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EnANPAD 2017 São Paulo / SP - 01 a 04 de Outubro de 2017

O Management e o Desencontro Hermenêutico

Autoria
Luiz Gustavo Alves de Lara - luizusf@hotmail.com
Prog de Mestr e Dout em Admin – PMDA/UP - Universidade Positivo

Agradecimentos
Universidade Positivo

Resumo
Este texto tem como objetivo compartilhar as reflexões deste ensaísta sobre as
(im)possibilidades de encontros hermenêuticos nas organizações mediados por metáforas
oferecidas pelo management, enquanto proposta de um modelo universalista de gestão.
Compreendendo a racionalidade enquanto linguagem e admitindo a dimensão ideológica da
segunda, questiono a possibilidade de interpretações autônomas da realidade em um
contexto em que as metáforas são elaboradas para dar sentido às práticas daquela forma de
gestão. Argumento que a linguagem, enquanto mecanismo para construção realidade, forma
sistemas culturais contextuais que mediam os encontros hermenêuticos dos sujeitos nas
organizações. Alguns destes sistemas parecem intensificar encontros entre o indivíduo e o
ineditismo do mundo, enquanto que outros parecem evita-los reduzindo a realidade a
esquemas restritivos que inibem outras interpretações possíveis para a atividade
organizacional. Neste caminho, fui amparado por Gadamer (2007) e sua concepção de
realidade como linguagem, por Habermas (1987) que explora o caráter ideológico da
linguagem, Ricoeur (1990) e Geertz (1975) que interpretam o papel das ideologias na ordem
social e Alvesson (2013) que explora a cultura como uma metáfora formadora de outras
metáforas enquanto símbolos compartilhados nas organizações. Em forma de continnum, os
sistemas culturais parecem ter o potencial de promover autênticos encontros hermenêuticos
ou a colonização da interpretação dos indivíduos – dominação via linguagem. Por fim,
ilustro meu raciocínio explorando o sentido do crescimento econômico e sua relação com a
ideologia gerencial (SEIFERT; VIZEU, 2015) enquanto produto do sistema cultural do
management.
EnANPAD 2017 São Paulo / SP - 01 a 04 de Outubro de 2017

O Management e o Desencontro Hermenêutico


Resumo

Este texto tem como objetivo compartilhar as reflexões desse ensaísta sobre as
(im)possibilidades de encontros hermenêuticos nas organizações mediados por metáforas
oferecidas pelo management, enquanto proposta de um modelo universalista de gestão.
Compreendendo a racionalidade enquanto linguagem e admitindo a dimensão ideológica da
segunda, questiono a possibilidade de interpretações autônomas da realidade em um contexto
em que as metáforas são elaboradas para dar sentido às práticas daquela forma de gestão.
Argumento que a linguagem, enquanto mecanismo para construção realidade, forma sistemas
culturais contextuais que mediam os encontros hermenêuticos dos sujeitos nas organizações.
Alguns destes sistemas parecem intensificar encontros entre o indivíduo e o ineditismo do
mundo, enquanto que outros parecem evita-los reduzindo a realidade a esquemas restritivos que
inibem outras interpretações possíveis para a atividade organizacional. Neste caminho, fui
amparado por Gadamer (2007) e sua concepção de realidade como linguagem, por Habermas
(1987) que explora o caráter ideológico da linguagem, Ricoeur (1990) e Geertz (1975) que
interpretam o papel das ideologias na ordem social e Alvesson (2013) que explora a cultura
como uma metáfora formadora de outras metáforas enquanto símbolos compartilhados nas
organizações. Em forma de continnum, os sistemas culturais parecem ter o potencial de
promover autênticos encontros hermenêuticos ou a colonização da interpretação dos indivíduos
– dominação via linguagem. Por fim, ilustro meu raciocínio explorando o sentido do
crescimento econômico e sua relação com a ideologia gerencial (SEIFERT; VIZEU, 2015)
enquanto produto do sistema cultural do management.
Palavras-chave: Linguagem, Racionalidade, Cultura, ideologia, Management

Introdução

Nas páginas que seguem estão os registros de uma viagem navegada ao sabor da linguagem.
Assume-se a linguagem como racionalidade reflexiva, construída de forma interdependente com a
cultura na qual o sujeito está imerso. Através destas relações, busca-se aprofundar a compreensão sobre
o relacionamento do indivíduo com a realidade organizacional através das dimensões racionalidade,
linguagem, cultura, ideologia e metáforas.
Alerto o leitor que não pretendo apresentar certezas, embora o leitor possa encontrar argumentos
possam se apresentar como tal. Alerto de antemão que elas não passam de meras provocações. O ensaio
enquanto método “surge como tentativa permanente de resolver a questão central da filosofia moderna:
a separação e tensão permanente entre sujeito e objeto na compreensão da realidade” (MENEGHETTI,
2011, p. 323). Para Vizeu, Macadar e Graelm (2016), o ensaio teórico ainda é percebido como limitado
pelos pesquisadores na Administração. Para os autores, isto se deve ao positivismo científico
predominante no campo que leva à busca da verdade científica amparada por protocolos formais na
produção de conhecimento hipotético-dedutivo.
Este ensaio é um esforço para compreender a linguagem enquanto racionalidade, desde seu
estado mais primitivo de simbolização, como condição de compreensão e construção do eu e do objeto
em um movimento recursivo. Assim, como ponto de partida, experiencia-se a racionalidade em sua
essência linguística e dialógica promovendo aproximações mais refinadas dos fenômenos da realidade.
Aqui a linguagem, em seu estado desenvolvido sob forma escrita, constituirá a embarcação que permitirá
navegar sobre os oceanos da cultura, mares de ideologias e metáforas. Em uma rota construída à deriva
da existência e da necessidade de explorá-la, argumentarei sobre a natureza ideológica da linguagem e
do pensamento conforme Habermas (1987), refletida na realidade das organizações de mercado.
Argumenta-se a possibilidade de encontros hermenêuticos que constituem sujeito e objeto ainda
que através da linguagem metafórica – formas simbólicas – compartilhadas culturalmente. No entanto,
alerta-se para o distanciamento da realidade que podem resultar do uso de metáforas como mediadora

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da realidade para o sujeito no contexto organizacional. Neste sentido, o compromisso com a manutenção
dos interesses corporativos pode aprisionar o indivíduo a um relacionamento gerenciado com a
realidade, a partir de uma linguagem carregada de ideologia em seu sentido obturador da emancipação.
Durante todo o percurso deste esforço intelectivo estará latente o seguinte questionamento: as
metáforas do management são capazes de promover encontros hermenêuticos aos sujeitos nas
organizações? Iniciarei com uma tentativa de compreensão da origem da consciência, buscando a sua
construção na sua relação interativa com a cultura e suas formas simbólicas. Argumentarei o papel da
ideologia na produção das metáforas enquanto formas simbólicas. A abordagem crítica deste ensaio
revela a possibilidade, ou melhor, a necessidade de também ser criticado, como forma de desobstrução
de novas interpretações possíveis promovendo reflexões emancipatórias.
Distante da pretensão de verdade, apresento os limites de minha própria compreensão sobre os
fenômenos da realidade organizacional aqui abordados. Compartilhando este percurso de um autêntico
encontro hermenêutico. Espero que minhas inquietações de pesquisador possam provocar outros
encontros a interlocutores potenciais.

Racionalidade e a apreensão da realidade

A construção racional da realidade se dá a partir da capacidade de significá-la com


linguagem. Este é o imperativo para a interação inteligível com o mundo. Para Gadamer (2007),
o ser que pode ser compreendido é linguagem. Ao contrário da teoria designativa, onde a
linguagem era considerada o veículo do pensamento, Gadamer (2007) a compreende não como
condutora de significados entre razão e mundo concreto, mas a construção mútua entre
pensamento linguístico e fenômenos da realidade, significando-a numa interação
experienciadora entre sujeito racional e mundo vivido.
A racionalidade é dialógica e intersubjetiva (HABERMAS, 2012), e é através de
linguagem, com associação comum de signos e significantes entre sujeitos, que se formam
esquemas interpretativos para ordenamento da realidade aparente e consequente a chave para a
aproximação e compreensão – sempre precária – da realidade. Em outras palavras, a
racionalidade, linguística em essência (GADAMER, 2007), viabiliza conjuntos de significações
compartilhadas, que por sua vez são transmitidas de geração a geração, construídas e
reconstruídas em cada contexto sócio-histórico (re)delineando uma tradição linguística
(GADAMER, 2007) e cultural através de um processo simbiótico entre estes fatores.
Para Gadamer, linguagem é “um fenômeno social, cultural e histórico, e qualquer estudo
detalhado deveria começar com uma apreciação deste fato vital” (LAWN, 2011, p. 107). De
acordo com este pensador, linguagem muda ao longo do tempo, através de infinitas trocas
dialógicas dentro do contexto da tradição e da história, para além da capacidade de controle de
qualquer agente (LAWN, 2011). Entretanto, Habermas (1987) explora a ação comunicativa e
demonstra como a linguagem é ideológica por natureza, e por esta característica, pode ser
sistematicamente significada com propósitos de ordenamento social que por sua vez, dada a
materialidade histórica dessa ordem, beneficia grupos dominantes daquele contexto através
daquela tradição linguística. O que parece estar em dissonância entre o pensamento destes
autores é a capacidade da linguagem em promover genuínos encontros entre sujeito e a
realidade, condicionados pela significação linguística de seus fenômenos.

Na medida em que as legitimações não manifestam a relação de violência, cuja


institucionalização possibilitam, e na medida em que isso apenas se exprime nas
legitimações, a linguagem também é ideológica. Aí não se trata a penas de enganos
numa linguagem, mas sim de engano com a própria linguagem (HABERMAS, 1987,
p. 21).

Me faz sentido o posicionamento de Gadamer, de que a linguagem é fruto de uma


tradição da qual não se pode se desvincular, entretanto o argumento de Habermas está para além
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disso: o fato de haver uma tradição linguística sócio-histórica e um horizonte interpretativo


limitante entre a tradição e o ineditismo, a emancipação de um sistema que colonizou o mundo
da vida pode ser vislumbrada pela comunicação livre de dominações política e econômica.
Ainda que se argumente que estes constructos estão dentro de uma tradição linguística
condicionadora, acredito que existindo a consciência da existência de dominação, haverá a
possibilidade de emancipação. Portanto, assumo que a linguagem pode ser um meio de
dominação por seu caráter ideológico, embora não como acortinamento do concreto, como na
concepção marxista de ideologia, mas na forma de sujeição do indivíduo a uma realidade
formada por um sistema metalinguístico que suprime sua autonomia interpretativa e que o
coloca na condição de assujeitado à interpretação de outrem.
A manifestação dos constructos linguísticos de significação de mundo se materializam
identidades culturais. Dentre os vários olhares à cultura organizacional sugeridos por Alvesson
(2013), destacam-se duas dimensões contrapostas: (i) a cultura enquanto unicidade de
significantes compartilhados e (ii) enquanto coexistência de divergências, de embates
ideológicos, leia-se significações pré-concebidas de realidade. A partir destes olhares que se
opõe entre si, me parece explícito que o intento do management de gerir a produção das formas
simbólicas e uniformizar a interpretação dos sujeitos nas organizações revela a possibilidade de
dominação via linguagem. A uniformidade cultural em uma organização enquanto produto de
gestão é obtida pela manutenção sistemática de significantes promovendo sujeição coletiva à
uma interpretação apriorística de realidade produzida sob condições assimétricas de poder em
dado contexto sócio-histórico. Tais significações materializadas em uma tradição linguística
são consumidas e compartilhadas pelo coletivo desfavorecendo, ou até mesmo obstruindo as
possíveis (re)significações autônomas latentes do sujeito em seus encontros com o mundo.

Our language can be seen as an ancient city: a maze of little streets and squares, of old
and new houses, and of houses with additions from various periods; and this
surrounded by a multitude of new boroughs with straight regular streets and uniform
houses (Wittgenstein, 1967, p. 124)

Geertz (1975) se utiliza da mesma metáfora para melhor compreender o fenômeno


cultura. Para ele, antropólogos tem tradicionalmente circulado no centro velho da cidade, mas
é cabido olhar para a periferia, compreender como ela foi formada a partir da cidade velha, das
estruturas antigas. Mas como se dará o crescimento desta periferia? Ao invés de pensar em
predação ou sobreposição no crescimento de uma cultura, Geertz tenta explicar o fenômeno a
partir do emaranhado de práticas recebidas, crenças, julgamentos, hábitos, dogmas, enfim, tudo
aquilo que compõe uma paisagem que torna impossível imaginar o mundo daquele vilarejo sem
ela.
Esta metáfora nos aproxima de um fenômeno linguístico que são as disputas identitárias
para definição da realidade. Enquanto uma velha cidade, pode ser construída a partir de seu
núcleo, mas também a partir da periferia, dependendo de qual for a região dominante. A disputa
por dominância e suas manifestações indiretas caracterizarão sua identidade no presente,
embebecida da cultura construída ao longo deste movimento dos agentes sociais que disputam
o poder para impor a interpretação verdadeira.
Neste sentido, acompanho Foucault (1979), pois parece-me que a assimetria de poder
disposta nas estruturas organizacionais hegemônicas é refletida na disputa desigual pela
verdade da realidade. O intento do management em gerir a interpretação do sujeito em relação
à realidade é tido como prática de gestão desejável nas organizações modernas, favorecendo
assim o processo de dominação via linguagem legitimado no atual contexto sócio-histórico.
Assim, a racionalidade dominante revela-se difusora da ideologia do management, que em seu
estado atual limita a autonomia da interpretação em favor daquelas que dão sentido aos
interesses econômicos.
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Cultura e linguagem

A relação entre cultura e linguagem é ontológica. Não se incorrerá no erro de determinar


ordem entre estes dois fenômenos, pois como afirma Laraia (1986), a linguagem humana é
produto da cultura, mas a própria cultura só existe em função da capacidade comunicativa que
viabiliza o compartilhamento de significações. Sendo a linguagem o fio condutor dos
argumentos deste ensaio, é a partir dela que nos aproximamos de cultura. Assumo uma
concepção de cultura conforme o entendimento de Geertz (2008), essencialmente semiótico.
Evidencio a sua indissociação com a linguagem, pela relação mútua na construção de
significações compartilhadas. Abdica-se de um conceito capaz de delimitar um único objeto
cultura, e aproximamo-nos das suas manifestações plurais e interpretativas (GEERTZ, 2008)
inerentes à racionalidade linguística que permite significação e (re)interpretação dos
fenômenos. Se há delimitação para compreensão de cultura, é caracterizada por uma concepção
que garanta um estado de permanência incompleto, a ponto de perceber novas manifestações
culturais na medida em que elas próprias (re)constroem o seu próprio conceito.

O ponto global da abordagem semiótica da cultura é, como já disse, auxiliar-nos a


ganhar acesso ao mundo conceptual no qual vivem os nossos sujeitos, de forma a
podermos, num sentido um tanto mais amplo, conversar com eles (GEERTZ, 2008, p.
17).

A cultura surge a partir do momento que nossa espécie, ainda em desenvolvimento,


obteve a capacidade compartilhar significações ainda que com mecanismos pré-linguísticos.
Para Rocher (1989) esta aptidão permitiu ao homem desenvolver infinitamente mais do que as
demais espécies, potencializando sua ação sobre o mundo. O homem passou a exercer um
domínio sobre a realidade que está para além de sua capacidade física, e isto “deve-o à utilização
que soube dar aos símbolos” (ROCHER, 1989, p. 84). A cultura, ao invés de ser um componente
acrescentado ao ser humano já racional, foi um ingrediente essencial na sua própria constituição
e desenvolvimento (GEERTZ, 2008).
Símbolo para ROCHER (1989, p. 82) é definido como “qualquer coisa que toma o lugar
de outra coisa, ou ainda, qualquer coisa que substitui e evoca uma outra coisa. Thompson (2000)
define formas simbólicas como sendo tudo aquilo que pode ser significado. Chamo atenção
para o caráter metafórico de aproximação com a realidade que representam estas duas
definições. Cultura então, é a capacidade de geração e interpretação de formas simbólicas em
seus circuitos sociais que dirigem a relação dos sujeitos com a realidade, convergindo para uma
das aproximações de Alvesson (2013) sobre o tema, onde explica cultura enquanto uma
metáfora constituída de metáforas.
A comunicação acontece através de formas simbólicas e metáforas constitutivas do
pensamento. Para Rocher (1989), qualquer forma de interação exigirá emissão e recepção de
mensagens. Se tratando de diferentes culturas, haverá a possibilidade de recepção de mensagens
apenas na possibilidade de tradução das formas simbólicas, cujos mecanismos serão
construídos a partir da própria relação entre as culturas distintas. Por se tratar de tradução, ou
ressignificação de uma mesma forma simbólica para outra cultura, é mais que provável que este
processo contribua para formação de hibridismo cultural. Como resultado, as novas
interpretações resultantes da tradução condicionada por mais de uma tradição, poderá
aproximar ou afastar os indivíduos do fenômeno qual se busca compreensão. A eficácia da
comunicação humana depende da “adequação do significante e do significado, utilização dos
símbolos mais apropriados por parte daquele que emite a mensagem” (ROCHER, 1989, p.87),
para transmissão completa da mensagem livre de interferências sendo significada corretamente
por parte de quem ela se destina.

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No entanto, me parece que na esfera da subjetividade do indivíduo jamais haverá


recepção de mensagem livre de qualquer interferência, pois embora compartilhando símbolos
e seus significados, mesmo inserido em uma cultura harmônica, sob nenhuma hipótese este
compartilhamento será livre da interferência da trajetória individual do receptor. Talvez seja
este o motor da mudança cultural. Mesmo assim, reconheço o argumento de ROCHER (1989)
quando afirma que a apesar da comunicação humana exigir numerosas condições, é um
processo relativamente eficaz. Como exemplo, é isso que viabiliza ao leitor(a) deste texto,
inserido(a) na mesma cultura macro que a minha, acessar significações parecidas através de
mecanismos de tradução de significações entre sujeitos, a ponto de criar construtos abstratos
que permitem a apreensão das formas simbólicas aqui criadas, interpretadas e/ou
reinterpretadas.

Metáforas e o encontro hermenêutico

As metáforas são um importante recurso para aproximação entre sujeito e realidade em


um processo de experienciação, descobertas e descrição. Através delas, o aparato cognitivo
acessa fenômenos complexos formando descrições, ainda que provisórias, na busca de
compreender e tonar inteligível a essência daquilo com que se depara em encontros inéditos
com o mundo. Para Alvesson (2013), as metáforas têm recebido crescente atenção nas ciências
sociais, principalmente em estudos organizacionais. Segundo o autor, na impossibilidade de
acessar a realidade material, dela nos aproximamos metaforicamente, a começar pela descrição
das organizações como máquinas, pirâmides, organismos, ou qual for o empréstimo de
significado de outros objetos para entendê-las.
A aproximação entre sujeito e objeto é sempre interpretativa, a partir das suas
experiências anteriores que o permitiram significar o mundo até aquele momento inédito em
que se depara com algo que lhe é estranho e que lhe custa esforço para interpretar o novo a
partir dos recursos limitados que dispõe. As metáforas então, assumem papel importante para
viabilizar a interação de uma realidade inédita, complexa e de aproximação precária, no
momento do encontro hermenêutico ao qual se referia Gadamer (2007). Alvesson (2013)
demonstra convicção de que as metáforas são cruciais na relação das pessoas com a realidade,
pois para ele, o próprio conhecimento da realidade é metafórico, uma vez que é construído de
algum ponto de vista. Tais metáforas então, formam sistemas conceptuais construídos sob um
ponto de vista contextualizado histórico e socialmente.
Em estudos organizacionais, frequentemente utiliza-se metáforas para dar conta da
complexidade abstrata de das organizações sociais. Por exemplo, a ideia de hierarquia descrita
como ‘pirâmide’, é um exemplo claro de uma metáfora que compõe um modelo conceptual
muito comum de organização com distribuição de poder progressiva e assimétrica. Como se
não bastasse, desta metáfora, surgem derivações, como por exemplo a ideia do ‘topo’ da
organização, que acaba significando relações de poder apenas quando associadas à forma
arquitetônica mais popular da civilização egípcia – a pirâmide. Note-se que a aproximação para
com a realidade pode seguir em infinitas construções metafóricas, chegando ao ponto de que o
encontro hermenêutico, ou o encontro com o diferente a ser interpretado, ou ainda, o ineditismo
do mundo em experienciação, pode ser suprimido por associações metafóricas dadas que são
restritivas e inibem a relação plena de mutua construção sujeito-objeto. A polissemia enquanto
possibilidades múltiplas de interpretações complementares cede lugar à certeza oriunda de uma
metáfora apriorística e, portanto, com significações restritivas aos constructos não
questionáveis pré-concebidos. A realidade passa a ser algo representado no campo das ideias a
partir de atribuições metafóricas que por vezes são elaboradas e oferecidas de forma persuasiva
com o intento de desestimular a criticidade e autonomia interpretativa do sujeito em relação ao
mundo no qual está inserido. Através da oferta estratégica de interpretações pré-concebidas a
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outrem com finalidades dissimuladas, ou ainda, da interpretação seletiva de metáforas


(re)importadas a partir de contextos distantes, penso ocorrer uma espécie de gerenciamento
interpretativo por parte de quem as formula, diminuindo a possibilidade de apreensão autônoma
do objeto/fenômeno por parte de quem as consome, comprometendo a constituição de si e do
objeto na construção dialógica com a realidade.

A related difficulty is the ‘catchiness’ problem that springs partly from the current
popularity of metaphors in organization studies. This can easily lead to the excessive
use of seductive metaphorical expressions, rather than the development of analytically
helpful metaphors that really do shed new light on things. As in the case of culture,
the very popularity of metaphors can make it ‘too easy’ to play with them, which in
turn can lead to superficiality (Oswick and Grant, 1996). ‘Culture’ easily refers to
everything and nothing, as is the case with many other popular terms, such as strategy,
branding and leadership. We can thus talk about a ‘fashion problem’ as regards
metaphors in contemporary organization theory (ALVESSON, 2013. p. 20)

As metáforas então, ao invés de mecanismo linguístico de apoio à interpretação do


complexo, ou facilitadoras da interpretação dos fenômenos do real, podem servir como
esquemas interpretativos prontos, não participados pelo sujeito que as consome. Em outras
palavras, metáforas podem ser ofertadas para dar sentido a uma realidade posta, afastando o
sujeito da possibilidade de emancipação. Alvesson (2013) critica o ‘supermercado de
metáforas’, onde interpretações metafóricas são oferecidas como em prateleiras, prontas para
serem utilizadas, mas que são incapazes de aproximar ou apresentar o fenômeno em
profundidade. Estas ofertas se esquemas de significação prontos através das metáforas
exprimem o potencial dominador da linguagem como sugerira Habermas (1987). Tais
esquemas metafóricos materializarão a ideologia dominante levando os indivíduos a assumirem
inconscientemente o papel de mantenedores do status quo sustentando interesses não
emancipatórios. Neste fenômeno, observam-se os aspectos negativos da ideologia tratados a
seguir.

Ideologia

A linguagem significa a realidade para o sujeito, portanto, ela a constrói. Mas


considerando o caráter ideológico da linguagem apresentado por Habermas (1987), esta
construção nem sempre é livre dominação. Para Ricoeur (1990), é pela ideologia que
percebemos o que está diante de nossos olhos, assim, é considerada operatória, pois, operadora
de simplificações de mundo herdadas e transmitidas pela linguagem, pela qual pensamos mais
do que podemos pensar nela. São explicações e simplificações da realidade constituem
ideologias, a partir das quais se obtém interpretações compartilhadas sobre a existência e a
ordem social.
O mundo organizacional é um fecundo campo de estudos envolvendo linguagem,
identidade e cultura. Considerando que as organizações são ordenadoras da vida na
modernidade, compreender as formas simbólicas que nelas circundam significa poder
compreender a ideologia que justifica a realidade organizacional, seja por forças internas ou
externas. Dentre as várias metáforas apresentadas por Alvesson (2013), o autor explora a cultura
organizacional como se fosse uma espécie de cola social que mantém sujeitos unidos, e nesta
substância residem interesses e relações de poder. Como na sociedade, a maioria das relações
de poder são veladas ou dissimulados pela manipulação linguística e comunicativa
(HABERMAS, 1987).
No caso de uma distorção comunicativa intencional, podemos compreendê-la como um
propósito de persuasão de um indivíduo para que outro execute uma ação que não o beneficia,

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mas a executa como se assim fosse, através da aceitação de esquemas interpretativos que
dissimulam sua condição alienada. O aceite destes esquemas interpretativos e de metáforas que
romantizam uma ação a ponto de persuadir o sujeito para executá-la pode revelar mecanismos
de poder e controle característicos das organizações hierarquizadas, embora possa haver
tamanha sutileza em um argumento oferecido por quem possui mais informações, que o
processo de compreensão em favor de objetivos que não são claros a todos os envolvidos torna-
se imperceptível ao assujeitado.
A concepção em voga de ideologia tem sido valorativa e combatida como algo a ser
banido da mente (GEERTZ, 2008). Isto se deve à repercussão do pensamento marxista nas
ciências sociais que chama atenção para ideologia enquanto instrumento de dominação,
caracterizando-a como a dissimulação da concretude da realidade promovida intencionalmente
pelas classes dominantes com o intuito de dominação e manutenção de poder. Para Geertz
(2008) esta concepção utilitarista de ideologia perdeu força, não por parecer equivocada, mas
principalmente porque seu aparato intelectual se tornou impotente frente à complexidade de um
fenômeno que o próprio marxismo descobriu e que envolve a interação entre os fatores social,
psicológico e cultural. Para Ricoeur (1990), a ideologia é um fenômeno social insuperável.
A ideologia, sob uma concepção alternativa mais sofisticada do que a teoria do interesse
na dissimulação da realidade sob um ponto de vista utilitário, é apresentada por Gueetz (2008)
como resposta a um estado de tensão e de má integração crônica da sociedade. O autor que
argumenta a impossibilidade de um arranjo social bem-sucedido e harmonioso frente os
problemas funcionais que enfrenta. Todos os arranjos possuem antinomias insolúveis tais como
liberdade e ordem sócia, estabilidade e mudança, eficiência e humanidade, etc. Esta tensão
torna-se uma espécie de patologia, e suas manifestações são posicionamentos ideológicos,
rótulos generalizados para padronização de explicações.

A ideologia coloca uma ponte sobre o fosso emocional existente entre as coisas como
são e as coisas como se gostaria que fossem, assegurando assim o desempenho de
papéis que, de outra forma, poderiam ser abandonados pelo desespero ou pela apatia
(GEERTZ, 2008, p. 114).

A ideologia opera em contextos próprios, e reconhecer diferentes campos de produção


de sentidos torna claro o potencial polissêmico da linguagem textualizada. A diferença na
interpretação de uma forma simbólica pode ser tanto maior tanto quanto for a distância do
sujeito em relação aos campos e/ou contextos emissão da mensagem. Interpretar formas
simbólicas para Ricoeur (1990), exige identificação da intenção de univocidade na recepção
das mensagens, através do reconhecimento léxico e da intencionalidade do locutor no contexto
da produção discursiva.

Management e ideologia

Argumentei até este momento, a relação da linguagem para construção da realidade,


sendo ela própria a manifestação do pensamento racional que constrói culturas e por elas é
construindo resultando na formação indentitária do indivíduo e dos grupos. Abordei o caráter
ideológico da linguagem, e a inexorabilidade da ideologia nas relações sociais. Aqui, proponho
o olhar crítico à ideologia do management enquanto uma tensão resultante oferta de metáforas
que legitimam este estilo de gestão, entretanto que diminui os encontros autênticos entre o
sujeito e o mundo a partir do seu trabalho, da sua organização ou do resultado de seu trabalho.
Como ilustração, abordo a ideologia do crescimento econômico (SEIFERT; VIZEU, 2015)
análogo a um sistema cultural proposto por Geertz (2008). O crescimento é uma ideologia
gerencial (SEIFERT; VIZEU, 2015) difundida pelo management, e como tal me parece obstruir
as interpretações possíveis alheias aos pressupostos universalistas de gestão que se utilizam de
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metáforas para amenizar a tensão resultante das contradições destas práticas. Sugiro que o
management utiliza um estoque de metáforas universalizantes, ou como sugerido por Alvesson
(2013), uma prateleira de metáforas tal qual mercadorias que portanto, não colaboram para
encontros hermenêuticos dos sujeitos em algumas organizações de mercado.
Entre outros olhares, Geertz (2008) apresenta a ideologia como resultado de uma tensão:

“as ciências sociais ainda não desenvolveram uma concepção genuinamente não-
avaliativa da ideologia, seu fracasso decorre menos da indisciplina metodológica do que
de uma inépcia teórica; essa inépcia manifesta-se principalmente ao lidar com a
ideologia como uma entidade em si mesma — como um sistema ordenado de símbolos
culturais, em vez da discriminação de seus contextos social e psicológico” (GEERTZ,
2008, p. 108)

A concepção marxista de ideologia, a dissimulação deliberada da realidade por parte do


burguês é então tida como uma concepção frágil, pois presume uma verdade em estado puro e
acessível pela ciência, embora sublimada intencionalmente pela burguesia. O que se deve
observar é que dada a construção sócio-histórica da modernidade, a ordem social, ora podendo
ser compreendida por classes, mas não limitada a elas, está enraizada na cultura ocidental, e sua
reprodução atual tem a ver com a significação de ‘desenvolvimento’ na economia capitalista.
‘Desenvolvimento’ é uma forma simbólica, um signo compreendido globalmente como
bom e necessário à sociedade. Uma tentativa metafórica com raízes no campo da biologia,
emprestado à sociologia funcionalista, e que resulta na compreensão da sociedade como um
caminho a ser percorrido, onde o primitivo é compreendido como ruim, e o complexo o
desejável, sendo o desenvolvimento a ponte desejável e unidirecional rumo ao segundo.
Desenvolvimento então, passa a ser a bússola, ou a cola social 1que ordenam a vida global. O
desenvolvimento moderno, amplificado pelo discurso do Presidente Truman em sua posse em
1949, foi ressignificado ao referir-se a aspectos econômicos. Portanto, desenvolvimento,
metaforicamente passa a significar ‘crescimento’ da economia.

“Ninguém pode estar contra do desenvolvimento”. “Quem seria capaz de desejar que
uma criança, uma planta ou a sociedade em seu conjunto não se desenvolvesse, não
melhorasse?” Questões tão triviais como estas marcam a essência do discurso do
desenvolvimento que, desta forma, pareceria um objetivo “oni-benéfico”, um fim
almejado por todos. GOMÉZ (2002, p. 1)

Analisemos a ideologia do crescimento econômico, significado como necessidade de


crescimento ilimitado da economia, como um sistema cultural resultado de uma tensão
psicossocial. Sob este ponto de vista, existe uma desarmonia permanente na sociedade
(GEERTZ, 2008). Se trata de antinomias crônicas na definição de limites entre liberdade e
ordem, estabilidade e mudança, eficiência e humanização do trabalho, distribuição do lucro da
empresa entre proprietários e empregados, entre outros aspectos que geram dissonância na
significação dos papéis dos sujeitos na sociedade. Estes constructos dissonantes de papéis em
torno do signo compartilhado ‘desenvolvimento’ geram tensões individuais e coletivas.
Entretanto, onde há tensão, haverá busca pelo seu alívio já afirmara a literatura da psicanálise.
No entanto, trata-se de uma tensão irremediável, tendo em vista a multiplicidade interpretações
em busca um desenvolvimento idealizado, atualmente condicionado a aspectos econômicos.
Se desenvolvimento condicionado ao crescimento econômico é para onde aponta a
bússola social, existe um vazio a ser preenchido no que se refere a como atingi-lo, é o vazio de
concordância. Neste sentido, o Management emerge em contexto próprio como uma cultura,
produzindo formas simbólicas ou metáforas para maximizar produção capitalista na promoção

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Termos utilizados por Alvesson (2013) para promover a aproximação ao entendimento de cultura.
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de desenvolvimento. As organizações de mercado2 operadas pelo management, por sua vez,


passam a justificar suas existências a partir da sua inserção no projeto deste desenvolvimento,
o que as constrói no sistema capitalista como agrupamentos de relações de trabalho em busca
de crescimento econômico. Estas formas simbólicas são institucionalizadas e significadas de
maneira mais ou menos coesa, constituindo um aspecto cultural contemporâneo no processo de
globalização.
Para Geertz (2008), o problema da ideologia surge quando existe uma discrepância entre
aquilo que se acredita e aquilo que é verificável com a razão científica, ou quando a própria
razão científica é utilizada como reveladora seletiva da realidade, valorizando alguns aspectos
e suprimindo outros através de um relato não equilibrado da realidade. Neste sentido, Ricoeur
(2008) afirma que a dominação ideológica é definida como “a interpretação do real e a
obturação do possível” produzida e contextualizada em um campo limitado (RICOEUR, 1990,
p.71). O management se demonstra uma ideologia em seu sentido negativo, quando as
metáforas corporativas promovem a sensação de compreensão da ordem social sob uma
maneira que impossibilita os indivíduos a se aproximarem desta realidade de forma autônoma
ou de forma truncada das relações de poder de suas organizações.
Na incapacidade de suportar o caos existencial, a busca por alívio através descrição de
mundos desejados torna-se uma obstinação para a os sujeitos. Construída historicamente desde
o surgimento do management, a linguagem corporativa moderna foi instrumentalizada pela
ideologia tonando-se capaz de fornecer idealizações de sociedade desenvolvida a partir do
crescimento econômico neutralizando percepções diferentes sobre as consequências da busca
por este ideal.
Surge então papéis de agentes sentinelas dos interesses econômicos em relações de
poder desiguais constituídas sócio e historicamente, significando a realidade através de
esquemas interpretativos e metáforas a partir de estruturas culturais e linguísticas já postas.
Com racionalidade condicionada à linguagem que compartilha em sua cultura, a capacidade de
agência na produção de novos significados torna-se reduzida. A privação do sujeito na obtenção
de encontro hermenêutico com o real será maior tanto quanto a coesão ideológica do sistema
cultural, assim como quanto maior for a percepção das contradições das versões de mundo,
tanto maior serão as tensões (desarmonias) social e individual. Dentre as possibilidades de
alívio destas tensões, pode estar a redução do contato profundo com a realidade através de
metáforas desconexas dos propósitos velados, que reforçam a sensação de certezas de
direcionamento da ação através das definições de papéis existenciais para os sujeitos.
.
O pensamento ideológico portanto, é visto como (uma espécie de) resposta a esse
desespero: "A ideologia é uma reação padronizada às tensões padronizadas de um
papel social. Ela fornece uma "saída simbólica" para as perturbações emocionais
geradas pelo desequilíbrio social. Como se pode presumir que tais perturbações, de
uma forma geral, são comuns a todos ou à maioria dos ocupantes de um determinado
papel ou posição social, pode-se presumir também que as reações ideológicas a essas
perturbações tenderão a ser semelhantes, uma similaridade apenas reforçada pelas
coisas comuns pressupostas na "estrutura básica de personalidade" entre os membros
de uma cultura particular, de uma classe ou categoria ocupacional (GEERTZ, 2008,
p.115).

Não se trata de afirmar que os detentores de poder possuem onipotência no fornecimento


de metáforas para aproximar os indivíduos de uma realidade dissimuladora dos objetivos
estratégicos de sua intencionalidade. Mas sim, de compreender que estes constructos
linguísticos de mundo são formados através de interação sócio-histórica foram produzidas por
alguns agentes sociais detentores de poderes político e econômico e consumidas por outros a

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O mercado é a instituição dominante no ordenamento social no capitalismo moderno.
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eles subordinados. Cabe ressaltar que ambos buscam alívio de suas tensões existenciais, cujas
certezas da tradição ou da ciência encontram-se fragilizadas na pós-modernidade. Se detentores
de capital significam o status quo da ordem social como condição de mundos perfeitos para
redução da tensão de uma possível ruptura nos mecanismos de acumulação de riqueza, por outro
lado, uma parcela significativa dos não detentores de capital consomem as mesmas formas
simbólicas como esperança de degustar uma prosperidade ora discursada como sendo acessível
a todos. Em última instância, ambos estão se afastando da realidade através de metáforas para
aliviar suas próprias tensões. Assim, significam a realidade formando simulacros
metalinguísticos próprios das organizações capitalistas. Esta relação desigual de poder na busca
por solução de tensões resultantes pela busca de desenvolvimento econômico resulta em efeitos
colaterais de acumulação desigual de capital, consequentemente maior dominação, legitimada
por mecanismos linguísticos que significam a realidade.

Considerações finais

Ao longo das reflexões sobre racionalidade, cultura, ideologia e metáforas no contexto


das organizações adeptas à linguagem do management, buscou-se evidenciar a construção
linguística destes fenômenos. Do pensamento à interação social, a realidade é construída por
linguagem. Argumentei a relação metafórica da linguagem nesta construção, que é aprimorada
através de encontros hermenêuticos, momento em que sujeito descobre o novo e, a partir da
tradição e do ineditismo, constrói a si e ao objeto observado.
Acompanho Habermas (1987) ao assumir que a linguagem pode veicular e manter
construções sócio-históricas de dominação. Sem autonomia, seja por condições sociais
estruturais ou por assujeitamento à uma dominação velada e polida, a interação do sujeito com
a realidade se torna manipulada pela linguagem sistematicamente distorcida por outrem que
detém intencionalidade e legitimidade para determinar a interpretação verdadeira de símbolos
e metáforas (FOUCAULT, 1979). Dada esta natureza ideológica da linguagem, as metáforas
corporativas elaboradas para dar sentido aos fins econômicos destas organizações podem inibir
a capacidade do sujeito de apreender realidade de forma emancipada. Deste modo, vagando
entre simulacros linguísticos sistematicamente criados para justificar os meios empregados para
obter fins que não lhe são claros, o indivíduo perde o senso crítico pelo qual melhor
compreenderia os interesses aos quais está servindo. A ideologia do crescimento econômico
(SEIFERT; VIZEU, 2015) por exemplo, revela-se um aprisionamento para muitos sujeitos que
por ela definem seus papéis sociais. O cumprimento de papéis definidos por esta ideologia pode
contribuir para a materialização de um sistema metalinguístico que promove desencontros
hermenêuticos.
O encontro emancipado entre sujeito e objeto pode acontecer de forma autêntica quando
as metáforas mediadoras não são produzidas e consumidas sob relações assimétricas de poder
no ato de comunicar. Assim, compreendo o otimismo de Habermas na razão comunicativa
como via para emancipação social.

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