frações da grande burguesia? Entendemos que é a posição de cada uma
anal í ticos e empí ricos para sustentar essas ideias. delas diante do imperialismo. A grande burguesia compradora tem inte ¬

resse na expansão quase sem limites do imperialismo, enquanto a grande


FHC , Lula e as disputas no interior da burguesia burguesia interna, embora esteja ligada ao imperialismo e conte com a
Uma an á lise rigorosa do bloco no poder vigente no capitalismo neo - sua ação para dinamizar o capitalismo brasileiro, procura impor limites
liberal brasileiro exigiria, de um lado, estabelecer com precisão quais são à quela expansão.
os segmentos económicos organizados como frações da classe burguesa Na origem do modelo capitalista neoliberal na Am é rica Latina, encon -
e, de outro lado, comparar as demandas, estratégicas e secund á rias, das tra -se uma pressão do capital financeiro internacional - conglomerados
diferentes frações burguesas com as medidas de governo que compõem que unificam ind ústrias, bancos e serviços sob o comando das finanças
a pol í tica económica do Estado. Tal procedimento poderia nos dar um - pela abertura dos mercados internos latino-americanos e pela priva-

perfil claro do bloco no poder e de sua fração hegemó nica. Para fazer isso, tização das empresas estatais bem -sucedidas da região, isto é, uma pres ¬

precisar íamos dispor de um trabalho de pesquisa maior do que aquele que são pelo desmonte do modelo capitalista desenvolvimentista herdado, no
desenvolvemos at é aqui. Podemos, contudo, apresentar alguns elementos. caso do Brasil, do per íodo Vargas. Dizemos abertura em sentido amplo:
Tanto a grande burguesia compradora quanto a grande burguesia in ¬
abertura comercial para facilitar a importação de produtos industriais das
terna integram o mundo do grande capital. Trata -se das grandes empresas economias centrais e abertura para investimentos estrangeiros nas á reas
dotadas de poder econ ó mico e que, na maioria dos casos, atuam como até então controladas por empresas estatais ou por empresas privadas na ¬

empresas monopolistas - ou oligopolistas - nos seus ramos de ativida ¬


cionais. Essa pressão se dirigia para os mais variados segmentos econó ¬

de. O deslocamento da hegemonia pol í tica no interior do bloco no po ¬


micos: industrial, bancá rio, agrícola, de seguros, de saúde, de educação e
der monopolista de uma dessas duas frações para outra n ão é, portanto, outros. Havia a pressão, també m, para o ingresso das economias latino -
uma mudan ça pol í tica de alcance maior (Saes, 2001). A grande burguesia -americanas no circuito internacional de valorização financeira, com a

compradora e a grande burguesia interna podem se revezar na posição criação de uma nova legislação que facilitasse o investimento volátil nos
central nesse bloco no poder sem promoverem alterações de fundo na títulos da dívida p ú blica desses países ou nas suas bolsas de valores e que
pol í tica econ ó mica e social e sem provocarem rupturas institucionais garantisse o repatriamento seguro e rápido desses investimentos finan ¬

no Estado ou no regime pol í tico - diferentemente daquilo que ocorreu ceiros em condições cambiais favoráveis. Um segmento amplo, heterogé ¬

em conjunturas de mudan ças pol í ticas mais importantes, como em 1930, neo e poderoso da burguesia brasileira ganhou muito quando Collor e,
quando o grande capital cafeeiro foi apeado da hegemonia no Estado, ou depois dele, FHC, assumiram essa política. Grupos financeiros nacionais
em 1964, quando a velha burguesia nacional e a frente populista foram beneficiaram -se com a política de juros elevados e de liberdade para en ¬

derrotadas. Seja a grande burguesia compradora, seja a grande burguesia trada e saída de capitais, empresas nacionais que se associaram a grupos
estrangeiros para participar dos leilões de empresas estatais, empresas
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comerciais ligadas à importação, os grupos empresariais das á reas de saú ¬ A grande burguesia interna re ú ne setores variados - grupos indus ¬

de e de educação, uma parte dos setores internacionalizados da ind ústria triais, bancos, agronegócio, construção civil e outros. O que unifica seto ¬

local e outros que viram , e de fato tiveram, na política de privatização e res tão heterogé neos da classe capitalista brasileira numa mesma fração
de abertura novas oportunidades de negócios e de associação com o ca ¬ burguesa é a sua disputa com o capital financeiro internacional, tanto no
pital estrangeiro. Ainda está para ser feita uma pesquisa que nos dê um interior do país quanto - e cada vez mais - na arena internacional, prin ¬

retrato fiel desses grupos. Com o que sabemos, podemos afirmar que se | cipalmente em países do Hemisfério Sul. As contradições entre os setores
trata de um setor poderoso da burguesia brasileira que, de dentro do país, produtivo e bancá rio, entre empresas exportadoras e empresas voltadas
também pressionava os governos para que dessem início à temporada de principalmente para o mercado interno, enfim , as contradições no inte ¬

abertura ao comércio e ao investimento externo. rior da grande burguesia interna, são tratadas, por essa fração de classe,
Havia, contudo, outro setor da burguesia brasileira que relutava em como contradições secundá rias frente àquela representada pela sua dis ¬

aceitar a abertura neoliberal. Esse setor, que veio a formar a fraçã o que es
¬ puta com o grande capital internacional. A grande burguesia interna teme
tamos denominando grande burguesia interna, aderiu tardiamente à can ¬ ser engolida ou destru ída pelos grandes grupos económicos estrangeiros.
didatura Collor e o fez mais para evitar a vitória de Lula do que por ade ¬ Exemplifiquemos. Os industriais reivindicam preferência para os seus
rir ao programa do ex-governador de Alagoas. Isso explica porque, logo produtos no mercado nacional, isto é, querem protecionismo alfandegá ¬

na primeira crise política do Governo Collor, a grande burguesia interna 1 rio; os banqueiros solicitam a intervenção do Estado para limitar o ingres ¬

abandonou-o - n ão é supé rfluo lembrar que a Federação das Ind ústrias do | so de capital estrangeiro no seu setor; os usineiros do interior do Estado
Estado de São Paulo ( FIESP ) e outras associações de industriais brasileiros de São Paulo reivindicam a associação da Petrobr ás com as usinas para a
aderiram à campanha nacional pelo impeachment do Presidente Collor, produção de etanol - os usineiros temem, no dizer de um de seus repre ¬

tendo, inclusive, enviado diretores seus para arengar as massas nos gran ¬ sentantes, que o equilíbrio entre o capital nacional e o estrangeiro seja
des com ícios do movimento “ Fora Collor” 4 Os grandes industriais, setor • rompido em favor desse último, caso a Petrobr ás não coloque o seu poder
que, juntamente com o agronegócio, formam o segmento mais impor ¬ económico a favor dos usineiros nacionais; a indústria naval reivindica
tante da grande burguesia interna, mantinham uma relação contraditória que as compras do Estado dêem preferência para os estaleiros nacionais;
com o programa neoliberal. Apoiavam, como toda a burguesia, a política as grandes empresas ligadas à exportação e as empresas interessadas em
social do neoliberalismo: desindexação dos salários, desregulamentação realizar investimentos e obras de construção pesada no exterior exigem a
das relações de trabalho, redução e cortes nos direitos sociais - nas áreas ação política e comercial do governo para a conquista de mercados exter ¬

de saúde pública, de previdê ncia pública e de educação. Porém, relutavam nos e para favorecer e proteger os seus investimentos no exterior. Enfim,
em aceitar ou mesmo se opunham a aspectos importantes da política eco ¬ diante do grande capital financeiro internacional, a grande burguesia in ¬

n ómica neoliberal: rejeitavam a política de abertura comercial, que amea - i terna, mesmo tendo interesse em atrair investimentos estrangeiros para
çava o mercado cativo que o desenvolvimentistmo criara para a ind ústria o Brasil, procura preservar e ampliar as posições que detém no sistema
local, e procuravam manter posições de força que tinham conquistado no económico nacional e no exterior. Para isso, conta com a ação protetora e
capitalismo brasileiro e que eram ameaçadas pelas reformas neoliberais. ativa do Estado brasileiro - de passagem, convém observar que, em con ¬

tradição com o conte údo manifesto da ideologia neoliberal, a burguesia


Cf. artigo de Danilo Martuscelli, nesta coletânea. não pleiteia um “ Estado mínimo” para a classe burguesa...
4
f
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Tratemos de indicar quais foram as posições dessas duas grandes fra ¬ foram sendo implantadas, acumularam contradições. A Federação das
ções burguesas nos governos das décadas de 1990 e de 2000. Indústrias do Estado de São Paulo ( FIESP ) elevou o tom contra a política
Os dois governos de Fernando Henrique Cardoso não são homogéne ¬ de desindustrialização do governo e a Força Sindical, central que tinha
os. Ambos podem , apesar disso, ser caracterizados como governos que apoiado as reformas neoliberais e o governo FHC, iniciou um processo
priorizaram o interesse da grande burguesia compradora e do capital fi ¬ de revisão de sua posição. Essa central organizou greves com ocupação
nanceiro internacional. do local de trabalho na sua principal base operá ria, os metalúrgicos de
O primeiro mandato foi caracterizado por uma ação política ofensi ¬ São Paulo, para protestar contra a abertura comercial e o fechamento de
va. FHC logrou impor as reformas neoliberais e mostrou -se exitoso onde empresas. A FIESP, juntamente com a Confederação Nacional da Ind ústria
Collor de Melo fracassara. Em seu primeiro governo, FHC promoveu uma (CNI), organizou um protesto nacional em Brasília, com industriais vin ¬

forte redução das tarifas aduaneiras, o que, combinado com a sobrevalori- dos de todas as regiões do país, em maio de 1996. Segundo o noticiário da
zação do câ mbio introduzida pelo Plano Real, fez crescer muito as impor¬ época, os empresá rios que estiveram em Brasília pertenciam, principal ¬

tações e, inclusive, a importa ção de bens manufaturados intermediá rios mente, aos setores mais afetados pela abertura comercial - bens de capital,
e finais. Em 1990, a alíquota m édia das tarifas de importação era 40 % e a componentes eletrónicos, têxteis, calçados e brinquedos. Os industriais
alíquota mais frequente, de 32,2%. Em 1992, graças às medidas de Collor protestavam contra a “ política de sucateamento da indústria” e a abertura
de Melo, ambas caí ram para a casa dos 20%. Uma vez empossado, FHC comercial, e pediam desvalorização do câmbio e diminuição da taxa de
tratou, ainda em 1995, de impor uma nova e drástica redução de tarifas. juros (Boito Jr., 1999, p. 62-63). Essa faceta do movimento permitiu que
A alíquota média caiu para 12,6 % e a mais frequente para o valor quase a FIESP buscasse uma aproximação com 0 movimento operário paulista e
simbólico de 2%.5 Como é sabido, o resultado dessa pol ítica foi que a ba ¬ ganhasse a simpatia das centrais sindicais para o protesto de Brasília. O
lança comercial brasileira passou a apresentar déficits crescentes a partir presidente da FIESP tomou a iniciativa de visitar o presidente da CUT na
de 1995, quando o déficit foi de 3,1 bilh ões de dólares; em 1997, já se en ¬ sede dessa central, posou para fotos com Vicentinho e com Luiz Antonio
contrava na casa dos 10 bilhões.6 Ainda no primeiro mandato, FHC avan ¬ de Medeiros, da Força Sindical, e publicou artigo na grande imprensa de ¬

çou celeremente na política de privatizações. Depois das sider ú rgicas, da clarando que a FIESP apoiaria a greve geral que estava sendo preparada
indústria de fertilizantes, qu í mica e outras, chegou a hora da privatização pelas duas centrais. A atitude geral dos industriais era, naquele momento,
dos bancos estatais, das ferrovias, das estradas de rodagem, da distribui ¬ de radicalização da oposição à abertura comercial e à política de juros.7
ção de energia elétrica, da telefonia, do serviço de esgoto e de outros seto ¬

7 Em reunião da Diretória da FIESP, realizada no início de maio de 1996, nada me¬


res produtivos e de serviços.
nos que 24 diretores presentes fizeram quest ão de tomar a palavra para apoiar,
Já o segundo mandato, foi marcado por uma ação política defensiva, sem restrições, os protestos organizados pelo presidente da entidade contra a
na qual o governo procurava safar-se da situa ção criada pela crise cambial política de abertura comercial. Alguns explicitaram sua posição sobre a proposta
de 1999 e pelo aumento da insatisfação em setores do movimento popu ¬ de greve geral, como Gerson Edson Toledo Piza, diretor do Ciesp de São Carlos:
“ Foi uma atitude corajosa de V. Sa. ao se manifestar no sentido de que, se for
lar e da própria burguesia. As reformas neoliberais, na medida em que
necessário, haverá uma paralisação simbólica de empresários e trabalhadores.” ;
5 DIEESK: Anuário dos Trabalhadores - 1996:1997. Sã o Paulo: DIEESK, 1996. Ver Marcelo Kuanes, diretor superintendente da Kone Indústria de Máquinas decla ¬
Gráfico 17, p. 175. rou, dirigindo-se ao presidente da FIESP: “ Já discordei de sua filosofia de traba
¬

6 Op. cit., Tabelas 117, 118, 119, às p. 172, 173, 174. lho, porém, hoje, não tenho como deixar de parabenizá-lo e, desde já, aderir ao
80 Armando Boito Jr. e Andréia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 81

Diante das dificuldades económicas no setor externo - a crise cambial - ofensiva na implantação da política neodesenvolvimentista. A desativa ¬

e da pressão política interna, FHC demitiu Gustavo Franco da Presidência ção a frio da Alca, a diplomacia e a política de comércio exterior visando
do Banco Central e desvalorizou o Real. Tal desenlace representou um à conquista de novos mercados no hemisfé rio sul, o fortalecimento das
movimento de moderação da abertura neoliberal, mas não significou um relações da economia brasileira com as economias sul- americanas, o con-
rompimento com o modelo. Nos dois mandatos de FHC, a política econó ¬
gelamento do programa de privatização, o fortalecimento económico e
mica de abertura comercial - ainda que abrandada pela desvalorização político das empresas estatais remanescentes e o novo papel do BNDES na
do Real em 1999 -, a política de privatização, de desregulamentação fi ¬ formação de poderosas empresas brasileiras nos mais diferentes segmen ¬

nanceira e de construção da ALCA, essa política económica representa ¬ tos da economia, configura um conjunto de medidas dessa política econó ¬

va a hegemonia da grande burguesia compradora e do capital financeiro mica que tende a priorizar os interesses da grande burguesia interna em
internacional no interior do bloco no poder. Ela provocava insatisfação detrimento, muitas vezes, dos interesses da grande burguesia compradora
e protesto não apenas no movimento operário e popular, mas também, e e do capital financeiro internacional.
ao contrário do que supõe ou afirma a maioria dos analistas, provocava O segundo Governo Lula investiu muito na criação e no fortalecimen ¬

insatisfação e protesto em setores da burguesia brasileira, como era o caso to dos grandes grupos económicos nacionais, com programas especiais de
da grande burguesia industrial acossada pela suspensão do protecionismo crédito e de participação acionária visando, inclusive, promover o inves ¬

ao mercado interno. timento desses grupos no exterior. Tal política acarretou uma redefinição
Passemos, agora, às considerações sobre os dois governos Lula. Esses do papel do BNDES: de banco que financiava as privatizações nos governos
dois governos tampouco são homogéneos. Contudo, em ambos, verifica ¬
FHC, foi convertido num banco estatal de fomento ao grande capital pre ¬

mos um elemento de continuidade política. A política económica da era dominantemente nacional.8 No ano de 2008, quase todas as vinte maiores
Lula configura, como já indicamos, uma trajetória de melhoria da posição empresas brasileiras que atuavam no exterior contavam com participação
ocupada pelos interesses da grande burguesia interna em detrimento dos acionária do BNDES, através da BNDESPAR, OU de fundos de pensão das
interesses da burguesia compradora e do capital financeiro internacional. empresas estatais ou, ainda, com grande aporte de crédito a juros facilita ¬

Se a tática política de FHC foi adotar a ação ofensiva no primeiro mandato dos por aquele banco.
para, diante das dificuldades, recuar para a política defensiva do segundo, Vejamos a tabela da página seguinte.
a de Lula fez o inverso. Começou cauteloso, com um primeiro governo
marcado pela tática defensiva, cujo principal objetivo era não hostilizar o
capital financeiro internacional, e passou, no segundo governo, para uma
t ática ofensiva na implanta ção da política neodesenvolvimentista da gran ¬
de burguesia interna. Ironicamente, foi a chamada “ Crise do Mensalão”,
que o capital financeiro internacional e a burguesia compradora imagi¬
navam representar 0 toque de reunir para reconquistar o poder gover ¬
namental, foi essa crise que induziu o Governo Lula a passar para a ação
movimento de greve geral caso venha a acontecer.”. Revista da Indústria , FIESP, 8 Para uma comparação da atuação do BNDES no setor de telecomunicações nos
São Paulo, 6 de maio de 1996. ( Apud Boito, 1999, p. 63) governos FHC e Lula, cf. artigo de Sávio Cavalcante, nesta coletânea.

L
82 Armando Boito Jr. e Andréia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 83

Investimento do BNDES e dos Fundos de Pensão das estatais Globo Comunicação e


nas 20 maiores empresas brasileiras, segundo a receita líquida, 18 -
Participações S.A
que atuavam no exterior - Ano de 2008
19 J.B.S S.A. ( Friboi) Participação direta do BNDESPAR em 13% do capital
Participação direta do BNDESPAR
1 Petrobrás Aracruz Celulosa S.A. /
em 7,62% do capital Participação direta do BNDESPAR em 34,9 % do capital
20 Votorantim Celulose e
2 Petrobrás Distribuidora Controlada pela Petrobrás na nova empresa ( Fibria )
Papel S.A.
Participação direta do BNDESPAR em 4,8% do capital e
Fonte: Mansueto Almeida, “ Desafios da real política industrial brasileira no século
3 Companhia Vale dos fundos de pensão Previ, Petros, Funcesp e Funcef
. Apud , revista Retrato do Brasil, edição no 30, janeiro de 2010, p. 11.
xxi”
no bloco controlador
4 Ambev -
Companhia Brasileira Vendida em 2007 para Petrobrás, Lembremos que a tabela não apresenta os empréstimos vultuosos - e
5 a juros favorecidos - concedidos pelo BNDES para permitir a formação e
de Petróleo Ypiranga Braskem e Grupo Ultra
Participação direta do BNDESPAR o fortalecimento desses grupos. Diante desses dados, pode-se observar,
6 Braskem S.A.
em 5,22% do capital em primeiro lugar, a importâ ncia das empresas e fundos de pensão vin ¬

Companhia Sider ú rgica Participação direta do BNDESPAR culados ao Estado para a grande burguesia interna brasileira. Podemos
7
Nacional em 3,64% do capital
fazer a seguinte conjectura: um programa extremado de privatização dei ¬

Gerdau Aços Longos


8 Participação direta do BNDESPAR em 3,5% do capital xaria a grande burguesia privada brasileira vulnerável e indefesa diante
S.A .

Previ detém 10,4% do capital; Grupo Votorantim 13%


do grande capital financeiro internacional. Não é toda a burguesia que al ¬

9 Usiminas meja a privatiza ção indiscriminada. Observamos, também, que a grande


e Grupo Camargo Correa, 13%
Previ detém 7,3% do capital e BNDES participou da burguesia interna compreende fundamentalmente o capital privado, mas,
10 Sadia S.A.
fusão da empresa com a Perdigão em 2009 também, empresas estatais, e abarca diferentes setores da economia - mi ¬

Centrais Elétricas Participação direta do BNDESPAR em 11,81% e da neração, siderurgia, agronegócios, indústria de transformação, empresas
11
Brasileiras União em 53,99 % do capital
de transporte e outras. O BNDES tem sido o agente estatal de defesa e de
12 TAM Linhas Aéreas S.A . -
fortalecimento desses grandes grupos. Note-se que a tabela não inclui o
Participação direta do BNDESPAR em 5,05%, da Previ
13 Embraer setor bancá rio. Diga-se, de passagem, que os dirigentes do PSDB, com o
em 14% e da União em 0,3% do capital
Participação do Estado de Minas Gerais
ex- presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador José Serra à
14 Cemig Distribuição S.A. frente, veem se manifestando sistematicamente na grande imprensa con
em 50,96 % do capital ¬

Previ detém 14,16 % do capital; Petros, 12,04%; tra a nova política do BNDES. Tal política estaria aumentando a dívida
Perdigão Agro-
15 Sistel, 3,98%; BNDESPAR participou da fusão pública, posto que os fundos mobilizados pelo BNDES são obtidos através
Industrial S.A.
da empresa com a Sadia em 2009 do lançamento de t ítulos do governo, e subsidiando as grandes empresas,
Participação indireta da BNDESPAR já que a taxa de juro de longo prazo, utilizada pelo BNDES para empres
l6 Gerdau Açominas S.A. ¬

por meio da Gerdau Aços Longos


tar às empresas, é inferior à taxa básica de juro, que é a que o governo
Participação direta do BNDESPAR
17 Bertin S.A . paga para levantar os fundos que destina àquele banco estatal. Estar íamos
em 26,98% do capital
diante de um caso em que o dinheiro público é oferecido a um punhado

JL
84 Armando Boito Jr. e Andreia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 85

de empresas de amigos do governo. Ora, o governo FHC fez o mesmo, para aumentar o crescimento potencial da economia”.9 O economista do
apenas com outro objetivo: privatizar as empresas estatais. Além do novo Instituto Internacional de Finanças apresentou Serra como o candidato
papel do BNDES, a cúpula tucana critica, sintomaticamente, outras inicia¬
que iria respeitar e até endurecer o controle fiscal, que reduziria os juros e
tivas do governo na área de política económica, como os grandes empre ¬
desvalorizaria o Real. Seu eventual governo daria menos ênfase às estatais,
endimentos capitaneados pelo Estado ou por empresas estatais criadas ou mais apoio ao setor privado e usaria a política tributária para encorajar os
reativadas pelo Governo Lula e que associam grandes empresas predomi ¬
investimentos privados.
nantemente nacionais. Esses são os casos da construção da Usina de Belo Como se vê, a luta no interior do grande capital monopolista, luta que
Monte, do projeto de construção do trem de alta velocidade entre São opõe a grande burguesia compradora à burguesia interna, reflete-se no
Paulo e Rio de Janeiro, da nacionalização e democratização da internet sistema partid ário brasileiro. A ala majorit ária do PSDB, vanguarda elei ¬

em banda larga e outros. Depois de priorizar os estaleiros nacionais e a toral do neoliberalismo no Brasil, tem representado, a despeito da fase
indústria bélica interna nas compras do Estado, o Governo Lula baixou inicial da história desse partido, 0 grande capital financeiro internacional
medida provisória, em julho de 2010, oficializando tal prioridade. e os interesses dos empresários e banqueiros brasileiros estreitamente li ¬

Há sinais na imprensa da insatisfação do grande capital financeiro in


¬
gados a esse capital. O PT, nascido como um partido de tipo socialdemo-
ternacional com tais medidas e da aspiração dos grandes bancos interna ¬
crata e fortemente vinculado ao movimento sindical, vem, desde meados
cionais pela volta do PSDB ao comando do governo. Em junho de 2010, o da década de 1990, quando o então chamado Campo Majoritá rio iniciou o
Instituto Internacional de Finanças ( IIF ), associação que reúne mais de processo de reformulação programática e organizacional do partido, rea ¬

500 grandes bancos das principais economias capitalistas, deixou entre ¬


lizando um movimento em direção aos interesses da grande burguesia in ¬

ver, em congresso realizado na cidade de Viena, a sua preferência pela terna. Sub-representada na imprensa e no sistema partidário, essa fração
candidatura presidencial de José Serra na eleição presidencial daquele ano burguesa acabou se fazendo representar no plano partidário e, devido a
e sua desconfiança frente à então candidata Dilma Rousseff. Frederick circunstâncias particulares, por um partido político que nasceu do movi ¬

Jaspersen, conferencista do encontro de Viena, afirmou, às centenas de mento operário e popular.


banqueiros presentes, que uma vitória de Dilma Rousseff na eleição pre ¬

sidencial traria maior risco para a economia brasileira na comparação As rela ções políticas da grande burguesia interna
com José Serra. O jornal Valor Económico obteve cópia dessa palestra. com o Governo Lula
Jaspersen exibiu para a plateia um quadro sobre “ diferenças centrais” en
¬
O tratamento sistemático desse tema exigiria informações e análise da
tre os dois candidatos. Ele identificou um eventual governo de Dilma com
atuação política do conjunto da grande burguesia interna, das instituições
aumento dos gastos públicos, relaxamento do controle da inflação e ên ¬

de representação da burguesia e do processo de tomada de decisões no


fase em política industrial, com as estatais tendo um papel mais forte na
Governo Lula. Não temos condições de realizar, por ora, essa empreita ¬
economia. Destacou também a falta de experiência de Dilma e asseverou
da. Iremos, como passo inicial, confrontar as demandas da grande bur ¬
que, com ela, teríamos: “ Maior papel do Estado, marco regulatório mais
guesia industrial paulista com alguns aspectos da política desse governo.
influenciado por pressões políticas, maior risco de derrapagem macroe-
conômica, pouco progresso nas reformas estruturais e alcance limitado
9 O Valor Econó mico , 11/06/ 2010, matéria assinada pelo jornalista Assis Moreira
que cobria o encontro de banqueiros em Viena.

1
86 Armando Boito Jr. e Andréia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 87

Pretendemos indicar que a relação que se estabelece entre tal governo e As matérias criticam o predom ínio do “ monetarismo sobre o chão de
essa burguesia é uma relação de representação política reconhecida de fábrica”, a “ rentabilidade superlativa para a ciranda financeira” (Skaf, p.
parte a parte. 7); o “ atual terrorismo monetário que mantém as taxas de juros em níveis
O ano de 2004 foi marcado, na FIESP, pela posse da nova diretória da exorbitantes e dá ao setor financeiro injustificável preponderância sobre
entidade, presidida por Paulo Skaf. Sabe-se que o candidato Skaf contou o produtivo” ; “ os custos do financiamento de longo prazo” (Steinbruch,
com 0 apoio do Palácio do Planalto. Uma das primeiras iniciativas da p. 8) ; 0 excesso de carga tributária sobre o setor produtivo e apresenta
nova diretória foi relançar a publicação Revista da Indústria, periódico considerações críticas, ainda que cuidadosas, à proposta da Alca que po ¬
que ficara seis anos sem aparecer, pois fora retirado de circulação pela deria “ suprimir empregos no Brasil”. As mesmas matérias propõem que a
diretória anterior da entidade. Paulo Skaf fez do relançamento da revista FIESP e a ind ústria deveriam “ levantar novamente a bandeira do desen ¬

e de sua posse na presidência da FIESP um grande acontecimento político, volvimento e da indústria nacional”. De passagem, e de modo sutil, surge
com a participação ativa do Presidente Lula. 10 uma crítica à posição das diretórias da entidade na “ era FHC . Depois de
A nova diretória propôs, nas páginas da revista, aquilo que chamou enaltecer a luta dos pioneiros da indústria, a matéria de Ricardo Viveiros
de uma nova atitude, pró-ativa, junto ao governo (Lula) e a revista trouxe afirma: “ Hiatos de omissão não fazem justiça à gé nese combativa e re¬
maté rias assinadas pelo seu presidente e pelo primeiro e segundo vice- alizadora da FIESP e à capacidade de numerosos dos seus dirigentes de
- presidentes, todas elas criticando o monetarismo, a abertura comercial, conduzir a indústria paulista à vitória nas mais diversas conjunturas. É
os juros elevados e a carga tributária que seriam herança da década de esse compromisso histórico com a Pátria e 0 desenvolvimento que está
1990. A função da Revista da Indústria , segundo afirma uma de suas re ¬ sendo resgatado pela nova diretória da entidade.” ( Ricardo Viveiros, FIESP
portagens, seria colaborar nessa “ nova era na FIESP - uma era pró-ativa, resgata compromisso com 0 desenvolvimento , p. 20).
de atuação junto às autoridades governamentais para que as decisões pas ¬ Também de passagem, a maté ria de Ricardo Viveiros lança um ace ¬

sassem a atender os interesses da indústria. “A nova diretória da FIESP ir á no de aliança com os trabalhadores e demais segmentos do setor produ ¬

recuperar tempo e espaço perdidos no seu posicionamento como prota ¬ tivo: “Além disso, é preciso ampliar o entendimento com entidades dos
gonista das grandes decisões nacionais.” (Ricardo Viveiros, FIESP resgata trabalhadores, agropecuária, comércio e serviços, articulando ações e
compromisso com 0 desenvolvimento, p. 19) propostas, coesas e viáveis, para remover os empecilhos à produção e a
Esse nú mero da revista trouxe três matérias políticas assinadas por criação de empregos e renda.” ( idem , p. 19 ) Tal aliança teria como obje ¬
Paulo Skaf, por Benjamin Steinbruch e por João Guilherme Sabino Neto, tivo, no corpo da matéria, combater o monetarismo. Porém, um alerta:
respectivamente, presidente, primeiro e segundo vice-presidentes da enti ¬ “A postura não é de contraposição à área financeira, já presente no po ¬
dade; maté rias nas quais aparecem críticas e propostas. Há também uma der público, mas sim fazer com que o parque empresarial, representado
maté ria assinada pelo jornalista Ricardo Viveiros que relata as posições por nossa entidade, também seja atuante no Legislativo e no Executivo.”
da nova diretória, apresentando - as como verdadeira ruptura em relação ( Ricardo Viveiros, FIESP resgata compromisso com 0 desenvolvimento, p.
à posição que vinha sendo mantida até então pela associação dos indus ¬ 19). O primeiro vice-presidente da FIESP pleiteava uma política para a “ in ¬
triais paulistas. dispensável formação de grandes grupos nacionais internacionalizados”
(Steinbruch, p. 8), no que, como já vimos, foi atendido pela nova função
10 Ver as diversas reportagens e depoimentos no nú mero 101, de novembro de
atribuída ao BNDES pelo governo Lula. Pleiteava-se, ainda, a valorização
2004, da Revista da Ind ústria, publicação mensal da FIESP.
88 Armando Boito Jr. e Andreia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 89

do setor sucroalcooleiro, que “ foi levado à crise na década de 1990” e “ o se omitido ou protestado muito timidamente contra política de abertura e
aprofundamento das reformas previdenciária, tributá ria, fiscal, política, monetarista dos governos de FHC.
trabalhista, sindical e do judiciário” ( Ricardo Viveiros, p. 19 ). A FIESP, como lembramos, participou da campanha do “ Fora Collor”
O número seguinte da Revista da Ind ústria cobre a solenidade de posse em 1992. Porém, em 2005, a associação dos industriais não abandonou
da nova diretória da federação. Tal solenidade foi uma demonstração de
11
o Governo Lula na Crise do Mensalão. A Revista da Ind ústria permane ¬

força e de unidade da FIESP com o governo federal. A posse foi realizada ceu longo tempo calada, no que diz respeito às denúncias de corrupção
no grandioso edifício do Museu do Ipiranga, na zona sul da cidade de apresentadas durante aquela crise. Esse silêncio, é claro, já era favorável
São Paulo, contando com a presença de quatro mil convidados, dentre ao governo. Contudo, na edição de agosto de 2005, a publicação dos in ¬

os quais Lula, Alckimin, Marta Suplicy, governadores de outros Estados dustriais rompeu o silêncio e o fez para criticar a oposição. Publicou uma
e presidentes de dezoito federações estaduais da indústria. A foto da re ¬
reportagem falando da crise política, na qual sequer aparece a palavra
portagem é monumental e traz Lula ao centro. O tom da matéria é ufa- “ mensal ão”, e uma entrevista com o presidente da entidade, Paulo Skaf,
nista. Termina em tom grandiloquente e até ridículo: “ Nas escadarias do sobre o mesmo assunto. A ideia central da reportagem e da entrevista era
Museu, defronte para o famoso ( riacho do) Ipiranga, diretores e conse ¬
a mesma. Poderíamos resumi-la assim: “ Chega de falar em crise, vamos
lheiros da nova FIESP perfilaram com dezenas de embaixadores, deputa ¬
trabalhar!” 13 Realmente, a ação oposicionista do PSDB não foi bem vista
dos, senadores, desembargadores e secretários numa foto histórica para a pelos industriais.
indústria paulista. Num discurso inflamado, o novo presidente da FIESP Paulo Skaf, na sua entrevista, repetiu, com as mesmas palavras e de ma ¬

bradou em defesa da Ind ústria, como legítima autoridade produtiva. E o neira exata, aquele que era o discurso de todos integrantes da equipe gover ¬

grito ecoou!” ( maté ria “ O Grito da Indústria”, p. 6). namental, das lideranças do PT e dos partidos aliados do governo: “ vamos
Passadas as comemorações, no in ício de 2005, a nova diretória da FIESP voltar à agenda positiva”. Dentre outras coisas, Skaf afirmou o seguinte.
já se encontrava em ação. Foi a FIESP quem tomou a iniciativa de propor
e elaborar o projeto de lei que autorizou os exportadores a reterem par ¬ Não é possível... Existem projetos que n ã o podem parar no
te das divisas obtidas e abrirem conta nominada em moeda estrangeira, Congresso, no Executivo. Então, o nosso esforço tem sido para
como compensação pela valorização cambial. O Governo Lula encampou elencar, entre os inúmeros projetos em tramitaçã o, os priori ¬

e aprovou a proposta dos industriais. O nú mero 103 da revista relata esse tá rios, e fazer com que o país caminhe paralelamente aos tra ¬

balhos das CPIS, que são importantes, mas há 150 milhões de


processo no qual podemos detectar a participação pró-ativa da grande
brasileiros que precisam e anseiam pelo andamento de outras
burguesia interna, como fora prometido pela diretória de Paulo Skaf. A 12

questões, ( p. 18)
posse de Paulo Skaf foi um importante indicador da consolidação do novo
arranjo no interior do bloco no poder em que a grande burguesia indus ¬

Na reportagem “ Nada segura a indústria”, assinada por Jane Soares,


trial interna firmou -se como base de classe do Governo Lula. Nessa hipó ¬

vamos encontrar o mesmo bordão: “ chega de falar em crise, vamos


tese, a diretória anterior foi um “ hiato de omissão” no qual a FIESP teria

13 Revista da Ind ústria, n. 110, agosto de 2005. Ver matérias “ O tempo não espera”,
11 Revista da Ind ústria, n. 102, dezembro de 2004. entrevista com Paulo Skaf às p. 17-19, e a reportagem intitulada “ Nada segura a
12 Revista da Indústria, n. 103, janeiro de 2005. indústria”, p. 41- 47.
90 Armando Boito Jr. e Andreia Galvã o (orgs.) Polí tica e classes sociais no Brasil dos anos 2000 91

trabalhar”. Somos também informados de que um grupo de grandes em ¬ empresariado brasileiro para promover um processo de impeachment
presários, dirigentes das mais variadas associações empresariais, foram contra Lula. O problema residiria no sistema político, não neste ou naque ¬

em comitiva à Brasília para hipotecar, de modo velado, mas firme, apoio le governo. A revista, em momento algum, manifesta animosidade contra
ao Presidente Lula. Na época, no auge da Crise do Mensalão, os jornais o Governo Lula. Pelo contrário, embora reconheça, ao falar em reforma
estamparam na primeira página uma foto de Lula defronte ao Palácio do política, a legitimidade do debate em torno da corrupção, a matéria re ¬

Planalto e ladeado pela nata do grande empresariado e por inú meros diri ¬ torna, ainda que com ênfase menor, ao “ chega de falar em crise, vamos
gentes de associações empresariais do Brasil. trabalhar”, ideia que desautoriza e desqualifica as críticas à corrupção.
Mas, voltemos ao n ú mero de agosto de 2005 da Revista da Ind ústria.
Paralelamente a esse debate (sobre a reforma política, ABJ ) que,
O empresariado defende que Executivo e Legislativo saiam do juntamente com as vá rias CPIS em andamento, parece estar su ¬

atual imobilismo e adotem as medidas necessárias para estimu ¬


gando toda energia dos parlamentares e do governo, a socieda ¬

lar a produção. ( ... ) Atualmente, o que preocupa os empresá rios de tenta manter um outro, que antes da crise estava mais bem
é a crise política sem precedentes ( ... ). Nesse contexto delicado, colocado na lista de prioridades. Esta inclui, por exemplo, a re ¬

mais uma vez os empresários se organizam, ( p. 43) forma jurídica, a cambial e outras medidas para assegurar a con ¬

No início do mês, atendendo a pedido do presidente da tinuidade da expansão econ ómica, uma agenda mínima, enfim,
Rep ública ( ... ) foram em comitiva ao Planalto. O grupo de 24 como defende a FIESP e seu presidente Paulo Skaf. ( p. 48- 49 )
empresá rios apresentou uma pauta de reivindica ções singelas
( .. . ). Os empresá rios querem, agora, uma agenda mí nima que Não só retoma, a tese do “ chega de falar em crise, vamos trabalhar”,
garanta a governabilidade. ( ... ) ( p. 42) como d á, de passagem, um puxão de orelhas nos partidos burgueses de
No mesmo dia em Brasília, o presidente da FIESP e diretores oposição ao Governo Lula. Afinal, quem é o responsável pelo fato de esse
també m se encontraram com a ministra Dilma Roussefff, para “ debate menor” estar sugando as energias do Congresso e do governo?
tratar de projetos que aguardam o encaminhamento da Casa A FIESP tinha fortes motivos para apoiar Lula. Seu canal de comuni ¬

Civil ao Congresso Nacional. ( ... ) ( p. 43) cação com o governo estava azeitado. No mesmo n ú mero de setembro de
‘O momento é importante para o despertar. O Brasil não 2005 da Revista da Ind ú stria , a matéria intitulada “ Rumo à modernidade”,
pode ficar somente por conta de apuração de denú ncias de des ¬

assinada pela jornalista Fernanda Cunha, revela como foi o processo pelo
vios ou privilégios.’ reforçou Skaf. (p. 44) qual FIESP tomou a iniciativa de elaborar o projeto de lei que conferia aos
exportadores o direito de reter parte das divisas que obtêm com as expor ¬

O n ú mero seguinte da Revista da Indústria , de setembro de 2005, tra ¬

tações.16 Essa medida foi muito importante para compensar as perdas do


ta, novamente, da crise política.14 Agora, a mensagem mudou um pou ¬

setor exportador devido à valorização cambial, sem a necessidade de me ¬

co. A mensagem enfatizada é: “ vamos resolver a crise com uma reforma xer na política de câ mbio, que é uma peça importante e delicada do proje ¬

política”.15 Ou seja, o PSDB não poderia contar com o apoio do grande to mais global de desenvolvimento. O projeto de lei foi desenvolvido pela
FIESP e pela Fundação Centro de Estudos de Comé rcio Exterior ( Funcex)
14 Revista da Ind ústria, n. 111, setembro de 2005.
15 Ver a matéria, assinada pela jornalista Érica Junot, intitulada “ Ninguém pode ser
contra”. Revista da Ind ústria, n. 111, p. 42- 49. 16 “ Rumo à modernidade”, Revista da Ind ú stria , n. 111, p. 38-39.
92 Armando Boito Jr. e Andreia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 93

e submetido, para uma avaliação inicial, ao Ministro da Fazenda, Antonio dentre outros projetos do governo, a reforma da previd ência que retirara
Palocci, e ao Presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. O projeto direitos do funcionalismo público. O movimento sindical e o MST vinham
foi encaminhado em setembro ao Congresso Nacional, onde foi aprovado numa trajetória de afastamento em relação ao governo. No auge da crise,
e, posteriormente, sancionado pelo Presidente Lula. A reportagem da re ¬
a manifestação de trabalhadores em defesa do governo, convocada pelo
vista da FIESP descrevia o projeto nos seguintes termos: que havia de mais representativo no movimento sindical, reuniu um nú ¬

mero irrisório de manifestantes, menor que o n úmero de manifestantes


( . ..) a proposta endossa o regime de câmbio flutuante (...) e
presentes no ato público, também realizado em Brasília poucos dias antes,
prevê a possibilidade de qualquer empresa brasileira registra ¬

para protestar contra o governo e apoiar a apuração consequente das de ¬


da no Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) ou
n ú ncias de corrupção. Esse último ato tinha sido convocado por pequenas
no Sistema de Informações do Banco Central (Sisbacen) abrir
conta denominada em moeda estrangeira no sistema financeiro
organizações de esquerda, como 0 PSTU. Lula, quando percebeu que tinha
nacional. (...) Pagamentos no exterior de importações, fretes, de “ apelar para as massas”, não recorreu à base social tradicional do PT.
seguros, financiamentos externos e royalties, por exemplo, po ¬
Evadiu -se para a Região Nordeste, onde foi, por ocasião de alguns atos
derão ser feitos diretamente das contas em moeda estrangei ¬
oficiais, fazer comícios para os trabalhadores desorganizados, dos quais o
ra. (p. 38) (...) isso eliminaria despesas de spread entre taxa de lulismo vinha se aproximando graças ao programa Bolsa Família. Nessas
compra e venda, a dupla incidência de CPMF na entrada e saída circunstâncias, o apoio da FIESP e - pelo que se pode constatar lendo a
de divisas, a dupla cobranças de corretagem de câmbio, além de imprensa da época - de toda a grande burguesia interna foi um trunfo
custos bancários e burocráticos, ( p. 39 ) decisivo para o governo. Nessas circunst â ncias, o desenlace da crise foi
( . ..) acabaria também com a obrigatoriedade de conversão de o oposto do que esperavam a grande burguesia compradora, a alta classe
receitas de exportação para Reais no prazo máximo de 210 dias, média, 0 capital financeiro internacional e o PSDB: a Crise do Mensalão
liberando as empresas para trocarem a moeda somente em fun ¬
fortaleceu a relação do governo com a grande burguesia interna. A substi ¬

ção do custo-oportunidade de aplicação dos ativos financeiros tuição de Antonio Palocci por Guido Mantega no Ministé rio da Fazenda
e de sua necessidade de fluxo de caixa. Assim, nas palavras de
prova o que estamos afirmando.
Roberto Giannetti da Fonseca, Diretor do Departamento de
Essa mudança ministerial deu -se em abril de 2006, menos de um ano
Relações Internacionais e Comércio Exterior da FIESP (Derex),
o operador não ficaria refém da cotação diária da moeda e faria
após 0 início da crise. A Revista da Indústria publicou, então, uma grande
conversão quando a taxa lhe fosse conveniente, ( p. 39 ) matéria sobre o tema. Foi a reportagem de capa da revista e trazia como
chamada, a frase “ Um desenvolvimentista na Fazenda”. No interior da re ¬

Voltemos ao apoio dispensado pela FIESP ao Governo Lula no impor¬ vista, o título da reportagem era “ Novo comando, novas mudanças possí ¬

tante episódio da Crise do Mensalão. É preciso destacar que esse apoio foi veis”, maté ria assinada pelas jornalistas Célia Demarchi e Maria Cândida
de fundamental importância para definir o desenlace daquela crise. Lula Vieira.17 Fica muito claro na matéria que a FIESP reconhece duas ten ¬

estava muito desgastado com os trabalhadores organizados. O esquema de dências no governo. Uma, que ela denomina monetarista, representada
compra de votos dos partidos e deputados fisiológicos, que trazido à tona por Palocci, e outra, com a qual a FIESP identifica-se, que ela denomina
serviu de detonador da crie política, tinha sido utilizado para aprovar, 17 “ Novo comando, novas mudan ças possíveis”, Revista da Ind ústria, n. 117, abril-
-maio de 2006. p. 20-25.
94 Armando Boito Jr. e Andréia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 95

desenvolvimentista, representada por Guido Mantega. Isso tem impor ¬ ( Abigraf ) era cético. Afirmava: “ Qualquer um que sentar na cadeira da
tância: significa que a burguesia interna se reconhece politicamente na Fazenda ir á sofrer da síndrome de Pedro Malan” (p. 22). Ou seja, escreve a
linha neodesenvolvimentista do Governo Lula. Vale a pena notar alguns reportagem , “Adotará uma política de contenção de inflação por meio dos
pontos que aparecem na reportagem. juros,” ( idem ) . Pelas citações de nomes de autoridades e ex- autoridades
A reportagem mostra que o empresariado paulista recebeu muito bem governamentais, pode-se ver quais são as figuras positivas e as figuras ne ¬

a troca de ministros. Aplaude o desenvolvimentismo de Mantega. Traz gativas para os industriais.


depoimentos de mais de dez dirigentes de associações de setores específi¬ Embora não tenhamos feito uma pesquisa sistemática em outras as ¬

cos da indústria e de alguns diretores da FIESP e todos batem na mesma te¬ sociações que representam setores da grande burguesia interna, conside ¬

cla: Mantega valoriza o desenvolvimento e deve reduzir a taxa de juro. As ramos pertinente citar uma demonstração ostensiva de preferê ncia pelo
ideias que esses diretores de associações destacam são: desenvolvimentis ¬ Governo Lula e de hostilidade velada ao PSDB vinda de um representan ¬

ta, redução do juro, homem da produção, merece apoio, merece confian ¬ te histórico do setor sucroalcooleiro do Estado de São Paulo. Trata-se
ça, aberto ao diálogo. Ademais a reportagem, aplaude o fato de Mantega, do empresá rio Luiz Guilherme Zancaner, que é proprietário do grupo
ao tomar posse, ter declarado que não faria nova rodada de redução das Unialco, com três usinas de álcool e açúcar, e também diretor da Unidade
tarifas de importação. Tal proposta de redução, qualificada de “ insana” dos Produtores de Bioenergia ( Udop), entidade de usineiros da região
por Paulo Francini, diretor da FIESP, vinha sendo planejada por Palocci e Oeste de São Paulo, onde está concentrado o rico e produtivo agronegó-
Paulo Bernardes, o ministro do Planejamento. cio da cana no país. Em entrevista ao jornal Valor Económico, Zancaner
A reportagem trata Palocci, pejorativamente, como ortodoxo e mo- declarou apoio ao Governo Lula, o seu reconhecimento de que a política
netarista. Reconhece que ele “ livrou o Brasil de uma inflação de 12,5% desse governo favoreceu o seu setor económico mais que os governos que
ao ano”, aumentou as reservas cambiais de 16 para 59 bilhões de dólares o antecederam e, ainda, apresentou uma avaliação negativa de José Serra,
e o saldo comercial de 13,3 para 44,8 bilhões de dólares. Contudo, o que então Governador do Estado de São Paulo.18 Um aspecto da entrevista de
a reportagem enfatiza é que ele sacrificou o desenvolvimento. Dá dados: Zancaner é especialmente interessante para a nossa análise: esse usineiro e
0,5 % de crescimento do PIB em 2003, 4,3% em 2004 e 2,3% em 2005. A representante corporativo dos seus pares insiste na reivindicação de que a
reportagem reserva certa ironia para Palocci - o “ ex-trotskysta” que “ vi
¬ Petrobrás se associe aos usineiros brasileiros na produção de etanol, para
rou monetarista”. Suas ideias “ não coincidiam com o setor produtivo”, nos evitar que eles sejam engolidos pelo capital estrangeiro que tem crescido
dizeres de Paulo Francini. no setor. De maneira similar à indústria, os usineiros querem proteção do
Os industriais dividiam -se entre o grupo otimista e o grupo pessi ¬ Estado - no caso, de uma poderosa empresa estatal - para se defenderem
mista. O primeiro apostava que Mantega faria uma verdadeira “ inversão da concorrê ncia, que consideram desigual, que lhes move o capital estran ¬

de caminho”, expressão otimista utilizada por Boris Tabacof, presidente geiro. Transcrevo abaixo dois trechos da entrevista.
do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Celulose e Papel
( Bracelpa). O grupo dos pessimistas, majoritário, achava que não seria
possível mudar muita coisa, até porque Lula tinha apenas oito meses de
mandato para cumprir. O empresá rio Mário Cesar Martins de Camargo,
por exemplo, presidente da Associação Brasileira de Indústrias Gráficas 18 Valor Económico, 5 de abril de 2010.
96 Armando Boito Jr. e Andréia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 97

í . Apoio ao Governo Lula, crítica ao Governo Serra Valor: A ministra Dilma defende o fortalecimento dos grupos
Valor: Como o senhor avalia a atuaçã o do governo Lula no nacionais do setor de etanol. Qual seria a maneira de fazer isso,
setor ? além de aumentar a oferta de financiamento?
Zancaner: Na crise, o governo fez a parte dele. Deu crédito, ape¬ Zancaner: Por que a Petrobras não pode participar dos grupos
sar de toda a burocracia para liberar. O governo Lula foi ex ¬ nacionais? O governo deverá fortalecer e tem condição de dar
ceptional para o nosso negócio, fico até emocionado. O setor sustentação dos grupos nacionais para dar equilíbrio ao capital
fez muito pelo Brasil, mas o governo está fazendo muito pelo nacional. Hoje, o capital estrangeiro já tem 25% de toda a pro ¬

setor. Nunca houve antes política t ão boa para n ós. O presiden¬ du ção de cana do Brasil.
te Lula n ão perde nenhuma oportunidade de ser gentil. Outras Valor: Como poderia ser essa participaçã o da Petrobras?
pessoas não perdem a oportunidade de serem desagradáveis, Zancaner: A Petrobras tem mais chance de entrar na produção
arrogantes. de etanol, na usina. A empresa já faz contratos de exportação
Valor: É sobre o pré- candidato do PSDB à Presidência, José com o Japão, já tem estrutura de distribuição.
Serra, que o senhor está falando? Ele tem sido restritivo à plan¬

tação da cana ? Essa entrevista é significativa porque é clara, toca em diversos pontos
Zancaner: Só posso afirmar que o Serra é um excelente admi ¬ importantes, traz uma avaliação geral (e positiva ) do Governo Lula e por
nistrador, mas considero que o Serra não vê o setor como o Lula explicitar que esse setor da grande burguesia interna mantém distância
vê. ( ... ) Noto que o Lula fez um governo melhor. O Fernando do PSDB. Mas não se trata de declaração exceptional. Os usineiros do açú ¬

Henrique Cardoso fez as bases, mas Lula e Dilma construíram car e do álcool do interior do Estado de São Paulo, que são responsáveis
os canais conosco. pela maior parte da produção do país, e o Governo Lula foram pródigos
Valor: E o senhor acha que a Dilma vai dar continuidade? em demonstrações de reconhecimento político recíproco que apareceram
Zancaner: A Dilma foi muito clara quando esteve aqui, em
in ú meras vezes na imprensa diá ria.
Ara çatuba. A linha é de continuar a política de Lula.
Entre a grande burguesia interna e o Governo Lula há reconhecimento
Valor: O senhor esteve com ela ?
político recíproco e canais de comunicação eficientes. O governo atendeu
Zancaner: Sim, conversei com ela. Sinto que a maioria do se ¬

interesses importantes da grande indústria, do agronegócio e de toda a


tor, mesmo com os problemas com o MST, tem afinidade com a
ministra e um diálogo muito bom. O governador Serra é mais
burguesia interna. Justamente por isso, pôde contar com ela quando se
fechado, não temos diálogo com ele. ( ... ) viu em dificuldades.
2. Reivindicação de proteção frente ao capital estrangeiro

Zancaner: O governo, por exemplo, se preocupa com a des ¬ As contradiçõ es no seio da burguesia interna
nacionalização do setor, o que é importante para nós. Nessa e na frente neodesenvolvimentista
quest ão é importante ter equilíbrio, é interessante o capital es
¬

A ideia segundo a qual o agronegócio apoia o Governo Lula pode não


trangeiro vir porque melhora o preço dos nossos ativos. E nós
ter convencido o leitor. Os propriet á rios de terra temem a ação do MST e
precisamos desse capital. Mas precisa ter equilíbrio. O custo de
o Governo Lula é, no entendimento deles, complacente com esse movi ¬

capital deles é muito menor por causa dos juros que eles encon ¬

tram lá fora.
mento social; os grandes proprietários desejam rever o Código Florestal,
98 Armando Boito Jr. e Andreia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 99

de modo a aumentar a área agricult ável do país, mas o Governo Lula, Região Centro- Oeste do país. A grande imprensa tem publicado repor ¬

no entendimento deles, cria dificuldades também nessa área; os grandes tagens nas quais as associações de criadores lamentam a condição de
proprietá rios também hostilizam o Governo Lula pela sua política de monopsônio que a Friboi passou a usufruir no mercado de boi gordo
concessão de terras aos povos indígenas e às populações remanescen ¬
na região. Periodicamente, os proprietá rios de terra mobilizam -se para
tes de quilombos; Kátia Abreu, senadora do Democratas e presidente da obter a rolagem das dívidas que têm com o sistema bancário. Os poucos
Confederação Nacional da Agricultura ( CNA ) , faz oposição cerrada ao go ¬
e grandes frigoríficos, as processadoras de suco, as usinas e os bancos es ¬

verno no Congresso Nacional. O que ocorre é que nem todos os setores tão nas mãos de grupos economicamente muito mais poderosos que os
que compõem o agronegócio apoiam o Governo Lula. Se, apesar disso, proprietá rios de terra, e os seus interesses não coincidem, exatamente,
afirmamos, genericamente, que o agronegócio apoia o governo é porque com os interesses desses últimos.19 São os segmentos mais poderosos do
o segmento superior e mais poderoso do setor tem os seus interesses con ¬
agronegócio que apoiam o governo e que estamos incluindo na grande
templados pela política governamental. burguesia interna.
O agronegócio é um setor amplo, heterogé neo e composto por seg ¬
A grande burguesia interna e, mais ainda, a frente neodesenvolvimen -
mentos que possuem poder económico e lucratividade muito desigual. tista, apresenta inúmeras contradições. Trata-se de forças e de segmentos
As funções ativas no agronegócio são a propriedade da terra, a produção que se uniram, mas não se fundiram. A dificuldade que o analista enfrenta
agrícola ou pecuá ria, a comercialização do produto, a intermediação fi ¬
aqui é a de distinguir, de um lado, os conflitos entre as partes integran ¬

nanceira e a própria ind ústria de processamento - um dos departamen ¬


tes da frente e as cr íticas que uma ou outra dessas partes pode dirigir ao
tos importantes da FIESP cuida do agronegócio. Os representantes das governo, mas que são conflitos e cr íticas que se mantêm, apesar de tudo,
in ú meras associa ções vinculadas aos diversos segmentos e culturas do nos limites da frente neodesenvolvimentista, e, de outro, os conflitos e as
agronegó cio costumam dizer que esse último est á segmentado a mon ¬
críticas que extrapolam os limites dessa frente e que podem levar a uma
tante e a jusante da fazenda, situa -se “ antes da porteira”, “ da porteira mudança de posicionamento deste ou daquele segmento ou força no pro ¬

pra dentro” e “ depois da porteira”. ( Bruno, 2009 ) . Nessa corrente, a pro ¬ cesso político nacional. Vamos apresentar alguns elementos para refletir
priedade da terra, que tanto peso tem na estrutura económica e social sobre essa matéria.
brasileira, é, no plano político, o elo mais fraco. Há os grandes grupos Comecemos pelas contradições existentes no próprio interior da gran ¬

económicos multifuncionais, que investem em todas as etapas desse ci ¬


de burguesia interna. A primeira que salta aos olhos é aquela que opõe a
clo de valorização do capital, e há, também , empresas ou grupos familia ¬
grande indústria ao sistema bancário nacional. Trata-se de dois setores
res que se especializam em cada uma dessas funçõ es. A grande maioria que exigem proteção do Estado frente ao capital estrangeiro - os ban ¬

de proprietá rios de terra são fornecedores de cana, de laranja, de soja, cos querem o controle administrativo do Estado sobre a entrada de ca ¬
de carne bovina, de pescado, de café ou de algod ão para a agroind ús - pital estrangeiro no setor e a grande indústria quer proteção para os seus
tria e para os frigor íficos. Esses últimos tê m condições de impor preços,
exigências para financiamento e para o plantio. O apoio económico do 19 Ver o interessante trabalho de Denise Elias sobre o agronegócio na região de
Governo Lula para que a brasileira Friboi se tornasse, em poucos anos, Ribeirão Preto ( Elias, 2003). Essa divisão do capital fundiário, industrial, comer
¬

a maior empresa mundial na produção e comercialização de carne bo ¬


cial e bancário na produção agropecuária n ão é novidade no Brasil. Ela atravessa
toda a história da República. Ver a esse respeito o trabalho de Sérgio Silva sobre
vina não foi um negócio muito vantajoso para os criadores de gado da
a economia cafeeira (Silva, 1976 ).
100 Armando Boito Jr. e Andréia Galvão (orgs.) Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 101

produtos no mercado interno, preferê ncia nas compras públicas para as delimitação da parte da produção e do mercado que cabe a cada segmento,
empresas nacionais, crédito barato do BNDES e política externa a servi ¬
o privado e o estatal, é motivo de disputa no interior da burguesia interna.
ço das suas exportações. São dois setores unidos em torno do objetivo Dentro do Governo Lula, refletindo essa contradição, temos uma ala mais
de preservar a participação dos grupos brasileiros na economia do país. estatizante que disputa espaço político com outra mais privatista. A demissão
Porém, se há um tema que mobiliza com frequê ncia as críticas da Revista de Carlos Lessa da presidência do BNDES no primeiro governo Lula foi uma
da Indústria ao Governo Lula, é a política de juros do Banco Central. A vitória da ala privatista sobre a ala estatizante desse governo. Mais recente ¬

grande indústria critica a taxa básica de juro elevada, que aumenta o gasto mente, foi a ala privatista que formulou a política de consolidação e de cria ¬

público, dificultando a expansão e melhoria dos serviços de infraestrutu- ção de grandes empresas privadas brasileiras - os “ campeões nacionais” - nos
ra. Critica também a liberdade dos bancos para fixarem o spread bancá rio, mais diferentes segmentos da economia, para disputar posição no mercado
aumentando os custos do tomador de empréstimo. A solução encon 20
¬
mundial. Ilustrativo foi o processo de formulação da política de universaliza ¬

trada pelo Governo Lula para tratar essa contradição foi a expansão do ção da banda larga. O resultado, nesse caso, parece ter sido um compromisso,
orçamento do BNDES, que quase quadruplicou sob a sua gestão, e a mul ¬
representado por uma divisão de trabalho entre a Eletrobrás, que está sendo
tiplicação dos programas de crédito subsidiado para a grande ind ústria e recuperada e reativada pelo governo, e a empresa privada Oi.
para o agronegócio. Contradições opõem, também, 0 conjunto da grande burguesia inter ¬

Outra contradição opõe a grande indústria e o agronegócio. Ela apa ¬


na e o movimento operá rio e popular. Dois elementos importantes aqui
rece na política de comé rcio exterior. Na chamada Rodada Doha, o agro ¬
são o gasto público com a população trabalhadora e a quest ão agrária.
negócio privilegiava seu objetivo maior: ter seu acesso aos mercados dos A edição da Revista da Ind ústria que comemorou a queda de Antonio
EUA e da Europa facilitado. Para tanto, e ao contrá rio do que pretendia a Palocci e a ascensão de Guido Mantega chegou a apresentar uma cr ítica ao
grande ind ústria, apoiaria concessões pesadas do governo brasileiro no novo Ministro. A reportagem da revista referiu -se a certo mal-estar que
que diz respeito à uma nova rodada de abertura do mercado interno para Mantega provocara “ ( ... ) no dia de sua posse, em 29 de março, ao descar ¬

os manufaturados estrangeiros. tar a adoção de um plano fiscal de longo prazo, como defendiam Palocci e
Por último, temos a contradição entre o capital estatal e o capital privado. Paulo Bernardes, ministro do Planejamento.” ( p. 23). Paulo Skaf, presiden ¬

Essa contradição não exclui uma relação, simultânea, de unidade. As gran ¬


te da FIESP, afirmava que Mantega “ não relaxará a política fiscal de forma
des empresas privadas nacionais têm as empresas estatais como sócias, com ¬
irresponsável” ( p. 24), o que era uma maneira de, ao mesmo tempo, apoiar
pradoras, fornecedoras e financiadoras de seus empreendimentos. Porém, a o Ministro e fazer pressão sobre ele. Transcrevo os dois últimos par ágrafos
da reportagem .
20 Uma das muitas reportagens da Revista da Ind ú stria especialmente dedicadas a
essa matéria observa que o gasto do governo com pagamento do juro da dívida Empresá rios e economistas temem a deterioraçã o das contas
p ública atingira no ano de 2006 a casa dos 160 bilhões de reais, ou seja, 7,6 % do p ú blicas, uma vez que o superávit j á caiu de 5,15 % em outubro
PIB daquele ano, enquanto que o gasto com investimento teria alcançado apenas de 2005 para 4,38% em fevereiro [ de 2006] . E medidas como o
0,6 % do PIB. Muitos estudiosos observam que a grande ind ústria também investe aumento real de 1,5% para os aposentados a partir de abril ajuda
em títulos da d ívida pública. Porém, a julgar pelos balanços financeiros que os
bancos publicam na grande imprensa, são eles, e não os industriais, os principais
detentores desses títulos.
102 Armando Boitojr. e Andreia Galvão (orgs.)
r Política e classes sociais no Brasil dos anos 2000 103

a reforçar a percepção de que os gastos públicos podem estar para idosos carentes, estabelecidas pela Constituição de 1988. É verdade que
fugindo do controle.21 denuncia, também, a expansão dos cargos de confiança, preenchidos sem
concurso, os salários de deputados e senadores e a criação de novos muni ¬

No que diz respeito aos gastos públicos, estamos diante de um proble ¬


cípios com o fito de prover cargos públicos para as chefias políticas locais.
ma complexo na análise da frente neodesenvolvimentista. A grande bur ¬
Mas a ênfase é posta no funcionalismo. Para a FIESP, até o problema do juro
guesia interna reluta em aceitar as pequenas concessões que o Governo elevado seria resolvido caso o governo cortasse o gasto público (voltado
Lula exige dela, para que seja possível manter a própria frente. Os grandes para a população trabalhadora). O raciocínio é simples.
empresários querem: juros mais baixo, investimento estatal em infraes-
trutura, proteção alfandegária, BNDES a seu serviço e diplomacia empre ¬ Se o governo cortasse despesas e reduzisse a carga tributária,
sarial e outras benesses, mas rejeitam a contratação de novos funcioná ¬ as taxas de juros cairiam naturalmente e o dólar se valoriza ¬

rios, reajustes para o funcionalismo, reajuste do salário mínimo, o gasto ria. Na China, a carga tributária é bem menor que a brasilei ¬

da previdência etc. É o que já sabemos: querem um Estado enxuto para os ra, e os investimentos do Estado, maiores. [Newton de Mello,
Presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e
trabalhadores e dadivoso para os empresários. O Governo Lula procura
Equipamentos (Abimaq)].23
manter alguns ganhos marginais para os trabalhadores, mas não é fácil
encontrar o ponto de equilíbrio que evita defecções na frente política que
Em resumo, a FIESP insiste muito na necessidade de se implantar um
ele representa.
arrocho no salário do funcionalismo público e de se fazer uma nova e
Instrutiva a esse respeito é a anteriormente citada matéria “ O governo na
mais radical reforma da previdência.
contramão”, assinada pela jornalista Lúcia Kassai. É a matéria de capa da
22

Outra fonte de instabilidade da frente neodesenvolvimentista são as


revista. Ela traz como ilustração uma foto que fala por si só. A foto mostra
contradições entre a grande burguesia, particularmente 0 agronegócio, e
quatro pilhas de notas de cem reais dispostas uma ao lado da outra. Três
o movimento camponês. Na entrevista citada do usineiro Luis Guilherme
dessas pilhas são muito grandes. A primeira traz a inscrição “ funcionalis ¬

Zancaner, podemos ler a seguinte passagem.


mo”, a segunda, “ previdência” e a terceira, “ juros”. A quarta pilha é baixinha
e mirrada. Nela se vê a inscrição “ investimento”. Ou seja, o governo Lula Valor: O senhor tem diferenças ideológicas com o atual governo
gastaria muito com salário de funcionários, com a previdência e com pa ¬
e com a ministra Dilma?
gamento de juros e pouco com investimento, que é o que interessaria para Zancaner: Fui fundador da UDR de Araçatuba, em 1988. Sou
a indústria e para a produção. Segundo a reportagem, em 2006, a folha de muito amigo do Ronaldo Caiado. Tenho divergências ideoló ¬

salários do funcionalismo federal teria “ levado” R$ 16,3 bilhões de reais. Um gicas tanto com Lula quanto com a ministra. Tenho divergên ¬

trabalhador do setor público receberia salário quatro vezes maior que 0 sa¬ cia em relação ao MST, nessa questão dos direitos humanos, do
lário do trabalhador que desempenha função equivalente no setor priva ¬ ministro Vannuchi, a quem sou muito crítico. Acho que nessa
do. A reportagem critica, inclusive, a aposentadoria rural e a aposentadoria questão da anistia, o que passou, passou. Mas se quer revisar a
anistia, quem sequestrou, assaltou banco, quem matou também
21 .
“ Novo comando, novas mudanças possíveis”, Revista da Indústria , n 117, abril- tem que ser julgado. Tem que ter equidade.
- maio de 2006, p. 25.

22 “ O governo na contramão”, Revista da Ind ústria, n. 130, julho de 2007. p. 18-23. 23 Idem.

JL
104 Armando Boito Jr. e Andreia Galvão (orgs.)

Valor: Quer dizer que esse apoio ao governo Lula e à Dilma é


uma questão pragmática ?
Zancaner: É uma questão pragmática, do nosso negócio.
Estado , capital estrangeiro e burguesia interna
O Governo Lula não pode, ao mesmo tempo, preservar sua relação
no setor de telecomunica ções
política com o agronegócio e fazer uma reforma agrária. O governo con ¬
cebeu uma estratégia para contornar essa contradição. Aumentou muito nos governos FHG e Lula
o crédito agrícola para a agricultura familiar, contemplando os interesses
dos camponeses com terra e, portanto, os interesses de uma das bases Sávio Cavalcante
sociais do MST e demais movimentos camponeses que é o camponês as ¬

sentado. Porém, a outra base social desses movimentos, que é o camponês


pobre, sem- terra, o Governo Lula abandonou e, tendo em conta a classe
social que ele representa, só poderia mesmo abandonar. A pergunta que Introdução
surge aqui, então, é a seguinte: até quando o campesinato pobre permane ¬
O setor de telecomunicações brasileiro modificou-se profundamente
cerá na frente neodesenvolvimentista? a partir da década de 1990, devido a um amplo programa de reestrutu -
ra
A grande burguesia interna quer, sim, a intervenção do Estado na ção promovido pelo governo de Fernando Henrique Cardoso ( FHC), que
economia. Quer que o Estado intervenha, tanto como investidor, quanto culminou com a privatização das companhias que integravam o Sistema
como facilitador dos investimentos privados ( melhoria da infraestrutura, Telebrás, em 1998. O resultado deste processo favoreceu de forma expres¬
ciência e tecnologia, crédito subsidiado etc.) . O que a grande burguesia siva a interesses económicos de frações distintas da classe dominante bra ¬
tem dificuldade em aceitar são as concessões que se fazem necessá rias sileira bem como a interesses dos capitais externos que por aqui preten ¬
para manter a frente com os assalariados e com o campesinato, frente sem diam aportar. Embora tenham sido mantidos, após a privatização, grupos
a qual o Estado não pode vencer ou contornar as resistências políticas que nacionais no setor, os anos seguintes presenciaram um domínio
signi
¬

se antepõem ao neodesenvolvimentismo. ficativo de empresas estrangeiras, tanto na prestação de serviços (como


Examinando a situação, vemos que a possibilidade de uma das par ¬ telefonia e internet ) quanto no segmento industrial de produção de tele-
tes abandonarem a frente neodesenvolvimentista é real. O PSDB procura quipamentos. Nos dois mandatos posteriores de Luiz Inácio Lula da Silva,
atrair a grande burguesia interna sugerindo - h á coisas que não se deve esse cenário não foi modificado em sua essência, mas é possível perceber
dizer abertamente... - que fará uma redução drástica dos gastos sociais uma mudança importante na atuação do Estado, que passou, no período
do Estado e que cortará as asas do movimento camponês; as organizações recente, a investir na formação de grandes grupos nacionais e articular a
de extrema esquerda procuram fazer com que os sindicatos e o campesi ¬ volta da Telebrás estatal. O propósito deste trabalho, ent ão, é analisar a
nato retirem o apoio que dispensam ao Governo Lula. Até o momento, a din âmica desses processos e a atuação das frações da classe dominante
unidade da frente prevaleceu. Porém, não faltam motivos e argumentos nestas duas décadas.
para aqueles que tentam solapá-la. Essa análise mostra-se particularmente importante em dois sentidos.
Em primeiro lugar, para o entendimento de como certas frações da classe