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Universidade
Federal
do Rio Grande
do Sul

Reitor
Hélgio Trindade
Vice-Reitor
Sérgio Nicolaiewsky
Pró-Reitora de Extensão
Ana Maria de Mattos Guimarães

EDITORA DA UNIVERSIDADE

piretor
Sergius Gonzaga
CONSELHO EDITORIAL
Dina Celeste Araújo Barberena
Homero Dewes
Iríon Nolasco
Luiz Osvaldo Leite
Maria da Glória Bordini
Newton Braga Rosa
Renato Paulo Saul
Ricardo Schneiders da Silva
Rômulo Krafta
Zita Catarina Prates de Oliveira
Sergius Gonzaga, presidente

Editorada UnIversidade/UFRGS • Av. João Pessoa, 415 • 90040-000 • Porto Alegre, RS


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COORDEnflDORIl

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2-fDIÇfiO

O Editora

Univetddade Federal do Ro Qnnde do Sii


© dos autores
1» edição: 1992

Direitos reservados desta edição:


Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Capa e planejamento gráfico: Carla M. Luzzatto


Editoração: Geraldo F. HufF
Revisão: Maria da Graça Storti Féres, Marli de Jesus
Rodrigues dos Santos e Anajara Carbonell Closs
Montagem: Rubens Renato Abreu
Administração: Júlio César de Souza Dias

P472 O espetáculo da rua. 2.ed. / Coordenado por Sandra Jatahy


Pesavento. — Porto Alegre: Ed.Universidade/UFRGS,
1996. - il.

1.Porto Alegre, RS -1. Pesavento, Sandra Jatahy. II.Tílufo.

CDU 981.651

Bibliotecária responsável: Mônica Ballejo Canto. CRB 10/1023

ISBN 85-7025-241-2
Introdução / 6
UM NOVO IMAGINÁRIO SOCIAL: A RUA E SUA IDENTIDADE
A redescoberta da rua / 8
Morfologias e tipologias urbanas /11
Rua, domínio do espaço público / A rua antiga / A rua nova / A rua de outrora / A rua dos
temposmodernos/ Os espectadores da rua.
As permanências do tempo colonial / Mudanças no final do século 19: a rua de moradia /
Mudanças no final doséculo 19:a ruade comércio / A ruano iníciodoséculo 20.

RUA, ESPAÇO EMTRANSFORMAÇÃO


Rua, caminho do progresso / 38
o pecadomoraao lado / Se esta rua fosseminha / Entre o progresso e a tradição / Nem todasas
ruas são iguais.
Evolução de Porto Alegre: 1888-1916 /Infra-estrutura/ Infra-estrutura

A SOCIEDADE DAS RUAS


A performance de cada um / 64
A rua é do povo / Moda, footing e lazer / Os deserdados na rua.
Localização das atividades por volta do final do século / Localização das atividades por volta de 1920.

RUA, TEATRO DA VIDA


As várias faces da rua / 81
Tem mais músicano som que vem da rua / Baderna, grevee protesto / A rua em luto / O que anda
nas cabeças anda nas bocas?
Os percursos e localização dos acontecimentos.

Fontes iconográficas e de pesquisa / 95


Que melhor meio de compreender um país,
na sua realidade profunda,
senão 'flanar' nas ruas?
Do labirinto das vias seculares
ao fluxo circulatório das megalópoles modernas,
são elas que dão a uma cidade o seu sentido
- sua medida ou sua desmedida.

Editorial. Le Courrier de TUnesco


Le mémoire des rues.

Paris, agosto de 1989.


Um novo imaginário sociai:
a rua
e sua identidade
A redescoberta da rua

Retrocedamos no tempo. As ruas sempre existiram, tão velhas como as


cidades, perdendo-se nos séculos, entrecruzando-se em esquinas, numa rede
emaranhada de vivências, cortando os espaços. Velhas ruas do mundo antigo,
ruelas medievais, acanhadas ruas do mundo colonial.
Microcosmos da vida, elas fazem parte da própria memória do mundo,
abrigando tanto os grandes acontecimentos como os pequenos incidentes do
cotidiano.
Mas há um momento em que o seu percurso sofreu uma inflexão, que nos
permitiria afirmar que elas são uma criação do século 19, objeto de um novo
Imaginário social. (Chantal Georgel, La Rue^ Paris Hazan, 1986.)
Que sentido tem essa afirmação, uma vez que as ruas preexistiam ao sé
culo passado, nas antigas cidades, medievais na Europa, coloniais na América?
Queremos, contudo, situar esta alteração a partir de determinados pro
cessos, desencadeados mundialmente, a partir da segunda metade do século 19.
Este momento seria marcado pela transformação capitalista do mundo e pela
progressiva expansão de uma ordem burguesa, conl seu corolário de crenças,
valores, idéias.
A internacionalização deste processo, ocorrido a partir de uma matriz
européia, correspondeu a uma intemalização do capitalismo em terras ameri
canas, expressa em transformações ao mesmo tempo econômico-sociais e polí-
tico-ideológicas.
Neste contexto, deu-se a emergência paulatina de uma ordem urbano-in-
dustrial, que reinverteu as relações campo-cidade, colocou a urbe como o "lu
gar onde as coisas acontecem" e trouxe à cena novos atores sociais, portadores
de também novas práticas e idéias.
A contrapartida cultural desta ampla gama de transformações materiais e
sociais é que se entende como modernidade. Ela se traduz em comportamen
tos, sensações e expressões que manifestam o sentir e agir dos indivíduos que
vivenciam aquele processo de mudança. Ser moderno é "ser do seu tempo" é
"sentir a mudança do mundo e mudar com ele", é esforçar-se para "pegar o
trem da história".
Dimensão supra-estrutural da transformação capitalista do mundo, a
modernidade gera uma postura de atração-repúdio, de celebração-combate às
8
mudanças desencadeadas. O novo, que instaura uma outra ordem, é, também
um elemento de destruição, que ameaça valores. Neste sentido, o indivíduo que
vivência a modernidade se sente ameaçado e seduzido ao mesmo tempo pelas
transformações em curso.
A vivência da modernidade implica ainda a construção de um imaginário
social. Este é um processo mediante o qual, ao longo da história, as sociedades
se dedicam a um trabalho permanente de invenção das suas próprias represen
tações globais, estabelecendo idéias-imagens através das quais elas se atribuem
uma identidade. (Baczco, Bronislaw, Les ünaginaires sociaux, Paris, Payot,
1984.) O termo imaginário social, portanto, corresponde a estas represen
tações coletivas da sociedade global, que não precisam ter correspondência
completa com o que se poderia chamar de "verdade social". O imaginário cole
tivo comporta, pois, os desejos, sonhos e utopias de uma época.
Neste contexto é que a rua surge no cenário urbano com uma identidade
própria, que será lentamente construída a partir da segunda metade do século
19.
Não mais elemento de separação entre as casas, a rua se defíne agora co
mo espaço público, por oposição ao espaço privado.
Refúgio da individualidade, o lar abriga a propriedade burguesa ou es
conde a miséria proletária, mas ele permanece como o reduto da família, do
círculo mais próximo, de pessoas que se conhecem e dependem mutuamente.
Em contraste, a rua do mundo que se transforma sob o impacto do capitalismo
se povoa de atores sociais específicos, alguns novos e outros nem tanto, mas
que por ela transitam, numa mélange caótica: o povo, a multidão, a burguesia,
o proletariado. A rica senhora que desfila o seu traje de passeio passa rente ao
biscateiro que vende qualquer coisa; beatas na busca da missa ombreiam com
operários no caminho do trabalho; gordos e bem-sucedidos comerciantes cru
zam com apressados cabceiros de lojas. Pois até mesmo os negros fujões da sen
zala não foram progressivamente abandonando o abrigo do quilombo para
buscarem o refúgio na cidade, perdendo-se no anonimato da "multidão"?
Antigas crônicas lamentam a perda da calmaria passada, das velhas ruas
onde as "comadres" nas janelas controlavam o ir e vir. O controle social se
exercia pelos mexericos das "linguarudas" e pelas colunas dos jornais que não
poupavam denúncias: "a casadinha da Rua da Margem, que mal o marido sai
de casa para o trabalho e já se põe a conversar na janela com um certo pra-
ça"(...) Sinal evidente de uma cidade ainda pequena, de ruas onde todos se co
nheciam e quando um comentário deste tipo desnudava ao público o faltoso,
ele se recolhia, temeroso da censura!
Ruas espaçosas e desertas da Cidade Baixa, onde vagavam matilhas de
cães (p Independente, 26/1/1902), ou mesmo ruas mais próximas do centro que
se haviam convertido em potreiros, com os animais a pastar no capim que cres-
cia(...) {Gazetinha, 21/12/1898), compunham um cenário antigo que aos poucos
foi mudando.
No decorrer do novo século, carros e gentes povoaram as ruas num bulí-
do de ruídos variados, configurando um novo cenário. Os jornais registravam
queixas sobre os veículos que "em vertiginosa carreira" cortavam as ruas de
Porto Alegre (O Independente, 22/11/1916) e o trânsito inusitado demandou
medidas para a sua regulamentação. {O Independente, 8/5/1913.)

9
Buzinas, carros na contramão, engarrafamentos nas horas do "pique",
gente se acotovelando para pegar os bondes cheios passaram a ser elementos
constantes de uma rua mais moderna.
E que dizer então dos ditos serviços urbanos?
A rua de outrora passou a definir-se como anárquica, tortuosa, suja e es
cura em frente à rua dos novos tempos, com novos prédios, calçadas alinhadas,
iluminação.
Sarjetas entupidas, ou mesmo águas servidas escorrendo pelo valo do
meio da rua, e exalando miasmas deixaram aos poucos de serem mencionadas
nos jornais. Lx)nge fícaram os dias onde matadouros de porcos misturavam-se à
área urbana (O Século, 2/9/1883) ou em que os despejos fecais eram deposita
dos próximo à Praça da Harmonia, após serem transportados nos "tigres"
através da cidade. (O Século, 23/3/1984.) Os "tigres" eram, no caso, as cubas de
transporte dos detritos, que haviam recebido esta alcunha em face do verdadei
ro pavor com que os transeuntes se afastavam quando os viam aproximar-se!
O velho bonde a burro cedeu lugar ao bonde elétrico, que encurtou as
distâncias. (O Independente, 15/3/1908.) Prédios modernos e dotados de todas
as melhorias higiênicas assumiam lugar numa nova rua dotada de esgotos. E,
para dar um cunho feérico à nova rua que surgia, a luz elétrica veio dar uma
luminosidade especial às ruas da cidade. (O Independente, 24/9/1908.)
Portadora pois, de uma nova identidade, cartão de visitas de uma cidade,
a rua nova foi retratada pelo olhar de pintores, escritores, jornalistas, poetas e
fotógrafos.
Captando o instante, eternizando o gesto, resgatando a palavra, sociali
zando as imagens, estes registradores do fugaz tiveram na rua sua fonte de ins
piração, deixando um material precioso que nos permite chegar, de alguma
forma, até o passado.
Todo este processo, multifacetado e instigante, pode ser apreciado na ci
dade de Porto Alegre, no período da chamada Belle Époque, do final do século
até o término da Primeira Guerra Mundial.

SANDRA JATAHY PESAVENTO

10
Morfologias e Tipologias Urbanas

As transformações que ocorreram na sociedade brasileira no fínal do sé


culo passado marcaram também fortemente a paisagem das cidades. Não só as
transformações peculiares, como a queda do Império escravocrata, dando lugar
à República e suas decorrências, mas também as influências advindas de fora
do pafs. Gradativamente, os conceitos de ruas e praças foram sendo reformula
dos, assimilando novas formas, explicitadas através de suas morfologias e tipo
logias arquitetônicas. Novas idéias, novas tecnologias e mão-de-obra maisqua
lificada foram responsáveis pelas mudanças na produção do espaço urbano
construído.
Apesardas muitasdiferenças entre as cidades brasileiras, do ponto de vis
ta de localização, clima, formação física e cultural, Porto Alegre não foge aos
parâmetros gerais de urbanização brasileira tanto na estrutura quanto na pai
sagem. Aliás, pode-se verificar essa afirmativa nos comentários de Nestor Gou
lart Reis e Carlos Lemos, que aparecem junto aos desenhos e se referem às ci
dades brasileiras de um modo geral.
Mostramos o processo de urbanização do fim do século passado ao início
do século 20, através dos aspectos urbanísticos e arquitetônicos. Iniciamos pela
síntese da evolução urbana, onde são estudados dois documentos básicos (as
plantas de 1888 e de 1916)*, mostrandoo acréscimo das áreas urbanizadas, de
senvolvidas pela expansão ao longo dos caminhos principais ou por aterros
junto ao rio, na área portuária. Analisamos também as transformações de al
guns espaços característicos (ruas e praças) no período em estudo e as "per
manências coloniais" que se encontravam na cidade até o final do século 19:
casas térreas ou sobrados com beirai voltado para a rua, e dispostas em ali
nhamentos irregulares. As ruas com estreitos passeios ou não apresentavam
esgoto pluvial recolhido no valo central. Os processos construtivos eram ex
tremamente primitivos, dada a mão-de-obra escrava. Desde o início do século
19, estava no Brasil e em particular no Rio de Janeiro a Missão Artística Fran
cesa, que fundou a primeira Escola de Arquitetura - Grandjean de Montigny -
expandindo os conhecimentos das técnicas e arte francesas - École des Beaux
Arts. Mas somente a partir de meados do século 19, foi que essa influência se
generalizou por todo o Brasil, atingindo especialmente prédios públicos e de
uso público como a Beneficência Portuguesa, o Teatro São Pedro, para citar
11
alguns exemplos do estilo neoclássico em Porto Alegre. De maneira geral, o
aparecimento das platibandas em todas as construções é uma das principais
respostas dessa influência, que passou a ser um elemento regulador da arquite
tura.
As importações possibilitaram o uso de calhas e condutores pluviais, que
permitiram evitar a queda livre da água sobre a rua, e outras tubulações para
distribuir a água nas casas, fazer recolhimento de esgotos, distribuir o gás, ain
da a aquisição de vasos de louça decorativos para serem colocados sobre as pla
tibandas, balcões de ferro para substituir os de madeira, lampiões de mecha
circular para interiores, lanternas para pendurar nas fachadas.
Da fusão do sobrado com a casa térrea, surgiu a casa com porão alto, tão
característicada cidade no final do século 19, e que ainda hoje pode ser encon
trada. As casas populares começaram a se multiplicar e o surgimento de corti-
ços (conjuntos de habitações de porta e janela voltados para uma rua estreita
ou beco com serviços comuns - latrinas e tanques) deixaram de ser novidade já
no início do século.
Um outro aspecto desse período foi o desenvolvimento do comércio, re
presentado pelas lojas no andar térreo, e habitações nos demais. Exceção deve
ser feita ao Edifício Malakoff, de uso exclusivamente comercial, cuja caracterís
tica tipológica era basicamente colonial, mas com dimensões maiores e a pre
sença do frontâo neoclássico.
O desenvolvimento dos transportes urbanos (representado pelo bonde a
burro) é importante para explicar a expansão da cidade. A idéia de regulari
zação começou a aparecer tanto no alinhamento das ruas como na criaçãodos
jardinspúblicos de traçado geométrico à moda francesa.
A partir do início do século, as mudanças se acentuaram. O aparecimento
da luz elétrica fez mudar as condições da casa e da cidade. Devido à produção
industrial em série, novos produtos, inicialmente muito caros, tornaram-se
acessíveis, incrementando-se sua importação. Destacam-se o vidro plano, que
teve seu uso generalizado nas vidra^s das janelas, as torneiras, registros, lou
ças de banheiros e outros elementos que vieram a mudar a vida da população
urbana.
Uma transformação significativa foi o afastamento da construção de um
dos limites do lote, permitindo a entrada lateral livre, com portão de ferro. A
Avenida Independência ainda mostra alguns exemplos remanescentes, assim
como outros cuja liberação do lote é total. A introdução do jardim, nesses ca
sos, é a grande novidade. A regularização e o alinhamento das fachadas, assim
como o aparecimento de prédios exclusivamente destinados ao comércio e ser
viços no centro da cidade, separando a habitação do trabalho, passaram a ser
também característicos desse momento. O número de equipamentos cresce na
cidade, assim como os serviços urbanos. O bonde elétrico e o ônibus levaram a
cidade para mais longe. Surgiram áreas industriais próximas e ao longo da li
nha do trem (acesso mais dinâmico). O uso das ruas era o mais variado, não só
destinado à circulação de pessoas e veículos, mas também definindo percursos
de carnaval, de enterros solenes, dos desfiles e das trocas cotidianas da popu
lação.

CÉUA FERRAZ DE SOUZA

12
Do privado ao coletivo:
Rua, domínio do espaço público

u O tranqüilo cháda tarde,no pátiointernoda residência. 1905.


Compridas e frias vão correndo estas noites de inver
no, em que, no recolhimento do meu gabinete de trabalho,
fechado contra o sopro álgido da rua, vou evocando e vi
vendo doces coisas do passado, para me consolar do pre
sente tão cheio de coisas amargas.
O frio é intenso, mas, de instante a instante, ouço vo
zes femininas e rumores de passos na rua: são famílias que
vão para os cinemas, porque a "arte do silêncio" é hoje a
"cachaça" de toda a gente, e a loucura do belo sexo.
O cinema pode se dizer acabou de matar a "vida em
família", que há muito tempo já vinha perdendo o seu en
canto e desaparecendo.
Como era justamente por este tempo que em quase
todos os lares as famílias antigas se reuniam para "brincar"
e tirar sorte nas noites de Santo Antônio, São João e São
Pedro, a minha memória neste momento se enche de re
cordações que me comovem.
A hora em que escrevo, muitos lares estão desertos,
porque as salas dos cinemas estão repletas.
Crônica: História popular de Porto Alegre
Autor: Achylles Porto Alegre
Edição: DeusinoVarela(organização)
Pá^as: 92 e 93
Data: Edição comemorativa ao bicentenário
da cidade de Porto Alegre.

Passavam de um lado e outro transeuntes de todas as espécies,


desde o creoulo espadando e retinto, que no tombo da farra ia esperar
fretes no trapiche da Fluvial, até o mais belo typo de mulher, alta,
branca, escultural e soberba, de andar ritmado e cadencioso, de cabeça
triunfalmente erguida, e com uma rosa escarlate de fina estirpe agoni-
sando plantada na neve levemente rosea do seio farto.

Romance: Estiychnina
Autores: Souza, Totta e Azurenha
Editores: Carlos Pinto & C., sucessores
Páginas: 114 e 115
Data: 1897

15
Quem vem lá? Uma carroça, um forasteiro?
A rua antiga

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Da subida da Rua da Praia até a Praça da Alfândega,


a calmariada Porto Alegreantiga. Passagem do século
Os frades de pedra na calçada da Riachueio,
no trecho da antiga Rua da Ponte. Final do século 19.
Que é daqueles lampiões
que espiavam de dentro do tufo das árvores velhas
o ingênuo colóquio dos noivos
nas salas das casas fronteiras à praça?...
As crianças brincavam de roda na rua risonha
que foi o princípio da linda cidade açoriana...
De cima - as estrelas botavam reflexos vagos nos vidros
dos graves sobrados
com largas portadas e muros cobertos de heras...
Debaixo - os humildes e tristes casebres
erguiam, medrosos, os olhos vazios das janelas
até a nobreza dos altos beirais solarengos...
Poema: Poemas da minha cidade, segunda edição
Autor: Athos Damasceno Ferreira
Editora: Livraria do Globo
Páffna: 9

Naquele tempo, as ruas não eram ladrilhadas e o calçamento era


escasso e grosseiro.
O paralelepípedo era ainda uma hipótese tão indecifrável como
a quadratura do círculo e a pedra filosofal.
A iluminação pública era feita com azeite de peixe e fornecida
por enormes lampeões de forma piramidal, de quatro faces vitreas,
suspensos de toscos postes de madeira ou embutidos na parede.
Em cada porta se via um "frade" de pau e nas esquinas um de
pedra, com uma argola no alto.
Crônica: Noutros tempos
Autor: Achylles Porto Alegre
Editora: Livraria do Globo
Páginas: 7 e 8
Data: 1922

19
õ 1i-ânsíto, ruídos, multidão?
A rua nova

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O povoaguardandoo bonde elétricona Praça Senador Floréncio.
Praça da Alfândega, na década de 10.
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Anárquica, tortuosa, suja e escura
A raa de outrora

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Atranqüila passagem dos bois naVigário José Inácio (antiga RuadoRosáno)


esquina com a Gen. Vitorino (antiga Rua da Alegria) por volta de 1860.
Na Praça Conde D'Eu (antigaPraça do Paraísoe atual PraçaQuinzede Novembro),
burricos, barricas e carroças na frente do Velho Mercado (década de 60 do século passado).
/

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Novos prédios, calçamento, iluminação:
A rua dos tempos modernos

V. \ ^ ^

Bi

Da loniBaçflo ao bonde, a eletricidade hopubioQa o progresso.


Voluntários da Pátria esquina Mal. Floriano, décadade 10.
g Poetas, pintores, escritores, fotógrafos, jornaiistas:
Os espectadores da rua

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l«IÍHÍ<

o flagrante do fotógrafo: bombeiros em ação no prédio Malakoff, primeiro grande sobrado de Porto Alegre,
sito na Praça Quinze de Novembro. Foto Lunara, aproximadamente de 1900.
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_ •. >W 1 ^
Um registro do pacato cotidiano da cidade no infcio deste século. Na Rua da Praia com a Marechal Foríano (antiga
Rua de Bragança), em frente à tradicional "Casa Masson" e diante da não menos conhecida "Pharmacia Centrai", as
meninas perfiladas posam para o fotógrafo. Foto Ferrari & Irmãos.
VISITA A UM BORDEL

(...) Acompanhados pelo indivíduo cuja descrição fízemos, sucin


tamente, ontem, fomos ter a uma rua estreita e suja, ou melhor, a um
beco, pouco distante da principal rua de Porto Alegre, isto é, bem no
centro dessa piedosa capital de religiosidade e política.
Eram talvez 9 horas da noite.
O tal beco parece mesmo apropriado para ter, em meio de sua
extensão, um lupanar; a impressão que se recebe ao transitar no mes
mo é péssima.
Aqui e ali, de um lado e de outro, há mulheres de má vida à jane
la ou junto à porta de suas pequenas moradias e a palestrarem em al
tas vozes com soldados, marinheiros e crioulos debochados, - a pales
tra é ponteada. com gargalhadas, ditos escandalosos, frases obscenas;
mais adiante há uma venda cheia de uma freguesia barulhenta, no
meio da qual estão mulheres que tomam cachaça.
Na quadra seguinte e em frente a um sobradinho antigo, com
três janelas no pavimento superior, e duas janelas e porta com corre
dor, no térreo, o Quirino parou.
- É aqui, disse.
- E agora?
- É só entrar e arranjar-se com a donada casa.
- Porém, não a conhecemos.
- Ora, isso é o de menos; vamos juntos.
E entramos, com ele, pelo escuro corredor da casa. À esquerda
encontra-se a porta da sala; íamos bater aí porém o Quirino segurou-
nos o braço.
- Espere, espere um pouco, exclamou interpondo-se entre nós e
a porta.
E colando o ouvido à fechadura dessa, escutou.
- Está ocupado aqui, não se pode entrar. Vamos para dentro.
Seguimos às apalpadelas até o ponto onde uma parede, de tá-
boas, no centro da qual há uma porta, faz a continuação do corredor.
O Quirino, que seguia na frente, bateu e chamou em voz baixa:
Sia Fausta!
Ato contínuo a porta abriu-se, e no limiar desta apareceu uma
crioula cujas feições não conseguimos apreciar devido à escuridão do
lugar.
- Que há? perguntou ela.
O Quirino aproximou-se-lhe e ao ouvido segredou-lhequalquer
coisa. Falou a nosso respeito,certamente, por que a crioula indo ao in
terior do compartimento em que se encontrava, acendeu um fumegan-
te lampiãode querosene e de lá nos mandou entrar.
Estávamos afinal no interior de um lupanar, situado na parte
mais central da capital!
Jornal: A Gazetinha
Data: 12/5/1898

31
Ela foi o jardim dos poetas provincianos
- a velha Praça da Harmonia,
-rodeada de frades de pedra, alumiada
de lampiões a gás, debaixo das paineiras,
com estátuas de louça à beira das aléas
e bancos, sob a fronte amorosa das tílias...,
OÁlvaro, o Felipe, o Dionélio, o Eduardo,
o Wamosy, o De Souza... andaram por ali...
E quando o luar tecia, entre a poeira do esguicho
e a quietude da sombra, a renda dos reflexos,
eles liam Samain,
Rodenbach,
Verlaine...
Ao fundo, junto ao plinto e ao gradil da amurada
o Guaíba embalava, às vezes, um veleiro...
E a noite camarada e cheirosa de orvalho
acordava violões, nas esquinas, cantando...
Poema: Poemas de minha cidade
Autor: Athos Damasceno Ferreira
Editora: Livraria do Globo
Páfffta: 31

Dentro de cinco minutos chegaremos ao Menino Deus. Feliz


mente, hoje, a viagem tem sido rápida. Há dias ein que é uma vergo
nha, os bondes levam horas e horas nos desvios. Ainda há pouco tem
po, num passeio que eu fiz com o Ramalho, levamos duas horas equa
renta e cinco minutos do Parthenon à praça da Alfândega. O bonde
descarrilhou três vezes, esperou um quarto de hora em três desvios, as
bestas rebentavam as correias deespaço a espaço, o diabo, filha, o dia
bo aconteceu nessa viagem.

Romance: Estrychnina
Autores: Souza, Totta e Azurenha
Editores: Carlos Pinto & C., sucessores
Página: 175
Data: 1897

32
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BEIRAIS COMCACHORROS (CAIBROS) RNOOF ffíCM
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SOBRADO COMTELHADO DE DUAS cnopAnfl HFTRÍS ANDARES
Águas - beiral jAtransformado telhado de quatro
PARA AINTFtODUÇAO DACALHA AGUAS

BALCÃO DE MADEIRA
JANELAS COM GELOSIA
{GRADES DE MADEIRA)

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PORTA DE ACESSO
COM ESCADA INTERNA
CANW. DE ESCOAMENTO
DASÁGUAS PLUVIAIS

PAISAGENSURBANASNOFINALpOSÉCULOig .
COM PERMANÊNCIAS ARQUITETÔNICAS EURBANÍSTICAS ANTERIORES
UM NOVO IMAGINÁRIO SOCIAL - ARUA ESUA IDENTIDADE MUDANÇAS NO FINAL DO SÉCUL019 - ARUA DE MORADIA Coonl. Célli Feinz da Souza

PEITORIL DE FERRO
balaustraoa
CONDUTOR PLUVIAL

VASOS DELOUÇA DOPORTO Um novo tipo do residência, a casa com porão alto, ainda do
TELHADO DEDUtó ÁGUAS CASAS DE COMPOTEIRAS
EBEIRAL DO PERÍODO ANTERIOR fronte da rua, representava uma transição entre osvelhos so
CIMALHASSAUENTES
brados e ascasas térreas. (Reis Filho, p. 41.)
PARA ARREMATES
CALHA Com a decadência do trabalho escravo e com o Início da imi
gração européia, desenvolveu-se o trabalho remunerado e
vergas DASABERTURAS aperteiçoam-se técnicas construtivas. (Reis Rlho, p. 43.)
RETIUNEAS OU EMARCOPLENO
COM BANDEIRAS DE FERRO
(...) A partir da metade do século passado qualquer uma das
BALCÃO DE FERRO
cidade brasileiras passou a conhecer duas modalidades de re
PORÃO COMÓCULO sidência: a local, isto é, aquela ainda ligada a tradição constru
COMGRADE (RESPIRO)
tiva regional e à modesta economia; e a moderna alienígena,
própria da prosperidade recente. (Lemos, p.47.)

ESCADA DE ACESSO PILASTRAS (...) Adifusão da arquitetura neoclássica e mais tarde o ecle
tismo, (...) a constitui a pretensão dereproduzir no Brasii, com
detalhes, o ambiente europeu. (Reis Filho, p.136.)
ACASACOM PORÃOALTO

PQSTES DE ILUMINAÇÃO Trata-se, aparentemente, de uma transformação sui generis,


PUBUCA pois consen/ando-se as bases econõmico-sociais da vida bra
sileira, os mesmos proprietários rurais, senhores das mesmas
terras e dos mesmos escravos, ocupados no fornecimento de
PLATIBANDA
SIMPLES produtos para exportação, passam quase subitamente a con
LOTES UNIFORMES
E REDUZIDOS
sumir umnovo tipode arquitetura emsuas residências rurais e
noscentros urbanos (Reis Rlho, p. 138.)
CASAS DE PORTA
EJANELA Alguns conjuntos de habitação popular apresentavam também
formas especiais de Implantação. Compunham-se de fileiras
de casas pequeninas - às vezes,mesmo, apenas de quartos -
AISÊNCIADE PORÃO
edificadas ao longode umterreno maisprofundo, abrindo para
pátio oucorredor, comfeição de ruela. (Reis Rlho, p.58.)
AUNHAMENTO DOSPRÉDIOS
BEM DEFINIDO

PASSEIO
JUNTO AS CASAS
SARJETAS

RUA DE MORADIA POPULAR


UM NOVO IMAGINÁRIO SOCIAL - ARUA ESUA IDENTIDADE MUDANÇAS NO RNAL 00SÉCUL019 - ARUA DE COMÉRCIO CoonL Célia Ferraz da Souza
GRAEKLDE FERRO
E0IFÍCK3OE USO COMERCIAL
(LOTEMAIOR)
PLATIBANDAGOM Nas cidades de maior importância multiplicavam-se as ruas
FRONTÃONEOCLÃSSICO ARQUITETURA COLONW. BALAUSTRAOA
ADAPTADAAO NEOCLÃSSICO calçadas e apareciam os primeiros passeios junto às casas.
SOBRADO OE USO MISTO Constnifram-se também jardins, ao gosto europeu (...) cerca
dos poraltas grades de ferro, reservando seu uso para as ca
CIMALHAS
madasmaisabastadas. (ReisFilbo, p. 42.)

Os edifícios comerciais do centro conservam a implantação e


rai as características das residenciais coloniais. (Reis Filho, p.
57.)

A presença de equipamentos importados Insinuava-se nas


constmções pelo uso de platibandas, que substituíam os ve
lhos berrais, por condutores de calhas, ou pelo uso de vidros
simples ou coloridos, sobretudo nas bandeiras das portas e
janelas - em lugardas velhas urupemas e gelosias. (Tela ou
gradesde madeira.) (ReisRlho, p. 37.)

CASA COM PLATIBANDA PRÉDIOS DEuso MISTO


EVASOS DE LOL^ IGREJADO ROSÁRIO
(ARQUITETURA COLONIAL) COMERCIO NO TÉRREO
(CASAS DECOMTOTEIHA) EHABITAÇÃO NOSOBRADO
TELHADO DE DUASÃGUAS
EM ARCO PLENO
VCTGÀilÊMÃi
POSTE OE ILUMINAÇÃO PÚBUCA PEITOTILDE FERRO
PRÉDIOF^MANESCEIVÍE PAVIMENTAÇÃO
(3A ARQUITETURA COLONIAL COM PEDFIAIRREGULAR

A ação cultural dos arquitetos estrangeiros e seus discípulos


no Brasil contribuiu nãoapenasparaa modificação formal dos
ambientes, mastambém parao aperfeiçoamento e mesmo cer
to apuro dasformas deconstmir. (Reis Filho, p.119.)

Essapreocupação pelo aperfeiçoamento técnico é revelada in m


clusive pela correspondência de arquitetos e engenheiros da
época, mas sua concretização estava na dependência, para
todos os elementos de acabamento, de materiais Importados.
(Reis Riho, p. 120.)
TELHADO DE QUATRO ÃGUAS QUIOSQUE:VENDADE TABACO.
SOBRADO DETRÉS ANDARES JORNAIS EGASOSA
MFLUÉN
(INFLUÊNCIA PARISIENSE)
BEC0D0R0SÃRK3
&) COM GRADES '(INFLUêf^W EUROPÉIA)
cn
CO
O) ARUA NO INÍCIO 00 SÉCULO 20 CMid. Célia FBrraz da soioa
UM NOVO IMAGINÁRIO SOCIAL - ARUA ESUA IDENTIDADE

BALCÃO K FERRO CÚPULA/TORREÃO


(ESTRUTURA DEFERRO) As primeiras transformações verificadas então nas soIuçOes de im
FACHADAS CURVAS plantação ligavam-se aos esforços de liberação das construções
eni relação aos limites dos lotes. Oesquema consistia de recuar o
FRONTÕES/OVMTOS CIMALHA DE CW/ERSAS edificlo dos limites laterais, conservando-o freqõente sobre o ali
FORMAS SOBREAS JANELAS. nhamento davia pública. (Reis Hlho, p.44.)
USO DE VIDROS

COLUNAS/PILASTRAS Com os afastamentos laterais, ficou rompida aquela antiga conti


nuidade de fachas compromissadas coma sucessão de cumeeiras
paraleias aosalinhamentos. (Lemos, p.54.)

PRÉ[»0 DE USO EXaU^AMENTE As residências maiores eram enriquecidas com jardins dolado (...)
COMERCIAL SEPNW}k> LOCAL M introduzindo um elemento paisagístico na arquitetura residencial
TRABALHCVRÊSirKNãA (...) Ao mesmo tempo a arquitetura aproveitava o esquema de
porão alto, transferindo porém a entrada para a fachada lateral.
PASSEIOS E ALINHAMENTOS
(Reis Rlho, p.46.)
RIGOROSOS, REFORÇADOS
PELAS FAIXAS ACABAMENTO Surgiram depois os afastamentos em relação às vias públicas.
NOEMBASAMENTO OOS PRÉDIOS
(Reis Rlho, p.49.)
REDE DE ABASTEQMENTO
ILUMINAÇÃO: POSTES DE y^AE ESGOTO
MAIOR NUMERO
DE RUAS PAVIMENTADAS EFIOS FteEMPARTE VERGAS RETILÍNEAS
EM ESPECIAL NO CENTRO DAPAJSAffiMURBANA OU EM ARCO PLENO

CASASAFASTADAS LATERALMENTE
o Ecletismo - propondo uma conciliação entre os estilos - foi um PLATIBANDA/ s, DO LOTE. APARECEM NESTE PERtoDO
BALAUSTRADA j PALACETES (CASAS SITUADAS NOCENTRO
veiculo eficiente para a assimilação de inovações tecnológicas de DOLOTE) E JARDINS.
importância. (Reis Riho, p.169.)
FRONTÕES/
\
Oque, para aEuropa significou um ranço passadista, para nós sig CIMALHAS
nificou a conquiste e o acesso a cultura intemacional. (Weimer, p. FIGURAS HUMANAS
258.)
VIDRAÇAS PASSAM I IGREJA COM
Para a arquitetura brasileira, a influência doPositivismo, represen A SER CONSTANTES
ERCOI CARACTERÍSTICAS COLONIAIS
tava o estímulo ao desenvolvimento tecnológico. (Reis Rlho, p.
179.) BALCÃODE FERRO
Arquitetos e engenheiros orgulhavam-se de imitar com perfeição
üé nos de^hesos estilos detodas as épocas que fossem valori
zados naEuropa. (Reis Riho, p.155.) PORÃO
Já nos primeiros anos doséculo com a crescente separação entre
os locais de residência e trabalho e com o aumento de concen
POTTÃO re FERRO
s tração de população nas cidades maiores, osvelhos sobrados co
merciais de ripo português, com residências e lojas, começam a
sersubstituídos por prédios dealguns andares com destinação ex
B
clusivamente comerciai. (Reis Riho, p.60.)
s
Rua,
espaço em transformação
Rua, caminho do progresso

Quem sabe onde ficava a Rua dos Nabos à Doze? E a dos Pecados Mor
tais, que, embora seu nome sugerisse hábitos pouco recomendáveis às famílias
de respeito, haja quem diga que o nome derivasse das sete humildes casinhas
iguais que lá haviam...
A Porto Alegre de outrora evocava nomes românticos, como a Rua das
Flores, outros pitorescos, como a Cova da Onça, ou ainda patéticos, como
Ajuda-me a Viver... Algumas celebravam antigas profissões como o Beco dos
Ferreiros e o Beco dos Marinheiros, ou uma atividade que ali se realizava, co
mo o Beco do Garapa, no qual se vendia excelente garapa extraída de um cana
vial no Caminho Novo. Certas velhas ruas tinham nomes ligados à sua confor
mação e aspecto, como a da Ladeira, a do Cotovelo e a do Arvoredo. Outras
carregavam títulos picarescos, como a do Arco da Velha e o Beco da Pulga.
E assim por diante, as ruas antigas davam um sentido à cidade, de uma
época em que todos se conheciam e em que os nomes eram um ponto de re
ferência explícita. Quem não sabia onde ficava a Rua da Olaria, se lá o Juca da
Olaria tinha o seu negócio. Ou a dos Pretos Forros, se para lá afluiam os ne
gros emancipados? Expressando vivências, discriminando espaços, muitos des
tes nomes de rua resistiram ao tempo, teimosamente, mesmo na época em que
foram sendo substituídos pelos de pessoas ilustres, geralmente políticos e mili
tares, empresários abastados, eméritos professores, piedosos religiosos. Se os
cidadãos mais antigos ainda insistem em chamar a João Alfredo de Rua da
Margem e a Marechal Floriano de Rua de Bragança, não há jovem que não
saiba onde fica a Rua da Praia, cujo nome relembra o tempo em que as águas
do Guaíba chegavam até ali.
A rua, entretanto, reflete a transformação do espaço urbano e a reorde-
nação da vida. O aburguesamento da cidade e a consolidação de uma nova or
dem trazia em seu bojo exigências, valores, critérios. Impôs-se uma redefinição
do solo urbano e de sua ocupação pelos indivíduos.
Era preciso dar aos cidadãos o seu lugar na urbe e normalizar a vida. Có
digos de posturas municipais impuseram novas práticas, mais condizentes com
o status de ''cidade". O caminho da modernidade passava pela adequação a
padrões desejados.

38
Objetos de planos urbanísticos, as ruas expressarão, pela sua diversidade
de aparências, a diferenciação social subjacente da nova ordem burguesa.
Ruelas, becos, linhas tortas? Velhos prédios, cortiços e porões infectos?
Bota ababco, e viva a linha reta, a rua ampla, deixando entrar a luz do dia! As
preocupações arquitetônicos com a estética e a funcionalidade do espaço urba
no juntavam-se aos cuidados morais e aos preceitos higiênicos. Como podia
uma família passar tranqüilamente pela cidade, se era a todo o momento obri
gada a deparar-se com cenas escandalosas que se davam nos inúmeros becos
que infestavam Porto Alegre? "Homens de baixa esfera, que vivemem comple
tos desacatos, (...) mulheres depravadas, entregues ao vício da embriaguez (...)"
(Gazetinha, 12/1/1896), eram alguns destes personagens dos tais antros de per
dição que se tornava urgente extinguir. Que dizer então dos cortiços e dos
porões, que abrigavam em promiscuidade obscura e infecta várias famílias e
indivíduos avulsos, verdadeiros focos de doenças e de imoralidade? Mora na
cidade quem puder preencher as condições de cidadão {Gazeta da Tarde,
12/4/1897) ou então vá povoar os arrabaldes, e de preferência perto das fá
bricas, onde possa encontrar trabalho digno. Na cidade propriamente dita, só
deveriam residir os que podiam sujeitar-se às regras da higiene e da moral.
{Gazeta da Tarde, 17/1/1898.)
Nessa medida, a cidade empreendeu a operosa tarefa de destruição dos
becos e cortiços, declarando guerra às tavernas, bordéis e casas de jogo, numa
cruzada moral, sanitária e urbanística, de destruição e reconstrução, em meio a
uma especulação imobiliária que refletiaa elevação do preço do solo urbano.
Companhias de loteamento se formaram, vendendo, nos arrabaldes, pe
quenos terrenos aos pobres que eram varridosdo centro.
No início do século. Porto alegre passou a viver "uma fase operosa, ofe
recendo aos habitantes o espetáculo do trabalho em todas as ruas". (O Inde
pendente, 1/7/1909.) Esta fúria de embelezamento, conforto, higiene e segu
rança, que, enfím, expressavam um ideal de civilização, custava dinheiro e os
impostos municipais foram elevados. As ruas precisavam de esgotos, luz, água,
calçamento, passeios públicos, jardins, policiamento. Ruas modernas, enfim.
Mas a modernidade desejada, reordenando o visual, trouxera consigo novos
hábitos que faziam os porto-alegrenses refletirem: afínal, era bem isso o que se
queria? E onde ficava o respeito, a moral, a educação dos velhos tempos? A ga-
tunagem aumentava, e por mais que se declarasse guerra aos bordéis, as casas
de tolerância renasciam. Sintomas do progresso? Por outro lado, as pessoas es
queciam seus velhos hábitos, como o de descobrir-se quando nas ruas, ou cer
rar as janelasda casaà passagem de um enterro. {Gazeta da Tarde, 23/9/1895.)
E as moças, andando sozinhas às ruas, e que se expunham aos gracejos dos
atrevidos?
Era bem verdade que as principais artérias da cidade ostentavam todas as
melhorias urbanas da civilizado e que as casas de comércio, os bancos e as
indústrias demonstravam a pujança dos negócios e os melhoramentos mate
riais banidos. Na Duque e na Independência, novos e vistosos palacetes abriga
vam o luxo das famílias burguesas.
Mas estes melhoramentos, estes efeitos dos novos tempos nãoatingiam a
todos. Uma grande parte dos habitantes, que encarava a luz elétrica como um
dos melhoramentos do progresso, classificava-o como um serviço de luxo, só ao
39
alcance dos abastados. (O Independente, 27/8/1911.) Em suma, nos caminhos da
modernidade, nem todas as mas eram iguais e a cidade reproduzia, na ocu
pação do espaço e na atuação da municipalidade, as distorções sociais. Colônia
Africana, Cidade Baixa, Santana, Navegantes, uns arrabaldes, outros nem tan
to, ostentavam em suas mas as mazelas da administração pública.
Todos pagavam impostos, mas os serviços de iluminação, coleta de lixo,
esgotos, armamentos eram desiguais.
Havia, contudo, um tipo de atividade que não era descurada: o do poli
ciamento. Aí sim, as zonas desfavorecidas, as ruas dos.humildes e os arrabaldes
compareciam diariamente nas crônicas policiais.
Da cidade alta à cidade baixa, do centro ao subúrbio, as ruas de Porto
Alegre refletiam a medida ou a desmedida das transformações urbanas.
SANDRA JATAHY PESAVENTO

40
Guerra aos becos, cortiços e tavemas:
pecado mora ao lado

rfi 3

IbMtar em cortiços: a antigacasade uma família passa a ser a casade muitos.


Em cada quarto, uma família... Infcio do século.Cortiçoda Rua Gcn. Caídwel, no Menino Deus.
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Beco doÓpera (atual RuadoUruguai), também chamado deBeco doPorto dos


Ferreiros e Rua do Comércio.
^ Entrada do antigo Beco do Oitavo (atual André da Rocha), famoso foco de meretrício no
CO início do século 20.
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O Beco do Fanha, também conhecido popularmente por Travessa Faissandu


(atual Caldas Jr.) era conhecida pelos seus bordéis e tavernas.
Destruir, construir:
Se esta rua fosse minha...

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^ Vinte e Quatro de Outubro, esquina Dr.Timóteo.


Assentamento de trilhos de bondes, 1907.
Venáncio Aires, esquina com João Pessoa
Colocação de trilhos de bonde, 1907.
Voluntários da Pátria, construção do Cais, 1911.
ê O dilema da modernidade:
Entre o progresso e a faadição

Será verdade que muita gente boa vai, às tardes, à Praça da Alfândega, só para apreciar as moças
subirem no bonde, no momento do avanço? Só sei que se eu fosse mulher
usava vestidos mais comoridos... O Indenendenie. 22/3/1906.
dega.Ajardinamento, bondes,
lel. Década de 10.
o, a chai
^avcgan
Está fícando inteiramente cosmopolita a população de Porto
Alegre.
Há meio século passado, sua quietude era admirável, poucos os
estrangeiros, simples os costumes.
Mulheres de mantilhas, velando-lhes o rosto e as vestes, moças e
velhas confundindo-se, escapando aos olhares dos curiosos, transita
vam a sós pelas ruas, num passo aligeirado: iam à missa da manhã ou a
algum serviço urgente.
Mudou tudo. Cresceu a cidade, dez vezes maior que a meio sécu
lo passado, dez vezes mais populosa.
E com a mudança, foram-se as emboscadas, onde, no tempo das
pitangas ali abundantes, realizava-se a propaganda efícaz do povoa
mento do solo, sem despesas em Paris e Milão.
Morreram os "tigres" que passavam à tardinha pelas ruas, mas
nasceram os culos que aparecem em dia claro.
Foram-se os palanquins, as cadeirinhas, mas possuímos carros,
bondes, automóveis, velocípedes, tranways, estradas de ferro.
Amanhã teremos ruas a asfalto, bondes elétricos, balões Santos
Dumont, jardins suspensos, espetáculos nas nuvens, telefones sem fíos,
fotografia telegráfíca, ressurreição dos mortos...
E Porto Alegre velho cederá lugar a um Porto Alegre novo, com
uma população esquisita, num requinte supimpa: moças à vol-d'oiseau,
vestidas de tecido circassiano, custoso, chique, provocante, numa li
berdade antiga.
Pelas portas das ruas, como na Roma antiga, fíguras do deus
Príapo, dourados, enormes, despertando a idéia sensual.
E os homens todos, velhos e moços num gasto de fosfureto de
cantaridinia, para honra e glória da civilização.
Viva o progresso!
Jornal: O Independente
Daía: 1/3/1900

Aos olhos de todos, a nossa capital aparece como a mais encan


tadora e bela das cidades que gozam a fama de cultas e progressistas,
vivendo numa pacatez disfarçada e escondendo as grandes falhas que
longe de recomendação tornou-se as maiores vergonhas e ultrajes.
Porto Alegre não defata antever, aos que vivem no burburinho es
tonteante das ruas e praças, o estado verdadeiro em que devia apare
cer.
É a pobreza desamparada e explorada; a vagabundagem, o la
trocínio, os arrombamentos, os crimes e etc., não fazem parte talvez do
diário da vida porto-alegrense, tão cheio dessas cenas?
Jornal: O independente
Data: 2/12/1916

51
Da cidade alta ã cidade baixa, do centro ao subúrbio
Nem todas as ruas são iguais

Rua da Independência

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Rua da Independência. Continuidade dacidade alta, a rua foi desde o início do século
sede de belas vivendas burguesas. Final da década de 10.
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Rua José do Patrocínio,antiga Rua da Concórdia, na chamada Cidade Baixa.


No início da década de 10ela foi prolongadaaté além da Venâncio Aires
(aAntiga Rua da Imperatriz), ultrapassando a Praça Garibaldi.
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, * »

A Rua da Repdblica, antigaRua do Imperador, tinhaao longo do seu alinhamento norte


a vala que conduzia as águas da Várzea para o Riacho. Uma ponte sobre o Riacho
ligava a Rua da República com o Areai da Baronesa. Na foto de Lunara, vê-se a ponte
sobre o riacho que costeava a Rua da Margem, atual JoSo Alfredo. Década de 10.
Colonia Africana (Bairro). Porto Alegre

Colônia Africana, área da cidade para a qual aflufam os negros no momento da abolição.
Abarcava a área compreendida pelo atual bairro Rio Branco, entre as ruas
Castro Alves, Casemiro de Abreu, Vasco da Gama, Cabral e Liberdade.
na pai artén
:seiavolIvimei

Ias ao! ongo


•â

O arrabalde da Glória, no final da década de 10,


com o seu aspecto bucólico.
Vê que gracis e poéticas aquelas humildes casinholas que alve
jam lá para os lados do Asilo, plantadas quase à beira do rio, sobre a
estrada larga, entre a carrasquenta vegeta^o miúda. E a estação daes
trada de ferro da Ponta do Dionysio, e o palacete da Baroneza, todo
pintado de novo, e aquele Kiosque edificado dentro d'água, com a sua
comprida ponte de pau, aquela casinha de banhos da chácara do José
Innocencio, e a outra do Fróes, muito mais tosca, meio escondida en
tre os juncaes.
Perto, avistava-se já a velha ponte do Menino Deus sobre o ria
cho murmuro. Mais alguns instantes, e o bonde atravessava-a vagaro
samente, fazendo estalar as táboas com um tac-tac sinistro de perigo
iminente.
Então, abria-se a longa, a comprida e larga estrada do pitoresco
arrabalde, ao fundo da qual destacavam-se, pequenina e branca, a ca
pela florida, lá longe, enterrada ao sopé do monte verdejante, como
um velho marco, adormecida na paz do crepúsculo, sob a quietação do
bairro triste.

Romance: Estrychnina
Autores: Souza, Totta e Azurenha
Editores: Carlos Pinto & C., sucessores
Páginas: 170 e 176
Data: 1897

ILHOTA

Esta é a ponte que desemboca nos quilombos.


O riacho barrento, roçando os barrancos,
enlaça nos braços molengos e longos
a ilha crivada de becos
bibocas
baiúcas de barro bati
do...
Veneza?... Pois sim!...
Caíques, fíngindo de gôndola, atados aos frades
de pedra
flutuam...
Decerto ninguém vai falar de pandeiros,
de flau
tas,
violões,
cavaquinhos...

Poema: Poemas da minha cidade


Autor: Alhos Damasceno Ferreira
Editora: Livraria do Globo
Pá^a: 89

59
HUA, ESPAÇO EM TRANSFORMAÇÃO

8Sj^^^5jSíi5í^«^
ggjiS^imfwsffS^Kisigs

^Iglgfp^C ESIS
llli.^^JS!stS-lll!@Sn

âli ^má
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CSTTVKD* DO MATO

S Em 1914 3 Cidade é quase 10 vezesmaiorque a inicial.


RUA. ESPAÇO EM TRANSFORMAÇÃO INFRA-ESTRUTURA Coora. Céllt Fernz da Souza
r ÁGUA CANALIZADA
' 1886 - Inicio üa captação do égua do
Guaiba pola Companhia Hidráulica
Guaibsnss, na Praia de Belas, próximo
á aluai Av. Ganzo. A água é levada pa
ra o reservatório no Moinhos do Ven
to, com Ianque de decantação, do on
de parlem ligações domiciliares.
1804 - Encampação da Companhia e
mudança do ponto de captação para
a Voluntários da Pátria, altura da C&n-
do Gomes,
1908 - Início do tratamento do água
com a utilização de filtros - núcleo Dá-
.. sico da estação de tratamento do
MNO POHTO oe CXATAÇAO
MMUX. A PARTVt DE 1904 ' Moinhos de Vento,

nESEmATóao de Aoua
00 MOINHOS DE VENTO

ESGOTO
18M - Condusio do projeto de Rede
de CaniSzaçio de Esgoto, com pre-
vb&o de Btendimentode sele mil pró-
dkM dentro do perímetro Imttado pe-
Eee víes Ramiro Berceloe, Proiásio Ai-
tres. Joio ANredo, PeniaieAo Teles e
peto Litoral,
weaw Wfrro ocà<krmÁçÃ'o oaÃÕim
OOOMBAOEieasAieoi

1916 A partir do final do século 19, "a ãgua encanada, so


Aouacaküjzam mente possível com o emprego de tubuiaçóes, apare
lhos, torneiras e registros Ingleses ou americanos - tu
do Isso muito caro - provocou no planejamento das
casas a vizinhança forçada entre a cozinha e as insta-
laçóes sanitárias"
(Lemos, p,se,)
RUA, ESPAÇO EM TRANSFORMAÇÃO INFRA-ESTRUTURA Coord. Célia Ferraz de Souza
UNW FERRE* UNHA FERREA PAAA NOVO HAMBUnOO DESDE lera ' V=ENERgA ELÉTRICA E BONDES ELÉTRICOS
POSTO AlEOflE - NO« KUtaUBQO EOA!PARASfePAULO,OesOei»tO X-
oEsoEim PAVIMEMAÇAO - PRIMOROIOS I ' 1887- Empresa Fiat Lux tornecia
"O calçamento das ruas loi iniciado em ja 160 kw.
neiro de 1848 o as primeiras ruas calçadas "rlHH^iBaB - Amesma empresa passou a
foram as de Bragança, lado da Praça Quin -luiJBunDCQtPgrfornecer 320 kw. "Quando foi inaugu-
ze de Novembro (naquele lompo Conde 5DplflCDLnij[^Cjp,a(]o o serviço deluz elétrica, a popu-
D'Eu) aiè o Caminho Novo, Rua da Praia e
Rua da Graça (naquele tempo era assim
=jM!==!p[4MHrTHrr receios desse sistema do
I II írnnhinnhT" "f iluminação."(Mazeron p.73)
chamado o trecho da Rua da Praia, desde 2QO, JLl^nnnC I-igos - ascompanhias Carris de Perto
a General Câmara até a Praça D. Feiicia-
no)". (Mazeron, p.35.) Também, "em 1848, "Tiriril^ Alegtonse e Carris do
a Câmara liâurticipal estabeleceu a obnga- JL_i, 1. T"n'~ HK-E
pí=Jj=L Porto Alegra, ambas responsáveis
Urbanos pe-
totiedade do calçamento dos passeios em 11 iriU^HncingT o transporte urbano à tração animal,
frente às casas dos ptoprialários" (Maze-
I —fundíram-se nacompanhia Força o Luz
Porto Alegrense, destinada a explorar
: V 'on. P 34.)
_3tll comercialmente a energia elétrica e o
transporto urbano através dos bondes
elétricos,
rfiTALACPES QERADORAS
DACOMPANHIA FORCAÉ LUZ
RUA VOLUNTânÒE OAPATFIA flxy 1908- Comoçam acltcuiar os bondes
ím elétricos.

USINAELETRICA MUWCIPAL
RUAVOLUNTAROS QAPATRIA
ESOIONA COnONEl MCENTE

PIATLUX
AM SETE DE SI
ESOUMAOEN..

ESmADADEn
CONSTRUUAA

LftHASDOSBONDES ELÉTRICOS
A sociedade
das mas
A performance de cada um

As transformações urbanas que presidem a estruturação da ordem bur


guesa sãocriadoras de uma nova sociedade, mais moderna e agitada, sem dúvi
da, do que aquela que acabava de ser suplantada. Neste contexto, articula-se
todo um jogo derepresentações. Deuma parte, trata-se deconstruir e difundir
o mais possível as imagens da sociedade que seacaba e degeneralizar o senti
mento deque ela realmente é coisa dopassado. Avelha ordem, enfim, deve ser
sepultada. Por outro lado, trata-se de criar uma imagem social substitutiva que,
se bem que fortemente distanciada da verdade social, constitui uma realidade
destinada a confirmar não mais o conjunto da sociedade, masos novos benefi
ciários do sistemai a ascendente burguesia urbana. (Chantal Georgel, op. cit.)
É para ela, principal ator do espetáculo da rua, que esta sè transforma. Par
ques, jardins, calçamento, boa luz, segurança? Lojas com vitrines iluminadas,
cafés com espelhos, cinemas e teatros? Opalco está armado para que aburgue
siadesempenhe a performance desejada.
Nas compras do comércio chique, nas tardes de lazer no velódromo, nas
soirées do teatro e do cinema, os elegantes vãoe vem. Olhar e servisto, é a re-
gra ^ passagem, sem dúvida, mas também de encontro ede
troca. Éum espaço de prazer e uma vitrine imensa eviva, que se contrapõe aos
objetos imóveis dasvitrines daslojas. . ^
Entretanto, por mais que o novo imaginário urbano se povoe das figuras
dehomens e mulheres bem-vestidos, a "flanar" pelas ruas, e^tem outros per
sonagens neste cenário urbano. A rua é também meio devida, onde canguei-
ros, biscateiros e vendedores ambulantes transitam diariamente, entrecruzan-
do-se com carroceiros, amas-secas, motoristas, motorneiros gfree-ltuicers de
toda ordem. Neste sentido, a rua é do povo, onde se misturam operários, pro
fessores, caixeiros de loja, bancários, negociantes, e... porque não dizer, vaga
bundos, desocupadose laiúpios.
No plano condições concretas da existência, ocorre um mercado for
mal e informal de trabalho, assim como se configura também uma parcelada
população que fica à margem deste mercado, gravitando na contravenção. No
imaginário social, as coisas se confundem, e as "classes trabalhadas" são
também "classes perigosas" (Louis Chevalier. Classes labourleuses^ classes dan-
64
gereuses. Paris: Hachette, 1984.). É toda uma faixa da população que ameaça-
efetivamente ou não, mas não é isso que importa - escapar ao controle e à vi
gilância de uma ordem idealizada e que se busca pôr em prática. Uma parcela
destes elementos faz da rua o seu meio de vida e seu espaço de ação. É o caso
das negras doceiras, reminiscências do tempo da escravidão ou das lavadeiras
que lavam no rio e vêm secar as roupas nas calçadas, porque outro espaço o so
lo urbano não lhes reserva. Ou então é a mendicidade que percorre as ruas,
sendo um objeto de suspeita, ou de compaixão. Serão realmente pessoas inca
pazes de promover o seu sustento de outra forma ou apenas espertalhões, que
vivem do esbulho da caridade alheia? A nova moral do trabalho hesita entre
uma e outra opinião, mas não titubeia em demandar solução para os meninos
de rua. Para estes, a rua é a escola do vício e o melhor meio de furtá-los aos
caminhos da contravenção era recolhê-los a instituições especializadas onde
aprenderiam a trabalhar para proverseu sustento.
Mistura de tipos, de função e atividades, a ordenação da rua idealizada,
asséptica, bela e tranqüila, contrasta com o bulício da inevitável desordem tra
zida pelas mudanças urbanas.

SANDRA JATAHY PESAVENTO

65
Um lugar de passagem, de encontro e de troca:
A raa é do povo
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Os velhos cangueiros, que transportavam mercadorias e outrosvolumes,


na Rua General Vitorino, antiga Rua da Alegria. Início do século.
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Rua da Ladeira (Gen. Câmara), na passagem do sóculo.


Ver e ser visto:
Moda, fòoting e lazer

O Café América, da Praça da Alfândega,


renomado ponto de reunião masculina da época. 1920.
Um instantâneo de elegância
juntoà Ponte de Pedra do Riacho. Passagem doséculo..
<1
o lazer da sociedade porto^Iegre
«>1 em fecedo "esporte da moda":ve
CO
Como era noite de retreta, uma bandade música tocava na praça
da Alfândega, em cuja alameda mal-iluminada grupos de moças e de
rapazes passeiavam, acotovelando-se, entre monossilabos secos e risa-
dinhas disfarçadas, olhares indiferentes e olhares bregeiros. (...)
O rapazio, ardente e trefego, cruzava a rua, num zumbido per
manente de zangão, e as moças, as medémoiselles como dizia um enfa-
tuado, pedante e nulo, paravam em frente das vitrinas resplandecentes
das joalharías e das vitrinas multicores das lojas.
A porta da cigarraria do Felix, um grupo de elegantes estacava,
em postura estudada e com pretensiosos ares de últimos figurinos dos
jornais da moda; e, para cá um bocadinho, numa casa de fazendas, con
trastando com o aprimo jovial e bizarra flamancia dos elegantes, uns
quantos velhos, na sua velha roda, olhavam embasbacados o mundo
exterior, brilhante e florido, para o qual de há muito haviam eles aca
bado, como acabaram os seus lenços de Alcobaça, cheios de ramagens
excêntricas e de fino rapé, legítimo Paulo Cordeiro.
Romance: Estiychnina
Autores: Souza, Totta e Azurenha
Editores: Carlos Pinto & C, sucessores
Páginas: 113 e 115
Data: 1897

O América, o ponto melhor da Rua dos Andradas e onde se reú


nem advogados, médicos, comerciantes, poetas literatos, noticiaristas,
boêmios inteligentes e extravagantes e do melhor que possui o nosso
meio social, aos domingos é visitado pela simpática rapaziada caixei-
ral, sempre correta e unida, que, elegantemente vestida, provocaolha
res etéreos e cristalinos de criaturas meigas e tentadoras, felizes e se
dutoras...

Jornal O Independente
Data: 6/10/1895

74
Na contramão da vida:

Os deserdados na rua

uí Aslavadeiras do Riacho. Foto de Lunara, décadade 10.


Cozinhando ao ar livre, biscateando para viver.
Foto de Lunara, década de 10.
00 ASOCIEDADE DAS RUAS LQCAUZAÇÀO DAS ATIVIDADES POR VOLTA DO FINAL DO SÉCULO CoonL CóIla Feiriz ctoSouza

BANCOOAPnOVlNC»

BANCO OACnOVlNCIA

THEATnO OE VAREDAOES

BENEFICÊNCIA POinUOUESA

SANTA CASADEMISEnCÓRDIA

THEATnOSAOPEOnO

CÂMARA MUNCIPAl. ÇÁMARAMUNX»>AL


BAIIANTE

ASSEUSEÉIA PdOVMCIAL

PALÁCIO DO GOVERNO

BENEFICÊNCIA POHTUQUESA
ESTAÇAOTELEOfUnCA

IGREJA MATRZE CAPELA í


DO OMNOESnRTTO SANTO

cúnw fy(ETnoPOLrTANA

ESCOÍA NORMAL

BENEncêNCtA BRASILEIRA

CADCA ECONÔMICA

ARSENAL DE GUERRA

PRAÇAMARTMSUMA

CADEMOVX. 1888

OASÔMETRO

VELÓOnOMOOAVÁRZEA

THEATROSÁOPEDRO
ASOCIEDADE DAS RUAS LOCALIZAÇÃO DAS ATIVIDADES POR VOLTA DE 1920 Coord. Célia Ferraz de Souza

TECELAGEM RENNER MENTE

MTENOfNCU KAIMCIPAL fAbricademúveis

ONEMAAPOUO

SANTACASADE MIS£RíC6R0IA fasivca de vidro sul

BENEFICÊNCIA PORTUQUESA CERVEJARIA CRWTOFFEL


MTCNOéNCtAMUNICIPAL
ESCOLA COMPlEMENTAn

COlÊOIOMajTAR

ESCOLA DE MEDICINA
CERVEJARIA CAMPANI
obsebvatOrio ASTBONÒMICO COMPANHIA FABRIL IS PREOOS
CALÇADOSCOMPANHIAPROORESSO
OBSEBVATÚRmMETEOROLOOICO

INSTITUTO ELETUOTECNICO
CmSMAAPOaO
instituto tEcnco profissional
ESCOLA DE ENGENHARIA

ESCOLA DE DIREITO

GINASIOJULIODECASTILHOS

BaUOTECA PUBLICA

THEATBOSto PEDRO

PAUCIO DAJUSTIÇA
hidráulica MUNICIPAL
cscoiA D€ oiRErro
PALACO PIRATINI

ASSEMBLÈAESTADUAL

COLÉGIOPAULA SOARES

CORREIOSE TELÉGRAFOS CORREIOSE TELÉGRAFOS


OELEOACIA FISCAL
JORNAL AFEOERACAO

CAIXA ECONÔMICA

DELEOACM FISCAL

JARDIMZOOLÓGICO

QUARTEL OABRMAOA

ARSENALDEOUERRA
CAPITANIA 00 PORTO

CASA PEcorreção

COLÉGIO ERNESTO DORNELLEB

HOSPITAL SAO PEDRO

ASILO DOS MENOIQOS E ASILO DE SANTA THEREZA

CO
As várias faces da rua

Espaços de transformação da cidade, a rua refletiu as mudanças urbanas


do novo século; povoada de atores sociais, criadores de novas ambiências,
constituiu-se no objeto de um novo imaginário social. A rua era o cartão de vi
sitas de uma cidade moderna, embora as idéias - imagens sobre elas e seus per
sonagens - não correspondessem no todo com as condições concretas do so
cial. Cenário da vida urbana, ela teve várias facetas. Teatro da vida, nela se de
senrolavam várias peças.
Em dia de festa, ela foi palco das mais variadas movimentações, laicas ou
religiosas. Povoada de gente, ostentando seus melhores trajes, ou envergando a
indumentária apropriada para o evento, a rua foi reduto de lazer, de congra-
çamento, de expressão e de emoções.
Nas tradicionais festas dos Navegantes, as ruas engalanadas viram passar
procissões, andores, anjinhos, beatas desfiando o rosário, penitentes no paga
mento de promessas,com os olhos postos nos céus, enquanto os moleques pu
nham os olhos nas vistosas e coloridas melancias à venda em frente da Igreja...
E a festa do Divino? com suas quermesses, fogos de artifício, seus jogos
inocentes - (as sortes, a pescaria, o tiro ao alvo) - todos com prêmios de gosto
duvidoso. Famílias inteiras concentravam-se na rua em frente ao Divino, brin
cando de ser feliz.
Mas a rua em festa podia ser profana, e apresentar-se engalanada para
eventos pagãos como o carnaval... Carros alegóricos, batalhas de confete, ser
pentinas, duetos de pierrôs e colombinas altemavam-se como brincadeiras às
vezes violentas, às vezes inocentes.
A festa na rua podia inclusiveter um caráter político, como aquelas reali
zadas em Porto Alegre por ocasião da queda de Deodoro, quando um préstito
de dez mil pessoas,à luz de lanternas venezianas e ao som de bandas de música,
percorreuas principais ruas da capital em sinal de regozijo com a queda do di
tador. (Gazetinha, 29/11/1891.) Ou ainda, a festa na rua dava-se por ocasião do
1^ de Maio, quandoas sociedades operáriaslocais organizavam-se em um prés
tito, empunhando bandeiras e acompanhadas por bandas nos seus percursos
pelasprincipais ruas da cidade. {OIndependente, 4/5/1911.)
E os dias de circo ou de tourada, não eram também de festa? Assim pelo

81
menos compreendia o público, que acorria em massa aos tais eventos, com as
suas roupas domingueiras.
Mas a rua podia ser também cenário de revolta, de luta, de agitação so
cial, de quebra-quebra.
As ruas da cidade foram, nesse sentido, palco de enfrentamento dos
operários em greve contra a Brigada, palco de passeatas, comícios, debates,
discursos inflamados. Assim foi por ocasião da primeiragrandegreve geralque
ocorreu em Porto Alegre em outubro de 1906, durante a qual foi fundada a
Federação Operária do Rio Grande do Sul, com orientação anarco-sindicalista,
ou a grande greve geral de julho de 1917. Piquetes de operários cruzavam as
ruas com praças da polícia administrativa e da Brigada Militar, que patrulha
vam a cidade. Nesta greve de 1917, referia o Correio do Povo que as ruas onde
se situava o alto comércio da capital, onde nos dias normais era intenso o mo
vimento, se encontravam paralisadas (3/8/1917).
A rua podia ainda revestir-se de luto e prantear a morte de figuras ilus
tres. Do centro da cidade à colina do cemitério, as ruas de Porto Alegre se en
cheram de gente para ver passar o enterro de líderes políticos renomados, co
mo Júlio de Castilhos, em 1903, ou Pinheiro Machado, 1915.
E a rua podia ser ainda o espaço privilegiado da comunicação, por onde
circulavam as notícias, de boca em boca ou nas portas das livrarias, onde a inte
lectualidade da época se encontrava para trocar idéias, defender posições.
Eram os velhos tempos da Livraria Americana, da tradicional Livraria do Glo
bo ou, mais modernamente, da Livraria Lima.
A multidão se agrupava também à frentedo Correio doPovo, a esperar as
notícias, enquanto que os jornaleiros corriam céleres as ruas para vender um
pedaço do mundo aos passantes.
Bons tempos, dizem os antigos, em que havia tantos jornais, a debaterem
entre si as suas idéias, a fazerem circular as notícias, a darem a sua versão dos
fatos. A Federação, O Mercantil, A Reforma, A Gazetinha, O Conservador, O In
dependente, O Século, Jornal do Comércio. Correio do Povo, Estado do Rio
Grande, Rio-Grandense, Gazeta da Tarde, A Luta, O Exemplo e tantos outros -
parece mesmo incrível! Foram os jornais que povoaram as ruas de Porto Ale
gre nos anos que medeiam entre o final do século e a Primeira Guerra, num
desfile de idéias e tendências...

SANDRA JATAHY PESA VENTO

82
«I » T«Wi«M
A rua em revotta
Baderna, greve e protesto

Manifestantes na Azenha, por ocasião da greve geral


de julho de 1917, ocorrida em Porto Alegre.
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A raa em

o cortejo de sepultamento de Júliode Castilhos em 1903, naatualJoão Pessoa


então Campoda Redenção. Encabeçando o cortejofúnebre,
vê-se o estandarte à'A Federação e o pessoal da redação do jornal.
iimiaii:/
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° A leitura de cada um:
O que anda nas cabeças, anda ncis bocas?

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Povo cm frente ao Corr


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(O o pessoa
A redaçâi
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ALivraria doOlobo, tradicional estabelecimento de Porto Alegre,
que operava comoeditora e comércio de livros. Em frenteà Globo, na Rua da Praia,
os intelectuais e políticos das primeiras décadas do século 20 faziam seu local de encontro.
Paixão de livreiro, uma livraria
era o local de encontros, trocas de
idéias, tradição na vida da cidade.
Onde está a Livraria do Globo que,
além de vender livros, era uma
trincheira intelectual dos gaúchos?
E a Livraria Americana em que
um livreiro-melômano-tradutor,
Herbert Caro, servia de credencial?
E a Livraria Lima, onde o atendedor
discutia Lima Barreto e Machado de
Assis com estudantes de Letras?
Ao passar uma dona escultural,
às vezes, cessava toda a discussão
de idéias e começava a paquera...
Lá pelas tantas foram sumindo
do mapa aqueles oásis culturais
e a Rua da Praia ficou mais árida.
Quem hoje quiser parar numa
porta de livraria,será derrubado
pelaslevasincessantes de povo.
Latas de margarina, jogos de cama e
mesa, camisetas grifadas importam
muito mais que os fantasmas dos livros!
E pensar que antes os bate-papos e os
flertes iam decidindo devagar
os magnos destinos da humanidade!...
De quando em vez algum de nós comprava
um livro para agradar o dono da firma e
ao mesmo tempo se dar ares de intelectual!
Poana: Portas de Livraria
Auton IsaacStarosta

93
RUA, TEATRO DA VIDA OS PERCURSOS ELOCALIZAÇÕES DOS ACONTECIMENTOS CoonL Cílli Ferraz de Souza
DE 4 A 4 - A SEMANA SANTA -
2 - CORerO NA RUADE BRAGANÇA PROCISSÃO 00 ENTERRO
O Algayer, que tafnt>éni é velho, me
-=S'rífí-U"''-S'"l PROCISSÃO 00 ENTERRO
observou que náo fiz referencia à 3-A PRIMEIRA FORMATURA • •[ rii 1
:í''í 'i 11 rs. & Opréslito saía da Matriz (..) ora Im-
ornamentado da Rua de Bragança, (dú Tiro 4- Escola deSoldados) T íLirj"JLT ir l ponente a cerimônia do seimâo, em
li[I'0TTl ii < uma tribuna armada ali na Praça da
quando ctlel a Rua da Praia, nos Foi no dia 21 de ebill de 1909. Saímos ii ' Allãndega. por ocasião desse dosti-
DE 1 A t - COKÍO SE FESTEJAVA dias de lesta. Tem razão. Quem or da sede à Rua Benjamin Constam es- =rv
T] V]|T]; '• a ! le, no qual havia duas figuras obri-
Mi:)MO HÁ UM QUARTO DE SÉCU namentava a Rua de Bragança era o quina com Séo Pedro e depois de <i :• -r rj. i. t . gadas(...): uma era o Judas, um su-
LO - PARTE I seu "Justirto aHalaie". e que vMa percorrer toda a Rua da Floresta pu- -i-ik-L -h = - - j e i t o vestido do encarnado, que vi
em eterna rivalidade com o coronel xada pela banda do 25° de Inlaniana. .ílj ;r -•r—r • I 1 / nha tocando cometa o o outro era
Um dia. os Venezanos desembar
Carvalho (da loja dos Opetãtios} foi dado o toque de alio, na esquina si ::~r
•• 1 . „... .; I / um grande estandarte roxo(..) (Ma-
cavam os seus Sócios a porta do
que ornamentava a parte de baixo. da Rua Barres Cassai. Velo a reco-. - • I zoron, p.53.)
Club Caixeiros. quando vindo lá do
No colégio comentava-se: "Defronte mendaçâo do comando: 'Vamos en- • . •
alto da Caridade, surgiu o corso do
a casa do Atgayer armaram um co Irar na cidada. Agora toda a elegância . \ :-
Esmeralda, que também realizava o
reto muito bonito e lã toca a banda 6 pouca", (Maziron, p.32) i; i ' ,.
baile naquele dia. Ao chegar na es da Flonsia Aurora..."(Uazeron, I
^ sMV"
\. 5-FESTA DO MENINO DEUS
quine da Rua Dr. Flores, um grupo •./ / \\-- v. VMuíIos Ignoram que ]á oxlsliu, nos
de torcedores exaltados entendeu
P-20.)
: / \\. 'v- dias do tosta uma Imha do nave
que o Esmeralda devia esperar que
os Vanezianos tivessem terminado
/ 1) : gaçâo para o Menino Deus! Os na-
seu desembarque. Pode' Néo pode!
j u .1' nvios partiam da Praça da Allãndega
Passai Não passa! (Mazeron, p.23.| i l ) . - r i j Nosso sentido, onconltoi o seguinte
*, /' "^4-'i. \ anúncio, publicado cm 1874. 'Para
'-Á.\ 7'mais comodidade
'i\ das tamíllas que quiserem trânsito
o lácilassistir ás
i-.i. / -''-PP''
- V'\
\P \ 'ásias
fásias do
do Menino
Menlr Deus, o vapor
A -'' íi \\--^'^Py
\XP'^py '®'á "199®" viagens para aquele por-
partindo do
VA 'A 'í- \\\ 'i:.- -Vil, -to, Párlindo ir
do irapicho da Allânde-
(Mazeron
(Mazeron, p.6i.)

5, Dse
6 - A PRIMEIRA FESTA OA BAN
DEIRA
(...) notícia que o Correio do Povo
y «t* DLCCrf DE CA*IAS^^ 7^ publicou, em sua edição de vmtc de
P'- 'PP. • L..JL.^UU:á' F "^novembro de 1910 "(..) O próslito,
acompanhado pela banda do Imús-
^:s^cia da Escolado Guerra o pia do 1"
batalhão da Brigada Militar, pcrcor-
|reua Rua dos Andradas, conduzin
do lanternas venezianas o dando vi-
'^vas ao marechal Hermes da Fonse-
^ca, ao Brasil, ao Tiro Brasileiro. (...)
De um coreto levantado à Praça
Senador Florênclo, o nosso compa-
. nhoiro (...) saudou a bandeira brasi-
loira.

8 - COMO SE FESTEJAVA MÔMO •,yO préstilo, depois de haver percor-


HÁ UM QUARTO DE SECULO - ^ rido a Rua dos Andradas, al6 a rua
PARTE II p-Goneral Bento Martins, disscivcu-sc
(...)". (Mazeron, p.84.)
Vamos reviver um pouco o Carnaval
de antigamente? (..) Muitos tava-
Iheiros sisudos e lespenaveis que
itoje passam indiferentes pelas por 7- PERCURSO PROVÁVEL 00 CORTEJO'W-., -L'!
tas dos salóes |...) |ã sambaram em FÚNEBRE DE JÚLIO DE CASTILHOS. .. ^ 1. "'p;
plena Rua da Praia o foram fottóes
de respeito. (Mazeron. p 22)
Fontes iconográficas e de pesquisa

JORNAIS

O Independente
O Século
A Gazetínha
A Federação
Correio do Povo
A Gazeta da Tarde

LIVROS

FERREIRA, Athos Damasceno. Poemas de minha cidade. 2. ed. Porto Alegre,


Globo, 1944.
FRANCO, Sérgio da Costa. PortoAlegre: guia histórico. Porto Alegre, Ed. da
Universidade/UFRGS, 1988.
PORTO ALEGRE, Achylles. Noutrostempos. Porto Alegre, Globo, 1922.
SOUZA LOBO, J. C. de; TOTTA, Mario; AZURENHA, José Paulino de. Es-
trychnina. Porto Alegre, Livr. Americana, 1897.

Instituições que contribuíram


para obtenção do material

Acervo Fotográfíco do Museu de Porto Alegre


Arquivo Histórico de Porto Alegre
Arquivo Histórico do Estado do Rio Grande do Sul
Fototeca do Núcleo de Documentação e Memória Social/UFRGS
Gabinete de Estudos e Documentação em Urbanismo/UFRGS
Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grandedo Sul
Museu de Comunicação Social Hipólito Joséda Costa

Fontesdas pranchas
FERRAZ DE SOUZA, Célia; MÚLLER, Dóris. Porto Alegre: análise desua
1978 Relatório da pesquisa. Porto Alegre, Fac. ArquiteturaAJFRGS,
LEMOS, Carlos. História da casabrasileira. São Paulo, Contexto, 1989.
MAZERON, Gaston Hasslocher. Reminiscências de Porto Alege. Porto Ale
gre, Selbach, 1940.
R^S FILHO, Nestor Goulart. Quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo,
Perspectiva, 1970.
WEIMER, Gttnter et alii. Afase historicista da arquitetura no Rio Grande do
Sul. In: FABRIS, Ana Tereza (org.). Ecletismo na arquitetura brasileira. São
Paulo, Nobel/EDUSP, 1987.

95
Fotolitos:
Printhaus Fotolito Editora Ltda.
Av. Sertório, 5235 - Porto Alegre, RS
(051) 344-4088

Impressão:
EDELBRA Indústria Gráfica e Editora Ltda.
Av. Sete de Setembro, 466 -1® andar - Erechim, RS
(054)321-3619
A rua de outrora
cedeu lugar à rua dos novos tempos,
com novos prédios, calçadas alinhadas.
Iluminação e esgotos.
Captando o instonte^ eternizando o gesto,
resgatando a palayrajsjiciõlizando as imagens,
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os pintojreSi eseríter^, jornalistas, I /•

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poetas Bfdlpg^^ tiveram na rua
®a sua fonte dd|ti#jytaçaq, deixaodo j '^

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