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HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva.

São Paulo: Vértice; Editora Revista


dos Tribunais LTDA, 1990.

|PREFÁCIO|

Sob a superfície externa, que recolhe uma tradição respeitosa e ingênua, se


sobrepõe as camadas de interpretações diferentes, onde cada uma corresponde às
perspectivas reais de tal ou tal grupo (tal ou tal seita), definindo como
correspondendo a seu lugar num tempo e num espaço. Pag. 13
[...] a memória individual existe, mas ela está enraizada dentro dos quadros diversos
que a simultaneidade ou a contingência reaproxima momentaneamente. A
rememoração pessoal situa-se na encruzilhada das malhas de solidariedades
múltiplas dentro das quais estamos engajados. Pag. 14
|INTRODUÇÃO|
|Maurice Halbwachs (1877 – 1945)|
|Advertência para a segunda edição|
A primeira edição de 1950 continha exclusivamente quatro capítulos manuscritos,
encontrados nos papéis de Maurice Halbwachs, sob o título: La mémoire colletive
[...] Os títulos do capítulos foram escolhidos pelo autor; somente os subtítulos foram
acrescentados pelos editores. Pag. 24
|CAPÍTULO 1 – MEMÓRIA COLETIVA E MEMÓRIA INDIVIDUAL|
|Confrontações|
Fazemos apelo aos testemunhos para fortalecer ou debilitar, mas também para
completar, o que sabemos de um evento do qual já estamos informados de alguma
forma, embora muitas circunstâncias nos permaneçam obscuras. Pag. 25
Ora, a primeira testemunha, à qual podemos sempre apelar, é a nós próprios. Pag.
25
[...] se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobre lembrança, mas também
sobre a dos outros, nossa confiança na exatidão de nossa evocação será maior,
como se uma mesma experiência fosse recomeçada, não somente pela mesma
pessoa, mas por várias. Pag. 25
|O esquecimento pelo desapego de um grupo|
Se [...] essa cena parece não ter deixado , como se diz, nenhum traço em nossa
memória, isto é, se na ausência dessas testemunhas nós no sentimos inteiramente
incapazes de lhe reconstruir uma parte qualquer; aqueles que nô-la descrevem
poderão fazer-nos um quadro vivo dela, mas isso não será jamais uma lembrança.
Pag. 28
[...] somente que, desde o momento em que nós e as testemunhas fazíamos parte
de um grupo e pensávamos em comum sob alguns aspectos, permanecemos em
contato com esse grupo, e continuamos capazes de nos identificar com ele e de
confundir nosso passado com o seu. Pag. 28
|Necessidade de uma comunidade afetiva|
[...] a memória individual, enquanto se opõe à memória coletiva, é uma condição
necessária e suficiente do ato de lembrar e do reconhecimento das lembranças? De
algum modo. Porque, se essa primeira lembrança foi suprimida, se não os é mais
possível encontrá-la, é porque, desde muito tempo, não fazíamos mais parte do
grupo em cuja memória ela se conservava. Para que nossa memória se auxilie com
a dos outros, não basta que eles nos tragam seus depoimentos: é necessário ainda
que ela não tenha cessado de concordar com suas memórias e que haja bastante
pontos de contato entre uma e as outras para que a lembrança que nos recordam
possa ser reconstruída sobre um fundamento comum. Pag. 34
|Da possibilidade de uma memória estritamente individual|
[...] a memória coletiva não explica todas as nossas lembranças e, talvez, que ela
não explica por si mesma a evocação de qualquer lembrança. Pag. 37
|1.º Lembranças da infância|
|2.º Lembranças de adulto|
|A lembrança individual como limite das interferências coletivas|
[...] cada grupo social empenha-se em manter persuasão junto a seus membros.
Pag. 47
[...] cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este
ponto de vista muda conforme o lugar que ali ocupo, e que este lugar mesmo muda
segundo as relações que mantenho com outros meios. Pag. 51
|CAPÍITULO II – MEMÓRIA COLETIVA E MEMÓRIA HISTÓRICA|
|Memória autobiográfica e a memória histórica: Sua oposição aparente|
Seria o caso, então, de distinguir duas memórias, que chamaríamos, se o
quisermos, a uma interior ou interna, a outra exterior; ou então a uma memória
pessoal, a outra social. Diríamos mais exatamente ainda: memória autobiográfica e
memória histórica. Pag. 54
[...] toda história nossa de vida faz parte da história em geral. Pag. 55
[...] como auxiliares da nossa memória, os acontecimentos históricos não
desempenham um outro papel senão divisões do tempo assinaladas em um relógio,
ou determinadas pelo calendário. Pag. 56
|Sua real interpretação (A história contemporânea)|
Por história é preciso entender então não uma sucessão cronológica de
acontecimentos e de datas, mas tudo aquilo que faz com que um período se distinga
dos outros, e cujos livros e narrativas não nos apresentam em geral senão um
quadro bem esquemático e incompleto. Pag. 60
|A história vivida a partir da infância|
|O liame vivo das gerações|
[...] os quadros coletivos da memória não se resumem em datas, nomes e fórmulas,
que eles representam correntes de pensamento e de experiência onde
reencontramos nosso passado porque este foi atravessado por isso tudo. Pag. 66
A história não é todo o passado, mas também não é tudo aquilo que resta do
passado. Pag. 67
|Lembranças reconstruídas|
À medida que os acontecimentos se distanciam, temos o hábito de lembrá-los sob a
forma de conjuntos, sobre os quais se destacam às vezes alguns dentre eles, mas
que abrangem muitos outros elementos, sem que possamos distinguir um do outro,
nem jamais fazer deles uma enumeração completa. Pag. 72
|Lembranças simuladas|
|Quadros longínquos e meios próximos|
Para que a memória dos outros venha assim reforçar e completar a nossa, é preciso
também, dizíamos, que as lembranças desses grupos não estejam absolutamente
sem relação com os eventos que constituem o meu passado. Pag. 78
[...] a memória de seu grupo registra fielmente tudo aquilo que pode dizer respeito
aos acontecimentos e gestos de cada um deles, porque repercutem sobre essa
pequena sociedade e contribuem para modifica-la. Dentro de tais meios, todos os
indivíduos pensam e se recordam em comum. Cada um sem dúvida, tem sua
perspectiva, mas em relação e correspondência tão estreitas com aqueles outros
que, se suas lembranças se formam, basta que ele se coloque do ponto de vista dos
outros para retificá-las. Pag. 80
|Oposição final / Entre a memória coletiva e a história|
Quando uma sequência de acontecimentos não tem mais por suporte um grupo,
aquele mesmo em esteve engajada ou que dela suportou as consequências, que lhe
assistiu ou dela recebeu um relato vivo dos primeiros atores e espectadores, quando
ela se dispersa por entre alguns espíritos individuais, perdidos em novas sociedades
para as quais esses fatos não interessam mais porque lhes são decididamente
exteriores, então o único meio de salvar tais lembranças, é fixa-las por escrito em
uma narrativa seguida uma vez que as palavras e os pensamentos morrem, mas os
escritos permanecem. Pag. 80-81
|A história, quadro de acontecimentos / As memórias coletivas, centro de
tradições|
Há, com efeito, muitas memórias coletivas. É a segunda característica pela qual se
distinguem da história. A história é uma e podemos dizer que não há senão uma
história. Pag. 85
Toda a memória coletiva tem por um suporte um grupo limitado no espaço e no
tempo. Pag. 86
A memória coletiva [...] é o grupo visto de dentro, e durante um período que não
ultrapassa a duração média da vida humana, que lhe é, frequentemente, bem
inferior. Pag. 88
|CAPÍTULO III – A MEMÓRIA COLETIVA E O TEMPO|
|A divisão social do tempo|
[...] de tanto medir o tempo, de modo a preenchê-lo bem, chegamos a não saber
mais o que fazer desses pedaços de duração que não se deixam mais dividir da
mesma maneira, porque se é abandonado a si próprio, se é retirado qualquer jeito
da corrente social da vida exterior. Pag. 92
|A Duração Pura (Individual) e O “Tempo Comum” Segundo Bergson|
|Crítica do subjetivismo Bergsoniano|
|A data, quadro da lembrança|
[...] o tempo nos importa aqui somente na medida em que deve nos permitir
conservar e lembrar dos acontecimentos que ali se produziram. Este é o serviço que
esperamos dele. Isso é verdade para os acontecimentos do passado. Pag. 100
Acontece também que não reconstituímos o quadro temporal senão depois que a
lembrança foi restabelecida e então somos obrigados, a fim de localizar a data do
acontecimento, dele examinar em detalhes todas as partes. Pag. 101
|Tempo abstrato e tempo real|
|O “tempo universal” e os tempos históricos|
[...] são as repercussões, e não o acontecimento, que penetram a memória de um
povo que as suporta, e somente a partir do momento em que elas o atingem. Pag.
106
|Cronologia histórica e tradição coletiva|
|Multiplicidade e heterogeneidade das durações coletivas|
[...] a história se interessa pelo passado e não pelo presente. Mas o que é
verdadeiramente o passado para ela, é aquilo que não está mais compreendido no
domínio onde se estende ainda o pensamento dos grupos atuais [...] Sem dúvida, é
preciso então apoiar-se em depoimentos antigos cujo rastro subsiste nos textos
oficiais, jornais da época, nas memórias escritas pelos contemporâneos. Pag. 109
Não é menos verdade que, de um grupo a outro, as divisões do tempo que se
harmonizam não são as mesmas e não têm nesse caso o mesmo sentido. Tudo se
passa como se num mesmo pêndulo comunicasse seu movimento a todas as partes
do corpo social. Porém, na realidade não existe um único calendário, exterior aos
grupos e ao qual eles se refeririam. Há tantos calendários quantas sociedades
diferentes [...] Pouco importa que aqui e ali e fale de dias, de meses, de anos. Um
grupo não poderia se servir do calendário de um outro. Pag. 114
|Sua impermeabilidade|
[...] um mesmo acontecimento pode afetar, ao mesmo tempo várias consciências
coletivas distintas; disso concluímos que nesse momento essas consciências se
aproximam e se unem numa representação comum. Pag. 115
O acontecimento também se produz no espaço, e pode ser que um e outro grupo o
percebam. Mas o que importa, é a maneira pela qual o interpretam, o sentido que
lhe dão. Pag. 116
|Lentidão e rapidez da transformação social|
[...] não podemos dizer que o tempo se escoa mais rápido ou mais lentamente numa
sociedade do que na outra; a noção de rapidez, aplicada ao curso do tempo, não
oferece uma significação definida. Ao contrário, é um fato marcante que o
pensamento, quando se recorda, pode percorrer em alguns instantes intervalos de
tempo mais ou menos grandes e percorrer o curso da duração com uma rapidez que
varia não somente de um grupo para o outro, mas ainda no interior de um mesmo
grupo, de um indivíduo para o outro, e até mesmo, para um indivíduo que
permaneça dentro do mesmo grupo, de um momento para o outro. Pag. 120
|A substância impessoal dos grupos duráveis|
O tempo onde viveu o grupo é um meio despersonalizado, em que podemos
assinalar o lugar de mais de um acontecimento passado, porque cada um deles tem
uma significação em relação ao conjunto. É essa significação que encontramos no
conjunto, e este se conserva porque sua realidade não se confunde com as imagens
particulares e passageiras que o atravessam. Pag. 123
|Permanência e transformação dos grupos as épocas da família|
Enquanto um grupo não muda sensivelmente, o tempo que sua memória abrange
pode se alongar: é sempre um meio contínuo, que se torna acessível em toda a sua
extensão. É quando se transforma que um novo tempo começa para ele e que sua
atenção, se afasta progressivamente daquilo que foi, e do que não é mais agora.
Mas o tempo antigo pode subsistir ao lado do tempo novo [...] Pag. 123
|Sobrevivência dos grupos desaparecidos|
[...] para reencontrar caminhos e monumentos antigos, conservados, aliás, ou
desaparecidos, guiamo-nos pela planta geral da cidade antiga, transportamo-nos em
pensamento até lá, o que é sempre possível àqueles que ali viveram, antes que
tivessem ampliado e reconstruído os velhos quarteirões, e para quem esses muros
ainda de pé, essas fachadas de outro século, esses trechos de ruas guardam sua
significação de outrora. Pag. 127
Poucas são as sociedades nas quais tenhamos vivido, seja em que tempo for que
não subsistam, ou que pelo menos não tenham deixado algum traço de si mesmas
nos grupos mais recentes onde estamos mergulhados: a subsistência desses traços
basta para explicar a permanência e a continuidade do próprio tempo nesta
sociedade antiga, e que nos seja possível, a qualquer momento, nela penetrar
através do pensamento. Pag. 127
|As durações coletivas: Bases únicas das memórias ditas individuais|
[...] se aproximando várias consciências individuais, podemos reposicionar seus
pensamentos ou seus acontecimentos em um ou vários tempos comuns, é porque a
duração interior se decompõe em várias correntes de pensamentos que têm sua
origem nos próprios grupos. A consciência individual é apenas o lugar de passagem
dessas correntes, o ponto de encontro dos tempos coletivos. Pag. 128
|CAPÍTULO IV – A MEMÓRIA COLETIVA E O ESPAÇO|
|O grupo em seu quadro espacial poder do meio material|
Quando um grupo está inserido numa parte do espaço, ele a transforma à sua
imagem, ao mesmo tempo em que se sujeita e se adapta às coisas materiais que a
ele resistem. Pag. 133
[...] todas as ações do grupo podem se traduzir em termos espaciais, e o lugar
ocupado por ele é somente a reunião de todos os termos. Cada aspecto, cada
detalhe desse lugar em si mesmo tem um sentido que é inteligível apenas para os
membros do grupo, porque todas as partes do espaço que ele ocupou
correspondem a outro tanto de aspectos diferentes da estrutura e da vida de sua
sociedade, ao menos, naquilo que havia nela de mais estável. Pag. 133
|As pedras da cidade|
Os hábitos locais resistem às forças que tendem à transformá-los, e essa resistência
permite perceber melhor até que ponto, em tais grupos, a memória coletiva tem seu
ponto de apoio sobre as imagens espaciais. Pag. 136
|Situações e deslocamentos/Aderência do grupo ao seu lugar|
Para que essa resistência se manifeste, é preciso que emane de um grupo. Pag.
137
Um grupo [...] não se contesta em manifestar que sofre, em indignar-se e protestar
na hora. Resiste com todas as forças de suas tradições, e essa resistência não
permanece sem efeito. Procura e tenta, em parte, encontrar seu equilíbrio antigo sob
novas condições. Pag. 137
|Agrupamentos aparentemente sem bases especiais: Agrupamentos jurídicos,
econômicos, religiosos|
[...] não é suficiente considerar que os homens estejam reunidos num mesmo lugar,
e guardar na memória a imagem desse lugar para descobrir e se lembrar a que
sociedades eles se ligam. Pag. 139
|A inserção no espaço da memória coletiva|
Diremos que não há, com efeito, grupo, nem gênero de atividade coletiva, que não
tenha qualquer relação com um lugar, isto é, com uma parte do espaço, porém isto
está longe de ser suficiente para explicar que, representando-nos a imagem do
lugar, sejamos conduzidos a pensar em tal atuação do grupo que a ela esteve
associada. Pag. 143
|O espaço jurídico e a memória dos direitos¹|
|O espaço econômico|
|O espaço religioso|
*
[...] há tantas maneiras de representar o espaço quantos sejam os grupos. Pag. 159
Não é certo então, que para lembrar-se, seja necessário se transportar em
pensamento para fora do espaço, pois pelo contrário é somente a imagem do
espaço que, em razão de sua estabilidade, dá-nos a ilusão de não mudar através do
tempo e de encontrar o passado no presente; mas é assim que podemos definir a
memória; e o espaço só é suficientemente estável para poder durar sem envelhecer,
nem perder nenhuma de suas partes. Pag. 160