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Inovagdo e sustentabilidade na produso de energia: o caso do sistema ‘Thiago Cavaleante Nascimento setorial de energla edlca no Brasil ‘Andréa Torres Barros Batinga de Mendonca Sieginde Kindl da Cunha A importincia da dindmica que envolve a inovagio na sociedade contempordnea esté ganhando uma nova dimensdo ao se relacionar com uma temética que ganha cada vez mais espago nas diferentes esferas da sociedade ~ a sustentabilidade. Segundo Elkington (2012) a “onda” da sustentabilidade leva as empresas a pensar no desenvolvimento de uma vantagem competitiva, uma vantagem sustentavel, em que poderdo obter melhores posigies e fatias de mercado decorrentes da possibilidade de atuago em mercados mais abertos, tanto em nivel nacional como internacional A relagdo entre as duas teméticas pode ser verificada de forma direta e indireta em uma série de trabalhos, como os de Barbieri (2007), Andersen (2008), Delgado et al, (2008), Carrillo-Hermosilla, Gonzalez. € Konnola (2009), Foxon e Andersen (2009) e Maganeiro e Cunha (2010), e a segdo a seguir explora, de forma sucinta, a relagdo entre os temas, Sustentabilidade e inovagao ‘A maior parte dos estudos envolvendo essas temsticas se apoia em uma perspectiva de desenvolvimento sustentvel. Isso fica claro no trabalho de Carrillo-Hermosilla, Gonzalez ¢ Konnola (2009), a0 argumentar que o incremento do interesse em buscar inovagdes que possibilitem um desenvolvimento sustentavel tem permeado diversas esferas que passaram a acteditar na possibilidade de se aleangar desenvolvimento econdmico em uma perspectiva de conhecimento € respeito 4 dependéncia em relagdo ao meio ambiente Para os autores, a relagdo entre inovagdo ¢ sustentabilidade poderia contribuir para o desenvolvimento de ‘maneiras limpas de consumo e produgo, em busca de otimizagao dos recursos ambientais A relagdo entre os temas ocorre em um momento de crescente discussio nos ambientes académicos ¢ profissionais sobre sustentabilidade, em busca de uma concepedo para o tema mais humana, ética e fransparente, na forma de condugdo dos negécios e atividades que influenciam a vida dos seres humanos (VAN MARREWLIK, 2003), © histérico da temdtica tem grande influéncia em tomo de agdes desenvolvidas pela Conferéncia para 0 Desenvolvimento Humano, das Nagdes Unidas, em Estolcomo, em 1972, e uma série de outros eventos, que giram em tomo de desastres ambientais, como o derramamento de éleo no Alasca ¢ o acidente nuclear em Chemobyl, questies sociais como a segregagio racial do regime do Apartheid, na Africa do Sul, perspectivas econémicas decorrentes das crises do petréleo nas décadas de 1970 ¢ 1980 (SAMPAIO, 2004; VAN BELLEN, 2004; BLACKBURN, 2007; CARRILO-IIERMSILLA, GONZALEZ ¢ KONNOLA, 2009), Essas questdes foram amplamente discutidas pela Comissio de Brundtland, em 1987, resultando na publicagéo de um relatério que define 0 termo desenvolvimento sustentdvel como uma forma de desenvolvimento que busca satisfazer as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das geragGes futuras em suprit suas préprias necessidades (FUSSLER ¢ JAMES, 1996; BARBIERI, 2007; BLACKBURN, 2007). Outros eventos também se destacaram nesse contexto, como a Conferéncia das Nagdes Unidas para o meio ambiente ¢ desenvolvimento no Rio de Janeiro, em 1992, também conhecida como Cipula da Tetra ou Rio 92, que resultou na criagdo da Carta da Terra com 27 principios que deveriam subsidiar as agdes dos paises signatarios, a formulacdo ¢ assinatura do Protocolo de Kyoto em 1997 ¢ a conferéncia Rio +10 em 2002 (VILLA, 2009). Em junho de 2012 no Rio de Janeiro, governantes e chefes de Estados, o sistema ONU ¢ a sociedade civil, participaram da Rio +20 que abordou dois temas principais “a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentivel ¢ da etradicago da pobreza” e “a estrutura institucional pata o desenvolvimento sustentivel” ¢ culminou na publicagdo do relatério oficial “The future we want” reafirmando 0 compromisso dos paises com o desenvolvimento sustentavel (BRASIL, 2012), Cad, EBAPE.BR, v.10, r#3, artigo 3, io de Janet, Set, 2012 6346s Inovaglo e sustentabilidade na produso de energia: o caso do sistema ‘Thiago Cavaleante Nascimento setorial de energla edlca no Brasil ‘Andréa Torres Barros Batinga de Mendonca Sieginde Kindl da Cunha Alguns autores destacam a definigdo do conceito Triple Bottom Line (TBL) pot Elkington em 1987 e publicado oficialmente em 2000 ¢ 2002, relacionando trés pilares para analisar o fendmeno sustentabilidade: perspectiva econémica, social e ambiental (VAN MARREWUK, 2003; BLACKBURN, 2007; BARBIERI et al,, 2010; ELKINGTON, 2012) Savitz e Weber (2006) acrescentam que a formaco de um friple bottom line pode ser refletida em termos de aumento no valor da empresa, que pode ser obtido por meio de ganhos em torno de seu capital social, humano ¢ ambiental, que podem ser mensurados através de diversos elementos, como pode ser verificado na simplificago desenvolvida pelos autores, exposta no Quadro I. Quadro 1 Aspectos possiveis de mensurar no triple bottom line Pilar econémico Pilar ambiental Pilar social Venda, eceas, retornes , nds eceas etonos | Guatdade doar | _prdteas de emprege Impostos pagos Qualidade da dgua Impactos na comunidade Fos wonetric Vso deena Dietos humans criaréo deemoregos | Produriodetixo | Responsable n Fonte: Savitz e Weber (2006, p. xii). ‘Nesse contexto, a inovagdo ¢ a sustentabilidade se relacionam em uma perspectiva de desenvolvimento de produtos ¢ servigos que agreguem valor aos consumidores enquanto diminuem os impactos ambientais das atividades econdmicas, tendo em vista maiores niveis de eficiéncia ambiental, produgdo mais limpa ¢ a incorporago de mecanismos de padronizagao ¢ controle como as certificagdes ISO (FUSSLER ¢ JAM 1996; KEMP e FOXON, 2007; OCDE, 2009) Em 2004, 0 Environmmental Technology Action Plan (VAP) intensificou a discussio acerca do relacionamento entre 2 questio ambiental ¢ imperativo da inovacio, definindo eco-inovaga0 como uma forma de atuagio organizacional que busca produzir, assimilar ou explorar “novos produtos, processos ptodutivos, servigos ou métodos de gestdo ¢ negécios, cujo objetivo, por todo ciclo de vida, & prevenir ou reduzir substancialmente riscos ambientais, poluigdo ¢ outros impactos negativos no uso de recursos” (OCDE, 2009, p. 38). Kemp e Foxon (2007), a0 fazer uma revisdo de definigdes, propdem que 0 conceito de eco-inovagao nao esteja relacionado apenas as inovagdes que se relacionam a reducdo de impactos ambientais, mas que também se direcione a produgao, aplicagdo ou exploragdo de um bem, servigo, processo produtivo, estrutura organizacional e modelo de gestéo que seja novo para a empresa ou para o usuério ¢, que resulte ao longo do seu ciclo de vida, na redugdo de riscos ambientais, polui (incluindo energia) comparado com alternativas relevantes. jo © impactos negativos do uso de recursos Barbieri et al. (2010, p. 151) ampliam essa visdo afitmando que uma inovagdo sustentével “tra beneficio econdmicos, sociais ¢ ambientais, comparados com alternativas pertinentes”, sendo io de eco- inovagdo que estruturou 0 desenvolvimento do estudo, visto que traz a discussio para uma perspectiva mais ampla, que nao se restringe a questées de ordem ambiental. sa a concep, Cad, EBAPE.BR, v.10, r#3, artigo 3, io de Janet, Set, 2012 p.635.651 Inovaglo e sustentabilidade na produso de energia: o caso do sistema ‘Thiago Cavaleante Nascimento setorial de energla edlca no Brasil ‘Andréa Torres Barros Batinga de Mendonca Sieginde Kindl da Cunha A relagdo entre a sustentabilidade ambiental, 0 desempenho econémico © a competitividade tem sido fortemente debatida por muitos anos, mas permanece incerta, sem um consenso entre os estudiosos, sendo possivel identificar na literatura, duas formas de ver essa relagdo (CARRILLO-HERMOSILLA, GONZALEZ e KONNOLA, 2009). A primeira consiste em uma perspectiva tradicionalista, ou neoclissica, que vé essa relago como um trade- off entre 0 desempenho ambiental e a competitividade. Dessa forma, a regulagdo ambiental teria como propésito maximizar o bem-estar social, fazendo com que empresas poluidoras se responsabilizassem pelos custos de externalidades negativas que venham a produzir, e sendo assim, como consequéncia, essas politicas ambientais teriam um impacto inverso na competitividade, impondo mais custos s empresas (CARRILLO- HERMOSILLA, GONZALEZ ¢ KONNOLA, 2009) A segunda perspectiva é a revisionista, na qual essa relago é vista de forma mais dindmica, dando énfase a0 papel central da tecnologia e da inovagio na competitividade organizacional e em seu desempenho econdmico © ambiental. Dessa forma, melhor desempenho ambiental pode ocorrer por meio de menores custos de produgdo, aumentando a competitividade através da eficiéncia, produtividade e novas oportunidades de mercado (CARRILLO-HERMOSILLA, GONZALEZ ¢ KONNOLA, 2009) A relasdo entre as duas teméticas pode ser verificada de forma direta e indireta em uma série de trabalhos, como os de Barbieri (2007), Kemp ¢ Foxon (2007), Andersen (2008), Carrillo-Hermosilla, Gonzalez € Konnola (2009), Foxon e Andersen (2009) ¢ Maganeiro ¢ Cunha (2010) que desenvolvem suas argumentag’ com base em uma perspectiva evoluciondria de inovacdo ¢ desenvolvimento sustentavel. Levando em considerago os diferentes impactos que uma eco-inovagdo pode causar, Barbieri et al. (2010) afirmam que os resultados econdmicos sdo mais féceis de visualizar e prever, visto que existem diversos instrumentos desenvolvidos para esse fim € que so utilizados por empresas inovadoras, enquanto os resultados de Ambito social e ambiental so mais dificeis de ser observados e avaliados de forma prévia, uma ver. que envolvem uma maior quantidade de variaveis, interagdes e aspectos de incerteza A relagdo da discussio da sustentabilidade, assim como coloca Elkington (2012), a respeito dos trés pilares, segue uma linha em que ndo se deve vé-la como definida para uma organizacdo isolada, mas, sim, para um sistema econémico-social-ecolégico completo e, dessa forma, faz sentido a relagdo com os sistemas de inovacao e o relacionamento que ele pressupde em termos de instituigdes, corporagdes, conhecimentos € agentes diversos. De acordo com Elkington (2012, p. 275), “para atingir um desempenho excepcional da linha dos trés pilares, sio necessérios novos tipos de parcerias econdmicas, sociais ¢ ambientais”, desenvolvidas a longo prazo e decisivas na transi¢o para a sustentabilidade. Inserida nessa dindmica de inovagdes, sustentabilidade e desenvolvimento econémico, a energia eélica se destaca como uma das mais competitivas ¢ promissoras fontes de energia renovivel, mas também produz efeitos ambientais como barulho, invasdo visual, acidentes com pissaros ¢ radiagdo eletromagnética, que sio evitaveis e significativamente inferiores aos efeitos ambientais proporcionados por outras fontes de energia, principalmente em decorréncia dos avangos tecnoligicos proporcionados por uma dinémica de inovagdo que busca, cada vez mais, reduzir esses impactos (JUNFENG, PENGFEI ¢ HU, 2010). Conforme destacam Maxwell (2009) e Pérez (2004; 2010), as questdes energéticas podem vir a se tomar a préxima onda de inovagdo, ou seja, o desenvolvimento de novos paradigmas e trajetdrias tecnolégicas que, na visio de autores evolucionarios, pode contribuir para a formulago de politicas de catching up. A Figura 1 apresenta, graficamente, a evolugdo dessas ondas na visio de um dos autores. Cad, EBAPE.BR, v.10, r#3, artigo 3, io de Janet, Set, 2012 636-651 Inovacio e sustentabilidade na producto de energia: 0 caso do sistema ‘Thiago Cavaleante Nascimento setorial de energla edlca no Brasil ‘Andréa Torres Barros Batinga de Mendonca Sieginde Kindl da Cunha Figura 1 ‘As ondas da inovagdo Redes digits Software Noves ii Eliade Protos Quimion. ord combustio Eletronicn a aniOvRaS 1785 60 Anas SSAnos S0An0s 40An05 30Anos — 20Anos Fonte: Maxwell (2008), Com 0 status de fonte de energia renovavel de maior potencial econémico, as usinas de energia eélica desempenham um papel importante que néo se relaciona apenas a seguranga energética das nagdes, reduzindo sua dependéncia de combustiveis fésseis, mas também implica desenvolvimento econémico, redugdo da pobreza, controle da poluigdo atmosférica ¢ redugo de emissio de gases, contribuindo diretamente, para um desenvolvimento mais sustentavel, visto que pode reduzir as emissdes de didxido de carbono com finalidades energéticas em uma relagdo de 600 toneladas para cada GWh de energia gerada GUNFENG, PENGFEL e HU, 2010). Evolugao da industria de energia edlica A producdo de energia eélica tem despontado ao longo dos iiltimos anos como uma das principais alternativas renovaveis de energia, no entanto, a tecnologia que dé inicio A evolugdo dessa indiistria ndo & algo recente. De acordo com Martins, Guarnieri e Pereira (2008), a transformacdo de energia cinética em energia mecanica (base de funcionamento do sistema eélico) jé vem sendo utilizado pela humanidade ha mais de 3.000 anos, através de moinhos de vento utilizados para a moagem de gros e bombeamento de égua para atividades agricolas. © posicionamento histérico indicado pelos autores ainda € controverso em relagdo a outros trabalhos que ‘buscam precisar a origem dessa tecnologia. Amarante et al. (2001), por exemplo, adotam uma postura de maior imparcialidade, afirmando que os primeiros aproveitamentos da forga do vento pelo homem é de data imprecisa, podendo remontar a milhares de anos na regido do Oriente Apesar do Ionginquo inicio da atividade eélica, ¢ no periodo da Idade Média que a humanidade passa a utilizar as forgas do vento de forma mais acentuada, contribuindo com o desenvolvimento da navegacao ¢, com os interesses das Cruzadas financiadas pelos senhores feudais ¢ a Igreja Catdlica (AMARANTE et al., 2001). Registros mais precisos sobre a utilizagdo © desenvolvimento dessa tecnologia datam do século XIV © indicam que a Holanda jé havia realizado uma significativa evolugdo técnica e de capacidade de produgdo de (Cad, EBAPE.BR, v.10, 3, artigo 8, ode Janeiro, St, 2012 637-651