Você está na página 1de 7
Trar018 "Deus no morreu. Ele fomou-se Dinheiro”. Entrevista com Giorgio Agamben - Insttula Humanitas Unisinos - MU ssy)\ INSTTUTO » HUMANTIAS. ADITAL UNISINOS “Deus nao morreu. Ele tornou-se Dinheiro". Entrevista com Giorgio Agamben < 30 Agosto 2012 AA "O capitalismo é uma religido, e a mais feroz, implacdvel e irracional religido qu > jamais existiu, porque nao conhece nem redengiio nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é 0 trabalho e cujo objeto é 0 dinheiro", afirma Giorgio Agamben, em entrevista concedida a Peppe Salva e publicada por Ragusa News, 16-08-2012. Giorgio Agamben é um dos maiores filésofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, Giorgio Agamben foi definido pelo Times e por Le Monde como uma das dez mais importantes cabegas pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo periodo de férias em Scicli, na Sicilia, Itélia, onde concedeu a entrevista. Segundo cle, "a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como demoeratica, mas que nada tem a ver com 0 que este termo significava em Atenas". Assim, "a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora haviamos definido com a expressio, de resto pouco clara em si mesma, “vida politica”, afima Agamben. Atradugio é de Selvino J. Assmann, professor de Filosofia do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. htpwwwihu.unisinos.brinalle-asl512968-giorgie-agamben w Trar018 "Deus no morreu. Ele fomou-se Dinheiro”. Entrevista com Giorgio Agamben - Insttula Humanitas Unisinos - MU Eis a entrevista. O governo Monti invoca a crise ¢ 0 estado de necessidade, e parece ser a Gnica saida tanto da catastrofe financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itéli. A convocacio de Monti era a unica saida, ou poderia, pelo contrario, servir de pretexto para impor uma séria limitagao as liberdades democraticas? “Crise” e “economia” atualmente nfo siio usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrigdes que as pessoas nao tém motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “vocé deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” ja dura decénios ¢ nada mais é sendo 0 modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional. Para entendermos 0 que esta acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin, segundo 0 qual o capitalismo 6, realmente, uma religidc e¢. mais feroz, implacdvel eirracional religiao que jamais exist, porquenio. = > conhece nem redengio nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é 0 trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus néo morreu, ele se tornou Dinheiro. © Banco ~ com os seus cinzentos funcionétios e especialistas - assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a fé— a escassa, incerta confianga ~ que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religiZo, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atras: “salvar o euro a qualquer prego”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer prego”? Até ao prego de “sacrificar” vidas humanas? $6 numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmagGes tao evidentemente absurdas e desumanas. Acrise econémica que ameaca levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condigio de crise de toda a modernidade? A crise atravessada pela Europa nio é apenas um problema econdmico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relag&o com 0 pasado, O conhecimento do passado é 0 tinico caminho de acesso ao presente. £ htpwwoihu.unisinos.brinale-al512968-gioric-agamben an Trar018 "Deus ndo morreu. Ele tomou-se Dinheiro". Entrevista com Giorgio Agamben - Insti Humanitas Unisinos~ IMU procurando compreender o presente que os seres humanos — pelo menos nés, europeus — sio obrigados a interrogar o passado. Eu disse “nés, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, ndo pode ser nem politico, nem religioso e menos ainda econémico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu — A diferenca, por exemplo, dos asiaticos e dos americanos, para quem a hist6ria ¢ o passado tem um significado completamente diferente — pode ter acesso sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua histéria. O passado nao 6, pois, apenas um patriménio de bens e de tradigées, de memérias ¢ de saberes, mas também e sobretudo um componente antropolégico ess ncial do homem europeu, que s6 pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daf nasce a relagdo especial que os paises europeus (a Itélia, ou melhor, a Sicilia, sob este ponto de vista é exemplar) tém com relagio as suas cidades, as suas obras de arte, a sua paisagem: nfo se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponiveis; trata-se, isso sim, da propria realidade da Europa, da sua indisponivel sobrevivénci Neste sentido, ao destruirem, com o cimento, com as autopistas > a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores nao nos privam apena: de um bem, mas destroem a nossa propria identidade. A propria expressio “bens culturais” 6 enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possivel liquidar e por a venda a propria identidade. HA muitos anos, um filésofo que também era um alto funciondrio da Europa nascente, Alexandre Kojéve, afirmava que o homo sapiens havia chegado ao fim de sua histéria e jé nao tinha nada diante de si a nao ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pés-historica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas ceriménias do cha, esvaziadas, porém, de qualquer significado histérico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japio que sé se mantém humano ao prego de renunciar a todo contetido histérico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da historia, porque é eapaz de confrontar-se com a sua prépria historia na sua totalidade e capaz de aleangar, a partir deste confronto, uma nova vida. Asua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relacdo entre htpwwwihu.unisinos.brinalle-asl512968-giorgie-agamben an Trar018 “Deus nde mau, Ele tous Dini’. Eleva com Giro Agamben tule Humanitas Unisinos - MU poder politico e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediagao possivel entre os dois pélos? Minhas investigages mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separacao entre vida nua (a vida biologica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluida da politica e, ao mesmo tempo, foi incluida e capturada através da sua exclusao. Neste sentido, a vida nua é 0 fundamento negativo do poder. Tal separacdo atinge sua forma extrema na biopolitica moderna, na qual o cuidado e a decisfio sobre a vida nua se tornam aquilo que esta em jogo na politica. O que aconteceu nos estados totalitarios do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma da ciéncia) que decide, em tiltima anélise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela nao & Contra isso, se trata de pensar numa politica das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separdvel da sua forma, que jamais seja vida nua. O mal-estar, para usar um eufemismo, com que o ser humano comum se pée frente ao mundo da politica tem a ver especificamente com a condicio italiana ou é de algum modo inevitavel? > Acredito que atualmente estamos frente a um fendmeno novo que vai além do desencanto e da desconfianca reciproca entre os cidadaos ¢ o poder e tema ver com o planeta inteiro. O que esta acontecendo é uma transformagao radical das categorias com que estévamos acostumados a pensar a politica. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democratica, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais econémico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrds eram ditaduras. & mais simples manipular a opinido das pessoas através da midia e da televiséio do que dever impor em cada oportunidade as proprias decisdes com a violéncia. As formas da politica por nés conhecidas — o Estado nacional, a soberania, a participacao democratica, os partidos politicos, o direito internacional — j4 chegaram ao fim da sua histéria. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a politica tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas ¢ dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora haviamos definido com a expresso, de resto pouco clara em si mesma, “vida politica”. htpwwwihu.unisinos.brinalle-asl512968-giorgie-agamben an Trar018 "Deus no morreu. Ele fomou-se Dinheiro”. Entrevista com Giorgio Agamben - Insttula Humanitas Unisinos - MU O estado de excegaio, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o carter de normalidade, mas os cidadaos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. £ possivel atenuar esta sensagio? Vivemos hé decénios num estado de excegdo que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia em que a crise se tornou a condigao normal. O estado de excegéio - que deveria sempre ser limitado no tempo ~ é, pelo contrario, o modelo normal de governo, ¢ isso precisamente nos estados que se dizem democraticos. Poucos sabem que as normas introduzidas, em matéria de seguranga, depois do 11 de setembro (na Itilia ja se havia comegado a partir dos anos de chumbo) sao pior do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E, os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de excecao que nunca foi revogado. E certamente ele nao dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocAmaras, celulares, cartdes de crédito) proprias dos estados contempordneos. Poder-se-ia . Isso na > 0 na politica que afirmar hoje que o Estado considera todo cidadao um terrorista virtua pode senio piorar e tornar impossivel aquela participa deveria definir a democracia. Uma cidade cujas pracas e cujas estradas so controladas por videocdmaras ndo 6 mais um lugar péblico: 6 uma prisio. A grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como 0 senhor, investigam a natureza do poder politico poderd trazer-nos esperangas de que, dizendo-o de forma banal, 0 futuro seré melhor do que o presente? Otimismo e pessimismo nao sao categorias titeis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: "a situagiio desesperada da época em que vivo me enche de esperanga”’. Podemos fazer-Ihe uma pergunta sobre a lectio que o senhor deu em Scicli como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enrai Houve quem lesse a conclusao que se refere a Piero Guccione zada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicagio de como sair do xequemate no qual a arte contemporanea esta envolvida. ‘Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em htpwwiihu.unisinos.brinale-al512968-giorgie-agamben sr Trar018 "Deus ndo morreu. Ele tomou-se Dinheiro". Entrevista com Giorgio Agamben - Insti Humanitas Unisinos~ IMU que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situagdo da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relagdo com 0 passado, de que acabamos de falar. O tinico lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente nao sente mais o proprio passado como vivo, o museu. e aarte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problematicos. Em uma sociedade que jé nao sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercadorizagao. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que sao os museus de arte contemporanea, as duas coisas coincidem. Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem safda em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitario, e, introduzindo-o num museu, o forca a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente - a ndo ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa — na realidade nada aleanca aqui a presenga: nem a obra, pois se trata de um objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operagéio artistica, porque nao hé de forma alguma uma poiesis, produgdo — e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um ir6nico nome falso 0 vaso sanitétio > nao age como artista, mas, se muito, como filésofo ou critico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo. Em todo caso, certamente cle nao queria produzir uma obra de arte, ma desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercadorizacio. Vocés sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infeli jente ainda ativo, de habeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporanea nada mais faz. do que repetir 0 gesto de Duchamp, enchendo com nao-obras e performances a museus, que sio meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulacao de mercadorias, que, assim como o dinheiro, j4 alcangaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradic&o da arte contemporanea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu prego. © Comunicar erro htpwwwihu.unisinos.brinalle-asl512968-giorgie-agamben er Trar018 Deus ndo morreu, Ele torou:-se Dinheiro". Enrevista com Giorgio Agamben -Insttulo Humanitas Unisinos - IMU DEIXE SEU COMENTARIO 2 htpwwi hu unisinos.brinalesal5 12968-giorgc-agamben am