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Waldmir Nascimento de Araujo Neto

O artigo apresenta alguns fatos históricos relativos ao período inicial de desenvolvimento da noção de valência química, considerada
como a “Noção Clássica de Valência”. São focalizados os aspectos derivados do programa de pesquisa da química orgânica,
situados a partir de meados do século XIX. Pretende-se caracterizar a influência da noção de valência como um construto crucial
para o desenvolvimento de uma “Teoria Estrutural” e a premência de formas de representação que participam como ferramenta
heurística em detrimento de uma função simbólica para um objeto físico. A centralidade da noção de valência mantém-se por meio
de seu valor histórico como uma referência na elaboração de formas de representação e de novos conceitos que permanecem ainda
hoje na prática dos químicos.


valência, estruturas químicas, história da Química, filosofia da Química

Recebido em 10/10/06; aceito em 18/10/07


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A
noção de valência é um tema mentos tanto no sistema russo, pro- interior do programa de pesquisa da
ao mesmo tempo controverso posto por Medeleev, como no ale- química orgânica. O segundo, de
e central na história da Quí- mão, proposto por Meyer. A partir de 1870 até 1920, assinala a influência
mica. Por meio das diferentes aproxi- todas essas influências, professores da periodicidade química sobre ela,
mações desenvolvidas para precisar de Química concordam que é impos- determinando uma ampla divulgação
o seu papel no desenvolvimento do sível dar os primeiros passos na dis- e utilização do conceito tanto no
conhecimento químico, a noção de ciplina sem ser apresentado a ela. campo acadêmico quanto no didá-
valência demonstrou ser pelo menos Contudo a situação da noção de tico. E o terceiro, após 1920, assinala
uma estratégia metodológica bastan- valência no presente é bem diferente a colisão entre os antigos referenciais
te eficiente para aproximação do do ponto de vista acadêmico. Os da noção de valência com os resul-
químico com o misterioso mundo in- avanços crescentes da chamada tados da utilização de métodos físicos
terior da transformação química. Essa química teórica retiraram da valência modernos no estudo da estrutura das
noção se atreveu a tentar explicar os seus atributos e designaram-na como substâncias, incluindo-se o alcance
antigos domínios da afinidade quími- uma função meramente sintática. As- dos preceitos da mecânica quântica
ca, produzindo com isso uma manei- sim, o que outrora fo- sobre os objetos da
ra especial de representar a realidade ra analisado como A valência provocou o Química. O que con-
invisível dos átomos e das moléculas uma teoria fundado- mundo periódico, sidero aqui a noção
mediante as chamadas fórmulas es- ra, agora é mormente organizando a posição dos clássica de valência
truturais. Sua influência encontra-se remetido por meio de primeiros elementos tanto tratará, ainda que
registrada na inauguração tanto do locuções adjetivas no sistema proposto por brevemente, de al-
programa de pesquisa da química or- tais como: elétrons Medeleev como no gumas situações
gânica, por meio dos trabalhos de de valência, nível de proposto por Meyer que se desenrolam
Laurent, Gerhardt e Kekulé, entre ou- valência e configu- no primeiro período
tros, quanto na forte colaboração para ração de valência. e em parte do segundo.
a formulação das hipóteses explica- Em relação a uma evolução tem- A estratégia/organização de mi-
tivas da relação estrutura-propriedade poral restrita, a história da valência po- nha narrativa é mais bem identificada
dos complexos de Werner. Como se de ser dividida, grosso modo, em três como um mapa histórico de idéias e
não bastasse, a valência provocou períodos. O primeiro, de 1850 a 1870, problemas que, em diversas épocas,
também o mundo periódico, organi- é caracterizado pela emergência do constituíram ou foram constituídos
zando a posição dos primeiros ele- conceito e seu desenvolvimento no pela noção de valência, preservando

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sempre que possível uma ordem cro- a primazia não é o critério exclusivo de química, utilizada como conceito
nológica. Denota-se, assim, uma pre- para a indicação de um “mérito cien- organizador da rede de pesquisas
tensa história das idéias que, em tífico”. No caso da noção clássica de desenvolvidas na Química durante os
diversas épocas, constituíram os fun- valência, a disputa desse mérito aca- séculos XVII e XVIII. Outra forte
damentos dessa importante noção. bou sendo tão acirrada entre os histo- influência que marcará as tendências
Não considero possível reunir nesse riadores quanto entre os protagonis- de organização de pensamento em
texto todos os personagens, centrais tas. Questões políticas colocaram torno da noção de valência são as
ou adjuvantes, ainda assim me sinto muitas vezes a disputa dessa historio- teorias que, poder-se-ia dizer, fundam
confortável em não fazê-lo, pois o que grafia entre um bloco oriental e um o programa de pesquisa da química
encerro nessas li- outro ocidental. Mes- orgânica durante o século XIX: a
nhas é, em boa me- Uma questão importante a mo assim, na criação Teoria dos Radicais, a Teoria dos Nú-
dida, um recorte que ser considerada no da noção clássica de cleos e, principalmente, a Teoria dos
carrega a marca de nascedouro da noção valência, não se po- Tipos3.
minhas leituras e clássica de valência é a de imputar a um úni-
pesquisas acerca do influência que esta recebe co personagem essa Valência e capacidade de combinação
tema. Advirto o leitor da noção de afinidade responsabilidade. Até o início do século XIX, a Quí-
interessado nesse química Um estudo da bi- mica, que utilizava como material de
assunto para a ne- bliografia que trata partida para sua prática plantas e
cessidade de ampliar sua leitura por da história da noção clássica de animais, incluía uma aproximação
meio da bibliografia indicada e, princi- valência revela, em alguns momen- muito forte com a história natural, bus-
palmente, não se prender a uma tos, relatos implicados por questões cava esclarecer a fisiologia das plan-
única escola historiográfica ou filosó- de caráter externo2, e que denotam tas e dos animais e mantinha suas
fica ao saborear a história de um con- certa polarização em torno da prima- fronteiras próximas as da farmácia e
ceito. Faz-se muito importante, nesse zia dessa noção. Num extremo, esta- de outras artes. A partir de 1820,
processo, a permanente recolocação ria, por exemplo, o nobre inglês Sir começam a ocorrer mudanças funda-
14 das impressões obtidas. Edward Frankland (1825-1899), que mentais na condução das técnicas
Pretende-se oferecer aqui uma lei- foi responsável pela identificação dos praticantes dessa “química dos
tura em duas dimensões do que foi prioritária das regularidades existen- seres vivos”. Franceses e alemães fo-
impresso durante a constituição da tes nas capacidades de combinação ram responsáveis por um mergulho
noção clássica de valência, digo com dos metais com radicais orgânicos. no interior do objeto químico, tendo
isso que não tratarei (ainda que nesse No entanto, Frankland não fez uso da- prioritariamente reações de substitui-
momento responsabilize o tamanho quilo que havia observado em seu ção como seus objetos principais de
do texto) das influências e confluên- programa de pesquisa, que perma- estudo. Organiza-se nesse momento
cias espaciais que marcaram, tam- necia ancorado nas propostas dualis- uma mudança de rumo no conjunto
bém nesse período, o início de uma tas de Berzelius. de procedimentos técnicos daqueles
estereoquímica 1. Finalmente, itero No outro extremo, costuma-se po- que preferem investir na preparação
que pretendo percorrer a história da sicionar o alemão Fiedrich August de substâncias que não possuem
noção clássica de valência para ilu- Kekulé (1829-1896) análogos na nature-
minar ao leitor as circunstâncias que que, imbuído da von- O debate acerca da primazia za, tais como com-
se colocaram naquilo que considero tade de responder às de uma idéia ou noção postos clorados, e
o limiar da representação estrutural, demandas de sua científica costuma ser tão que também não
e digo que desse período decorre recém-inventada pa- proveitoso quanto são atraentes ao mo-
uma potente carga epistemológica lavra: valência, intuiu acalorado. No caso da delo de comércio
que permanecerá como uma espé- como “salsichas car- noção clássica de valência, a vigente. Mesmo as-
cie de tabu para os praticantes dessa bônicas” a solução disputa desse mérito acabou sim, químicos envol-
disciplina ao longo dos anos seguin- de problemas a res- sendo tão acirrada entre os vidos na nova cor-
tes. peito da estrutura de historiadores quanto entre os rente disciplinar, que
compostos desafia- protagonistas formaria a química
Noção clássica de valência: dores. Entre Fran- orgânica, tais como
De quem é essa idéia? kland e Kekulé, estão também outros Justus Liebig (1803-1873), Friedrich
Costuma ser um empreendimento atores e fatores, não coadjuvantes, Wöhler (1800-1882), Jean Dumas
proveitoso e acalorado o debate acer- mas tão importantes quanto os pri- (1800-1884) e Auguste Laurent (1808-
ca da primazia de uma idéia ou noção meiros, algumas vezes minimizados 1853), mantiveram suas ligações com
científica. É bem verdade que, para em seus papéis e suas influências. a farmácia e com a indústria (Klein,
muitos casos, a ponderação é de que Uma questão importante a ser 2004).
tenha havido uma aproximação simul- considerada no nascedouro da no- O período entre 1830 e 1860 tem
tânea de diferentes correntes, a partir ção clássica de valência é a influência como características certas tensões
de diferentes direções. Além do mais, que esta recebe da noção de afinida- metodológicas e epistemológicas no

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interior dessa nova química orgânica, O produto inesperado etil zinco foi Uma noção funcional de valência
disciplina que aos poucos ia se con- o precursor da classe dos compostos só poderia emergir após a solução
solidando como um corpo de estudos organometálicos e a primeira pista dos problemas na determinação de
promissor nos institutos de pesquisa, para Frankland passar a confiar numa fórmulas empíricas de compostos
principalmente na Alemanha e na regularidade de capacidade de com- orgânicos e inorgânicos, ou seja,
França desse período. Em boa medi- binação de alguns elementos. Este após os conceitos de átomo, molé-
da, é no interior da química orgânica expandiu suas sínteses para outros cula e equivalente terem sido diferen-
que a noção de valência vai crescer metais, confirmando que um metal ciados.
e se consolidar. Dentre outros fatores apresentava sempre mesma capaci-
de tensão epistemológica, pode-se dade de saturação em relação a um As primeiras fórmulas de Kekulé
destacar o início de uma reflexão so- tipo de radical e, mesmo quando os De acordo com Alan Rocke
bre quais seriam as verdadeiras impli- radicais eram modificados, essa (1993), o período em torno do ano de
cações da busca de teorias que evi- regularidade se mantinha. A conclu- 1850 assinala uma “Revolução Silen-
denciassem a reali- são a que havia che- ciosa” na Química. Para além de uma
dade interior do A força de combinação, gado indicava que os disputa entre radicais e tipos, na qual
mundo químico. que também ficou compostos organo- estava em jogo a unicidade do objeto
Uma preocupação conhecida como metálicos eram deri- de estudo dos químicos, a química
permanente, mas capacidade de saturação, vados por substitui- orgânica se via diante de desacordos
não necessariamen- era uma nova expressão da ção de tipos inorgâ- quanto aos pesos atômicos dos ele-
te evidente nos resul- antiga afinidade química nicos. mentos e, sobretudo, uma confusão
tados das pesquisas dos elementos A força de combi- sem precedentes no que se refere a
da época, pode ser nação, que também uma notação química.
enunciada como: o que podemos di- ficou conhecida como capacidade de A “metodologia de pesquisa em-
zer (e escrever) acerca do mundo in- saturação, era uma nova expressão pírica” praticada nesse período é fo-
terior da matéria? Alia-se a esse temor da antiga afinidade química dos ele- calizada no isolamento e na caracte-
epistêmico uma organização científi- mentos. A favor de Frankland, esta- rização de compostos orgânicos
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ca na qual pesquisadores mantêm- vam as leis das proporções múltiplas produzidos nas reações químicas.
se presos às concepções de seus e das proporções constantes, que Uma química orgânica sintética, no
mentores, o que caracteriza a forma- carregavam a implicação de que a ca- sentido de um desenho racional de
ção de verdadeiras disputas entre pacidade dos átomos de se combi- atividades de produção de compos-
“escolas de pensamento” durante narem deveria ser exata e limitada. Os tos, é um evento raro até o final do
esse período. argumentos de Frankland se basea- século XIX. O esforço teórico, ou de
A teoria dos tipos4 de Charles Fré- vam em um conjunto restrito de re- maior caráter dedutivo presente no
déric Gerhardt (1816-1856) não foi gularidades e ele se recusava a cons- trabalho dos praticantes da Química
bem recebida por Adolf Wilhelm Her- tituir uma teoria a respeito. Isso favo- nesse período, refere-se à possibili-
mann Kolbe (1818-1884) e Edward receu a apresentação de diversos dade de diferenciar centenas de com-
Frankland, ambos ainda discípulos do contra-exemplos, que decorriam da postos orgânicos com diferentes
dualismo de Berzelius. Os dois cien- confusão que atormentava as fórmu- propriedades e, lembre-se, formados
tistas preferiam rejeitar o conceito uni- las empíricas, em função da ausência por apenas alguns elementos.
tário de compostos químicos e consi- de uma demarcação clara entre os Ainda que Frankland não tenha
derar os radicais como grupos está- átomos e os equivalentes químicos. sido capaz de formular uma hipótese
veis de elementos. Tanto Kolbe quan- Esses exemplos e o fato de que a acerca da causa da regularidade em-
to Frankland receberam influências capacidade de combinação de um pírica na combinação de radicais
acadêmicas de Lyon Playfair (1818- elemento podia variar minaram a orgânicos com metais, sua “capaci-
1898) da Universidade de Edinburg, ampla aceitação das idéias de Fran- dade de combinação”, que posterior-
onde permanecia a convicção sobre kland. mente viria a ser conhecida como
a Teoria da Cópula de Berzelius 5. “atomicidade6”, chamou a atenção
Frankland conduzia experimentos a para a possibilidade de uma ordem
2C2H5I + Zn → C4H10 + ZnI2
fim de confirmar a estabilidade do ra- Iodeto de etila Butano a ser seguida nos processos de trans-
dical etil durante algumas transforma- formação dos materiais. Segundo
Figura 1: Equação representando a obten-
ções químicas. Quando o iodeto de ção do butano a partir do iodeto de etila e
Ramberg (2003), o movimento em
etila era tratado com zinco, formava- zinco. direção a uma teoria unificadora, os
se iodeto de zinco e butano (na época necessários acordos em torno de pe-
chamado etil-livre), conforme a Figu- sos atômicos e a noção de valência
ra 1. 2C2H5I + 2Zn → (C4H5)2Zn + ZnI2 estavam em cena conjuntamente nos
Iodeto de etila Etil zinco
Na reação acima, como subpro- anos 1850 quando Kekulé iniciou a
duto, um pouco de etil zinco sempre Figura 2: Equação representando a pro- idealização daquilo que viria a se tor-
era produzido, conforme a Figura 2. dução de etil zinco. nar uma teoria estrutural para a quími-

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ca orgânica. essa interpretação, Kekulé passou a
Friedrich Kekulé iniciou sua vida fornecer um sentido teórico para os
acadêmica como aluno de arquitetura tipos de Gerhardt, indicando que “o
na Universidade de Giessen, onde, número de átomos de um elemento
sob a influência de Liebig, foi conver- que combinam com um outro ele-
tido para o estudo da Química, gra- mento dependem de sua basicidade
duando-se em 1851. Seguiu então ou relação de tamanho (Verwands- Figura 4: Representações de Kekulé para
para Paris, onde desenvolveu seu tra- chaftsgrösse) de suas partes compo- compostos tipo gás do pântano, utilizan-
balho de doutoramento sob a orien- nentes” (Kuznetsov, 1980, p. 38, grifo do fórmulas empíricas com dois carbonos.
tação de Charles Gerhardt. Em 1853, meu). A esse respeito, os elementos
por meio de uma recomendação do podiam recair em três grupos princi- 8, porque cada carbono era satisfeito
próprio Liebig, mudou-se para Lon- pais: monobásicos, e.g. H e Cl; dibá- parcialmente por uma combinação
dres a fim de trabalhar como assis- sicos, e.g. O e S; e tribásicos, e.g. N entre carbonos. Assim, em compos-
tente de John Stenhouse no St. Bar- e P. tos como o etano (C2H6), cloreto de
tholomew’s Hospital, o que lhe valeu Em 1857, como professor na Uni- etila (C 2 H 5 Cl) e acetaldeído
contatos preciosos com William versidade de Heidelberg, Kekulé intro- (CH 3CHO), há seis elementos em
Odling (1829-1921). É na Inglaterra duz o tipo gás do pântano (gás combinação com o esqueleto de dois
que Kekulé vai amadurecer a arqui- metano), aplicando-o a um número carbonos. Com essa inferência, Keku-
tetura de suas estruturas químicas limitado de compostos e utilizando in- lé propunha também que no meca-
revolucionárias que, segundo suas convenientes representações com nismo das reações desses compos-
próprias palavras, teriam sido revela- dois carbonos que, no entanto, eram tos o esqueleto permanecia inaltera-
das a partir de sonhos. extremamente populares entre os quí- do7.
Em 1854, enquanto desenvolvia micos alemães (Figura 4). O escocês Archibald Scott Couper
um método de preparação para o áci- No ano de 1858, Kekulé se muda (1831-1892), que trabalhava com
do tioacético, Kekulé chegou a algu- para a Bélgica e assume uma cátedra Wurtz, publicou as mesmas idéias de
16 mas conclusões que validavam o na Universidade de Ghent. Lá ele volta Kekulé semanas depois. Mesmo
sistema de pesos atômicos de a usar os pesos atômicos de sendo derrotado no que se refere à
Gerhardt e rejeitavam as conclusões Gerhardt, o que reconduz seu tipo primazia, as representações utilizadas
de Frankland sobre a equivalência de gás do pântano à forma CH4. Foi du- por Couper em seu artigo eram muito
combinação entre o cloro e o oxigê- rante sua estada em Ghent que Ke- mais eficientes do que aquelas utili-
nio. kulé formulou a tetra-atomicidade do zadas por Kekulé. Este utilizou uma
Ao representar a reação conforme carbono além de sua capacidade de forma de representação que ficou co-
descrito na Figura 3, Kekulé atentou estabelecer esqueletos pela utilização nhecida como a forma salsicha devido
para a diferença na capacidade de de duas das quatro atomicidades à sua característica arredondada nas
combinação entre cloro e enxofre. O entre átomos de carbono: “o carbono extremidades, enquanto Couper ex-
produto clorado era resultado da é tetratômico, [...] e entra em combi- plicitou a combinação dos elementos
destruição do tipo original, enquanto nação com ele mesmo, possuindo por linhas retas. Couper não pôde
com o enxofre isso não acontecia. A capacidade de saturação mútua” desenvolver seus trabalhos devido a
afirmação para tal efeito era que “a (Nye, 1996, p. 130). Em sistemas com
quantidade de enxofre que é equiva- dois carbonos, os esqueletos eram
lente a dois átomos de cloro não é entendidos como arranjos na qual a
divisível” (Ihde, 1984, p. 223). Com atomicidade do sistema era 6 e não

Figura 5: Representações de: (A) Kekulé


para o gás metano na forma salsisha
(Nye, 1996, p. 130) e (B) Couper para o
Figura 3: Reações conduzidas por Kekulé que implicaram na diferenciação entre a ácido tartárico (Reprodução do autor a
capacidade de combinação do cloro e do enxofre (Ihde, 1984, p. 222). partir do artigo de Couper, 1858).

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graves problemas de saúde que lhe quer elemento. Nessa descrição de uma representação simbólica como
obrigaram a afastar-se da pesquisa. Butlerov, está implícita a aceitação de solução para essa limitação. O suces-
Kekulé entendia que a afinidade uma valência variável, a partir da utili- so de uma teoria estrutural dependia
de um átomo pode ser usada com- zação completa ou incompleta da afi- tanto da normalização dos pesos atô-
pleta ou parcialmente. No caso do nidade do elemento. Ao contrário de micos quanto da noção de valência.
SO2, por exemplo, a substância seria Butlerov, Kekulé não aceitava a idéia Essa proposta confiava na hipótese
composta de três de que unidades de de que o arranjo e a posição dos ele-
átomos, cada um A primeira representação afinidade podiam ser mentos eram tão ou mais importantes
dos quais dibásico. química isenta de usadas parcial- do que sua quantidade para a carac-
Das seis afinidades caracteres alfabéticos foi o mente, sustentando terização das propriedades de uma
possíveis para o en- hexágono de Kekulé sempre o conceito substância. Naturalmente, havia uma
xofre, quatro são associado ao benzeno em de uma valência fixa disputa entre aqueles que confiavam
usadas para conec- 1865. Essa trajetória não foi para cada elemento. nas possibilidades de uma represen-
tar os átomos de oxi- direta nem livre de uma Tanto para Butlerov tação estrutural – conhecida à época
gênio, de modo que especulação inicial marcada quanto para Kekulé, como fórmula racional – e os que
duas afinidades per- por arbitrariedades e a valência era uma entendiam que esse seria um esforço
maneceriam sem influências pouco científicas propriedade inerente improdutivo.
uso. Apesar de seu ao elemento e suas A primeira representação química
sentido estar praticamente completo ligações químicas, uma manifestação isenta de caracteres alfabéticos foi o
no entorno de 1860, a palavra valên- dessa propriedade. hexágono de Kekulé associado ao
cia só será usada a partir do final Butlerov também utilizou as unida- benzeno em 1865. Essa trajetória não
dessa década. des de valência para explicar o meca- foi direta nem livre de uma especula-
nismo de algumas reações. Em suas ção inicial marcada por arbitrarie-
Valência e ligação química propostas mecanísticas, existe como dades e influências pouco científicas,
O termo ligação química foi utili- pressuposto a conservação das uni- como denotam as propostas estru-
zado primeiramente por Alexander dades de valência, de um mesmo ele- turais feitas à época para explicar as
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Mikhailovich Butlerov (1828-1886) em mento, durante a combinação. A características pouco comuns dessa
um artigo de 1863 sobre a isomeria explicação para essa combinação é substância, que precisava justificar
nos compostos orgânicos. Desde a conduzida a partir da noção de valên- principalmente como seis átomos de
primeira vez que os termos valência cia: o elemento possui unidades de carbono podiam estar associados a
e ligação química começaram a se valência que são usadas no momento somente seis átomos de hidrogênio
encontrar, observou-se uma ampla da combinação química. Ele desfaz – fórmula empírica C 6H 6 –, numa
confusão para o sentido de ambos. as valências em uso com um elemen- substância altamente estável e resis-
Essa dificuldade foi marcada pela to para poder utilizá-las com outro, tente a muitos ataques por combina-
ausência de uma tentativa inicial de conservando essas quantidades, ou ção química.
demarcar os limites de abrangência seja, durante o processo não são cria- As propostas estruturais feitas por
dos dois termos. Mesmo assim, os das nem destruídas unidades de Kekulé para o benzeno ofereceram
primeiros esforços envolvidos em tal valência em um elemento. bastante dificuldade devido à baixa
distinção colocavam a valência como relação carbono:hidrogênio (1:1). Es-
uma força inata ao elemento – utiliza- Valência e fórmulas racionais sa relação sugeria que o composto
da para atacar outros elementos e No início dos anos 1860, a explo- deveria possuir um alto grau de insa-
expressa numericamente pelo núme- são da quantidade turação, mas o ben-
ro de elementos monovalentes capa- de substâncias orgâ- O termo ligação química foi zeno não sofria pro-
zes de serem atacados por ele – e a nicas que se come- utilizado primeiramente por cessos de adição,
ligação química como sendo o efeito çava a conhecer só Butlerov, em um artigo de assim como outros
resultante da ação dessa força. era comparável ao 1863 sobre a isomeria nos compostos insatu-
Para Butlerov, havia uma relação crescimento da com- compostos orgânicos. E rados. Sua saída pa-
diferente entre a valência e a ligação plexidade delas. As desde a primeira vez que ra o dilema foi a pro-
química. O elemento possuía uma nomenclaturas que os termos valência e posição de uma es-
quantidade de força que produzia o eram propostas, na ligação química começaram trutura cíclica, que
fenômeno químico. Parte dessa força maioria das vezes, a se encontrar, observou-se lhe teria ocorrido em
ou sua quantidade total era convertida não conseguiam dar uma ampla confusão para o um sonho.
em outra forma e transformada na conta das relações sentido de ambos Mesmo com as
ligação ao se formar um composto. de funcionalidade dificuldades do ben-
A força era sempre expressa por meio específicas que havia entre os dife- zeno, Kekulé insistiu e manteve a
de números inteiros e o valor relativo rentes grupos de compostos. Em tetravalência do carbono como o “nú-
ao hidrogênio constituía o valor míni- contrapartida, cresciam as correntes cleo duro” de sua proposta. Em suas
mo que podia ser assumido por qual- que apostavam na necessidade de primeiras publicações acerca dos

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compostos aromáticos, Kekulé prefe- do pelas reações químicas, sem se Brown foi paulatinamente sofisticando
ria as “formas salsisha” (Figura 6A), fazer nenhum julgamento de sua tanto a forma de descrição por meio
sendo essa a forma utilizada no pri- identidade com o arranjo verdadeiro dos desenhos, quanto corrigindo
meiro volume do seu livro: Lerbuch (físico). As proposições de Butlerov seus pesos atômicos, até uma confi-
der organischen chemie (1865). No sugerem que seria possível investigar guração bastante precisa e simplifi-
ano seguinte, Kekulé adota o hexá- a estrutura química dos corpos sem cada para diferentes compostos. Na
gono (Figura 6C). O problema da se preocupar com questões até então notação de Brown, os símbolos dos
tetravalência do carbono foi resolvido sem resposta. Butlerov definiu o ter- elementos estão inscritos em círculos
com a suposição da existência de mo estrutura química de diferentes de onde partem tantas linhas quantas
valências duplas alternadas entre os maneiras desde 1861 até 1864: forem os equivalentes desse ele-
carbonos da estrutura do benzeno (1) coesão mútua ou maneira de mento. Quando os equivalentes dos
(Figura 6B). Entretanto, muitos quími- ligação mútua entre os átomos em dois elementos que pretendem a liga-
cos não estavam dispostos a aceitar um composto; ção são mutuamente satisfeitos, as
a forma do benzeno como um ciclo- (2) a forma como os elementos linhas são unidas. Conforme descritas
hexatrieno, uma vez que não havia químicos estão conectados; pelo próprio, as fórmulas dele procu-
reação de adição para ele nos mes- (3) distribuição da ação de afini- ravam descrever a localização quími-
mos moldes de outros compostos dade; ca dos átomos em lugar da localiza-
insaturados. A presença das valên- (4) ordem da ação química mútua ção física.
cias duplas continuou em aberto. dos vários átomos elementares, resul- Outra tentativa de oferecer uma
Uma teoria estrutural deveria inclu- tando na existência de partículas defi- forma de representação para o corpo
ir a utilização de esquemas gráficos nidas; químico foi feita por Josef Loschmidt
como suporte para sua comunicação. (5) seqüência de ação mútua – a (1821-1895), que divulgou em um livro
Tal conjectura nos remete à questão: forma da ligação química mútua dos (Chemische Studien – 1861) represen-
o que é isso que estavam escrevendo átomos em uma molécula. tações designadas como “fórmulas de
na folha de papel? Kolbe chama “is- Em 1861, mesmo ano em que Bu- constituição da química orgânica em
18 so” de química de lápis e papel, de tlerov iniciou a descrição das possi- representação gráfica”. Inspirado
uma forma bem desacreditada para bilidades de uma ligação química, o primariamente nas representações de
com as possibilidades de correspon- químico escocês Alexander Crum Dalton, Loschmidt apresentava os
dência com aquilo que se produz nos Brown (1838-1922) começou a usar átomos de carbono como círculos; os
laboratórios (Nye, 1996). Para Alexan- fórmulas com linhas conectando átomos de hidrogênio como círculos
der Butlerov, o arranjo aparente da símbolos dos elementos, assim como menores; os átomos de oxigênio como
matéria (químico) poderia ser revela- Couper havia feito anteriormente. dois círculos inscritos; e o nitrogênio
como três círculos inscritos. As repre-
sentações de Loschmidt receberam
pouca atenção, inicialmente devido à
circulação restrita da obra que fora edi-
tada pelo próprio autor e, posterior-
mente, porque não conseguia dar
conta regularmente da representação
de todas as valências do carbono, prin-
cipalmente para a molécula de benze-
no (Figura 8).
A intensa atividade dedicada pelos
praticantes da Química à constituição

Figura 6: Representações de Kekulé (1866) para aquilo que ele referia como o “Kern”
(núcleo) da fórmula racional de tipo C6A6, na qual A pode ser um elemento que possua
uma unidade de afinidade a ser satisfeita. Todas as formas acima são encontradas no
mesmo livro: (A) fórma “salsicha” (p. 496); (B) uma aproximação para a forma de linhas
considerando o átomo de carbono (kohlenstoffatom) explicitado e com valências não Figura 7: Fórmula constitucional do ácido
preenchidas (p. 496); e (C) representações esquemáticas “cíclicas” (p. 514)8. succínico por Crum Brown (1865, p. 233).

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Figura 9: Fórmula estrutural plana dos pre-
tensos isômeros aromáticos obtidos por
substituição do benzeno nas posições
1,2, que foi refutada por Ladenburg.

Adolf Claus (1840-1900). O prisma


(10B) e a estrela (10C) são originais,
Figura 8: Representações de Loschmidt para diferentes compostos orgânicos: (A) (B) e
sendo que o autor preferia o prisma,
(C) tentativas de representar o núcleo aromático, (D) Benzeno, (E) fenol, (F) metoxi
benzeno, (G) anilina, (H) diaminobenzeno, (I) uma imida (Ihde, 1984, p. 308).
pois conseguia explicar em boa
medida os isômeros di e trissubstituí-
de um sistema de representação ca- Podemos indicar que a evidência em- dos, mas era ineficiente para o enten-
paz de assinalar estruturas sem com- pírica cumpre, para um sistema se- dimento das valências para outras
promissos ontológicos, sob orien- miótico, o mesmo papel que cumpre situações.
tação da noção de valência, permitiu para um sistema teórico: oferece Um dos méritos do trabalho de La-
alcançar a meta de diferenciação de possibilidades de falsificação e impõe denburg está associado ao relevante
isômeros ainda no último quarto do a necessidade de sua ampliação. contra-exemplo que fora revelado em
século XIX. A possibilidade de im- Essa dilatação, todavia, não costuma relação à inexistência de isômeros 1,2
primir um símbolo que tivesse uma ser imediata. Mesmo com todas as dissubstituídos no anel aromático.
espécie de correspondência biunívo- evidências empíricas postas na mesa Esse mérito fez reavivar o Kekulé ar-
ca com aquilo que se produzia por e uma formulação teórica em crise, a quiteto que, a partir de todas as pro-
meio das reações químicas garantiu aceitação de novos modos de pensar postas de saturação de valência fei-
19
poder preditivo e maior confiança nos e olhar depende de muitos fatores. tas até então, delineou, em 1872, uma
programas de pes- Mesmo quando La- complementação à sua proposição
quisa. Observe-se Um sistema de signos pode denburg coloca Ke- original, indicando um mecanismo
que a condição dinâ- estar incompleto mesmo kulé contra a parede oscilatório entre as duplas valências
mica do objeto da tendo toda sua base legal com evidências em- do anel que fazia com que todas as
Química ainda é acordada e um amplo píricas acerca da ine- posições dos seis átomos de carbono
uma hipótese frágil e conjunto de situações de xistência de isôme- fossem equivalentes, o que particu-
não possui valor res- uso apropriado ros 1,2 dissubstituí- larmente resolvia o problema da ine-
tritivo para aqueles dos em sua estrutura xistência dos isômeros. Segundo as
que propõem tais formas de repre- hexagonal – a resposta de Kekulé proposições de Kekulé, os átomos na
sentação. O que se pretende é pro- vem em 1872 –, o debate e a disputa molécula oscilavam em torno de uma
gredir com as pesquisas na área de permanecem acesos por mais de 30 situação de equilíbrio, colidindo cons-
modo a alcançar certa eficiência fabril anos (Russel, 2004). tantemente com os átomos vizinhos.
na produção de novas substâncias. Albert Ladenburg 9 (1842-1911) O número dessas colisões por uni-
Mesmo assim, percebe-se que os propôs que uma estrutura hexagonal dade de tempo era capaz de gerar
desenhos que foram tentados como para o benzeno indicaria a existência uma força que tanto mantinha a molé-
descritores do corpo químico são de dois isômeros de substituição para cula coesa, quanto era transformada
muito mais do que uma forma eficien- a posição 1,2 do anel aromático, de- numa valência uniforme para cada
te de comunicação entre pares. Eles pendendo de onde estivessem esses átomo de carbono na estrutura.
permitem propor novas situações e substituintes em relação à posição As questões postas por Kekulé
ajudam a pensar novos objetos de das três duplas alternadas (Figu- indicavam que as duas estruturas da
pesquisa. ra 9)10.
Contudo, o estudo intenso de for- Uma vez que tais isômeros não
mas de representação pode exigir eram conhecidos para nenhum com-
muito debate e revisões que vão além posto aromático dissubstituído nas
de colocar novas convenções em posições 1,2, Ladenburg argumentou
situações de uso que possam aco- que cada átomo de carbono deveria
modar novos dados empíricos. Um estar ligado a três outros e sugeriu
sistema de signos pode estar incom- três formas alternativas para as dis- Figura 10: Possibilidades de distribuição
pleto mesmo tendo toda sua base tribuições de valência (Figura 10). A das valências dos carbonos na molécula
legal acordada e um amplo conjunto primeira proposta de Ladenburg do benzeno, segundo Ladenburg (Ihde,
de situações de uso apropriadas. (10A) foi idêntica a uma outra feita por 1984, p. 314).

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Figura 11 eram a situação inicial e a da década de 1880 com a intenção Nesse circuito de pesquisas, duas
final em cada intervalo de tempo pro- de convergência. A maior vontade respostas competem: de um lado, as
posto para a então chamada situação dos praticantes da recém-nata teoria duplas alternadas de Kekulé e, do ou-
de equilíbrio. A comunidade científica estrutural era a de buscar reconcilia- tro, as representações com afinidades
em geral não conseguiu entender o ção entre as hipóteses existentes, a livres de Meyer e seguidores. Julius
significado estrutural das representa- fim de obter uma conjectura o mais Lothar Meyer (1830-1895) discutiu no
ções de Kekulé, até mesmo porque abrangente possível. ano de 1872 o pro-
ela tinha problemas de consistência Alguns axiomas po- A disputa acerca da quarta blema da localização
quando procurava se referir à dinâ- dem ser enunciados valência do carbono na da quarta valência do
mica das colisões e do equilíbrio con- como a base dessa estrutura do benzeno não átomo de carbono na
seqüente delas. Apesar de uma afir- busca final: (i) a es- ficará completamente estrutura do benze-
mação ad hoc, o saldo final é bastan- trutura é cíclica com decidida até que a físico- no. Ele introduziu a
te positivo: as valências dos seis cada carbono utili- química ilumine o caminho idéia de que cada
átomos de carbono no anel benzêni- zando duas valên- da química orgânica já no carbono possuía
co deveriam ser equivalentes. Esse é cias com outros dois século XX uma afinidade livre
um exemplo de proposição ad hoc carbonos contíguos, (Figura 12).
que possui caráter crucial no interior perfazendo um total de seis carbo- As representações de Meyer fica-
de um programa de pesquisa por sua nos; (ii) a terceira valência de cada ram conhecidas como fórmulas cên-
manutenção. Em 1874, um dos alu- carbono é utilizada com um elemento tricas e, apesar de adormecidas após
nos de Kekulé, Wilhelm Körner (1839- externo a esse anel; (iii) todas as sua divulgação, foram retomadas por
1925), demonstrou a equivalência dos valências dos carbonos nessa estru- Johann Friedrich Adolf von Baeyer
seis átomos de carbono do benzeno tura são equivalentes. A questão (1835-1917) e também por Adolf
(Nye, 1996). ainda em aberto é: como está situada Claus12. É instigante conferir o texto
A pesquisa sobre a natureza das a quarta valência de cada carbono original de Meyer e perceber como a
ligações no benzeno chegou ao final desse ciclo? narrativa desse capítulo (intitulado “a
20 lei de encadeamento dos átomos”)
trata de contrapor racionalmente as
afinidades livres em relação à propos-
ta de Kekulé, destacando-se uma
abordagem estatística das ligações
possíveis entre os carbonos no anel
de seis membros e a característica
restrição empírica dos isômeros.
Ainda que bastante contemplada,
tanto racional quanto empiricamente,
a disputa acerca da quarta valência
do carbono na estrutura do benzeno
não ficará completamente decidida
até que a físico-química ilumine o
caminho da química orgânica já no
século XX. Contudo, uma proposição
mecanística sobre a adição em com-
postos aromáticos e a dilatação da
noção de valência colocaria o time de
Kekulé em boa vantagem.
O fato de os compostos aromáticos

Figura 11: Reprodução de uma página do periódico alemão Annalen der Chemie und
Pharmacie (n. 162, v. 88, 1872), no qual Kekulé publica as formas equivalentes do ben-
zeno e inicia uma apresentação acerca do que viria a se tornar a “ressonância” do
benzeno: “ocorre na primeira unidade de tempo expressos por 1. 2,6,h,2 onde h Figura 12: Esquema representativo, con-
representa hidrogênio. Na segunda unidade de tempo, o mesmo átomo de carbono forme apresentado por Meyer em seu livro
que vem da posição 2, se vira para a posição do carbono 6. Seus elementos durante a (foi usada a tradução francesa, 1887,
segunda unidade de tempo são 2. 6, 2, h, 6. Enquanto os elementos da primeira unidade p. 294 11), comparando a proposta de
de tempo são representados pela forma escrita acima, encontram o da segunda sua Kekulé (esquerda) com a sua forma das
representação de acordo com a seguinte forma” (Ihde, 1984, p. 315). afinidades livres para o benzeno (direita).

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não sofrerem adição foi investigado seria a melhor forma para se entender químico – por exemplo: radicais,
por Friedrich Karl Johannes Thiele a essência do quimismo, instituindo núcleos e tipos – precipitavam a
(1865-1918) com uma estratégia relações quantitativas entre energia existência de certa ordem. A forma
bastante peculiar. É conveniente de formação de uma substância e como esse corpo químico se organiza
destacar que, no terceiro quarto do suas características estruturais. Para depende, obviamente, da afinidade
século XIX, as reações de adição não chegar a esse estágio, a Química que seus componentes possuem. Tais
eram tão trabalhadas quanto às de precisou passar pelo caminho sinuo- componentes, por sua vez, se valem
substituição. Apesar de serem citados so das teorias fenomenológicas de tipos de afinidade diferentes para
ambos os processos como de “satu- consideradas anteriormente. se combinarem e para se manterem
ração”, o termo não se referia neces- combinados. A valência é resultado
sariamente ao preenchimento de “in- Valência: uma idéia não concluída disso: não somente da percepção de
saturações” como fazemos uso nos Ao final dessa história, falta pergun- uma regularidade na combinação dos
dias de hoje. Thiele conduziu uma tar: o que é valência? Reunindo elementos, mas principalmente na
série de experimentos de adição em afinidade química e valência no mes- determinação de transpor essa regula-
compostos de cadeia aberta com as mo escopo, uma resposta possível é ridade para outros elementos, tornan-
características de duplas alternadas que a valência se constitui na perma- do-a uma propriedade geral dos cor-
dos anéis aromáticos. Ele verificou nente, tumultuada, desordenada, con- pos elementares e um conceito-chave
que, em compostos como o butadie- troversa e não completada tentativa de para a criação da teoria estrutural.
no, a adição é feita nas posições 1,4, entender como a natureza organiza e Valência e afinidade não são a
com a transposição da dupla ligação transforma seus constituintes. Mesmo mesma coisa. A valência é um produ-
para os carbonos 2,3 (Figura 13). entre acadêmicos ou especialistas, a to da afinidade de um elemento. As
Para explicar esse efeito, Thiele utilização do termo valência se refere descrições da valência – como, por
sugeriu em 1899 que algumas liga- ao íntimo da atividade química. No ima- exemplo, poder, capacidade e força
ções duplas possuem valências não ginário daqueles que atravessaram – refletem características ontológicas
satisfeitas ou uma ligação química uma graduação em Química ou áreas que foram herdadas da afinidade quí-
potencial. Quando ligações duplas afins, falar de valência mica. No entanto, o
21
estão em átomos de carbono adja- é particularmente falar As relações entre afinidade, caráter abrangente
centes, as valências centrais parciais do poder – que mui- valência, ligação química e tomado pela noção
se tornam ineficazes, e as posições tas vezes assume energia só ficaram um de valência imprimia
mais externas (1,4) são as mais reati- diferentes sentidos – pouco mais claras quando o traço de uma per-
vas. que faz com que um a mecânica quântica sonalidade múltipla,
Todas as valências parciais são átomo tenha determi- estabeleceu relações ao que sua própria
adjacentes no anel do benzeno e por nada “atitude quími- quantitativas entre energia utilização e prática
isso são ineficazes. A molécula só ca” frente a outro. de formação de uma orientaram-na para
participa de processos de adição sob A busca pelas ori- substância e suas uma nova marca on-
condições extremas. As questões gens da valência na características estruturais tológica, caracteri-
postas por Thiele corroboraram para afinidade química re- zada pela distinção
a instalação de um programa de pes- vela que esse empreendimento sem- como grau. Essa graduação exigiu
quisa em química orgânica, durante pre foi o pano de fundo das atividades que números fossem utilizados como
o início do século XX, que conside- da Química, mesmo antes de ela se descritores de uma quantidade de
rasse as particularidades reativas de constituir como um domínio científico valência. Essa atribuição foi herdada
cada carbono13. Em suma, havia a ou disciplinar de estudo. A afinidade da teoria dos tipos, outro argumento
necessidade de se iniciar uma nova emerge dos frascos e cadinhos alquí- fundador da noção clássica de valên-
interpretação funcional do objeto da micos para procurar seu lugar nas cia.
Química. prateleiras dos laboratórios das uni- Apesar de perceber-se certa or-
As relações entre afinidade, valên- versidades. dem intrínseca do arranjo do corpo
cia, ligação química e energia só fica- As diferentes abordagens concei- químico a partir dos tipos, essa carac-
ram um pouco mais claras quando a tuais que foram utilizadas para dar con- terística não foi examinada naquele
mecânica quântica estabeleceu qual ta do modus existendi desse corpo momento, mas explorada a partir da
valência. Graduar a valência permitia
não apenas classificar os elementos
em termos de suas potencialidades
de combinação, mas também distin-
guir características dos componentes
do corpo químico. A unidade de va-
lência não pode ser medida de forma
Figura 13: Equação da reação de adição 1,4 do bromo ao butadieno, indicando a independente, mas somente em
transposição da dupla ligação para a posição 2,3. relação a uma outra unidade, pois ela

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é uma grandeza relacional. A expec- até os dias de hoje. como, por exemplo, nos assinala
tativa inicial era a de que a valência A instabilidade da idéia de valência Rocke (2003), a distinção entre
fosse uma propriedade invariante e fixa e a sua disputa com a valência arranjos químicos e físicos parece
regular como cada tipo, a fim de se variável proporcionou a criação de remeter a uma espécie de totemis-
tornar mais uma marca especial e ligação química, propriedade versátil, mo14 em relação à Física. Nessa dis-
única de cada constituinte da nature- variável, conseqüên- tinção, os praticantes
za, mas não foi bem assim, pois um cia da ação química A noção de valência da Química parecem
mesmo elemento apresentava dife- e entendida como emergiu como uma idéia ter a necessidade de
rentes graus de valência. uma causa da valên- controversa e disputada, entregar à Física a
Verifica-se com essa história para cia. A ligação quí- responsável pela possibilidade de re-
a noção de valência que novas teorias mica podia ser organização de conceitos velar a ordem das
podem surgir no interior de situações formada durante a fundamentais a partir do coisas no mundo in-
de trabalho empírico e de disputas combinação, pois século XIX terior da matéria.
conceituais não muito claras para ela pertencia ao cor- Com a opção por ca-
aqueles que estão jogando na cidade po químico, mas era externa ao ele- racterizar as fórmulas racionais como
científica. As controvérsias advindas mento que participava dele. A par- arranjos físicos, os químicos fogem
da representação estrutural demons- ceria entre ligação química e valência do compromisso com a realidade
tram como proposições ad hoc são foi irreversível, marca do final do sé- daquele objeto ou mesmo de algo
usadas para tentar salvar modelos culo XIX e da criação da teoria estru- que ele possa representar. Podemos
explicativos que são contrariados por tural. Passa-se a ter possibilidade de inferir que há, pelo menos, uma pos-
novas evidências empíricas, e de representar, simbolizar a valência, no tura instrumentalista na forma de pra-
como esse tipo de entanto, isso tudo só ticar esse conhecimento que está
disputa, ou até a per- Em um mundo ainda sem é conseguido por sendo criado. Ou seja, fórmulas racio-
sistência em propo- elétrons, a noção de meio do uso de fór- nais de matriz atomista servem como
sições não contem- valência reforçou a busca mulas empíricas cor- dispositivos para resumir, sistematizar
pladas empirica- por fórmulas empíricas retas, isto é, preci- e até prever fatos e dados empíricos.
22 corretas e, quando estas
mente, podem ser samos saber quan- É bem verdade que os físicos
particularmente fe- ficaram prontas, permitiu o tas e quais são as conduzirão a nova ordem do conhe-
cundas para o pro- salto para um olhar no espécies que parti- cimento sobre a matéria no início do
gresso de um interior do que elas cipam dessa repre- século XX. Também é verdade que as
determinado domí- representavam sentação. fórmulas racionais não são fotos des-
nio do conhecimen- Na conclusão ses objetos desejados pelos quími-
to. Podemos citar, por exemplo, a res- desse discurso histórico, a noção de cos do século XIX nem são uma pintu-
posta de Kekulé ao problema da valência emerge como uma idéia ra de como “eles são”. Então, se tam-
insaturação. Mesmo que este tenha controversa e disputada, responsável bém é verdade que a foto do cachorro
flutuado entre admitir valências fixas pela organização de conceitos funda- não late, podemos concordar com as
e ter de aceitar valências variáveis, ao mentais a partir do século XIX. Num provocações de J. Schummer (1998)
estar completamente convencido e mundo ainda sem elétrons, ela refor- quanto a estarmos vivendo um pro-
interessado na defesa de um átomo çou a busca por fórmulas empíricas cesso especial de esquizofrenia, mar-
tetravalente, sua assunção de que corretas e, quando estas ficaram cado pela certeza de que o desenho
esse mesmo carbono pode conter prontas, permitiu o salto para um que colocamos no papel não é um
afinidades não satisfeitas se transfor- olhar no interior do que elas represen- retrato da coisa como ela é, mas nos
ma em uma proposição ad hoc. A tavam. O horizonte de pesquisa da- ajuda a sermos estranhamente pre-
idéia de afinidades não satisfeitas queles que fizeram uso dela foi cisos ao prever como essa coisa vai
viola o sistema de te- ampliado, não por- agir se a colocarmos em determina-
travalência do carbo- Novas teorias podem surgir que a valência tives- das situações. Quero somente realçar
no em termos de sua no interior de situações de se trazido uma res- a importância de reconhecer que es-
coerência interna. trabalho empírico e de posta direta para sa forma de representar deve conter
Todavia, o mecanis- disputas conceituais não suas perguntas, mas algo de particular, algo merecedor de
mo oscilatório das muito claras para aqueles porque havia criado destaque.
duplas propostas que estão jogando na dúvidas necessárias. As formas de representação e de
por Kekulé no texto cidade científica A tensão entre ar- classificação que foram herdadas da
de 1872, mesmo po- ranjos químicos e fí- utilização da noção clássica de
dendo ser considerado como uma sicos nos remete ao tabu a que me valência permanecem vivas na ativi-
espécie de paradigma para os casos referi no começo deste trabalho. Mais dade do químico e no Ensino de Quí-
de proposições ad hoc, é exatamente do que uma tentativa de encerrar uma mica. Quando o mundo dos elétrons
o que se vê escrito nos livros de divul- epistemologia particular para o co- cobriu o corpo químico com equa-
gação desse corpo de conhecimento nhecimento criado pelos químicos ções e indeterminações, a valência

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quase ficou reduzida ao lugar onde zelius apresentou (em 1841) para re- feita pelo autor.
esses elétrons, os novos protagonis- sistir à teoria dos tipos e à noção de A palavra Darstellung é utilizada
tas da ação química, realizam as mo- substituição como proposta mecanís- prioritariamente no sentido de descri-
dificações da matéria. Mesmo assim, tica para reações orgânicas, e defen- ção quando Kekulé deseja narrar um
a valente valência não perde a pose, der sua noção de dualismo e dos procedimento de síntese. Nesse
seja na Teoria Eletrônica da Valência, radicais para o corpo químico. Nela, mesmo livro, Kekulé mistura as repre-
na Teoria da Ligação de Valência, na por exemplo, Berzelius contorna a sentações “salsicha” e com linhas
eletrovalência ou na covalência. A possibilidade de átomos de cloro para muitos derivados do benzeno,
despeito de seu caráter controverso substituírem átomos e.g. bifenila e azo-
e profundamente atraente, ela perma- de hidrogênio (e.g. Qualquer arranjo estrutural benzol.
nece no âmago da Química. ácido tricloroacético) assinalado para átomos numa 9
Que fora aluno
ao sugerir que os fórmula era considerado uma de Kekulé em Ghent.
Notas radicais no compos- conveniência particular, não 10
Sabemos hoje
1
Para uma leitura acerca das ques- to substituído (ácido possuindo nenhum sentido que as duas repre-
tões históricas e epistemológicas da tricloro acético) dife- real sentações referem-
representação espacial em Química, rem em termos de se à mesma subs-
veja Ramberg (2003). Recomendo sua composição do composto origi- tância, contudo sem que se tenha
também Cooke (2004) para uma nal (ácido acético). Veja Ihde (1984). clareza sobre a equivalência dos seis
6
visão geral sobre formas de represen- Em 1865, August Wilhelm von átomos de carbono do benzeno,
tação na Química. Hoffman (1818-1892) sugere a intro- pode-se defender que tais represen-
2
Gostaria de chamar a atenção do dução do termo quantivalência para tações referem-se a duas unidades
meu leitor para certa tensão em boa descrever as possibilidades de moleculares distintas.
11
medida presente na discussão sobre combinação de um elemento (Russel, Primeira edição em alemão no
o tema e a proposta por autores que 1971). Sugere ainda que as “capaci- ano de 1864.
12
discutem a questão da primazia acer- dades de saturação” como queria Confira uma republicação do
ca da noção clássica de valência. Frankland sejam descritas por termos texto original de Claus (2004).
13
23
Recomendo aos interessados a lei- como monovalente, divalente e assim Para esse novo olhar sobre o
tura de Kuznetsov (1980) e de Russel por diante. objeto da Química, também contri-
7
(1971). A cadeia carbônica era descrita buíram os trabalhos de Vladimir
3
Para entender um pouco mais so- como coluna vertebral. Utilizo a pala- Vasilevich Markovnikov (1838-1904).
14
bre o papel crucial dessas teorias co- vra esqueleto em referência ao termo O totemismo pode ser definido
mo precursoras da usado por Kekulé em como uma identificação metafísica
noção de valência, a O totemismo pode ser 1858 (Nye, 1996). entre seres humanos e partes da
8
partir de diferentes definido como uma Percebe-se na lei- natureza. Típicos processos totêmi-
perspectivas histor- identificação metafísica tura do “Lehrbuch” cos são aqueles nos quais seres
iográficas, veja entre seres humanos e que Kekulé não rela- humanos se comparam ou se fun-
Kuznetsov (1980) e partes da natureza. ciona a palavra Vors- dem em personalidade com ani-
Russel (1971). Processos totêmicos são tellung com nenhuma mais: águia, corvo, urso etc. Ao
4
Em 1844, aqueles nos quais seres das representações assumir-se como parte da natureza,
Gerhardt se coloca humanos se comparam ou para o benzeno. Ele o indivíduo totemista crê que terá a
contra o estabeleci- se fundem em faz uso da expressão proteção e o abrigo da natureza (e
mento de desenhos personalidade com animais graphische Dars- de seu totem), pois é parte dela. Se
que remetam à or- tellung para indicar o indivíduo faz parte da natureza, a
ganização estrutural da matéria, de- algumas fórmulas tipo e outras são natureza não se voltará contra ele.
fendendo o uso exclusivo de fórmulas referidas diretamente como typischen Associado ao totem, existe nor-
empíricas. Qualquer arranjo estrutural Formeln, contudo estas estão vincula- malmente um tabu que significa não
assinalado para átomos numa fórmu- das à forma (bildung) e são úteis à agredir ou ingerir o todo ou partes
la era considerado uma conveniência Kekulé na apresentação de isômeros. do vegetal ou animal totemisado.
particular, não possuindo nenhum Esse procedimento garante que a
sentido real. Na teoria dos tipos, proteção será continuada e haverá
propõe-se que tanto o arranjo quanto sempre harmonia entre o totem e
o mecanismo de ação de diversas sua comunidade.
substâncias pode ser reduzido a
alguns padrões (ou tipos) já exis- Waldmir Nascimento de Araujo Neto, engenheiro
químico e licenciado em Química pela Universidade
tentes em outras substâncias (protó- do Estado do Rio de Janeiro, mestre em Educação
tipos). Veja Crosland (2004). pela Universidade Federal Fluminense e doutorando
5
A teoria da cópula foi uma das Fórmulas tipo para a dietil-oxima em Educação pela Universidade de São Paulo, é
últimas formulações ad hoc que Ber- (Kekulé, 1866, p. 51). Reprodução professor do CEFET-Química no Rio de Janeiro.

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Abstract: The Classic Notion of Valence and the Dawn of Structural Representation – The article presents some relative historical aspects from the initial period of development of the notion of
chemical valency, considered as the “Classic Notion of Valency.” The aspects of the research program of the organic chemistry are focused, initially located from the middle of the 19th century. The
influence of the notion of valency as a crucial idea for the development of a “Structural Theory” is informed as representation ways that will play the role of a heuristic tool better than a symbolic
function for a physical object. The historical value of the notion of valence can reveal in a proper way how this concept influenced the practice of the Chemists nowadays.
Keywords: valence, chemical structures, History of Chemistry, Philosophy of Chemistry
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Cadernos Temáticos de Química Nova na Escola A noção clássica de valência N° 7, DEZEMBRO 2007