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Apresentação

“[...] isso mostra que há 364 dias em que você poderia ganhar presentes de desaniversário...”
“Sem dúvida”, disse Alice.
“E só um para ganhar presente de aniversário, vê? É a glória para você!”
“Não sei o que quer dizer com glória”, disse Alice.
Humpty Dumpty sorriu, desdenhoso. “Claro que não sabe... até que eu lhe diga. Quero dizer
é um belo e demolidor argumento para você!”
“Mas glória não significa um belo e demolidor argumento”, Alice objetou.
“Quando eu uso uma palavra”, disse Humpty Dumpty num tom bastante desdenhoso, “ela
significa exatamente o que quero que signifique: nem mais nem menos”.
“A questão é”, disse Alice, “se pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes”.
“A questão”, disse Humpty Dumpty, “é saber quem vai mandar – só isto”.
Lewis Carroll. Através do espelho.

É verdade, “toda palavra quer dizer o que eu quero que signifique”, mas ao mesmo tempo
“toda palavra quer dizer o que quer dizer” (há um sentido na língua). Falar é precisamente
procurar que coincidam essas duas intenções significantes, esses dois “quer dizer”.
Catherine Kebrat-Orecchioni. A enunciação.

Quando alguém toma a palavra, seja falando, seja escrevendo, e diz algo a outra pes-
soa, num dado momento, numa certa situação, com determinada intenção, torna-se “dono”
da língua, atribui sentidos às palavras, as frases deixam de ser simples estruturas grama-
ticais e passam a ter um significado particular.
Mas o reinado sobre a língua não é tão absoluto quanto possa parecer. Afinal, a língua
não pertence a um indivíduo; é, ao contrário, propriedade coletiva e, por isso mesmo, impõe
limites. E ainda bem que é assim, senão não haveria conversa, troca: todos falariam e nin-
guém se entenderia.
O segredo, como nos ensina Orecchioni, está em ser “dono” da língua, sem se esquecer
de que ela pertence a todos. Tomar a palavra, produzir sentidos, mas lembrando que as
palavras têm um sentido na língua. Construir enunciados significativos, mas tendo cons-
ciência de que a língua tem suas regras de combinação (que não foram criadas por este ou
aquele, mas são da própria natureza da língua).
Em sua vida cotidiana, você ocupa, o tempo todo, dois papéis distintos (e complemen-
tares): ora você toma a palavra e é o “dono” da língua, produz significado, ora o outro toma
a palavra e você tem de buscar o significado que ele produziu. Ora produtor de texto, ora
leitor/ouvinte.
Este livro pretende discutir essas questões e se tornar uma ferramenta útil para seu
professor e para você, que vive em sociedade, lendo e produzindo textos o tempo todo.

Um abraço do autor
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Sumário

PARTE 1
A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

Capítulo 1 Capítulo 2 A gramática do texto ................................. 47

Conectivos: conjunção Regência ............................................. 27 • A classificação das orações coordenadas


assindéticas contextualizadas ................ 47
e preposição ..................................... 10 • Sintagma preposicionado: múltiplas
• A conjunção unindo períodos ................. 48
A gramática da palavra ............................. 11 funções ................................................... 28
Polissíndeto e assíndeto ........................... 48
• Conjunção .............................................. 11 • Regência ................................................. 28
Atividades ....................................................... 50
• Preposição .............................................. 11 • Regência nominal ................................... 30
Questões de exames ................................... 53
Atividades .................................................. ..12 • A construção das relações ...................... 30
Atividades .................................................... 31
A gramática da frase ................................. 16
A gramática do texto ................................. 34 Capítulo 4
• A conjunção na frase.............................. 16
• Os efeitos do deslocamento na A subordinação.............................. 54
Classificação − em foco: o tipo de relação
construção do texto................................ 34 A gramática da frase ................................. 55
sintática .................................................. 16
• Sintagmas, posições e funções ............... 36 • Período composto por subordinação ...... 55
• A preposição na frase............................. 17
• Falsas equivalências ............................... 37 Orações subordinadas substantivas .......... 56
• Um caso à parte: a crase ........................ 17
• As alterações de regência cristalizadas na Orações subordinadas adjetivas ............... 58
Atividades .................................................. ..18 fala ............................................................ 37
Atividades .................................................... 59
A gramática do texto ................................. 20 Atividades .................................................... 38
Orações subordinadas adverbiais ............. 61
• A conjunção alternativa e o peso das Questões de exames ................................... 40
Orações subordinadas desenvolvidas e
palavras .................................................. 20
reduzidas................................................. 62
• A conjunção adversativa e o peso das
Atividades .................................................... 63
palavras .................................................. 20 Capítulo 3
A gramática do texto ................................. 66
• A complexidade das noções semânticas A coordenação ................................ 41
• A subordinação além do período ........... 66
das conjunções ....................................... 21
A gramática da frase ................................. 42 • As orações adjetivas e a
• A conjunção sem junção aparente ......... 21 • Período simples e período composto ...... 42 semântica - I........................................... 68
• A relevância da preposição na construção • Período composto por coordenação ....... 43 • As orações adjetivas e a
do sentido .............................................. 22 semântica - II.......................................... 69
Orações coordenadas sindéticas e
• Os conectivos como alavancas na assindéticas ............................................. 43 • As orações condicionais e a
argumentação ........................................ 22 Classificação das orações coordenadas semântica ............................................... 70
Atividades .................................................. ..23 sindéticas.............................................. 43 Atividades .................................................... 71
Questões de exames ................................. ..26 Atividades ....................................................... 45 Questões de exames ................................... 73

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PARTE 2
A CONSTRUÇÃO DOS TEXTOS

Capítulo 1 Os modelos e arranjos linguísticos e a Mãos à obra! ............................................. 118


adequação .............................................. 95 Questões de exames ................................... 119
Por que escrever?
Como escrever? .............................. 76 E a gramática? ........................................ 95

• Escrever... por quê? ................................ 77


Articulação............................................ 96 Capítulo 4
• As pequenas redações nos exames ........ 96 A argumentação ......................... 120
O objetivo primeiro da modalidade escrita:
a interação .............................................. 77 Alguns exemplos interessantes ................ 97
• A argumentação ................................... 121
O que escrever? Como escrever? ............. 77 Exemplo 1............................................. 97 A argumentação: um arranjo
Atividades .................................................... 78 Atividade ..................................................... 98 linguístico característico ......................... 121
A produção de textos e a gramática......... 80 Exemplo 2............................................. 98 Operadores argumentativos ................... 122
Trocando ideias ............................................ 81 Exemplo 3............................................. 99 A organização interna do texto
Texto escrito é sinônimo de texto argumentativo ....................................... 124
Trocando ideias .......................................... 103
“certinho”? ............................................. 82 Atividades .................................................. 125
Exemplo 4........................................... 103
Atividades .................................................... 82 • Os textos argumentativos .................... 125
Atividades .................................................. 106
Mãos à obra! ............................................... 84 Trocando ideias .......................................... 126
Exemplo 5........................................... 106
Questões de exames ..................................... 86 Dissertação ou argumentação? ...................126
Atividades .................................................. 108 Mãos à obra! ............................................. 128
Exemplo 6........................................... 108 Questões de exames ................................... 134
Capítulo 2 Mãos à obra! ............................................. 109
Produção de textos:
da escola para a vida ................. 87
Questões de exames ................................... 110 Capítulo 5
A construção do texto
• Do currículo para o dia a dia .................. 89
Capítulo 3 persuasivo ....................................... 135
Atividades .................................................... 90
Os textos injuntivos- • A persuasão.......................................... 136
• A redação nos exames ........................... 92 -instrucionais ............................... 111 Trocando ideias .......................................... 136
• O papel da leitura .................................. 93
• Ordens, regras, instruções, propagandas...112 Argumentação e persuasão.................... 137
A coletânea ou painel de leitura .............. 93 Recursos argumentativos ...................... 138
• Os textos injuntivos-instrucionais e os
A diversidade de textos e linguagens ....... 94 gêneros textuais... ................................ 112 Atividades .................................................. 138
Textos, tema e recorte temático ............... 94 Trocando ideias .......................................... 115 Mãos à obra! ............................................. 139
Em foco: a situação e a função ................ 94 Atividades .................................................. 116 Questões de exames ................................... 142

PARTE 3
TEXTOS, ARTE E CULTURA

Capítulo 1 Lendo a pintura .......................................... 148 • O futurismo .......................................... 152

As vanguardas: a Trocando ideias .......................................... 149 Lendo os textos .......................................... 154


revolução artística do • O cubismo ............................................ 149 • O expressionismo ................................. 155
início do século XX ................... 146 Lendo as pinturas ....................................... 150 O expressionismo no Brasil .................... 157
• Às portas da guerra .............................. 147 O cubismo na literatura ......................... 150 • O dadaísmo .......................................... 157

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• O surrealismo ....................................... 160 Texto e intertexto........................................ 197 Alcântara Machado: retratos da São Paulo
Texto e intertexto........................................ 162 Lima Barreto, uma crítica ao nacionalismo macarrônica................................................ 236

Velhos temas, novas leituras ........................ 163 exagerado e aos preconceitos .................. 199 Lendo os textos .......................................... 236

Questões de exames ................................... 166 Lendo os textos .......................................... 200 Velhos temas, novas leituras ........................ 238
Trocando ideias .......................................... 203 Questões de exames ................................... 243
Monteiro Lobato e suas metáforas do
Capítulo 2 Brasil ..................................................... 204
O Modernismo em Portugal: Capítulo 5
Lendo os textos .......................................... 205
Fernando Pessoa e seus O Brasil de 1930 a 1945 −
Augusto dos Anjos: um singular poeta ... 207 a lírica ................................................ 244
heterônimos .................................. 167
Lendo os textos .......................................... 207
• Os movimentos de vanguarda • As artes brasileiras nas décadas
Velhos temas, novas leituras ........................ 209 de 1930/1940 ....................................... 245
em Portugal .......................................... 168
Questões de exames ......................................211 A pintura .......................................................245
• O modernismo português ..................... 168
Fernando Pessoa, criador de poetas ....... 169 A arquitetura .................................................246

Lendo os textos..............................................170 Capítulo 4 • Os anos 1930 ....................................... 246

Trocando ideias ..............................................174 O Brasil de 1922 a 1930: Características da lírica da década de 1930..248

Alberto Caeiro, o conceito direto das coisas ..174 tupi or not tupi............................. 212 Texto e intertexto........................................ 249

Lendo os textos..............................................175 • A lírica dos anos 1930 .......................... 251


• Os artistas plásticos da semana de 22..... 213
Álvaro de Campos, um futurista Carlos Drummond de Andrade:
A pintura .................................................. 214
inadaptado ............................................ 176 “E agora, José?” ................................... 251
A escultura.....................................................214
O poeta e suas várias faces .................. 251
Lendo o texto.................................................176 A arquitetura .................................................215
Lendo os textos .......................................... 253
Ricardo Reis, a cultura clássica A música ..........................................................215
revisitada............................................... 178 Murilo Mendes: “Sou a luta entre o
• A Semana de Arte Moderna ................. 216 homem acabado / e o outro que está
Lendo os textos..............................................178
São Paulo, Teatro Municipal, 1922 ......... 216 andando no ar”..................................... 255
Fernando Pessoa, ele-mesmo, e a tradição
Aristocratas, burgueses, trabalhadores O mundo (e a poesia) em pânico........... 255
da poesia lírica ......................................... 180
rurais, operários urbanos........................ 217 Lendo os textos .......................................... 257
Lendo o texto.................................................180
Os antecedentes da Semana .................. 218 Jorge de Lima: “Só tenho poesia para vos
Fernando Pessoa, ele-mesmo, revisitando
Os três espetáculos da Semana .............. 219 dar, / Abancai-vos meus irmãos” ............ 257
Camões ................................................. 182
Texto e intertexto........................................ 220 Denúncia das desigualdades sociais....... 258
Texto e intertexto........................................ 182
As revistas e os manifestos .................... 223 Lendo o texto ............................................. 258
Velhos temas, novas leituras ........................ 184
Klaxon ................................................ 223 Cecília Meireles: “A vida só é possível
Questões de exames ................................... 188
reinventada” ......................................... 259
Manifesto da Poesia Pau-Brasil.............. 223
Uma permanente viagem ao mundo interior ..259
Verde-amarelismo ................................ 224
Capítulo 3 Lendo os textos .......................................... 260
Revista de Antropofagia ....................... 224
O Brasil antes da Semana Vinícius de Morais: “A vida é a arte do
• Características gerais do primeiro
de Arte Moderna: a encontro, embora haja tanto desencontro
momento modernista ........................... 226 pela vida” ............................................. 261
transição entre o passado
e o moderno .................................. 189 Trocando ideias .......................................... 226 Lendo o texto ............................................. 261
• A produção da geração dos anos 1920 .....227 Trocando ideias .......................................... 263
• Retratos do Brasil: revistas e caricaturas
no início do século .................................. 190 Mário de Andrade: “Minha obra badala Velhos temas, novas leituras ........................ 264
assim: Brasileiros, chegou a hora de
• Que país é esse? .................................. 191 Questões de exames ................................... 268
realizar o Brasil” .................................... 227
• A jovem República e seus conflitos ...... 192
Lendo os textos .......................................... 228
A revolta da armada .............................. 192
Oswald de Andrade: “Como poucos, eu amei
Capítulo 6
A Guerra de Canudos ............................ 193 a palavra liberdade e por ela briguei”...........229 O Brasil de 1930 a 1945 −
A revolta da vacina ................................ 194 Análise crítica da sociedade burguesa
o romance........................................ 269
A revolta da chibata .............................. 194 capitalista ........................................... 229 • Romance dos anos 1930 e 1940 .......... 270
As greves proletárias urbanas ................ 195 Lendo os textos .......................................... 230 Manifesto Regionalista de 1926............. 270
• A produção literária ............................. 195 Trocando ideias .......................................... 231 Texto e intertexto........................................ 270
Euclides da Cunha, a denúncia de um Manuel Bandeira: “Não quero mais saber Rachel de Queiroz: o sertão do Ceará nas
crime ..................................................... 195 do lirismo que não é libertação” ............ 232 páginas dos livros .................................. 272
Lendo o texto ............................................. 196 Lendo os textos .......................................... 232 Análise social e psicológica ................... 272

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Lendo os textos .......................................... 272 Trocando ideias .......................................... 312 Texto e intertexto........................................ 357
Jorge Amado: as histórias do cacau e do Concretismo: poesia e espaços............... 312 Trocando ideias .......................................... 360
cais da Bahia ......................................... 276 Propostas da poesia concreta ................ 313 Lobo Antunes, a ditadura desmascarada .. 360
A vez e a voz dos marginalizados .......... 276 Lendo os textos .......................................... 314 Lendo o texto ............................................. 361
Lendo os textos .......................................... 277 Texto e intertexto........................................ 315 Eugénio de Andrade, o sal da língua ...... 364
José Lins do Rego: a decadência dos Manoel de Barros: quando o nada é tudo ....316 Lendo os textos .......................................... 364
engenhos destruídos pelas usinas .......... 281
Guimarães Rosa: alquimista de palavras .. 317 Trocando ideias .......................................... 365
Fazendeiros, trabalhadores, cangaceiros,
O sertão, por João Guimarães Rosa ....... 318 Velhos temas, novas leituras ........................ 365
figuras quixotescas perambulam pelos
engenhos do Nordeste ......................... 281 Lendo os textos .......................................... 319 Questões de exames ................................... 370

Lendo os textos .......................................... 282 Trocando ideias .......................................... 321


Graciliano Ramos: a ficção atinge o grau Clarice Lispector: o mundo interior e o Capítulo 10
máximo de tensão ................................. 285 universo da linguagem........................... 322
Literatura africana de
Tensão e concisão ................................ 285 Lendo os textos .......................................... 323 língua portuguesa..................... 371
Lendo os textos .......................................... 285 Velhos temas, novas leituras ........................ 327
• Um novo olhar sobre o continente
Trocando ideias .......................................... 288 Questões de exames ................................... 331 africano ................................................ 372
Érico Veríssimo: criador de heroicos • Portugal e a conquista da África .......... 372
personagens gaúchos ............................ 289
Capítulo 8 • De colônias a países independentes..... 373
A história e as tradições gauchescas ...... 289
O teatro brasileiro no • O papel da língua portuguesa .............. 374
Lendo os textos .......................................... 290
século XX ......................................... 332 • A poesia africana de língua portuguesa:
Velhos temas, novas leituras ........................ 293 os temas recorrentes ............................ 375
• O teatro brasileiro no século XX........... 333
Questões de exames ................................... 297 A luta contra o Império .......................... 375
• Três textos fundamentais ..................... 334
A reconstrução ...................................... 377
O rei da vela − o primeiro texto
Capítulo 7 revolucionário ........................................ 334 A africanidade ....................................... 379
O Brasil depois de 1945 ........... 299 Lendo o texto ............................................. 335 Trocando ideias .......................................... 380

Vestido de noiva − texto e encenação Amor ..................................................... 383


• A valorização dos espaços: ângulos,
retas e curvas ....................................... 300 revolucionários ...................................... 337 A poesia contemplada ........................... 385
A arte concreta ...................................... 300 Lendo o texto ............................................. 338 Lendo o texto ............................................. 386

As Bienais ............................................. 300 Auto da Compadecida − o teatro popular Trocando ideias .......................................... 387
revigorado ............................................. 343 • A prosa africana de língua portuguesa .. 387
Uma nova concepção de
cidade: Brasília ...................................... 301 Lendo o texto ............................................. 343 Angola .................................................. 387
As bandeirinhas de Alfredo Volpi: Velhos temas, novas leituras ........................ 348 Moçambique ......................................... 390
geometria e abstração ........................... 301 Questões de exames ................................... 351 Velhos temas, novas leituras ........................ 392
• 1945: uma nova ordem - no mundo, no Questões de exames ................................... 396
Brasil .................................................... 302
• Os rumos da poesia e da prosa ............ 302
Capítulo 9 ■ Bibliografia ......................................... 397
• Autores representativos ....................... 303 Portugal contemporâneo: ■ Siglas das instituições promotoras
três autores exemplares ........ 353 dos exames......................................... 400
João Cabral de Melo Neto: a engenharia
da palavra ............................................. 303 • A pintura portuguesa contemporânea.. 354
Objetos educacionais
Lendo os textos .......................................... 305 • A ditadura salazarista .......................... 354
digitais
Trocando ideias .......................................... 310 Texto e intertexto........................................ 356
Ferreira Gullar: lirismo e poesia social .... 311 • Três autores contemporâneos............... 357 Ícone de atividade
Lendo o texto ............................................. 312 José Saramago, a história reinventada.... 357 interdisciplinar

Código de cores utilizado nesta coleção para identificar as classes gramaticais

● verbo ● artigo ● advérbio ● numeral ● conjunção

● substantivo ● adjetivo ● pronome ● preposição ● interjeição

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PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

Capítulo 1
Conectivos: conjunção e preposição

Capítulo 2
Regência

Capítulo 3
A coordenação

Capítulo 4
A subordinação

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CONECTIVOS: CONJUNÇÃO E PREPOSIÇÃO CAPÍTULO 1

Parte
A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

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1
PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

CAPÍTULO 1

Conectivos: conjunção
e preposição

© Luis Fernando Verissimo/Acervo do cartunista


■ VERISSIMO, Luis Fernando. As cobras. Porto Alegre: L&PM, 1997.

Fez alguma diferença a troca da preposição por do


primeiro quadrinho pela preposição para no terceiro,
feita pelo personagem Queromeu, o corrupião
corrupto? É claro que fez; aí reside o humor da
tirinha. Essas preposições cumprem dois papéis
nos enunciados: um funcional, ligando elementos
linguísticos (pense como os enunciados ficariam
sem sentido ou com outro sentido sem elas: “o
empresário honesto paga o corrupto”; “tem que
pagar o corrupto”); outro semântico, explicitando
um tipo de relação entre os elementos que estão
sendo relacionados: no primeiro caso, por = no lugar
de (o empresário honesto paga no lugar do
empresário corrupto, que não paga); no segundo,
para = destinação (o destino do pagamento do
empresário tem de ser o corrupto).

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CONECTIVOS: CONJUNÇÃO E PREPOSIÇÃO CAPÍTULO 1

A GRAMÁTICA
DA PALAVRA
Neste capítulo, estudaremos duas categorias de palavras que têm como função básica estabelecer cone-
xão, isto é, ligar elementos linguísticos: a conjunção e a preposição. Os conectivos, isolados, praticamente não
produzem sentido; quando unem elementos, podem ou não vir carregados de significado.
Observe:
O empresário honesto não deveria pagar pelo corrupto, mas pagar para o corrupto.

por e para (preposições) e mas (conjunção), além de estabelecerem ligação entre elementos linguísticos,
são responsáveis por noções semânticas importantes para a compreensão do enunciado
Em:

© Luis Fernando Verissimo/


Acervo do cartunista
Queromeu quer que lhe paguem.

a conjunção integrante que é vazia de significado, apenas estabelece


ligação entre elementos linguísticos (introduz uma oração subordinada)

CONJUNÇÃO

////////////////////////////////////

Conjunção é a palavra invariável usada para ligar elementos linguísticos: palavras, grupo de palavras, ora-
ções, frases. Pode ser constituída por mais de um elemento, formando uma locução conjuntiva.
Na maioria dos casos, a conjunção transmite noções semânticas à relação que estabelece:
O corrupião Queromeu quer dinheiro e poder.

aditiva

O corrupião Queromeu pensa como corrupto porque ele é um corrupto.

comparativa causal

Queromeu afirma que somos todos corruptos.

junção apenas sintática

Queromeu não quer que o empresário honesto tenha ônus, salvo se for em benefício do corrupto.

condicional

PREPOSIÇÃO
PREPOSIÇ
/////////////////////////////////////

Preposição é a palavra invariável que une elementos linguísticos de uma frase, estabelecendo entre eles
variadas relações. Pode ser constituída por mais de um elemento, formando uma locução prepositiva.
A palavra preposição tem origem no latim praepositione e significa o “ato de prepor”. Como o próprio nome
indica, a preposição vem antes, ocupa uma posição anterior. Na verdade, ela estabelece uma relação entre dois
elementos, subordinando o segundo ao primeiro. O primeiro termo rege a preposição. Daí falar-se em regência
(ou regime) de verbos, substantivos, adjetivos e advérbios.
Nas relações estabelecidas pelas preposições, observam-se dois tipos de elemento: o antecedente ou
regente (o primeiro termo) e o consequente ou regido (o segundo termo).
termo regente termo regido

[A casa era] distante de tudo.


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PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

A preposição de, por exemplo, pode estabelecer inúmeras relações:


ideia de posse

Esposa de José.

Ulhôa Cintra/Arquivo da editora


ideia de assunto, conteúdo

Livro de arte.
ideia de causa

Geme de dor.
ideia de finalidade

Casa de repouso.
ideia de matéria

Pingente de ouro.
ideia de idade, de tempo

Aniversário de cinquenta anos.

O emprego de uma ou de outra preposição modifica toda a relação entre os dois termos, subordinando o
segundo, como vimos na história em quadrinhos, com as preposições por e para. Observe outras noções:
ideia de afastamento

Venho de Salvador.
ideia de aproximação

Vou a Salvador.
ideia de origem

Sou de Salvador.
ideia de união, companhia

Estou com Minas.


ideia de finalidade, propósito

Luto por Minas.

Atividades
Texto para as questões de 1 a 10.
No Portal do Consumidor do Governo Federal, podemos ter acesso a algumas entrevistas
esclarecedoras, relacionadas com o cidadão na sua condição de consumidor. A partir da leitura da
ficha que antecipa a entrevista, faça as atividades.

Direito do Consumidor
Entrevistado: Drª Vera Araújo
Especialidade: Coordenadora do Procon do estado do Rio de Janeiro
Data da entrevista: 15/3/2011
Descrição da entrevista
Dia Mundial do Consumidor – A coordenadora nos concedeu uma entrevista, que é um breve retrato
do perfil do consumidor que procura o órgão para atuar na sua proteção.

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CONECTIVOS: CONJUNÇÃO E PREPOSIÇÃO CAPÍTULO 1

1. Lendo os dados da ficha, podemos afirmar que a entrevista aborda um tema universal a partir de um caso
particularizado. Por quê?

2. Observe o emprego da contração da preposição de e do artigo definido o em: “Direito do Consumidor” e


“Dia Mundial do Consumidor”. Mesmo com a presença do artigo definido, nesses casos, o sentido é genérico,
equivalente a dizer “de todos os consumidores”.
a) Qual é o sentido do emprego do artigo definido a em “Descrição da entrevista”? É equivalente ao de
“Direito do Consumidor” e “Dia Mundial do Consumidor”?
b) E em “breve retrato do perfil do consumidor que procura o órgão para atuar na sua proteção”? Trata-se
de qualquer consumidor? Por quê?

3. Omitiu-se uma preposição na ficha. Localize o trecho e transcreva-o, incluindo a preposição já contraída
com o artigo.

4. Considerando a pessoa entrevistada, que alteração você faria nas entradas da ficha?
5. Que ideia a preposição para introduz em “... que procura o órgão para atuar na sua proteção”? Como você
reformularia o final do enunciado sem alterar essa ideia?

Agora, leia a entrevista e confirme ou não as hipóteses levantadas na atividade 1. Relembre algumas carac-
terísticas do gênero.

GÊNERO TEXTUAL
Entrevista
Originalmente um evento comunicativo no qual há interação entre um entrevistador e um entrevistado,
o resultado dessa troca constitui-se no gênero entrevista, em que se reproduzem perguntas de um interes-
sado e respostas de um especialista/uma autoridade (ou de personalidades do mundo artístico, político,
esportivo, etc.) sobre assunto de interesse comum. A entrevista costuma vir precedida de uma apresentação
na qual se contextualizam o assunto e o entrevistado. O entrevistador, conhecedor do assunto em pauta,
deve reorientar as perguntas em função das respostas recebidas e da interação do momento. Atualmente,
as facilidades tecnológicas têm possibilitado ocorrerem entrevistas a longas distâncias ou realizadas por
e-mail: perguntas são enviadas e respondidas por escrito, perdendo-se, assim, as características espontâneas
da fala. Circulando principalmente na esfera jornalística, a entrevista, cada vez mais presente na imprensa e
no entretenimento em geral, tem se tornado uma forma importante de aquisição de informações sobre
fatos ou pessoas. A linguagem é adequada às características do público-alvo ou do entrevistado.

Direito do Consumidor – 15/3/2011


Drª Vera Araújo - Coordenadora do Procon do estado do Rio de Janeiro

Portal do Consumidor – Qual o problema que gera mais demanda no Procon-RJ e qual a avaliação do
Procon em relação a esse problema?
Coordenadora do Procon-RJ – Telefonia responde por 30% das reclamações. Os clientes reclamam tanto
do serviço como do defeito em produtos. Informações mais claras devem ser prestadas pelas empresas, pois
a falta de esclarecimentos gera dúvidas quanto à forma do uso do serviço. As primeiras dicas são ler com
atenção o contrato, além de solicitar por escrito todas as ofertas e os direitos oferecidos pelos planos.
Portal do Consumidor – Qual a Avaliação do Procon em relação à passividade do consumidor contem-
porâneo?
Coordenadora do Procon-RJ – A passividade do consumidor se dá em razão do desconhecimento dos
seus direitos. A maioria ainda não sabe da existência do Código de Defesa do Consumidor. Aqui no estado do
13

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PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

Rio estamos intensificando as relações com os municípios para, através das Prefeituras e das Câmaras
Municipais, serem aprovadas as leis de criação do Sistema Municipal de Defesa do Consumidor, com o obje-
tivo principal de levar a todos as informações sobre seus direitos.
Portal do Consumidor – Qual a média de atendimento do Procon hoje na cidade do Rio?
Coordenadora do Procon-RJ – O Procon-RJ atende uma média de 8 500 consumidores por mês.
Portal do Consumidor – Como você avalia o nível de informação do consumidor, hoje, em relação aos
seus direitos e deveres?
Coordenadora do Procon-RJ – Na cidade do Rio de Janeiro a grande imprensa e os veículos de comuni-
cação de massa já abrem sua programação para o tema dos direitos do consumidor, o que vem facilitando
o trabalho do Procon-RJ, do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria Pública, do Ministério Público,
da Comissão de Defesa do Consumidor da Alerj e da Delegacia de Defesa do Consumidor. Esses órgãos vêm
buscando atuar de forma integrada. Nos demais municípios, a informação ao consumidor ainda é muito
deficiente. Por isso a necessidade da municipalização do Procon.
Portal do Consumidor – Qual a mensagem do Procon para o consumidor nessa data?
Coordenadora do Procon-RJ – A toda a população do nosso Estado, queremos manifestar nosso compro-
misso de intensificar e aprimorar a utilização de todos os meios de comunicação disponíveis, a fim de faci-
litar o acesso aos instrumentos que possam garantir os direitos do cidadão consumidor.
■ Disponível em: <www.portaldoconsumidor.gov.br/integracao.asp?abrepagina=listaEntrevistas.asp>.
Acesso em: 19 fev. 2013.

6. Que relações de sentido estabelecem as conjunções e, pois e por isso no texto da entrevista?
7. Observe a locução prepositiva “em relação a” ao longo do texto e comente:
a) reformulações possíveis;
b) o emprego (ou não) de crase.

8. Qual é a função sintática dos sintagmas introduzidos pela preposição por em “pelas empresas” e “pelos
planos”? Que noção a preposição introduz?

9. Com relação às preposições e locuções prepositivas que introduzem ideia de finalidade no texto:
a) Cite quais são elas.
b) Explique o propósito comum que as relaciona.

10. A entrevista esclarece o leitor sobre o assunto que a motivou? Justifique.


Leia a lei federal n. 12 291 e faça as atividades.

Texto para as questões de 11 a 15.

GÊNERO TEXTUAL
Lei
Este gênero circula preferencialmente nas esferas jurídicas. O texto de lei apresenta estrutura em itens
nomeados ou numerados que precisam ser suficientemente detalhados e abrangentes para incluir todas
as situações que regulará. Normalmente, apresenta a seguinte hierarquia: títulos constituídos de capítulos
apresentando seções com artigos (Art. 1º, 2º, 3º) esclarecidos por parágrafos (§ 1º, § 2º) e incisos (I, II, III, IV).
Estes podem, ainda, vir complementados por alíneas (a, b, c). A lei é produzida e votada por legisladores; sua
sanção ou veto depende da autoridade máxima de sua abrangência. A linguagem deve ser clara e precisa,
sem deixar margem a dúvidas. Em razão da especificidade de alguns termos empregados e da formalidade
da linguagem, o texto de lei nem sempre é acessível ao cidadão comum.

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CONECTIVOS: CONJUNÇÃO E PREPOSIÇÃO CAPÍTULO 1

Presidência da República
Casa Civil
Subchefia para Assuntos Jurídicos

LEI N. 12 291, DE 20 DE JULHO DE 2010.

Torna obrigatória a manutenção de exemplar do Código de


Mensagem de veto Defesa do Consumidor nos estabelecimentos comerciais e
de prestação de serviços.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a


seguinte Lei:

Art. 1º São os estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços obrigados a manter, em local


visível e de fácil acesso ao público, 1 (um) exemplar do Código de Defesa do Consumidor.

Art. 2º O não cumprimento do disposto nesta Lei implicará as seguintes penalidades, a serem
aplicadas aos infratores pela autoridade administrativa no âmbito de sua atribuição:

I - multa no montante de até R$ 1 064,10 (mil e sessenta e quatro reais e dez centavos);
II – (VETADO); e
III – (VETADO).

Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 20 de julho de 2010; 189º da Independência e 122º da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA


Luiz Paulo Teles Ferreira Barreto

■ Disponível em:<www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12291.htm>.
Acesso em: 19 fev. 2013.

11. De que forma a lei dialoga com o assunto da entrevista?


12. Alguns elementos do texto transmitem ao leitor a informação de que ele está diante de uma lei, antes
mesmo da realização da leitura. Enumere-os.

13. Observe, no artigo 2º, a noção que as preposições a e por introduzem em “aos infratores pela autoridade admi-
nistrativa”. O que aconteceria se fossem trocadas, ficando: “pelos infratores à autoridade administrativa”?

14. No texto há indicação do percurso da lei, bem como do papel do Congresso Nacional e do presidente da
República. Qual é a função de cada um?

15. Na epígrafe da lei há a seguinte informação: “Mensagem de veto”. Como você entende essa informação?

Você já observou a presença do Código de Defesa do Consumidor nos estabelecimentos comerciais ou


de prestação de serviços? Você já o consultou?

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PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

A GRAMÁTICA
DA FRASE
A CONJUNÇÃO
NÇ NA FRASE
//////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Quando a conjunção liga elementos linguísticos, percebem-se duas situações distintas, dependendo do
tipo de relação sintática estabelecido pela conjunção:
junção de dois elementos linguísticos equivalentes:
dois predicativos do sujeito

Joana está sempre cansada ou aborrecida.

junção de dois elementos linguísticos equivalentes:


dois complementos verbais
A nova função exigia disciplina e seriedade.

junção de dois elementos linguísticos equivalentes:


duas orações absolutas
Luís apresentou os problemas, mas não sugeriu nenhuma solução.

junção de dois elementos linguísticos não equivalentes:


uma oração principal e uma oração subordinada
Eloísa comentara que estava tudo em ordem.
or. princ. or. subord.

junção de dois elementos linguísticos não equivalentes:


uma oração principal e uma oração subordinada
O policial apitou quando o carro se aproximou.
or. princ. or. subord.

Classificação – em foco: o tipo de relação sintática

classificação sintática das conjunções


coordenativas subordinativas
conjunções que ligam elementos linguísticos de conjunções que ligam elementos linguísticos
equivalente função sintática: e, ou, mas, porém, de diferentes funções sintáticas, em que um
pois, nem... nem, etc. subordina o outro: quando, embora, porque,
como, quando, etc.

Como você já percebeu, a classificação da conjunção em coordenativa ou subordinativa está condicionada


à análise sintática do enunciado.
Embora as conjunções não exerçam função sintática (são classificadas apenas como conectivos), elas são
fundamentais na análise do período composto, pois explicitam o tipo de relação estabelecido entre as orações.
E mais: as orações recebem a mesma denominação da conjunção que as introduz. A única exceção são as con-
junções integrantes, que introduzem orações subordinadas substantivas. Essas orações recebem o nome da
função sintática que desempenham e não o da conjunção. As conjunções integrantes são que (exprime certeza)
e se (exprime dúvida):
Sei que serei competente.
Não sei se serei competente.
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CONECTIVOS: CONJUNÇÃO E PREPOSIÇÃO CAPÍTULO 1

A PREPOSIÇ
PREPOSIÇÃO NA FRASE
///////////////////////////////////////////////////////////////////////////

A preposição, assim como a conjunção, não exerce função sintática na oração: é um conectivo. Entretanto,
diferentemente da conjunção, a preposição nunca liga orações; ela liga termos, palavras (um termo consequen-
te ao seu antecedente).
A preposição desempenha um papel importante na sintaxe: vários termos são regidos por preposição
(complementos nominais, objetos indiretos, adjuntos adverbiais, por exemplo).

UM CASO À PARTE: A CRASE


//////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

É muito comum a preposição aparecer unida a outra palavra, ocasionando, assim, duas situações: combi-
nação ou contração.
Há um caso de contração que merece destaque especial.
É a fusão da preposição a com:
• o artigo definido feminino a(s);
• o a inicial dos pronomes demonstrativos aquele(s), aquela(s), aquilo;
• o pronome demonstrativo a(s);
• o a inicial do pronome relativo a qual (as quais).
A essa fusão de duas vogais idênticas, graficamente representada por um a com acento grave (à), dá-se o
nome de crase. Veremos, a seguir, as principais situações em que a crase ocorre.

A palavra crase vem do grego krâsis e significa “mistura”. Indica a contração ou fusão de dois sons vocálicos semelhantes em um só. Na evo-
lução da língua, são alguns exemplos de crase: leer = ler; door = dor; pee = pé; soo = só.
Atualmente, no entanto, a denominação crase é quase exclusivamente reservada para o caso da fusão da preposição a com o artigo a, a ponto
de, na linguagem popular, a crase confundir-se com o acento grave:
− Esse a tem crase?
Em caso de resposta positiva, coloca-se o acento grave.

OPS!
A AUSÊNCIA DE CRASE MUDOU A HISTÓRIA

Nada além
O amor bate à porta
e tudo é festa.
O amor bate a porta
e nada resta.
■ SANTOS, Cineas. Pétalas. Teresina: Oficina da Palavra, [s.d.]. p. 103.

Os dois momentos do poema coincidem com a presença e a ausência de crase no primeiro e no terceiro verso. Nos dois primeiros
versos, descreve-se a chegada do amor e a felicidade que reina. Nos dois últimos, a partida do amor e o arraso que fica. É interessante
notar como o poeta brinca com os sentidos do verbo bater para construir esses cenários:
a) Em “O amor bate à porta”, temos o verbo bater no sentido de dar batidas em algo para chamar, pedindo um complemento de
lugar regido por preposição (à porta);
b) Em “O amor bate a porta”, temos o verbo bater no sentido de fechar fortemente, e, como verbo transitivo direto, não exige
preposição (bater + a porta).
Como veremos no próximo capítulo, alguns verbos variam seu sentido de acordo com a sua regência, assim como acontece com
o verbo bater.

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PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

Atividades
1. Antes de ler o texto na íntegra, detenha-se no título: “Tudo nos eixos”.
a) O que você entende por “Tudo nos eixos”?
b) O subtítulo informa: “Descartes descreveu figuras geométricas com letras e números e fez
o mundo ver através de gráficos”. Após essa informação, que sentido você constrói para
“Tudo nos eixos”?

Eureca
Tudo nos eixos
Descartes descreveu figuras geométricas com letras e números e fez o mundo ver através
de gráficos
Por Carmen Kawano

Imagine a oscilação da bolsa de valo-

Alexandre Camanho
res sem visualizar um gráfico. Ou então um
jogo de batalha naval sem as coordenadas.
Ao publicar seu mais famoso trabalho,
o filósofo e matemático francês René
Descartes (1596-1650) apresentou ao mun-
do uma nova maneira de pensar e ao mes-
mo tempo inaugurou uma nova área na
matemática. No “Discurso sobre o Método
(para bem conduzir a razão e procurar a
verdade nas ciências)”, ele expõe sua cren-
ça de que, entre todas as áreas do conheci-
mento, só a Matemática é certa, portanto
■ Descartes na visão bem-humorada de Alexandre Camanho.
tudo deve ser baseado nela.
Como a extensão do título de sua obra indica, Descartes prega o uso da razão para a obtenção da
verdade, só alcançável por meio do método. E isso deve ser feito como se procede na matemática, com
o emprego do raciocínio lógico e dedutivo na prova de teoremas. Surge daí a clássica expressão
“cogito, ergo sum” (penso, logo existo), começando com a dúvida de Descartes sobre sua própria exis-
tência, mas depois chegando à conclusão que uma consciência clara de seu pensamento provava sua
própria existência.
A influência das ideias do filósofo foi tão abrangente que hoje costumamos dizer que somos
cartesianos se agimos racionalmente, objetivamente ou de maneira lógica.

O X da questão
Só com Descartes é que passamos a enxergar um ponto no espaço como um par ordenado de núme-
ros no eixo cartesiano. As retas, os círculos e outras figuras geométricas podem então ser representadas
por equações em x e y. Assim surgiu a chamada Geometria analítica, quando se usa a Álgebra na solução
de problemas geométricos. As figuras que antes eram só desenhadas passaram a ser representadas por
equações, com letras e números. Passamos então a colocar tudo em gráficos, como a variação da tempe-
ratura de um paciente e as oscilações nas vendas de um produto, em forma de pontos e curvas.
■ KAWANO, Carmen. Tudo nos eixos. Galileu, n. 154.
Disponível em: <http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT720945-2680,00.html>. Acesso em: 18 fev. 2013.

18

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CONECTIVOS: CONJUNÇÃO E PREPOSIÇÃO CAPÍTULO 1

2. “Eureca” é o nome da seção da revista em que a matéria foi publicada. Leia o verbete e justifique, a partir
do título e do subtítulo, a publicação da matéria nessa seção.

heureca
interjeição (1899)
us. como expressão de triunfo ao encontrar-se a solução de problema difícil [Expressão atribuída
a Arquimedes (287-212 a.C., matemático grego).]
Etimologia
gr. hēúrēka ‘achei!’, 1ªp.s. do perf. do ind. do v.gr. heurískō ‘encontrar, descobrir, inventar, obter’; em
ing.eureka (1603) ‘id.’ e em fr. eurêka (sXIX) ‘id.’, ficou consagrada a grafia sem o h inicial; ver heur(o)-;
f.hist.1899 heureka
Sinonímia e Variantes
eureca
■ HOUAISS, Antonio. Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Disponível em: <http://houaiss.uol.com.br>. Acesso em: 29 mar. 2013.

3. De modo geral, podemos classificar as revistas segundo seu foco e a temática de suas matérias. Entre as
classificações possíveis, mencionam-se: atualidades, gastronomia, casa e decoração, ciência, cultura, saúde,
celebridades, viagens, adolescentes...
Após ler a matéria, responda: de que tipo de revista se trata? Qual é seu público-alvo?

4. Releia o período a seguir e descreva o papel sintático e semântico das conjunções.


“Descartes descreveu figuras geométricas com letras e números e fez o mundo ver através de gráficos.”

5. Qual é o peso da noção semântica da preposição sem no primeiro parágrafo do artigo? Qual é a intenção
de seu emprego?

6. Observe a conjunção ou no primeiro e no último parágrafo e compare o tipo de conexão sintática que ela realiza.
7. Fundamente o único caso de crase no texto. Faça alguma alteração para provar a ocorrência da preposição
e do artigo.

8. Justifique o emprego da preposição para na conexão dos elementos nos enunciados abaixo.
“Discurso sobre o Método (para bem conduzir a razão e procurar a verdade nas ciências)”
Descartes prega o uso da razão para a obtenção da verdade, só alcançável por meio do método.

9. Releia os enunciados e indique a função da conjunção que.


“[...] sua crença de que, entre todas as áreas do conhecimento, só a Matemática é certa.”
A influência das ideias do filósofo foi tão abrangente que hoje costumamos dizer que somos cartesianos
se agimos racionalmente, objetivamente ou de maneira lógica.

10. Atente para o emprego da conjunção como nos dois casos em que aparece no texto anterior e:
a) classifique-a segundo o tipo de conexão que faz;
b) assinale sua noção semântica em cada caso.

11. De acordo com o tipo de conexão que fazem no texto da página anterior, classifique as conjunções portan-
to, logo e mas, indicando a sua noção semântica.

• Vamos montar um gráfico cartesiano com os seguintes dados: Variação do dólar durante o ano:
jan. = R$ 2,15; fev. = R$ 2,25; mar. = R$ 2,10; abr. = R$ 2,10; maio = R$ 2,05; jun. = R$ 2,05; jul. = R$ 2,15;
ago. = R$ 2,10; set. = R$ 2,05; out. = R$ 1,95; nov. = R$ 1,90; dez. = R$ 2,00
• Você conhece o jogo “Batalha naval”? Crie um curto texto explicativo sobre o jogo.

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PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

A GRAMÁTICA
DO TEXTO

A CONJUNÇÃO
NÇ ALTERNATIVA E O PESO DAS PALAVRAS
////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Cota zero
Ilustrações: Ulhôa Cintra/
Stop. Arquivo da editora

A vida parou
ou foi o automóvel?
■ ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa & prosa. 3. ed.
Rio de Janeiro: José Aguilar, 1980. p. 71.

O tipo de conjunção presente no texto liga elementos linguísticos que, embora distintos e antagônicos,
têm o mesmo valor gramatical, o mesmo peso. Essa é uma particularidade da conjunção alternativa: funciona
como uma balança em que os dois pratos estão perfeitamente equilibrados.

ou sobe ou desce nem bonita nem feia


verbo verbo adjetivo adjetivo

No poema, Drummond coloca num prato da balança a oração “A vida parou”; noutro, “foi o automóvel [que
parou]”. Eliminando os termos comuns, sobram, conectados pela conjunção alternativa ou, os termos vida e
automóvel, que passam a ter o mesmo peso, devidamente equiparados.
O título do poema, Cota zero, significa nenhuma participação (cota é a parte que cabe a alguém
numa sociedade). Quando não sabemos se foi a vida ou o automóvel que parou no sinal fechado, é porque
a nossa vida se transformou numa máquina, que é comandada, que não pensa, etc. Esse poema pertence
ao grupo de poesias que têm por tema a “vida besta”, a “coisificação do homem”, tão típico na obra de
Drummond.

A CONJUNÇÃO ADVERSATIVA E O PESO DAS PALAVRAS


///////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Poeminha solidário
Ladrão, mentiroso, tarado,
Fanático, covarde, traidor.
Mas do nosso lado.
■ FERNANDES, Millôr. Poemas.
Porto Alegre: L&PM, 1984. p. 53.

A conjunção adversativa mas é coordenativa e, como tal, une elementos considerados equivalentes no
plano sintático. No entanto, essa equivalência não se mantém no plano semântico.
No Poeminha solidário, uma sequência de seis adjetivos “negativos” (ladrão, mentiroso, tarado, fanático,
covarde, traidor) se opõe a apenas uma informação aparentemente “positiva” (do nosso lado). O que tem mais
peso? É evidente que a informação que vem logo depois do mas tem mais peso, é a que fica. Se trocássemos a
ordem, tudo mudaria:

Do nosso lado, mas ladrão, mentiroso, tarado, fanático, covarde, traidor.


informação que prevalece

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CONECTIVOS: CONJUNÇÃO E PREPOSIÇÃO CAPÍTULO 1

A COMPLEXIDADE DAS NOÇ


NOÇÕES SEMÂNTICAS DAS CONJUNÇÕES

////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Será que a conjunção e tem valor aditivo no texto a seguir?


“Não temos expectativas quanto à apuração. Tivemos problemas porque muita gente disse que viria e
não veio”, tentou explicar o recém-empossado presidente da escola...”
■ Disponível em: <www.viaeptv.com/epnoticia/lazerecultura/NOT,0,0,601108,Hegemonia+marca+primeira+noite+de+desfile+em+Batatais.aspx>. Acesso em: 18 fev. 2013.

Por muito tempo, na escola “tradicional”, listas e significados fixos de conjunções eram passados aos alunos
para memorização; no entanto, as conjunções são versáteis e assumem diferentes significados, por vezes extremos
e contraditórios. Um dos casos mais expressivos é o da conjunção e, que, convencionalmente, tem valor aditivo.
implicação, consequência
Abusa da sorte e verás o que te acontece.
causa, efeito (e = por isso)
O dia está nublado e não vamos ao parque.
distintivo, contrastivo
Há políticos e políticos!
intensidade (chorou muito)
Chorou e chorou.
sucessão temporal (primeiro, chorou, depois esperneou, no final dormiu)
Chorou e esperneou e dormiu.
adversativo, de oposição (e = mas)
... muita gente disse que viria e não veio.

Neste último enunciado, a conjunção assume um valor muito distinto do convencional: tipicamente uma
conjunção aditiva, assume significado de adversativa.
O valor de uma conjunção, portanto, depende de vários fatores, além de sua noção semântica primeira; é o
contexto de um determinado enunciado que vai nos indicar seu sentido real.

A CONJUNÇÃO SEM JUNÇÃO APARENTE


////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Leia a letra da canção “Inútil paisagem”, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira:

Mas pra que Que não venhas mais


Pra que tanto céu Que não voltes nunca mais
Pra que tanto mar, De que servem as flores que nascem
Pra que Pelos caminhos
De que serve esta onda que quebra Se o meu caminho
E o vento da tarde Sozinho é nada
De que serve a tarde ■ Disponível em:<http://www.jobim.com.br/cgi-bin/clubedotom/musicas3.
Inútil paisagem cgi?cmd=letra&letra_file=aloysio/inutil.html&idmus=123&ling=eng>.
Acesso em: 20 fev. 2013.
Pode ser

Algumas conjunções, especialmente e e mas, são muito empregadas como introdutoras de novos assuntos
ou tópicos, sem ter conexão com algum elemento linguístico anterior. Há apenas um segmento:
• “E com vocês... Daniela Mercury!”
• E aí, para onde vocês estão indo?
• Mas o que você estava falando mesmo?
• Mas pra que / pra que tanto céu
as conjunções, nos enunciados acima, apenas introduzem
uma informação ulterior (não há segmento anterior)

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PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

Essas conjunções são fáticas, isto é, têm como objetivo manter a comunicação, estabelecendo uma conexão
que, na realidade, não existe. Trata-se de uma conexão textual dentro de um ato comunicativo, em favor da fluidez.

A RELEVÂNCIA DA PREPOSIÇ
PREPOSIÇÃO NA CONSTRUÇÃO
TRUÇ DO SENTIDO
/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Livros sobre Ciências e ambiente


CARTOGRAFIA GEOTÉCNICA
Por Lázaro Zuquette, Nilson Gandolfi

A Cartografia geotécnica vem de encontro à expectativa da sociedade atual que exige uma
inserção socioambiental das intervenções de Engenharia, ou ainda, que sejam realizadas sob um
paradigma de planejamento. A Cartografia geotécnica tem um inequívoco papel nessa moderna
abordagem na medida em que fornece subsídios racionais para as tomadas de decisão.
■ Disponível em: <www.cienciamao.usp.br/tudo/exibir.php?midia=liv&cod=_cartografiageotecnicalaz>. Acesso em: 19 fev. 2013.

Consideremos o significado da locução de encontro a:

de encontro a no sentido oposto a; em contradição, contra

Ao percebermos o significado da locução, o texto não faz sentido. Afinal, a Cartografia geotécnica tem um
papel fundamental na sociedade moderna? A intenção do produtor do texto foi assinalar que sim. No entanto,
no primeiro período, para não prejudicar o sentido do texto, teria de constar a locução ao encontro de (estar a
favor de, caminhar para, em busca de, etc.) e não de encontro a:

A Cartografia geotécnica vem ao encontro da expectativa da sociedade atual que exige uma inserção
socioambiental das intervenções de Engenharia.

OS CONECTIVOS COMO ALAVANCAS NA ARGUMENTAÇÃO


Ç
////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Comportamento

Não sou tudo isso


Entrevistamos o álcool! E ele revelou que não é tão legal assim como dizem. Tire suas
próprias conclusões.
Por Rose Mercatelli

A Atrevida foi direto à fonte e falou com a bebida alcoólica. Confira as revelações
dela sobre o que acontece quando a gente erra a dose e abusa dela.
1. A galera só bebe socialmente. Que mal há nisso?

É verdade que eu sou aceita pela sociedade. Por isso, ninguém é malvisto quando está com um copo na
mão. Mas o pior é que muita gente passa da medida e isso vira um grande problema. Segundo a
Organização Mundial de Saúde (OMS), os acidentes de trânsito matam mais de um milhão de pessoas
ao ano em todo o mundo e cerca de 60% atingem justamente os jovens entre 19 e 25 anos que
exageram ao me consumir antes e durante as festas e baladas. Nesta mesma pesquisa, foi constatado
que 42% dos jovens confessaram dirigir depois de me beber, sem se importar com os riscos.
■ Disponível em: <http://atrevida.uol.com.br/beleza-gente/168/artigo97637-1.asp>. Acesso em: 21 fev. 2013.

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CONECTIVOS: CONJUNÇÃO E PREPOSIÇÃO CAPÍTULO 1

Alguns conectivos podem funcionar como operadores argumentativos, isto é, como elementos linguísticos
que ajudam a organizar e demonstrar o que se quer expor e, ao mesmo tempo, ganhar a adesão do interlocutor.
Observe a construção comparativa:
[o álcool] revelou que não é tão legal assim como dizem
Nela, está se comparando a característica “legal” atribuída ao álcool. Vamos desdobrá-la:
1. dizem que o álcool é muito legal;
2. o álcool revela que não é muito legal.
A comparação, combinada com os verbos dizer/revelar e os sujeitos (indeterminado/o próprio álcool),
apresenta-se a favor de uma conclusão: “o álcool não é [muito] legal”.
É interessante ainda observar no fragmento os conectivos “por isso” e “mas”, abrindo novos períodos no
parágrafo, e introduzindo uma conclusão e uma discrepância, respectivamente. O destaque dado ao conectivo
abrindo o período revela também maior ênfase argumentativa; dá-se destaque à informação introduzida ora à
maneira de conclusão, ora à maneira de contraste.
Outros conectivos que reforçam o caráter argumentativo de um texto são:
• as conjunções bimembres como “não só... mas também”, capazes de somar argumentos a favor de uma
mesma ideia a ser defendida e “seja... seja”/“quer... quer”, capazes de introduzir argumentos diferentes que
evidenciam dois caminhos ou ideias diferenciadas;
• as conjunções conclusivas como “portanto”, “pois”, “logo”, que conseguem não só introduzir uma conclusão relativa
a uma ideia anterior, senão também a um encadeamento de ideias como um todo, à maneira de resumo conclusivo;
• as conjunções explicativas como “porque”, “que”, “pois”, “já que”, que conseguem explicitar justificativas ou
razões relacionadas a uma ideia a ser apresentada e/ou defendida e/ou rejeitada;
• as conjunções adversativas como “mas”, “no entanto”, “todavia”, que além de apresentar um argumento con-
trário a uma ideia exposta, conseguem desviar todo o raciocínio de um texto no sentido contrário ao que
vinha apresentando.

Atividades
Texto para as questões de 1 a 3.

© 1999 Dik Browne/King Features Syndicate/Ipress

■ BROWNE, Dik. Hagar, o Horrível. Porto Alegre: L&PM, 1999.

1. Nas tirinhas, em geral a sequência narrativa é dada pela sequência de imagens. No caso dessa tirinha, que
outro elemento mantém o suspense e conduz o leitor? Que classe gramatical preencheria a fala de Hagar
no primeiro quadrinho?

2. Na situação em que Hagar produz o seu enunciado, haveria um motivo para não completar a fala do pri-
meiro quadrinho?

3. Releia o enunciado do último quadrinho e classifique morfologicamente os “que” que aparecem nele.
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PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

Texto para as questões de 4 a 10.


Leia agora outros trechos da matéria “Não sou tudo isso”, de Rose Mercatelli, para a revista Atrevida.

2. Ah! Então quem bebe anda fora da lei?


Se o cara é maior de idade, pode me beber sem problemas legais. A menos que se meta numa
enrascada, como direção, briga, atropelamento, batida de carro ou racha, tudo provocado graças à
minha ajuda. Entretanto, o que muita gente não sabe é que sou considerada uma droga psicotrópica,
atuando no sistema nervoso central e provocando mudanças no comportamento de quem me
consome. Então, é o seguinte: apesar de eu ser prejudicial em todos os sentidos e, muitas vezes, mortal,
sou aceita socialmente. Por isso não sou tratada como “bandida” como as outras drogas.

3. Mas pelo menos você não vicia como elas, não é mesmo?
Claro que vicio! Você nunca ouviu falar em alcoolismo? Quem costuma me beber com frequência ao
longo do tempo pode desenvolver uma dependência. Os fatores que levam alguém a se viciar em
mim são muitos e podem ser de origem genética, educacional, familiar, emocional, social (é o caso da
menina que bebe para ser aceita no grupo, por exemplo) e por aí afora. Costumo passar a ideia
enganosa de que não vicio porque a transição entre o beber moderadamente até chegar ao
alcoolismo pode levar vários anos. Daí, todo mundo acha que só mais um gole e não faço mal algum.
Mas, cá entre nós, não entra nessa. Eu, melhor que ninguém, sei do que estou falando.
[...]

4. Tem gente que bebe e jura que dirige até melhor. Como é isso?
É uma das besteiras mais perigosas que dizem a meu respeito. Quando sou ingerido, mesmo em
pequenas quantidades, diminuo a coordenação motora e os reflexos, comprometendo assim a
capacidade de dirigir. Pesquisas realizadas com jovens brasileiros mostraram que 57% dos acidentes
de carro foram provocados por imprudência ou desatenção. E o que você acha que eu faço no sistema
nervoso? Deixo a sua “central” trabalhando em marcha lenta e, por isso, você (ou qualquer pessoa)
perde a concentração no que está fazendo. Tem mais: 15% das batidas, com ou sem morte, foram
causadas por excesso de velocidade. E adivinhe o que está por trás da demonstração de ousadia e da
falta de juízo? Eu, claro. Precisa mais? Atualmente, o Código Nacional de Trânsito penaliza o
motorista que apresentar qualquer quantidade, mesmo que mínima, de álcool no sangue. Mas nem
assim a turma se conscientiza do perigo que corre ao me beber exageradamente.
[...]

9. Por fim, é só o cérebro que sofre os efeitos do álcool?


Nem pensar! Sou um veneno, principalmente para o fígado. As doenças mais comuns são a
esteatose hepática, a hepatite alcoólica e a cirrose, todas muito perigosas, assim como problemas
do aparelho digestivo como gastrite e pancreatite. Isso para não falar nos problemas do coração e
de pressão. Enfim, pra falar a verdade, eu provoco tantos transtornos que nem eu mesma sei o
porquê de ser tão popular entre a galera.
■ CONSULTORIA: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid) - Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) <www.unifesp.br/dpsicobio/cebrid>.
Disponível em: <http://atrevida.uol.com.br/beleza-gente/168/artigo97637-1.asp>. Acesso em: 21 fev. 2013.

4. A matéria tenta, de forma criativa, convencer o leitor sobre os males do álcool. Levando em conta a afir-
mação, indique:
a) o gênero textual utilizado;
b) a figura de linguagem presente ao longo da matéria;
c) o tipo de informação a favor da ideia defendida e o tipo de informação que se questiona;
d) os efeitos argumentativos dos itens a, b e c.
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CONECTIVOS: CONJUNÇÃO E PREPOSIÇÃO CAPÍTULO 1

5. Nas respostas, há concordâncias no feminino (“sou aceita”; “eu mesma”) e no masculino (“sou ingerido”).
Levante uma hipótese para explicar essas ocorrências.

6. Com relação ao registro utilizado:


a) Como você o consideraria: formal ou informal? Dê exemplos que comprovem sua resposta e justifique
o tipo de registro.
b) Levando em conta o suporte – revista Atrevida – e o possível interlocutor, você o considera adequado ou
inadequado? Ajuda ou não no intuito persuasivo do texto? Por quê?

7. Extraia do texto conectivos que estejam introduzindo:


a) uma ideia contrária ao exposto anteriormente;
b) uma conclusão;
c) uma explicação.

8. Explique o valor argumentativo das expressões “cá entre nós” e “pra falar a verdade” no texto.
9. Qual é o objetivo da entrevista: entreter o leitor da revista, informar sobre o álcool ou induzir um compor-
tamento?

10. Que efeito produz a informação final sobre a consultoria?

Governo do Estado de São Paulo/Secretaria da Saúde


11. Leia o texto do banner ao lado, do Portal Álcool para
Menores é Proibido, do Governo do Estado de São Paulo,
criado para divulgar a Lei estadual n. 14 592, de 19 de outu-
bro de 2011, que regulamenta o trabalho de fiscalização e
controle para que seja cumprida a proibição de vender, ofe-
recer, fornecer, entregar ou permitir o consumo de bebidas
alcoólicas por crianças e adolescentes.
■ Disponível em: <http://www.alcoolparamenoreseproibido.sp.gov.br/?page_id=43>.
Acesso em: 21 fev. 2013.

Qual é o jogo semântico que sustenta a última frase do cartaz?

12. Leia atentamente o cartaz abaixo, do Governo Federal.


A lei estadual citada na questão anterior
Reprodução/Aquivo da editora

está diretamente relacionada à Lei federal


n. 8 069, de 13 de julho de 1990, que dispõe
sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente
e dá outras providências. Além do artigo
243, citado no cartaz, no artigo 81 consta
que “É proibida a venda à criança ou ao
adolescente de bebidas alcoólicas”. No
entanto, a lei estadual tenta cobrir uma
brecha deixada pela lei federal.
Qual é essa brecha? De que forma o conec-
tivo ou intervém no texto do banner do
governo estadual, reforçando a abrangência
da lei?

13. Em sua localidade, os estabelecimentos que vendem bebidas alcoólicas cumprem a lei federal? Se você não
mora no estado de São Paulo, há uma lei estadual que reforce ou amplie a lei federal?
25

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PARTE 1 A GRAMÁTICA DOS TEXTOS

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

1. (Unesp) c) ocupa posição fixa, sendo inadequado seu uso


na abertura da frase.
Momento Bossa Nova
d) contém uma ideia de sequência temporal que
Em plenos anos 1950, quando nas rádios pre- direciona a conclusão do leitor.
dominava o derramamento vocal e sentimental, e) assume funções discursivas distintas nos dois
Tom Jobim já buscava um retraimento expressi- contextos de uso.
vo pautado por um discurso poético/musical
mais sereno, mais em tom de conversa do que de 3. (UFMS) Observe o emprego das conjunções nos
súplica. Se os mais jovens identificavam-se com períodos a seguir.
essas coisas novas, os mais velhos e tradicionalis- I. Ora Maria estuda História, ora ela ouve música.
tas viam-nas com estranheza, sendo compreensí- II. Ou você estuda História, ou você ouve música.
vel que as descrevessem como canções bobas e III. Se você for estudar História, não ouvirá música.
ingênuas, não obstante a sofisticação harmônica IV. Se você for ouvir música, não estudará História.
e rítmica.
■ José Estevam Gava. A linguagem harmônica da Bossa Nova. Levando em consideração que a conjunção é um
São Paulo: Unesp, 2002. dos elementos linguísticos responsáveis pela orien-
tação argumentativa do discurso, é correto afirmar:
Na passagem “... sendo compreensível que as des-
crevessem como canções bobas e ingênuas, não 01) O sentido de alternância só ocorre no caso de I,
obstante a sofisticação harmônica e rítmica.”, a pois é possível que a pessoa, no caso Maria,
sequência não obstante a poderia ser substituída, faça as duas coisas: estudar e ouvir música.
sem prejuízo do sentido, por: 02) Em II, III e IV não existe a possibilidade de as
a) em função da. duas coisas se realizarem, porque há a ideia de
uma exclusão explícita, marcada tanto pela
b) apesar da.
conjunção “ou” como pela conjunção “se”.
c) graças à.
04) A ideia de alternância está presente em todos os
d) por causa da. períodos, uma vez que se trata de períodos com-
e) em relação à. postos por orações subordinadas alternativas.

2. (Enem) 08) A alternância é nítida em II, III e IV, que são


Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verda- períodos cujas orações classificam-se como
deira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, “condicionais”.
exigiam para si, malcriados, instantes cada vez 16) A conjunção “ou” nem sempre expressa exclusão.
mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o
fogão enguiçado dava estouros. O calor era forte
4. (Fuvest-SP)

no apartamento que estavam aos poucos pagan- Belo Horizonte, 28 de julho de 1942.
do. Mas o vento batendo nas cortinas que ela Meu caro Mário,
mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse Estou te escrevendo rapidamente, se bem que
podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo haja muitíssima coisa que eu quero te falar (a
horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as respeito da Conferência, que acabei de ler agora).
sementes que tinha na mão, não outras, mas Vem-me uma vontade imensa de desabafar com
essas apenas. você tudo o que ela me fez sentir. Mas é longo,
■ LISPECTOR, C. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. não tenho o direito de tomar seu tempo e te
chatear.
A autora emprega por duas vezes o conectivo ■ Fernando Sabino.
mas no fragmento apresentado. Observando
No texto, o conectivo “se bem que” estabelece rela-
aspectos da organização, estruturação e funcio-
ção de:
nalidade dos elementos que articulam o texto, o
conectivo mas: a) conformidade.
a) expressa o mesmo conteúdo nas duas situações b) condição.
em que aparece no texto. c) concessão.
b) quebra a fluidez do texto e prejudica a compreen- d) alternância.
são, se usado no início da frase. e) consequência.

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2
REgênciA cAPÍTULo 2

cAPÍ T U L o 2

Regência

Lynn Goldsmith/Corbis/Latinstock
Marley é daqueles artistas que no meu
caso tiveram um poder extraordinário de
sedução. [...]
Foi o último artista a quem eu dediquei
uma atenção profunda, específica e perma-
nente enquanto ele teve vigência no trabalho
dele. Hoje em dia, ainda é das coisas que eu
mais gosto de escutar.
n Disponível em: <http://musica.terra.com.br/gilberto-gil-bob-marley-teve-quotpoder-
extraordinario-de-seducaoquot,e58a24f4d865a310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html>.
Acesso em: 20 fev. 2013.

Após os estudos que temos feito, você já deduziu que


enunciado é uma unidade semântico-pragmática, isto é,
uma unidade linguística que tem sentido e que constitui um
ato comunicativo. Os enunciados acima foram extraídos de
uma entrevista dada por Gilberto Gil à revista Alfa!. Nela, o
compositor baiano comentou sua admiração pelo músico
jamaicano Bob Marley e a influência dele em sua música.
Nos enunciados reproduzidos, observamos termos que se
relacionam para criar sentido e, a partir dessas relações,
podemos identificar sua função sintática. Nessa rede de
relações, destacam-se alguns sintagmas introduzidos por n Bob Marley, o rei do reggae, que
preposição, estabelecendo variadas relações entre um teve grande influência sobre a
música de Gilberto Gil.
termo regente e um termo regido (termo preposicionado):
a) [de sedução]: termo regido, na função de complemento
nominal de poder (termo regente);
b) [de escutar]: termo regido, na função de complemento
indireto do verbo gostar (termo regente);
E, ainda, outros dois, um com preposição e outro não,
relacionados com o verbo dedicar (termo regente):
c) [a quem]: termo regido, na função de complemento
indireto do verbo;
d) [uma atenção profunda, específica e permanente]:
termo regido, na função de complemento direto do verbo.

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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

////////////////////////
SINTAGMA PREPOSICIONADO: MÚLTIPLAS FUNÇÕES
///////////
/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Os sintagmas preposicionados são unidades de sentido que vêm introduzidas por preposição. Essas prepo-
sições desempenham um relevante papel na organização dos enunciados, já que relacionam dois sintagmas,
tornando o que é introduzido por preposição dependente do outro, como ocorre nos casos em que um termo
regente (verbo, substantivo, adjetivo, advérbio) exige um complemento. Além disso, as preposições introduzem
sintagmas representados por locuções (adjetivas, adverbiais).

SAdj(p) SN(p) SN(p) SAdv(p)


Os músicos da Jamaica, amantes do reggae, gostaram da versão brasileira com entusiasmo.

No caso acima, observamos:


• um sintagma nominal preposicionado com valor adjetival (da Jamaica) exercendo a função de adjunto
adnominal;
• um sintagma nominal preposicionado (do reggae) exercendo a função de complemento nominal;
• um sintagma nominal preposicionado (da versão brasileira) exercendo a função de complemento indi-
reto;
• um sintagma nominal preposicionado com valor adverbial (com entusiasmo) exercendo a função de
adjunto adverbial.

OPS!
O TODO E A PARTE

“Marley é daqueles artistas que no meu caso tiveram um poder extraordinário de sedução.”
“Hoje em dia, ainda é das coisas que eu mais gosto de escutar.”
Em ambos os enunciados, podemos reconhecer dois grupos: o conjunto de artistas que tiveram um poder extraordinário de
sedução em Gil; o conjunto de coisas que Gil gosta de escutar. O músico jamaicano e sua música fazem parte dos dois grupos. Isso fica
claro pela construção sujeito [Marley] + verbo copulativo (ser) + predicativo do sujeito [daqueles artistas/das coisas].
Em outras palavras: nessas construções, a preposição de indica que, de um determinado conjunto, o falante quer destacar uma
de suas partes.

////////////////////////
REGÊNCIA
///////////
////////////////////////////

Regência em sentido estrito se refere ao valor relacional das preposições, dentro da


língua, e às caracterizações dos determinantes que por meio de cada uma delas se esta-
belecem. [...] A escolha da preposição depende: 1. da significação interna de cada uma,
como: de “posse”; a “objeto indireto” ou “direção”; com → ‘companhia’, etc.; 2. da
servidão gramatical, que faz com que certos determinados exijam necessariamente cer-
tas preposições, especialmente em se tratando de certos verbos com complementos
essenciais. Num e noutro caso, há muita variação livre, que a disciplina gramatical pro-
cura eliminar, e em referência à significação interna das preposições interfere a inten-
ção estilística.
n CÂMARA JR., J. Mattoso. Dicionário de linguística e gramática. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 1985. p. 207.

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REgênciA cAPÍTULo 2

Como vimos, o estudo das relações entre o verbo e seu complemento ou entre o nome e seu complemento
chama-se regência. Os verbos ou nomes que têm seu sentido complementado são chamados de regentes ou
subordinantes; os complementos a eles ligados são chamados de regidos ou subordinados.
A preposição desempenha papel fundamental na relação estabelecida entre o regente e o regido. Veja, por
exemplo, o valor da preposição nas frases:
a preposição a indica movimento, deslocamento no espaço, e tem como termo regente um verbo de movimento

Vamos ao teatro.
a preposição em indica localização – no interior do teatro – e tem como termo regente um verbo de estado

Estamos no teatro.
não há preposição. O termo regente é o verbo "comer" e o termo regido, "um pedaço de bolo".

Comi um pedaço de bolo.


Quando um verbo pede complemento, ocorre a regência verbal; quando um nome (substantivo, adjetivo,
advérbio) pede complemento, ocorre a regência nominal:
regência verbal

A enfermeira atende o paciente.


regência verbal

Fomos ao teatro.
regência nominal

O ar puro é necessário à vida.


regência nominal

Eles têm necessidade de recursos tecnológicos.


regência nominal

Nossa vida anda paralelamente ao nosso humor.


regência nominal

Ele é sempre afável com todos.


OPS!
ASSISTIR A PEÇA OU À PEÇA?

Jefferson Lessa assiste Dirigir-se aos homens e escreve para O Globo


Jefferson Lessa, colunista do Segundo Caderno do jornal O Globo, assistiu a peça Dirigir-se aos homens e [...] o jornal
publicou sua crítica.
n Disponível em: <http://dirigirseaoshomens.wordpress.com/2010/03/13/jefferson-lessa-assiste-dirigir-se-aos-homens-e-escreve-para-o-globo/>.
Acesso em: 25 fev. 2013.
Ao estudar a regência de alguns verbos, percebe-se que o uso cotidiano apresenta uma forte tendência para abolir algumas
preposições (mesmo nos textos jornalísticos, pode-se ler que “Fulano assistiu a peça”). Mas isso só acontece quando o sentido não é
prejudicado, quando a eliminação da preposição não implica mudança de sentido. É o que ocorre também, por exemplo, com o verbo
gostar, que exige a preposição de, em enunciados como:
Eu gosto que você venha me visitar.

de
O que você gosta mais?

de (do)
Já com o verbo entregar, por exemplo, a exclusão da preposição não ocorre, pois poderia comprometer o sentido do enunciado:
O carteiro entregou a carta minha tia.

a/para

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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

////////////////////////
REGÊNCIA NOMINAL
///////////
////////////////////////////////////////////////////////////

A exemplo do que ocorre com alguns verbos transitivos, o significado de alguns nomes (substantivos, adje-
tivos e advérbios) transita para o complemento, estabelecendo-se uma relação entre o regente (o antecedente)
e o regido (o consequente), sempre mediada por uma preposição. Assim, na regência nominal, o principal papel
é desempenhado pela preposição.

////////////////////////
A CONSTRUÇÃO DAS RELAÇÕES
///////////
/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Quem inventou a guitarra elétrica?


Não dá para conceder esse mérito a uma única pessoa. O instru-

Ulhôa Cintra/Arquivo da editora


mento foi resultado de uma longa evolução e da colaboração mútua
entre músicos e técnicos em eletrônica e carpintaria, numa história
que teve, inclusive, a participação de brasileiros. A peça fundamental
da guitarra é o captador. Esse dispositivo, inventado em 1923 pelo
músico e engenheiro acústico americano Lloyd Loar, transforma a
vibração das cordas de aço em sinais elétricos, enviados a um ampli-
ficador e daí a um alto-falante. A invenção de Loar permitiu que o
imigrante suíço radicado nos Estados Unidos Adolf Rickenbacker
construísse e patenteasse um instrumento de braço longo e corpo
redondo, com uma placa sólida de alumínio. O modelo de
Rickenbacker, desenvolvido em 1932, é considerado por alguns histo-
riadores como a primeira guitarra equipada com captadores elétri-
cos. Aos poucos foram surgindo também os modelos feitos em
madeira com o corpo oco, o que gerava problemas de microfonia [...].
n Disponível em: <http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quem-inventou-a-guitarra-eletrica>.
Acesso em: 21 fev. 2013.

É interessante notar que é no texto que as relações se constroem e que se estabelece a necessidade de
vincular sintagmas em função do sentido. Façamos um percurso pelas ocorrências do verbo inventar, seu parti-
cípio [inventado] e o substantivo invenção.
Em “Quem inventou a guitarra elétrica?” temos o verbo inventar seguido de seu complemento direto [a
guitarra elétrica] e antecedido de seu sujeito [Quem]. Trata-se, assim, de uma construção em voz ativa, já que o
sujeito assume o papel de agente. É a identidade desse agente o que interessa descobrir.
Já em “Esse dispositivo, [inventado em 1923 pelo músico e engenheiro acústico americano Lloyd Loar], trans-
forma[...]”, a oração adjetiva explicativa tem como núcleo o particípio inventado, seguido de dois sintagmas
preposicionados: um indicando a data [adjunto adverbial]; outro, o agente [agente da passiva]. A construção na
voz passiva permite que o foco continue sendo “o captador”, retomado por “Esse dispositivo”, mas também pos-
sibilita que seja inserida uma informação nova e importante levando em conta a afirmação com que o texto
começa: o nome de seu inventor.
Finalmente, em “A invenção de Loar permitiu que o imigrante suíço radicado nos Estados Unidos Adolf
Rickenbacker construísse e patenteasse um instrumento de braço longo e corpo redondo, com uma placa sólida
de alumínio.”, especificamente no sintagma nominal que funciona como o sujeito do verbo permitir, identifica-
mos seu núcleo [invenção], antecedida e seguida de adjuntos adnominais: um artigo definido e um sintagma
preposicionado. Cabe destacar aqui que o adjunto adnomimal [de Loar] tem um sentido ativo, já que “Loar
inventou o captador [retomado até aqui com ‘esse dispositivo’ e ‘a invenção’]”, nesse caso reforçando uma infor-
mação já dada e que se justifica pelo intuito de provar que a guitarra elétrica não é mérito de uma única pessoa.
Nesse sentido, o adjunto adnominal [de Loar], embora pareça desnecessário, é de extrema importância para a
construção do sentido do texto.
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REgênciA cAPÍTULo 2

Atividades
Leia o texto abaixo, uma biografia de Gilberto Gil, e responda às questões.

gênERo TExTUAL
Biografia ou perfil biográfico
Gênero que permite ao leitor, ouvinte ou espectador inteirar-se sobre a vida de personalidades públicas
que se tornaram notáveis por razões diversas, a biografia recupera fatos das várias fases (infância, período
escolar e profissional) da vida de pessoas ou de personagens e os expõe, em geral na ordem em que ocorreram.
Por fazer esse resgate no passado, caracteriza-se pelo emprego do tempo pretérito e, por buscar certo deta-
lhamento ao expor acontecimentos, costuma apresentar também expressões adverbiais que se referem, em
geral, a épocas e a lugares. As biografias geralmente começam com o nascimento e terminam com a morte
(se for o caso) do biografado. Incluem a obra dele, com ou sem elementos críticos. Atualmente, é muito
comum o perfil biográfico de pessoas ainda atuantes no mundo artístico, político ou esportivo e sobre as
quais o público em geral tem interesse. O perfil difere um pouco da biografia por, muitas vezes, ser elaborado
pelo próprio biografado. Não segue rigidamente a ordem cronológica, apresenta outros elementos como
campos de interesse da pessoa ou simplesmente traça-lhe um breve retrato físico e moral. A biografia
circula em diversas esferas (escolar, jornalística, literária), até mesmo nas esferas teatral e cinematográfica e
sua configuração molda-se aos interesses do público; já os perfis são muito comuns nas redes sociais.

GILBERTO GIL
Uran Rodrigues/Acervo do fotógrafo

26/6/1942
CÂNCER

BIOGRAFIA
Gilberto Gil nasceu no bairro de Tororó em Salvador, na Bahia. Em busca de
uma vida melhor, o pai dele, o médico José Gil Moreira, e a mãe, Claudina, se
mudaram para Ituaçu, onde Gil passou os primeiros oito anos de sua vida.
Com essa idade, mudou-se de volta para Salvador e passou a estudar no
Colégio Marista e a frequentar aulas de acordeão. Na adolescência, ganhou
um violão de sua mãe e passou a conhecer o trabalho de João Gilberto, que o
n Flora Giordano e Gilberto Gil. influenciou imediatamente.
Nos tempos da faculdade de Administração, ele conhece Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa e Tom Zé.
Em 1964, realizam juntos um show na inauguração do Teatro Vila Velha.
No ano seguinte, Gil se forma na faculdade e se muda com a esposa, Belina, para São Paulo, onde arruma seu
primeiro emprego em uma companhia.
Em 1967, ele lança seu primeiro álbum, Louvação. Ainda nesta década, ele e Caetano desenvolveram o álbum
Tropicália, criando o movimento chamado Tropicalismo. Nos anos 1970, Gil acrescenta ao seu já vasto reper-
tório elementos da música africana, norte-americana e jamaicana.
Ele tem papel fundamental na modernização da música popular brasileira e atua como cantor, compositor
e músico.
31

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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

Na época do regime militar no Brasil, Gil chegou a ser exilado, indo morar em Londres. Lá, ele lançou um
álbum em inglês.
De volta ao Brasil, Gil passou a lançar uma série de discos antológicos, como Expresso 2222, Gil e Jorge (com
Jorge Ben Jor), Os Doces Bárbaros (com Caetano, Bethânia e Gal Costa), e a trilogia Refazenda, Refavela
e Realce.
Nos anos 1990, vieram Parabolicamará, Tropicália2 (com Caetano Veloso, celebrando os 25 anos do movi-
mento Tropicalista) e Unplugged (a coletânea de sucessos gravada ao vivo pelo canal MTV).
Em 1997, Gil lançou o álbum duplo Quanta e, em 1998, Quanta Gente Veio Ver, em álbum duplo ao
vivo, comemorando o sucesso de uma turnê mundial e que ganhou o Grammy Award de Melhor
Música Mundial.
Em 2000, lançou os CDs Eu, Tu, Eles e Gil & Milton (com Milton Nascimento). Em 2001, o álbum São João
Vivo.
Em 2002, lançou o CD e DVD Kaya n´Gan Daya. Em 2004, lançou o projeto Eletracústico, resultado de um
concerto que realizou na ONU, em Nova York.
Este trabalho veio após Gil ficar três anos sem gravar, por ter assumido o cargo de Ministro da Cultura, no
primeiro mandado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em 2006, relançou o disco com o título de Gil Luminoso – Voz e Violão. A turnê Gil Luminoso foi considerada
uma das mais belas de sua carreira, e passou pela Europa e pelos Estados Unidos.
Em 2008, Gilberto Gil lançou Banda Larga Cordel. No ano seguinte, foi lançado o CD/DVD BandaDois, regis-
tro do show gravado ao vivo em setembro em São Paulo. A apresentação, com Gil em voz e violão, contou
com as participações de Maria Rita e de seus filhos Bem (que o acompanha há tempos nas apresentações) e
José, que surpreendeu o público nos números em que toca baixo.
Com 57 álbuns lançados, Gilberto Gil ganhou 8 Grammys.
Ele é casado com Flora Giordano e pai da cantora Preta Gil.
n Disponível em: <http://caras.uol.com.br/perfil/gilberto-gil>.
Acesso em: 25 fev. 2013.

1. Levando em conta o gênero textual, justifique a presença de sintagmas preposicionados com indicação de
lugar e tempo. Aponte alguns exemplos.

2. Como tal, a biografia apresenta uma série de fatos passados.


a) Que tempos verbais são utilizados para apresentá-los?
b) Que efeito de sentido provoca tal alternância?

3. Você conhece a revista em cujo portal foi publicada a biografia? Como você a classificaria, considerando
suas temáticas e público-alvo? As características dos temas destacados na biografia do artista fazem sen-
tido nesse contexto?

4. Há duas ocorrências que colocam o músico brasileiro envolvido na vida política do país.
a) Quais são?
b) Como essas duas ocorrências são tratadas? Levando em conta as formulações dos enunciados que falam
de sua vida política, como é apresentado o envolvimento do artista?

5. Considerando que parônimos são palavras parecidas na grafia ou na pronúncia, mas com significados
diferentes, explique o equívoco que há na passagem:

“Este trabalho veio após Gil ficar três anos sem gravar, por ter assumido o cargo de ministro da
Cultura, no primeiro mandado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.”
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REgênciA cAPÍTULo 2

6. Os sintagmas preposicionais “em Salvador” e “para Salvador” têm como núcleo o nome de uma cidade e
funcionam como adjuntos adverbiais.
a) Que noções semânticas trazem as preposições no contexto da biografia?
b) Quais são os termos regentes com os quais se relacionam? Que relação há entre tais termos e as pre-
posições?

7. Observe as subordinadas adjetivas destacadas no texto:


que o influenciou imediatamente
que o acompanha há tempos nas apresentações
que surpreendeu o público nos números em que toca baixo

a) Indique o referente do pronome relativo que em cada enunciado.


b) Influenciar, acompanhar e surpreender são verbos que aparecem como termos regentes de comple-
mentos diretos. Indique-os e, se for o caso, aponte seu referente.

gênERo TExTUAL
Convite
Por circular em inúmeras esferas (cotidiana, escolar, artística, jornalística, publicitária, política, etc.),
este gênero apresenta configurações bastante variadas, dependendo do evento a que serve. Sua apresen-
tação (formato, tamanho, cores, tipos de letras, imagens, articulação imagens/texto) e linguagem deverão
estar adequadas ao público a que se destina e à natureza do evento: informal em um convite de aniversário
de uma criança; formal em um convite para a posse de um cargo público importante. Os elementos que
não podem faltar em um convite são: tipo de evento; autor(es); convidado(s); local do evento; data e horário.
Podem aparecer também as instituições responsáveis pela organização desse evento. Os suportes em que
circula o convite também são determinantes em sua constituição: se é manuscrito, radiofônico, impresso,
televisivo ou digital faz toda a diferença.

8. Leia o convite a seguir:


Reprodução/Aquivo Nacional, Rio de Janeiro, RJ

Que elementos permitem identificar o texto acima como um convite?


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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

Reprodução/Arquivo da editora

9. Qual é a relação entre o texto a seguir e o convite?


Arquivo Nacional exibe documentário sobre exílio de
Caetano Veloso e Gilberto Gil
24/8/2011 10:12 - Portal Brasil

Em 1968, os cantores e compositores Caetano Veloso e Gilberto


Gil foram presos por soldados do Exército e tiveram suas cabeças
raspadas. Após mais de um mês trancafiados em celas individuais, foram expulsos do Brasil, permane-
cendo dois anos e meio em Londres. O exílio desses dois importantes artistas da música popular brasi-
leira está contado no documentário que encerra nesta quinta-feira (25), às 17h, a mostra de cinema
paralela à exposição Registros de uma Guerra Surda, em cartaz desde abril no Arquivo Nacional, no Rio
de Janeiro.
Dirigido pelo jornalista Geneton Moraes Neto, Canções do Exílio: a Labareda que Lambeu Tudo traz
depoimentos que revelam episódios desconhecidos do público, como o show que Gilberto Gil fez para
a tropa, a pedido do comandante do quartel onde se encontrava preso.
A sessão no Arquivo Nacional, com entrada franca, será a primeira exibição no Brasil da versão
compacta do documentário, com 90 minutos de duração. A versão integral, para a TV, em três capítulos,
já foi exibida pelo Canal Brasil. O diretor e o cantor e compositor Jards Macalé estarão presentes à ses-
são para debater com o público, ao final da projeção.
n Disponível em: <www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2011/08/24/arquivo-nacional-exibe-documentario-sobre-exilio-de-caetano-veloso-e-gilberto-gil>. Acesso em: 25 fev. 2013.

10. Compare as formulações dos enunciados que falam da vida política de Gilberto Gil na notícia com as da
biografia publicada na revista.
a) Há a mesma relevância? Por quê? Que dados relacionados ao exílio, na biografia da revista, não apare-
cem na notícia?
b) Em que aspecto o emprego da voz passiva nas construções da notícia se diferencia do da biografia?

11. Pesquise sobre a vida de Gilberto Gil e elabore uma biografia destacando os aspectos que envolvem o exí-
lio do artista. Para consulta, procure na web:
• O artigo “Tropicália – Histórico”, pesquisa e texto de Ricardo Janoário, graduado em Pedagogia pela FEBF/
Uerj, bolsista Faperj do projeto de pesquisa “A ideia de cultura brasileira”, mestrando em Educação na
UFRJ. Disponível em: <www.febf.uerj.br/tropicalia/tropicalia_historico_1.html>. Acesso em: 14 maio 2013.
• E o documentário Canções do Exílio: a Labareda que Lambeu Tudo, dirigido pelo jornalista Geneton Moraes
Neto. Disponível em: <www.videotecas.armazemmemoria.com.br/Video.aspx?videoteca=Mg==&v=Njk=>.
Acesso em: 14 maio 2013.

A gRAmáTicA
DO TExTo
OS EFEITOS DO DESLOCAMENTO NA CONSTRUÇÃO DO TEXTO
TRUÇ
///////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
Iara Venanzi/kino.com.br

n Disponível em: <www.proteste.org.br/casa/nc/noticia/pilhas-e-baterias-novas-regras-para-uso-e-descarte>. Acesso em: 25 fev. 2013.

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REgênciA cAPÍTULo 2

Os sintagmas, como já foi comentado, têm uma posição física convencional dentro da oração, da frase.
Assim, em português, as estruturas básicas dos sintagmas têm a seguinte ordem:

SAdv

SN + SV
SAdv(p)
SAdj
DET nc
nc SN
SAdj(p)

SN(p)

SAdj

Entretanto, nem sempre essa ordem é empregada. Muitas vezes, intencionalmente, deslocam-se os sin-
tagmas para enfatizá-los e destacá-los. Observe o enunciado da manchete da página anterior: o sintagma
Pilhas e baterias está deslocado e, consequentemente, em destaque. A ideia é valorizar o sintagma, já que é
o assunto da notícia.
Vamos colocá-lo na ordem convencional:

Regras para uso e descarte de pilhas e baterias

No título da matéria, o sintagma preposicional “de pilhas e baterias” foi deslocado, e a preposição, omitida.
Esse deslocamento produz um efeito de sentido, destacando “pilhas e baterias” como tema, seguido de dois-
-pontos. A ordem convencional não apresentaria o destaque topicalizado de “pilhas e baterias”. O sintagma
nominal “regras para uso e descarte”, como aparece no título da matéria, é restritivo, pois especifica o tópico
“pilhas e baterias”.
O deslocamento de sintagmas é um importante recurso expressivo da linguagem literária. Observe como
esse recurso é trabalhado em um famoso poema do Modernismo brasileiro:

No meio do caminho tinha uma pedra


tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
n ANDRADE, Carlos Drummond de. No meio do caminho. In:
Carlos Drummond de Andrade – obra completa. 2. ed. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967. p. 61.

Ao deslocar o SAdv(p) com valor circunstancial de lugar, o poeta ora valoriza o onde, ora a existência
da pedra.
Nos primeiros versos da letra do Hino Nacional também há um caso clássico de deslocamento de
sintagmas:

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas


De um povo heroico o brado retumbante

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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

Na ordem direta, a oração seria:

Reprodução/Museu Paulista da USP, São Paulo, SP.


As margens plácidas do Ipiranga
ouviram o brado retumbante de um
povo heroico.
Esses deslocamentos resultam na
valorização do verbo (ou seja, da ação)
e, pelo ritmo da leitura, do sintagma
nominal “brado retumbante”, ou seja,
do grito dado por D. Pedro I próximo às
margens do riacho do Ipiranga (lem-
brando que retumbante faz a rima dos
primeiros quatro versos com instante). n Independência ou morte, de Pedro Américo (1888).

, POSIÇ NÇ
SINTAGMAS, POSIÇÕES E FUNÇÕES
//////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Alguns sintagmas podem exercer diversas funções dentro da oração (sujeito, complemento verbal, predi-
cativo, adjunto adnominal, etc.). Para determinar a função que um sintagma está exercendo, é preciso observar
o relacionamento estabelecido com os outros elementos e sintagmas da oração e a posição que ocupa nela.
Considere os seguintes enunciados:

Reprodução/Revista Quem Acontece, n. 170, 12 dez. 2003


1825:
o homem separa o titânio
dos demais elementos.

2003:
o titânio separa o homem
dos demais elementos.

n Publicidade de uma marca de celular.

Nessas orações ocorre um jogo em que dois sintagmas nominais trocam de posição (“o homem” e “o titâ-
nio”), mas continuam se relacionando com um mesmo elemento (separa). Observando a relação que estabele-
cem com o verbo e a posição que ocupam no enunciado, percebe-se que eles exercem funções diferentes.
No primeiro caso, o sintagma nominal “o titânio” é parte integrante do sintagma verbal “separa o titânio
dos demais elementos”, na função de objeto. Nessa oração, o sintagma nominal “o homem” é o sujeito da forma
verbal “separa”.
No segundo caso, pelo contrário, o sintagma nominal “o titânio” exerce a função de sujeito de “separa” e o
sintagma nominal “o homem” é parte integrante do sintagma verbal “separa o homem dos demais elementos”.
Nos dois casos, é possível atribuir a função de cada sintagma, seguindo a ordem convencional da oração
em português. Se a disposição dos sintagmas na oração não fosse a convencional – por exemplo: “Separa o
homem o titânio” ou “Separa o titânio o homem” –, não poderíamos asseverar quem pratica a ação e quem a
sofre, que sintagma nominal exerce a função de sujeito e qual exerce a de objeto. O enunciado seria ambíguo.
Portanto, em certos casos, é recomendável evitar ambiguidades em favor da clareza do texto.
No caso específico do texto publicitário, o jogo dos sintagmas foi realizado com a intenção de provocar
um efeito estético e persuasivo, visando enaltecer e particularizar um produto (o produto descoberto pelo
homem) e seu usuário (aquele homem que usa o produto de titânio), destacando-os dos demais (titânio ≠
demais elementos; homem ≠ demais elementos). O paralelismo traz a ideia de que a pessoa que possui o
produto de titânio se diferencia das demais, e induz a necessidade da aquisição do produto, objetivo de todo
texto publicitário.
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REgênciA cAPÍTULo 2

FALSAS EQUIVALÊNCIAS
////////////////////////////////////////////////////////////////////////

A importância de comer antes e após o treino; aprenda pratos saborosos


A alimentação fornece energia e ajuda no processo de recuperação muscular.
Fisioterapeuta adepta da alimentação saudável dá dicas de pratos
n Disponível em: <http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/correria/noticia/2012/09/importancia-de-comer-antes-e-apos-o-treino-aprenda-pratos-saborosos.html>.
Acesso em: 25 fev. 2013.

Ao coordenar termos ou orações, é preciso considerar a regência das palavras que estão conectadas:

“A importância de comer antes e após o treino”

exige a preposição de não exige preposição


(antes do treino) (após o treino)

Cuidado ao entrar e sair do ônibus.

exige a preposição em exige a preposição de


(entrar no ônibus) (sair do ônibus)

Nesses casos, há uma falsa equivalência, pois os elementos não possuem a mesma regência. Veja a
diferença:
O desempenho dos participantes será comparado antes e depois do treino de manipulação.
O desempenho dos participantes será comparado antes do treino e após ele.
Cuidado ao entrar no ônibus e sair dele.

AS ALTERAÇÕES DE REGÊNCIA CRISTALIZADAS NA FALA


Ç

Divulgação/Hammacher Schlemmer
Seu cão já pode se sentar na mesa de jantar
Empresa inventa cadeira que deixa o cachorro comer com
os donos durante as refeições
n Disponível em: <http://noticias.r7.com/esquisitices/noticias/
seu-cao-ja-pode-se-sentar-na-mesa-de-jantar-20100312.html>.
Acesso em: 20 fev. 2013.

Advogado impedido de se sentar na mesa de audiência por estar sem gravata será indenizado
Lei não obriga advogado a usar gravata em audiência
n Disponível em: <www.atmp.org.br/noticias/mostranoticias.asp?id=178>.
Acesso em: 25 fev. 2013.

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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

Ora por eufonia – sonoridade agradável ao ouvido –, ora por associações de sentido – sentar na cadeira,
sentar no chão, sentar na mesa –, algumas expressões consagradas contradizem a regência prescrita na gramá-
tica normativa e driblam o significado de algumas preposições:
sentar na mesa no lugar de sentar à mesa

sobre, em cima próximo

entregar a domicílio no lugar de entregar em domicílio



por associação: entregar algo a alguém lugar

vou no cinema no lugar de vou ao cinema



lugar movimento

namoro com ela no lugar de namoro ela



companhia, associação, adição

Atividades

Vamos fugir
Vamos fugir Vamos fugir
Deste lugar, baby Proutro lugar, baby
Vamos fugir Vamos fugir
Tô cansado de esperar Pronde haja um tobogã
Que você me carregue Onde a gente escorregue
Todo dia de manhã
Vamos fugir Flores que a gente regue
Proutro lugar, baby Uma banda de maçã
Vamos fugir Outra banda de reggae
Pronde quer que você vá n Versão de Gilberto Gil de "Gimme Your Love", de Gilberto Gil e Liminha, 1984.
Que você me carregue GIL, Gilberto. Todas as letras. Org. Carlos Rennó.
São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 287.

Pois diga que irá


Irajá, Irajá
EA Music

Pronde eu só veja você


Você veja a mim só
Reprodução/W

Marajó, Marajó
Qualquer outro lugar comum
n Capa do CD
Outro lugar qualquer
Raça Humana, de
Guaporé, Guaporé Gilberto Gil, 1984.
Qualquer outro lugar ao sol
Outro lugar ao sul
Céu azul, céu azul
Onde haja só meu corpo nu
Junto ao seu corpo nu

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REgênciA cAPÍTULo 2

1. A letra que você leu está associada a uma melodia bastante marcante (impossível lê-la sem cantar...). O
ritmo obtido pelo compositor resulta de uma combinação sintática perfeita e da tonicidade de algumas
palavras. Faça um comentário sobre essa tonicidade, principalmente observando as palavras finais dos
versos e as vogais empregadas.

2. Releia os dois primeiros versos da canção: “Vamos fugir / Deste lugar, baby”.
a) Nesse trecho, há um sintagma verbal. Como ele está composto?
b) Que tipo de sintagma é baby? Qual é sua função no enunciado?
c) O que expressa o enunciado? Justifique o emprego de baby.

3. Observe os seguintes versos:


“Pronde eu só veja você
Você veja a mim só”

a) Comente as funções sintáticas dos sintagmas nominais do primeiro verso e explique o que acontece
com eles no segundo.
b) No primeiro verso fica claro que o sintagma adverbial só é um circunstancial que modifica o núcleo do
sintagma verbal. No entanto, sua segunda ocorrência é ambígua. Explique em que consiste essa ambi-
guidade.

4. Observe o seguinte sintagma verbal “Onde haja só meu corpo nu” e:


a) assinale os subconjuntos nele contidos;
b) comente as funções que exercem dentro do sintagma verbal.
c) Por que não há sujeito explícito nem implícito para o núcleo do sintagma verbal?

5. Fazendo uso do eixo paradigmático, observe as substituições possíveis para a seguinte oração, que faz
parte de um sintagma verbal, e responda: que função sintática está exercendo a oração “que irá”?

Diga que irá

isso

6. O texto está escrito na primeira pessoa do singular, o que se comprova pelos verbos e pronomes; há, por-
tanto, a voz de um eu lírico. Esse eu lírico é feminino ou masculino? Justifique.

7. Nos últimos versos, há uma sequência de sintagmas nominais cujos núcleos são tobogã, flores, banda [de
maçã], banda [de reggae], completando o sentido do verbo haver (haja):

“Pronde haja um tobogã


Onde a gente escorregue
Todo dia de manhã
Flores que a gente regue
Uma banda de maçã
Outra banda de reggae”

a) Qual é a intenção do emprego dessa sequência?


b) Considerando que o sintagma nominal “Todo dia de manhã” exerce uma função adverbial, exprimindo
uma circunstância, por quais outras unidades linguísticas poderia ser substituído, exprimindo o mesmo
tipo de circunstância?
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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

1. (FGV-RJ) A frase que está correta, tendo em vista a Explique as diferentes regências do verbo “comba-
sintaxe de regência, é: ter” e as decorrentes produções de sentido no con-
texto em que se inserem:
a) Os jovens não veem a hora de inserir-se ao mer-
cado de trabalho. “Combateremos a sombra. Com crase e sem crase.”
b) A falta de informações econômicas seguras nos 4. (UFV-MG)
induz a que planejemos nosso futuro. Não nos expomos mais a espetáculos ridícu-
c) Lia, com frequência, textos barrocos, estilo que los, tais como o deslocamento maciço de torcedo-
ele era um fervoroso adepto. res fanáticos para concursos de misses aos quais
d) Há políticos que têm tendência por aderir sem- ninguém, a não ser nós, dava importância.
pre pelos partidos que estão no poder.
Das alterações processadas na passagem em des-
e) Nota-se uma melhoria nos serviços de saúde taque, aquela em que há erro de regência é:
pelos quais a população carente não tinha a) ... pelos quais ninguém, a não ser nós, se interes-
acesso. sava tanto.
2. (Ufscar-SP) Em Tenho ódio mortal dos mosquitos, b) ... aos quais ninguém, a não ser nós, se referia
usa-se a preposição de para ligar a palavra ódio à tanto.
palavra mosquitos. Poderia, se quisesse, ter usado c) ... dos quais ninguém, a não ser nós, simpatizava
a e escrever: Tenho ódio mortal aos mosquitos. tanto.
Trata-se da opção por uma determinada regência d) ... com os quais ninguém, a não ser nós, se dis-
nominal. traía tanto.
a) Leia os três trechos a seguir e diga em qual deles e) ... sobre os quais ninguém, a não ser nós, conver-
é possível empregar indiferentemente de ou a. sava tanto.
I. Eu, que tinha ódio ao menino, afastei-me de
ambos. 5. (FGV-SP) Assinale a alternativa em que há erro de
(Machado de Assis, Memórias póstumas de regência verbal.
Brás Cubas.) a) Os padres das capelas que mais dependiam do
dinheiro desfizeram-se em elogios à garota.
II. O ódio a Bill Gates se explica com uma pala-
vra bem arcaica e bem humana: inveja. b) As admoestações que insisti em fazer ao rábula
acabaram por não produzir efeito algum.
(Folha de S.Paulo, 2/7/2008.)
c) Nem sempre o migrante, em cujas faces se refle-
III. O desejo de um conde por uma jovem des- tia a angústia que lhe ia na alma, tinha como
perta o ódio da mulher do nobre. resolver a situação.
(Folha de S.Paulo, 11/8/2008. Adaptado.)
d) Era uma noite calma que as pessoas gostavam,
b) Explique o porquê da sua escolha anterior. nem fria nem quente demais.
e) Nem sempre o migrante, cujas faces refletiam a
3. (UFF-RJ) angústia que lhe ia na alma, tinha como resolver
O PACOTE a situação.
DO GOVERNO
É TÃO
6. (UFPR) Preencha convenientemente as lacunas das
frases seguintes, indicando o conjunto obtido.
GRANDE QUE
1. A planta * frutos são venenosos foi derrubada.
TAPOU O SOL.
COMBATEREMOS 2. O estado * capital nasci é este.
A SOMBRA. 3. O escritor * obra falei morreu ontem.
COM CRASE E 4. Este é o livro * páginas sempre me referi.
SEM CRASE 5. Este é o homem * causa lutei.
n Nani, Vereda tropical. a) em cuja, cuja, de cuja, a cuja, por cuja
b) cujos, em cuja, de cuja, cujas, cuja
A prática da gramática não deve estar desvinculada
da percepção das diferenças na produção de senti- c) cujos, em cuja, de cuja, a cujas, por cuja
do, encaminhadas pela língua no processo de d) cujos, cuja, cuja, a cujas, por cujas
comunicação. e) cuja, em cuja, cuja, cujas, cuja

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3
A COOrdenAçãO CAPÍTULO 3

CAP Í T U L O 3

A coordenação
A máquina de fazer ouro
Pegue água do mar, adicione um ingrediente especial, espere um pouco e voilà:
está pronto o ouro. [...]
[...] Atualmente, o processo não é rentável, porque custa muito caro extrair o clo-
reto de ouro dos oceanos (é preciso processar 1 milhão de litros de água para obter
0,5 g da substância). Na prática,

G.L. Kohuth/Divulgação/Arquivo da editora


se gasta mais para conseguir o
cloreto do que o valor comercial
do ouro produzido. Mas, segundo
Brown, o método pode ser aper-
feiçoado. E, quem sabe, tornar
ricos esses novos alquimistas que
estão chegando.
n Revista Superinteressante, Abril, ed. 315, fev. 2013, p. 15.

n Instalação criada por Kazem Kashefi,


microbiologista, e Adam Brown, professor de
arte, que mostra um processo de fazer ouro.

A língua nos oferece inúmeros recursos e variadas combinações para nossa expressão: encadeamos, intercalamos,
confrontamos e até hierarquizamos ideias para transmitir uma mensagem. Analise o texto de divulgação científica acima.
No lead, remetendo o leitor ao gênero textual receita, há uma sequência de orientações coordenadas, as primeiras sem
conjunção e a última com a conjunção e. É interessante notar que a coordenação entre elas traz uma noção sequencial
progressiva (poderíamos inserir “primeiro pegue...”, “depois adicione...”, “finalmente espere...”). Dessa forma, a
conjunção e, mais do que uma noção aditiva, estabelece uma relação de desfecho.
No corpo da notícia, há uma oração que explica porque o processo não é rentável; curiosamente, o fragmento entre
parênteses funciona como explicação da oração explicativa. O mesmo acontece com o período seguinte, introduzido
pelo sintagma adverbial “na prática”, que antecipa uma explicação menos científica.
Já a oração introduzida com a conjunção mas estabelece uma relação de contraste com os períodos anteriores e vem
reforçada pela menção da fonte de autoridade (Brown, um dos criadores da máquina). Finalmente, o último período,
por meio da conjunção e, estabelece uma coordenação aditiva com “o método pode ser aperfeiçoado”, já que
percebemos uma elipse em “[o método pode] tornar ricos esses alquimistas...”.

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PArTe 1 A grAmáTiCA dOs TexTOs

A grAmáTiCA
DA FrAse

PERÍODO SIMPLES E PERÍODO COMPOSTO


//////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Já sabemos que período é a frase constituída por uma ou mais orações, formando um todo com sentido
completo. Sabemos mais: o período pode ser simples ou composto.
O período simples é constituído de apenas uma oração (chamada oração absoluta):

Atualmente, o processo não é rentável.

O período composto é constituído de duas ou mais orações:

oração oração

Atualmente, o processo não é rentável, porque custa muito caro a extração do cloreto.

Vamos nos fixar no último exemplo. Nele, há um período formado por duas orações. E mais: orações inde-
pendentes, que poderiam até mesmo constituir orações absolutas:

O processo não é rentável.


A extração do cloreto custa muito caro.

A relação que se estabelece entre elas é semântica (de significação); as duas orações estão simplesmente
justapostas, coordenadas, não existindo subordinação sintática entre elas. A esse tipo de período chamamos
período composto por coordenação.
Observe, agora, o seguinte período:

Quando é colocada em contato com o cloreto, a bactéria se alimenta dele.

Nele, pode-se reconhecer uma outra situação. A primeira oração (“Quando é colocada”) não tem sentido
completo, estando diretamente ligada à segunda e dependente desta (daí ser chamada de subordinada): ela
exprime uma circunstância temporal, desempenhando a função de adjunto adverbial de tempo.
Já a oração “a bactéria se alimenta dele”, além de servir de suporte à oração subordinada, não desempenha
nenhuma função sintática em relação à outra oração, sendo, por isso, chamada de oração principal. A esse tipo
de período chamamos período composto por subordinação.
As duas situações anteriormente citadas podem aparecer num mesmo período, denominado período com-
posto por coordenação e subordinação. Veja este exemplo:
or. principal (em relação à 1a)/
or. subord. or. principal/or. coord. or. coord. (em relação à 2a)

Quando é colocada em contato a bactéria se alimenta dele e excreta ouro puro.


com o cloreto,

Assim, entre a primeira oração e as duas seguintes estabelece-se uma relação de subordinação (a primeira é
subordinada à segunda e à terceira; a segunda e a terceira são orações principais em relação à primeira); entre a
segunda e a terceira, a relação é de coordenação (lembrando que no período composto por coordenação não há
oração principal, já que não há subordinação sintática entre as orações).
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A COOrdenAçãO CAPÍTULO 3

PERÍODO COMPOSTO POR COORDENAÇÃO


Ç
Orações coordenadas sindéticas e assindéticas

O adjetivo sindético deriva do substantivo síndeto, que vem do grego e significa “o que serve para ligar, unir”. Portanto, a oração coordenada
ligada por uma conjunção é sindética. Se não apresentar conjunção, a oração é assindética (o prefixo a indica ausência).

Considere o seguinte texto:

O pai lia o jornal – notícias do mundo. O telefone tocou tirrim-tirrim. A mocinha, filha dele, dezoito, vinte,
vinte e dois anos, sei lá, veio lá de dentro, atendeu: Alô. Dois quatro sete um dois cinco quatro. Mauro!!!
n FERNANDES, Millôr. O evento. In: Novas fábulas fabulosas. 2. ed. Rio de Janeiro: Nórdica, 1978. p. 68 (fragmento).

Nele, percebemos que a coordenação entre duas ou mais orações pode ser feita por simples justaposição, sem
o emprego de uma conjunção (nesse caso, a pontuação funciona como elemento conector), como ocorre em:

“[...] A mocinha, filha dele, dezoito, vinte, vinte e dois anos, sei lá, veio lá de dentro, atendeu: Alô. [...].”

Nesses casos, as orações coordenadas são assindéticas, não são ligadas por conjunção.
As orações coordenadas assindéticas não comportam classificação, embora percebam-se diferentes rela-
ções entre elas:
• de somatória em: “Vim, vi, venci”.
• de adversidade em: Eles partiram, eu fiquei.
• de explicação em: Chegue mais cedo, precisamos conversar.
Já as orações sindéticas, dependendo da relação semântica que as une, classificam-se em: aditivas, adver-
sativas, alternativas, conclusivas e explicativas. Essa relação semântica vem, via de regra, explicitada pela con-
junção que as introduz.

Classificação das orações coordenadas sindéticas


As orações coordenadas sindéticas são classificadas em:
• Oração coordenada sindética aditiva: a ideia encerrada na oração coordenada aditiva soma-se à ideia encerrada
na oração anterior; vem introduzida por conjunção aditiva, que exprime ideia de adição, de soma. É o caso mais
típico de coordenação, em que as orações se apresentam independentes. As principais são e e nem:
A mocinha atendeu o telefone e falou com seu amigo Mauro.
A mocinha não atendeu o telefone, nem falou com seu amigo Mauro.

• Oração coordenada sindética adversativa: a oração coordernada adversativa encerra uma ideia (conceito, fato
ou argumento) que se opõe à ideia encerrada na oração anterior; vem introduzida por conjunção adversativa,
que estabelece uma relação de adversidade ou de contrariedade. São elas: mas, porém, todavia, contudo,
entretanto, etc.
Mauro é amigo da moça, mas não se falam sempre.
O pai não atendeu o telefone, porém ouviu a conversa.

• Oração coordenada sindética alternativa: vem introduzida por conjunção alternativa, que indica alter-
nância ou escolha. A conjunção alternativa mais conhecida é ou (repetida ou não), aparecendo também as
conjunções bimembres: ora... ora, nem... nem, quer... quer, etc.
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PArTe 1 A grAmáTiCA dOs TexTOs

Atender o telefone ou deixá-lo tocar?


Ora lê o jornal, ora ouve o programa de rádio.
Nem era Luis, nem era Francisco, era Mauro.
A moça ou ouve música ou lê um livro no tempo livre.
• Oração coordenada sindética conclusiva: a oração coordenada conclusiva encerra uma conclusão em relação ao
que é dito na oração anterior; vem introduzida por conjunção conclusiva, que estabelece uma relação de conclusão,
resultado, efeito, consequência. As principais são: logo, portanto, assim, por isso, pois (quando vem depois do verbo).
Parafraseando Descartes: Canto, logo existo.
Crio música, portanto sou compositor.
O público está inquieto; é preciso, pois, cautela.

• Oração coordenada sindética explicativa: a oração coordenada explicativa encerra uma explicação, motivo ou
razão do que foi dito na oração anterior; vem introduzida por conjunção explicativa, que liga duas orações e
estabelece uma relação de explicação ou justificativa entre elas. As principais são que, porque, pois (quando
vem antes do verbo), etc.
O CD foi bem recebido pelo público porque tem qualidade.
Não desliga o som que eu já volto.
Não se desespere, pois eu volto.

Esquematizando:
assindéticas
aditivas
adversativas
Orações coordenadas
sindéticas alternativas
n O matemático

Bettmann/Corbis/Latinstock
conclusivas
e filósofo
explicativas francês René
Descartes.

OPS!
ELAS SÃO MESMO INDEPENDENTES?!

É comum encontrarmos as orações coordenadas definidas como estruturas independen-


tes. E de fato são, já que não pertencem à estrutura de outra oração. Do ponto de vista grama-
tical, está correto. Mas, do ponto de vista semântico, não há como deixar de notar certa rela-
ção de dependência em um período composto por coordenação (relação essa que pode ser
mais ou menos intensa, dependendo do tipo de oração).
Consideremos a frase famosa de Descartes: “Penso, logo existo.”. Seria desvirtuar seu sentido (e o da premissa básica do pensamento
cartesiano) separá-la em duas unidades autônomas: eu penso; eu existo. A ideia de conclusão contida na segunda oração só pode ser
entendida se levarmos em consideração o que é dito na oração anterior. O mesmo se pode afirmar de “Ia ao cinema, mas choveu.”, em que
é nítida a dependência semântica da oração adversativa em relação à oração anterior.
Outro argumento usado para mostrar a “independência” das orações coordenadas é a alteração da ordem em que elas
aparecem, sem alterar o sentido do período. Correto! Isso vale, por exemplo, para a sequência “Gosto de poesia e gosto de
música.” (Ops! Será que colocar primeiro “poesia” e depois “música” não é revelador???). Pensemos, agora, na famosa frase do
imperador romano Júlio César: “Vim, vi, venci.”.
Contrariando a teoria, essas orações assindéticas só poderiam estar nessa ordem, já que há uma sequência cronológica:
primeiro eu vim, depois eu vi (não daria para ver antes de chegar) e, na sequência, eu venci. O mesmo ocorre nesta passagem
do romance Budapeste, de Chico Buarque: “Cobri o texto com as mãos e fui removendo os dedos a cada milímetro, fui abrindo
as palavras letra a letra [...].” Ou, ainda, voltando para o texto de divulgação científica da abertura, seria possível alterar a ordem de
“Pegue água do mar”, “adicione um ingrediente especial”, “espere um pouco”?

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A COOrdenAçãO CAPÍTULO 3

Atividades

O homem que se endereçou


Apanhou o envelope e na sua letra cuidadosa subscritou a si mesmo:
Narciso, rua Treze, nº 21.
Passou cola nas bordas do papel, mergulhou no envelope e fechou-se. Horas mais
tarde a empregada colocou-o no correio. Um dia depois sentiu-se na mala do carteiro.
Diante de uma casa, percebeu que o funcionário tinha parado indeciso, consultara o
envelope e prosseguira. Voltou ao DCT, foi colocado numa prateleira. Dias depois, um
novo carteiro procurou seu endereço. Não achou, devia ter saído algo errado. A carta
voltou à prateleira, no meio de muitas outras, amareladas, empoeiradas. Sentiu, então,
com terror, que a carta se extraviara. E Narciso nunca mais encontrou a si mesmo.
n BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O homem do furo na mão & outras histórias. 11. ed.
São Paulo: Ática, 2009.

1. Sobre o conto de Loyola Brandão, podemos afirmar que se trata de uma narrativa fantástica que dialoga
com uma outra mitológica.
a) Por que podemos considerá-lo um conto fantástico?
b) A partir do verbete sobre Narciso, que tipo de diálogo intertextual o conto estabelece com a mitologia?

NARCISO – Era filho do deus-rio Cefiso, e de uma Ninfa. Desprezava o amor, embora as Ninfas
o perseguissem, enamoradas dele. Houve uma, Eco, que se apaixonou de tal maneira pelo belo man-
cebo, que emagreceu a ponto de só restarem os ossos e a voz. Conta-se que Nêmesis se encarregou
de vingar as mulheres des-
prezadas. Um dia fez com que

Museu Nacional, Liverpool, Inglaterra/The Bridgeman Art Library/Keystone


Narciso contemplasse o reflexo
de seu rosto nas águas de uma
fonte, onde fora se refrescar.
Insensível a tudo o mais, ali
ficou o moço, extasiado diante
da beleza do rosto que via no
fundo da água. E assim perma-
neceu até morrer. No lugar onde
ele morreu brotou uma flor que
se chamou narciso.
n GUIMARÃES, Ruth. Dicionário da mitologia grega.
São Paulo: Cultrix, 1972. p. 228. n Eco e Narciso, de John William Waterhouse (1903).

2. Os acontecimentos relacionados com o personagem Narciso do conto estão situados no mundo moderno
e se relacionam com o âmbito dos serviços postais. Identifique os termos associados a esse âmbito.

3. Considere a frase: “Narciso, rua Treze, nº 21.”


a) Há, no enunciado, um exemplo de aposto de especificação (o aposto aparece ligado ao substantivo
diretamente). Aponte-o.
b) Leia as orientações atuais da empresa de Correios e comente os problemas que a carta de Narciso teria hoje.
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PArTe 1 A grAmáTiCA dOs TexTOs

1.1. ELEMENTOS BÁSICOS COMPONENTES DO ENDEREÇO


O endereçamento adequado começa pela forma de tratamento de cortesia, seguindo-se pelos elementos
descritos abaixo, na seguinte ordem:
a) Nome do Destinatário
b) Tipo do Logradouro + Nome do Logradouro + Número do Lote + Complemento (se houver)
c) Nome do Bairro
d) Nome da Localidade + Sigla da Unidade da Federação
e) CEP

FORMATOS DOS DADOS NO ENDEREÇO


Destinatário (Anverso)

SELO

Marina Costa e Silva


Rua Afonso Camargo, 805
Santana
Guarapuava - PR
8 5 0 7 0- 2 0 0
RPC

Remetente (Verso)

José Romeu Albuquerque


Remetente:
Rua Itabaiana, 198 – Frei Paulo - SE
Endereço:

4 9 5 1 0-0 0 0

n Disponível em: <http://www.correios.com.br/servicos/cep/cep_formas.cfm>. Acesso em: 29 mar. 2013.

c) No portal da ECT, consta que no envio de uma carta não comercial o serviço inclui “Entrega domiciliária”
e “Devolução automática ao remetente, no caso de não entrega”. De que forma esse dado poderia mudar
o destino do personagem se ele tivesse preenchido corretamente os dados do remetente?

4. Observe o período “Passou cola nas bordas do papel, mergulhou no envelope e fechou-se.”
a) Classifique as relações existentes entre as orações que o compõem, levando em conta a presença e a
ausência de conjunção e a relação semântica estabelecida entre elas.
b) Identifique um fragmento do conto no qual apareça um caso equivalente e justifique.
c) Que efeito provoca a predominância do processo de coordenação na construção do texto?
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A COOrdenAçãO CAPÍTULO 3

5. Considere os sintagmas “horas mais tarde”, “um dia depois” e “dias depois”.
a) Qual é sua função sintática nos enunciados em que aparecem?
b) Qual é sua função dentro da narrativa?
c) O que indica o “então” em “Sentiu, então, com terror, que a carta se extraviara”?

6. Caetano Veloso escreveu:


“É que Narciso acha feio o que não é espelho”

a) É possível afirmar que o Narciso do conto quebrou seu espelho? Por quê?
b) Que expressão confirma isso no último período? Por quê?

A grAmáTiCA
DO TexTO

A CLASSIFICAÇÃO DAS ORAÇÕES


COORDENADAS ASSINDÉTICAS CONTEXTUALIZADAS
///////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

© Laerte/Acervo do cartunista
n LAERTE. Piratas do Tietê. Folha de S.Paulo, São Paulo, 5 mar. 2004. p. E19.

As orações coordenadas assindéticas não possuem classificação porque não há explicitação textual da
relação que elas estabelecem no período. No entanto, quando contextualizadas, observam-se relações
de sentido.
No último quadrinho acima, por exemplo, existe uma relação de conclusão que une a última oração à anterior:
(logo)

Esse vidro é blindado, o sr. vai machucar os punhos...


Dessa maneira, embora não sejam introduzidas por conjunção, as orações coordenadas assindéticas
podem ser classificadas segundo o seu contexto. Veja alguns exemplos:
Esse vidro é blindado, o sr. não tem luvas de proteção, o Sr. vai machucar os punhos...

(e) (logo)

Esse vidro é blindado, o sr. é muito forte, o Sr. não vai machucar os punhos...

(mas) (e)

Esse vidro é blindado, às vezes entra gente armada...

(porque)

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PArTe 1 A grAmáTiCA dOs TexTOs

A CONJUNÇÃO UNINDO PERÍODOS



Falar em orações coordenadas sindéticas pressupõe período composto. No entanto, observam-se casos em
que aquilo que deveria ser período composto aparece fraturado, resultando em dois períodos simples. Em geral,
isso ocorre quando o falante quer valorizar a segunda oração ou estabelecer uma relação entre dois períodos
ou, às vezes, entre dois parágrafos inteiros e não apenas entre duas orações.

Aquário

durantelallera/Shutterstock/Glow Images
[...]
Um líder em matéria de ideias, você vai lançar modos e costu-
mes, e pode até escrever um livro digital e publicar na internet,
para alegria de seus inúmeros seguidores.
Mas nem só de bom papo e lindas ideias viverá você em 2013.
Saturno, seu regente, vai botar à prova sua competência pro-
fissional até 2015. [...]
n Disponível em: <http://f5.folha.uol.com.br/humanos/
1213686-veja-as-previsoes-de-barbara-abramo-para-o-signo-de-aquario-em-2013.shtml>.
Acesso em: 4 fev. 2013.

Nele há três períodos, devidamente iniciados com letra maiúscula e encerrados com ponto-final. No primeiro
período, observamos três orações coordenadas sindéticas aditivas:

Um líder em matéria de ideias, você vai lançar modos e costumes, e pode até escrever um livro digital
e publicar na internet, para alegria de seus inúmeros seguidores.

O que chama a atenção é o fato de o segundo período estar introduzido pela conjunção adversativa mas,
que estabelece uma relação de adversidade entre todo o primeiro período (que traz previsões positivas e cheias
de realizações para os aquarianos) e o segundo (que antecipa que nem tudo será positivo).
O terceiro período é simples, sem conjunção introdutória. No entanto, é possível estabelecer uma relação
semântica em relação ao segundo, levando em conta o fragmento do texto em que aparece. Nesse sentido,
poderíamos dizer que se trata de uma coordenada assindética explicativa:

Mas nem só de bom papo e lindas ideias viverá você em 2013, pois/já que Saturno, seu regente, vai
botar à prova sua competência profissional até 2015.

Polissíndeto e assíndeto
Já sabemos que uma oração coordenada introduzida por conjunção é sindética; se não apresentar o conec-
tivo é assindética. Posto isso, fica mais fácil entender o polissíndeto e o assíndeto. Veja:
• Polissíndeto (poli = muitos, diversos) é uma figura de sintaxe caracterizada pela repetição das conjunções,
notadamente das aditivas. Observe como Vinícius de Morais a explora no poema “O olhar para trás”, intensi-
ficando o clima de ansiedade, o passar do tempo, o fluir:

E o olhar estaria ansioso esperando


Ulhôa Cintra/Arquivo da editora

e a cabeça ao sabor da mágoa balançando


e o coração fugindo e o coração voltando
e os minutos passando e os minutos passando...
n MORAIS, Vinícius de. Obra poética. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1968. p. 121.

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A COOrdenAçãO CAPÍTULO 3

• Assíndeto (a- = indica ausência) é uma figura de sintaxe caracterizada pela ausência, omissão das conjunções
coordenativas. Observe como Caetano Veloso a explora neste trecho da música “Chuva, suor e cerveja”, inten-
sificando o ritmo, dando velocidade à sequência de verbos, “indo ladeira abaixo”:

e vamos embora ladeira abaixo

Ilustrações: Ulhôa Cintra/Arquivo da editora


acho
que a chuva ajuda a gente a se ver
venha
veja
deixa
beija
seja
o que Deus quiser
n Disponível em: <http://msn.todascifras.com.br/t/354848/
caetano-veloso-chuva-suor-e-cerveja-letra>.
Acesso em: 4 fev. 2013.

Observe, agora, como Marina Colasanti explora, no conto “A moça tecelã”, o polissíndeto e o assíndeto,
alterando o ritmo da narrativa. Num primeiro momento, ao descrever o trabalho da moça tecelã, a escritora
emprega o polissíndeto:

Dias e dias, semanas e meses trabalhou a


moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas,
e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não
tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava,
e ela não tinha tempo para arrematar o dia.
Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam
os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
n COLASANTI, Marina. A moça tecelã. In: Doze reis e a moça no labirinto do vento.
São Paulo: Global, 1999. p. 15.

No início do parágrafo há uma gradação crescente: dias e dias, semanas e meses. Essa gradação explora
um elemento da narrativa – a passagem do tempo – associado à condição da personagem: o tempo que a
moça trabalhou para seu marido, bordando tudo que ele desejava e se tornava real. Tanto a gradação como as
coisas que ela tecia e o passar do tempo são intensificados pela reiteração da conjunção aditiva e. Relendo o
parágrafo inteiro e reunindo a gradação e o polissíndeto em uma única ideia, percebe-se que a expressividade
do texto atinge o seu grau máximo e que o polissíndeto imprime um ritmo mais arrastado ao texto.
Em outra passagem do conto, há, em situação diametralmente inversa à apresentada no parágrafo ante-
rior, um assíndeto. Essa figura ocorre, agora, na parte do texto em que acompanhamos a desconstrução de
todos os bens acumulados; seria então totalmente extemporânea a repetição da conjunção aditiva (que indica
adição, soma). A moça imprime um ritmo veloz à sua ação, e a ausência da conjunção acelera o ritmo da leitura:

Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de


um lado para outro, começou a desfazer o seu tecido.
Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins.
n COLASANTI, Marina. A moça tecelã. In: Doze reis e a moça no labirinto do vento.
São Paulo: Global, 1999. p. 16.

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PArTe 1 A grAmáTiCA dOs TexTOs

Atividades
1. Antes de ler o texto completo da revista de divulga-

Lucas Conrado Silva/Ciência Hoje RJ



ção científica Ciência Hoje, detenha sua atenção no
primeiro terço da página.
a) Qual é a função do texto não verbal?
b) Qual é a função da linha rubro-negra no alto com
o texto “genômica”?
c) Que características tem o título? Por quê?
d) De que forma o lead retoma e amplia o título?
e) Que áreas estão envolvidas no assunto a ser
comentado pela matéria da revista?

Leia a matéria e confirme ou não as respostas da atividade 1.

Imagine um time de futebol em que cada jogador tivesse uma carga de treinamentos personalizada.
Além da posição do jogador e de suas habilidades, os exercícios seriam também determinados por sua gené-
tica. É isso que propõe o estudo premiado no 1º Simpósio Brasileiro de Genômica e Esporte, realizado em
junho último na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
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A COOrdenAçãO CAPÍTULO 3

O autor do estudo, Thiago Dionísio, do Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Ciências


Fisiológicas da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar)/Universidade Estadual de São Paulo (Unesp),
analisou os genes de 100 atletas das categorias de base do São Paulo Futebol Clube. Com idade entre 13 e 20
anos, todos são moradores do centro de treinamento do clube há pelo menos um ano. “Escolhemos garotos
que moram no centro, pois eles têm a mesma alimentação, treinam de forma sistematizada e descansam de
maneira adequada”, explica Dionísio, que completa: “Queríamos evitar variáveis que pudessem influenciar
no resultado dos testes”.
Com base em linha de estudos que correlaciona o polimorfismo genético (alterações na sequência do
DNA que modificam a expressão de uma proteína) ao desempenho esportivo, o estudo se concentrou no
gene que codifica a proteína alfa actinina 3 (ACTN3). Essa proteína compõe a estrutura das fibras muscula-
res de contração rápida, que se concentram nos músculos de contração voluntária, como aqueles dos braços
e das pernas. A proteína confere ao músculo um arranjo mais firme e estruturado, condição que ajudaria os
atletas em modalidades que exigem explosão e força muscular.
A proteína é expressa quando os indivíduos apresentam os genótipos RR e RX para o gene ACTN3.
Segundo o estudo de Dionísio, 57% dos jogadores do São Paulo apresentavam o genótipo RX, 24% apresenta-
vam RR e apenas 17% dos rapazes não tinham a expressão da proteína (genótipo XX) – mesma proporção
observada na população geral, que não pratica esporte. “Queremos verificar no futuro se ocorre essa distri-
buição genotípica também nos atletas profissionais”, diz o pesquisador.
DESEMPENHOS COMPARADOS Dionísio correlacionou o resultado obtido com algumas das principais
provas realizadas em treinamentos de futebol, como salto, corrida e resistência. “Tanto os atletas com genó-
tipo RR como os com RX apresentaram melhores desempenhos nas provas de saltos quando comparados
aos XX. Os atletas com genótipo RX e XX correram distâncias maiores que os RR. E os heterozigotos RX fica-
ram num meio-termo em provas de força e resistência”, relata.
Segundo Dionísio, no futuro, os treinadores e preparadores físicos poderão utilizar esses dados para
desenvolver cargas de treino personalizadas em busca dos melhores rendimentos de cada atleta. Mas ele faz
questão de alertar: “Não é só a genética que influencia no desempenho humano. Treinamento, descanso, ali-
mentação, tática e até força de vontade podem determinar mais o sucesso de um atleta do que sua genética”.
Por isso, a proposta do estudo é conferir aos atletas condições de treinamento mais efetivas e não pro-
por uma seleção genética para futuros jogadores de futebol. “Quem garante que um atleta desprovido das
condições genéticas ideais não possa se tornar um campeão?”, questiona Dionísio.
n SILVA, Lucas Conrado.
Revista Ciência Hoje, n. 300, jan./fev. 2013, p. 51.

gÊnerO TexTUAL
Texto de divulgação científica
O texto de divulgação científica circula na esfera jornalística, mas apresenta características do
discurso científico, uma vez que vem a público para revelar resultados de pesquisas, descobertas da
ciência, curiosidades. Como não é destinado à comunidade científica e sim ao leitor leigo, apresenta
um diferencial didatizante: por meio de analogias, explicações, definições, exemplos e comparações, o
jornalista vai simplificando para o leitor conceitos ou termos que poderiam ser inacessíveis em uma
publicação especializada. O texto apresenta estratégias jornalísticas, como a busca da impessoalidade
e da objetividade para demonstrar-se neutro, além das vozes dos especialistas, cientistas, estudiosos
que legitimam as afirmações sobre os fatos, que são mostrados como se tivessem vida própria, como
se não houvesse a mediação do jornalista ao relatá-los. Dependendo do veículo nos quais são divulga-
dos, varia o grau de aproximação com o leitor; nas publicações destinadas ao público jovem, o registro
chega a ser coloquial.

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PArTe 1 A grAmáTiCA dOs TexTOs

2. Considere o primeiro parágrafo do texto.


a) Que função tem o verbo “imaginar” que abre o parágrafo?
b) De que forma contribui na construção do texto de divulgação científica?
c) Indique de que forma a mesma informação aparece mais adiante no texto.

3. Ao longo do texto, a pesquisa personificada vai cedendo espaço para o pesquisador que está por trás dela.
Identifique os trechos em que esse deslocamento acontece, levando em conta as informações presentes
no lead.

4. O jornalista que assina a matéria introduz a voz do pesquisador ao longo do texto.


a) Que recursos utiliza para fazê-lo?
b) Que informações legitimam a voz e o estudo desse pesquisador?

5. Levando em conta os verbos utilizados para introduzir a voz do pesquisador:


a) quais estão relacionados com o caráter explicativo do texto?
b) quais introduzem outros sentidos?

6. O último parágrafo, introduzido pelo conector “por isso”, indica uma relação de sentido entre esse parágrafo
e uma ideia anterior.
a) Qual é essa relação de sentido?
b) Com qual ideia se relaciona?
c) Por quais outros conectores você poderia substituir “por isso” sem alterar a relação estabelecida?

7. Entre os elementos explicativos de um texto de divulgação científica, podemos destacar o recurso da defi-
nição. Considere o terceiro parágrafo e identifique:
a) uma definição com o significado de uma palavra ou expressão técnica;
b) uma definição que introduz características distintivas de algo;
c) uma definição que introduz a função de algo.

8. Leia um fragmento do currículo do pesquisador Thiago Dionísio, publicado na Plataforma Lattes, do CNPq,
uma agência do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

Reprodução/CNPq

Escreva um pequeno texto comentando de que forma dialogam as áreas nas quais o pesquisador teve
formação. Escolha criteriosamente os conectores que empregará para estabelecer os mecanismos de cone-
xão em seu texto.
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A COOrdenAçãO CAPÍTULO 3

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

1. (Unifesp) Em – “Ficou talvez mais disponível, e o 4. (PUC-RS)


amor por Doroteia de Seixas o iniciou em ordem Todos os dias esvaziava uma garrafa, colocava
nova de sentimentos: o clássico florescimento da dentro sua mensagem, e a entregava ao mar. Nunca
primavera no outono.” – a vírgula separa orações recebeu resposta. Mas tornou-se alcoólatra.
coordenadas com sujeitos gramaticais //////////////////; n Marina Colasanti.
os dois-pontos introduzem uma //////////////////.
Os espaços devem ser preenchidos, respectivamente, O conectivo mas, que introduz a conclusão do
com: conto – tornou-se alcoólatra –, permite a seguinte
a) indeterminados ... síntese das informações interpretação:
precedentes I. A personagem tornou-se alcoólatra porque
nunca recebeu uma resposta.
b) idênticos ... ratificação das informações
precedentes II. O fato aconteceu porque a personagem escre-
veu muitas mensagens.
c) inexistentes ... retificação de informação mal
III. A solidão sem remédio tem sempre como con-
definida anteriormente
sequência o vício.
d) distintos ... explicação de informação anterior
IV. Esvaziou muitas garrafas. Enviou muitas men-
e) ocultos ... citação sagens. Não recebeu resposta. Mas, como tinha
bebido todos os dias, tornou-se alcoólatra.
2. (UFJF-MG)
As mudanças na sociedade contemporânea Analise as afirmações e, a seguir, assinale a alterna-
evidenciam que esse fenômeno, a guarda com- tiva correta.
partilhada, é não somente comum, mas salutar a) Somente a afirmação IV está correta.
pela convivência multifamiliar e seus arranjos, b) Somente a afirmação I está correta.
porém, não em todos os casos. c) Somente as afirmações I e II estão corretas.
Qual a relação sintático-semântica expressa pelos d) Somente a afirmação III está correta.
termos destacados no enunciado acima? e) Somente as afirmações II e III estão corretas.
a) consequência
5. (Faap-SP) Reescreva os períodos que seguem, de
b) oposição modo a transformá-los em um único período com-
c) comparação posto por coordenação.
d) adição Não só as condecorações gritavam-lhe do
e) condição peito como uma couraça de gritos: Ateneu! Ate-
neu! Aristarco todo era um anúncio.
3. (FGV-SP) Observe os períodos abaixo, diferentes 6. (Uerj)
quanto à pontuação.
– me dás tudo, tudo.
Adoeci logo; não me tratei. já não preciso do mundo.
Adoeci; logo não me tratei. Esses versos poderiam ser reunidos em um único
A observação atenta desses períodos permite dizer período, para expressar uma síntese do que se
que: expõe no texto. Reescreva esses dois versos em um
a) no primeiro, logo é um advérbio de tempo; no período completo, unindo-os com um conectivo
segundo, uma conjunção causal. adequado.
b) no primeiro, logo é uma palavra invariável; no 7. (UEPG-PR) Quanto à constituição sintática da sequên-
segundo, uma palavra variável. cia “Durou, doeu e incomodou”, é correto afirmar:
c) no primeiro, as orações estão coordenadas sem
01) Trata-se de um período composto por co orde-
a presença de conjunção; no segundo, com a nação.
presença de uma conjunção conclusiva.
02) Os três verbos se relacionam a um mesmo
d) no primeiro, as orações estão coordenadas com
sujeito.
a presença de conjunção; no segundo, sem con-
junção alguma. 04) É um período que contém orações in dependentes.
e) no primeiro, a segunda oração indica alternân- 08) Trata-se de um período misto, em que se observa
cia; no segundo, a segunda oração indica não só coordenação como também su bordinação.
consequência. 16) O sujeito dos verbos é o termo “bursite”.

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4
PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

cAP Í T U L o 4

A subordinação
SUS/Abraço, Betim, MG

Quem usa esteroides anabolizantes pode ter muito mais que um corpo malhado. Pode ter
impotência sexual, mau funcionamento do fígado e dos rins, problemas de crescimento,
hipertensão, além de câncer e doenças cardíacas que levam ao coma e à morte. Estes
medicamentos devem ser utilizados apenas em tratamentos de deficiências hormonais
graves e sempre com acompanhamento médico. Não os utilize sem responsabilidade.

O texto acima faz parte de uma campanha contra a automedicação. É interessante observar que o cartaz pode
ser dividido em três partes: a maior, em que prevalece o cruzamento verbo-visual (a caixa de remédio), com um
texto verbal sucinto e apelativo (o tema do cartaz/campanha, uma frase de efeito, o recado a ser dado). No canto
inferior à direita, um texto verbal (um parágrafo que retoma e amplia as informações contidas na embalagem).
Finalmente no canto à esquerda, temos quem assina o cartaz e a campanha (SUS – Sistema Único de Saúde;
Abraço – Associação Brasileira e Comunitária para a Prevenção do Abuso de Drogas; a prefeitura de Betim).
O texto que aparece na parte inferior da caixinha é um período composto por coordenação. Já no parágrafo do
canto inferior à direita (ver imagem ampliada), é necessário o emprego de períodos mais complexos, compostos
por coordenação e por subordinação.
Neste capítulo, exploraremos a subordinação na construção dos textos.

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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

A gRAmáTicA
DA FRAsE
PERÍODO COMPOSTO POR SUBORDINAÇÃO
//////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Considere o título da notícia a seguir:

Automedicação é a vilã dos casos de intoxicação, diz secretaria do ES


n Disponível em: <http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2012/03/automedicacao-e-vila-dos-casos-de-intoxicacao-diz-secretaria-do-es.html>.
Acesso em: 28 fev. 2013.

No título da notícia, há um caso de período composto por subordinação, formado por duas orações:
Automedicação é a vilã dos casos de intoxicação
diz secretaria do ES
Na ordem direta:
[A] secretaria do ES diz [que] automedicação é a vilã dos casos de intoxicação.
Assim, voltando ao texto original, percebemos que a oração “diz secretaria do ES” não é termo da outra
oração, ou seja, essa oração não desempenha nenhuma função sintática em relação à anterior, daí ser chamada
de oração principal. A primeira, no entanto, desempenha uma função sintática em relação à que consideramos
oração principal, sendo, portanto, uma oração subordinada na função de objeto direto.
Esse período composto por subordinação está estruturado da seguinte forma:
• oração principal: “diz secretaria do ES”
• oração subordinada: “Automedicação é a vilã dos casos de intoxicação,” desempenhando a função de objeto
direto da forma verbal diz, núcleo do predicado da oração principal.
Vamos avançar um pouco mais, analisando o período seguinte:
Depois de analisar os casos de intoxicação no estado, agentes da saúde que trabalham na Secretaria
deduziram que a automedicação é a causa mais recorrente.
em que:
(a) “agentes da saúde deduziram” é a oração principal;
(b) “Depois de analisar casos de intoxicação no estado” é uma oração subordinada;
(c) “que trabalham na Secretaria” é uma oração subordinada;
(d) “que a automedicação é a causa mais recorrente” é uma oração subordinada.
Considerando que a oração principal é formada por apenas dois elementos (agentes da saúde, sujeito for-
mado pelo sintagma nominal, cujo núcleo é agentes, e deduziram, verbo transitivo, núcleo do predicado), logo
se percebe que há aí três casos distintos de subordinação.
Como o verbo deduz é transitivo direto (quem deduz, deduz algo), não tem sentido completo, pedindo um
complemento. O sentido do verbo, nesse caso, transita para o objeto direto, representado pela oração “que a
automedicação é a causa mais recorrente”. O complemento verbal, por se referir a seres, é representado por
substantivos, ou seja, é uma função substantiva da oração. Assim, a oração é subordinada (funciona como termo
de outra oração) substantiva (exerce função típica de substantivo). Veja:
sujeito v.t.d. obj. dir.

Agentes da saúde deduziram isto.


que a automedicação é a causa mais recorrente.
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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

Já a oração “que trabalham na Secretaria” refere-se ao núcleo do sintagma nominal agentes da saúde e
exerce uma função típica de adjetivo, delimitando, restringindo o significado do substantivo: não foram todos
os agentes da saúde que deduziram, nem quaisquer agentes da saúde; foram os agentes da saúde que traba-
lham na Secretaria, esses e apenas esses (a oração funciona como adjunto adnominal do sintagma nominal
agentes da saúde, sujeito da oração principal). Assim, a oração é subordinada (funciona como termo de outra
oração) adjetiva (exerce função típica de adjetivo). Veja:
sujeito adjunto adnominal núcleo do predicado

agentes da saúde da Secretaria deduziram...


que trabalham na Secretaria
Finalmente, a oração “Depois de analisar os casos de intoxicação” relaciona-se à forma verbal deduziram,
introduzindo uma circunstância de tempo, equivalendo a um advérbio. Assim, a oração é subordinada (funciona
como termo de outra oração) adverbial (exerce função típica de advérbio). Veja:
adjunto adverbial

Ontem,
No mês passado,
os agentes da saúde deduziram...
Após a análise,
Depois de analisar os casos de intoxicação,

Vimos, nesse período, a ocorrência dos três tipos possíveis de orações subordinadas. Esquematizando:

substantivas
Orações subordinadas adjetivas
adverbiais

OPS!
SUBORDINADA OU PRINCIPAL?!

Num período composto por subordinação, sempre haverá pelo menos uma oração principal. Às vezes, mais de uma! Nesses casos,
a oração tem “dupla personalidade”, ou seja, é subordinada em relação a uma principal e principal em relação a outra, subordinada.
Calma! Vamos pensar no seguinte exemplo, criado a partir da notícia que você lerá na íntegra nas próximas páginas:
A jovem intoxicada com um medicamento disse que, por momentos, teve a certeza de que morreria.
• A oração “A jovem intoxicada com um medicamento disse” é a oração principal.
• O período “que teve a certeza [de que morreria]” é a subordinada, funcionando como objeto direto da forma verbal disse.
• A oração “de que morreria”, por sua vez, se subordina à oração “que teve a certeza”, pois funciona como complemento do subs-
tantivo certeza, núcleo do objeto direto da forma verbal teve.
Assim, a oração subordinada à oração principal (que desempenha função de objeto direto da forma verbal disse) é principal
em relação à oração ”de que morreria”. É fácil de entender. Vamos resumir tudo a uma oração:
sujeito v.t.d. obj. dir. comp. nom.

A jovem sentiu a certeza da morte .


Com certeza, uma conclusão você já tirou: para compreender o período composto por subordinação, é fundamental saber analisar
sintaticamente o período simples.

Orações subordinadas substantivas


Dependendo da construção do período, as orações subordinadas substantivas podem ser introduzidas por
uma conjunção integrante ou vir simplesmente justapostas. As conjunções integrantes são duas: que (indican-
do certeza) e se (indicando dúvida, incerteza), como nos exemplos:
Os agentes da saúde sabiam que havia automedicação nos casos de intoxicação.
Os agentes da saúde não sabiam se a automedicação era a causa mais comum.
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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

As orações subordinadas substantivas são classificadas de acordo com a função sintática por elas exercida
em relação à oração principal. A Nomenclatura Gramatical Brasileira reconhece seis tipos: subjetiva, objetiva
direta, objetiva indireta, completiva nominal, predicativa e apositiva. No entanto, podemos reconhecer um séti-
mo tipo: oração subordinada substantiva na função de agente da passiva. Veja:
• Oração subordinada substantiva subjetiva: exerce a função de sujeito do verbo da oração principal.

Aconteceu que os agentes da saúde analisaram os casos de intoxicação.


Consta que se trata de uma descoberta importante na saúde pública.

Repare que a oração principal, à qual as orações subjetivas se ligam, apresenta o verbo na terceira pes-
soa do singular, já que não se estabelece concordância entre a oração subjetiva e o verbo da oração principal.
É muito comum a oração principal estar na voz passiva (Estava decidido que as pesquisas continuariam, por
exemplo) ou apresentar verbo de ligação seguido de predicativo do sujeito (É importante que tudo seja
documentado, por exemplo).

• Oração subordinada substantiva objetiva direta: exerce a função de objeto direto do verbo da oração principal.

Todos desejam que as pesquisas tragam benefícios à saúde da população.


Não sei se a automedicação será banida um dia.
Disseram que a descoberta da causa é um grande trunfo.

• Oração subordinada substantiva objetiva indireta: exerce a função de objeto indireto do verbo da oração
principal. Normalmente, é regida por preposição.

Lembre-se de que a descoberta pode trazer grandes benefícios.


A Secretaria deu parabéns a quem trabalhou na análise dos casos.

• Oração subordinada substantiva completiva nominal: exerce a função de complemento nominal. Normalmente,
é regida por preposição.

Os agentes da saúde tinham medo de que dados fossem omitidos.


A equipe da Secretaria tinha certeza de que iria encontrar a causa mais comum.

• Oração subordinada substantiva predicativa: exerce a função de predicativo, relacionando-se ao sujeito da


oração principal.

A verdade é que todos se beneficiarão com a descoberta.


O importante é que as pesquisas continuem.

Repare que, neste caso, a oração principal apresenta sempre a seguinte construção: sujeito + verbo de ligação
(sem predicativo, portanto).

OPS!
SUBJETIVA OU PREDICATIVA?!

Vamos retomar dois enunciados:


(a) É importante que tudo seja documentado.
(b) O importante é que as pesquisas continuem.
Afirmamos que em (a) há uma oração subordinada subjetiva e em (b), uma oração subordinada predicativa. Mas qual é a diferença?
A oração principal de (a) apresenta um predicado nominal (verbo de ligação + predicativo do sujeito); falta, portanto, o sujeito,
que está devidamente representado pela oração subordinada.

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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

• Oração subordinada substantiva apositiva: exerce a função de aposto, explicando, esclarecendo um substan-
tivo (ou palavra com valor de substantivo) da oração principal.

Os agentes da saúde só queriam uma coisa: encontrar a causa mais comum.


Os agentes da saúde só queriam uma coisa: que as análises apontassem a causa mais comum.

• Oração subordinada substantiva na função de agente da passiva: relaciona-se ao verbo da oração principal
(na voz passiva), designando o ser que pratica a ação.

A pesquisa foi feita por quem trabalha na Secretaria.


O público será informado pelos que participaram nas análises dos casos.

Esquematizando:
subjetivas
objetivas diretas
objetivas indiretas
Orações subordinadas substantivas completivas nominais
predicativas
apositivas
agentes da passiva

Orações subordinadas adjetivas


As orações subordinadas adjetivas são assim denominadas por terem valor de adjetivo. Observe:

Os agentes da saúde pesquisaram os casos que eram um perigo.


perigosos.

A partir disso, sob o aspecto morfossintático, a oração “que eram um perigo” está diretamente ligada ao
substantivo casos, desempenhando a função de adjunto adnominal (uma função adjetiva).
Do ponto de vista sintático, percebe-se que as orações subordinadas adjetivas geralmente são introduzidas
por um pronome relativo. É importante recordar mais um conceito: pronome relativo é anafórico, ou seja, reto-
ma um termo expresso anteriormente, por isso mesmo chamado de antecedente. No caso das orações subor-
dinadas adjetivas, o pronome relativo retoma o termo antecedente, expresso na oração principal, estabelecendo,
assim, uma relação entre as duas orações:

Os agentes da saúde pesquisaram casos que eram perigosos.

Os agentes da saúde pesquisaram casos.


[Os] casos eram perigosos.

Outro detalhe importante: diferentemente das conjunções, o pronome relativo desempenha uma função
sintática na oração adjetiva. Como é fácil de perceber, no exemplo acima o pronome relativo que desempenha
a função de sujeito na oração adjetiva: que [os casos] eram perigosos.
As orações adjetivas podem ser de dois tipos:
• Oração subordinada adjetiva restritiva: limita, especifica, restringe (daí o nome) o significado do termo ante-
cedente, introduzindo uma informação essencial para a compreensão do enunciado.

O grupo que detectou a maior parte dos casos de automedicação era formado por farmacêuticos.
Os agentes que participaram nas análises contribuíram para a realização de campanhas de prevenção.
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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

No primeiro exemplo, apenas o grupo que detectou a maior parte dos casos de automedicação, esse e
apenas esse, era formado por farmacêuticos. No segundo exemplo, apenas os agentes que participaram nas
análises, esses e apenas esses, contribuíram para a realização de campanhas de prevenção.
• Oração subordinada adjetiva explicativa: acrescenta ao termo antecedente uma informação que lhe é inerente
ou que é conhecida. É marcada por uma pausa pronunciada; na linguagem escrita, aparece isolada por vírgulas.

A automedicação, que é uma das causas mais comuns da intoxicação no Brasil, pode ser fatal.

Observe que a oração adjetiva explicativa desempenha praticamente a mesma função de um aposto (A
automedicação, uma das causas mais comuns da intoxicação no Brasil, pode ser fatal.).
Esquematizando:
restritivas
Orações subordinadas adjetivas
explicativas

OPS!
CADÊ A ORAÇÃO PRINCIPAL?! O GATO COMEU!

Já afirmamos que, num período composto por subordinação, sempre haverá pelo menos uma oração principal. Certo! Isso vale
como regra geral. Mas, às vezes, encontramos orações subordinadas adjetivas e algumas substantivas que se referem a um substan-
tivo ou adjetivo que estão “soltos”, ou seja, pertencem a um sintagma nominal e não a uma oração.
Observe o título de uma matéria jornalística:
Investimento que dá retorno
em que há um nome (investimento) seguido de uma oração subordinada. Não se trata de qualquer investimento, e sim de um
investimento com uma característica especial, distintiva: que dá retorno. Ocorre, assim, uma oração adjetiva, com o pronome rela-
tivo referindo-se a “investimento”.
Investimento que dá retorno
rentável
Ora, qual é o suporte da oração adjetiva? O substantivo, e não uma oração. Observe, agora, a seguinte construção:
Investimento rentável é o sonho de todo poupador.
Na oração – Investimento rentável é o sonho de todo poupador –, o núcleo do sujeito é representado pelo substantivo investi-
mento. O termo rentável funciona como adjunto adnominal.
Essas observações nos alertam para dois pontos:
1. quando falamos em classificações gramaticais, é preciso ter em mente que elas valem para um padrão, um modelo, mas não
dão conta da prática, do uso real da língua;
2. de nada adianta decorar listas de conjunções; o importante é refletir sobre as estruturas e procurar entender como um termo
se relaciona com o(s) outro(s) dentro de um enunciado concreto. Divulgação/Arquivo da editora

Atividades
1. Observe a capa do livro reproduzida ao lado:
a) Sem atentar para o texto verbal, o que ela sugere? O que
significa a tarja preta?
b) Levando em conta o texto verbal, qual é a relação com o
projeto gráfico?
c) Que partes do texto verbal não têm relação com a ideia
proposta pelo projeto gráfico?
d) Qual é o conteúdo do livro?
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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

2. Milongol é o nome do livro.


a) Leia os verbetes extraídos do dicionário Houaiss e comente com que acepções o título se relacionaria:

1
milonga
substantivo feminino (1899)
1 dnç mús canto e dança populares nas cercanias de Buenos Aires e de Montevidéu no final do
sXIX, inspirados na habanera cubana e no tango espanhol e absorvidos pelo tango argentino
2 ( sXX ) mús RS música platina de ritmo dolente, cantada com acompanhamento de guitarra ou
violão
2
milonga
substantivo masculino B etn
m.q. milongo (‘feitiço’)
Etimologia
segundo Nei Lopes, de milongo < quimb. milongo ‘remédio’
n Grande dicionário Houaiss da língua portuguesa. Disponível em: <http://houaiss.uol.com.br/busca?palavra=milonga>.
Acesso em: 5 mar. 2013.

b) Faça uma pesquisa que envolva a Química e o emprego de afixos e justifique o emprego do sufixo -ol
no título do livro.

3. Leia o poema “Automedicação”, de Escobar Nogueira:


Automedicação
O poeta é um doutor

Ulhôa Cintra/Arquivo da editora


sabe tanto do doente
que parece dele a dor
que é deveras do paciente

E os que leem a receita


na frase escrita não veem
não sabem que a torta letra
de uma mão torta vem.

Assim o caso piora


vira enfermo o que era são
a cura um mal se torna
o poema prescrição.
n NOGUEIRA, Escobar. Milongol. Porto Alegre: WS Editor, 2003. p. 13.

a) Em automedicação temos o prefixo auto-, com valor reflexivo, indicando que uma pessoa se medica a si
mesma, sem orientação médica. De que forma o eu poético manifesta esse valor?
b) De que forma se designa a quem precisa da receita? Qual é seu antônimo no poema?

4. A partir da leitura da primeira estrofe do poema, responda ao que se pede:


a) Qual é a relação de sentido entre o primeiro verso e o bloco formado pelos outros três? Que conectivo
poderia ser utilizado para explicitar tal relação?
b) A contração “dele” indica uma relação entre dois referentes: a coisa possuída e o possuidor. Identifique
tais referências.
c) Aponte a construção marcada pela relação de causa e consequência.
d) Qual é a função da oração do último verso? Que oposição é gerada a partir do emprego de “deveras”?
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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

5. A partir da leitura da segunda estrofe do poema, responda ao que se pede:


a) No primeiro verso, qual é a função da oração cujo núcleo é leem?
b) Delimite a oração cujo núcleo verbal é vem e identifique sua função sintática.

6. A partir da leitura da terceira estrofe do poema, responda ao que se pede:


a) Qual é a relação de sentido entre o primeiro verso e o bloco formado pelos outros três? Que nexo pode-
ria ser utilizado para explicitar tal relação?
b) Comente as relações estabelecidas pela oração “o que era são”?
c) Identifique o caso de elipse e de paralelismo presente na estrofe. Em seguida, proponha uma possibili-
dade para a inserção do termo elíptico, levando em conta a seleção lexical presente no paralelismo.

7. Na quarta capa do livro, afirma-se “Milongol propõe diagnóstico e cura das doenças do homem contempo-
râneo através da poesia”.
a) O que você acha desse tipo de “medicina alternativa”?
b) De que forma a poesia pode resultar numa medicina alternativa para os males do homem contemporâneo?
c) Escolha uma poesia “medicinal” e compartilhe com a classe.

Orações subordinadas adverbiais


As orações subordinadas adverbiais desempenham a função de adjunto adverbial. São introduzidas por con-
junções subordinativas e recebem a mesma denominação da conjunção que as introduz. No entanto, o importan-
te não é memorizar as conjunções e suas denominações, e sim compreender a circunstância expressa pela oração.
As orações subordinadas adverbiais se classificam em:
• Oração subordinada adverbial causal: exprime a causa, o motivo do que se declara na oração principal. É nor-
malmente introduzida pelas conjunções porque, que, pois, visto que, já que, etc.

Não comunicaram nada porque ainda não tinham certeza.

• Oração subordinada adverbial comparativa: constitui o segundo membro de uma comparação (evidentemen-
te, o elemento que está sendo comparado aparece na oração principal). Perceba que a estrutura da frase é a
de uma comparação; daí a possível presença de palavras como: melhor, pior, mais, menos, tanto, etc. As con-
junções que introduzem as orações comparativas são que, do que, qual, quanto, como, etc.

A análise dos casos de intoxicação foi tão importante quanto hoje é o trabalho de conscientização.

• Oração subordinada adverbial concessiva: como o nome indica, é introduzida por conjunções que exprimem
a aceitação de uma ideia, mesmo que haja restrições a ela, tais como: embora, ainda que, se bem que, con-
quanto, etc.

Embora haja indícios, ainda não se comprovou automedicação na totalidade dos casos.

• Oração subordinada adverbial condicional: é introduzida por conjunções que indicam uma condição ou hipó-
tese. A conjunção condicional mais comum é se, mas podem aparecer também desde que, salvo se, caso,
contanto que, etc.

Se houve automedicação, houve risco de vida.


Desde que as pesquisas continuem, saber-se-á mais sobre a automedicação e seus males.

• Oração subordinada adverbial final: é introduzida por conjunções que indicam finalidade, como para que, a
fim de que, de modo que, etc.

Para que se constate a automedicação como a principal causa da intoxicação no Brasil, é necessário
pesquisar mais.
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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

• Oração subordinada adverbial consecutiva: é introduzida por conjunções que indicam uma consequência do
que foi declarado anteriormente. A principal é que, formando locuções como de forma que, de modo que, de
maneira que, etc., ou relacionada a palavras expressas na oração anterior (tal, tanto, tão, tamanho):

Foi tão esperada a notícia do lançamento da campanha que todos aplaudiram.


Era tão boa a campanha que todos comemoraram.

• Oração subordinada adverbial temporal: é introduzida por conjunções que exprimem circunstância de tempo,
como quando, logo que, antes que, depois que, sempre que, etc.

Quando os dados resultaram numa campanha de conscientização, os agentes da saúde comemoraram.


Logo que informaram os resultados, todos os olhos se voltaram para um trabalho de conscientização.

• Oração subordinada adverbial proporcional: é introduzida por conjunções que indicam a ocorrência de um
fato concomitante, simultâneo, tais como enquanto, ao passo que, à medida que, etc.

Os agentes da saúde comunicavam os dados, à medida que iam sendo analisados os casos.

• Oração subordinada adverbial conformativa: é introduzida por conjunções que exprimem concordância, con-
formidade, tais como conforme, segundo, consoante, etc.

Conforme informaram à imprensa, a automedicação é a vilã dos casos de intoxicação.


Segundo afirmaram os agentes da SE, a análise e o acompanhamento dos casos de intoxicação permi-
tiram identificar a automedicação como a causa mais recorrente.

Esquematizando:
causais
comparativas
concessivas
condicionais
Orações subordinadas adverbiais finais
consecutivas
temporais
proporcionais
conformativas

Orações subordinadas desenvolvidas e reduzidas


Quanto ao tipo de construção, as orações subordinadas podem ser:
• desenvolvidas: apresentam o verbo no modo indicativo, subjuntivo ou imperativo. Além disso, apresentam
conjunção ou pronome relativo:

Leia o jornal para que saiba as últimas notícias.

• reduzidas: apresentam o verbo em uma das formas nominais (infinitivo, gerúndio ou particípio). Não são
introduzidas por conjunção nem pronome relativo; podem apresentar preposição. Assim, elas podem ser:
1. reduzidas de infinitivo:
Leia o jornal para saber as últimas notícias.
2. reduzidas de gerúndio:
Mesmo conhecendo o efeito dos medicamentos, só se deve tomá-los com acompanhamento médico.
3. reduzidas de particípio:
Terminado o medicamento, as embalagens devem ser descartadas.
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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

imPoRTAnTE!
As orações reduzidas são classificadas da mesma forma que as desenvolvidas, apenas acrescentando-se
sua condição de reduzidas. Dessa forma, os três últimos exemplos apresentados seriam classificados,
respectivamente, como:
1. oração subordinada adverbial final reduzida de infinitivo;
2. oração subordinada adverbial concessiva reduzida de gerúndio;
3. oração subordinada adverbial temporal reduzida de particípio.

Atividades
1. Em 9 de setembro de 2009, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou no
Diário Oficinal da União a resolução RDC n. 47, de 8 de setembro de 2009, que estabelece
regras para a elaboração, harmonização, atualização, publicação e disponibilização de
bulas de medicamentos para pacientes e para profissionais da saúde.
Em pequenos grupos, discutam o porquê da necessidade de estabelecer tais regras por parte
de órgão público. Quais seriam os objetivos a atingir com elas? Quem seriam os beneficiados?

2. Leia o artigo 5º da resolução:


CAPÍTULO II
DA FORMA E DO CONTEÚDO DAS BULAS
Art. 5º Quanto à forma, as bulas dos medicamentos devem:
I. apresentar fonte Times New Roman no corpo do texto com tamanho mínimo de 10 pt (dez pontos),
não condensada e não expandida;
II. apresentar texto com espaçamento entre letras de no mínimo 10% (dez por cento);
III. apresentar texto com espaçamento entre linhas de no mínimo 12 pt (doze pontos);
IV. apresentar colunas de texto com no mínimo 80 mm (oitenta milímetros) de largura;
V. ter o texto alinhado à esquerda, hifenizado ou não;
VI. utilizar caixa-alta e negrito para destacar as perguntas e os itens de bula;
VII. possuir texto sublinhado e itálico apenas para nomes científicos;
VII. ser impressas na cor preta em papel branco que não permita a visualização da impressão na outra
face, quando a bula estiver sobre uma superfície.
§ 1º Para a impressão de bulas em formato especial, com fonte ampliada, deve ser utilizada a fonte
Verdana com tamanho mínimo de 24 pt (vinte e quatro pontos), com o texto corrido e não apresentar colunas.
§ 2º Para a impressão de bulas em formato especial, em Braille, o arranjo dos pontos e o espaçamento
entre as celas Braille devem atender às diretrizes da Comissão Brasileira de Braille (CBB) e das Normas
Brasileiras de Acessibilidade editadas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
§ 3º Para a disponibilização da bula em meio eletrônico, o texto deve ser corrido e não apresentar colunas.
n Disponível em: <http://www.in.gov.br/visualiza/index.jsp?data=09/09/2009&jornal=1&pagina=32&totalArquivos=80>. Acesso em: 5 mar. 2013.

No fragmento, fica evidente uma preocupação técnica na apresentação das informações.


a) Quantos formatos de bula se descrevem?
b) De que forma se dá a garantia de acesso universal e igualitário à informação?
c) A regulamentação dispõe sobre a forma e o conteúdo das bulas dos medicamentos comercializados no
Brasil. O fragmento acima versa sobre a forma e o conteúdo ou somente sobre a forma ou somente
sobre o conteúdo?
d) Há um evidente equívoco na numeração dos itens do artigo. Corrija-o.
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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

3. Comente as relações sintáticas e de sentido no texto:


a) Qual é a função de “para destacar as perguntas e os itens de bula”, no item VI? Classifique o trecho sin-
taticamente.
b) Quantas orações há em VIII? Que relações semântico-sintáticas há entre elas?
c) Identifique uma oração reduzida no parágrafo 2º e classifique-a, levando em conta o enunciado como
um todo.
d) Identifique a elipse verbal que se reitera nos parágrafos 1º e 3º.

gÊnERo TExTUAL
Bula
Texto prescritivo que traz informações sobre um medicamento, seja em folha anexa, seja impresso
na própria embalagem. Deve orientar o paciente sobre o uso correto do medicamento e alertá-lo para os
riscos do uso indevido. Traz nome, formas de apresentação (cápsulas, drágeas, gel), composição (princípio
ativo), indicação e contraindicação, posologia (doses), validade, fabricante, etc. Existem recomendações
para que as bulas sigam padrões e sejam simplificadas de modo que se tornem acessíveis ao público leigo,
mas nem sempre essas recomendações são seguidas. As informações dirigidas a profissionais da saúde
costumam ser mais técnicas e mais complexas. Circula nas esferas cotidiana, comercial (farmacêutica),
publicitária e digital.

4. Leia o modelo de bula publicado pela Anvisa e responda ao que se pede.

Reprodução/<www.anvisa.gov.br>

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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

Reprodução/<www.anvisa.gov.br>
Faça uma pesquisa com a ajuda de pessoas mais velhas e/ou de profissionais da saúde (farmacêuticos,
médicos, enfermeiros, dentistas) de sua localidade e verifique:
a) quais foram as diferenças na composição do texto;
b) quais foram os ganhos com a aplicação das orientações técnicas do artigo 5º da resolução;
c) que informações não constavam antes da resolução.

Consulte o Guia de Redação de Bula no portal da Anvisa.


n Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/e7ad858047458ed497f1d73fbc4c6735/guia_redacao.pdf?MOD=AJPERES>.
Acesso em: 5 mar. 2013.

5. A bula é um texto que reconhecemos em nosso cotidiano. Levando em conta os tipos textuais (narrativo,
descritivo, argumentativo, explicativo ou expositivo, injuntivo ou instrucional), responda:
a) Como classificá-lo, considerando seu objetivo mais abrangente e a tipologia textual predominante?
b) Além da sequência textual predominante, apontada na questão anterior, é possível reconhecer sequên-
cias textuais de outros tipos. Aponte uma dessas sequências e exemplifique.

6. Nos períodos com sequências injuntivas ou instrucionais, observamos a presença de orações coordenadas
explicativas, subordinadas adverbiais condicionais e subordinadas adverbiais temporais.
a) Exemplifique tais casos.
b) Justifique a presença dessas orações nas sequências injuntivas.
c) Identifique um caso na qual a subordinada adverbial condicional é uma oração reduzida.
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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

A gRAmáTicA
DO TExTo

A SUBORDINAÇÃO
Ç ALÉM DO PERÍODO
/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Considere os fragmentos em destaque na notícia a seguir:

Automedicação é a vilã dos casos de intoxicação, diz secretaria do ES


Bacharel em Turismo ficou 18 dias em coma após tomar remédio para febre.
Segundo a Secretaria de Saúde, em 2011, 4 500 casos foram notificados.
Leandro Nossa do G1 ES

Um perigo cada vez mais comum e que muitos desconhecem, a intoxicação por remédios atinge cada
vez mais a população capixaba. A bacharel em turismo Bruna Pierre já passou por isso e acredita que esteve
bem perto da morte. Quando morava em Vila Velha, na Grande Vitória, em 2005, ela chegou a ficar 18 dias
em coma após ter tomado, por conta própria, um remédio para combater a febre. Segundo a Secretaria de
Estado da Saúde (Sesa), cerca de 35% das ocorrências notificadas pelo Centro de Atendimento Toxicológico
(Toxcen) cotidianamente se devem à intoxicação por medicamentos. A automedicação é uma das principais
causas do problema, segundo a médica Sony Itho.
Bruna conta que passou por momentos difíceis devido a um medicamento tomado. “Tive uma intoxi-
cação decorrida de um remédio que sempre tomei, desde criança. Na época, eu tinha 21 anos, e logo depois
que tomei o remédio, comecei a passar muito mal e desmaiei em casa. Tive três paradas cardíacas e duas
respiratórias no mesmo dia. Fiquei em coma durante 18 dias, e quando acordei, eu nasci de novo. Tive que
reaprender a falar e andar. Fiz fisioterapia e fui ao fonoaudiólogo, foi muito complicado”, relembra Bruna,
que hoje mora em São José do Rio Preto, em São Paulo.
A paulista, que viveu em Vila Velha durante quatro anos, diz que até hoje nenhum médico conseguiu
explicar como ela adquiriu a intolerância a um remédio que sempre tomou normalmente. “É inexplicável,
nenhum médico conseguiu me dar uma resposta. Inclusive, meu caso foi tese de conclusão de curso de
dois alunos de enfermagem. Eles só conseguem me dizer que eu sou um milagre”, conta.
O estudante capixaba Usalio Pivetta, 22 anos, também passou por uma situação complicada, e
revela que o excesso de medicamentos tomados por conta própria o prejudicou. “Tive dengue e o
médico me receitou tomar um remédio de 8 em 8 horas ou quando a febre ficasse muito alta. Acabei
tomando demais e fiquei com uma intoxicação no fígado, que não conseguiu suportar os medicamentos.
Tive uma hepatite medicamentosa e fiquei 15 dias sem medicação, o que agravou minhas dores e
febre”, conta.
n Disponível em: <http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2012/03/automedicacao-e-vila-dos-casos-de-intoxicacao-diz-secretaria-do-es.html>. Acesso em: 28 fev. 2013.

Como já vimos, no título da notícia há um caso de período composto por subordinação, formado por
duas orações:
• oração principal: “diz secretaria do ES”;
• oração subordinada: “Automedicação é a vilã dos casos de intoxicação,” desempenhando a função de objeto
direto da forma verbal diz, núcleo do predicado da oração principal.
Na ordem direta:

[A] secretaria do ES diz [que] automedicação é a vilã dos casos de intoxicação.


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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

Observando com atenção a notícia do jornal, podemos perceber a construção e reconstrução dos fatos que
servem de reforço para o tema da notícia, por meio de citações em discurso direto e discurso indireto. Cabe destacar
que o emprego de citações introduz maior credibilidade e vivacidade ao texto, ainda mais quando se trata de pessoas
envolvidas nos fatos, com testesmunhos (como é o caso dos jovens que sofreram intoxicação pela automedicação)
ou pessoas ligadas a órgãos oficiais relacionados aos fatos ou com gabarito na qualidade de especialista no assunto
(como é o caso da menção da Secretaria, do Centro de Atendimento Toxicológico, da médica Sony Itho).
É interessante observar que, na introdução de citações dos testemunhos na construção do corpo da notícia,
o jornalista lança mão de um procedimento que consiste em, primeiro, apresentar a citação em discurso indire-
to de forma resumitiva, para em seguida apresentar a mesma citação em discurso direto, com a ampliação de
detalhes dando espaço para os (supostamente) enunciados originais. Para fazê-lo, o emprego de períodos com-
postos por coordenação e, principalmente, subordinação são fundamentais.
Observe os quadros a seguir, com as citações que envolvem o testemunho dos jovens que sofreram intoxi-
cação por causa da automedicação:

caso 1
discurso indireto discurso direto
• oração principal: “Bruna conta” • oração principal: “relembra Bruna”
• bloco subordinado: “que passou por momentos • bloco subordinado: “Tive uma intoxicação decorrida
difíceis devido a um medicamento tomado”, de um remédio que sempre tomei, desde criança.
desempenhando a função de objeto direto da Na época, eu tinha 21 anos, e logo depois que tomei
forma verbal conta, núcleo do predicado da oração o remédio, comecei a passar muito mal e desmaiei
principal em casa. Tive três paradas cardíacas e duas respira-
tórias no mesmo dia. Fiquei em coma durante
18 dias, e quando acordei, eu nasci de novo. Tive que
reaprender a falar e andar. Fiz fisioterapia e fui ao
fonoaudiólogo, foi muito complicado”, desempe-
nhando a função de objeto direto da forma verbal
relembra, núcleo do predicado da oração principal
• oração subordinada: “que hoje mora em São José
do Rio Preto, em São Paulo”, desempenhando a fun-
ção de adjunto adnominal do núcleo nominal
(Bruna) da oração principal

caso 2
discurso indireto discurso direto
• oração principal: “A paulista diz” • oração principal: “conta”
• bloco subordinado: “que até hoje nenhum médico • bloco subordinado: “É inexplicável, nenhum médico
conseguiu explicar como ela adquiriu a intolerância conseguiu me dar uma resposta. Inclusive, meu
a um remédio que sempre tomou normalmente”, caso foi tese de conclusão de curso de dois alunos
desempenhando a função de objeto direto da forma de enfermagem. Eles só conseguem me dizer que
verbal diz, núcleo do predicado da oração principal eu sou um milagre”, desempenhando a função de
objeto direto da forma verbal conta, núcleo do pre-
• oração subordinada: “que viveu em Vila Velha
dicado da oração principal
durante quatro anos”, desempenhando a função
de adjunto adnominal do núcleo nominal (a paulista)
da oração principal

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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

caso 3

discurso indireto discurso direto

• orações coordenadas: “[O estudante capixaba • oração principal: “conta”


Usalio Pivetta, 22 anos, também passou por uma
• trecho subordinado: “Tive dengue e o médico me
situação complicada,] e [revela ...]”
receitou tomar um remédio de 8 em 8 horas ou
• oração principal: “revela” quando a febre ficasse muito alta. Acabei tomando
demais e fiquei com uma intoxicação no fígado,
• oração subordinada: “que o excesso de medica-
que não conseguiu suportar os medicamentos.
mentos tomados por conta própria o prejudicou”,
Tive uma hepatite medicamentosa e fiquei 15 dias
desempenhando a função de objeto direto da
sem medicação, o que agravou minhas dores e
forma verbal revela, núcleo do predicado da oração
febre”, desempenhando a função de objeto direto
principal
da forma verbal conta, núcleo do predicado da ora-
ção principal

Como se percebe, em alguns casos há um bloco subordinado que, por sua vez, apresenta uma engrenagem
interna de coordenação e/ou subordinação. Como exemplo, vamos observar com mais atenção os enunciados
do Caso 1. Na citação em discurso indireto, o bloco subordinado se apresenta formado por:
a) “que passou por momentos difíceis [devido a um medicamento tomado]”, desempenhando a função
de oração subordinada substantiva objetiva direta da forma verbal conta, núcleo do predicado da
oração principal;
b) “devido a um medicamento tomado”, desempenhando a função de oração subordinada adverbial de
causa reduzida de particípio.
Já na citação em discurso direto do Caso 1, o bloco subordinado se apresenta formado por seis períodos, ou
só por subordinação, ou só por coordenação, ou por coordenação e subordinação, ou até mesmo por período
simples.
É importante levar em consideração que o reconhecimento das relações de sentido que articulam as engre-
nagens de todo texto são mais importantes do que qualquer classificação, já que é no texto que se realizam.
Dessa forma, as classificações das relações sintáticas no texto são ferramentas úteis para a compreensão e a
produção de textos, orais e escritos, mas não um fim em si mesmas.

AS ORAÇÕES ADJETIVAS E A SEMÂNTICA – I


////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Sabemos que as orações adjetivas, do ponto de vista semântico, podem ser restritivas ou explicativas.
Observe:

(a) A automedicação é um risco para os doentes, que são imprudentes.


(b) A automedicação é um risco para os doentes que são imprudentes.

Nos dois enunciados acima, o pronome relativo que retoma o termo antecedente doentes, com uma sutil
diferença: em (a), há uma sensível pausa, indicada por vírgula na escrita, entre a oração subordinada e o termo
antecedente; em (b), não há pausa entre a oração subordinada e o antecedente, indicando que a oração subor-
dinada integra o sentido do termo antecedente.
Por isso, pode-se afirmar que a informação contida na oração adjetiva em (a) é dispensável, acessória, ao
contrário da informação contida em (b), que é necessária para a construção do sentido da oração principal.
Avancemos um pouco mais. Em (a), a oração “que são imprudentes” refere-se a todos os doentes. É como
se disséssemos: A automedicação é um risco para os doentes, que, como todo mundo sabe, são imprudentes por
natureza, ou seja, a imprudência é uma característica intrínseca a todos os doentes.
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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

Em (b), a oração “que são imprudentes” restringe, delimita o termo doentes. Isso significa que a informação
contida na oração adjetiva refere-se apenas a alguns doentes: exatamente àqueles que são imprudentes. É
como se disséssemos: A automedicação é um risco para os doentes imprudentes, não todos os doentes, mas
esses e apenas esses, os imprudentes, é que se automedicam.
Graficamente, teríamos:

universo de todos os seres


parte restrita: os doentes
representados pelo subs-
que são imprudentes
tantivo comum doentes

O enunciado (a) refere-se a todos os doentes; o enunciado (b) refere-se apenas à parte restrita, ou seja, a
alguns doentes.

AS ORAÇÕES ADJETIVAS E A SEMÂNTICA – II


///////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Considere que você está ouvindo a canção “Mundo animal”, do conjunto musical Mamonas Assassinas, que
em certo trecho diz:

“O homem que é corno e cruel


mata a baleia que não tem chifre e é fiel”

Estruturados os versos dessa forma, encontram-se três orações adjetivas:

“que é corno e cruel”


“que não tem chifre”
“e [que] é fiel”

A primeira oração está relacionada ao núcleo do sujeito da oração principal “O homem mata a baleia”; o
pronome relativo que tem como termo antecedente o substantivo homem. As duas últimas orações têm o
mesmo antecedente: o substantivo baleia, núcleo do objeto direto.
A classificação das duas últimas orações depende de um conhecimento prévio: sabemos que baleias não
têm chifre e pesquisas científicas indicam que as baleias são monogâmicas, ou seja, têm um único parceiro (ou
parceira), logo são fiéis, o que significa que essa é uma característica inerente à espécie. Portanto, classificamos
as duas orações como adjetivas explicativas, que, na escrita, assumiriam a seguinte forma:

[...] mata a baleia, que não tem chifre e é fiel

O problema está na classificação da oração adjetiva “que é corno e cruel”. Se na leitura de mundo dos
autores da canção todo e qualquer homem é corno e cruel, classificaremos a oração como adjetiva explicativa
que, na escrita, será grafada com vírgula. Mas se os autores têm uma visão mais otimista dos homens e con-
sideram que alguns são cornos e cruéis e outros, não, e que só aqueles que são cornos e cruéis, esses e apenas
esses, matam as baleias, então classificaremos a oração como adjetiva restritiva, que, na escrita, será grafada
sem vírgula.
Como se percebe, não é a presença ou ausência da vírgula que define as orações adjetivas, e sim o que elas
significam.
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PARTE 1 A gRAmáTicA dos TExTos

O deslocamento e a pontuação das orações subordinadas


Com os componentes de um período composto por subordinação acontece o mesmo que com
os componentes de um período simples: como princípio geral, entende-se que não há necessidade
de pontuação quando os termos aparecem na ordem convencional, isto é, na ordem direta.
Entretanto, há casos em que, por razões de estilo, intencionalidade e/ou clareza, a pontuação é uma
aliada fundamental.
Vamos pensar no título da notícia:

Automedicação é a vilã dos casos de intoxicação, diz secretaria do ES

em que ocorre a reprodução da fala de uma especialista, em discurso direto. Nesses casos, em geral, a fala
reproduzida funciona como objeto direto do verbo de elocução (garantir, falar, comentar, dizer, retrucar,
etc.). Quando a fala se estrutura a partir de um verbo, há uma oração subordinada substantiva objetiva
direta. Na ordem convencional, teríamos:

Secretaria do ES diz (que) automedicação é a vilã dos casos de intoxicação.

sujeito verbo or. subord. subst. obj. dir.

Mas o jornalista que redigiu a manchete considerou que a afirmação “automedicação é a vilã dos
casos de intoxicação” é mais relevante que o fato de ter sido feita por uma autoridade. Assim, ele inverteu
a ordem. Releia a frase original em voz alta e perceba o ritmo ascendente até a vírgula e descendente
depois dela. É interessante comentar que o jornalista também poderia ter optado por não colocar a voz
da autoridade; no entanto, ao colocá-la, reforça a credibilidade da informação em destaque.

AS ORAÇÕES CONDICIONAIS E A SEMÂNTICA


/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

De modo geral, nos períodos em que há uma oração adverbial condicional, a oração principal só pode ser
entendida a partir da projeção que faz a condicional. Observe:

Produtor será multado se não cumprir vazio da soja.


n Disponível em: <http://www.noticiasdegoias.go.gov.br/index.php?idMateria=107726&tp=positivo>. Acesso em: 6 mar. 2013.

A multa será um fato se, antes, uma condição for dada. A condição que deve ser cumprida para que a infor-
mação contida na oração principal ocorra é o não cumprimento do vazio da soja. A oração adverbial condicional
faz um recorte que determina a oração principal; isso fica claro na construção invertida:

Produtor não será multado, se cumprir vazio da soja.

Nesse caso, o enunciado condicional se apresenta como possível. Há grandes possibilidades de que se
cumpra o que está dito na oração principal, caso a condição da subordinada ocorra; temos, assim, uma implica-
ção direta entre a condicional e a principal.
Observe o caso a seguir, extraído da letra da canção “Vou partir pra outra”, no qual o enunciado condicional
apresenta as mesmas características do anterior:

Mas já chega de demora


Se você não vier agora
Amanhã será tarde demais
n “Vou partir pra outra”, de Izidoro e Paulinho.

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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

Trata-se de um enunciado condicional:


a) possível de se realizar;
b) com uma implicação direta no que vai dito na oração principal;
c) que apresenta os mesmos tempos verbais (futuro do subjuntivo na subordinada condicional; futuro do
indicativo na oração principal).
No caso do enunciado da letra da canção temos, ainda, um valor de ameaça, reforçada por outros elementos
dentro e fora do enunciado condicional: agora (advérbio temporal que determina o prazo limite para a condição, dá o
tom autoritário e estabelece contraste com o advérbio que aparece na oração principal – amanhã); a própria oração do
primeiro verso da estrofe, que indica o esgotamento da espera por parte do eu poético, antecipando o tom de ameaça.
Agora observe o caso do enunciado condicional que aparece na letra da canção “Se eu fosse”:
Se eu fosse letra de música
Fazia uma rima única
n “Se eu fosse”, de Dante Ozzetti e Zélia Duncan.

Nesse caso, o que vai dito na condicional é algo impossível de acontecer, que contradiz a realidade: o eu poéti-
co não é e não pode ser letra de música; logo, não pode fazer uma rima única. O que é possível interpretar no enun-
ciado condicional irreal é um desejo por parte do eu poético, mesmo que tal desejo seja impossível. Observe que o
emprego do pretérito imperfeito do subjuntivo na oração subordinada é fundamental para a expressão do desejo.
Já na letra da música “É assim que vai ser”, temos um enunciado condicional real, isto é, que remete ao
mundo real, estabelecendo uma comparação:
Se ele é emotivo, eu sou mais racional
n “É assim que vai ser”, do conjunto Strike.

Esse tipo de enunciado condicional que expressa uma comparação é muito comum em enunciados condicionais
irreais, sendo que, além da expressão de uma comparação, carregam um tom de ironia, como em formulações do tipo:
Se você é Madonna, eu sou Britney Spears.

Atividades
1. Levante algumas hipóteses a partir do slogan “A informação é o melhor remédio”, de uma
campanha realizada pela Anvisa.
a) Qual era o assunto da campanha?
b) Qual teria sido seu objetivo?
c) Que características fazem da frase um bom slogan?

gÊnERo TExTUAL
Slogans
Repetidos à exaustão, os slogans tornam-se conhecidos dos consumidores por serem frases curtas,
com sonoridade agradável, de fácil memorização e por veicularem um conceito associado à marca que
divulgam. Também são criados em campanhas políticas ou institucionais para revelar conteúdo ideológico
do partido bem como características do candidato ou para divulgar ideias. Circulam nas esferas publicitária,
jornalística, comercial, política, digital, cotidiana.

2. Vários tipos de textos fazem parte de campanhas: banners, spots, vídeos, folhetos, cartazes e, em alguns
casos, cartilhas. Leia a seguir quatro páginas da cartilha da campanha “A informação é o melhor remédio”
e depois responda ao que se pede.
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PARTE 1 a gramática dos textos

Divulgação/Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa

a) Qual é o objetivo dos textos


dessas páginas?
b) Que aspectos relaciona-
dos com os medicamentos
são mencionados?
c) Que papel têm os textos
não verbais presentes nas
páginas?
d) Quem seria o público-alvo
n Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/propaganda/educacao_saude/campanha_informacao.htm>. Acesso em: 5 mar. 2013. dessa cartilha? Por quê?

3. Levando em conta todo o texto das páginas 4 e 5 da cartilha:


a) como você classificaria a oração “que poderiam ter sido evitadas simplesmente adotando modos de vida
mais saudáveis”? Por quê?
b) seria possível omiti-la? Que implicações isso teria no texto como um todo?

4. Comente o efeito da conjunção adversativa “mas” que introduz o último período na página 6.
5. Comente o efeito do deslocamento no período: “Estimuladas pela publicidade, as pessoas compram na
farmácia vitaminas que poderiam obter em frutas naturais.”.

6. Ao longo do texto, o assunto do medicamento é associado não só à saúde, mas também a hábitos modernos
de alimentação e de rotina, além do consumo. Discuta na sala de aula tais relações a partir de sua realidade.
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A sUboRdinAção cAPÍTULo 4

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

1. (Enem)

© 2013 King Features Syndicate/Ipress


n BROWNE, D. Folha de S.Paulo, 13 ago. 2011.

As palavras e as expressões são mediadoras dos I. Esta garantia ficará automaticamente cancela-
sentidos produzidos nos textos. Na fala de Hagar, a da se o produto não for corretamente utilizado.
expressão “é como se” ajuda a conduzir o conteúdo II. Não se aceitará a devolução do produto caso ele
enunciado para o campo da: contenha menos de 60% de seu conteúdo.
a) conformidade, pois as condições meteorológicas III. As despesas de transporte ou quaisquer ônus
evidenciam um acontecimento ruim. decorrente do envio do produto para troca corre
b) reflexibilidade, pois o personagem se refere aos por conta do usuário.
tubarões usando um pronome reflexivo. a) Reescreva os trechos sublinhados nas frases I e
c) condicionalidade, pois a atenção dos personagens II, substituindo as conjunções que os iniciam por
é a condição necessária para a sua sobrevivência. outras equivalentes e fazendo as alterações
d) possibilidade, pois a proximidade dos tubarões necessárias.
leva à suposição do perigo iminente para os b) Reescreva a frase III, fazendo as correções ne-
homens. cessárias.
e) impessoalidade, pois o personagem usa a tercei-
ra pessoa para expressar o distanciamento dos 5. (ESPM-SP) A frase: “A tecnologia ligou os jovens de
fatos. uma forma tão intensa que os relacionamentos
2. (Fuvest-SP)
com adultos estão diminuindo” estabelece uma
relação de:
Os meninos de rua que procuram trabalho
são repelidos pela população. a) ordem e explicação.
a) Reescreva a frase, alterando-lhe o sentido ape- b) causa e consequência.
nas com o emprego de vírgulas. c) consequência e causa.
b) Explique a alteração de sentido ocorrida. d) modo e quantidade.

3. (UFV-MG) Reescreva cada uma das passagens abai-


e) intensidade e proporção.
xo, unindo os períodos por meio do conectivo apro-
priado: conjunção, pronome relativo, preposição ou
6. (UFPel-RS)
Apesar do aumento do número de mulheres
locução prepositiva. (Não use a conjunção e.)
presas no Brasil, especialmente nas rotas do tráfi-
a) O preço do ingresso para o jogo era bastante co, o sistema penitenciário não se prepara nem
módico. Havia pouquíssimos torcedores no para recebê-las, nem para as ressocializar.
estádio.
b) Chovia copiosamente em toda a cidade. O con- Os termos “Apesar do” e “nem [...] nem”, neste frag-
certo teve de ser adiado. mento, estabelecem relações lógico-semânticas,
c) Os funcionários relacionavam-se bem com o respectivamente, de:
diretor. Não teriam conseguido levar adiante o a) condição e contraste.
projeto sem o apoio dele. b) alternância e dúvida.

4. (Fuvest-SP) Leia com atenção as seguintes frases,


c) concessão e adição.
extraídas do termo de garantia de um produto para d) oposição e conclusão.
emagrecimento: e) explicação e exclusão.

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Capítulo 1
Por que escrever? Como escrever?

Capítulo 2
Produção de textos:
da escola para a vida

Capítulo 3
Os textos injuntivos-instrucionais

Capítulo 4
A argumentação

Capítulo 5
A construção do texto persuasivo

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Parte 2
A CONSTRUÇÃO DOS TEXTOS

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1 CAP Í T U L O 1

Por que escrever?


Como escrever?

Renato dos Anjos/Arquivo da editora


Mas que ao escrever – que o nome real
seja dado às coisas. Cada coisa é uma pala-
vra. E quando não se a tem, inventa-se-a.
Esse vosso Deus que nos mandou inventar.
Por que escrevo? Antes de tudo porque
captei o espírito da língua e assim às vezes
a forma é que faz o conteúdo.
n Do narrador de A hora da estrela, de Clarice Lispector.

n O livro de Clarice Lispector A hora da estrela foi


adaptado para o cinema em 1985.

Você já tinha parado para pensar na relação mundo-palavra, palavra-mundo? Para o narrador de
A hora da estrela, cada coisa é uma palavra, é como se não pudéssemos imaginar um mundo sem
nome, um mundo a que não nos possamos referir. A língua permite que nos expressemos em
relação a esse mundo que nomeamos com seu código. E escrever é fazer uso da linguagem, é
retratar e/ou reconstruir o mundo ao nosso redor, com suas coisas, ideias, emoções (conteúdo),
por meio de palavras (forma).

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POr qUe esCrever? COmO esCrever? CAPÍTULO 1

////////////////////////////
ESCREVER... POR QUÊ?
///////////
//////////////////////////////////////////////////////////////

Como matéria para uma rápida reflexão, vamos reproduzir um fragmento de crônica “Em defesa da palavra”,
do escritor uruguaio Eduardo Galeano:

Nas longas noites de insônia e nos dias de desânimo, aparece uma mosca que fica zumbindo
dentro da cabeça da gente: ‘Vale a pena escrever? Será que as palavras sobreviverão em meio aos
adeuses e aos crimes?’
n GALEANO, Eduardo. Vozes e crônicas. São Paulo: Global/ Versus, [s.d.]. p. 13.

E então... vale a pena escrever? As palavras sobreviverão? Vamos tentar responder a essas duas interroga-
ções lançadas pelo escritor, além de procurar esclarecer mais algumas questões que ficam zumbindo na cabeça
da maioria dos estudantes, em meio às aulas de produção de texto:
• Por que escrever?
• Produzir um bom texto é escrever certinho, sem cometer erros de gramática?
• Escrevo apenas para cumprir uma burocracia escolar?
• Quem é o meu interlocutor? Faz sentido ter sempre o mesmo interlocutor?

O objetivo primeiro da modalidade escrita: a interação


Bem, acreditamos que ninguém melhor que um escritor para nos dizer sobre o ato de escrever. Isso não
significa que as ideias defendidas por ele correspondam a uma verdade absoluta; trata-se, na verdade, do depoi-
mento de alguém que já refletiu sobre o assunto e que pode nos transmitir suas conclusões para que também
nós realizemos um trabalho de reflexão.
Para algumas das interrogações acima, Eduardo Galeano nos fornece elementos para pensar, ao afirmar:

As pessoas escrevem a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os


outros, para denunciar aquilo que machuca e compartilhar o que traz alegria. As pessoas escrevem
contra sua própria solidão e a solidão dos demais porque supõem que a literatura transmite
conhecimentos, age sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe, e nos ajuda a nos conhecer-
mos melhor, para nos salvarmos juntos.
n Op. cit., p. 14.

Dessa forma, escrever é comunicar, dividir e somar experiências, emoções e pensamentos.

O que escrever? Como escrever?


Estamos, agora, diante de duas questões básicas e práticas. No fundo, é o velho problema de conteúdo e
forma, de ideia e palavra, de comunicação e expressão. Como ponto de partida, reproduzimos uma afirmação do
professor Mattoso Câmara Jr.:
“Ninguém é capaz de escrever bem, se não sabe bem o que vai escrever.”
O ato de escrever deve ser entendido como a etapa final de um longo processo de reflexão. Uma constata-
ção óbvia: escrever é colocar uma ideia no papel; portanto, o primeiro passo é ter uma ideia. E, para ter ideias, a
melhor dica é ler, ler e ler. Mas não basta ler e fechar o livro, dizer que leu. O mais importante é a leitura ativa
(ou interativa), que leva à reflexão. O leitor deve atuar sobre o livro e, ao mesmo tempo, deve ser permeável à
leitura. Ao ler um poema, um romance, um artigo de jornal ou qualquer outro tipo de texto, deparamos com a
leitura de mundo de quem o escreveu. Portanto, ler muito é acumular várias experiências, várias vivências. E é
assim que conseguimos formar a nossa própria leitura de mundo que, ao mesmo tempo, nos ajuda no ato de
ler e no ato de escrever. E o mestre Paulo Freire já ensinava:
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PArTe 2 A CONsTrUÇÃO dOs TexTOs

[...] a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a conti-
nuidade da leitura daquele. [...] a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo
mas por uma certa forma de ‘escrevê-lo’ ou de ‘reescrevê-lo’, quer dizer, de transformá-lo através
de nossa prática consciente.
n FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler – em três artigos que se completam. 22. ed. São Paulo: Autores Associados/Cortez, 1988.

Assim, podemos dizer que a leitura é fundamental para a produção de textos porque nos permite o contato
com uma variedade de conteúdos (culturas, áreas de conhecimento, informações em geral), com uma variedade
de conhecimentos de forma (gêneros textuais) e com uma variedade de registros da língua.
Isso tudo porque, uma vez ultrapassada a primeira fase do processo — ter ideias —, a questão que se apre-
senta é como colocar essas ideias no papel, como encontrar a melhor forma de expressá-las. Os problemas vão
desde o domínio do vocabulário, passando por um razoável conhecimento de recursos linguísticos e de outros
requisitos gramaticais próprios da modalidade escrita (ortografia, acentuação gráfica, pontuação, etc.), para
finalmente desembocar em algo muito pessoal: o estilo. Tudo isso sem perder de vista os elementos do processo
de interação (especialmente quem é o interlocutor), a intencionalidade e a adequação.

Atividades
Leia a tira abaixo e responda às questões propostas.

© Parker/Creators Syndicate, Inc.


n Parker. O feiticeiro. In: Jornal da Tarde, 4 jan. 1997.

1. Em que consiste o humor da tirinha?


2. De que ordem foi a “falha” no discurso do rei?
3. Embora sem problemas gramaticais, você acha que o discurso do rei foi bem recebido por seus interlocu-
tores (seus súditos)? Por quê?
Você vai ler a seguir uma crônica de Luis Fernando Verissimo.

O gigolô das palavras


Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma
missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática
indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu grava-
dor cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões.
Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas
às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando,

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POr qUe esCrever? COmO esCrever? CAPÍTULO 1

às pressas, minha defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revisão!”). Mas os alunos desfizeram o equívoco
antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm
certeza que não pegaram o Verissimo errado? Não. Então vamos em frente.
Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser jul-
gada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os
vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princí-
pios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer “escrever claro” não
é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, diver-
tir, comover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.)
A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a
necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade
que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de repro-
vação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para
poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo,
mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não
tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.
Claro que eu não disse tudo isso para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância
com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em
Português. Mas – isto eu disse – vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão dispensável que eu
ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras.
Vivo às suas custas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só
uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão.
Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvi-
da. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu
passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho tam-
bém o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras,
afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o
mínimo respeito.
Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramati-

Ulhôa Cintra/Arquivo da editora


cal das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que
se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a
deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um
marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que
temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público,
alvo da impiedosa atenção de lexicógrafos, etimologistas e cole-
gas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática
precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.
n VERISSIMO, Luis Fernando. In: LUFT, Celso Pedro. Língua & liberdade.
Porto Alegre: L&PM, 1985.

4. Como você já deve saber, a crônica é um texto jornalístico, publicado periodicamente em jornais, que tam-
bém apresenta recursos literários. Motivada por acontecimentos diários, a crônica costuma transcendê-los
por meio de reflexões ou comentários dos cronistas. No caso dessa crônica, qual foi o fato que serviu de
pretexto para os comentários do autor e que reflexões esse fato provocou?

5. O que é um “gigolô”? E um “gigolô das palavras”?


6. “Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna […]”
Você percebe certa ironia na frase de L. F. Verissimo? Comente-a.
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PArTe 2 A CONsTrUÇÃO dOs TexTOs

7. “Vocês têm certeza que não pegaram o Verissimo errado?” Quem seria o Verissimo “certo”?
8. “A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios.” Sem alterar o sentido da frase, poderíamos substituir
a palavra princípios por qual outra?

9. Em seu livro Manual de expressão oral & escrita, o professor Mattoso Câmara Jr. faz a seguinte reflexão:
“A língua apresenta sempre uma diferenciação de acordo com as camadas sociais que a usam. De maneira
geral, pode-se distinguir a esse respeito:
a) uma língua popular, própria das massas mais ou menos iletradas;
b) uma língua culta, que é um meio-termo entre o uso espontâneo da linguagem de todos os dias nas
classes instruídas da sociedade e a língua que se encontra consignada nos grandes monumentos
literários.
A língua popular quase não reage contra o fator individual de mudança desde que essa mudança não pre-
judique propriamente a inteligibilidade. A língua culta, ao contrário, cria um ideal estético, e aí se manifes-
ta um afã incessante para conservar inalterada a norma estabelecida.”
Retire do segundo parágrafo do texto de L. F. Verissimo passagens que comprovem:
a) que a língua popular não reage contra mudanças desde que essas mudanças não prejudiquem a inteli-
gibilidade;
b) que a língua culta procura conservar inalterada a norma estabelecida.

10. Na frase: “A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda”, a que gramática se
refere o escritor?

11. Agora, um desafio: explique por que “não é certo” dizer “escrever claro”.

A produção de textos e a gramática


Quanto a se considerar uma boa redação aquela que não apresenta erros de gramática, retomemos alguns
trechos da crônica de Luis Fernando Verissimo:

[...] a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e deve ser julgada exclusi-
vamente como tal.
Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo.
Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as
outras são dispensáveis.

Comentando os trechos acima, o professor Celso Luft assim se manifesta:

Sim; muitas regras, regras demais, perfeitamente dispensáveis.


Por exemplo: regras de colocação lusitana de pronomes no Brasil, regências obsoletas, todas
as miudezas normativas de um purismo rançoso.
Dispensáveis todas as regras que não contribuem para a eficiência comunicativa, as que
embaraçam e atravancam a comunicação, que dão ao aluno a ideia de que ‘aula de português é
uma chateação’, não serve para nada. Todas as regras inúteis e retrógradas deveriam ser elimina-
das, proibidas.

Opa! Antes de sair por aí, aos pulos, comemorando a morte da Gramática, lembre-se daquele velho ditado:
“devagar com o andor que o santo é de barro”. Observe que o professor Celso Luft fala em regras lusitanas, obso-
letas, purismos. Deveriam ser eliminadas as regras inúteis e retrógradas; elas e apenas elas. Luft não fala em
eliminar todas as regras.
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POr qUe esCrever? COmO esCrever? CAPÍTULO 1

É preciso que se diga claramente: sem gramática não há texto; sem gramática não organizamos o nosso
pensamento. O próprio L. F. Verissimo afirma que “a Gramática é o esqueleto da língua”; um texto sem esquele-
to desmorona, transforma-se em um monte de palavras que não estabelecem relações entre si.
Repare que Luis Fernando Verissimo se diz um gigolô das palavras e declara sua “pouca intimidade com a
Gramática” e sua “total inocência na matéria”, mas elabora uma fina ironia ao empregar um adjetivo com fun-
ção de advérbio e explicitar esse “erro” ao leitor. Como se nos dissesse: eu falo mal da Gramática, digo que é
desnecessária, mas eu sei Gramática, caminho pelos desvios conscientemente.
Neste ponto, é fundamental relembrar algumas noções que vimos no volume 1 desta coleção:
1. Toda língua possui uma gramática intrínseca, cuja estrutura permite que a reconheçamos como língua e que a
possamos utilizar; essa gramática existe em função do texto, para o texto, em favor do texto.
2. Não podemos entender a gramática normativa (suas regras e convenções) como o espelho da nossa língua ou
como a própria língua, e sim como um modelo criado a partir de um recorte da norma culta na tentativa de
retratar um uso “ideal” da língua a ser seguido.
3. O conhecimento da variante considerada de prestígio, assim como a norma-padrão e as regras da gramática
normativa são importantes porque, convencionalmente, são empregadas e exigidas em textos de diversas
situações de natureza social (carta de apresentação, e-mail de reclamação, trabalho acadêmico, redação de
vestibular, etc.).
Para terminar, uma perguntinha com resposta óbvia: pode alguém que fala bem e escreve bem em língua
portuguesa ser “péssimo em Português”?

WeBTeCA

Quer conhecer mais textos de Luis Fernando Verissimo? Então visite o site <http://www.releituras.com/
lfverissimo_bio.asp>. Acesso em: 8 mar. 2013.

ando
oc

tr
ideias
Em pequenos grupos, leiam o texto a seguir:

Problemas de redação
“[...] os problemas da redação se dividem primariamente em dois grupos: os essenciais
e os secundários.
Os problemas essenciais são dois:
a) a composição, isto é, plano de redação;
b) a técnica de uma formulação verbal que dispense os elementos extralinguísticos e
os elocucionais, só participantes da exposição oral.
Os problemas secundários são os que surgem dos caracteres estéticos da língua escrita.
São mais fáceis para um ensino partido do professor, ou de um livro didático, por assim dizer
– de fora para dentro. Mas dependem da solução dos problemas essenciais. Nenhum profes-
sor e nenhuma gramática conseguirão fazer escrever esteticamente bem a uma pessoa que
ainda não sabe pensar em termos de língua escrita.
É uma espécie de escapismo, muito comum no ensino de redação, fixarem-se o profes-
sor e os alunos nos problemas secundários. Absurdamente, há até os que quase só se preo-
cupam com a ortografia das palavras.
n CÂMARA JR., J. Mattoso. Manual de expressão oral & escrita. Petrópolis: Vozes, 1983.

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Após a leitura do texto:


a) Comentem a divisão dos problemas de redação em essenciais e secundários proposta pelo pro-
fessor Mattoso Câmara.
b) Expliquem de que forma os problemas essenciais da produção de textos estão relacionados com
a modalidade escrita da língua.
c) Um dos integrantes do grupo deverá ficar encarregado de anotar o resultado da discussão para
apresentá-lo aos demais colegas.
d) No relato oral, deve-se cuidar da postura, da dicção, da clareza e da objetividade.

Texto escrito é sinônimo de texto “certinho”?


Tanto na elaboração de um texto oral como na de um texto escrito, algo muito importante tem de ser
considerado: a adequação.
Embora o texto escrito apresente características que o distingam do texto oral, como a possibilidade de
“maior planejamento”, nem todo texto escrito tem de ser um texto “certinho”. As marcas de formalidade num
texto escrito estarão condicionadas a várias circunstâncias: o que vai ser falado (assunto), o meio utilizado
(suporte), o contexto (ambiente espaço-temporal), o nível social e cultural de quem escreve e, importantíssimo,
para quem se escreve (quem é o interlocutor).
Portanto, a informalidade (tanto quanto a formalidade) pode se fazer presente no texto escrito sempre que
seja adequado:
• um bilhete seu (gênero textual da modalidade escrita) para um colega de sala, avisando a mudança de horá-
rio de uma aula, não exige alto grau de formalidade; ao contrário, uma construção marcada por uma norma-
-padrão extremamente formal ficaria inadequada à situação;
• um e-mail da direção da escola (gênero textual da modalidade escrita) para os pais dos alunos, avisando que
haverá alteração no horário das aulas, exige um certo grau de formalidade; uma construção marcada pela
coloquialidade extrema ficaria inadequada à situação.

Atividades
O texto que você vai ler a seguir é uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, que dispensa
apresentações.

Como comecei a escrever


Aí por volta de 1910 não havia rádio nem televisão, e o cinema chegava ao interior do Brasil uma
vez por semana, aos domingos. As notícias do mundo vinham pelo jornal, três dias depois de publica-
das no Rio de Janeiro. Se chovia a potes, a mala do correio aparecia ensopada, uns sete dias mais tarde.
Não dava para ler o papel transformado em mingau.
Papai era assinante da Gazeta de Notícias, e antes de aprender a ler eu me sentia fascinado pelas
gravuras coloridas do suplemento de domingo. Tentava decifrar o mistério das letras em redor das figu-
ras, e mamãe me ajudava nisso. Quando fui para a escola pública, já tinha a noção vaga de um univer-
so de palavras que era preciso conquistar.
Durante o curso, minhas professoras costumavam passar exercícios de redação. Cada um
de nós tinha de escrever uma carta, narrar um passeio, coisas assim. Criei gosto por esse dever,

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POr qUe esCrever? COmO esCrever? CAPÍTULO 1

Renato dos Anjos/Arquivo da editora

que me permitia aplicar para determinado fim


o conhecimento que ia adquirindo do poder de
expressão contido nos sinais reunidos em
palavras.
Daí por diante as experiências foram-se
acumulando, sem que eu percebesse que estava
descobrindo a literatura. Alguns elogios da pro-
fessora me animavam a continuar. Ninguém
falava em conto ou poesia, mas a semente des-
sas coisas estava germinando. Meu irmão, estu-
dante na Capital, mandava-me revistas e livros, e
me habituei a viver entre eles. Depois, já rapaz,
tive a sorte de conhecer outros rapazes que tam-
bém gostavam de ler e escrever.
Então, começou uma fase muito boa de troca de experiências e impressões. Na mesa do café-
-sentado (pois tomava-se café sentado nos bares, e podia-se conversar horas e horas sem incomodar
nem ser incomodado) eu tirava do bolso o que escrevera durante o dia, e meus colegas criticavam. Eles
também sacavam seus escritos, e eu tomava parte nos comentários. Tudo com naturalidade e fran-
queza. Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que não desfrutam desse tipo
de amizade crítica.
n ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia completa e prosa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1973.

1. A que gênero você relacionaria o texto de Drummond?


2. Relembrando as seis funções da linguagem: referencial, conativa, fática, metalinguística, emotiva e poética,
qual(is) predomina(m) no texto?

3. Considerando as sequências textuais (descritivas, argumentativas, narrativas, injuntivas, explicativas), qual


predomina?

4. Na produção de um texto, podemos (e devemos) lançar mão de alguns elementos linguísticos que organi-
zam e ordenam o que vai sendo dito. Nesse texto, Drummond explora elementos que ordenam a passagem
temporal. Destaque-os.

5. O narrador trabalha a questão espacial de forma gradativa. Como isso se dá?


6. Qual o significado de “chovia a potes”? Pense no tipo de relação que se estabelece entre as palavras da
expressão e responda: qual a classe gramatical da locução “a potes”?

7. Qual a importância do jornal no processo de formação do leitor e produtor de textos Carlos Drummond de
Andrade?

8. Para o narrador, o que representavam os exercícios de redação?


9. Como você classifica a sequência textual que está entre parênteses, no último parágrafo?
10. A “fórmula mágica” apresentada por Drummond, a “amizade crítica”, seria viável em nossos dias ou pertence
a uma realidade já ultrapassada? Escreva um pequeno texto relatando seu ponto de vista.
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PArTe 2 A CONsTrUÇÃO dOs TexTOs

Mãos à
obra!
Atividade individual
Iniciamos este capítulo com as perguntas: Por que escrever? Como escrever?.
Está na hora de dar respostas às perguntas.
José Saramago (1922-2010), escritor português, afirma:

Antes eu dizia: “Escrevo porque não quero morrer”. Mas agora eu mudei. Escrevo para compreender.
O que é um ser humano?
n Veja. São Paulo: Abril, 14 out. 1998.

Nesse momento, você escreverá para resgatar e registrar acontecimentos de uma fase importante de
sua vida – e irá fazê-lo de acordo com um plano, cuja orientação virá a seguir.
O talentoso escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012), idealizador do Movimento
por um Brasil Literário, costumava dizer, em suas palestras, que a primeira leitura de que tinha lembrança
não fora realizada num livro, mas num papel, trazido por seu pai, de uma viagem. O papel apenas embru-
lhava uma fruta – uma maçã. E, embora a fruta fosse sedutora e desconhecida, foi com o papel que a envol-
via que ele se encantou. O papel roxo e fino trazia perfumes incríveis, que revelavam mistérios para uma
criança sensível. Durante algum tempo, ele, muito novinho, manipulava e cheirava aquele papel e ficava
imaginando por onde teria passado e que histórias poderiam estar ali guardadas.
A relação dele com a escrita, na infância, também é notável. Eis seu relato:

Ulhôa Cintra/Arquivo da editora


Meu avô morava em Pitangui, uma cidade
perto de Papagaio, ganhou a sorte grande na
loteria e nunca mais trabalhou. Ele cultivou
uma preguiça absoluta. Levantava pela manhã,
vestia terno, gravata e se debruçava na janela.
Todo mundo que passava falava: “Ô, seu
Queirós!”. Ele falava: “Tem dó de nós”. Só isso. O
dia inteiro. Tudo o que acontecia na cidade, ele
escrevia nas paredes de casa. Quem morreu,
quem matou, quem visitou, quem viajou. Fui
alfabetizado nas paredes do meu avô. Eu per-
guntava que palavra é essa, que palavra é
aquela. Eu escrevia no muro a palavra com
carvão, repetia. Ele ia lá para ver se estava certo.
Na parede da casa dele, somente ele podia
escrever. Eu só podia escrever no muro. Esse
meu avô tinha um gosto absoluto pela palavra
e era muito irreverente. Eu era o grande amigo
dele. Meu avô tinha um encantamento com as
palavras. Eu fui aprendendo com ele a cultivar
esse encantamento.
[...]
Hoje, não fico na janela como meu avô
ficava. Mas fico o tempo todo em frente ao
Windows. Trocamos os lugares, mas continua-
mos na janela.
n Dossiê Bartolomeu Campos de Queirós. Palavra.
Rio de Janeiro: Sesc, n. 3, ano 4, julho de 2012. p. 16.

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POr qUe esCrever? COmO esCrever? CAPÍTULO 1

Todos nós temos alguma lembrança marcante em relação às descobertas da escrita, seja do proces-
so de alfabetização em si e da “mágica” na formação das primeiras palavras ou da sensação de escrever
o próprio nome pela primeira vez, seja dos momentos iniciais de deslumbramento com a “decodificação”
dos sinais que passam a ser signos na “descoberta” da leitura. Sua tarefa será elaborar um relato de
suas memórias dos momentos especiais que presidiram à sua “redescoberta do mundo” por meio da
leitura e da escrita. Descreva as circunstâncias que envolveram esses momentos, as particularidades
que os tornaram importantes; cite pessoas que foram fundamentais nesses momentos: parentes, pro-
fessores, amigos.
Se sua recordação for muito remota, vale também relatar como foi sua relação com um primeiro livro
fundamental em sua vida: qual era ele, como ele chegou às suas mãos, as sensações que provocou em você
antes, durante e depois da leitura, o que ficou em você depois dessa experiência. Estabeleça como interlo-
cutor um amigo especial com quem você gostaria de compartilhar esses momentos.

GÊNerO TexTUAL
Relato de memórias
Um relato de memórias consiste no registro, em primeira pessoa, de experiências vividas num
passado, em geral distante. O resgate dessas lembranças, oral ou escrito, pode ser de interesse pessoal,
e gerar registros que circulem apenas na esfera cotidiana e familiar, ou de interesse coletivo (quando
restabelece a memória social de toda uma comunidade), expandindo-se para esferas jornalística e/ou
literária. Além de trazer ao presente costumes e fatos de um tempo passado, adquirindo valor histórico,
o relato vem permeado das sensações e sentimentos de quem narra com a perspectiva emotiva do
presente, na busca da compreensão dos fatos citados. O relato escrito ajuda a preservar, para as gera-
ções futuras, a herança cultural de gerações passadas.

Dicas para a elaboração da proposta


1. Imprima a seu texto um ritmo lento, que recomponha detalhadamente imagens, objetos, cenários.
Use advérbios para a localização temporal e espacial.
2. Ordene os fatos em sequência cronológica. Em seu texto devem estar presentes ordenadores textuais,
para organizar essa sequência.
3. Narre em primeira pessoa.
4. Empregue os tempos verbais pretéritos: o perfeito para relatar fatos pontuais e o imperfeito para
relatar fatos que ocorriam habitualmente no passado. Observe: “Meu avô morava” (fato habitual,
pretérito imperfeito); “ganhou a sorte grande na loteria” (fato pontual, pretérito perfeito).
5. Inclua no relato palavras que revelem avaliações das situações vividas. Veja: “Meu avô tinha um
encantamento com as palavras. Eu fui aprendendo com ele a cultivar esse encantamento.”.
Terminado seu texto, releia-o com bastante atenção. Observe se poderá incluir mais detalhes, revise-o
para que esteja gramaticalmente correto e passe-o para um colega ler. Ele também irá entregar-lhe o texto
dele, e vocês farão o papel de leitor e revisor um do outro. Anotem comentários que possibilitem a refacção
aperfeiçoada do texto.

Relato oral
O professor chamará alguns voluntários para a leitura em voz alta. O relato também poderá ser feito
oralmente, sem necessariamente prender-se ao texto. Nesse caso, não se descuide dos detalhes e das
sensações trazidas pela lembrança dos fatos propriamente ditos. Evite vícios da oralidade no relato
(“então”, “daí”, “né?”).

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PArTe 2 A CONsTrUÇÃO dOs TexTOs

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

1. (Unicamp-SP) grande mercado em que cada um, dotado de


luzes por definição iguais, pode fazer sua esco-
Quando vitaminas atrapalham lha em toda liberdade. Isso jamais foi realizado
Consumir suplementos de vitaminas depois e tende a nunca ser. Na verdade, os leitores,
de praticar exercícios físicos pode reduzir a sen- ouvintes, telespectadores, mesmo se se aban-
sibilidade à insulina, o hormônio que conduz a donam a sua bulimia*, não são realmente
glicose às células de todo o corpo. nutridos por esta indigesta sopa de informa-
Temporariamente, um pouco de estresse ções e sua busca finaliza em frustação. Cada
oxidativo – processo combatido por algumas vez mais frequentemente, até, eles ressentem
vitaminas e que danifica as células – ajuda a esse bombardeio de riquezas falsas como agres-
evitar o diabetes tipo 2, causado pela resistên- sivos e se refugiam na resistência a toda ou
cia à insulina, concluíram pesquisadores das qualquer informação.
universidades de Jena, na Alemanha, e Harvard, O verdadeiro problema das sociedades pós-
nos Estados Unidos. Desse estudo, publicado -industriais não é a penúria**, mas a abundân-
em maio na PNAS, participaram 40 pessoas, cia. As sociedades modernas têm a sua disposi-
metade delas com treinamento físico prévio, ção muito mais do que necessitam em objetos,
metade sem. Os dois grupos foram divididos informações e contatos. Ou, mais exatamente,
em subgrupos que tomaram ou não uma com- disso resulta uma desarmonia entre uma ofer-
binação de vitaminas C e E .Todos os subgru- ta, não excessiva, mas incoerente, e uma deman-
pos praticaram exercícios durante quatro da que, confusamente, exige uma escolha muito
semanas e passaram por exames de avaliação mais rápida a absorver. Por isso os órgãos de
de sensibilidade da glicose à insulina antes e informação devem escolher, uma vez que o
após esse período. Apenas exercícios físicos, homem contemporâneo apressado, estressado,
sem doses adicionais de vitaminas, promovem desorientado busca uma linha diretriz, uma
a longevidade e reduzem o diabetes tipo 2. Ao classificação mais clara, um condensado do que
contrário do que se pensava, os resultados é realmente importante.
negam que o estresse oxidativo seja um efeito * fome excessiva, desejo descontrolado.
colateral indesejado da atividade física vigo- * * miséria, pobreza.
rosa: ele é na verdade parte do mecanismo n VOYENNE, B. Informação hoje.
pelo qual quem se exercita é mais saudável. A Lisboa: Armand Colin, 1975 (adaptado).
conclusão é clara: nada de antioxidantes
depois de correr. Com o uso das novas tecnologias, os domínios
midiáticos obtiveram um avanço maior e uma
n Adaptado de “Quando vitaminas atrapalham”. presença mais atuante junto ao público, marca-
Revista Pesquisa Fapesp 160, p. 40, junho de 2009.
da ora pela quase simultaneidade das informa-
a) Por se tratar de um texto de divulgação científi- ções, ora pelo uso abundante de imagens. A
ca, apresenta recursos linguísticos próprios a relação entre as necessidades da sociedade
esse gênero. Quais são eles? Transcreva dois tre- moderna e a oferta de informação, segundo o
chos em que esses recursos estão presentes. texto, é desarmônica, porque:
b) O experimento em questão concluiu que as vita- a) O jornalista seleciona as informações mais
minas atrapalham. Explique como os pesquisa- importantes antes de publicá-las.
dores chegaram a essa conclusão. b) O ser humano precisa de muito mais conheci-
mento do que a tecnologia pode dar.
2. (Enem) c) O problema da sociedade moderna é a abun-
A marcha galopante das tecnologias teve dância de informações e de liberdade de
por primeiro resultado multiplicar em enormes escolha.
proporções tanto a massa das notícias que cir- d) A oferta é incoerente com o tempo que as pes-
culam quanto as ocasiões de sermos solicitados soas têm para digerir a quantidade de informa-
por elas. Os profissionais têm tendências a con- ção disponível.
siderar esta inflação como automaticamente e) A utilização dos meios de informação acontece
favorável ao público, pois dela tiram proveito e de maneira desorganizada e sem controle
tornam-se obcecados pela imagem liberal do efetivo.

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2 CAPÍTULO 2

Produção de textos:
da escola para a vida
“[...] o que ficava patente era que todas aquelas redações, aqueles milhares de
folhas de papel preenchidas à mão, não tinham de seu senão a forma mais ou
menos caprichosa com que dispunham as letras umas atrás das outras. Tratava-
-se, portanto, de uma falsa produção, de uma falsificação do processo ativo de
elaboração de um discurso capaz de preservar a individualidade de seu sujeito e
de renová-la, desdobrá-la, na leitura de seus possíveis interlocutores. Tratava-se
de uma redução autoanuladora na virtualidade de uma linguagem sempre per-
meável ao momento particular em que se manifesta, às individualidades em jogo,
ao jogo das intenções e finalidades, à história que significa. Na verdade, tratava-
-se de uma reprodução, da entrega de cada um ao mesmo passado – de ninguém:
reproduziam alguns poucos modelos, oficialescos e consagrados, com variações
transparentes. Nesse caso, o erro mais grave, o problema maior, não estava na
dificuldade de assimilação de algumas normas e exceções do português padrão,
mas, justamente, na excessiva facilidade em se assimilar um padrão de lingua-
gem, portanto, um padrão de referências para pensar e interpretar o mundo, para
constituir a própria experiência. Pessoas vindas dos lugares mais distantes entre
si, de situações econômicas não tão distantes assim, chegavam para o vestibular
na hora marcada, tomavam o lápis e a folha, e escreviam o esboço de um testa-
mento em favor de uma mesma cartilha.”
n PÉCORA, Alcir. Problemas de redação.
São Paulo: Martins Fontes, 1989.

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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

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Quando pensamos no uso da linguagem como prática social, montar e multiplicar automaticamente textos preconcebidos
e impessoais nada tem que ver com a produção de textos. Os modelos e as estruturas têm de estar a serviço das ideias
e dos própositos e não ao contrário! O vestibular e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) são também práticas
sociais, com uma característica marcante: são processos avaliativos e seletivos, sendo que, cada vez mais, esses
exames abandonam o conteudismo e exigem a aplicação reflexiva dos conteúdos estudados ao longo do Ensino Médio.
Portanto, o candidato tem de demonstrar domínio de competências e habilidades que vão além da prática social dos
exames, ou seja, competências e habilidades para exercer a sua cidadania de forma consciente.

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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

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DO CURRÍCULO PARA O DIA A DIA
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Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Ensino Médio é a etapa final da Educação
Básica e tem como finalidade:

I. a consolidação e o aprofundamento dos conhecimentos adquiridos no Ensino Fundamental,


possibilitando o prosseguimento de estudos;
II. a preparação básica para o trabalho e a cidadania do educando, para continuar aprendendo,
de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aper-
feiçoamento posteriores;
III. o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desen-
volvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;
IV. a compreensão dos fundamentos científico-tecnológicos dos processos produtivos, relacio-
nando a teoria com a prática, no ensino de cada disciplina.
n Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf>.
Acesso em: 8 abr. 2013.

Dessa forma, a etapa escolar deve ser entendida como uma preparação para a vida cidadã. Essa foi a preo-
cupação maior ao elaborarmos esta coleção: apresentar os conteúdos e as propostas de atividades de forma
reflexiva e que possam ser aplicados em práticas sociais que extrapolam a realidade escolar.
A Matriz de referência para o Enem, documento publicado pelo Ministério da Educação, relaciona compe-
tências e habilidades que devem ser trabalhadas ao longo do Ensino Médio; dentre elas, destacamos a seguinte
competência, com suas respectivas habilidades:

Competência
• Confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações
específicas.
Habilidades
• Reconhecer em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não verbais utilizados com
a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos.
• Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos.
• Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público-alvo, pela
análise dos procedimentos argumentativos utilizados.
• Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do
público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras.

Já na introdução do Manual da Unicamp, ao especificar o que se espera dos candidatos, temos:

A Unicamp busca estudantes que consigam organizar suas ideias e expressar-se com clareza. O
Vestibular Nacional da Unicamp avalia a aptidão e o potencial dos candidatos para o curso em que
pretendem ingressar e sua capacidade de:
• expressar-se com clareza;
• organizar suas ideias;
• estabelecer relações;
• interpretar dados e fatos;
• elaborar hipóteses;
• dominar os conteúdos das áreas do conhecimento desenvolvidas no Ensino Médio.
n Manual do candidato 2013 Unicamp. Disponível em: <http://www.comvest.unicamp.br/vest2013/download/manual2013.pdf>.
Acesso em: 8 mar. 2013.

Ora, a vida, a sociedade espera que os cidadãos sejam capazes disso!


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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

Atividades
GÊNerO TexTUAL
Texto expositivo
Como o próprio nome diz, um texto expositivo expõe informações precisas e didáticas
sobre determinado assunto, por meio de um encadeamento de conceitos que devem ser
apresentados de forma isenta, clara, concisa e objetiva. Costuma apresentar títulos e subtí-
tulos ou tópicos para facilitar a localização das informações e uma ordem na exposição que
pode ser lógica (baseada em raciocínios), cronológica (segundo o passar do tempo) ou espa-
cial (relacionada a lugares). Evitam-se parágrafos e/ou períodos longos. Ilustrações, analo-
gias, comparações, generalizações e exemplificações são recursos empregados. É o gênero
que predomina nos livros didáticos, aulas, seminários, conferências e palestras. Circula nas
esferas escolar e acadêmico-científicas.

Leia este texto expositivo sobre os eixos cognitivos nos quais o Enem se baseia para avaliar as competên-
cias e habilidades dos estudantes. Esses eixos cognitivos são comuns a todas as áreas do conhecimento.

I - Dominar linguagens
Dominar a norma culta da língua portuguesa e fazer uso das linguagens matemática, artística e
científica.
O Enem quer saber até onde vai sua capacidade para entender as várias formas de linguagem,
seja um texto em português, um gráfico, uma tira de história em quadrinhos ou fórmulas científicas.
Você tem de demonstrar que conhece e entende os códigos verbais e não verbais. Pode ser até mesmo
na forma de uma equação de física.
II - Compreender fenômenos
Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos
naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas.
Esta competência reúne diversos conhecimentos e uma mesma questão pode envolvê-los todos
ao mesmo tempo. Você terá de saber os conceitos aprendidos nas aulas e também com a leitura dos
livros didáticos. Isso não quer dizer que você tenha de decorar conceitos, mas deve ser capaz de
reconhecê-los. Para entender os fenômenos naturais, processos histórico-geográficos, produção tec-
nológica e manifestações artísticas, você precisa dominar a competência I, ou seja, saber ler diversas
linguagens que transmitem o conhecimento sobre o fenômeno. Uma competência leva à outra.
III - Enfrentar situações-problema
Selecionar, organizar, relacionar e interpretar dados e informações representados de diferentes
formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema.
Depois de dominar a linguagem e compreender os fenômenos, você precisa ter competência para
solucionar uma questão ou um problema. Ou seja, saber encontrar a resposta certa depois de entender o
que se pede (dominar a linguagem) e ter informações sobre aquele fenômeno (compreender fenômenos).
Você faz isso quando responde a uma questão de matemática ou quando resolve um problema de física.
IV - Construir argumentação
Relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em
situações concretas, para construir argumentação consistente.

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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

Competência fortemente presente na redação, valoriza a capacidade de argumentação. Ou seja,


conhecer um assunto ou um tema, assumir uma posição e defender uma ideia. Para convencer
outras pessoas a compartilhar seus pontos de vista, é necessário ter argumentos sólidos, inteligentes,
bem fundamentados e conhecimento firme do tema que está sendo discutido.

V - Elaborar proposta
Recorrer aos conhecimentos desenvolvidos na escola para a elaboração de propostas de inter-
venção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade
sociocultural.
O Enem quer saber se você é capaz de opinar e propor soluções para o cotidiano e a vida real. É
nesta competência que você demonstra a sua cidadania. Você precisa ter ideias, dar opiniões e suges-
tões sobre como tornar o mundo melhor, com relação ao meio ambiente, o desemprego, a pobreza e
outros problemas sociais.

A avaliação da redação do Enem contempla competências e habilidades calcadas nos eixos cog-
nitivos vistos acima. No caso específico da área de Linguagens, códigos e suas tecnologias, destaca-
mos algumas competências e habilidades:
Demonstrar domínio da língua culta: você deve usar a norma-padrão da língua portuguesa,
que é o registro adequado para um texto formal como a dissertação. Serão examinadas concordância
das palavras, regência, flexão, ortografia e pontuação.
Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos de várias áreas do conhecimento
para desenvolver um tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo:
para construir seu texto, você pode buscar informações em todas as áreas do conhecimento, desde
que não fuja da proposta. Feita a seleção de dados, é hora de construir relações entre os conceitos,
interpretá-los e, assim, montar sua dissertação.
Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em
defesa de um ponto de vista: o que conta não é a quantidade de informações, mas a qualidade. Você
deve buscar informações em seu repertório de conhecimento e só usar o que é interessante para
abordar o tema.
Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da
argumentação: esta competência se relaciona à defesa do seu ponto de vista de forma articulada,
baseado em argumentos fortes e consistentes.
Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, demonstrando respeito aos
direitos humanos: você deve pensar em propostas inteligentes para lidar com o tema abordado e
apresentá-las de forma clara e convincente. O foco principal é o respeito aos valores humanos.
n Enem. Disponível em: <http://historico.enem.inep.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=18&Itemid=28>.
Acesso em: 24 mar. 2010.

Após a leitura atenta, responda:

1. Em que os conteúdos estudados por nossa disciplina contribuem para o domínio dos eixos cognitivos?
2. Quais desses conteúdos podem ser considerados essenciais para que formem as competências e habili-
dades exigidas?

3. Por que “uma competência leva à outra” ?(Veja no item II do texto.)


4. Por que quando se consideram os eixos cognitivos e as competências não ocorre a divisão de conteúdos
por disciplina?
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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

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A REDAÇÃO NOS EXAMES
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Em determinadas situações, somos solicitados a produzir tex-


tos que serão objeto de avaliação. Nesses casos, a liberdade de
criação não é absoluta, já que o texto será avaliado segundo alguns
critérios, aos quais você obrigatoriamente deverá se sujeitar.
A redação nos exames, segundo o modelo tradicional, pode-
ria ser definida como um gênero textual. Considere:
• é um texto produzido numa determinada situação: o exame;
• tem características configuracionais de um texto em prosa; que
discursa sobre um tema dado; consta de um título mais cerca
de 25 linhas; é escrito com caneta, numa folha em branco, e não
é assinado;
• tem um determinado fim: a avaliação da escrita dos candidatos para ingresso na universidade.
Há um bom tempo, sob o impacto de novas concepções sobre o texto, algumas instituições começaram a
avaliar sua estruturação e sua articulação do texto, pois não é suficiente “escrever corretamente” para que um
texto seja compreensível e possa exprimir ideias: para isso, ele tem de ser coeso e coerente.
Posteriormente, com a consolidação da premissa de que é pela linguagem que interagimos na sociedade
(com o desenvolvimento das noções de interação social e contexto situacional), passou-se a avaliar a competên-
cia linguística do candidato, aquela que não é apenas de serventia no exame, mas na vida. Para tanto, o concei-
to de texto a ser produzido em exames passou a atender a uma proposta que busca ser contextualizada.
A avaliação passou a considerar a observação da capacidade de:
a) leitura;
b) adequação a determinado gênero e/ou tipologia textual e à situação comunicativa;
c) domínio e manipulação de estruturas e recursos linguísticos;
d) coesão e corência textuais.
Numa visão contemporânea, a redação de vestibular tenta avaliar a capacidade do candidato como produ-
tor eficiente de textos, como se pode observar nesta passagem do Manual do Candidato da Universidade
Federal do Ceará:

Considerando-se que:
a) o domínio da língua materna em sua modalidade escrita revela-se fundamental ao acesso
às demais áreas do conhecimento humano e profissional;
b) o ensino de Língua Portuguesa destina-se a preparar o aluno para lidar com a linguagem
escrita em suas diversas formas, situações de uso e manifestações, inclusive a estética;
c) o desenvolvimento do saber linguístico implica o reconhecimento da organização estrutural
da língua, depreendida a partir da convivência diária e diversificada com a linguagem
como um todo, e não apenas com palavras e frases isoladas, espera-se que o candidato à
Universidade revele habilidade de:
• leitura compreensiva e crítica de textos diversos;
• produção escrita de textos diversos em linguagem-padrão;
• análise e manipulação da organização estrutural da língua;
• percepção da linguagem literária como forma peculiar de compreensão do mundo.
A partir desses pressupostos, entende-se que as habilidades a ser trabalhadas no ensino da
Língua Portuguesa envolvem as áreas de leitura, escrita, gramática e literatura, nas perspectivas
em que vêm a seguir propostas.
n Disponível em: <http://www.ccv.ufc.br/vtb/2002/download/man2002.doc.gz>.
Acesso em: 8 mar. 2013.

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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

Como você sabe, ser um produtor de textos eficiente envolve ser um leitor de textos, um manipulador dos
recursos linguísticos e um observador do processo comunicativo. Na hora da redação dos exames vestibulares,
todas essas competências são ativadas, pois o resultado final (que será avaliado) depende delas.

Quando pensamos no uso da linguagem como prática social, elaborar e multiplicar automaticamente
textos preconcebidos e impessoais nada tem que ver com a produção de textos. Os modelos e as estru-
turas têm de estar a serviço das ideias, e não o contrário!

O PAPEL DA LEITURA

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O vestibulando deverá lidar com a leitura (interpretação)


de textos redigidos em diversas modalidades do português.
Deverá reconhecer o funcionamento predominante de um
texto dissertativo, narrativo, poético, técnico, político, religioso,
jornalístico, regional, popular, etc. Deverá ainda identificar,
nesses textos, as marcas linguísticas de sua especificidade.
n Manual do candidato – Unicamp. Disponível em: <http://www.comvest.unicamp.br/vest2011/programas/
lportuguesa.html>. Acesso em: 8 mar. 2013.

Cada vez mais o tradicional tema de redação apresentado apenas em uma frase vem sendo substituído por
um conjuntos de textos que abordam um assunto e do qual deverá ser retirado o tema da redação. Além de
servir de apoio para o candidato, esse tipo de proposta revela uma preocupação em avaliar também sua capa-
cidade de leitura, de reflexão e de associação de ideias.

A coletânea ou painel de leitura

As propostas são precedidas por um conjunto de textos – Coletânea – que serve de subsídio
para a elaboração de sua redação. Não há excertos exclusivos para quaisquer das três propostas. A
coletânea tem por objetivo desencadear sua reflexão sobre o tema geral da prova de redação,
recortado em cada uma das propostas. Espera-se que você articule sua experiência prévia de vida,
leitura e reflexão com a leitura que faz da coletânea. Assim, essa coletânea não é pensada como
um roteiro interpretativo, mas como um conjunto de possibilidades diversas de abordagem da
própria complexidade do tema escolhido para a prova, com o qual, supõe-se, você já tenha tido
algum contato. Além disso, a coletânea não define uma hierarquia entre os excertos, que podem
ser aproveitados de diferentes maneiras, conforme o seu modo de mobilizar sua experiência pré-
via em função de seu projeto de texto.
n Manual do candidato – Unicamp. Disponível em: <http://www.comvest.unicamp.br/vest2011/programas/lportuguesa.html>. Acesso em: 8 mar. 2013.

Chama-se coletânea ou painel de leitura o conjunto de textos que compõe uma proposta de redação. Tal
conjunto oferece para o candidato um quadro diversificado de ideias sobre um mesmo assunto, podendo
abordá-lo de forma distinta e até contraditória. Esse conjunto está, por um lado, a serviço do candidato: amplia
e/ou esclarece a temática da proposta, oferece o contato com ideias e pontos de vista variados, provoca e moti-
va a produção do texto; por outro, é de serventia para os avaliadores, porque evidencia a competência de leitura
e de reflexão do candidato, sua capacidade de associação e articulação de ideias.
Esse modelo, construído incialmente pela Unicamp, hoje é seguido pelo Enem e por várias instituições
universitárias.
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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

A diversidade de textos e linguagens

Os excertos que compõem a coletânea são sempre de natureza diversa. Alguns são concei-
tuais, outros de natureza artística e outros ainda de teor descritivo, expondo, respectivamente,
visões sistemáticas, elaborações subjetivas e dados concretos sobre o tema da prova.
n Manual do candidato – Unicamp. Disponível em: <http://www.comvest.unicamp.br/vest2011/programas/lportuguesa.html>.
Acesso em: 8 mar. 2013.

Não há um tipo de texto frequente no painel de leitura de uma proposta. Se a concepção de leitura
envolve a noção de prática social e tenta-se avaliar a competência do candidato como leitor eficiente, o
conjunto de textos deve apresentar uma amostra com variedade textual e variedade de linguagens. Daí
observarmos painéis com excertos literários, histórias em quadrinhos, gráficos, excertos de notícias de
jornal, etc.

Textos, tema e recorte temático


Dependendo da proposta, podemos observar o tema ou o recorte temático da redação. Assim como tam-
bém podemos observar o tema explícito ou implícito.
Em primeiro lugar, é necessário lembrar que tema é o assunto do texto. O tema deste capítulo, por exem-
plo, é a produção de textos nos exames.
• Tema explícito: em alguns casos, a proposta de redação se limita a apontar um tema geral. Fica por conta
do aluno abordá-lo de forma geral ou destacar um aspecto dele. Voltando ao exemplo deste capítulo, o
tema geral pode ser identificado como “a produção de textos nos exames”; no entanto, ao entrar em conta-
to com o capítulo, percebe-se que foi feita uma delimitação: o aspecto destacado são as características das
propostas atuais. Em outros casos, o tema e o recorte (seleção de determinado aspecto de um tema geral)
são identificados.

• Tema implícito: neste caso, a proposta de redação vem acompanhada de uma coletânea de textos que o aluno
terá de ler e da qual deverá extrair a temática para seu texto.

Em foco: a situação e a função

Mais do que um aluno que demonstre capacidade de memorização e repetição acrítica de um


conjunto de informações adquiridas de forma fragmentada durante o ensino fundamental e o
ensino médio, a Unicamp procura selecionar para os seus cursos aquele aluno que, mobilizando
sua experiência de leitura e escrita, estabelece e reorganiza relações de sentido, interpreta dados
e fatos e elabora hipóteses explicativas para diferentes áreas de conhecimento, sem desconsi-
derar a complexidade dos fatores envolvidos. É nesse contexto, portanto, que você deve entender
a prova de Redação e o peso que ela tem na primeira fase do vestibular, bem como a prova de
Língua Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa.
A prova de redação, composta de três propostas, é um instrumento de avaliação de sua forma
de escrever sobre um determinado assunto, e escrever implica processos de leitura e de elaboração
de argumentos a partir de uma determinada situação.
n Manual do candidato – Unicamp. Disponível em: <http://www.comvest.unicamp.br/vest2011/programas/lportuguesa.html>.
Acesso em: 8 mar. 2013.

Se a intenção é avaliar a competência comunicativa de um candidato, não basta uma redação bem escrita
no quesito ortografia e regras gramaticais. O texto tem de apresentar claramente suas ideias, observando os
fatores que envolvem sua produção: a situação comunicativa (real ou pressuposta) e a função (o que se quer
com o texto, o que se tenta dizer, qual é o objetivo do texto?).
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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

Os modelos e arranjos linguísticos e a adequação

Cada proposta é acompanhada por instruções específicas que delineiam o recorte temático e
indicam o tipo de texto que deve ser elaborado.
A proposta A solicita sempre um texto dissertativo. Nesse tipo de texto é especialmente impor-
tante que você, com sua experiência de leitura e reflexão, reconheça a complexidade do recorte temá-
tico proposto, discutindo e explorando argumentos de modo a sustentar sua perspectiva sobre o tema.
Não se espera um texto que polarize opiniões, mas sim um texto crítico sobre o recorte proposto, que
indique domínio na identificação das partes, na análise das relações e na interpretação dos sentidos.
A proposta B, por sua vez, solicita sempre um texto narrativo. Nesse tipo de texto é fundamental
uma boa construção da voz narrativa que articule os elementos descritivos de um texto de ficção (enre-
do, cenário, ritmo, personagens, dentre outros). Do mesmo modo que na proposta A, espera-se que você
leve em conta a complexidade do recorte temático e faça de seu foco narrativo o fio condutor do texto.
A proposta C, por sua vez, apresenta sempre uma carta a ser elaborada: um espaço de comu-
nicação interpessoal no qual a construção da argumentação é mediada por uma interlocução
sólida, isto é, uma boa carta deve conseguir ter bem definida a imagem de quem a escreve e de
quem a recebe, o que significa que a interlocução proposta pela carta deve ser particularizada,
indo além de um preenchimento formal e padrão. É a interlocução que garante, nesse tipo de
texto, o lugar fundamental da argumentação.
n Manual do candidato – Unicamp. Disponível em: <http://www.comvest.unicamp.br/vest2011/programas/lportuguesa.html>.
Acesso em: 8 mar. 2013.

De modo geral, a dissertação é o gênero textual mais comum nas propostas de redação. Como você já sabe,
esse tipo de texto é caracterizado pela articulação de sequências argumentativas.
Outro arranjo linguístico muito solicitado é o narrativo. Normalmente, apresenta-se uma situação que
deverá ser desenvolvida, com o tratamento de alguns elementos da narrativa determinado: foco narrativo em
primeira ou terceira pessoa, caracterização de personagens, cenário, tempo.
Em alguns casos, podemos observar propostas que apresentam uma especificidade maior, como ocorre
com o gênero textual “carta argumentativa” (nesse caso, além da forma característica do gênero, é comum a
definição do interlocutor, dado a que se deve dar muita atenção porque definirá o nível da linguagem e o tipo
da argumentação).

E a gramática?

Gramática
Considerando que o saber gramatical diz respeito não só ao automatismo das estruturas linguís-
ticas básicas – gramática implícita – capazes de enriquecer a competência do falante/ouvinte de uma
dada língua, mas também o domínio consciente das estruturas de organização da língua – gramá-
tica explícita – através do qual ascende-se à complexidade do código escrito, particularmente o da
língua culta; que a expressão desse saber não se revela pela simples memorização de uma metalin-
guagem, mas, acima de tudo, pelo uso efetivo das ricas possibilidades do sistema linguístico, que
asseguram a variedade da escolha em função da intenção do autor e necessária adequação ao leitor,
espera-se que o candidato demonstre: a) proficiência no uso da língua portuguesa em sua modalida-
de culta; b) compreensão dos processos de organização e funcionamento da língua; c) domínio das
estruturas de organização da língua portuguesa: estruturas fonológicas, morfológicas, sintáticas e
semânticas, bem como das convenções ortográficas; d) percepção e utilização adequadas da quebra
da ordem canônica da língua como um dos recursos estilísticos para a obtenção de efeito expressivo.
n Manual do vestibulando – UFC. Disponível em: <http://www.ccv.ufc.br/download/vmanua04.pdf>. Acesso em: 8 mar. 2013.

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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

A gramática sustenta e explica o texto, portanto, é uma ferramenta essencial na hora da produção de um
texto. E é no uso e na manipulação consciente dos recursos gramaticais que o produtor de textos eficiente
encontra a forma de concretizar e explicitar suas ideias, sempre em função da interação social.

Articulação

Finalmente, a articulação escrita é observada através de uma boa exploração dos elementos
coesivos e da modalidade escrita.
Articulação escrita: espera-se que você elabore um texto cuja leitura seja fluida e
envolvente, resultante de uma estruturação sintático-semântica bem articulada pelos
recursos coesivos. Espera-se ainda que você demonstre o domínio de um conjunto lexical
amplo e do padrão normativo das regras de acentuação, ortografia, concordância verbo-
-nominal, dentre outras.
n Manual do candidato – Unicamp. Disponível em: <http://www.comvest.unicamp.br/vest2011/programas/lportuguesa.html>.
Acesso em: 8 mar. 2013.

Considerando que a produção de um texto requer competência para gerar e organizar


ideias, conectando-se num todo coerente e coeso que atenda a diferentes propósitos comuni-
cativos e/ou expressivos, o candidato deverá revelar domínio da modalidade escrita em lín-
gua-padrão, integrando em diferentes níveis linguísticos (texto, parágrafo, frase e palavra):
a) recursos conteudísticos relativos à exploração do tópico ou assunto do texto e à orga-
nização das informações;
b) recursos estruturais, responsáveis pela armação do texto e pela conectividade de suas
ideias, mediante o manejo adequado de mecanismos de coesão e de padrões de organização frasal
e textual;
c) recursos estilísticos relativos ao efeito comunicativo e/ou retórico pretendido, em fun-
ção do virtual leitor do texto, do propósito do emissor e da natureza do assunto.
n Manual do vestibulando UFC 2005. Disponível em: <http://www.ccv.ufc.br/downlo.php3>.
Acesso em: 8 mar. 2013.

Ao tocar no quesito gramática, fala-se em “articulação”. Mas no que consiste essa articulação e o que ela
tem que ver com a gramática? É pelo uso e pela manipulação das estruturas gramaticais que construímos um
texto, que concretizamos verbalmente nossas ideias. Mas não basta falar/escrever ideias soltas para construir
um texto: temos de estabelecer uma ligação entre elas. Aí entra o que chamamos articulação do texto. E essa
articulação se dá a partir, por exemplo, do emprego dos elementos coesivos, que vão entretecendo e arrematan-
do as ideias, compondo o texto como um todo.

////////////////////////
AS PEQUENAS REDAÇÕES NOS EXAMES
///////////
////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Você deverá demonstrar, na sua escrita, consistência argumentativa e domínio na


exposição de suas respostas, através de descrições, explicações, justificativas, exemplifica-
ções, comparações, etc. Espera-se ainda que você saiba redigir o resumo de um texto dado,
selecionando as informações e organizando-as de acordo com sua importância para objetivos
determinados. Espera-se, finalmente, que você saiba redigir a paráfrase de um texto dado,
demonstrando conhecer formas de expressão alternativas.
n Manual do candidato – Unicamp. Disponível em: <http://www.comvest.unicamp.br/vest2011/programas/lportuguesa.html>.
Acesso em: 8 mar. 2013.

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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

Nas provas específicas do Vestibular da UFBA, todas as questões serão discursivas.


Este tipo de questão permite ao candidato buscar a solução para uma situação ou problema
proposto, demonstrando sua capacidade de produzir, integrar e expressar ideias. A questão dis-
cursiva compreende:
• identificação do problema proposto ou da situação apresentada;
• seleção de princípios gerais, leis, conceitos e sistemas de interpretação, aplicáveis à situação
proposta;
• definição dos aspectos mais relevantes que devem ser destacados;
• escolha de um modo ou método de abordagem da situação;
• formulação da resposta em linguagem adequada à área do conhecimento que é objeto da
questão, com base no raciocínio desenvolvido anteriormente.
Cada questão discursiva será avaliada, considerando-se:
a) Conteúdo – correção e adequação do conteúdo da resposta em relação ao que foi solicitado
na questão.
b) Desenvolvimento lógico – encadeamento das ideias, sequência lógica na expressão da
resposta.
c) Adequação da linguagem – uso da linguagem verbal ou simbólica com clareza e propriedade.
n Manual do candidato – Universidade Federal da Bahia. Disponível em: <http://www.vestibular.ufba.br/docs/vest2013/Manual%20candidato%20ufba%202013_comp.pdf>.
Acesso em: 8 mar. 2013.

Outra modalidade de texto que o candidato deve produzir, muito comum nos vestibulares, especialmente
nas instituições que realizam os exames em duas fases, são as respostas às perguntas discursivas (você teve
contato com muitas delas ao longo desta coleção). Trata-se de “pequenas redações” que, no entanto, não des-
prezam nenhuma das competências necessárias para a escrita de um texto maior.
Nas perguntas discursivas, exige-se do candidato a ativação de sua competência linguística, além dos
conhecimentos específicos sobre o assunto em questão. Para tanto, novamente entram em jogo:

• a leitura eficiente, possibilitando a interpretação e a compreensão da questão;


• o trabalho eficiente com os recursos gramaticais, possibilitando a expressão das ideias de forma clara, articu-
lada e organizada.

Alguns exemplos interessantes

Reprodução/Fuvest 2013
Exemplo 1
Proposta da Fuvest:
Esta é a reprodução (aqui, sem as marcas nor-
mais dos anunciantes, que foram substituídas por
X) de um anúncio publicitário real, colhido em
uma revista publicada no ano de 2012.
Como toda mensagem, esse anúncio, forma-
do pela relação entre imagem e texto, carrega
pressupostos e implicações: se o observarmos
bem, veremos que ele expressa uma determinada
mentalidade, projeta uma dada visão de mundo,
manifesta uma certa escolha de valores e assim
por diante.

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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

Redija uma dissertação em prosa, na qual você interprete e discuta a mensagem contida nesse
anúncio, considerando os aspectos mencionados no parágrafo anterior e, se quiser, também outros
aspectos que julgue relevantes. Procure argumentar de modo a deixar claro seu ponto de vista sobre
o assunto.

Instruções:
• A redação deve obedecer à norma-padrão da língua portuguesa.
• Escreva, no mínimo, 20 e, no máximo, 30 linhas, com letra legível.
• Dê um título a sua redação.

Atividade
Enumere os argumentos que você usaria para concordar com a afirmação “o melhor que o
mundo tem a oferecer”, ou para discordar dela, diante da imagem do anúncio.

Exemplo 2
Proposta de redação:
Com base na leitura dos textos motivadores seguintes e nos conhecimentos construídos ao longo de sua
formação, redija um texto dissertativo-argumentativo em norma-padrão da língua portuguesa sobre o tema
VIVER EM REDE NO SÉCULO XXI: OS LIMITES ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO, apresentando propostas de cons-
cientização social que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa,
argumentos e fatos para a defesa de seu ponto de vista.

Liberdade sem fio


A ONU acaba de declarar o acesso à rede um direito fundamental do ser humano – assim como saúde,
moradia e educação. No mundo todo, pessoas começam a abrir seus sinais privados de wi-fi, organizações e
governos se mobilizam para expandir a rede para espaços públicos e regiões onde ela ainda não chega, com
acesso livre e gratuito.
nROSA, G.; SANTOS, P. Galileu,
n. 240, jul. 2011 (fragmento).

A internet tem ouvidos e memória


Uma pesquisa da consultoria Forrester Research revela que, nos Estados Unidos, a população já passou
mais tempo conectada à internet do que em frente à televisão. Os hábitos estão mudando. No Brasil, as pes-
soas já gastam cerca de 20% de seu tempo on-line em redes sociais. A grande maioria dos internautas (72%,
de acordo com o Ibope Mídia) pretende criar, acessar e manter um perfil em rede. “Faz parte da própria
socialização do indivíduo do século XXI estar numa rede social. Não estar equivale a não ter uma identidade
ou um número de telefone no passado”, acredita Alessandro Barbosa Lima, CEO da e.Life, empresa de moni-
toração e análise de mídias.
As redes sociais são ótimas para disseminar ideias, tornar alguém popular e também arruinar reputa-
ções. Um dos maiores desafios dos usuários de internet é saber ponderar o que se publica nela. Especialistas
recomendam que não se deve publicar o que não se fala em público, pois a internet é um ambiente social e,
ao contrário do que se pensa, a rede não acoberta anonimato, uma vez que mesmo quem se esconde atrás
de um pseudônimo pode ser rastreado e identificado. Aqueles que, por impulso, se exaltam e cometem gafes
podem pagar caro.
n Disponível em: <http://www.terra.com.br>.
Acesso em: 30 jun. 2011 (adaptado).

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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

Reprodução/Enem 2011
n DAHMER, A. Disponível em: <http://malvados.wordpress.com>. Acesso em: 30 jun. 2011.

Instruções:
• O rascunho da redação deve ser feito no espaço apropriado.
• O texto definitivo deve ser escrito a tinta, na folha própria, em até 30 linhas.
• A redação com até 7 (sete) linhas escritas será considerada “insuficiente” e receberá nota zero.
• A redação que fugir ao tema ou que não atender ao tipo dissertativo-argumentativo receberá nota zero.
• A redação que apresentar cópia dos textos da Proposta de Redação ou do Caderno de Questões terá o
número de linhas copiadas desconsiderado para efeito de correção.

Exemplo 3
Apresentamos, a seguir, propostas de redação do vestibular da Universidade Federal de Goiás.
Instruções:
A prova de Redação apresenta três propostas de construção textual. Desse modo, para produzir o seu
texto, você deve escolher um gênero, entre os três indicados abaixo:
A – diário
B – editorial
C – carta de leitor
O tema é único para os três gêneros. Fuga ao tema, desconsideração ou mera cópia da coletânea anu-
lam a Redação.
Com a finalidade de auxiliar o projeto do seu texto, o tema vem acompanhado de uma coletânea. Ela
tem o objetivo de propiciar uma compreensão prévia e abrangente a respeito da temática proposta. Por isso,
a leitura da coletânea é obrigatória. Ao utilizá-la, você não deve copiar trechos ou frases sem que essa trans-
crição esteja a serviço do seu projeto de texto.
Independentemente do gênero escolhido, o seu texto não deve ser assinado.

Tema:
A Verdade: inerente aos acontecimentos e às coisas do mundo? Construída a partir dos
acontecimentos e das coisas num dado momento e lugar?

Coletânea

ciência [Do lat. scientia]. S. f. [...] conjunto de conhecimentos socialmente adquiridos ou produzidos,
historicamente acumulados, dotados de universalidade e objetividade que permitem sua transmis-
são, e estruturados com métodos, teorias e linguagens próprias, que visam compreender e, possivel-
mente, orientar a natureza e atividades humanas.
verdade [Do lat. veritate]. S. f. Conformidade com o real; exatidão, realidade; franqueza, sinceridade;
coisa verdadeira ou certa; [...] princípio certo; [...] representação fiel de alguma coisa da natureza.

n FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI. O Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 462 e 2 060.

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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

Câncer
Quando as estatinas chegaram ao mercado, pensava-se que elas poderiam aumentar os riscos de
câncer. Agora, os médicos começam a acreditar que os efeitos do remédio podem vir a ajudar no tratamen-
to de pacientes com câncer, especialmente os tumores malignos de fígado, de intestino e de próstata.
Começaram a ser feitos os primeiros levantamentos sobre a relação entre as estatinas e a pre-
venção do câncer da mama. O processo pelo qual o remédio combateria esses tumores ainda não foi
desvendado.
n Veja. São Paulo: Abril, n. 1858, 16 jun. 2004, p. 86.

Ninguém tem dúvida de que discordâncias e erros de interpretação podem ocorrer. Infelizmente,
fazem parte do aspecto subjetivo humano, do exercício da medicina. Resta aos especialistas a tarefa con-
tínua de melhorar ao máximo o controle de qualidade de equipamentos, métodos, técnicos e médicos,
num esforço constante para evitar informações desencontradas que possam prejudicar o paciente.
Por sorte, a maioria das discrepâncias está em detalhes periféricos que raramente têm impacto
significativo no manejo clínico. As restrições impostas pelos diferentes sistemas de saúde, assim
como pelo mercado, podem reduzir a capacidade dos centros de diagnóstico em manter qualidade de
níveis elevados, adequados. Quanto de discrepância entre especialistas pode ser considerado aceitá-
vel? Isso ainda não está claro hoje em dia. E não se sabe se ficará claro num futuro próximo.
n Carta Capital. São Paulo, n. 303, set. 2004, p. 56. Especial Saúde.

Quando comparamos as físicas de Aristóteles, Galileu, Newton e Einstein, não estamos diante de
uma mesma física, que teria evoluído ou progredido, mas diante de três físicas diferentes, baseadas
em princípios, conceitos, demonstrações, experimentações e tecnologias completamente diferentes.
Em cada uma delas, a ideia de Natureza é diferente; em cada uma delas os métodos empregados são
diferentes; em cada uma delas o que se deseja conhecer é diferente.
n CHAUI. Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática,1999. p. 257.

Se seus anzóis têm, até o momento, pescado só peixes pequenos, ele (o cientista) deve mudá-los
para ver se consegue pescar peixes grandes. Se está convencido de que as coisas são de um jeito, deve-
ria buscar evidências de que são de outro. Cada cientista consciente deveria lutar contra sua própria
teoria. E é isso que o torna uma pessoa capaz de perceber o novo.
n ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e a suas regras. São Paulo: Loyola, 2000. p. 189.

Em nossas sociedades, a “economia política” da verdade tem cinco características historicamen-


te importantes: a “verdade” é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produ-
zem; está submetida a uma constante incitação econômica e política (necessidade de verdade tanto
para a produção econômica quanto para o poder político); é objeto, de várias formas, de uma imensa
difusão e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de educação ou de informação, cuja extensão
no corpo social é relativamente grande, não obstante algumas limitações rigorosas); é produzida e
transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou
econômicos (universidade, exército, escritura, meios de comunicação); enfim, é objeto de debate polí-

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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

tico e de confronto social (as lutas “ideológicas”). [...] Há um combate “pela verdade” ou, ao menos, “em
torno da verdade” – entendendo-se, mais uma vez, que por verdade não quero dizer “o conjunto das
coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar”, mas o “conjunto das regras segundo as quais se
distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder”; entendendo-se
também que não se trata de um combate “em favor” da verdade, mas em torno do estatuto da verda-
de e do papel econômico-político que ela desempenha.
n FOUCAULT, M. Microfísica do poder. 18. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2003. p. 13.

Mídia, às vezes, fabrica notícias, afirma Gushiken


O ministro Luiz Gushiken (Comunicação e Gestão Estratégica) disse que a mídia às vezes comete
“deslizes” e “fabrica” notícias. As declarações foram dadas ao comentar a proposta de criação do
Conselho Federal de Jornalismo para fiscalizar os profissionais.
Gushiken diz que a liberdade de imprensa é “um valor definitivo na democracia”, mas que “nada
é absoluto”.
n Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 ago. 2004.

A nossa moral e a deles


Ser democrático, diz Giannotti, é conviver com esse “risco de o político tentar vencer eleições
usando os recursos à mão, até manipulando indecisões e falhas do regulamento”. Não existe política
sem tolerância para certas faltas. Se não existe inferno, se o proletariado não vai nos salvar da barbá-
rie da história e, enfim, se Marx está morto, se Deus está morto e nós mesmos não nos sentimos muito
bem, há um espaço “cinzento” para alguma espécie de vale-tudo.
n FREIRE, Vinícius Torres. A nossa moral e a deles. Folha de S.Paulo, São Paulo, 15 set. 2003. p. A2.

A mentira na política
Não se pode minimizar o papel vigilante da mídia. Se ela se contenta em denunciar aos quatro
ventos o escândalo da mentira, apenas arma instrumento político para a oposição, sem fazer o balan-
ço dos aspectos negativos e positivos da mentira. [...] É verdade que não pode discutir esses temas
numa pequena nota de jornal, mas a bola está com ele [Vinícius] – particularmente, atitude que deve
tomar. No título “A nossa moral e a deles”, Vinícius levanta, a meu ver, uma questão importante: exis-
te no PT e na esquerda em geral um traço de evangelização, pois só eles proclamam a verdade da
história e da revolução, por conseguinte o que dizem é a verdade, e os adversários, a mentira.
n GIANNOTTI, José Arthur. A mentira na política. Folha de S.Paulo, São Paulo, 17 set. 2003, p. A3.

No início do verão [europeu], uma notícia policial sacudia a França. Num trem de subúrbio, uma
jovem que viajava com seu bebê fora assaltada e brutalizada por um bando de adolescentes magre-
binos e negros. Constatando, ao roubarem seus documentos, que nascera nos “bairros ricos”, eles
haviam concluído que era judia.
Consequentemente, o roubo se transformara em agressão antissemita: eles marcaram seu rosto à
faca, pintaram nela suásticas e fizeram cortes selvagens em seus cabelos. Nenhum dos passageiros do trem
interveio para defender a jovem e seu bebê, nem sequer para puxar simplesmente o sinal de alarme.

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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

Em 48 horas viam-se multiplicar as declarações de responsáveis políticos e os comentários dos


jornais. Mais ainda que a agressão, era a passividade dos passageiros que levantava a indignação [...].
Dois dias mais tarde ficou-se sabendo que todo o caso fora pura e simplesmente forjado. A jovem
quisera por essa encenação chamar para si a atenção de um companheiro pouco sensível a seus pro-
blemas.
As falsas notícias são tão velhas quanto o mundo assim como sua utilização no quadro de con-
flitos entre comunidades. Esta, porém, parece mostrar claramente o novo regime da mentira. Com
efeito, conhecem-se duas formas tradicionais da mentira de massa. Há a forma do “rumor popular”
– por exemplo, o que na Idade Média acusava os judeus de raptos de crianças destinadas a mortes
rituais. E há a forma da mentira deliberadamente inventada por um poder, estatal ou outro, para
atiçar em seu proveito o ódio contra uma comunidade que serve de bode expiatório.
A mentira da jovem Marie-Léonie não se enquadra em nenhuma das duas. A máquina da
informação, nos dias de hoje, é mais rápida que todo o rumor popular. E nossos governos consensuais
não têm nenhum interesse em alimentar a guerra das comunidades. Portanto, não se pode aqui pôr
em causa nem a tradicional “credulidade” das massas populares nem a imaginação perversa dos
homens do poder.
n RANCIERE, Jacques. As novas razões da mentira. Folha de S.Paulo,
São Paulo, 22 ago. 2004. Caderno Mais!, p. 3.

Propostas de redação:
a) Diário
O diário é um tipo de relato pessoal que narra fatos de nosso cotidiano, relata impressões sobre o
mundo que nos cerca, nossas ideias, opiniões, emoções e até nossos segredos. No ambiente acadêmico-
-científico, o diário deixa transparecer os caminhos da pesquisa, as dúvidas, os problemas do pesquisador,
as relações sociais que se estabelecem entre os participantes da pesquisa, enfim, é uma forma de se fazer
um balanço das próprias ações.
Imagine que você seja um cientista que descobriu a vacina contra o vírus HIV. O Ministério da Saúde
resolve aplicar a vacina antes de ela ser amplamente testada, e uma campanha de vacinação em massa é
realizada pelo governo. Depois de realizada a vacinação, você descobre, por meio de novos testes, que a vaci-
na não é eficiente, mas a divulgação da notícia é proibida. Você é obrigado a se calar. Diante desse conflito,
você resolve escrever uma página de seu diário, relatando os acontecimentos e refletindo sobre o seu papel
no desenvolvimento das pesquisas científicas e sobre a verdade na ciência.

b) Editorial
O editorial, por veicular a opinião do jornal sobre assuntos da atualidade, quase sempre polêmicos,
caracteriza-se como um texto de natureza argumentativa.
Você é o editor-chefe de um jornal de grande circulação nacional, que publicou uma notícia sobre o
desvio de verba para a conta particular de um senador. A partir da denúncia do jornal, o senador foi julgado
e teve seu mandato cassado. Alguns meses passaram-se, e uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)
comprovou que houve um equívoco do jornal na demonstração dos valores, absolvendo, assim, o senador.
Por meio de um editorial, você deve discutir o acontecimento e suas consequências, mostrar ao leitor
as razões da publicação da notícia, justificando a atitude do seu jornal, questionar e tecer reflexões acerca
da questão da verdade na política e no jornalismo.

c) Carta de leitor
A carta de leitor é um gênero da mídia impressa; um espaço destinado aos leitores que queiram emitir
pareceres pessoais favoráveis ou desfavoráveis às matérias publicadas.
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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

Faça de conta que você seja a jovem francesa Marie-Léonie, que, ao ler, no jornal Le Monde, a notícia de
que a agressão que sofrera havia sido uma farsa, decide escrever ao jornal a fim de esclarecer os aconteci-
mentos ocorridos no trem. Você deve se defender das acusações divulgadas pelo jornal e recorrer a argu-
mentos que fortaleçam sua defesa e que questionem o princípio da verdade nas práticas desenvolvidas
pelos veículos de informação de massa.
ando
oc

tr
ideias
Leiam, em pequenos grupos, a proposta de redação da Universidade Federal de Goiás
(exemplo 3). Em seguida, comentem:
a) Pensando no enunciador, na voz que se expressará, o que chama a atenção nas três
propostas?
b) Além do enunciador, o que mais vem definido nas três propostas?
Apresentem suas conclusões aos colegas.

Exemplo 4
Leia a proposta da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (Unifesp):

Amor (ô). S. m.
1. Sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem, ou de alguma coisa.
2. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou a uma coisa; devoção,
culto; adoração. [...]
n Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa.

Não é recorrendo ao dicionário que se pode chegar à melhor definição para o Amor. Pelo menos da
forma como ele está presente no cotidiano das pessoas. Camões, em sua lírica, já vislumbrava os efeitos
contraditórios desse sentimento: “Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, Se tão
contrário a si é o mesmo Amor?”.
As relações sentimentais e o próprio Amor constituem um eixo que perpassa a vida de todos os seres
humanos que, em maior ou menor intensidade, dedicam momentos de sua existência a amar.
O Amor motiva as pessoas ou as leva à depressão; extrai delas lágrimas – de alegria ou tristeza. O Amor
está nas reflexões dos filósofos, na mídia, na literatura, na música, enfim, o Amor está na vida.
Valendo-se dos seus conhecimentos e dos textos a seguir, elabore uma dissertação em prosa, na qual
exponha e fundamente seu ponto de vista sobre o tema:
O amor e a busca da felicidade: prós e contras.
Texto 1
Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito
Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo é o meu amor.
n Tribalistas.

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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

Texto 2

© 2010 Dik Browne/King Features Syndicate/Ipress


Texto 3
Mais do que um fenômeno circunscrito a teens ou a adultos solitários, os relacionamentos românticos
via internet tendem a se expandir em um futuro próximo e devem, como consequência, provocar um rela-
xamento das normas sociais e morais tais como as entendemos hoje. No limite, elas devem impor um novo
padrão de ética à sociedade “off-line”, como defende o filósofo Aaron Ben-Ze’ev em seu livro “Love On-line”.
[...]
FOLHA: O sr. diz em seu livro que “a natureza interativa do ciberespaço exerce um profundo impacto
sobre a estrutura social”. Que tipo de impacto?
AARON: A internet modificou dramaticamente o domínio do romântico e esse processo irá se acelerar
no futuro.
Tais alterações mudarão inevitavelmente as formas sociais atuais, como o casamento, a coabitação, as
práticas românticas correntes relacionadas à sedução, sexo casual, namoros e a noção de exclusividade
romântica. Podemos esperar um relaxamento das normas sociais e morais; esse processo não deveria ser
considerado uma ameaça, pois não são as modificações on-line que põem em perigo os relacionamentos
românticos, mas nossa falta de habilidade para nos adaptarmos a elas. O relaxamento dessas normas ficará
particularmente evidente em questões que dizem respeito à exclusividade romântica. Será difícil evitar
inteiramente as alternativas disponíveis. A noção de “traição” será menos comum no que diz respeito aos
casos românticos.
Assim como o aumento da flexibilidade romântica, valores como estabilidade e maior camaradagem
serão mais importantes. A natureza caótica e dinâmica do ciberespaço nunca irá substituir a natureza mais
estável do “espaço real”, pois não podemos viver em um caos completo: do mesmo modo que outros tipos de
significado, o significado emocional pressupõe algum tipo de base estável contra a qual ele é gerado. Apesar
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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

disso, o domínio romântico se tornará mais dinâmico, e será mais difícil perfazer as vantagens emocionais
de uma estrutura romântica estável.
FOLHA: Do ponto de vista dos efeitos psicológicos, quais as diferenças entre o amor “convencional” e o
“on-line”?
AARON: Em ambos os tipos de amor existem emoções reais, como desejo e ciúme. Mas existem muitas
diferenças no que diz respeito à prevalência de vários aspectos em cada tipo de amor. No amor on-line, o
papel da imaginação é muito maior.
O ciberespaço revolucionou o papel da imaginação nos relacionamentos pessoais e elevou a imagina-
ção de seu papel de ferramenta periférica — utilizada sobretudo por artistas e, no pior dos casos, por sonha-
dores e aqueles que, por assim dizer, não têm nada para fazer — a um meio central de relacionamento
pessoal para muitas pessoas, que têm ocupações ou envolvimentos, mas preferem interagir on-line.
A internet encoraja outros tipos de trocas em relacionamentos românticos. Assim, a proeminência da
comunicação verbal em comunicações on-line provavelmente irá aumentar a importância das habilidades
intelectuais nas interações românticas.
n PERES, Marcos Flamínio. Folha de S.Paulo,
São Paulo, 18 jul. 2004. Caderno Mais!

Texto 4
A americana Laura Kipnis, professora de comunicações na Universidade Northwestern, em Illinois, nos
Estados Unidos, contesta alguns dos conceitos mais sagrados da sociedade, como o amor, o casamento e a
monogamia.
Em Against Love — A Polemic (Contra o Amor — Uma Polêmica, que será publicado neste ano no Brasil),
livro de grande repercussão lançado em 2003 nos Estados Unidos, ela diz que, no mundo moderno, o amor
passou a ser visto como a solução para as dúvidas existenciais do ser humano — e que isso é uma tremenda
encrenca. A expectativa quanto à felicidade que o amor deve proporcionar complicou o casamento e outros
tipos de relação estável, pois exige do casal um esforço inédito para que as coisas deem certo. Para a profes-
sora, essa nova realidade é uma enorme fonte de stress e depressão. [...]
VEJA: O amor traz felicidade?
LAURA: Não exatamente. A ideia de que o amor leva à felicidade é uma invenção moderna. A gente
aprende a acreditar que o amor deve durar para sempre e que o casamento é o melhor lugar para exercê-lo.
No passado não havia tanto otimismo quanto à longevidade da paixão. Romeu e Julieta não é uma história
feliz, é uma tragédia.
O mito do amor romântico que leva ao casamento e à felicidade é uma invenção do fim do século XVIII.
Nas últimas décadas, a expectativa quanto ao casamento como o caminho para a realização pessoal cresceu
muito. A decepção e a insatisfação cresceram junto.
VEJA: Ou seja, enquanto antes as pessoas sofriam porque os casamentos eram arranjados, hoje sofrem
porque acham que devem encontrar a pessoa ideal?
LAURA: Exato. Imagine alguém dizer que é contra o amor. É considerado um herege. As propagandas,
as novelas, os filmes, os conselhos dos parentes, tudo contribui para promover os benefícios do amor. Deixar
de amar significa não alcançar o que é mais essencialmente humano. O casamento é envolto pelo mesmo
tipo de cobrança. E, quando cai por terra a expectativa do romance e da atração sexual eternos, surge a per-
gunta: “O que há de errado comigo?” [...].
n SCHELP, Diogo. Contra o Amor. Veja, 19 maio 2004.

Texto 5
“– [...] Para mim era um êxtase divino, uma espécie de sonho em ação, uma transfusão absoluta de alma
para alma; para ele o amor era um sentimento moderado, regrado, um pretexto conjugal, sem ardores, sem
asas, sem ilusões… Erraríamos ambos, quem sabe?”
n LOPES, Lucia Leite Ribeiro Prado. Machado de A a Z.
São Paulo: Editora 34, 2001.

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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

Atividades
1. Descreva a coletânea quanto aos gêneros textuais.
2. Relacione a temática dos textos da coletânea e a temática da proposta.
3. Que sequência textual deve predominar no texto pedido na proposta pela Unifesp? Como é
definido o enunciador?

4. A proposta não apresenta nenhum recorte temático. No entanto, o posicionamento do


produtor do texto, o caráter argumentativo do texto a ser produzido, determinará, sim,
um recorte. Explique a afirmação.

Exemplo 5
Leia atentamente a proposta da UFPR:
Considere os subsídios apresentados nas charges de Millôr e nos textos “Brasília”, “Londres” e “O campo
e a cidade”.
Escreva um texto em prosa, de 17 a 20 linhas, que aborde a organização da vida urbana. Você pode
tomar a sua cidade como referência. Seu texto deverá contemplar pelo menos um dos seguintes tópicos:
• Ocupação do espaço urbano.
• Infraestrutura para a população na cidade.
• Qualidade de vida.
• Acesso a bens culturais.
• Verticalização da arquitetura urbana.
Você deverá observar as seguintes orientações:
• Fazer uso de informações ou posicionamentos fornecidos nos textos e charges de referência (à
sua escolha).
• Manifestar de forma clara seu posicionamento pessoal diante do assunto.
• Dar um título ao seu texto.

Brasília
Brasília foi construída com base num minucioso planejamento urbano. Apesar disso, o Distrito Federal,
onde está a capital brasileira, sofre um crescimento desordenado da área urbana, que inclui não apenas a
cidade propriamente dita, mas também seu entorno.
Apesar de planejados, Brasília e Distrito Federal apresentam-se como um quadro-resumo da realidade
de países em desenvolvimento. O inchaço da mancha urbana é uma dessas características marcantes. O
plano de instalação da capital previa uma população de 500 mil habitantes no ano 2000, mas esse número
já superou os dois milhões, criando sérios problemas urbanos.
A periferização é um desses problemas. Diariamente chega ao Distrito Federal um grande contingente
de população buscando benefícios da política de assentamentos oficial, o que levou ao aparecimento de
diversas cidades nos últimos anos.
Essas novas cidades seriam um indicativo da tentativa de erradicação de invasões existentes no
Distrito Federal, mas acabaram gerando favelização do território.
Como efeitos imediatos dessa política, aparecem a pobreza e a violência urbanas centralizadas nas
“vilas miséria”. Mas essa situação não é sentida tão intensamente em Brasília quanto em outros centros
urbanos, em razão da estratégia de afastamento dos bolsões de miséria em relação às áreas centrais,
como o Plano Piloto, onde vive a população de média e alta rendas. Os pobres estão confinados a zonas
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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

periféricas. De qualquer maneira, o aumento da favelização já afeta a população residente nos espaços
centrais. Como se não bastasse, o inchaço da malha urbana do Distrito Federal já tem previsão de aco-
modar em 2015, segundo fontes do BID, uma população acima de 6,6 milhões. É importante salientar
que a relação entre migrantes e brasilienses natos no crescimento populacional é da ordem de 60%
para 40%, respectivamente.
n Adaptado de: Scientific American Brasil, jan. 2003, p. 55-6.

Londres
Londres já tinha meio milhão de habitantes em 1660, numa época em que a segunda maior cidade,
Bristol, contava cerca de 30.000. De 1700 a 1820, a população chegou a 1.250.000. A centralização do poder
político, a substituição do feudalismo por uma aristocracia rural e, em seguida, por uma burguesia rural,
com todos os efeitos subsequentes sobre a modernização da terra, o desenvolvimento extraordinário de
um comércio mercantil: esses processos notáveis haviam ganhado um irresistível impulso no decorrer do
tempo – uma concentração e uma demanda que alimentavam a si próprias. A cidade do século XIX, na
Grã-Bretanha como em outros lugares, seria uma criação do capitalismo industrial. Em cada etapa, ela ia
absorvendo áreas cada vez maiores do resto do país: os negociantes de gado trazendo animais do País de
Gales ou da Escócia para abastecer a cidade de carne; grupos de moças vindas do norte de Gales para
colher morangos; e – mais importante ainda do que essas viagens organizadas, ainda que extraordinárias
– milhares em busca de trabalho ou de um esconderijo; gente que fugia de uma crise ou de uma vida
rigorosa igualmente intolerável.
n WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura.
São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 205.

O campo e a cidade
“Campo” e “cidade” são palavras muito poderosas, e isso não é de se estranhar, se aquilatarmos o quan-
to elas representam na vivência das comunidades humanas. O termo inglês country pode significar tanto
“país” quanto “campo”; the country pode ser toda a sociedade ou só sua parte rural. Na longa história das
comunidades humanas, sempre esteve bem evidente esta ligação entre a terra da qual todos nós, direta ou
indiretamente, extraímos nossa subsistência, e as realizações da sociedade humana. E uma dessas realiza-
ções é a cidade: a capital, a cidade grande, uma forma distinta de civilização.
Em torno das comunidades existentes, historicamente bastante variadas, cristalizaram-se e
generalizaram-se atitudes emocionais poderosas. O campo passou a ser associado a uma forma natu-
ral de vida – de paz, inocência e virtudes simples. À cidade associou-se a ideia de centro de realiza-
ções – de saber, comunicações, luz. Também constelaram-se poderosas associações negativas: a cida-
de como lugar de barulho, mundanidade e ambição; o campo como lugar de atraso, ignorância e
limitação. O contraste entre campo e cidade, enquanto formas de vida fundamentais, remonta à
Antiguidade clássica.
A realidade histórica, porém, é surpreendentemente variada. A “forma de vida campestre” englo-
ba as mais diversas práticas – de caçadores, pastores, fazendeiros e empresários agroindustriais –, e
sua organização varia da tribo ao feudo, do camponês e pequeno arrendatário à comuna rural, dos
latifúndios e plantations às grandes empresas agroindustriais capitalistas e fazendas estatais.
Também a cidade aparece sob numerosas formas: capital do Estado, centro administrativo, centro reli-
gioso, centro comercial, porto e armazém, base militar, polo industrial. O que há em comum entre as
cidades antigas e medievais e as metrópoles e conurbações modernas é o nome e, em parte, a função
– mas não há em absoluto uma relação de identidade. Além disso, em nosso próprio mundo, entre os
tradicionais extremos de campo e cidade existe uma ampla gama de concentrações humanas: subúr-
bio, cidade-dormitório, favela, complexo industrial. [...]
n WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade: na história e na literatura.
São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 11-2.

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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

Ilustrações: © Millôr Fernandes/Acervo do cartunista

n Disponível em: <http://www2.uol.com.br/millor/aberto/charges/003/index.htm>.


Acesso em: 24 mar. 2010.

Atividades
1. Os textos que formam o painel de leitura apresentam as mesmas características? Explique.
2. Que sequências textuais predominam em cada um dos três textos verbais?
3. Comente a seleção de textos feita pela UFPR. Eles oferecem, de fato, subsídios para a produção
do texto pedido?

Exemplo 6
Leia a proposta do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), de São José dos Campos (SP):
Instruções para redação
Examine os dados contidos nos gráficos e tabela a seguir e, a partir das informações neles contidas,
extraia um tema para sua dissertação que deverá ser em prosa, de aproximadamente 25 linhas.
Para elaborar sua redação, você deverá se valer, total ou parcialmente, dos dados contidos nos gráficos
e tabela. Dê um título ao seu texto. A redação final deve ser feita com caneta azul ou preta.
Atenção: A Banca Examinadora aceitará qualquer posicionamento ideológico do candidato. A redação
será anulada se não versar sobre o tema ou se não for uma dissertação em prosa.
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PrOdUçãO de TexTOs: dA esCOLA PArA A vidA CAPÍTULO 2

Os gráficos seguintes, retirados da Folha de S.Paulo de


23/11/1986, são resultados de uma pesquisa realizada em novem- Concorda/discorda
Não sabe
5%
bro do mesmo ano. Nessa pesquisa, foram entrevistadas 900 em parte 4%
pessoas, distribuídas por todo o município de São Paulo, de
ambos os sexos, com dezoito anos ou mais e com diferentes
níveis de escolaridade e de posições socioeconômicas. Discorda Concorda
42% 49%
O(A) sr.(a) concorda ou discorda que existem algumas ocupa-
ções profissionais que são próprias para as mulheres e outras
que são próprias para os homens?
(O gráfico ao lado traduz as respostas dos entrevistados.)
De um modo geral, nas seguintes ocupações, o(a) sr.(a) confia mais no trabalho de um homem ou de
uma mulher? Os cinco gráficos abaixo traduzem as respostas dos entrevistados.

Total (%)
54 58 58
47 52
45 42
Homem 36 37
32
Mulher 8
Ambos/Indiferente 6 6 5
2 2 3 2 4
1
Não sabe
Advocacia Cirurgia Engenharia Assistência Social Ensino

A tabela abaixo, retirada do Boletim Dieese – edição especial, 8 março de 2004, mostra a população
economicamente ativa por sexo do Brasil e grandes regiões – de 1992 e 2002.

brasil e 1992 2002


grandes regiões Mulheres homens total mulheres homens total
Centro-Oeste No 1 872 571 2 998 522 4 871 093 2 537 052 3 665 588 6 202 640
% 38,4 61,6 100 40,9 59,1 100
Nordeste No 7 808 286 11 868 417 19 676 703 9 553 837 13 712 007 23 265 844
% 39,7 60,3 100 41,1 58,9 100
Norte (1) No 1 101 779 1 739 588 2 841 367 1 884 834 2 671 947 4 556 781
% 38,8 61,2 100 41,4 58,6 100
Sudeste No 11 754 507 18 573 743 30 328 250 16 333 652 21 492 853 37 826 505
% 38,8 61.2 100 43,2 56,8 100
Sul No 4 947 904 7 044 472 11 992 376 6 221 793 7 982 082 14 203 875
% 41,3 58,7 100 43,8 56,2 100
Brasil (1) No 27 482 851 42 222 324 69 705 175 36 531 168 49 524 477 86 055 645
% 39,4 60,6 100 42,5 57,5 100
.
Nota: (1) exclusive a população rural de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá.

A partir da apreciação da proposta de redação feita pelo ITA, podemos afirmar que a condição de leitor
eficiente de textos do candidato determina a sua produção textual. Justifique a afirmação.

Mãos à

Escolha pelo menos uma das propostas apresentadas, ative suas competências como
obra!
produtor de textos, escreva seu texto e avalie-o criticamente, observando os pontos discutidos
no capítulo.

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PArTe 2 A CONsTrUçãO dOs TexTOs

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

1. (Enem) que é santo de romaria,


deram então de me chamar
Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-
Severino de Maria;
-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros
de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o como há muitos Severinos
melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. com mães chamadas Maria,
Pergunto: – Zé-Zim, por que é que você não cria fiquei sendo o da Maria
galinhas-d‘angola, como todo o mundo faz? – do finado Zacarias,
Quero criar nada não… – me deu resposta: – Eu mas isso ainda diz pouco:
gosto muito de mudar… […] Belo um dia, ele há muitos na freguesia,
tora. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo por causa de um coronel
digo. Eu dou proteção. […] Essa não faltou tam- que se chamou Zacarias
bém à minha mãe, quando eu era menino, no e que foi o mais antigo
sertãozinho de minha terra. […] Gente melhor senhor desta sesmaria.
do lugar eram todos dessa família Guedes, Como então dizer quem fala
Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos trou- ora a vossas senhorias?
xeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo
n MELO NETO, J. C. de. Obra completa. Rio de Janeiro:
em território baixio da Sirga, da outra banda,
Aguilar, 1994 (fragmento).
ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o
senhor sabe. Texto II
n ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: João Cabral, que já emprestara sua voz ao rio,
José Olympio (fragmento).
transfere-a, aqui, ao retirante Severino, que, como
Na passagem citada, Riobaldo expõe uma situação o Capibaribe, também segue no caminho do Reci-
decorrente de uma desigualdade social típica das fe. A autoapresentação do personagem, na fala
áreas rurais brasileiras marcadas pela concentra- inicial do texto, nos mostra um Severino que,
ção de terras e pela relação de dependência entre quanto mais se define, menos se individualiza,
agregados e fazendeiros. pois seus traços biográficos são sempre partilha-
No texto, destaca-se essa relação porque o perso- dos por outros homens.
nagem-narrador: n SECCHIN, A. C. João Cabral: a poesia do menos.
a) relata a seu interlocutor a história de Zé-Zim, Rio de Janeiro: Topbooks, 1999 (fragmentos).
demonstrando sua pouca disposição em ajudar
Com base no trecho de Morte e Vida Severina (Texto
seus agregados, uma vez que superou essa con-
I) e na análise crítica (Texto II), observa-se que a
dição graças à sua força de trabalho.
relação entre o texto poético e o contexto social a
b) descreve o processo de transformação de um
que ele faz referência aponta para um problema
meeiro – espécie de agregado – em proprietário
social expresso literariamente pela pergunta:
de terra.
“Como então dizer quem fala / ora a vossas senho-
c) denuncia a falta de compromisso e a desocupa- rias?”. A resposta à pergunta expressa no poema é
ção dos moradores, que pouco se envolvem no dada por meio da:
trabalho da terra.
a) descrição minuciosa dos traços biográficos do
d) mostra como a condição material da vida do personagem-narrador.
sertanejo é dificultada pela sua dupla condi-
b) construção da figura do retirante nordestino
ção de homem livre e, ao mesmo tempo,
como um homem resignado com a sua situação.
dependente.
c) representação, na figura do personagem-narra-
e) mantém o distanciamento narrativo condizente
dor, de outros Severinos que compartilham sua
com sua posição social, de proprietário de terras. condição.
2. (Enem) d) apresentação do personagem-narrador como
uma projeção do próprio poeta em sua crise
Texto I existencial.
O meu nome é Severino, e) descrição de Severino, que, apesar de humilde,
não tenho outro de pia. orgulha-se de ser descendente do coronel
Como há muitos Severinos, Zacarias.

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3 CAPÍTULO 3

Os textos injuntivos-
-instrucionais
“Os maiores triunfos da propaganda foram obtidos não fazendo alguma coisa,
mas deixando de fazê-la. A verdade é grande, mas ainda maior, de um ponto de vista
prático, é o silêncio acerca da verdade.”
n HUXLEY, Aldous. No prefácio ao seu livro Admirável mundo novo.
Ministério das Cidades/Denatran

iedade/ caba, SP
ra
Prefeitu
raci
Social deunicipal de Pi
Solidar

SP mpinas,
M

iVarejista, Ca
Fundo

org.br/Sind
Saúde

as.
rejistacampin
Reprodução/Ministério da

www.sindiva

Em nosso dia a dia, deparamos o tempo todo com ordens, regras, instruções, regulamentos, anúncios publicitários
e outros tipos de textos que interferem ou tentam interferir no comportamento das pessoas. Às vezes, somos o
alvo desses textos; outras vezes, assumimos o papel daquele que quer interferir, ordenar, ditar as regras. As
mensagens desse tipo de texto geralmente se organizam na forma de apelo, de ordem, de súplica ou mesmo de
chamada à realidade, despertando nossa consciência. São, em geral, textos muito bem trabalhados, pois têm de
“envolver” o destinatário.

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PArTe 2 A COnsTrUÇÃO DOs TexTOs

/////////////////////////
ORDENS, REGRAS, INSTRUÇÕES, PROPAGANDAS...
///////////
///////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

No primeiro volume desta coleção estudamos as funções da linguagem e analisamos a função conativa
(ou apelativa), em que a mensagem está centrada no interlocutor. Ao se considerar a organização linguística
desses textos (vocabulário, sintaxe, tempos e modos verbais, por exemplo), perceberemos uma sequência do
tipo injuntiva-instrucional.
Injuntivo é sinônimo de “obrigatório”, “imperativo”. No campo dos estudos linguísticos, modo injuntivo é o
mesmo que modo imperativo. Instrucional, por sua vez, remete-nos à instrução, ao ensino; são textos instrucio-
nais, por exemplo, manuais de aparelhos eletrônicos, informações de montagem de móveis, regulamentos,
regras de jogos, modo de preparo nas receitas culinárias.
Gramaticalmente, os textos injuntivos-instrucionais se caracterizam pelo emprego de verbos no impe-
rativo, pronomes na segunda pessoa e uso de vocativos. Em certas construções, os verbos no imperativo são
substituídos por “deve” ou outras construções mais suaves, que, no entanto, indicam ordem, orientação. De
qualquer forma, as sequências injuntivas-instrucionais incitam à ação, isto é, interferem no comportamento
do interlocutor.

Reprodução/Arquivo da editora
Reprodução/Arquivo da editora

Reprodução/Arquivo da editora

A mensagem centrada no interlocutor pode assumir diferentes formas e apelar para diferentes recursos, desde a linguagem não
verbal (que, no entanto, traz embutido o verbo no modo imperativo), textos que se constituem na forma mínima da injunção, com
apenas o verbo no imperativo (por exemplo: Pare!), até textos extremamente persuasivos.

OS TEXTOS INJUNTIVOS-INSTRUCIONAIS
////////////////////////
E OS GÊNEROS TEXTUAIS
///////////
///////////////////////////////////////////////////////////////////////

As sequências injuntivas-instrucionais aparecem em textos dos mais diversos gêneros, como anúncios
publicitários, discursos políticos (notadamente às vésperas de eleição), discursos religiosos, horóscopos, livros de
autoajuda, orações, etc.
Veremos, a seguir, alguns textos centrados na função conativa (sempre lembrando que, num mesmo texto,
podem aparecer diferentes tipos de sequências, da mesma forma que podemos perceber mais de uma função).
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Os TexTOs injUnTivOs-insTrUCiOnAis CAPÍTULO 3

Conheça algumas regras de etiqueta para usar o celular em


locais públicos
Quais são as regras para o uso do telefone em público? A repórter Ana Brito
conversou com uma consultora de etiqueta que deu as dicas.
John Lamb/Photodisc/Getty Images

Eles não são mais usados apenas


para fazer ligações, enviar e rece-
ber mensagens e tirar fotos. Agora
você pode ver televisão, acessar a
internet, ouvir música, passar o
tempo jogando e até trabalhar.
Será que existe regra para usar
bem o celular?
A consultora de etiqueta convidada
pelo Jornal Hoje, Célia Leão, conta o
que é imperdoável. “O fim da pica-
da é fazer com que outras pessoas
participem da conversa que só diz
respeito a você”, diz Célia Leão, con-
sultora de etiqueta.
Evite toques escandalosos. “O toque tradicional do telefone continua sendo o
melhor jeito de saber que ele está tocando”, afirma.
Jamais deixe o celular ligado no cinema ou durante a consulta médica. “Na con-
sulta com o médico, você não deve imaginar que aquele profissional que está te
atendendo, talvez o tempo dele valha menos do que o seu. Porque ele tem que
interromper o que ele está fazendo para você atender uma consulta de celular”.
Sempre se coloque no lugar do outro. “É sempre bem-vindo aquele que recebe
uma ligação, pede licença e vai atender no cantinho. Isso é bem-vindo e elegante”,
garante.
Se a pessoa que fala um pouco mais alto já incomoda quem está por perto, imagine
se ela estiver ouvindo música no celular com o volume alto. Para curtir sua trilha
sonora preferida, sem atrapalhar ninguém, o fone do ouvido é indispensável.
n Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2010/11/conheca-algumas-regras-de-etiqueta-para-usar-o-celular-em-locais-publicos.html>.
Acesso em: 11 mar. 2013.

Nessa matéria jornalística sobre comportamento (o que pode e o que não pode ser feito), os verbos no
imperativo são responsáveis pelo caráter e pelo tom da mensagem, a começar pela forma imperativa do título.
É interessante lembrar que a matéria foi veiculada por um telejornal que vai ao ar no horário do almoço e
atinge um grande e diversificado público; daí o tom informal da linguagem da consultora de etiqueta, com
certas passagens que beiram a oralidade (“o fim da picada”, por exemplo) e o emprego do pronome de
tratamento “você”.

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PArTe 2 A COnsTrUÇÃO DOs TexTOs

CARREGAR A BATERIA
Com o telefone desligado, carregue a bateria por 8 horas antes do seu primeiro uso. Use o telefone até
que a bateria esteja completamente descarregada. Repita esse procedimento mais duas vezes,

Images
perfazendo um total de três ciclos de carga.
1. Conecte o carregador a uma tomada de corrente alternada.

tterstock/Glow
2. Com o telefone desligado, conecte o cabo do carregador à base do telefone.
Se o telefone estiver ligado, os avisos Carregador conectado e Carregando aparecem. O indicador

vic/Shu
de carga da bateria (ou barra indicadora) aparece no visor e começa a oscilar. Se a bateria estiver
completamente descarregada, as barras do visor podem levar alguns minutos para aparecer no

Berislav Kovace
visor.
3. Quando a barra indicadora parar de oscilar, a bateria estará carregada. Desconecte o carregador
da tomada e do telefone.
Importante: Não deixe a bateria ligada a um carregador por mais de 72 horas, pois a carga excessiva
pode encurtar sua vida útil.
Manual do usuário de um telefone celular.

O texto acima é tipicamente instrucional (afinal, faz parte de um manual de instruções). Comparado ao texto anterior, percebe-se
uma mudança no nível da linguagem (é mais formal e impessoal), não ocorre uso explícito de pronomes de tratamento nem
emissão de juízos de valor (como “Isso é bem-vindo e elegante.”). Observe que no corpo do texto instrucional encontramos
sequências explicativas, como o segundo parágrafo do item 2 e a segunda oração da nota Importante, introduzida pela conjunção
“pois” (note a ausência de verbos no imperativo; a mensagem está centrada no referente e não no interlocutor).

Posso comer um prato muito gorduroso à noite?


Depende. Pode desde que você não tenha problemas para digerir uma receita mais pesada. Os alimentos que abrigam
muita gordura, como certos cortes de carne vermelha, levam mais tempo para serem quebrados e absorvidos pelo
organismo. E toda essa demora causa indisposição em pessoas propensas a transtornos digestivos, não importa a hora
do dia. À noite, é claro, tudo piora. Isso porque, quando estamos prestes a dormir, a própria digestão tende a ficar
mais lenta. Se for o seu caso, deixe a comida gordurosa longe da mesa do jantar.
n Disponível em: <http://saude.abril.com.br/edicoes/0309/medicina/conteudo_429584.shtml>. Acesso em: 11 mar. 2013. 

Nas seções de tira-dúvidas, tão comuns em revistas e jornais (assim como em programas de rádio e televisão), as respostas, em
geral, são estruturadas a partir da intenção de alterar ou orientar o comportamento do destinatário (“Se for o seu caso, deixe...”).

PORTUGUÊS
Falar e escrever bem em português é uma habilidade valorizada entre executivos. Os
profissionais que se expressam com clareza ganham a admiração dos colegas e têm mais
chance de progredir na carreira. Por isso, os especialistas em recursos humanos aconselham
retomar os estudos da língua pátria juntamente com as aulas de línguas estrangeiras.
n Disponível em: <http://veja.abril.com.br/151299/para_usar.html>. Acesso em: 11 mar. 2013.

Nesse artigo, embora não tenhamos os indicadores gramaticais que caracterizam a sequência injuntiva (vocativos, verbos no
modo imperativo, pronomes de segunda pessoa), percebe-se a intenção de interferir no comportamento do leitor (observe que há
toda uma argumentação que precede o “conselho” dos especialistas, justificando-o, tornando-o imperativo).

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Os TexTOs injUnTivOs-insTrUCiOnAis CAPÍTULO 3

Ilustrações: Ulhôa Cintra/Arquivo da editora


Poeminha sobre insuficiência
Rapazinho
Estuda depressa
Pois burro aos trinta
É burro à beça
n FERNANDES, Millôr. Millôr Fernandes – poemas.
Porto Alegre: L&PM, 1984. p. 65.

Em textos poéticos, em romances (por exemplo, quando o narrador se dirige ao


leitor ou no diálogo entre personagens), em canções populares também
percebem-se sequências injuntivas, como bem exemplifica o irônico “poeminha”
de Millôr Fernandes.

GÊnerO TexTUAL
Anúncios
Divulgados nos mais variados suportes – revistas e jornais, programas de rádio e televisão, filmes,
DVDs, páginas da internet, outdoors, folhetos, listas telefônicas, luminosos, fachadas, muros –, os anúncios
circulam em diversas esferas, em busca de um interlocutor. Podem estar divulgando um produto, uma
ideia, uma campanha, uma instituição: o objetivo é sempre cativar e convencer seu público-alvo a
adquirir determinado produto ou a aderir a determinada ideia. Para tanto, os anunciantes lançam mão
de recursos expressivos e criativos e de argumentos bastante convincentes. Frases curtas, de efeito,
com jogos de palavras, slogans que seduzem e provocam desejos de obter determinados produtos ou
serviços são algumas das estratégias adotadas pelos publicitários ao elaborar um anúncio. Os recursos
são adequados ao tipo de mídia: impressa, audiovisual, externa, incidental. Muitos anúncios dirigem-se
diretamente ao leitor/ouvinte, empregando o modo verbal imperativo.

ando
oc
tr

ideias
A atividade a seguir pode ser realizada individualmente ou em grupo.
• Pesquise(m) em revistas e jornais anúncios publicitários e discursos políticos.
• Grave(m) comerciais de televisão ou propagandas de qualquer tipo; podem ser de partidos
políticos ou institucionais, por exemplo.

Após a seleção desse material, analise(m):


• como se estruturam as sequências injuntivas nas mensagens pesquisadas;
• como se utilizam as variedades linguísticas e os recursos de persuasão e argumentação nas
mensagens;
• como é o suporte dessas mensagens (jornal, revista, televisão e o público-alvo).
Depois, debata(m) com seus colegas a adequação da linguagem e dos recursos persuasivos
em relação ao público-alvo.
Apresente(m) as conclusões à classe.

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PArTe 2 A COnsTrUÇÃO DOs TexTOs

Atividades
Texto 1

sinais sonoros
sinais de apito significação emprego
No ato do guarda sinaleiro, mudar
Um silvo breve Atenção! Siga!
a direção do trânsito.
Para a fiscalização de documentos
Dois silvos breves Pare!
ou outro fim.
Sinal de advertência. O condutor
Três silvos breves Acenda a lanterna
deve obedecer à intimação.
Quando for necessário fazer,
Um silvo longo Diminua a marcha
diminuir a marcha dos veículos.
Aproximação do Corpo de Bom-
Trânsito impedido em todas as beiros, ambulâncias, veículos de
Um silvo longo e um breve
direções Polícia ou de tropa ou de apre-
sentação oficial.
Nos estacionamentos, à porta de
Três silvos longos Motoristas a postos
teatros, campos desportivos, etc.

n Fonte: Detran-GO. Disponível em: <http://www.detran.goias.gov.br/placas/informacoes_placas_8.htm>.


Acesso em: 11 mar. 2013.

Texto 2

Sinal de apito
Um silvo breve : Atenção, siga.
Dois silvos breves : Pare.
Um silvo breve à noite : Acenda a lanterna.
Um silvo longo : Diminua a marcha.
Um silvo longo e breve : Motoristas a postos.

(A este sinal todos os motoristas tomam lugar em seus veículos para movimentá-los
[imediatamente.)
n ANDRADE, Carlos Drummond de. Carlos Drummond de Andrade – poesia completa & prosa. 3. ed.
Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973. p. 68.

Sobre “Sinais sonoros”, responda em seu caderno:


1. O texto “Sinais sonoros”, retirado do site do Departamento de Trânsito (Detran) de Goiás, apresenta-nos os
sinais sonoros emitidos por um guarda de trânsito.
a) Qual é o código utilizado nesses sinais?
b) Que outro código um guarda de trânsito utiliza?
c) Sabemos que o signo linguístico une um elemento concreto, material, perceptível – som ou letras
impressas, que constituem o significante –, a um conceito, elemento inteligível (significado). A partir
disso, responda: podemos afirmar que, no caso dos apitos do guarda, sinal pode ser entendido como
sinônimo de signo? Justifique.
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Os TexTOs injUnTivOs-insTrUCiOnAis CAPÍTULO 3

2. Analisando gramaticalmente o texto dos sinais da primeira coluna:


a) Classifique a palavra um, considerando que ela pode ser tanto artigo indefinido masculino singular
quanto numeral cardinal ou pronome indefinido. Justifique.
b) Identifique a que outras classes gramaticais pertencem as demais palavras.

3. Analisando os textos da segunda coluna, percebemos que são ordens.


a) Qual é sua principal característica gramatical?
b) Há algum caso que não apresenta essa característica, apesar de indicar ordem?

4. O texto injuntivo tem por objetivo incitar, instigar, provocar diretamente uma ação. Destaque, na terceira
coluna, textos que deixam bem evidente essa intenção.

Sobre “Sinal de apito”:


5. O poema de Carlos Drummond de Andrade pode ser dividido em três blocos que, de certa maneira, corres-
pondem às três colunas da tabela de sinais sonoros do Detran. Na tabela, as linhas delimitam os três blo-
cos. Que recursos gráficos o poeta utilizou para marcar os três blocos?

6. Comparando a tabela de sinais sonoros e o poema, percebemos que Drummond promove ligeiras alterações.
a) Em que versos elas ocorrem?
b) O sinal descrito no quinto verso está centrado em uma figura de linguagem. Que figura é essa? Compare
o sinal do quinto verso ao sinal descrito na tabela e explique que “interferência” o poeta realizou para
criar essa figura de linguagem.

7. Observe que o verso entre parênteses refere-se especificamente ao quinto verso.


a) Que palavra nos indica isso?
b) Que relação podemos estabelecer entre o quinto sinal e o verso entre parênteses?
c) Releia o poema e responda: o que o poeta pretende nos mostrar?

8. A partir de sua interpretação, invente outro título para o poema.


9. Como você percebeu, ambos os textos apresentam passagens injuntivas. Ao mesmo tempo, são bastante
distintos. Por quê?

Texto para as questões de 10 a 12.

n DAVIS, Jim. Garfield. Folha de S.Paulo, 6 fev. 2001, p. E-7.

10. Aponte, nas falas de Garfield, indicadores gramaticais que nos permitem classificá-las como injuntivas.
11. O humor da tira está centrado numa flagrante contradição. Explique-a.
12. Explique a relação entre a linguagem verbal e a não verbal e a construção do humor presente na tira.
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PArTe 2 A COnsTrUÇÃO DOs TexTOs

Texto para as questões 13 e 14.

Eric Clapton liberou o áudio na íntegra do seu novo disco, Old Sock. Clique aqui
para conferir (via SpeakeasyBlog).

O álbum tem algumas faixas inéditas, como “Gotta Get Over” e “Every Little”;
além de outras dez músicas tidas por Clapton como as “suas preferidas” em
estilos como blues e jazz – estão inclusas aí releituras de clássicos como “Still Got
The Blues” e “All of Me”. Músicos como Paul McCartney e Chaka Khan participam
de algumas dessas canções.

Leia mais sobre Eric Clapton

n Disponível em: <http://omelete.uol.com.br/eric-clapton/musica/eric-clapton-libera-novo-disco-old-sock-na-integra/>.


Acesso em: 11 mar. 2013.

13. A que gênero pertence o texto?


14. Destaque uma passagem injuntiva presente no texto.

Mãos à
obra!
Proposta 1
Leia o texto seguinte. Faz parte da seção de horóscopo de uma revista dirigida ao público
feminino.
claudia.abril.com.br>

Horóscopo diário
Reprodução/<http://

Gêmeos (21/5 a 21/6)


Previsão para hoje
O espírito de coletividade é intensificado pela entrada de Marte em sua área de amizades,
fortalecendo o clima de unidade e vontade. Você lidera os grupos de maneira ágil, mas é preciso ser
mais flexível e democrática!

n Disponível em <http://claudia.abril.com.br/astral/horoscopo-diario/gemeos>.
Acesso em: 12 mar. 2013.

Você foi contratado para escrever a seção de horóscopo de uma revista masculina.
Escolha um signo e capriche!

Proposta 2
Você é o redator de uma agência de publicidade e deve criar uma campanha para vender o produto
X. Inicialmente crie um anúncio direcionado ao público feminino de alto poder aquisitivo e grau de ins-
trução superior; depois, para vender o mesmo produto, crie outro anúncio direcionado ao público mascu-
lino de baixo poder aquisitivo e baixo grau de instrução. Considere a adequação da mensagem à situação
e aos interlocutores.

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Os TexTOs injUnTivOs-insTrUCiOnAis CAPÍTULO 3

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

1. (Enem) som ao computador e utilizar um tipo de programa


conhecido como ripper para transferir a música

Reprodução/Enem 2012
para a placa.
2. Converta seus arquivos para o formato MP3 –
Os programas que transformam os arquivos
sonoros do computador para o formato MP3 são
chamados de encoders e são autoexplicativos.
Muitos são obtidos gratuitamente na própria
rede.
3. Distribua suas músicas em MP3 – Você pode criar
a sua página na internet e nela colocar os arquivos
MP3. Ou deixar disponíveis as músicas em sites
como o MP3.com (www.mp3.com) ou central MP3
(www.centralmp3.com.br)
Marque a alternativa adequada em relação ao
texto.
a) Pode ser considerado uma “charge”, tendo em
vista seu caráter lúdico e crítico.
b) É um artigo, uma vez que apresenta pontos de
vista do autor.
c) Pode ser caracterizado como texto de opinião,
pois apresenta fatos e toma posicionamentos
quanto a estes.
d) É um texto instrucional, pois prescreve etapas e
indica procedimentos.
n Disponível em: <http://www.portaldapropaganda.com.br>.
e) Pode ser identificado como texto publicitário,
vez que tenta convencer o leitor.
A publicidade, de uma forma geral, alia elementos
verbais e imagéticos na constituição de seus textos. 3. (UEPB) Certas marcas linguísticas permitem identi-
Nessa peça publicitária, cujo tema é a sustentabili- ficar o gênero do texto usado. Com base na afirma-
dade, o autor procura convencer o leitor a: ção, faça a correspondência da coluna da esquerda
a) assumir uma atitude reflexiva diante dos fenô- com a da direita:
menos naturais. (1) “Era uma vez...” É um texto instrucional,
b) evitar o consumo excessivo de produtos com finalidade específica.
reutilizáveis.
(2) “Prezado amigo...” Introduz um texto de
c) aderir à onda sustentável, evitando o consumo caráter lúdico.
excessivo.
(3) “Conhece aquela É característica dos
d) abraçar a campanha, desenvolvendo projetos
do português...” vocativos em texto
sustentáveis.
epistolar.
e) consumir produtos de modo responsável e
ecológico. (4) “Tome três xíca- É próprio para iniciar
ras de açúcar e informação científica ou
2. (UEPB) Siga os passos a seguir, grave sua música adicione...” didática.
em formato MP3 e lance-a na internet. Depois, é só (5) “O tema de hoje É recurso liguístico para
esperar pelo mais difícil: ver a canção destacar-se vai ser...” marcar temporalidade
entre os milhões que já se encontram na rede. em textos narrativos.
1. Transfira a música para seu computador – Com o A sequência correta é:
programa Windows Media Player, para PC, ou com
a) 1, 5, 2, 4, 3.
o QuickTime, para Mac, você pode gravar na placa
de som do computador uma música registrada em b) 5, 2, 1, 4, 3.
fita cassete. A qualidade, nesse caso, deixa a dese- c) 4, 3, 2, 5, 1.
jar. O resultado é melhor quando a gravação é feita d) 4, 3, 5, 2, 1.
a partir de um CD. Basta ligar o equipamento de e) 1, 5, 4, 2, 3.

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4 CAP Í T U L O 4

A argumentação
“Distinguiremos a argumentação definida
como a expressão de um ponto de vista, em
vários enunciados ou em um único, e mesmo
em uma única palavra; e a argumentação
Araldo de Luca/Co
rbis/Latinstock

como modo específico de organização de uma


constelação de enunciados. As duas definições
não são, de modo algum, incompatíveis.”
n CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso.
São Paulo: Contexto, 2004.

n Alegoria da Retórica.

Retórica
Definições gerais
n (s.f.) Etim. Grego rhetorike (subentendido tekhne), a arte oratória, a retórica.

Arte de bem falar e teoria desta arte; técnica de utilização dos meios de expressão
diversos em obra no discurso.
Definições particulares de filósofos
REBOUL*
“A retórica é [...] a arte de persuadir pelo discurso; é também o ensino e, enfim, a
teoria desta arte.” (A Retórica, p. 8, PUF.)

n RUSS, Jacqueline. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Scipione, 1994.


*Olivier Reboul (1925-1992) era especialista em Retórica e Filosofia da Educação.

A argumentação é a expressão de um posicionamento em relação a um assunto e, na interação social, tem


como função principal influir no ponto de vista do outro, o interlocutor, ou, pelo menos, apresentar-lhe um
ponto de vista de forma clara. Por conta disso, a argumentação é também um modo específico de organização
das ideias concretizadas em enunciados: um encadeamento lógico guiado pelo raciocínio. Assim, a expressão
de um ponto de vista e o modo específico de organização não só são noções compatíveis, como complemen-
tares: a eficiente expressão de uma argumentação depende da organização das ideias que a formam.

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A ARgUmENTAÇÃO CAPÍTULO 4

A ARGUMENTAÇÃO
///////////////////////////////
///////////
///////////////////////////////////////////////////

Já sabemos que argumentação é a composição em que predomina a defesa de uma ideia, de um ponto de
vista. Dessa forma, uma argumentação depende de análise, de capacidade de montagem de argumentos, de
raciocínio lógico. O produtor de um texto argumentativo procura expor ao leitor/ouvinte, seu interlocutor, uma
determinada posição ou mesmo levantar elementos para uma possível análise ou reflexão. Para tanto, trabalha
com argumentos, com fatos, com dados, com testemunhos, os quais utiliza para sedimentar e solidificar o
desenvolvimento de sua tese ou sua posição final.
Veja a seguir o exemplo de um texto argumentativo e a posição que é nele defendida:

Para os contrários aos meios de massa, o produto cultural perderia inevi-


tavelmente a sua qualidade caso fosse veiculado por TV ou rádio. Uma sinfo-
Como se percebe, o autor
nia, por exemplo, não teria a mesma qualidade daquela executada em um do texto não concorda com
concerto. Essa posição, radical, como se vê, levou o estudioso italiano Umberto aqueles que são contrários
aos meios de comunicação
Eco a qualificar de apocalípticos os que criticam a priori os meios de comuni- (adjetivou essa posição de
cação, não os aceitando como culturais. “radical”) e, para reforçar sua
posição, traz o testemunho do
n SOUZA, Jésus Barbosa de. Meios de comunicação de massa – jornal, televisão, rádio. São Paulo: Scipione, 1996. “estudioso” italiano Umberto
Eco – e quem vai discordar de
uma pessoa já caracterizada
Observe agora o levantamento de dados que o autor utiliza na argumentação: como “estudiosa”?

A partir de 1920, a repercussão do novo meio de comunicação de massas


era notável. Uma demanda febril de aparelhos receptores assolou os Estados
Unidos e a Inglaterra. Em 1921 o número de emissoras nos Estados Unidos era
de 4, passando a 29 em 1922 e a 382 no início de 1923. A publicidade começava
a veicular, o que tornava o novo meio bastante viável economicamente. Em Para sedimentar sua tese (a
1927, havia 7 milhões de aparelhos somente nos EUA. vertiginosa ascensão do rádio),
o autor trabalha com dados,
n SOUZA, Jésus Barbosa de. Op. cit. números, que o leitor aceita
como indiscutíveis.
Veja ainda o desenvolvimento de sua tese e respectiva conclusão:
Nesta passagem, o autor
A televisão é o mais poderoso meio de comunicação de massas do século XX, apresenta sua tese como uma
verdade absoluta e categórica
quanto aos elementos que veicula e tendo-se em vista o alvo coletivo virtual. (observe a força do adjetivo po-
Ela seria uma espécie de liquidificador cultural, capaz de diluir cinema, teatro, deroso no superlativo). Recurso
semelhante encontramos em
música, literatura, tudo em um só espetáculo, fornecendo assim uma reforçada textos argumentativos que se
iniciam da seguinte forma: “É
vitamina eletrônica para o público.
opinião unânime que...”, “Como
n SOUZA, Jésus Barbosa de. Op. cit. todos sabem...”.

A argumentação: um arranjo linguístico característico


Por organizar as ideias em função da expressão de um ponto de vista, a argumentação apresenta uma
composição gramatical muito particular. De modo geral, os arranjos argumentativos têm o predomínio de:
• linguagem mais denotativa, objetiva, sem rodeios (afinal, convence-se o leitor pela força dos argumentos, não
pelo cansaço), dispensando o uso abusivo de figuras de linguagem, bem como o valor conotativo das palavras
(veja bem: dispensa-se, o que não significa que esses recursos nunca sejam usados);

• várias vozes ao longo do texto: a voz do produtor do texto e as vozes introduzidas por ele por meio de citações
e/ou referências, ora para afirmar sua posição, ora para refutá-las;

• períodos compostos por subordinação, especialmente os que exprimem relações de causa/consequência e


concessão; consequentemente, predominam as conjunções subordinativas causais (porque, que, pois, visto
que, já que, etc.) e concessivas (embora, ainda que, se bem que, conquanto, etc.);
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PARTE 2 A CONSTRUÇÃO dOS TExTOS

• períodos compostos por coordenação, com destaque para os que exprimem contraste (coordenadas adversa-
tivas) e os utilizados para fechar uma ideia (coordenadas conclusivas); assim, predominam as conjunções
coordenativas adversativas (mas, porém, todavia, contudo, entretanto, etc.) e conclusivas (logo, portanto, pois,
assim, por isso, etc.);

• expressões adverbiais de enunciação, quando a intenção é marcar uma posição muito pessoal e criar um tom
intimista e de cumplicidade com o interlocutor: sinceramente, como já sabemos, cá entre nós, etc.

• expressões valorativas positivas ou negativas, quando a intenção é evidenciar uma posição não só com argu-
mentos objetivos (dados, citações, relações lógicas, etc.), mas também lançando mão da subjetividade (o que
pode dar ao texto tanto um tom irônico ou sarcástico quanto um tom de contundência);

• ordenadores e organizadores textuais, encarregados da arrumação das informações dentro do texto: do


mesmo modo; não só... mas também; por um lado... por outro lado; em primeiro lugar... em segundo lugar;
para começar... finalmente (ou por fim, para concluir); em síntese, como já foi dito, etc.

Ao contrário dos textos narrativos, os textos argumentativos não apresentam uma progressão temporal;
os conceitos são genéricos, abstratos e, em geral, não se prendem a uma situação de tempo e espaço. Daí o
emprego de verbos no presente. Como os textos argumentativos trabalham com o encadeamento de ideias,
saber usar os conectivos é fundamental para se obter um texto claro, coeso, elegante.

Operadores argumentativos
Ao elaborar um texto argumentativo considerando o processo comunicativo como um todo, fazemos uma
seleção de ideias e a escolha da modalidade (escrita ou falada) e do registro (mais formal, mais informal). Além
disso, podemos articular alguns elementos linguísticos para potencializar a intencionalidade do texto: marcar
e/ou reforçar nossa posição e atingir diretamente o outro, persuadindo-o.
Operadores argumentativos são palavras e expressões capazes de introduzir um significado, enfatizá-lo ou
insinuá-lo. Dentre os mais comuns, destacamos:

• conectivos conjuncionais: especialmente as conjunções que contêm noções semânticas, pois explicitam
a relação de sentido entre as ideias do texto. Por exemplo: mas = oposição; nem = adição; logo = conclu-
são, etc.

• introdutores de pressupostos: especialmente representados pelas palavras e expressões denotativas (até,


nem mesmo, inclusive, também, etc.); numa afirmação do tipo “Nem mesmo os mais alienados deixarão de
perceber...”, parte-se de um pressuposto: o que vai ser demonstrado é o óbvio!;

• intensificadores e modalizadores: especialmente representados pelas palavras e expressões denotativas (só,


somente, apenas, no mínimo, quando muito); são intensificadores quando reforçam a noção semântica do
termo a que se associam (“um só elemento”); são modalizadores quando acrescentam uma noção contrastiva
ao termo a que se associam (“mas também…”, “e porém…”);

• modalizadores valorativos: representados por expressões adverbiais (lamentavelmente, sinceramente, talvez,


etc.), por verbos (acreditar, supor, saber, etc.), por pronomes (isto, aquilo, esta, essa, etc.), por adjetivos (bom,
ruim, excelente, desastroso, divertido, chato, etc.), pelos modos verbais (indicativo, subjuntivo); exprimem a
posição do enunciador em relação às ideias do texto, ora de incerteza, ora de convicção, ora manifestando
subjetividade, etc.;

• reformuladores: representados por palavras e expressões denotativas (ou seja, melhor dizendo, aliás, quer
dizer, etc.), retificam e/ou esclarecem ideias já expostas.
Veja alguns exemplos contextualizados:
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A ARgUmENTAÇÃO CAPÍTULO 4

Globalizaram a globalização
Gustavo Barreto
intensificador: o autor do texto
Esta expressão, que os sociólogos mais preguiçosos têm usado de forma não se refere aos sociólogos
quase que religiosa para explicar coisas que eles não entendem, vem a ser um preguiçosos; ele se refere aos
“mais” preguiçosos.
dos maiores mitos que nossa sociedade criou nos anos 1990. O que é, afinal,
globalizado hoje em dia?
Muito desse clima em torno do conceito de “globalização” vem da comple-
ta falta de informação das pessoas e, principalmente, da falta de capacidade
que o cidadão contemporâneo tem de ligar os fatos, mesmo estando muito conectivo de alternância:
representado pela conjunção
bem informado (ou por causa exatamente desse excesso de informação). alternativa ou, iguala duas
A eletricidade, por exemplo, não é familiar para dois bilhões de pessoas no ideias (uma na forma de
subordinada concessiva, outra
planeta – o que já exclui de cara o acesso à tecnologia e à “modernidade”, carro- causal), pondo-as em paralelo.
-chefe da “globalização”. Antes, é preciso lembrar que a maior parte das pessoas
– mais de 60% – não consegue nem sequer obter água de qualidade, o que causa,
segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 1,7 milhão de mortes por ano,
das quais 99,8% em “países em desenvolvimento” (outra expressão duvidosa).
E o que dizer do direito de ir e vir? É globalizado?
Sabemos que entrar em um país custa caro. Primeiro, você terá que pagar
a exorbitante passagem aérea, o que já exclui a maioria absoluta da população
mundial. Depois, terá de convencer o agente da fronteira de que não irá fazer
mal para o país. Você quer entrar em um lugar próspero? Prove que pode nos
ajudar. Quer entrar em um “país em desenvolvimento”? Pode entrar, somos
globalizados por aqui.
E a pobreza? Globalizada? No Canadá, na Noruega e na Austrália, a quali-
dade de vida da população é próxima à perfeição. Um PIB alto e bem distribuído
faz com que o ato de lutar contra a pobreza nesses países faça o mesmo sentido
que fabricar caviar para consumo interno na Somália.
Mas a desigualdade tem raízes profundas e estamos fazendo o possível. conectivo de conclusão:
Então poderíamos imaginar: o progresso das nações, mesmo que lento, foi globa- representado pela palavra
conotativa então, no sentido
lizado, certo? A cada ano, 5 milhões de pessoas entram no grupo dos “famintos”, de “portanto”, estabelece uma
que já atinge hoje cerca de 850 milhões de pessoas no planeta. O progresso, como relação de dedução e fecho.

demonstram diversos estudos recentes da ONU, não está sendo globalizado.


Mas é preciso dizer isso para as pessoas. A informação, neste caso, foi glo-
balizada? Cerca de 100 grandes grupos produzem mais de 90% da informação
do planeta, tornando-se este quadro o auge do monopólio da informação em
toda a História da mídia mundial.
Abrem-se parênteses. As empresas de comunicação adotam cada vez
mais a lógica do conglomerado, ou seja, um centro de decisão de base geren- reformulador: tenta explicar
cial-financeira que administra grandes massas de capital, diversificado em melhor uma ideia.

vários mercados não relacionados, conseguindo assim manter a estabilidade conectivo de contraste:
representado pela conjunção
financeira como um todo, mesmo que um dos mercados no qual a empresa concessiva mesmo que,
participe esteja passando por uma crise. contrapõe ideias.

Não é de se estranhar, portanto, que uma empresa de comunicação como conectivo de conclusão:
a Rede Globo, por exemplo, possua negócios em áreas que pouco ou nada têm representado pela conjunção
conclusiva portanto, estabelece
a ver com comunicação, como o mercado imobiliário. O economista Celso uma relação de dedução e fecho.
Furtado mostra em “Raízes do Subdesenvolvimento” que esta prática tende a
inchar cada vez mais os conglomerados, beneficiando o monopólio econômico. modalizador valorativo: expressa
incerteza por parte do produtor
É intrigante pensar que a única coisa, talvez, que seja realmente globali-
do texto em relação à ideia que
zada atualmente é a própria globalização – uma falácia vazia e irracional. está desenvolvendo.

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PARTE 2 A CONSTRUÇÃO dOS TExTOS

Mensagens ocas (“queremos paz”, “somos todos irmãos”, etc.), que pode- modalizador valorativo:
expressa a posição particular
riam ser chamadas de globalizadas, seguem à risca um conceito antigo para do produtor do texto em
quem lida com Direito Internacional. Nesta área, para se aprovar qualquer relação à ideia “mensagens
globalizadas”.
tratado ou declaração mundial, é preciso ser bem vago. Trata-se de um princí-
pio que garante o sucesso simbólico do documento, mas que não muda, a prin-
cípio, qualquer legislação ou regimento nacional. Diga-se de passagem,
mesmo admitindo esta influência imaterial, os tratados têm se mostrado
pouco eficazes.
A criança, diz a Declaração Universal dos Direitos da Criança (1959), goza-
rá proteção contra atos que possam suscitar discriminação racial, religiosa ou
“de qualquer outra natureza”. O artigo três da Declaração de Direitos Humanos
de 1948 – “todo homem tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”
– é uma boa razão para que o presidente norte-americano ataque outro país modalizador valorativo:
com seu vistoso aparato bélico, desde que ele considere que os homens de seu o emprego do subjuntivo
manifesta incerteza por parte
Estado estejam ameaçados. do produtor do texto em
As experiências mais progressistas poderiam globalizar a esperança, a relação à ameaça.

solidariedade e o sentimento que evoca a necessidade de mudança estrutural conectivo de contraste:


representado pela conjunção
de um sistema perverso. Convém, no entanto, chamá-las de “regionais”. adversativa no entanto,
Mesmo vozes mais progressistas costumam dizer que boas experiências contrapõe ideias.

só deram certo porque “o lugar era menor”, ou “o contexto ajudou”. Não se reforço intensificador: enfatiza
pensa que o que serve para uma pequena comunidade indígena no interior do a ideia exposta.

Mato Grosso, Brasil, poderá ser útil à nossa civilização e sua própria sobrevi-
vência diante da fúria da Natureza.
É difícil compreender, portanto, do que se fala quando remetemos à
expressão “globalização”. Selecionam com carinho o que deve ser globalizado
– eventos esportivos, músicas sem conteúdo e filmes com forte conteúdo
publicitário – e o resto chamam de regional.
n BARRETO, Gustavo. Disponível em: <http://www.consciencia.net/2004/mes/03/barreto-global.html>.
Acesso em: 12 mar. 2013.

A organização interna do texto argumentativo


Como vimos, um texto argumentativo está baseado no encadeamento lógico de ideias em função da defe-
sa de um ponto de vista; portanto, exige um trabalho de preparação, um plano inicial, para montar o “esqueleto”
da argumentação. Via de regra, podemos distinguir três etapas nas quais se subdivide um texto argumentativo:
introdução, desenvolvimento da argumentação e conclusão.
Ao se iniciar um texto argumentativo, é necessário deixar claro o tema que será abordado – daí a impor-
tância da introdução. Já a conclusão pode ser um apanhado geral das ideias expostas, ou a posição clara, cate-
górica, do autor sobre o tema desenvolvido, ou ainda, dependendo do encaminhamento dado ao texto, pode até
ser uma dúvida ou uma interrogação.
Analisemos o seguinte texto sobre o jornalismo brasileiro:

Todo texto manifesta uma opinião


O jornalismo no Brasil responde a duas direções fundamentais.
De um lado, o jornalismo que resiste às exigências do mercado: a prática do jornal vem marcada pela
presença do autor da reportagem, da crônica, do ensaio; pelos voos ousados no campo da interpretação, da
sensibilidade, da poesia; pelo investimento em grandes trabalhos de investigação que incidem sobre a esfe-
ra social, política e moral; pela denúncia que não busca a sensação barata, a venda fácil e certa da miséria
humana; enfim, um jornalismo marcado pelo exercício diário da ética e da inteligência, em que o leitor é
convocado a participar ativamente dos problemas.
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A ARgUmENTAÇÃO CAPÍTULO 4

Ulhôa Cintra/Arquivo da editora


De outro lado, o jornalismo que responde à tendência
do mercado: tal jornalismo consagra os manuais de reda-
ção e estilo na produção do jornal, os quais ambicionam
apagar a presença do autor e buscam, ao máximo, a prática
da assim chamada escrita “objetiva”, supostamente desti-
tuída de opinião e recheada de dados estatísticos, mapas e
tabelas cuja função é “facilitar a leitura” e dar sustentação
aos dados reunidos no texto.
Claro que tudo isso é um grande engano. Não há e
nunca houve, de fato, nenhum jornalismo “objetivo” e
“sem opinião”: todo texto – jornalístico ou não – mani-
festa uma opinião. Até mesmo a demonstração de uma
fórmula ou teorema matemático, aliás, não é feita da
mesma forma por dois expositores. Os caminhos escolhi-
dos para chegar ao mesmo ponto revelam a diferença de
estilo, revelam o autor.
n ARBEX JR., José. Quem escreve com as mãos? Caros Amigos,
São Paulo, n. 25, abr. 1999, p. 8-9 [adaptado].

Atividades
1. No primeiro parágrafo do texto, o autor afirma que o jornalismo brasileiro esteve diante de
dois caminhos distintos. Identifique esses dois caminhos e, com suas palavras, defina a
principal característica de cada um.

2. Qual é a tese defendida pelo autor?


3. O fragmento apresentado é composto por quatro parágrafos.
a) Analise-os e comente o percurso argumentativo escolhido pelo autor.
b) Que expressões marcam a oposição entre as duas direções comentadas?
c) Qual é o antecedente do pronome isso presente na primeira frase do quarto parágrafo?
4. Em relação às duas direções fundamentais mencionadas no primeiro parágrafo:
a) Com qual delas se alinha o autor?
b) Justifique sua resposta a partir da seleção vocabular e de recursos gráficos presentes
nos parágrafos 2 e 3.
5. No livro Argumentação e linguagem, a professora Ingedore Villaça Koch comenta o papel de
alguns operadores argumentativos que “introduzem, de maneira sub-reptícia, um argumento
decisivo, apresentando-o a título de acréscimo (‘lambuja’), como se fosse desnecessário, justa-
mente para dar o golpe final”. Seria uma comprovação evidente, a chamada “retórica do camelô”.
Aponte, no último parágrafo, qual seria esse argumento decisivo e os operadores argumenta-
tivos que dariam sustentação a ele.

////////////////////////////
OS TEXTOS ARGUMENTATIVOS
///////////
////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////

Até aqui vimos de que maneira se estruturam os textos argumentativos. Mas, na prática, na interação
social, de que maneira eles aparecem? Quais são as formas pelas quais se concretizam?
São exemplos de gêneros textuais que apresentam o predomínio de sequências argumentativas: uma
opinião informal ou formal, escrita ou oral, sobre um assunto; uma tese de mestrado; uma dissertação; uma
crítica de cinema; o editorial de um jornal; um sermão; um ensaio.
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PARTE 2 A CONSTRUÇÃO dOS TExTOS

ando
oc
tr

ideias
Observe os pequenos textos abaixo, comentários opinativos de internautas, relacionados a
uma coluna sobre seriados de TV, disponibilizada no site da MTV em 15 de fevereiro de 2005:
★ tah mais q fraquinha essa coluna hein? era otima.. noticias novas i pah...agora tah uma mele-
ca...ONE TREE HILL melhor q THE OC?? aondi???i c a audiencia c identifica mais cun one tree
hill pq q u sucesso naum eh nem comparado ao the oc?THE OC eh a melhor..i tah cun un
numero di fans imenso... i vc tah menosprezando isso...concluindo... ESSA COLUNA TAH CADA
VEZ PIOR!!!!!
★★★★★
brubs

★ Pq vc não torna essa coluna no mínimo semanal? As atualizações estão com um espaço cada
vez maior umas das outras. É praticamente uma coluna mensal. Gostava mto de informar dos
seriados por aki, mas hj em dia é quase impossível. Quando uma notícia aparece aki já está
velha e já foi discutido em todas as outras colunas sobre seriados.
★★★★★
matheus

★concordo com o Matheus.... essa coluna deveria ser semanal, fico esperando os comentários das
séries que estão demorando cada vez mais para acontecer. Não gostei tbem do novo formato do
site que não dá a importância devida para as colunas. Estão querendo acabar com elas?
★★★★★
monica
n Disponível em: <www2.mtv.terra.com.br/clube/colunas_n/colunas.gen2.php?txtid=690&x=mtvcolunaControleRemoto>. Acesso em: 15 fev. 2005.

Comentem em pequenos grupos:


a) Podemos considerar o “comentário opinativo eletrônico” um gênero textual?
b) Como vocês os classificariam: textos mais formais ou mais informais? Por quê? E, dentre
eles, qual vocês consideram mais informal? Por quê?
c) Destaquem a posição defendida em cada um deles, os argumentos e as conclusões (ora
de tom contundente, ora de reflexão, ora de...), assim como alguns recursos argumenta-
tivos que considerem interessantes.
Exponham seus comentários para os colegas.
Juntem dois pequenos grupos para formar um maior. Um integrante de cada grupo relata
o resultado da discussão para que vocês possam comparar as respostas de cada item.

Dissertação ou argumentação?

argumentação
[Do lat. argumentatione.]
Substantivo feminino.
1. Ato ou processo de argumentar.
2. Conjunto de argumentos.
3. Discussão, controvérsia.

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A ARgUmENTAÇÃO CAPÍTULO 4

dissertação
[Do lat. dissertatione.]
Substantivo feminino.
1. Exposição desenvolvida, escrita ou oral, de matéria doutrinária, científica ou
artística.
2. Trabalho escrito, apresentado a instituição de ensino superior, e defendido, publi-
camente, por candidato ao grau de mestre.
3. Discurso; conferência; preleção.

n FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário eletrônico. Versão 5.0 Ed. rev. e atual.
Parte integrante do Novo dicionário Aurélio. Curitiba: Positivo/Positivo Informática, 2004.

argumentação
substantivo feminino
1. arte, ato ou efeito de argumentar.
2. Derivação: por extensão de sentido.
troca de palavras em controvérsia, disputa; discussão
3. Rubrica: termo jurídico.
conjunto de ideias, fatos que constituem os argumentos que levam ao convenci-
mento ou conclusão de (algo ou alguém)
4. Rubrica: literatura, estilística.
no desenvolvimento do discurso, corresponde aos recursos lógicos, como silogis-
mos, paradoxos, etc; geralmente acompanhados de exemplos, que induzem à
aceitação de uma tese e à conclusão geral e final.

dissertação
substantivo feminino
1. ato ou efeito de dissertar; exposição, redação.
2. exposição escrita de assunto relevante nas áreas científica, artística, doutrinária,
etc.; monografia.
3. trabalho escrito feito por estudantes como exercício ou como prova, versando
sobre algum ponto das matérias estudadas; exposição escrita.
4. exposição oral; conferência, discurso: Ex.: ouvimos uma bela d. sobre a obra de
Camões.
5. Regionalismo: Portugal.
em universidades portuguesas, monografia final que os estudantes devem apre-
sentar e defender para obterem o título universitário.

n HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico. Versão 1.0.5a.


Parte integrante do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.

Embora os termos argumentação e dissertação muitas vezes estejam empregados como sinônimos, cabe
fazermos a seguinte distinção, sob a luz das noções de gêneros e tipos textuais: a argumentação é um tipo
característico de arranjo linguístico que possibilita a expressão de um ponto de vista e que pode ser concretiza-
do por meio de diversos textos, em função da necessidade da interação social: comentários opinativos, ensaio,
crítica de cinema, carta de opinião, etc.; a dissertação é um tipo de texto predominantemente argumentativo,
trata-se de um gênero textual, muito comum nas produções escolares e nos exames de vestibulares e do Enem.
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PARTE 2 A CONSTRUÇÃO dOS TExTOS

Mãos à
obra!
Proposta 1
Você viu, nesta unidade, a importância dos mecanismos que permitem a articulação das
ideias quando elas se materializam em palavras num texto escrito. Viu também como cada pará-
grafo se estrutura e as estratégias que podem ser usadas para encadeá-los.
Vamos lhe propor a organização de um texto a partir de alguns elementos retirados de uma matéria
jornalística da revista IstoÉ de dezembro de 2012, a respeito das reuniões globais cujo objetivo é tratar da
preservação do meio ambiente.
Trata-se de uma retrospectiva dessas reuniões, de 1972 a 2012, com a apresentação de alguns resulta-
dos. Você deverá encadear esses resultados no desenvolvimento de um texto dissertativo. Escreva como se
seu público-alvo fosse o leitor da revista de informação semanal citada (público escolarizado, de nível socio-
cultural de médio a elevado).

gÊNERO TExTUAL
Texto dissertativo
Circulando na maioria das vezes em esferas escolares, acadêmicas ou científicas, um texto disser-
tativo tem por objetivo explicar um assunto, desenvolver um tema ou expor ideias sobre as quais há
um posicionamento de quem escreve. Convencionalmente, apresenta uma estrutura que se configura
a partir de uma introdução ao assunto, na qual está implícita a tese a ser fundamentada; de um desen-
volvimento, em que situações são descritas, fatos são explicados, dados são citados, exemplos são
mostrados num encadeamento lógico e de uma sintética conclusão, coerente com o que foi apresen-
tado anteriormente, de maneira que a tese inicial seja suficientemente comprovada.

Na introdução, você deverá rea-

IstoÉ/Editora Três
firmar a necessidade de se estabele-
cerem metas para garantir a preserva-
ção do planeta. No desenvolvimento,
usará as informações a seguir. A con-
clusão, após a análise dos resultados,
ficará por sua conta.

n IstoÉ. São Paulo: Três, n. 2 250, dez. 2012. p. 118.

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A ARgUmENTAÇÃO CAPÍTULO 4

Dicas para a elaboração de seu texto.


1. Como você já sabe, há inúmeras maneiras de se iniciar uma dissertação. Lembramos algumas: uma
declaração, uma interrogação, citação de frase famosa, de provérbio ou de um fato histórico, defini-
ção, entre outras.
2. Empregue os elementos linguísticos coesivos necessários à amarração das frases.
3. Use a terceira pessoa.
4. Mantenha a estrutura dos parágrafos (ideia central + secundárias).
5. Dê um título interessante a seu texto.
6. Seja objetivo e construa a conclusão a partir dos dados apresentados.
Concluído o texto, faça uma releitura minuciosa e veja em que pode aprimorá-lo.
Reúna-se com dois ou três colegas para compararem seus textos. Observem que, apesar de terem uti-
lizado os mesmos dados, os textos terão configurações diferenciadas. Procurem observar as opções uns dos
outros e avaliem quais foram as melhores, para que essa comparação resulte em aprendizado.

Proposta 2
A reserva de cotas raciais para afrodescendentes e indígenas nas universidades tem provocado polê-
mica. Num país de população miscigenada como a nossa, o estabelecimento de uma “tonalidade” de pele
como critério é bastante questionado. Ao mesmo tempo, o desejo de reparar injustiças que se arrastam há
séculos estimula as políticas “afirmativas”. Problemas sociais confundem-se com problemas raciais, gerando
muita discussão.
Veja o que pensa o autor deste artigo de opinião. Durante a leitura, concentre sua atenção na justifi-
cativa usada para fundamentar a posição assumida por ele.

Crimes sobre crimes


Ninguém de bom senso nega a evidência. A escravatura foi um crime indesculpável e hediondo.
Foi? Corrijo o tempo verbal. A escravatura é, ainda hoje, um crime indesculpável e hediondo.
Tempos atrás, Benjamin Skinner, autor de um livro fundamental sobre o assunto (“A Crime So
Monstrous”), afirmava na revista “Foreign Policy” que existem agora mais escravos do que em
qualquer outro período da história humana. Skinner narrava exemplos brutais de trabalho braçal
forçado em África, na Ásia, até nas Américas.
A escravatura é um crime indesculpável e hediondo que não poupou, nem poupa, nenhum
canto do globo e nenhuma civilização conhecida. Mas a pergunta fatal, que normalmente
emerge sobre o tema, é outra: devem as vítimas da escravatura e de outras formas de
segregação racial praticadas pelo Ocidente (branco) serem indenizadas pelos seus
sofrimentos passados?
Claro que as vítimas propriamente ditas já não estão entre os vivos. A questão lida com a
descendência da descendência da descendência.
As “políticas afirmativas” dizem que sim. Se a história tratou mal os negros, por exemplo, deve
haver cotas para eles – nas universidades, nas forças armadas, nos cargos públicos etc.
Entendo o raciocínio. Não concordo com ele. E mais: quem pensa que as “políticas afirmativas”
passam pela criação de cotas não entendeu o seu significado original.
Foi na década de 1960 que John F. Kennedy iniciou as primeiras medidas de “affirmative action”.
Só que a intenção de Kennedy não era reservar cotas para grupos em universidades, forças
armadas ou cargos públicos.

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PARTE 2 A CONSTRUÇÃO dOS TExTOS

Pelo contrário: Kennedy desejava apenas derrubar barreiras – raciais, mas também religiosas ou
culturais – que impediam certos grupos de acederem a determinados lugares ou profissões.
Kennedy não transformava uma discriminação (negativa) em nova discriminação (positiva). O
presidente pretendia apenas terminar com a primeira.
Infelizmente, a visão de Kennedy não sobreviveu ao dilúvio politicamente correto, que
transformou as políticas de “affirmative action” em pura engenharia social. Como? Reservando
lugares em universidades ou cargos públicos para certos grupos, ignorando o mérito de cada
um dos seus membros.
Eis, no fundo, o erro que o Brasil repete com a lei das cotas sancionada por Dilma Rousseff.
Segundo essa lei, metade das vagas nas universidades federais serão para alunos do ensino
público e, claro, para negros, índios e pardos.
Já escrevi nesta Folha sobre a aberração (“O céu é o limite”, Ilustrada, 29/5/2012). Mas é
impossível não voltar ao local do crime e repetir: a lei, longe de acabar com o racismo, é ela
própria um exemplo de racismo.
Em primeiro lugar, é um exemplo de racismo porque mimetiza o pensamento racista nos seus
pressupostos. Nenhuma sociedade é composta por grupos. As sociedades são compostas por
pessoas – únicas e inconfundíveis. Com méritos e deméritos particulares.
Quando a cor da pele é mais importante do que essas singularidades, isso significa uma dupla
injustiça: uma injustiça sobre o mérito individual (de todas as raças); e até uma injustiça sobre
negros, índios ou pardos. Ninguém merece que a pigmentação da sua pele seja a marca mais
importante da sua personalidade – e do seu carácter.
Mas a lei é punitiva, também, para a própria sociedade brasileira. Fato: os negros, os índios e os
pardos podem estar sub-representados na vida política e social do país. Na última Ilustríssima,
Luiz Felipe de Alencastro escreveu um artigo interessante (“As armas e as cotas”) onde reclamava
mais negros e mulatos “no alto oficialato das Três Armas”.
O problema é que essa sub-representação não pode ser corrigida a partir do topo. E não cabe à
universidade – ou às forças armadas, ou ao judiciário, ou ao legislativo, etc. – ser um arco-íris
multiculturalista onde um país expia os seus pecados.
A universidade deve acolher a excelência, independentemente da cor da pele; e deve produzir os
melhores profissionais para benefício da sociedade. Médicos, engenheiros ou professores que são
apenas o produto de um sistema de cotas são um empobrecimento real para o Brasil.
Corrigir um crime com outro crime é apenas uma forma de perpetuar a injustiça.

João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do Correio da
Manhã, o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro Avenida Paulista (Record).
Escreve às terças na versão impressa de “Ilustrada” e a cada duas semanas, às segundas, no site.

n COUTINHO, João Pereira. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/1147459-crimes-sobre-crimes.shtml>. Acesso em: 8 fev. 2013.

Repare que, nos cinco primeiros parágrafos, o autor do texto parece concordar com a necessidade de uma
“reparação”; até que, no sexto, surpreende o leitor com afirmações contundentes. Repare, também, que o
impacto das afirmações é reforçado pela constituição breve dos períodos.
O autor também constrói um parágrafo curto para encerrar o texto de forma irrefutável. O parágrafo
final remete o leitor para o início, para o título do artigo.
Saiba o que pensam outras pessoas.

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A ARgUmENTAÇÃO CAPÍTULO 4

Cota de opinião
Estudantes e acadêmicos respondem se são a favor ou contra a adoção de cotas no
vestibular de universidades públicas
“No curto prazo, sou a favor. Porém não adianta embutir a cota se a pessoa não tem conhecimento
para fazer uma faculdade. Sou a favor das cotas raciais porque a maioria das pessoas de escolas
públicas são negros e pardos. A curto prazo é bom, mas não melhora o ensino.”
GUILHERME MONTONI, 20 ANOS,
vestibulando de estatística, formado em escola particular

“Sou a favor do sistema de cotas, mas tenho ressalvas. Sair da escola pública sem uma base é ruim.
Não adianta apenas o estudante entrar na faculdade, ele precisa permanecer. Quanto às cotas
para negros e indígenas, é mais difícil. Do ponto de vista socioeconômico, sou a favor.”
CAIO GIMENES ALVES, 18 ANOS,
vestibulando de educação física, formado em escola particular

“As cotas são válidas. A população negra, estatisticamente, tem menos acesso à educação de
qualidade. Não é incapacidade. As cotas devem ser medidas paliativas e temporárias.”
JOÃO ERICK FERREIRA DE ARAÚJO, 19 ANOS,
vestibulando de farmácia, formado em escola pública

“Provavelmente foi a melhor coisa que aconteceu nos últimos 20 anos no Brasil. Sou a favor das
cotas por princípio, porque existe uma cota implícita na sociedade brasileira destinada a quem
tem pele branca e nasce com dinheiro. Mas o sistema deve ter data para ser gradativamente
substituído por outras medidas.”
MUNIZ SODRÉ,
professor titular da Escola de Comunicação da UFRJ

“Sou favorável às cotas. Mas, em primeiro lugar, sou favorável a uma educação básica de
qualidade. O sistema de cotas é um jeitinho que a gente está dando para mudar a cor da elite
brasileira enquanto não se faz uma escola de igual qualidade para pobres e ricos.”
CRISTOVAM BUARQUE,
senador e ex-ministro da Educação

“O sistema de cotas é uma fundamental ação de combate à desigualdade de uma sociedade. Mas
temos que pensar o sistema com período finito. Tem que acabar porque tem caráter emergencial,
mas tem que ser acompanhado de ações como a melhoria da escola básica.”
CÂNDIDO GRZYBOWSKI,
diretor do Ibase

“Sou a favor, mas não com esse número tão grande de vagas para cotas. Conheço pessoas de
escolas públicas com conhecimento muito bom, do mesmo nível de quem é da rede particular. No
caso de cotas para negros, pardos e indígenas, sou contra. Dizer que essas pessoas são menos
capazes é ignorância.”
VINÍCIUS CHAIM, 17 ANOS,
vestibulando de engenharia mecânica, formado em escola particular

“A cota não é uma forma de democratizar o ensino. O pessoal vai entrar na faculdade com uma
defasagem. Sou contra as cotas raciais porque não acredito que dessa forma a dívida que a
sociedade acha que tem com os negros e indígenas será paga.”
SÍLVIO LUIZ CESÁRIO FILHO, 18 ANOS,
vestibulando de direito, formado em escola pública

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PARTE 2 A CONSTRUÇÃO dOS TExTOS

“O sistema de cotas viola princípios básicos da Constituição, como o de que todos são iguais
perante a lei. Trata-se de uma tentativa de remediar, mas reforça a concepção de raça. O abandono
do princípio do mérito é ruim.”
JOSÉ GOLDEMBERG,
pesquisador e ex-reitor da USP

“Se o objetivo do sistema de cotas é combater o racismo, ele estabelece um paradoxo porque a
única forma de combatê-lo é eliminar o conceito de raças. As cotas raciais como estão definidas
pela lei dividem os cidadãos e podem produzir algo incontrolável.”
YVONNE MAGGIE,
professora titular do departamento de Antropologia Cultural da UFRJ

n Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/especial/85281-cota-de-opiniao.shtml>. Acesso em: 8 fev. 2013.

Veja o assunto sob uma outra perspectiva – a política –, neste trecho inicial de matéria publicada pela
Carta Capital de janeiro de 2013.

Cotas para eleitor ver


Reviravolta: Em busca de voto, opositores aderem ao sistema que
ontem rejeitavam
Por Cynara Menezes

Até ACM Neto, eleito prefeito de Salvador, anuncia cotas no serviço municipal. Decisão
inócua, ainda assim: os servidores públicos em Salvador na maioria são negros

Na última campanha para a prefeitura de passado que as universidades estaduais paulistas


Salvador, o então candidato ACM Neto precisou ir vão reservar vagas para alunos oriundos de escolas
à Justiça para tentar livrar-se da acusação feita públicas, parte delas por critérios étnicos. Isso
pelo adversário, Nelson Pellegrino (PT), de que era meses depois de o tucano Aloysio Nunes Ferreira
contrário às cotas raciais. De fato, seu partido, o ter sido o único senador a votar contra o projeto
DEM, havia entrado no Supremo Tribunal Federal do governo federal de ampliação das cotas.
(STF) contra a política de ação afirmativa. Neto Sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em
negou veementemente e foi ao Tribunal Regional agosto, a nova lei de cotas sociais estabelece que
Eleitoral (TRE) para suspender a propaganda de até 2016 50% das vagas das universidades
tevê do petista. O tribunal rejeitou o pedido. federais sejam destinadas a alunos das escolas
Eleito, uma das primeiras iniciativas do novo públicas. Desses 50%, metade vai para
prefeito foi anunciar cotas para afrodescendentes estudantes oriundos de famílias que ganham
no serviço público municipal. até um salário mínimo per capita e metade para
Dez anos depois de começarem a ser implantadas afrodescendentes e indígenas. As projeções do
no Brasil sob fortes críticas do conservadorismo, governo são de que cerca de 50 mil vagas sejam
chama a atenção o súbito interesse pelas cotas ocupadas por alunos afrodescendentes e
raciais de adversários históricos dos programas de indígenas na universidade pública nos próximos
inclusão. O caso de ACM Neto não é isolado. quatro anos. Ou seja, uma inclusão no ensino
Também o governador de São Paulo, Geraldo superior que será visível a olhos nus.
Alckmin, do PSDB, anunciou no fim do ano [...]
n MENEZES, Cynara. Cotas para eleitor ver. Carta Capital. São Paulo: Confiança, n. 733, 30 jan. 2013. p. 30.

Você conheceu muitas opiniões. É hora de revelar a sua. Escreva um artigo de opinião sobre o assunto,
posicionando-se a favor ou contra as cotas. Suponha que esse artigo será publicado no mesmo veículo que
divulgou “Crimes sobre crimes”.
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A ARgUmENTAÇÃO CAPÍTULO 4

gÊNERO TExTUAL
Artigo de opinião
Artigos de opinião são textos em que os autores se apoiam em fortes argumentos, posicionando-
-se a favor ou contra determinadas questões, com o objetivo de convencer os leitores a adotarem essa
mesma perspectiva. Nos jornais, são publicados em seções de debates ou de discussão de pontos de
vista. A busca de imparcialidade jornalística está ausente desses artigos, nos quais o articulista se
identifica e se posiciona ideologicamente, muitas vezes representando opiniões de determinados
setores de nossa sociedade. Apresenta inúmeros recursos de convencimento, desde dados estatísticos
objetivos a depoimentos de autoridades. Apresenta, também, um trabalho cuidadoso e minucioso
com os elementos linguísticos que garantem a coesão do texto.

Dicas para a elaboração de seu texto.


1. Tenha um posicionamento único (“a favor de” ou “contra” algo) e deixe isso bem claro no parágrafo
introdutório.
2. Enumere inicialmente os argumentos que serão apresentados; depois, ordene-os dos mais fortes
aos mais fracos.
3. Cite também alguns contra-argumentos, mas vá desenvolvendo-os e refutando-os, para, assim, for-
talecer os argumentos que sustentam sua posição.
4. Se colocar alguma pergunta em seu texto, apresente a resposta.
5. Crie um título que desperte interesse no leitor.
6. Use padrão culto de linguagem; seu público-alvo é exigente.
7. Escolha uma ideia de impacto para o parágrafo final ou cite alguma frase pertinente ao assunto
proferida por personalidade conhecida e importante.
Após a leitura e a revisão dos textos, você e seus colegas podem se reunir em pequenos grupos e pro-
mover a leitura em rodízio: o aluno passa seu texto para o colega da direita e recebe o texto do colega da
esquerda, até que conheçam a opinião de todos.
Façam anotações se perceberem algum problema no texto. Fiquem bem atentos às contradições.
Observem, também, se o colega apresentou argumentos suficientemente convincentes para o leitor do veículo
em questão. No caso de haver incorreções gramaticais, apontem-nas para que os colegas as corrijam.
Se houver consenso, ou seja, se a mesma opinião prevaleceu em todos os textos, escolham um inte-
grante para participar da mesa-redonda, que ocorrerá a seguir. Caso não haja, escolham dois representantes:
cada um defenderá um ponto de vista.

Mesa-redonda
Os representantes escolhidos nos grupos poderão realizar uma mesa-redonda para ampliar a discussão
iniciada pelos textos. Desfaçam os grupos e disponham as carteiras dos representantes em círculo. O pro-
fessor será o moderador. Cada aluno terá um tempo delimitado para expor seus argumentos, seja a favor,
seja contra as cotas raciais.
Nessa apresentação, cuidem da linguagem (será formal) e da postura (vocês não irão “brigar” – irão expor
a posição do grupo e apresentar o arrazoado combinado), não aumentem o tom de voz nem se alterem.
Um voluntário, a cada apresentação, anotará no quadro o resultado de cada grupo, escrevendo, em
duas colunas, o número de alunos que estava a favor das cotas e o de alunos que estava contra elas, para
que vocês obtenham o resultado numericamente exato.
Após a exposição, poderão debater entre si. Os demais colegas observam a discussão de seus lugares
e, se desejarem, farão perguntas por escrito que serão encaminhadas aos debatedores para os respectivos
esclarecimentos.
Esgotado o tempo destinado à atividade, o professor encerra o evento. A partir do posicionamento pre-
dominante, ele apresentará a opinião geral da classe sobre o assunto.

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PARTE 2 A CONSTRUÇÃO dOS TExTOS

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

1. (Enem) Enfim, vocês devem ter um pedaço de índio dentro


de vocês. Para nós, o importante é que vocês olhem
Não somos tão especiais
Reprodução/Enem

para a gente como seres humanos, como pessoas


Todas as características que nem precisam de paternalismos, nem preci-
tidas como exclusivas dos sam ser tratadas com privilégios. Nós não quere-
humanos são compartilha- mos tomar o Brasil de vocês, nós queremos com-
das por outros animais, ainda partilhar esse Brasil com vocês.
que em menor grau. n TERENA, M. Debate. MORIN, E. Saberes globais e saberes locais.
INTELIGÊNCIA Rio de Janeiro: Garamond, 2000 (adaptado).

A ideia de que somos os úni- Os procedimentos argumentativos utilizados no


cos animais racionais tem sido texto permitem inferir que o ouvinte/leitor, no qual
destruída desde os anos 40. A o emissor foca o seu discurso, pertence:
maioria das aves e mamíferos a) ao mesmo grupo social do falante/autor.
tem algum tipo de raciocínio. b) a um grupo de brasileiros considerados como
AMOR não índios.
O amor, tido como o mais elevado dos senti-
c) a um grupo étnico que representa a maioria
mentos, é parecido em várias espécies, como os
europeia que vive no país.
corvos, que também criam laços duradouros, se
d) a um grupo formado por estrangeiros que falam
preocupam com o ente querido e ficam de luto
português.
depois de sua morte.
e) a um grupo sociocultural formado por brasilei-
CONSCIÊNCIA ros naturalizados e imigrantes.
Chimpanzés se reconhecem no espelho. Oran-
gotangos observam e enganam humanos distraí- 3. (UEPB)
dos. Sinais de que sabem quem são e se distin-

Reprodução/Enem
guem dos outros. Ou seja, são conscientes.
CULTURA
O primatologista Frans de Waal juntou vários
exemplos de cetáceos e primatas que são capazes
de aprender novos hábitos e de transmiti-los para
as gerações seguintes. O que é cultura se não isso?
n BURGIERMAN, D. Superinteressante, n. 190, jul. 2003.

O título do texto traz o ponto de vista do autor sobre


a suposta supremacia dos humanos em relação aos
outros animais. As estratégias argumentativas utili-
n Karina NINNI. Revista Superinteressante. São Paulo: Abril, maio, 2009, p. 78.
zadas para sustentar esse ponto de vista são:
a) definição e hierarquia. A expressão “[...] -e nem faz tanto tempo- [...]” fun-
b) exemplificação e comparação. ciona como um(a):
c) causa e consequência.
d) finalidade e meios. *
( ) recurso argumentativo de significado restriti-
vo, que opera no processo de negação.
e) autoridade e modelo.
* mente a informação anterior.
( ) recurso formador de sentido que anula total-

2. (Enem)
Quando eu falo com vocês, procuro usar o códi-
go de vocês. A figura do índio no Brasil de hoje não
* nalidade para atenuar o sentido do enunciado
( ) instrumento de interação dotado de intencio-

anterior.
pode ser aquela de 500 anos atrás, do passado, que
representa aquele primeiro contato. Da mesma
forma que o Brasil de hoje não é o Brasil de ontem,
*
( ) construção atuante no nível sintático-semântico
com valor aditivo negativo.
tem 160 milhões de pessoas com diferentes sobre- Analise as proposições acima, e assinale V para as
nomes. Vieram para cá asiáticos, europeus, africa- verdadeiras e F para as falsas, e marque a alternati-
nos, e todo mundo quer ser brasileiro. A importan- va CORRETA.
te pergunta que nós fazemos é: qual é o pedaço de a) V F V F d) V F V V
índio que vocês têm? O seu cabelo? São seus olhos? b) F F F V e) F F V F
Ou é o nome da sua rua? O nome da sua praça? c) V V F V

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5 CAPÍTULO 5

A construção do texto
persuasivo

va York
of Art, No
m Museum
Fedro n A morte de Sócrates, de

polita
Jacques-Louis David.

The Metro
(fragmento)
“Sócrates: – Visto que a força da eloquência con-
siste na capacidade de guiar as almas, aquele que
deseja tornar-se orador deve necessariamente
saber quantas formas existem na alma. Elas são
em certo número e têm as suas respectivas qua-
lidades. É por isso que os homens têm caracteres
diferentes. Depois de classificar as almas desse modo,
deverá distinguir, também, cada espécie de discurso em suas diferentes qualidades.
Desse modo há homens que serão persuadidos por certos discursos enquanto os
mesmos argumentos serão de fraca ação na alma de outros.
É mister que o orador que aprofundou suficientemente os seus conhecimentos
seja capaz de discernir rapidamente na prática da vida o momento exato em que é
azado usar uma ou outra forma de argumentação. [...] Quando estiver apto a dizer por
que espécie de discurso pode-se levar a persuasão às mais diferentes almas, quando,
posto à frente de um indivíduo, ele souber ler no seu coração [...] Quando souber apli-
car a esse homem o discurso apropriado, quando possuir todos esses conhecimentos,
quando souber distinguir as ocasiões em que deve calar-se ou falar, quando souber
empregar ou evitar o estilo conciso ou despertar com amplificações grandiosas e
dramáticas a paixão, só então a sua arte será consumada.”
n PLATÃO. Diálogos I: Mênon, Banquete, Fedro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.

Quando expressamos nosso ponto de vista, procuramos a adesão de nosso interlocutor. Assim, não basta organizar
logicamente nossas ideias; temos de fazer muito mais do que isso: temos de pensar no processo comunicativo como um
todo. Processo comunicativo? Sim, mais uma vez, a observação de elementos como a situação, o meio e, especialmente, o
interlocutor vão determinar a configuração de nosso texto. Um produtor de textos eficiente tem de saber adequar seus textos
segundo as variáveis do processo comunicativo; um produtor de textos argumentativos cujo objetivo é atingir seu
interlocutor, leitor/ouvinte de seu texto, não pode deixar de considerar as características do outro.

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PArTe 2 A COnsTrUçãO dOs TexTOs

////////////////////////
A PERSUASÃO
A PERSU
///////////
//////////////////////////////////////

Um importante linguista dinamarquês, Louis Hjelmslev, nos ensina que:

[…] a linguagem é o instrumento graças ao qual o homem


modela seus pensamentos, seus sentimentos, suas emoções,
seus esforços, sua vontade, seus atos, o instrumento graças ao
qual ele influencia e é influenciado, a base mais profunda da
sociedade humana.
n HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. Trad. J. Teixeira Coelho Netto.
São Paulo: Perspectiva, 1975.

De fato, é pela linguagem que o homem se realiza socialmente, expressando o que pensa e sente e ouvin-
do o que os outros pensam e sentem. Daí falarmos em interação social, ou seja, por meio dos textos (verbais ou
não verbais) que constrói, há sempre alguém tentando agir sobre outra pessoa e vice-versa.
Para que produza ressonância em seu interlocutor, todo texto deve ser muito bem construído. Quando
falamos, temos uma determinada intenção, isto é, queremos atingir certos objetivos; é essa intencionalidade
que vai determinar os recursos que vamos usar. Você e seu colega, por exemplo, podem ter pontos de vista
diferentes sobre um tema. Na hora de se posicionarem, de falarem sobre o assunto, vão utilizar o mesmo
código para construir seus textos, mas a escolha das palavras e dos exemplos, as combinações, a ênfase, a
argumentação, etc. vão ser determinadas pela intenção de cada um de vocês. A isso tudo podemos chamar
recursos persuasivos.
Persuadir é buscar a adesão do interlocutor para um determinado ponto de vista, é tentar convencê-lo de
alguma coisa. Afinal, nenhum texto é inocente.
Nos dias de hoje, somos bombardeados pelo discurso persuasivo na política, na propaganda, nos meios
econômicos, nas telenovelas, nos telejornais, nos filmes da TV. Essas produções vêm carregadas de ideologia: não
desejam apenas mostrar produtos, expor conceitos ou apresentar histórias, mas vender ideias e modos de viver.

ando
oc
tr

ideias
Leia a seguinte tira:
Atlantic Syndication

n DAVIS, Jim. Gardfield. Folha de S.Paulo, São Paulo, 28 abr. 2004, p. E11.

Comente com os colegas:


a) O Jon foi persuasivo? Por quê?
b) Haveria uma maneira mais persuasiva de o Jon se expressar?

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A COnsTrUçãO dO TexTO PersUAsivO CAPÍTULO 5

ARGUMENTAÇÃO E PERSUASÃO
O ato de argumentar, ou seja, a maneira como o falante organiza seu discurso para chegar a determinadas
conclusões, está intimamente ligado à persuasão. A argumentação é a base da persuasão, é sua sustentação.
Podemos ver a argumentação como uma estrutura criada de forma deliberada e que pressupõe o uso de estra-
tégias linguísticas e racionais.
Para que a argumentação seja válida, contudo, além de ser resultado de um raciocínio lógico que comprove
e justifique um ponto de vista, deve estar adequada ao interesse ou à expectativa do interlocutor. Sem a noção
do outro como alvo, a argumentação perde a força. Para comprovar o que foi dito, vamos analisar duas tiras do
personagem Calvin.
© Bill Watterson/Dist. By Atlantic Syndication/Universal Uclick

n WATTERSON, Bill. Calvin e Haroldo. Campinas: Cedibra, [s.d.]. p. 125.

Nessa tira, a mãe de Calvin usa um argumento inadequado para convencer o filho a não fazer careta, por-
que não leva em conta, ao escolher o argumento, que Calvin vive em um mundo de fantasias e, por isso, sente
especial prazer em provocar e assustar os outros.
© Bill Watterson/Dist. By Atlantic Syndication/Universal Uclick

n WATTERSON, Bill. Calvin e Haroldo. Campinas: Cedibra [s.d.]. p. 25.

Já o pai de Calvin adota outra linha argumentativa. Não apresenta motivos lógicos para que o filho compreenda
a necessidade de tal alimento; utiliza, sim, um discurso persuasivo, explorando o universo e os valores do interlocutor
– no caso, Calvin. Observe as características do discurso persuasivo posto em prática pelo pai nessa tira:
• o filho não deseja comer o que lhe é oferecido;
• o pai deseja “vender” a ideia de que aquele alimento é bom;
• o pai sabe que um argumento convencional do tipo “coma que tem vitaminas” ou “coma porque isso é bom
para a saúde” não funcionaria para o “público” que deve ser “convencido” (o filho);
• o pai conhece as fantasias do filho em relação ao mundo criado por sua imaginação (com mutantes, monstros
e animais falantes);
• o pai apresenta um argumento que atende a essas expectativas;
• o pai interfere na vontade do filho (ele come o alimento).
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PArTe 2 A COnsTrUçãO dOs TexTOs

A persuasão é bem-sucedida, pois o pai apresenta o alimento fundamentado no conhecimento das expec-
tativas do filho. Quando bem arquitetada, a persuasão e a argumentação atingem profundamente o interlocutor.
Na tira em questão, há um efeito psicológico tão completo que, após ingerir o alimento, Calvin acredita que algo
está realmente acontecendo com ele (“Estou me sentindo estranho...”).

Recursos argumentativos
Os recursos argumentativos têm que ver com a seleção das ideias e sua apresentação em função do fio
persuasivo. Dentre os mais comuns, destacamos:
• perguntas retóricas: são interrogações direcionadas
ao interlocutor (leitor/ouvinte do texto), que o tor- iMPOrTAnTe!
nam participante do desenvolvimento argumentati-
É importante destacar que muitas vezes
vo por meio da antecipação de dúvidas, da provoca-
as citações são introduzidas não como reforço
ção de reflexões, de afirmações indiretas;
do ponto de vista da argumentação, mas como
• citações: a polifonia (ou seja, o enunciador abre espa- ponto de partida para a discussão e a refuta-
ço, em seu texto, para outras vozes) é um recurso ção, funcionando como estratégia de contras-
comum nos textos argumentativos; servem de sus- tes (por exemplo: “Dizem alguns que a pena de
tentação do ponto de vista defendido/exposto, pois a morte inibe os criminosos. Será? Tenho para
pluralidade de vozes mostra que o enunciador não mim que...”).
está sozinho; assim, é muito comum o emprego de
citações:
– de autoridade: o produtor do texto introduz direta ou indiretamente vozes de especialistas ou de pessoas
respeitadas no meio em que se insere o assunto abordado;
– da voz do “senso comum” ou da sociedade: ora na forma de provérbios e ditados populares, ora na forma de
enunciados que reproduzem ideias de uma determinada comunidade numa determina situação e época (por
exemplo: “É politicamente incorreto jogar papéis na rua”);
• exposição de dados e fatos: a enumeração de dados (melhor ainda se obtidos por uma pesquisa científica
com fonte identificável) e fatos (melhor ainda se contextualizados e identificáveis) funciona como exemplifi-
cação que confirma e demonstra a posição defendida.
• argumento “de lambuja”: normalmente, trata-se de um argumento a mais, aparentemente desnecessário,
mas usado de forma decisiva; em geral, vem introduzido por expressões como “Nem é preciso dizer...”;
“Desnecessário lembrar que...”; “E não é nem preciso acrescentar que...” – esta última construção utilizada pela
personagem Violeta Gray, que, via de regra, humilha o personagem Charlie Brown:
© Charles M. Schulz/Peanuts United Media/Ipress

n SCHULZ, Charles. Minduim. O Estado de S. Paulo, caderno 2, p. D6, 11 abr. 2008.

Atividades
Selecione um filme, assuma o papel de crítico e redija uma resenha crítica. Seu texto será
publicado na seção de cultura de um jornal de grande circulação. Lembre-se das características do
gênero resenha.
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A COnsTrUçãO dO TexTO PersUAsivO CAPÍTULO 5

GÊnerO TexTUAL
Resenha
As resenhas estão presentes nas seções ou nos cadernos de jornais e revistas (versão impressa ou
on-line) que fazem a cobertura da vida cultural de determinado lugar: lançamento de livros, filmes, jogos,
CDs ou DVDs, estreias de shows ou peças de teatro, abertura de exposições. A extensão da resenha é
variável: pode ser um comentário breve ou uma análise aprofundada, dependendo do veículo no qual
circula e do perfil do público a que se destina. Em geral, apresenta dados objetivos como título, autor, edi-
tora, número de páginas nas publicações ou título, diretor, atores, duração e locais de exibição no caso de
espetáculos. Apresenta também um resumo não detalhado do assunto, sem revelar o desfecho ou ele-
mentos surpresa. Além de apresentar a obra, o autor da resenha tece comentários avaliativos, expondo
seu posicionamento pessoal, o que é facilmente verificável pela seleção vocabular: emprego de adjetivos
(elogiosos ou não), advérbios ou expressões reveladoras de opiniões. Imagens, entrevistas, declarações e
comparações com outras obras também são recursos que costumam ser utilizados pelos autores para
convencer os leitores a prestigiarem (ou não) determinada obra.

Não se limite a apresentar dados objetivos. Justifique sua opinião com razões consistentes. Envie seu texto
a algum jornal que aceite colaboração de leitores ou deixe seu comentário em sites especializados em cinema.
Existem vários. Sua opinião pode ajudar algum usuário do site a se decidir sobre assistir ou não ao filme.
Montem um painel com os textos, para que a classe tenha acesso a todas as resenhas elaboradas.

Mãos à
obra!
Atividade em dupla
Alimentos transgênicos: eis outro assunto polêmico que divide opiniões.
Esta notícia traz informações importantes sobre o assunto. Busque, em sua leitura,
saber qual é o percentual atual de área cultivada por alimentos transgênicos no país.

Pela 1a vez, transgênicos ocupam mais da metade da área plantada


no Brasil
Thomas Pappon
Da BBC Brasil em Londres
Atualizado em 8 de fevereiro, 2013 – 06:04 (Brasília) 08:04 GMT

Em 2013, pela primeira vez os cultivos geneticamente modificados devem


ultrapassar, em área ocupada, os não transgênicos no Brasil.
Segundo a consultoria Céleres, especializada em agronegócio, o total da área plantada com cultivos
geneticamente modificados neste ano chega a 37,1 milhões de hectares, o que representa um
aumento de 14% em relação ao ano anterior (que por sua vez, já tinha registrado um aumento de
mais de 21% em relação à safra de 2010/2011) – ou seja, 4,6 milhões de novos hectares dedicados a
variedades transgênicas.
O IBGE prevê, para 2013, uma área recorde dedicada à atividade agrícola no país de 67,7 milhões de
hectares. Cruzando o dado do IBGE com o da consultoria Céleres, chega-se à conclusão de que os
transgênicos responderão por 54,8% de toda a área cultivada na safra 2012/2013 no país.

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PArTe 2 A COnsTrUçãO dOs TexTOs

No ano passado, as lavouras transgênicas cobriram 31,8 milhões de hectares (segundo a Céleres) e a
safra total (incluindo transgênicos e não transgênicos) atingiu 63,7 milhões de hectares (segundo o
IBGE), ou seja, as lavouras não transgênicas ainda ocupavam uma área maior que as transgênicas.
Esse avanço impressiona, ainda mais considerando-se que há cinco anos, segundo a Céleres, o cultivo
total com transgênicos no país era de apenas 1,2 milhão de hectares.

n Disponível em: < http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/02/130207_transgenicos_cultivo_tp.shtml>. Acesso em: 10 fev. 2013.

Manifestações públicas
Você já deve ter visto alguma manifestação pública promovida por instituições ou entidades de classe,
em que se organizam passeatas em locais movimentados para denunciar fatos, defender causas, conscien-
tizar a população sobre certos problemas ou ainda conclamá-la a participar de determinadas campanhas.
Em geral, nessas manifestações, palavras de ordem são repetidas, faixas ou cartazes são exibidos e
panfletos explicativos, distribuídos. Em alguns casos, divulga-se um texto escrito – um manifesto – no qual
se explicitam as razões do protesto e se assumem determinados compromissos com a causa defendida.
Veja um exemplo desse tipo de texto, que foi assinado por inúmeras instituições conhecidas e, posterior-
mente, oferecido a pessoas físicas que quisessem apoiar a causa por meio de alguns sites, mediante identificação.
Na leitura, destaque os argumentos apresentados.

Manifesto pelo fim da publicidade e da comunicação mercadológica


dirigida ao público infantil
10 dez. 2009

Em defesa dos direitos da infância, da Justiça e da construção de um futuro mais solidário e sustentável
para a sociedade brasileira, pessoas, organizações e entidades abaixo-assinadas reafirmam a
importância da proteção da criança frente aos apelos mercadológicos e pedem o fim das mensagens
publicitárias dirigidas ao público infantil.
A criança é hipervulnerável. Ainda está em processo de desenvolvimento biofísico e psíquico. Por isso,
não possui a totalidade das habilidades necessárias para o desempenho de uma adequada
interpretação crítica dos inúmeros apelos mercadológicos que lhe são especialmente dirigidos.
Consideramos que a publicidade de produtos e serviços dirigidos à criança deveria ser voltada aos seus
pais ou responsáveis, estes sim, com condições muito mais favoráveis de análise e discernimento.
Acreditamos que a utilização da criança como meio para a venda de qualquer produto ou serviço constitui
prática antiética e abusiva, principalmente quando se sabe que 27 milhões de crianças brasileiras vivem
em condição de miséria e dificilmente têm atendidos os desejos despertados pelo marketing.
A publicidade voltada à criança contribui para a disseminação de valores materialistas e para o
aumento de problemas sociais como a obesidade infantil, erotização precoce, estresse familiar,
violência pela apropriação indevida de produtos caros e alcoolismo precoce.
Acreditamos que o fim da publicidade dirigida ao público infantil será um marco importante na
história de um país que quer honrar suas crianças.
Por tudo isso, pedimos, respeitosamente, àqueles que representam os Poderes da Nação que se
comprometam com a infância brasileira e efetivamente promovam o fim da publicidade e da
comunicação mercadológica voltada ao público menor de 12 anos de idade.

n FERRO, Rogério. Disponível em: <www.akatu.org.br/Temas/Consumo-Consciente/Posts/Manifesto-contra-publicidade-infantil-convoca-o-publico>. Acesso em: 13 fev. 2013.

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A COnsTrUçãO dO TexTO PersUAsivO CAPÍTULO 5

Repare que, no primeiro parágrafo do texto, é feito o apelo, a principal reivindicação. Nos três seguintes, são
apresentados os argumentos que deverão convencer o leitor a assinar o documento e, nos dois últimos, reitera-
-se a solicitação de compromisso com a infância brasileira, exigindo o fim da publicidade dirigida a crianças.
A estrutura dos manifestos costuma ser variada. Às vezes uma carta de intenções, um poema ou uma
letra de canção (como a do grupo Olodum, “Manifesto pela paz”) pode assumir a função desse gênero em
virtude de representar ideais de um setor social em determinado contexto.
O manifesto mais conhecido é do Partido Comunista, escrito por Karl Marx e Friedrich Engels e publicado
em 1848, no qual os autores conclamam os operários do mundo a se unirem pela soberania do proletariado.
Outros manifestos marcaram a história das artes, como o Surrealista, o Futurista e o do movimento Dadá,
entre outros. Desses dois últimos há trechos no capítulo 1 da Parte 3 desta obra. No Brasil, destaca-se o
Manifesto Antropófago (de Oswald de Andrade), do qual há trechos no capítulo 4.

GÊnerO TexTUAL
Manifesto
Texto que documenta a participação de pessoas, entidades de classe ou instituições em movi-
mentos nos quais se deixam claras determinadas posições diante de situações-problema. Um mani-
festo tem por objetivo obter a adesão do público-leitor a uma causa; para tanto, deve apresentar
argumentos convincentes, que fundamentem o posicionamento de seus assinantes. Constitui-se de
título, justificativas (argumentação) e fecho ou encerramento, além de data, local e identificação de
autoria. A linguagem deve ser clara, correta e objetiva. Inicialmente o manifesto circula nas esferas
cotidiana, artística, política ou acadêmica, repercutindo, posteriormente, nos meios jornalísticos.

Suponha que você irá

Art Estado/Hugo
participar de uma campa-
nha de esclarecimentos
sobre alimentos transgêni-
cos. Caberá a você redigir
um manifesto “a favor de”
ou “contra” o cultivo, comer-
cialização e consumo de
alimentos geneticamente
modificados. Aproveite os
dados desta tabela e junte-
-se a um colega para realizar
essa tarefa.

n O Estado de S. Paulo, São Paulo,


7 mar. 2003, p. A10.

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PArTe 2 A COnsTrUçãO dOs TexTOs

Dicas para a elaboração do texto:


1. O título do manifesto já deverá apresentar informações essenciais: Quem está se manifestando e a
favor de (ou contra) quem ou do quê.
2. Determinem inicialmente o interlocutor: Serão autoridades? Quais? Será a opinião pública?
3. Determinem a finalidade do manifesto: É protestar? É firmar um compromisso? Intervir na realidade?
Denunciar algum fato?
4. Uma forma de iniciar o texto é fazer a identificação dos assinantes: “Nós, abaixo-assinados”, etc.
5. Enumerem os argumentos que vocês apresentarão nas justificativas. No momento de redigir, cuidem
da concatenação das ideias, empregando os conectores adequados, responsáveis pela coesão do texto.
6. Na argumentação, poderá haver uma divisão em grupos: I. Denunciamos; II. Somos contra;
III. Defendemos... e assim por diante. Os argumentos também podem ser agrupados por letras ou
por afinidades. Alguns manifestos apresentam um histórico que resgata a trajetória das ações rela-
tivas ao problema apresentado.
7. Usem a primeira pessoa do plural: conclamamos, repudiamos, declaramos, etc.
8. Usem verbos no presente (do indicativo ou do subjuntivo) ou no imperativo: façamos, façam, exijam,
recusem, rejeitemos, lutemos, etc. No caso de uma declaração de princípios ou de intenções, é
comum o emprego do infinitivo: promover, contribuir, estimular, etc.
9. No fechamento, retomem a finalidade do documento, apresentando suas conclusões. Se forem reto-
mados vários itens, construam um parágrafo para cada um.
10. O texto se constituirá num documento: não poderá apresentar erros gramaticais nem inadequa-
ções de linguagem. Deverá seguir o padrão culto.
11. Data, local da emissão e identificação dos assinantes também são necessários.
Caso vocês decidam, em função de alguma necessidade específica da comunidade, manifestar-se contra
ou a favor de outras causas, mudem a proposta para algo mais pertinente. O importante é vocês persuadirem
os leitores de suas ideias.
Vários manifestos circulam na mídia eletrônica, em busca de apoiadores: contra o trabalho infantil ou
escravo, contra a violência, contra a matança de animais, contra a guerra e a favor da paz, a favor de uma
educação pública de qualidade, etc. Não há sentido em elaborar um manifesto e não divulgá-lo. Portanto,
terminado o texto de vocês, busquem uma maneira de distribuí-lo para que alcance alguma repercussão,
por meio de redes sociais, pelo envio a autoridades e instituições cujos objetivos sejam afins ao tema esco-
lhido ou pela distribuição em pontos estratégicos de seu bairro, se for o caso.

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

1. (Enem) O produtor de anúncios publicitários utiliza-se de


estratégias persuasivas para influenciar o compor-
SE NO INVERNO É DIFÍCIL ACORDAR, tamento de seu leitor. Entre os recursos argumen-
IMAGINE DORMIR. tativos mobilizados pelo autor para obter a adesão
Com a chegada do inverno, muitas pessoas per- do público à campanha, destaca-se nesse texto:
dem o sono. São milhões de necessitados que lutam a) a oposição entre individual e coletivo, trazendo
contra a fome e o frio. Para vencer esta batalha, eles um ideário populista para o anúncio.
precisam de você. Deposite qualquer quantia. Você b) a utilização de tratamento informal com o leitor,
ajuda milhares de pessoas a terem uma boa noite e o que suaviza a seriedade do problema.
dorme com a consciência tranquila. c) o emprego de linguagem figurada, o que desvia
n Veja. 5 set. 1999 (adaptado). a atenção da população do apelo financeiro.

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A COnsTrUçãO dO TexTO PersUAsivO CAPÍTULO 5

d) o uso dos numerais “milhares” e “milhões”, res- d) tem como objetivo ensinar os procedimentos
ponsável pela supervalorização das condições técnicos necessários para o combate ao mosqui-
dos necessitados. to da dengue.
e) o jogo de palavras entre “acordar” e “dormir”, o e) apela ao governo federal, para que dê apoio aos
que relativiza o problema do leitor em relação governos estaduais e municipais no combate ao
ao dos necessitados. mosquito da dengue.

2. (UFMT) Leia os trechos abaixo, transcrições da 4. (UFMG) Leia este trecho:


parte verbal de duas propagandas, uma de bebida A engenharia genética poderá criar espé-
alcoólica (I) e outra de cigarro (II).
cies de plantas e animais. Resta saber se as
I – Chivas Regal diferenças genéticas entre as populações
humanas não podem intensificar-se e ser mani-
Aprecie nossa qualidade com responsabilidade.
puladas para fins de suposta eugenia e predo-
II – Compreensão mínio racial, para não falarmos da criação de
A menor distância entre dois pontos de vista. seres híbridos, com resultados imprevisíveis na
bioesfera.
Pensamentos opostos que se completam, atitudes
contrárias que se harmonizam, santos e orixás, Nesse trecho, o recurso argumentativo utilizado
fumantes e não fumantes. consiste em:
A argumentação é fundamental quando o texto a) apresentação e explicação de conceitos.
pretende persuadir o leitor. Compare a estratégia b) contraste entre diferentes abordagens.
de persuasão utilizada nos dois textos, analisan-
c) enumeração de fatos que se contradizem.
do em que se assemelham e em que se diferen-
ciam. d) levantamento de hipótese e seus desdobra-
mentos.
3. (Enem) 5. (UFG-GO)
Reprodução/Enem

Reprodução/Enem

Einstein com a língua de fora é uma das imagens


mais exploradas pela publicidade. Essa foto é pro-
dutiva como recurso persuasivo no discurso publi-
citário porque:
a) instiga o leitor a recuperar valores emocionais
despertados em um dos maiores físicos da
história.
n BRASIL. Ministério da Saúde. Revista Nordeste, b) estimula o público consumidor a questionar as
João Pessoa, ano 3, n. 35, maio/jun. 2009.
verdades científicas estabelecidas antes do
século XX.
Diante dos recursos argumentativos utilizados,
depreende-se que o texto apresentado: c) vincula a credibilidade da propaganda ao princí-
a) se dirige aos líderes comunitários para tomarem pio físico de que a percepção da realidade é
a iniciativa de combater a dengue. relativa.
b) conclama toda a população a participar das d) concorre para a promoção do jogo com o inespe-
estratégias de combate ao mosquito da rado, ao mostrar a irreverência de um renomado
dengue. cientista.
c) se dirige aos prefeitos, conclamando-os a orga- e) sugere que os textos das propagandas devem ser
nizarem iniciativas de combate à dengue. tão atuais quanto as inovações tecnológicas.

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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

Capítulo 1 Capítulo 10
As vanguardas: a revolução Literatura africana
artística do início do século XX de língua portuguesa

Capítulo 2
O Modernismo em Portugal:
Fernando Pessoa e seus
heterônimos

Capítulo 3
O Brasil antes da
Semana de Arte Moderna: a transição
entre o passado e o moderno

Capítulo 4
O Brasil de 1922 a 1930: tupi or not tupi

Capítulo 5
O Brasil de 1930 a 1945 – a lírica

Capítulo 6
O Brasil de 1930 a 1945 – o romance

Capítulo 7
O Brasil depois de 1945

Capítulo 8
O teatro brasileiro no século XX

Capítulo 9
Portugal contemporâneo: três autores exemplares

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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

Parte 3
Formando o leitor e o produtor
TEXTOS, de textos:
ARTE E CULTURA
Os textos artísticos

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1
PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

cAPÍTulo 1

As vanguardas:
a revolução artística
do início do século XX
Entende-se, com este termo — vanguarda —, um movimento que investe um
interesse ideológico na arte, preparando e anunciando deliberadamente uma sub-
versão radical da cultura e até dos costumes sociais, negando em bloco todo o
passado e substituindo a pesquisa metódica por uma ousada experimentação na
ordem estilística e técnica.
n Giulio Carlo Argan, crítico de arte italiano.
Reprodução/Museu Hermitage, São Petersburgo, Rússia

A Dança, de Henri Matisse, é uma das obras fundadoras da modernidade. Pintado


em 1909-1910, contemporâneo dos manifestos do futurismo e do cubismo, o
grande painel apresenta poucas cores, uma impressionante harmonia, uma
surpreendente noção espacial e muita dinâmica, muito movimento, com as cinco
dançarinas girando no sentido horário.
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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

////////////////////////////
ÀS PORTAS DA GUERRA
ÀS
///////////
//////////////////////////////////////////////////////////////////

O momento histórico que marca a transição do século XIX para o século XX e a definição de um novo orde‑
namento mundial culminariam com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914‑1918) e as agitações sociais na
Rússia (1917‑1921).
O avanço tecnológico da sociedade burguesa industrial (luz e motores elétricos, o petróleo como fonte de
energia e matéria‑prima, os avanços das ciências) e a entrada da Alemanha e da Itália – países de capitalismo
tardio – no processo industrial, disputando mercados com Inglaterra e França – países pioneiros –, são fatores
que estimularam a luta neocolonial e imperialista (com a consequente partilha da Ásia e da África) e resultaram
no chamado choque de imperialismo, que levaria o mundo à Primeira Guerra Mundial.
Paralelamente, significativas parcelas da população não se beneficiavam do capitalismo; pelo contrário,
viviam cada vez mais à margem de todo esse processo. Acirraram‑se as lutas proletárias com o avanço do socia‑
lismo, do anarquismo, do comunismo.
A Europa vivia, assim, um momento ambíguo: de um lado, um clima de euforia motivado pelo progresso
industrial e pela expansão do capitalismo, pelo aumento do consumo, pela moderna urbanização (Paris tornou‑
‑se símbolo desse período de agitação eufórica da sociedade burguesa, batizado de belle époque); de outro, um
clima de insatisfação, insegurança e pessimismo motivado pelo acirramento dos conflitos sociais; o mesmo
progresso industrial que levava ao consumismo criava massas de excluídos; o movimento operário se organizava,
eclodiam greves.
Com esse pano de fundo, surgiam movimentos artísticos que questionavam o passado e buscavam
novos caminhos. Costuma‑se afirmar que o século XIX, na realidade, se prolongou até 1914; a afirmação
pode valer para o campo da ordenação política e econômica, mas não vale para as artes, que se antecipa‑
ram: entre 1907 e 1910, obras e manifestos já anunciavam o que seria a modernidade artística. Surgiram,
dessa forma, as vanguardas.

Reprodução/Museu de Arte Moderna, Nova York, EUA.


“O contato com trabalhos anterio-
res de Picasso ou de outros artistas
radicais da época pouco há de ter
preparado os que depararam com
Les demoiselles d’Avignon em Paris,
no ano de 1907. Tratava-se de uma
obra chocante e nada convencional.
O quinteto de impudentes prostitu-
tas nuas – duas delas monstruosa-
mente deformadas e outras duas de
implacáveis olhos arregalados –
alinhava-se para defrontar o obser-
vador num espaço angular claus-
trofobicamente achatado. Mesmo
depois de quase um século, esse
quadro continua sendo perturbador
tanto em sua sexualidade crua
quanto na violência que perpetra
contra as convenções da ilusão
espacial, da integridade figural e da
unidade compositiva.” COTTINGTON,
David. Cubismo. São Paulo: Cosac &
Naify, 1999. p. 12.

147

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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

O francês Marcel Duchamp radicalizou, em 1913, quando apresentou uma

Rep
roda de bicicleta montada num banquinho: criou a contra-arte, instituiu o

rod
uçã
conceito de instalação e de ready-made (expressão criada pelo próprio

o/C
ole
Duchamp para nomear o processo pelo qual um objeto de consumo – por

çã
o
pa
exemplo, uma velha roda de bicicleta, um suporte de garrafas ou de

rti
cu
lar
,M
bengalas, um urinol – é transformado em obra de arte pelo artista).

ilã
o,
Simples deslocamentos espaciais dos objetos e a respectiva “renomeação”

It á
lia
.
atribuem novos significados, permitem novas leituras. Como exemplo,
vê-se um urinol de banheiro público que Duchamp instalou invertendo a
posição original: o cano de entrada da água, que deveria ficar na parte
superior e voltado para dentro da parede, foi deslocado para a parte
inferior, virado para fora, para o observador: daí o nome – fonte.

• Que sensação as cinco moças da tela de Picasso provocam em você? O rosto e o penteado da mulher
que ocupa a posição central remete o espectador a alguma região? E o rosto das duas moças à direita
do observador?
• Você já viu alguma outra obra que reaproveita objetos comuns, dando‑lhes um novo significado?

lENDo A PINTuRA

Reprodução/Galeria Nacional, Oslo, Noruega.


O Grito, Edvard Munch
1. Edvard Munch (1863-1944), pintor norueguês, foi um dos
artistas mais importantes da virada do século, tendo colaborado de
maneira decisiva na construção do conceito de arte moderna. A tela
O grito transformou-se em verdadeiro marco de um processo de ruptura,
promovido por alguns artistas, que desaguaria nas tendências de
vanguarda do início do século XX.
Um crítico assim analisou a obra de Munch: “Ele teve como
objetivo estabelecer valores universais através dos individuais,
pela cristalização das imagens das emoções mais profundas do
homem – amor, morte e angústia, que retiveram suas proprie-
dades primitivas evidentemente esquecidas pela civilização bur-
guesa do seu tempo”.
Das três emoções profundas citadas pelo crítico, qual predomina
na tela O grito?
2. Munch afirmava: “Não devemos pintar interiores com pessoas lendo e mulheres tricotando; devemos pintar pessoas que
vivem, respiram, sentem, sofrem e amam.”; “Uma obra de arte só pode provir do interior do homem. A arte é a forma da imagem
formada dos nervos, do coração, do cérebro e do olho do homem.”. Comente alguns detalhes da tela que comprovam a proposta
de Munch.
3. “Passeava pela estrada com dois amigos, olhando o pôr do sol, quando o céu de repente se tornou vermelho como sangue. Parei,
recostei-me na cerca, extremamente cansado – sobre o fiorde preto azulado e a cidade estendiam-se sangue e línguas de fogo. Meus
amigos foram andando e eu fiquei, tremendo de medo – podia sentir um grito infinito atravessando a paisagem.”
Munch escreveu esse texto para explicar a tela, tornando público o exato momento da apreensão de uma realidade depois transfor-
mada em objeto de arte. A partir desse testemunho, como podemos entender a figura que aparece em primeiro plano?

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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

ando
oc

tr
ideias
Reúnam‑se em grupos de cinco alunos, atribuindo a cada integrante uma das letras A, B, C, D ou E.
Discutam sobre esta questão: a arte deve sempre retratar as coisas belas, o mundo organi‑
zado e equilibrado? Por quê?
Após a discussão, reorganizem‑se, formando cinco novos grupos, compostos por um inte‑
grante de cada grupo anterior, A, B, C, D ou E, para que cada aluno possa relatar as ideias surgidas
anteriormente e conhecer as demais opiniões.

////////////////////////////
O CUBISMO
///////////
///////////////////////////////

Reprodução/Galeria Tate, Londres, Inglaterra.


O movimento cubista foi, nas artes visuais, uma revolução tão completa que os
meios pelos quais as imagens podiam ser formalizadas na pintura modificaram-se
mais durante os anos de 1907 a 1914 do que se haviam modificado desde o
Renascimento. Suas invenções corresponderam tão diretamente aos problemas
artísticos críticos do início do século XX que o próprio cubismo mal havia aparecido
quando seus recursos formais começaram a influenciar as outras artes, em particu-
lar a arquitetura e as artes aplicadas, mas também a poesia e a música.
n CHIPP, Herschel B. Teorias da arte moderna.
São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 195.

Mulher chorando, de Pablo Picasso, principal representante do cubismo, escola


que valorizava as formas geométricas e explorava diferentes maneiras de
representar a profundidade no plano. Ao mesmo tempo, questionava a leitura
de mundo a partir de uma única perspectiva; assim, vários aspectos do que
estava sendo retratado eram mostrados simultaneamente: a mulher está de
perfil, mas o observador vê os seus dois olhos, como se ela estivesse de frente!

Nascido com base em experiências de Pablo Picasso e de Georges Braque, o cubismo desenvolveu‑se ini‑
cialmente na pintura, valorizando as formas geométricas (cones, esferas, cilindros, etc.) ao revelar um objeto em
seus múltiplos ângulos. A pintura cubista surgiu em 1907 e conheceu seu declínio com a Primeira Guerra
Mundial. A proposta cubista centrava‑se na liberdade que o artista deveria ter para decompor e recompor a
realidade a partir de seus elementos geométricos; segundo Picasso, “o trabalho do artista não é cópia nem ilus‑
tração do mundo real, mas um acréscimo novo e autônomo” (o que teria levado o pintor espanhol a afirmar que
“a arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade”).

Arte e ciência
Visão simultânea
Durante 500 anos, desde o início da Renascença italiana, os artistas tinham sido guiados pelos
princípios da perspectiva matemática e científica, de acordo com os quais o artista via o seu modelo ou
objeto de um único ponto de vista estacionário. Agora, é como se Picasso tivesse andado 180 graus em
redor do seu modelo e tivesse sintetizado suas sucessivas impressões numa única imagem. O rompi‑
mento com a perspectiva tradicional resultaria, nos anos seguintes, no que os críticos da época chama‑
ram visão “simultânea” – a fusão de várias vistas de uma figura ou objeto numa única imagem.
n GOLDING, John. In: Conceitos de arte moderna. [Org. Nikos Stangos]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. p. 40.

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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

Cubismo e relatividade
Com efeito, Picasso fez para a arte, em 1907, quase o mesmo que Einstein para a Física em seu
ensaio “Eletrodinâmica”, de 1905. Jogando com o que as pessoas querem dizer por “simultâneo”,
Einstein terminou dizendo que apenas a velocidade da luz era absoluta, e que todas as outras medi‑
das poderiam variar em relação a ela. Nenhum observador tinha um ponto de vista privilegiado, e as
observações, mesmo de vários pontos de vista, não eram suficientes para tornar a realidade determi‑
nada ou “objetiva”. De maneira similar, Picasso pintara a quinta Demoiselle [a que está sentada, no
canto direito do observador] de dois pontos de vista diametralmente opostos, simultaneamente, o
que não só explodiu a convenção do Renascimento, mas também minou toda uma série de conven‑
ções pelas quais nós representamos a simultaneidade em um objeto artístico que não se move.
n Everdell, William R. In: Os primeiros modernos. Trad. Cynthia Cortes e Paulo Soares. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 292.

De acordo com os comentários acima, a relação existente entre arte e ciência é bastante intensa,
ocorrendo influências e trocas de conhecimento entre ambas. Em sua opinião, o que há em comum na
relação entre o artista, o cientista e a realidade?

lENDo As PINTuRAs

Analise atentamente as duas telas abaixo: a primeira é O lanche (mulher com colher de chá), de Jean Metzinger (1883-1956), pintada
em 1911; a segunda é Figura, do paraense Ismael Nery (1900-1934), pintada em 1927-28.

Reprodução/Museu de Arte Contemporânea da USP, São Paulo, SP.


Reprodução/Coleção Louise e Walter Arensberg/Museu de Arte da Filadélfia,
Estados Unidos.

Após analisá-las, responda:


1. Que sensação elas provocam em você?
2. Que características cubistas elas apresentam? Como os artistas trabalharam a questão da simultaneidade?

O cubismo na literatura
Na literatura, o cubismo viveu seu primeiro momento com um manifesto‑síntese assinado por Guillaume
Apollinaire (1880‑1918) e publicado em 1913. A literatura cubista valoriza a proposta da vanguarda europeia de
aproximar ao máximo as várias manifestações artísticas (pintura, música, literatura, escultura), preocupando‑se
com a construção do texto e ressaltando a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel e
da impressão tipográfica. Essa característica viria a influenciar Oswald de Andrade, na década de 1920, e a cha‑
mada poesia concreta da década de 1960 no Brasil.
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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

Apollinaire defendia as “palavras em liberdade” e a “invenção de palavras”, e propunha a “destruição das


sintaxes já condenadas pelo uso”, criando um texto marcado pelos substantivos soltos, aparentemente jogados
de forma anárquica, e pelo menosprezo por verbos, adjetivos e pontuação. Pregava ainda a utilização do verso
livre e a consequente negação da estrofe, da rima e da harmonia. Assim como na pintura, as colagens e o rea‑
proveitamento de outros materiais passaram a ser incorporados pelos textos poéticos.
Como exemplo de texto cubista, reproduzimos a seguir um famoso poema de Apollinaire, “La colombe
poignardée et le jet d’eau” (A pomba apunhalada e o jato de água). Ao lado, está a tradução realizada por Patrícia
Galvão, a Pagu, no jornal Diário de São Paulo, edição de 18 de maio de 1947.

Reprodução/Ed. Brasiliense
É a seguinte a tradução deste poema:
Doces figuras apunhaladas – Caros lábios em
flor – Mia Mareye – Yette Lorie – Annie e você Marie
– onde estão – vocês ó – meninas – Mas – junto a um
– jacto de água que – chora e que suplica – esta
pomba se extasia – Todas as recordações de outrora?
– Onde estão Raynal Billy Dalize – Os meus amigos
foram para a guerra – Os seus nomes se melancoli‑
zam – Esguicham para o firmamento – Como os pas‑
sos numa igreja – E os seus olhares na água parada –
Onde está Crémnitz que se alistou – Morrem melan‑
colicamente – Pode ser que já estejam mortos – Onde
estão Braque e Max Jacob – Minha alma está cheia de
lembranças – Derain de olhos cinzentos como a auro‑
ra – O jacto de água chora sobre a minha pena – OS
QUE PARTIRAM PARA A GUERRA AO NORTE SE
BATEM AGORA – A NOITE CAI O SANGRENTO MAR –
JARDINS ONDE SANGRA ABUNDANTEMENTE O
LOURO ROSA FLOR GUERREIRA

n In: CAMPOS, Augusto de (Org.). Pagu − vida − obra. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1982. p. 156.

Reprodução/Ed. Brasiliense

No Brasil, o movimento da poesia concreta explo‑


ra alguns conceitos da estética cubista, como se per‑
cebe no poema “AMORTEMOR”, de Augusto de Campos.

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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

////////////////////////
O FUTURISMO
O FUTU
///////////
///////////////////////////////////////

Em 20 de fevereiro de 1909 era publicado, na primeira página do jornal Le Figaro, de Paris, o manifesto de
um movimento denominado Futurismo, assinado pelo italiano Filippo Marinetti. O Futurismo pregava uma
absoluta sintonia entre a arte e o mundo moderno, regido pela eletricidade, máquinas, motores, pelos grandes
aglomerados urbano‑industriais, pela velocidade, enfim.
De 1909 a 1914, oriundos de grupos radicados na França e na Itália, vários manifestos futuristas foram
publicados, apresentando propostas para a pintura, a poesia, a arquitetura, a música. O movimento perde força
em 1915, quando Marinetti, que exercia forte liderança sobre os grupos, defende a entrada da Itália na Guerra.
Nos anos 1920, as propostas de Marinetti foram assimiladas pelo fascismo italiano, gerando a dispersão dos
grupos de artistas.
Assim, pode‑se entender a repugnância dos principais modernistas brasileiros pelo movimento de Marinetti,
apesar de apresentarem uma série de pontos comuns com os futuristas; aceitavam suas ideias artísticas, mas
repudiavam seu posicionamento político. Oswald de Andrade tomou conhecimento do Futurismo em suas via‑
gens à Europa, anteriores a 1919, não relacionando, portanto, o movimento com o fascismo. Por outro lado, a
palavra Futurismo passou a designar qualquer postura inovadora na arte, levando Oswald a saudar, em 1921, o
jovem poeta Mário de Andrade com um artigo intitulado “O meu poeta futurista”. Temendo uma identificação
com o fascismo, Mário de Andrade vem a público negar, mais do que o movimento futurista, a figura de seu líder.
No prefácio ao livro Pauliceia desvairada, afirma:

“Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito‑o. Tenho pontos de contacto com o futurismo. Oswald
de Andrade, chamando‑me de futurista, errou.”.

Fundação e manifesto do futurismo, de F. T. Marinetti, publicado em 1909


(fragmentos)
Então, com o vulto coberto pela boa lama das fábricas – empaste de escórias metálicas, de suores
inúteis, de fuligens celestes –, contundidos e enfaixados os braços, mas impávidos, ditamos nossas pri‑
meiras vontades a todos os homens vivos da terra:

1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.


2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia.
3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o
movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.

4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velo‑
cidade. [...]

7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma
obra‑prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para
obrigá‑las a prostrar‑se ante o homem.

8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos
arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o
absoluto, pois criamos a eterna velocidade onipresente.

9. Queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo –, o militarismo, o patriotismo, o gesto des‑
truidor dos anarquistas, as belas ideias pelas quais se morre e o desprezo da mulher.

10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo tipo, e combater o moralismo, o
feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.

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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantare‑
mos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante
fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas: as estações
insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorci‑
dos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças,
cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as
locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço
refreados por tubos e o voo deslizante dos aeroplanos, cujas hélices se agitam ao vento como ban‑
deiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta. [...]
Em verdade eu vos digo que a frequentação cotidiana dos museus, das bibliotecas e das academias
(cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registros de lances truncados!...) é, para os
artistas, tão ruinosa quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens embriagados por seu enge‑
nho e vontade ambiciosa. Para os moribundos, para os doentes, para os prisioneiros, vá lá: o admirável
passado é talvez um bálsamo para tantos os seus males, já que para eles o futuro está barrado... Mas nós
não queremos saber dele, do passado, nós, jovens e fortes futuristas!
Bem‑vindos, pois, os alegres incendiários com
seus dedos carbonizados! Ei‑los!... Aqui!... Ponham

O barulho da rua invade a casa, de Umberto Boccioni, 1911. Óleo sobre tela, 100 cm × 100 cm.
Museu Sprengel, Hanover, Alemanha.
fogo nas estantes das bibliotecas!... Desviem o curso
dos canais para inundar os museus!... Oh, a alegria
de ver flutuar à deriva, rasgadas e descoradas sobre
as águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as
picaretas, os machados, os martelos e destruam sem
piedade as cidades veneradas!
n In: CHIPP, H. B. Teorias da arte moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 290-291.

n Umberto Boccioni (1882‑1916), um dos principais teóricos


do futurismo, retrata, em suas telas e esculturas, a vida
moderna plena de movimento, dinamismo e força. “Desejo
pintar a novidade, o fruto da nossa idade industrial”,
anotou o artista em seu diário. Na tela O barulho da rua
invade a casa, as formas tornam‑se transparentes, interiores
e exteriores interpenetram‑se, são pintados em
sobreposições simultâneas, tal como os acontecimentos
que se desenrolam no edifício e na rua. O nervosismo febril
da vida urbana, com seu ritmo alucinante, compõe o
cenário tumultuoso da obra de Boccioni.

Reprodução/Instituto Nacional do Livro

n Ecos no Brasil
V V V V V V V V V V
O poeta brasileiro Ronaldo Azeredo, do movimento da V V V V V V V V V E
poesia concreta, também cantou a “beleza da velocidade”. V V V V V V V V E L
V V V V V V V E L O
V V V V V V E L O C
V V V V V E L O C I
V V V V E L O C I D
V V V E L O C I D A
V V E L O C I D A D
n Ronaldo Azeredo. In: AZEVEDO FILHO, Leodegário A. de. Poetas do Modernismo: V E L O C I D A D E
antologia crítica. Brasília: INL, 1972. p. 195.

153

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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

Lendo os textos
Texto para as questões 1 a 4.
Leia atentamente a estrofe a seguir, do poema “Ode triunfal”, assinado pelo enge‑
nheiro Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta modernista português Fernando
Pessoa.

Ode triunfal

Vera Basile/Arquivo da editora


(fragmento)

À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica


Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r‑r‑r‑r‑r‑r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde‑me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Ah, poder exprimir‑me todo como um motor se exprime


Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último‑modelo!
Poder ao menos penetrar‑me fisicamente de tudo isto,
Rasgar‑me todo, abrir‑me completamente, tornar‑me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
n PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa – obra poética.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977. p. 306.

1. O poeta explora a força de alguns vocativos, invocando seres superiores. Destaque três desses
vocativos.

2. O poeta afirma que quer cantar as máquinas com a força “de todas as minhas sensações”. Destaque
os versos que expressam isso.

3. Aponte alguns aspectos característicos do movimento futurista.


4. Que tipo de relação se estabelece entre o enunciador e a máquina?

Texto para as questões 5 a 7.


Agora leia o fragmento do poema “Carambola publicitária”, do angolano António Cardoso (1933‑
‑2006); por sua luta contra a dominação portuguesa, o poeta esteve preso no campo de concentração de
Tarrafal, em Cabo Verde.

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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

Carambola publicitária
(fragmento)

Não há nada como a “civilização” (deles) para nos escovar a seco


Ou molhado, nos dependurar na corda bamba em equilíbrios
De prestidigitador encartado, nos lembrar em cada beco
Os nossos dentes, a pele, a mulher, os filhos, o carro, em ludíbrios
Técnicos, cientificamente certos ou errados, qu’importa!,
Interessa era respirar, ver formigas, se ainda existem,
Saber como cheira a terra revoltada de um pomar ou de uma horta,
Provar se a chuva molha na pele e se os cheiros ainda persistem
Nas lavras, no tempo das flores, teimosamente infabricados...
Mesmo aqui na prisão sinto‑me ilhado, apontado a dedo,
Espreitado, espevitado, empurrado pelos slogans gritados
Por todos os rótulos na memória ou que povoam o meu
degredo:

LUXO – Macio e absorvente!


SUPER VIM com DESINFECTINA!
SUPER PEPSODENTE com PL3 – brancura natural dos dentes!
EXTRA – ideal para roupa delicada! Pastilhas CORIFINA
Vitamina C para fumadores!

De todos os gostos e diferentes,


Mas todos iguais no resultaddo seguro: na mesma aparecer
Hemorroidas, riscos, nicotinas, nódoas, sub‑reptícios cancros,
NA CIRANDA VIDA‑E‑MORTE.
n CARDOSO, António. In: DÁSKALOS, Maria Alexandre;
APA, Lívia; BARBEITOS, Arlindo. Poesia africana de língua portuguesa.
Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2003. p. 97-98.

5. Quais são as semelhanças entre o fragmento de António Cardoso e a estrofe de Álvaro de Campos
em relação à estética futurista?

6. Apesar de ser possível a aproximação desse poema com o futurismo, principalmente no seu aspecto
antiburguês, existem algumas diferenças marcantes entre o texto e as propostas futuristas. Quais
são elas?

7. A voz poética fala, efetivamente, a partir da cadeia, como fica evidente no décimo verso. Em termos
mais gerais, é possível dizer que a voz poética fala de um determinado lugar social, de uma perspec‑
tiva própria. Qual seria ela?

///////////////////////////
O EXPRESSIONISMO
///////////
//////////////////////////////////////////////////////////

O movimento expressionista surgiu em 1910, na Alemanha, trazendo uma forte herança da arte do final do
século XIX, preocupada com as manifestações do mundo interior e com a forma de expressá‑las. Daí a impor‑
tância da expressão, ou seja, da materialização, numa tela ou numa folha de papel, de imagens nascidas em
nosso mundo interior, pouco importando os conceitos então vigentes de belo e feio.
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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

O crítico e historiador de arte Dietmar Elger assim abre seu volume sobre o expressionismo:

O termo expressionismo é, em todos os sentidos, multifacetado e vasto, sendo quase impos‑


sível defini‑lo de forma precisa. Além disso parece ter várias origens. [...] não é possível falar de um
estilo expressionista uniforme, com características típicas. [...] o expressionismo parece ser mais a
expressão da forma de vida de uma geração jovem, a qual somente tinha um ponto em comum: a
rejeição das estruturas políticas e sociais vigentes.
n Expressionismo: uma revolução alemã na arte. Colônia: Taschen, 1998. p. 7.

O que parece ser consensual é que o expressionismo moderno já se manifestara em obras de Edvard Munch,
Gauguin e Van Gogh, floresceu na Alemanha e teve seu melhor momento entre os anos de 1905 e 1920 (um crítico
de arte, ao se referir à tela O grito e contrapô‑la às obras impressionistas, teria empregado o termo “expressionis‑
mo” pela primeira vez; como já vimos na abertura deste
capítulo, O grito foi pintada em 1893). Munch, Gauguin e Van
Reprodução/Museu Brüke, Berna, Suíça.

Gogh já manifestavam emoções de medo, angústia, dor e


ansiedade por meio do choque provocado pelas cores
vibrantes, distorções e exageros de formas. Desse modo, as
figuras humanas retratadas nas telas expressionistas não
têm os traços bem definidos; pelo contrário, apresentam
rostos e corpos distorcidos, assemelham‑se a máscaras, a
caricaturas. Exatamente por isso, a partir de 1933, acentua‑se
o declínio da estética expressionista com a ascensão de
Hitler na Alemanha: segundo as novas diretrizes, buscava‑se
uma arte “pura”, “limpa”, que retratasse a “superioridade”
germânica, jamais uma caricatura.

Em Numa rua de Berlim, Ernst Ludwig Kirchner apresenta sua


visão do mundo moderno, às portas da Primeira Guerra Mundial:
olhares perdidos e as feições distorcidas contrastando com a
ostentação das vestimentas; o choque provocado pelas cores
vibrantes das figuras que aparecem em primeiro plano
contrastando com a dispersão sombria da multidão em
segundo plano.
Reprodução/Arquivo da editora

A tela Operários no caminho de casa, do pintor expressionista


alemão Conrad Felixmüller, registra o momento em que operários
voltam para casa após uma jornada de trabalho nas minas de
carvão. O sol próximo à linha do horizonte sugerindo a transição
dia/noite; o contraste entre a luminosidade amarelo-avermelhada
do canto direito superior e o escuro que domina a parte inferior da
tela; a luminosidade fria da luz azulada do farol da locomotiva que
se desloca no pátio da estação; a luminosidade esverdeada do
interior das cabines do trem que se desloca (e corta a tela) da
direita para a esquerda do observador; o cheiro que exala do fumo
queimando no cachimbo: são apelos às sensações do observador
(que sente frio e calor, cheiros, ouve o barulho dos trens) que o
envolvem, tornando-o participante da cena.

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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

FIlMoTEcA
Divulgação/Arquivo da editora

O gabinete do Dr. Caligari (1919). Direção: Robert Wiene. Com: Werner Krauss e
Conrad Veidt.
Um dos principais filmes do expressionismo alemão. A história narra o domínio do
doutor Caligari sobre o sonâmbulo Cesare, que mata pessoas sob as ordens do médico.
Hoje, o filme é entendido como uma antevisão do período nazista.
Nosferatu (1922). Direção: F. W. Murnau. Com: Max Schreck.
Um clássico do cinema expressionista alemão, conta a história não autorizada do
conde Drácula. Em 1979, o diretor Werner Herzog fez uma refilmagem, com Klaus
Kinski e Isabelle Adjani.
A sombra do vampiro (2000). Direção: Elias Merhige. Com: John Malkovich,
Willem Dafoe.
Interessante recriação do célebre Nosferatu. Assista primeiro ao Nosferatu de Murnau
e depois divirta-se com este filme.

O expressionismo no Brasil

A boba, de Anita Malfatti, 1917. Óleo sobre tela, 61 cm × 50,6 cm. Museu de Arte Contemporânea da USP, São Paulo.
Em 1912, Anita Malfatti, uma jovem paulista de
16 anos, partiu para a Alemanha, já matriculada na
Escola de Belas‑Artes de Berlim. Lá, entrou em contato
com o expressionismo alemão, retornando, maravi‑
lhada, em 1914, quando realizou sua primeira exposi‑
ção, em São Paulo. Sua segunda exposição, em 1917,
desencadeou uma série de reações e acabou sendo o
fato gerador da mostra de arte moderna que se con‑
cretizaria em 1922.

n Van Gogh, comentando as primeiras telas com características


expressionistas, chegou a afirmar que, ao distorcer uma
imagem para expressar a visão do artista, assemelhavam‑se à
caricatura. É o que se pode perceber, por exemplo, no óleo
sobre tela ao lado, A boba (1915‑1916), de Anita Malfatti, que
havia estudado na Escola de Belas‑Artes de Berlim e que,
em 1917, realizou uma exposição que chocou a elite
tradicional da cidade de São Paulo.

///////////////////////////
O D
O DADAÍSMO
///////////
/////////////////////////////////////

Em fevereiro de 1916, sob os ruídos da guerra, o alemão Hugo Ball, poeta e filósofo, fundou uma sociedade
artística denominada “Cabaré Voltaire”, que funcionava num bar localizado em um bairro marginal da cidade de
Zurique, na neutra Suíça. Ali reuniram‑se, entre outros, o francês Jean Arp e o romeno Tristan Tzara e iniciaram o
movimento dadaísta, de caráter anárquico, antirracional, antiburguês, anti‑imperialista. Segundo a versão da‑
daísta, a escolha do nome do movimento reflete o seu caráter ilógico e aleatório: enfiaram um estilete ao acaso
entre as páginas de um dicionário e a palavra mais estranha daquela página seria a escolhida – o estilete entrou
numa das páginas da letra D e lá estava a palavra dada (em francês, cavalinho de pau, brinquedo de criança).
Nos Estados Unidos, encontrou eco num grupo de artistas que já procuravam novas expressões e conceitos no
campo das artes, como Marcel Duchamp e Francis Picabia.
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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

Slogans Dada (lançados em Berlim, 1919)


DADA
está ao lado
do Proletariado revolucionário
Abra finalmente sua cabeça
Deixe‑a livre
para as exigências
de nossa época
Abaixo a arte
Abaixo o
intelectualismo burguês
A arte morreu
Viva
a arte‑máquina
de Tatlin*
DADA
é a destruição voluntária
do
mundo burguês das ideias
* Vladimir Tatlin, artista russo engajado na Revolução de 1917, projetou uma imensa estrutura de vidro e ferro, com um cilindro central giratório, mais alta que a Torre
Eiffel, que seria construída no centro de Moscou. O projeto não se concretizou.
Reprodução/Coleção particular, Genebra, Suíça.

akg-images/Ipress/Coleção particular

O alemão Max Ernst tomou contato com o grupo dadaísta em 1916; em 1920, participou da Exposição Dadaísta da Cervejaria Winter,
em Colônia, Alemanha, com a obra Fruto de uma longa experiência. A exposição foi fechada pela polícia sob o pretexto de ser
obscena; Max Ernst e outro expositor foram acusados de fraude por exigirem dinheiro para que as pessoas entrassem em um local
onde haveria uma exposição de arte e apresentarem objetos que nada tinham que ver com arte.

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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

Manifesto DADÁ, 1918


(fragmentos)
Eu escrevo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípio
contra os manifestos, como sou também contra os princípios [...].
DADÁ – eis uma palavra que conduz as ideias à caça; cada burguês é um pequeno dramaturgo,
inventa conversações diferentes, em lugar de colocar as personagens convenientes ao nível de sua
inteligência [...].
DADÁ NÃO SIGNIFICA NADA
Que cada homem grite: há um grande trabalho destrutivo, negativo, a executar. Varrer, limpar. A
propriedade do indivíduo se afirma após o estado de loucura, de loucura agressiva, completa, de um
mundo abandonado entre as mãos dos bandidos que rasgam e destroem os séculos. Sem objetivo
nem plano, sem organização: a loucura indomável, a decomposição. [...]
Abolição da lógica, dança dos impotentes da criação: DADÁ; cada objeto, todos os objetos, os sen‑
timentos e as obscuridades, as aparições e o choque preciso das linhas paralelas são meios para o
combate: DADÁ; abolição da memória: DADÁ; abolição da arqueologia: DADÁ; abolição dos profetas:
DADÁ; abolição do futuro: DADÁ.
Liberdade: DADÁ DADÁ DADÁ, uivos das dores crispadas, entrelaçamento dos contrários e de
todas as contradições, dos grotescos, das inconsequências: A VIDA.
n TZARA, Tristan. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e Modernismo brasileiro.
Petrópolis: Vozes, 1972. p. 108-116.

Para fazer um poema dadaísta


Pegue um jornal.

Merzpicture 26,41. okola, de Kurt Schwitters, 1926. Colagem, 29 cm × 22,5 cm. Coleção particular.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que
você deseja dar a seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas pala‑
vras que formam esse artigo e meta‑as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que
elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei‑lo um escritor infinitamente original e
de uma sensibilidade graciosa, ainda que incom‑
preendido do público.
n TZARA, Tristan. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e
Modernismo brasileiro. Petrópolis : Vozes, 1972.

n Merzpicture 26,41. okola


(1926) é uma colagem do dadaísta
Kurt Schwitters, que utilizava em seu trabalho restos de
materiais, como madeira, corda, trapos, jornal, passagens de
ônibus. Note a analogia dessa técnica com os procedimentos
recomendados por Tzara no texto “Para fazer um poema
dadaísta”. Observados tais procedimentos, resultou um
poema de feição casual e aleatória, como esta colagem.

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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

////////////////////////
O SURREALISMO
O SU
///////////
///////////////////////////////////////////////

No período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial, surge, em grande parte derivado do dadaísmo, o
último dos grandes movimentos de vanguarda: o surrealismo. O primeiro manifesto surrealista aparece em
1924, assinado por André Breton, que havia participado das últimas rodas dadaístas. A crítica Dawn Ades
afirma que:

o Surrealismo nasceu de um desejo de ação positiva, de começar a reconstruir a partir das


ruínas do Dadá. Pois, ao negar tudo, o Dadá tinha que terminar negando a si mesmo (“O verdadeiro
dadaísta é contra o Dadá”), e isso levou a um círculo vicioso que era necessário romper.
n Conceitos de arte moderna. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. p. 89.

André Breton era médico e tomara contato com os ensinamentos de Freud. Na conferência “Que é surrea‑
lismo”, em 1934, Breton explica:

Ocupado como estava com Freud, nessa época, e familiarizado com seus métodos de exame,
que eu tivera ocasião de praticar sobre doentes durante a guerra, resolvi obter de mim aquilo
que se procura obter deles, ou seja, um monólogo que fluísse o mais rapidamente possível,
sobre o qual o espírito crítico do sujeito não emita nenhum julgamento, que não se embarace,
por conseguinte, com nenhuma reticência e que seja, tão exatamente quanto possível, o pen-
samento falado. [...]
Como a palavra ‘surrealismo’ nos foi imposta, julguei indispensável, em 1924, defini‑la de
uma vez por todas:
SURREALISMO, s.m. Automatismo psíquico puro pelo qual se pretende exprimir, quer verbal‑
mente, quer por escrito, quer por qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento.
Ditado do pensamento, na ausência de qualquer controle exercido pela razão, fora de qualquer
preocupação estética ou moral.
ENCICL. FILOS. O surrealismo repousa na crença na realidade superior de certas formas de
associações antes negligenciadas, na onipotência do sonho, no jogo desinteressado do pensamen‑
to. Tende a arruinar definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos e substituí‑los na
resolução dos principais problemas da vida.
n CHIPP, Herschel B. Teorias da arte moderna.
São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 417.
Filosofia no Boudoir, de René Magritte, 1947. Óleo sobre tela. Coleção particular.

“Os surrealistas ficaram altamente


impressionados com os escritos de
Sigmund Freud, os quais demonstraram
que, quando os nossos pensamentos em
estado de vigília são entorpecidos, a
criança e o selvagem que existem em nós
passam a dominar. Foi essa ideia que fez
os surrealistas proclamarem que a arte
nunca pode ser produzida pela razão
inteiramente desperta. Admitem que a
razão pode dar-nos a ciência mas afirmam
que só a não razão pode dar-nos a arte.”
(GOMBRICH, E. H. História da arte. Rio de
Janeiro: Zahar, 1979.)

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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

Em Salvador Dalí, o mais extravagante dos surrealistas, a influência de Freud é marcante. São temas recor‑
rentes nas suas obras: o sexo (e todas as suas atribuições: angústias, medos, frustrações, traumas), a memória
(sua permanência ou dissipação, representada por relógios que se diluem), o sono e o sonho. Reproduzimos ao
lado a tela intitulada Sonho provoca-

Reprodução/Museu Thyssen-Bornemisza, Madri, Espanha.


do pelo voo de uma abelha em torno
de uma romã, um segundo antes de
acordar, datada de 1944.
A romã e a abelha em pleno
voo aparecem reduzidas na parte
inferior da tela; no entanto, da pro‑
jeção da romã, à esquerda, salta um
peixe, expelindo dois tigres, que se
projetam agressivos sobre a mulher,
a qual dorme (e sonha). A mulher
(um retrato de Gala, esposa do
artista) levita, tendo ao fundo o
mar azul da inconsciência; a baio‑
neta calada, o elefante com longas
pernas de pau e a pirâmide de cris‑
tal, que aprisiona uma mulher, são
outros elementos freudianos que
completam a cena.
O surrealismo conhece uma
ruptura interna quando Breton faz
uma opção pela arte revolucionária,
influenciado que estava pelo mar‑
xismo. Muitos dos seguidores do
movimento não admitiam o engaja‑
mento da arte, criando assim uma
divisão entre os surrealistas comu‑
nistas e os não comunistas.

FIlMoTEcA
Divulgação/Arquivo da editora

Um cão andaluz/A Idade do ouro (1928). Direção: Luís Buñuel &


Salvador Dalí. Com: Mareuil, Pierre Batcheff, Luis Buñuel, Gaston Madot,
Max Ernst.
Dois clássicos do cinema surrealista; como curiosidade, Max Ernst
atuando, e roteiro e direção com participação de Salvador Dalí. O DVD
apresenta ainda a biografia de Buñuel e Dalí e um documentário sobre o
movimento surrealista.
Não deixe de assistir, também, ao filme A bela da tarde, obra-prima de
Buñuel e maior expressão do cinema surrealista.
Frida (2002). Direção: Julie Taymor. Com: Salma Hayek, Alfred Molina.
Biografia da pintora surrealista Frida Kahlo, com destaque para o seu
conturbado casamento com o famoso muralista mexicano Diego Rivera.

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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

Texto e intertexto
Poeminha surrealista Botafogo
Gostaria, querida, Desfilam algas sereias peixes e galeras

© Millôr Fernandes/
Acervo do cartunista
De ser inesperado E legiões de homens desde a pré‑história
Como uma madrugada amanhecendo Diante do Pão de Açúcar impassível.
À noite Um aeroplano bica a pedra amorosamente
E engraçado, também, A filha do português debruçou‑se à janela
Como um pato num trem. Os anúncios luminosos leem seu busto
n FERNANDES, Millôr. In: Millôr Fernandes. A enseada encerrou‑se num arranha‑céu.
São Paulo: Abril Educação, 1980. p. 38. (Literatura Comentada.)
n MENDES, Murilo. Murilo Mendes: poesia completa & prosa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 280.

1. Destaque uma característica surrealista de cada um dos textos.


2. Assim como Millôr Fernandes ilustrou seu “Poeminha surrealista”, em seu caderno, faça uma ilustração
para o poema “Botafogo”, de Murilo Mendes.

3. Leia o poema e responda à pergunta a seguir.


Noturno
O mar soprava sinos
os sinos secavam as flores
as flores eram cabeças de santos.

Minha memória cheia de palavras


meus pensamentos procurando fantasmas
meus pesadelos atrasados de muitas noites.

De madrugada, meus pensamentos soltos


voaram como telegramas
e as janelas acesas toda a noite
o retrato da morta
fez esforços desesperados para fugir.
n MELO NETO, João Cabral de. João Cabral de Melo Neto – obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 45.

Você relacionaria o poema de João Cabral a qual das tendências de vanguarda que surgiram na Europa
entre 1909 e 1924? Por quê?

4. Leia atentamente o texto abaixo.


O modernismo ou a vanguarda dos franceses é aqui apresentado sob o nome de ..., ou mais exata‑
mente o de ... literário. Evita‑se assim o problema da “exatidão terminológica”. Não importa, porém,
saber se o termo, nascido da observação de Matisse sobre um quadro de Braque, em 1908, deva ou não
ser aplicado à literatura, como se, de direito, pertencesse apenas à pintura. Uma das características das
artes neste século é justamente a da aproximação de todas elas, uma influenciando a outra e concorren‑
do todas para a popularização de novas técnicas e linguagens. Na época dos ‑ismos, pelo menos pintura,
música, literatura e escultura estiveram juntas nas pesquisas de suas novas formas de expressão.
n TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda europeia e Modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1972.

a) O texto refere‑se a qual tendência de vanguarda?


b) O texto trata de um dos mais importantes aspectos da arte moderna. Qual é ele?
c) Você diria que, nestes primeiros anos do século XXI, as artes ainda apresentam essa característica? Justifique.
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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

vElHos TEMAs, NovAs lEITuRAs

AS VANGUARDAS E OS REGIMES TOTALITÁRIOS


Na virada do século XIX para o XX, o pensamento baseado na tradição iluminista encontrava‑se em um
momento de crise profunda, algo que estava diretamente ligado aos avanços científicos, às crises sociais, ao
neocolonialismo e ao aumento da destruição causada pelos conflitos bélicos. A ideia de progresso havia
lançado a Europa em um dilema; o crescimento econômico não implicava, necessariamente, melhorias
sociais e garantia de paz e liberdade.

Mikhail Kuleshov/RIA Novosti/The Bridgeman Art Library/Keystone


Nesse sentido, não espanta que a inovação
estética nas artes tenha sido, mais do que em
qualquer outro lugar, extremamente profunda
na Rússia revolucionária. Lá, a derrubada do
Estado czarista foi acompanhada de profundas
transformações sociais e artísticas. Era preciso
criar uma nova forma de arte, uma representa‑
ção e reflexão estética que atendesse aos inte‑
resses do povo. Por conta disso, na formação do
Estado soviético, a arte de vanguarda esteve pre‑
sente em diversos veículos oficiais, como nas
agências de publicidade e propaganda públicas
e nos teatros comunitários.
No entanto, como a arte de vanguarda, por
seu potencial libertário, implicava uma ruptura
radical com a tradição cultural anterior, em pouco
n O afiador de facas (1912), de Kasimir Malevich.
tempo as propostas artísticas mais inovadoras
passaram a ser malvistas pelos líderes da Revolução.

Museu Nacional Russo, São Petersburgo/akg-images/Latinstock


Em consequência, inúmeros artistas foram perse‑
guidos, presos e humilhados publicamente, sendo
desacreditados como “incompreensíveis para as
massas”. Com a ascensão de Stalin ao poder, a situa‑
ção se complicou ainda mais; desde o início da
década de 1940, o regime soviético impôs uma
conduta estética e política aos seus artistas, o cha‑
mado “realismo soviético”, cujas obras deveriam
ser figurativas e didáticas, exaltando o regime bol‑
chevique e o povo soviético. Dessa forma, a inova‑
ção dos anos revolucionários se perdeu, dando
lugar a uma arte oficial e simplória.
Na Alemanha de Hitler, a arte de vanguarda n Kirov inspeciona o Desfile do Esporte (1935), de Alexandr

também foi perseguida. O Estado Nazista, para Nikolaievich Samochvalov.

além de um determinado programa político, tinha um projeto estético para a Alemanha. A estética nazista
previa a eliminação de grupos que se interpunham à simetria da desejada “pureza” nacional: as raças degrada‑
das, os deficientes, os homossexuais, os liberais e comunistas não tinham razão de ser nessa sociedade. A deno‑

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PARTE 3 TEXTOS, ARTE E CULTURA

minada “cultura bolchevique e judaica” deveria ser

Album/akg-images/Latinstock
expurgada – era uma ameaça, uma perversão
materializada em formas desfiguradas e em mati-
zes gritantes, um símbolo de um mundo decaden-
te, miscigenado e psicótico.
A arte de vanguarda era tida como uma
doença que devia ser curada antes que atingisse
a raça ariana; a “gravidade” do problema foi
escancarada pela propaganda com a exposição
“Arte Degenerada”, realizada em Munique no
ano de 1937. Tal exposição utilizou um discurso
apelativo e uma organização caótica: obras de
artistas como Pablo Picasso, Paul Klee, Marc
Chagall e Piet Mondrian, dentre outros, foram

Anônimo/Universidade de Illinois, EUA


amontoadas, denegridas, com estatísticas que
comparavam o avanço das doenças físicas e
mentais com a difusão da arte moderna.
Para entender melhor as ideias expostas,
leia os textos a seguir. O primeiro é um fragmen-
to do poema “Ordem nº 2 ao exército das artes”,
publicado em 1921, por Vladimir Maiakóvski
(1893-1930), um dos maiores expoentes das van-
guardas russas. O segundo, um poema do escri-
tor alemão Bertolt Brecht (1898-1956), chamado
“Mau tempo para a poesia”, foi escrito nos anos
iniciais do regime nazista na Alemanha.
Público, Hitler e oficiais nazistas visitam a exposição “Arte
Degenerada”.
Ordem nº 2 ao exército das artes
Basta! que lufa das frinchas, do chão:
Abaixo, “Dai-nos, companheiros,
cuspi carvão do Don!
no rimário, Ao depósito, vamos,
nas árias, serralheiros,
nos róseos açafates mecânicos!”
e mais minincolias [...]
do arsenal das artes.
Perdidos em disputas monótonas,
Quem se interessa
buscamos o sentido secreto,
por ninharias
quando um clamor sacode os objetos:
como estas “Ah pobre coitado!
“Dai-nos novas formas!”
Quanto amou sem ter sido amado...”?
Artífices, Não há mais tolos boquiabertos,
é o que o tempo exige, esperando a palavra do “mestre”.
e não sermonistas de juba. Dai-nos, camaradas uma arte nova
Ouvi – nova –
o gemido das locomotivas, que arranque a República da escória.
■ In: Poesia russa moderna. Trad. Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.
São Paulo: Perspectiva, 2001. (Signos; 33). p. 251-252.

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As vANguARDAs: A REvolução ARTÍsTIcA Do INÍcIo Do século xx cAPÍTulo 1

Mau tempo para a poesia


Sim, eu sei: só o homem feliz
É querido. Sua voz
É ouvida com prazer. Seu rosto é belo.

A árvore aleijada no quintal


Indica o solo pobre, mas
Os passantes a maltratam por ser um aleijão
E estão certos.

Os barcos verdes e as velas alegres da baía


Eu não enxergo. De tudo
Vejo apenas a rede partida dos pescadores.
Por que falo apenas
Da camponesa de quarenta anos que anda curvada?
Os seios das meninas
São quentes como sempre.

Em minha canção uma rima


Me pareceria quase uma insolência.

Em mim lutam
O entusiasmo pela macieira que floresce
E o horror pelos discursos do pintor.
Mas apenas o segundo
Me conduz à escrivaninha.
n In: BRECHT, Bertolt. Poemas 1913-1956. Sel. e trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2000. p. 226.

1. Vladimir Maiakóvski integrou um grupo de artistas de vanguarda que se intitulavam “cubofuturistas”;


a partir da leitura do poema, que principais características do cubofuturismo podem ser identificadas?

2. Qual é a intenção da voz poética no texto de Vladimir Maiakóvski?


3. No poema “Mau tempo para a poesia”, quem é o “pintor”?
4. A partir de exemplos retirados do próprio texto, explique o significado do título do poema de Bertolt Brecht?
5. Explique o sentido dos seguintes versos do poema de Brecht: “Em minha canção uma rima / Me pareceria
quase uma insolência”.

Michael Dalder/Reuters/Latinstock

Em 2009, o artista plástico alemão Ottmar Hoerl


criou uma grande polêmica ao expor, em uma galeria
de artes de Nuremberg, a escultura de um anão de
jardim dourado fazendo a saudação nazista. Desde o
fim da Segunda Guerra Mundial, qualquer referência
ao nazismo é proibida na Alemanha; por isso, o artis‑
ta chegou a ser motivo de uma investigação por
parte das autoridades alemãs, porque, supostamen‑
te, poderia estar fazendo apologia ao nazismo. Em
sua opinião, qual foi a intenção do artista ao criar tal
obra? Você acredita que ele deveria ter sido punido?

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PARTE 3 TExTos, ARTE E culTuRA

NO
Questões de exames FAÇARNO!
CAD
E

Reprodução/<www.moderneiros.files.wordpress.com>
1. (Enem) pintura deveriam cele‑
brar, de maneira ino‑

Reprodução/Enem
vadora, original. As
imagens na tela deve‑
riam não mais tentar
imitar a natureza, mas
distorcê‑la. As palavras
estavam livres das
regras de versificação.
No Manifesto, cons‑
tavam proposições
como as apresentadas
O pintor espanhol Pablo Picasso (1881‑1973), um dos
a seguir. “Já não há
mais valorizados no mundo artístico, tanto em ter‑ n Internet: <www.moderneiros.files.wordpress.com>.

mos financeiros quanto históricos, criou a obra beleza senão na luta.


Guernica em protesto ao ataque aéreo à pequena Nenhuma obra que não tenha um caráter agres‑
cidade basca de mesmo nome. A obra, feita para sivo pode ser uma obra‑prima. A poesia deve ser
integrar o Salão Internacional de Artes Plásticas de concebida como um violento assalto contra as
Paris, percorreu toda a Europa, chegando aos EUA e forças ignotas para obrigá‑las a prostrar‑se ante
instalando‑se no MoMA, de onde sairia apenas em o homem.”
1981. Essa obra cubista apresenta elementos plásti‑ n Internet: <www.historiadaarte.com.br/futurismo.html> (com adaptações).
cos identificados pelo: Considerando a imagem e o texto, julgue os itens
a) painel ideográfico, monocromático, que enfoca seguintes, colocando C para as afirmações corretas
várias dimensões de um evento, renunciando à e E para as erradas.
realidade, colocando‑se em plano frontal ao
espectador.
b) horror da guerra de forma fotográfica, com o
*
( ) Depreende‑se do texto que, na perspectiva do
futurismo, o impacto das tecnologias, no início
do século XX, no cotidiano da sociedade deve‑
uso da perspectiva clássica, envolvendo o ria ser representado, nas produções artísticas,
espectador nesse exemplo brutal de crueldade não como imitação, mas de modo inusitado e
do ser humano. distanciado dos modelos convencionais.

*
c) uso das formas geométricas no mesmo plano, ( ) O desenho impresso no manifesto é exemplo
sem emoção e expressão, despreocupado com o de imagem modernista, na qual fica eviden‑
volume, a perspectiva e a sensação escultórica. ciada a negação de valores tradicionais da arte
d) esfacelamento dos objetos abordados na mesma acadêmica.

*
narrativa, minimizando a dor humana a serviço ( ) O movimento futurista mostrou‑se revolucio‑
da objetividade, observada pelo uso do claro‑ nário ao romper com a percepção humana do
‑escuro. tempo: o futuro, antes condicionado pelo pas‑
e) uso de vários ícones que representam persona‑ sado, pela tradição, passou a representar uma
gens fragmentados bidimensionalmente, de aventura completamente desconhecida. No
forma fotográfica livre de sentimentalismo. âmbito da filosofia, esse novo valor atribuído
ao tempo futuro serviu de fundamento para
2. (UnB‑DF) se rediscutir o conceito de liberdade.

*
Na Europa, Oswald de Andrade conviveu com ( ) Opõe‑se à ideia de beleza defendida no Mani‑
intelectuais, artistas e boêmios e, por intermédio festo Futurista, conforme se depreende do
deles, entrou em contato com o Manifesto Futuris‑ segundo parágrafo do texto a perspectiva filo‑
ta, do escritor ítalo‑francês Filippo Marinetti. Esse sófica de Nietzsche de que os seres, em geral, e
texto havia sido divulgado, três anos antes da che‑ o homem, em particular, são, de fato, movidos
gada de Oswald à Europa, pelo jornal parisiense por uma vontade de potência, uma vontade
Le Figaro e ainda exercia enorme influência sobre originária que impulsiona os seres, vivos ou
a vanguarda europeia. O futurismo defendia uma não, a continuarem seus movimentos de
arte que captasse o impacto das novas tecnolo‑ expansão em todos os sentidos possíveis, como
gias no cotidiano. A velocidade do automóvel, o as águas de um rio que inundam as margens
movimento da máquina, o ruído das engrenagens que as oprimem e que a beleza consiste em
– tudo isso constituía a matéria que a poesia e a assumir plenamente essa vontade de potência.

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2
O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

CAP Í T U L O 2

O Modernismo em
Portugal: Fernando
Pessoa e seus heterônimos
Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal.

Navegadores antigos tinham


uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é
preciso.”
Quero para mim o espírito desta
frase, transformada a forma para
casar com o que sou:
“Viver não é necessário; o que é
necessário é criar.”
n Fernando Pessoa, poeta português, em Palavras de Pórtico.

Horóscopo da revista Orpheu,


feito por Fernando Pessoa, com
base na data da venda do primeiro
exemplar. Entre os colaboradores
da revista, merece destaque o
brasileiro Ronald de Carvalho, que
participaria, em 1922, da Semana
de Arte Moderna, em São Paulo.

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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

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OS MOVIMENTOS DE VANGUARDA EM PORTUGAL
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Amadeo de Sousa-Cardoso (1887-1918) teve uma trajetória muito semelhante a


Santa-Rita Pintor: estudava artes em Paris quando estourou a Primeira Guerra
Mundial; retornou a Portugal e divulgou as propostas das vanguardas, período
em que desempenhou papel fundamental no Modernismo português; faleceu
prematuramente. A tela A máscara do olho verde revela influências do cubismo
e do expressionismo e se aproxima muito de algumas que Anita Malfatti
apresentou em suas primeiras exposições no Brasil.
Reprodução/Museu do Chiado, Lisboa, Portugal.

Reprodução/Gare Marítima de Alcântara, Lisboa, Portugal.

Reprodução/Coleção particular

Santa-Rita Pintor, nome artísti-


co de Guilherme Cau da Costa
Santa Rita (1889-1918), estu-
dava em Paris, em 1910, época
em que entrou em contato com
Marinetti e Picasso, inteirando-
-se das propostas e das técni-
cas do futurismo e do cubis-
mo, como se pode perceber em
sua Cabeça cubo-futurista,
em que alia a noção de movi-
Reprodução/Coleção particular
mento típica dos futuristas à
decomposição geométrica dos
cubistas. Santa-Rita Pintor foi José de Almada Negreiros (1893-1970) foi, ao lado de Fernando Pessoa e Mário de
um dos colaboradores da Sá-Carneiro, um dos idealizadores da revista Orpheu. Pronunciou a primeira conferência
revista Orpheu, marco inicial futurista em Portugal. Pintor, desenhista, poeta e romancista, escreveu os mais polêmicos
do modernismo português. manifestos dos anos iniciais do modernismo português.

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///////////
O MODERNISMO PORTUGUÊS
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O modernismo português teve, como marco inicial, a publicação do primeiro número de Orpheu – revista 
trimestral de literatura, em março de 1915. Contando com a participação de, entre outros, Fernando Pessoa, Mário
de Sá ‑Carneiro, Almada Negreiros e o brasileiro Ronald de Carvalho, a revista teve ainda um segundo e último
número, datado de junho de 1915. O terceiro número, embora planejado, não chegou a ser editado, em razão do
suicídio de Mário de Sá ‑Carneiro, responsável pelos compromissos financeiros da revista.
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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal

Há testemunhos de violentas reações da opinião pública lusitana ante a publicação


do primeiro número da revista Orpheu, tendo seus colaboradores sido chamados de
“loucos, insanos” e apontados ameaçadoramente nas ruas de Lisboa.

Os anos iniciais do modernismo português coincidem com uma nova situação


mundial, consequência da Primeira Guerra Mundial (1914 ‑1918), da Revolução Russa
(1917) e da afirmação dos Estados Unidos da América no cenário internacional.
Particularmente difíceis para Portugal foram os anos da guerra, uma vez
que estavam em jogo as colônias ultramarinas, alvo da cobiça das grandes
potências europeias desde o final do século XIX. Somava ‑se a isso uma crise na
política interna, que datava da proclamação da República, em 1910.
Os primeiros anos do governo republica‑
n Revista Orpheu, n. 1, Lisboa, no foram marcados por sucessivas e violen‑

Reprodução/Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa.


jan.-mar. 1915. tas crises (o próprio Partido Republicano
esfacelava ‑se em várias correntes). A iminên‑
A charge ao lado, de Rafael cia de uma guerra mundial e a disputa pelas
Bordalo, ilustra a situação
colônias africanas completaram o quadro,
das colônias portuguesas no
final do século XIX. Os ino- despertando nos portugueses um profundo
centes cordeiros (colônias nacionalismo, manifestado em duas corren‑
como Angola e Moçambique, tes: os saudosistas e os integralistas.
entre outras) são espreita- Houve, assim, uma volta ao passado, às
dos por lobos famintos (as Grandes Navegações, à grandiosidade do
nações europeias que cobi-
Império, ao Sebastianismo, às glórias de Os 
çavam esses territórios por-
tugueses). Lusíadas. O próprio Fernando Pessoa chegou
a mencionar, em 1912, um “superCamões”:

“[…] deve estar para muito breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos desta corren‑
te e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta que este movimento gerará, deslocará para segundo
plano a figura até agora primacial de Camões. […] Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos
afigura o próximo aparecer de um supra‑Camões na nossa terra”.
n PESSOA, Fernando. In: Fernando Pessoa – obras em prosa. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985.

Foi nesse quadro de referências que surgiu em Portugal um dos fenômenos mais fantásticos e polêmicos
de todos os tempos: Fernando Pessoa e seus heterônimos.
Todos os textos de Fernando Pessoa reproduzidos neste
capítulo foram retirados de Fernando Pessoa: obra poética. Rio
Fernando Pessoa, criador de poetas de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.

Fernando Pessoa
Reprodução/Arquivo da editora

Fernando Antônio Nogueira Pessoa (1888 -1935), aos cinco anos, órfão de pai, acompanha
sua mãe que vai viver em Durban, África do Sul. Só retorna definitivamente a Lisboa em 1905,
matriculando -se no Curso Superior de Letras, que em breve abandonaria. Na década de 1910,
colabora em várias revistas de caráter nacionalista, ao mesmo tempo em que entra em
contato com as vanguardas europeias. Em 1915, quando do lançamento da revista Orpheu,
sua produção literária é intensa, notadamente no que se refere à criação dos heterônimos.
Sua vida pessoal foi marcada por crises nervosas, excessos alcoólicos, solidão, melancolia;
falece aos 47 anos, vítima de cirrose hepática.
Em carta a João Gaspar Simões, Fernando Pessoa se explica: “O ponto central de minha
personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tendo continuamente, em tudo quanto
escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro – eis tudo”.

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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

Na “Nota preliminar”, reproduzida abaixo, Fernando Pessoa discorre sobre a criação de “um
poeta que seja vários poetas”. É justamente esta a mais rica, densa e intrigante faceta de Pessoa: sua
capacidade de se despersonalizar e se reconstruir em outros personagens, todos eles igualmente
poetas. E a esses “vários poetas” Fernando Pessoa deu uma biografia, caracteres físicos, traços de
personalidade, formação cultural... Assim é que, além de Fernando Pessoa ele ‑mesmo, “nasceram”
seus heterônimos: os poetas Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. É importante não con‑
fundir heterônimo com pseudônimo. Pseudônimo é um nome falso, sob o qual alguém se oculta. O
heterônimo vai além: é outro nome, outra personalidade, outra individualidade – diferente, portanto,
do criador.

Lendo os textos

Nota preliminar
O primeiro grau da poesia lírica é aquele em que o poeta, concentrado no seu sentimento,
exprime esse sentimento. Se ele, porém, for uma criatura de sentimentos variáveis e vários, expri‑
mirá como que uma multiplicidade de personagens, unificadas somente pelo temperamento e o
estilo. Um passo mais, na escala poética, e temos o poeta que é uma criatura de sentimentos
vários e fictícios, mais imaginativo do que sentimental, e vivendo cada estado de alma antes pela
inteligência que pela emoção. Este poeta exprimir‑se‑á como uma multiplicidade de persona‑
gens, unificadas, não já pelo temperamento e o estilo, pois que o temperamento está substituído
pela imaginação, e o sentimento pela inteligência, mas tão somente pelo simples estilo. Outro
passo, na mesma escala de despersonalização, ou seja, de imaginação, e temos o poeta que em
cada um dos seus estados mentais vários se integra de tal modo nele que de todo se despersona‑
liza, de sorte que, vivendo analiticamente esse estado da alma, faz dele como que a expressão de
um outro personagem, e, sendo assim, o mesmo estilo tende a variar. Dê‑se o passo final, e tere‑
mos um poeta que seja vários poetas. Um poeta dramático escrevendo em poesia lírica. Cada
grupo de estados de alma mais aproximados insensivelmente se tornará uma personagem, com
estilo próprio, com sentimentos porventura diferentes, até opostos, aos típicos do poeta na sua
pessoa viva. [...]
Por qualquer motivo temperamental que me não proponho analisar, nem importa que analise,
construí dentro de mim várias personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que
atribuí poemas vários que não são como eu, nos meus sentimentos e ideias, os escreveria.
Assim têm estes poemas de Caeiro, os de Ricardo Reis e os de Álvaro de Campos que ser considera‑
dos. Não há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem
ideias que não aceito, sentimentos que nunca tive. Há simplesmente que os ler como estão, que é aliás
como se deve ler.

1. No texto acima, Fernando Pessoa fala sobre o processo de despersonalização do poeta. Para tanto,
estabelece uma escala de quatro graus.
Para melhor compreender o texto, responda:
a) A partir de que grau o poeta passa a substituir o sentimento pela inteligência?
b) A partir de que grau se concretiza o processo de despersonalização, variando, até mesmo, o estilo
do poeta?

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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

c) No quarto e último grau dessa escala, dado o passo final, temos a completa despersonalização,
que não é apenas a variação do estilo: o poeta “cria” outros poetas. Esses “outros poetas” têm a
mesma visão de mundo do poeta ‑criador?
d) Considerando a escala proposta por Fernando Pessoa, faça as relações em seu caderno:
(1) 1º grau (a) o temperamento varia, o estilo permanece único
(2) 2º grau (b) o poeta se multiplica em outros poetas
(3) 3º grau (c) a produção poética é unificada pelo temperamento e o estilo
(4) 4º grau (d) o estilo e o temperamento variam

2. Quando um autor de teatro ou de romances cria personagens que pensam, agem, defendem suas
ideias, enfim, têm uma vida própria (que não pode ser confundida com a do autor), você diria que ele
está mais próximo de que grau, na escala estabelecida por Fernando Pessoa?

3. Em várias de suas composições, Chico Buarque assume uma persona feminina; são exemplos “Atrás
da porta”, “Tatuagem”, “Com açúcar e com afeto”, “Olhos nos olhos”, entre outras. Nessas composi‑
ções, por meio de um trabalho de imaginação e intelecto, o autor expressa sentimentos que não são
os seus, mas de variadas personagens femininas. Entretanto, em todas elas podemos reconhecer o
estilo inconfundível de seu autor. Em que grau dessa escala você situaria Chico Buarque?

4. “[...] assim este tipo de poeta lírico é em geral monocórdio, e os seus poemas giram em torno de
determinado número, em geral pequeno, de emoções. Por isso, neste gênero de poetas, é vulgar dizer‑
‑se, porque com razão, que um é ‘um poeta do amor’, outro ‘um poeta da saudade’, um terceiro ‘um
poeta da tristeza’.” (Fernando Pessoa)

A que grau dessa escala se refere o trecho acima?

5. No último parágrafo do texto, Fernando Pessoa situa sua obra poética em relação a essa escala. Em
qual grau? Justifique.

Para entender melhor esse fenômeno da heteronímia, transcrevemos a seguir trechos de uma carta
enviada por Fernando Pessoa a seu amigo e crítico literário Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de janei‑
ro de 1935. Nessa carta, o próprio Fernando Pessoa nos conta a origem dos heterônimos, bem como as
características de cada um. Acreditamos que, apesar de um pouco extensa, sua leitura é fundamental.

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a gênese dos meus heterônimos. Vou ver se consigo
responder‑lhe completamente.
Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterônimos é o fundo traço de histeria que
existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero‑neurastê‑
nico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenômenos de abulia que a histeria, propria‑
mente dita, não enquadra no registro dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus hete‑
rônimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. [...]
[...] Vou agora fazer‑lhe a história direta dos meus heterônimos. Começo por aqueles que morre‑
ram, e de alguns dos quais já me não lembro – os que jazem perdidos no passado remoto da minha
infância quase esquecida.
Desde criança que tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de
amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se
sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me
conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movi‑
mentos, caráter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as
coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. [...]

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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

Reprodução/Museu da Cidade, Lisboa, Portugal.


Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu pri‑
meiro heterônimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido
inexistente – um certo Chevalier de Pas dos meus seis
anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja
figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela
parte da minha afeição que confina com a saudade. [...]
Esta tendência para criar em mim um outro
mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me
saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais
esta, sucedida já em maioridade. Ocorria‑me um dito
de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou
outro, a quem eu sou ou a quem suponho que sou.
Dizia‑o, imediatamente, espontaneamente, como
sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja
n Retrato de Fernando Pessoa (1964), óleo de história acrescentava, e cuja figura – cara, estatura,
Almada Negreiros.
traje e gesto – imediatamente eu via diante de mim. E
assim arranjei, e propaguei, vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a
perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto, vejo... E tenho saudades deles.
[...] Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na
gênese dos meus heterônimos literários, que é afinal o que V. quer

Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal.


saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá‑lhe a história da
mãe que os deu à luz.
Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio‑me à
ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em
verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de
meia regularidade), e abandonei o caso. Esboçara‑se‑me, contudo,
numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava
a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis.)
Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei‑me um dia de fazer
uma partida ao Sá‑Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de
espécie complicada, e apresentar‑lho, já me não lembro como, em n Alberto Caeiro, por Mário Botas.
qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta
mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em
8 de março de 1914 – acerquei‑me de uma cômoda alta, e, tomando Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal.

um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que


posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxta‑
se cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da
minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título
– “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento
de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto
Caeiro. Desculpe‑me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu
mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que,
escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente
peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que
constituem a “Chuva Oblíqua”, de Fernando Pessoa. Imediatamente
e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa Alberto Caeiro a
Fernando Pessoa ele só. Ou melhor, foi a reação de Fernando n Horóscopo de Caeiro, feito por
Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir – instintiva e subconscientemente – uns
discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri‑lhe o nome, e ajustei‑o
a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, em derivação oposta à de Ricardo Reis,
surgiu‑me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrup‑
ção nem emenda, surgiu a “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem
com o nome que tem.
[...]
Mais uns apontamentos nesta matéria... Eu vejo diante de

Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal.


mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de
Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí‑lhes as idades e
as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e
mês, mas tenho‑os algures), no Porto, é médico e está presente‑
mente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915;
nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não
teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos
nasceu em Tavira, no dia 15 de outubro de 1890 (à 1:30 da tarde,
diz‑me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para
essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por
Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inatividade. Caeiro
era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuber‑
n Álvaro de Campos, por Mário
culoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco,
Botas.
mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mais seco. Álvaro de
Campos é alto (1,75 de altura, mais dois centímetros do que eu), magro e um pouco tendente a curvar‑
‑se. Cara rapada todos – o Caeiro louro, sem cor, olhos azuis; Reis, de um vago moreno mate; Campos,
entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apar‑
tado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instru‑
ção primária; morreram‑lhe cedo o pai e a mãe, e deixou‑se ficar em casa, vivendo de uns pequenos
rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia‑avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como
disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico; é um
latinista por educação alheia e um semi‑helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma
educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica
e depois naval. Numas férias, fez a viagem ao Oriente de onde resultou o “Opiário”. Ensinou‑lhe latim
um tio beirão que era padre.
Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal.

n Ricardo Reis, por Mário Botas. n Horóscopo de Ricardo Reis, feito por Fernando Pessoa.

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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou
sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstrata, que subita‑
mente se concretiza numa ode. Campos quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei
o quê. [...] Caeiro escrevia mal o português. Campos razoavelmente, mas com lapsos como dizer
“eu próprio” em vez de “eu mesmo”, etc. Reis melhor do que eu, mas com um purismo que consi‑
dero exagerado.”
n A íntegra dessa carta está disponível em: <http://www.pessoa.art.br/?p=24>.
Acesso em: 23 mar. 2010.

ando
oc
tr

ideias

Incrível, não é?! Como diz o próprio Fernando Pessoa na continuação da carta, parece que
estamos “em meio a um manicômio”. Mas, acrescentaríamos: extremamente sadio, lógico e coe‑
rente. Difícil é acreditar que esses heterônimos de fato não existiram, já que são individualidades
distintas: têm nome, profissão, escolaridade, parentes, ideologia, que se materializa em distintos
discursos e leituras de mundo. Aliás, é isso que nos permite classificar Caeiro, Reis e Campos
como heterônimos e não simples pseudônimos (nomes falsos).
Em pequenos grupos, releiam atentamente a carta e levantem características físicas, ideo‑
lógicas e poéticas de cada um deles.
Apresentem para os colegas e o professor as conclusões e comparem ‑nas com as caracte‑
rísticas apresentadas pelos demais grupos.
Depois, quando chegarem a um consenso, relacionem as características no quadro e
copiem ‑nas no caderno.

WeBTeCA

Existem inúmeras publicações da obra de Fernando Pessoa disponíveis nas livrarias.


Sua obra poética também pode ser acessada em pelo menos quatro endereços eletrônicos:
• <www.pessoa.art.br>. Acesso em: 19 fev. 2013.
• <www.cfh.ufsc.br/~magno/>. Acesso em: 19 fev. 2013.
• <www.revista.agulha.nom.br/pessoa.html>. Acesso em: 19 fev. 2013.
• <www.insite.com.br/art/pessoa/>. Acesso em: 19 fev. 2013.

Alberto Caeiro, o conceito direto das coisas


Para Alberto Caeiro, as coisas são como são. É o que Álvaro de Campos, recordando seu mestre, afirmava ser
“o conceito direto das coisas”. Por isso, seu mundo é o mundo do real ‑sensível (ou real ‑objetivo), é tudo aquilo
que existe e que percebemos pelos sentidos. Engana ‑se, porém, aquele que vê nessa postura de Caeiro ausência
de reflexão; ela é, ao contrário, apenas outra forma de pensar.
Acreditamos ser esta a principal característica da obra de Caeiro: a incessante e incansável descoberta
de uma natureza em que tudo flui, tudo está em constante transformação (por isso é preciso olhar para as
coisas como se fosse a primeira vez). Álvaro de Campos afirma ter ouvido a seguinte frase de Caeiro: “Toda
a coisa que vemos, devemos vê ‑la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que
a vemos”.
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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

Lendo os textos
Poema II, de O guardador de rebanhos
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto‑me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,


Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Vera Basile/Arquivo da editora


Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo‑a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,


E a única inocência não pensar...

Poema IX, de O guardador de rebanhos


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos Por isso quando num dia de calor
E os meus pensamentos são todos sensações. Me sinto triste de gozá‑lo tanto.
Penso com os olhos e com os ouvidos E me deito ao comprido na erva,
E com as mãos e os pés E fecho os olhos quentes,
E com o nariz e a boca. Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
Pensar uma flor é vê‑la e cheirá‑la n CAEIRO, Alberto. In: Fernando Pessoa – obra poética. 3. ed.
E comer um fruto é saber‑lhe o sentido. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1969.

1. Uma das principais características de Caeiro é a sua maneira de “pensar”. Comente ‑a e justifique
com versos dos poemas transcritos.

2. Álvaro de Campos afirma ter ouvido a seguinte frase de Caeiro: “Toda a coisa que vemos, devemos
vê ‑la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos”. Com base na leitura
dos poemas, comente essa afirmação de Caeiro.

3. Podemos afirmar que a postura de Caeiro é indicadora de ausência de reflexão? Comente.


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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

Poema X, de O guardador de rebanhos

Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal.


Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?

Que é vento, e que passa,


E que já passou antes,
E que passará depois,
E a ti o que te diz?

Muita cousa mais do que isso.


Fala‑me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram.

Nunca ouviste passar o vento.


O vento só fala do vento.
n Alberto Caeiro, em desenho de
O que lhe ouviste foi mentira, Almada Negreiros.
E a mentira está em ti.

4. O poema tem a estrutura de um diálogo. Caracterize os interlocutores e identifique a fala de


cada um.

5. Caeiro era o mestre dos demais heterônimos e a Natureza era sua mestra. Daí a valorização da
ordem natural, dos sentidos e sua relação direta com as coisas (“O que nós vemos das cousas são
as cousas. Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?” nos ensina o poeta). Destaque um
verso do poema que comprove essa afirmação.

Álvaro de Campos, um futurista inadaptado


Campos é um poeta futurista, um homem do século XX, das fábricas, da energia elétrica, das máquinas, da
velocidade; é um inadaptado, vive à margem de qualquer conduta social. Daí ser o poeta do não, “histericamen‑
te histérico”, no dizer de Fernando Pessoa, que ainda acrescenta: “pus em Álvaro de Campos toda a emoção”. Mas
engana ‑se quem pensar que Campos é só emoção, sistema nervoso, febre; ele é, principalmente, lucidez.

Lendo o texto
Lisbon revisited
(1923)
Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!


A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!


Não me falem em moral!

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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

Tirem‑me daqui a metafísica!


Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal.


Se têm a verdade, guardem‑a!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.


Fora disso sou doido, com todo o direito a sê‑lo.
Com todo o direito a sê‑lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam‑me casado, fútil, quotidiano e tributável?


Queriam‑me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia‑lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem‑me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos?

Não me peguem no braço!


Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul – o mesmo da minha infância –


Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete! n Álvaro
de Campos, em desenho de
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje! Almada Negreiros.
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem‑me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...


E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

1. Como o eu poético se relaciona com os padrões sociais?


2. Que tipo de relação pode ser estabelecida entre o eu poético e Álvaro de Campos?
3. Observe que as frases de Campos, no texto, são curtas e, em sua maioria, exclamativas ou inter‑
rogativas. Justifique o uso desses sinais de pontuação no texto, relacionando ‑os ao conteúdo
do poema.

4. Vários textos de Álvaro de Campos evocam uma melancólica saudade da infância, de tempos
remotos, destruídos e irrecuperáveis. Destaque um verso do texto em que esse tipo de saudade
se manifesta.

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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

Ricardo Reis, a cultura clássica revisitada


Ricardo Reis é um poeta de inspiração neoclássica, horaciano na constante preocupação de “gozar o
momento”. A vida se resume a breves momentos, a instantes volúveis; e “gozar o momento” significa, aqui,
estar atento a tudo o que a vida nos oferece, mas viver serenamente, sem excessos, “com o mínimo de dor
ou gozo”:

Mas tal como é, gozemos o momento,


Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.

Lendo os textos
Texto 1
Uns, com os olhos postos no passado,
Veem o que não veem; outros, fitos

Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal.


os mesmos olhos no futuro, veem
O que não pode ver‑se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto –


A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora


Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

1. São versos do poeta latino Horácio, que estudamos anterior‑


mente: “Mesmo enquanto falamos, o tempo, / Malvado, nos
escapa: aproveita o dia de hoje, e não te fies no amanhã”. Por
qual expressão latina ficou conhecida essa preocupação de
viver o momento presente?

2. O que se entende por “a interminável hora que nos confessa


nulos”?

3. Justifique o emprego dos demonstrativos na segunda estrofe.


4. Observe as formas pronominais e verbais e comente o percurso
que o enunciador faz em seu discurso.

5. Considerando que hausto significa “sopro”, qual o argumen‑


to que o enunciador utiliza para justificar que “tu és o dia,
colhe ‑o”?

n Ricardo Reis, em desenho de


Almada Negreiros.

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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

Texto 2
Vem sentar‑te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida


Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo‑nos.


Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.

Vera Basile/Arquivo da editora


Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,


Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo‑nos tranquilamente, pensando que podíamos,


Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo‑o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa‑as


No colo, e que o seu perfume suavize o momento –
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar‑te‑ás de mim depois


Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio*,


Eu nada terei que sofrer ao lembrar‑me de ti.
Ser‑me‑ás suave à memória lembrando‑te assim – à beira‑rio.
Pagã triste e com flores no regaço.

* barqueiro sombrio: Segundo a mitologia grega, quando alguém morria, era levado pelo deus Hermes até o Hades, onde bebia a água do Rio
Lete, que trazia o esquecimento da vida terrena, e atravessava o rio Estige em uma barca, conduzida pelo severo Caronte, o barqueiro
sombrio. Como pagamento, o barqueiro recebia um óbolo, a moeda de menor valor, que os parentes colocavam na boca do falecido. O morto
atravessava então os portões monumentais, eternamente guardados por Cérbero, cão de três cabeças e cauda de serpente, que permitia a
entrada de todos, porém não deixava ninguém sair.

1. Epicuro, filósofo grego que viveu entre 341 e 270 a.C., pregava que o homem devia procurar sobretu‑
do uma vida calma e tranquila, sem prazeres violentos nem dependência dos outros. Você diria que
Ricardo Reis é epicurista? Justifique a resposta com elementos do texto.

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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

2. Percebe ‑se bucolismo na poesia de Ricardo Reis? Em caso positivo, justifique.


3. Nas duas últimas estrofes há, de forma eufemística, referências à morte. Aponte um eufemismo em
cada estrofe citada.

4. Após a morte de um dos parceiros (duas últimas estrofes), a lembrança não resultará em grande
sofrimento. Por quê?

5. O crítico português Lino Moreira da Silva, comentando esse poema, afirma: “É integrado nesse cená‑
rio que o poeta se ocupa em esboçar a sua filosofia de vida. E fá ‑lo (instituindo como adjuvante a
figura de Lídia) em quatro momentos distintos, que poderemos sintetizar do modo seguinte:
1º momento – a vida é fugaz
2º momento – (por isso) qualquer compromisso é inútil
3º momento – deverá procurar ‑se a serenidade
4º momento – (e assim) a morte não causará perturbação”.
O poema estrutura ‑se em oito estrofes; relacione ‑as a cada um dos quatro momentos citados.

Fernando Pessoa, ele‑mesmo, e a tradição da poesia lírica


A produção ortônima (“nome correto”) apresenta ‑se multifacetada, aspecto reconhecido pelo próprio
poeta, que dizia, sobre o Cancioneiro, título de tal produção: “Cancioneiro (ou outro título igualmente inexpres‑
sivo) reuniria vários dos muitos poemas soltos que tenho, e que são por natureza inclassificáveis”.
Podem os poemas ser inclassificáveis, mas o título do livro não é tão inexpressivo, pois realça duas carac‑
terísticas da poesia ortônima: a tradição lírica lusitana (cancioneiro  nos remete às cantigas medievais);
a musicalidade.

Lendo o texto
Autopsicografia1
Reprodução/Centro de Estudos Pessoanos, Lisboa, Portugal.

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras2 sente.

E os que leem o que escreve,


Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
n Fernando
E assim nas calhas de roda3 Pessoa, em
Gira, a entreter a razão, desenho de
Almada
Esse comboio4 de corda
Negreiros.
Que se chama o coração.

1 auto (do grego autós): “de si mesmo”, “por si próprio” (usado sempre como elemento de composição); psicografia (do grego psyché,
“intelecto”, “espírito”, “alma”, “mente” + graphein, “escrita”, “registro”): descrição da mente, análise psicológica.
2 deveras: realmente, verdadeiramente.
3 calhas de roda: trilhos.
4 comboio: trem; comboio de corda: trenzinho movido a corda.

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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

1. Na primeira estrofe do poema, Fernando Pessoa trabalha com um jogo de palavras. Quais são essas
palavras? Que ideia o autor transmite?

2. O poema afirma que o poeta sente duas dores (terceiro verso da segunda estrofe). Explique quais
são e como se manifestam.

3. Na segunda estrofe aparecem vários verbos, alguns no singular, outros no plural (leem, escreve, sen‑
tem, teve, têm). Interprete os vários sujeitos, substituindo os pronomes por substantivos.

4. Qual a relação estabelecida entre o poeta e os leitores?


5. Explique a relação estabelecida entre coração e razão, na última estrofe.

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa


n No detalhe dos óculos, a leitura de mundo de cada heterônimo: Álvaro de Campos, o eterno viajante, tem um
navio estampado; Ricardo Reis, o neoclássico, tem uma escultura clássica; Alberto Caeiro, o bucólico pastor,
tem uma árvore. Fernando Pessoa, em primeiro plano, tem um pássaro em pleno voo: “voo outro – eis tudo”.

BiBLiOTeCA
Companhia de Bolso

Livro do desassossego, de Fernando Pessoa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Bernardo Soares, semi‑heterônimo de Fernando Pessoa, é o principal narrador dos vários
fragmentos que compõem este livro. Foi nesta obra que Fernando Pessoa aproximou‑se mais
fortemente do gênero romance. Vale a pena ler!

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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

Fernando Pessoa, ele‑mesmo, revisitando Camões


Mensagem, único livro do poeta publicado em vida, em língua portuguesa é constituído de 44 poemas,
divididos em três partes: I – Brasão; II – Mar portuguez; III – O encoberto, e escrito numa linguagem que alterna
construções contemporâneas com vocabulário e sintaxe quinhentistas.

Reprodução/<www.presidenciarepublica.pt/>
Na primeira parte, o poeta toma como referencial o brasão portu‑
guês, representado por dois campos (espaços): sete castelos amarelos no
campo vermelho e cinco quinas azuis no campo branco. A cada castelo
corresponde um personagem ligado à formação do Estado português,
desde Ulisses (o fundador, segundo a lenda) até D. João I, o Mestre de Avis.
A cada quina corresponde um personagem ligado às navegações, desde
D. Duarte até D. Sebastião.
Na segunda parte, Pessoa exalta os navegadores e seus esforços na
conquista dos mares; essa conquista é encarada como uma missão que
Portugal deveria cumprir.
Na terceira, o poeta manifesta sentimentos ambíguos: de um lado, a
melancolia, a tristeza advinda do fato de Portugal ainda não ter cumprido
sua missão; de outro, a esperança da realização dessa missão e da edifica‑
ção do Quinto Império, sempre respaldada no mito sebastianista. n Brasão português.

Texto e intertexto
Apresentamos, a seguir, alguns pontos de intertextualidade entre Mensagem, de Fernando Pessoa, e
Os Lusíadas, de Camões.

Texto 1
O mostrengo
(em Mensagem, II parte)

Vera Basile/Arquivo da editora


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu‑se a voar;
À roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar,
E disse, “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo,
“El‑Rei D. João Segundo!”

“De quem são as velas onde me roço? Trez vezes do leme as mãos ergueu,
De quem as quilhas que vejo e ouço?” Trez vezes ao leme as reprendeu,
Disse o mostrengo, e rodou trez vezes, E disse no fim de tremer trez vezes,
Trez vezes rodou immundo e grosso, “Aqui ao leme sou mais do que eu:
“Quem vem poder o que só eu posso, Sou um Povo que quere o mar que é teu;
Que moro onde nunca ninguém me visse E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E escorro os medos do mar sem fundo?” E roda nas trevas do fim do mundo,
E o homem do leme tremeu, e disse, Manda a vontade, que me ata ao leme,
“El‑Rei D. João Segundo!” De El‑Rei D. João Segundo!”
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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

Texto 2
Episódio O gigante Adamastor
(em Os Lusíadas, estrofes 39 e 40 do CantoV)
Não acabava, quando uma figura Tão grande era de membros, que bem posso
Se nos mostra no ar, robusta e válida, Certificar‑te, que este era o segundo
De disforme e grandíssima estatura, De Rodes estranhíssimo Colosso,
O rosto carregado, a barba esquálida, Que um dos sete milagres foi do mundo:
Os olhos encovados, e a postura Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
Medonha e má, e a cor terrena e pálida, Que pareceu sair do mar profundo:
Cheios de terra e crespos os cabelos, Arrepiam‑se as carnes e o cabelo
A boca negra, os dentes amarelos. A mi e a todos, só de ouvi‑lo e vê‑lo.

1. O poema “O mostrengo” remete imediatamente a um famoso episódio de Os Lusíadas: no Canto V, Vasco da


Gama descreve a passagem pelo Cabo das Tormentas, personificado na figura do Gigante Adamastor.
a) O que representam o mostrengo e o Gigante Adamastor?
b) O que representa o homem que está ao leme? Justifique a resposta com palavras do texto.

2. Em Palavras  de  Pórtico, Fernando Pessoa recupera antiga frase que insuflava coragem aos marinheiros:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”. Você diria que o espírito dessa frase está presente no poema?
Justifique sua resposta.

3. Fernando Pessoa afirmava que as várias poesias de Mensagem deveriam ser lidas em conjunto, como se
fossem um único poema. Associando essa afirmação à temática da obra (que, originalmente, se intitularia
Portugal), você diria que o livro Mensagem se aproxima de que gênero literário?

4. Em Os Lusíadas, tendo Vasco da Gama como enunciador, escreve Camões:


Eis aqui, quase cume da cabeça,
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
Em Mensagem, escreve Fernando Pessoa:

Reprodução/Coleção particular
Primeiro / O dos castelos
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam‑lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal. n A Europa jaz… (1943), desenho de Almada Negreiros.

a) O que se percebe em comum na descrição que os dois poetas fazem da Europa?


b) Os poemas de Mensagem promovem uma retomada da época áurea do Império Português, carregada
de misticismo, mas terminam sempre com certa melancolia porque “não se cumpriu o destino de
Portugal”. Que verso revela essa frustração?
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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

disCOTeCA

Mensagem de Fernando Pessoa


O cineasta e compositor André Luiz de Oliveira musicou poemas de Mensagem e convidou renomados artistas para inter‑
pretá‑los. O resultado é maravilhoso. Um primeiro CD foi lançado pela Eldorado (a gravação original, em LP, saiu em 1986), com
interpretações magníficas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, entre outros. Em 2005, foi lançado o segundo CD, pela
Trama, com gravações não menos brilhantes de Milton Nascimento, Ná Ozetti, Zeca Baleiro, entre outros. Não deixe de ouvi‑los,
de preferência acompanhando com a leitura dos poemas.

VeLhOs TeMAs, nOVAs LeiTUrAs

A FICCIONAL HETERONÍMIA DE FERNANDO PESSOA COMO TEMA DE


OUTRAS FICÇÕES
Um poeta que se desdobra em outros, criando “indivíduos” bem constituídos e com características
próprias definidas, que possuem obras distintas e de alta qualidade – como se pode imaginar, esse fato
psíquico ‑literário despertou enorme interesse da crítica. No entanto, não só os teóricos se intrigaram com
o fenômeno; mais interessante é perceber como a heteronímia de Pessoa tornou ‑se matéria para a criação
ficcional, sendo mote para a elaboração de interessantes obras literárias. Obras essas que, a partir da rique‑
za do assunto motivador, versam sobre a vida de Fernando Pessoa, sobre Portugal da primeira metade do
século XX e sobre o próprio fazer literário.
Das obras ficcionais sobre os heterônimos de Fernando Pessoa, podemos citar duas bastante dis‑
tintas entre si: o romance de José Saramago (1922 ‑2010), O ano da morte de Ricardo Reis, publicado em
1984; e a pequena novela Os  três  últimos  dias  de 
Fernando  Pessoa,  um  delírio, de Antonio Tabucchi Oscar Elias/Alamy/Glow Images

(1943 ‑2012). Esta última, um texto bastante curto e


pontuado de informações biográficas acerca do poeta
português – Tabucchi, além de importante literato, era
um estudioso da obra de Pessoa –, baseada em uma
interessante ideia: nos seus três últimos dias de vida,
quando já estava internado por conta de uma crise
hepática, Fernando Pessoa recebe a visita de seus
heterônimos, com os quais entabula diálogos acerca
da literatura e da vida. No entanto, a novela peca pela
falta de uma estrutura consistente e pela escrita
muito elementar e ligeira.

n José Saramago.

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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

O romance de José Saramago, por sua vez, é uma

Rebeca Yanke/Wikimedia Commons


obra densa e notável. A trama gira em torno do heterô‑
nimo Ricardo Reis, que, após ter se exilado no Brasil
quando da queda da monarquia portuguesa, volta a seu
país natal ao saber, por meio de um telegrama enviado
por Álvaro de Campos, da morte de Fernando Pessoa. O
personagem, “duplamente ficcional”, sujeito pacato e
compositor de odes inspiradas nos clássicos gregos e
latinos, depara com uma Europa posta em crise e pon‑
tuada pela ascensão de regimes totalitários. Em meio a
inesperados e curiosos diálogos com um Fernando
Pessoa já morto, Ricardo Reis vai, paulatinamente,
mudando sua postura e entrando em contato com o
mundo que o cerca, percebendo que não há como obser‑
var a vida a distância, pois a vida está sempre perto.
Apresentamos, a seguir, passagens dos dois textos
citados: n Antonio Tabucchi.

Texto 1
Amou alguém realmente?, sussurrou Pessoa.
Amei realmente alguém, respondeu Campos em voz baixa.
Então o absolvo, disse Pessoa, absolvo‑o, acreditava que você, em toda a sua vida, só tivesse amado
a teoria.
Não, disse Campos achegando‑se à cama, amei a vida também, e se em minhas odes futuristas e
furibundas fiz pilhérias, se em minhas poesias niilistas destruí tudo, até a mim mesmo, saiba que em
minha vida também amei, com dor consciente.
Pessoa levantou a mão e fez um gesto esotérico. Disse: Absolvo‑o, Álvaro, vá com os deuses sempi‑
ternos, se você teve alguns amores, se teve um único amor, está absolvido, porque é uma pessoa huma‑
na, sua humanidade é que o absolve.
[...]
Sabe, Fernando, disse ele, tenho saudades de quando era poeta decadente, da época em que fiz
aquela viagem de transatlântico pelos mares do Oriente, ah, naquela época teria sido capaz de escre‑
ver versos à lua, e asseguro‑lhe, à noite, no convés, quando havia bailes a bordo, a lua era tão cenográ‑
fica, era tão minha. Mas naquela época eu era bobo, fazia ironia sobre a vida, não sabia gozar a vida
que me era concedida, e assim perdi a chance, e a vida me escapou.
E depois?, perguntou Pessoa.
E depois dei de decifrar a realidade, como se a realidade fosse decifrável, e veio o desânimo. E com
o desânimo, o niilismo. Depois, nunca mais acreditei em nada, nem sequer em mim mesmo. E hoje
estou aqui, à sua cabeceira, como um trapo sem qualquer serventia, fiz as malas para lugar nenhum, e
o meu coração é um balde esvaziado.
[...]
Bem, caro Fernando, disse ele, precisava dizer‑lhe todas estas coisas agora que talvez estejamos para
nos separar, tenho de ir, os outros também virão visitá‑lo, eu sei, e a você não resta muito tempo, adeus.
Campos colocou a capa sobre os ombros, pôs o monóculo no olho direito, fez um rápido gesto de
despedida com a mão, abriu a porta, deteve‑se por um instante e repetiu: Adeus, Fernando. E depois
sussurrou: Talvez nem todas as cartas de amor sejam ridículas. E fechou a porta.
n TABUCCHI, Antonio. Os três últimos dias de Fernando Pessoa, um delírio. Trad. Roberta Barni.
Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p. 21‑23.

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PArTe 3 TexTOs, ArTe e CULTUrA

Texto 2
Acomodado, recostado no sofá do escritório, Fernando Pessoa perguntou, traçando a perna,
Quem era aquele seu amigo, Não é meu amigo, Ainda bem, só o cheiro que ele deitava, há cinco
meses ando eu com este fato e esta camisa, sem mudar a roupa interior, e não cheiro assim, mas
se não é amigo, quem é ele então, e o tal doutor‑adjunto que tanto parece estimá‑lo, São ambos
da polícia, no outro dia fui chamado a perguntas, Supunha‑o homem pacífico, incapaz de pertur‑
bar as autoridades, Sou, de facto, um homem pacífico, Alguma você terá feito para que o chamas‑
sem, Vim do Brasil, não fiz mais nada, Querem ver que a sua Lídia estava virgem e foi, triste e
desonrada, queixar‑se, Ainda que a Lídia fosse virgem e eu a deflorasse, não seria à Polícia de
Vigilância e Defesa do Estado que iria levar queixa, Foi essa que o chamou a si, Foi, E eu a imagi‑
nar que tinha sido caso para polícia de costumes, Os meus costumes são bons, pelo menos não
ficam desfavorecidos em comparação com a maldade dos costumes gerais, Você nunca me falou
dessa história policiária, Não tive ocasião, e você deixou de aparecer, Fizeram‑lhe mal, ficou preso,
vai ser julgado, Não, tive apenas de responder a umas perguntas, que gente conheci no Brasil, por
que foi que voltei, que relações criei em Portugal desde que cá estou, teria muita graça se lhes
tivesse falado de mim, Teria muita graça eu dizer‑lhes que de vez em quando encontro o fantas‑
ma de Fernando Pessoa, Perdão, meu caro Reis, eu não sou nenhum fantasma, Então, que é, Não
lhe saberei responder, mas fantasma não sou, um fantasma vem do outro mundo, eu limito‑me a
vir do cemitério dos Prazeres, Enfim, é Fernando Pessoa morto, o mesmo que era Fernando Pessoa
vivo, De certa e inteligente maneira, isso é exacto, Em todo caso, estes nossos encontros seriam
difíceis de explicar à polícia, Você sabe que eu, um dia, fiz aí uns versos contra o Salazar, E ele, deu
pela sátira, suponho que seria sátira, Que eu saiba, não, Diga‑me, Fernando, quem é, que é este
Salazar que nos calhou em sorte, é o ditador português, o protector, o pai, o professor, o poder
manso, um quarto de sacristão, um quarto de sibila, um quarto de Sebastião, um quarto de
Sidónio, o mais apropriado possível aos nossos hábitos e índole, Alguns pês e quatro esses, Foi
coincidência, não pense que andei a procurar palavras que principiassem pela mesma letra, Há
pessoas que têm essa mania, exultam com as aliterações, com as repetições aritméticas, cuidam
que graças a elas ordenam o caos do mundo, Não devemos censurá‑las, são gente ansiosa, como
os fanáticos da simetria, O gosto da simetria, meu caro Fernando, corresponde a uma necessidade
vital de equilíbrio, é uma defesa contra a queda, Como a maromba utilizada pelos equilibristas, Tal
qual, mas, voltando ao Salazar, quem diz muito bem dele é a imprensa estrangeira, Ora, são arti‑
gos encomendados pela propaganda, pagos com dinheiro do contribuinte, lembro‑me de ouvir
dizer, Mas olhe que a imprensa de cá também se derrete em louvações, pega‑se num jornal e fica‑
‑se logo a saber que este povo português é o mais próspero e feliz da terra, ou está para muito
breve, e que as outras nações só terão a ganhar se aprenderem conosco, O vento sopra desse lado,
Pelo que estou a ouvir, você não acredita muito nos jornais, Costumava lê‑los, Diz essas palavras
num tom que parece de resignação, Não, é apenas o que fica de um longo cansaço, você sabe como
é, faz‑se um grande esforço físico, os músculos fatigam‑se, ficam lassos, apetece fechar os olhos e
dormir, Tem sono, Ainda sinto o sono que tinha em vida, Estranha coisa é a morte, Mais estranho
ainda, olhando‑a do lado em que estou, é verificar que não há duas mortes iguais, estar morto não
é o mesmo para todos os mortos, há casos em que transportamos para cá todos os fardos da vida.
Fernando Pessoa fechou os olhos, apoiou a cabeça no encosto do sofá, pareceu a Ricardo Reis que
duas lágrimas lhe assomavam entre as pálpebras […]. De repente, Fernando Pessoa abriu os olhos,
sorriu, Imagine você que sonhei que estava vivo, Terá sido ilusão sua, Claro que foi ilusão, como
todo o sonho, mas o que é interessante não é um morto sonhar que está vivo, afinal ele conheceu
a vida, deve saber do que sonha, interessante é um vivo sonhar que está morto, ele que não sabe

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O MOdernisMO eM POrTUgAL: FernAndO PessOA e seUs heTerôniMOs CAPÍTULO 2

o que é a morte, Nã