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Carla Luciane Blum Vestena

Fábio Marques de Souza


(Organizadores)

EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM FOCO


Copyright © dos autores

Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser


reproduzida ou transmitida ou arquivada, desde que levados em conta os
direitos dos autores.

Carla Luciane Blum Vestena & Fábio Marques de Souza [Organizadores]


Educação ambiental em foco. Pedro & João Editores. São Carlos/SP.
2016. 209p.
ISBN 978-85-7993-317-2
1. Meio ambiente. 2. Educação. 3. Ecologia Mental. 4. Formação. 5.
Água. I. Título.

Capa: Hélio Márcio Pajeú.


Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura Brito.
Revisão: Angela Patricia Felipe Gama e Élida Ferreira Lins.

Conselho Científico da Pedro & João Editores:


Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi (Unicamp/Brasil);
Nair F. Gurgel do Amaral (UNIR/Brasil); Maria Isabel de Moura
(UFSCar/Brasil); Dominique Maingueneau (Universidade de Paris
XII/França); Maria da Piedade Resende da Costa (UFSCar/Brasil).

Pedro & João Editores


www.pedroejoaoeditores.com.br
13568-878 – São Carlos – SP
2016
ÁGUA: CONCEITOS E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS À
EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Leandro Redin Vestena

“Á água está na origem e na base de todas as coisas”


Tales de Mileto, no século VI a.C.

A água é um dos principais elementos da natureza, de vital importância à


sobrevivência dos seres vivos. Ela está presente na litosfera, na biosfera e na atmosfera.
Nosso planeta deveria se chamar Água e não Terra, pois aproximadamente 70%
de sua superfície é coberta por água (mares e oceanos) e apenas 30% por terra firme
(continentes e ilhas).
Na sociedade, as ações estão direta ou indiretamente vinculadas a alguma forma
de utilização da água, seja para o desenvolvimento de atividades de subsistência
(dessedentação, higiene), comercial (transporte, lazer), agrícola (piscicultura, irrigação,
cultivo) ou industrial (elaboração/beneficiamento de produtos).
A dependência que o homem apresenta em relação à água, para sobrevivência,
organização e reorganização de seu espaço, pode ser claramente percebida quando se
observam os níveis de consumos atuais, avaliados de acordo com Lima (2001) em 4.000
km3/ano. É o recurso mais utilizado pelo homem.
A insuficiência de água, em escala global, inibe a expansão da agricultura e o
povoamento de vastas regiões. Em escala local, a água determina a localização de
indústrias, a geração de energia, o estabelecimento de povoações pela
necessidade/demanda de água em quantidade e qualidade. O estabelecimento de
povoações estava antigamente relacionado diretamente com a localização de rios e fontes;
atualmente, com os avanços tecnológicos, que possibilitam o transporte de grandes
volumes de água de um local a outro, esta localização não necessariamente exige a
instalação próxima de fontes de água, contudo, a necessidade de água permanece e é
ampliada pelo aumento de consumo.
A demanda por água no mundo exprime as disparidades
socioeconômicas dos países (Figura 1). Os países mais desenvolvidos , de
modo geral, consomem maiores quantidades de água se comparados aos
subdesenvolvidos, e suas demandas estão diretamente associadas
principalmente ao setor industrial.

Figura 1 – Uso da água por setor no início do século XXI


Fonte: UNEP/GRID-Arendal (http://www.grida.no/graphicslib/detail/freshwater-use-by-sector-
at-the-beginning-of-the-2000s_14b3) elaborado por Philippe Rekacewicz, março 2008, baseado
em dados do World Resources Institute.

Dados da ONU apontam que hoje a agricultura utiliza 70% da água


doce do mundo e que para 2050 prevê-se um aumento de mais 70% da
produção agrícola, assim como um incremento no consumo de 19% no volume
de água (COSGROVE; COSGROVE, 2012).
No Brasil, a maior demanda de água é exercida pela agricultura, com
aproximadamente 63% de toda a procura, especialmente para a irrigação, seguida pelas
demandas para uso doméstico (18%), a indústria (14%) e a dessedentação de animais
(5%) (ANA, 2002).
A água, ao longo dos tempos, vem influenciando as atividades humanas, pois para
o desenvolvimento de uma atividade exige-se uma determinada quantidade de água e
certo padrão de potabilidade, de qualidade da água, tem-se uma demanda, o que se exige
certa disponibilidade de água naquele local, região, ou seja, uma relação entre demanda
e disponibilidade.
As limitações impostas pela disponibilidade de água são decorrentes de sua
escassez (estiagens, secas1) e ou excesso (inundações, alagamentos, pântanos). As
limitações podem ocorrer em qualquer lugar, por motivos sazonais ou ocasionais. As
limitações impostas (escassez e excesso) em muitos casos podem ocorrer num mesmo
lugar, em momentos diferentes, de forma bem contraditória. Um exemplo disso ocorre
nas grandes cidades, que ora são castigadas por alagamentos (excesso), decorrentes de
eventos chuvosos intensos, ora sofrem pela falta de água, por seu racionamento (período
de estiagem prolongada)2.
A distribuição heterogênea da água, temporalmente e espacialmente3, e a
crescente demanda mundial, somadas ao aumento da poluição hídrica vêm agravando o
atual estágio dos mananciais hídricos, principalmente devido ao despejo e descarte de
resíduos sólidos e efluentes.
A escassez de água em determinadas regiões do Brasil é consequência da
variabilidade espacial, por exemplo, enquanto aproximadamente 80% dos recursos
hídricos do país concentram-se na Amazônia, onde vive apenas 5% da população, no
Nordeste, 35% da população dispõe de apenas 4% dos recursos hídricos do país.

1
Os conceitos de seca e estiagem são diferentes. Estiagem é um período sem a presença de chuva, ausência
de pluviosidade, enquanto seca é uma estiagem prolongada, nesta são reduzidos consideravelmente os
índices de água no solo, atmosfera e corpos hídricos.
2
Uma das causas da contradição temporal da água nas cidades grandes e médias, que ora sofrem pelo
excesso ora pela deficiência de água, é resultado da falta de planejamento ambiental, em especial dos
recursos hídricos (poluição dos corpos de água pelo descarte de resíduos sólidos e efluentes etc.) e do uso
da terra (ocupação de áreas suscetíveis a inundações, impermeabilização excessiva do solo etc.).
3
A distribuição temporal decorrente de variação na distribuição sazonal de chuva, estação chuvosa e seca.
A distribuição espacial da dinâmica climática mundial, que condiciona maiores e menores precipitações
em determinadas regiões da Terra.
Nenhuma região do mundo está livre das pressões sobre os recursos
hídricos (UNICEF/OMS, 2012). Na Europa, estima-se que 120 milhões de
cidadãos não têm acesso à água potável. Em certas partes do continente, os
cursos de água podem chegar a perder até 80% de seu volume no verão. Na
África, tem-se uma taxa média de aumento populacional maior que a média
mundial, a necessidade por água aumenta, assim como a deterioração de seus
recursos hídricos.
Na América Latina e no Caribe, a taxa de extração de água no século
XX foi duplicada, devido ao crescimento demográfico e à ampliação da
atividade industrial.
As fontes de água são diversas. No Brasil, 47% dos municípios são abastecidos
exclusivamente por mananciais superficiais, 39% por águas subterrâneas e 14% pelos
dois tipos de mananciais (abastecimento misto) (ANA, 2011).
A Ásia e o Pacífico dispõem de apenas 36% dos recursos hídricos
mundiais, mas abrigam 60% da população do mundo. De acordo com a
UNESCO (2012), cerca de 480 milhões de pessoas não tinham acesso, em
2008, a uma fonte de água de qualidade, e 1,9 bilhão não tinham infraestrutura
sanitária adequada naquela região do Globo. No Oriente Médio, pelo menos
doze países sofrem de escassez completa de água.
Numa economia mundial cada vez mais integrada , uma das alternativas
dos países deficitários em água é o comércio internacional de grãos . Por
exemplo, em média, para produzir uma tonelada de grãos são necessárias mil
toneladas de água, assim, a importação de grãos é uma solução para os países
deficitários em água, uma forma de importarem água indiretamente 4.
A escassez de água no mundo é agravada em virtude da desigualdade social e da
falta de manejo e usos sustentáveis dos recursos naturais. De acordo com os números
apresentados pela ONU - Organização das Nações Unidas - fica claro que controlar o uso
da água significa deter poder.
No Brasil, as principais pressões existentes ou potenciais sobre as qualidades das
águas superficiais de acordo com a ANA (2012) são: no ambiente urbano - esgotos

4
O comércio indireto de água, por meio de produtos e serviços, é denominado de água virtual.
domésticos, poluição industrial, resíduos sólidos e poluição difusa5 em áreas urbanas; e
no ambiente rural - desmatamento e manejo inadequado do solo, fertilizantes,
agrotóxicos, aquicultura, criação intensiva de animais, mineração e garimpos, acidentes
ambientais, salinização, reservatórios, eventos críticos e a introdução de espécies
exóticas.
Habitualmente definida como recurso infinito e renovável, a água deve ser
considerada também como recurso econômico6, e sua escassez vem alertando a sociedade
sobre os riscos do desequilíbrio entre sua disponibilidade e demanda.
O abastecimento de água é o maior desafio para os próximos anos. A demanda
de água tem aumentado em função do crescimento populacional, industrial e da elevação
do consumo per capita. Assim como que o planejamento ambiental e o manejo do solo e
da terra considerem a dinâmica dos processos hidrológicos, numa perspectiva sistêmica.
A disputa pelo acesso aos recursos hídricos e a pressão (demanda)
sobre eles tendem a aumentar consideravelmente neste novo séc ulo. Vivemos
em um mundo em que a água se torna um desafio cada vez maior, acima de
tudo, uma questão ética e política.
A água é um elemento carregado de simbolismo e de sentido em todas
as religiões e em todas as crenças. “Nas três religiões monoteístas, Moíses,
Jesus e Mohamed fazem milagres relacionados à água” (BOUGUERRA, 2004,
p. 32). A água 7 é o elemento purificador por excelência, tanto do corpo quanto
do espírito, e foi da água criada todas as formas vivas 8 (ALCORÃO
SAGRADO, 21ª Surata, Versículo 30).
Atualmente, aproximadamente 80% das águas residuais globais não são
tratadas, acabam nos corpos d'água ou se infiltram no subsolo, o que causa a
deterioração do meio ambiente e prejuízos a saúde da população (ONU, 2012).
Dados da UNICEF/OMS (2012) afirmam que 35% da população mundial
(um bilhão e 200 milhões de pessoas) não tem acesso à água tratada e 43% da

5
A poluição difusa se caracteriza pelo carreamento, por meio da água das chuvas, de poluentes depositados
na superfície urbana, como por exemplo, óleos e graxas, resíduos sólidos, sedimentos, resíduos de animais
domésticos, resíduos da construção civil e agrotóxicos.
6
Toda a água que possui valor econômico (valor de commodity) é um recurso hídrico. Assim, nem toda
água é um recurso hídrico, como também uma água que não possua parâmetros de potabilidade aceitável
ao consumo humano pode ser um recurso hídrico se for utilizada, por exemplo, para arrefecimento de uma
termoelétrica ou para a geração de energia hidráulica.
7
A palavra mais curta da língua árabe é água – m’â.
8
“Não vêem, acaso, os incrédulos, que os céus e a terra eram uma só massa, que desagregamos, e que
criamos todos os seres vivos da água? Não crêem ainda?” [Grifo nosso] (ALCORÃO SAGRADO, 2010,
p. 197)
população mundial (um bilhão e 800 milhões de pessoas) não dispõe de
serviços adequados de saneamento básico. Os dados também apontam que
cerca de dez milhões de pessoas morrem anualmente em decorrência de
doenças intestinais transmitidas pela água.
A água é o elemento mais dinâmico da paisagem, sendo o que permeia os demais
elementos do meio natural, de modo a regular o ritmo dos processos no sistema ambiental.
A água é um dos principais elementos do sistema ambiental, essencial à existência
humana e grande modeladora das paisagens tropicais e subtropicais. Os processos de
desagregação das rochas e o transporte de materiais pela água são influenciados por
atividades bióticas e antrópicas, que podem aumentar ou diminuir a quantidade desses
processos e os materiais na água, bem como o regime do fluxo de água que afeta diversos
habitats.
Atualmente, pode-se dizer que grande parte dos problemas socioambientais está,
de alguma forma, relacionada com o uso da água, não excluindo aqui os problemas
socioeconômicos inerentes ao processo de apropriação e uso da mesma. Um dos
paradigmas atuais tem sido: a água como direito humano universal versus a água como
mercadoria.
Além de problemas associados ao recurso hídrico, a água, existem os relacionados
à dinâmica dos processos hidrológicos (movimento da água), tais como: desastres naturais
decorrentes do aumento das áreas de inundação e de alagamentos9, perda de fertilidade
do solo (erosão hídrica), doenças (transmitidas por vetores que se utilizam da água ou
associadas a padrão de potabilidade), obstrução de entradas etc.
Os dados apontam que o número de pessoas que correm risco de sofrer
com inundações tende a aumentar nos próximos anos. Até 2050, dois bilhões
de indivíduos no mundo estarão expostos a inundações, principalmente devido
ao aumento da população residindo em áreas suscetíveis a inundações
periódicas. A ONU estimou, em 2011, que 90% dos desastres naturais estão
relacionados à água.

9
O termo alagamento é a concentração de água em um determinado ponto/local decorrente de obra(s) de
infraestrutura. A inundação é o processo de trasbordamento da água dos rios, para além de seu leito, para
as planícies de inundação, áreas planas próximas aos rios. O termo cheia refere-se ao aumento do nível de
água (cota) no leito do rio, de forma que ele fica cheio, porém sem haver o transbordamento da água para
além de seu leito.
O entendimento científico do ciclo hidrológico, em seus diferentes sistemas
ambientais, está longe de ser satisfatório. No Brasil10, seu conhecimento é ainda mais
importante, devido à extensão e heterogeneidade dos ambientes, conforme destacam
Kobiyama et al. (1998).
Neste contexto, a água permeia vários conteúdos do Ensino Fundamental e Médio,
basicamente em todas as disciplinas. Dentre elas, mais diretamente associada a assuntos
das disciplinas de história (cultura de povos e civilizações – forma de tratamento e uso da
água – água como valor sagrado), geografia (política, economia, hidrologia, localização
de indústrias, atividades rurais, uso do solo urbano, distribuição dos seres vivos no Globo,
tipos de climas, hidrografia etc.), química (propriedade e parâmetros químicos da água),
física (propriedades físicas da água), e biologia (importância da água aos seres vivos e a
habitats). Apesar de a Hidrologia ser a ciência específica que estuda a água da Terra, sua
ocorrência, circulação e distribuição no planeta, suas propriedades físicas e químicas e
sua interação com o ambiente físico e biológico, incluindo suas respostas para a atividade
humana. (UNESCO, 1964).
A melhor compreensão da dinâmica dos processos hídricos pela sociedade pode
viabilizar soluções para as divergências existentes de uso da água, de conflitos de uso da
terra e manejo de resíduos sólidos e efluentes, em prol de um bem comum.

OS PROCESSOS HIDROLÓGICOS

“[...] a água é para o mundo, o mesmo que o sangue é para o nosso corpo e,
sem dúvida, mais: ela circula segundo regras fixas,
tanto no interior quanto no exterior da Terra,
ela cai em chuva e neve, ela surge do solo, corre em rios, e
depois retornam aos vastos reservatórios que são os oceanos e
mares que nos cercam por todos os lados [ ...]”
Leonardo da Vinci

Os processos hidrológicos referem-se ao movimento da água na, sob e sobre a


superfície da Terra, mantidos pela energia radiante de origem solar e pela atração da força
da gravidade. A sequência fechada dos processos hidrológicos na escala global por onde
a água circula é denominada ciclo hidrológico (Figura 2).

10
O Brasil possui 12% da disponibilidade de água doce superficial do mundo (ANA, 2012).
Figura 2 – Principais componentes do ciclo hidrológico
Figura 1 - Ciclo Hidrológico (fonte PEDRAZZI, 2004).
Fonte: PEDRAZZI (2004).

A água na natureza movimenta-se pela força da gravidade, capilaridade e osmose.


Os principais processos hidrológicos11 em uma bacia hidrográfica são: precipitação,
evapotranspiração (evaporação + transpiração), interceptação, infiltração, deflúvio,
percolação e o armazenamento de água no solo e subsolo.
A evapotranspiração é um dos principais processos hidrológicos e compreende a
transferência de água para a atmosfera, no estado de vapor, seja pela evaporação de
superfícies líquidas, pela evaporação da água do solo, pela transpiração vegetal ou pela
respiração animal constitui importante elo do ciclo hidrológico. Esta mudança de fase da
água, da forma líquida para vapor ou vice-versa, consome ou libera energia, constituindo-
se em um mecanismo de redistribuição de energia em todo mundo.
A evapotranspiração é controlada pela disponibilidade de energia, pela demanda
atmosférica e pelo suprimento de água do solo e das plantas. A quantidade de energia
depende da latitude (ângulo de incidência dos raios solares) e da topografia (altitude e
orientação da vertente) (PEREIRA et al., 1997).
O vapor de água é transportado pela circulação atmosférica e condensa-se. A água
condensada dá lugar à formação de nevoeiros e nuvens e à precipitação (SILVEIRA,
2000). A precipitação12 pode ocorrer na fase líquida (chuva ou chuvisco) ou na fase sólida

11
No presente texto, apenas os conceitos básicos dos componentes principais serão abordados. Um
detalhamento dos conceitos, fatores intervenientes, causas e consequências entre os componentes devem
ser buscados em literatura complementar. Para entendimento dos impactos dos diversos tipos de uso da
terra no ciclo hidrológico, recomenda-se a leitura do Capítulo “A água” do livro “Processos Interativos
Homem-Meio Ambiente”, de autoria de David Drew (DREW, 1994).
12
A chuva é um tipo de precipitação, e seu termo sinônimo é pluviosidade. Enquanto precipitação é o
fenômeno de transferência de água da atmosfera para a superfície terrestre.
(neve, granizo ou saraiva), assim como a água que passa da atmosfera para o globo
terrestre por condensação do vapor de água (orvalho) ou por congelação daquele vapor
(geada) e por intercepção das gotas de água dos nevoeiros (nuvens que tocam no solo ou
mar) (AYOADE, 1991).
De acordo com Bertoni e Tucci (2000), a precipitação na hidrologia é entendida
como toda a água proveniente do meio atmosférico que atinge a superfície terrestre, sendo
a mais comum à chuva. Ela varia localmente e temporalmente e suas características são:
quantidade, intensidade, duração e distribuição espacial e temporal.
Ward e Trimble (1995) destacam que existem três principais tipos de chuvas: 1)
convectivas (ascensão vertical do ar); 2) ciclônicas ou frontais (encontro de uma massa
de ar frio com uma de ar quente); e 3) orográficas ou de relevo (deslocamento horizontal
do ar, que, ao entrar em contato com regiões elevadas, serras e montanhas, sofre
condensação e consequente precipitação).
A cobertura vegetal intercepta parte da precipitação pelo armazenamento de água
nas copas arbóreas e/ou arbustivas, que é perdida para a atmosfera por evaporação durante
e após as chuvas. Excedendo a capacidade de armazenar água na superfície dos vegetais
ou por ação dos ventos, a água interceptada pode precipitar-se sobre o solo (SILVEIRA,
2000; COELHO NETTO, 1995).
“A natureza da cobertura vegetal (tipo, forma, densidade e declividade da
superfície), assim como as características físicas das chuvas, constitui (sic) importante
variável-controle do processo de intercepção”, salienta Coelho Netto (1995).
A infiltração “é a passagem de água da superfície para o interior do solo. Portanto,
é um processo que depende fundamentalmente da água disponível para infiltrar, da
natureza do solo, do estado da sua superfície e das quantidades de água e ar, inicialmente
presentes no seu interior” (SILVEIRA et al., 2000, p. 335).
Segundo Hornberger et al. (1998), o escoamento pode resultar de quatro caminhos
de fluxos diferentes: 1) precipitação direta sobre canais de escoamento; 2) escoamento
superficial; 3) escoamento subsuperficial; e 4) escoamento subterrâneo.
Neste contexto, a topografia da bacia é a característica mais importante no
controle do fluxo de água, por exercer uma grande influência, não só no movimento de
água subterrânea, mas também na água de superfície, como destaca Santos (2001).
O escoamento superficial, como o escoamento subterrâneo, irá alimentar os
cursos de água que deságuam nos lagos e nos oceanos ou alimenta, diretamente, os
últimos.
O escoamento superficial constitui uma resposta rápida à precipitação e cessa
pouco tempo depois dela. Por seu turno, o escoamento subterrâneo, em especial quando
se dá através de meios porosos, ocorre com grande lentidão e continua a alimentar o curso
de água, por longo tempo, após ter terminado a precipitação que o originou. Assim, os
cursos de água alimentados por aquíferos apresentam regimes de caudal mais regulares
(SILVEIRA, 2000, p. 37).
A vazão em uma bacia hidrográfica, “ou volume escoado por unidade de tempo,
é a principal grandeza que caracteriza um escoamento”, afirma VILLELA e MATTOS
(1975, p.103). É expressa pelo hidrograma13, enquanto a precipitação pelo heitograma.
“A distribuição da vazão no tempo é resultado da interação de todos os
componentes do ciclo hidrológico” e os vários aspectos da bacia hidrográfica (os mais
importantes são: relevo, cobertura da bacia, modificações artificiais no rio, distribuição,
duração e intensidade da precipitação, e tipo de solo), “entre a ocorrência da precipitação
e a vazão na exutória da bacia hidrográfica” (TUCCI, 2000, p. 391).
O movimento vertical da água sob a superfície terrestre, após a mesma se infiltrar,
está condicionado à condutividade hidráulica e ao gradiente de potencial formado pela
gravidade e pela tensão de umidade, sendo este movimento denominado de percolação.
De acordo com Heath (1983), toda a água sob a superfície da terra é referida como
água do subsolo (ou água subsuperficial) e ocorre em duas zonas diferentes: a zona
insaturada ou de aeração e a saturada.
A zona insaturada ocorre na maioria das áreas imediatamente sob a superfície
terrestre e contém água e ar (ou vapor de água). Esta zona é dividida em três partes: a
zona do solo, a zona intermediária e a parte superior da franja capilar.
Na zona saturada, todos os espaços vazios encontram-se completamente ocupados
pela água. As fontes, os poços e as correntes efluentes têm origem na zona saturada. A
água presente na zona saturada é designada de água subterrânea. A recarga da zona
saturada ocorre por percolação da água de superfície através da zona insaturada.
Desta forma, o ciclo hidrológico, "embora possa parecer um mecanismo contínuo,
com a água se movendo de uma forma permanente e com uma taxa constante, é, na
realidade, bastante diferente, pois o movimento da água em cada uma das fases do ciclo
é feito de um modo bastante aleatório, variando tanto no espaço como no tempo"
(VILLELA; MATTOS, 1975). É um agente modelador da crosta terrestre, condiciona a

13
O hidrograma é a relação gráfica da vazão no tempo (série contínua de vazões) e o hietograma, a relação
gráfica da pluviosidade no tempo.
cobertura vegetal e, de modo mais genérico, a vida na Terra por meio da erosão, transporte
e deposição de sedimentos por via hidráulica.
Neste contexto, a Bacia Hidrográfica é o recorte espacial ideal para o estudo da
dinâmica dos processos hidrológicos, hidrossedimentológicos, hidrogeomorfológicos, do
fluxo de matéria e de nutrientes, assim como para o planejamento ambiental e para o
manejo do uso do solo e da terra.

BACIA HIDROGRÁFICA

“Nós nos aflingimos com os efeitos,


mas não nos preocupamos com as causas.”
Bousset

A bacia hidrográfica, além de ser a unidade territorial básica para o planejamento


e o gerenciamento dos recursos hídricos, definida pela Lei Federal N.º 9.433, de 8 de
janeiro de 1997, que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos (BRASIL, 1997),
é uma unidade hidrológica. Isto é, um sistema aberto onde ocorrem os processos
hidrológicos, tornando-se o recorte espacial ideal para estudos ambientais.
A bacia hidrográfica é definida como uma região sobre a Terra na qual o
escoamento superficial14 converge para um único ponto fixo chamado exutória15 (Figura
3). O fluxo de matéria (nutrientes e poluentes) e energia, na unidade bacia hidrográfica,
é coordenado principalmente pela dinâmica da água. Esta dinâmica depende da
combinação, no tempo e no espaço, de vários fatores que interagem no sistema bacia
hidrográfica, como rochas, solos, relevo, clima, flora, fauna, uso do solo, entre outros.
"A bacia hidrográfica16 compõe-se basicamente de um conjunto de superfícies
vertentes e de uma rede de drenagem formada por cursos de água que confluem até
resultar (sic) um leito único no exutório" (SILVEIRA, 2000, p. 40).

14
A bacia hidrográfica é definida a partir de divisores de água superficiais, pelas porções mais elevadas do
relevo que dividem a água da chuva para caminhos/direções diferentes. Porém, em determinadas regiões,
o caminho a ser percorrido pela água é condicionado por divisores de água subsuperficias e/ou subterrâneos,
decorrentes basicamente da natureza das rochosas constituintes.
15
Exutória é o ponto para onde todo o fluxo de água em uma bacia hidrográfica converge. Enquanto, foz é
o local da desembocadura e deságue de um curso d'água em outro corpo de água. Em muitos estudos, por
conveniência e diante de obstáculos operacionais (dificuldade de acesso, inexistência de estação
fluviométrica etc.), a exutória é escolhida a montante da foz.
16
No presente, a identificação e a delimitação de bacia hidrográfica não serão tradadas, por existir, na
literatura, vários trabalhos que tratam das mesmas. Porém, destaca-se que tanto a delimitação em sala de
aula pelos alunos, utilizando cartas topográficas ou modelo digitais do terreno (maquetes do relevo), como
atividade de campo são fundamentais para o entendimento do conceito e a compreensão das causas e dos
efeitos de ações isoladas em uma bacia hidrográfica ou de drenagem.
Na literatura, observa-se a utilização dos termos: bacia hidrográfica, sub-bacia
hidrográfica e microbacia. Apesar de não existir um critério claro para esta divisão, pois
ambos constituem uma área da superfície terrestre na qual o movimento da água, o fluxo
de água tende a convergir para um único ponto, sendo comum encontrarmos a utilização
dos termos mencionados para representar a mesma coisa.
De um modo geral, o termo sub-bacia hidrográfica é empregado para áreas
presentes dentro de uma bacia hidrográfica, enquanto, o termo microbacia para “pequena”
bacia hidrográfica, área na qual um extensionista consiga percorrê-la em um dia de campo
(visitada, atendida, avaliada – aproximadamente 20 hectares).
O termo microbacia, no Brasil, ganha impulso quando o Decreto nº 94.076 de 05
de março de 1987, institui o Programa Nacional de Microbacias Hidrográficas, visando à
promoção de um adequado aproveitamento agropecuário de microbacias hidrográficas,
mediante a adoção de práticas de utilização racional dos recursos naturais renováveis,
pelo Ministério da Agricultura (BRASIL, 1987). Nele, a unidade de manejo é a
microbacia hidrográfica:
[...] entendida como uma área fisiográfica drenada por curso d’água ou
por um sistema de cursos de água conectados e que convergem, direta
ou indiretamente, para um leito ou para um espelho d’água,
constituindo uma unidade ideal para o planejamento integrado do
manejo dos recursos naturais no meio ambiente por ela definido.
(BRASIL, 1987, p. 8)

Figura 3 – Bacia hidrográfica do rio Membek, Guarapuava/PR


Fonte: Elaboração de Leandro Redin Vestena, 2005.

Dentre as tentativas, destaca-se a realizada por Rocha (1997, p. 73), em que:

Bacia Hidrográfica
É a área que drena as águas de chuvas por ravinas, canais e
tributários, para um curso principal, com vazão efluente convergindo
para uma única saída e desaguando diretamente no mar ou em um
grande lago.
As Bacias Hidrográficas não têm dimensão definidas.

Sub-bacia Hidrográfica
O conceito é o mesmo de Bacia Hidrográfica, acrescido do
enfoque de que o deságue se dá diretamente em outro rio. As Sub-bacias
Hidrográficas têm demissões superficiais que variam entre 20.000 ha a
300.000 ha. Essas áreas podem variar de acordo com a região do país.
O limite inferior (20.000 ha) refere-se à área máxima que uma
equipe de campo pode e deve trabalhar em um Manejo Integrado ou em
um Gerenciamento.
Esse dado é válido para o Sul do Brasil, Uruguai e Norte da
Argentina, e é proveniente da experiência de campo.
O limite superior (300.000 ha) restringe-se ao fato de ser uma
área facilmente manuseável no sistema cartográfico brasileiro do Sul do
país: Cartas com escala 1:50.000.

Microbacias Hidrográficas
O conceito é o mesmo de Bacia Hidrográfica, acrescido de que o
deságue se dá também em outro rio, porém a dimensão superficial da
Microbacia é menor que 20.000 ha. Pode haver Microbacia até de 10,
20, 50, 100, 500 ha etc. (ROCHA, 1997, p. 73)

Outras tentativas para definir os termos foram realizadas, porém sem muito
sucesso, uma vez que a natureza é complexa e diversa e, em alguns casos, confusa. Por
exemplo, os rios da Costa Leste da Serra do Mar Paranaense, que deságuam diretamente
no mar e possuem áreas de drenagem, com dimensões inferiores entre 20.000 ha e
300.000 ha, comporiam uma Bacia Hidrográfica simplesmente por desaguar no mar.
Neste contexto, o importante é definir o termo utilizado, bacia hidrográfica, sub-bacia
hidrográfica ou microbacia hidrográfica, e especificar as razões de adotar-se tal
terminologia, uma vez que o importante é que a bacia, sub-bacia ou microbacia é um
sistema natural, na qual os processos estão inter-relacionados, basicamente, pelo fluxo da
água.
O manejo ambiental de uma bacia hidrográfica deve buscar a ocupação racional
do espaço rural e/ou urbano, de forma integrada, no sentido de concretizar e manter o
equilíbrio dos processos hidrossedimentológicos (hidrológico e sedimentológico), da
diversidade biológica e das atividades produtivas, além de promover a elevação dos níveis
de renda e a obtenção da melhoria das condições de vida da população. Portanto, deve
haver um equilíbrio no desenvolvimento de atividades no espaço físico da bacia e, para
que isto aconteça, há que se trabalhar com o zoneamento17. O rio principal funciona como
um “termômetro” do bom ou do mau uso da bacia hidrográfica.
Uma bacia hidrográfica bem manejada depende de profissionais de todas as
ciências que possam trabalhar de forma integrada e interdisciplinar. A visão cartesiana de
abordagem produz também soluções cartesianas (ou compartimentalizadas) como, por
exemplo, achar que a conservação dos solos (agricultura) ou conservação apenas das
matas ciliares possam resolver problemas de contaminação dos rios. Podemos ter bacias
hidrográficas com bom manejo de solos e contaminação difusa por agrotóxicos de solos
e rios, como também bacias com boa conservação das matas ciliares, com contaminação
por efluentes urbanos e industriais de rios, de forma pontual.
Nas paisagens tropicais e subtropicais, a pluviosidade (chuva) é a principal
propulsora das inter-relações no sistema Bacia Hidrográfica. A água proveniente da chuva
é a responsável por um conjunto de processos físicos e químicos no sistema Bacia
Hidrográfica.
A água que precipita nos continentes pode tomar vários destinos. Uma parte é
devolvida diretamente à atmosfera, por evaporação; a outra, origina escoamento à
superfície do terreno, escoamento superficial, que se concentra em sulcos, cuja reunião
dá lugar aos cursos de água. A parte restante infiltra-se, isto é, penetra no interior do solo,
subdividindo-se numa parcela que se acumula na sua parte superior e pode voltar à
atmosfera por evapotranspiração e noutra que caminha em profundidade até atingir os
lençóis aqüíferos (ou simplesmente aqüíferos) e vai constituir o escoamento subterrâneo
(LENCASTRE; FRANCO, 1984).
O balanço hídrico, afirmam Lencastre e Franco (1984, p. 329), "relaciona as
entradas e saídas de água (afluências e efluências), ocorridas num determinado espaço e
durante certo período de tempo, com a variação do volume do mesmo líquido no interior
desse espaço, durante o intervalo de tempo referido". O balanço hídrico tem sido utilizado
para resolver inúmeros problemas, tais como o intervalo de irrigação, o planejamento dos

17
Zoneamento é a regulamentação dos tipos de uso e ocupação da terra, por meio da divisão do território
em parcelas, nas quais poderá ser autorizada ou vetada, total ou parcialmente, a realização de determinadas
atividades, a partir de estudos integrados e participativos, considerando as características bióticas e
abióticas e os possíveis e diferentes níveis de usos e atividades. Sua utilização é uma ferramenta importante
no planejamento ambiental. Trata-se de um exemplo de limitação administrativa ao direito de propriedade,
cujo solo deve ser utilizado, com base no Princípio da Função Social da Propriedade, sempre obedecendo
ao interesse da coletividade. O zoneamento ambiental é um dos instrumentos da Política Nacional do Meio
Ambiente e deve ser realizado considerando o conceito de bacia hidrográfica.
recursos hídricos, a previsão de rendimentos das culturas, a classificação climática, entre
outros.
O ciclo hidrológico pode ser quantificado no conjunto da superfície terrestre. O
balanço hídrico terrestre possibilita a identificação da quantidade e o trajeto percorrido
pela água nos seus diferentes estágios (Figura 4).

PRECIPITAÇÃO

ESCOAMENTO INFILTRAÇÃO ARMAZENAMENTO


SUPERFICIAL EM DEPRESSÕES

EVAPOTRANSPIRAÇÃO ARMAZENAMENTO ARMAZENAMENTO


DE ÁGUA NO SUBTERRÂNEO
SUB-SOLO

EVAPORAÇÃO INFILTRAÇÃO ARMAZENAMENTO


EM EVAPORAÇÃO INFILTRAÇÃO
LAGOS E OCEANOS

Figura 4 - Fluxo de água precipitada sobre o solo na bacia hidrográfica.


Fonte: RAMOS (1989, p. 9).

Diante disso, um procedimento metodológico será apresentado para medição e


análise do volume de chuva, passível de ser desenvolvido com alunos do Ensino
Fundamental e Médio na prática da EA, utilizando-se de materiais simples, e que
possibilita o entendimento em nível de Bacia Hidrográfica, das causas e consequências
de atividades na paisagem.

UMA PROPOSTA METODOLÓGICA À EA: ESTUDO DA PLUVIOSIDADE


(CHUVA)

“A água é a força condutora da natureza”.


Leonardo da Vinci

A relevância de se medir à chuva está em possibilitar associar a mesma a


impactos negativos e positivos na paisagem. Os positivos estão associados à sua
importância aos seres vivos, como já mencionado. Dentre os impactos negativos têm-se
os associados ao excesso de chuva, como a presença de inundações, escorregamentos e
alagamentos que ocasionam danos a obras de infraestrutura – como casas, pontes e
estradas e a populações; e os associados à escassez, perda de produtividade na lavoura,
falta de água para o abastecimento humano e dessedentação de animais etc.
No Brasil, o número de postos de medição de chuva é insuficiente. Kobiyama et
al. (2005) apontam que o ideal seria que cada escola possuísse um posto pluviométrico
para a medição da chuva diária, uma vez que as medições de chuva não geram apenas os
dados de chuva, mas, sim, contribuem para ações de EA.
Neste contexto, apresentam-se os procedimentos metodológicos de uma
atividade para medir a chuva.
Atividade: Estudo da pluviosidade (chuva): causas e consequências na bacia
hidrográfica – construindo um pluviômetro18 e medindo a chuva.
Objetivo: Reconhecer características de variabilidade espacial (de um evento ou
período) e temporal da chuva (o regime pluviométrico de um local em um período de no
mínimo um ano); avaliar os possíveis fatores condicionantes da chuva e que tenham
influenciado na variabilidade espacial e temporal; identificar possíveis impactos na região
decorrente do volume de chuva, por meio de aula de campo 19 ou avaliação de recorte de
jornais, por exemplo; Conhecer os caminhos que a água da chuva pode percorrer no
sistema bacia hidrográfica20; identificar relações da água da chuva com outros elementos
da paisagem.
Materiais necessários: uma garrafa PET de refrigerante de dois litros (de
preferência que possua corpo com circunferência homogenia); um pedaço de cano de 100
mm de 30 cm; uma luva de 100 mm; um pedaço de borracha (ver em alguma borracharia);
uma estaca de madeira de dois metros; uma proveta graduada (ou outro equipamento que
possibilite a medição do volume de chuva em ml, como uma seringa etc).
Etapas:
1. Medir a chuva em diferentes locais, escola e residência de alunos (ou outros
locais a critério) distribuídos de maneira heterogenia no bairro, cidade, município. A
medição da chuva deve-se dar, primeiramente, na escola, a partir da instalação de

18
Os pluviômetros são equipamentos que medem a quantidade de chuva, o volume, enquanto os
pluviográfos medem a quantidade e intensidade da chuva, a chuva em relação ao tempo. Em alguns estudos
é necessário saber a quantidade de chuva que caiu em um minuto, dez minutos, uma hora etc.
19
Por exemplo, parte da água, escoada nos cursos, é proveniente do escoamento superficial. O descartes de
resíduos sólidos (lixo) na área da bacia e o lançamento de efluentes tendem a serem careados os cursos de
água, e consequentemente, comprometer a qualidade da água, o recurso hídrico. Utilizar-se de observação
junto a córregos para identificar pontos de lançamento de esgotos, indicadores ou bioindicadores da
qualidade da água, como odor, presença de resíduos sólidos, ausência de peixes, etc.
20
O conceito de bacia hidrográfica deve ser trabalhado, teoricamente e na prática, a partir de reconhecimento
em campo.
pluviômetro e o monitoramento de chuva diária com o acompanhamento dos alunos, a
fim de explicar e padronizar procedimentos de instalação e monitoramento.
2. Plotar em um mapa, uma planta da cidade, bairro (pode ser de lista telefônica
ou de endereços) ou no Google Earth os pontos a partir dos endereços dos alunos (ou
utilizando-se do Sistema de Posicionamento Global21, para obter a posição de cada posto
com o auxílio de um GPS - Global Positioning System) onde os pluviômetros serão
instalados (escolha do local).
3. Recortar o fundo da garrafa PET, com um estilete, de forma que tenhamos
uma circunferência exata.
4. Encaixar a luva no pedaço de cano.
5. Escolher a posição, na qual o pluviômetro será instalado em cada um dos
locais escolhidos. O local deve estar livre de obstáculos que possam interferir na captação
da chuva, como casas, edifícios e árvores. Ele deve ficar, se possível, protegido, em
terreno plano e a uma distância mínima do obstáculo igual ao dobro de sua altura (Figura
5).

Figura 5 – Instalação de pluviômetro


Fonte: Santos et al. (2003, p. 47)

6. Fixar a estaca ao chão, enterrando-a em torno de 50 cm, uma vez que a área
de captação do pluviômetro (a boca) deve ficar a uma altura de um metro e meio do chão22.
7. Fixar, com a borracha, o pedaço de cano à estaca (amarrar o pedaço de cano
de 100 mm à estaca), introduzir a luva na parte superior e a parte da garrafa PET sobre
ele para a captação da chuva (Figura 6).

21
Neste caso, outros assuntos podem ser abordados como sistema de coordenadas geográficas.
22
Essa altura de um metro e meio é um padrão internacional estabelecido para medição de chuva.
Figura 6 – Pluviômetro instalado – (A) pluviômetro realizado com garrafa PET, exemplificado
neste texto; e (B) pluviômetro com graduações facilmente adquirido em lojas agropecuárias.
Fotografia: Leandro Redin Vestena, 2005.

8. A chuva deve ser medida, diariamente, às 7 horas da manhã (ou 8 horas –


padronizar), considerando o volume referente à chuva do dia anterior. Em virtude da
dificuldade em medir a chuva à zero hora, é convencionado que a chuva ocorrida a zero
horas até as sete horas seja computada ao dia anterior (das 7 às 7 horas – dia). A medição
é do volume captado, em ml (mililitros) e anotado em planilha de registro (Quadro 1).
9. A chuva é medida em milímetros (mm), uma unidade de comprimento, ao
invés de volume. A chuva é expressa em termos da espessura da camada de água que se
dá sobre a superfície terrestre23, se ela fosse plana e impermeável. O volume da chuva
diária em milímetros é dado pela equação (1)24:
𝑉
𝑃 = 10. 𝐴 (1)

onde: P é a chuva em mm; V é o volume recolhido em ml25 ou cm3; e A é a área de


captação do pluviômetro em cm2. A área de captação do pluviômetro é dada pela equação
(2):
𝐴 = 𝜋𝑟 2 (2)

23
Nos noticiários, diz-se que choveu 100 mm sobre uma determinada área, cidade, bairro etc., contudo, a
chuva apresenta certa variabilidade, e, tecnicamente, existem métodos para se determinar a chuva média de
uma região, os métodos da média aritmética, de Thiessen e das isoietas, que não serão abordados neste
momento.
24
Na realidade, a chuva é simplesmente a relação entre volume e área de captação, o número dez na equação
(1), deve-se para transformação de unidade, do cm para o mm.
25
Um ml (mililitro) é igual a um cm3 (centímetro cúbico).
sendo, A é a área de captação em cm2, 𝜋 o pi, com valor de 3,1416, e r o raio da
circunferência da área de captação do pluviômetro em cm.

REGISTRO DE PLUVIÔMETRO
Estação/Posto:......................................................................... Responsável:………......………………………………
Localização:.............................................................................................................................................................. Ano:..................
Latitude:............................................. Longitude:..................................... Altitude:.....…………

DIA JAN FEV MAR ABR MAI JUN JUL AGO SET OUT NOV DEZ
01
02
03
04
05
06
07
08
09
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31
Total
Média

Quadro 1 – Planilha de registro da chuva bruta


Fonte: Elaboração de Leandro Redin Vestena, 2005.

Suponhamos que a circunferência do pluviômetro instalado possua um raio de 5


cm e que o volume captado de chuva, em um dia, seja de 70 ml, então, a chuva, neste dia,
foi de 8,91 mm. Veja:
𝐴 = 𝜋𝑟 2 = 3,1415. 52 = 78,54 𝑐𝑚2
𝑉 70
𝑃 = 10. 𝐴 = 10. 78,54 = 8,91 𝑚𝑚

10. Tabulação dos dados de chuva por evento, dia ou mês (para tal, pode-se
utilizar da mesma planilha de registro do pluviômetro, após obter-se a chuva
em milímetros).
11. No mapa do bairro da cidade, os valores de chuva medidos em cada ponto,
em um determinado período de tempo, por exemplo, dia(s) – evento de chuva, mês,
estação sazonal ou ano e, a partir disso, podem-se traçar as isoietas, linhas que unem
pontos de mesma pluviosidade. Nesta etapa, será possível avaliar a variabilidade espacial
da chuva26 e os possíveis fatores intervenientes nestas condições atmosféricas
(temperatura, pressão, umidade e vento) e condições da superfície (relevo).
12. Em atividade de campo, os alunos podem identificar/reconhecer, na
paisagem, o caminho da água da chuva, por meio de uma visita aos divisores de água27; e
a um curso de água, por meio de caminhamentos a montante e jusante 28 de pontos do
curso fluvial (pré-definidos pelos professores), no curso superior e inferior de bacia
hidrográfica e dos impactos29 associados a sua dinâmica na bacia hidrográfica.

CONSIDERAÇÕES ACERCA DA ÁGUA À EA

“O ser humano bebe 80% de suas doenças”


Adágio médico

Apesar de o enfoque socioambiental estar garantido, de certa forma, nos PCNs -


Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997) e pela lei que institui a EA no Brasil
(BRASIL, 1999), e de que os profissionais do Ensino devem ter formação inicial e
continuada sobre a EA (BRASIL, 2012), verifica-se uma ausência de foco no ensino do
funcionamento e da dinâmica dos processos hidrológicos, nas causas e consequências de
ações no e do ciclo hidrológico, uma vez que elas acarretam alterações fundamentais no
movimento da água que corroboram impactos socioambientais no sistema Bacia
Hidrográfica.
O entendimento das causas e consequências de ações humanas na dinâmica dos
processos hidrológicos, na escala bacia hidrográfica, é de extrema importância para a EA.
A EA deve dar-se a partir da realidade dos alunos, do contexto em que estes estão
inseridos e de observações em campo, atividade práticas, que possibilitem uma reflexão
crítica dos problemas socioambientais e da compreensão dos processos físicos
envolvidos, como a chuva e a vazão.

26
No Sul do Brasil, as chuvas de verão apresentam maior variabilidade por serem chuvas de origem
convectivas.
27
Divisor de águas é a linha no terreno, na qual a água é dividida dentre bacias hidrográficas ou sub-bacias
hidrográficas. No terreno, são as cumeeiras dos morros e serras, espigões, topos de morros, área mais
elevada, onde duas vertentes se encontram e a partir das quais o fluxo das águas converge para a exutória.
28
A montante é dirigir-se a rio acima e a jusante, a rio abaixo, independente da porção do rio em que se
encontra.
29
Observar a presença ou ausência de mata ciliar, de resíduos sólidos no rio e em suas margens que possam
ser careados até o rio, pontos de lançamento de efluentes (esgotos) diretamente no rio, a qualidade da água
do rio (cor, odor, e cheiro), de sedimentos no leito fluvial e em bueiros, erosão de margens etc.
Para evitar situações como as descritas por uma criança de Tel Aviv, Israel,
quando perguntada sobre o que é um rio, respondeu: “é um canal que fede quando você
passa ao lado” ou como a descrita pelo escritor cubano Pedro Huan Gutiérrez “Quando
criança eu estava convencido de que todos os rios eram cheios de merda. A primeira vez
em que eu vi um em que a água corria, não acreditei nos meus olhos e perguntei onde eles
colocavam a merda e a sujeira, para que o rio fosse tão limpo” (BOUGUERRA, 2004, p.
41-42).
O estudo da água na paisagem, de forma integrada, é fundamental para que os
alunos possam entender a essência de muitos dos problemas socioambientais, e não de
forma simplista como resultado de ações isoladas.
Uma conscientização cada vez mais crescente é necessária, para que ações no
espaço sejam de forma a conceber à valorização e à valoração dos seus recursos naturais.

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Texto retirado de livro, referência de citação:

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[Organizadores]. Educação ambiental em foco. Pedro & João Editores. São Carlos/SP.
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