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Adesão da Venezuela ao Mercosul: prós e contras » Política Externa 20/08/17 09)00

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Adesão da Venezuela ao Mercosul: prós e contras EDIÇÃO ATUAL - VOL. 24 Nº 1 E 2

por Depoimentos da sociedade civil na Comissão de Relações Exteriores do Senado em jul/dez - 2015
10/09/2009 O Acordo de Viena sobre o
projeto nuclear iraniano
evitou as consequências
0 comentários Curtir 0 trágicas da hipótese de o
Irã, país inserido na região
Tweetar
mais tensa do mundo, obter
armamento nuclear.
A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado Federal realizou quatro
audiências públicas, nos dias 16 e 30 de abril, 9 de junho e 9 de julho, para instruir o Projeto de ADQUIRA ESTA EDIÇÃO
Decreto Legislativo nº. 430, de 2008 que “Aprova o texto do protocolo de adesão da República
Bolivariana da Venezuela ao Mercosul, assinado em Caracas em 4 de julho de 2006, pelos veja as edições anteriores da revista
Presidentes dos estados partes do Mercosul e da Venezuela”.
assine o acervo Política Externa

Participaram das audiências públicas, entre outros convidados, Celso Lafer, ex-ministro das
Relações Exteriores e presidente da Fapesp, Maria Regina Soares de Lima, cientista política,
professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e do Instituto Universitário de
Pesquisas do Rio de Janeiro, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, consultor em Brasília, ex- ÍNDICES REMISSIVOS
secretário geral do Itamaraty e ex-embaixador em Londres, Washington e Roma, e Rubens
Índice de Autores - a partir do vol. 21 n.3
Barbosa, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp e ex-embaixador em
Londres e Washington. Índice de Autores - vol. 01 n.1 ao vol. 21 n.2 (PDF)

Índice de Assuntos - vol. 01 n.1 ao vol. 21 n.2 (PDF)


A sociedade civil brasileira está dividida quanto ao ingresso da Venezuela no Mercosul. Com o
Índice Onomástico - vol. 01 n.1 ao vol. 21 n.2 (PDF)
intuito de contribuir para o esclarecimento desta importante questão de política externa, foram
selecionados quatro depoimentos, sendo dois favoráveis e dois contrários à adesão do país Índice Geográfico - vol. 01 n.1 ao vol. 21 n.2 (PDF)
vizinho ao bloco do Cone Sul.

Argumentos contrários foram apresentados por Celso Lafer e Rubens Barbosa, entre outros.
Maria Regina Soares de Lima e Paulo Tarso Flecha de Lima defenderam a entrada da Venezuela MAIS POLÍTICA EXTERNA
no Mercosul.
Curtir Você e outras 18 mil pessoas curtiram isso.
Para Lafer,

“o ingresso da Venezuela sem a prévia conclusão das negociações do seu acesso representa um
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alargamento tendencialmente comprometedor do aprofundamento do Mercosul e da sua
identidade, não está em sintonia com os habituais cuidados do Brasil no trato e na preservação
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dos compromissos internacionais do nosso país, e muito especificamente com o projeto
Mercosul, que é a expressão de uma política de Estado que vem sendo levada adiante por
distintos governos, como lembraram nessa Comissão o senador Pedro Simon e o ministro Celso
Amorim”.
ASSINE A NEWSLETTER
Rubens Barbosa diz que
Receba semanalmente os últimos
“se nós acompanharmos a maneira como os países da Europa que querem entrar na União acontecimentos da Política Externa em sua
Europeia, o processo é um pouco diferente do atual aqui no Brasil, aqui no Mercosul. Os países caixa postal. Cadastre-se gratuitamente.

recebem uma lista de condições para entrar, e enquanto eles não cumprem aquelas condições
eles não entram. Os últimos países que entraram, 17 países que entraram levaram mais de SEU E-MAIL ASSINAR
cinco anos negociando as condições que a União Europeia coloca. E aqui não é bem assim o que
está acontecendo”.

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Maria Regina Soares de Lima ressalta

“a convergência do ponto de vista econômico e político-estratégico para o Brasil da adesão da


Venezuela. Como todos sabem, desde 94, quando há mudança da relação, quando o dinamismo
dessa relação se inicia, o relacionamento bilateral e as relações econômicas só fizeram crescer.
Na verdade, a Venezuela representa, mudou seu patamar na relação econômica do Brasil. Só
um outro país mudou seu patamar da relação econômica com Brasil, a China. São os dois países
que, num curto espaço de tempo, mudaram seu patamar na relação econômica com o Brasil”.

Paulo Tarso Flecha de Lima se concentra nos aspectos comerciais:

“Então nós estamos aqui discutindo a nossa vinculação a um país importante, cujo comércio
com o Brasil cresceu 885% nos últimos dez anos, quer dizer, nós não podemos perder de vista
uma visão estratégica do nosso interesse, e é por essa razão que eu exorto os srs. senadores a
refletirem sobre esse aspecto de nossos interesses concretos que são muito relevantes. Eu sou
sinceramente a favor que a Comissão aprove a entrada da Venezuela, e que os fatos assinalados
pelo senador Collor quanto ao comportamento errático do presidente Chávez, eu acho que
poderiam ser remediados através de uma negociação ou entendimento entre o presidente Lula
e o presidente Chávez”.

Celso Lafer:

“Gostaria, preliminarmente, de registrar o meu compromisso com o projeto Mercosul,


compromisso que lastreia e baseará o teor da minha exposição. É a do intelectual que desde
1973, em livro escrito em parceria com Félix Peña, defendeu a importância da aliança
estratégica Brasil Argentina, que está na origem do Mercosul. É a de quem no exercício de
funções públicas sempre se empenhou em aprofundar e levar adiante o projeto Mercosul.
Lembro, em 1992, a contribuição dada como ministro das Relações Exteriores ao endosso do
calendário de Las Leñas voltado para acelerar o processo de integração. Lembro também a
discussão com o embaixador em Genebra perante o Comitê de Acordos Regionais da OMC do
Mercosul como uma União Aduaneira em fase de consolidação de países em desenvolvimento,
voltada para a criação de um mercado comum, compatível com o sistema multilateral do
comércio nos termos do art. 24 do GAT de 94. Lembro também que em 2001 e 2002 me
empenhei em criar novas regras de calibração entre os membros do Mercosul para assegurar o
desempenho do Mercosul e também no plano institucional o Protocolo de Olivos para a solução
de controvérsias que tive a honra de assinar com o presidente Fernando Henrique Cardoso. Em
manifestação, como ministro das Relações Exteriores, declarei que o projeto ALCA era uma
opção a ser estudada para ser aceita ou rejeitada e devo dizer que nos trabalhos de preparação
desses estudos contei com a inestimável colaboração do embaixador Simões, que era quem no
Itamaraty cuidava desse assunto. Contrastava, dizia eu na ocasião, o Mercosul que qualifiquei
como destino.

Qual a razão que me levou a esta qualificação? O campo das relações internacionais pode ser,
para efeitos analíticos, desdobrado em três: o estratégico, que é a situação limite paz e guerra
que permeia a vida internacional; o econômico, que diz respeito a que um país representa para
outro como mercado em sentido amplo, comércio, investimento; o dos valores, vale dizer, o das
afinidades e discrepâncias das formas de conceber a vida em sociedade. O significado do
Mercosul é o de promover a convergência dos três campos, por isso é um destino a ser cuidado,
pois superiormente traduz necessidades internas em novas possibilidades externas para os
seus integrantes. Com efeito, o Mercosul é relevante no campo estratégico, porque contribuiu
para a paz na região e no mundo, pois trouxe o término da corrida armamentista nuclear, um
dos frutos da ação iniciada pelos presidentes Sarney e Alfonsín, dela é um marco a declaração
sobre política nuclear assinada em Foz do Iguaçu entre Brasil e Argentina em 1990, por parte do
Brasil pelo presidente Collor, que criou o sistema compartilhado de contabilidade e controle de
materiais nucleares e seus desdobramentos. No campo econômico, porque levou em conta que
o mundo, na década de 90 como hoje, simultaneamente se regionaliza e se globaliza. Daí as
vantagens de uma cooperação regional aprofundada, fruto da ação conjunta dos membros do
Mercosul, baseada em normas lastreadas na conectividade econômica da vizinhança, voltada
para acelerar o desenvolvimento com justiça social e lograr a competitividade para a adequada
inserção internacional dos seus integrantes. E no campo dos valores, porque desde as suas
origens o Mercosul tem como horizonte político, em função da penosa experiência dos regimes

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autoritários na região, a importância da consolidação democrática e da tutela dos direitos


humanos. É para a sintonia dos três campos e a sua preservação, o que o presidente Collor
chamou atenção nas suas intervenções na discussão nessa Comissão, sobre o assunto que hoje
nos reúne e é precisamente o que significa a adesão da Venezuela, do presidente Chávez, para a
preservação ou corrosão da convergência dos três campos, que dão o sentido profundo do
Mercosul. Nisto estará o teor da minha exposição.

Há um primeiro aspecto que pode ser qualificado como técnico, que foi exposto pelos
embaixadores Rubens Barbosa, Sérgio Amaral e pelo Dr. José Augusto Coelho Fernandes e que
também foi tratado no voto em separado do deputado Cláudio Diaz, da representação brasileira
no Parlamento do Mercosul. O Mercosul é um exemplo de integração profunda. Não é um
memorando de intenções. Envolve normas e compromissos. Há negociação desses
compromissos, por exemplo, os relativos ao acervo normativo, à nomenclatura comum, à
convergência para Tarifa Externa Comum, o programa de liberalização no âmbito do Mercosul
não estão concluídos. Aprovar o protocolo sem as conclusões dessas negociações significa dar
um cheque em branco para a Venezuela, não é uma postura razoável para um projeto de
integração da envergadura do Mercosul. Daí a minha concordância com as exposições acima
mencionadas e com outras intervenções e com as preocupações do senador Tasso Jereissati
para efeitos da elaboração do seu parecer como relator da matéria nesta Comissão.

O histórico das inconclusas negociações entre a PDVSA e a Petrobras, patrocinadas pelos


presidentes Lula e Chávez para a implantação da refinaria em Pernambuco, lembradas pelo
senador Sérgio Guerra nesta Comissão, são uma confirmação do que não é razoável, como
disse o presidente Collor, dar um salto no escuro. Nesta matéria, que é técnica, mas que é
substantiva. Tem essa característica, pois deixa de lado a substância normativa do acesso da
Venezuela ao processo de integração do escopo do Mercosul, que não é, repito, um memorando
de intenções. Nesse sentido, o ingresso da Venezuela sem a prévia conclusão das negociações
do seu acesso, representa um alargamento tendencialmente comprometedor do
aprofundamento do Mercosul e da sua identidade, não está em sintonia com os habituais
cuidados do Brasil no trato e na preservação dos compromissos internacionais do nosso país, e
muito especificamente com o projeto Mercosul, que é a expressão de uma política de Estado
que vem sendo levado adiante por distintos governos, como lembraram nessa Comissão o
senador Pedro Simon e o ministro Celso Amorim. Diz o velho e sábio provérbio português: “Abre
um olho para vender e dois para comprar.” Cabe abrir os dois olhos para comprar o ingresso da
Venezuela no Mercosul.

Vale dizer, examinar, os efetivos e não vagos compromissos venezuelanos antes de decidir a
matéria. O não ter seguido este conselho do provérbio é o que está levando o Congresso
argentino a buscar dar um freio ao ingresso da Venezuela no Mercosul, conforme as notícias do
La Nación, de 30 de maio. A esta questão, que diz respeito à inteireza do significado do Mercosul
no campo econômico, cabe adicionar outros ingredientes que comprometem a convergência
dos campos que acima mencionei. A base da ideia força do Mercosul é a de que a cooperação
entre seus membros é vantajosa. Naturalmente, a cooperação por meio da integração
econômica envolve conflitos a serem superados, há sempre num processo de integração
deslocamentos, interesses que são atendidos e outros que se veem afetados. Esses conflitos, no
âmbito do Mercosul, têm a natureza de conflitos de interesse, que se inserem no horizonte de
objetivos comuns a serem preservados. Conflitos de interesse se traduzem em controvérsias
que são específicas e configuram um desacordo sobre um objeto suficientemente delimitado
que por isso mesmo se presta a um processo diplomático e jurídico da sua solução.

O Mercosul, em função da sintonia dos três campos que eu mencionei, tem uma concepção
comum da ideia de a realizar do seu processo. Basicamente, privilegiar a lógica da integração
em detrimento de fragmentação, construir um espaço comum de estabilidade e democracia,
compartilhando recursos e mercados, e buscando ampliar a inserção competitiva da região no
mundo, por isso tem administrado com flexibilidade os inúmeros conflitos de interesse, através
do que eu chamei de regras de calibração, que vão ajustando o processo à evolução da
conjuntura. Têm outra característica os conflitos de concepção que exprimem a
heterogeneidade de distintas visões a respeito de como promover interesses comuns. Conflitos
de concepção provocam, por isso mesmo, tensões, quando confrontadas com outras
perspectivas a respeito da promoção de interesses comuns. Faço essa distinção porque o
projeto de integração da Venezuela do presidente Chávez não coincide com o projeto do

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Mercosul, é fruto de uma visão que encara a política internacional e regional com uma relação
amigo/inimigo. Como se vê, pelo seu antagonismo em relação a importantes países da nossa
região, pela direção que vem imprimindo à condução da Alba, a alternativa Bolivariana para as
Américas que concebeu e criou, pela proximidade que busca com o Irã, que também preocupa o
senador Virgílio, conforme se pode ler pelos textos das audiências públicas anteriores, e pela
dimensão militar da sua aproximação com a Rússia.

Em síntese, o projeto de integração do presidente Chávez caracteriza se pelo predomínio de sua


perspectiva política, no âmbito do qual o econômico comercial não é um caminho para o
entendimento e a cooperação dentro e fora da América do Sul, mas sim, um meio para operar a
dicotomia excludente amigo/inimigo. A intenção desse projeto, como disse o senador Heráclito
Fortes, é política. E cito, é transformar o Mercosul numa tribuna de proselitismo bolivariano. A
consequência do ingresso da Venezuela no Mercosul no momento atual significará adicionar um
substantivo conflito de concepção a respeito dos propósitos da integração, que tornará ainda
mais difícil encaminhar os múltiplos conflitos de interesse existentes na região e no âmbito do
Mercosul. A presença desses conflitos de concepção adicionará tensões ao Mercosul, que vem
enfrentando significativos conflitos de interesse entre seus membros, comprometerá, na minha
avaliação, a eficiência e a identidade internacional do Mercosul como uma convergência fecunda
entre os campos estratégico, econômico e dos valores.

A cláusula democrática, que é o próximo ponto que quero discutir, foi formalizada no Protocolo
de Ushuaia de 24/07/98. O Protocolo foi assinado pelo presidente Fernando Henrique pelo
Brasil, mas corresponde à identidade do Mercosul tal como concebido desde as suas origens. O
artigo primeiro do Protocolo enuncia que a plena vigência das instituições democráticas é
condição essencial para o desenvolvimento dos processos de integração dos estados partes.
Acho pertinente para análise desta cláusula, lembrar algumas observações de Bobbio no seu
recém publicado livro no Brasil “Do Fascismo à Democracia”. Observa o grande estudioso
italiano da democracia que o fascismo representou muito mais que uma oposição ao socialismo
e ao marxismo, representou uma contestação à democracia e aponta Bobbio que o aspecto
mais visível dessa contestação é a delegação do Parlamento visto como uma instituição que leva
ao regime da inércia e da impotência.

As críticas do presidente Chávez ao Congresso Brasileiro, lembradas nessa Comissão pelo


presidente Collor, pelo senador Heráclito Fortes e que é um componente do parecer do
deputado Cláudio Diaz, podem ser qualificadas como uma expressão do seu anti-democratismo.
Bobbio aponta como uma das características do fascismo italiano o culto à política como
vontade e poder. O primado da ação que substitui o racionalismo cartesiano do “penso, logo
existo” pelo “agitamos, logo somos”. A estatolatria, o mito da criação de uma nova civilização, o
viver perigosamente que levou ao bordão de Mussolini: “Muitos inimigos, muita honra”, o
ideário do estado potência. Difícil não ver afinidades e similitudes entre essas características e o
projeto interno e internacional do regime qualificado como bolivariano pelo presidente Chávez.
Com efeito, trata se de um regime voltado para o fortalecimento do Poder Executivo,
empenhado no enfraquecimento do Judiciário e do Legislativo e dos vínculos de controles da
sociedade, inclusive os meios de comunicação e as organizações não governamentais, que
fomenta a hiper personalização do poder do seu chefe, que adota a estratégia de buscar
consenso em torno de fórmulas demagógicas neopopulistas e que se assume como uma
“esquerda” voltada para as vítimas da globalização. É uma autocracia eletiva e não uma
democracia, como foi apontado também no relatório do deputado Cláudio Diaz, que seguiu
neste campo a lição de José Afonso da Silva. Está lastreada numa Constituição Cesarista, que
não é outorgada, mas tampouco é democrática, pois ainda que aprovada com participação
popular, visa apenas a permanente ratificação da vontade do detentor do poder.

Em síntese, a Venezuela do presidente Chávez não atende à letra e ao espírito da cláusula


democrática do Mercosul, por isso, no meu entender, coloca substantivamente em questão a
convergência dos campos que dão o significado do Projeto Mercosul. Concluo: Manter uma boa
cooperação econômica e política com um país vizinho como a Venezuela é obviamente do
interesse do Brasil, isto foi abundantemente mencionado e realçado nesta Comissão e nas
audiências públicas. A conectividade, os investimentos, tudo isso é importante, tudo isso deve
ser cultivado e preservado. É o que busca, com toda razão, fazer o governo do presidente Lula,
foi o que procurou fazer o governo do presidente Fernando Henrique e inclusive no plano
político, apoiando o presidente Chávez no desmonte na tentativa de golpe que enfrentou em

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abril de 2002, como indicou aqui o ministro Celso Amorim. E registro que seguindo as suas
orientações e a minha visão trabalhei nesse sentido na Reunião de Cúpula do Grupo do Rio na
Costa Rica, a que compareci representando-a. Em síntese, a importância dessa relação
econômica e de um cuidado político com a vizinhança são indiscutíveis, ninguém coloca isso em
questão, existe um ACE, se for necessário reformulá lo, que ele seja reformulado, e que esses
interesses sejam cuidados.

Porém, e este é meu ponto: incorporar ao Mercosul, como membro pleno, a Venezuela do
presidente Chávez, neste momento, é comprometer a identidade, a eficiência e o poder de
atração do Mercosul como expressão de um regionalismo aberto. É colocar em questão a
sintonia dos campos estratégico, econômico e de valores, que conferem ao Mercosul o seu
significado profundo na vida interna e internacional dos seus membros. É uma imprudência do
ponto de vista do alcance dos compromissos requeridos para o funcionamento de uma União
Aduaneira, ainda que imperfeita, que almeja ser um mercado comum. É contribuir, se me
permite uma metáfora, para uma “aladificação” do Mercosul. E desta maneira, tendencialmente
condenar um inovador projeto de integração, uma das grandes metas da diplomacia brasileira
pós redemocratização, à irrelevância e no limite à dissolução”.

Maria Regina Soares de Lima:

“Eu gostaria de chamar a atenção, colocar a questão da adesão da Venezuela no Mercosul num
contexto mais amplo, isto é, num contexto não só da integração regional, mas também das
condições hemisféricas atuais. Eu acho que hoje a América do Sul vive, do ponto de vista
político, um momento sem precedentes com a, digamos assim, com a eleição do presidente
Obama, que está fazendo um movimento de integração, um movimento de aproximação com a
América do Sul e do nosso lado, do lado da política externa, também acho que vivemos um
momento de institucionalização das instâncias de coordenação na região, exemplificadas, por
exemplo, com a criação da Unasul, do Conselho de Defesa, enfim, todos esses… Esses dois
movimentos, movimento de aproximação, movimento de inclusão, que é feito pelo novo
governo dos Estados Unidos e o movimento de consolidação das instituições, eu acho que é
absolutamente inédito na região. Eu não preciso… O Dr. Celso Lafer já mencionou aqui o que
tem sido, o que é a história da integração regional, desde a democratização, o papel
fundamental do presidente Sarney, presidente Collor, presidente Itamar Franco, presidente
Fernando Henrique e presidente Lula na consolidação da integração regional, e eu gostaria de
inclusive enfatizar o papel do presidente Fernando Henrique Cardoso, que no ano 2000 realizou
a primeira Reunião de Cúpula de Presidentes da América do Sul aqui em Brasília, e esse de certa
forma, essa reunião ela de alguma forma está relacionada à ideia de a própria Reunião de
Cúpulas que vai desaguar na Unasul.

O que eu gostaria de salientar aqui, nessa Comissão, é que, do ponto de vista, digamos assim,
dos interesses brasileiros, o compromisso com a integração regional é um compromisso
suprapartidário, um compromisso de governos, de estado, uma política de estado e não uma
política de governo. É uma política que tem sido perseguida, como já foi mencionado pelos
meus antecessores, aliás, partícipes desse processo, e que enfim, eu gostaria apenas de
enfatizar esse sentido suprapartidário dessa discussão e especialmente no contexto atual, num
contexto em que o Brasil está mudando o seu patamar de inserção global, em que eu acho que
devemos olhar para as questões internacionais com uma perspectiva de longo prazo, de médio
e longo prazo, e as decisões, a meu ver, serem tomadas em função dessa visão estratégica.

A meu ver, a adesão específica, no caso da Venezuela ao Mercosul, dá partida a um movimento


de incorporação da sub região andina e de, quem sabe, caribenha, além de integrar toda a
região panamazônica, a incluída região norte do país ao arcabouço institucional existente. A
inclusão da Venezuela ao Mercosul exemplifica associação positiva entre estabilidade política
doméstica e integração regional. Em analogia com a experiência europeia em que a expansão
do processo de integração funcionou como uma solda das instituições políticas domésticas das
ainda frágeis democracias que a ele se integraram mais tardiamente. Como é sabido, a União
Europeia começou com seis membros e hoje tem 26 membros. Nesse processo foram
integrados vários países e isso do ponto de vista da consolidação das instituições políticas desse
país tem sido crucial.

Certamente, o marco dessa aproximação Venezuela Brasil é em 94, com o Protocolo de

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Guzmania, assinado pelo presidente Rafael Caldera e o presidente Itamar Franco, e que,
digamos assim, dá início a um dinâmico processo de acertamento desses dois países, na medida
em que a Venezuela tradicionalmente estava muito mais voltada ao norte, aos Estados Unidos e
ao Caribe do que ao Mercosul, e, a partir desse momento, a partir dos anos 90, que a Venezuela
toma a decisão estratégica de aproximação com o Mercosul. Eu acho que é significativo que já
no governo Itamar Franco e posteriormente no governo Fernando Henrique Cardoso a política
externa já antevia essa posição crucial da ampliação do Mercosul na direção da sub região
andina e papel estratégico da Venezuela nesse movimento. Acho que no plano político cabe
ressaltar o papel mediador, interlocutor reconhecido desempenhado pelo Brasil em dois
momentos, um deles já foi citado aqui, de grave instabilidade institucional na Venezuela, o
primeiro em 2002, quando o presidente Fernando Henrique atendeu ao pedido da Venezuela,
enviando combustível num momento de gravíssima crise da… Havia uma perspectiva de
tentativa de golpe e depois, posteriormente, em janeiro de 2003, já durante o mandato do
governo Lula, quando se criou o Grupo de Amigos da Venezuela, com a participação do Chile,
Espanha, Estados Unidos, México e Portugal. O objetivo daquele grupo era auxiliar nas
negociações a cargo do secretário geral da OEA, para ajudar a resolver a crise venezuelana,
mediante reuniões entre chanceleres dos países para discutir um acordo entre oposição e o
governo.

O que eu gostaria de novamente ressaltar aqui na minha exposição é, não apenas o


compromisso suprapartidário do Brasil com a integração desde a redemocratização nos anos
80, mas também me parece o compromisso suprapartidário com a adesão, com a inclusão da
Venezuela no Mercosul e com a expansão do Mercosul na direção norte, que representa, como
eu vou de alguma forma estender um pouco, uma oportunidade fantástica para os estados do
Norte e do Nordeste, do Centro oeste, que terão oportunidade assim de se integrar ao
Mercosul, que até esse momento está restrito aos países do Cone Sul.

Eu vou discutir três questões. Primeiro eu vou falar dos benefícios da adesão da Venezuela.
Alguns já foram mencionados, mas eu acho que traria alguns outros dados. Em seguida eu vou
discutir as dúvidas que têm sido levantadas, deixando a dúvida de natureza mais técnica para o
embaixador Simões e finalmente eu gostaria de encerrar a minha exposição com as
consequências de uma eventual exclusão da Venezuela nesse momento. Do ponto de vista de
benefícios, eu gostaria de seguir a orientação, sugestão metodológica do ministro Celso Lafer, e
chamar a atenção para a convergência do ponto de vista econômico e político estratégico para o
Brasil da adesão da Venezuela. Como todos sabem, desde 94 quando há mudança da relação,
quando o dinamismo dessa relação se inicia, o relacionamento bilateral e as relações
econômicas só fizeram crescer. Na verdade, a Venezuela representa, mudou seu patamar na
relação econômica do Brasil. Só um outro país mudou seu patamar da relação econômica com
Brasil, a China. São os dois países que, num curto espaço de tempo, mudaram seu patamar na
relação econômica com o Brasil. Nenhum país do Cone Sul mudou desta forma sua relação.
Então, há algo de novo, há algo de absolutamente, vamos dizer assim, enfim, dramático nessa
mudança de patamar e é atestado pelo crescimento das exportações em 10 anos, de mais de
800%. E as exportações brasileiras não só cresceram, hoje o saldo é… Não sei o número, eu
tenho aqui os dados do MDIC, o saldo hoje da balança comercial é de 4,6 bilhões de dólares,
mas o mais importante é que, ao fazer a opção estratégica pelo Mercosul, o que aconteceu? As
exportações brasileiras passaram a ocupar nichos de mercado que antes eram ocupados pelo
México, pela Colômbia e pelos Estados Unidos, quer dizer, isso foi algo que foi decorrência,
vamos dizer assim, da dimensão estratégica que o próprio governo venezuelano concebeu a
relação com o Brasil. E hoje o Brasil ocupa a terceira posição nas compras venezuelanas, abaixo
da Colômbia e Estados Unidos, que são parceiros tradicionais.

A pauta das exportações brasileiras, acho que é um ponto também que deveria ser enfatizado,
tem altíssimo valor agregado na medida em que o Brasil exporta bens e serviços de alto
conteúdo tecnológico, agregando valor adicional ao comércio com o país. O Brasil já é o
segundo maior fornecedor venezuelano de automóveis, o segundo de eletrodomésticos, o
terceiro de máquinas e equipamentos e o quinto de alimentos, o sexto no setor farmacêutico. O
segundo ponto, não apenas ganharam os nossos exportadores, os nossos investimentos hoje
na Venezuela, do porte de cinco bilhões de dólares com 15 bilhões de contratos, mas acho que é
muito importante, do ponto de vista relativo, ganhar os estados do Norte, Nordeste e Centro
oeste, uma vez que esses estados, de alguma forma, estavam por razões logísticas e de
distâncias geográficas não se beneficiaram tanto do Mercosul como se beneficiaram os estados

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do Sul. Só para ter uma ideia, nos últimos quatro anos, de 2004 a 2008, a taxa de crescimento
das exportações da Venezuela para o Distrito Federal foi de 16 mil por cento. Para o Piauí foi
2.846%, eu tenho aqui essas estatísticas, e é muito importante não apenas para vincular os
estados do Norte, Nordeste e Centro oeste ao Mercosul, mas também a adesão da Venezuela
implica na criação de um corredor comercial em direção à Bacia do Caribe, que também é algo
fundamental, do ponto de vista da ampliação do Mercosul na direção norte.

Desde os anos 2000, a Venezuela ocupa a posição de segundo maior comprador de produtos
brasileiros na América do Sul, atrás apenas da Argentina, da mesma forma esses dois países,
especialmente a Venezuela, tem gerado saldos comerciais expressivos com o Brasil. Como eu
mencionei, só a mudança de patamar no comércio da Venezuela com o Brasil é só comparável à
mudança de patamar no comércio Brasil com a China. No momento de crise financeira,
enquanto as exportações brasileiras caíram 20%, a Venezuela foi responsável por 30% do saldo
da balança comercial com o Brasil e eu tenho aqui os dados que mostram que o saldo comercial
do Brasil com a Venezuela aumentou e hoje já é duas vezes e meia maior que o saldo com os
Estados Unidos.

Bem, a segunda… Quer dizer, não apenas a dimensão econômica, mas também na dimensão
política, e eu acho que… Eu gostaria de enfatizar as consequências positivas da adesão da
Venezuela do ponto de vista da estabilidade política doméstica da Venezuela e da segurança
regional.

Por razões que não cabem aqui especificar, a Venezuela experimentou, no final dos anos 80,
início de 90, uma crise de governabilidade que resultou na evolução do pacto de estabilidade
excludente, não resistiu à emergência da democracia de massa naquele país, como ocorreu nos
demais países da América do Sul. A partir das eleições presidenciais de 1998, com a vitória de
Hugo Chávez, o sistema político se estabilizou, mas o legado de fragilidade institucional não
impediu a polarização entre situação e governo. A polarização culminou com a tentativa de
golpe de Estado em 2002. E esse evento, a meu ver, marcou profundamente a política
venezuelana. A adesão da Venezuela ao Mercosul implicará em garantias reais de que ameaças
externas ou situações de risco institucional, como ocorreu na tentativa de golpe em 2002 serão
repudiadas pelos demais membros, conforme prevê o Protocolo de Ushuaia. A vigência do
Protocolo garantirá à Venezuela as garantias da estabilidade das instituições políticas e a
colocará a salvo de eventuais tentativas de interrupção do processo democrático na medida em
que, tal como ocorreu no Paraguai, os demais membros… As demais lideranças do Mercosul
responderão a qualquer tentativa de interrupção do processo constitucional democrático.

Eu passo agora, antes de terminar, a três questões que têm sido levantadas, três dúvidas que
foram levantadas aqui pelos meus antecessores. A questão da cláusula democrática, a
unanimidade das decisões e a questão da segurança jurídica. A cláusula democrática. O
Protocolo de Ushuaia afirma em seu artigo primeiro a necessidade da plena vigência das
instituições democráticas como condição necessária ao desenvolvimento dos processos de
integração no Mercosul. O Protocolo não especifica quais são essas instituições, indicando que
qualifica como instituições democráticas todas aquelas derivadas das diversas concepções de
democracia, inclusive as de natureza participativa e plebiscitária, como é o caso do modelo
venezuelano. O sistema político venezuelano inclui as duas condições mínimas necessárias a
qualquer modelo de democracia, isto é, a vigência do Estado de Direito e a legitimidade da
vontade popular. A carta constitucional, eu gostaria de chamar a atenção sobre isso, me
permite, Dr. Ives Gandra, a carta constitucional venezuelana inclui um mecanismo que aumenta
consideravelmente a prestação de contas horizontal, como cientistas políticos gostam de dizer,
e controle popular dos regimes, que trata do referendo revogatório que permite, transcorrida a
metade do mandato dos ocupantes de qualquer cargo eleito, seja realizado um referendo
revogatório por solicitação de pelo menos 20% dos eleitores inscritos. O presidente Hugo
Chávez foi submetido a esse referendo em 2004 e, digamos assim, 59,25% dos eleitores
rejeitaram a revogação do seu mandato. O exercício da soberania popular é atestado pelas 14
eleições que ocorreram nos últimos dez anos, entre federais, nacionais, departamentais e
paroquiais. Desde 2005, foi realizada pelo menos uma eleição a cada ano, eu tenho os dados
aqui, todas certificadas pela OEA e pelo Instituto [ininteligível] e mais importante a meu ver, a
competição eleitoral demonstra que existe oposição na Venezuela. A existência de uma
oposição com condições de concorrer é, a meu ver, um indicador que o sistema político é
competitivo, que ele é democrático. E é necessário que se diga que no referendo 2007, a

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oposição modificou sua estratégia anterior, que era uma estratégia de abstenção eleitoral, e
concorreu e ganhou. E os resultados foram aceitos pelo governo.

Gostaria também de trazer alguns dados do ponto de vista da liberdade de opinião. A Venezuela
conta com pelo menos nove jornais diários de grande circulação. Dois deles, o El Nacional e o El
Universal, são os dois principais jornais de referência, os mais influentes, de maior tradição.
Ambos adotam a perspectiva crítica ao atual governo. O Nacional é um jornal explicitamente de
oposição, seu diretor editorial, Miguel Henrique Otero, lançou em 2008 um movimento de
oposição, o movimento 2 D. O El Universal também é um crítico do governo, mas mais
moderado que o primeiro. No caso das transmissões radiofônicas, o número de emissoras
operando em AM não variou entre 2000 e 2006. Existiam no país 143 emissões privadas e 36
públicas. Já as que operam na faixa FM, as alterações são significativas, em 2000 havia 368
emissoras das quais 365 eram privadas. Em 2006 as emissoras de rádio privado chegaram a
440, além de 167 públicas e 10 comunitárias. A maioria das emissoras privadas adota uma linha
editorial crítica do governo. Esses dados, a meu ver, mostram de forma cabal, a plena vigência
da liberdade de imprensa e de opinião do país, bem como a pluralidade de pontos de vista
veiculados por sua mídia escrita e falada”.

Rubens Barbosa:

“A minha posição seria mais fácil do que em outras ocasiões, porque eu tenho posições públicas
a respeito desta questão, não só em artigos, entrevistas; como também contribuí para uma nota
que saiu da FIESP.
Eu aqui vou reiterar então essas posições que eu tenho defendido já há quase dois anos, e pela
limitação do tempo eu vou concentrar em três pontos. Primeiro, o fato de que o Protocolo sobre
a entrada da Venezuela é uma decisão política do governo brasileiro e dos governos do
Mercosul. Segundo, que o Protocolo de Adesão deve ser examinado estritamente do ponto de
vista técnico. E o terceiro ponto é a questão da visão estratégica que nós temos que ter em
relação a essa questão.

O primeiro ponto a questão da decisão política. O Protocolo de Adesão que foi assinado entre
os países membros do Mercosul e a Venezuela em julho de 2006, fixou politicamente os limites
de tempo para a Venezuela ajustar-se às regras e normas do Mercosul. O fato de a Venezuela
ter ganho um status que não existe no Tratado de membro pleno no processo de adesão é
outra decisão política, e o fato da Venezuela, antes de ser aprovado o seu pedido, ter vindo
participando de maneira plena das reuniões do Mercosul, sem voto, é verdade, mas com voz, é
outra decisão política dos países membros.

O segundo ponto dentro dessa visão que nós estamos tratando de uma decisão política dos
países, é que a forma como foi concebido e assinado o Protocolo é também original. Se nós
acompanharmos a maneira como os países da Europa que querem entrar na União Europeia, o
processo é um pouco diferente do atual aqui no Brasil, aqui no Mercosul. Os países recebem
uma lista de condições para entrar, e enquanto eles não cumprem aquelas condições eles não
entram. Os últimos países que entraram, 17 países que entraram levaram mais de cinco anos
negociando as condições que a União Europeia coloca. E aqui não é bem assim o que está
acontecendo.

E terceiro lugar como prova de que isso é uma decisão política, é o empenho que o governo
brasileiro está tendo para aprovação desse protocolo, colocando toda a força do governo para
aprovação, tanto na Câmara como aqui no Senado, e essa decisão que os senhores vão tomar
aqui, certamente, vai influir na decisão do Congresso Paraguaio, onde o governo do Paraguai
não tem maioria.

O segundo ponto, e aí é o ponto que eu acho mais importante, é a questão do exame técnico do
Protocolo. Nós estamos, o governo brasileiro e os governos dos Mercosul estão negociando há
três anos com a Venezuela, porque o acordo, como eu disse, foi assinado em julho de 2006, em
julho de 2009 vamos completar três anos. O grupo de trabalho para negociar, para fazer a
negociação dos quatro com a Venezuela, foi criado para negociar os detalhes dessa negociação.
E até agora o primeiro grupo de trabalho que foi constituído seis meses depois, em meados de
2007, concluiu inconclusivamente os seus trabalhos, e houve um relatório desse grupo que foi
aprovado pelos presidentes no Conselho do Mercosul, e esse relatório deixou vários pontos

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pendentes, e foi tomada a decisão de se constituir um outro grupo de trabalho, um grupo de


trabalho ad hoc que tinha mais um ano para concluir as negociações. E esse prazo terminava
em maio de 2008. Que eu saiba não há um informe desse segundo grupo de trabalho, e pelo
que consta as negociações continuam inconclusivas até agora, abril de 2009.

Assim os países do Mercosul não conseguiram concluir as negociações com a Venezuela. Pelas
informações disponíveis o governo da Venezuela só quer negociar três pontos desse Protocolo,
os arts. 3, 4 e 5; eu volto a tratar disso daqui a pouco, depois da entrada, em vigor, do Protocolo,
quer dizer, a Venezuela só quer negociar três pontos do Protocolo depois da entrada em vigor.

Há, portanto, uma clara relutância da Venezuela em negociar, apesar do esforço do governo
brasileiro e dos demais países do Mercosul para trazer a Venezuela para a mesa das
negociações. E aqui essa preocupação é compartilhada pelo próprio ministro Celso Amorim. O
ministro Celso Amorim disse publicamente, quando da visita do chanceler da Venezuela aqui há
algum tempo atrás, que o Congresso não aprovaria o acordo sem o compromisso da Venezuela
de liberalização de seu comércio com o Brasil, em outras palavras, o ministro Celso Amorim
disse que se as negociações técnicas não forem concluídas, dificilmente o Congresso Nacional
poderá aprovar o Protocolo. Isso não são palavras minhas, são palavras do ministro Celso
Amorim.

O que está sendo negociado no grupo de trabalho? Primeiro estão sendo negociados os
compromissos assumidos pela Venezuela no Protocolo e os compromisso assumidos no
relatório do primeiro relatório. No art. 11 do grupo de trabalho, os países do Mercosul deram
um prazo de 180 para que, esses quatro pontos que eu vou mencionar agora, fossem
concluídos, e nós estamos já no terceiro ano e ainda não chegamos a uma conclusão.
O primeiro ponto ao qual o grupo de trabalho se dedicou, dizia respeito ao cronograma de
adesão ao acervo normativo do Mercosul, é o art. 3º do Protocolo de Adesão que os senhores
estão examinando. O que é que quer dizer isso? A Venezuela se comprometeu a colocar um
prazo para aderir às normas e regulamentos que foram aprovados ao longo desses últimos 15
anos pelo Mercosul, é um número enorme, tem os números aí. Mas, enfim, é um número muito
grande, e que precisa entrar no ordenamento jurídico da Venezuela.

O segundo ponto é o art. 4º do Protocolo que trata do cronograma de adesão à tarifa externa
comum, e à nomenclatura comercial do Mercosul. Foi definido um prazo, quatro anos, mas não
a lista dos produtos que estarão em cada etapa, e nem o cronograma, porque se vai haver um
período de quatro anos, três anos, dois anos, o que for, tem que negociar quais os produtos que
entram e quando entram esses produtos. Está pendente também. E no relatório do grupo de
trabalho se dava um prazo até 2 de setembro de 2007 para aprovação desse item.

O terceiro ponto. Então o primeiro ponto é adesão ao acervo normativo, o segundo é adesão a
TEC e à nomenclatura comercial, e o terceiro é o cronograma para implementação do livre
comércio entre os quatro países e a Venezuela. O grupo de trabalho não conseguiu concluir as
negociações do cronograma de liberalização que é o art. 5º do Protocolo, no caso do
Brasil/Venezuela vai até 2010, da Venezuela para o Brasil até 2012, mas os produtos sensíveis
vão até 2014.

E o último ponto é a questão da adesão aos acordos negociados com terceiros países. Toda a
negociação comercial que o Mercosul teve com outros países. Não houve nenhuma definição e
foi concedido um prazo adicional para a Venezuela.

O que fazer? Como vamos tratar esse assunto? A Comissão de Relações Exteriores do Senado, e,
posteriormente, o plenário terão de analisar e se satisfazer plenamente que do ponto de vista
técnico estão concluídos os quatro pontos que a Venezuela, livremente, concordou em negociar
para aderir ao Mercosul.

A Comissão de Relações Exteriores, na minha opinião, deveria solicitar ao Itamaraty informação


sobre o andamento das negociações, e se a Venezuela, pelas negociações, se dispõe a cumprir o
que ficou acordado no Protocolo de 2007.

Se o Itamaraty responder que, efetivamente, todos os compromissos assumidos pela Venezuela


foram cumpridos, está preenchido o requisito técnico, é importante para que o Congresso

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possa se manifestar. Se o Protocolo for aprovado antes da conclusão das negociações, a


Venezuela se tornará um membro pleno do Mercosul, sem que estejam definidas as condições
em que vai cumprir os compromissos aceitos no Protocolo, que é o contrário do processo que
existe na União Europeia.

Finalmente, essa questão da visão estratégica vou ser muito breve. Se nós analisarmos a
questão da entrada da Venezuela a médio e longo prazo haveria algum mérito em se considerar
essa possibilidade por quê? Porque a Venezuela é o terceiro país aqui no continente, tem um
comércio muito grande e crescente com o Brasil, sobretudo, a extensão territorial do Mercosul
sairia da Terra do Fogo e iria até o Caribe. Então, do ponto de vista estratégico de médio e longo
prazo seria interessante o exame do ingresso da Venezuela. O problema, como nós sabemos, é
o curto prazo, e não se pode dissociar a figura do atual presidente dos compromissos que ele
vai assumir no âmbito do Mercosul.

Eu acho que esse debate mostrou que todos reconhecem a relevância do ingresso da Venezuela
no Mercosul, inclusive, do ponto de vista estratégico, porque se não houvesse outras razões, o
fato de a Venezuela entrar para o Mercosul significa que ela vai ficar presa ao Mercosul, porque
nós não sabemos o que é que vem depois de Chávez, e se vier alguém antagônico,
possivelmente, gostaria de retirar a Venezuela desses entendimentos todos. Então, até por esse
aspecto estratégico é importante.

E depois, porque como os senhores sabem, dentro da Venezuela não foi discutido isso aqui, não
há consenso em torno do ingresso da Venezuela no Mercosul pela competitividade dos
produtos brasileiros e tal, são todos industriais. Esse é um primeiro ponto.

Há um reconhecimento, todos à mesa reconheceram a relevância do ingresso da Venezuela, e


em segundo lugar eu também acho que o rumo que tomou os debates aqui e a decisão que a
Comissão tomou de consultar o Itamaraty é a apropriada, prevaleceu a discussão técnica, a
análise isenta, técnica do mérito da entrada da Venezuela, de acordo com o Protocolo de
Adesão.

Até porque e eu não quis entrar no debate político, e os senhores, certamente, leram também a
cláusula democrática do Mercosul. A cláusula democrática do Mercosul não se refere a nada do
que foi discutido aqui, a cláusula democrática do Mercosul se refere a um único aspecto que é a
ruptura democrática, foi o que aconteceu no Paraguai, porque estava à beira de ruptura
democrática com um golpe no presidente daquele momento. Não se está discutindo ruptura
democrática na Venezuela. Então, essa outra discussão não é aplicável ao Protocolo, à cláusula
democrática.

E, finalmente, essa matéria é muito importante, porque é o precedente, é o primeiro caso, é o


que ficar aprovado aqui vai ser invocado no futuro para outros casos. Se o congresso brasileiro
faz, como fez a Argentina e o Uruguai, resolve aprovar o Protocolo sem examinar os detalhes
técnicos, a Venezuela entra para o Mercosul sem ter assumido nenhum compromisso, e
qualquer outro país vai invocar a mesma coisa. Então, é muito importante ter em mente que o
que for discutido aqui é um precedente para outros casos, eventualmente, de interesse de
países entrar no Mercosul. Os senhores lembram-se que o ministro Celso Amorim convidou
publicamente a Bolívia para entrar no Mercosul, isso está público. A Bolívia disse que não queria
sair do Grupo Andino e não respondeu. Mas se a Bolívia quiser entrar para o Mercosul
atendendo ao convite que já foi feito, como é que ficam as regras? Então, esse é um ponto
muito importante ter presente que, o que ficar decidido aqui é um precedente para os outros
casos que certamente virão nos próximos anos.

Paulo Tarso Flecha de Lima:

“Essa questão da adesão da Venezuela é desafiadora, porque ela passou a ter um componente
passional muito maior do que o normal na ratificação de tratados aqui pelo Senado, e
justamente esse é o ponto que eu gostaria de enfatizar. Nós não podemos nos deixar levar pelo
lado mais passional do problema, porque eu acho que o Chávez é um homem que eu não
gostaria que fosse presidente do Brasil, mas é um sujeito passageiro, o Chávez não é eterno.

Então nós estamos aqui discutindo a nossa vinculação a um país importante, cujo comércio com

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o Brasil cresceu 885% nos últimos dez anos, quer dizer, nós não podemos perder de vista uma
visão estratégica do nosso interesse, e é por essa razão que eu exorto os srs. senadores a
refletirem sobre esse aspecto de nossos interesses concretos que são muito relevantes.

Nós hoje temos acesso ao mercado venezuelano graças a uma herança de preferências que
pertenciam ao Pacto Andino que deixaram de viger quando a Venezuela deixou o Pacto Andino,
e que hoje nos garante um acesso privilegiado lá. Basta recordar o seguinte, se terminarem
essas preferências que vão terminar em 2011, os automóveis nossos, que pagam atualmente
21% de direitos, passarão a pagar 35%, ou seja, é um aumento quase proibitivo de nosso
comércio, de modo que eu acho que isso tem que ser levado em conta, e eu pediria muito que
fosse olhado esse aspecto estratégico, sem tanta ênfase no lado processual, que eu acredito ser
importante também, e acho que isso é matéria de negociação. Eu acho que o presidente da
Comissão pode fazer sentir ao chanceler a preocupação quanto à observância dos Protocolos de
Adesão e dos procedimentos de adesão, para ver se, por acaso, a Venezuela pode oferecer
algum tipo de garantia de que obedecerá a essas regras que lhe foram impostas, e quanto à
qualidade do comércio, eu não preciso elaborar muito, porque é um comércio
predominantemente de manufaturados, inclusive, feitos em Sete Lagoas, presidente, porque os
caminhões Iveco são um componente importante da porta de exportação para a Venezuela e
estão querendo emprego na sua terra, de modo que eu acho que vale a pena ter presente esse
fato.

E a Fiat, por exemplo, o principal mercado da Fiat lá de Minas Gerais é justamente a Venezuela,
de modo que eu acho que são fatos muito… Eu não quero falar das empresas brasileiras que
estão atuando lá, uma empreiteira, eu sei que tem contratos de quase 10 bilhões de dólares em
execução na Venezuela, uma carteira que no momento em que nós estamos aqui à míngua de
projetos, à míngua de recursos para financiar projetos de desenvolvimento, é uma
oportunidade que não se pode desperdiçar, de modo que eu acho que… Eu sou sinceramente a
favor que a Comissão aprove a entrada da Venezuela, e que os fatos assinalados pelo senador
Collor quanto ao comportamento errático do presidente Chávez, eu acho que poderiam ser
remediados através de uma negociação ou entendimento entre o presidente Lula e o presidente
Chávez. Vai ter agora a reunião de Trinidad e Tobago, e eles podem, perfeitamente, aproveitar a
oportunidade para esclarecer esses detalhes. Eu acho que foi um lapso lamentável do Chávez,
um comportamento reprovável, e o próprio presidente Lula já reprovou essas palavras infelizes
do presidente Chávez.

Eu, portanto, sou francamente a favor da adesão à Venezuela e motivado pelos interesses
efetivos atuais e estratégicos do Brasil. Porque, na minha visão, nós vamos evoluir aqui na
América Latina para um entendimento em torno de energia, e um entendimento em torno de
energia passa por um diálogo com a Venezuela, de modo que eu acho que temos que ter
presente a importância do país, e prescindir da figura de seu governante que é uma figura
transitória. Temos que olhar o interesse de longo prazo do Brasil, e nesse caso eu acho que,
portanto, presidente Eduardo Azeredo, a minha posição é francamente a favor da adesão, e
acho que V. Exa. poderia fazer sentir ao ministro Celso Amorim ou ao presidente Lula, a
conveniência de que eles esclareçam com o presidente Chávez a impropriedade das
observações que ele fez a respeito do parlamento brasileiro, de maneira a se obter algum tipo
de correção ou de desculpa que seja aceitável por nós.

Eu acho que eu enfatizei muito o lado econômico desse relacionamento. E gostaria de


acrescentar um argumento. É que nós temos que garantir o nosso lugar lá, porque já há
concorrentes muito ativos. A China, por exemplo, abriu uma linha de crédito com a Venezuela
de 12 bilhões de dólares para consolidar a sua posição lá, de modo que eu acho que é
importante que a gente consiga superar essa dificuldade e cheguemos a um relacionamento
normal com a Venezuela nesse assunto.

ESTA MATÉRIA FAZ PARTE DO VOLUME 18 Nº2 DA REVISTA POLÍTICA EXTERNA

O Islã e o Mundo
A islamização da agenda

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