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IBET – INSTITUTO BRASILEIRO DE ESTUDOS TRIBUTÁRIOS

CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM DIREITO TRIBUTÁRIO

DELIMITAÇÃO DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DOS ADMINISTRADORES


DAS SOCIEDADES ANÔNIMAS E POR QUOTAS DE RESPONSABILIDADE
LIMITADA

PAULO ROBERTO DOS SANTOS JUNIOR

2009
PAULO ROBERTO DOS SANTOS JUNIOR

DELIMITAÇÃO DA RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA DOS ADMINISTRADORES


DAS SOCIEDADES ANÔNIMAS E POR QUOTAS DE RESPONSABILIDADE
LIMITADA

Monografia para Conclusão do Curso de Pós-Graduação em Direito Tributário

IBET– Instituto Brasileiro de Estudos Tributários - Unidade de Campinas

2009
“Conhecer é reduzir complexidades, estruturando-as.”

Paulo de Barros Carvalho.


RESUMO

O presente trabalho visa delinear os limites da responsabilidade tributária


dos administradores das organizações societárias mais utilizadas pelas empresas nacionais –
as sociedades anônimas e sociedades por quotas de responsabilidade limitada -, fazendo-se
necessário, para tanto, tangenciar noções de obrigação tributária e sujeição passiva, a fim de
fixar as premissas que fundamentam este estudo, para então enfrentar as hipóteses que
ensejam ou não a responsabilização.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 5

1 - OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA 6

1.1 - SUJEIÇÃO PASSIVA 7

2 - RESPONSABILIDADE DOS ADMINISTRADORES 9

2.1 - LEGISLAÇÃO APLICÁVEL 9

2.2 - NATUREZA DA RESPONSABILIDADE 11

3 - HIPÓTESES ENSEJADORAS DA RESPONSABILIDADE 15

3.1 - ASPECTO PROCESSUAL DA RESPONSABILIZAÇÃO – INEXISTÊNCIA DE


“REDIRECIONAMENTO” 17

4 - HIPÓTESES QUE NÃO ENSEJAM A RESPONSABILIZAÇÃO 20

4.1 - DÉBITOS JUNTO À SEGURIDADE SOCIAL 20

4.2 - DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA 21

4.3 - ALCANCE DO ARTIGO 124 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL 22

4.4 - DISSOLUÇÃO IRREGULAR DA SOCIEDADE 25

CONCLUSÃO 30

BIBLIOGRAFIA 32
5

INTRODUÇÃO

O nosso objetivo é dar a este trabalho um enfoque prático, justificando


assim a limitação da pesquisa às empresas em que a responsabilidade do sócio fica limitada ao
capital subscrito, desaparecendo com a respectiva integralização (sociedades anônimas e
sociedades por quotas de responsabilidade limitada) –, visto que constituem a imensa maioria
das pessoas jurídicas pátrias.

A importância do tema dispensa maiores justificativas, posto que o Fisco,


assim que constata a insuficiência de bens penhoráveis (e às vezes até antes disso), avança
sobre o patrimônio dos administradores, com a conivência dos juízes de primeira instância
que, via de regra, deferem os pedidos sem qualquer fundamentação jurídica.

Após breve explanação dos conceitos de Obrigação Tributária e Sujeição


Passiva, passamos ao estudo da legislação aplicável às hipóteses de responsabilização, seu
alcance e natureza, para então discorrer sobre a legislação que, apesar de ser frequentemente
utilizada pelo Fisco para fundamentar suas pretensões, não se presta a este fim, bem como
sobre os casos controversos na doutrina e jurisprudência.

1 - OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA
6

O Direito Tributário, tido como um conjunto de normas jurídicas válidas


que disciplinam a instituição, fiscalização e arrecadação de tributos 1, é um direito de
superposição.

O legislador elege certos fatos jurídicos, definidos por outros ramos do


direito, e prescreve que quando estes ocorrerem será formado um laço obrigacional,
atribuindo ao sujeito passivo o dever de pagar ao sujeito ativo uma determinada quantia.

Entendemos que esse laço obrigacional forma-se imediatamente ao evento,


conforme leciona Becker:2

“A incidência da regra jurídica é infalível (automática) e ocorre no instante


lógico posterior à realização de hipótese de incidência. A regra jurídica
incide independentemente de qualquer ação da autoridade pública incumbida
do lançamento ou do órgão judiciário ou do contribuinte. O órgão executivo
e o órgão judiciário, na verdade, não aplicam a lei, mas apenas fiscalizam e
constatam a sua incidência, assegurando o respeito e a obediência às
consequências (eficácia ou efeito jurídico) da incidência da regra jurídica.”

Ocorrido o fato jurídico, elevado pela legislação tributária à categoria de


“fato gerador”, este passa a ser exigível, dependendo da formalização em linguagem
competente para que tenha exequibilidade (seja judicialmente exigível), conforme ensinado
por James Marins.3

Temos então cinco elementos indispensáveis para a configuração desta


relação jurídica: o objeto (prestação pecuniária), o crédito e o débito (as duas faces do laço
obrigacional - direito/dever), e os sujeitos ativo e passivo.

O escopo deste trabalho é o exame do último elemento citado: o sujeito


passivo, imbuído do dever jurídico de adimplir a prestação.

1
CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 17ª edição. São Paulo: Saraiva, 2005, p. 15.
2
BECKER, Alfredo Augusto: Teoria Geral do Direito Tributário, São Paulo, Saraiva, 1972, p. 558.
3
Direito Processual Tributário Brasileiro: (administrativo e judicial), 4ª edição, São Paulo: Dialética, 2005, p.
218.
7

1.1 - SUJEIÇÃO PASSIVA

Nas palavras de Paulo de Barros Carvalho 4, “o sujeito passivo da relação


jurídica tributária é a pessoa – sujeito de direitos – física ou jurídica, privada ou pública, de
quem se exige o cumprimento da prestação: pecuniária, nos nexos obrigacionais; e
insuscetível de avaliação patrimonial, nas relações que veiculam meros deveres instrumentais
ou formais”.

Dispõe o artigo 121 do Código Tributário Nacional:

Art. 121. Sujeito passivo da obrigação principal é a pessoa obrigada ao


pagamento de tributo ou penalidade pecuniária.

Parágrafo único. O sujeito passivo da obrigação principal diz-se:

I – contribuinte, quando tenha relação pessoal e direta com a situação que


constitua o respectivo fato gerador;

II – responsável, quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua


obrigação decorra de disposição expressa de lei.

Conforme o artigo retro mencionado, o sujeito passivo pode ser


classificado como contribuinte ou responsável, de acordo com o tipo de relação que mantém
com o fato jurídico tributário – diferenciação que parte da doutrina também denomina de
sujeição passiva direta e indireta, respectivamente.

O Prof. José Eduardo Soares de Melo5 leciona:

“Numa esfera pré-jurídica, o legislador colhe a pessoa intimamente


vinculada à realização da materialidade, que deve traduzir-se no mero
índice de capacidade contributiva. A íntima conexão da pessoa com a
materialidade é que tem a virtude de revelar a figura do contribuinte,
4
Direito Tributário: Fundamentos Jurídicos da Incidência, 3ª edição, São Paulo: Saraiva, 2004. p. 154 – 155.

5
Curso de Direito Tributário, 5ª edição, São Paulo: Dialética, 2004, p. 204.
8

porque, ao realizar o fato imponível, terá que recolher aos cofres


públicos uma parte da respectiva grandeza econômica, classificada
como tributo.”
Ou seja, o contribuinte é quem efetivamente realiza o fato jurídico
tributário, que, por subsumir-se à norma, desencadeia a relação jurídica tributária.

Já com relação ao responsável, o Código Tributário Nacional prescreve:

Art. 128. Sem prejuízo do disposto neste capítulo, a lei pode atribuir de
modo expresso a responsabilidade pelo crédito tributário a terceira pessoa,
vinculada ao fato gerador da respectiva obrigação, excluindo a
responsabilidade do contribuinte ou atribuindo-a a este em caráter supletivo
do cumprimento total ou parcial da referida obrigação.

Logo, para facilitar a arrecadação e fiscalização dos tributos, pode o


legislador eleger, ao invés do contribuinte, uma terceira pessoa para figurar como sujeito
passivo, chamado de responsável tributário, desde que este tenha alguma relação com o
próprio contribuinte (e não necessariamente com o fato gerador), possibilitando-lhe recolher o
tributo sem que sua situação econômica seja comprometida.

2 - RESPONSABILIDADE DOS ADMINISTRADORES

Traçadas estas premissas gerais, passamos agora ao objeto de pesquisa deste


trabalho, começando por sua denominação.
9

Ao contrário de alguns estudos que encontramos sobre o tema, entendemos


mais precisa a denominação “responsabilidade dos administradores”, em oposição a “sócios”.

Isso porque para a legislação tributária não importa se o gestor da empresa


era ou não sócio da mesma quando praticada alguma das condutas que levam à sua
responsabilização – basta a prática do ato.

Assim, adotamos o termo “administrador”, por ser este o utilizado pelo


Código Civil para denominar o gestor da pessoa jurídica (arts. 46 a 50).

2.1 - LEGISLAÇÃO APLICÁVEL

A tributação, por ser exceção ao direito à propriedade privada


constitucionalmente garantido, só pode ocorrer nos casos em que a legislação expressamente
determina, em homenagem ao princípio da legalidade, do qual decorre a o princípio da
tipicidade tributária.

Este princípio é definido como “a exata adequação do fato à norma, donde o


surgimento da obrigação tributária se condiciona ao evento da subsunção, que é a estreita e
plena correspondência entre o fato jurídico tributário (fato gerador) e a hipótese de incidência
tributária. Exprime postulado de tal relevo que a sua ausência tende a macular
inexoravelmente a cobrança do tributo quando efetivada ao largo do aludido primado
constitucional.”6

O princípio da tipicidade é ainda mais rigoroso na seara tributária que na


penal, visto que, se neste último o órgão aplicador do direito é investido de certa margem de
subjetividade ao quantificar a pena, o mesmo não ocorre na esfera tributária.

Posto isso, cabe-nos observar que a Constituição Federal reservou algumas


matérias à Lei Complementar, em seu artigo 146:
6
JARDIM, Eduardo Marçal Ferreira, Dicionário Jurídico Tributário, 4ª Edição, São Paulo, Dialética, 2003.
10

Art. 146. Cabe à lei complementar:

I - dispor sobre conflitos de competência, em matéria tributária, entre a


União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios;

II - regular as limitações constitucionais ao poder de tributar;

III - estabelecer normas gerais em matéria de legislação tributária,


especialmente sobre:

a) definição de tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos


impostos discriminados nesta Constituição, a dos respectivos fatos
geradores, bases de cálculo e contribuintes;

b) obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributários;

(...)

Logo, a responsabilidade tributária deve ser tratada exclusivamente por Lei


Complementar – status sob o qual o Código Tributário Nacional foi recepcionado.

2.2 - NATUREZA DA RESPONSABILIDADE

Para um estudo adequado da responsabilidade dos administradores, faremos


uma análise da seção da Lei 5.172/66 que dispõe sobre o tema, pois, conforme ensina o
mestre Miguel Reale7 ao fixar os pontos essenciais de sua hermenêutica estrutural, toda
interpretação jurídica dá-se numa estrutura de significações, e não de forma isolada, de forma
que cada preceito significa algo situado no todo do ordenamento jurídico, de modo que as leis
não devem ser interpretadas isoladamente, mas sistematicamente.
7
Lições preliminares de direito, 24ª edição. São Paulo: Editora Saraiva, 1998, p. 293.
11

A seção “Responsabilidade de Terceiros” é composta por dois artigos, 134 e


135. Traçando um paralelo entre eles, poderemos compreender melhor suas características
individuais. Vejamos o primeiro:

Art. 134. Nos casos de impossibilidade de exigência do cumprimento da


obrigação principal pelo contribuinte, respondem solidariamente com este
nos atos em que intervierem ou pelas omissões de que forem responsáveis:

I - os pais, pelos tributos devidos por seus filhos menores;

II - os tutores e curadores, pelos tributos devidos por seus tutelados ou


curatelados;

III - os administradores de bens de terceiros, pelos tributos devidos por estes;

IV - o inventariante, pelos tributos devidos pelo espólio;

V - o síndico e o comissário, pelos tributos devidos pela massa falida ou pelo


concordatário;

VI - os tabeliães, escrivães e demais serventuários de ofício, pelos tributos


devidos sobre os atos praticados por eles, ou perante eles, em razão do seu
ofício;

VII - os sócios, no caso de liquidação de sociedade de pessoas. 8

Parágrafo único. O disposto neste artigo só se aplica, em matéria de


penalidades, às de caráter moratório.

O artigo traz uma atecnia. A responsabilidade, ao contrário da disposição


literal do artigo, é subsidiária, pois só ocorre no caso de impossibilidade de cumprimento da
obrigação pelo contribuinte.

Além disso, independe de qualquer infração à lei ou irregularidade cometida


pelo responsável, bastando o mero inadimplemento para que este responda solidariamente.

É interessante notar também que as multas punitivas são excluídas dessa


responsabilização, somente incidindo as de caráter moratório.

Vejamos agora o artigo seguinte:

8
Entre as quais não se enquadram as sociedades abordadas no presente trabalho.
12

Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a


obrigações tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes
ou infração de lei, contrato social ou estatutos:

I - as pessoas referidas no artigo anterior;

II - os mandatários, prepostos e empregados;

III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito


privado.

Apesar de não nos filiarmos à posição do Prof. Paulo de Barros Carvalho,


segundo a qual toda relação que envolve o responsável tributário tem natureza de sanção
administrativa9, nesta hipótese a natureza sancionatória é inegável – o agente efetivamente
comete uma infração.

As hipóteses que agora ensejam a responsabilidade são mais graves que no


artigo anterior, e também as consequências.

A responsabilidade passa a ser pessoal, e, portanto, entendemos que ela seja


exclusiva do responsável, afastando o contribuinte do pólo passivo, pois caso a Lei desejasse
que a responsabilidade fosse solidária ou subsidiária isso estaria expresso. Ao contrário, foi
instituída a responsabilidade pessoal, assim como no artigo 137, que também dispõe sobre
infrações.

Assim ensina Luciano Amaro10:

“Em confronto com o artigo anterior, verifica-se que esse dispositivo exclui
do pólo passivo da obrigação a figura do contribuinte (que, em princípio,
seria a pessoa em cujo nome e por cuja conta estaria agindo o terceiro), ao
dispor no sentido que o executor do ato responda pessoalmente. A
responsabilidade pessoal deve ter aí o sentido (que já se adivinha no art.
131) de que ela não é compartilhada com o devedor ‘original’ ou ‘natural’.”

No mesmo sentido também entendem Aliomar Baleeiro e Sacha Calmon


Navarro Coelho11, valendo citar a lição deste último:

9
Direito Tributário, Linguagem e Método, 2ª edição, São Paulo: Noeses, 2008. P. 568.

10
Direito Tributário Brasileiro. 10ª ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 316.

11
Comentários ao Código Tributário Nacional, Coordenador Carlos Valder do Nascimento. Rio de Janeiro:
Forense, 1997, p. 578.
13

“O artigo 135 retira a solidariedade do artigo 134. Aqui a responsabilidade


se transfere inteiramente para terceiros, liberando os seus dependentes e
representados. A responsabilidade passa a ser pessoal, plena e exclusiva
desses terceiros. Isto ocorrerá quando eles procederem com manifesta
malícia (mala fides) contra aqueles que representam, toda vez que for
constatada a prática de ato ou fato eivado de excesso de poderes ou com
infração de lei, contrato social ou estatuto”.

Agindo o administrador contra a lei, contrato social ou estatutos, não está


mais atuando em nome dos interesses da empresa.

Essa disposição abarca inclusive as pessoas referidas no artigo anterior: caso


ocorra alguma das infrações descritas, a responsabilidade passa de subsidiária para pessoal, e
as multas punitivas incidem normalmente, afastado o benefício do parágrafo único do artigo
134.

Concordamos que este entendimento possa dar azo à prática de atos lesivos
contra o Fisco, por exemplo, com a utilização de administradores sem patrimônio, indicados
somente para perpetrar as ilicitudes e atrair a responsabilidade para si próprios.

No entanto, esse risco não justifica que o intérprete ignore a clareza do


artigo citado e aplique medida sem qualquer fundamentação legal. A solução estaria na
alteração da legislação, e não na hermenêutica criativa.

Destacamos que este entendimento, apesar de controverso na doutrina, é


rejeitado pela jurisprudência, que entende que o artigo 135 prescreve responsabilidade
solidária, ainda que este comando não seja expresso (vide o Recurso Especial n° 1.101.728,
colacionado no capítulo seguinte).
14

3 - HIPÓTESES ENSEJADORAS DA RESPONSABILIDADE

Usaremos como guia para desenvolvimento deste tópico a posição do


Superior Tribunal de Justiça, órgão que tem como missão unificar o entendimento
jurisprudencial no tocante à interpretação legal infraconstitucional.

A posição adotada por aquela Corte foi reafirmada recentemente no


julgamento do Recurso Especial n° 1.101.72812, conforme procedimento previsto para os
Recursos Repetitivos, cuja ementa transcrevemos:

TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO FISCAL. TRIBUTO


DECLARADO PELO CONTRIBUINTE. CONSTITUIÇÃO DO CRÉDITO
TRIBUTÁRIO. PROCEDIMENTO ADMINISTRATIVO. DISPENSA.
RESPONSABILIDADE DO SÓCIO. TRIBUTO NÃO PAGO PELA
SOCIEDADE.

12
Relator Ministro Teori Albino Zavascki, Primeira Seção, j. 11/03/2009, DJe 23/03/2009.
15

1. A jurisprudência desta Corte, reafirmada pela Seção inclusive em


julgamento pelo regime do art. 543-C do CPC, é no sentido de que "a
apresentação de Declaração de Débitos e Créditos Tributários Federais –
DCTF, de Guia de Informação e Apuração do ICMS – GIA, ou de outra
declaração dessa natureza, prevista em lei, é modo de constituição do crédito
tributário, dispensando, para isso, qualquer outra providência por parte do
Fisco" (REsp 962.379, 1ª Seção, DJ de 28.10.08).

2. É igualmente pacífica a jurisprudência do STJ no sentido de que a simples


falta de pagamento do tributo não configura, por si só, nem em tese,
circunstância que acarreta a responsabilidade subsidiária do sócio, prevista
no art. 135 do CTN. É indispensável, para tanto, que tenha agido com
excesso de poderes ou infração à lei, ao contrato social ou ao estatuto da
empresa (EREsp 374.139/RS, 1ª Seção, DJ de 28.02.2005).

3. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, parcialmente


provido. Acórdão sujeito ao regime do art. 543-C do CPC e da Resolução
STJ 08/08.

Conforme a decisão supra13, o mero inadimplemento não enseja a


responsabilidade do administrador – é necessária a ocorrência de alguma das hipóteses do
artigo 135 do CTN.

Isto porque enquanto o administrador age em nome da sociedade, ele


simplesmente exprime a vontade desta. Sendo a infração legal (inadimplência) da pessoa
jurídica, é esta que responde com seu patrimônio.

O administrador somente é colocado no pólo passivo a partir do momento


em que cometer, pessoalmente, alguma irregularidade durante a representação da empresa.

Sacha Calmon Navarro Coelho14 ressalta que:

“O simples não recolhimento do tributo constitui, é claro, uma ilicitude,


porquanto o conceito lato de ilícito é o de descumprimento de qualquer
dever jurídico decorrente de lei ou de contrato. Dá-se que a infração a que se
refere o art. 135 evidentemente não é objetiva, e sim subjetiva, ou seja,
dolosa. Para os casos de descumprimento de obrigações fiscais por mera
culpa, nos atos em que intervierem e pelas omissões de que forem
responsáveis, basta o art. 134, anterior, atribuindo aos terceiros dever
tributário por fato gerador alheio. No art. 135 o dolo é elementar.”

13
Vale observar que esta decisão entende que a responsabilidade decorrente do artigo 135 é subsidiária, e não
pessoal, como sustentamos linhas atrás.
14
Curso de direito tributário brasileiro, 7ª Ed, Rio de Janeiro: Forense, 2004. p. 747.
16

Aliomar Baleeiro15, fazendo uma análise dos dispositivos sobre a


responsabilidade de terceiros no CTN, entende no mesmo sentido:

“A responsabilidade pessoal e exclusiva dos terceiros, arrolados no art. 135,


se desencadearia com a simples ausência de recolhimento do tributo devido
– sem dúvida um ilícito ou infração de lei. Mas, se assim fosse, qual seria a
diferença entre os art. 134 e 135? Observe-se que as mesmas pessoas,
mencionadas no art. 134, estão repetidas no art. 135, I. (...) Por isso que
hipóteses de singelo não pagamento do tributo a cargo de terceiro se
enquadram no art. 134 e não no art. 135.”

3.1 - ASPECTO PROCESSUAL DA RESPONSABILIZAÇÃO – INEXISTÊNCIA DE


“REDIRECIONAMENTO”

Delimitadas as hipóteses em que a responsabilização dos administradores


pode ocorrer, passamos ao estudo do procedimento para que isto ocorra.

Ao imputar o cometimento de alguma irregularidade ao administrador,


pretendendo aplicar-lhe sanção, o Fisco deve provar suas alegações – e, ainda que se entenda
não se tratar de sanção, mas de obrigação tributária, cabe à administração provar a ocorrência
do fato gerador em procedimento administrativo, conforme prescreve o artigo 142 do Código
Tributário Nacional.16

15
Direito tributário brasileiro, 11ª Ed, Rio de Janeiro: Forense, 2004. p. 756.

16
Art. 142. Compete privativamente à autoridade administrativa constituir o crédito tributário pelo lançamento,
assim entendido o procedimento administrativo tendente a verificar a ocorrência do fato gerador da obrigação
correspondente, determinar a matéria tributável, calcular o montante do tributo devido, identificar o sujeito
passivo e, sendo caso, propor a aplicação da penalidade cabível.
Parágrafo único. A atividade administrativa de lançamento é vinculada e obrigatória, sob pena de
responsabilidade funcional.
17

Ao realizar o lançamento, cabe ao Fisco provar que o fato jurídico tributário


realmente ocorreu, apresentando as provas pertinentes.

Ensina Paulo de Barros Carvalho17:

“Na própria configuração oficial do lançamento, a lei institui a necessidade


de que o ato jurídico administrativo seja devidamente fundamentado, o que
significa dizer que o fisco tem que oferecer prova concludente de que o
evento ocorreu na estrita conformidade da previsão genérica da hipótese
normativa.”

No mesmo sentido aponta Fabiana Del Padre Tomé18:

“Os princípios da legalidade e da tipicidade na esfera da tributação, por


exemplo, exigem que a relação obrigacional seja desencadeada apenas se
efetivamente verificado o fato conotativamente descrito na hipótese de
incidência tributária, razão pela qual faz-se imprescindível que tanto os atos
de lançamento e de aplicação de penalidades como as decisões proferidas no
curso de processo administrativo tributário sejam pautados em provas.”

O ato administrativo, por possuir como um de seus requisitos intrínsecos a


motivação, que, obviamente, deve ser respaldada em provas, exige que seja demonstrado por
esse meio a ocorrência dos fatos que o ensejaram.

Logo, o fato gerador, se simplesmente descrito pelo Fisco sem qualquer


suporte fático, não pode ser aceito como válido. Não existe essa presunção, salvo em casos
especialíssimos legalmente previstos, como por exemplo, no artigo 42 da Lei nº 9.430, de
1996, que autoriza a presunção legal de omissão de rendimentos com base em depósitos
bancários de origem não comprovada pelo sujeito passivo.

Portanto, havendo que ser provada a irregularidade na gestão do


administrador, esta responsabilização não pode, em hipótese alguma, ocorrer nos autos da
ação executiva fiscal, cujo rito não comporta dilação probatória – nem para que o Fisco acuse,
e menos ainda para que o administrador se defenda.

17
A Prova no Procedimento Administrativo Tributário, Revista Dialética de Direito Tributário n° 34, p. 107.

18
A Prova no Processo Administrativo Fiscal, in Curso de Especialização em Direito Tributário – Estudos
Analíticos em Homenagem a Paulo de Barros Carvalho; Coordenador: Eurico Marcos Diniz de Santi; Rio de
Janeiro, Forense, 2005.
18

A responsabilidade deve ser apurada em processo administrativo, no qual o


ônus acusatório cabe ao Fisco, abrindo-se então oportunidade para o administrador apresentar
sua defesa, em homenagem ao contraditório, ampla defesa e busca da verdade material, que
devem nortear o processo administrativo fiscal..

Vale citar a brilhante lição do mestre James Marins19:

“Submete-se a execução à prévia inscrição do débito em dívida ativa, que


está a cargo da Fazenda Pública, que tem o dever de realizá-la. Então,
realizadas as formalidades necessárias para o reconhecimento pleno do
crédito a ser executado no âmbito administrativo, pode ter início a execução
fiscal. É portanto limitada a execução ao que foi aferido no procedimento
administrativo que ampara o ato de lançamento e onde se dá o acertamento
do crédito plasmado no título que instrumentaliza a execução.

A CDA deve refletir de forma idônea o que se apurou no procedimento


administrativo. Semelhante detalhe por vezes escapa à autoridade fiscal. É o
que ocorre, por exemplo, quando sem se fazer referência expressa no título
busca o Fisco cobrar dívida de suposto responsável cujo nome é estranho à
execução ou proceder alterações no título executivo que não foram
legitimadas por anterior acertamento.

Não pode o ente arrecadador buscar o acertamento de seu crédito após ter
instruído o título e dado início à execução. O título executivo para ser válido,
leia-se gerar presunção de liquidez e certeza, deve espelhar fielmente o que
se apurou no procedimento administrativo – que a seu turno deve ter sido
realizado em absoluta adstrição à lei, material, formal e, em certos casos,
processual – sob pena de ineficácia da execução e nulidade do título. Se não
for regular o procedimento administrativo não haverá presunção de certeza
impossibilitando qualquer pretensão executória por parte do Fisco.”

Diante desses ensinamentos, podemos concluir que caso a execução esteja


instruída com CDA na qual conste somente o nome do contribuinte, é inadmissível a
responsabilização nos mesmos autos – uma aberração jurídica comumente conhecida como
“redirecionamento da execução fiscal”, que, como demonstrado, só pode ocorrer caso a
execução seja extinta e os autos sejam direcionados ao arquivo.

Igualmente, ainda que ocorra a regular apuração de responsabilidade no


processo administrativo, lavrando-se a CDA em face tanto da sociedade quanto do
administrador, também não há que se falar em “redirecionamento”, mas simplesmente na
execução do título executivo extrajudicial.

19
Direito Processual Tributário Brasileiro: (administrativo e judicial), 4ª edição, São Paulo: Dialética, 2005,
p.630.
19

4 - HIPÓTESES QUE NÃO ENSEJAM A RESPONSABILIZAÇÃO

Demarcados os casos que desencadeiam a responsabilidade dos


administradores, bem como a forma de sua apuração, passamos a analisar algumas situações
comumente encontradas, nas quais o Fisco indevidamente pretende a responsabilização.

4.1 - DÉBITOS JUNTO À SEGURIDADE SOCIAL

Em capítulo anterior demonstramos que a responsabilidade tributária é


matéria reservada pela Constituição Federal à Lei Complementar, o que macula qualquer
disposição sobre o tema que não seja trazido por este veículo introdutor.

Logo, não tem validade a atribuição de responsabilidade aos sócios que


estava prevista pelo artigo 13 da Lei 8.620 de 1993, que dispõe sobre a Seguridade Social:
20

Art. 13. O titular da firma individual e os sócios das empresas por cotas de
responsabilidade limitada respondem solidariamente, com seus bens
pessoais, pelos débitos junto à Seguridade Social.

Parágrafo único. Os acionistas controladores, os administradores, os gerentes


e os diretores respondem solidariamente e subsidiariamente, com seus bens
pessoais, quanto ao inadimplemento das obrigações para com a Seguridade
Social, por dolo ou culpa.

Tendo o citado artigo invadido a esfera reservada pela Carta Magna à Lei
Complementar, sua aplicação padecia de inconstitucionalidade. Apesar do Supremo Tribunal
Federal ainda não ter analisado a questão 20, o Superior Tribunal de Justiça reiteradamente
declarou que a responsabilidade pretendida pela aplicação da citada norma era limitada aos
casos já previstos no artigo 135 do Código Tributário Nacional, o que, na prática, implicava
na não aplicação desta norma. Vejamos:21

(...) 4. Inteiramente desprovidas de validade são as disposições da Lei n°


8.620/93, ou de qualquer outra lei ordinária, que indevidamente pretenderam
alargar a responsabilidade dos sócios e dirigentes das pessoas jurídicas. O
art. 146, inciso III, b, da Constituição Federal, estabelece que as normas
sobre responsabilidade tributária deverão se revestir obrigatoriamente de lei
complementar.

5. O CTN, art. 135, III, estabelece que os sócios só respondem por dívidas
tributárias quando exercerem gerência da sociedade ou qualquer outro ato de
gestão vinculado ao fato gerador. O art. 13 da Lei n° 8.620/93, portanto, só
pode ser aplicado quando presentes as condições do art. 135, III, do CTN,
não podendo ser interpretado, exclusivamente, em combinação com o art.
124, II, do CTN. (...)

Finalmente, este artigo foi revogado pela Lei nº 11.941, de 2009, eliminando
definitivamente do sistema a regra inválida e que já não era aplicada, conforme as reiteradas
decisões proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça.

20
O Recurso Extraordinário n° 567.932, no qual foi reconhecida a repercussão geral da matéria, encontra-se
aguardando julgamento.
21
AgRg no REsp 946509 / RS, Relator Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, j. 20/09/2007, DJ 22/10/2007, p.
213.
21

4.2 - DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA

Como já expusemos, temos no direito tributário o princípio da tipicidade,


que condiciona qualquer exação tributária à expressa previsão legal, sob pena de invalidade –
não havendo que se falar, portanto, em obrigação tributária decorrente de interpretação legal
extensiva ou analogia.

Posto isso, é incabível falar-se em desconsideração da personalidade


jurídica, pois não há qualquer previsão legal no âmbito tributário que justifique sua aplicação.

O que embasa a colocação dos administradores no pólo passivo da relação


exacional é o expresso comando legal, que imputa a estes a responsabilidade tributária em
determinadas hipóteses.

4.3 - ALCANCE DO ARTIGO 124 DO CÓDIGO TRIBUTÁRIO NACIONAL

É comum deparar-se com pretensão do Fisco de lançar os sócios da empresa


no pólo passivo da execução fiscal com base neste artigo.

Cabe-nos então esclarecer a inaplicabilidade do artigo 124 do CTN ao caso.


Vejamos a disposição legal:

Art. 124. São solidariamente obrigadas:

I - as pessoas que tenham interesse comum na situação que constitua o fato


gerador da obrigação principal;

II - as pessoas expressamente designadas por lei.

Parágrafo único. A solidariedade referida neste artigo não comporta


benefício de ordem.
22

Ao nos debruçarmos sobre a legislação tributária devemos ter em mente que


a Lei 5.172/66 estabeleceu as normas tributárias em um sistema organizado, dividido em
livros, títulos, capítulos e seções, e que cada um de seus artigos deve ser interpretado
conforme a posição em que foi colocado no sistema.

O comando legal em análise encontra-se em seção imediatamente após as


disposições gerais sobre a sujeição passiva. O Código só trata da responsabilidade tributária
bem à frente, em capítulo diverso, de modo que desafia a sistemática a pretensão de utilizar-se
deste artigo isoladamente para atribuir responsabilidade a terceiros.

O Fisco utiliza-se desta disposição legal sob o argumento de que os sócios


teriam “interesse comum” no fato gerador, e por isso seriam responsáveis solidários.

O argumento é falho. Primeiro, porque a expressão “interesse comum”,


utilizada de forma aberta e extensiva, poderia ser utilizada para atingir um número
indeterminado de pessoas – em uma venda de mercadorias, por exemplo, tanto comprador
quanto vendedor têm interesse comum na transação, e nem por isso são responsáveis
solidários pelos tributos decorrentes da operação.

Segundo, porque esta interpretação tornaria sem sentido o capítulo seguinte


do Código (Responsabilidade Tributária), pois se todos os supostos interessados – sócios,
administradores, sucessores, cônjuges, etc. – fossem solidariamente responsáveis por força do
artigo 124, não haveria qualquer motivo para a Lei, logo em seguida, fixar situações
específicas que ensejam a responsabilidade destas pessoas.

Como visto, este entendimento desafia a lógica.

Os doutrinadores, ao discorrer sobre o dispositivo, entendem que esse


interesse comum estaria presente quando duas pessoas realizam o fato gerador conjuntamente
e em mesma situação. Ensina Kiyoshi Harada22:

“Importante distinguir, pois, interesse comum no resultado da exploração da


atividade econômica ensejadora do fato gerador da obrigação tributária, com
o interesse jurídico comum na situação que constitua o fato gerador. Aquele
é irrelevante para gerar a responsabilidade solidária. Este acarreta a
22
Responsabilidade tributária solidária por interesse comum na situação que constitua o fato gerador, disponível
em: http://www.memesjuridico.com.br/jportal/portal.jsf?post=1610 – acesso em 26/09/2009.
23

responsabilidade solidária, porque as pessoas envolvidas praticam


conjuntamente a atividade tipificada pela norma tributária.”

O Superior Tribunal de Justiça pacificou o mesmo entendimento sobre o


tema:23

PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. RECURSO ESPECIAL. ISS.


EXECUÇÃO FISCAL. LEGITIMIDADE PASSIVA. EMPRESAS DO
MESMO GRUPO ECONÔMICO. SOLIDARIEDADE. INEXISTÊNCIA.
VIOLAÇÃO DO ART. 535 DO CPC. INOCORRÊNCIA.

1. A solidariedade passiva ocorre quando, numa relação jurídico-tributária


composta de duas ou mais pessoas caracterizadas como contribuintes, cada
uma delas está obrigada pelo pagamento integral da dívida. Ad exemplum,
no caso de duas ou mais pessoas serem proprietárias de um mesmo imóvel
urbano, haveria uma pluralidade de contribuintes solidários quanto ao
adimplemento do IPTU, uma vez que a situação de fato - a co-propriedade -
é-lhes comum.

(...)

7. Conquanto a expressão "interesse comum" - encarte um conceito


indeterminado, é mister proceder-se a uma interpretação sistemática das
normas tributárias, de modo a alcançar a ratio essendi do referido dispositivo
legal. Nesse diapasão, tem-se que o interesse comum na situação que
constitua o fato gerador da obrigação principal implica que as pessoas
solidariamente obrigadas sejam sujeitos da relação jurídica que deu azo à
ocorrência do fato imponível. Isto porque feriria a lógica jurídico-tributária
a integração, no pólo passivo da relação jurídica, de alguém que não tenha
tido qualquer participação na ocorrência do fato gerador da obrigação.

8. Segundo doutrina abalizada, in verbis: "... o interesse comum dos


participantes no acontecimento factual não representa um dado satisfatório
para a definição do vínculo da solidariedade. Em nenhuma dessas
circunstâncias cogitou o legislador desse elo que aproxima os participantes
do fato, o que ratifica a precariedade do método preconizado pelo inc. I do
art 124 do Código. Vale sim, para situações em que não haja bilateralidade
no seio do fato tributado, como, por exemplo, na incidência do IPTU, em
que duas ou mais pessoas são proprietárias do mesmo imóvel. Tratando-se,
porém, de ocorrências em que o fato se consubstancie pela presença de
pessoas em posições contrapostas, com objetivos antagônicos, a
solidariedade vai instalar-se entre sujeitos que estiveram no mesmo pólo da
relação, se e somente se for esse o lado escolhido pela lei para receber o
impacto jurídico da exação. É o que se dá no imposto de transmissão de
imóveis, quando dois ou mais são os compradores; no ICMS, sempre que
dois ou mais forem os comerciantes vendedores; no ISS, toda vez que dois
ou mais sujeitos prestarem um único serviço ao mesmo tomador." (Paulo de
Barros Carvalho, in Curso de Direito Tributário, Ed. Saraiva, 8ª ed., 1996, p.
220)

23
REsp 884845 / SC, Relator Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, j. 05/02/2009, DJe. 18/02/2009.
24

9. Destarte, a situação que evidencia a solidariedade, quanto ao ISS, é a


existência de duas ou mais pessoas na condição de prestadoras de apenas um
único serviço para o mesmo tomador, integrando, desse modo, o pólo
passivo da relação. Forçoso concluir, portanto, que o interesse qualificado
pela lei não há de ser o interesse econômico no resultado ou no proveito da
situação que constitui o fato gerador da obrigação principal, mas o interesse
jurídico, vinculado à atuação comum ou conjunta da situação que constitui o
fato imponível.

10. "Para se caracterizar responsabilidade solidária em matéria tributária


entre duas empresas pertencentes ao mesmo conglomerado financeiro, é
imprescindível que ambas realizem conjuntamente a situação configuradora
do fato gerador, sendo irrelevante a mera participação no resultado dos
eventuais lucros auferidos pela outra empresa coligada ou do mesmo grupo
econômico." (REsp 834044/RS, Rel. Ministra DENISE ARRUDA,
PRIMEIRA TURMA, julgado em 11/11/2008, DJe 15/12/2008).

11. In casu, verifica-se que o Banco Safra S/A não integra o pólo passivo da
execução, tão-somente pela presunção de solidariedade decorrente do fato de
pertencer ao mesmo grupo econômico da empresa Safra Leasing S/A
Arrendamento Mercantil. Há que se considerar, necessariamente, que são
pessoas jurídicas distintas e que referido banco não ostenta a condição de
contribuinte, uma vez que a prestação de serviço decorrente de operações de
leasing deu-se entre o tomador e a empresa arrendadora. (...)

Logo, o referido artigo é inaplicável à responsabilização tratada no presente


trabalho.

4.4 - DISSOLUÇÃO IRREGULAR DA SOCIEDADE

Regulando a responsabilidade dos administradores e a extinção das


sociedades anônimas e limitadas, temos extensa disposição normativa, distribuída em diversos
diplomas24, os quais deixaremos de transcrever por escapar ao foco deste trabalho.

24
Lei 6404/76, art. 158; Lei 10.406/02, arts. 45 a 51 e 1.150 e seguintes; Lei 8934/94, arts. 32 e 36; Decreto
3708/19, arts. 10 e 16.
25

Uma análise desses dispositivos legais leva-nos à conclusão que, em caso de


encerramento irregular da S.A. ou Ltda., os administradores têm responsabilidade pessoal
pelos débitos da empresa. Porém, esta responsabilidade é civil.

Como já explicamos, a responsabilidade tributária é matéria reservada à


Legislação Complementar – o Código Tributário Nacional. Voltemos ao seu estudo.

Primeiramente, cumpre-nos esclarecer que o artigo 134, VII, do Código


Tributário Nacional não se aplica às sociedades abordadas neste trabalho (S.A. e Ltda.), visto
que não são “sociedades de pessoas”. Assim esclarece Eduardo Sabbag:25

“Os tributos devidos pelas ‘sociedades de pessoas’, quando liquidadas, serão


de responsabilidade subsidiária dos sócios. Tais sociedades, especialmente
mercantis, são aquelas nas quais subsiste responsabilidade subsidiária e
ilimitada dos sócios pelas dívidas sociais. Estão praticamente extintas, pois a
praxe mercantil adstringe-se à formatação de sociedades em que a
responsabilidade do sócio fica limitada ao capital subscrito, desaparecendo
com a respectiva integralização (sociedades anônimas e sociedades por
quotas de responsabilidade limitada). Assim, a estas sociedades citadas –
S.A. e LTDA. – não se aplica a regra inserta neste inciso. Ademais, de há
muito o STF já se posiciona, entendendo que as sociedades por quota de
responsabilidade limitada não são sociedades de pessoas.”

Com efeito, a jurisprudência é pacífica ao reconhecer que as sociedades


estudadas não são “sociedades de pessoas”. Existe ainda alguma divergência sobre a natureza
das sociedades por quotas de responsabilidade limitada - se estas seriam sociedades de capital
ou um tipo híbrido -, mas, de qualquer forma, a doutrina costuma entender que não se trata de
“sociedade de pessoas”.

Logo, por força do artigo 110 da Lei 5.172/6626, é inaplicável este


dispositivo às sociedades citadas.

Resta-nos, novamente, o estudo do artigo 135 da mesma lei, cujo caput


prescreve:

25
Manual de Direito Tributário, 1ª Edição, São Paulo: Saraiva, 2009, p. 676.

26
A lei tributária não pode alterar a definição, o conteúdo e o alcance de institutos, conceitos e formas de direito
privado, utilizados, expressa ou implicitamente, pela Constituição Federal, pelas Constituições dos Estados, ou
pelas Leis Orgânicas do Distrito Federal ou dos Municípios, para definir ou limitar competências tributárias.
26

São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações


tributárias resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração
de lei, contrato social ou estatutos: (...)

As obrigações tributárias que ensejam a responsabilidade devem ser


resultantes dos atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou
estatutos.

Ou seja: para configurar a responsabilidade, a obrigação tributária deve ser


resultado da execução de um ato infracional – o que obviamente pressupõe que sem o ato, não
haveria esta obrigação.

Isso nos leva à conclusão lógica que o ato infracional deve ser antecedente à
obrigação tributária, desencadeando-a.

Fixadas essas premissas, parece-nos impossível defender a tese de que a


dissolução irregular da empresa enseja a responsabilidade do administrador pelo débito
tributário.

Se o ilícito é a dissolução irregular, qual a obrigação tributária que decorre


deste ato? E se o mero inadimplemento não é ilícito suficiente para ensejar a responsabilidade,
pode a dissolução, muito tempo depois, alterar este fato? E quem responde pelo débito, o
administrador ao tempo do inadimplemento, ou o administrador ao tempo da dissolução?

Essas questões parecem-nos um obstáculo intransponível para a aplicação


da Lei na forma como vem sendo feita pelos nossos Tribunais.

Vejamos em dois julgados o entendimento há muito pacificado pelo


Superior Tribunal de Justiça, de que a dissolução irregular da sociedade (ou encerramento “de
fato”), enseja a responsabilização dos administradores pelos débitos tributários:

“(...)Conforme entendimento assentado nesta Corte, o redirecionamento da


execução fiscal e seus consectários legais, para o sócio-gerente da empresa
apenas é cabível quando se demonstrar ter agido com excesso de poderes,
infração à lei ou contra o estatuto, ou na hipótese de dissolução irregular da
empresa.

2. A Primeira Seção fixou orientação de que a não localização da empresa no


endereço constante dos cadastros da Receita para fins de citação na execução
27

fiscal caracteriza indício de irregularidade no seu encerramento apta a


ensejar o redirecionamento da execução fiscal ao sócio. EREsp 716.412.

3. Precedentes da Turma que preconizam a impossibilidade de


responsabilização do sócio-gerente que se retira da sociedade executada em
período anterior à constatação da dissolução irregular. (...)
REsp 1035260 / RS, Relator Ministro Benedito Gonçalves, Primeira Turma, j.
23/04/2009, DJe 13/05/2009

“(...) A controvérsia consiste em saber se cabe, na hipótese de dissolução


irregular da sociedade, o redirecionamento da execução fiscal contra os
sócios cujos nomes constam da Certidão de Dívida Ativa, ainda que não
exerçam poder de gerência à época da dissolução irregular.

2. Consoante decidiu com acerto o Juiz Federal da primeira instância, o


pedido de redirecionamento da execução fiscal, quando fundado na
dissolução irregular da sociedade executada, pressupõe a permanência de
determinado sócio na administração da empresa no momento da ocorrência
dessa dissolução, que é, afinal, o fato que desencadeia a responsabilidade
pessoal do administrador. Ainda, embora seja necessário demonstrar quem
ocupava o posto de gerente no momento da dissolução, é necessário, antes,
que aquele responsável pela dissolução tenha sido também,
simultaneamente, o detentor da gerência na oportunidade do vencimento do
tributo. É que só se dirá responsável o sócio que, tendo poderes para tanto,
não pagou o tributo (daí exigir-se seja demonstrada a detenção de gerência
no momento do vencimento do débito) e que, ademais, conscientemente
optou pela irregular dissolução da sociedade (por isso, também exigível a
prova da permanência no momento da dissolução irregular). (...)
EDcl nos EDcl no AgRg no REsp 1009997 / SC, Relatora Ministra DENISE
ARRUDA, PRIMEIRA TURMA, j. 02/04/2009, DJe 04/05/2009

Além dos argumentos já expostos, cabe um breve comentário a este último


julgado, e ao criativo (e até curioso) método de verificar a responsabilidade aplicado:

O administrador só responde pelo débito se, concomitantemente, estiver à


frente da sociedade no momento do inadimplemento e também da dissolução irregular. Qual
seria então o ilícito: o inadimplemento ou a dissolução? Será que só infringe a lei o fato de
uma só pessoa fazer as duas coisas: inadimplemento e dissolução? Finalmente, caso sejam
pessoas diferentes, não haveria irregularidade alguma, estando desta forma criado um ilícito
que só existe se praticado individualmente?
28

Além dos argumentos jurídicos acima, vale citar um excerto do voto do


Desembargador Federal Luiz Carlos de Castro Lugon27, pela sua inegável lucidez:

“Outra imprescindibilidade com que ora me deparo é a necessidade de um


dimensionamento da expressão ‘dissolução e liquidação regulares’ que vem
sendo repetida em jurisprudência como requisito para que se livre o
patrimônio do sócio de constrangimento por força de dívida da sociedade.
Estaria aí uma exigência de ordem formal, impondo-se que o administrador
promova um desfazimento da fictio iuris em que se constitui a companhia
sociedade limitada em dificuldades financeiras que procedesse a uma
autoliquidação formal. Qual seria a finalidade? Esclarecer apenas o destino
que se deu ao patrimônio, somente a título de justificativa perante o Fisco?
Seria exigir demais de quem sossobrou no mar das constantes crises
nacionais que tanto aflige os que se arriscam em atividade produtiva. Nem,
em geral, detêm nível de informação para tal procedimento, e menos ainda
recursos financeiros para pagar a um contador tal inútil procedimento.

Em se olhando, pois, a legislação como incidente na realidade em que atua,


outra solução se não me depara: a regularidade de liquidação e dissolução
está na ausência de atos dolosos ou culposos que impliquem na
responsabilidade objetiva.”

27
Tribunal Regional Federal da 4ª Região, Embargos Infringentes em Apelação Civil n. 2000.04.01.140559-4-
RS, apud BODNAR, Zenildo, Responsabilidade Tributária do Sócio-Administrador, 1ª Edição, Curitiba: Juruá,
2006, p. 132.
29

CONCLUSÃO

Após o todo exposto, acreditamos ter delineado as hipóteses em que o


administrador das sociedades anônimas ou por quotas de responsabilidade limitada podem ser
responsabilizados, e também, até mesmo com mais destaque, as hipóteses em que a
responsabilização é incabível, valendo citar as seguintes conclusões:

- As normas aplicáveis aos casos de responsabilidade tributária devem ser


introduzidas exclusivamente por Lei Complementar - cujo status o CTN detém - por força de
reserva constitucional expressa.

- A responsabilização dos administradores tem natureza sancionatória, e só se


configura quando for provada a prática de atos com excesso de poderes ou infração de lei,
contrato social ou estatutos.

- A responsabilidade é pessoal, conforme expressa disposição legal, e exclui


a da empresa administrada, visto que ao cometer a infração o administrador foge aos limites
dos poderes que lhe foram conferidos, perdendo a qualidade de representante para agir em
nome próprio.

- O mero inadimplemento da empresa não configura infração que justifique a


responsabilização, pois a inadimplência é da empresa, e não do administrador.

- A prova do ato infracional cabe ao Fisco e deve ser feita em processo


administrativo, respeitando os princípios do contraditório e ampla defesa.

- Este procedimento não pode ser feito nos autos da execução fiscal, ação de
rito especial que visa pura e simplesmente satisfazer o crédito plasmado no título executivo.

- Os débitos junto à seguridade social não ensejam automaticamente a


responsabilidade dos sócios, visto que o artigo 13 da Lei 8.620/93 é lei ordinária, não
podendo dispor sobre a matéria – e, além disso, este dispositivo já foi revogado.
30

- Também não há que se falar em "desconsideração da personalidade


jurídica”, por ausência de previsão na legislação tributária.

- O artigo 124 do CTN não se presta a legitimar a responsabilidade dos


administradores, visto que o "interesse" lá referido é o da pessoa que efetivamente realiza o
fato gerador.

- A dissolução irregular da sociedade também não enseja a responsabilização,


eis que o artigo 135 da Lei Tributária somente prevê a responsabilização quando a obrigação
decorrer do ato infracional, o qual, obviamente, deve ser anterior àquela.
31

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