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INTRODUÇÃO A TEORIA JUNGUIANA E FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS

Carl Gustav Jung nasceu em 26 de julho de 1875 na aldeia de Kesswill, às margens do


Lago Constança, região nordeste da Suíça e faleceu em 6 de junho de 1961 em Küsnacht –
Zurique. Era filho do pastor local, o reverendo Paul Achilles Jung, e de sua esposa Emilie
Preiswerk. A mãe de Jung era a filha mais nova de Samuel Preiswerk, um teólogo famoso e
espiritualista convicto, que devotou a vida ao estudo do hebraico na crença de que essa era a
língua falada no céu. A maioria dos homens da vasta família Preiswerk era composta de
sacerdotes, que compartilhavam da preocupação de Samuel com o oculto. Seu avô paterno
Carl Gustav Jung (de quem Jung herdou o nome) era um famoso professor de medicina, que
se tornou reitor da Universidade da Basileia, filho de um médico bem conhecido (embora
corressem rumores de que era filho ilegítimo de Goethe), exerceu a medicina até a morte, aos
setenta anos de idade. No fim da vida, Jung iria sustentar que os avós podem exercer uma
influência tão grande quanto os próprios pais sobre o destino de um indivíduo, e isso
provavelmente, foi o que aconteceu no seu próprio caso. A mistura Jung-Preiswerk entre
medicina, teologia e espiritualismo viria a influenciar o desenvolvimento intelectual de Jung.

Já na juventude, Jung sentia um anseio ilimitado de ler qualquer fragmento de


impressos que caía em suas mãos. A primeira biblioteca que Jung encontrou foi a de seu pai.
Embora “relativamente modesta”, ele a considerava “impressionante”, e recorria secretamente
a ela para satisfazer sua busca religiosa, sem sucesso. Enquanto ia para a escola, Jung
imaginava-se vivendo num castelo onde havia “uma biblioteca extraordinariamente atraente,
na qual se podia encontrar tudo o que valia a pena saber”. Em vez de farturas e riquezas, o que
o jovem estudante almejava era uma biblioteca bem-equipada. Nessa fase de sua vida, Jung
leu vorazmente drama, poesia e história; mais tarde, leu ciências naturais e clássicos da
literatura alemã que não faziam parte do currículo escolar, mas logo percebeu a limitação da
biblioteca de seu pai: “não havia filósofos [...] eles eram suspeitos porque pensavam”. Quando
tinha seus quinze ou dezesseis anos, sua mãe lhe disse: “um dia destes, você precisa ler o
Fausto de Goethe”, o que ele pontualmente fez. Pela primeira vez, Jung encontrou alguém que
levava o demônio a sério. O drama teve importância fundamental durante toda a sua vida.
Chegou a considerar Goethe um profeta por reconhecer o mal e seu misterioso papel em
libertar o homem do sofrimento.
Na adolescência, os crescentes interesses científicos de Jung levaram-no a estudar a
ciência na universidade. A escolha da medicina – que ele considerava uma disciplina
oficializada – era um compromisso para possibilitar um meio de vida. Enquanto prosseguia
seus estudos de medicina, continuou sua extensa leitura extracurricular, estudando Kant aos
domingos e participando ativamente de Zofíngia, uma associação de estudantes para debates.
Nas conferências proferidas na fraternidade Zofíngia, em 1896-1899, ele faz inúmeras
referências a Kant, Goethe, Schopenhauer, Von Hartmann, dentre outros, demonstrando que
seus conhecimentos sobre a filosofia alemã precedem sua formação médica. A tradição
romântica e kantiana foi decisiva em sua escolha pela psiquiatria como área de especialização.
De ambos, Jung recebeu grande influência em sua visão sobre a natureza humana e sua
relação com o mundo.

Ao lado de suas contínuas leituras de Kant e Schopenhauer, o conceito de


inconsciente, que se desenvolveu na filosofia alemã do século XIX através das obras de Carl
Gustav Carus e Eduard Von Hartman, tornou-se de fundamental interesse para Jung. Ao
discutir uma dissertação escrita por um estudante americano, Ira Progoff, Jung protestou
contra a comum interpretação errônea “freudocêntrica” de sua obra, afirmando que suas
próprias concepções eram “muito mais parecidas com Carus do que com Freud” e que Kant,
Schopenhauer, Carus e Von Hartmann lhe haviam fornecido os “instrumentos de
pensamento”, corrigindo a ideia errônea de que ele tinha derivado de Freud seu conceito do
inconsciente. A originalidade das concepções de Jung frente ao arcabouço teórico
estabelecido por Freud faz com que sejam mais do que uma simples derivação (ou
deturpação) deste, resgatando, afirmando e interpretando de outra forma dimensões da
experiência humana que são redutivamente tratadas na psicanálise, ou simplesmente
ignoradas.

Em 1987, Jung deparou com as obras de Nietzsche. Embora Nietzsche fosse muito
comentado, Jung havia protelado a sua leitura. A primeira obra de Nietzsche que Jung leu foi
Meditações inoportunas, à qual ele reagiu com entusiasmo. Isto o levou a ler Assim falava
Zaratrusta, que foi para ele uma experiência intensa, do mesmo nível que sua leitura do
Fausto. A leitura de Nietzsche realizada por Jung foi mediada pelo interesse pessoal em
compreender as forças primárias (instintos e arquétipos do inconsciente coletivo) que o
mesmo superou em seu confronto com o inconsciente e às quais Nietzsche teria sucumbido,
tornando-se insano. Mas, seja qual for o ponto de vista adotado, é certo que Nietzsche foi uma
das maiores influências filosóficas que o psicólogo suíço recebeu. Através de toda sua obra,
Jung fez numerosas referências a Nietzsche, vindo posteriormente dedicar uma série de
seminários à interpretação psicológica do Zaratrusta (1934-1939).

Segundo Bishop, o conceito junguiano de Self (Si-mesmo) se origina na filosofia de


Nietzsche. Jung afirma que o ser psíquico é de início, uma pluralidade, uma soma de aspectos
psicológicos dissociados. Esta desordem deve dar lugar a uma unidade/totalidade integrada
(Self), na qual consciência e inconsciente se complementam. Segundo Bishop, o processo de
individuação em Jung se relaciona com o “tornar-se o que se é” das reflexões de Nietzsche, ou
seja, que o homem deve se diferenciar da massa para elaborar/criar seu próprio Self tornando-
se aquilo que realmente é: um ser único, incomparável, que cria a si mesmo.

O MODELO PSICOLÓGICO PROPOSTO POR JUNG

Para além do plano da análise, Jung estende sua reflexão a uma gama variada de
temas, investindo em questões tipicamente humanas, ou seja, ele se preocupou em participar
da busca de soluções para as questões importantes do homem contemporâneo e não em criar
um sistema conceitual fechado, principalmente no que se refere à psique. Com isso, delineia
uma ciência psicológica que difere da ciência moderna – concebida como um conjunto de
ideias claras e distintas que dão conta do conhecimento do homem e da natureza por meio de
um molde racional – Jung dá ênfase à psicologia como única disciplina capaz de apreender o
fator subjetivo presente na base das outras ciências.

Num artigo de 1912, intitulado “Tentativa de apresentação da teoria psicanalítica”,


Jung começou a apresentar o seu método construtivo, voltado para os aspectos finalistas e
criativos da psique, opondo-o ao método “redutivo-causal” (como Jung o denominava) de
Freud. A fim de relativizar a teoria freudiana e defender sua própria concepção de
inconsciente, afirmou o caráter instrumental e provisório das teorias científicas, consideradas
como sugestões de como se poderiam considerar as coisas, e não como respostas definitivas,
na medida em que o inconsciente em si não poderia ser observado diretamente, mas apenas
indiretamente, por meio de sua relação com representações conscientes. A teoria, neste
contexto, não pode predeterminar e limitar a capacidade de apreensão do analista.
Em Eros na Passagem, Amnéris Maroni indica um paralelo entre a psicanálise de
Bion e a psicologia de Jung via modelos epistemológicos. Maroni sugere que Jung se valeria
concomitantemente de três modelos distintos para pensar a psique e a prática analítica: o
modelo científico, o modelo artístico e o modelo místico. O modelo científico predominaria
antes do rompimento com Freud, estando preocupado com os aspectos causais das doenças
mentais, e associado com os aspectos gerais e regulares dos fenômenos psíquicos; o modelo
artístico, desenvolvido ao longo das décadas de 10 e de 20, estaria preocupado com os
aspectos teleológicos, com o sentido e o significado dos fenômenos psíquicos, concentrando-
se na prática analítica e na singularidade das vivências pessoais (tanto de seus pacientes
quanto a sua própria), que não poderiam ser reduzidas a uma regra geral e niveladora, própria
do modelo científico; o modelo místico, desenvolvido a partir da década de 30, após o contato
de Jung com textos alquímicos, estaria preocupado com o aspecto iniciático do processo de
individuação, observando este a partir dos esquemas de “morte e renascimento”, assim como
a partir da concepção de coniunctio ou matrimônio místico. Para Maroni, o fundamental nesta
sucessão e coexistência de modelos diversos é o porquê de sua existência e necessidade.
Segundo a autora, a meta a ser perseguida (e nunca alcançada) na psicologia junguiana, por
meio do processo de individuação, seria a busca da totalidade psíquica, ou seja, a busca do
Self como ponto de equilíbrio entre o eu consciente e o inconsciente.

Esse relacionamento funcional entre os níveis inconsciente e consciente da existência


foi também concebido e descrito por Jung como o relacionamento entre o complexo
individual do eu e o arquétipo do Si-mesmo, um arquétipo de totalidade e inteireza,
representado por símbolos que Jung encontrava continuamente nos sonhos e fantasias dos
seus pacientes. Para Jolande Jacobi, “Alcança-se a inteireza da personalidade quando os
principais pares de contrários estão relativamente diferenciados, quando as duas partes do
todo da psique, consciência e inconsciente, estão numa relação mútua viva que é assegurada
pelo gradiente energético, uma vez que o inconsciente jamais poderá tornar-se totalmente
consciente, mantendo sempre a plenitude energética mais forte”. A inteireza, portanto,
permanece sempre relativa, e continuar a trabalhar na mesma continua sendo uma tarefa para
toda a vida. Nas palavras de Jung: “A personalidade, como uma realização plena da inteireza
de nosso ser é um ideal inalcançável. Mas o caráter inalcançável jamais representa uma razão
que se contraponha ao ideal; isso porque ideais nada mais são que indicadores de caminho e
jamais finalidades”. (OC 17, § 291).
BIBLIOGRAFIA

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__________________ Jung e a Construção da Psicologia Moderna: o sonho de uma


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