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MANUAL DE EVACUAÇÃO DE NÃO-COMBATENTES - ANÁLISE

1.1 – GENERALIDADES
A expansão dos interesses brasileiros no exterior tem levado a uma crescente presença de
empresas, representações e toda sorte de organizações em outras nações, aumentando, assim, o
número de nossos nacionais em território estrangeiro. Em alguns países, onde vivem e trabalham
brasileiros, o clima de insegurança ocasionado por instabilidades políticas ou sociais poderá vir a
degradar-se ao ponto de constituir ameaça aos nossos nacionais.
A situação no país estrangeiro poderá agravar-se de modo tal que o risco à integridade física
aos nossos compatriotas se torne inaceitável, configurando-se a necessidade da retirada dos mesmos
do país em questão. Este tipo de ação, normalmente, será desenvolvido em decorrência da
avaliação e por recomendação do chefe da missão diplomática no país considerado, podendo ser
realizada, parcial ou totalmente, por meios usuais de transporte.
Entretanto, poderão ocorrer situações onde as atividades normais da sociedade local estejam
de tal modo comprometidas que inviabilizem a saída dos cidadãos brasileiros por meios normais de
transporte. Nestes casos, poderá ser necessário o emprego de força militar para garantir a segurança
necessária à saída de nossos compatriotas residentes, bem como de outras pessoas cuja retirada seja
de interesse do governo brasileiro.
Vale ressaltar que a salvaguarda das pessoas, dos bens e dos recursos brasileiros ou sob
jurisdição brasileira é matéria constitucional e é um objetivo explicitamente estabelecido na
Política de Defesa Nacional.
Assim sendo, poderá a Marinha do Brasil (MB) ser chamada a realizar operações militares
para prover a necessária segurança à evacuação de nossos nacionais, bem como os de outras
nacionalidades que sejam de interesse do governo brasileiro. Ainda que qualquer uma de nossas
Forças Singulares seja capaz de executar este tipo de operação, a MB possui uma especial aptidão
para esta tarefa, particularmente quando realizada em outro continente, em função das
características intrínsecas ao Poder Naval.
Tais características permitem que uma Força Naval, que conte com um Grupamento
Operativo de Fuzileiros Navais (GptOpFuzNav) embarcado, possa deslocar-se para uma área
marítima em águas internacionais, ficando em condições de contribuir para a evacuação do
pessoal em risco, em coordenação com o Ministério das Relações Exteriores (MRE).
Na MB, este tipo de operação recebe a denominação de Evacuação de Não-Combatentes
(ENC), definido no CGCFN-0-1, artigo 10.4 como uma operação conduzida com o propósito de
evacuar não-combatentes de países onde exista uma ameaça à sua segurança ou onde exista uma
situação de calamidade. Já a expressão não-combatentes engloba tanto o pessoal civil de
nacionalidade brasileira, como os militares brasileiros impossibilitados de prover adequadamente
sua autodefesa. Como exemplo de não-combatentes, citamos os integrantes das nossas
representações diplomáticas, os participantes de operações de paz, ou os cidadãos de nacionalidade
comprovadamente brasileira que, momentaneamente, encontram-se no país em questão. Pessoas
de outras nacionalidades também deverão, desde que seja do interesse do governo brasileiro, ser
consideradas.
Por ser uma ação realizada em solo estrangeiro, será necessária estreita coordenação entre
a MB (por intermédio do Ministério da Defesa) e o MRE, de modo a acordar todos os assuntos
relacionados com a operação a ser realizada.
Esta operação exigirá um planejamento minucioso de todas as ações a serem
desenvolvidas, para que as repercussões delas advindas sejam favoráveis aos interesses nacionais na
região.
Em território estrangeiro, o chefe de nossa representação diplomática no respectivo país,
por ser o representante direto do Governo Brasileiro, será a autoridade com poder decisório.
Em face da dificuldade do efetivo controle dos nossos nacionais nos países estrangeiros,
pela representação diplomática no país em crise, provavelmente não haverá um plano de evacuação
estabelecido. Além disso, durante o planejamento da ENC, deverá ser considerada a possibilidade
da distância entre a sede da missão diplomática e os locais de reunião dos não-combatentes
dificultar a coordenação da operação. A possível degradação dos meios e vias de comunicação,
também, terá grande influência no planejamento e condução da operação.
A ENC é uma operação militar realizada em um cenário fortemente influenciado por
aspectos políticos, econômicos e sociais, relacionados aos interesses brasileiros na região, o que
impõe ao comando do GptOpFuzNav particular atenção no levantamento e análise dos citados
aspectos, de modo a evitar que os resultados possam comprometer tais interesses.
No que se refere ao emprego dos GptOpFuzNav quanto aos níveis de condução dos
conflitos (político, estratégico-militar, operacional e tático), a ENC difere das atuações clássicas de
um GptOpFuzNav que, normalmente, atua no nível tático. A ENC, por não possuir,
obrigatoriamente, uma estrutura militar específica ativada, permite que o Comando do
GptOpFuzNav, que dela toma parte, atue nos níveis operacional e tático.

1.2 - ENQUADRAMENTO E ESPECIFICIDADES DAS OPERAÇÕES DE EVACUAÇÃO DE


NÃO-COMBATENTES
As ENC executadas por GptOpFuzNav, assumem características similares às das
Operações Anfíbias (OpAnf) clássicas, ainda que, por outra parte, suas especificidades não
permitam o seu pleno enquadramento como tal.
Não obstante, uma Força-Tarefa designada para realizar uma ENC estará, em última
análise, projetando poder sobre terra, poder esse materializado pelos meios de fuzileiros navais
desembarcados em um país estrangeiro.
Há que se considerar ainda, a hostilidade real ou potencial em relação a esta Força, mesmo
se houver a anuência para a realização da ENC por parte do governo legalmente estabelecido, uma
vez que uma operação desta natureza somente ocorrerá se houver, necessariamente, uma clara
ameaça aos nossos compatriotas e, por conseguinte, à Força desdobrada em prol da sua
salvaguarda.
Deste modo, as peculiaridades das ENC não invalidam a utilização de conceitos
perfeitamente consolidados na MB e em particular no Corpo de Fuzileiros Navais (CFN), com as
devidas adaptações, quando necessárias. Definições tais como Força-Tarefa Anfíbia
(ForTarAnf), Força de Desembarque (ForDbq), Área do Objetivo Anfíbio (AOA) e outras
relativas ao Planejamento, Embarque, Travessia e Assalto, especificamente quanto ao Movimento-
Navio-para-Terra (MNT), são válidas também para a ENC. Igualmente aplicáveis são as relações
de comando entre os Comandantes da ForTarAnf e da ForDbq.
Em princípio, um GptOpFuzNav, ao realizar uma ENC, valer-se-á dos meios navais,
aeronavais e de fuzileiros navais de que dispõe a MB. Não obstante, é plenamente admissível a
utilização de aeronaves da Força Aérea Brasileira e de navios ou aeronaves de Forças Armadas de
países amigos, bem como meios civis de transporte, conforme a situação assim o recomendar ou
impuser.

1.3 - DIFERENÇAS ENTRE ENC E INCURSÃO ANFÍBIA


A ENC é uma operação militar conduzida em tempo de paz. As ameaças aos cidadãos
nacionais são, normalmente, de âmbito interno do país hospedeiro. Assim sendo, essas operações
adquirem características distintas das observadas na Incursão Anfíbia (IncAnf), que é uma
operação de guerra naval cuja execução pressupõe, normalmente, um ato de força entre as nações
envolvidas.
As ENC revestem-se de forte caráter político decorrente das suscetibilidades das relações
internacionais, sendo, portanto, conduzidas, em todos os níveis, pelo MRE em estreita
coordenação com o MD. Este tipo de operação difere de outras operações militares na medida em
que o chefe de nossa representação diplomática acreditada no país, por ser o representante direto
do Governo Brasileiro, será a autoridade com poder decisório, caso ele esteja presente durante
a evacuação.
As IncAnf, por sua vez, são conduzidas por meio da Estrutura Militar de Guerra.
Quando envolver a evacuação de não-combatentes residentes em outro país, essas operações não
devem prescindir do apoio prestado pelo MRE, nos assuntos afetos a esses nacionais.
As técnicas de processamento de evacuados, descritas nessa publicação, apesar de
objetivarem a execução das ENC, poderão ser adaptadas para o emprego em IncAnf.

1.4 - TIPOS DE AMBIENTE OPERACIONAL


Os dois tipos de ambiente operacional nos quais os GptOpFuzNav podem ter que atuar ao
executar uma ENC são o permissivo e o hostil.
Esses tipos de ambiente são conseqüência da situação política vigente, dos conflitos
internos ou externos, ou de desastres naturais que venham a ocorrer no país hospedeiro. Assim
sendo, o Comandante do GptOpFuzNav (CmtGptOpFuzNav) deve manter, tanto durante o
planejamento, quanto durante a execução, um acompanhamento permanente da evolução da
situação política e do ambiente operacional, que pode rapidamente evoluir de permissivo para
hostil.

1.4.1 – PERMISSIVO
Neste ambiente, a princípio, não se observa nenhum tipo de resistência, ações hostis ou
ameaças físicas à Força que executa a ENC. O Governo local não deverá se opor à partida dos
não-combatentes de seu território, podendo inclusive, prestar algum tipo de apoio à evacuação.
Nesses casos, portanto, o GptOpFuzNav deverá possuir um efetivo reduzido de forças de
segurança, enquanto deverá estar reforçado de tropas e meios logísticos, uma vez que haverá
preponderância das atividades de Apoio de Serviços ao Combate (ApSvCmb), tais como
transporte, apoio de saúde e medidas administrativas, além de intensa participação dos canais
diplomáticos.
Apesar da situação favorável, o CmtGptOpFuzNav deve considerar a possibilidade de
manter uma pequena força de reação capaz de prover segurança à Força como um todo e aos
evacuados, no caso de ocorrências inopinadas que possam representar algum tipo de ameaça.

1.4.2 – HOSTIL
Neste ambiente, o governo do país hospedeiro perdeu o controle da situação e a evacuação
se dará sob condições que poderão abranger distúrbios populacionais, atos terroristas, combates
entre forças organizadas ou oposição de qualquer natureza à ENC. Neste caso, o GptOpFuzNav
deve ser reforçado de tropas de combate e serão enfatizadas as tarefas de caráter tático, tais
como: estabelecimento de perímetro defensivo, escolta de comboios, busca de evacuados e
resgate de pessoal militar envolvido com a operação.