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TV DESTINO

Central Destino de Produção Capítulo 04

MENINAS DO BRASIL
“MARINA PARA PRESIDENTE?”

UMA NOVELA DE
RAMON FERNANDES
IDEIA ORIGINAL
RYNALDO NASCIMENTO

ESCRITA POR
Ramon Fernandes

DIREÇÃO DE
Teresa Lampreia e Carlo Milani

DIREÇÃO GERAL
DENISE SARACENI

Personagens deste capítulo


ALBERTO GLÓRIA NINA THÉO
CELESTINO HELENA OTÁVIA TRIPÉ
CINDY JULIANO RAFAEL UZIEL
CLARICE LAÍS ROBERTA VICENZO
DOROTÉIA MANDRAKE RUBRA VIÚVA-NEGRA
ELIANA MARINA SANDRO WANDA
FABIANA MARY-LOU TECA ZENILDA
FLÁVIO MURILO TEREZA

Participação neste capítulo


CORAL/ REPÓRTER/ GAROTA DE PROGRAMA

Atenção
“Este texto é de propriedade intelectual exclusiva da TV DESTINO LTDA. e por conter informações
confidenciais, não poderá ser copiado, cedido, vendido ou divulgado de qualquer forma e por qualquer
meio, sem o prévio e expresso consentimento da mesma. No caso de violação do sigilo, a parte infratora
estará sujeita às penalidades previstas em lei e/ou contrato.”
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 2

CENA 01. APARTAMENTO DE ROBERTA. COZINHA. INTERIOR.


MANHÃ
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DO CAPÍTULO ANTERIOR. ELIANA PARECE
NÃO LIGAR PARA AS PALAVRAS DA PRIMA.
DOROTÉIA — Essa aí tem é que apanhar muito tapa da vida pra aprender,
Rô. Não gasta o seu português.
ELIANA — Credo mãe, você em tudo me recrimina. Tenha santa
paciência pra aturar.
ELIANA SAI REVOLTADA. ROBERTA TROCA OLHARES COM DOROTÉIA. A
TIA REPROVA COM A CABEÇA.
CORTA RAPIDAMENTE PARA:

CENA 02. ONG MENINAS DO BRASIL. FRENTE. EXTERIOR.


MANHÃ
PARA LOCALIZAR. O CARRO DE CLARICE ESTACIONA EM FRENTE. DESCE
E ENTRA NA ONG.
CORTA PARA:

CENA 03. ONG MENINAS DO BRASIL. INTERIOR. MANHÃ


AO SOM DE “WE ARE THE WORLD” – MICHAEL JACKSON NOS É
APRESENTADO O INTERIOR DA ONG DE CLARICE E ROBERTA. UM ESPAÇO
GRANDE E ABERTO NO PÁTIO PARA AS CRIANÇAS, PRÉ-ADOLESCENTES E
ADOLESCENTES NA SUA MAIORIA MENINAS CONVERSAM, FAZEM
ATIVIDADES RECREATIVAS. CORTA PARA O REFEITÓRIO ONDE ALGUMAS
FAZEM LANCHES. NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS SUFICIENTE PARA TODAS
AS ATIVIDADES. UM LUGAR BONITO, ARBORIZADO E BEM CUIDADO.
ROBERTA PASSA POR ALI, CUMPRIMENTA FUNCIONÁRIOS E ALGUMAS
MENINAS. ROBERTA SEGUE PARA A ALA DAS SALAS.
CORTA RAPIDAMENTE PARA:

CENA 04. ONG MENINAS DO BRASIL. SALA DE CLARICE E


ROBERTA. INTERIOR. MANHÃ
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 3

ROBERTA ENTRA ANIMADA NA SALA. CLARICE JÁ TRABALHA NO


COMPUTADOR. ENCERRA SONOPLASTIA.
ROBERTA — Oi amiga! Cedo, madrugou!
CLARICE — Hoje eu estou animada. Tô com um bom pressentimento,
não sei por quê.
ROBERTA — (indo para sua mesa) Clarice, hoje eu acordei pensando na
Marina. Sabe, eu penso que isso é um sinal, sei lá.
CLARICE — Sinal, Rô? Você nunca acreditou nessas besteiras, eu não
acredito em sinal divino não. Me acho muito humana, não
sou ligada à religião assim como você, não consigo.
ROBERTA — Pressentimento pode e sinal não? Sabia que rezar faz bem
para a nossa alma, amiga? Alivia o peso dos pecados.
CLARICE RI.
CLARICE — Não desacredito disso não. Só não faço a puritana, não
acredito em gente boa o tempo todo, Roberta. Isso não existe.
ROBERTA — Hoje cê tá quem tá, hein! Língua ferina, frases prontas.
Isso pra mim é falta de sexo.
CLARICE — (maliciosa) Ou excesso, vai saber... (ri) Voltando ao
assunto da Marina, também estou curiosa porque ela nunca
mais deu notícias. Curiosa e preocupada.
ROBERTA — A Marina não é mais criança, ela deve saber de virar.
CLARICE — E é justamente isso que me preocupa. (pausa) Ela “saber
se virar”.
EM CLARICE.
CORTA PARA:

CENA 05. RIO GRANDE DO SUL. PORTO ALEGRE. EXTERIOR.


MANHÃ
UM STOCK-SHOTS DA CAPITAL GAÚCHA, PORTO ALEGRE. ENTRA
SONOPLASTIA: “FOGO” – CAPITAL INICIAL. MOSTRAR VÁRIOS PONTOS
TURÍSTICOS DA CIDADE.
MARINA — (off) Deixa de ser mula, sua incompetente! Não ouviu
marcar a reunião para as três? Até lá estou analisando alguns
balancetes daquele povinho mixuruca.
CORTA RAPIDAMENTE PARA:
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 4

CENA 06. APARTAMENTO DE MARINA. COBERTURA. INTERIOR.


MANHÃ
ABRIMOS NA BELA COBERTURA. MARINA COM O TELEFONE, DESPOJADA
EM SUA CADEIRA DE SOL. UMA EMPREGADA A ABANANDO. TOMA O
SUCO ENQUANTO FALA.
MARINA — (tel.) É claro que é mentira né Vilma! Eu que não vou
ficar analisando conta para agradar pobre, mas você é a
minha secretária e fala o que eu mandar. (pausa) A minha
vida é muito cheia, igualmente com a minha agenda. (ri)
Sério?
NELA SORRIDENTE.
CORTA PARA:

CENA 07. SÃO PAULO. JOCKEY CLUB. PISTA – ARQUIBANCADA.


EXT-INT. MANHÃ
OS CAVALOS COMPETINDO NA PISTA. CORTA PARA A ARQUIBANCADA,
ONDE ENTRE O PÚBLICO, ESTÁ THÉO. OLHA POR UM BINÓCULO. TORCE
COM FÉ PARA UM DOS CAVALOS. CORTES DESCONTÍNUOS DA CORRIDA E
DE SUA REAÇÃO. TEMA DE SUSPENSE. FAZ UMA CARA DE DESASTRE.
CORTA RAPIDAMENTE PARA:

CENA 08. APARTAMENTO DE ZENILDA. SALA. INTERIOR. MANHÃ


THÉO SENTANDO NO SOFÁ. ZENILDA EM SUA FRENTE, DE PÉ.
ZENILDA — De novo, Théo? Perdeu de novo o nosso dinheiro no
jóquei, nos jogos de azar. Eu não sei mais o que faço contigo.
THÉO — Mas eram os cavalinhos, bebê.
ZENILDA — Seus cavalinhos? Por um acaso você tem dinheiro para ter
cavalo em jóquei? (se corta) Ai,chega, é melhor não dar
continuidade no assunto porque tá me dando uma vontade de
te esganar...
ZENILDA SAI BUFANDO DALI. THÉO PEGA O JORNAL. CLOSE NA PÁGINA
DO JOCKEY.
THÉO — Ela não tem direito de me privar dos meus cavalinhos, ué.
NELE.
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 5

CORTA RAPIDAMENTE PARA:

CENA 09. RIO DE JANEIRO. EXTERIOR. DIA


ENTRA UM BELÍSSIMO STOCK-SHOTS DO RIO DE JANEIRO ATUAL E
LUMINOSO, COM SUAS PAISAGENS QUE SERVE DE CARTÃO POSTAL.
ENTRA SONOPLASTIA: “HOTEL CALIFÓRNIA” – BOB MARLEY. TAKES
DO BAIRRO DE SÃO CRISTÓVÃO, ENCERRANDO O STOCK.
CORTA PARA:

CENA 10. SÃO CRISTÓVÃO. RUA. EXTERIOR. TARDE


MOVIMENTAÇÃO DE UMA RUA DO BAIRRO DE SÃO CRISTÓVÃO. CARROS
E PESSOAS. CLOSE EM ALBERTO QUE VEM VINDO COM ALGUMAS
SACOLAS. CABISBAIXO, ROUPAS SIMPLES. SENTIU-SE MAL. CLOSE NELE.
VAI CAINDO NO CHÃO, DESMAIANDO LENTAMENTE. O CONTEÚDO DAS
SACOLAS SE ESPALHANDO NO CHÃO. ALGUMAS PESSOAS VÃO SE
APROXIMANDO DO CORPO DELE, MAS NINGUÉM TOCA NELE. CLIMA DE
TENSÃO NO AR. CORTA PARA WANDA E UZIEL QUE VEM DO OUTRO LADO
DA RUA. OLHAM A MOVIMENTAÇÃO.
WANDA — Ih, seu Uziel. O que é aquele povo todo ali reunido?
UZIEL — Eu acho que aconteceu algum acidente.
OS DOIS VÃO SE APROXIMANDO. UZIEL SE ASSUSTA.
UZIEL — Foi com o Alberto, Wanda. Olha ele lá!
WANDA — Ai, meu Pai!
ELES CORREM ATÉ O BURBURINHO, ABRINDO ESPAÇO. ALBERTO VAI
ACORDANDO, MUITO FRACO.
UZIEL —Alberto, cê está bem?
ALBERTO — Me ajuda aqui, meu amigo.
WANDA E UZIEL VÃO ERGUENDO ALBERTO, QUE LEVANTA
CAMBALEANTE. ALGUMAS PESSOAS AJUDAM COM AS COMPRAS.
ALBERTO APOIADO NA PAREDE. BURBURINHO EM VOLTA. OS DOIS
CUIDAM DE ALBERTO. NELE AINDA ASSUSTADO.
CORTA PARA:

CENA 11. SÃO PAULO. EXTERIOR. TARDE


STOCK RÁPIDO DO CENTRO DE SÃO PAULO.
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 6

CORTA RAPIDAMENTE PARA:

CENA 12. CASA DE JULIANO. SALA. INTERIOR. TARDE


REUNIDOS ESTÃO JULIANO, OTÁVIA E VICENZO. PARECEM
PREOCUPADOS. TEREZA VEM LÁ DE DENTRO.
VICENZO — E aí vó? Como a minha mãe está?
TEREZA — Juliano... Ela pediu para te ver, diz que está arrependida e
tá chorando muito lá no quarto.
JULIANO — Chorando pela enésima bebedeira, minha sogra? A Helena
não toma jeito não, às vezes eu penso em ir embora e deixar
no meu lugar na cama uma garrafa de vodka. Garanto que ela
ficaria bem mais satisfeita.
VICENZO — Também não é pra tanto, pai. Tem que ter paciência com a
mamãe. Ela é igual uma criança pequena, se não tomamos
conta... Ela é frágil, é artista, sensível.
OTÁVIA — (ri) A mamãe é uma pinguça de mão cheia, Vicenzo!
TEREZA — Hei garota. Se a sua mãe não soube te dar educação e
umas boas palmadas a sua avó vai te ensinar. Isso não é jeito
de falar da Helena, Otávia.
OTÁVIA — Mas é verdade, vó. O papai tem razão quando briga com a
mamãe, ela precisa de um tratamento para o alcoolismo. Só
com a ajuda de alguém ela vai se curar.
JULIANO — Eu, sinceramente, estou saturado do meu casamento e
dessas crises da Helena, crises de humor, crises de meia
idade, de personalidade, enfim, saturei, acho que não tenho
mais ânimo para levar na esportiva como em outros tempos.
Não sei mais o que fazer.
TEREZA CABISBAIXA, SÓ CONCORDA.
JULIANO — Bom; dona Tereza, a senhora vai ficar mais um pouco
aqui?
TEREZA — Vou sim.
JULIANO — Então vou ver a Helena e depois vou voltar para o
escritório, porque nessa casa já vi que o clima pesou de novo.
TEREZA — Vê lá, Juliano. Não vá brigar com a sua mulher. A Helena
é doida, mas ela te ama.
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 7

JULIANO CONCORDA COM A CABEÇA, MEIO IMPACIENTE E SAI. OTÁVIA E


VICENZO SENTAM-SE NO SOFÁ. EM TEREZA PREOCUPADA.
CORTA PARA:

CENA 13. CASA DE JULIANO. QUARTO DO CASAL. INTERIOR.


TARDE
HELENA SENTADA NA CAMA COM AS PERNAS CRUZADAS CHORA, PORÉM
CONTIDA. ALGUÉM BATE NA PORTA. HELENA SECA AS LÁGRIMAS.
JULIANO ENTRA E FICA ENCARANDO-A COM CARA DE POUCOS AMIGOS.
HELENA DESVIA O OLHAR.
JULIANO — Tá melhor?
HELENA — Vai ficar me olhando com essa cara de ódio misturado
com compaixão até quando, Juliano?
JULIANO — Helena, por favor./
HELENA — (corta) Eu sei exatamente o que você tá pensando agora.
Quando se fica muitos anos casada com uma pessoa, a
mulher sabe o que os seus maridos pensam delas. (pausa) Eu
não sou uma alcoólatra.
JULIANO — (irônico) Ah, não? Então me diz, Helena. O que você é
então?
HELENA — (irritada) Para com essa ironia que me irrita.
HELENA RECOMEÇA A CHORAR. JULIANO VAI FICANDO ENCABULADO.
HELENA — Poxa, você acha que eu não tento melhorar, mudar o meu
jeito de ser? Sabia que é difícil eu largar esse meu vício?
Você não ajuda em nada, ao contrário, parece que gosta de
me ver sofrer, faz isso de propósito. (pausa) Eu faço de tudo
pra não cair em tentação, ma não dá.
JULIANO — Que pena. Eu não sabia que o seu tudo era tão pouco.
JULIANO VAI SAINDO. HELENA LEVANTA-SE.
HELENA — Aonde você vai? Eu estou precisando de você.
JULIANO — Vou sair, vou trabalhar.
HELENA — (o abraçando) Não vai. Fica comigo, fica com a sua
esposa.
JULIANO — Eu prefiro sair, desanuviar a cabeça. Não quero ficar em
casa, remoendo sentimentos.
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 8

DESVENCILHA-SE DELA.
JULIANO — A sua mãe está aí na sala, vai ficar com você. Tchau.
HELENA — Juliano.
JULIANO SE VIRA. OS DOIS SE ENCARAM.
HELENA — Me fala uma coisa? (pausa) Cê quer a separação?
OS DOIS TROCAM OLHARES. EM HELENA.
CORTA PARA:

1º INTERVALO COMERCIAL

CENA 14. RIO DE JANEIRO. EXTERIOR. TARDE


STOCK RÁPIDO DO BAIRRO DE SÃO CRISTÓVÃO. TERMINA COM UM TAKE
NA FRENTE DA VELHA CASA DE ALBERTO, PARA PONTUAR.
CORTA RAPIDAMENTE PARA:

CENA 15. CASA DE ALBERTO. QUARTO DE ALBERTO. INTERIOR.


TARDE
CÔMODO SIMPLES ASSIM COMO O RESTANTE DO IMÓVEL. ALBERTO
DEITADO NA CAMA. UZIEL E WANDA ALI COM ELE. CONVERSA JÁ
INICIADA.
UZIEL — Tu tens que se cuidar, homem. Tem ido ao doutor
Carneiro?
ALBERTO — Fui, fui sim.
WANDA — (desconfiada) Quando Alberto?
ALBERTO — Fui na semana passada mesmo. Medi a pressão, ele ainda
me passou um remédio para aquela dor nas costas que eu
tenho.
UZIEL — E, além disso, o doutor receitou alguma coisa ou algum
exame?
ALBERTO SE CALA, OLHA PARA O LADO.
UZIEL — Alberto, não adianta você se calar. Você tem que fazer o
que o médico mandar.
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 9

ALBERTO — Ah, meu amigo, ele me mandou fazer um exame, um


eletrocardiograma.
WANDA — (assustada) Eu não sabia que você não estava bem do
coração, meu amigo. Conta pra gente o que tá acontecendo.
De verdade.
ALBERTO BUFA SEM PACIÊNCIA.
ALBERTO — Cês me tratam como criança pequena. (pausa/ suspira) É
aquela velha saudade de sempre. Saudade da minha filha, da
minha mulher. Saudade de um tempo que não volta mais,
saudade do tempo que eu perdi longe delas. Saudades...
WANDA — Quem sabe esse tempo não volta seu Alberto?
UZIEL — A Wanda tem razão, meu amigo. Não fica pensando no
passado, olha para o futuro.
ALBERTO — (triste) Quisera eu...
WANDA BATE PALMAS, ALEGRE, TENTANDO DESANUVIAR O CLIMA.
WANDA — Tive uma ideia! Vou fazer uma batucada aqui na rua.
Aproveitar que está chegando às festas de fim de ano e vou
fazer um baile aqui na rua. O que vocês acham?
UZIEL — Eu gostei, mas tem que ser daqueles bailes bem
tradicionais, do nosso tempo bom.
WANDA — Pode deixar que eu vou caprichar em tudo. Quero a ajuda
de todos, hein.
ALBERTO — Em se tratando da Wanda a alegria tá garantida.
SOBE SONOPLASTIA: “EM TUDO QUE É BELO” – JORGE VERCILO. É
IMPORTANTE QUE A MÚSICA CONTINUE NA PRÓXIMA CENA. TODOS
CONTAGIADOS. ALBERTO SORRI AMARELO, MAS VOLTA A FICAR
PENSATIVO.
CORTA PARA:

CENA 16. CASA DE JULIANO. QUARTO DO CASAL. INTERIOR.


TARDE
CONTINUAÇÃO IMEDIATA DA CENA 15. HELENA ENCARA O MARIDO.
HELENA — Fala Juliano. Você quer a separação?
JULIANO — (incomodado) Uma coisa é certa Helena: Se você não
mudar o seu jeito de ser eu vou pensar seriamente nessa
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 10

possibilidade. Eu saturei do nosso casamento, não aprovo a


sua conduta e odeio ter que curar essas suas bebedeiras.
HELENA VAI CHEGANDO ÀS LAGRIMAS NOVAMENTE. JULIANO A
ENCARA FRIO E SAI. HELENA DESABA NO CHORO E CAI NA CAMA.
VICENZO ENTRA SORRATEIRO NO QUARTO E AO VÊ-LA CHORANDO VAI
ABRAÇÁ-LA. ELE LHE DÁ TODO O APOIO, A ACOLHENDO EM SEUS
BRAÇOS. NELA.
CORTA RAPIDAMENTE PARA:

CENA 17. CASA DE JULIANO. JARDIM. EXTERIOR. TARDE


JULIANO VEM ANDANDO PELO JARDIM ATÉ CHEGAR EM SEU CARRO.
PENSATIVO, ENTRA E SAI COM O VEÍCULO.
CORTA PARA:

CENA 18. ONG MENINAS DO BRASIL. QUARTO. INTERIOR.


TARDE
ABRIMOS EM UM DOS QUARTOS DA UNIDADE. UM QUARTO BEM GRANDE
COM VÁRIAS CAMAS E BELICHES. ALGUMAS MENINAS EM ALGUMAS
CAMAS. CORTA RAPIDAMENTE PARA UMA BELICHE, NA PARTE DE BAIXO
ESTÁ A GAROTA RUBRA. ELA TREME E TRANSPIRA COMPULSIVAMENTE.
OLHA PARA TODOS OS LADOS, COMO SE ESTIVESSE EM TRANSE. MÚSICA
DE SUSPENSE.
CORTA PARA:

CENA 19. ONG MENINAS DO BRASIL. SALA DE FABIANA.


INTERIOR. TARDE
FABIANA TRABALHA EM SEU COMPUTADOR. ALGUÉM BATE A PORTA.
TECA ENTRA ASSUSTADA.
TECA — Fabi, por favor, vem comigo.
FABIANA — O que tá acontecendo, Teca?
TECA — É a Rubra. Ela tá passando mal lá no quarto, eu acho que
ela vai morrer.
FABIANA ASSUSTADA OLHANDO PARA TECA.
CORTA PARA:
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 11

CENA 20. ONG MENINAS DO BRASIL. QUARTO. INTERIOR.


TARDE
LAÍS COM ALGUMAS MENINAS PERTO DO BELICHE ONDE ESTÁ RUBRA,
EM DELÍRIOS.
RUBRA — Eu quero o meu pozinho, eu quero. Quem tirou daqui?!
LAÍS — Calma Rubra.
RUBRA — Foi você que tirou?
RUBRA JÁ PARTE PARA CIMA DE LAÍS TENTANDO BATER NA GAROTA. AS
OUTRAS MENINAS ASSUSTADAS, ALGUMAS INCITAM. LAÍS TENTA SE
DEFENDER. RUBRA DESCONTROLADA BATE NA COLEGA. FABIANA
CHEGA COM LURDINHA E TECA. ELAS TENTAM SEPARAR RUBRA DE LAÍS.
FABIANA — (grita) Parem meninas! Para Rubra!
ELAS TENTAM CONTER RUBRA QUE AVANÇA SOBRE AS OUTRAS
COLEGAS.
CORTA PARA:

CENA 21. ONG MENINAS DO BRASIL. SALA DE CLARICE E


ROBERTA. INTERIOR. TARDE
CLARICE, ROBERTA E FABIANA CONVERSAM ENQUANTO TOMAM CAFÉ.
FABIANA — E foi isso, depois de muita luta nós conseguimos controlar
a Rubra e as outras meninas também que ficaram agitadas. Já
a medicamos e ela está mais calma.
CLARICE — Isso é um claro exemplo da abstinência de drogas.
ROBERTA — Clarice, não seria melhor mandar a Rubra para outro
centro para ela ter um cuidado mais apropriado? Porque aqui
apesar de todos os esforços, nós não temos ainda aquele
respaldo todo para acolher meninas como a Rubra.
CLARICE — Roberta, se nós não temos respaldo então porque
continuar com a ONG? Se ela é exatamente para oferecer
ajuda a estas meninas? (pausa) A Rubra fica e nós temos que
arrumar um jeito, técnicas, contratar novos profissionais que
seja para nos ajudar.
FABIANA — A verba é pouca Clarice. Nem o governo nos ajuda como
merecemos.
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 12

ROBERTA — Sempre é esse o problema. Não adianta montar uma ONG


e ter boas ideias, ajudar essas meninas, quando chega ao
quesito verba sempre empaca.
CLARICE — Infelizmente tenho que concordar. Bom, mas voltando ao
assunto propriamente da Rubra, acho que você e a Lurdinha
devem manter o olho vivo sobre ela. A qualquer momento ela
pode cometer uma loucura impensada. Olho vivo!
FABIANA CONCORDA.
CORTA PARA:

CENA 22. SÃO PAULO. EXTERIOR. NOITE


AOS POUCOS VAI CHEGANDO A NOITE EM SÃO PAULO. ENTRA
SONOPLASTIA: “O BECK E O CONTRACHEQUE” – TROPA DE ELITE.
TAKES PANORÂMICOS DE UMA FAVELA, USADA PARA A COMUNIDADE
DO URUBU. O MORRO E A CIDADE AO FUNDO.
CORTA PARA:

CENA 23. FAVELA DO URUBU. VIELAS. EXTERIOR. NOITE


CONTINUA SONOPLASTIA. EM SLOW-MOTION FOCAMOS A ENTRADA DE
MANDRAKE E SUA QUADRILHA MAIS ATRÁS. CAM VAI PEGANDO DESDE
OS PÉS ATÉ A CABEÇA. ROUPAS RASGADAS, CARAS DE MAU, LIDERADOS
POR ELE. TODOS ARMADOS. MOSTRAR O PODER DA QUADRILHA NO
LOCAL. MANDRAKE É O REI, NA FRENTE COM UMA METRALHADORA NA
MÃO. CORTES DESCONTÍNUOS DA QUADRILHA ANDANDO PELOS BECOS E
VIELAS DA FAVELA. MANDRAKE E SUATURMA VÃO SAINDO DE FOQUE
POR UM DOS BECOS.
FUNDE PARA:

CENA 24. FAVELA DO URUBU. EXTERIOR. NOITE


ENTRADA DA FAVELA. MANDRAKE NEGOCIANDO ALGO EM OFF COM
OUTRA TURMA. IMPORTANTE QUE NO OUTRO GRUPO TAMBÉM TENHA
UM LÍDER. O RESTO DOS GRUPOS ATRÁS APENAS FAZENDO “A GUARDA”
DE SEUS LÍDERES. VAI DIMINUINDO SONOPLASTIA.
MANDRAKE — O bagulho aí é do bom mermo?
CORAL — Pô Mandrake, quem vê não me conhece mermão. Quando
eu te forneci o baguio do ruim? É produto do bom, mano!
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 13

MANDRAKE OLHA O MATERIAL COMPOSTO POR PAPELOTES DE


COCAÍNA, PEDRAS DE CRAK, BOLAS DE HAXIXE ENTRE OUTROS PACOTES
DE OUTRAS DROGAS. ELE SE ENTREOLHA COM SUA QUADRILHA.
MANDRAKE — Quê que cê acha Viúva?!
VIÚVA-NEGRA — Por mim o que o senhor aprovar tá valendo, chefia.
MANDRAKE — Beleza. Vou levar. (se corta) Pela metade do preço, porque
a última carga não tava boa.
CORAL — Porra Mandrake! Tá de miséria pra cima do de cá é mano?
MANDRAKE ENGATILHA A ARMA. A QUADRILHA DE CORAL TAMBÉM SE
PREPARA. CORAL NÃO FAZ POR MENOS, SEGUIDOS DO GRUPO DE
MANDRAKE.
MANDRAKE — A gente não precisa chegar nesse ponto, Coral!
CORAL — Já é. Recolhe a metranca aê e nóis negocéia.
EM MANDRAKE.
CORTA RAPIDAMENTE PARA:

2º INTERVALO COMERCIAL

CENA 25. FAVELA DO URUBU. VIELA. EXTERIOR. NOITE.


MANDRAKE APARECE GRITANDO ANIMADO SEGUIDO DE SEUS AMIGOS
TRAFICANTES. ATIRAM PRA CIMA. VOLTA SONOPLASTIA TEMA DELE EM
ALTA. O GRUPO TRAZ A MERCADORIA EM BOLSAS.
MANDRAKE — (grita) Quem é o rei aqui?! Quem é o rei, cambada de
desgraça?
MANDRAKE GARGALHA E ATIRA PARA O ALTO. TODOS AGITADOS. MAIS
NINGUÉM NA RUA.
MANDRAKE — É o Mandrake, porra! Mandrake!
MANDRAKE VAI SEGUINDO PELO BECO COM OS AMIGOS.
MANDRAKE — (off) Caralho!
CORTA PARA:

CENA 26. FAVELA DO URUBU. CASA DE FLÁVIO. COZINHA.


INTERIOR. NOITE
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 14

RAFAEL JANTA NA MESA. FLÁVIO FUMA UM CIGARRO OLHANDO PARA A


JANELA. OUVEM-SE OS TIROS DE MANDRAKE, QUE PASSA
BARBARIZANDO.
RAFAEL — Fecha isso aí, pai!
FLÁVIO — (fechando a janela) É melhor mesmo. Não concordo com
esse cara.
RAFAEL — Só o que faltava o senhor concordar, não é? Concordar
com traficante é ser cúmplice da impunidade.
FLÁVIO — Filho, não vem com esse papo há esta hora, por favor, né.
E além do mais eu não quero ver você envolvido nessa
bandidagem toda.
RAFAEL — Pô pai! Parece que não conhece o filho que tem. Eu um
professor de cursinho me envolver com a coisa que eu mais
abomino no mundo?
FLÁVIO — Mesmo assim, Rafa. Não se mete com o Mandrake e nem
com essa corja dele. Não passe pela frente dele, quando ele
passar, atravessa para o outro lado ou então abaixa a cabeça.
Ele é o rei da favela. Isso não vai mudar.
RAFAEL LEVANTA E COLOCA O PRATO DE COMIDA NA PIA. VOLTA PARA
O PAI.
RAFAEL — Eu não sou de me acovardar, seu Flávio. Se o Mandrake
vier pra cima eu não vou baixar a cabeça. (pausa) Ele faz
batalha? Eu faço guerra!
FLÁVIO —Pelo amor de Deus, Rafael. Não me deixa preocupado.
RAFAEL SORRI MEIGO, DÁ UM BEIJO NA TESTA DO PAI E VAI SAINDO.
RAFAEL — (off) Agora eu tenho que ir dar as minhas aulas. Já sabe
né, se ver a minha morte no jornal vai saber que foi por uma
boa causa.
RAFAEL VOLTA COM SUA BOLSA.
FLÁVIO — (irritado) Que papo hein!
RAFAEL SÓ RI E SAI. FLÁVIO PENSATIVO.
CORTA PARA:

CENA 27. FAVELA DO URUBU. BORDEL. FRENTE. EXTERIOR.


NOITE
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 15

MOVIMENTO DO BORDEL DE NINA, LOCALIZADO NA FAVELA. MÚSICA


ANIMADA, TEMA DO LOCAL VIGENTE. ALGUNS HOMENS MAL
ENCARADOS POR ALI NA FACHADA. MENINAS DE VIDA FÁCIL TAMBÉM
CIRCULAM.
CORTA RAPIDAMENTE PARA:

CENA 28. FAVELA. BORDEL. INTERIOR. NOITE


AMBIENTE COM CORES BERRANTES. LUZ E FIGURINO DAS MENINAS QUE
ATENDEM DO MESMO MODO. TRAFICANTES E OUTROS HOMENS DA
FAVELA CIRCULAM COM MENINAS OU DESACOMPANHADOS. NO
AMBIENTE DO BAR ATENDE UM BARMAN. NO SALÃO ESTÃO DENTRE
OUTRAS: CINDY E MARY-LOU, DE CANTO SÓ CONVERSANDO E
PAQUERANDO. NINA PASSA PELO SALÃO, LINDA E CHEIA DE VIDA.
DANÇA E RODA COM SEU VESTIDO VERMELHO. ELA SE APROXIMA DAS
GAROTAS COM UM FALSO SORRISO.
NINA — Tá na hora de faturar, não é suas marafonas?
MARY-LOU — Credo Nina. Uma hora nós somos as “suas meninas”, em
outra somos “marafonas”. Ai, nem, isso é demais pra mim.
NINA — Ô Maria Anastácia, cê não pode abrir essa sua boca de
fazer boquete pra reclamar um A de mim. Eu sou boa com
você, te recolhi da sarjeta, chamo como quiser.
MARY-LOU — Deixando meu nome verdadeiro de lado e chamando de
Mary-Lou, pode chamar do que quiser madrinha.
NINA — Tá boa, não vem com madrinha que eu não sou amigada
de puta. (pausa) E você, Cindy, não tá trabalhando por quê?
CINDY — (bufa) Um dia eu ainda caso e saio daqui, com uma
barriga enorme.
NINA — Nós já conversamos sobre gravidez aqui dentro. Ou você
embucha e isso me gera lucros com o pai do infeliz ou se
ficou de barriga e não conseguiu nada, te despejo daqui com
o filho da./
NINA SORRI SE CONTROLA.
NINA — Vão trabalhar meninas.
NINA SAI. CINDY PASSA OS OLHOS LÁ NA FRENTE. DO SEU PV:
MANDRAKE E SUA QUADRILHA CHEGANDO. CINDY SORRI AO VER
VIÚVA-NEGRA.
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 16

CINDY — (eufórica) Ele chegou Mary!


MARY-LOU — Quem doida?
CINDY — O Viúva-Negra. O meu melhor homem.
MARY-LOU — (sorri) Então tá esperando o que pra ir lá transar com ele?
(pausa) Vai fazer bem pra madrinha, vai.
CINDY — Tu não vai?
MARY-LOU — Meu uisquinho tá bem melhor.
CHACOALHA O COPO DE UÍSQUE E RI. CINDY RI E VAI COM VIÚVA-
NEGRA. MANDRAKE JÁ AGARRANDO UMA GAROTA POR ALI E DANDO UM
BAITA BEIJO NA BOCA. EM CINDY BEIJANDO VIÚVA.
CORTA PARA:

CENA 29. SÃO PAULO. PRAÇA DA SÉ. EXTERIOR. NOITE


ABRIMOS AO LONGO DA PRAÇA DA SÉ. PROSTITUTAS TRABALHANDO,
CLIENTES EM SEUS CARROS OU FORA CONVERSANDO COM ALGUMAS.
CAM DAR FOQUE EM UM CARRO COM VIDRO FUMÊ. O VIDRO VAI
BAIXANDO E REVELAMOS JULIANO NA DIREÇÃO. ENTRA SONOPLASTIA:
“FOGO” – CAPITAL INICIAL. ELE CIRCUNDA A PRAÇA COM O CARRO
ATÉ VER UMA GAROTA BEM VULGAR, NOVINHA. BUZINA PARA ELA. ELA
SORRI E VAI ATÉ O CARRO. JULIANO LANÇA UM OLHAR SACANA E A
MANDA ENTRAR COM A CABEÇA. ELA ENTRA. OS DOIS SAEM DO LOCAL.
FUNDE PARA:

CENA 30. SÃO PAULO. MOTEL. SUÍTE. INTERIOR. NOITE


MESMA SONOPLASTIA. AMBIENTE DO QUARTO DE MOTEL. JULIANO E A
GAROTA DE PROGRAMA TRANSAM LOUCAMENTE. CORTES
DESCONTÍNUOS DAS CARÍCIAS E DO SEXO SELVAGEM QUE ACONTECE
ENTRE O CASAL. VÁRIAS POSIÇÕES, OUSAR BASTANTE EM CENA. A
GAROTA DE PROGRAMA “CAVALGANDO” EM CIMA DE JULIANO QUE
ESTÁ EM ÊXTASE. ELE MORDE AS COSTAS DELA. CHUPÕES NO PESCOÇO E
TAPAS, UM SEXO BEM SELVAGEM. NO PRAZER DO CASAL.
CORTA PARA:

CENA 31. ONG MENINAS DO BRASIL. SALA DE CLARICE E


ROBERTA. INTERIOR. NOITE
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 17

CLARICE DESLIGANDO O COMPUTADOR. TELEVISÃO LIGADA. ROBERTA


TAMBÉM VAI RECOLHENDO AS SUAS COISAS. PEGA UM CAFÉ E VAI
PASSANDO, QUANDO OLHA PARA A TELEVISÃO.
ROBERTA — Clarice!
CLARICE — O que foi?
ROBERTA AUMENTA O VOLUME DA TELEVISÃO. CLARICE VAI SENTAR
NO SOFÁ JUNTO COM A AMIGA. CLOSE NA REPORTAGEM.
REPÓRTER — Hoje foi lançada oficialmente a candidatura da deputada
gaúcha Marina Braga Motta de Castro à presidência da
República pelo partido PTS.
ENQUANTO VAI NARRANDO, APARECEM IMAGENS DE MARINA NO
CONGRESSO, EM REUNIÕES E POUSANDO PARA FOTOS AO LADO DE
OUTROS POLÍTICOS, INCLUSIVE DO MARIDO FREDERICO. CORTA PARA
CLARICE E ROBERTA CHOCADAS. CLOSE EM CLARICE. VOLTA PARA A TV.
REPÓRTER — Depois de largos anos na política ao lado do marido, o
também deputado Frederico de Castro, Marina lutou pelos
direitos trabalhistas do Sul na câmara. Lembrando que as
eleições ocorrem em Outubro do ano que vem, mas Marina já
desponta como preferida para o cargo. Popularmente
chamada nas ruas de Porto Alegre como a “mãe dos pobres”,
uma clara alusão ao seu conterrâneo Getúlio Vargas.
REPÓRTER VAI FALANDO EM OFF, ENQUANTO ROBERTA SILENCIA O
VOLUME. CLARICE E ROBERTA SE ENTREOLHAM SURPRESAS. CLARICE
LEVANTA-SE MEIO BAQUEADA.
ROBERTA — Quem diria! A Marina candidata à presidência do Brasil.
Parece até pegadinha.
CLARICE — Isso é inacreditável mesmo. (ri) A doidinha da nossa
amiga comandando isso tudo.
ROBERTA — Sabe agora eu acho que o Brasil vai pra frente. Ela vai
consertar todas as injustiças do nosso país!
CLARICE — Será?
ROBERTA — Certeza. Como dois e dois são quatro.
EM UMA ROBERTA CONFIANTE.
CORTA PARA:

CENA 32. RESTAURANTE. INTERIOR. NOITE


MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 18

SANDRO E OTÁVIA JANTAM. SONOPLASTIA: “NO WAY” – LADY GAGA.


VÁRIOS CASAIS E FAMÍLIAS NO LOCAL FAZENDO O MESMO. GARÇONS
SERVINDO. AMBIENTE COMUM.
OTÁVIA — Faz tempo que não saíamos para jantar. Tava sentindo
falta desses nossos encontros.
SANDRO — Quanta formalidade, amor.
OS DOIS RIEM.
SANDRO — É que faz tempo mesmo, só na formalidade com você.
Não tem mais tempo pra mim.
OTÁVIA — Exagerado.
SANDRO — Otávia, eu sei que você sempre foge do assunto, mas eu
vou insistir mais uma vez.
OTÁVIA — (bufa) Ai, eu já sei até o que é e vou discordar de novo.
Mas vai lá, fala logo.
SANDRO — Quando cê vai me levar para a sua casa, conhecer a sua
família? Bom, especialmente a sua mãe, não é. Porque o seu
Juliano e o Vicenzo eu já vi por aí.
OTÁVIA — Viu de enxerido, não era para ter visto nem eles. Todos
são intocáveis. (ri) Brincadeira. Ah, Sandro não sei. Quando
acontecer, calhar de dar certo eu te levo lá em casa e faço
todas aquelas apresentações formais e chatérrimas, pode
deixar.
SANDRO — Não são apresentações chatas. É uma forma de dar um
passo importante no nosso relacionamento. (pausa) Só se
você não quer dar esse passo.
OTÁVIA — (ri) Ai, ai... Tô vendo o dia que você vai me pedir em
casamento.
SANDRO — E não vai demorar.
OTÁVIA — Deus me livre. Isola. Este dia que seja daqui a uns dez
anos. Casar agora não está nos meus planos.
SANDRO — Mas vai querer casar comigo?
OTÁVIA — Quem sabe...
OS DOIS RIEM E SE BEIJAM.
CORTA PARA:
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 19

CENA 33. FAVELA DO URUBU. IGREJA EVANGÉLICA. INTERIOR.


NOITE
CULTO INICIADO. FIÉIS EM TRANSE, ENQUANTO NO ALTAR O PASTOR
CELESTINO DISCURSA. TUDO MUITO ACALORADO, Á FLOR DA PELE.
ENTRE OS FIÉIS ESTÁ GLÓRIA. EM TRANSE, OLHOS FECHADOS E COM A
MÃO ERGUIDA, REPETE ALELUIA SEM PARAR.
CELESTINO — (alto) Hoje em dia, meus filhos, a criatura se transformou
mais importante que o Criador. Como os homens não se
importaram com Deus, ele os entregou um sentimento
perverso, para fazerem coisas que não convém. A nossa
sociedade é hipócrita, enquanto ela condena a pedofilia, ela é
libertina com o aborto e o homossexualismo.
EM UM DOS BANCOS DA FRENTE REVELAMOS MURILO, FILHO DE
CELESTINO. ELE ESTÁ IMPACIENTE COM O DISCURSO DO PAI. DESVIA O
OLHAR PARA UM BANCO DE TRÁS. DO PV DELE: TRIPÉ, UMA CALÇA BEM
JUSTA, CAMISA DO MESMO TIPO. FORTÃO E CONCENTRADO NO CULTO,
MAS NÃO FANÁTICO. MURILO SORRI MALICIOSAMENTE, SEM DESVIAR O
OLHAR.
CELESTINO — Dizem que a porcentagem de homossexuais é de 10%,
mas na verdade são de 3 a 4%. Eles fazem isso para
obrigarem o governo a darem cobertura para a sua prática
nojenta. (pausa) Você pode ser e fazer o que quiser, mas
tendo em mente que Deus não fez uma sociedade de
bissexuais e andrógenos.
FOCAMOS O CLOSE DE MURILO OUVINDO O PAI.
CELESTINO — (off) As cabeças de muitos homossexuais vivem em
conflito, mas tudo bem, isso é o psicológico. Hoje, a coisa
está tão violenta, que nenhum direito homossexual pode ser
tocado. Veja vocês, que aberração. Isso é a pouca vergonha, a
vida pecaminosa e nojenta distante de Deus.
MURILO OLHA PARA TRIPÉ, QUE O ENCARA E PASSA A FICAR
INCOMODADO COM SEUS OLHARES.
CELESTINO — (off) Eu anos atrás me encontrei com um psiquiatra e ele
me disse que de fato a homossexualidade não é uma doença,
mas que isso é um sintoma para uma personalidade de uma
pessoa doente.
MURILO BAIXA OS OLHOS, ENTRISTECIDO.
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 20

CELESTINO — Deus não fez o homem para ser homossexual. Ele criou o
homem e a mulher! Hoje a sociedade aceita porque é
permissiva, longe de Deus e dos valores morais. Não se
espantem se daqui a alguns anos esta mesma sociedade que
condena a pedofilia, aceitá-la um dia.
MURILO DÁ UMA RISADA DE CANTO. CELESTINO PERCEBE O FILHO QUE
OLHA MAIS UMA VEZ PARA TRIPÉ.
CELESTINO — (off) Homem com homem não se multiplica.
TODOS — Aleluia!
MURILO OLHA PARA O PAI. OS DOIS TROCAM OLHARES ACUSADORES. EM
CELESTINO.
CORTA PARA:

CENA 34. CASA DE CLARICE. SALA. INTERIOR. NOITE


LAURO E CLARICE REUNIDOS NO SOFÁ.
LAURO — Isso é sério mesmo, meu amor?
CLARICE — E não é? Eu e a Roberta vimos a Marina lançando a
candidatura à presidência nas próximas eleições.
LAURO — As últimas notícias que tivemos dela foi que estudava na
PUC de Porto Alegre. Mas não tinha a ver com política.
CLARICE — Acho que se ela se eleger, o Brasil vai para frente.
LAURO — Porque você acha isso?
CLARICE — Pelo nosso pacto quando nós éramos crianças.
LAURO — Mesmo com a quebra da amizade de vocês?
CLARICE — Foi ela que terminou a amizade comigo.
LAURO — Depois que nós começamos a namorar e marcamos
noivado. (pausa) Amor, até hoje eu fico pensando se ela não
terminou tudo por minha causa.
CLARICE — Como assim, Lauro?
CLARICE EXIGINDO EXPLICAÇÕES. EM LAURO. CONGELA.
CORTA PARA:

EFEITO FINAL: O ROSTO DE LAURO FICA CINZA, ENQUANTO O PLANO


DE FUNDO É PREENCHIDO COM AS CORES DA BANDEIRA DO BRASIL.
MENINAS DO BRASIL CAPÍTULO 04 PÁG.: 21

FIM DO CAPÍTULO 04

Créditos sobem ao som de: “Heartbreak Warfare – John Mayer”.

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