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O Dia em que a

Polícia parou!
4ª Edição - Janeio de 2013

Preço deste exemplar: R$ 5,00


Capa e Diagramação: Edgard Nogueira Cherubino Júnior
Júlio Cesar Gomes
CABO JÚLIO

O Dia em que a
Polícia parou!

A Verdadeira história da greve da


polícia mineira que parou o Brasil
Os recursos obtidos com a venda desta obra, serão
destinados integral e exclusivamente ao Instituto
de Ação Social Projeto Restaurando Vidas.

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Í NDICE
AGRADECIMENTOS ................................................................................................. 7
INTRODUÇÃO (CABO JÚLIO)......... .......................................................................................8
O SONHO E A PAIXÃO PELA FARDA .............................................................................. 9
A REALIDADE NOS QUARTÉIS .................................................................................. 11
FALTA DINHEIRO ................................................................................................. 12
CABO JÚLIO ....................................................................................................... 13
O COMANDO É ALERTADO ...................................................................................... 14
AUMENTO ÀS ESCONDIDAS ..................................................................................... 15
BOATOS ............................................................................................................ 16
SAI O REAJUSTE ................................................................................................... 16
CÃO BANGUELO .................................................................................................. 17
EXPLICAR O INEXPLICÁVEL ...................................................................................... 17
SUICÍDIO ........................................................................................................... 18
VIVENDO NO BANHEIRO ......................................................................................... 18
GOVERNO NÃO TEM DEFINIÇÃO SOBRE SALÁRIOS ........................................................... 19
ESTOPIM ........................................................................................................... 20
IOGURTE ............................................................................................................ 21
GUERRA DE NERVOS ............................................................................................. 21
COMEÇA A GREVE ................................................................................................ 24
FOGO ............................................................................................................... 25
DESPREZO E VAIAS ............................................................................................... 26
A GREVE SE ESPALHA ............................................................................................ 28
NASCE UM LÍDER ................................................................................................ 29
AH! EU TÔ É DURO! ............................................................................................. 29
APOIO DA POPULAÇÃO .......................................................................................... 33
COMISSÃO DEFINE REIVINDICAÇÕES ÀS PRESSAS ............................................................ 35
CANCELADA A ORDEM DE CONFRONTO ....................................................................... 36
PRIMEIRA REUNIÃO DE NEGOCIAÇÃO ......................................................................... 37
ABRAÇO DO PIRULITO ........................................................................................... 37
COMANDO-GERAL RECEBE OS PRAÇAS ........................................................................ 39
GOVERNO FAZ PRONUNCIAMENTO ............................................................................. 39
SARGENTO TENTA SUICÍDIO ..................................................................................... 43
PRIMEIRA ASSEMBLÉIA .......................................................................................... 44
INTERIOR ........................................................................................................... 45
TÁTICA DO SILÊNCIO ............................................................................................. 47
RECRUTAS DE PRONTIDÃO ....................................................................................... 47
AS NEGOCIAÇÕES ................................................................................................ 48
GUERRA SUJA ..................................................................................................... 49
O AMARELINHO .................................................................................................. 50
A AMEAÇA DO SECRETÁRIO .................................................................................... 51
A FORÇA LEGISTA (FORLEG) .................................................................................... 52
TROCA DE COMANDO NO BPCHOQUE ........................................................................ 53
MAIS GUERRA SUJA ............................................................................................. 54
AS AMEAÇAS ..................................................................................................... 55
A GRANDE ASSEMBLÉIA ......................................................................................... 55
PRISÃO POR TELEFONE ........................................................................................... 57
POLÍCIA UNIDA JAMAIS SERÁ VENCIDA ....................................................................... 58
POLÍCIA CONTRA POLÍCIA ....................................................................................... 60
TIROTEIO ........................................................................................................... 61
GOVERNO CHAMA EXÉRCITO ................................................................................... 65
BARRICADAS NO QUARTEL CENTRAL GERAL .................................................................. 68
REABERTAS AS NEGOCIAÇÕES .................................................................................. 69
ORDENS E CONTRA-ORDENS .................................................................................... 69
CABO VALÉRIO EM ESTADO CRÍTICO .......................................................................... 70
O DIA SEGUINTE .................................................................................................. 71
GOVERNADOR FAZ PRONUNCIAMENTO ........................................................................ 72
FALA O EXÉRCITO ................................................................................................ 73
OS LAUDOS CONTRADITÓRIOS .................................................................................. 74
SAI O ACORDO .................................................................................................... 75
NOVA ASSEMBLÉIA É CANCELADA ............................................................................. 77
TOLERÂNCIA ...................................................................................................... 79
SUSPEITO SE APRESENTA ......................................................................................... 80
VÍTIMA, HERÓI, OU MÁRTIR, O CABO VALÉRIO É ENTERRADO EM CLIMA DE EMOÇÃO .............. 81
INQUÉRITOS POLICIAIS MILITARES (IPMS) ................................................................. 82
PERÍCIAS E DEPOIMENTOS SE CONTRADIZEM ................................................................ 83
LAUDO DUVIDOSO INOCENTA CORONEL ...................................................................... 84
OFICIAIS INSATISFEITOS .......................................................................................... 85
MOVIMENTO ESTOURA NO PAÍS ............................................................................... 86
COMANDO AFASTA CABO JÚLIO PARA LONGE DA TROPA ................................................... 90
PARANÓIA - DE OLHO NA MARACUTAIA ..................................................................... 92
CONTINUAM OS IPMS .......................................................................................... 93
EXPULSOS .......................................................................................................... 94
JULGAMENTO ...................................................................................................... 95
DEPOIMENTO DO COMANDANTE GERAL DA POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS ...................... 97
CORONEL JOSÉ GUILHERME DO COUTO ...................................................................... 105
TRECHOS DE DEPOIMENTOS DE OFICIAIS NO CONSELHO DE DISCIPLINA DO CABO JULIO ............ 112
CONCLUSÃO ..................................................................................................... 114

6
Agradecimentos

A Deus, que me inspirou a escrever este livro para contar a verdadeira


história do movimento que mudou os rumos da Polícia Militar de Minas Gerais.

Aos meus colegas de Corporação que me protegeram quando sofria


ameaças de morte, e que me confiaram a difícil tarefa de representá-los.

Ao pastor Raul Lima Neto (pos mortem) meu amigo e companheiro de


Ministério que foi o vaso de Deus para abençoar a minha vida.

Ao meu amigo Doutor Carlos Pimenta, advogado incansável em defesa


do praças, que não mediu esforços para me defender.

A amiga Paula Rangel, jornalista brilhante, minha companheira nesta obra,


que não mediu esforços em pesquisar e colher depoimentos para que este livro
pudesse detalher ao povo mineiro e ao povo brasileiro os bastidores daqueles
momentos; para que a verdadeira história viesse a tona.

7
Introdução

Este livro tem a finalidade de esclarecer ao povo brasileiro o que realmente


aconteceu durante o movimento inédito dos praças da Polícia Militar do Estado
de Minas Gerais, que iniciou em 13 de junho de 1997.
Foram quase cinco anos de pesquisa, busca de depoimentos. Você agora
conhecerá os bastidores do movimento que mudou a história da conservadora
Polícia de Minas Gerais.
Vários boatos aconteceram: premeditação, ideologia política, infiltração
da esquerda, incitação sindical, etc. Mas não é verdade, ele não foi planejado
ou idealizado, pois se assim o fosse, o serviço de informações da PM (P2),
certamente o abafaria. O que aconteceu foi uma explosão natural e espontânea
de uma classe esquecida e massacrada.
A sociedade não conhecia sua Polícia Militar. Neste livro, procuramos
repassar para o leitor uma radiografia real de sua Polícia. Quando o cidadão
liga 190 (emergência) e solicita um policial para resolver seu problema, não
imagina que o funcionário solicitado para resolver a situação na qual se
encontra tem muito mais problemas que ele. Quem é pago para proteger está
totalmente desprotegido. Suicídios, alcoolismo, separações familiares e
endividamento são problemas comuns na vida de um policial.
Procurei contar todos os detalhes do acontecido, detalhes que, muitos
praças que participaram do movimento, não sabem. Procuramos detalhar os
bastidores das negociações, as ameaças, o desespero e as pressões. O descrito
neste livro contém um depoimento fiel à realidade dos quartéis e à situação em
que se encontram nossos irmãos da Polícia Civil.
A Polícia Militar e a Polícia Civil de Minas Gerais são e sempre serão as
melhores do Brasil. Apesar de tudo, somos o patrimônio do povo mineiro.
Agora você conhecerá aqueles que, mesmo com o sacrifício da própria
vida, são vocacionados para a difícil missão de protegerem o cidadão, e, muitas
vezes, estarem totalmente desprotegidos.

8
O sonho e a paixão pela farda

Nasci em 19 de maio de 1970, no Hospital Belo Horizonte, bairro


Cachoeirinha, região norte de Belo Horizonte. Meu pai, um pernambucano da
cidade de Caruaru, e minha mãe, mineira da cidade de Coluna, Zona da Mata,
interior de Minas Gerais.
Desde criança, sonhei em ser um militar. Aos sete anos de idade, sempre
que visitava meus dois tios, ambos da Polícia Militar do Estado de Minas
Gerais, antes mesmo de pedir a benção, minhas palavras eram: Tio, me dê a
roupa de Polícia.
Aos onze anos de idade comecei a trabalhar, fazia de tudo, vendia picolés,
refrigerantes, trabalhava como balconista, mas por necessidade e não por
vocação. O sonho de ser militar continuava aceso. A cada ano que passava a
ansiedade de vestir uma farda aumentava mais. Após completar dezesseis anos
e terminar o segundo grau, formando-me como técnico em contabilidade, surgiu
minha primeira oportunidade, a Marinha do Brasil. Disputando uma vaga na
proporção de, aproximadamente, 50:1 (cinqüenta por um), passei no concurso
para o Corpo de Fuzileiros Navais, tropa de elite da Marinha. As etapas
seguintes não foram diferentes, passei em todas. Mas, faltando uma semana
para o ingresso, a decepção aconteceu. No último exame de saúde, ao passar
pela junta médica, fui reprovado porque apresentava micoses na pele,
decorrentes de um banho de piscina. O sonho começou a desmoronar. Entre
lágrimas, já pensava no que fazer para realizar meu grande sonho. Com uma
semana, as micoses já estavam curadas e estava pronto para uma nova tentativa.
Foi então que veio a decisão: Vou ser um soldado da Policial Militar.
Ainda sem qualquer informação a respeito de como ingressar na Corporação,
procurei o 5° Batalhão, no bairro Gameleira, na capital, quartel onde meus tios
trabalhavam, para me informar a respeito de como fazer para me tornar um
soldado. Mas o destino já estava selado. Ao entrar no quartel, vi uma
placa: SEJA UM POLICIAL MILITAR. INSCRIÇÕES ABERTAS.
Informei-me do que era necessário para fazer a inscrição e eu preenchia
todos os requisitos. As provas não foram difíceis e em pouco tempo já
estava realizando o sonho. No primeiro dia do mês de dezembro de 1988,
9
incorporava-me naquela unidade.
Formei no mês de julho do ano seguinte, e, após um ano como soldado,
estava cursando o Curso de Formação de Cabos. Ouvia falar muito em histórias
de cabos importantes. Foi uma satisfação muito grande quando, em 1990,
coloquei em minha farda as duas divisas de cabo.

Cabo Júlio em frente ao Batalhão de Choque

10
A realidade nos quartéis

Em outubro de 95, o Coronel aposentado, Dirceu Brás, publica um artigo


no jornal Estado de Minas intitulado Crise de fome da PM, enfatizando a
situação de dificuldade salarial da tropa. Neste artigo, afirma que o Comando
da PM não reivindicava melhores salários e condições de trabalho para a tropa
porque os coronéis do alto comando tinham rendimentos equivalentes aos de
secretário de Estado. Segundo o Coronel, esses salários eram recebidos pelo
comandante-geral, chefe do Estado Maior e chefe do gabinete militar. Era o
salário cala-boca. O artigo desperta polêmica na opinião pública e entre os
praças da Corporação.
Em outubro de 96, é divulgado por um grupo de militares da PMMG, que
se autodenominou Policiais Sofredores, um documento apócrifo, com
revelações sobre a penúria dos policiais militares. A primeira revelação: o índice
de criminalidade em Minas Gerais estaria aumentando, o que contestava as
estatísticas divulgadas na imprensa pelo Comando da PM. O documento
questiona ainda a própria credibilidade da Corporação, afirmando que o
Comando da PM estaria manipulando as estatísticas. Nesse documento, que
chegou às redações entregue pessoalmente por praças da PM, os autores
afirmam que o sistema de policiamento comunitário, implantado recentemente,
seria uma forma proposta pelo Comando para reduzir o policiamento ostensivo
nas ruas por falta de condições operacionais. Ainda de acordo com o
documento, só 40% do orçamento da Corporação havia sido repassado pelo
Governo no ano de 96.

11
Falta dinheiro

A PM está sem recursos para sua manutenção e para sustentar um


contigente de 45 mil homens da ativa e 12 mil reformados. Fornecedores apelam
à imprensa para conseguir receber por serviços prestados ou produtos
vendidos, principalmente fornecedores do setor de alimentação, que alegam
estarem com os pagamentos atrasados em até dois anos. Vários comerciantes
afirmam que foram obrigados a fechar as portas de seus estabelecimentos
porque não receberam o pagamento pelos serviços prestados. O Comando
admite a crise, atribuída ao difícil momento econômico por que passam o
Estado e o País.
As viaturas, quebradas nas oficinas dos Batalhões, são mostradas pela
TV Bandeirantes. Ambulâncias, Rotams, motos, patrulhas de trânsito se
amontoam nas oficinas e não há verba para reposição de peças ou dos carros.
O jornal Estado de Minas publica os contracheques dos praças, com salários
baixíssimos, sem identificação dos donos.
Em outubro de 96, o chefe do gabinete militar do Governo, Coronel
Hamilton Brunelli, é convidado a depor na Assembléia Legislativa. É
questionado sobre o porquê do não pagamento aos PMs do adicional de
periculosidade, de acordo com a Constituição Federal, que determina o
pagamento deste adicional para as atividades penosas, insalubres ou perigosas.
Ele afirma que o benefício não poderia ser estendido a todos porque só os
policiais de atividades operacionais e não os de função administrativa teriam
direito ao benefício, o que ameaçaria o princípio da isonomia salarial da
Corporação. Este benefício significaria um acréscimo de 40% nos salários. Até
hoje, os policiais militares e civis não recebem este benefício.

12
Cabo Júlio

Eu trabalhava na Rotam (Rondas Tático Metropolitanas), atuava no Plano


de Repressão de Assaltos a Bancos (Praban), um grupo tático especial, formado
por 24 PMs, que receberam treinamento específico para coibir e agir nas
ocorrências de assaltos nas agências bancárias. Fazem parte do Praban: cinco
Rotams e quatro Motos-Rotams, que circulam na região central.

Já existia, na época, uma insatisfação salarial que não era manifestada.


Conversávamos sobre a situação difícil dos companheiros, um procurando
ajudar o outro, pelo menos emocionalmente. A grande maioria dos PMs, 90% ,
tinha até dois empregos, além do emprego na Corporação. O policial saía de
manhã para o bico, trabalhando em serviços de segurança ou de entrega, dentre
outros, e a noite seguia para o seu plantão na Polícia.

O policial passava a metade da outra noite no terceiro emprego, de acordo


com a escala da PM e isso criava problemas familiares, pois era cobrado por
sua ausência em casa, discutia com a mulher, batia nos filhos, etc. Ao mesmo
tempo, este policial precisava do outro emprego para sobreviver e não tinha
como resolver este problema. Os PMs evitavam recorrer ao serviço de apoio
psicológico porque o psicólogo era oficial e havia o temor de que os problemas
chegassem ao conhecimento do Comando.

Muitos policiais procuram refúgio no álcool – 30% da tropa, segundo


minhas estimativas pessoais. Há casos de policiais que vão trabalhar com
sintomas de embriaguez e são punidos com penas de prisão variando de um a
trinta dias. O quarto problema é o mais grave: o suicídio. Para se ter uma idéia
da dimensão deste problema, a estatística de suicídio no mundo é de uma
pessoa para cada 100 mil, na PM é de um para cada 10 mil. O temor do
Regulamento Disciplinar da Polícia Militar impedia qualquer manifestação.

13
O comando é alertado

No dia 14 de março de 97, o comandante de policiamento da Capital,


Coronel José Guilherme do Couto, envia um memorando oficial (n. 046.1/97,
do 8° CRPM) a todos os comandantes de unidades operacionais, recomendando
a criação de listagens com históricos de militares que se encontram em situação
de extrema penúria financeira, ou algum tipo de desajuste conjugal, social e/
ou emocional.
No dia 15 de abril, um mês depois, a lista está pronta. O comandante de
policiamento da Capital encaminha ofício (n° 235.1/97) ao chefe do Estado-
Maior, anexando a lista com os históricos dos praças nesta situação, segundo
o levantamento feito pelos comandantes das unidades. Um documento pesado,
que alerta sobre a situação real nos quartéis.
Um mês antes da crise na PM, maio de 97, o comandante-geral, Coronel
Antônio Carlos dos Santos participa de uma reunião com os comandantes, em
Contagem, onde é comunicado de que a situação da tropa era de penúria
salarial, com militares morando em barracos de lona, endividados e,
consequentemente, do aumento dos casos de suicídio. O comandante-geral
desafia os oficiais presentes (comandantes do Batalhão de Choque, 1° BPM,
5° BPM, 13° BPM, 16° BPM, 18° BPM , 22° BPM, Regimento de Cavalaria
Alferes Tiradentes, Batalhão de Missões Especiais, Batalhão de Trânsito,
Batalhão de Bombeiros Militares e Batalhão de Guardas) a provarem que existe
defasagem salarial na Corporação. O comandante sugere ainda que se usem
indicadores econômicos para isto.

Suicida-se um soldado do
13° Batalhão, acusado de ter roubado
uma lata de leite em pó.

Ele é preso, levado sob escolta para casa para pegar o fardamento. O
suicídio acontece dentro do quarto dele, quando ele dá um tiro na cabeça na
frente da mulher e dos filhos. Segundo a assessoria do CPC (Comando de
Policiamento da Capital), o suicídio foi provocado por motivos pessoais.
14
Aumento às escondidas

Outros motivos aumentam a insatisfação. 0 13° salário é parcelado em


três vezes. Está proibida a conversão das férias-prêmio em dinheiro, há cortes
de convênios na área médica e o Governo decreta um aumento da contribuição
para o Instituto de Previdência dos Servidores da PM de 10 para 13%, na mesma
época. Os policiais permanecem calados, mas sofrem com a falta de
reconhecimento e de valorização pessoal e profissional. A moral está baixa na
tropa.
O Governo cria o PDV (Programa de Desligamento Voluntário), mas a
Policial não pode entrar. Poderia haver uma correria dos praças que já tinham
mais tempo de serviço e nenhuma expectativa de melhora de vida.
Em maio de 97, a Associação dos Delegados da Polícia Civil de MG
conquista, no Supremo Tribunal Federal, o direito à equiparação salarial com os
procuradores de Justiça. Durante uma festa, onde estavam presentes delegados
e oficiais da PM, o assunto é comentado pelos delegados. O comandante de
policiamento da Capital, Coronel José Guilherme do Couto, fica então sabendo
do aumento e que os delegados iriam receber a primeira das três parcelas.
No outro dia pela manhã, o Coronel José Guilherme do Couto, comandante
de policiamento da Capital (CPC) se encontra com o chefe do Estado Maior,
Coronel Herberth Magalhães, que se indigna com a notícia. Os dois vão até o
comandante-geral levar a situação. Os coronéis querem o mesmo aumento, por
um acordo de equiparação salarial entre as duas forças feito com o Governo
do Estado.
O Alto Comando da PM começa então a se mobilizar para pleitear, junto
ao Governo do Estado, a extensão deste aumento para os oficiais. Várias
reuniões que estavam fora da agenda oficial do governador acontecem nesta
época no Palácio da Liberdade, com representantes do Alto Comando.
O secretário de administração, Cláudio Mourão, é convocado pelo
governador a apresentar um estudo sobre a viabilidade e a forma de se conceder
o aumento. Segundo pessoas presentes nesta reunião, o secretário afirma: É
impossível aumentar de imediato os salários das duas corporações,
governador. Só dentro de dois meses poderíamos dar o aumento para a PM.

15
O Coronel Herberth Magalhães não aceita a resposta do secretário: Não
posso esperar nem mais uma hora, secretário. É inaceitável que um coronel
ganhe menos que um delegado.
O governador Eduardo Azeredo consulta os coronéis: Seria possível dar
um aumento apenas para os oficiais sem provocar reações na tropa?
A resposta foi enfática:

“Pode dar o aumento, governador,


nós seguramos a tropa”.

Boatos

Começam a circular boatos na tropa. Um dos boatos dava conta de que


o governador não gostava da PM. Dizia-se que um filho dele teria atirado cerveja
no rosto de um soldado, que estava na geral do estádio Mineirão num dia de
jogo.
Também circula a história da punição de um policial do 22° BPM que,
num posto de gasolina da avenida Nossa Senhora do Carmo, aborda o filho
do governador e diz: Fala para o seu pai dar um aumento para a gente. O
comentário do militar chega ao conhecimento do Comando, que o pune com a
transferência para o interior. Estas histórias circulam rapidamente na tropa.

Sai o reajuste

Através do Decreto Estadual n. 38.818, de 3 de junho, o governador


concede reajuste para 4 mil oficiais da PM, que variam entre 10,6 e 22%. Os
salários são equiparados aos dos delegados da Polícia Civil.
As entidades dos Praças haviam tentado uma audiência com o
governador no final de maio, mas o governador não os recebe.

O gabinete alega que o


governador só conversa
com coronéis e não com praças.

16
As entidades estudam a possibilidade de entrar com ação na Justiça
contra o aumento exclusivo para oficiais. Houve inversão de prioridades, dizem
os diretores das entidades.
O comandante de policiamento da Capital (CPC), Coronel José Guilherme
do Couto, declara aos integrantes das entidades que os praças também vão
receber aumento por gratificações de cursos e o Governo estaria estudando
uma maneira para que o aumento fosse estendido também aos policiais civis,
que não têm gratificações de cursos. Em entrevista, ele afirma:
“Entendo a insatisfação dos praças manifestada pelos seus representantes
das Entidades, mas espero que haja compreensão e um voto de confiança na
negociação do comandante-geral com o governador Eduardo Azeredo”.

Cão Banguelo
Na segunda semana de junho, quando das comemorações do aniversário
da 5a Cia. de Cães do BPChoque, o Coronel do CPC, José Guilherme do Couto,
fazendo uso da palavra em discurso para a tropa compara o adestramento de
um cão e o de um policial.

A expressão usada pelo coronel foi


um cão banguelo e desdentado
consegue fazer seu serviço, assim
como um policial adestrado,
apesar das dificuldades.

Este comentário foi feito para uma tropa formada, de aproximadamente


200 policiais, e logo se estendeu para o Batalhão de Choque, criando uma
revolta entre os choqueanos (policiais do Batalhão de Choque).

Explicar o inexplicável
Apesar do silêncio do Comando, vaza para a imprensa a informação de
que só os oficiais da PM receberiam o aumento exclusivo, mas as informações
eram contraditórias quanto aos valores. O que surpreende é a informação de
que o dinheiro já estava depositado. O comandante do CPC, Coronel José

17
Guilherme do Couto, bastante constrangido, convoca os jornalistas no início
da noite ao Quartel Central Geral (QCG) para explicar o aumento, que seria na
verdade uma equiparação ao salário conquistado na Justiça pelos delegados e
contesta os índices que vinham sendo divulgados pela imprensa, de que o
aumento era superior a 30%. Segundo o comandante, o aumento era escalonado
e os oficiais subalternos e intermediários (tenentes e capitães) receberiam mais
(22%). Os oficiais superiores receberiam menos. O aumento variava entre 10 e
22% e seria pago em três parcelas. A primeira parcela já havia sido paga. O
coronel afirma ainda que o aumento para os praças dependeria da aprovação
do projeto de lei que o Governo enviaria para a Assembléia nos próximos dias.
Com o aumento, o salário inicial dos oficiais subalternos (2o tenente) passaria
para R$ 1.500,00. O soldo inicial de um soldado era de R$ 332,00.

Suicídio
O soldado Leonardo Paulo de Souza (20) comete suicídio com um tiro
na boca, no dia 5 de junho, dentro do alojamento do 22° Batalhão, no bairro
Santa Lúcia, zona sul de Belo Horizonte. Ele estava sendo acusado de furtar
um carro. A Assessoria de Comunicação do CPC informa que era o sexto
suicídio cometido por um PM na Grande BH no decorrer do ano.
Na avaliação da PM, de acordo com a Assessoria:
“Os suicídios estão dentro de um patamar normal e não significam
desespero com uma situação financeira difícil. A maioria dos suicídios é
devida à situação pessoal e emocional das vítimas.”

Vivendo no banheiro
Um flagrante é registrado pela imprensa devido ao inusitado. Três policiais
militares estão vivendo num banheiro do Fórum Laffayette, num espaço de
pouco mais de 4m2. Esta situação já durava dois anos, sem que ninguém
tomasse providências. Apenas funcionários do Fórum tinham conhecimento
da moradia dos três policiais. Os PMs dormem em pedaços de espuma no
chão. Suas mulheres e filhos moram no interior. O salário médio destes praças
é de R$ 250,00. Um deles busca marmita toda semana em Barbacena, onde vive
a mulher, e a comida, que dá para uma semana, é guardada no refrigerador da
copa do 2° Tribunal de Justiça.
18
No dia 7 de junho, depois que a notícia sai nos jornais, os PMs são
transferidos para um quarto de despejo no próprio Fórum e ganham beliches
para dormir, abandonando os colchões de espuma. O Comando informa que
está estudando a situação deles.

Governo não tem definição


sobre salários
O Governo envia à Assembléia Legislativa um projeto de lei, em regime
de urgência urgentíssima, solicitando autorização para conceder reajustes
diferenciados ao funcionalismo por decreto.
O secretário estadual de Administração, Cláudio Mourão, afirma que ainda
não há definição sobre o percentual para o reajuste salarial do funcionalismo
público. Mourão diz que por enquanto, o Governo aguarda a aprovação da
Assembléia Legislativa para promover, via decreto, reajustes que não atingirão
todos os 452.297 servidores. A prioridade são as polícias Civil e Militar.

19
Estopim

No dia 6 de junho de 97, uma sexta-feira, o cabo Glendyson Hércules de


Moura Costa (31), do 16° BPM, é baleado com cinco tiros, durante perseguição
a assaltantes que tentaram roubar uma casa lotérica no bairro Floresta, na região
leste. O cabo é atingido no pescoço, peito e barriga. Um dos tiros perfura o
pulmão. Ele é levado em estado grave para o HPS (Hospital de Pronto-Socorro
João XXIII), onde os parentes dão entrevistas à imprensa, revoltados com a
situação do militar. A irmã, Gleise de Moura (29), declara:

“Os praças da PM são colocados


como escudo na frente dos bandidos e
quem recebe aumento salarial
são os oficiais.”

A mãe do cabo Glendyson, Maria Evangelista Moura Costa (59), diz


que o filho vivia em situação de miséria.

“Com seis anos de PM, ele recebe R$ 340,00. Nós da família temos
que ajudá-lo a manter sua mulher e suas duas filhas. E o pior, é que
se ele tivesse matado o bandido, estaria hoje preso no quartel, sujeito
a cometer suicídio diante das pressões dos seus superiores, como vem
acontecendo na PM”.

O comandante-geral faz uma declaração sobre o aumento de salário dos


oficiais:
“Não há distinção entre as funções dos oficiais e dos praças. Realmente
temos lutado para melhorar o salário dos praças, o Governo quer estender o
reajuste também às categorias mais baixas da Polícia Civil e isto somente será
feito junto com os praças da PM, para haver equiparação salarial entre as
corporações”.
No dia 8 de junho, depois de passar por várias cirurgias, o cabo Glendyson
é transferido para o CTI, em estado gravíssimo. Ele não resiste aos ferimentos
e morre no dia 11 de junho, às 23h45. O enterro é marcado para o dia seguinte
no cemitério da Paz, em frente ao BPChoque, no bairro Caiçara.
20
Iogurte
Os coronéis se reúnem, comentam a situação de hostilidade e uma
declaração do comandante da APM (Academia de Polícia Militar), Coronel
Edgar Eleutério, chega aos ouvidos da tropa. Ele diz que é favorável à
concessão do aumento para os oficiais, porque acredita que eles consigam
segurar a tropa. O coronel afirma:

“Antes de entrar para a PM, o


soldado comia arroz e feijão; depois
de ingressar na PM, já pode comer
arroz, feijão e carne. E agora ainda
está querendo comer iogurte”.

O comandante-geral ainda defende que os salários não estão


defasados e garante que o Governo vai estender o reajuste aos praças,
mas precisa encontrar uma maneira de não quebrar a isonomia com a
Polícia Civil.

Guerra de nervos

Os praças iniciam uma greve branca. Muitos fazem corpo mole no


atendimento de ocorrências. Eles distribuem cartas informando à imprensa que
estão deixando de atender ocorrências, ou fingindo que não as vêem.
A greve fria ou guerra de nervos é denunciada pela população. A
psicóloga Marisa Escaldas (28), disse que acionou uma Radiopatrulha para
solicitar providências no furto do carro de sua irmã e os militares se recusaram
a atendê-la. Eles responderam que não tiveram aumento de salário, só os
oficiais, e não iriam fazer a ocorrência e nem tentar localizar o carro, declara
ela.
O Comando da PM nega a greve fria. Uma das cartas que chega às
redações diz:
“Estamos vivendo momentos difíceis com os míseros salários recebidos
atualmente e que estão desestabilizando a vida do policial militar, ocasionando
problemas familiares e pessoais, como suicídio nos quartéis e participação em
crimes”.
21
Segundo o Comando da PM:
“A carta é expressão de pessoas desajustadas ao se manifestarem.
Qualquer manifestação somente irá prejudicar a situação, uma vez que o
governador pretende estender o reajuste também às categorias mais baixas das
Polícias Civil e Militar”.
O enterro do cabo Glendyson atrasa por causa da demora da liberação
do corpo e da chegada de oficiais. A viúva, mãe de duas crianças protesta:
“Não entendo esta demora. Se fosse um oficial, já teria havido o enterro.
Nos informaram que o corpo chegaria as 9 horas, depois mudaram para o meio-
dia”.
Ela conta detalhes da vida do marido:

“Ele tinha um soldo de R$ 340,00 e


para complementar esta renda
trabalhava como segurança de uma
cantina. Todo soldado e cabo da PM
têm que fazer bico, senão a família
morre de fome”.

Soldados da PM carregam caixão com o corpo do cabo Glendyson Costa

22
Um PM à paisana comenta:
“Somos os PMs mais mal pagos do Brasil e não podemos falar porque o
regimento interno proíbe qualquer manifestação”.
O comandante-geral não está presente ao enterro. O clima é de tensão e
hostilidade contra os oficiais.
Durante o enterro, quinze praças presentes anunciam à imprensa que iria
acontecer uma revolta porque a morte do companheiro é a gota d’água na
insatisfação dos policiais com os baixos salários.
“A revolta é iminente. Não podemos nos expor muito porque há muitos
oficiais aqui, inclusive à paisana”.
Os praças dizem que o comandante-geral é diretamente responsável pela
negociação dos salários com o Governo e se consideram traídos pelo aumento
exclusivo. Eles falam em greve, mas ainda com receio de punição.
Colegas do cabo Glendyson dão entrevistas aos jornalistas depois do
enterro, sem dar nomes. Eles reclamam dos salários baixos, do não pagamento
da gratificação de risco de vida e comparam os salários dos praças da PM de
Minas Gerais aos de outros estados, como o Distrito Federal e o Espírito Santo,
onde o salário inicial de soldado é de R$ 1.000,00, segundo os praças.
Outras reclamações: os salários já baixos têm muitos descontos dos
empréstimos feitos por eles, os equipamentos de trabalho estão ultrapassados.
Um deles afirma:
“Enquanto os marginais usam pistolas semi-automáticas, como o
assassino do cabo Glendyson, nós temos que trabalhar com armas calibre 38,
com mais de dez anos de uso. Temos sorte quando elas funcionam”.
O CPC, Coronel José Guilherme do Couto, é pressionado pelos jornalistas
a comentar a insatisfação e a possibilidade de um movimento de praças na PM
e responde:
“Apoiamos qualquer luta pelos direitos dos policiais, desde que
ocorra dentro dos regulamentos e seja mantida a disciplina. Também
acho que um soldado deveria ganhar R$ 1.000,00, mas o Estado não
tem como pagar”.
O coronel comenta ainda a questão do armamento:
“É praxe que a Polícia de todo o País só use arma calibre 38 que
possibilita maior pontaria, mas os bandidos realmente têm armas mais
poderosas”.

23
Começa a greve

Na hora do almoço, o clima é de revolta no Batalhão de Choque, o batalhão


de elite, que tem um efetivo de mil policiais e um salário médio de R$ 320,00.
Os policiais consideram que o aumento salarial dos oficiais significa que os
praças e suboficiais foram abandonados pelos próprios comandantes. Na
chamada de 13hs., os policiais não entram em forma, ficam parados no pátio
do quartel, de braços cruzados, e se recusam a se deslocarem nas viaturas
para o centro da cidade, onde formariam o reforço do policiamento na região.
A imprensa começa a chegar, por causa dos telefonemas dos praças alertando
sobre o movimento. Alguns policiais falam em voz baixa para os jornalistas
que eles decidiram entrar em greve por causa dos baixos salários.
O comandante da 3a companhia de Polícia de Choque, capitão Carlos,
anuncia ao subcomandante do Batalhão de Choque, major Renato Vieira, que
a tropa se nega a entrar em forma. O subcomandante reclama com o capitão
Carlos e designa um outro oficial, o capitão Valdeir, para deslocar-se até o
pátio e colocar a tropa em forma. O capitão Valdeir segue para o pátio e após
várias tentativas retorna de cabeça baixa e informa ao major que também não
havia conseguido.

“Achei que estava acontecendo algo estranho, surpreendente, e continuei


trabalhando, passando a observar a situação, mas ainda sem participar. Via o
nervosismo dos oficiais, que nunca tinham enfrentado uma situação semelhante.
O medo estava estampado nos rostos deles. Aqueles oficiais mais temidos pela
tropa, os chamados carrascos, eram os que tinham mais medo. Escondiam-se
em seus gabinetes, evitando sair ao pátio do batalhão. Fui conversar com
outros PMs, que diziam Nós não vamos descer para as ruas. Chega de salário
de fome”, declara Cabo Júlio.

O SubCmt Major Renato Vieira, que era considerado truculento e lixo


(termo militar para atribuir alguém que é desumano) se trancou em seu gabinete.

24
Fogo
Dentro do alojamento dos cabos e soldados, começa sair uma densa
fumaça, que chama a atenção de todos. O nervosismo entre os oficiais aumenta.
Alguns colchões são queimados no interior do alojamento. O major e alguns
capitães correm para todos os lados demonstrando desespero, o fogo aumenta,
começa o corre-corre, todos os oficiais se mobilizam com baldes na mão para
apagar o fogo. Os colchões são arrastados para fora do alojamento. Os oficiais
percebem que a tropa não está brincando e que pode surgir uma revolta.
Em uma tentativa de pressionar a tropa, em tom de desespero, o major
Renato diz para os oficiais:
“Não coloquem a mão em nada, vamos acionar a perícia para tirar as
impressões digitais e descobrir quem fez isso”. (Ele se esqueceu que está no
Brasil, e que isso só acontece nos filmes de TV).
Os PMs não se intimidam e afirmam:
“Essa ameaça não nos assusta. Já rompemos o elo principal: acabamos
de rasgar o RDPM”.
Do cemitério, os repórteres avistam a fumaça e correm para a porta do
Batalhão de Choque. A tropa, numa tentativa de demonstrar a situação de
revolta, cruza os braços no pátio, para alegria dos fotógrafos e cinegrafistas,
que já chegavam às dezenas ao Batalhão.
O comandante do Batalhão manda um assessor informar à imprensa que
tinha acontecido um curto-circuito na fiação elétrica. Ninguém acredita. Os
policiais riem. O comandante resolve fazer uma declaração à imprensa e acaba
por admitir um clima de insatisfação generalizada.
“Os baixos salários e a inadimplência com os compromissos financeiros
estão realmente deixando os policiais aloprados, mas a situação está sob
controle”.
O comandante admite então que a queima de colchões pode ter sido um
ato criminoso. “Pode ter sido ação de uma pessoa desajustada, em função
dos baixos salários e da morte de um colega”.

25
Desprezo e vaias
O comandante do CPC, Coronel José Guilherme do Couto, chega
instantes depois com a fisionomia preocupada, e não fala com a imprensa. Ele
se reúne primeiro com os oficiais e depois chama a tropa para uma reunião no
auditório do batalhão. Ninguém vai para o auditório. Ele espera 20 minutos,
apenas na presença dos oficiais. O coronel deixa o auditório e segue para a
viatura que irá levá-lo de volta ao QCG. No caminho, a viatura passa pelo pátio
e cerca de cem praças vaiam. O coronel deixa o prédio e é cercado pelos
jornalistas, mas se recusa a dar entrevista. Ele apenas diz: Não tem mais jeito,
eu tentei.
A tarde toda permanece o impasse. Os policiais não saem e começam a
tomar coragem para declarar aos jornalistas que estão em greve. Alguns vão
até à esquina do quartel para gravar entrevistas numa rua erma atrás do
cemitério. Eles estão com os rostos cobertos por gorros, blusas e cachecóis,
emprestados pelos próprios jornalistas. Denunciam desmandos, regalias dos
oficiais, falam sobre a revolta com os baixos salários e o aumento exclusivo
que foi dado aos oficiais. Uma das denúncias mais graves feitas neste primeiro
dia da greve é a de que policiais militares estariam recebendo dinheiro de
traficantes para fazerem vista grossa no caso de batidas policiais nos morros.
Segundo a denúncia, os policiais que moravam em favelas, vizinhos aos
próprios marginais, aceitavam propina e recebiam mais de R$ 3.000,00 por mês
de traficantes. Um dos policiais diz que enquanto ele trabalha o mês inteiro
para ganhar pouco mais de R$ 300,00, um menino de 12 anos que vende crack
na favela Sumaré, ganha até R$ 150,00 por dia. Diz que a proximidade entre um
traficante e um policial é bem curta.

Quantas foram as vezes que o policial


sai de casa deixando o aluguel atrasado,
a luz cortada, sem nenhum alimento e
no momento da prisão o traficante
oferece R$ 500,00? O coração começa
a bater forte. Vem logo ao pensamento
que com aquele dinheiro pode colocar a vida
em ordem, mas o senso de responsabilidade
fala mais alto para quem é um profissional
honesto e consciente. Infelizmente,
nem todos são assim.
26
Um policial do BPChoque diz:
“A cabeça de um policial do Batalhão de Choque está valendo R$ 5.000,00
na favela da Pedreira Prado Lopes. Como é que a gente trabalha assim?”.
Quanto mais as horas passam, mais policiais querem falar, denunciar, mas
ainda com medo de possíveis represálias. Eles fazem outras denúncias.
“Sabemos de várias maracutaias de oficiais. No 1° BBM, os bombeiros
foram obrigados a assinar nota fiscal onde um par de meias estava orçado em
R$ 57,00. Em vez da farda anual a que têm direito, os bombeiros só receberam
este ano duas camisetas, um calção e dois pares de meia, com preços
superfaturados”.
O fardamento é de responsabilidade da empresa Citeral, que funciona
dentro do 5o BPM, no bairro da Gameleira, região oeste. O Comando nega as
denúncias.
Essa empresa tem exclusivo monopólio para vender fardas para a PM,
por isso põe o preço que quer. Dizem que paga comissão para os coronéis
para que não permitam que outra empresa também entre nesse mercado. Para
se ter idéia, no Distrito Federal o efetivo é cinco vezes menor, mas existem 10
empresas que vendem fardamento.

PMs do Batalhão de Choque cruzam os braços

27
A greve se espalha

Começam a chegar informações de movimentos em outros quartéis. No


22° BPM (bairro Santa Lúcia, região sul), vários colchões são queimados. No
1° BPM (bairro Santa Efigênia, região leste), os policiais fazem um buzinaço
nas viaturas na hora de sairem do quartel. No 16° BPM, (bairro Santa Tereza,
região leste), o quarto turno atrasa quatro horas o seu lançamento (saída para
rua) e os policiais jogam as armas no chão. No 1° BBM (Batalhão de Bombeiros
Militares), a rede de rádio transmite o protesto, chamando os policiais para
uma mobilização geral. Um dos diálogos ouvidos:
– O coronel pediu aumento para nós?
– Não é o coronel quem dá aumento. É aquele prechão do governador,
que já falou que não tem aumento para nós. (risos) Então põe o coronel na
escuta aí. Vamos pedir o aumento para ele!
Os telefonemas chovem nas redações, policiais dizendo que a greve iria
se alastrar por todo o Estado. No BPChoque, os policiais distribuem bilhetes
aos jornalistas assumindo a responsabilidade pelo incêndio. Um dos bilhetes
diz:
“Estamos passando fome. Moramos em favelas e às vezes chegamos a
pensar em suicídio. Não recebemos nenhum apoio do Alto Comando da PM.
Queimamos os colchões porque nossa vontade é botar fogo em nossos salários
de miséria. Como não podemos, colocamos fogo nos colchões”.
Os policiais tinham receio de que, no caso de alguma unidade parar, o
Batalhão de Choque ser chamado para reprimir os próprios policiais, já que era
uma tropa especializada na repressão a movimentos grevistas. Com a explosão
do movimento no Batalhão de Choque, os policiais das outras unidades se
encorajaram e o movimento se espalhou como uma onda. Neste dia, não havia
líderes. A situação só não ficou pior porque o comandante do BPChoque era
uma pessoa querida e respeitada pelos choqueanos.
Às 19:30hs., chegam ao BPChoque integrantes da Associação de
Subtenentes e Sargentos e do Centro Social de Cabos e Soldados que haviam
sido convocados pelo comandante-geral para tentarem conversar e
convencerem a tropa a retornar às atividades normais. Os representantes destas
entidades alertam a tropa para o que poderia ocorrer: possíveis punições e até
exclusões. Eles também estão um pouco perdidos, até pelo ineditismo do
movimento, tentando responder às inúmeras perguntas e questionamentos das
praças. Esta reunião dura cerca de uma hora, sem a presença de nenhum oficial.
28
Nasce um líder
Nesta reunião, comecei a despontar como líder, porque tive tranqüilidade
e objetividade para encaminhar as principais dúvidas da tropa. Mas não houve
escolha de representantes do movimento, até porque não estava definida
nenhuma reunião de negociação com o Governo – achávamos isto impensável
– e não se cogitava ainda em fazer passeatas.
Não houve mais chamadas neste dia. Fica decidido que todas as
companhias se fariam presentes no outro dia, acumulando no dia 13 todo o
efetivo do BPChoque, até quem não estava de serviço, como os policiais em
folga ou em férias.
Deixamos o batalhão, que ficou apenas com o 4° turno Rotam, que estava
de plantão. Todos foram para casa. Nesta noite, em casa, pensava sobre o que
tinha acontecido, mas não tinha a menor idéia da dimensão que o movimento
iria tomar. Estava tranqüilo, mas ansioso para saber o que aconteceria diante
de uma situação tão nova, sem saber como seria o dia seguinte. A repercussão
ainda era pequena, não se sabia que haveria um grande movimento.
O Comando da PM se reúne à noite e o secretário da Casa Civil Agostinho
Patrus participa da reunião. O Comando redige nota oficial, que é publicada
nos jornais no dia seguinte:
“Foi apurado que 60 praças se mantiveram em posição de manifestação
no BPChoque. Isso, dentro de um efetivo de 42 mil homens da Corporação no
Estado, sendo 10 mil na Grande BH. Foi solicitado um reforço de policiamento
para suprir a ausência desses praças, o que foi de pronto atendido, mantendo
dessa forma o policiamento na Capital mineira”.

AH! Eu tô é duro!
No outro dia, cheguei cedo ao BPChoque, por volta de 7hs. Soube que o
turno da noite fora normal. Dezenas de policiais de todas as companhias
estavam lá. Os policiais de folga ficaram sabendo do movimento e se dirigiram
espontaneamente ao quartel, inclusive os licenciados e os que estavam de
férias, que também foram para o quartel.
Não há ainda liderança e os policiais continuam reunidos no pátio, sem
saberem o que fazer. Não há chamada. Os oficiais não andam no pátio, só ficam
reunidos com o comandante, tenente-coronel Cançado. Eu fui trabalhar no
29
computador na companhia ROTAM, numa sala que ficava de frente para o pátio.
Os PMs ligam para a imprensa e pedem apoio. De repente começa uma
gritaria, que vira um coro: Vamos para a rua!. Os praças de outras unidades
ligam para o BPChoque para confirmar as informações da paralisação que estão
sendo veiculadas pela imprensa e anunciam que vão aderir. Para espanto de
todos, o BPChoque vai para a rua. São 150 homens no início.
Acompanhei o movimento. A passeata não tinha direcionamento, era um
sentimento de cidadania, como se estivéssemos nos libertando de uma prisão,
de um regulamento arcaico. O grito de liberdade que estava preso há 222 anos
na garganta finalmente ecoara. Não tínhamos ainda nenhuma reivindicação,
mas estávamos nos sentindo livres.

População aplaude a passeata dos policiais

A passeata segue pela avenida Américo Vespúcio, em direção a avenida


Antônio Carlos, acesso da região norte para o centro. A passeata engrossa, já
são 500 policiais participando.
Não sabíamos bem qual era o nosso objetivo, se iríamos até à Praça
Sete, no centro de Belo Horizonte, ou se chegaríamos até o QCG na Praça
da Liberdade, onde também fica o Palácio da Liberdade, sede do Governo
estadual. Eu tentava organizar a passeata, pedindo que os policiais só
ficassem numa pista para liberar o trânsito, e foi nesta hora que muitos me
viram como líder, inclusive colegas de patente superior a minha, como

30
sargentos, que me perguntavam o que fazer, se deviam ou não tirar as
plaquetas de identificação e os bonés. Passamos pelo Departamento de
Investigações, da Polícia Civil, e chamamos os policiais civis para
participar. Alguns desceram. Incitei o pessoal a prosseguir para evitar
provocações em frente ao DI. Seguimos pela avenida.
Na altura do viaduto da Lagoinha, quase no centro, o tenente-coronel
Cançado se posta de braços abertos na frente da tropa. Ele afirma que o
comandante-geral ordenou que fosse dada voz de prisão a todos que estavam
na manifestação. Se prender um, isso vai virar uma guerra, respondem os
manifestantes. A passeata desvia-se dele e os PMs continuam a caminhar.
Outros comandantes de batalhão, o tenente-coronel Rúbio Paulino,
do 22° BPM e o tenente-coronel Severo, do Batalhão de Missões Especiais
acompanham o comandante do BPChoque, que segue o tempo todo ao
lado da passeata.
Eles acompanhavam a passeata, pela lateral, em solidariedade ao tenente-
coronel Cançado. Gritávamos: Polícia unida jamais será vencida!, ou então
o famoso Ah, eu tô é duro!
A passeata continua até a Praça Sete, sem incidentes. No caminho, uma
tropa da 6ª Companhia do 1° BPM, com cerca de 50 policiais, se junta ao
movimento, além de outros policiais que estavam de serviço nas ruas por onde
a passeata passava. Vinte policiais do BPTran e cinco batedores acompanham
a passeata, coordenando o trânsito. Os bombeiros também aderem à passeata.
Chegando à Praça Sete, os oficiais continuam a fazer apelos para que o pessoal
volte para os quartéis e não fizesse greve nas ruas. Eles diziam que isto iria
acabar com a Polícia Militar.

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Um integrante da CUT/MG, com uma bandeira vermelha, tenta participar
da passeata e é retirado pelos policiais. Ele insiste em ficar na avenida e os
policiais rasgam a bandeira. O sindicalista desiste, vendo que os policiais o
recebem com animosidade.
Policiais de outras unidades, como os de trânsito, são levados a participar
do movimento, com o chamado dos manifestantes, muitos até contra a vontade.
Não tínhamos rumo, nem reivindicações, nem programação, nada. A idéia
agora era seguir para a Praça da Liberdade, demonstrar para o governador que
a Polícia estava passando fome. Demonstrar como? Através de uma
concentração em frente ao Palácio da Liberdade. Iríamos ficar em silêncio, não
tínhamos idéia do que fazer.”

Policiais fazem passeata pela Av. Amazonas

32
Apoio da população

Por onde a passeata passa, a população aplaude, inclusive em prédios


públicos, como a Prefeitura de Belo Horizonte, secretarias, bancos, lojas,
prédios residenciais. Alguns jogam papel picado. Alguns manifestam
abertamente o seu apoio, como o taxista Silvano dos Reis, que diz: Eles estão
mais do que certos!
Em frente ao Detran (Departamento Estadual de Trânsito), na avenida
João Pinheiro, os PMs chamam os policiais civis a aderirem. Eles gritam: De
camarote não, a luta é aqui no chão... Nas janelas do prédio vários aplaudem,
alguns descem para acompanhar o movimento.
Andamos 12 km e estávamos cansados, mas com total disposição para
continuar o movimento. No final da subida da avenida João Pinheiro, os
coronéis verificaram que eu liderava o pessoal na organização da passeata e
me pediram que não deixasse a manifestação passar pela alameda da praça da
Liberdade. Eles diziam que a PM nunca deixou nenhuma classe de trabalhadores
em manifestação passar por lá, e não seriam os próprios PMs a passarem no
local em manifestação. Naquele momento não era mais uma ordem, era um
pedido, que não foi atendido. Passamos pela alameda e chegamos ao Palácio
da Liberdade”.
Chega a hora de negociar, para espanto dos próprios manifestantes.
Não pensávamos que isto aconteceria. Tínhamos que reivindicar algo e
tentar negociar, mas não sabíamos o que queríamos e o que iríamos fazer. Esta
falta de rumo foi devida à própria espontaneidade e ineditismo do protesto.
Não tínhamos nenhum elemento nem condição objetiva para negociar, caso
nos chamássemos para uma reunião.
Em frente ao Palácio da Liberdade, os manifestantes, que já eram 1.500,
engrossados pelas novas adesões durante o caminho, inclusive com grande
número de reformados (aposentados da PM), cantam o Hino Nacional, virados
de costas para a sede do Governo. Eles fazem também uma oração, em
homenagem ao PM que morreu baleado por assaltantes, o cabo Glendyson.
Depois, os manifestantes queimam contracheques.

33
Policiais sentam-se no chão em frente ao Palácio da Liberdade,
sede do governo mineiro

Policiais queimam o contra-cheque

34
Comissão define reivindicações
às pressas

Dois oficiais, a mando do comandante de policiamento da Capital,


comunicam que aguardam a formação de uma Comissão dos praças para
negociar. Esta Comissão passa a ser formada pelos integrantes das entidades
representativas (Centro Social de Cabos e Soldados e Associação de
Subtenentes e Sargentos), além de três policiais do BPChoque, escolhidos
pelos companheiros porque tinham maior capacidade de liderança. Eu fui um
dos escolhidos, numa pequena assembléia.
Só neste momento definimos a pauta de reivindicações: o piso salarial
de R$ 800,00, promoção por tempo de serviço – dez anos – e não apenas por
concursos internos, revisão imediata do RDPM (Regulamento Disciplinar da
Polícia Militar) e do EPPM (Estatuto de Pessoal da Polícia Militar), que são
baseados nos regulamentos de Exército. Queríamos também a não punição aos
manifestantes e uma política habitacional que atendesse especialmente os
cabos e soldados.
Nove representantes dos praças integram a Comissão, que seguiu para
o Palácio para negociar.

Foi um sentimento de poder


inusitado. Como é que um cabo ou
um sargento poderiam negociar
representando mais de 55 mil policiais?
Nunca imaginei passar por um
momento assim.

Logo que a Comissão entra, é recebida pelo chefe do Gabinete Militar do


Governo, cel. Hamilton Brunelli. Quando a Comissão entra no Palácio, a tropa
desloca-se para a frente do Quartel Central Geral, onde funciona o Copom –
Centro de Operações da Polícia Militar, o Comando-Geral, e outras unidades
administrativas da PM. A tropa fica concentrada em frente ao prédio do QCG,
próxima às escadarias.
35
Cancelada a ordem de confronto

O chefe da Cedec – Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, Coronel


Custódio Diniz, ordena que se postasse em frente ao prédio uma tropa de
cadetes, que estava de prontidão dentro do Palácio dos Despachos, anexo
ao Palácio da Liberdade. Um tenente-coronel discute com o chefe da Cedec,
com medo de um confronto entre os manifestantes e os cadetes. Ele diz:
Comandante, não faça esta loucura. Se esta tropa for colocada aqui, isto
vai virar uma guerra. O comandante de policiamento da Capital pede
autorização para uma contra-ordem para recolher a tropa. O chefe da Cedec
desiste e a ordem é cancelada. A tropa que estava de prontidão tinha cerca
de 50 cadetes enquanto que os manifestantes já eram mais de 2.000.
O fato inédito em 222 anos de Polícia Militar pegou todos de surpresa. O
Coronel Diniz havia passado toda a madrugada distribuindo cobertores, umas
das funções exercidas pelos agentes da Cedec. Ao amanhecer diante das
informações de que poderia haver problemas, foi forçado a ficar no Palácio
dos Despachos. Não sabia o que fazer, o aprendizado na Academia não o havia
ensinado a lidar com uma situação como essa. Era uma situação inovadora.
Nunca se esperava que fosse acontecer.
Ao mesmo tempo que há mobilização de cadetes da PM, as Forças
Armadas também já estão de prontidão. Na 4ª Divisão de Exército (DE), a Polícia
do Exército está mobilizada dentro do quartel e se fosse necessário, sairia às
ruas.

36
Primeira reunião de negociação

Comissão conversa com Coronel Hamilton Brunelli. Ele demonstra,


durante a conversa, eterno amor pelo militarismo. O coronel usa expressões
como: Depois desta, o que será da Polícia Militar?; a PM vai acabar
amanhã!; ou isto não poderia acontecer nunca!. Ninguém se intimida. Lá em
baixo, começam sonoras vaias. Corremos à janela e vimos o comandante do CPC
sendo vaiado pelos manifestantes. O Coronel Brunelli se desespera e diz: O que
é isto? Agora é que acabou mesmo a Polícia Militar!
Eu respondi: Não fomos nós que procuramos isso, coronel. Nossa
situação é crítica. Por que concederam aumento só aos oficiais e deixaram os
praças em situação de miséria ?
O secretário da Casa Civil, Agostinho Patrus, que é capitão médico
reformado da Polícia Militar, chega para coordenar a reunião em nome do Governo.
Ele demonstra superioridade no trato com os praças. O secretário recebe as
reivindicações e diz que não negocia com a Polícia na rua. A Comissão promete
tentar tirar a tropa das ruas, mas com a garantia de haver negociação.

Abraço do Pirulito

Depois da reunião, que dura cerca de uma hora, os líderes se reúnem


com os manifestantes e marcam uma assembléia para o dia seguinte, sábado.
Eles resolvem deixar a Praça da Liberdade em passeata. Os PMs gritam os
jargões e a expressão de cidadania é total. Nos prédios das secretarias, as
pessoas ainda aplaudem a passagem dos policiais. Na avenida Afonso Pena,
alguns P-2 (policiamento secreto), infiltram-se na passeata. Um deles tem uma
câmera e filma os integrantes do movimento. Aos gritos de traidor, os praças
tomam a filmadora, que é quebrada no chão. Ele é expulso a pontapés e sai
correndo para não apanhar.
A passeata segue em direção à Praça Sete, mas os líderes são chamados
37
para uma reunião no Comando-Geral. Os manifestantes já são 2.500 e continuam
o protesto, abraçando o monumento do Pirulito. Quatro seguranças
particulares do governador, policiais militares da ativa, de terno e gravata, aderem
ao protesto. Um deles diz: Fazemos parte da tropa, apenas temos fardas
diferentes.
Todos sentam-se no chão. O protesto é encerrado rapidamente porque
existe uma preocupação de desimpedir o trânsito e não provocar transtornos
para continuar com o apoio da população. Os repórteres entrevistam as pessoas
na Praça Sete.
A maioria da população apoiava o nosso movimento. Existia uma grande
consciência de que a greve era por melhores salários. Muitas pessoas aplaudiam
com entusiasmo, como uma dona-de-casa que manifestou apoio e carinho pelos
policiais. Eles merecem ganhar mais e serem valorizados, disse ela.

Abraços no pirulito na Praça Sete, Centro de Belo horizonte

38
Comando-geral recebe os praças

Logo após o retorno dos policiais aos quartéis, a Comissão retorna para
uma nova reunião, desta vez no QCG com o Comando da Corporação. Além
do comandante-geral, Coronel Antônio Carlos dos Santos, participam o chefe
do Estado-Maior, Coronel Herberth Magalhães, o comandante de policiamento
da Capital, Coronel José Guilherme do Couto e o chefe da DPS – Diretoria de
Promoção Social, cel. Pedro Seixas. A reunião começa tensa. O comandante-
geral demonstra nervosismo.
O tempo todo ele tentava explicar o inexplicável. Culpava os oficiais de
unidades de não terem conseguido explicar para a tropa o aumento dos oficiais,
usando a expressão: a explicação não chegou à ponta da linha.
O comandante promete avaliar todas as reivindicações e garante que o
Governo já havia enviado à Assembléia Legislativa o pedido para
autorização de reajuste setorizado. Ele promete ainda conceder todas as
reivindicações que fossem da competência do Comando da Corporação.
O comandante diz ainda que reconhecia que o RDPM estava ultrapassado
e que já estava sendo feito um estudo, por um grupo de oficiais, para a revisão
do regulamento.

Governo faz pronunciamento


O governador Eduardo Azeredo está de viagem marcada para a Europa,
mas a viagem é adiada por causa da crise. Na noite de 13 de junho, o governador
faz um pronunciamento oficial.

“Como governador, venho prestar informações sobre os acontecimentos


na PM: os delegados da Polícia Civil ganharam na Justiça equiparação com
os procuradores do Estado, com reajuste de cerca de 11%, que foi repassado
aos oficiais da PM, em virtude de legislação específica. Reconhecendo ser
justa a extensão do aumento dos praças, enviei na última segunda-feira
projeto de lei solicitando, com urgência, autorização da Assembléia
Legislativa para ter meios de corrigir distorções nos menores salários do
39
funcionalismo”.

O governador fala também sobre as dificuldades com a folha de


pagamento: a arrecadação mensal é de R$ 450 milhões e R$ 350 milhões vão
para a folha de pagamento, representando 77% das despesas.

“A população aprendeu a admirar e a confiar nos bons serviços prestados


pela PM, reconhecida como a melhor do Brasil. O Governo espera que
permaneça a normalidade. É fundamental que prevaleçam o direito, a lei, a
ordem e a tranqüilidade da população”.

Apesar da declaração do governador, não há legislação, específica ou


não, sobre a isonomia automática entre os salários dos coronéis da PM e dos
delegados da Polícia Civil. A isonomia é fruto de um acordo de cavalheiros,
reivindicado pelos coronéis ao Governo e que foi implantado desde o Governo
Newton Cardoso, em 1989, depois da promulgação da Constituição Estadual.
O objetivo é evitar rixas e criar clima de igual respeito e reconhecimento entre
os comandos das duas Corporações.
Na avaliação do governador, a manifestação dos PMs é restrita a uma
pequena parte da Corporação. “A situação está bem administrada pelo
secretário da Casa Civil e pelo comandante-geral da PM”, afirma o
governador. Já o secretário Agostinho Patrus fica irritado quando é perguntado
pelos jornalistas se o Governo havia perdido o controle da PM:
“Solicito à imprensa que possa transmitir a realidade dos fatos. Uma
pergunta como esta vai trazer intranqüilidade”.

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41

Cabo Júlio discursa aos manifestantes na Praça Sete pouco antes do confronto na Pça da Liberdade
42

Cabo Júlio fala aos manifestantes na Praça Sete


Sargento tenta suicídio

Um sargento de 38 anos, dezoito anos de serviço, com seis filhos e salário


de R$ 360,00 é internado no HPS depois de ingerir um vidro de formicida e
cinqüenta cápsulas de Lexotan. Com a vida salva pelos médicos, o PM dá
entrevista, mas pede que seu nome não seja divulgado.

“Estava desesperado. Meu aluguel, de


R$ 120,00, está atrasado há dois meses.
Minha família vive de favores.
Não tive apoio psicológico.
Quando soube do aumento dos oficiais,
me senti revoltado:
eles só olham o bolso deles”.

O chefe da sala de imprensa, major Jefferson Oliveira, comenta:


“Se todo PM que se julgasse desesperado pelos baixos salários fosse
tentar suicídio, teríamos um extermínio na Corporação”.
O comandante de policiamento da Capital afirma:
“Reconheço que o salário é baixo, mas isto não é motivo para se matar.
Se este fosse o motivo, a maioria da população brasileira já teria se matado”.
O comandante do 1o BPM, tenente-coronel Antônio Luiz, admite que os
policiais são mal remunerados:
“O salário reivindicado é justo. É inconcebível que um policial receba
apenas R$ 330,00”.

43
Primeira assembléia

No dia seguinte à passeata, realizamos assembléia no Clube de Cabos e


Soldados. Cerca de 2.000 PMs participam, muitos acompanhados da mulher e
filhos. Para chegar ao clube, no bairro da Gameleira, região oeste de Belo
Horizonte, caminhavam dos batalhões em minipasseatas, fardados, e ainda
gritando os jargões da primeira passeata. A imprensa registra a presença de
policiais de várias unidades, Corpo de Bombeiros, Cavalaria, Hospital Militar,
Polícia Feminina, e até do Quartel Central Geral.

Os PMs apresentam um balanço da greve nos batalhões. Os policiais da


Companhia de Bombeiros do Aeroporto da Pampulha garantem que as
operações de abastecimento de aviões estavam sendo realizadas sem segurança
por causa da greve. Um policial do 22° BPM disse que o Comando tinha
ordenado que ninguém deveria participar da assembléia, sob risco de punições.
Os praças do 22° BPM dizem que não estavam dispostos a trabalhar a troco
de nada. Não vamos arriscar a vida por essa miséria que a gente ganha. Um

44
casal de policiais, com o filho pequeno, exibe o contracheque com o salário
conjunto: pouco mais de R$ 800,00. Todos mostram os contracheques para
darem exemplos da situação salarial. Neste dia, os policiais já não tinham medo
de mostrarem a cara e dizerem o nome ao dar entrevistas.
O Coronel Pedro Seixas, morrendo de medo, diretor de Promoção Social,
em trajes civis e escondido em uma das salas do clube, acompanha a assembléia.
A Comissão sabe da presença dele no local, mas não tinha como impedir porque
o clube pertence à DPS.
Orientei a Comissão, e nos reunimos para discutir como seria o
encaminhamento da assembléia. A nossa missão foi a de apresentar as propostas
oferecidas pelo Governo e decidir um prazo para o atendimento das
reivindicações. Meia hora depois nos dirigimos ao palanque e pedimos a
presença de todos.
Começa a assembléia, tumultuada. Eu tive dificuldades de fazer os
encaminhamentos, pelo clima dos grevistas e pela inexperiência. Depois de duas
horas de debates, decidimos manter o piso de R$ 800,00 para os soldados, a
revisão do Estatuto e do Regulamento Disciplinar, a não-punição aos grevistas,
além da promoção por tempo de serviço e a criação de uma política habitacional
voltada para os praças. Mais difícil é definir o prazo para que o Governo dê
uma resposta. A Comissão propõe trinta dias, mas os participantes não aceitam.
Inicialmente, não queriam dar nenhum prazo, permanecendo em greve até o
atendimento das reivindicações. Depois, querem um prazo máximo de cinco
dias. Ao final, chegam a um consenso de dez dias. Outra assembléia é marcada
para o dia 24 de junho, no mesmo local. Os líderes pedem que todos voltem
aos quartéis, sem tumulto ou passeatas.

Interior
Em Montes Claros, no norte do Estado, PMs também fazem declarações
de protesto. Um policial sem se identificar diz:

“Se o reajuste concedido aos


oficiais e delegados não for estendido
aos praças, a adesão ao movimento será
generalizada no Estado. Estamos só
esperando a orientação do
Cabo Júlio em Belo Horizonte”.
45
Recebia telefonemas de várias partes do Estado, querendo participar do
movimento e acompanhar as negociações. Já se manifestam praças dos
batalhões de Ipatinga, Manhuaçú, Juiz de Fora, Barbacena, Governador
Valadares, Uberlândia, entre outros.
A orientação para os praças do interior é aguardar até à véspera do dia
24, quando deverão ser organizadas as caravanas para Belo Horizonte para
participar da assembléia no Clube de Cabos e Soldados.
Em Juiz de Fora, na zona da Mata, um PM faz um protesto isolado. O
sargento William da Silva Peçanha (30), do Serviço de Patrulha de Trânsito,
desce da moto em um dos pontos mais movimentados da avenida Rio Branco,
no centro, coloca o revólver e o cinturão no chão e grita palavras de ordem
contra os baixos salários. A manifestação do sargento dura sete minutos até a
chegada de uma viatura do 2° BPM, que o retira do local. Ele é levado para a
Clínica São Domingos, onde é submetido a uma avaliação de suas condições
psicológicas. O comandante regional de Juiz de Fora, Coronel Elvino de
Oliveira, diz que vai aguardar a avaliação médica do sargento, antes de estudar
a abertura de um Inquérito Policial Militar (IPM).
Em Governador Valadares, policiais fazem duas passeatas. São 150 do 6°
BPM e do 1° CRPM, além de policiais civis, que caminham pelas ruas do centro.
Os policiais não usam fardas durante o protesto, também queimam
contracheques, assim como os manifestantes de Belo Horizonte.

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Tática do silêncio

Durante todo o sábado, o Alto Comando fica reunido com todos os


coronéis da Capital. A reunião começa ao mesmo tempo que a assembléia dos
praças, às 10h e só termina às 17h30. Os coronéis discutem a crise deflagrada
pela greve inédita na Corporação.
Poucas informações chegam à imprensa. O Comando adota a tática do
silêncio. A ausência de informações aumenta as especulações. Enquanto os
coronéis e oficiais não se pronunciam, os praças têm todo acesso à imprensa
e conseguem veicular informações do seu interesse.

Recrutas de prontidão

No dia da assembléia, todos os recrutas são convocados pelo Comando


e ficam de prontidão em suas unidades e na Academia. A orientação é que
eles podem ter que assumir o policiamento na Capital, se persistir o movimento
dos grevistas.
No 16° BPM, no bairro Santa Tereza, região leste, os recrutas comentam
entusiasmados a possibilidade de ir para as ruas, mesmo antes de completar
sua formação. Os jornalistas questionam nos quartéis qual a viabilidade de um
sistema de segurança feito por recrutas. A resposta de alguns comandantes é
que os recrutas estão plenamente capacitados porque se formarão em breve.
Os recrutas da PM têm uma formação de nove meses, onde recebem
treinamento e aprendizado sobre matérias como relações públicas e humanas,
noções básicas de direito, legislação interna, regulamento disciplinar, instrução
militar básica e noções de primeiros socorros. No oitavo mês, os recrutas
passam por um período de estágio, onde são acompanhados por policiais já
formados, que repassam, no dia-a-dia das ruas, informações para o seu
aprimoramento.
47
As negociações

Enquanto corre o prazo dado pelas praças ao Governo, continuam as


reuniões de negociação. O governador envia à Assembléia Legislativa o
anteprojeto que permite a concessão de aumentos diferenciados a setores do
funcionalismo público e viaja para a Europa, com atraso de dois dias. Os líderes
são chamados para várias reuniões com o comandante-geral e com o chefe do
Estado-Maior para discutirem as mudanças no Estatuto e no Regulamento.
No dia 17 de junho, o comandante-geral da PM, Coronel Antônio Carlos
dos Santos, divulga uma nota sobre A Questão Salarial da PM e o Momento
Atual, criticando o comportamento que ele considera emocional e sensitivo
dos manifestantes e justificando o reajuste salarial diferenciado. De acordo com
o comandante, o Governo manteria a equivalência entre os delegados e oficiais,
estendendo depois os mesmos índices para os praças, depois da aprovação
da Assembléia Legislativa. O comandante diz ainda que os policiais devem ter
tranqüilidade e confiança na instituição.
No dia 18 de junho, acontece mais uma rodada de negociações, no Palácio
dos Despachos, com a participação dos secretários da Casa Civil e
Comunicação Social, Agostinho Patrus, da Fazenda, João Heraldo Lima, de
Recursos Humanos e Administração, Cláudio Mourão, da Habitação, Sílvio
Mitre, o comandante-geral da PM, Coronel Antônio Carlos dos Santos, o chefe
do Gabinete Militar, Coronel Hamilton Brunelli, o presidente da Cohab –
Companhia de Habitação do Estado de Minas Gerais, Reginaldo Arcouri, o
presidente da União dos Reformados, Coronel Décio Pereira da Silva, o
presidente do Clube dos Oficiais, Coronel Edvaldo Piccinini e os
representantes dos praças. A principal discussão é sobre o piso de R$ 800,00
que não é aceito pelo Governo. Segundo o secretário da Casa Civil:
“Este piso significaria um aumento de 90% para os praças, o que o
Governo não tem como bancar. O reajuste é impossível porque alguns praças
poderiam ficar com salários superiores aos dos oficiais”.
O secretário não fala em índices para o aumento.

48
“Estamos estudando este percentual de reajuste com base nas
repercussões que ocorrerão dentro da própria PM. Se dermos o aumento para
os soldados, isto vai influenciar os soldos de cabos, sargentos, subtenentes
2o tenentes, etc. Por causa disto não podemos divulgar um índice levianamente”.
Pela primeira vez, o comandante-geral admite que os participantes do
movimento podem ser punidos. O Coronel Antônio Carlos dos Santos disse
que:
“Todos os fatos serão apurados e o meio de investigação será através
de IPM (Inquérito Policial Militar). Os fatos são graves e tomaremos decisões
a respeito após as investigações”.

Guerra suja

O Comando da Polícia começa a trabalhar nos bastidores para destruir o


movimento.
Depois desta reunião, fui procurado, em minha casa, por um oficial que
me perguntou o que eu queria para sair do movimento. Ele dava a entender
que queria me subornar. Segundo ele, o Comando considerava que a minha
saída poderia enfraquecer ou até acabar com o movimento, como se eu fosse
o causador da revolta. Este oficial me perguntava: O que você aspira, o que
você quer, cabo Júlio? Minha resposta era fatídica: dignidade para o policial.
De repente eu disse: o senhor tem dois minutos para sair de minha casa.
Ameacei chamar a imprensa. Ele saiu imediatamente.
Os diretores da Associação de Subtenentes e Sargentos se reúnem no final
da tarde para avaliar a situação nos quartéis de Belo Horizonte e interior. Os 45
diretores consideram a situação explosiva e acreditam que se o Governo não
der o aumento esperado a paralisação será geral. Caravanas estão se preparando
no interior para comparecer à assembléia em Belo Horizonte.
No dia 20 de junho, os deputados aprovam o projeto do Governo.

49
O amarelinho

Neste mesmo dia, o assessor de imprensa do Comando-Geral entrega aos


líderes dos praças o anteprojeto de revisão do Estatuto e do Regulamento, e
propõe um prazo de 30 dias para que eles apresentem sugestões. A proposta
é aceita. A Comissão adianta a principal mudança desejada: o fim da pena
privativa de liberdade. “O amarelinho” só mudou cinco anos depois.
Qualquer praça, por decisão do seu comandante, pode ser punido com a
prisão no quartel de até treze dias, a critério do comandante, e ainda que não
haja motivação clara. Isto é motivo de revolta de muitos policiais.
O Regulamento Disciplinar, chamado Amarelinho é analisado pela
imprensa. Alguns artigos do regulamento chamam a atenção pelo que têm de
arcaico. Exemplos: os praças têm que pedir permissão para casar enquanto que
ao oficial basta apenas comunicar. É proibido recorrer à Justiça sobre qualquer
direito individual. Até o tipo de guarda-chuva usado pelo policial é definido
pelo regulamento. A falta de um botão na farda ou um bigode maior que o
permitido pode levar à prisão do policial. Enquanto um cidadão comum só pode
ser preso mediante flagrância ou ordem judicial, o policial militar pode ser preso
pela simples vontade do comandante. É proibido ao policial contrair dívidas
superiores à sua capacidade de pagamento, ao mesmo tempo em que ele é
obrigado a sustentar condignamente sua família.
É comum a presença de credores dentro dos batalhões. O interessante é
que o Estado é um dos maiores devedores das praças. A PM não paga seus
fornecedores mas pune um policial quando ele atrasa os pagamentos de suas
dívidas.

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A ameaça do secretário

O Comando informa ainda que estuda convênios com a Secretaria Estadual


de Habitação para financiamento de moradias específicas aos policiais.
Outro convênio em estudos, com a Fundação Roberto Marinho, permitiria
a abertura de salas de aula nos quartéis, para os policiais que quisessem
estudar.
No dia 21, o governador volta da Europa e anuncia um abono de R$ 102,00
para policiais civis e militares. O secretário da Casa Civil, Agostinho Patrus,
afirma que é o valor máximo que o Governo chegará. Numa das reuniões, que
acontece no Palácio dos Despachos, com a presença do comandante-geral, o
secretário aponta o dedo em tom de ameaça para o meu rosto e diz:

“O Governo não vai agir sob


pressão, nem que cinco mil, dez mil
ou quarenta mil policiais armados
estejam nas ruas.”

A ameaça é gravada pelo repórter cinematográfico Mário, da TV Minas,


que estava na sala fazendo imagens. A informação circula entre a imprensa.
Depois, em entrevista coletiva, o secretário desmente o clima de hostilidade
na reunião e acusa a imprensa de ter feito gravações indevidas.

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A Força Legalista (Forleg)

O Comando cria a Força Legalista (Forleg), formada por tropas do interior,


alunos da Academia e alguns policiais da Capital, que eram procurados por
oficiais para participarem da Força. Eles recebem a promessa de condecorações
e promoções a graduação imediata caso aceitem.
Os líderes rejeitam o abono e mantêm a reivindicação inicial de R$ 800,00
de piso.
Neste mesmo dia são destituídos os comandantes de Policiamento da
Capital, Coronel José Guilherme do Couto, e do Estado Maior, Coronel
Herberth Magalhães.
No dia 22 de junho, novos chefes assumem os postos no Comando de
Policiamento da Capital e no Estado Maior. O comandante-geral convoca
imediatamente a Comissão e apresenta os novos comandantes, o Coronel Edgar
Eleutério Cardoso que assume o CPC e o Coronel Osvaldo Miranda da Silva,
a chefia do Estado Maior. Nesta reunião com a Comissão representativa, o novo
chefe do Estado-Maior assume uma postura de linha-dura, dizendo que não
vai tolerar indisciplina e cumprimenta um a um os integrantes da Comissão,
com um forte aperto de mão e olhar ameaçador.
O comandante-geral informa que o abono de R$ 102,00, que elevaria o
salário para R$ 517,00, seria o valor máximo que o Governo chegaria. A partir
deste momento, segundo ele, estão encerradas as negociações em torno dos
salários. Ele ordena à Comissão que levasse o valor à tropa como um ponto
final para o impasse.
Eu disse ao comandante que cumpriria a ordem, levando este valor
aos praças, mas já adiantei que era quase impossível a aceitação deste
salário pela tropa.
O chefe do Estado-Maior diz então que confiava na Comissão e que o
problema era meu.

52
Troca de comando no BPChoque

Troca de comando também no Batalhão de Choque. Cai o tenente-coronel


Carlos Roberto Cançado e assume o tenente-coronel Maurício dos Santos.
A missão dos novos comandantes, considerados linha-duras: conter o
movimento dos praças que a esta altura já se alastrou por todo o Estado e por
outras capitais brasileiras. Toda a cúpula da PM passa o final de semana
reunida, traçando estratégias com os comandantes de batalhões para esvaziar
a próxima assembléia marcada para a terça-feira.
Para os praças, é indiferente a nomeação de qualquer um dos coronéis.
Queremos uma nova postura por parte do Comando e salário no bolso. Nomes
não interessam.
Os telefonemas do interior para o meu telefone celular não param. Vários
ônibus já se deslocam para a Capital. As unidades do interior enviam
representantes e prometem acatar as decisões da assembléia.
Os comandantes deixam para informar na véspera da assembléia que está
proibida a participação de policiais que estiverem em serviço. Também proíbem
o uso de armas e de fardas. Os policiais que quiserem participar terão que ir à
paisana, por ordem dos comandantes.
Nos quartéis, os PMs continuam a denunciar represálias. Segundo as
denúncias, estão recebendo ameaças dos comandantes de que serão presos
se comparecerem à assembléia. Ao mesmo tempo, PMs do interior formam
caravanas para chegar à Belo Horizonte no dia 24. Os líderes acreditam que
mais de 3 mil policiais vão comparecer à assembléia.
No dia 23 de junho, véspera da assembléia, o Boletim-Geral da Polícia
Militar informa que a Comissão de negociação dos praças terá caráter
permanente. A Comissão terá o papel de intermediar as discussões entre o
comando e os praças. A nomeação oficial da comissão e sua aceitação pelo
Comando tem o objetivo de evitar a quebra de hierarquia na Corporação. De
acordo com a designação oficial da Comissão pelo comandante-geral:
“Eles estão autorizados a manter contatos com a Chefia do Estado-Maior,
para representar os interesses dos praças da Corporação sobre políticas de
recursos humanos e de promoção social”.

53
Mais guerra suja

O CFAP – Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças é


transformado em um grande cartório onde os alunos dos cursos de formação
e aperfeiçoamento de sargentos são dispensados. Caso houvesse prisões em
flagrante, dos manifestantes, eles seriam levados para lá para prestarem
depoimento.
Os praças do 13° BPM enviam uma carta às Comissões de Direitos
Humanos da Câmara Municipal e da Assembléia Legislativa pedindo que
visitem os quartéis e verifiquem as condições das cadeias onde eles ficam
trancados por qualquer motivo.
Na véspera da assembléia, cartas apócrifas circulam entre os PMs, com
supostas críticas aos integrantes da Comissão e desmobilizando a assembléia.
Uma carta de um suposto soldado arrependido, de codinome Pedrão, pede
aos policiais que não façam mais movimentos de rua e voltem a trabalhar sem
baderna. Ele se diz arrependido dos crimes que cometeu ao participar da greve
e da passeata.
As cartas tinham o objetivo de desmobilizar a assembléia. Elas foram
preparadas, por ordem do Comando, como se os autores fossem praças
arrependidos de terem participado do movimento. Mas houve um grave erro.

A linguagem usada não era de


praças e sim de oficiais. Colocaram
erros de português grosseiros.

Dois dias antes delas começarem a aparecer, eu já tinha conhecimento


de que seriam usadas no interior dos quartéis porque tinha informantes dentro
das reuniões do Alto Comando, assim como eles tinham informantes entre os
praças. Garanto que as informações são fidedignas porque me foram passadas
por pessoas insatisfeitos com os rumos definidos e decisões tomadas pelo
próprio comandante-geral. É fato de conhecimento geral entre praças e oficiais
que existe uma rixa muito forte entre os coronéis pela disputa de poder. Alertei
os integrantes da Comissão sobre essas cartas apócrifas para que já
estivéssemos preparados.
54
As ameaças

Além das cartas estávamos recebendo ameaças de morte ou de seqüestro.


No meu caso, foi feita uma ligação para um vizinho, quando uma pessoa, se
identificando como amiga, pediu o endereço da escola de minha filha, afirmando
que a buscaria, a meu pedido. O vizinho, desconfiado, disse que chamaria minha
mulher para dar o endereço. A pessoa desligou imediatamente. Minha filha
tinha um ano e três meses, na época, e não estava na escola. Recebi ainda
vários telefonemas de madrugada, com ameaças de morte. Em um destes
telefonemas, a pessoa disse que na véspera da assembléia, no dia 23, haveria
uma invasão em minha casa. Tive que tirar minha filha de casa e enviá-la para
um lugar escondido no interior. Em qualquer lugar por onde andava, era seguido
por oficiais do serviço secreto da Polícia Militar, a famosa P/2. Essa vigilância
acontecia 24 horas por dia. Seguiam meus passos a todo momento.
O Governo afirma que estão encerradas as negociações com os policiais.
O abono de R$ 102,00 é a última proposta.

A grande assembléia

Chega o dia 24 de junho. Todas as atenções estão voltadas para o Clube


de Cabos e Soldados onde os policiais já começam a se concentrar para a
assembléia. Começam a chegar policiais dos quartéis do interior e da Capital.
A ordem do Comando de que não poderiam participar policiais fardados ou
em serviço é desobedecida. Boatos de uma possível invasão do Exército no
clube começam a correr. Os ânimos se exaltam. Os bombeiros do 2° BBM e os
policiais do 18° BPM de Contagem chegam em passeata e são saudados pelos
colegas.
O Coronel Seixas comparece novamente, permanecendo em trajes civis e
escondido. Vários P-2 estão infiltrados na assembléia por ordem do Comando.
Muitos, apesar de terem recebido ordens do Comando, participam como agentes
55
duplos. O que eles fazem, na verdade, é levar informações do Comando para
os praças. Até alguns oficiais da P-2 repassam informações ultra-secretas aos
líderes dos praças, como a confecção das cartas apócrifas e a ordem para
grampear telefones, que partiu do Exército. Os líderes do movimento continuam
sendo seguidos 24 horas por dia. As fichas funcionais dos líderes estão sendo
analisadas na sede da PM-2, a chamada Fazendinha, por causa de sua
localização, escondida em um local ermo dentro do 5° BPM. Ao contrário da
P-2, que é o serviço secreto dos batalhões, a PM-2 é o serviço secreto de toda
a Polícia Militar e tem a função de fiscalizar e observar todos os policiais,
inclusive oficiais. Os agentes foram treinados no extinto SNI (Serviço Nacional
de Informações).
A assembléia começa tensa. Mais de três mil policiais estão na sede do
clube. Não há tropa de repressão visível nas proximidades, mas os praças estão
atentos a todas as informações e mantêm vigilância na região e nas portarias.

O Coronel reformado William da


Costa Baía, ex-comandante do
BPChoque, tenta entrar no clube e
toma uma vaia logo na escadaria.
Sai fora! Gritam os policiais.

Subi no palanque e passei as informações dos resultados das negociações


com o Governo, as vitórias conquistadas e a decisão do Governo de bater o
martelo e fechar as negociações em torno do abono de R$ 102,00 o que dava
um piso de R$ 517,00. Por unanimidade, os policiais rejeitam a proposta e
começam a gritar: Prá fora, prá rua!. A muito custo, consegui segurar os
policiais por 10 minutos, para tentar reabrir as negociações

56
Prisão por telefone
Telefonei para o chefe do Estado-Maior, Coronel Miranda e comuniquei
a decisão da assembléia.
– Coronel, pelo amor de Deus, tente reabrir as negociações com o
Governo. Os praças não aceitam o abono e vão para as ruas.
Em desespero, o Coronel responde:
– Segure este pessoal aí, não brinque com a lei. Vocês não podem ir para
a rua de jeito nenhum.
–Nós já estamos indo, não há como segurar-nos.
–Então você está preso em flagrante!
–Tudo bem, mas isto não vai adiantar. Eles estão indo, e eu vou
junto.
Procurei não comunicar à assembléia que estava preso em flagrante por
telefone, temendo uma revolta generalizada. Eu me desloquei ao palanque e
consegui fazer os policiais retornarem ao clube.
Pedi calma e os informei dos perigos que poderiam acontecer a partir desta
segunda passeata, como perseguições, retaliações e prisões. Pedi ainda que
eles guardassem as armas dentro da farda e não as expusessem em momento
algum. Mas a decisão de sair para as ruas já estava tomada e os policiais
começaram a deixar o clube em passeata.
Em frente ao 5° Batalhão e ao Batalhão de Trânsito a passeata pára e os
policiais chamam os colegas para que aderissem ao movimento. Cerca de 3.500
policiais seguiam pela avenida Amazonas. Alguns policiais que sabem das
ameaças de morte insistem comigo para que coloque o colete à prova de balas,
esquecido dentro do meu carro, estacionado em frente ao clube. Um sargento
volta de moto ao clube para buscar o colete.
Toca o meu celular.
Era o Coronel me desprendendo. Desta vez, ele não ordenou, e sim, me
pediu, que a gente tentasse não deixar que a tropa seguisse até o Palácio
da Liberdade. A praça já estava cercada pela Forleg nessa hora, mas eu
ainda não sabia.

57
Polícia unida jamais será
vencida
No cruzamento com a avenida Barbacena chegam os policiais civis, que
também tinham realizado assembléia no mesmo dia e decidido aderir à greve. O
encontro entre os policiais das duas Corporações acontece em tom de emoção,
com gritos de saudação, abraços, e até choro de alguns policiais. O grito de
Polícia unida jamais será vencida! ecoa pela avenida. Seis mil pessoas, entre
policiais, parentes, aposentados e simpatizantes se dirigem para a Praça Sete,
coração de Belo Horizonte.
Os policiais apitam e carregam faixas com os dizeres:

Queremos salário e não esmola.

Queremos respeito pelos nossos direitos constitucionais; a Associação


dos Delegados apoia irrestritamente o movimento dos policiais; chega de
divisão, queremos a unificação das polícias já e Somos por uma Polícia única.
Os policiais gritam:

Greve! Greve!

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Na Praça Sete, acontece uma nova assembléia, tumultuadíssima. A maioria
dos policiais quer seguir para a Praça da Liberdade. Os líderes tentam encerrar
o protesto, mas não conseguem. Representantes dos policiais civis são
chamados para subirem e falarem, ajudando a conter os ânimos. Os líderes dos
praças também falam, mas os manifestantes querem seguir em frente. Os líderes
não têm outra opção senão acompanhar a passeata. Às pressas, o Sindicato
dos Trabalhadores da Construção Civil cede um carro de som para que as
lideranças possam coordenar o protesto. Este mesmo carro de som já foi
apreendido várias vezes por policiais militares durante as greves dos
operários.
Por volta de 14hs., os repórteres são informados pelas redações que a
Praça da Liberdade estava cercada por uma tropa também de PMs.
Alguns sindicalistas da CUT chegam com as bandeiras vermelhas, já na
subida da avenida João Pinheiro. Os policiais rasgam as bandeiras e só não
agridem os sindicalistas por minha interferência. Os policiais se recusam a dar
conotação ideológica ou política no movimento.
Na subida da avenida João Pinheiro, tomei conhecimento de que havia
uma tropa repressora cercando a Praça da Liberdade. Pedi a dois policiais da
manifestação que fossem rapidamente ao QCG e implorassem ao comandante
daquela tropa para retirá-la. Os policiais foram orientados a lembrar ao
comandante que na primeira passeata, no dia 13, não havia tropa repressora e
tudo correu tranqüilamente. Eu temia um confronto. Os policiais foram correndo
na frente e retornaram com a resposta: o Comando afirmara que todas as
medidas necessárias já tinham sido tomadas e que não retiraria a tropa.
Em frente ao Detran a passeata parou e chamamos os policiais civis para
engrossarem o movimento. Desta vez, dezenas de policiais deixam o prédio do
Detran e acompanham a passeata.

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Polícia contra polícia

A passeata chega à Praça da Liberdade. Logo no início do contorno da


praça dá para avistar a tropa de repressão, com policiais de capacetes brancos,
de choque, armados, postados ao longo do Palácio da Liberdade e do prédio
do QCG. Outra tropa, dentro dos jardins do palácio, usa capacetes pretos,
conhecidos como formigões. Uma terceira tropa vem correndo, em formação
de choque, para fortalecer o cordão de isolamento. Quinhentos cadetes e
policiais do interior integram a Forleg, ou tropa da legalidade, como foi
denominada pelo Comando. Os manifestantes são mais de 6 mil.

Manifestantes chegam à Praça da Liberdade e encontram a Força Legalista

Eu desci do carro de som e pedi calma aos manifestantes. Pedi que o


protesto fosse encerrado e que os policiais voltassem. A passeata continua a
avançar. Na esquina com avenida Bias Fortes, acontece o primeiro incidente
entre os policiais dos dois lados. Começa um empurra-empurra, ombro a ombro.
A tropa de repressão representa um desafio para os policiais que estão

60
protestando. O tumulto aumenta e os policiais avançam sobre a Forleg, que
tem que recuar. Quando a situação se agrava, o comandante de policiamento
da Capital, Coronel Edgar Eleutério, que está no Comando da Forleg, em frente
ao Palácio da Liberdade, é puxado pelo braço pelo comandante do 1° BPM,
tenente-coronel Antônio Luiz, e sai do local.
Cadetes e oficiais arrancam os galões, que são jogados no chão. Eles se
misturam aos manifestantes. A Forleg recua correndo para a frente do QCG. O
tumulto aumenta. O jornalistas estão no meio da confusão. Algumas pessoas
conseguem atravessar a barricada para entrar no prédio, mas a maioria fica retida
nas escadas. Os oficiais estão à frente da Forleg, impassíveis. No Comando
da Forleg está o novo comandante de Policiamento da Capital, Edgar Eleutério
Cardoso, que se posta em frente à escada.
Alguns integrantes da Forleg arrancam as braçadeiras brancas de
identificação da tropa e, desesperados, passam para o lado dos manifestantes,
dizendo que estavam ali obrigados e não queriam o confronto. Dentro do prédio
do QCG, todos os andares estão ocupados por oficiais, portando armas de
grosso calibre (fuzis, escopetas e metralhadoras). No alto do prédio,
atiradores de elite estão em posição de tiro, com as armas apontadas para
os manifestantes.

Tiroteio

Vários policiais, civis, praças e oficiais, estão com armas na mão. O


tumulto é generalizado. Começam os tiros. O cabo Valério de Oliveira, que
está com os manifestantes, ao meu lado, no alto da mureta, pede calma.

O cabo Valério está exatamente ao


meu lado, sobre a mureta e em
poucos segundos, nós trocamos de
lugar, e ele ficou um pouco à minha
frente, ligeiramente abaixado, com o
rosto virado para a direita, ainda
pedindo calma aos colegas.

61
Estendi braços para a frente, sinalizando para conter a multidão, que quer
invadir o QCG. O cabo Valério vê as armas, vira-se para a fotógrafa Isa Nigri
e alerta: Cuidado, tem pessoas armadas aqui. Segundos depois, acontece o
primeiro tiro, e outro logo em seguida. Ele é atingido na cabeça pelo segundo
tiro e cai desfalecido. A fotógrafa registra a cena. Cinegrafistas também
conseguem captar o instante em que o militar foi atingido.
Acontecem outros disparos depois de 20 segundos, o que provoca
correria e debandada geral. Enquanto isto, o cabo Valério é socorrido por um
grupo de praças e oficiais, em meio à gritaria e confusão. Ele é levado para
dentro do prédio. Do lado de fora, policiais e jornalistas deitam-se no chão.
Novos disparos são ouvidos. No total, oito tiros são disparados.

Vários colegas afirmam que o


coronel. Eleutério atirou.

Um deles é o cabo Fernando, do 18° BPM:

“Eu vi o cabo caindo e o coronel


trocando a arma com um cadete, ele
com a arma que atirou na mão.”

Policiais deitam-se no chão depois que começam os tiros


62
Cabo Valério baleado na cabeça

A Forleg recua para a portaria principal do QCG. Os manifestantes cercam


o prédio. O cabo Valério é colocado numa viatura na garagem do QCG e levado
para o Hospital João XXIII, onde é internado em coma profundo.
Depois dos tiros, vêm as pedras, atiradas de todas as direções, até de
dentro do prédio. Uma delas atinge o vidro da Sala de Imprensa, provocando
pânico nas policiais femininas, que correm para o banheiro. Uma oficial médica
pede socorro à mãe pelo telefone celular. As funcionárias da limpeza deixam o
prédio pela janela.
O Coronel Eleutério foge pelo fosso que dá acesso à garagem. Uma
viatura cheia de armamento pesado deixa o prédio em alta velocidade e é
perseguida pelos policiais, que pensavam estar dentro dela o Coronel Eleutério.
A situação se acalma.
Fui cercado por policiais que me protegiam, inclusive usando tenerê
(máscaras que cobrem todo o rosto, deixando de fora apenas os olhos), subi
no carro de som e voltei a pedir calma, que se concentrassem calmamente para
esperar, pois a Comissão seria recebida pelo comandante-geral.

Quem atirou, atirou para me matar,


pois o Cabo Valério não fazia parte
da comissão. Atiraram na cabeça.

63
Eu era o único dos seis mil policiais
que estava de coletes. Ele trocou de
lugar comigo cerca de cinco
segundos antes do tiro.

Força legalista se posiciona à frente do prédio do comando da PMMG

64
Governo chama exército

O governador Eduardo Azeredo é alertado por assessores que a


situação estava crítica. Ele foge do palácio de carro, pelos fundos, e vai
para o Palácio das Mangabeiras, residência oficial do Governo, no outro
extremo da cidade. Azeredo liga para o vice-presidente Marco Maciel
pedindo que o Exército fosse mobilizado para garantir a ordem. O vice-
presidente Marco Maciel ordena ao ministro do Exército, Zenildo de
Lucena, que mobilize as tropas federais, através da 4ª Divisão de Exército,
sediada em Belo Horizonte. A ordem do ministro é que as tropas do Exército
garantam a segurança pessoal do governador e dos prédios públicos, como
os Palácios dos Despachos, da Liberdade e Mangabeiras.

Soldados do Exército entram pelos fundos no Palácio da Liberdade

Fui chamado com a Comissão para uma reunião com o comandante-


geral. Dez coronéis da ativa e o Coronel reformado Picinini, o juiz militar
aposentado Forreaux e um promotor, também participam da reunião. Assim

65
que a Comissão entra no auditório do Comando-Geral a reunião começa
em clima de troca de acusações. O Coronel Miranda grita:
“Viu o que vocês fizeram?”
Eu também gritei:

“Eu lhe avisei ontem à noite que a


tropa não iria aceitar o abono e o
senhor foi insensível, se limitando a
me prender por telefone. O culpado
disto tudo é o senhor, ainda mais
com esta tropa aí embaixo.”

O Coronel Miranda saiu da sala. O Coronel Paulo Paenicke, chefe


do gabinete da Casa Civil, estava exaltado, gritando com os praças e é
colocado para fora pelos próprios coronéis.
O comandante-geral pediu calma: O momento é de conversa e não
de acusações. O subtenente Welliton, chorando, disse: Nós queremos
aumento e não balas. O comandante diz que o secretário da Casa Civil
iria receber a Comissão para reabrir as negociações. A Comissão segue
para o Palácio dos Despachos. Na porta, os policiais da guarda permitiram
apenas a minha entrada. Fiquei com medo de tentarem me prender. Um deles
grita: O Cabo Júlio não pode ficar sozinho, pelo amor de Deus! Outros
representantes da Comissão entram.
Quando entrei no Palácio dos Despachos, vi escondidos nos
corredores dezenas de militares do Exército, armados de fuzis e granadas e me
assustei muito porque achei que haveria um confronto.
Enquanto a reunião acontecia, os policiais continuam concentrados e o
prédio do QCG ainda guardado pela Forleg. Os manifestantes se ajoelham no
chão, davam-se as mãos e faziam uma oração. As emissoras de TV começam a
transmitir flashes do tiroteio. Algumas emissoras informam que o cabo Valério
havia morrido. Oficiais ligavam para as direções das emissoras tentando impedir
que as imagens fossem mostradas, segundo eles, porque geraria mais

66
confronto. As emissoras de rádio também receberam assédio para que parassem
de transmitir ao vivo do local. Nenhuma emissora, é claro, atende ao pedido.

Cumprindo ordem do Governo Federal, soldados do Exército são convocados


para policiamento dos prédios públicos

67
Barricadas no Quartel
Central Geral

O Coronel Eleutério retorna ao prédio do QCG. Na portaria estão vários


coronéis, entre eles o ex-comandante de policiamento da Capital, Coronel José
Guilherme, e vários coronéis reformados. Eles ordenam que os policiais da
Forleg fiquem de prontidão dentro do saguão e nos vários andares do prédio.
Atiradores de elite estavam posicionados em cada janela do prédio, com as
armas apontadas para a multidão lá fora.
A Assessoria de Imprensa requisita nas TVs as fitas com as imagens do
tiroteio. O Coronel Eleutério desce ao saguão e entrega uma arma ao juiz militar
Forreaux e ao promotor. Os dois cheiraram a arma e observaram o tambor onde
ficam os cartuchos, mas não fizeram nenhum comentário.
A repórter Paula Rangel da CBN, foi chamada para testemunhar a entrega
da arma e assinou um termo, mas fez questão de constar que não poderia afirmar
se a arma entregue era a mesma que estava com o Coronel no momento do
tiroteio.
Depois de tanto tempo seria muito fácil trocar de arma.

Honestamente, acredito que quem


matou o Cabo Valério foi o coronel
Eleutério. Mas o comando da polícia
trabalhou insistentimente para
acusar o soldado Wedson que
também, infelizmente, efetuou
disparos.

68
Reabertas as negociações

Comissão dos PMs, policiais civis e agentes penitenciários é recebida


no Palácio pelo chefe do Gabinete Militar. De longe, um general do Exército
observa os integrantes da Comissão. O Coronel Brunelli, extremamente
nervoso, diz que a Polícia Militar acabou e que não tinha jeito mais. Aconteceu
o que eu temia! O secretário Agostinho Patrus recebe a Comissão e informa
que o Governo está disposto a negociar, mas era preciso que a Comissão
retirasse a tropa da frente do prédio do QCG e a levasse para os quartéis. Ele
garantiu que no outro dia, pela manhã, convocaria a Comissão para uma nova
reunião de negociação para uma solução definitiva, pois seria impossível
negociar com três classes distintas ao mesmo tempo, com pautas diferenciadas
e no clima em que estava a praça.
No interior do Palácio uma fita de vídeo nos foi mostrada, onde os oficiais
acusavam um homem a paisana como o autor do disparo que atingiu o cabo
Valério. Logo após saímos para a Praça, aproximadamente às 20hs., onde subi
no carro de som e pedi aos policiais que tivessem calma e me escutassem.
Informei que as negociações com o Governo estavam reabertas e que devíamos
dar um prazo para que fosse apresentada uma nova proposta. Ficou então
decidido que o prazo seria de três dias e que no dia 27 faríamos uma nova
assembléia. Com muito custo consegui conter os ânimos e dispersar a tropa.

Ordens e contra-ordens

No QCG o clima ainda era de guerra, apesar da calma dos manifestantes


que aguardavam a reunião no Palácio do Despachos. No subsolo do prédio as
luzes foram apagadas e os atiradores de elite e a Forleg estavam deitados no
chão, armados, e em posição de combate. As policiais femininas receberam
ordem de ficar à paisana e deixar o prédio. Elas tiveram dificuldades de cumprir
a ordem; não conseguiam trocar de roupa porque os banheiros estavam
69
lotados. Os banheiros eram os únicos locais protegidos em caso de tiroteio já
que o prédio do Comando é todo de vidro e muito exposto. Ninguém entendia
nada, havia um excesso de ordens e contra-ordens, as policiais femininas não
podiam mais sair porque estava proibido transitar dentro do prédio.
Oficiais gritavam nervosos. Esta situação durou quase uma hora e a todo
momento se falava que uma invasão era iminente. Já sabia que o Exército estava
marchando para o Palácio da Liberdade. A situação foi se tranqüilizando e as
policiais puderam deixar o prédio.

Cabo Valério em estado crítico

O cabo Valério é operado e seu estado considerado gravíssimo pelos


médicos do Pronto-Socorro João XXIII. A bala tinha atingido o cérebro e ele
estava em coma. Segundo o boletim médico divulgado, as funções vitais
estavam sendo mantidas por aparelhos e medicamentos.
Uma das irmãs do militar, chorando muito, diz que a família prefere não
culpar ninguém.
“A Polícia de Minas é a mais respeitada do Brasil inteiro e vai continuar
sendo. Para nós, foi um acidente”.
A todo momento policiais do interior telefonavam indagando se deveriam
deslocar-se imediatamente para a Capital. Eu respondia que eles deveriam
aguardar em seus quartéis até uma definição. Eu recebi telefonemas inclusive
de outros Estados, por causa da ameaça de confronto com o Exército. Policiais
militares diziam que estavam dispostos a vir para Minas Gerais em solidariedade
à Polícia mineira. Eu agradeci e respondi negativamente, porque a presença
deles aqui poderia causar uma revolução.

70
O dia seguinte

O Instituto de Criminalística é chamado para fazer a perícia no local onde


o cabo Valério foi baleado, na mureta da entrada do QCG. As investigações
inicialmente ficam a cargo da Divisão de Homicídios da Polícia Civil,
considerada uma equipe modelo na apuração de crimes, mesmo com o militar
ainda vivo no hospital. Para chefiar a equipe de perícia é nomeado o chefe da
Divisão, delegado Otto Teixeira. A perícia tem prazo de 30 dias para ser
concluída.
Nas ruas, o policiamento é mínimo, apenas poucos policiais do BPTran,
o Batalhão de Trânsito, são vistos na cidade. Comerciantes denunciam que
houve uma onda de arrombamentos durante a noite e que estão reforçando a
segurança particular.
O governador declara que os limites da tolerância foram
ultrapassados.
Todos os jornais do País trazem estampados na primeira página a notícia
do confronto na Praça da Liberdade. A foto de Isa Nigri, do jornal O Tempo, é
capa no Globo, Jornal do Brasil e Folha de São Paulo.
A Praça da Liberdade amanhece ocupada por tropas do Exército. Os
soldados, camuflados, com pinturas de guerra, erguem barricadas em volta da
Praça e na porta do Palácio da Liberdade. Pelo menos 900 homens do Exército
estão dentro do Palácio da Liberdade, de prontidão. Jipes e tanques circulam
ao redor, dando a impressão que Belo Horizonte está em guerra. É uma clara
demonstração de força para nos intimidar. Os soldados do Exército ficam na
praça durante toda a manhã e, no início da tarde, são deslocados para os jardins
dos fundos do palácio. Os quartéis do Exército também estão com tropas de
prontidão.

71
Governador faz
pronunciamento

O Governador Eduardo Azeredo passa horas reunido com a cúpula do


Governo, da 4ª Divisão de Exército e do Comando Militar do Leste. O próprio
comandante do Leste, General José Luís Lopes da Silva, participa da reunião,
que tem o objetivo de manifestar o apoio federal ao governador.
Depois da reunião, Azeredo faz um pronunciamento oficial, anunciando
as medidas para a manutenção da ordem e da segurança.
Diz a nota oficial:
“O Governador Eduardo Azeredo reuniu-se no final da manhã de hoje
com o comandante-geral da PM, Coronel Antônio Carlos dos Santos e com o
comandante da 4ª Divisão de Exército, general-de-divisão Carlos Patrício de
Freitas Pereira, estando presente também o vice-governador, Walfrido dos
Mares Guia. Foi feita uma avaliação conjunta da situação decorrente dos
acontecimentos de ontem, terça-feira, concluindo-se que estão sendo garantidas
as condições de segurança da população e da normalidade dos serviços
públicos, com sua ação operacional focalizada sobretudo na área dos prédios
da administração central do Estado.
No mesmo propósito manifestado na noite de ontem, em seu
pronunciamento ao povo mineiro, de manter o Governo aberto ao diálogo e
de, ao mesmo tempo, assegurar a tranqüilidade pública, o Governador Eduardo
Azeredo autorizou o Comando-Geral a prosseguir nas conversações com
representantes da categoria de graduados e praças da Corporação, visando a
uma solução que preserve a harmonia social no Estado”.

72
Fala o Exército

Enquanto isso, o comandante da 4ª Divisão de Exército, General Carlos


Patrício de Freitas Pereira, depois de se reunir com o governador Eduardo
Azeredo, concede uma entrevista na sede da 4ª DE, avenida Raja Gabaglia. A
imprensa registra a chegada de várias tropas do interior, que vinham em comboio,
chegando pela BR-040 e sendo colocadas em pontos estratégicos. As tropas
são de Juiz de Fora e Barbacena, na zona da mata de Minas Gerais e de Sete
Lagoas, a 100 km de Belo Horizonte.
A informação que mais interessava aos jornalistas era o número de
homens que compunham a tropa federal. O general desconversa durante a
entrevista, recusando-se a responder esta pergunta. Ele diz que acredita numa
solução pacífica para a crise e não informa porque os soldados do Exército
estão em Belo Horizonte.
O general afirma que a ordem é garantir a segurança pessoal do
governador e dos prédios da administração pública e nega a possibilidade dos
soldados do Exército atuarem no policiamento da Capital. Segundo o general,
as tropas estavam vindo para Belo Horizonte para participar de um desfile já
programado, em homenagem ao comandante militar do leste, que viria à Capital
mineira.
O general nega a possibilidade de confronto entre Polícia e Exército:
“Vamos lembrar que do outro lado estão irmãos. Os manifestantes são
brasileiros e o nosso Exército não é um Exército de ocupação dentro do nosso
próprio País. Não vejo a possibilidade de confronto entre Polícia e Exército, eu
entendo que isto não ocorrerá”.
Com a insistência dos repórteres sobre o número de soldados, ele diz:

“Não podemos revelar o contingente


porque isto faz parte de uma
estratégia contra o inimigo”.

A resposta provoca mais questionamentos dos jornalistas, que insistiam


em saber o número correto de soldados, calculado em torno de 900 homens.
Estranharam a resposta do general sobre a estratégia contra o inimigo. Alguém
perguntou se inimigo não existia apenas em caso de guerra e ele não soube
responder, o que provocou risadas dos jornalistas que participavam da coletiva.
73
Os laudos contraditórios

É gravíssimo o estado de saúde do cabo Valério de Oliveira, internado


no CTI do Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, unidade da Fhemig –
Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais. Ele é submetido a uma nova
cirurgia de madrugada, para retirada de um coágulo no local da perfuração a
bala, que precisou ser drenado, segundo os médicos. A coordenadora do HPS,
Bete Kopit, transmite o boletim médico, informando que ele respira por
aparelhos e está em coma. Segundo a médica, houve perda substancial de
massa encefálica e haveria seqüelas, não sendo possível avaliar quais.
“O lado esquerdo do seu corpo está paralisado, mas não sabemos que
outras seqüelas podem ocorrer. Temos que aguardar a evolução do quadro”.
A médica se confunde ao falar sobre a trajetória da bala na cabeça do
paciente. No dia anterior, um médico informara à imprensa que a bala teria
entrado pela região frontal anterior direita, atravessado uma parte do cérebro e
saído pela região frontal esquerda mais embaixo. Segundo a coordenadora, no
dia da coletiva, a trajetória era oposta a que tinha sido divulgada: a bala entrara
pela esquerda e saiu pela direita. Interrogada incessantemente pelos jornalistas,
ela se atrapalha e diz que a trajetória da bala só poderia ser confirmada através
de uma perícia e no momento a preocupação dos médicos era apenas salvar a
vida do cabo Valério.
A médica diz que os erros na divulgação do primeiro laudo foram
provocados pela pressão dos jornalistas e cansaço. Confusão entre esquerda
e direita é comum. Ela nega que o militar já estivesse com morte cerebral,
portanto sendo mantido vivo pelos aparelhos. Indignada, a médica diz que isto
seria contra a ética profissional e que nenhum médico do hospital aceitaria
ocultar ou mentir sobre o real estado do paciente, atendendo interesse de quem
quer que fosse. A imprensa especulava se haveria interesse do Governo e do
Comando da PM em não divulgar a morte do cabo Valério ainda no calor dos
acontecimentos da véspera. Comentava-se entre os jornalistas que o militar já
estava morto e o fato estaria sendo escondido pelos médicos do HPS.
É divulgado o nome do suspeito (fabricado pelo comando) que teria
atirado contra o cabo Valério. O soldado Wedson Campos Gomes, que estava
74
à paisana no momento da manifestação, é identificado como autor do tiro e
resolve se apresentar, acompanhado de seu advogado, Obregon Gonçalves.
O assessor de imprensa da PM, major Rômulo Diniz, confirma que o
soldado se apresentou ao quartel. Ele corre risco de morte, está sendo
ameaçado e por isto ficará sob a proteção da PM.
O assessor de imprensa do Comando de policiamento da Capital, Ca
Alberto Luís, dá mais detalhes sobre a versão que o soldado Wedson
apresentou:
“Ele apresentou a versão de que alguém estaria próximo ao cabo Valério,
apontando uma arma em sua direção, quando ele estava no meio da multidão
de manifestantes. Ele então sacou rapidamente o revólver e tentou efetuar um
disparo contra essa pessoa, mas quem acabou sendo atingido foi o cabo
Valério”.
À noite, alguns jornalistas descobrem que os policiais militares haviam
integrado a Forleg estão alojados no estádio do Mineirão. Alguns policiais
dizem que estão em condições precárias desde que foram trazidos do interior
para integrar a tropa. Eles informam que retornarão no dia seguinte às suas
cidades de origem.

Sai o acordo

Às 16 hs., a Comissão recebe a convocação do Comando para comparecer


ao prédio do QCG. Os integrantes esperam uma hora antes de serem recebidos.
O chefe do Estado-Maior, Coronel Oswaldo Miranda, assume as
negociações pelo Comando da Polícia Militar. Ele pede desculpas à Comissão
por ter efetuado as prisões por telefone, alegando que fora uma atitude tomada
por causa do seu gênio. Estou muito velho para mudar, mas quero ajudar a
resolver este impasse, diz o coronel.
O coronel afirma que o piso de R$ 800,00 é praticamente impossível. A
Comissão argumenta que estava aberta a negociações, inclusive para diminuir
este valor, a fim de que não se realizasse a assembléia do dia 27.
Ele informa à Comissão que o vice-governador, Walfrido dos Mares Guia,
negociaria diretamente com os representantes dos praças, no Palácio dos
Despachos e que a Comissão deveria aguardar a convocação.

75
No dia seguinte, na sala de reuniões do Palácio dos Despachos, encontram-
se o vice-governador, o comandante-geral, o chefe do Estado Maior, o presidente
da Cohab, o secretário da Fazenda e outras autoridades. Assim que a reunião é
iniciada, por volta de 18hs., o governador Eduardo Azeredo entra na sala,
acompanhado do arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Dom Serafim
Fernandes de Araújo o Pastor Antônio Lúcio, representando uma Comissão de
cinqüenta pastores, que estavam na sala ao lado, orando para que o impasse
fosse resolvido. O governador faz um discurso pedindo que todos os esforços
fossem feitos para que houvesse uma solução na reunião.
Dom Serafim faz uma oração e é acompanhado por todos na sala. O Pastor
Antônio Lúcio também faz uma oração e, da mesma forma, é acompanhado por
todos. Depois que o governador e os religiosos saem da sala, a reunião fica
mais amena e começam as negociações salariais. O vice-governador mostra os
cálculos do Governo sobre o impacto de um aumento de R$ 10 milhões na folha
de pagamento do funcionalismo. Ele propõe a Comissão dos praças um salário
inicial de R$ 570,00 para os soldados, a partir de dezembro. O reajuste seria
escalonado, em três parcelas, nos meses de agosto, outubro e até chegar a
este valor, no mês de dezembro.
A Comissão argumenta que era uma proposta ridícula para ser levada à
tropa. O vice-governador insiste, alegando que o Governo não teria caixa para
honrar seus compromissos se o aumento fosse maior. A reunião adentra a noite.
O impasse continua, pois há necessidade de se chegar a um acordo definitivo
ainda naquela noite para que fosse desmobilizada a tropa e cancelada a próxima
assembléia, marcada para o dia seguinte, 27, às 10hs.
O vice-governador aumenta a proposta. Ele afirma que o Governo poderia
chegar a um valor máximo de R$ 600, também escalonado. A Comissão não
gosta. Cansado, eu digo que o Governo tem que ir além deste valor.

– Senhor vice-governador, permita-me a


franqueza, mas já está ficando tarde,
existe uma assembléia marcada para amanhã
cedo que pode ter conseqüências gravíssimas.
É preciso que imediatamente cheguemos a uma
solução. Com o valor de R$ 615,00 para o soldado
iniciante, garanto-lhe que, através da imprensa,
agora, encerraremos o movimento, desmobilizando a
tropa e cancelando a assembléia de amanhã.

76
– Você me garante que se eu chegar a este valor, acaba tudo agora?
– Garanto.
O vice-governador diz que este valor extrapola o que ele, vice-governador,
poderia conceder. Ele pede 10 minutos para conversar por telefone com o
governador e dar uma resposta definitiva.
Depois de cinco minutos, o vice-governador retorna e pergunta
novamente:
– Você garante que consegue acabar com o movimento agora?.
– Sim, eu garanto.
– Então está resolvido. Agora vamos decidir como será incorporado este
aumento aos salários”.
Fica decidido que o salário anterior de R$ 415,00 seria acrescido de
R$ 115,00 de alimentação e R$ 85,00 de auxílio moradia, o que corresponderia
ao valor total de R$ 615,00, vigorando a partir de julho, pois não havia mais
tempo de lançar o aumento na folha do mês de junho. Em julho, os policiais
receberiam os R$ 517,00 proposto inicialmente pelo Governo e que já estava
nos contracheques.

Nova assembléia é cancelada

Encerrando a reunião, a Comissão faz uma nota oficial informando à tropa e


à sociedade, através da imprensa, que se havia conseguido um acordo final com
o Governo e que estava encerrado definitivamente o movimento grevista. Foi
anunciado também que estava cancelada a assembléia do dia seguinte. A
orientação para os policiais é a de voltar imediatamente ao trabalho.
Li a nota em uma entrevista coletiva ainda no Palácio dos Despachos,
com expressão solene, acompanhado pelos outros integrantes da Comissão.
Inicie a leitura referindo ao momento histórico desde a deflagração do
movimento dos policiais.
“O dia 13 de junho é e será o marco histórico das mudanças nas relações
entre os diversos níveis da nossa Corporação. O diálogo e a negociação passam
a ser os principais instrumentos de solução de diversos conflitos”.
Prossegue a nota:

77
“O atendimento da pauta de reivindicações possibilita a revisão imediata
do RDPM e do EPPM. As modificações serão efetivadas com a participação
de todos os segmentos da PMMG. A política habitacional para os policiais
militares passa efetivamente a considerar a capacidade de pagamento do
servidor e será gerenciada pela Cohab, com recursos da Caixa Econômica
Federal. O aumento real de R$ 200,00 para R$ 615,00 para os soldados sem
qüinqüênio, mostra a importância da mobilização dos PMs, que possibilitou a
reabertura das negociações”.
A nota ressalta ainda:
“[...] a importância da continuidade da discussão para negociar a política
salarial e a revisão do regulamento e do estatuto. É obrigação da Comissão
representativa e de todos os PMs envidar esforços para evitar situações como
a triste e lamentável ocorrência a que foi exposta o cabo Valério. A Comissão
pretende acompanhar a apuração do crime”.
Encerrando a nota, afirmei:
“O apoio da sociedade foi fundamental para legitimar as reivindicações e
encontrar soluções para os conflitos. Estamos convencidos que as portas
permanecerão abertas.”
O valor de R$ 615,00, proposto pela Comissão, foi obtido através de uma
pesquisa feita entre os praças, para que soubéssemos qual o mínimo necessário
que poderíamos negociar, saindo vitoriosos do movimento. Segundo a
pesquisa, feita boca-a-boca, o valor mínimo aceitável variava entre R$ 600,00 e
R$ 630,00. Chegamos a este limite para não sacrificar a população.

78
Tolerância

O governador Eduardo Azeredo convoca uma coletiva na mesma noite,


no Palácio da Liberdade. Ele comunica o resultado do acordo entre os
representantes dos praças e do Governo.
“Num esforço ímpar o Governo aceita chegar a um piso de R$ 615,00 para
soldados e detetives da Polícia Civil. Estou confiante que a ordem será mantida
no Estado”.
Azeredo faz ainda uma avaliação da crise:
“Eu optei por ter tolerância para que não houvesse um confronto, que
nós não saberíamos a que ponto chegaria. Isto poderia levar a muitas vítimas
fatais. Então, no momento em que nós tivemos esta tolerância, eu acho que
servimos ao Brasil, porque evidentemente a coisa poderia piorar, a partir de
Minas Gerais”.
Segundo informações do Governo, a folha de pagamento, com o reajuste,
chegaria a 76% da receita do Estado.
No dia seguinte, os membros da Comissão ainda têm que seguir para o
Clube de Cabos e Soldados para evitarem a realização da assembléia, já
cancelada pela imprensa.
Segui para o Clube de Cabos e Soldados para dar informações caso
aparecessem policiais que não tivessem tomado conhecimento do acordo com
o Governo através da imprensa. Uns vinte policiais estavam lá, ficaram surpresos
ao saber do acordo e comemoraram. Os jornalistas também estavam no clube e
pude dar entrevistas mais detalhadas sobre o acordo, a situação salarial e as
outras questões. Eu afirmei à imprensa que não temia represálias por não ter
sido causador do movimento e pela garantia que o Governo tinha dado de que
não haveria retaliação ou perseguição.

79
Suspeito se apresenta

O soldado Wedson Campos Gomes, da 3ª Cia. do BPChoque, acusado de


ser o homem que atirou contra o cabo Valério, é apontado por testemunhas e
se apresenta no Centro de Aperfeiçoamento de Praças - CFAP, acompanhado
do seu advogado, Obregon Gonçalves. Ele nega ser o autor do tiro. O soldado
Wedson declara que estava de serviço no dia da passeata, mas solicitou dispensa
porque estava passando mal, com princípio de pneumonia. Foi atendido no
Hospital Militar e depois de medicado seguiu para a Praça Sete, onde se
encontrou com a passeata.

“Tenho certeza que não atirei no


cabo Valério. Atirei para o alto, para
assustar porque havia oficiais
atirando da janela do QCG. Um
oficial estava com uma arma
apontada para a multidão. Ouvi mais
três estampidos atrás de mim.
Decidi me apresentar porque
temo pela minha segurança e
de minha família”.

O militar fica alojado no Cefap, a seu próprio pedido, por questões de


segurança, local onde prestou depoimento.

80
Vítima, herói, ou mártir,
o Cabo Valério é enterrado
em clima de emoção

Cabo Valério, mártir do movimento (em pé, ao lado da viatura ROTAM)

Quatro dias depois de ter sido baleado na cabeça, no sábado, às


17h10, o cabo Valério de Oliveira morre no HPS. Como causa da morte, o
atestado diz: falência múltipla dos órgãos. A necropsia é feita no dia 28. No
dia seguinte, domingo, ele é enterrado no Cemitério da Colina e o cortejo é
acompanhado por centenas de pessoas, entre parentes, amigos e policiais
militares. Há uma grande preocupação dos parentes de não transformar o enterro
em manifestação política, mas os discursos são inevitáveis. Os familiares pedem
à imprensa que não registre o velório. Os praças não fazem continência aos

81
oficiais presentes.
O caixão é coberto com a bandeira nacional e um toque de silêncio
substitui a salva de tiros, a pedido dos familiares, que discursam emocionados.
A irmã, Fátima Marlene de Oliveira, faz uma declaração:
“Meu irmão morreu pedindo calma e foi um grande herói, uma cabeça de
ferro com um coração de ouro”.
Os amigos do cabo Valério discursam pedindo paz e perdão a quem atirou.
Os discursos são cobertos de emoção, muitos choram. Não há manifestações,
além das frases mais inflamadas pronunciadas pelos parentes e amigos, e o
corpo do cabo Valério é enterrado em silêncio e lágrimas.

Inquéritos Policiais Militares


(IPMs)

O primeiro Inquérito Policial Militar é aberto, no dia 27 de junho, para


investigar a morte do cabo Valério, presidido pelo major Túlio Porto.
Outros dezessetes IPMs são instaurados para apurar participação de
policiais no movimento grevista.
A promotora do Tribunal de Justiça Militar, Maria Solange Ferreira de
Morais, diz que pelo menos 1.300 policiais poderão ser indiciados por terem
participado do movimento, de acordo com os comentários que circulavam pelas
auditorias da Justiça. A promotora diz que a solução para o impasse deveria
ser política, restringindo-se a punições disciplinares, mais leves.
No dia 1° de julho, policiais militares começam a depor nos inquéritos.
Vinte e quatro da 5ª Cia. do Fórum Lafayette são interrogados sobre sua
participação na manifestação. Eles temem transferências para o interior como
punição. Esses policiais foram identificados por fotos de jornais e imagens.

82
Perícias e depoimentos se
contradizem

No dia sete de julho, treze dias depois que o cabo Valério foi baleado,
peritos do Instituto de Criminalística fazem novas medições na fachada do QCG.
O objetivo é traçar a trajetória da bala. O perito Hamilton Chioddi faz parte da
equipe de cinco peritos que vai assinar o laudo. Ele declara: “Ainda estamos
no início dos trabalhos e não temos elementos conclusivos para definir de
onde partiu o tiro”.
O secretário de Segurança convoca uma coletiva no mesmo dia, ao
lado do chefe da Divisão de Homicídios e faz a seguinte declaração: Eu
mesmo chequei os exames dos peritos e posso garantir que o tiro partiu
da multidão. Esta declaração certamente tem a finalidade de inocentar o
Coronel Edgar Eleutério, apontado como um dos autores do tiro e que no
momento da multidão estaria no andar térreo, de frente para a multidão. A
assessoria da PM desmente a informação extra-oficial que teriam sido
encontrados resíduos de pólvora nas mãos do coronel.

Três testemunhas afirmam, em


depoimento à Divisão de Homicídios,
que o coronel teria atirado. Entre
elas, o cabo Luiz Fernando da Silva,
que declarou ter visto o coronel
atirar com uma pistola e depois
trocar a arma com um cadete,
ficando com um revólver calibre 38.

São feitos vários exames pela perícia: os projéteis encontrados passarão


por exames de DNA; estão ainda sendo aguardados resultados dos laudos de
necropsia, perícia do local, balística, análise das fitas, análise de resíduos de
sangue no local.
A Assessoria do governador declara que os comandantes de batalhões
da PM estão orientados a não promover retaliações genericamente.

83
Laudo “duvidoso” inocenta
Coronel

Antes da divulgação oficial do laudo, o repórter Ilson Lima, do Estado


de Minas, publica conclusões iniciais do trabalho dos peritos:
“O tiro partiu da multidão e não do prédio do QCG. A conclusão preliminar
inocenta o comandante de policiamento da Capital, Coronel Edgar Eleutério
Cardoso, apontado como um dos possíveis autores do disparo que atingiu o
cabo Valério”.

Mas a perícia comprova que o coronel


efetivamente atirou. Foram encontrados
resíduos de pólvora nas mãos dele,
de acordo com o exame laboratorial.

Entra em cena o mais famoso e polêmico legista brasileiro, o mesmo que


trabalhou no caso PC Farias/Suzana Marcolino, em Alagoas. O perito Fortunato
Badam Palhares, da equipe de medicina legal da Unicamp, Universidade de
Campinas/SP, é chamado para fazer a perícia, com base nas fitas de vídeo de
três emissoras de TV, Rede Globo, Rede Manchete e Canal 15, enviadas pelo
presidente do inquérito policial militar que investiga a morte do cabo Valério,
Coronel Henrique Elói do Nascimento.
O coronel vai a Campinas, onde é feita a divulgação do laudo extra-oficial
à imprensa. São três as conclusões da equipe da Unicamp, coordenada por
Badam Palhares. A primeira conclusão é que o projétil que matou o cabo
Valério entrou pelo lado esquerdo do crânio e saiu próximo à parte superior
direita da cabeça. A segunda conclusão: o tiro veio da frente do local onde
estava o cabo Valério, e de uma região inferior a que ele estava, descartando
a hipótese do coronel, que estava atrás, no QCG, fosse o autor do tiro. A
terceira conclusão: os peritos localizam, através das imagens quem atirou, um
homem de cabelos escuros, estatura mediana, vestindo camisa e bermuda azuis.
O nome dele não é divulgado pelos peritos, mas já é de conhecimento geral
que o suspeito é o soldado Wedson Campos Gomes.
84
Badam Palhares declara:
“Não temos nenhuma dúvida, absolutamente nenhuma, com relação à
autoria. Não existe a possibilidade do tiro ter sido disparado pelo comandante.
Todos os sons foram colhidos e analisados, descaracterizando a possibilidade
de qualquer outro disparo ter sido efetuado neste espaço de tempo”.
Outro legista famoso, George Sanguinetti, que é chefe do Departamento
de Medicina Legal de Alagoas e discordou do laudo de Badam Palhares no
caso PC Farias , critica a falta de base técnica no laudo de Badam sobre o tiro
que matou o cabo Valério. Afirma:

“Um laudo feito apenas com análise


das fitas de vídeo, sem exame de
local, não tem valor técnico e seu
resultado pode ser desqualificado”.

A Justiça Militar decreta a prisão preventiva do soldado Wedson. Ele é


transferido do Cefap para uma das celas do 1° Batalhão, em Santa Efigênia.
Como também havia a suspeição da autoria do tiro pelo comandante de
policiamento da Capital, Coronel Edgar Eleutério Cardoso, o inquérito passa
para a responsabilidade do cel. Henrique Elói do Nascimento, e é
acompanhado pelo promotor Vagner Vartuli, designado pelo Ministério
Público.

Oficiais insatisfeitos
O presidente do Clube dos Oficiais da PM, Coronel reformado Edvaldo
Piccinini, reivindica, em ofício, ao Comando-Geral, novo aumento de salários
para os oficiais, alegando que os 48% concedidos aos praças não estão de
acordo com a tabela de escalonamento salarial da PM.
Alguns oficiais querem a volta do escalonamento e conversam nos
bastidores. Eles estão insatisfeitos com o aumento dos praças. As outras
parcelas do reajuste para os oficiais foram canceladas pelo Governo em vista
do movimento.
Há uma grande pressão sobre os praças já indiciados para que eles
entreguem outros nomes de policiais que participaram do movimento e das
passeatas.
O deputado João Batista de Oliveira apresenta projeto na Assembléia
Legislativa propondo anistia plena para os praças que participaram das
manifestações.
85
Movimento estoura no País

Em 26 de junho, os policiais de Mato Grosso do Sul começam a se


mobilizar por melhores salários, organizando um debate com representantes
do Governo. São cerca de 3 mil soldados e cabos no Estado, e o regime de
trabalho é de sobrecarga, denunciam os policiais.
Em 2 de julho, a greve dos policiais militares e civis do Pará, está prevista
para começar à noite. Dois mil capuzes pretos são distribuídos entre os policiais
para que eles não sejam identificados e evitem punições. Os líderes garantem
que eles estarão desarmados, mas há tensão e medo de um confronto. Eles
reivindicam aumento de 70% e piso de R$ 289,00 para os policiais militares,
que recebem salário-base de R$ 170,00 e piso de R$ 455,00 com aumento de
75% para os policiais civis, que têm piso salarial de R$ 260,00. O governador
Almir Gabriel (PSDB) anuncia fornecimento de vale-refeição de R$ 50,00 por
mês. Assembléia é marcada no IML de Belém. São 15 mil PMs e 2.900 civis no
Estado.
Eles marcam passeata para o dia seguinte. O governador diz que não vai
dar aumento e que não preparou esquema de segurança. Além do vale-refeição,
ele oferece benefícios indiretos: lotes, casa própria, pecúlio e seguros, rejeitados
pelos policiais. Vários policiais são transferidos para o interior do Estado, como
o Tenente Luiz Fernando Gomes Furtado, transferido para Xinguara, a 800
km de Belém e o capitão Silva Jr., transferido para Paranapebas, a 650 km de
Belém.
No Rio Grande do Norte os PMs reivindicam a incorporação do abono
de R$ 78,22 ao soldo de R$ 41,78 para alunos soldados, conforme decisão do
Superior Tribunal de Justiça que não está sendo cumprida pelo Governo do
Estado. O advogado da Associação de Subtenentes e Sargentos, José Ribamar
de Aguiar diz que pretende pedir intervenção federal no Estado.
Em 4 de Julho, os policiais do Piauí entram em greve. Eles reivindicam
piso de R$ 638,00 para soldado e fazem um panelaço na Praça da Bandeira, no
centro de Teresina. As mulheres dos policiais decidem participar.
Em Mato Grosso do Sul, quarenta diretores de entidades de policiais se
reúnem na Câmara Municipal de Campo Grande e definem agenda de

86
mobilização. Uma carta aberta à população explica os motivos do protesto: os
baixos salários. Cerca de 300 policiais militares e bombeiros de cinco municípios
fazem passeata pelas ruas. Eles querem piso de R$ 750,00 para soldados e
R$ 937,00 para cabos. Oficiais também participam do movimento. Os policiais
cantam o hino da esquerda Prá não dizer que não falei das flores, de Geraldo
Vandré e o Hino Nacional. Em Campo Grande, Capital, o Governo se reúne
com a Comissão representativa de policiais civis e militares. Eles preparam
manifestação para o dia 18, quando pode ser marcado o início da greve da
categoria. Eles dão prazo até o dia 17, às 18hs. para que o Governo do Estado
atenda as reivindicações: soldo inicial de soldado de um salário-mínimo. O soldo
era de R$ 29,80.
Na Bahia, o governador Paulo Souto (PFL) encaminha à Assembléia
projeto de lei com reajuste de até 58% para policiais civis e militares. O piso de
soldado passaria a R$ 597,00.
Cinco mil praças no Piauí fazem assembléia fardados e desarmados e
decidem manter a greve. O Comando propõe aumento de R$ 215,00 para
R$ 318,00 no piso de soldado, o que é rejeitado pela categoria. Do total, 80%
dos praças aderem à greve. Eles ficam acampados na praça da Bandeira, onde
fazem um ato público. O governador Francisco Morais (Mão-Santa) determina
que sejam descontados os dias parados.
Em São Paulo, os policiais estão em estado de greve. O secretário de
Segurança José Afonso da Silva diz que é impossível o Governo atender às
reivindicações das entidades de classe dos policiais, que querem reajuste de
88,68% para a Polícia Civil e entre 25% e 77,24% para a PM. A Polícia Civil
mantém estado de greve e dá prazo para o Governo até o dia 15. São 78 mil
policiais militares e 40 mil civis no efetivo do Estado. O presidente da
Associação de Cabos e Soldados, Wilson de Oliveira Morais, diz que os
acontecimentos de Minas Gerais ajudaram a deflagrar um movimento que já
era latente em todo o País.
O Comando da PM do Piauí declara que a greve é considerada abandono
de posto, no dia 8 de julho. O comandante, Coronel Vaudílio Falcão, diz que
os grevistas podem ser expulsos. O presidente da Associação de Cabos e
Soldados, Antônio Santiago, diz que a paralisação continua e que a adesão é
de 90%. O Governo propõe gratificação de R$ 120,00, que é rejeitada.
Em Pernambuco, oficiais, cabos e soldados em campanha reivindicam
aumento salarial e enviam cartas aos comandos.
No Pará, os policiais entram em greve e a adesão é de 80% da PM e da
Polícia Civil, segundo o Comando de Greve. O Governo do Estado diz que a
paralisação é de 40%. O efetivo da Polícia Militar é de 13 mil homens e da
87
Polícia Civil, 2.900. Os PMs querem 70% de reajuste e os policiais civis 75%. O
Governo oferece abono de R$ 100,00.
No dia 4 de julho, depois de cinco horas de negociação com o secretário
da Indústria, Comércio e Mineração, Carlos Kayth, o Comando de Greve
consegue uma vitória. O Governo promete atender as reivindicações e a
paralisação é suspensa. Eles conseguem reajustes de até 108,33%. Os policiais
comemoram em uma passeata da vitória no centro de Belém.
Na Paraíba, uma assembléia reúne dois mil PMs, que reivindicam R$ 600,00
de piso. O salário é de R$ 160,00 com as gratificações. O soldo inicial é de
R$ 32,00. Eles marcam greve para o dia 14 de julho.
No dia 8, em São Paulo, policiais distribuem cartazes convocando para
uma assembléia geral.
Em Alagoas, no dia 9, 8.200 PMs decidem ficar aquartelados. 101
municípios do Estado, inclusive Maceió, ficam sem policiais nas ruas. Os
policiais civis fazem assembléia e aderem ao movimento. Os salários dos
militares estão atrasados há seis meses e os dos policiais civis há sete meses.
O 13º salário não foi pago.
Termina a greve no Piauí no dia 9 de julho. Depois de uma assembléia
que durou quatro horas, os policiais aceitaram o abono de R$ 120,00, desde
que fosse criada uma Comissão para elaborar a política salarial da Polícia.
Em Pernambuco o Comando da PM nega atender as reivindicações dos
policiais, que marcam assembléia para o dia 12. Eles reivindicam soldo de
R$ 130,00. O Governo oferece aumento de R$ 10,00 sobre o soldo de R$74,00.
O Comando da Polícia Militar de Alagoas admite que o Estado está sem
policiamento. Do total, 80% da tropa está em greve. Os 1.100 policiais civis
aderem à greve.
No dia 12, os policiais civis e militares de Pernambuco fazem assembléia,
reafirmando as reivindicações de 75% de aumento, pagamento de horas extras
e adicionais noturnos.
No dia 14, o clima é de tensão em Maceió, ocupada por tropas do Exército.
As tropas federais foram requisitadas pelo governador Divaldo Suruagy
(PMDB). O prédio do Tribunal de Justiça sofre um atentado. Três homens, num
gol branco, jogam duas bombas incendiárias e atiram na janela da sala da
Presidência. Os policiais continuam aquartelados e durante o final de semana não
foi registrada sequer uma prisão. O Instituto Médico Legal não recolhe corpos
e não faz necropsia. As delegacias estão de portas e celas abertas.
Em São Paulo, o governador Mário Covas anuncia o reajuste da Polícia:
entre 8,5% e 34% para militares e 34% para civis. Os policiais militares
88
reivindicam 77,24% e os civis 88,68%.
No segundo dia da greve dos policiais militares da Paraíba, os grevistas
fazem manifestação em frente ao Palácio do Governo. Centenas de policiais
ocupam a Praça João Pessoa. Tropas federais fazem a segurança dos prédios.
O clima é tenso, mas não há confronto.
No Rio Grande do Sul, 250 cabos e soldados, líderes de núcleos de 467
municípios gaúchos iniciam a mobilização e ameaçam convocar a categoria para
entrar em greve. Policiais fazem passeata no interior no dia 14. A assembléia
dos PMs é marcada para o dia 17 e dos civis para o dia 18, em Porto Alegre.
Os policiais não fazem greve, mas mantêm a mobilização reivindicando aumento
salarial.
Na Bahia, policiais estão em estado de greve. Eles reivindicam piso salarial
de R$ 483,00. O Governo oferece R$ 132,00.
No Amazonas começa a mobilização dos praças em defesa de melhores
salários.
No dia 15, o presidente Fernando Henrique Cardoso determina ao
ministro da Justiça que envie tropas a Alagoas. Em Maceió, 10 mil policiais
estão reunidos em manifestação em frente ao Palácio dos Martírios. Eles estão
fardados e armados.
Policiais Rodoviários Federais fazem greve branca em todo o País,
diminuindo o número de multas.
Os policiais civis do Ceará fazem assembléia e reivindicam abono entre
R$ 295,00 e R$ 500,00. Os dirigentes de associações aguardam resposta do
Governo até o dia 15 e marcam assembléia para o dia 18.
Os policiais de São Paulo continuam mobilizados. Rejeitam proposta do
Governo e ameaçam entrar em greve.
Em Recife, 2.000 PMs acampam, no dia 16, em frente ao Palácio das
Princesas. Eles garantem que só deixam o local depois da libertação de 15 cabos
e soldados presos. O clima fica mais tenso com a chegada do Exército. Os
policiais fazem barreira com os braços cruzados. No dia 20, o Exército assume
o policiamento do Estado. O anúncio foi feito pelo governador Miguel Arraes
(PSB). Estações de ônibus e metrôs são patrulhadas pelos soldados do Exército,
armados com fuzis. Tanques circulam em Recife e Olinda. O clima nas ruas é
de tensão. O governador Arraes afirma: Não queremos o confronto, mas a
ordem será mantida a qualquer preço. A crise se agrava com a exoneração
do comandante de policiamento metropolitano, cel. Roberto Carvalho, que se
recusou a colocar cadetes nas ruas e foi afastado pelo comandante-geral,
Coronel Antônio Menezes.

89
No dia 22 de julho, o movimento dos
policiais já atinge quinze estados
brasileiros, com paralisações, greve
ou cartas reivindicatórias.

O Exército já foi acionado em Recife, Maceió e Campo Grande.


No Mato Grosso do Sul, 500 policiais em assembléia aprovam o fim da
greve de cinco dias, aceitando a proposta do Governo, que passa para R$ 408,00
o piso de soldado em agosto e R$ 500,00 em setembro.
No dia 29 de julho, a revolta dos policiais do Ceará acaba em confronto
com pessoas feridas. Os manifestantes marcharam pelas ruas de Fortaleza em
direção à Secretaria de Segurança Pública. O governador Tasso Jereissati dá
ordem de enfrentamento.
Depois de doze dias de greve, os policiais de Pernambuco decidem voltar
ao trabalho. Eles fazem assembléia e gritam: Vamos prender os bandidos! Houve
um acordo com o governador Miguel Arraes para um aumento de 14% para os
oficiais e até 45,7% para os praças. O governador promete não punir os
grevistas.

Comando afasta Cabo Júlio


para longe da tropa

No dia 18 de agosto, o major Aguilar, subcomandante do Batalhão de


Choque, me convocou em seu gabinete às 19hs., após a saída de todos os
militares do batalhão e anunciou a minha transferência para a DST – Diretoria
de Sistemas e Tecnologia. A alegação do Comando é que a função de operador
de microcomputador me é mais adequada, uma vez que ele tinha especialização
nesta área. A ordem de transferência parte do Comando-Geral. O clima fica tenso
no Batalhão de Choque, o tenente-coronel Maurício dos Santos, comandante
do batalhão, deu uma entrevista, na porta do quartel, e negou retaliação.
Segundo o comandante, as transferências fazem parte da vida do policial militar,
conforme a conveniência do Comando.
Quando fui entrevistado, afirmei que a transferência é uma retaliação do

90
Comando. Lembrei, que seis meses antes do movimento, havia solicitado uma
transferência, que me foi negada, mas agora era interesse do Comando afastar-
me da tropa.
À tarde, no mesmo dia, retornei ao batalhão para pegar alguns objetos
pessoais e fui recebido pelo oficial de dia, tenente Bráulio, que me diz: “O
que você está fazendo aqui?” Diante da resposta de que era para entregar
materiais daquela unidade, o oficial ordenou: “Pega logo suas coisas e some
daqui!” Na minha saída, ele disse: “Vai com Deus e não apareça nunca mais!”
O oficial que me expulsou Batalhão é sobrinho do tenente-coronel Lima,
ex-comandante do RCAT – Regimento de Cavalaria Alferes Tiradentes, que
foi acusado pelos praças de ter dito a um cabo:

“Se você participar do movimento


no dia 24, eu vou te excluir, você vai
ser preso, vai para a cadeia e sua
esposa vai ter que ir para a zona
te sustentar”.

Eu denunciei essa declaração na imprensa e o tenente-coronel foi


imediatamente transferido para a DST, onde passou a exercer o cargo de
subchefe, perdendo a função de comandante.
Tamanha é a revolta deste ex-comandante comigo, que dias após a sua
transferência do dois cabos foram punidos com dois dias de prisão porque
“conversavam demais” dentro do elevador, sendo ouvidos pelo oficial. Eis a
conversa:
– E as férias-prêmio, saem ou não saem?
– Se não sair, a gente pede ao cabo Júlio que resolva...
Acabei sendo transferido para o mesmo lugar onde esse oficial trabalhava.
Tamanha era sua raiva que nem saia de sua sala para não me ver.

O oficial que me expulsou do


Batalhão de Choque era
considerado, pela tropa, o mais
“muxiba”, ou seja, o
mais incompetente.

91
Paranóia oficial – de olho
na maracutaia

Na DST, que fica num prédio próximo ao QCG, eu me apresentei no dia


seguinte pela manhã. Fui recebido pelo Coronel Custódio Diniz que se
surpreendeu com a entrada do militar naquela Diretoria. Nem ele, como diretor,
sabia de minha transferência. Ele pede tranqüilidade no ambiente de trabalho
e disseque aquela transferência foi para o meu bem.
Na reunião dos oficiais para designar em qual seção eu iria trabalhar, fui
recusado por quatro chefes de seção, exceção do chefe da DST4, seção de
pesquisa, Capitão Praxedes, que me recebeu com prazer.
No prédio funcionam outras Diretorias, como a diretoria de Promoção
Social, Ensino, Assuntos Estratégicos, Saúde e Finanças. Em qualquer Diretoria
que eu entrasse, era imediatamente vigiado pelos oficiais. Certa vez,
acompanhando um amigo, entrei na Diretoria de Ensino para me informar sobre
o concurso à admissão no Colégio Tiradentes.
A informação era para o meu amigo e fomos informados que só haveria
concurso dali a dois meses. Deixamos a Diretoria. Uma semana depois, recebi
a visita do Coronel Seixas, diretor de promoção social, que entrou afobado na
sala onde eu trabalhava. Ele me indagou porque tinha ido à Diretoria de Ensino.
“Você não poderia ter ido lá, este tipo de informação só é fornecida no
colégio Tiradentes.”
Sem entender o porquê da bronca, expliquei que preferi descer um andar
que ir até o colégio. Dois dias após o incidente, soube que o coronel havia
enviado uma lista contendo nomes de dez pessoas, parentes e amigos, para
serem matriculados, sem concurso, no colégio Tiradentes. O coronel concluiu
que eu estava de olho na lista...

92
Continuam os IPMs

Os praças começam a ser ouvidos em vários quartéis nos inquéritos


abertos. A entidades de classe pedem uma reunião no Comando para contestar
irregularidades na formação dos IPMs. A primeira delas: os praças estavam
sendo convocados por telefone, bilhetes e até pessoalmente e não por meio
de documentos oficiais. Isto estava criando dificuldades para a convocação
de defensores, dentro do prazo previsto em lei. O Comando concorda que as
convocações passem a ser feitas apenas por escrito.
Outras irregularidades nos IPMs: os encarregados dos inquéritos estariam
formulando as respostas confundindo os praças menos experientes,
intimidando-os, para conduzir o inquérito conforme o interesse dos
encarregados. As entidades denunciam que no texto dos inquéritos, estão
inseridas palavras que não haviam sido ditas pelos militares quando prestavam
depoimentos. Segundo eles, a alegação dos encarregados é de que as palavras
inseridas são apenas detalhes sem importância.
Os policiais dizem ainda que estão sendo pressionados para se auto-
reconhecerem em fotos e fitas de vídeo feitas nas manifestações. A orientação
das entidades é a de que eles só prestem depoimento acompanhados dos
advogados, que as próprias entidades colocam à disposição dos acusados.
Eu ainda questionei a isenção e a imparcialidade dos inquéritos, uma vez
que os oficiais encarregados também tiveram participação, ainda que indireta, nas
manifestações, porque foram eles que receberam um aumento exclusivo, que
acabou detonando o movimento na PM. Reivindiquei, inclusive, que os
inquéritos fossem conduzidos por civis.
Num depoimento no CSM/MB – Centro de Suprimento e Manutenção
de Material Bélico, um soldado recém-formado é intimado a prestar depoimento
e é indagado a respeito da ausência de seu advogado. Ele responde que não
houve tempo hábil para providenciar um defensor. Ele pede permissão para
fazer uma oração antes de ser ouvido. A resposta do tenente-coronel Walter
Lopes ofende o policial: São vocês evangélicos que estragam a Polícia
Militar.

93
Expulsos

No dia 12 de dezembro de 1997, o Comando da PM, através do assessor


de imprensa, major Rômulo Diniz, anuncia as punições a 538 militares, onde
18 são expulsos.

Fui expulso sob acusação de ter


sido o principal líder do movimento
reinvindicatório e contestatório por
melhores salários.

O anúncio é feito num feriado, dia do aniversário do centenário de Belo


Horizonte, e ninguém do Comando está no QCG para falar com a imprensa,
apenas o assessor.
O major Rômulo faz questão de informar que as expulsões foram assinadas
pelo ex-comandante-geral, Coronel Antônio Carlos dos Santos, no mesmo dia
em que passou o cargo ao novo comandante, Coronel Márcio Porto. Já as
prisões e transferências foram assinadas pelo ex-chefe do Estado Maior, Coronel
Osvaldo Miranda.
Segundo o assessor, 826 PMs haviam sido indiciados em inquéritos, 133
submetidos a conselhos de disciplina e 152 a processos sumários de audiência
porque não tinham estabilidade por tempo de serviço. São transferidos, dentro
da Grande BH, 349 policiais; 116 perderam um dia de vencimento por terem
participado da passeata no dia 24 de junho.
Vinte Conselhos Disciplinares foram abertos no Estado. Os Conselhos
são integrados por oficiais. Para avaliar cabos e soldados, os Conselhos são
formados por um capitão e dois tenentes. Para julgar os sargentos, os
conselhos se compõem de um major, um capitão e um tenente.
Em Belo Horizonte, 31 inquéritos foram instaurados e 30 estão concluídos.

94
Oito foram abertos no interior, todos concluídos. Dos inquéritos abertos na
Capital, 27 foram remetidos à Justiça Militar e treze estavam em análise pelo
Estado-Maior. Um IPM e uma sindicância administrativa ainda estavam em
andamento.
Outras expulsões poderiam ocorrer, nos processos ainda em andamento.
O único PM preso, por ordem da Justiça, é o soldado Wedson Campos Gomes,
acusado do homicídio do cabo Valério.

Julgamento

No dia 13 de fevereiro de 1998, uma sexta-feira, o soldado Wedson Campos


Gomes é considerado culpado pelo homicídio do cabo Valério. Wedson é
condenado a oito anos de prisão pela 3ª Auditoria da Justiça Militar. O
Conselho Permanente foi formado por um juiz auditor e quatro juizes militares
(oficiais). A decisão foi por três votos a dois. A promotora Solange Ferreira
de Morais falou em premeditação e pediu uma pena de 12 a 30 anos por
homicídio qualificado. A tese da premeditação não é aceita.
O soldado diz que está revoltado com a sentença. Eu não matei ninguém,
afirma ao deixar o plenário, onde aconteceu o julgamento. O advogado de
Wedson, Obregon Gonçalves, entra com recurso junto ao Tribunal de Justiça
Militar. O soldado está aguardando recurso em liberdade porque era primário.
Como o julgamento foi injusto, cinco pessoas julgaram o soldado Wedson,
quatro oficiais e um juiz civil. Os oficiais deveriam ser considerados suspeitos,
pois o aumento que eles receberam, foi motivo de todo o movimento. Tinham
“motivos de sobra” para condená-lo. Mesmo assim, o juiz togado, o único em
tese, conhecedor de Direito Denal Militar, votou pela sua absolvição,
acompanhado pelo voto de um tenente.
Os juízes do Conselho de Sentença são oficiais da ativa e nem sequer,
precisam ser bachareis em Direito. Isso é uma vergonha.
No dia 24 de junho, aconteceram de seis a oito disparos, incluindo o do
soldado Wedson. Apenas dois foram esclarecidos: o do Wedson e o do soldado
Marcelo Rocha, do BPChoque, que também admitiu ter atirado.

95
E os outros disparos? Por que não
foram esclarecidos? Fica uma dúvida
se esses disparos incriminam
alguém, que teria sido encoberto
pela apuração da Polícia Militar.
Não há dúvida de que o
coronel atirou.

O exame residuográfico comprovou isso. E não houve nenhum tipo


de punição para esse coronel. Já o soldado Marcelo Rocha foi expulso,
meses depois, porque atirou durante a manifestação.

Quando o soldado Wedson estava


sendo julgado, não era ele sentado no
banco dos réus e sim, toda a
hierarquia e disciplina da
Polícia Militar.

Foi um julgamento do movimento dos praças. Só oficiais estavam no


conselho de sentença. Circulou nos bastidores a informação de que o major
presidente do conselho, Itamar de Oliveira Pacheco, teria afirmado que
recebeu ordem para condenar Wedson.

96
Depoimento do Comandante
Geral da Polícia Militar de
Minas Gerais

Coronel diz que o Governo não errou


O ex-comandante-geral da PM, Coronel Antônio Carlos dos Santos tem
uma avaliação própria da crise que explodiu na Corporação durante sua gestão.
Ele acredita que o Governo não errou e que o movimento foi gerado por
informações deturpadas passadas aos praças. Dois meses depois, em agosto
de 97, o comandante entregou o cargo ao Governador Eduardo Azeredo, mas
só deixou o Comando em setembro, depois da nomeação do Coronel Márcio
Porto.
Num depoimento feito em sua casa, concedido a repórter Paula Rangel,
o coronel fez uma análise pessoal de toda a crise e as conseqüências para sua
carreira e para a continuidade da Polícia Militar.
“A equiparação salarial entre a PM e a Polícia Civil surgiu em decorrência
de um processo de estudo iniciado com a Constituição de 88. Até então, a PM
tinha equiparação com as Forças Armadas e foi depois deste marco que
começamos a almejar e defender a equiparação com a Polícia Civil, que por sua
vez defende equiparação com os salários do Ministério Público. Em 92, houve
um aumento salarial significativo para os policiais civis, por causa de uma greve
durante o Governo de Hélio Garcia. Nesta época, os detetives passaram a
ganhar mais que os praças, o que gerou protestos no Comando da PM. O
governador então reajustou os salários dos praças, para que eles não
ganhassem menos que os detetives. Os oficiais não tiveram nenhum aumento.
Foi a primeira quebra de isonomia hierárquica na PM mineira. Esta equiparação
não é definida pela legislação, é apenas fruto de um acordo entre a PM e os
governadores desde aquela época.

Equiparação
O Comando da PM sempre defendeu e pretende lutar por essa
equiparação com a Polícia Civil.
97
Depois do aumento dos detetives e praças, houve uma recomposição
até 97 também para os oficiais e não um aumento diferenciado. Os delegados
continuaram na Justiça para equiparar seus salários aos dos promotores,
mas não conseguiram. A Associação dos Delegados entrou então na
Justiça com uma ação para conseguir equiparação de um terço com os
salários dos procuradores, e venceu em todas as instâncias. O Governo foi
obrigado a dar este aumento.
Começou então a movimentação dos oficiais da PM. Os coronéis
conversavam entre si e comigo por um telefone direto – através da Datacom –
e a opinião geral era que o aumento dado aos delegados também atingisse a
PM. Logo depois do aumento dos delegados, no final de maio/97, houve uma
reunião do Comando e ficou claro que os oficiais aguardavam este aumento.
Numa audiência com o governador Eduardo Azeredo coloquei esta
posição e pleiteei um aumento geral para oficiais e praças. O governador
concordou e mandou que a Secretaria de Administração fizesse um estudo do
impacto do aumento na folha e a maneira que ele deveria ser concedido. O
governador pensava em enviar uma mensagem para a Assembléia, o que
significava demora. Propus então ao governador que ele desse o aumento
através da gratificação de curso, mas estendendo aos praças e detetives.

Secretaria de Administração impossibilitou


o aumento
Eu fui leal aos praças. O governador iria dar o aumento a toda Corporação.
Mas o secretário de Administração, Cláudio Mourão, concluiu que era
impossível ao Governo conceder um aumento desta forma, através das
gratificações, pois no caso dos detetives não havia este sistema e o aumento
teria necessariamente que passar pela aprovação da Assembléia. Foi aí que
começou o problema. O Governo decidiu dar o aumento para os oficiais, através
da gratificação de curso, o que seria feito por um decreto. Mas se o governador
desse aumento para os praças por decreto, criaria problemas com os policiais
civis, porque eles ficariam de fora. Procurou-se então ajustar salários dos
oficiais. Os praças receberiam o aumento, no mesmo percentual, de outra
maneira, através da aprovação da Assembléia Legislativa.
A tropa já tinha expectativa de que haveria aumento, mas como o
secretário de Administração declarou a impossibilidade do reajuste para toda
a Corporação, criou-se uma frustração. O estudo do aumento vazou. Nós
coronéis somos ajustados, unidos, mas sabíamos que isto poderia trazer
transtornos para a tropa. Eu disse ao governador:

98
Pode dar o aumento, vamos conscientizar e
segurar a tropa.

Os comandantes foram unânimes em achar que a tropa estaria sob


controle, mesmo sabendo da animosidade e do mal-estar. Tínhamos
documentos que mostravam a insatisfação geral, mas levamos ao governador
a informação que saberíamos administrar a insatisfação. Chamamos os
representantes de clubes e associações para apresentar a situação e acho que
o estouro foi aí. Os representantes nos ouviram, explicamos a forma que seria
o aumento, numa visão estrutural e seqüencial. Não houve nenhum movimento
subterrâneo.

Traição
Um dos diretores da Associação de Sargentos era candidato a deputado
e não se manifestou na reunião, mas depois falou aos praças que os oficiais
os tinham traído. Ele foi aos jornais e criou uma desconfiança generalizada. A
imprensa caiu sobre nós. Não dava para desfazer o que a imprensa publicava,
fomos atropelados. Não havia como divulgar informações corretas, mesmo
porque o processo do aumento estava em andamento e não podíamos dar
declarações.
Aí veio a morte do cabo Glendyson. Ele havia tirado o colete à prova de
balas para fazer um lanche quando houve o assalto e perseguiu os assaltantes
sendo baleado. A imprensa divulgou que ele não tinha colete para trabalhar,
que faltavam equipamentos na Polícia Militar. Reconheço que não há colete
para todo mundo, mas isso não era verdade no caso dele. A morte do cabo
Glendyson tumultuou o processo.
Houve manifestações de descontentamento. O comandante CPC, Coronel
José Guilherme, declarou nesta ocasião que o salário de um soldado deveria
ser de mil reais, de acordo com as tabelas de outros países. A imprensa explorou
a declaração.
Outra declaração polêmica, que foi desvirtuada, foi o caso do iogurte,
feita pelo cel. Eleutério. Ele me explicou essa declaração, dizendo que estava
se referindo à evolução salarial do profissional da PM. Era claro que o salário
não era uma miséria comparado a outras profissões. O que ele quis dizer era
que havia um ganho real, os praças estavam vivendo melhor, mesmo não
ganhando o ideal, mas comparando com o público civil estava em melhor
situação.
99
Outro episódio explorado foi o dos PMs vivendo no banheiro do Fórum.
É claro que eles não eram exemplo da situação de todos os praças, estavam
administrando mal o seu salário.

Clima hostil

Quando houve o enterro do cabo Glendyson recomendei a ida dos


comandantes, como é praxe na PM sempre que um policial morre em serviço.
Eu queria ter ido, mas o clima não recomendava a minha presença. O aumento
dos oficiais já havia ganho todas as páginas dos jornais e sabíamos pela P-2
que o clima era muito hostil no Batalhão de Choque. Optei por não acirrar mais
os ânimos, aconselhado por outros oficiais.
Quando um grupo do Choque começou um movimento, logo depois do
enterro, optei por não prendê-los. Preferi que eles fossem convencidos a parar
com aquilo, através da conversação. Mas a nossa tentativa de convencimento
era pior que o noticiário.
Nós não queríamos o confronto no início, não queríamos tratar o caso
em cima do regulamento. A idéia era administrar a crise internamente. Mas foi
tudo muito rápido. O processo extrapolou as perspectivas do Comando, tanto
do CPC quanto do Comando-Geral.

Em minha análise pessoal, o que


agravou mais a situação foi uma
infiltração de esquerda que estava
acontecendo na Polícia Militar, que
já vinha de longa data. E a base
maior desta infiltração é justamente
no Batalhão de Choque, que é o
grupo mais resistente e pode
influenciar e desestabilizar
os outros batalhões.

100
RDPM
A greve na PM prejudicou a própria situação financeira da PM. Por
exemplo, já existia um projeto para recomposição da frota dos bombeiros. Com
a greve, tivemos que parar tudo. O anteprojeto de revisão do RDPM já estava
sendo preparado desde a gestão anterior, do Coronel Nelson Cordeiro, mas
tínhamos que aguardar as mudanças no País, a aprovação das reformas
administrativas e políticas. Estávamos esperando um momento adequado
quando a greve estourou.
Um dos pontos que os grevistas questionavam no RDPM é a pena
privativa de liberdade. Eu defendo a continuidade desta pena, porque o sistema
da PM não é o sistema comum da CLT. Não podemos demitir por justa causa.
A punição mexe com o comportamento do policial. Nosso sistema na verdade
é paternalista, adverte, transfere, pune, dá outras oportunidades ao policial,
ao contrário da empresa comum, civil, onde pode haver demissão, de forma
mais objetiva, mais rigorosa. Faltar ao serviço é uma transgressão grave, mas
o policial pode ser ouvido, pode se justificar. E só é preso atrás das grades em
casos mais graves.
Outro ponto questionado é a permissão para casar. Isto não é para aviltar
o praça. Reconheço que o texto do regulamento está forte, mal colocado ou
mal redigido, mas o objetivo é dar proteção ao praça, facilitar benefícios, dar
cursos, orientações, exames, o pré-natal.

A tropa de reação

Nem sei descrever a sensação que tive ao ouvir as vaias dirigidas aos
oficiais. Estar arrasado é pouco, depois de tanto tempo vivendo dentro de uma
Corporação disciplinada, que sempre manteve a ordem. Foi um mal-estar terrível.
Daria minha vida para não ter que passar por aquilo.
Quando decretei a ordem de prisão para os praças, que estavam em
passeata, tive o objetivo de caracterizar essa insubordinação através da
imprensa. Os jornais iriam relatar esta desobediência e depois poderíamos mover
ações sobre a insubordinação deles.
Depois do dia 13, pensávamos em tudo que poderia acontecer. O Governo
havia aberto negociações com os representantes dos praças e o Comando.
Houve a assembléia deles com prazo para que o Governo atendesse as
reivindicações. Começamos a fazer um planejamento intenso. Eu considerava

101
o número de amotinados pequeno comparado com o tamanho da Corporação.
Tínhamos que criar uma força, mas era algo inédito uma tropa criada para
combater outra tropa na PM. Foi muito complicado, mas conseguimos formar
uma tropa confiável. Ela foi preparada, trouxemos armas, armamos os policiais.
Depois disso, tentamos evitar que os praças realizassem a assembléia,
queríamos que a reunião fosse para desmobilização, que os líderes apenas
comunicassem o andamento das negociações com o Governo. Acho que os
líderes deveriam ter uma postura mais firme, mas eles não conseguiram evitar a
passeata do dia 19. Em parte eles tentaram.
Achamos que o processo iria parar lá no clube, mas os policiais ganharam
as ruas novamente. Nosso primeiro planejamento era cercar o clube. A tropa
de confiança seria deslocada para lá, mas o governador orientou para que não
houvesse confronto. Como poderíamos parar os grevistas na rua sem
confronto?

Certamente haveria uma guerra


armada e poderiam morrer civis.
Abandonamos esta idéia de cercar o
clube e preparamos a segunda
etapa do planejamento.

Conseguimos convencer os líderes a fazer a passeata somente até à Praça


Sete. Ficou acertado que o movimento se encerraria ali. Mas houve um fator
complicador que foi a junção da passeata com os policiais civis. Nesse
momento eu acredito que os líderes perderam qualquer controle sobre o
movimento.

Prontos para o confronto

Tínhamos informações a todo momento sobre a passeata e sobre o clima.


Sabíamos que os policiais estavam exaltados. O nosso planejamento era cercar
toda a Praça da Liberdade, mais perigoso ainda para os civis. Se houvessem
tiros, pessoas poderiam ser atingidas nos prédios das Secretaria, na lanchonete
do Xodó, em prédios residenciais. Optamos então pela solução final: o cerco
ao Palácio da Liberdade e ao prédio do QCG.

102
Eu posso garantir: se houvesse
invasão por parte dos grevistas, a
ordem era para confronto e haveria
muito sangue derramado.

A nossa tropa tinha armamento pesado. A formação dessa tropa foi


definida estrategicamente. Na linha divisória, mulheres e cadetes formariam uma
linha frágil, de representação emocional. Era uma linha de reflexão para que os
manifestantes não passassem. O primeiro a furar esta linha foi um policial civil.
A multidão avançou, agrediu mulheres e cadetes. A próxima linha formada seria
a da tropa de reação, que faria o confronto com os grevistas. Houve tumulto.
Eles continuavam avançando. A tropa concentrou-se na escadaria do QCG
frente-a-frente com os manifestantes e dali ninguém passaria. Seria o confronto.
Eu estava no quinto andar do prédio com outros coronéis e com o promotor
Sartório, em profunda angústia com os acontecimentos.
Então os líderes subiram na mureta tentando conter a multidão e
aconteceu aquele tiro contra o cabo Valério. Foi o momento de reflexão que
eu queria que acontecesse antes. Os policiais se acalmaram. A infelicidade da
morte do cabo Valério evitou o derramamento de sangue. Um mal maior foi
evitado.

Lições
Depois que tudo aconteceu, olho para trás, mas não me sinto magoado
com a Polícia Militar, com os praças, os líderes do movimento. Não persegui
ninguém, não cerceei, não tive idéias de revanche ou de culpar alguém por
tudo o que aconteceu. Meu único sentimento era que aquilo tudo não precisava
ter acontecido. Os IPMs foram realizados legalmente, determinei a apuração
dos fatos, com punição e exclusão se necessário, dentro da lei.
Entendi que precisava deixar a PM. Um novo Comando seria benéfico
para que a Corporação arrumasse a casa. Uma mudança traria novos alentos,
facilitaria a recomposição, a integração com o Governo. Esperei apenas que
passasse o momento crucial para não sair como se estivesse fugindo. Fiquei
numa situação difícil, com os burburinhos da imprensa, boatos internos, tinha
mesmo que sair. Mas nunca tive nenhum atrito com o governador.
Em julho, levei o pedido de exoneração ao governador. Eu expus a ele
que a minha saída seria benéfica para a PM, mas ele entendeu que aquele
momento não era adequado. O governador me disse: Não aceito sua demissão

103
agora. Entendo suas argumentações, mas é preciso mais tempo.
Algum tempo depois, o governador enviou à Assembléia a proposta para
a possibilidade de reconvocação de oficiais da reserva. Sou contrário a essa
proposta e achei que, por discordar do governador, não poderia mais ficar no
cargo. Se o projeto passasse, era como seu eu quisesse ser reconvocado. Tive
que me manifestar oficialmente contra, inclusive na imprensa. Disse que não
concordava, limpei minha mesa e voltei a pedir ao governador minha exoneração
em caráter irrevogável. Mas ele me ordenou que eu permanecesse no cargo
até a escolha do novo comandante. O que só aconteceu um mês depois,
quando a Assembléia já havia aprovado o projeto que possibilitava a
reconvocação de oficiais da reserva.
Antes de sair eu já havia pedido à Diretoria de Pessoal que agilizasse os
processos porque não queria deixar para o outro comandante assinar – era
uma banana que eu mesmo teria que descascar. Cobrei pressa. Só que não
houve tempo hábil para a conclusão de todos os IPMs. No dia 8 de dezembro,
feriado, os primeiros IPMs estavam prontos, li tudo e discordei da decisão final.
Foi feito um reestudo dos processos para refazer as conclusões e eu despachei
pela exclusão de alguns deles.
O pessoal do marketing me alertou para não divulgar o resultado antes
da passagem do Comando, o que desviaria toda a atenção da mídia para o
IPM e não para a troca de Comando. Eu assinei, mas a divulgação seria feita já
no novo Comando. Já o processo do cabo Júlio era só dele, julgado pelo
Conselho de Disciplina e ficou pronto um pouco antes. O Chefe do Estado
Maior, Coronel Osvaldo Miranda me avisou: Já li o processo e já decidi pela
exclusão do Júlio. Eu respondi: Segura para soltarmos todos juntos. Então
assinei as exclusões e as 538 punições.
Em minha avaliação, agi com correção, sem subterfúgios durante todo o
episódio. Considero que minha carreira de 32 anos na PM foi brilhante.
Acontecer tudo isto no meu Comando pesa muito para mim. A idéia de disciplina
me acompanhou toda a vida desde a infância e nunca imaginei dentro da PM
ver a disciplina aviltada. Hoje penso que abdicaria do aumento salarial para
que nunca tivesse acontecido o que aconteceu.

104
Coronel José Guilherme do
Couto

Ex-Comandante do Policiamento da Capital - CPC

Minhas declarações são impressões pessoais de quem viveu as angústias,


apreensões, esperanças e frustrações, à frente de um dos mais importantes
Comandos da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, por ocasião da grave
crise na Corporação que, partindo de um movimento reivindicatório dos praças,
desaguou em uma rebelião aberta, com cenas de desobediência, agressões,
passeatas e na morte do cabo Valério.
É necessário, no entanto que algumas colocações sejam feitas antes de
se falar dos fatos propriamente ditos. São elas:

1°. Numa sociedade democrática as reivindicações dos funcionários


públicos encarregados da segurança pública, daí responsáveis pelo emprego
da força, não podem e não devem ser tratadas na vala comum das demais
categorias. Sobre isso, recentemente o Executivo Federal se preocupou e
corrigiu a distorção existente, com a aprovação nas Câmaras Legislativas de
emenda constitucional que autoriza a concessão de reajustes salariais,
diferenciados para as Forças Armadas;
2°. em hipótese alguma concordei ou concordo com movimentos
reivindicatórios da natureza do ocorrido na PMMG, mesmo considerando o
descaso, a impossibilidade ou a morosidade dos governos em atender tais
reivindicações;
3°. a rebelião na PMMG, liderada por praças, foi desnecessária quanto
aos seus objetivos declarados, pois seriam atingidos sem ela. Os objetivos
não declarados, desconfio que bastante ideologizados, julgo terem sido os
balizadores da mesma;
4°. eu e meus comandados tudo fizemos, dentro dos limites de nossas
competências, para conter tais insatisfações, inclusive desenvolvendo ações
de alcance social com o objetivo de minimizar as carências verificadas no meio
do pessoal;
105
5°. o Comando da PMMG foi constante e francamente informado sobre
o nível, em queda, da prestação de serviço e da sempre crescente insatisfação.
Basicamente, para promover uma reversão do quadro, as medidas a serem
adotadas teriam que vir da esfera governamental e o acesso a mesma é de
competência exclusiva do comandante-geral da PM.

Feitas estas colocações, pode-se agora falar dos fatos. A crise da PMMG
não pode ser analisada sem que sejam considerados determinados fatores
externos a ela, mas que indubitavelmente propiciaram algumas condições para
ela fomentasse.
O primeiro deles diz respeito a auto-estima, atingida diretamente pelas
ações criminosas de alguns policiais militares, como o caso da Favela Naval
em Diadema, São Paulo, sensacionalisticamente explorado pela imprensa, que
cobriu de vergonha o policial fardado, jogando contra ele a opinião pública,
dentre outros.
O equipamento, viaturas, armamento e fardamento em estado precário e
sempre em falta, ultrapassado ou por demais regrado.
A degeneração da situação econômico-financeira do Estado, atingindo
direta e indiretamente o conceito de autoridade e a capacidade operacional da
Polícia Militar. A falta de investimentos suficientes na segurança pública, o
aumento da violência marginal e dos índices de criminalidade são dois opostos
que se somam, afetando a capacidade de resposta da Força Pública aos anseios
da comunidade e estressando cada vez mais nossos militares.
A generalização do segundo emprego, popularmente conhecido como
bico, vem corroendo a disciplina, o profissionalismo, a disponibilidade e o
descanso do Policial Militar. Isso ficou demonstrado através de um trabalho
monográfico de grande seriedade e alcance, da autoria do Coronel Oswaldo
Miranda da Silva, apresentado para a conclusão do Curso Superior de Polícia
em 1994. O chamado bico, devido as agruras financeiras dos PMs, passou a
ser tolerado e em muitos casos corre-se o risco dele assumir maior importância
que o trabalho na PM, passando este sim, a ser o bico.
Tenho a dizer que essas são as minhas impressões pessoais desse
chamado movimento – essa rebelião – que ocorreu na Polícia Militar e que
para mim foi uma grande bobagem. É preciso ficar claro que sou contra tudo
o que aconteceu e acho que os praças não tiveram ganho algum fazendo
essa rebelião. O aumento que foi dado pelo Governo depois do movimento,
iria para os contracheques de qualquer forma. O salário iria melhorar de
qualquer jeito.

106
Acho que o maior erro foi de comunicação. Foi uma grande falha. E o
segundo problema, a deslealdade de algumas pessoas, que deram entrevistas
mentirosas à imprensa. Não acho que foi o aumento salarial dos oficiais. Se
não fosse o reajuste de oficiais, o clima de insatisfação iria continuar da mesma
forma. Não sei se o governador foi mal informado, mas acho que ele agiu bem
em negociar.
Antes que tudo acontecesse eu já alertava para a situação financeira da
Polícia Militar, que vinha passando extremas dificuldades, assim como toda a
máquina do Estado. Viaturas velhas e quebradas, equipamento obsoleto, além
do salário dos policiais, que os obrigava a fazer o tal bico, prejudicando sua
situação na caserna. Essa segunda atividade, além de exaurir as forças do
policial para o trabalho de caserna, para alguns se torna mais importante que o
seu trabalho como militar. Então, o cara fica estressado, vivendo um dilema,
trabalhando num lugar que exige um comportamento disciplinado e depois
trabalha em outro lugar que ele deveria fiscalizar, como segurança de boates,
de bingos. Esse trabalho toma o seu horário de descanso e o deixa insone,
cansado. Eu mesmo disse várias vezes, na época, que o salário inicial de
um militar deveria ser de mil reais, mas que o Governo não tinha capacidade
de pagar isso.
Havia um clima de insatisfação muito grande e que vinha crescendo.
A moral da tropa estava baixa. E nós sinalizamos, avisamos sobre essa
situação. O CPC avisou, os comandantes de batalhões avisaram, várias
vezes ao chefe do Estado Maior, Coronel Herberth Magalhães, que por
sua vez, avisou ao comandante-geral.

Tínhamos até um documento muito


pesado, relatando a verdadeira
situação, mostrando que estávamos
sentados num barril de pólvora.

Alguma coisa tinha que ser feita. Não sei se essa situação foi levada
ao governador. Isso deveria ser feito pelo comandante-geral, que, em última
análise, é responsável por tudo, ele é quem tem que tomar as decisões.
A questão do salário dos oficiais é bom que seja esclarecida. Os
delegados tiveram reajuste que lhes era devido por decisão judicial. Existe
um acordo entre as duas forças sobre a equiparação. Fui eu que fiquei
sabendo desse aumento, por acaso, e levei a situação para o chefe do Estado-
Maior. Essa equivalência variava de 10,6% para o salário do coronel até 24,5%

107
para o salário de 2º tenente. Isso seria passado para os praças, através dos
índices de gratificação de cursos, sem precisar passar pela Assembléia. O
governador iria dar isso, mas o raciocínio feito no Palácio foi de que o Governo
teria que dar reajuste para os policiais civis. Então, a proposta do Governo foi
reajustar o salário dos oficiais e para os praças procederia da mesma forma, só
que depois de enviar à Assembléia a solicitação para que pudesse dar o reajuste
diferenciado aos funcionários públicos.
Essa proposta foi levada à reunião do Alto Comando. Os coronéis
entenderam que a proposta deveria ser aceita, desde que a situação fosse
imediatamente explicada para os praças. Daria para segurar, para ser aceitável,
deglutido. Demorou oito dias do fato, com a imprensa, já então noticiando o
aumento em separado, para que o Comando avisasse os praças.
Foi feita uma nota do Comando, encaminhada aos batalhões, com a
recomendação de que se reunisse os praças e lhe fosse explicado o
procedimento. A imprensa continuava noticiando que havia um aumento em
separado, o que era uma mentira, o aumento seria repassado para os praças.
Houve uma reunião com os representantes das associações dos praças, que
foram esclarecidos sobre a situação.
Só que um dos diretores da Associação de Subtenentes e Sargentos
desceu e, ainda no hall de entrada do prédio do Comando, deu uma entrevista
falando que eles iriam entrar na Justiça. Foi uma picaretagem, uma deslealdade.
Ele sabia que o aumento seria repassado, como aconteceu em todos os
reajustes. Ele é um mentiroso e fez de maldade. Tinha objetivo de semear a
discórdia com objetivos políticos.
A Polícia Militar estava num momento muito difícil, depois do episódio
da Favela Naval, em São Paulo. A tropa estava de cabeça baixa, nós éramos
olhados na rua como aqueles bandidos da PM de São Paulo. Foi um período
realmente difícil. Então conversando com a tropa durante uma solenidade no
Canil da PM, fiz uma comparação: Já que estamos fazendo uma homenagem ao
Canil, no lugar onde está o melhor amigo do homem, o cachorro, não vamos
abaixar a cabeça por causa dessa história da Favela Naval não. Vamos continuar
de cabeça erguida, para enfrentarmos os problemas até com uso de violência,
se necessário. Vamos imaginar um cachorrão, fazendo uma comparação. Se a
gente pegar um cachorrão, arrancar-lhe os dentes e castrá-lo, esse cachorro
só vai servir para comer, não serve para mais nada. A Polícia, podemos dizer
que ela tem que ser como um cachorro grande, com dentes afiados e inteiro,
não pode ser castrado não, só que tem que ser adestrado para não avançar
em qualquer um. Ele tem que ter coragem para avançar e dentes para
morder. A comparação que eu fiz foi essa, mas minhas palavras foram

108
distorcidas por pessoas como essas, que fizeram a rebelião, que são
verdadeiras quinta-colunas dentro da Polícia.

Eu não chamei ninguém de


cachorro, se chamei, eu também sou
cachorro. Eu falei que a Polícia
deveria ser assim.

Quando morreu o cabo Glendyson, assassinado por bandidos, a imprensa


botou muito fogo, causando sensacionalismo. Isso tudo foi somando à
insatisfação. A Medicina Legal demorou muito a liberar o corpo, eu não sei o
porquê. Fiquei sabendo que havia um clima de muita revolta no cemitério.
Solicitei ao chefe do Estado-Maior autorização para desmarcar uma reunião
com os comandantes, que aconteceria em Lagoa Santa, e resolvi ir para lá. Não
comuniquei ao comandante-geral. Só depois do enterro eu o avisei.
Reuni todos os comandantes e fui para lá. Vamos evitar que nossos
homens façam uma bobagem. Senti um clima de grande comoção e raiva no
enterro, um clima propício para sair em passeata. Eu acredito que eles sairiam
até carregando o caixão. Notei a agressividade, a hostilidade contra os oficiais.
Eu chegava em um bolinho de gente, ele se desmanchava, chegava em outro,
desmanchava, até que foi diminuindo um pouco.
No dia seguinte, o Choque parou. Fui para lá, ninguém queria conversar.
Avisei que voltaria à noite. Fui para o auditório, tinha umas 60 pessoas. Expliquei
a situação, disse que eles não deveriam fazer nenhuma bobagem, chamei-os à
razão, disse que era desnecessário fazer um movimento, falei com os líderes,
mas já havia uma politização, uma ideologização das pessoas, já havia
estrutura, lideranças.
No dia 13, saíram em passeata. Havia uma tropa que quase foi lançada,
ela seria colocada na rua para cercar o Palácio. Fui ao Coronel Hamilton
Brunelli e disse: essa tropa está à sua disposição e queria que o senhor
me desse autorização para dar uma contra-ordem. Ele me autorizou e dei a
contra-ordem, impedindo a saída da tropa. Havia deputados em frente ao
Palácio, eu vi que havia hostilidade contra eles e disse para eles saírem
dali. A imprensa veio para o meu lado. Aí a tropa parou de prestar atenção
nos discursos e começaram a gritar: Vai embora, CPC. Eu continuei
caminhando normalmente.
Eu sei que houve jogo de pressão, apelos para desmobilizar a
assembléia, mas não houve ameaças. Esses telefonemas anônimos não são

109
do meu conhecimento e acho que o Comando não se prestaria a isso. Esses
telefonemas podem ter sido feitos por qualquer um, talvez alguém que
quisesse ver o circo pegar fogo.
A situação era de altíssimo risco. Estivemos muito perto de uma convulsão
social de grandes proporções. Houve um consenso no Estado-Maior de se
criar uma força, armada, capaz de evitar a invasão de prédios e outra força que
pudesse coordenar para que não houvesse uma baderna na cidade. Não
entreguei o Comando da Capital nessa época a pedido. Jamais faria isso. Foi
ordem do comandante-geral. Nunca entregaria o Comando numa crise daquela,
seria um ato de covardia.

No sábado, ele chegou perto de mim


numa reunião do Alto Comando e
disse: O governador determinou que
você passe o Comando da Capital
para o Coronel Eleutério. Respondi:
então, está passado o Comando.

Fui ao Copom, passei uma mensagem para toda a tropa, agradecendo o


trabalho conjunto.
A primeira força que cercou a praça, no dia 24, foi só para dissuadi-los.
Estava desarmada e foi desrespeitada e enxovalhada. Era só para evitar uma
invasão dos prédios. Depois eles enfrentariam uma força grande com armas
pesadas, fuzis, escopetas, pistolas automáticas e seria um banho de sangue.
Essa tropa estava posicionada em todo o prédio. Iria morrer muita gente se
não houvesse a morte do cabo Valério. Não precisaria ordem do Comando-
Geral, nós oficiais, sob o Comando do Coronel Eleutério, iríamos defender o
prédio a todo custo. Senti ódio, raiva, não permitiria a invasão de jeito nenhum.
A raiva aumentou quando vi aquele rapaz esvaindo em sangue.
Acho que o tiro estava endereçado a uma das janelas do prédio. Quem
atirou não fez mira, no meio da multidão, não soube fazer o alinhamento correto
do pulso com a arma. O Coronel Eleutério disse que não atirou, eu não sei,
não vi. Eu estava dentro do Copom e pensava em descer para o térreo. Já me
preparava para qualquer coisa, e pensei em ajudar a acalmar. E aconteceu aquilo

110
tudo.
O que me deixou magoado foi que eu merecia uma satisfação do Comando
da Corporação, ou deveria ter sido punido pelo comandante, se ele julgasse
que trabalhei mal, ou me elogiado por meu esforço em conduzir o Comando da
Capital num bom termo. Não fui nem punido, nem elogiado. É como se eu não
tivesse existido. Essa mágoa carrego comigo, mas hora nenhuma me presto ou
me prestei a jogar pedras na Corporação.
Até hoje o clima é de uma ressaca violenta. Os coronéis acabaram como
culpados da situação. O Comando optou pela lei do silêncio, não desmentiu, o
que sou contra. Vários militares foram expulsos. A confiança ficou abalada.
Mas a Polícia é muito superior a isso e está se reestruturando.
A falta de investimentos em segurança pública continua até hoje. A
ousadia dos bandidos está aumentando e o Estado nacional está perdendo
a capacidade de reagir e coibir. Precisamos de mais investimentos e, por
que não, de melhores salários. Esse investimento é premente, mais que na
saúde ou na educação. Sem segurança, não temos saúde nem educação. Essa
é a maior lição.

111
Trechos de depoimentos de
oficiais no
Conselho de Disciplina do
Cabo Júlio

Coronel Hamilton Brunelli de Carvalho, chefe do GMG –


Gabinete Militar do Governador –, em 29 de outubro de 1997:

“[...] é importante verificar que toda a pauta da Polícia Militar foi feita
num momento de absoluta pressão, com os quartéis, principalmente os da
Capital, como se assentados num barril de pólvora, obrigando o comandante-
geral a ceder muitas vezes contra sua própria vontade”.
“[...] que finalmente na reunião de acordo salarial em que houve a
participação do vice-governador do Estado, o depoente foi afastado das
negociações, a pedido da Comissão, embora tenha acompanhado a conversa;
que é a primeira vez que acontece no Estado uma reunião de negociação salarial
com todos esses secretários, o da Administração, Fazenda, Casa Civil, vice-
governador, comandante-geral, chefe do EMPM; que a decisão deveria sair
naquela reunião sob pressão”
“[...] que em determinado instante o cabo Júlio falou com o vice-
governador, que se fosse abaixo de determinado valor, que ele estabeleceu, a
tropa pararia; que o vice-governador ligou para o governador e, face ao
momento dramático que vive o Estado, foi atendido; que gostaria de colocar
um fato da mais alta relevância, quando o vice-governador deu o sinal positivo,
o cabo Júlio pegou um telefone celular e, em dez minutos, o movimento cessou.
Os quartéis voltaram ao normal, o que a nítida impressão ao depoente de
controle absoluto sobre a tropa envolvida”.
“[...] que o acusado expôs ao ridículo a administração da Polícia Militar
de Minas Gerais perante a nação”.
Tenente-coronel Carlos Roberto Lopes Cançado, ex-comandante do
Batalhão de Choque, atual cel. do QOR – Quadro de Oficiais da Reserva, em
27 de outubro de 1997:
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“[...] que a liderança não feriu frontalmente a ética e os preceitos
regulamentares que regem a carreira policial militar, pois essas foram feridas
quando a tropa saiu do Batalhão de Choque em passeata; e que, percebeu o
cabo Júlio procurando serenar os ânimos, organizar o movimento e tentar
estabelecer junto aos presentes uma pauta de reivindicações para ser levada
ao Comando e ao Governo do Estado”.
“[...] que não presenciou, em nenhum momento, o cabo Júlio incitando a
tropa para indisciplina”.
“[...] que expressou, ao ver o acusado na Comissão, a satisfação por tê-
lo lá, por considerá-lo um militar tranqüilo”.
“[...] que para o bem ou para o mal, ele (cabo Júlio) já fazia parte da história
da Polícia Militar”.
“[...] que como comandante do Batalhão de Choque conhece a sua tropa
e que acredita que os manifestantes consideraram a tropa postada na Praça da
Liberdade como um desafio a ser superado pela multidão que manifestava,
policiais civis, militares e agentes penitenciários”.
Coronel reformado Edgar Soares, em 3 de novembro de 1997:
“[...] que o Comando não tem autoridade moral para prender o depoente
ou qualquer um que lute por melhoria salarial”.
“[...] que o comandante-geral, o chefe do Estado-Maior, e o chefe do
Gabinete Militar não têm mais qualificação que lhes tinham sido confiada”.
“[...] que entende que o Comando conduziu o relacionamento com a
Comissão de uma maneira durante a crise, permitindo o diálogo com o próprio
vice-governador e secretariado e, após o encerramento, a trata de maneira em
que se percebe principalmente retaliação”.
“[...] que no dia 24, ao passar pela Praça da Liberdade, as 14hs., percebeu
o movimento de tropas naquele local e ligou para um coronel do Alto Comando
e solicitou que não colocasse tropa da PM contra a própria PM e que a resposta
foi de que o Comando tinha o controle da situação. E que tentou pedir o mesmo
a outras autoridades”.
“[...] que como oficial, tem vasto conhecimento de policiamento de choque,
sabendo que o bloqueio se faz ostensivamente com cassetete, escudo e
capacete, o que não ocorreu.; que aquele bloqueio foi feito com corda, cadetes
e policiais femininas desarmadas, que quem estuda psicologia de massa
entende que a tropa não iria invadir o prédio do QCG, e sim, nesses momentos,
o perseguidor corre atrás do perseguido, independente de direção”.

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Conclusão

Após o movimento foram excluídos cerca de cento e oitenta policiais


militares, dentre os quase cinco mil policias militares e mil policiais civis e agentes
penitenciários.

Foram punidos aqueles que contestaram a traição do alto comando da


PM, que lutou por aumento salarral somente para os oficiais e esqueceram dos
Praças.

Nos sentimos como se toda uma família estivesse com fome e pai
colocasse comida somente para ele deixando os filhos com fome.

A disciplina foi quebrada por eles inicialmente. Mostramos a sociedade


que o policial que é pago para lhe proteger também precisa de proteção.

Fui perseguido, ameaçado e expulso da corporação. Indisciplinado para


uns, corajoso para outros. Tem a honra de dizer que fui expulso por ter sido o
líder de um movimento contra fome. Verdadeiramente, a sociedade não conhecia
a realidade de sua polícia.

Dois fatos marcaram muito aquele movimento: o primeiro foi a morte do


Cabo Valério, companheiro de Batalhão de Choque. Por algumas vezes
chegamos a trabalhar juntos em uma viatura ROTAM. Era um irmão de farda,
irmão de fé. A segunda coisa que marcou muito a minha vida neste movimento
aconteceu no dia 12 de dezembro de 1997, o dia da minha expulsão da Polícia.
Eu nasci para ser policial e esse sonho me foi arrancado.

O tempo passou e demos a volta por cima. Em 1998, quase um ano depois,
fui eleito o Deputado Federal mais votado de Minas Gerais, com 217.088 votos.
O primeiro e único Praça eleito Deputado Federal em toda a história de todas
as Polícias Militares do Brasil.
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Consegui após uma negociação política com o Governador de Minas
Gerais Itamar Franco, em 1999, o retorno de quase todos os policias militares
que foram expulsos da corporação em virtude do movimento.

Aqueles que nos humilharam e nos expulsaram, hoje são obrigados a


entender que o maior sentimento de disciplina que pode existir, é o respeito à
pessoa humana que está por detrás de cada policial.

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