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Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 12: 269-281, 2002.

ESPECIFICIDADES NA RESTAURAÇÃO DE CERÂMICAS


ARQUEOLÓGICAS: UM ESTUDO DE CASO

Silvia Cunha Lima *

LIMA, S.C. Especificidades na restauração de cerâmicas arqueológicas: um estudo de caso.


Rev. do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 12: 269-281, 2002.

RESUMO: Apresentação do trabalho que vem sendo realizado pelo Laboratório


de Conservação e Restauro do Museu de Arqueologia e Etnologia/USP com o acervo
de cerâmicas arqueológicas, discutindo as especificidades desse processo de conservação
e restauração, apontando para as pesquisas necessárias e desencadeadas pelo
mesmo como abertura para uma investigação interdisciplinar, através de um estudo
de caso.

UNITERMOS: Cerâmica arqueológica - Conservação - Restauração - Arqueologia


Pré- Colombiana - Chile.

Introdução As obras plásticas tendem a seguir uma


certa organização form al que confere aos
O universo de atuação do Laboratório de objetos traços que perm item descrevê-las com o
Conservação e Restauro do M AE/USP se situa sendo pertencentes a um determ inado estilo,
entre os processos de conservação preventiva e as sub-estilo ou m omento de desenvolvim ento
inevitáveis intervenções de restauro com o objetivo cultural de um a determ inada área geográfica.
de devolver a capacidade de apreciação de um Sendo assim, através de pesquisa bibliográfica
bem cultural sob as mais diversas perspectivas: conseguim os elucidar a proveniência dos vasos
estética, documental, histórica e científica. em questão. P artindo da p rem issa de que todas
Durante vistoria de rotina do acervo acondicio­ apresentavam a m esm a m orfologia e policrom ia
nado na Reserva Técnica, foram detectadas duas e eram reconhecidam ente pré-colom bianas,
peças de cerâmica em avançado estado de supusem os que fossem tam bém originárias do
deterioração, com um grave desprendimento de mesmo momento cultural.
matéria. No mesmo local de acondicionamento,
havia também uma terceira, em melhor estado de
conservação. Ao procurar informações referentes às Levantamento histórico
vasilhas, apesar do número de registro, apresentavam
poucas referências na Documentação do MAE, não
contendo identificação ou classificação das peças. Ao iniciar a pesquisa bibliográfica, coinci­
dentemente, foi encontrada no livro Prehistoria
de Chile (M ostny 1981: 82) um a referência a
(*) Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de uma imagem de um vaso com morfologia e
São Paulo. Serviço de Curadoria: Laboratório de Conserva­ motivos decorativos muito sim ilares aos exem ­
ção e Restauro. plares pertencentes ao M AE, o que desencadeou

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e encam inhou o levantamento histórico sobre as um a espécie de cone, para gerar um pseudo-
peças em questão: torno pela ação de um m ovim ento de giro que a
N a área de A rica, região norte do Chile, a ceramista imprim e sobre a superfície previamente
produção cerâmica inicia-se aproximadamente um edecida. Sobre esta base sem i-esférica, pode-
desde 500 a.C., com um a fabricação que se se aplicar a técnica de sobreposição de roletes
desenvolve para funções domésticas. A partir do de barro, unidos por pressão, para acabam ento
século IV-V d.C., desce aos vales uma forte da form a desejada.
influência das culturas altiplânicas de Tiwanaco Os motivos gráficos são figuras de estrelas (ou
m odificando a produção cerâmica, o que fica sol), círculos concêntricos (ou discos), traços em
evidente através de m uitos traços formais zigzag, linhas onduladas sozinhas ou em traços
assimilados. Tais traços persistem em várias fases paralelos; também encontramos motivos constituí­
que se desenvolveram entre 500-1000 d.C. dos por triângulos unidos por um vértice que
D esde o período conhecido com o “Las produzem um efeito visual de uma figura serrilhada,
M aitas” , houve um aum ento de qualidade e pequenas cruzes e círculos de dimensões bem
quantidade da produção cerâm ica, com novas pequenas unidos em séries mediante traços retos
propostas decorativas gráficas tricrom áticas, (Gonzáles e Sanches 2000).
branco e preto sobre verm elho. Pode-se dizer Esta descrição assem elha-se à dos vasos
que a partir desta fase houve um desenvolvi­ encontrados na Reserva Técnica, perm itindo a
m ento local (San M iguel, Pocom a e Gentilar) identificação dos mesmos com o provenientes da
que, progressivam ente, conserva cada vez m esm a fase cultural, apesar de ainda necessitar
menos as influências de Tiwanaco. Os habitan­ de um a pesquisa mais abrangente para inserção
tes dos vales de A rica desenvolveram um exata dentro deste período. Este estudo perm iti­
sistem a sócio-político caracterizado pela ria o enriquecim ento das inform ações sobre a
constituição de senhorios independentes. coleção pré-colom biana do M AE, que form ada
Do ano 1000 até ao redor de 1250 d.C., em grande parte pela coleção M ax U hle (com
desenvolveu-se a fase cultural San Miguel - que se diversos objetos provenientes do Peru, na
funde em uma única chamada fase Pocoma - na m aioria cerâmicos), também conta com conjun­
qual se destacam manifestações artísticas como a tos cerâmicos provenientes da Argentina, Bolívia,
cerâmica e a arte têxtil. Colômbia, Costa Rica, Equador, M éxico e,
A form a cerâm ica de m aior destaque da agora, reinseridos na Documentação, cerâm icas
fase San M iguel - particularm ente da fase oriundas do Chile.
Pocom a - é um tipo de vasilham e grande com
duas asas firm es, apesar de pequenas, situadas
verticalm ente - e opostas entre si - à altura do Conservação / restauração de cerâm ica
diâm etro m aior do corpo globular (ovoidal ou arqueológica
quase esférico); o hem isfério superior é,
norm alm ente, coberto por engobo branco.
Sobre esta área ocorrem decorações co nstituí­ A ação do tempo, inevitavelm ente, m odifica
das, de preferência, por figuras geom étricas de de algum modo a essência do objeto, mas os
cor preto e verm elho. danos eventualmente produzidos por uma
A pós pesquisar as várias técnicas de intervenção incorreta durante o processo de
fabricação cerâm ica, difundidas entre os restauro podem ser piores, pois constituem um
indígenas chilenos, destacam os, entre elas, duas choque violento, por ser realizado em um
que especialm ente se assem elham à m orfología período extrem am ente curto em relação à “vida
apresentada pelos vasos em questão: do objeto”
1. aplicação da argila na face externa de um Além disso, cerâmicas provenientes de
fruto que atua como molde (acredita-se que esta escavações arqueológicas apresentam uma situação
variante técnica utilizou diversos tipos de cabaças com problemáticas preliminares ao restauro
para dar forma às peças); propriamente dito, como a questão da recupera­
2 . fazendo um a esfera de barro, que, através ção, da primeira intervenção in loco e dos proces­
de pressão feita pelos dedos, é transform ada em sos ocorridos entre a escavação e a restauração.

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A argila é a matéria-prima de objetos cerâmicos Outros aspectos são os eventuais restauras preceden­
com grande diversidade de propriedades físicas e tes, condições de armazenagem inadequadas ou mesmo
químicas devido a sua composição, natureza e acidentes em decorrência de um manuseio descuidado.
quantidade de impurezas contidas na pasta, a
temperatura atingida na queima e o tempo de
cozimento das peças.
A d eterioração de objetos cerâm icos é Laboratório de Conservação
inevitável, m esm o se tratando de um m aterial e Restauração do M A E
reconhecido com o resistente em decorrência do
tratam ento térm ico sofrido em sua produção.
Porém , é preciso considerar o equilíbrio
Estado de conservação
determ inado em função do grau de queim a
alcançado, ou seja, quanto m ais o m aterial é
cozido m aior é sua estabilidade e dureza. Além O processo de restauração iniciou com a
disso, características com o a porosidade e a documentação fotográfica e descritiva do estado de
dim ensão dos poros são fundam entais para conservação das peças, através da observação
reta rd a r ou acelerar os processos de d eterio ra­ direta e em um microscópio óptico cirúrgico, com
ção, desestabilizantes da matéria, juntam ente aumento de até 48X, permitindo fazer uma
com os fenôm enos naturais, que apesar de investigação e descrição da natureza e amplitude
m uito lentos, são teoricam ente inerentes. dos processos de degradação.
O objetivo da conservação preventiva seria uma Resumidamente, destacamos o estado de
diminuição do ritmo de todos os processos de conservação de cada peça:
degradação, com medidas para amenizar o
desequilíbrio entre o objeto e o ambiente atual. A 92/ 4.1 - Apresentava um avançado processo
intervenção de restauração é a ação imediata a de desprendimento de matéria, pulverização e
danos já causados, ampliando assim a eficiência da descamação, principalmente em uma grande área
conservação. na metade inferior da face A e parte da decoração
Os fatores de deterioração de um objeto cerâmico na metade superior, com perda de 2 a 3mm de
podem ser divididos em dois grandes grupos: matéria cerâmica.
- Fatores am bientais: são certamente os mais Na superfície, observou-se um processo de
importantes e compreendem todos os aspectos eflorescência de sais. Alguns pontos apresentam o
que definem o desequilíbrio entre o material mesmo processo, porém num estágio menos avança­
cerâmico e seu ambiente, lembrando que esse do, com erupções acarretando na perda da decora­
ambiente não é nunca completamente estável; ção pintada e o aumento da porosidade nas regiões
podem ser divididos em três grandes categorias: afetadas. Ao redor da área com maior perda, as
causas físicas (variação do estado da água, bordas encontravam-se extremamente fragilizadas.
migração de sais solúveis, variação de umidade, Não apresenta vestígios de tratamento ou
variação de temperatura, fluxo de água, sobrecar­ restauros efetuados anteriormente. (Figs. 1 e 2).
ga, exposição ao vento, presença de vibrações e
radiações luminosas), causas químicas (contato 92/ 4.2 - Apresentava um estado crítico de
com água, ácidos e outras substâncias, sais degradação, ocorrendo desprendimento de matéria
solúveis, poluição atmosférica, dióxido de carbono) em uma grande área do corpo, com a borda desta
e causas biológicas (ataque microbiológico, região extremamente fragilizada, havendo perda
excrementos animais e resíduos orgânicos e total de 2 a 4mm de matéria cerâmica, e em vários
inorgânicos decorrentes do uso do objeto). pontos apresentava perda do revestimento decora­
- Intervenções humanas: por diversas motiva­ do, desprendimento e erupções do mesmo.
ções, o homem intervém sempre diretamente nas Também foi constatada a presença de sais solúveis
cerâmicas, principalmente por se tratar de objetos recristalizados sobre a superfície e dentro das áreas
de uso, ou seja, que têm uma trajetória da fabrica­ de perda de matéria.
ção à utilização, que inevitavelmente produz alguma Não foram constatados vestígios de restauros
modificação das características originais do objeto. anteriores. (Figs. 3 ,4 ,5 e 6)

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92/ 4.3 - A presentava um bom estado de Provavelmente, o vaso 92/4.3 também sofreu
conservação, com perdas pontuais do revesti­ o mesmo processo de migração e recristalização
mento, já estagnadas e um a fratura do gargalo de sais solúveis alojados no interior do corpo
com rem anescente de apenas m etade do mesmo. cerâmico, que provoca o desprendim ento de
Foi possível observar próxim o à fratura o grãos ou camadas da cerâm ica ao m igrar para a
testem unho de um a reconstrução anterior da área superfície. Este processo, normalmente, ocorre em
perdida, com resíduos de um tipo de m assa de conseqüência de uma dessalinização insuficiente
preenchim ento, pigm entada de acordo com a das peças quando de sua retirada de seu am biente
decoração do vaso. deposicional rico em sais solúveis.
D evido ao ótim o estado de conservação,
com as áreas de perda de m atéria cerâm ica ou
craquelê do revestim ento bem fixadas, supomos Intervenção
que a peça tenha sido anteriorm ente consolidada
(provavelm ente na mesma ocasião em que o
gargalo foi reconstruído), apesar de não terem Tendo em vista o avançado estado de deterio­
sido encontrados registros de tratam entos ração das peças, com o risco de perdas irreparáveis,
efetuados na docum entação do Laboratório. buscou-se restabelecer a integridade, dando melhor
(Figs. 7, 8 e 9) estabilidade e bloqueando o processo de degradação.

Figs. 3, 4, 5 e 6 - Estado de conservação (92/4.2) a, b, c, d.

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Figs. 7 e 8 - Estado de conservação (92/4.3).

f i g 9 _ Detalhe do tratamento anterior das áreas com perda.

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Ao avaliar a condição das peças em questão,


decidimos iniciar o tratamento pelo vaso com o
processo de desprendimento num estágio menos
avançado, assim poderíamos experimentar o
procedimento de consolidação mais adequado, o
melhor produto a ser utilizado, antes de intervir no
outro vaso, que se apresentava extremamente frágil,
tendo que ficar imóvel, não permitindo uma
observação do estado de conservação do todo.
Iniciamos o tratamento com uma limpeza
mecânica prévia, localizada, para a delicada
remoção do material cerâmico pulverizado,
acumulado sobre a superfície. Para a consolida­
ção, utilizamos uma resina acrílica à base de água
diluída (Primai AC33), devido a sua boa penetra­
ção e baixa toxidade. Nas áreas mais afetadas, o
produto foi aplicado localmente, com auxílio de
um pincel fino, e absorvido por capilaridade pela
cerâm ica até a expansão total do consolidante.
Nas áreas íntegras, foram necessárias somente
aplicações com pincel largo sobre a superfície.
(Figs. 10, 11, 12 e 13)
Somente após o período de secagem e
observação dos resultados, realizamos a limpeza
química do excesso de consolidante na superfície
(que pode ter um efeito estético desagradável),
concomitante à limpeza geral da peça.
Após o tratamento do primeiro vaso ter sido
concluído com sucesso, partimos para a limpeza da
peça em melhor estado de conservação, pois por

Figs. 10, 11, 12 e 13 - Processo de


consolidação.

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se tratar de um processo de
restauração menos complexo
(Somente limpeza geral e
remoção de resíduos), teríamos
em pouco tempo mais um
exemplar para auxiliar em nossa
pesquisa. (Figs. 14 e 15)
Quando iniciamos a
intervenção do terceiro vaso no
Laboratório, já tínhamos clareza
e segurança a respeito do
tratamento necessário e dos
resultados que deveríamos obter.
(Figs. 16 e 17)
Após um período estabele­
cido de observação dos
resultados, foi realizada uma
intervenção nas áreas mais
afetadas devido à fragilidade,
prevenindo possíveis danos
(novos desprendimentos com
perda da decoração). Esta
intervenção consistiu no
preenchimento das lacunas
geradas pela perda do revesti­
m ento (ou de matéria), utilizan­
do um derivado do gesso
(Polyfilia), respeitando os
critérios de reversibilidade, para
conservar as áreas intactas.
Este tratamento resultou numa
fragmentação visual da superfície
do objeto, portanto, optamos
pela reintegração estética, com
efeito ilusionista (não mimético)
da reconstituição dos motivos
gráficos com a técnica do
pontilhismo, onde necessário,
para permitir uma melhor leitura
do objeto. (Figs. 18, 19, 20 e 21)
A finalidade da restauração
de material arqueológico
aparece, muitas vezes, na
bibliografia, como um tratamen­
to específico que visa, exclusi­
vamente, o potencial acadêmico
dos achados, porém, esses

Figs. 14 e 15 - Após tratamen­


to de consolidação e limpeza.

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objetos constituem um bem


cultural que através de uma
abordagem museológica
podem também ter uma
função expositiva devido ao
seu potencial artístico,
cultural e didático. Portanto,
nos tratam entos de conserva­
ção/restauração que vêm
sendo realizados no L abora­
tório de C onservação e
Restauro do M AE, tem os
tentado vislumbrar os mais
variados usos futuros que o
objeto possa ter, respeitando
sua função investigativa
primordial.

Conclusão

O processo de co n ser­
vação/ restauração deve ser
estruturado sobre dois
conceitos principais:
reversibilidade e mínima
intervenção, porém não é
sim ples a definição de tais
parâm etros. N em todo
tratam ento é, em senso
estrito, reversível, portanto é
im portante que o co nserva­
dor interfira m inim am ente na
natureza de um objeto -
seus lim ites devem ser
definidos p ara cada p eça ou,
no m áxim o, coleção. D isso
deriva um a segunda im por­
tante p rática, que é o
registro, não som ente do que
foi utilizado no tratam ento,
mas tam bém o que foi
o bservado no objeto e
rem ovido dele durante a
limpeza investigativa.
R egistro que deve ser feito
cuidadosam ente por várias

Figs. 16 e 17 - Consolidação
finalizada.

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Figs. 18, 19 e 2 0 - Nivelamento das áreas com perda. Fig. 21 - Reintegração pictórica.

razões: para facilitar outros tratamentos concomitantes teoricamente, irreversíveis. Apesar disso, a
ou futuros; para registrar o nível de interferência limpeza investigativa, talvez, ofereça a melhor
para futuras análises; e para acum ular dados oportunidade para coletar informações, além de
para a base da pesquisa em conservação e ser a ocasião em que muitos dos objetos são de
restauração. Assim , o m aior núm ero de infor­ fato examinados em cada detalhe. A consolida­
m ações possíveis sobre o objeto arqueológico é ção/ estabilização dos materiais por interferir
preservado para futuros estudos ou exposições. mesmo que em um pequeno grau nas evidências
Os processos de lim peza e consolidação arqueológicas, através da introdução de substân­
constituem etapas complexas, decisivas e, cias químicas no objeto para coesão da m atéria

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cerâm ica, só deve ser realizada quando o proces­ apreciado em suas qualidades estéticas, enquan­
so de degradação tiver um a ação contínua e to, ao contrário, poderia estar desfigurado por
avançada, ou o m aterial encontrar-se em condi­ danificações - se restaura o valor estético do
ções muito frágeis para seu estudo e manuseio. objeto. É um a técnica de restauração que tem o
Quando um a lim peza e/ou uma consolidação é objetivo de disfarçar preenchim entos que tenham
necessária, esses procedim entos deverão ser sido feitos em áreas danificadas, perm itindo que
definidos em função da condição do material e da essas se m isturem, em m aior ou m enor grau, com
preservação do potencial informacional para a cerâm ica ao redor.
outros estudos. Ao trabalhar com um conjunto coerente de
Atualmente, tem-se dado ênfase a métodos de peças, amplia-se o potencial informacional
estabilização passivos através do controle ambiental revelado durante os processos de conservação,
do local de armazenamento dos objetos, quando não só em relação aos procedim entos e m ateriais
possível, por ser a resposta mais eficiente ao a serem utilizados para o tratam ento dos objetos,
conceito de mínima intervenção. quanto no que diz respeito à história dos própri­
Em relação às reconstruções ou nivelamentos os objetos.
de áreas perdidas, que podem ser necessários, Durante o processo de restauração, realizamos
para a conservação estrutural do objeto, uma uma observação cuidadosa da forma e decoração
condição m ais adequada de armazenamento, das peças cerâmicas, podendo também elaborar
para um a m elhor leitura do objeto ou para fins um modo de leitura dos objetos através da
expositivos, busca-se utilizar materiais com aplicação de um sistema de planos que operem
resistência m ecânica mais baixa que a cerâm ica e como coordenadas cartesianas; no caso de vasos
que sejam reversíveis, não interagindo com a com duas asas, o eixo principal situa-se compro­
matéria original. metendo ambas, e para determinar a vista frontal e
Os processos de conservação/ restauração posterior, quando possível, entende-se por vista
que também visem fins expositivos requerem frontal principal aquela cujos desenhos sejam mais
tempo, pois envolvem algumas técnicas adicio­ complexos.
nais não necessárias para publicações ou No caso dos vasos em questão com base
arm azenam ento, e devem ser realizados somente ovalada, é provável que fossem guardados semi-
após as considerações anteriorm ente expostas. enterrados no solo, portanto, num primeiro olhar
N essa circunstância, o objeto pode requerer um era apreciada a calota superior do objeto, e não as
m aior grau de lim peza e consolidação do que em laterais; é possível que a ceramista procurasse,
outros casos, ou mesmo preenchim entos adicio­ então, dar uma coerência formal para esse tipo de
nais (tanto para artefatos provenientes de observação. Algumas decorações de vasilhas
escavações com o para aqueles arm azenados no globulares adquirem maior coerência quando
M useu), tratam entos que se tornam claros observadas num corte horizontal na altura do maior
som ente após a verificação de com o o objeto diâmetro, planificando os desenhos do hemisfério
será apresentado. É por razões estéticas, para superior. (Fig. 22)
ilustrar um tipo, para dem onstrar um a tecnologia, Um grande avanço nas intervenções de
preencher um a am bientação, ou o quê? Lem ­ conservação/restauração arqueológica poderá
brando que, norm alm ente, a lim peza de objetos ocorrer na medida em que o restaurador tenha
arqueológicos pode ser lim itada pela não consciência, conhecimento do tipo de escavação e
definição do que seria a aparência original e pela as condições de proveniência da peça, ajudando na
rem iniscência de resíduos que podem ser definição do tipo de intervenção possível. E isto
im portantes para o estudo dos objetos. não somente em relação à recuperação física do
Enquanto estabilizar, colar, reconstruir objeto, mas também em função das questões que a
podem ser entendidos com o procedim entos peça deve responder.
conservativos, a reintegração pictórica não pode O m om ento da conservação/ restauração
ser realmente considerada uma técnica conservativa; deve ser antes de tudo um a fase de pesquisa que
com exceção de raros casos, o retoque não leve a uma m elhor com preensão da natureza do
previne ou desacelera nenhum a degradação do objeto, sua com posição, características da
objeto. No entanto, perm ite que o objeto seja técnica de fabricação, os tipos de deterioração

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Fig. 22 - Planificação da decoração geométrica.

[ue ocorreram com o tempo, e dos tratam entos Restauração com pesquisadores de outras áreas
»ropostos, enriquecendo a docum entação sobre que são agentes indispensáveis para se estabele­
>s objetos tratados, abrindo espaço para a cer um trabalho de investigação interdisciplinar
liscussão dentro da área de Conservação e mais amplo.

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LIMA, S.C. Specifities in the restoration of archaeological ceramics: a case study. Rev. do
Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 12: 269-281, 2002.

ABSTRACT: Explanation on the work that has been done by the Laboratory of
Conservation and Restoration of the Museum of Archaeology and Ethnology / USP on
the archaeological ceramic collection, discussing the specificity of the process of
ceramic conservation and restoration, the needed research, as well as that motivated
by it, and the opportunities for investigation, through a case study.

UNITERMS: Archaeological ceramic - Conservation - Restoration - Pre-Columbian


archaeology - Chile.

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Recebido p ara publicação em 20 de novem bro de 2002.

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