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Amaury de Souza * Raça e Política) no Brasil Urbano

1. Introdução. 2. Desigualdade e Um dos aspectos mais fascinan- erigira as barreiras mais sólidas
integração racial. 3. Raça e poHtica.
4. Amostra e métodos. 5. A tes do estudo das relações à sua mobilidade social.
desigualdade vivida: classes e raciais no Brasil é exatamente Entretanto, a integração e a
mobilidade social. 6. A desigualdade a discrepância existente entre ascensão social do negro e do
percebida: classe e identificação a imagem e a realidade da
partidária. 7. A dimensão poHtica: mulato deram-se no contexto
voto e preferência partidária. 8. situação social do negro e do de uma sociedade predominante-
Desigualdade racial e comportamento mulato. O desaparecimento do mente branca e de acôrdo com
polftico. 9. Conclusões. trabalho escravo há cêrca de 80
os requisitos e as regras
anos atrás não determinou a
inserção automática da massa impostas pelo grupo racial
de negros libertos na sociedade dominante. Tal assimetria nas
brasileira. De fato, os ganhos relações entre brancos e negros
sociais da população negra, determinou, de fato, os padrões
enquanto grupo, foram bastante de integração e de interação
modestos durante todo êsse raciais na sociedade brasileira.
período, e ainda hoje uma pro- O presente trabalho busca
porção substancial desta analisar algumas das manifes-
população concentra-se tações políticas desta estrutura
nos estratos de relações raciais.
mais baixos da pirâmide social.
t:: verdade que o negro encontrou
condições mais favoráveis para
o impacto social do trabalho escravo
a sua integração social naque-
1
não foi uniforme no Pais, ou sequer em
las áreas do país onde, em suas regiões mais urbanizadas.
ção e desenvolvimento
A articula-
das economias
período anterior à própria regionais foi um dos fatOres determinantes
da relativa integração social do negro e
Abolição, êle já se havia adapta- do mulato. Compare-se a êsse respeito
os trabalhos de Costa Pinto. L. A. da. O
do à agricultura ou ao artesanato negro no Rio de Janeiro. São Paulo
urbano como trabalhador EditOra Nacional, 1952; Fernandes, Flores-
tan. A integraçlo do negro na sociedade
livre. 1 E não é menos verdade de classes. São Paulo.
Dominus EditOra, 1965;
que um número considerável Azevedo, Thales de. Les 6lites de couleur
dans une ville brésiliense, U NESCO,
de indivíduos negros ascendeu Paris, 1953; Cardoso, Fernando H. Capitalis-
desde então à classe média mo e escravidlo no Brasil meridional.
São Paulo, Difusão Européia do Livro,
, urbana, mesmo naquelas regiões
, onde a herança escravagista * Professor do Instituto Universitário de
Pesquisas do Rio de Janeiro.

R. Adm. Emp., Rio de Janeiro, 11(4) :61-70, out.zdez. 1971


2. DESIGUALDADE E um segundo momento, a asslrnl- do negro e do mulato. li Em
INTEGRAÇÃO RACIAL mas constante de indivíduos lação dos valôres do branco
negros e, assim fazendo, desar- mostra-se na internalização do
Desigualdades raciais são, em ma ao mesmo tempo as casamento inter-racial como
última análise, produto da inte- possíveis resistências do branco, meta: é a aspiração do negro de
ração de grupos humanos resistências estas que seriam produzir descendentes mais
dotados de recursos diferenciais muito mais pronunciadas caso claros, uma prole embranquecida
de poder. A assimetria nas se tratasse da ascensão do negro que encontre menos resistência
relações entre brancos e negros enquanto grupo social. ~ à aquisição e ao usufruto de
no Brasil cristalizou-se em alguns exatamente êsse sistema que um status social mais alto.
padrões específicos de inte- impõe ao indivíduo negro um Ou então, o casamento inter-
gração racial. Em primeiro cálculo de ação que mina racial comprova o sucesso social
lugar, o grupo racial dominante do negro no mundo do branco:
incessantemente as suas pos-
cuidou de que a população sibilidades de vida associativa "mais do que a expressão do
negra não viesse a constituir um ou de mobilização como grupo. inculcamento de um padrão
grupo competitivo. I::sse fato
Tal cálculo lhe é impôsto estético branco" - escreve
é visível em alguns momentos
desde o início do processo de João Baptista Borges Pereira -
históricos, tal como na decisão mobilidade social. Para começar "a posse da mulher loira, espôsa,
de não se prover a massa de
a sua ascensão, é mister que noiva ou amante, é o termômetro
ex-escravos com técnicas sociais
o negro estabeleça uma relação que mede a projeção econômi-
e recursos materiais que lhes
deferencial com o branco em ca, artística e também social
permitissem usufruir as novas
um contexto de poucos patrões do negro ou do mulato
oportunidades; ou no estímulo
e muitos candidatos a protegidos. radialista". 6
à migração européia, visando
Essa relação de dependência é
a substituir a mão-de-obra
necessàriamente uma relação Dada a assimetria das relações
negra pelo trabalhador imigrante
entre indivíduos, onde o negro raciais no Brasil e os requisitos
mais qualificado e, ao mesmo
se qualifica como candidato para a integração do negro,
tempo, diluir os ex-escravos e
seus descendentes no seio através do contraste de suas a imagem do País como uma
de uma população branca maior ações àquelas da população "democracia racial" expressa,
negra. Uma vez adquirido um na verdade, uma situação
e mais prolífica. 2 O fato de
nôvo status, a total ruptura com relativamente liberta de tensões
que o negro não pôde competir,
o meio negro faz-se inevitável, raciais em virtude da margina-
enquanto grupo, por melhores
. seja como mecanismo de lização social da população
posições sociais deu substância
autodefesa - isolando o negra e mulata e da absorção
às atitudes de tolerância racial
indivíduo de relações sociais seletiva de indivíduos negros
apregoadas pela população
danosas à sua posição - seja com fortes ambições de mobi-
branca. No dizer de Roger
como mecanismo de ostentação lidade. A baixa saliência de
Bastide, foi precisamente
de status e de absorção de raça como critério para a
porque o negro não ameaçou o
status do branco que êste último novos padrões de vlda.> interação mais superficial e a
não desenvolveu mêdos ou pouca manifestação aberta de
Finalmente, e já como conse- preconceitos raciais não
ressentimentos em relação ao
qüência da desmobilização do
homem de côr.
grupo negro enquanto tal, essa
Em segundo lugar, essa assime- relação assimétrica impõe ao
tria impediu que se criassem negro, como requisito de 1963.

solidariedades dentro do grupo integração social, a assimilação • Bastide, Roger. The development
race relations in Brazil. In: Hunter, Guy
of

negro. Um dos aspectos desta do sistema de val6res do branco, ed. Industrializations anil race relations.
questão é evidenciada nos inclusive o estereótipo da London, Oxford University Press, 1965.
p. 9-29. Para uma discussão mais ampla do
obstáculos impostos à vida inferioridade do negro. O poder diferencial entre grupos raciais,
ver Blalock, Hubert M. Toward a theorY
associativa do negro. João processo de "embranquecimen- of minority-group relations. John Wiley,
Baptista Borges Pereira, por to" do negro socialmente 1967.

exemplo, sugere que o auditório móvel evidencia-se de várias • Pereira, João Baptista Borges. Cor,
profissllo e mobilidade: o negro e o r6dio
de rádio é uma das poucas formas. Em um primeiro mo- em Silo Paulo. Llvraria Pioneira EditOra,
situações de convívio e confra- mento, êle se revela na adoção, 1967.

ternização que o negro pode pelo negro, de valôres e padrões • Fernandes, Florestan. Mobilidade social
e relações raciais: o drama do negro e do
desfrutar sem sofrer sanções ou de comportamento do branco mulato numa sociedade em mudança.
Cadernos Brasileiros, (47): 51-67 maio} jun.
pressões externas." Entretanto, ao preço da rejeição de sua 1968. No discurso racial brasileiro, o
o aspecto mais importante identidade racial e do solapa- candidato à ascensão social é descrito
como "um negro com alma de branco".
nesse particular, tem a ver com mento de sua própria imagem.
• Ribeiro, René Religillo e relaçlies raciais.
o mecanismo clássico de Os estudos de René Ribeiro e Ministério da Educação e Cultura, Rio
ascensão social do negro, qual de Carolina Martuscelli sôbre de Janeiro, 1956; Martuscelli, Carolina.
Uma pesquisa sObre aceitação de grupos
seja, ser cooptado pelo branco o preconceito racial mostram que . nacionais, racionais e regionais em São
Paulo. Psicologia, Boletim n. 119 da Uni-
para posições sociais mais altas. as próprias vítimas da versidade de Silo Paulo, 1950.
I::ssesistema de apadrinhamento intolerância racial subscrevem • Pereira, JoIIo Baptista Borges, op, cito
garante a ascensão vagarosa às concepções derrogatórias p. 137.

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invalidam essa afirmação: lIé que discriminação racial, a igualdade desproporcional às taxas de
se confundem" - no dizer de de oportunidades de ascensão crime, alcoolismo e suicídio. 11
Florestan Fernandes - social e a universalidade do ~ minha intenção, neste traba-
"padrões de tolerância estrita- casamento inter-racial. Ao lho, explorar a possível
mente imperativos na esfera do internalizar tais atitudes, contribuição dessa crise de
decôro social com igualdade especialmente aquela que reza identidade do negro e do mulato
racial propriamente dita";" Ao não existir discriminação no ao seu comportamento
invés, essa tolerância benevo- Brasil, o negro leva o processo político.
lente apóia-se no fato de que de "embranquecirnento" à sua
o negro não constitui um grupo conclusão lógica, reafirmando 3. RAÇA E POUTICA
em posição de competir com o a inferioridade daqueles que,
branco e de que a ascensão mesmo na ausência de barreiras Existem pelo menos três
de uns poucos indivíduos ainda à sua ascensão social, ainda se aspectos do estudo de relações
tem muito de mobilidade concentram nas posições mais raciais que são imediatamente
consentida. Essas considerações ba ixas da sociedade. relevantes para a dimensão
também sugerem que a tole- política. Em primeiro lugar,
rância racial é viável dentro de Por essas razões, a integração caberia indagar em que medida
dois parâmetros, quais sejam, social do negro obtém-se às a experiência de desigualdades
o "ernbranqueclrnento" como custas da erosão de sua sociais por parte de um grupo
requisito básico de integração identidade racial e, conseqüente- étnico expressa-se em atitudes e
social e a desmobilização mente, de sua auto-imagem e comportamentos poIfticos
constante do negro enquanto do seu retraimento à associação diferenciais; em segundo lugar,
grupo social. O fato de que o com membros do mesmo grupo e se a primeira pergunta
aspecto racial brasileiro, racial. Florestan Fernandes comportar uma resposta
caracterizado por uma multiplici- sugere que êsse processo é positiva, sob que condições essa
dade de tons e matizes da côr particularmente dramático para experiência se transmuta em
da pele, não permita distinções o negro de classe média, o qual uma solidariedade racial capaz
inequívocas entre brancos e é obrigado a desenvolver de expressar-se como
negros não invalida o argumento. complicadas estratégias de comportamento poIftico coletivo;
O fator crucial nessa distinção acomodação com o branco ou e, em terceiro lugar, como
é o contrôle e a manipulação a se retrair por completo de opera o sistema político de
do status racial e étnico pelo qualquer interação que o force a uma sociedade multirracial no
branco - ou, no dizer exato de reafirmar sua rejeição da sentido de desmobilizar o
Abdias do Nascimento, pelo identidade racial.? Essa erosão potencial de comportamento
setor "menos negro" da insidiosa da identidade do político coletivo. 12 No presente
sociedade brasileira. negro, pela reafirmação de sua trabalho será considerada a
inferioridade e pelas pressões primeira questão, sem prejuízo
No que diz respeito à sua no sentido de seu "ernbranque-
desmobilização, a ascensão cimento", se mais visível em
social do negro em têrmos de ser posições sociais mais altas, 1 Fernandes, Florestan. op. cito p, 54.
cooptado pelo branco impõe-lhe existe em todos os níveis da 8 Pereira, João Baptista Borges, op. cito
p. 175. Ver também os artigos de Hammond,
sanções severas quanto à estrutura de classes no Brasil, Harley Ross. Race, social moblllty, and
convivência com indivíduos da fundada como está em uma politics in Brazil. Race, 4 (2), maio 1963;
Garcia-Zamor, Jean-Claude. Social mobility
mesma côr ou quanto a coleção sólida de estereótipos of negroes in Brazil. Journal of interameri·
can studies, 12 (2), abro 1970.
demandas de oportunidades e de atitudes raciais desfavorá-
• Fernandes, Florestan. op. cito p. 56 e sego
equalitárias. Assim, o negro cedo veis ou mesmo em concepções Ver. também Azevedo, Thales de. Cultura
aprende que "corno técnicas negativas do negro de fundo e situaçlo racial no Brasil. Editôra Civili-
zação Brasileira, 1966. Uma revisão
de ascensão e de preservação rei lgioso, 10 critica da hipótese da "crise de identidade"
do negro nos Estados Unidos é apresentada
de status, o silêncio, a cordialida- por McCarthy, John D. & Yaucey, W. L.
de e a indiferença, mesmo Por essas razões, não se necessi- Uncle Tom and Mr. Charlie: metaphysical
pathos in the study of racism and personal
simuladas, são preferíveis a ta de muita imaginação para dizorganization. American Journal of
SociolOgy, maio 1971.
uma atitude reivindicatória". 8 supor-se que essa erosão
SObre as relações entre preconceito
No que diz respeito ao seu da identidade do negro se
10
racial e classe social, ver Cardoso, Fernan-
"ernbranquecimento", o negro revele em uma extensa gama de do Henrique & lanni, Octávio, COr e
mobilidade social em Florian6polis. Compa-
é levado a aceitar os estereótipos comportamentos. De fato, vários nhia EditOra Nacional, 1960. SObre a
origem religiosa de estereótipos, ver Bastide,
e as atitudes negativas sôbre estudos dão testemunho da Roger. Color, racism, and christianity.
si mesmo, rejeitando a sua alta incidência de comporta- Daedalul, 86 (2): 312-27, 1967.

própria identidade racial e mentos anômicos entre negros, n Para o caso de São Paulo, ver Fernandes,
Florestan. A integração do negro na
buscando provar incessantemen- principalmente durante as sociedade de classes. op, cito v. 1, parte 2;
para o caso do Rio de Janeiro, ver
te ser &Ie, como indivíduo, uma primeiras décadas dêste século: Costa Pinto, L. A. da. O negro no Rio de
exceção à regra. Finalmente, a reação do negro aos esteró- Janeiro. op. cito passim. Ver também
Bastide, Roger. A criminalidade negra no
e como corolário de sua integra- tipos por êle internalizados, estado de São Paulo. In: Nascimento,
Abdias do. O nelro revoltado. Edições
ção, o negro subscreve à ao solapamento contínuo de GRD, 1968.
ideologia racial brasileira: a sua auto-imagem tem-se 11 Lamounier, Bolivar. Raça e classe na
inexistência de preconceito e polftica brasileira. Cadernos Brasileiros
evidenciado na sua contribuição (47): 39-50, maio/jun. 1968.

Raça e política no Brasil urbano 63


de algumas especulações sôbre a privação cujo denominador de sub-remuneração dos
segunda e a terceira perguntas. comum era a côr da pele. trabalhadores de côr e lhes
garantiu "certa eqüidade na
A questão do comportamento De fato, a consistência do competição salarial com os
político diferencial do negro e do comportamento político coletivo brancos envolvidos nos mesmos
mulato está, a meu ver, do negro revelava-se na sua níveis ocupactonals".> Da
intimamente relacionada à participação como "povo" mesma forma, êles se bene-
emergência do populismo no durante o Estado Nôvo e como ficiaram enormemente do
Brasil; pelo menos durante os seguidores de Vargas no período período de industrialização
primeiros anos do período de seguinte à redemocratização. acelerada durante a II Grande
democracia liberal, de 1945 a Não são poucas as indicações Guerra: êsse período multiplicou
1964, as categorias políticas de de que o voto negro e mulato as oportunidades de emprêgo,
negro e povo eram quase que era de fato um voto trabalhista; criando uma enorme demanda
intercambiáveis. A tentativa de os dados sôbre preferência de mão-de-obra. O aumento
Vargas de criar uma nova base partidária apresentados neste maciço de posições para .
política para o Estado Nôvo trabalho confirmam tais trabalhadores não qualificados
através da mobilização dos indicações. Gilberto Freyre teve especial significação para o
trabalhadores urbanos e a interpretou a preferência do negro e o mulato: é que êsse
importância política dessa negro por Vargas e pelo Partido aumento coincidiu com a
massa urbana nas duas décadas Trabalhista Brasileiro (PTB) ausência de corrente imigrató-
seguintes à redemocratização como um produto de seu pro- rias volumosas, deixando em
estabeleceram essa correlação; fundo sentimento de insegurança suas mãos o suprimento
e pelo menos dois fatôres e de sua busca de um quase exclusivo dêsse mercado
sugerem que a correlação entre substitutivo para a figura do de trabalho. Entretanto, a
negro e povo não era espúria. imperador ou do autocrata da escassez de mão-de-obra quali-
Por um lado, a população negra casa grande. Assim, Vargas teria ficada também forçou a abertura
e mulata contribuía despro- encarnado a figura do patriarca de canais de mobilidade ocupa-
porcionalmente para os setores benevolente ao nível do Estado cional até então inacessíveis à
de mão-de-obra mobilizados nacional, e o ter sido denominado população de côr, e não foram
por Vargas; e, por outro, a Pai dos Pobres denotaria não poucos de seus membros que
oposição a Vargas ressaltava apenas o reconhecimento dos conquistaram ràpidamente
essa correlação, num esfôrço benefícios auferidos pelos posições de classe média. Em
de transferir para um movimento trabalhadores urbanos durante segundo lugar, deu-se o fato
político os estereótipos impu- o Estado Nôvo, mas também não menos importante, da
tados ao negro e ao mulato. a dependência essencial do mobilização dessa população
Não que essa massa de negro e do mulato a líderes para formar a base política do
trabalhadores compartilhasse paternalistas.>' Embora esta Estado Nôvo e, mais tarde, do
uma identificação de objetivos hipótese peque pela excessiva PTB. Para tanto, não foi neces-
étnicos ou mesmo que fôsse simplificação dos processos sário que o apêlo de Vargas
sensível a líderes nascidos em sociopsicológicos envolvidos se dirigisse para minorias
seu seio; com exceção da Frente na identificação como um líder raciais: os negros e mulatos eram
Negra Brasileira de São Paulo político, ela sugere alguns na realidade a componente
os movimentos coletivos do fatôres importantes na explica- principal do "povo" que Vargas
negro não se baseavam em ção de sua lealdade a Vargas. transformou, de massa de
solidariedades raciais, não Em primeiro lugar, é fato que a cidadãos de segunda classe em
perseguiam objetivos exclusivos situação do negro e do mulato um dos principais suportes do
ou sequer pautavam pela busca melhorou substancialmente Estado Nôvo. Entretanto, a
de representação política, durante o Estado Nôvo. Até a lealdade política de negros e
concentrando os seus votos implantação da legislação mulatos vai, a meu ver, além de
como um eleitorado coeso. Pelo trabalhista, a discriminação sua concentração entre traba-
contrário, "tôdas as tentativas ocupacional em virtude de fatô- lhadores manuais e é nesta
de congregar o voto negro, por res raciais era fato notório: não conexão que a hipótese de
apenas era o negro, em sua Gilberto Freyre ganha um nôvo
exemplo, canalizando-o para
grande maioria, confinado às significado. O padrão tradiciona-
determinado representante,
posições ocupacionais mais
sempre falharam irremediàvel- baixas e menos estáveis mas,
mente";> Não é difícil identifi- mesmo quando aí empregados, aa Fernandes, Florestan. A integração •••
car aqui a ação dos mecanismos êle era sub-remunerado. Assim, op. cito v. 2, p. 57.
tradicionais de pulverização as medidas de proteção ao 1< Freyre, Gilberto. A escravidão, a monar-
qula e o Brasil moderno. Revista
de solidariedade entre os negros; trabalho introduzidas pela Brasileira de Estudos Pollticos, 1 (1),
não obstante, essa população legislação do Estado Nôvo foram 39-48, dez. 1956. Uma outra sugestão da
preferência de negros e mulatos pelo PTB
não votava de forma aleatória, particularmente benéficas para foi a de Tavares, José Nilo. Marginalismo
soical, marginalismo pollticos? Revista
dado que ela compartilhava, o negro e o mulato. O estabe- Brasileira de Estudos Pollticos, 13, 69-86,
jan. 1962.
mesmo que de forma latente, lecimento do salário mínimo,
Fernandes, Florestan. A integração .••
uma mesma experiência de por exemplo, eliminou a política
lO
p. 147.

64 Revista de Administração de Emprêsas


lista de relações raciais no entrevistados 1.886 eleitores lizadas e trabalhadores agrí-
Brasil sempre se estruturou durante a última semana de colas).
como uma dependência unilate- agôsto e a primeira semana de
ral do negro ao branco, no setembro de 1960. A amostra foi A educação dos entrevistados foi
sentido de que o recipiente de estratificada pelas 15 zonas também classificada em dois
benefícios não se encontra em eleitorais do Estado e seleciona- grupos: a) educação primária,
posição de reciprocá-los com o da a intervalos regulares das compreendendo todos aquêles
doador, exceção feita a manifes- listas eleitorais do Tribunal que possuíssem -
tações de comportamento Regional Eleitoral; portanto, essa até curso primário
deferenciais. Assim, a integração amostra é representativa de completo, inclusive; e b)
social do negro e do mulato indivíduos alfabetizados, que educação secundária ou mais,
fêz-se à custa de seu rebaixa- possuíam título de eleitor e com incluindo todos aquêles que
mento a recipiente de benefícios idade acima de 18 anos. 17 possuíssem secundário incom-
e favores, sujeito ao poder e à pleto até universitário completo.
benevolência do branco. A determinação da côr do Finalmente, agreguei prêtos e
Portanto, a passagem de uma entrevistado foi feita pelo entre- pardos em um único grupo ao
situação de "negro da casa" vistador e a sua avaliação qual denominei de negros. As
para uma de "pobre" se fêz sem classificada como "branca, razões para tal procedimento são
solução de continuidade. Pois, parda, preta ou amarela". t::sse simples. Em primeiro lugar,
como lembrava Simmel, o pobre critério de coleta de dados, em existia um número extremamente
é classificado como categoria que pêsem as suas limitações, reduzido de prêtos e pardos na
social não em virtude do que foi aceito como válido no amostra. Caso utilizasse os
êle faz, mas em virtude do que presente trabalho. O quadro 1
se faz para êle. 16 Por essas três grupos para análise, seria
mostra a distribuição impossível utilizar maiores
razões, o chamar-se a Vargas dos entrevistados pela sua côr.
Pai dos Pobres tinha, para o contrôles nas tabulações e isso
Quadro 1: Distribuição da amos- quando o teste de hipóteses
negro, um significado muito
especial e é somente nesta tra do eleitorado da Guanabara dêste trabalho demanda tabelas
por côr, 1960* trivariadas. Em segundo lugar,
conexão que se pode entender
como uma minoria racial a decisão de agregá-los teve
responde ativamente a apelos Côr N.O
muito a ver com o fato de, nos
% aspectos mais essenciais, as
aos "pobres" no momento em
que ela experimenta a maior duas categorias se comportarem
Branca 1.443 78
taxa de mobilidade social. de forma muito similar. Entre-
Parda 285 16
Preta 112 6 tanto, ressaltei aquelas
Se essas considerações são instâncias em que os dados
1.840 100 sugerem padrões diferentes para
corretas, segue-se que a lealdade
política de negros e mulatos a negros e mulatos. Mas o estudo
* Foram eliminados da amostra 46 entre- dessas diferenças exigiria a
Vargas e ao PTB seria maior vistados de côr "amarela".
do que se esperaria caso se realização de uma nova
considerasse unicamente a sua pesquisa, objetivo êste que
A ocupação dos entrevistados foi supera em muito as ambições do
posição social. Da mesma forma, classificada segundo uma
essa população tenderia a se presente estudo.
escala ocupacional muito se-
ver como categoria social abaixo melhante à escala -empregada Creio também conveniente
do que seria de esperar dada por Bertran Hutchinson em aduzir duas palavras sôbre um
a sua real posição social. E, Mobilidade e trabalho; para os método de análise empregado
finalmente, as razões para a sua propósitos do presente trabalho, neste trabalho. As hipóteses
preferência política deveriam essas categorias foram agrega- anteriormente formuladas - a
encontrar-se na ação conjunta das em três grandes grupos, existência de um efeito
de sua posição social e de sua como segue: a) ocupações não cumulativo de raça e classe sôbre
auto-imagem. Essas são as manuais (profissões liberais e comportamento político e de um
hipóteses que êste trabalho altos cargos administrativos,
busca investigar. cargos de gerência e direção, 16 Sim mel, Georg. Der Arme, ensaio
altas posições de supervisão e traduzido e publicado em Social Problems,
13 (3), 1965. Ver também Coser, Lewis A.
4. AMOSTRA E M~TODOS inspeção de outras não manuais, The sociology of poverty. Social Problems,
13 (3): 140-48, 1965.
posições mais baixas de super- Para maiores detalhes sôbre a seleção
Para testar essas hipóteses, visão e inspeção e outras
17
da amostra, ver Soares, G. A. Dillon.
lancei mão de uma análise ocupações não manuais e cargos
Classes sociais, strata social e as elei-
ções presídenclals de 1960. SociOlogia, 23
secundária de dados coletados de rotina não manuais e (3): 217-38, set. 1961. Outros de seus tra-
balhos baseados nestes dados são: Interêsse
por Gláucio Ary Dillon Soares na fazendeiro e proprietário de polítlco, conflito de pressões e indecisão
cidade do Rio de Janeiro em terras); b) ocupações manuais
eleitoral. Srntese Polftica, Econtimica
e Social, 3 (9): 5,34, jan./ mar. 1961. Desen-
1960. A investigação original especializadas; e c) ocupações volvimento econômico e radicalismo
polltico: notas para uma teoria, Boletim
visou à previsão dos resultados manuais não especializadas do CLAPCS, 4 (2): 117-57, maio 1961. As
bases sociais do lacerdismo. Revista
das eleições presidenciais de (ocupações manuais não CivilizaçlO Brasileira, 1966. Agradeço a
1960; nesse sentido, foram especiàlizadas e seml-especla- Gláucio Soares a permissão
êsses dados.
para analisar

Raça C política no Brasil urbano ,- 65

~~~~~~--- - ._.-
outro efeito similar de raça havia sido senslvelmente quem experimentou o impacto
e auto-imagem sôbre êsse tipo menos severa do que na região do Estado Nôvo e do período de
de comportamento - requerem sul do país. Costa Pinto mostra expansão econômica durante
testes baseados em um modêlo que, em 1940,apenas 12% a II Grande Guerra. O quadro 4
analítico tal que a relação da população branca em idade mostra a experiência de
entre duas variáveis seja inter- escolar eram analfabetos, mobilidade social (mensurada
pretada por meio de uma enquanto que essas proporções pela diferença entre a ocupação
variável tnterveniente, denomi- subiam para 24% e 46% entre do entrevistado e aquela de seu
nada "fator de teste"; o critério mulatos e negros. 19 pai) dos dois grupos.
para se determinar tal interpreta- A desigualdade em têrmos de
ção consiste em se saber se as nível educacional é confirmada Quadro 4: Raça e mobilidade
associações parciais desapare- pelos dados coletados em 1960 social
cem ou se reduzem quando no Rio de Janeiro. Como
o fator de teste é mantido mostra o quadro 2, a Mobilidade Social Brancos Negros
constante. Um método para se distribuição de brancos e negros
obter uma tabela que mostre a por níveis educacionais é
relação entre duas variáveis, e diametralmente oposta.
Ascendentes 23% 31%
quanto o fator de teste é Estllveis 54% 46%
controlado, é o da padronização Descendentes 23% 23%
Quadro 2: Raça e educação
dêsse fator. Reduzido aos (1. 215) (315)
seus aspectos essenciais, tal
método provê uma medida Educação Brancos Negros
sumária dos valôres de duas Os dados sôbre mobilidade social
variáveis quando uma variável Curso primário ou de brancos e negros são notá-
interveniente é mantida constan- menos 37 % 70 % veis, especialmente quando se
Curso secundário
te. Por exemplo, neste trabalho ou mais 63% 30% tem em conta que a maioria de
indago qual seria a distribuição (1.321) (347) negros ascendentes se concentra
de preferências entre brancos em ocupações não-manuais.
e negros caso ambos os grupos Assim, êsses dados mostram no
tivessem o mesmo nível edu- Desigualdades similares podem nível individual o resultado
cacional; vale dizer, caso ser observadas em relação ao das múltiplas oportunidades de
educação - um fator que explica nível ocupacional dos dois ascensão abertas ao negro
grande parte da variança na- grupos. Costa Pinto já notara durante e após a II Grande
quela variável dependente - que embora a população de Guerra. Que êle soube delas
fôsse controlada ou mantida côr no Rio de Janeiro constituís- tirar proveito mostram os dados
constante. A padronização do se apenas 25% da população de sua maior taxa de ascensão
fator de teste (nesse caso, ativa, ela entrava na categoria social em relação a do branco.
educação) mostra as relações de "empregados" numa pro- A forte desigualdade de posições
entre raça e preferência partidá- porção de 99%. O quadro 3 sociais não pode, portanto,
ria, reduzindo uma tabela de
oito celas a uma outra de Quadro 3: Raça e ocupação
apenas quatro celas. 18
5. A DESIGUALDADE VIVIDA: Ocupação Brancos Negros
CLASSE E MOBILIDADE
SOCIAL Não-Manuais 71% 37%
Não obstante a ascensão social Manuais Especializados 21% 33%
do negro desde a II Grande Manuais Não-Especializados 8% 30%
Guerra, a extrema desigualdade (1.321) (347)
racial que herdamos do passado
escravocrata tem revelado
possuir uma notável estabilidade. mostra a distribuição ocupacional obscurecer os seus ganhos
Um exame superficial dos de brancos e negros no Rio de nas últimas duas décadas: cabe
Censos de 1940e 1950,por Janeiro em 1960. perguntar como o negro percebe
exemplo, mostra a considerável tais ganhos.
distância que separa brancos ~stes dados mostram que o negro
e negros em tôdas as esferas ocupa uma posição social
sociais. Apenas para citar uma muito menos vantajosa do que o l8 o método de padronização é discutido
em Rosenberg, Morris. Test factor
instância, em 1930 só 41% de branco. Entretanto, cabe também standardization as a method of Interpreta-
tion. Social Forces, 41 (1): 53-61,out.
todos os brancos, em contraste perguntar em que medida essas 1962. Entretanto, para que tal método
com 73% de negros -e 69% de desigualdadês se modificaram seja corretamente aplicado é necessário
que se postule a existência de efeitos adi-
mulatos, eram analfabetos. Tais em relação à última geração; tivos entre as vari6veis; ver a êste respeito
o artigo de Atchley, Robert C. A qualifica-
desigualdades estavam presentes tal questão é especialmente tion of test factor standardization: a
mesmo no Rio de Janeiro onde pertinente neste trabalho dado methodological note. Social Forces, 47 (1):
84-85,set. 1968.
a experiência da escravidão que a geração entrevistada foi :IlI Costa Pinto, L. A. da. op. cito

66 Revista. de Administração de EmprêstU

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6. A DESIGUALDADE PERCEBI- Quadro 6: Raça, ocupação e percepção de classe em desvantagem
DA: CLASSE E IDENTIFICAÇÃO
DE CLASSE Não-Manuais Manuais
Brancos Negros Brancos Negros
Sugeri no início dêste trabalho
a existência de um paradoxo na
situação do negro, qual seja: Classe média 23% 7% 5% 3%
o fato de êle se avaliar como Classe trabalhadora 49% \ 77C1 61 % \ 93C1 69% \ 95C1 73%} 97C1
Classe pobre 28%J 10 32%1 10 26%J /0 24% /0
"pobre" exatamente quando (789) (95) (311) (174)
experimentava marcada ascen-
são social. Também sugeri que
era essa identificação resultado uma classe em situação des- mas o negro rico, ainda que
da erosão de sua auto-imagem vantajosa? O quadro 6 sugere que apenas psicologicamente,
no processo da integração a resposta a essa pergunta é continua negro.
social e da situação de afirmativa. 21
dependência em relação ao 7. A DIMENSÃO POUTICA:
branco, o fator responsável, no I!sse quadro mostra que o negro VOTO E PREFERI!NCIA
nível agregado, pelo apoio do tende a perceber as classes PARTIDARIA
negro a Vargas. O quadro 5 com as quais êle se identifica
apresenta os dados relativos à como aquelas em situação mais Tendo em vista os dados ana-
identificação de classe. 20 desvantajosa. Assim, quando lisados, a hipótese de .
comportamento polftico diferen-
Quadro 5: Raça, ocupação e identificação de classe ciaI em função de raça parece .
ser bastante plausível. Existem
Não-Manuais Manuais pelo menos duas formas pelas
Brancos Negros Brancos Negros quais a experiência de
desigualdades raciais pode
manifestar-se politicamente. Em
Classe média 75% 43% 29% 14% primeiro lugar, é concebível .
Classe trabalhadora 19%} 25C1 44% \ 57C1 58% \ 71C1 63%' 86C1 -t que a percepção dessas
Classe pobre 6% 10 13%J 10 13%J 10 23%J 10,
desigualdades se manifeste nos
(929) (124) (376) (217)
níveis de participação poIftica da
minoria racial. Vários autores
analisados em conjunto, êsses já sugeriram que o negro de
As diferenças na identificação classe média, em virtude das
de classe entre brancos e negros dois quadros sugerem que,
constantes experiências de frus-
são notáveis. Em primeiro independentemente de sua po-
sição social Objetiva, o negro tração com as quais se
lugar, a maioria dos negros, quer confronta, acaba por isolar-se de .
"manuais" ou "não-manuais", se vê como membro da "classe
tôda atividade social e políti-
identifica-se com as classes trabalhadora" ou "pobre" e
que essas classes são para êle ca.22 Em segundo lugar, a
trabalhadora e pobre, enquanto experiência de desigualdades
que apenas a maioria de as classes menos favorecidas
na sociedade. Portanto, parece raciais pode manifestar-se em
brancos "manuais" se identifica têrmos de preferência por uma
como tal. Da mesma forma, em bastante claro que o fator
interveniente entre classe e organização política que mais
cada categoria ocupacional, um
identificação de classe é raça, se aproxime das aspirações da
número maior de negros do minoria racial. Já fiz menção,
que de brancos se identifica vale dizer: o negro,
em função dos estereótipos em outra parte dêste trabalho,
com essas classes. Em segundo
a vários estudos que sugerem
lugar, embora o negro "não- imputados às suas
características físicas, vê-se ser o voto negro um voto
manual" tenda a se identificar
consistentemente como membro trabalhista por excelência.
mais com a classe média do
que o negro "manual", essa de uma categoria social mais Os dados coletados por esta
diferença é muito menor do que baixa. Isso também significa pesquisa não permitem um teste
aquela observada entre brancos. que atravessar a linha de classe mais rigoroso das diferenças
Assim, a mobilidade social não implica necessàriamente
não parece ter sido suficiente atravessar a linha de raça,
para modificar a percepção pois enquanto o branco se •• A pergunta original era: "Qual das
. seguintes classes sociais o sr. acha que
de sua situação como sendo despoja de sua identificação é a sua?", seguida de seis alternativas.
Agreguei essas escolhas como segue:
mais baixa do que o é na como "classe trabalhadora ou classe média (classe alta, média-alta e
realidade: o fato é que mesmo pobre" ao ascender a posições de média-baixa); classe trabalhadora (classes
trabalhadora e operária) e classe pobre.
o negro de classe média conti- classe média, o negro tende a 21 A pergunta original era: "Daquelas
nua a se ver como "trabalhador" conservar sua identificação classes sociais, há alguma que esteja re
cebendo menos do que deve?", seguida
ou "pobre". original, a continuar a ver-se das mesmas alternativas descritas; essas
como "negro". Ou, parodiando escolhas foram agregadas de maneira idên··
~L . .
Isso significa que o negro Jacques Lambert, é verdade que
." Ver, por exemplo, Lamounier, Bolivar.
também se vê como membro de no Brasil o branco pobre é negro; op. clt.

Baça e política. no Brasa urõa.no 67,


em níveis de participação cumulativo entre classe, iden- raça e classe. O quadro 10
política. Entretanto, é possível tificação de classe e preferência apresenta os resultados da
avaliar-se tais diferenças através partidária.> O quadro 8 mostra tabulação de raça e partido
das diferenças em participação a distribuição das preferências quando educação é mantida
eleitoral e de manifestação de partidárias de negros e brancos, constante. Já atento para a de-
interêsse por questões políticas. sem que classe social seja manda de validação dessa
Os dados aqui analisados controlada. associação, aduzi ao quadro os
mostram que, no que diz resultados de votação em
respeito à participação eleitoral, Quadro 8: Raça e preferência diversas eleições para candidatos
não existem diferenças signifi- partidária
udenistas e petebistas.
cativas entre brancos e negros.
As abstenções nas eleições de Partido Brancos Negros Quadro 10: Raça, partido e voto
1960 são meramente proporcio- padronizado por educação
UDN 53% 20%
nais a cada um dos grupos. PTB 31% 56%
Quanto ao interêsse poHtico Outros 16% 24% Partido e Voto Brancos Negros
(1.118) (289)
manifestado, a análise feita por
Preferência Partidária
Gláucio Soares já havia mostrado UDN 62% 32%
não existirem diferenças ~sse quadro mostra que existe PTB 38% 68%
significativas entre brancos e uma diferença substancial na
Eleições Presidenciais,
negros; a análise aqui apresenta- preferência partidária de brancos
1955
.Juarez 47% 23%
da, utilizando as mesmas e negros. Essa diferença é Juscelino 53% 77%
variáveis com diferentes níveis muito mais clara se eliminarmos Eleições Presidenciais,
de agregação, confirma essa os casos de preferências por
1960
conclusão. O quadro 7 apresenta partidos outros que o PTS e a
Jânio 67% 46%
Lott 33% 54%
os dados para interêsse político
União Democrática Nacional Eleições Presidenciais,
por raça quando educação é (UDN). O quadro 9 mostra 1960
mantida constante; cabe aduzir Milton Campos 65% 35%
estas novas diferenças:
que a análise do quadro trivaria- João Goulart 35% 65%
Eleições Estaduais,
do mostra não existirem Quadro 9: Raça e preferência 1960
diferenças significativas de partidária Carlos Lacerda 67% 44%
interêsse político entre negros e Sérgio Magalhães 33% 56%
brancos com curso secundário
ou superior. 23 Partido Brancos Negros

UDN 63% 26%


~ste quadro mostra de maneira
Quadro 7: Interêsse poHtico e PTB 37% 74% bastante clara que a associação
raça padronizado por educação (945) (221 ) entre raça e partido não é
espúria: a maioria dos negros,
Interêsse Brancos Negros independentemente de sua
As diferenças de preferência classe social, é petebista,
Alto 40% 36% partidária entre brancos e negros enquanto que a maioria dos
Médio 49% 54% são claras, indicando a existên-
Baixo 11% 10%
brancos é, da mesma forma,
(1.411) (381)
cia de uma polarização política udenista.
em função de raça. Na verdade,
é mais realista limitar a O quadro 10 mostra, ainda, que
Assim, pelo menos ao nível da análise aos dois partidos ma- raça é uma variável poderosa na
participação eleitoral ou interês- joritários; em primeiro lugar, predição do comportamento
se político, não parecem existir porque a UDN e o PTS político no Rio de Janeiro, pois
diferenças significativas entre congregavam 83% do eleitorado que essa associação se mantém
brancos e negros. Segundo as da Guanabara, e em segundo quase inalterada quando
hipóteses anteriormente lugar, porque a situação educação é mantida constante.
formuladas, tais diferenças política se polarizava, com claros ~sse fato é confirmado no
existiram em têrmos de preferên- tons ideológicos, ao redor dos nível da análise correlacionaI.
cia partidária. Se a hipótese dois partidos. Assim, a elimina- O coeficiente Q entre raça e pre-
é correta, então o negro deveria ção dos demais partidos nesta ferência partidária é igual a
preferir o PTS além do que seria análise não violenta a situação 0,66; o coeficiente parcial,
de se esperar dado o conheci- real que está sendo estudada.
mento de sua classe social. ~ ~ possível, entretanto, que a
necessário que a hipótese de forte associação encontrada •• Ver Soares Gláucio. Interêsse polftico .••
op, cito p. 23. O grau de interêsse poll-
comportamento político entre raça e preferência partidá- tico foi mensurado através da questão:
diferencial entre brancos e ria se deva à ausência de "Qual o grau de interêsse que o sr. tem
pelas próximas eleições? O sr. se consl-
negros seja formulada desta contrôle sôbre a classe social do ra: muito interessado, bastante interessado,
pouco ou não interessado?".
maneira pois análises anteriores entrevistado, pois se sabe que
dêsses dados demonstraram existe uma forte associação ". Veja-se os artigos de Gláucio Soares
citados neste trabalho. A preferência
existir uma associação entre entre classe e partido partidária foi obtida pelas respostas à
questão: "Qual o partido pelítlco de
classe social e preferência no Rio de Janeiro sua preferência?", seguida das alternativas:
partidária, bem como um efeito e outra forte associação entre UDN, PSD, PTB, PSB, PDC, PSP, PRT,
PRP e outros.

68 Revista de Administração de EmprêsaJ8


mantendo-se educação constan- Quadro 12: Raça, partido e mobilidade social de não-manuais
te, é igual a 0,57.
Partido Brancos Negros
Assim, para se completar esta
Ascendentes Estáveis Ascendentes Estáveis
análise, cabe perguntar se os
dados apóiam a hipótese ante-
riormente formulada de que a UDN 68% 76% 35% 51%
lealdade política de negros PTB 32% 24% 65% 59%
(154) (330) (37) (29)
ao PTB se deve à sua auto-
imagem de "pobres" na socieda-
de brasileira e à associação quadro por partes. Em primeiro lealdade política ao PTB entre
histórica entre esta auto-imagem lugar, vemos que a maioria dos os negros de classe média,
e a liderança política de Vargas. brancos se classifica como devido à incorporação incomple-
classe média, enquanto que a ta ou rejeição parcial dos
8. DESIGUALDADE RACIAL
maioria dos negros se classifica valôres políticos da classe média
E COMPORTAMENTOPOLfTlCO branca. Essa hipótese é tão
como pobre. Em segundo lugar,
A análise até agora realizada no caso dos brancos, classe e mais plausível quando se tem
mostrou que o negro, além de identificação de classe influen- em mente que o negro desenvol-
ocupar, de fato, posições sociais ciam cumulativamente a veu a sua lealdade a Vargas e
mais baixas do que o branco, preferência partidária. Assim, o ao PTB há menos de três décadas
vê-se como membro de catego- branco de ocupação manual atrás e que durante êsse
rias sociais mais baixas e de ou educação primária tende a período êle experimentou uma
categorias sociais percebidas se identificar como pobre e, substancial taxa de mobilidade
como estando em clara situação conseqüentemente, a preferir o social. O quadro 12 apresenta
de desvantagem na sociedade. PTBj o branco de ocupação os resultados da tabulação
Por outro lado, acabamos de não manual e educação secundá- por mobilidade social e preferên-
demonstrar que o negro é ria ou superior tende a se ver cia partidária para negros e
petebista, não importa qual seja como classe média e, portanto, brancos "não-manuais".
a sua posição social. Resta a preferir a UDN. Entretanto, no
verificar se a sua auto-imagem caso dos negros, essas relações O fato do negro que se identifica
pode explicar essa associação. se modificam. Assim, vemos como pertencendo à classe
Esta questão é particularmente que o negro de ocupação média continuar preferindo o
importante pois a análise dêsses manual tende a se ver como PTB é agora explicado pela
mesmos dados realizada por "pobre" e a preferir o PTB em persistência de lealdade política
Gláucio Soares mostrou que a escala muito maior do que ao partido. Um exame do
preferência partidária é seria de se esperar, dado o quadro 12 mostra exatamente
cumulativamente influenciada conhecimento de sua identifica- isto: a maioria dos negros
por classe e pela identificação de ção de classe: os dados "não-manuais" são recém-chega-
classe do entrevistado. Portan- mostram que 70% dos negros dos nessa classe enquanto que
to, pergunta-se aqui se e em que se vêem como pobres a maioria dos brancos "não-
que medida a identificação com votam ou preferem o PTB, manuais" apenas permaneceram
diferentes grupos de referência enquanto que apenas 55% dos na mesma posição ocupada
modifica a associação entre brancos na mesma situação o pelos seus pais. Assim, entre
raça e partido. O quadro 11 fazem. O negro que se visualiza brancos e negros estáveis, a
mostra os resultados da como membro da classe média, maioria prefere a UDN, embora
tabulação de raça e partido por não obstante, continua a a proporção dos que o fazem
identificação de classe, pa- preferir o PTO, pois menos de entre os brancos seja muito
dronizada por educação. 25 40% nessa categoria vêem a maior que aquela entre os
negros. A persistência de leal-
Examinando-se êste quadro, UDN como o seu partido. Essa dade política ao PTB - como
parece bastante claro que deve diferença não pode ser sobrevivência de um comporta-
ser afirmativa a resposta à explicada em têrmos de sua mento adequado ao seu meio de
pergunta de se a auto-imagem do identificação com a classe pobre. origem - também se verifica
negro explica a sua preferência Uma hipótese alternativa seria entre os brancos ascendentes:
pelo PTB. Analisemos êste a de uma persistência de 8% a mais entre êles ainda
Quadro 11: Raça, partido e identificação de classe padronizada por preferem o PTB em comparação
educação com aquêles que o fazem entre

Partido Brancos Negros


•• Para os propõsltos desta análise, "classes
Média Pobre Mêdia Pobre trabalhadoras e pobre" foram agregados
em uma s6 categoria: pobre. Vale notar
que ess!,s duas categorias têm signifi-
cados diferentes. Por exemplo, a identifica-
39% 30% ção com a "classe trabalhadora" é típica
UDN 71% 45% dos setores de ocupação manual mais
PTB 29% 55% 61% 70% integrados no mercado de trabalho. Em
(587) (334) (52) (163) outra pesquisa, com maior número de
casos, essas diferenças deveriam ser
levadas em consideração.

Raça e política no Brasil urbano 69

~--~---~-- --~ -------


os brancos estáveis. Mas, essa Os dados apresentados neste
persistência de lealdade é trabalho mostram que o negro
particularmente notável no experimentou considerável
caso dos negros ascendentes: mobilidade social no Rio de
16% a mais dentre êles preferem Janeiro nas últimas décadas: e
o PTS em comparação àqueles êsse foi um dos fatôres primor-
em posição estável. ~sses diais na desmobilização da
dados nos permitem, portanto, Frente em São Paulo. Até os
concluir que a diferença de anos 40, o negro paulista, sentin-
comportamento político entre do-se excluído, atribuía à
os negros de classe média se sociedade a culpa de suas des-
deve à grande mobilidade de ditas. Mais tarde, porém, essas
negros de origem "manual", e à tendências seriam, no dizer de
rejeição ou incorporação incom- Florestan Fernandes, "sublima-
'pleta dos valôres políticos da das e reprimidas, dando lugar a
classe média branca. propensões acomodatícias,
9. CONCLUSõES graças às quais o negro e o
mulato aproveitaram as vias
~ste trabalho buscou demonstrar abertas pela ascensão gradual.
'algumas hipóteses relativas ao Voltaram, então, as costas às
comportamento político dife- antigas propensões ao protesto
renciai do negro no Rio de coletivo". 26
Janeiro. O tema básico da
investigação foi a preferência do Assim, pode-se supor que
negro pelo PTS além do que existam pelo menos duas
seria de se esperar dada a sua condições necessárias para que
posição social. Atribuiu-se essa a percepção de desiguaIdades
preferência à identificação do devidas a valôres raciais se
negro com os "pobres" e, no caso transforme, de nôvo, em
dos negros de classe média, à solidariedade para a ação cole-
persistência de lealdade política tiva. Em primeiro lugar, pela
no seu processo de mobilidade ruptura dos canais de ascensão
social. social abertos ao negro. Essa
condição baseia-se no fato de
Valeria a pena especular sôbre que a existência de possibilida-
as possíveis implicações dêsses des de mobilidade social
dados na explicação de individual induz um cálculo
movimentos políticos coletivos racional ao negro segundo o qual
entre negros. A sua auto- as suas chances de ascensão
imagem de minoria racial são estimadas como estando em
desprivilegiada poderia ser vista proporção inversa à sua
como base para a formação de solidariedade étnica. Ou, em
solidariedades étnicas e de segundo lugar, pelo aumento
uma base de poder para as suas brusco da taxa de mobilidade
demandas por melhores con- social do negro, de tal forma que
dições de vida como grupo. Na a classe média negra cresça
verdade, a existência de um substancialmente. Aqui, e
sentimento comum de privação então, é possível ao negro
não parece ser suficiente para rejeitar as "propensões acomo-
criar-se tais solidariedades; pois datícias" de que falava
o fato é que êsse sentimento Florestan Fernandes, e exigir a
se coloca para o negro como sua integração incondicional
fruto de sua situação individual, na ordem social competitiva.
como prova de sua inferioridade
em uma sociedade onde não
existe discriminação racial. As •• Fernandes, Florestan. A integração do
negro ••• op. cito v. 2. Isso não significa
experiências de movimentos que tais propensões ao protesto coletivo
negros coletivos durante os não hajam encontrado expressão alter-
nativa, ainda que tão-sOmente no plano
anos 30 são taxativas nesse simbólico. Por exemplo, Emllio Willems
sugere que uma das funções dos cultos de
sentido. A Frente Negra Brasilei- umbanda é a rejeição e a "subversão
ra, por exemplo, criou-se em uma simbólica" da tutela paternalista dos
estratos sociais mais altos. Ver a êsse res-
situação onde o negro não peito Fernandes, Florestan. Religious
mass movements and social change in
podia aspirar à mobilidade Brazil. In: Baklanoff, Eric N. ed. New
social ou mesmo ao trabalho perspectives of Brazil. Nashville, Vanderbilt
University Press, 1966, p. 205-32. Ver
manual estável, dada a compe- também o artigo de Warren, Donald Jr.,
The negro and religion in Brazil. Race,
tição de imigrantes europeus. 6 (3), jan. 1965.

~o Revista de Administração de Emprêsa8