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FUNDAÇÃO EDUCACIONAL PRESIDENTE CASTELO BRANCO

FACULDADE CASTELO BRANCO

RESENHA DE PENAS PERDIDAS

1
AMÓS CARDOSO CALDEIRA
¹BEATRIZ COUTINHO GIURIZATTO
¹GUSTAVO KEFLER
¹JULIA KEFLER
¹NÚBIA NARA CARDOSO T. DOS SANTOS

RESENHA
“Um pensamento tão singular e tão radical não surge por acaso”. De fato, Jacqueline Bernat
de Celis estava certa. Louk Hulsman traz em “Penas Perdidas: O sistema penal em questão”
uma reflexão concisa e profunda (pode soar contra-intuitivo, mas com poucas palavras
Hulsman demonstra uma profundidade ímpar) sobre o abolicionismo penal.

O livro é dividido em duas partes, a primeira sendo a transcrição de duas conversas entre
Hulsman e Jacqueline, onde ela aprofunda-se e aprofunda-nos na vida e pensamento de Louk
Hulsman, buscando entender tanto sobre a idéia quanto sobre o homem. Já que a idéia vem do
homem, nada mais correto. A segunda parte trata-se da exposição da perspectiva abolicionista
dividida em duas indagações: “Qual abolição?” e “Qual liberdade?”. Nessa resenha
trataremos da primeira parte até o item 12 da primeira indagação da segunda parte.

A conversa inicia-se com Hulsman explicando um pouco sobre seu background e como
entrou em contato com a área criminal quando trabalhou no Ministério de Defesa da Holanda,
quando sua função era tratar de assuntos relativos ao Direito Penal Militar. Interessante é que,
mesmo de uma posição hierarquicamente baixa, Hulsman manejou, com muito esforço, “dar
uma inclinação mais liberal à política de livramentos condicionais.

Destaca-se também como Hulsman conseguiu libertar-se de um pensamento escolástico


fechado através do pensamento crítico e autônomo. Experiência que não se limitou à questão
religiosa, mas expandiu-se para um questionamento mais amplo das estruturas sociais. Algo
que influenciou sua futura carreira de professor, pois através do estudo da história do Direito

1 Graduando (a) em Direito – Faculdade Castelo Branco


Colatina
2017
Penal e pedagogia, Hulsman não limitou seu pensamento crítico a si mesmo, mas buscou
levá-lo aos seus alunos. Talvez seja essa a missão mais importante, assim como no
cristianismo existe o sacerdócio universal (autoridades que todos possuem para pregar a
palavra de Deus), nós temos, como membros da sociedade, um sacerdócio social para mostrar
aos nossos “irmãos”, não uma verdade absoluta, mas que todas as verdades podem e devem
ser contestadas.

Em um processo que foi ocorrendo naturalmente através de muito estudo e pesquisa, o


pensamento abolicionista foi tomando forma na mente de Louk Hulsman. As conversas entre
Hulsman e Jacqueline nos trazem um panorama geral não só de como foi construído o
pensamento abolicionista em Hulsman, mas como construir esse pensamento dentro de nós
mesmos. Destacamos aqui os três pontos expostos pelo autor que ajudaram-no a viver com
profundidade: 1) Estar aberto (Não se isolar, buscar viver em comunidade). 2) Viver
solidariamente (Buscar o melhor para essa comunidade). 3) Estar apto a uma permanente
conversão (Estar disposto a mudar de idéia).

Trataremos agora da primeira indagação da segunda parte: “Qual abolição?”.

Hulsman começa tratando da opinião pública. Ele rebate o tratamento que o “discurso
político, a mídia e alguns estudiosos” dão ao seu público, como se dirigissem à um “homem
comum”, que seria covarde, vingativo e cego. Esse homem comum é uma simples abstração
para dar legitimidade ao sistema punitivo. Esse fenômeno é bem observável no atual
momento político-social do Brasil. As notícias são filtradas para despertar na opinião pública
justamente as características desse “homem comum”, deixando de fora as consequências
terríveis do poder punitivo.

É atacada também a visão simplista de bons e maus, o “velho” maniqueísmo. Fica óbvio o
erro em usar esse discurso, já que traça uma simples linha (a divisão entre os bons e maus
dentro da própria lógica maniqueísta não possui alguma coerência) para separar o bem do mal
em uma sociedade de relações complexas. Seria como usar uma calculadora convencional
para realizar uma equação de física quântica. A distância entre o discurso penal em relação ao
funcionamento de suas estruturas e como essas estruturas operam na realidade é uma crítica
essencial, já que, em nossa visão, é a crítica mais pertinente aos que estão nas faculdades e
serão futuros operadores do Direito. Complementa-se, então, com a crítica de como essas
estruturas (polícia, Ministério Público, juízes, legislativo, etc.) relacionam entre si, com total
falta de unidade e racionalidade.
A passagem de um indivíduo por esse processo penal promove uma coisificação do mesmo.
Ele é tratado como um objeto não só pelo próprio sistema, mas como pelos seus operadores
que, devido à compartimentalização das suas funções, não conseguem enxergar no acusado
um ser humano, mas sim um trabalho a ser feito. Essa coisificação afeta principalmente o
encarcerado, que não somente perde sua liberdade, mas também sua condição de ser humano
perante a sociedade. Sendo ele não mais um ser humano, seu corpo pode ser violado pelo
sistema, e as consequências dessa violação não afetam (psico e fisicamente) somente a pessoa
do encarcerado, mas também sua família e amigos. Tudo isso em prol de conceitos abstratos
como “ordem”, “interesse geral”, “segurança pública”, etc. Uma ilusão que provoca um
sofrimento nonsense.