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FEMINISMO E RECORTES DO TEMPO PRESENTE: MULHERES EM ...

FEMINISMO E RECORTES DO
TEMPO PRESENTE
mulheres em revistas “femininas”

TANIA NAVARRO SWAIN


Professora do Departamento de História da Universidade de Brasília

Resumo: Ouve-se dizer que o feminismo acabou. Que tudo já foi conseguido pelas mulheres, conquistas em
todos os campos sociais. Apesar de evidentes modificações nas relações de gênero em alguns países do Oci-
dente, o que aqui se pretende analisar é a dimensão das representações sociais do feminino, constitutivas das
configurações identitárias e corpóreas, já que presentes na apreensão do real. A mídia e as revistas femininas
compõem um locus especial de análise da ação do discurso e das imagens modelando corpos e assujeitando-os
a uma certa representação do feminino.
Palavras-chave: feminismo; revistas femininas; representações sociais; corpo e identidade sexual.

sões físicas, humilhações, palavras, gestos, é apenas um

Q
ue rumor é este, “trocas verbais no interior de
uma sociedade”, 1 que se ouve nas esquinas, nos marco de imagens e representações que instauram um
bares, nas salas de jantar e nas de aula, nos ôni- corpo genitalmente definido e reduzido a um sexo bioló-
bus superlotados e nos carros de luxo? O femi- gico.
nismo acabou? O infinito e insidioso ruído do discurso A noção de “gênero” criada pelos estudos feministas
social sussurrado, explicitado, demonstrado, sugere a des- desmascara a ação do social contida nos discursos sobre
necessária continuidade de um movimento tornado obso- a “natureza” humana e seu valor heurístico é incontornável;
leto diante das “evidentes” conquistas das mulheres: no entretanto, a força compreendida nas análises da gene-
plano político, já podem votar e ser votadas, qual a quei- rização humana tende a se diluir nos aspectos demonstra-
xa? São minoria nos altos postos legislativos e judiciá- tivo e relacional como se o diagnóstico pudesse por si só
rios? Questão de tempo. No campo profissional as portas curar o mal.
se abrem, para algumas eleitas. Questão de competência. As composições de gênero determinam os valores e
Salários desiguais para tarefas idênticas? Os ajustes se modelos desse corpo sexuado, suas aptidões e possibili-
fazem aos poucos… dades, e criam paradigmas físicos, morais, mentais, cujas
Decreta-se assim no senso comum e na análise teórica associações tendem a homogeneizar o “ser mulher”, de-
o fim do feminismo: afinal, os gêneros não são igualmen- senhando em múltiplos registros o perfil da “verdadeira
te construídos socialmente? Entretanto, colocando-se no mulher”. Se o masculino também é submetido a modelos
mesmo assujeitamento ao social a constituição do femini- de performance e comportamento, a hierarquia que funda
no e do masculino, esquece-se facilmente o caráter hie- sua instituição no social desnuda o solo sobre o qual se
rárquico da generização do humano. apóia a construção dos estereótipos: o exercício de um
De fato, o ufanismo discursivo da igualdade de opor- poder que se exprime em todos os níveis sociais.
tunidades não consegue encobrir a profunda polarização A análise dos mecanismos de condensação discursiva
da sociedade ocidental em imagens esculpidas em forma- e representacional da carne em corpos sexuados permite
tos binários – mulher e homem –, cujos contornos detectar agentes estratégicos na reprodução, reatualização,
assimétricos delimitam, autorizam, definem os papéis, a ressemantização de formas, valores e normas definidoras
ação, o ser no mundo. Na prática social, a violência direta de um certo feminino naturalizado, travestido em slogans
e indireta que povoa o cotidiano das mulheres com agres- modernos, em imagens de “liberação”, cujos sentidos,

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constituídos em redes significativas, são expressão de um mosaico que integra a maneira de se perceber o mundo e
assujeitamento à norma instituída. o desenho de sua positividade.
Algumas transformações formais, de fato, realizaram- Dessa forma, se o discurso da mídia em seu dialogismo
se em alguns países ocidentais em níveis legais e/ou jurí- com o rumor social decreta o fim do feminismo, o campo
dicos, graças justamente aos movimentos feministas, ca- conotativo do que é dito e do dizível indica a recuperação
racterizados pela sua multiplicidade, táticas e estratégias e/ou atualização de representações binárias, excludentes
diversificadas diante de realidades. Mas o dinamismo e o e hierarquizadas sob novas roupagens. Mulheres e homens
alcance das mudanças – maiores ou menores de acordo continuam a ocupar lugares tradicionalmente traçados
com o país – têm-se reduzido ou mesmo regredido (Faludi, segundo sua “natureza” feminina ou masculina, esta mes-
1991), na medida em que as transformações não atingem ma “natureza” desconstruída pelo feminismo contempo-
as representações de gênero que constituem os corpos râneo. Longo é o caminho trilhado pelos feminismos plu-
humanos em modelos de ser. rais em suas estratégias e argumentações desde Simone
O que aqui se pretende argumentar é que, além do pa- de Beauvoir, quando a pretensa essência da mulher é
pel social definido em feminino e masculino, as represen- desconstruída em uma simples frase que vincula o “ser
tações e imagens de gênero constroem e esculpem os cor- mulher” ao “ser” social.2
pos biológicos, não só como sexo genital mas igualmente Se a história das mulheres restitui de alguma forma a
moldando-os e assujeitando-os às práticas normativas que presença, a ação e a resistência das mulheres ao imaginá-
hoje se encontram disseminadas no Ocidente. rio ocidental em narrações pontuais, o feminismo argu-
Nessa perspectiva, as representações sociais são con- menta e analisa a construção, os mecanismos que produ-
sideradas uma forma de construção social da realidade cuja zem poder e reproduzem as desigualdades de gênero.
mediação atravessa e constitui as práticas pelas quais se Entretanto, se as teorias feministas não cessam de ex-
expressam. Para Denise Jodelet (1994:46), um pressuposto pandir seu acervo de categorias e seu horizonte de análi-
fundamental do estudo das representações sociais é o da se, os movimentos feministas em sua prática social se vêem
“(…) inter-relação de uma correspondência entre as for- desautorizados e desmotivados diante da afirmação gene-
mas de organização e de comunicação sociais e as moda- ralizada de que “o feminismo acabou” e que, sobretudo, o
lidades de pensamento social, vistas sob o ângulo de suas feminismo é uma prática anacrônica uma vez que, final-
categorias, de suas operações e de sua lógica”. mente, “a igualdade já não foi alcançada?”
Assim, seja no rumor das conversas que fundamentam Jane Flax (1991) observa que a análise das relações de
o senso comum, na literatura, no discurso científico, ou gênero, como são constituídas, pensadas e experimenta-
em tudo que é impresso ou falado, podemos encontrar das, é uma meta básica do feminismo; sublinha, entretan-
representações sociais que instituem o mundo em suas to, a necessidade de apontarmos o domínio do pensável,
clivagens valorativas, nos recortes significativos que de- ou seja: como reproduzimos estas relações em torno de
finem as categorias de percepção, análise e definição do valores e significados cuja aparência anódina não permi-
social. te uma imediata apreensão das hierarquias implícitas?
A comunicação expõe assim sua própria constituição Como são representadas, em que constelações de sentido
de categoria ao se expressar e as matrizes de inteligibi- se inserem as imagens de gênero que são veiculadas no
lidade do discurso social podem ser apreendidas em sua espaço midiático, locus privilegiado de um imaginário
análise; o discurso social é aqui entendido como “(…) tudo instituinte de relações sociais?
o que é dito e escrito em uma determinada sociedade; tudo Nunca é demais destacar a démarche proposta por
que se imprime, tudo que se diz publicamente ou se re- Foucault (1991) de inversão das evidências na análise do
presenta hoje na mídia eletrônica. Tudo que se narra ou discurso social: buscar a vontade de verdade e os recortes
argumenta, se consideramos que narrar e argumentar são discursivos que, no caso, constroem a naturalização de
as duas maneiras principais de elaboração discursiva.” papéis. O discurso de verdade apóia-se na tradição, na ciên-
(Angenot, 1989:13). Assim, a televisão, as novelas, os cia, na religião para definir a essência dos seres: uma iden-
romances, as revistas em quadrinhos, as revistas em ge- tidade baseada em critérios arbitrários que se apresenta
ral, os jornais, a internet, etc., em seu espaço de recepção com um caráter atemporal, negação de toda historicidade,
e interação, veiculam representações sobre as mulheres, em asserções do tipo “eterno feminino”, “prostituição, a
os homens, a sociedade. Imagens e textos compõem um mais antiga profissão do mundo”. Para Foucault (1991:22),

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esta “(…) vontade de verdade que se impôs a nós há tanto criança grande, uma espécie de intermediária entre a crian-
tempo é tal que a verdade assim proposta não pode senão ça e o homem, este o verdadeiro ser humano”.
escondê-la”, pois a evidência esconde em suas dobras a Proudhon (apud Groult, 1993:96-97), o “pai do anar-
vontade de poder que a anima. quismo moderno” explicita seis casos em que o marido
De fato, as representações sociais, estudadas em um pode matar sua mulher, entre eles “a insubmissão obsti-
tempo e local determinados sobre um corpus específico, nada, o impudor e o adultério”, e acrescenta: “Uma mu-
são também reatualizações de imagens que permanecem lher que usa sua inteligência torna-se feia, louca, (…) a
alojadas nos nichos do interdiscurso, “(…) processo de mulher que se afasta de seu sexo, não somente perde as
reconfiguração incessante no qual uma formação discursiva graças que a natureza lhe deu (…) mas recai no estado de
é levada (…) a incorporar elementos pré-construídos, pro- fêmea, faladeira, sem pudor, preguiçosa, suja, pérfida,
duzidos fora dela, com eles provocando sua redefinição e agente de devassidão, envenenadora pública, uma peste
redirecionamento (…)” (Maingueneau, 1989:113). para sua família e para a sociedade”. Nietzsche (apud
Assim, no Ocidente, as representações das mulheres Groult, 1993:102): “O homem inteligente deve conside-
vêm sendo diabolizadas ou santificadas, e essas expres- rar a mulher como uma propriedade, um bem conservado
sões compõem a noção de uma natureza sexuada selva- sob chave, um ser feito para a domesticidade e que só chega
gem, rebelde, má, cuja domesticação resultaria na ima- à sua perfeição em situação subalterna”.
gem da “boa”, da “verdadeira” mulher. Os discursos E isso sem citar a autoridade dos Rousseau, Freud,
fundadores dessas “certezas” em torno do feminino vão Hegel, Comte, Lutero, Lombroso, dos tratados médicos e
de Aristóteles a Paulo de Tarso, passando por inumerá- dos manuais de confissão, da literatura e do teatro, da
veis caminhos discursivos e temporalidades diversas, en- poesia, veiculando essas imagens que desqualificam e atre-
tre o medievo e a modernidade. (Swain, s.d.) lam a mulher a um destino biológico e criam “(…) um
No saber instituído pela filosofia e pela história, a pa- campo de elementos antecedentes em relação aos quais
lavra dos “grandes homens” esclarece sobre a “verdadei- se situa, mas que tem o poder de reorganizar e de
ra” natureza da mulher, repondo sem cessar, nos espaços redistribuir segundo relações novas” (Foucault, 1987:143).
interdiscursivos, representações pejorativas sobre o femi- Assim a sedução perversa, a inferioridade física e social,
nino que delimitam seu lugar no mundo, suas possibilida- a incapacidade intelectual, a dependência de seu corpo e
des e as práticas às quais ela deve se restringir.3 de seu sexo, a passividade, vêm sendo reafirmadas em
Alguns exemplos: Jean de Marconville, em 1564, in- imagens e palavras que povoam o imaginário ocidental.
voca os gregos, os romanos, os textos bíblicos, os padres Essas imagens do feminino ancoradas na memória
da Igreja para demonstrar a maldade das mulheres. Se- discursiva 4 se incorporam às representações de mulheres
gundo ele, Adão, “(…) o mais dotado de todas as perfei- atuais, transformadas, mas guardando as nuanças que fa-
ções que todos os outros homens, foi entretanto vencido zem das práticas sociais um espaço binário assimétrico,
no primeiro assalto que lhe fez sua mulher”. Ainda asse- cujas polarizações reforçam e justificam a divisão
gura que as mulheres não têm aptidões “(…) para mane- generizada do mundo. Ao feminino, o mundo do senti-
jar e conduzir coisas grandes e difíceis como costumes, mento, da intuição, da domesticidade, da inaptidão, do
religião, república e família, pois parecem ter sido feitas particular; ao masculino, a racionalidade, a praticidade, a
mais para a volúpia e o ócio que para tratar negócios de gerência do universo e do universal.
importância.” (Marconville, 1991:97 e 101). Apenas os discursos religiosos integristas ou de extre-
Montaigne (apud Groult, 1993:83): “A mais útil e hon- ma direita se permitem na atualidade declarações de um
rada ciência e ocupação para uma mulher é a ciência da tal teor pejorativo sobre as mulheres; entretanto, os ditos
limpeza”; Diderot (apud Groult, 1993:89): “A mulher tem populares, as piadas, as letras de música e as representa-
em seu interior um órgão sucetível de espasmos terríveis ções sociais que encontramos em imagens e textos
que dela dispõem e suscitam em sua imaginação fantasmas midiáticos reformulam o atrelamento da mulher a seu corpo
de toda espécie” Schopenhauer (apud Groult, 1993:93): e à natureza “feminina”.
“Não deveriam existir no mundo senão mulheres de inte- Os produtos culturais destinados ao público feminino
rior, dedicadas à casa, e jovens aspirando a isto e que for- desenham, em sua construção, o perfil de suas receptoras
maríamos não à arrogância, mas ao trabalho e à submis- em torno de assuntos relacionados à sua esfera específi-
são.” E ainda: “A mulher (…) permanece toda sua vida uma ca: sedução e sexo, família, casamento, maternidade e fu-

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tilidades. A ausência, nas revistas femininas, de debate Essa montagem complexa compreende todo um siste-
político, de assuntos econômico-finaceiros, das estratégias ma de representações e auto-representações sociais codi-
e objetivos sociais, das questões jurídicas e opinativas é ficada em normas, regras, paradigmas morais e modelos
extremamente expressiva quanto à participação presumi- corpóreos, que delimita os campos do aceitável, do dizível,
da, à capacidade de discussão e criação, ao próprio nível do compreensível. Teresa de Laurentis (1987:5) chama
intelectual das mulheres que as compram. O feminino essa engrenagem de sex gender system que seria “um
aparece reduzido a sua expressão mais simples e simpló- construto sociocultural e um aparatus semiótico, um sis-
ria: consumidoras, fazendo funcionar poderosos setores tema de representação que confere sentido (identidade,
industriais ligados às suas características “naturais”: valor, prestígio, localização no parentesco, status na hie-
domesticidade (eletrodomésticos, produtos de limpeza, rarquia social, etc.) aos indivíduos na sociedade”.
móveis), sedução (moda, cosméticos, o mercado do sexo, Na perspectiva feminista de detectar os mecanismos de
do romance, do amor) e reprodução (produtos para ma- produção e atualização deste quadro representacional
ternidade/crianças em todos os registros, da vestimenta/ Laurentis (1987:19) aponta para “as tecnologias do gêne-
alimentação aos brinquedos). ro” que de forma discursiva ou imagética “(…) têm o po-
Mulheres e homens, a “evidência” da diferença bioló- der de controlar o campo do sentido social e então produ-
gica seria o argumento último da necessária separação de zir, promover ou implantar as representações de gênero”.
esferas sociais baseada na diferença de sexos. Acompa- Essas tecnologias no mundo contemporâneo possuem
nha-se, entretanto, Judith Butler (1990) e Nicole Claude sua expressão paroxística no discurso mídiático. Como
Mathieu (1991) quando questionam essa nova naturaliza- comenta Foucault (1988:180), “(…) Afinal, somos julga-
ção: a primeira afirma que o gênero só existe quando se dos, condenados, classificados, obrigados a desempenhar
materializa na prática do social, heterogênea em sua tarefas e destinados a um certo modo de viver ou morrer
historicidade: em função dos discursos verdadeiros que trazem consigo
“O gênero pode também ser designado como o verda- efeitos específicos de poder.”
deiro aparato de produção através do qual os sexos são es- Apesar da proliferação dos textos e imagens no mur-
tabelecidos. Assim, o gênero não está para a cultura como múrio contínuo e inesgotável do cotidiano ocidental, a
o sexo para a natureza; o gênero é também o significado apropriação social do discurso se dá em diferentes instân-
discursivo/cultural pelo qual a ‘natureza sexuada’ ou o ‘sexo cias discursivas, lugares de fala, posições de autoridade
natural’ é produzido e estabelecido como uma forma ‘pré- que legitimam ou excluem, delimitam ou expandem as
discursiva’ anterior à cultura, uma superfície politicamen- hierarquias e os valores definidores de sentido e de luga-
te neutra sobre a qual a cultura age” (Butler, 1990:7). res sociais, na Ordem do Discurso, na economia de um
Mathieu (1991:256) acrescenta que é esse gênero insti- imaginário em que se pode detectar a hegemonia das re-
tuído que cria o sexo biológico, pois a heterogeneidade cul- presentações tradicionais e naturalizadas de gênero.
tural de relações sexo/gênero “(…) nos leva a pensar não Regularmente o discurso social retoma a medicalização
mais que a diferença dos sexos é ‘traduzida’ ou ‘expressa’ do homossexualismo, a dependência psíquica incontornável
ou ‘simbolizada’ pelo gênero, mas que o gênero constrói o da mulher em relação a seu corpo sexuado na incapacitação
sexo. Entre sexo e gênero é estabelecida uma correspondên- que resulta da TPM (tensão pré-menstrual) ou na univer-
cia ‘socio-lógica’ e política”.5 Ou seja, a importância dada salização dos “males” da menopausa, como veremos adiante.
ao sexo, ao aparelho genital, na positividade e divisão da so- Esses tipos de asserções reduzem a multiplicidade da ex-
ciedade, é ela mesma uma criação histórica e social. periência à imagem da mulher, essencializada, partilhando
Isso nos leva à questão dos corpos que se transformam igualmente a fragilidade de uma natureza que finalmente
em feminino e masculino num processo significativo que justifica e reitera seu lugar subordinado. A questão que se
restitui, no discurso e na matéria, as representações impõe é: como se pode confiar no julgamento, na palavra e
valorativas que dão sentido às relações sociais. Assim, a no raciocínio de um ser subjugado periodicamente por ner-
sexualidade torna-se o eixo principal da identidade e do vosismos ou calores? Isso não seria apenas uma reformula-
ser no mundo, fundamentando-se em valores institucio- ção da imagem da “mulher histérica”?6 O assujeitamento
nais tais como procriação, casamento, família; a hegemonia das mulheres e das próprias feministas a esse tipo de dis-
da heterossexualidade, prática sexual entre outras, como curso revela a força de autoridade do discurso médico, di-
atesta a multiplicidade de culturas, torna-se naturalizada. vulgado e reafirmado pela mídia.

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Foucault (1991:110) afirma que “(…) em toda socie- Com efeito, a mídia se localiza na noção de dispositi-
dade a produção do discurso é ao mesmo tempo controla- vo, aventado por Foucault (1979:244) como “(…) um
da, selecionada, organizada e redistribuída por um certo conjunto decididamente heterogêneo que engloba discur-
número de procedimentos (…)” e as tecnologias de pro- sos, instituições, organizações arquitetônicas, decisões re-
dução de gênero fazem parte integrante desta démarche, gulamentares, leis, medidas administrativas, enunciados
conjurando e ao mesmo tempo assimilando as transfor- científicos, proposições filosóficas, morais, filantrópicas”.
mações sociais conseguidas pelos movimentos feministas. Assim, as tecnologias do gênero descritas por Laurentis
Sob novas roupagens, quais as representações do femini- aprofundam essa noção verticalizando-a na constituição
no veiculadas pela mídia atualmente, nas propaladas re- das representações generizadas do humano.
formulações das relações de gênero? Para transitar nesse universo globalizado da atualida-
A análise de revistas “femininas” recorta, no universo de, em que a troca cultural é parte do mercado mundial,
discursivo, este “(…) conjunto de discursos que interagem foram escolhidas para análise quatro revistas em dois paí-
num dado momento (…)” (Maingueneau, 1996:14) um ses: Nova (jun, 1999) e Marie Claire (maio, 1999), revis-
lugar de fala que nos traz textos e imagens como objetos tas brasileiras, e Elle-Québec (janvier, 1999) e La
sociais e históricos, elaborados no social segundo códi- Chatelaîne (décembre, 1998) da província francesa do
gos e significados pré-construídos; por outro lado são, Québec-Canadá.
também, produtores/ressematizadores das representações Línguas latinas, matrizes culturais imbricadas, numa
instituidoras da socialidade. Disputando um mercado mi- economia de trocas representacionais da América do Norte
lionário, entre publicidades, reportagens, conselhos, di- e América do Sul. A intenção é tentar observar como as
cas, moda, receitas culinárias e de vida, procuram in- representações de gênero constroem os corpos sexuados
terpelar e conduzir as receptoras para um espaço de e as práticas femininas são assim homogeneizadas. 7
significações cuja proximidade da dóxa assegura sua pos- O tom geral das revistas é de alegria, de confiança no
sibilidade de leitura; existiria talvez um projeto pedagó- futuro, certeza de poder conciliar tarefas, assumir os no-
gico que urde a trama dos sentidos assim veiculados, numa vos espaços abertos às mulheres sem perder um só grama
retórica que busca “(…) convencer os outros de que, de de sua “feminilidade”, perspectiva que “(…) em nada se
fato, apesar de tudo, ainda se vive no melhor dos modos distingue daquela ética da felicidade barata pela qual se
possíveis (…)”(Eco, 1993:174). rege uma civilização do lucro e dos consumos” (Eco,
Os sentidos do mundo, assentados em valores e nor- 1993:174). De fato, o que se nota é uma certa condescen-
mas, expectativas e barreiras, definições e identidades, são dência em relação à mulher profissional, cuja atividade
assim constituídos em opinião pública, ciência, religião, seria apenas um acréscimo às suas tarefas habituais, nun-
lei, nas instâncias discursivas que regem e regulam a ca uma modificação da divisão “natural” do trabalho. O
socialidade. público-alvo é a mulher de classe média, jovem, com um
O mundo da comunicação contemporâneo é hoje tal- certo nível de instrução e renda, cujas preocupações e in-
vez o único espaço sem fronteiras e a circulação de ima- teresses são presumidos nos apelos publicitários e nos te-
gens e representações sociais é virtualmente sem limites; mas desenvolvidos.
as matrizes de inteligibilidade partilhadas e veiculadas pela As capas das revistas brasileiras Nova e Marie Claire
mídia atualizam, das profundezas da memória discursiva, apresentam chamadas que indicam as matrizes de sentido
imagens estereotipadas do feminino e do masculino, mas sobre as quais se apóiam o corpo e seus contornos, a se-
não apenas em um espaço cultural definido. xualidade heterossexual, a sedução, o casamento e a ma-
Assim, podemos sugerir a hipótese de que se o femi- ternidade. O corpo tecnológico, refeito, remodelado para
nismo se desdobra hoje em teorias e estratégias plurais seguir o modelo de mulher cujas imagens povoam a re-
que apontam para a multiplicidade das situações e das vista aparece em ambas: plástica na barriga e transplantes
condições materiais das mulheres, a mídia, em tempos em Marie Claire (MC); em Nova, aumento dos seios com
de globalização, pretende a homogeneização da condi- silicone. Na rede discursiva texto/imagens dessas revis-
ção feminina e a recuperação da imagem da “verdadei- tas, as publicidades vêm reforçar os sentidos e as repre-
ra mulher” feita para o amor, a maternidade, a sedu- sentações propostas nas capas, como veremos mais adiante.
ção, a complementação do homem, costela de Adão Em MC, as três primeiras chamadas discutem a sexua-
reinventada. lidade e o casamento: “As fases da separação: da dor ao

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alívio”; “Lua-de-mel: como era e como ficou”; “Orgas- parentes desaparecidos”. Apesar do corpo da matéria apon-
mo, a ginástica sexual que aumenta o poder feminino”. tar para mulheres que foram torturadas, violadas e assas-
Um depoimento – lugar de fala da leitora – anuncia a sinadas, a construção do texto e as imagens as tornam
maternidade: “um milagre de amor salvou meu filho”. Um espectadoras e auxiliares das verdadeiras vítimas – os ho-
belo rosto de mulher compõe a capa, moreno, olhos cas- mens, que perderam a vida pela liberdade. A resistência
tanhos, cujo sorriso anuncia o bem-estar da mulher brasi- das mulheres à ditadura não aparece senão como a dor da
leira. perda, mote das chamadas e das fotos: a corda sensível é
A capa da revista Nova é mais provocante: uma exube- a quebra familiar, o registro da emoção e do individual,
rante loura de olhos azuis, seminua, apenas envolta em único aparentemente capaz de motivar as mulheres e fazê-
gaze azul: mulher versão Barbie, o retorno infindável? As las respeitadas nesta “invasão” do espaço público.
chamadas estão todas voltadas para a sexualidade e a se- A sexualidade aparece explícita nas três primeiras re-
dução: “14 histórias inconfessáveis de ousadias sexuais”; portagens: na matéria sobre a lua-de-mel, a superfície
“O que você faz para engatar ou destruir o namoro”; “Te- discursiva da chamada mostra um caminho evolutivo de
rapia sexual é uma saída para casamentos na corda bam- mudanças no comportamento sexual. Podem-se destacar
ba?”; “50 homens charmosos e solteiríssimos que querem algumas palavras que sustentam o texto nas palavras da
receber sua mensagem”. De fato, as duas revistas são cons- avó: ingênua, choque, dor, medo, vergonha, ansiedade.
truídas em função de um personagem cuja presença é Mas “meu marido era um lorde (…) eu tinha de deixar (..)
incontornável e em torno do qual giram as mulheres in- afinal o casamento tinha de ser consumado, era nossa obri-
cansavelmente: o homem. gação”. Para a filha, a lembrança da noite de núpcias in-
Em ambas as revistas o corpo é central, pois é a partir vocava “ansiedade, nervosismo, dor, vergonha; “a virgin-
de sua capacidade de sedução que os demais elementos dade era um bem a ser preservado. Na verdade a gente
da rede discursiva se integram. O cyborg analisado por falava muito, mas sabia pouco”. Prazer? “(…) senti pra-
Donna Haraway, o corpo tecnológico, é evocado pelo dis- zer, um prazer de estarmos juntos (..) tinha de ser e ele foi
curso sobre o transplante, do qual se trocam as peças na supercarinhoso e paciente”. Em comum as matrizes de
luta contra a morte; a plástica na barriga e as publicida- sentido: medo, vergonha, obrigação, falta de prazer e a
des de cosméticos e cremes rejuvenescedores apelam à idealização de um marido gentil e compreensivo.
eterna juventude, ao corpo produzido: o modelo corporal Quanto à terceira geração, na primeira relação sexual
está finalmente ao alcance de todas, na luta contra o tem- “Eu não tinha vergonha, (…) não doeu, não sangrou, mas
po e as imperfeições. Com a cosmetologia, nenhuma mu- não senti prazer”. O casamento, feito “(…) porque as famí-
lher precisa ser feia, uma vez que a beleza é condição sine lias queriam” mostra uma opção moderna, que dispensaria
qua non para o romance e a felicidade. o institucional; seu relato, entretanto, é o único que enfati-
As publicidades referentes ao corpo em MC apontam za os rituais realizados nos mínimos detalhes, o que é sig-
para a beleza possível, mostrando às mulheres como elas nificativo sobre a importância da cerimônia para os pró-
PODEM ser. “Livrei-me da barriga e das recordações tris- prios noivos. O relato é finalizado com a ênfase dada à
tes” diz uma leitora em MC: o excesso no corpo remete à transmissão da experiência para a filha “(…) passando para
tristeza e à infelicidade. ela o máximo que puder do que é a relação com um ho-
O sumário de MC transita entre reportagens que arti- mem, os sentimentos, a beleza, sem tabus (…) inspirar na
culam valores tradicionais (entrevista com Adélia Prado nossa filha esse sentimento de algo muito natural e bom.”
e comunidade tradicional no Rio Grande do Sul) e maté- Esses depoimentos, numa linha de progresso, apóiam o
rias sobre duas personalidades masculinas, decoração e caminho inexorável de um relacionamento cada vez me-
interior (interesse principal e locus específico da mulher), lhor entre os gêneros, exemplificado no artigo pelo discur-
problemas de relacionamento de casais e é claro, Moda, so da atualidade. Locus de gentileza, afeto, estabilidade, a
Beleza, Saúde e dicas para uma Boa vida). família é exaltada na transmissão dos valores mais tradicio-
A única matéria de cunho político strictu sensu refere- nais e a sexualidade no casamento, vestida de modernida-
se às “viúvas e órfãs de Pinochet”, na qual aparecem como de, afirma a boa ordem do mundo. Essa é, portanto, a se-
guardiãs de uma memória – de um pai ou marido, cujas xualidade correta, ligada ao que é “natural e bom”.
imagens são predominantes. “Até hoje muitas mulheres Essa matéria se atrela à naturalização do institucional
continuam procurando saber o que aconteceu com seus e ao obscurecimento de sua historicidade; como sublinha

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Adrienne Rich (1981:17), “Em nenhum dos livros que tra- Adélia Prado continua: “(…) qualquer ato criativo eu sin-
tam da maternidade, dos papéis e relações sexuais, das to como um ato masculino. De fato eu sou um homem neste
normas sociais para as mulheres, leva-se em considera- sentido, quando estou escrevendo.” Assim, ser agente no
ção a heterossexualidade obrigatória como instituição mundo é privilégio do ser masculino; anulação total, ne-
capaz de afetar profundamente todos os fatos sociais; e a gação do ser feminino que se procura afirmar: a criação
idéia de ‘preferência’ ou de ‘orientação inata’ não é, da para a mulher é apenas ligada à reprodução. “Virgindade,
mesma forma, posta em questão”. casamento, é necessário passá-los para os filhos”, conclui.
Na mesma linha da tradição e família, encontra-se uma A repórter marca o lugar da recepção esperada: “Saí de
longa entrevista com Adélia Prado, para quem o lugar de sua casa com uma inveja boa, querendo ser um pouco como
fala e de autoridade é logo estabelecido: “a maior poeta ela (não fosse eu estragada de nascença) só para acreditar
brasileira viva”, que “(…) defende valores cada vez mais no que e como ela acredita.” O desalento, a descrença mar-
contestados e escreve textos cada vez mais admiráveis.” cam essa fala que aponta para a retomada de valores e cren-
Com 41 anos de casada, fé no “sacramento do matrimô- ças tradicionais. Quem sabe não éramos mais felizes?
nio”, mãe, avó, católica, dona de casa, o perfil traçado A revista MC continua a discursar sobre a sexualidade
fundamenta o discurso em torno de alguns eixos: fé, esta- e a chamada agora é: “Ginástica íntima: técnicas milenares
bilidade, valor espiritual do casamento. Adélia Prado afir- e aparelhos que aumentam o prazer da mulher”. No corpo
ma que “(…) as feministas me acham antiga demais da do texto a matéria versa sobre a “contração voluntária dos
conta” e a revista apressa-se em afirmar: “Mas os críticos músculos circunvaginais, a fim de induzir sensações eró-
são quase unânimes em reconhecer o talento e a força desta ticas no pênis durante o ato sexual”. Prazer de quem?
teologia poético-pessoal e feminina”. Uma citação de Jorge Amado completa o texto em um
A oposição feminino/feminista reforça a percepção do quadro, em destaque: “uma mulher pode ser feia de apa-
senso comum: o feminismo é desqualificado pela afirma- rência, pior de formas, mas se a boca do corpo for de chu-
ção do feminino, ligado aos valores das “verdadeiras peta, trata-se de diamante puro”. A grosseria da frase te-
mulheres” assegurados pelos críticos, pelo mundo mas- ria foros libertários? O fato é que aqui a mulher é apenas
culino. uma vagina, não importa seu aspecto físico.
Adélia Prado tem sua definição de feminino: “capaci- O deslocamento entre o título e o texto marca o próprio
dade de dizer sim, de se dobrar, de aceitar a condição de deslizamento da sexualidade da mulher para a do homem,
perdão radical.” Da mesma forma indica que: “Uma coisa a que se torna central na matéria. A jornalista afirma ainda
que me aflige é o direito da mulher. Eu fico com uma ver- que “idolatradas pelos homens, muitas ‘pompoaristas’ não
gonha na hora que dizem isso. Porque me inferioriza, sou divulgam a técnica para não aumentar a concorrência”: as-
ofendida enquanto ser humano (…) acho que já está tudo sim, aquelas que compraram a revista esperando conselhos
lá nos direitos humanos.” A palavra “vergonha” sugere a para um maior prazer pessoal, se vêem conduzidas a um
inadequação total de reivindicações que desestabilizariam universo de concorrência e sedução, em que seu corpo é
o natural das posições definidas para mulheres e homens um simples aparelho masturbatório.
– humanos, cada qual em seu lugar, decisão divina. Por outro lado, na seção de cartas, um comentário so-
O discurso de Adélia Prado nessa revista nega a condi- bre um bordel para mulheres: “Em algum lugar deste mun-
ção subordinada da mulher, nega a violência social e ins- do as mulheres podem exercer suas vontades, fantasias e
titucional que hierarquiza e marca os indivíduos sexual- desejos sem o menor problema ou constrangimento.” A
mente. Esses comentários seriam apenas desprezíveis se prostituição, expressão paroxística da violência social,
não estivessem inseridos em uma rede discursiva que os torna-se aqui o locus naturalizado de expressão livre do
revestem de legitimidade para o senso comum, adensando desejo: a liberação sexual é equiparada à prostituição,
a dóxa da inscrição corporal. estratégia discursiva comum tomada como justificativa da
Por outro lado, para ela, escrever é um ato masculino: objetificação e mercantilização humanas.
“(…) vergonha de fazer poesia nunca tive, mas era do ofí- As publicidades compõem a rede que estabelece o lu-
cio que tinha vergonha”. Usurpação do lugar do homem, gar, a conduta adequada, o perfil psicológico da mulher:
opróbio do deslocamento da ordem das coisas, da ordem numa delas, o amor da mãe pelo filho torna-se admiração
do Pai: aos homens o intelecto, às mulheres o sentimento, sem limites da mulher pelo homem, pois ele ensina-lhe a
a intuição. “Cada macaco no seu galho” diz o ditado. usar Nescafé.

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SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(3) 2001

Os anúncios de carro revelam a relação das mulheres dentre as “21 coisas a fazer antes do ano 2000”, a primei-
com a máquina: aparência e segurança são os motes. Numa ra é “fazer as pazes com o corpo” e a segunda, “honrar a
delas a família feliz, duas crianças, o pai dirige, a mãe palavra” da qual o exemplo dado é “fazer dieta”.
olha-o com adoração e põe a mão em sua perna. O carro A reportagem especial é sobre “paquera”. Seguem-se
para as mulheres é uma extensão de sua casa, extensão de moda e beleza (ao alcance de todas), cartas, horóscopo,
seu papel e de suas obrigações. dicas, novidades, nudez, mulher liberada. As categorias
Além da moda e da cosmetologia, cujas publicidades axiais permanecem as mesmas: corpo, sedução, amor.
compõem cerca de um terço da revista, anúncios de sabão As publicidades de moda, culinária, perfumaria e be-
em pó: “todo o mundo tem de escolher entre o que precisa leza, com ênfase para o rejuvenescimento, compõem quase
fazer e o que gostaria de fazer (…) enquanto Ariel traba- metade da revista. “Quero ser seu par”: 14 páginas sob
lha, você tem todo o tempo livre para dedicar a sua famí- este título mostram em grande formato casais em posições
lia, a sua casa, a você mesma”. “Dia das mães. Se depen- claramente sexuais ou de apropriação. Os seios voltam à
der da gente pode-se chamar Dia da Independência – baila, explicitando que a perfeição está ali, próxima: “Au-
assinado: produtos Maggi.” menta o volume! Se você não nasceu com seios perfeitos
A divisão de trabalho é aqui naturalizada ao máximo: pode optar pelas moderníssimas próteses de silicone. Le-
entre precisar/querer, a opção é obrigatória, e facilitar o vantamos tudo sobre o assunto!”, em seis páginas. O cor-
trabalho de casa permite uma dedicação ainda maior à … po da mulher desenha-se assim sob o olhar do outro, aquele
casa. Por último, eventualmente, a si mesma. De toda for- a ser seduzido, aquele que faz de mim um sujeito dotado
ma, a mulher foi destinada à resignação e ao sacrifício, de significação social.
como diria Adélia Prado. A independência, para as mu- Que corpo é este, construído em todas suas linhas e
lheres, se resume a fazer comida com maior facilidade. desenhos; que corpo é este contra o qual devem se erigir
Em SEU lugar: a cozinha. o mundo feminino e a indústria de cosméticos/perfuma-
A revista Nova já em sua denominação apela para a ria/ginástica/produtos dietéticos/medicina/pesquisa? Para
idéia de transformação, de modernidade: a “nova mulher” melhor domesticá-lo, para controlá-lo e mostrar que, nes-
deve aí encontrar a sua imagem. As chamadas da capa te caso, a natureza pode e deve ser contornada, pois todas
referem-se a práticas sexuais, possíveis transgressões, ca- as mulheres têm ao seu alcance a BELEZA, caminho para
samento, namoro, remodelagem do corpo: “14 histórias o amor, o casamento, o jogo da sedução e da felicidade.
inconfessáveis de ousadias sexuais, a gente nem imagina Tomadas ao acaso, as superfícies discursivas de pro-
do que as mulheres são capazes!” (O lugar de fala aqui é dutos de beleza: “… o mais revolucionário tratamento de
externo e na perspectiva binária da revista, só pode ser beleza contra o processo de envelhecimento e combate aos
masculino – seria um convite a seus olhares?) “Negra e radicais livres”; “…aparelho especialmente desenvolvi-
vitoriosa: volta por cima do preconceito” “50 homens do para modelar o seu corpo, quando você não tem tempo
charmosos e solteiríssimos querem sua mensagem”; “Te- para fazer exercícios” (ao lado de uma dançarina do ven-
rapia sexual para casamentos”; “Engatar ou destruir um tre com o rosto velado e seminua). “Segredos da natureza
namoro – os homens revelam”; “Idéias espertas para tra- para renovar sua pele, cabelos e sentidos”; “Novo Chic…
balho extra”; “Aumento do seio com silicone”. Dessas não pense no custo. Pense no benefício. (mulher de
chamadas, quatro são relativas ao relacionamento com um calcinha e sutiã sobre um fundo azul de um rosto em close
homem e uma refere-se à busca da perfeição corpórea, de um homem); “Agarre seu homem pelos cabelos”. De
marco de sedução. fato, as mulheres se vêem pelo olhar “panóptico” mascu-
Nos artigos e reportagens, uma personalidade em des- lino, que as constrói em seu reflexo no espelho e em sua
taque, pondo em relevo sua carreira, expectativas de tra- representação mental.
balho: um homem. Duas mulheres aparecem também como Num metadiscurso, a revista faz um anúncio dela mes-
tema de reportagem: uma é a mulher mais elegante do ma – Nova Beleza – com a chamada principal: “Todas as
Brasil e outra é Betty Faria, atriz, mas a ênfase aqui é dada respostas para você ter um bumbum perfeito: exercícios,
à sua vida particular e sobretudo amorosa. Os domínios óleos, dietas…” e outras compondo a próxima capa: “a
de atuação são assim claramente demarcados. primeira noite com ele: como deixar seu corpo macio,
Outras duas matérias se debruçam sobre as fantasias cheiroso, gostoso de pegar”; “cabelos ondulados, cachea-
sexuais e problemas amorosos, uma sobre o casamento e dos, crespíssimos”; “os 22 melhores cremes… para você

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FEMINISMO E RECORTES DO TEMPO PRESENTE: MULHERES EM ...

começar já!”; “Decidi mudar radicalmente meu visual. E isto aceitável? Ou apenas uma reafirmação da dupla mo-
consegui!”; “Seios que parecem maiores, barriga quase ral, a sexualidade múltipla para os homens e a monogamia
invisível. As lingeries que modelam seu corpo”. Mulher- para as mulheres? “Adora badalação … e nem por isso é
corpo? uma vagabunda”. O que é ser uma vagabunda? Quais os
Para Susan Bordo (1997:19-20), o corpo funciona como limites, quais as margens? “Cheguei à conclusão que so-
uma metáfora da cultura e esta densa rede discursiva tece mos iguais”, pensamento profundo, solitário, inovador e
as malhas simbólicas e normativas da definição do femi- moderno, nada a ver com as transformações conseguidas
nino. Afirma a autora que “Por meio de disciplinas rigo- a duras penas pelos movimentos feministas.
rosas e reguladoras de dieta, maquiagem, e vestuário – A outra metade dos entrevistados afirma claramente
princípios organizadores centrais do tempo e do espaço suas expectativas: “… por mais que um homem seja mo-
nos dias de muitas mulheres – somos convertidas em pes- derno ele não consegue pensar em casamento quando se
soas menos orientadas para o social e mais centradas na relaciona com uma mulher que faz questão de sua pró-
automodificação”. E esse combate cotidiano é incitado, pria liberdade… mesmo que isto não a comprometa em
conduzido e levado aos extremos pelo dispositivo da se- nada”; “prefiro uma mais quietinha, que confie em mim e
xualidade definido por Foucault (1976), no qual as tecno- não me dê dor-de-cabeça com mania de independência”;
logias de gênero afunilam a performance na construção “para casamento com certeza prefiro uma garota serena,
de corpos sexuados, no esquema binário e valorativo que caseira e natural”.
funciona e oscila nos registros da sedução, posse, roman- As palavras destacadas acima compõem por si só um
tismo, apropriação. texto de advertência às mulheres: o espaço de domes-
Ainda no “ramo publicitário” os anúncios de carro ex- ticidade, a reserva própria ao feminino, a volta à “nature-
pressam em suas superfícies discursivas uma certa repre- za” são condições sine qua non para o casamento. Nos
sentação da mulher: “conforto e segurança” (antes de tudo, anos 70, Germaine Greer (1971:295) apontava essa dupla
pensar no transporte das crianças); “novo design, novo con- face do casamento: “Cada esposa deve se contentar de seu
junto ótico: faróis e pisca numa única peça de policar- lar e de sua vida familiar enquanto que para o homem tra-
bonato transparente” (alta tecnologia para o mundo femi- ta-se apenas de um lugar de refúgio para onde se retira
nino); “pára-choques envolventes na cor do veículo que como um guerreiro cansado (…).”
suporta pequenos choques” (mulher dirige mal e só co- Esses homens, que assim se expressam, são jovens en-
nhece do carro a cor), novo revestimento com toque sua- tre 25 e 35 anos, nos anos 90, nascidos já em meio ao
ve”, (próprio das damas); “novo quadro de instrumentos debate engendrado pelo feminismo; suas representações
com conta-giros de série e iluminação por leds azuis de sociais, entretanto, continuam presas aos esquemas biná-
alta intensidade e filetes em vermelho” (cores e luzes, atra- rios do mundo, de dupla moral e do binarismo implícito
tivos maiores) “computador de bordo … nova regulagem nas práticas sociais, sejam elas econômicas, morais,
no comando de válvulas e injeção, deixando o carro ain- relacionais, sexuais, instituidoras de um mundo cindido
da mais gostoso de dirigir” (detalhe apenas: computador, “naturalmente”, em masculino e feminino.
injeção eletrônica – não se assustem, é agradável para di- A revista constrói sutilmente sua rede de representa-
rigir). Poderia ser a descrição de um carrinho de brinque- ções em outras reportagens: uma leitora queixa-se que seu
do mas “combina com seu estilo de ser” e como é um anún- noivo a subestima, suas opiniões, ações, “não me consi-
cio para a “Nova Mulher” conclui: “irreverência nas ruas.” dera capaz. Perguntei se acha que sou burra, ele apenas
O capítulo “sexualidade” nessa revista tem três partes: sorriu, como se estivesse dizendo mais uma bobagem.”
terapia, fantasias e entrevistas com homens sobre como Essa superior condescendência é atenuada pela revista que
vêem as mulheres, nas quais a questão é vê-las moldes afirma: “Ele é uma vítima do mecanismo que o obriga a
“para casar” ou “para outras coisas”. As respostas se di- ser assim (…) mas para dominar, precisa de uma cúmpli-
videm em partes iguais: a primeira metade acha um ab- ce, dê-se ao respeito.”
surdo essa divisão, mas suas afirmações ainda constroem Esse ato retórico de inversão constrói um campo de
um mundo separado para homens e mulheres. Assim, a significação e persuasão em que a vítima é transformada
afirmação “o que faço com outras mulheres posso muito em ré ou cúmplice: de um lado explica socialmente a ati-
bem fazer com minha namorada” supõe a multiplicidade tude do homem e de outro acusa a mulher. Nos casos de
de parceiras. Estaria sua namorada no mesmo registro, seria estupro, agressão, assédio, violência conjugal, de quem é

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afinal a culpa? Já diz o ditado: “se você não sabe porque só porque tem a idéia não quer dizer que vai ser obrigada
está batendo, ela sabe porque está apanhando”. a cortar o cabelo e pôr um terno”. O estereótipo indica
Logo em seguida, uma entrevista com um músico mui- que uma passagem rápida pelo desejo sáfico não pode
to liberal, que adora as mulheres com uma “saudável re- desviar do caminho correto, o que reforça no campo das
beldia”. Entretanto afirma que “garotas doces, meigas e representações sociais “(…) a convicção das mulheres de
certinhas, tímidas e passivas exercem um grande fascínio que o casamento e a orientação sexual para os homens são
sobre os homens”. Não chega nem a ser uma retórica pa- componentes inevitáveis de sua existência”, como afirma
radoxal: de um lado, uma certa rebeldia, moderna, mas Adrienne Rich (1981:23).
dentro de limites precisos, pois no jogo da sedução é o Por outro lado, sexo oral, sexo romântico, ser conside-
papel tradicional, “natural” da mulher que vai atrair e “fis- rada irresistível aparecem como fantasias sexuais ousa-
gar” os homens. das. Que tipo de relação sexual têm as mulheres “moder-
Outra reportagem refere-se às “dez fantasias sexuais nas” que lêem Nova? Que tipo de relação podem considerar
mais quentes”: nas dos homens encontram-se o voyerismo satisfatória se nessas fantasias “ousadas” a sedução é mais
e o homossexualismo. Mas a revista previne, para deixar importante que o sexo?
claras as fronteiras sexuais: “não, ele não é gay, é só uma Nas fantasias aparece, é claro, como contraponto, o
curiosidade positiva”. Sadomasoquismo é outra fantasia “sexo contra sua vontade” e a revista explicita: “elemen-
masculina mas a relação natural entre os gêneros aí fica tos de conquista à força, não de dor e violência”. Agir como
explícita: dominador/dominada”. prostituta é também uma fantasia das mulheres “sexual-
Ser amarrada é uma das fantasias femininas favoritas; mente inibidas”, pois informa a revista Nova, “o pagamento
amarrar, um sonho tipicamente masculino. “Tem a ver com é confirmação do poder de atração, você tem uma coisa
a obtenção do poder ou a renúncia a ele”. Ou seja, mesmo tão almejada que ele está disposto a desembolsar dinhei-
no nível da fantasia não há disputa de lugares: as mulhe- ro por ela.” A mulher reaparece aqui como a representa-
res renunciam ao poder (passividade, submissão, aceita- ção de seu corpo ou uma parte dele e a prostituição, exa-
ção) e os homens exercem-no. cerbação da violência social, é tratada como um estágio
A simulação do estupro é outra fantasia masculina e superior da sedução.
diz a revista: “(…) forçar uma mulher não está relaciona- Essas são estratégias discursivas de construção de gênero
do à violência mas com a vontade que o sujeito tem de e seu efeito de poder é a construção de um corpo biológico
submeter a parceira por meio de uma técnica fantástica. generizado que traz, como sublinha Foucault (1979:22) “(…)
Ela começa dizendo não depois muda de idéia, porque é em sua vida e sua morte, em sua força e sua fraqueza, a san-
incapaz de resistir ao gostosão. Para ele é uma viagem do ção de todo erro e de toda verdade (…)”. Verdades construí-
ego. Ninguém se machuca e a vítima também se diverte.” das, datadas, que circulam no social com a força da evidên-
Essa “fantasia” nega a violência do corpo usado, da hu- cia, com o selo do natural e do inquestionável quando se trata
milhação, do desprezo e da negação da individualidade; de corpos sexuados feitos mulheres.
diminuída, banalizada, apresentada como um jogo, lúdico Outra cultura, outro espaço, outra materialidade: a pro-
e prazeroso – uma técnica fantástica. “Viagem do ego, víncia canadense de Québec, de língua francesa. O mo-
incapaz de resistir ao gostosão.” Como negar a força das mento: Natal. A revista, La Chatelaîne, que logo marca
palavras, a força dessas imagens que saltam do texto e seu lugar de fala: “a revista mais lida do Québec”. As cha-
interpelam as emoções? Como negar que essa retórica madas da capa enquadram um belo e jovem rosto de mu-
persuade e estimula a agressão, reafirmando antigas fór- lher, sorridente: “Viagra: a vingança dos homens”; “Edu-
mulas como: “ela começa dizendo não”? cação, quando os pais não sabem dizer não”; “Michel
Assim, vemos a mídia atuando na tessitura da rede Rivard: a felicidade reencontrada”; “Natal: seja bela para
representacional reafirmando e fazendo funcionar o po- as festas”; “Não procure mais: 15 páginas de presentes
der generizado em “(…) nível do processo de sujeição ou fabulosos”. A trama discursiva se organiza em torno do
dos processos contínuos e ininterruptos que sujeitam os consumo, da beleza, da família, da sexualidade e dos ho-
corpos, dirigem os gestos, regem os comportamentos, etc.” mens. A capa sinaliza assim o conteúdo significativo da
como explicita Foucault (1979:182). revista.
O homossexualismo está entre as fantasias e ousadias Abrindo a revista, em duas páginas uma publicidade
sexuais das mulheres mas a revista desculpabiliza “(…) de perfume na qual um homem beija uma mulher. Consu-

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FEMINISMO E RECORTES DO TEMPO PRESENTE: MULHERES EM ...

mo, sedução, amor, o tríptico das revistas femininas. A explicita Susan Bordo (1997:25), “As regras dessa cons-
publicidade tem um papel notável nessa revista, na recu- trução de feminilidade (…) exigem que as mulheres apren-
peração e reafirmação de estereótipos: numa delas (que dam como alimentar outras pessoas, não a si próprias, e
se repete na revista Elle) uma mulher executiva, sobran- que considerem como voraz e excessivo qualquer desejo
celha levantada, lábios estreitos, braços cruzados, tailleur de auto-alimentação e cuidado consigo mesmas. Assim,
estrito, cabelo preso, sentada em uma cadeira de espaldar exige-se das mulheres que desenvolvam uma economia
alto e reto, atrás de uma mesa sobre a qual repousam ca- emocional totalmente voltada para os outros.”
neta, óculos, agenda. Na placa em que deveria estar seu Outras fontes de representações sobre as mulheres são
nome, que em francês se escreve NOM, está escrito, po- as publicidades de carros: nestas, os textos são longos e
rém, NON, ou seja, a negação: não. retomam o senso comum. Na descrição do automóvel en-
Essa imagem negativa, de dureza e severidade para uma fatiza-se o espaço e as “portas com duplas fechaduras”,
executiva, imagem rígida de uma mulher no exercício de ideal para transportar as crianças; por outro lado, “os ins-
uma profissão de comando, é colocada em um campo sig- trumentos fáceis de ler”, ajudam a pobre mulher a com-
nificativo e polissêmico com a simples palavra instalada preender uma máquina misteriosa para sua mente limita-
em sua frente: Não. Não à profissional? Não à mulher da. Ou então, o que importa são as linhas e a aparência:
severa? À mulher em posição de poder? À mulher que não “top model: elegância, raça, grife, conforto,”; “todas as
se adapta ao modelo? À mulher sem os atributos “natu- suas esperanças alcançadas: espaço, conforto, rádio, re-
rais” da feminilidade? “No Natal, ofereça algo doce a quem gulador de velocidade e ah! 150 cavalos!” De fato, a
mais precisa” diz o texto. E sublinha: “para as que preci- performance do motor é secundária, todos sabem que as
sam se dar prazer”. Imagem e texto, ato retórico descons- mulheres só conhecem dos carros as cores. Facilidade,
trutivo da representação da mulher que trabalha, que de- conforto, segurança, espaço; adjetivos: elegância, beleza,
cide, que manda, pois perde sua doçura, sua suavidade, e grife. A venda de carros retoma como eixos a aparência, a
sobretudo, seu prazer – de ser mulher. utilidade familiar, a futilidade, o acessório em lugar do es-
As publicidades nessa revista concentram-se em pro- sencial, e sobretudo a relação “natural” da mulher com a
dutos de beleza (35 páginas) que asseguram a juventude, máquina: a incapacidade de compreendê-la, de avaliá-la.
a perfeição em detalhes do corpo: maquiagem, cabelos, A diferença entre homens e mulheres é tomada como
unhas, pele, lábios, cílios, apontando para as possibilida- tema de uma das reportagens da revista e o subtítulo su-
des infinitas de correção de imperfeições e da passagem gere uma modificação representacional: “os geneticistas
do tempo. A “arte” da maquiagem é a arte do disfarce, exageram!” Da Université Laval, única universidade no
mas isto supõe que o rosto da mulher sem pintura seja Québec que tem um programa de “Estudos Feministas”
defeituoso. “(…) As tecnologias da feminilidade são pra- com diplomação específica, vem o interlocutor que res-
ticadas pelas mulheres contra este pano de fundo da per- ponde às questões da revista: é um homem, antropólogo-
cepção de um corpo deficiente; isto explica seu caráter biologista. Nessa escolha, a revista reforça a idéia da au-
muitas vezes compulsivo e ritualístico”, sublinha Sandra toridade masculina, voz que pode esclarecer as dúvidas
Bartky (1988). de todas as leitoras “modernas”, ávidas de aprendizado.
Por outro lado, 32 páginas e publicidades sobre cozi- Segundo ele, os antropólogos contestam que as dife-
nha e comida trazem conotações sexuais, familiares, se- renças sejam naturais mas em nenhum momento fala do
dutoras. A mulher é a provedora ou a que “pega o homem papel do feminismo nessa contestação do papel “natural”
pelo estômago”. Uma delas é uma receita para a sedução, atribuído ao feminino e ao masculino. Afirma que “na
a respeito de trufas com chocolate branco: “depois de uma, maior parte das sociedades de caçadores-colhedores que
seu homem lhe dá a lua; depois de três, renega a cozinha existiam antes da agricultura, as mulheres se dedicavam à
da mãe; depois de cinco, começa a compreender o que colheita e os homens à caça”. Essa universalização é to-
significa “preliminares.” talmente desprovida de fundamento, na medida em que
O grande número de apelos à degustação de receitas os dados a respeito dessas sociedades – indícios – estão
ou as fotos de doces suculentos é uma contradição cons- sujeitos à interpretação dos analistas impregnados de suas
tante com as imagens oferecidas como modelos de bele- representações sociais. Nada pode provar essa divisão de
za, diáfanas, magras, magras, magras. Essa contradição trabalho, a não ser as pressuposições contidas em suas
impregna a vida das mulheres ocidentais pois, como próprias concepções de papéis de gênero. As generaliza-

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ções históricas a respeito das relações mulheres/homens mo e símbolo do poder – seria a recuperação do poder
são fruto de um positivismo anacrônico que se fundamen- sexual/social?
ta apenas na afirmação de suas premissas: é natural por- Mas a riqueza significativa dessa reportagem não se
que é, e sendo assim sempre foi. exaure facilmente: “para as mulheres de uma certa idade,
E ele continua: “Seria porque as mulheres são menos sobretudo se estão na menopausa e não seguem a hormo-
hábeis na caça? Isso está longe de ser provado!” Mas sua noterapia (que luta contra a secura vaginal), não têm ne-
afirmação anterior solidificou a universalização das rela- cessariamente vontade de ser solicitadas novamente”. O
ções sociais generizadas desde o início dos tempos, arti- papel passivo da mulher na prática sexual é aqui reafir-
fício discursivo em que a força da representação tradicio- mado; a sexualidade destina-se apenas àquelas leitoras da
nal apaga a afirmação contrária. revista, jovens e em idade de reprodução, que cuidam de
E apesar de afirmar que o cultural tem mais força que sua beleza e seu corpo, são sedutoras dentro dos padrões
o biológico, continua dizendo que “naturalmente creio que estabelecidos e consomem os produtos adequados. O fan-
existe uma parte de explicação biológica (…) em milha- tasma da velhice aparece como uma advertência para as
res de sociedades estudadas pelos antropólogos não en- mulheres que não seguem os recursos médico-cosme-
contramos nenhum exemplo em que as mulheres exer- tologistas.
cessem o poder como os homens o fazem em nossas Pode-se ver, assim, nessas superfícies discursivas, a
sociedades antes do feminismo”. Seu discurso recortado medicalização dos corpos, a criação de um novo invólu-
pode significar totalmente o contrário do que anuncia o cro, de uma nova categoria: as mulheres na menopausa.
título da matéria e se apóia na rede de sentidos estabele- Vaginas desérticas, ossos quebradiços, desejo esquecido,
cida pela revista. o discurso médico generaliza e cria a menopausa como
A última pergunta: “Para resumir, podemos dizer que um castigo, num corpo envelhecido, caminho de todas,
a diferenciação dos papéis de homem e mulher é o resul- se… não seguirem a hormonoterapia, os cuidados com a
tado de um caminho cultural e de uma predisposição bio- pele e os cabelos, a ginástica, a dieta.
lógica?” Resposta: “Indubitavelmente. E esse caminhar O corpo tecnológico é o corpo moderno da mulher e o
cultural não acabou. Nada nos permite afirmar que em envelhecimento pode ser driblado em novos estágios de
alguns séculos as mulheres não ocuparão mais espaço do sedução, renovação do dispositivo da sexualidade em
que os homens na cena pública.”. Ficamos todas felizes novas práticas, em desdobramentos da indústria da bele-
com essa perspectiva secular, tempo necessário para trans- za e da juventude eterna: médica, cirúrgica, farmacêuti-
formar a biologia rebelde das mulheres em seres aptos ao ca, cosmética.
poder público. Essa construção discursiva dos corpos, fraturados em
Em outra matéria, chamada da capa “Viagra: vingança hierarquias de idade, volume, altura e classificados pelo
dos machos contra as feministas”, o feminismo é coloca- olhar paradigmático que define as possibilidades de se-
do CONTRA os homens, reafirmação do senso comum: dução, performance, realização pessoal, cristaliza-se em
feministas = mal-amadas, viragos, lésbicas. O depoimen- práticas delimitadoras de um sexo biológico atreladas às
to do editor de Penthouse atualiza o discurso do século representações do gênero feminino. Assim o sexo é dese-
XV sobre as feiticeiras que castravam os homens: “O fe- nhado não como uma superfície neutra de inscrição de
minismo emasculou o macho americano e esta emasculação práticas generizadas mas é igualmente un constructo que
engendrou problemas orgânicos”. O Malleus Maleficarum, se erige em dado natural. Para Donna Haraway (1991:357-
manual dos confessores de 1486 se inquieta sobre essa 58), “(…) não se nasce organismo. (…) os corpos como
questão: “(…) pergunta-se se as feiticeiras, pelo poder do objeto de conhecimento são nódulos generativos materiais
demônio, podem verdadeiramente e realmente cortar o e semióticos. Seus limites se materializam na interação
membro ou somente dar a impressão ilusória disto? (…) social. (…) Os vários corpos em questão emergem da in-
Ninguém duvida que certas feiticeiras façam coisas espan- teração da investigação científica, da escrita e da publi-
tosas em torno dos órgãos viris; muitos o viram, muitos cação, do exercício da medicina e de outros negócios, das
ouviram falar.” (Institoris e Sprenzer, 1990). produções culturais de todas as classes, incluídas as me-
O sentimento de castração adviria da perda ou do táforas e as narrativas disponíveis (…)”.
questionamento do poder sobre as mulheres, com seu dis- Outro artigo fala das mulheres que exercem profissões
curso de igualdade? A retomada do vigor sexual – sinôni- masculinas, “não-tradicionais”, vencedoras de um concur-

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so promovido pelo Estado para estimular as mulheres a cosmetologia e os perfumes, é o pilar das revistas femini-
abrirem o leque de suas atividades. No Québec os movi- nas. Barthes (1981:262-63) comenta: “Assim é a Mulher
mentos feministas, tanto acadêmicos quanto sociopolíticos, ordinariamente significada pela retórica da Moda: femi-
abriram um espaço excepcional para a atuação das mu- nina imperativamente, jovem absolutamente, dotada de
lheres. As discriminações são atenuadas mas existem em uma identidade forte e entretanto de uma personalidade
termos de representatividade política e de desigualdade contraditória (…) seu trabalho não a impede de estar pre-
de salários, nas manifestações da violência social contra sente em todas as festas do ano e do dia; ela sai todo fim
as mulheres em todas suas dimensões, da conjugal à pros- de semana e viaja todo o tempo (…) a mulher da Moda é
tituição. Assim, em níveis representacionais, igualmente ao mesmo tempo o que a leitora é e o que sonha ser”.
as mulheres encontram-se em patamares assimétricos. De Analisa ainda que a Moda seleciona os corpos aos quais
quatro entrevistadas, três têm nível médio e todas desvia- se aplica, excluindo outros, ou então cria os corpos “na
ram-se para uma carreira masculina, após um início em moda”, de acordo com o modelo ideal: “(…) alonga, in-
cozinha, contabilidade e moda. Se o texto demonstra a cha, reduz, aumenta, diminui, afina e por estes artifícios a
competência das mulheres, na pesca, na topografia e em Moda afirma que pode submeter não importa que aconte-
tecnologias de elaboração de papel, são apresentadas, no cimento (não importa o corpo real) à estrutura que ela
entanto, como minoria, como casos excepcionais e uma postula”. A tirania da moda não é uma palavra vã: os cor-
delas se destaca como “diferente”: aparência esportiva, pos se espremem e se contorcem para se ajustar aos con-
medalha de bronze no campeonato canadense de futebol. tornos da moda.
Mulheres, mas nem tanto. Se nos ativermos às reportagens anunciadas pela capa,
A única entrevistada de nível superior, vice-presidente as mulheres do ano, que marcaram o Québec em 1998,
de um banco, teve um início profissional clássico para as são cineastas, artistas, modelos, escritoras, designers,
mulheres, transitando indecisa, entre o teatro, assistência comunicadoras, pequenas empresárias, mas ao lado das
social, literatura, história, etc. Mesmo tendo chegado a esse profissões o destaque para certas mulheres é também dado
posto, continua em dúvida se não irá se dedicar ao servi- por suas qualidades “naturais”: altruísmo (freira) e ma-
ço de desenvolvimento na África. A dúvida, a dedicação ternidade (25 filhos). Profissões tradicionais ou ligadas
aos outros… traços marcantes do feminino. Com 36 anos ao representacional feminino; por outro lado, a astronau-
para um homem esse posto seria o resultado de uma bela ta que aparece no fim da reportagem “é do calibre das
e rápida carreira; ela, entretanto, sublinha que “não digo estrelas”; a diretora-geral da Banque Royale no Québec
que minha vida profissional teve precedência sobre mi- “está engajada em muitas causas humanitárias e é a mãe
nha vida pessoal, mas eu gostaria que as duas tivessem de Anne-Sophie”.
tido o mesmo sucesso.” A imagem publicitária da execu- Na reportagem seguinte, “o encontro com o amor” é
tiva dura e sem prazer forma rede com esta representação um homem que detém o poder da palavra: na introdução
da mulher de sucesso, porém triste. A escolha é óbvia: ou ele afirma que a liberação de uma moral repressiva em
a profissão e a carreira ou a felicidade. Mesmo com o es- relação à sexualidade trouxe “solidão e sofrimento”. Sa-
paço institucional aberto, o campo representacional res- lienta que as conquistas modernas foram: a desculpa-
tringe a atuação das mulheres, sancionando-as em sua vida bilização do prazer, a emancipação das mulheres e o fim
pessoal. do ostracismo dos homossexuais, o que localiza seu dis-
A revista Elle-Québec, que completa o corpus desta curso na atualidade. Mas indica tabus fundadores: inces-
análise, traz em sua capa chamadas em torno do “Sexo, to, pedofilia e violência conjugal colocando na mesma
rendez-vous para o amor!”; “Moda, a magia da meia-noi- categorização práticas sociais correntes que longe de re-
te”; Metamorfose, três mulheres se prestam a este jogo”; presentarem um tabu são elementos de disseminação do
“As mulheres do ano: heroínas, militantes, estrelas…” e poder generizado.
finalmente “Todo o seu ano em nosso especial Astro”. Continua incentivando a reapropriação da “verdadeira
A moda nessa publicação ocupa 40 páginas e produtos dimensão da sexualidade” – que naturalmente ele sabe qual
de beleza, apenas 34; na La Chatelaîne seu espaço é me- é – e recusa “a acomodação com um mundo sem valores
nor, 9 páginas, e nas revistas brasileiras, 28 em Marie nem finalidade”. Mas o melhor de seu discurso é sobre o
Claire e 48 em Nova. Uma vez construído o corpo é pre- feminismo, marcando bem sua distinção em relação ao
ciso vesti-lo e a indústria da moda, assim como a feminino, pois mostra à “nova” mulher moderna, a mu-

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lher que lê a revista, sua verdadeira dimensão: “A eman- Para Foucault (1987:126), o corpo está sempre inseri-
cipação das mulheres já estando adquirida (ou quase) ve- do em uma teia de poderes que lhe ditam proibições e
mos aparecer intelectuais que chamarei de pós-feminis- obrigações, coerções que determinam seus gestos e atitu-
tas. Elas aceitam a herança da emancipação, mas rompem des e que delimitam e investem seu exercício e suas práti-
com o feminismo de ontem – o de Simone de Beauvoir – cas, mecanismos de se construir o corpo inteligível num
que designava à mulher um projeto de masculinização (tor- campo político de utilidade-docilidade. Essa é a “disci-
nar-se igual ao homem). Essas novas mulheres se querem plina”, um sistema de sujeição que cria um ‘saber’ sobre
liberadas mas mulheres no pleno sentido do termo, capa- o corpo “(…) que não é exatamente a ciência de seu fun-
zes de pôr em relevo sua especificidade feminina, entre cionamento, e um controle de suas forças que não é mais
elas a maternidade, que Beauvoir recusava.” Esse é um que a capacidade de vencê-las: esse saber e este controle
típico discurso didático: “liberadas, mas…” a verdadeira constituem o que se poderia chamar a tecnologia política
mulher sabe seu lugar, que não é igual ao do homem. do corpo” (Foucault, 1987:26).
Quem é ela? A de Rousseau? A de Proudhon? Assim, No discurso da mídia vimos em funcionamento uma das
tudo o que era possível já foi conseguido e o feminismo tecnologias de produção do corpo sexuado, o aparato da
acabou?, interrogação com a qual se deu início a esta aná- produção do corpo feminino útil e dócil dentro das nor-
lise. Sua esperança é a família “célula necessária a toda so- mas heterossexuais, que instituem o binário inquestionável
ciedade”, cuja fundamentação está em sua afirmação apoia- do sexo biológico no social fazendo funcionar, no jogo
da na teia representacional sobre a qual se constitui. Esses da linguagem e da imagem, os mecanismos de assujei-
são axiomas explicativos baseados nos contratos veri- tamento à norma. Feminismo? Mais do que nunca neces-
dictórios entre o emissor e o receptor, em que a autoridade sário, pois lendo-se as revistas “femininas” percebe-se que
de quem fala se encontra com a crença de quem ouve. Como as representações instrumentadoras das práticas sociais
sublinha Angenot (1989:33), “(…) lugares comuns do jor- hierarquizadoras apenas modificaram os trajes que reves-
nalismo (…) que repelem os enunciados incompatíveis e tem os mesmos corpos definidos em sexo.
se constroem uns em relação aos outros como co-inteligí-
veis (…) permitindo dissertar sobre todas as coisas e domi-
nando em ‘baixo contínuo’ o rumor social”. NOTAS

Tereza de Laurentis (1987:3) afirma que “a representa- E-mail da autora: astarteh@hotmail.com


ção do gênero é sua construção”, mas podemos igualmente Publicado em francês, no Cahiers d’Etudes Féministes. Montreal, Université de
Québec à Montréal – UQAM, n.6, 2000.
refletir o corpo como uma construção representacional em
1. As citações de obras em língua estrangeira são traduzidas livremente pela au-
modelos de gênero, pois passa-se da idéia de diferença se- tora. (Maingueneau, 1993).
xual à observação dos mecanismos, do processo de cons- 2. “On ne naît pas femme, on le devient”, frase que se tornou clássica na literatu-
ra feminista.
trução cultural dos corpos sexuados, definidos em práticas
3. Ver por exemplo a satanização da mulher no Ocidente em Delumeau, (1978).
normativas de sexualidade (Mathieu, 1991:133). Ver igualmente o livro de Groult (1993), que compila citações masculinas dota-
das de autoridade sobre a mulher na história.
As tecnologias da mídia e especialmente as revistas
4. “(…) De forma geral, a toda formação discursiva é associada uma memória
femininas elaboram, em torno do aparelho genital, os con- discursiva constituída de formulações que repetem, recusam e transformam ou-
tornos e limites de um corpo sexuado impregnado de va- tras formulações.” (Foucault, 1987:115).
5. Nesta mesma obra a autora faz uma tipologia das relações sexo/gênero levando
lores, crenças, atualizando e reafirmando representações em conta sua pluralidade.
que passam a existir nas práticas que as elaboram. Assim, 6. A palavra histérica vem do grego Husteriko, de Hustera (útero), definida como
o corpo construído em feminino exprime as modalidades “atitude de doentes, considerada antigamente como um acesso de erotismo mór-
bido feminino” (Rey e Rey, 1995).
culturais que o confinam a um gênero que se torna inteli- 7. A escolha dos números das revistas foi totalmente arbitrária e a baliza tempo-
gível “(…) na medida em que mantém relações de coe- ral vai de dezembro de 1998 a maio de 1999.
rência entre sexo, gênero, prática sexual e desejo” (Butler,
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