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Willian R.

Rocha

Este artigo tem por objetivo fornecer uma descrição qualitativa dos principais tipos de interações
intermoleculares que atuam nos sistemas químicos, e mostrar como o entendimento de tais interações pode
auxiliar na racionalização de propriedades macroscópicas observáveis.

propriedades termodinâmicas, forças intermoleculares

Introdução presentes na molécula. A temperatura temperatura ambiente e C8H18 é um lí-


de ebulição de um composto é a tem- quido. Esta e outras característica, co-

Q
uando moléculas, átomos ou
peratura na qual um sistema líquido mo será mostrado adiante, estão inti-
íons aproximam-se uns dos
passa para a fase mamente relaciona- 31
outros, dois fenômenos po-
gasosa, que tem uma Uma interação química das com a natureza
dem ocorrer: (i) eles podem reagir ou
relação direta com as significa que as moléculas das interações exis-
(ii) eles podem interagir. Uma reação
forças entre as molé- se atraem ou se repelem tentes entre as molé-
química por definição requer que
culas constituintes do entre si, sem que ocorra a culas.
ligações químicas sejam quebradas e/
líquido. Pode-se ver quebra ou formação de A Tabela 1 ilustra
ou formadas. Usualmente as energias
na Figura 1 que a tem- novas ligações químicas. como as propriedades
envolvidas neste processo variam en-
peratura de ebulição Estas interações são de um sistema quí-
tre 50 e 100 kcal.mol-1. Uma interação
varia linearmente com freqüentemente chamadas mico estão intimamen-
química significa que as moléculas se
o número de átomos de interações não te relacionadas com a
atraem ou se repelem entre si, sem que sua composição e es-
de carbono. covalentes ou interações
ocorra a quebra ou formação de no- trutura tridimensional.
É interessante per- intermoleculares
vas ligações químicas. Estas intera- Nesta tabela, são
ceber na Figura 1 que
ções são freqüentemente chamadas mostrados compostos
o único fator diferenciador entre uma
de interações não covalentes ou inte- com massas moleculares aproxima-
molécula e outra é a quantidade de
rações intermoleculares. As energias damente iguais mas, que à tempera-
átomos de carbono presentes. Entre-
envolvidas em tais tipos de interações tura ambiente existem em diferentes
tanto, estas moléculas possuem um
são muito menores que aquelas envol- fases: butano (gás), acetona e álcool
comportamento macroscópico com-
vidas em processos reativos, variando isopropílico (líquidos). É interessante
pletamente diferente. CH4 é um gás à
usualmente entre 0,5 a 10 kcal.mol-1. perceber que dos dois líquidos, aceto-
As interações intermoleculares na e álcool isopropílico, a única diferen-
estão intimamente relacionadas com ça entre eles é a substituição de um
as propriedades termodinâmicas de grupo C=O por um grupo C-OH. Esta
líquidos, sólidos e gases. Logo, o en- mudança é suficiente para alterar com-
tendimento de tais forças intermo- pletamente as características dos dois
leculares é de extrema relevância se líquidos. Como pode ser visto, a aceto-
quisermos entender o comportamento na é um líquido muito mais volátil que
de sistemas químicos a nível molecu- o álcool isopropílico. A substituição dos
lar. Como exemplo, a Figura 1 mostra grupos funcionais é acompanhada de
como a temperatura de ebulição de uma mudança na estrutura tridimensio-
hidrocarbonetos (compostos contendo Figura 1: Variação da temperatura de ebu- nal da molécula, que irá afetar com-
somente carbono e hidrogênio) varia lição com o número de átomos de carbono pletamente a maneira na qual elas irão
com o número de átomos de carbono para os hidrocarbonetos lineares. interagir no líquido. Também é

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Tabela 1: Relação entre a estrutura e propriedades químicas.

Nome butano acetona alcool isopropílico


Fórmula molecular C4H10 C3H6O C3H8O
Massa molecular (g/mol) 58 58 60

Estrutura bidimensional

Estrutura tridimensional

Temperatura de ebulição (oC) -0,6 56 82

Tipo de interação Dispersão Dipolo - Dipolo Ligação de hidrogênio

mostrado na Tabela 1, os diferentes interações fracas, usualmente rever- trado na Figura 2.


tipos de interação intermolecular, que síveis e altamente seletivas entre Este artigo tem por objetivo fornecer
32 serão explicados adiante, para os três duas moléculas (intermolecular) ou uma descrição qualitativa dos princi-
compostos. dentro da macromolécula biológica pais tipos de interações intermolecu-
Para finalizar com os exemplos, (intramolecular). Um exemplo das lares que atuam nos sistemas quími-
cabe salientar que as interações interações intermoleculares especí- cos, e mostrar como o entendimento
intermoleculares e seu entendimento ficas que mantém a estrutura tridi- de tais interações pode auxiliar na
ganham sua expressão máxima em mensional em hélice do DNA é mos- racionalização de propriedades ma-
sistemas biológicos. As moléculas
da vida (DNA, RNA, proteínas etc.)
são mantidas em suas estruturas
tridimensionais através de interações
intra e intermoleculares. Uma vez que
a estrutura tridimensional molecular
é responsável pela atividade bioló-
gica específica destas moléculas,
percebe-se então a importância do
entendimento de tais interações. Um
fato interessante, que até hoje não é
bem entendido, é o porquê ou como
estas moléculas biológicas adquirem
sua estrutura tridimensional. Como
exemplo, uma proteína é sintetizada
como uma seqüência linear de ami-
noácidos que se enovelam no espa-
ço dando origem à sua estrutura tridi-
mensional única, que irá ditar se esta
proteína terá características estru-
turais ou enzimáticas. Um outro fato
interessante a ser mencionado é que
todos os processos orgânicos vitais
estão relacionados com o reconhe-
cimento molecular específico inter e Figura 2: Estrutura tridimensional da molécula de DNA. (A) modelo de espaço preenchido.
intramolecular. Estes processos po- (B) modelo bola e vareta. (C) interações intermoleculares específicas (ligações de hidrogê-
dem ser definidos como sendo nio) entre os pares de bases.

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croscópicas observáveis. mento de outra molécula em suas pro- alcance? A seguir, alguns tipos de inte-
ximidades. Estas forças são responsá- rações intermoleculares serão descri-
Descrição das forças intermoleculares veis pelo desvio do comportamento tas.
Sob um ponto de vista histórico, o ideal dos gases, e são mais efetivas
efeito das interações intermoleculares nas fases líquida e sólida da matéria. Interações iônicas
e sua manifestação sobre o comporta- Uma vez que estas forças intermole- São interações eletrostáticas fortes
mento de sistemas químicos começou culares se originam do contato não que ocorrem entre cátions e ânions,
a mais de dois séculos atrás com os reativo entre duas moléculas, é natural que são grupos funcionais com cargas
experimentos pioneiros em sistemas pensarmos que as forças intermolecu- positivas e negativas, respectivamente.
gasosos realizados por cientistas co- lares tenham um comportamento que Geralmente os compostos onde este
mo Robert Boyle, Jacques Charles, varie com o inverso da distância de tipo de interação é predominante são
Joseph-Louis Gay-Lussac e Johannes separação entre as moléculas intera- ditos serem compostos iônicos. Como
van der Waals. A combinação das gentes, isto é, as interações serão mais exemplo podemos citar os compostos
relações obtidas por Boyle, Charles e fortes para pequenas distâncias de abaixo:
Gay-Lussac levou à conhecida equa- separação entre as moléculas. Tal fato [Na]+Cl- (cloreto de sódio)
ção de estado dos gases ideais: faz com que as interações intermole- [CH3CO2]-Na+ (acetato de sódio)
culares possam ser agrupadas em [CH3NH3]+Cl- (cloreto de metil amônio)
(1)
interações de curto alcance (aquelas As interações deste tipo (carga-car-
Onde P é a pressão, V é o volume, que atuam a pequenas distâncias de ga) podem ser atrativas ou repulsivas.
T a temperatura, n o número de moles separação intermolecular) e interações A força eletrostática associada com
do gás contidos no recipiente e R é a de longo alcance, que atuam a gran- este tipo de interação é descrita mate-
constante universal dos gases ideais. des distâncias de separação intermo- maticamente como (Lei de Coulomb):
Um gás ideal é, por definição, um lecular.
sistema gasoso constituído de partícu- Para ilustrarmos como se dá a for- (3)
las pontuais e não interagentes, isto é, mação de um complexo intermolecu-
não existe nenhuma interação entre as lar (espécie formada pela interação en- onde q 1 e q 2 são as cargas das 33
partículas constituintes do gás, quer tre duas moléculas), considere a se- partículas (cátions ou ânions) intera-
sejam átomos ou moléculas. A análise guinte situação: uma molécula A inte- gentes. r é a distância que separa estas
da equação de estado dos gases rage com uma molécula B, produzin- cargas e ε é a constante dielétrica do
ideais (Equação 1) nos revela algumas do a espécie A-B, como é exempli- meio. Esta constante reflete a tendên-
curiosidades. Por exemplo, a uma da- ficado na Figura 3. cia do meio em blindar uma carga da
da pressão e temperatura, 1 mol de O ganho adicional de energia de- outra, isto é, uma carga irá “sentir” com
qualquer gás ocupará o mesmo vol- vido às interações intermoleculares no maior ou menor intensidade a presen-
ume. Isto é devido ao fato que a complexo A-B, pode ser obtido da se- ça da outra. A constante dielétrica as-
equação dos gases ideais não contem- guinte forma: sume valores de 1 no vácuo, ao redor
pla nenhuma informação inerente ao E(intermolecular) = EA-B – (EA + EB) de 4 no interior de proteínas e 80 na
sistema gasoso sob estudo, o que faz água. A energia eletrostática envolvida
com que as propriedades termodi- Esta energia intermolecular pode neste tipo de interação é dada por:
nâmicas calculadas sejam as mesmas então ser decomposta nos seus vários
para qualquer gás. componentes: (4)
Os desvios do comportamento E(intermolecular) = E(longo alcance)
ideal dos gases podem ser vistos Logo, a contribuição eletrostática
+ E(curto alcance)
quando o fator de compressibilidade, para a energia intermolecular varia com
Z, que é definido como mostrado na Logo, as principais contribuições o inverso da distância de separação
Equação (2), é representado grafica- energéticas para a estabilização do intermolecular, 1/r. As forças eletrostá-
mente em função de P a várias tempe- complexo intermolecular A-B podem ticas conferem aos sólidos caracterís-
raturas. ser encontradas. A pergunta que se ticas como alto ponto de fusão e ebuli-
torna imediata é: quais são as forças ção.
(2) intermoleculares responsáveis pelas
interações (energias) de curto e longo Interações do tipo dipolo-dipolo
As forças de interação intermole- Em moléculas constituídas de áto-
culares fazem com que Z desvie do va- mos diferentes, os elétrons não são
lor ideal de 1. compartilhados de maneira equivalen-
As interações intermoleculares te. O comportamento de átomos em
surgem devido às forças intermo- moléculas pode ser entendido através
leculares, que são essencialmente de de uma série de conceitos. Por exem-
natureza elétrica, e fazem com que Figura 3: Formação de um complexo inter- plo, a tendência de um átomo em atrair
uma molécula influencie o comporta- molecular entre duas moléculas de bezeno. elétrons para si, em um ambiente mole-

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cular, é caracterizada por uma quanti-
dade denominada eletronegatividade.
A Tabela 2 mostra valores de eletrone-
gatividade para alguns átomos:
Em uma molécula composta de
átomos com diferentes eletronegativi-
dades, os átomos com menor eletrone-
gatividade ficam com cargas parciais
positivas, e os átomos com maior ele-
tronegatividade ficam com cargas par-
ciais negativas. O resultado disto é que
ocorre então uma polarização das li-
gações que refletirá na maneira como Figura 4: Momento de dipolo molecular da molécula de acetona. (A) distribuição de car-
a molécula irá interagir. Para ilustrar gas, (B) orientação do vetor momento de dipolo resultante.
este conceito, considere a molécula de
acetona, mostrada na Figura 4. sional dos átomos nestas moléculas
Uma vez que o oxigênio é mais faz com os dipolos presentes nas liga-
eletronegativo que o átomo de carbo- ções se anulem no somatório global
no, a ligação C=O exibirá um dipolo para a determinação do dipolo molecu-
elétrico µ, (dois monopolos elétricos), lar. Por conseguinte, estas moléculas
com os elétrons tendendo a serem não exibirão interações do tipo dipolo-
mais atraídos pelo oxigênio. Então, a dipolo.
ligação C=O terá uma carga parcial
negativa (δ–) no oxigênio e uma carga Figura 5: Algumas orientações dos vetores Interações dipolo-permanente–dipolo
parcial positiva no carbono (δ+). A re- momento de dipolo na acetona. induzido
34 presentação do dipolo elétrico resul- cos, e moléculas com dipolo elétrico Uma molécula com um dipolo per-
tante na molécula de acetona é mos- muito baixo ou zero são ditas serem manente pode induzir um dipolo em
trada na Figura 4b. A ponta da seta é apolares. A expressão matemática que uma segunda molécula que esteja
voltada para o lado negativo do dipolo. define a interação dipolo- dipolo é localizada próxima no espaço. A força
Da mesma forma que os lados opostos mostrada abaixo: desta interação irá depender do mo-
de um magneto (imã) se atraem, os la- mento de dipolo da primeira molécula
dos opostos de um dipolo se atraem, e da polarizabilidade, a, da segunda
dando origem às interações dipolo-di- molécula. A polarizabilidade de uma
polo. Algumas orientações possíveis molécula é uma grandeza física que
entre os dipolos na acetona são mos- indica com que facilidade a densidade
tradas na Figura 5. eletrônica da molécula pode ser pola-
Como pode ser visto, a interação rizada, isto é, formando uma distribui-
dipolo-dipolo depende da orientação ção assimétrica de densidade eletrôni-
espacial dos dipolos interagentes, isto (5)
ca (cargas) e por conseguinte ocorren-
é, o momento de dipolo elétrico, µ, é do a formação de dipolos instantâneos
uma grandeza vetorial. Todas as molé- A energia de interação dipolo-di- na molécula. Estes dipolos instantâ-
culas polares exibem dipolos elétricos polo depende então da orientação en- neos podem então se alinhar de várias
que são ditos serem permanentes. A tre os dois dipolos (dados pelos maneiras com o dipolo permanente da
magnitude do dipolo molecular nos for- ângulos θa e θb) e varia com o inverso primeira molécula, originando a intera-
nece uma medida da polaridade da da terceira potência da separação in- ção dipolo permanente-dipolo indu-
molécula, logo, moléculas mais pola- termolecular, 1/r3. Uma vez que dipolos zido. Este tipo de interação usualmente
res apresentam maiores dipolos elétri- são propriedades vetoriais, a estrutura
tridimensional da molécula é crucial
Tabela 2: Valores de eletronegatividade para para a determinação da distribuição de
alguns átomos. cargas na molécula e, por conseguinte,
do momento de dipolo resultante.
Átomo Eletronegatividade
Como exemplo, algumas moléculas
H 2,13 podem ter ligações polares e, entre-
C 2,55 tanto, não exibirem momento de dipolo
N 2,98 elétrico resultante. Como por exemplo
O 3,45 as moléculas CF4 e trans-1,2-dicloro-
eteno, mostradas abaixo, não exibirão Figura 6: Orientação dos dipolos de ligação
S 2,53
dipolo elétrico, pois o arranjo tridimen- resultando em um dipolo molecular nulo.

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varia com o inverso da quarta potência sistema molecular, mas torna-se apa- é tão forte que é diferente das intera-
da separação intermolecular, 1/r4, e rente somente quando as outras intera- ções dipolo-dipolo convencionais, e re-
ocorre entre moléculas polares e ções intermoleculares não estão pre- cebe o nome especial de ligação de
apolares. A Figura 7 ilustra a interação sentes, como no caso hidrogênio. A geo-
dipolo permanente-dipolo induzido dos hidrocarbonetos. Quando compostos metria de uma liga-
entre uma molécula polar e uma molé- Apesar de ser uma inte- apolares interagem, o ção de hidrogênio
cula apolar. ração fraca, possui um contato de uma molécula pode ser descrita
efeito cumulativo e varia com a outra faz com que através de três parâ-
Interações de dispersão proporcionalmente com apareça uma força atrativa metros: a distância
Na introdução deste texto foi mos- o número de contatos muito fraca que pode ser D-H, representada
trado o exemplo dos hidrocarbonetos moleculares presentes vista como uma interação por r1 na Figura 8a,
e a variação da temperatura de ebuli- na molécula. Isto jus- dipolo induzido-dipolo a distância H-A, r2, e
ção dos mesmos em função do núme- tifica então o gráfico induzido o ângulo φ entre D-
ro de átomos de carbono (Figura 1). apresentado na Figu- H-A. As ligações de
Estes compostos possuem somente ra 1. hidrogênio não são necessariamente
ligações do tipo C-C e C-H. Uma vez lineares, correspondendo a φ = 180°,
que a diferença entre as eletronega- Ligações de hidrogênio e um mesmo átomo aceptor pode
tividades dos átomos de carbono e A idéia que um único átomo de formar mais de uma ligação de hidro-
hidrogênio é muito pequena, estes hidrogênio poderia formar uma “liga- gênio, como mostrado na Figura 8b.
compostos serão apolares. Mas como ção química” com outros dois átomos Quando a técnica de raios X, que nos
explicar a diferença drástica na tem- foi proposta em 1919 e 1920 por M.L. permite determinar o arranjo tridimen-
peratura de ebulição mostrada na Fi- Huggins e G.N. Lewis, respectiva- sional dos átomos em uma molécula,
gura 1? Indo mais além, como explicar mente. Um átomo aceptor (A), que é aplicada a sistemas contendo hidro-
o fato de que CH4 é um gás à tempe- possua um par de elétrons não ligado, gênio, não é possível determinarmos
ratura ambiente e C8H18 é um líquido, pode interagir favoravelmente com um a posição dos átomos de hidrogênio.
sendo que a única diferença entre eles átomo doador (D) que carrega um Desta forma, a descrição geométrica 35
está no número de átomos de carbo- hidrogênio ácido. Duas maneiras dife- da ligação de hidrogênio é determi-
no? A resposta, como era de se espe- rentes de representar uma ligação de nada através da distância de sepa-
rar, está no tipo de interação intermo- hidrogênio podem ser vistas na Figura ração D-A (rDA na Figura 8a). É comum
lecular presente nestes compostos. 8.
Quando compostos apolares inte- Uma ligação de hidrogênio
ragem, o contato de uma molécula requer que A e D sejam átomos
com a outra faz com que apareça uma eletronegativos (como por
força atrativa muito fraca que pode ser exemplo N, O e F). Se o átomo
vista como uma interação dipolo indu- de hidrogênio está ligado a um
zido-dipolo induzido. Isto é, as polariza- átomo muito eletronegativo, o
bilidades das duas moléculas em con- hidrogênio fica com uma carga
tato é que irão determinar a força de parcial bastante positiva (ou
tal interação. Uma molécula perturba ácido), e o outro átomo (D) fica
a densidade eletrônica da outra, fa- com carga parcial negativa.
zendo aparecer dipolos momentâneos Uma vez que o hidrogênio é o
que se orientam e originam esta intera- menor átomo da tabela perió-
ção fraca. Esta interação também é co- dica, é possível que as duas
nhecida como força de dispersão de moléculas entrem em contato
London, em homenagem a Fritz Lon- muito próximo uma da outra.
don, que as descobriu. Trata-se de uma A combinação de alta pola-
interação muito fraca, que varia com o ridade da ligação H-D e o con-
inverso da sexta potência da separa- tato muito próximo resulta em
ção intermolecular, 1/r6. Este tipo de uma interação particularmente
força está presente em todo tipo de forte. Na verdade, a interação

Figura 8: Arranjo geométrico das ligações de hidrogênio.


(A) interação entre duas moléculas de água. (B)
interação entre uma molécula modelo de ligação
pepitídica (trans-N-Metilacetamida) com três moléculas
de água, mostrando que o átomo de oxigênio pode estar
Figura 7: Interação de uma molécula polar com uma molécula apolar. envolvido em mais de uma ligação.

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atribuir a existência de uma ligação de cias que possuam interações intermo- dades termodinâmicas macroscópicas
hidrogênio em uma molécula se a leculares mais fortes. Nós sabemos do sistema em equilíbrio. As duas gran-
distância entre os átomos D e A for que é necessário fornecermos energia des técnicas de simulação utilizadas
menor que a soma dos seus raios de para transformarmos um sólido em um hoje são a dinâmica molecular e o
van der Waals. Usual- líquido e um líquido método de Monte Carlo. O leitor inte-
mente, em sistemas As propiedades da água, em um gás. Estas ressado em um maior detalhamento
envolvidos em ligação álcoois, ácidos orgânicos, energias estão dire- sobre estas técnicas de simulação
de hidrogênio, a dis- aminas e as macromoléculas tamente relacionadas deve consultar Allen e Tildesley, 1987,
tância D-H, se encon- biológicas (proteínas, DNA e com a força de atra- Warshell, 1991, Freitas e Botelho, 1994,
tra na faixa de 1,8 a 2,0 RNA) estão intimamente ção entre as molé- Coutinho e Canuto, 1997 e Barlette e
Å e a distância D-A na relacionadas com a culas nas fases con-
Freitas, 1999. As técnicas de simulação
faixa de 3 a 3,5 Å. formação de ligações de densadas (líquida e
também podem ser utilizadas em con-
A força das liga- hidrogênio sólida). Uma vez que
junto com métodos fundamentados na
ções de hidrogênio es- a energia é direta-
mecânica quântica, para avaliarmos a
tá relacionada com a natureza dos áto- mente proporcional à temperatura,
mos doadores (D) e aceptores (A) de cada um destes processos irá variar influência das interações intermolecu-
prótons envolvidos na interação. Li- com a magnitude das forças intermo- lares em propriedades espectroscó-
gações de hidrogênio fortes, com a leculares. Isto é, à medida que a mag- picas, propriedades elétricas e proprie-
energia de interação variando entre 20 nitude das interações intermoleculares dades estruturais de sistemas quími-
a 40 kcal.mol-1, são geralmente for- aumenta, as energias necessárias para cos em fases condensadas. Tais meto-
madas quando os átomos D e A estão fundir, vaporizar ou sublimar uma subs- dologias podem ser vistas em Barlette
carregados, sendo tão fortes quanto tância aumentam. e Freitas, 1999, Rocha et al., 2000 e
uma ligação covalente. Ligações de Rocha et al., 2001.
hidrogênio moderadas (energia varian- Conclusões e leituras adicionais
-1
do entre 5 a 15 kcal.mol ) são as mais Willian R. Rocha (wrocha@quimica.ufjf.br), doutor em
Neste artigo foi mostrado como o
química, é professor do departamento de química da
36 comuns, e são formadas entre doa- entendimento microscópico das intera- Universidade Federal de Juiz de Fora.
dores e aceitadores neutros. Ligações ções intermoleculares pode auxiliar na
de hidrogênio fracas (de 1 a 5 kcal.mol-1) compreensão das propriedades termo-
são usualmente formadas quando a di- dinâmicas macroscópicas de sistemas
ferença de eletronegatividade entre o químicos. O área da fisico-química que
Referências bibliográficas
átomo doador e o hidrogênio é peque- se dedica ao estudo das relações en- ALLEN, M.P. and TILDESLEY, D.J.
na. As propiedades da água, álcoois, tre propriedades microscópicas e pro- Computer simulation of liquids. Londres:
ácidos orgânicos, aminas e as macro- priedades termodinâmicas observáveis Oxford University Press, 1987.
moléculas biológicas (proteínas, DNA (macroscópicas) é chamada de Termo- BARLETTE, V.E. e FREITAS, L.C.G.
Termodinâmica estatística de líquidos
e RNA) estão intimamente relacionadas dinâmica Estatística. A termodinâmica
com o método de Monte Carlo. I. Meto-
com a formação de ligações de hidro- estatística se constitui em uma intensa dologia. Química Nova, v. 22, n. 2, p. 254,
gênio. área de pesquisa em física e química; 1999.
a abordagem dos princípios da termo- COUTINHO, K. and CANUTO, S. Sol-
Tendências observadas nas interações dinâmica estatística foge dos objetivos vent effects from a sequential Monte
intermoleculares deste capítulo. O leitor interessado po- Carlo-quantum mechanical approach.
Enquanto as forças intramolecu- de consultar Hill, 1986, Allen e Tildesley, Advances in Quantum Chem., v. 28, p.
lares mantêm os átomos em uma mo- 1987 e Warshell, 1991. A utilização dos 89, 1997.
lécula, e constituem a base para a raci- fundamentos da termodinâmica esta- FREITAS, L.C.G. e BOTELHO, L.F. Cál-
onalização das propriedades químicas, tística em conjunto com técnicas com- culo de propriedades termodinâmicas
putacionais, abriu uma grande área de de líquidos via simulação computa-
as forças intermoleculares são respon-
cional. Química Nova, v. 17, n. 6, p. 489,
sáveis por todas as propriedades físi- pesquisa conhecida como ‘simulação
1994.
cas da matéria. Como foi mostrado, computacional de sistemas químicos’. HILL, T.E. An introduction to statistical
as forças intermoleculares aumentam Na simulação computacional a premis- thermodynamics. Nova Iorque: Dover,
em força da seguinte forma: sa básica é que se nós conhecemos a 1986.
descrição analítica (função matemá- ROCHA, W.R. ALMEIDA, K.J. and
dispersão < dipolo-dipolo < ligações
tica) do potencial de interação intermo- ALMEIDA, W.B. Chem. Phys. Lett., n.
de hidrogênio
lecular, como aqueles mostrados nas 316, p. 510, 2000.
À medida que a magnitude das for- equações anteriores, pode-se então ROCHA, W.R.; COUTINHO, K.; AL-
ças intermoleculares aumenta, fica fazer a evolução temporal (ou mapea- MEIDA W.B. and CANUTO, S. Chem.
mais difícil de afastarmos uma molé- mento configuracional) até que o sis- Phys. Lett., n. 335, p. 127, 2001.
cula da outra. Portanto, podemos es- tema atinja o equilíbrio; então podemos WARSHELL, A. Computer modeling of
chemical reactions in enzymes and in
perar que o ponto de fusão, por exem- utilizar os conceitos da mecânica
solution. Nova Iorque: Wiley, 1991.
plo, seja maior para aquelas substân- estatística para obtermos as proprie-

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