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Editorial

A revista Serviço Social & Sociedade apresenta aos seus leitores, em seu

número 118, algumas determinações da categoria trabalho, trazendo elementos

teóricos, metodológicos e históricos que a fundamentam na perspectiva da produção marxiana e da tradição marxista.

Apresenta contribuições da materialidade das relações do trabalho na vida dos homens em diferentes momentos da sua existência, procurando elucidar como essas formas de objetivações refratam no fazer profissional do assistente social.

Com a temática Trabalho Precarizado, convidamos os leitores a se apro‑ priarem desses conteúdos, compreendendo que a expressão “precarizado” é a manifestação que se tornou determinante na forma como o projeto societário burguês desenvolve suas relações com o trabalho humano desde seu princípio.

A precarização do trabalho é intrínseca ao modo de produção capitalista,

porém apresenta graus diferenciados historicamente em termos de tempo e espaço, quando se efetiva sua materialização.

É sob essa matriz de compreensão e análise que, neste número da revista,

os leitores terão a oportunidade de conhecer o debate e suas implicações no

pensar/fazer do cotidiano profissional.

Iniciamos apresentando o processo de trabalho em sua constituição his‑ tórica — da manufatura à maquinaria —, possibilitando a compreensão da re‑ lação dos trabalhadores com a natureza em seus diferentes momentos de sua efetivação, e colocando em movimento suas potencialidades. Encontrar registros de atividades que manifestem dimensões humanas criativas é raro; verifica-se em quase a totalidade das atividades humanas, expressões concretas negadoras. Vinculando-se diretamente à natureza bruta ou já modificada, os homens vão construindo uma dada sociabilidade. Sob a determinação do projeto societário burguês, em particular durante o processo de trabalho demarcado pela manufa‑ tura e pela maquinaria, tem o trabalhador constituído uma sociabilidade nega‑ dora da sua existência humana.

No entanto, o projeto societário burguês tem, em sua essência, períodos de crises em sua base estrutural. O artigo Crise do capital, precarização do trabalho e impactos no Serviço Social revela como as respostas dos “donos do

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poder” atingem a centralidade do trabalho humano para amenizar a crise da continuidade em acumular valor. É somente pela expropriação exponencial da força de trabalho, em seus diferentes níveis, que o capital consegue responder às contradições imediatas. Esse procedimento atinge os usuários das ações, programas e políticas sociais ofertadas pelos órgãos públicos. Os trabalhadores que estão envolvidos com essas demandas também recebem as refrações desse processo. Nesse horizonte destaca‑se a presença dos assistentes sociais.

O universo da relação capital/trabalho é expressão direta de lutas constan‑

tes que demarcam a efetivação do capital por meio de diferentes formas de exploração do trabalho humano. É neste movimento que Gramsci é figura central para evidenciar as contradições e antagonismos presentes nessa relação.

O artigo A questão dos Intelectuais em Gramsci traz ao debate, conteúdos

que nos permitem compreender com mais profundidade as categorias fundantes

de sua análise a partir de seus escritos originais.

Na sequência, o artigo Reestruturação produtiva, trabalho informal e a invisibilidade social do trabalho de crianças e adolescentes, como o próprio nome indica, aborda o trabalho precoce, situando‑o com base na lógica socie‑ tária dada pelo capitalismo.

Ainda que o trabalho de crianças e adolescentes seja um fenômeno mundial, o quadro é mais grave nos países cuja inserção no mundo globalizado se dá de forma subordinada. Com base em uma pesquisa realizada no município de Franca/SP, a autora traz dados que permitem apreender a gravidade do quadro apresentado.

O artigo Benefício de prestação continuada e perícia médica previden‑

ciária enfoca o recorrente processo de restrição do acesso ao benefício por parte das pessoas com deficiência, mesmo após a implantação do modelo de avaliação baseado na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapaci‑ dade e Saúde (CIF).

O não acesso aos direitos conquistados pela classe trabalhadora decorre

de elementos estruturais que dialogam diretamente com as problemáticas elen‑ cadas nos artigos anteriores. Afinal, mais do que problemas técnicos e opera‑ cionais, a negação do acesso completa o quadro de precarização das condições de vida e trabalho que atinge de forma ainda mais violenta o contingente de pessoas com deficiência.

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Nesse mesmo arco analítico, cabe situar as expressões da precarização e da terceirização profissional que alcança o conjunto dos trabalhadores e, certa‑ mente alcança também, e muito, os assistentes sociais. É expressiva, nesse sentido, a análise realizada no artigo Consultoria empresarial de Serviço Social.

Enriquece ainda esta reflexão, o texto Saúde Mental, intersetorialidade e questão social: um estudo na ótica dos sujeitos.

Finalmente, cabe destacar a resenha sobre o livro Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil II, organizado por Ricardo Antunes, na qual, de modo mui‑ to preciso, essa nova morfologia do trabalho é analisada, deixando claro o quanto ela se faz acompanhar da informalidade e da precarização.

Trata‑se, sem dúvida, de um número que traz contribuições fundamentais para fazer avançar a reflexão sobre a precarização do trabalho e suas graves expressões no cenário contemporâneo.

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Processos de trabalho

da manufatura à maquinaria moderna

Workprocesses: frommanufacturetomodernmachinery

moderna Workprocesses: frommanufacturetomodernmachinery Alfredo Batista* Resumo: Apresentar o movimento da

Alfredo Batista*

Resumo: Apresentar o movimento da categoria trabalho no interior dos processos de trabalho estruturados e efetivados desde o artesanato até a maquinaria moderna. Nesses processos ocorreram rupturas e continuidades na esfera da organização do trabalho, bem como nas instâncias da revolução científica e tecnológica. Os resultados mani‑ festados nas relações cotidianas, durante os processos de trabalho, entre os homens e a natureza contribuíram para criar campos de pos‑ sibilidades de objetificações que afastaram os homens das barreiras naturais. No entanto, as experiências vivenciadas pelos trabalhadores ampliaram o universo individual e coletivo de reificação em seus diferentes níveis de sociabilidade, dificultando e impedindo-os de vive‑ rem e estruturarem uma vida plena de sentido.

Palavras‑chave: Trabalho. Processo de Trabalho. Sociabilidade.

Abstract: To present the movement of the category work inside the work processes structured and brought about from craftsmanship to modern machinery. In such processes there were ruptures and some continuity both in the field of work organization and in the scientific and technological area. The results in the daily relationship between man and nature during work processes contributed to create possibilities of objectification that moved the former away from natural barriers. However, the workers had experiences that broadened the individual and collective universe of reification in their different levels of sociability, which both made it difficult and prevented them to live and structure a life full of sense.

Keywords: Work. Work process. Sociability.

* Graduado em Serviço Social e Filosofia; mestre e doutor em Serviço Social, área de concentração Políticas Sociais e Movimentos Sociais pela PUC‑SP; professor associado da Universidade Estadual do Oeste do Paraná — Unioeste, Campus de Toledo — Paraná/PR, Brasil; docente no curso de graduação em Serviço Social e dos Programas de Pós‑Graduação em Serviço Social e Desenvolvimento Regional da Unioeste. E‑mail: comuna12@uol.com.br.

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Processo de trabalho na idade média

Oartesanato

L eo Huberman (1985), em sua obra História e riqueza do homem, sutil e assertivamente enfatiza que a centralidade das relações huma‑ nas no período medievo — século IV d.C. ao XVI — constitui‑se, efetivamente, na vida prática. 1 Desde o princípio, reis, príncipes,

senhores feudais, clérigos, comerciantes, empresários, vassalos, servos, escra‑ vos, trabalhadores assalariados e artesãos precisavam vestir‑se, comer, usufruir de objetos estéticos e de outras mercadorias.

Mas, quem eram os responsáveis por produzir bens de consumo para dar conta das necessidades do estômago e das fantasias da maioria da população no período medieval? Trabalhadores, instituídos juridicamente na sociedade medieval na condição de servos (a maioria), vassalos, escravos, camponeses e trabalhadores livres. 2 Ao mesmo tempo, os trabalhadores servos, em especial, tinham que cumprir a obrigação legal de pagar tributos ao seu senhor e dízimo à Igreja. Se não bastasse tal grau de subordinação e deveres, jamais podiam reclamar das terras concedidas pelos senhores feudais, independente das con‑ dições de fertilidade encontradas (Pirenne, 1982).

A relação contratual estabelecida entre o senhor das terras e os trabalha‑ dores, em suas diferentes condições de vínculo, não ocorreu de forma linear durante o período medievo. Conforme Júnior (1988), a Idade Média, um dos momentos mais emblemáticos da história das civilizações, materializou sua

1. Lukács (1979, p. 13) é categórico quanto ao ponto de partida e de chegada da fundamentação teórica marxiana e da tradição marxista: “é a realidade social enquanto critério último do ser ou não ser social de um fenômeno”. 2. A forma de tratamento dado pelo senhor feudal em relação ao servo vinculado ao seu feudo diferen‑ ciava profundamente ao período escravocrata que antecede a Idade Média. Os senhores feudais transforma‑ ram‑nos dependentes às leis e aos costumes do feudo em que estabeleciam sua moradia em conjunto com seus familiares. Na condição de camponeses, servos, vassalos, escravos e/ou trabalhadores livres, não podiam ser vendidos. O domínio de vínculo contratual delimitado por meio do pagamento via (arrendamento da terra, tarefa, salário, trocas de alimentos, moradia e algumas moedas) não garantia, aos trabalhadores, a condição de deixar o espaço físico em que viviam com seus familiares sob o poder do senhor feudais. A segurança conquistada pelos trabalhadores em seus diferentes tipos de vínculos, apesar de restrita, diferen‑ ciava profundamente do escravo da sociedade antiga (Júnior, 1988).

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existência dividida em quatro períodos: a primeira Idade Média — século IV ao VII —; a alta Idade Média — século VIII ao X; a Idade Média central — final do século X ao XIII; e a baixa Idade Média, a partir da segunda metade do século XIII até início do XVI. 3

Com a derrocada do Império Romano, as condições econômicas, sociais, políticas, culturais e religiosas enfrentaram profundas fraturas em suas estrutu‑ ras, dentre as quais se destacavam: existência de uma ampla extensão territorial deixada pelo Império Romano em território ocidental e oriental; desenvolvi‑ mento de uma economia totalmente dependente da terra; convivência com uma base técnica simples dos instrumentos de trabalho, 4 não permitindo ir além da realização de práticas primitivas, impedindo o avanço na esfera da produção de alimentos para atender às necessidades de todos os envolvidos; produção de excedentes para comercialização no mercado; e problemas expressivos enfren‑ tados na esfera da demografia.

A demografia foi um elemento determinante que pautou o movimento dos projetos das classes dominantes no período medievo. Com a derrocada do Império Romano — século III d.C. —, a sociedade não conseguiu organizar‑se rapidamente, impactando de forma direta nas áreas, rural e urbana. As terras cultiváveis que subsidiavam a maior parte da população, por meio das suas colheitas, deixaram de cumprir esse papel. Sem alimentos, faminta, a popula‑ ção urbana obrigou‑se a migrar para o campo em busca de um pedaço de terra para plantar.

A insegurança tomou conta da população. Qualquer alteração provocada pela força da natureza ou do homem que afetasse as plantações desencadeava, como consequência imediata, a baixa produtividade, contribuindo decisiva‑ mente para a falta de alimentos. Dentre as consequências diretas encontrava‑se a redução demográfica, atingindo direta e indiretamente a todos. A necessida‑ de em manter trabalhadores e não trabalhadores em condições de existência cotidiana tornou um pesadelo para as classes dominantes. A maioria da popu‑ lação caiu na desgraça da pobreza e da miséria humana. Não suportando a

3. Essa forma de divisão temporal é uma das interpretações dos historiadores que tratam sobre a temá‑ tica Idade Média.

4. A lavra era realizada por instrumentos rudimentares como a charrua por meio de animais de tração (Heers, 1988).

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situação‑limite de humano, a morte tornou‑se companheira de uma parcela expressiva da população. Todos os dias, uma grande quantidade, de vidas era ceifada. 5 Se não bastasse esse cenário, destruidor de almas humanas, outro fator causou alteração negativa nas estatísticas demográficas: a presença de epidemias, como a malária — do século III ao V — e a varíola — do século

VI ao VIII. Tudo indicava que, em diferentes tempos e espaços, a população

começava novamente a aumentar a partir do final do século VIII (Júnior, 1988). Com a retomada do crescimento populacional, o período medievo foi marcado por um segundo momento histórico: a alta Idade Média. Nesse momento a

sociedade medieval reorganizou‑se, abrindo espaços para a retomada do de‑ senvolvimento na esfera da produção e da reprodução social. 6

Vivendo em novas condições econômicas, políticas e sociais, preparadas durante a alta Idade Média, organizou‑se na Europa ocidental o período medie‑

vo denominado de Idade Média central — século XI ao XIII. Nesse período, as

composições das classes sociais ganharam a força dos comerciantes e da própria Igreja, preocupados em como criar as bases concretas para desenvolver a eco‑ nomia para além da produção baseada na terra, o que não significava abandoná‑ ‑la. É nesse período que a Igreja Católica, sob o argumento de garantir a domi‑ nação no campo da fé ao cristianismo — retomada de Jerusalém que estava sob o domínio dos muçulmanos —, propõe a realização do movimento das cruzadas, também conhecido como Guerra Santa. A ação desenvolvida pela Igreja Cató‑ lica Apostólica Romana — Guerra Santa — registrou sua primeira batalha em 1096, finalizando esse empreendimento em 1316. Júnior (1988) enfatizou que esse empreendimento religioso/político não obteve sucesso em seus propósitos. Como consequência imediata, as relações políticas e econômicas entre Ociden‑ te e Oriente estremeceu‑se, em particular no que se refere ao relacionamento

5. A situação de calamidade pública a que chegou a população — níveis de pobreza e miséria alarman‑ tes — levou uma parcela expressiva dela a tomar decisões não aceitas pela Igreja, dentre as quais se desta‑ cavam práticas anticonceptivas e abortivas, sendo que o infanticídio tornou‑se também uma prática corrente. No entanto, outras atitudes negadoras dos fundamentos civilizatórios eram efetivadas. Uma crônica da região da Mosela afirma que, em fins do século VIII, “os homens comiam os excrementos uns dos outros, homens comiam homens, irmãos seus irmãos, as mães seus filhos” (Júnior, 1988, p. 27).

6. Nesse período, século VIII ao X, sob o domínio do Império Carolíngio, ocorreram avanços signifi‑ cativos no movimento civilizatório. Carlos Magno, ao ser coroado pelo papa Leão III, conseguiu com inte‑ ligência e habilidade unir as forças da Igreja Católica e dos reinados. A partir desse momento os poderes dos reis e da Igreja Católica passaram a caminhar juntos.

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entre cristãos e muçulmanos. Positivamente, a realização das cruzadas desen‑ volveu expressivamente a economia no Ocidente, que tinha como palco comer‑ cial central o mar Mediterrâneo. Vivendo em condições econômicas, políticas e sociais adversas e não obtendo sucesso no movimento desencadeado pelas cruzadas, os poderes esta‑ belecidos enfraqueceram e se obrigaram a alterar as regras do jogo acordadas com os trabalhadores servos. A atitude imediata recaiu sobre os servos: senho‑ res feudais em conjunto com o clero propuseram rever as bases dos contratos realizados com os servos. Vivenciando dificuldades que extrapolavam às de períodos anteriores — primeira Idade Média e alta Idade Média —, senhores feudais em conjunto com o clero não vacilaram em tomar decisões autoritárias:

iniciam processos de intervenção nas relações jurídicas acordadas. Lembremos que a maioria das leis existentes ocorria sob a jurisdição dos costumes. 7 Nesse exato momento os acordos públicos sofreram profundas intervenções. Senhores feudais e representantes oficiais da Igreja Católica deixam de cumprir seus contratos com os trabalhadores, o que causa profunda crise na relação. Um enorme contingente de trabalhadores — servos e seus familiares — é expulso das terras que eles arrendavam. Na condição de abandono, destituídos de qualquer condição mínima de existência material, foram jogados nas estradas. Humilhados, restava apenas uma escolha frente ao leque possível de alternati‑ vas: roubar e furtar. Essas atitudes contribuíram para criar, embrionariamente, uma quantidade significativa de bens em espécie e de objetos. Os objetos sa‑ queados, em momentos oportunos eram trocados e transformados em espécie no mercado. Na condição de renegados dos seus espaços físicos — feudos —, os servos deixaram os membros das classes dominantes em alerta. 8

7. Enquanto as sociedades são movidas pelos costumes, o direito é uma peça desconhecida. No entan‑

to, com o desenvolvimento da divisão do trabalho técnico e social, as situações cotidianas tomam outros sentidos, pois deixavam de ter uma única posição teleológica para dar espaço para duas ou mais posições. Nessa sociedade mais evoluída, o direito era parte constitutiva da superestrutura para regular a economia e o projeto societário da classe dominante em voga.

8. Porém, além da situação desigual que os servos vivenciavam, duas manifestações cotidianas assola‑

ram a Idade Média central: a) por um lado, as classes dominantes começaram a ter que enfrentar as epidemias que assolavam as casas dos trabalhadores e opressores; b) a concorrência entre os poderes estabelecidos instaurou processos conflituosos — guerras civis — com a finalidade de conquistar novos territórios, condi‑ ção política necessária para ampliar o poder ou somente para defender o patrimônio em jogo. As relações entre os poderes estabelecidos contavam com o papel da Igreja Católica no processo de rearticulação dos poderes, bem como na convivência com outras dimensões da política e do seu domínio.

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Além do objeto “sagrado” terra, responsável por produzir alimentos para saciar as necessidades do estômago de todos e, quando possível, transformar parte em produtos excedentes para ser entregue aos senhores feudais, outros bens começaram a ser produzidos em escala comercial. Alguns trabalhadores, detentores de conhecimentos técnicos em criar objetos artesanais iniciam uma relação diferenciada no interior do feudalismo. Individualmente, constroem seus ofícios 9 e, na condição de mestres e/ou aprendizes realizam suas atividades criando e desenvolvendo objetos para serem comercializados. 10

A categoria ontológica “trabalho” requeria, nesse momento, uma atenção diferenciada. 11 Com a mudança embrionária nas relações de poder político e econômico, abriu‑se uma lacuna na história medieval para que o processo de trabalho determinante, pautado no objeto histórico — terra e seus instrumentos simples de intervenção —, fosse impactado em suas raízes. O trabalho humano, mediador no campo de possibilidades de realizações teleológicas, experimenta‑ va, cotidianamente, alterações em suas manifestações. Até aquele momento histórico medievo, a manifestação direta e intensa dos trabalhadores com a terra, ao colocarem suas energias físicas e psíquicas para o outro (senhor feudal), esta‑ belecia uma relação de total dependência. Na condição de servo, seu único en‑ contro com a vida resumia-se à figura de subordinação ao seu senhor e ao clero. A vontade do servo só se realizaria se a vontade do senhor fosse contemplada.

9. A formação da corporação tinha elementos fundantes que demarcaram historicamente sua existência. “Na sua organização interna, cada corporação era constituída por várias oficinas, as únicas que podiam produzir uma determinada mercadoria naquela cidade. Cada oficina pertencia a um indivíduo conhecido por mestre, dono da matéria‑prima, das ferramentas e do resultado econômico gerado pela produção. Os vários mestres formavam um colegiado que dirigia a corporação, isto é, que fiscalizava o respeito aos regulamentos corporativos. O mais importante destes era impedir qualquer diferenciação de produção (e, portanto, concor‑ rência) entre as oficinas: o tipo de matéria-prima, a quantidade produzida, o preço de venda deviam ser rigo‑ rosamente iguais. O fundamental era manter o espírito de cartel daquela associação” (Júnior, 1998, p. 55).

10. Os trabalhadores aprendizes, em sua maioria, após um período de experiências e apropriação dos

conhecimentos técnicos, emancipavam‑se, assumindo a titularidade de mestre artesão. Após autorização da Associação dos Artesãos, os neófitos aprendizes formados podiam abrir seus ofícios, dando continuidade ao ritual da corporação. Os conhecimentos técnicos transferidos aos trabalhadores aprendizes nos ofícios por meio dos mestres artesãos eram pagos em dinheiro pelos próprios aprendizes.

11. A centralidade do trabalho possibilita‑nos compreender como que a mediação realizada, durante o

processo de trabalho, independe de qual momento histórico, pois “o trabalho, portanto, enquanto formador de valores de uso, enquanto trabalho útil, é uma condição de existência do homem, independente de todas as formas de sociedade” (Marx, 1975a, p. 10).

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Agora, uma parcela de trabalhadores rompe a relação de dependência com o senhor, proprietário do feudo e estabelece, perante o outro que o dominava, uma relação de autonomia. A situação, criada e colocada em movimento, inaugurava

a reconstituição do processo produtivo que tinha, como objeto de trabalho, di‑ ferentes matérias‑primas, entre elas a terra.

Inovados personagens produtivos entraram em cena na esfera da produção

material. Mestres, artesãos e aprendizes avançaram em suas ações produtivas

e reprodutivas. Incorporados ao sistema político e econômico da época, cum‑

priram suas obrigações legais perante as ordens jurídicas de acordo e conforme a localização geográfica em que desenvolviam suas atividades e, rapidamente, organizavam‑se em entidades denominadas de guildas. 12 Organizados, amplia‑ vam suas forças políticas, pressionando a forma de ser e de existir do modo de produção capitalista, em sua fase embrionária, no que se referia à dimensão industrial. O artesão entrava em cena e registrava, nos anais da história da hu‑ manidade produtiva e reprodutiva, o campo de possibilidades em colocar‑se enquanto ser social na esfera da produção artesanal.

É a partir desse lugar que o trabalhador, artesão, passa a ter a condição de escolher o que, como e para quem produzir seus objetos. Suas decisões possi‑ bilitam estabelecer o encontro em sua totalidade com a natureza. O artesão atribuía vida às suas potencialidades, conhecia seus segredos e emocionava‑se com suas surpresas, agora não mais dirigida pelo olhar e vontade do outro, mas sim a partir da sua vontade.

Motivado pelo desejo próprio, autônomo, em sua forma de participar da vida econômica, política, social e religiosa da época em questão, os artesãos eram os responsáveis por colocarem determinada finalidade no objeto a ser transformado. Esse fazer cotidiano garantia que os artesãos, nas esferas

12. O artesão, ao defender seus interesses, deparou‑se com alguns problemas de ordem econômica e política. As primeiras associações, denominadas guildas, criadas a partir do século XI pelos comercian‑ tes — mercadores profissionais —, permaneceram ativas defendendo avidamente seus interesses duran‑ te o período medievo. Os comerciantes, por sentirem‑se ameaçados pela associação dos mestres artesãos, constituídos legalmente no século XII, criaram dificuldades aos artesãos — principalmente na esfera da legislação. Pressionadas permanentemente, apesar da solidez instituída, as associações profissionais de artesãos, formadas por mestres de várias oficinas, não conseguiram difundi-las o quanto esperavam e necessitavam.

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objetivo/subjetivas, chegassem, ao final, dominando a totalidade do processo de trabalho. O artesão mestre e seu aprendiz, ao pensarem, desenvolverem e efetivarem suas teleologias em determinado objeto material, apropriava‑se de conhecimentos técnicos e de outras determinações objetivo‑subjetivas. Este aprendizado possibilitava apropriar‑se de novas habilidades e descobertas de elementos diferenciados em todo o processo de produção. Na condição de

autor e ator durante o processo de trabalho, o artesão e seu aprendiz, cons‑ cientes ou não, compreenderam que, no final do processo, sujeito e objeto não eram os mesmos. Sujeito absoluto na relação com a natureza e com os próprios homens, o conhecimento de todo o processo de trabalho artesanal ficava sob

o domínio do artesão mestre e do aprendiz, o que os fortaleciam técnica e politicamente.

Em seu tempo e espaço, os artesãos livres, na condição de sujeitos da sua própria história, construíram características que demarcaram o processo de trabalho em que estavam vinculados: 1) As atividades cotidianas eram desenvolvidas no interior dos ofícios, com dimensões espaciais diferenciadas (acolhiam os mestres artesãos e seus aprendizes); 2) Os trabalhadores, inti‑

tulados mestres artesãos, eram proprietários dos ofícios, dos instrumentos de trabalho, da matéria‑prima, da apropriação do lucro acumulado no processo

e dos conhecimentos adquiridos, os quais, em diferentes níveis, eram socia‑

lizados com os aprendizes em condições particulares de confiança entre as partes; 3) A divisão técnica e social do trabalho no âmbito dos ofícios era de

extrema responsabilidade dos mestres artesãos, sendo que as atividades de‑ senvolvidas e seus diferentes movimentos não sofriam a divisão pormenori‑ zada durante a execução das atividades. Estas congregavam ações repletas de teor técnico, criando unidade entre o pensar e o fazer do artesão e, no processo, os trabalhadores aprendizes apropriavam‑se deste domínio; 4) A força de trabalho, impregnada de conhecimentos técnicos e intuitivos, incor‑ porava conteúdos que não permitiam que o outro alterasse o campo de deci‑ sões de forma direta e/ou indireta; 5) A autonomia dos artesãos, em todo o processo de trabalho, abria a possibilidade de os seres sociais exercitarem o campo da liberdade em diferentes sentidos (a liberdade de escolha ampliava o grau de reflexo em suas ações cotidianas, possibilitando avançarem em direção ao ser genérico); 6) A forma de produzir e reproduzir dos artesãos

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mestres e dos aprendizes incomodava outras forças vivas, em particular o poder dos burgueses comerciantes e de personagens nobres pertencentes a reinados em decadência.

Com o despertar e manifestação concreta do período medievo, marcado pela baixa Idade Média, os trabalhadores autônomos artesãos e seus aprendizes se viram em delicadas situações produtivas e reprodutivas. Pressionados pelas forças políticas e legais da época pertencentes ao fim da Idade Média e ao início do Renascimento (Heller, 1982), o artesanato autônomo, organizado política e profissionalmente, não conseguiu manter-se com a mesma força.

Novos atores e autores do processo histórico, capitalistas vinculados à indústria e ao comércio, efetivaram mediações necessárias, possíveis para criar um inovado sistema de produção e reprodução social. Porém o limite presente nas esferas da produção e da organização produtiva impediram a passagem e a realização do método de produzir artesanal para a manufatura. É no campo do possível que a produção, cooperação simples, entra em cena.

Processos de trabalho na modernidade

Acooperaçãosimples

O modo de produção capitalista tem seus primeiros fundamentos concre‑ tos no momento em que o personagem empreendedor — capitalista industrial 13 — conseguiu colocar, simultaneamente, um número expressivo de trabalhado‑ res sob o mesmo teto. 14 Esses, em condições específicas de vínculo empregatí

13. Para apropriar‑se dos conteúdos históricos da formação dos primeiros personagens — capitalistas industriais — a partir da cooperação simples, é necessário pautar‑se, entre outras referências, em Dobb, 1976.

14. A alteração realizada na esfera da organização do trabalho só foi possível porque os donos dos ofícios ampliaram os espaços de trabalho. Esta ação permitiu que os meios de produção aumentassem as condições de uso. O que era apenas utilizado, manuseado por um único trabalhador artesão, passou para o uso coletivo. Esse inovado procedimento possibilitou aumentar a produção de mercadorias, reduziu custos e multiplicou o lucro. O ponto alto dessa alteração no processo de trabalho — campo organizacional — fez com que o trabalho individual ganhasse a condição de trabalho social.

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cio trabalhavam diariamente, conseguindo, no final de cada dia, produzir mercadorias que atendiam ao campo das necessidades humanas dos trabalha‑ dores e de seus familiares, bem como uma quantidade significativa de merca‑ dorias excedentes. 15

Na condição de trabalhador autônomo, o trabalho desenvolvido pelo arte‑ são fora atingido em sua centralidade. A autonomia para dizer o que, como e para quem produzir foi ceifada em suas raízes. Sua vontade foi comprada pelo proprietário capitalista em processo de formação industrial em grande escala. 16 Voltado unicamente para a criação e a acumulação de valor, o trabalho objeti‑ vado diariamente era medido, naquele momento, não mais pela produção indi‑ vidual, mas sim por meio da quantidade social média produzida. “O método de trabalho pode ser o mesmo, porém o trabalho efetivado sob a lógica da empre‑ gabilidade coletiva põe em movimento uma revolução nas condições materiais

do processo de trabalho” (Marx, 1975b, p. 373).

O trabalhador, portador de conteúdos específicos de trabalho simples e/ou complexos, devido à nova forma organizacional em movimento criado pelos

donos das pequenas fábricas, sofreu alterações em seu pensar e fazer cotidiano.

O conhecimento técnico adquirido historicamente, parte constitutiva em sua

essência individual, foi provocado a deixar de existir por meio da realização de atividades pormenorizadas. Em decorrência dessa alteração, a criatividade desenvolvida socialmente pelo trabalhador foi distribuída sem nenhuma preo‑ cupação com sua individualidade, por parte do empregador.

Esse mecanismo mostrou que o trabalho combinado aumentava a produção

de mercadorias em menor tempo. Simultaneamente, esse mecanismo permitiu

que os custos operacionais e sociais fossem reduzidos, garantindo maior lucro

ao capitalista. Porém, não é possível negar que o exercício coletivo — trabalho

15. Registrava‑se que esses trabalhadores, ainda no princípio, trabalhavam em ofícios um pouco maior que os existentes nas esferas produtivas focadas no artesanato. Este fator mostrou que, “de início, a diferen‑ ça é puramente quantitativa” (Marx, 1975b, p. 370).

16. A ação do dirigente naquele momento histórico — cooperação simples — não era a de ensinar as atividades diárias, mas vigiar os trabalhadores, pois os conhecimentos técnicos das atividades ainda estavam sob o controle dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, a maioria dos trabalhadores possuía uma quantidade expressiva de ferramentas particulares, bem como o conhecimento da totalidade do processo de trabalho. Cabia ao dirigente da fábrica o papel de tentar subordinar a vontade alheia aos seus próprios interesses.

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combinado — era expressão concreta da superação dos limites presentes em cada individualidade. Este imprime alterações significativas no âmbito organi‑ zacional do trabalho coletivo, contribuindo decisivamente, enquanto momento laboratorial, para a criação, o desenvolvimento e a efetivação dos processos de trabalho vivenciados na manufatura e posteriormente na maquinaria.

Aos poucos, o coletivo que se movimenta para produzir também começa

a reunir‑se para questionar a forma de relação estabelecida entre capital/traba‑

lho: a resistência em cumprir ordens superiores manifesta‑se, de forma em‑ brionária, no interior do ofício. O despotismo e suas peculiaridades, no interior do ofício, colocaram elementos concretos de antagonismos e contradições, criando focos de resistência por parte dos trabalhadores em materializarem o projeto em movimento. No entanto, em condições desiguais no que tangia às relações de poder e às correlações de forças estabelecidas, impediram que os mecanismos de resistências dos trabalhadores se efetivassem naquele momen‑ to histórico‑social.

Em condições desiguais, subordinados aos caprichos dos capitalistas, os trabalhadores assalariados não conseguiram impedir as mudanças profundas ocorridas na esfera organizacional durante o desenvolvimento do processo de trabalho. Mais uma vez os trabalhadores, sem condições reais históricas para apresentar reações orgânicas de classe em si e/ou para si, fragilizaram‑se, per‑ mitindo aumentar o poder dos empresários capitalistas, os quais conseguiram impor, no campo da consciência dos trabalhadores e de seus familiares, conteú‑ dos ausentes de relações históricas. A partir desse momento, movida pela rela‑ ção capital/trabalho profissional ou de classe social, “a força de trabalho torna‑ ‑se, no campo da consciência individual e coletiva, um bem natural e imanente ao capital” (Marx, 1975b, p. 382).

O trabalhador, ao deixar de ser proprietário de suas ferramentas, bem como do conhecimento da totalidade do processo da produção, transformou‑se em uma mercadoria assalariada livre, disposta a ser comprada no mercado confor‑ me as condições objetivas encontradas em cada país, naquele momento histó‑

rico, com ênfase maior na Inglaterra. Esse fato histórico, material, concreto e contraditório, estabeleceu o alicerce para que o processo de trabalho sedimen‑ tado sob a determinação da manufatura conseguisse implantar sua forma de ser

e de existir.

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Amanufatura

Os trabalhadores mantiveram-se firmes em seus propósitos durante o processo de trabalho movido pela cooperação simples: não permitiram que os donos das fábricas se apropriassem dos conteúdos técnicos; a “redoma de vidro” permanecia intacta, resistindo aos impactos diários emitidos pelos donos dos meios fundamentais da produção; sabiam, mas não entendiam ainda que resis‑ tir na condição de trabalhador era a única forma concreta de impedir o domínio total sobre a força de trabalho individual e coletiva. Porém, apesar de resistirem aos processos interventivos dos donos das fábricas em relação aos seus conhe‑ cimentos simples e complexos, não conseguiram reverter a situação concreta:

deixar de ser subordinados aos donos das fábricas.

Durante os séculos XVI a XVIII, a produção manufatureira ocupou o lugar da cooperação simples. 17 Com a união e a combinação de ofícios diferentes em maior escala e mudanças na esfera organizacional das atividades de cada tra‑ balhador, criou‑se a base estrutural fundada no processo de trabalho capitalista industrial denominado manufatura.

Destituídos integralmente das suas ferramentas, mais uma vez os traba‑ lhadores fragilizam‑se, restando apenas uma única mercadoria sob o seu domí‑ nio: a força de trabalho livre. Impossibilitados de fazer escolhas entre alterna‑ tivas, todos os dias são obrigados a vender sua força de trabalho aos proprietários dos meios fundamentais de produção. 18 Sob a orientação do em‑ pregador capitalista industrial manufatureiro, os trabalhadores ocupavam uma nova disposição organizacional na fábrica — para cada trabalhador, uma ban‑ cada. “As operações são destacadas, uma das outras, isoladas, justapostas no espaço, cada uma delas confiada a uma artífice diferente de todas executadas

17. O encerramento deste modelo no final do século XVIII não impediu que, em diferentes tempos e espaços, até os dias atuais, manifestações esporádicas continuem ocorrendo conforme os princípios materiais da manufatura clássica.

18. O capitalista industrial tornou‑se, a partir do século XVIII, o principal agente em negociar, no mercado, o que mais lhe interessava — a força de trabalho humana livre. Diferente do método interventivo referenciado na cooperação simples, naquele momento os trabalhadores ampliavam suas dependências em relação ao empregador: empobrecidos, vendiam suas ferramentas aos novos capitalistas. Literalmente desti‑ tuídos dos seus bens de trabalho, tornaram‑se proprietários apenas da sua força de trabalho simples ou complexa para ser comercializada no mercado igual a qualquer outra mercadoria.

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ao mesmo tempo pelos trabalhadores cooperantes” (Marx, 1975b, p. 388). Nasce um novo movimento sistêmico de produção, com um adendo: permane‑ ce o trabalho humano vinculado diretamente ao objeto e aos instrumentos de trabalho. “Qualquer que seja, entretanto, seu ponto de partida, seu resultado final é o mesmo: um mecanismo de produção cujos órgãos são seres humanos” (Marx, 1975b, p. 389).

Os trabalhadores contratados perderam o domínio da compreensão da totalidade do processo, mas permaneceram desenvolvendo suas atividades operando as ferramentas com suas próprias mãos e, quando necessário, utiliza‑ vam o auxílio de outros membros do corpo humano. Mesmo convivendo no interior de um novo processo de trabalho, suas ações eram coordenadas de forma direta por atividades que ainda dependiam, em todo o processo, da habi‑ lidade individual de cada trabalhador assalariado. Manusear o instrumento de trabalho e dar direção à teleologia presente em cada objeto dependia das con‑ dições objetivo‑subjetivas de cada trabalhador. Essa situação permite‑nos cer‑ tificar que as relações estabelecidas no processo de trabalho dominado pela manufatura não ofereceram condições concretas para que durante o processo o desenvolvimento e a efetivação de uma base técnica fossem implantados. “Aperfeiçoa‑se o método de trabalho devido à repetição. Maior produtividade com menor esforço. Os conhecimentos parciais firmam-se, acumulam-se e se transmitem” (Marx, 1975b, p. 390), 19 mas o trabalho humano ainda comanda.

Isolado, o trabalhador era obrigado, todos os dias, a vivenciar a mesma experiência: relacionar e intervir em determinado objeto de trabalho fracionado em processo de transformação. Ocorria uma independência entre as atividades, permitindo que o empregador, por meio do controle supervisionado, criasse condições objetivo/subjetivas para que cada trabalhador aumentasse a sua pro‑ dução. Esse mecanismo, ao necessitar da interferência humana — controlar o

19. Mesmo trabalhando sob a lógica da atividade especializada, o trabalhador conseguia apreender algo:

ao efetivarem‑se, todos os dias, os mesmos atos, tinha a percepção pontual que a ferramenta que operava no decorrer de algum tempo de trabalho apresentava limites. Nesses momentos, o trabalhador individualmente ou em conjunto com outros trabalhadores aperfeiçoava ou criava novas ferramentas. Ao operar novas ferra‑ mentas, o grau de dificuldade era determinado em cada operação em suas ações, porém não garantia que teriam menor grau de dificuldade. Ao mesmo tempo, não garantia que o empregador, de posse de um novo ou inovado instrumento de trabalho, mais ágil e melhor rendimento, não intensificasse a cobrança para re‑ sultar em maior produtividade.

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outro —, permite compreender que a manufatura também não é um processo produtivo natural, mas sim histórico, social, determinado pela divisão social e técnica do trabalho coletivo em determinado movimento histórico, temporal e espacial (Marx, 1975b).

Esse mecanismo de isolamento seguido de vigilância fez com que o tra‑ balhador se tornasse dependente do próprio trabalho que executava, pois quan‑ do o contrato de trabalho era interrompido por uma das partes, uma lacuna se colocava entre a sua condição de vida no trabalho e fora dele. Nesse momento, um campo de incertezas abriu‑se para o trabalhador, destacando: onde ele iria realizar a mesma atividade produtiva? Na condição de trabalhador especialista em atividades simples e repetitivas era possível encontrar alguém que o contra‑ tasse para fazer a mesma tarefa pautada em dada “continuidade, uniformidade, regularidade, ordenamento e notadamente intensidade de trabalho que não al‑ cançam no ofício independente e nem mesmo na cooperação simples”? (Marx, 1975b, p. 396). 20

Com o isolamento do trabalhador, a divisão técnica do trabalho intensifi‑ cava e o trabalho coletivo passava a ser constituído de muitos trabalhadores que atuavam em atividades parciais. O coletivo era, no modo de produção capita‑ lista durante o processo desenvolvido na manufatura, a soma de mais destrezas, mais habilidade e mais força. Essa soma escondia o parcelamento, pois o todo orgânico final apresentava-se enquanto um todo que somente quem consegue pensar o processo pode compreender a soma das partes. Mesmo assim, é uma totalidade fundada na compreensão racional lógico‑gnosiológica, e não onto‑ lógica consciente ou não. Sob esse prisma positivista, a totalidade não é com‑ preendida enquanto unidade que se constrói na diferença.

Diante da hierarquia salarial, conforme relações estabelecidas entre os trabalhadores e empregadores, o lugar ocupado pelas partes contratantes ia se definindo com clareza e precisão: Particulariza-se o lugar que o trabalhador ocupava no processo de trabalho. O lugar que ocupava explicitava o grau de complexidade ou não desenvolvido em sua atividade, definindo, automatica‑ mente e/ou por meio de acordos — individuais ou coletivos — de trabalho, o

20. Pergunta‑se: será que esta forma concreta do processo de trabalho manufatureiro antecipou elemen‑ tos que estão presentes nos processos de trabalho movidos pelos modelos fordista/taylorista e toyotista de executar a produção capitalista?

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valor da remuneração salarial. Cabia ao trabalhador produzir em escala, elasti‑ cizando, todos os dias, sua força de trabalho, contribuindo decisivamente para aumentar a produção de mercadorias excedentes (Marx, 1975b; Braverman, 1981). Sob a direção única dos empregadores, o parcelamento das atividades em escala de crescimento, pautada sob a lógica da progressão geométrica, faz com que a manufatura crescesse conforme expandia o mercado mundial. Se por um lado esse crescimento satisfazia os filisteus, donos das fábricas, os traba‑ lhadores distanciavam‑se cada vez mais das possibilidades de ampliarem suas dimensões genéricas. A sociabilidade burguesa decretava: “construímos uma nação de hilotas e não temos cidadãos livres” (Marx, 1975b, p. 406).

Aqui, Marx coloca‑nos uma questão cêntrica: o trabalho coletivo permitiu que a diferença de cada trabalho individual conectasse‑se a uma totalidade. Assim, nenhum trabalhador parcial produzia uma única mercadoria. “Só o produto coletivo dos trabalhadores parciais transformam‑se em mercadoria” (Marx, 1975b, p. 407). No entanto, o resultado coletivo não era dividido para todos os envolvidos no processo de trabalho, mas de propriedade única do ca‑ pitalista, proprietário dos meios fundamentais de produção. O trabalhador as‑ salariado ou com outro tipo de vínculo diferenciado, enquanto vendia sua mercadoria, força de trabalho, permanecia subordinado, para sempre, condena‑ do a viver, para sempre, sob o desejo do outro.

No entanto, os capitalistas industriais precisavam reconhecer seus pares, todos aqueles que operavam suas atividades com os mesmos propósitos, ou seja, acumular valor. Unidos para atingir o mesmo fim, organizam-se em associações e/ou agremiações com o propósito de manter e ampliar seus negócios. Na con‑ dição de categoria de proprietários em seus diferentes níveis e setores, defendiam, incondicionalmente, as regras do mercado, em particular a livre‑concorrência. 21

Para que seus propósitos fossem atingidos — acumulação de valor —, os proprietários dos meios fundamentais do processo de produção industrial eram obrigados a buscar saídas. Naquele momento não havia dúvida com relação aos

21. No entanto, quando eram afetados pela própria lógica da livre‑concorrência entravam em desespe‑ ro e, sem nenhum pudor aos próprios princípios acordados entre pares, usavam de manobras com diferentes conteúdos. O importante nesse momento era criar condições para retornar às mesmas condições anteriores. Quando não conseguiam retornar ao mercado em condições equilibradas, muitos entravam em falência, o que contribuía, decisivamente, para que a concentração do capital fosse ampliada em diferentes setores produtivos e/ou reprodutivos.

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encaminhamentos realizados por aqueles filisteus. Em condições de desigual‑ dade no mercado, os trabalhadores tornavam‑se presas fáceis nas mãos dos donos das fábricas, garantindo a reprodução do projeto societário burguês em desenvolvimento. 22 Trabalhadores — homens, mulheres e crianças —, destituí‑ dos dos meios fundamentais do processo produtivo e, unicamente, portadores da força de trabalho, eram contratados e, à mercê da vontade despótica do empregador, eram expropriados, intensamente, no máximo das suas energias, físicas e psíquicas. Ocorria uma elasticização da força de trabalho, as quais ganhavam proporções diferenciadas conforme os capitalistas aperfeiçoavam seus meios fundamentais de produção e reprodução social. Para a felicidade do empregador, o resultado era imediato: o trabalho excedente aumentava, trans‑ formava‑se em mais‑valia absoluta e parcialmente relativa. Fora da “redoma de vidro” o poder de resistência dos trabalhadores fora atingido em sua centrali‑ dade. Frente a esta nova situação concreta, Marx (1975b, p. 412) observa:

“Enquanto a cooperação simples em geral, não modifica o modo de trabalhar do indivíduo, a manufatura o revolucionava inteiramente e se apodera da força de trabalho individual de trabalho em suas raízes.”

Ao chegar esse patamar da relação entre capital/trabalho, o trabalhador em sua atividade estava deformado, mutilado, respondendo de forma automática a um trabalho parcial (Marx, 1975b). Após realizarem suas atividades durante dias, meses e anos, os trabalhadores somente eram reconhecidos, socialmente, por meio da razão de ser do outro — o seu empregador. Na condição máxima de coisificação, 23 o trabalhador expressava‑se em situação única, alienado do processo de trabalho, do produto por ele criado e das próprias relações estabe‑ lecidas com os outros trabalhadores. O trabalhador, na condição de alienado, somente encontrava sua felicidade na vontade do outro, ou seja, na figura do senhor dos meios fundamentais de produção, naquele momento identificado enquanto capitalista industrial. Essa forma despótica de expropriar a força de trabalho aprimorava‑se e atingiu profundamente a totalidade da classe trabalha‑ dora. Mas o pesadelo que atormentava os trabalhadores e seus familiares ainda estava apenas começando.

22. Dos elementos constitutivos do processo de trabalho, o trabalho humano é o único que cria valor

(Marx, 1975b).

23. Para aprofundar a discussão, consultar Lefebvre (1999); Lukács (1989); Netto (1981) e Marx (1975b).

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Ao despertar do amanhecer, sem pedir licença, um novo processo de tra‑ balho entrava em cena em todos os lares, retirando as forças de trabalho produ‑

tivas

e as subordinavam. Esse mecanismo diário e repetitivo era coroado com

uma

nova forma de desenvolver o modo de produção capitalista industrial.

Construído por meio de avanços da técnica, da ciência e da filosofia, os proprie

tários industriais apresentaram, aos trabalhadores e seus familiares, o seu novo instrumento de trabalho: a máquina movida a vapor. Nascia a indústria moderna.

Amaquinariaeaindústriamoderna

“No novo tempo, apesar dos perigos” 24

As relações estabelecidas entre os homens e a natureza, bem como entre

os próprios homens, revolucionaram a forma de pensar e de fazer no Ocidente, em particular no continente europeu a partir da última quadra do século XVIII.

Esse

novo tempo espraiou seus propósitos intensamente, durante os séculos

XIX

e XX, para todos os continentes. O agora, em sua singularidade, colocava

uma

nova síntese do que era até alguns instantes próximos, sinalizando campos

de necessidades e possibilidades para o que havia de vir. O processo de trabalho movido pela máquina a vapor inaugurava a indústria moderna. 25

Colocado em movimento por meio do instrumento máquina, movido a vapor, pela presença da matéria‑prima e pelo principal elemento do processo de trabalho — a força de trabalho humana —, nascia, no interior do velho pro‑ cesso de trabalho (pautado na manufatura), a maquinaria, um processo que se estendeu para além dos simples atos de rituais de passagem, manifestando‑se nas fissuras da base de produção manufatureira.

24. “Novo tempo” letra e música de Ivan Lins.

25. A Revolução Industrial atingiu seu auge, num primeiro momento, por meio da descoberta da má‑ quina movida a vapor no final do século XVIII, tendo como palco principal a Inglaterra. Esse processo revolucionário no campo da ciência e da técnica foi aprofundado no final do século XIX com a descoberta do motor elétrico e da explosão, inaugurando a segunda revolução científica e técnica. No entanto, a terceira Revolução Industrial foi marcada pelo domínio da energia nuclear e do desenvolvimento da microeletrônica conquistada durante a Segunda Guerra Mundial (Mandel, 1985).

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O novo que se colocava — a maquinaria — incorporava algumas conquis‑ tas de ordem organizacional e técnica criadas e desenvolvidas durante o período manufatureiro. O legado deixado pelo processo de trabalho desenvolvido e efetivado na manufatura deixou registrados conteúdos fundantes: a) as ferramen‑ tas eram manipuladas por mãos humanas; b) cada ferramenta em seu campo de possibilidades e limites pertencia ao domínio de um único trabalhador; c) as atividades, parceladas individualmente, atingiam grau máximo de saturação; d)

os resultados quantitativos foram ampliados, no entanto os sujeitos, trabalhado‑

res, conseguiram visualizar, perceber e, em muitos casos, acompanhar a totali‑ dade do processo de produção, porém seu campo de reflexo era reduzido à sua especialidade; e) a especialidade, ao retirar os conteúdos autocriativos de cada trabalhador, em sua totalidade, colocava‑os na condição de escravos de uma atividade especializada, repetitiva, negadora do trabalho humano; e) os trabalha‑ dores resistiram aos impactos diretos e indiretos provocados pelo modelo ma‑ nufatureiro de produzir e reproduzir socialmente. Mas, devido à força econômi‑ ca e política da classe burguesa em processo de desenvolvimento e efetivação, não conseguiram avançar para além das reivindicações de classe em si.

Superando essa fase do desenvolvimento do modo de produção capitalis‑

ta manufatureiro, porém não a eliminando em sua totalidade até os dias atuais,

a máquina de fiar mudou completamente a relação produtiva e reprodutiva estabelecida entre capital‑trabalho. Em 1735, John Wyatt colocou em movi‑

mento, no palco da modernidade, a Revolução Industrial em sua primeira fase. 26

O motor, a transmissão e as dimensões da máquina ferramenta passaram a co‑

mandar o inovado cenário. O processo de trabalho movido pela máquina a vapor nascia no interior do velho — a manufatura — e convidava todos a ce‑ lebrar as conquistas historicamente constituídas. Um mecanismo “morto” passava a dirigir os movimentos humanos sob o comando teleológico do capi‑ talista. Dominante na relação, a máquina ferramenta movida a vapor apropria‑ va‑se dos objetos, matéria‑prima e/ou bruta, e, sem pedir licença, entrava em suas intimidades, impondo seus desejos subjetivos‑objetivos. Ao trabalhador restava apenas o papel de vigiar a máquina.

26. “Entre 1764 e 1767, James Hargreaves, carpinteiro‑tecelão em Blackburn, inventava uma simples máquina manual chamada Jenny, por meio da qual uma mulher podia fazer, ao mesmo tempo, seis ou sete fios; mais tarde, ia até oitenta fios” (Ashton, 1971, p. 94). No entanto, essa descoberta revolucionária apre‑ sentou consequências sociais imediatas à classe trabalhadora emergente.

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É na cidade que ocorre, num primeiro momento, o desenvolvimento do processo de trabalho que tem como instrumento principal a máquina movida a vapor. 27 As barreiras orgânicas que impediam os homens de revolucionarem suas formas de ser e de existir são superadas. A vitória da técnica e da ciência transferida para a máquina colocou, abertamente, o limite que a força de traba‑ lho trazia em sua totalidade, não conseguindo produzir movimentos uniformes

e contínuos em alta velocidade.

Agora, superadas as barreiras orgânicas com a realização do processo de trabalho movido pela máquina a vapor, é possível afirmar que, na manufatura,

a relação estabelecida entre o trabalhador, o objeto e o instrumento de trabalho

ocorria, totalmente imbricada, enquanto na maquinaria o trabalhador perdeu o domínio dessa relação e tornou‑se um apêndice da máquina. O trabalhador, todos os dias, desde o início até o final das suas atividades — isoladamente — era responsável por vigiar uma máquina que desenvolvia um movimento parcial. Assim, “na manufatura, o isolamento dos processos parciais é um prin‑ cípio fixado pela própria divisão do trabalho, na fábrica mecanizada, ao contrá‑ rio, é imperativa a continuidade dos processos parciais” (Marx, 1975b, p. 434).

Como pode um mecanismo “morto” comandar? Como pode um mecanis‑ mo “morto” tornar‑se sujeito no desenvolvimento do processo de trabalho?

Vejamos. Durante o processo de trabalho pautado na manufatura, os tra‑ balhadores, na condição de chefes de setores, supervisores e/ou gerentes das atividades nas fábricas, retiraram os trabalhadores da “redoma de vidro” que os protegia. Na maquinaria, os proprietários das vontades objetivas e subjetivas dos trabalhadores parcelavam e isolavam suas atividades, apropriando‑se dos conhecimentos técnicos presentes em cada trabalhador individual e coletivo. Destituídos dos conhecimentos que adquiriram em suas atividades diretamente ou legadas historicamente, perderam a compreensão da totalidade do processo, permanecendo apenas, sob o seu controle, o domínio de conhecimentos simples. 28

27. Nascem as fábricas modernas. A cidade é o universo efetivo das transformações objetivas‑subjetivas em percurso. A natureza e o ser social são transformados. Marx (1975b, p. 431) enfatiza: “A máquina a vapor é a mãe das cidades industriais”.

28. A organização do processo de trabalho na indústria ampliava suas particularidades, deixando de garantir a presença cêntrica da esfera da subjetividade do trabalhador que desenvolvia suas atividades com‑ binadas durante o processo de trabalho manufatureiro, efetivando a constituição de atitudes objetivas com mínimas inferências subjetivas. Naquele momento, o trabalhador se deparava com o que era um instrumento

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Conforme as dificuldades eram apresentadas aos proprietários capitalistas na esfera técnica e/ou organizacional, novos investimentos foram realizados e efetivados, alterando e aperfeiçoando as máquinas, criando condições satisfa‑ tórias para ampliar a extração da mais‑valia relativa. As transformações técnicas, científicas e as mudanças na esfera organizacional que ocorreram nas indústrias foram incorporadas conforme as condições dadas em outros setores da produção e da reprodução social. 29

Em condição desigual no campo das correlações de forças no mercado, os trabalhadores subordinaram‑se à vontade do proprietário dos meios fundamentais de produção. Sem escolha, a máquina obrigava‑o a seguir os seus movimentos, seu ritmo, aumentando a elasticidade da força de trabalho humana em grau má‑ ximo de resistência física e psíquica. O resultado foi imediato. O trabalhador passou a conviver com saturações concretas que explicitavam o quadro negador de sua existência em suas dimensões, material e espiritual. Ao mesmo tempo, o capitalista festejava o aumento exponencial dos seus lucros, obtido por meio da expropriação do trabalho humano não pago. A mais‑valia relativa passou a do‑ minar a forma de expropriação diária do trabalho humano no mercado. 30

A mais‑valia, extraída durante o processo de trabalho dominado pela ma‑ quinaria deixava de caracterizar‑se somente como absoluta, impondo uma nova forma dominante: a relativa. Conforme a ciência e a técnica avançavam, novos ajustes ou descobertas foram incorporados às máquinas, possibilitando aumen‑ tar a extração da mais‑valia relativa, alterando profundamente as relações de poder e de correlações de forças entre capital/trabalho na esfera produtiva e reprodutiva. Esse cenário teve desdobramentos imediatos: os salários dos tra‑ balhadores foram reduzidos e os lucros dos capitalistas aumentaram, trazendo,

pronto, acabado. Essa era a sua ferramenta, aquela era a sua nova relação. O instrumental de trabalho era quem impunha atitudes individuais e coletivizadas, pois suas dimensões técnicas presentes nos instrumentos necessitam de que as relações no processo de trabalho encerrem‑se sob o domínio do instrumento.

29. Setores como o transporte e a comunicação foram afetados em grandes dimensões, revolucionando suas bases, permitindo responder às demandas postas pela criação de navios a vapor, das linhas férreas, dos transatlânticos e dos telégrafos (Marx, 1975b).

30. A partir do momento que a mais‑valia relativa era dominante durante o processo de trabalho movi‑ do pela maquinaria, Lukács (1979, p. 54) explicita o salto ontológico presente no humano em relação à na‑ tureza. Nesse momento, com “a introdução das máquinas fez‑se com que o homem e sua capacidade de trabalho não fossem mais os fatores determinantes do trabalho, que o próprio trabalho humano fosse desan‑ tropomorfizado”.

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como consequência o aprofundamento das manifestações da “questão social” (Batista, 2002). Em destaque, após 1830, o contingente de pobres e miseráveis, em números exponenciais, nas cidades e nos campos, em todo o continente europeu, com destaque na Inglaterra, berço do desenvolvimento do capitalismo industrial moderno, clássico, 31 passa a incomodar os membros da classe bur‑ guesa em seus diferentes níveis (Engels, 1985; Dobb, 1976).

Convivendo com situações adversas diariamente, os trabalhadores e seus familiares começaram a dar vazão aos seus propósitos de classe em si e para si. O germe da contradição, o proletariado industrial começou a se movimentar. Se num primeiro momento atearam fogo, quebraram ou roubaram máquinas, agora iniciam uma nova forma de manifestar‑se. Organizados em associações, agremia‑ ções, sindicatos e, posteriormente, em partidos políticos, registraram na história da classe trabalhadora a forma madura de enfrentar o projeto burguês, fonte cêntrica responsável pela sua negação em sujeito historia individual e coletivo.

Ameaçados pelo germe da contradição — o proletariado industrial —, a classe burguesa, por meio de seus representantes, não assistiu passivamente às ações políticas apresentadas pelos trabalhadores por meio das suas manifesta‑ ções, organizadas ou não. Sem hesitar, os representantes orgânicos da classe burguesa, em fase de efetivação de seu projeto societário, utilizaram instrumen‑ tos jurídicos, políticos ideologizados e a força repressora do Estado para conter a classe trabalhadora em movimento por meio de suas entidades representativas. A classe burguesa abandonou suas teses progressistas, 32 retirando o véu que encobria os seus verdadeiros propósitos de projeto societário enquanto classe social dominante.

Com as mudanças radicais ocorridas no processo de trabalho comandado pela máquina, a força de trabalho dos operários homens — chefes de família — recebeu diferentes inferências que alteraram a relação direta com o objeto de trabalho, bem como com o seu campo subjetivo em questão. No entanto, no momento em que a máquina destruía a relação do trabalho humano com os objetos e instrumentos de trabalho, além de fragmentar as atividades, sua

31. Segundo Marx (apud Lukács, 1979, p. 121) “define como ‘clássico’, simplesmente, o desenvolvi‑ mento no qual as forças econômicas, determinantes em última instância, se expressavam de modo mais claro, evidente, sem interferência, sem desvios etc., que nos demais casos”.

32. Cf. Coutinho, 1972, p. 9.

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conduta também fragmentava cada indivíduo em múltiplas dimensões nega‑ doras. A brutalidade condicionava a maioria dos trabalhadores a desenvolver uma única função: vigiar um mecanismo morto que ganha vida pelas desco‑ bertas mecânicas e, posteriormente, a vapor e elétricas. Esse fato concreto permitiu ao capitalista eliminar um quantitativo expressivo de atividades que necessitavam da presença do trabalhador homem — adulto — e da sua força física. Nesse momento a força de trabalho das mulheres e crianças é contrata‑ da, independente da idade ou sexo, desenvolvendo suas atividades em casa ou na fábrica. 33 Essa prática contribuiu decisivamente para que esses trabalhado‑ res incorporassem o sentimento de donos do seu tempo de trabalho e do seu negócio. Tem‑se a ilusão de que estão trabalhando com autonomia e livres das amarras do capital. Na atualidade, a partir da última quadra do século XX, essa prática recebeu o nome de produção terceirizada autônoma (Sennett, 1999).

Não bastasse a sua própria condenação, os trabalhadores homens, chefes de família, assumiram a condição de “traficantes de escravos” (Marx, 1975b), negociando no mercado a contratação do trabalho das suas esposas e filhos. Instaurou‑se um inovado processo do capital em relação ao trabalho livre, de‑ senvolvendo a base e a efetivação de elementos destrutivos dos laços afetivos e políticos familiares. Frente a essa nova situação histórica revolucionária, Marx e Engels (1963, p. 25) enfatizaram: “A burguesia rasgou o véu de sentimentalismo que envolvia as relações de família e reduziu‑as a simples relações monetárias”.

A força de trabalho das mulheres e crianças tinha, em sua propriedade natural física e psíquica, elementos que a tornavam mais flexível (Sennett, 1999).

33. A presença das mulheres e crianças (na condição de escravos do senhor feudal) em atividades rela‑ tivas à produção industrial voltada para a tecelagem era corrente desde o século XII. Essas atividades eram desenvolvidas em suas casas na área rural (Heers, 1988). É necessário enfatizar que na manufatura clássica criaram‑se condições para que a casa do trabalhador pudesse ser uma extensão da fábrica, colocando em movimento a força de trabalho de crianças e mulheres. “Flexibilizando” a forma de contrato trabalho, os donos das fábricas pagavam seus empregados e familiares por peça, por lote de material produzido ou outro mecanismo semelhante, conseguindo reduzir custos, aumentar a produção e, consequentemente, seus lucros. Esse mecanismo foi incorporado com maior intensidade no processo de trabalho movido pela máquina no século XIX, bem como nos processos de trabalho desenvolvidos também pelo método de intervenção taylo‑ rista/fordista e toyotista no século XX. Ao trazer esse modelo de extensão do trabalho para a casa do traba‑ lhador, o capitalismo inaugura o desenvolvimento de atividades produtivas “flexibilizadas” para além da fábrica e, ao mesmo tempo, quando possível, o proprietário das fábricas criou a figura do empresário inter‑ mediário, terceirizando parte da produção, fazendo aumentar a extração da mais‑valia absoluta e relativa, bem como retirando das suas obrigações as responsabilidades que recaiam sobre os contratos de trabalho.

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Além de realizarem atividades que exigiam alto grau de sensibilidade e ades‑ tramento, eram trabalhadores flexíveis por aceitarem, com mais facilidade, o processo de subordinação com menor grau de reivindicação ao capitalista, se comparados com as posições efetivadas pelos trabalhadores homens adultos. Essas condições, historicamente determinadas pelo trabalho humano de mulhe‑ res e crianças, contribuíram, significativamente, para ampliar a produção e, como consequência direta, para ser expropriada sem medida, aumentando a mais‑valia absoluta e principalmente a relativa em favor do empregador.

No mesmo local em que se encontravam esses novos trabalhadores a ser‑ viço do capital, homens de diferentes idades, na fase adulta, não conseguiam vincular‑se formalmente no mercado. O exército de reserva aumentava, pres‑ sionava os trabalhadores empregados e ampliava a demanda para empregar‑se no âmbito social organizado sob a lógica mercadológica. A concorrência, me‑ canismo intrínseco ao modo de produção capitalista em sua fase industrial moderna, reclamava por um espaço permanente no mercado.

A máquina, sujeito do processo de trabalho enquanto instrumento, fazia imperar a consolidação da concorrência entre os trabalhadores e entre os próprios capitalistas. De um lado, com a contratação de mulheres e crianças para operar as máquinas modernas, a concorrência entre os trabalhadores se intensificou. A força de trabalho masculina sofreu um golpe fatal, bem como toda a classe trabalhadora. Os trabalhadores homens, adultos, passaram a conviver com de‑ terminações particulares: aumento do desemprego exponencial da força de trabalho masculina adulta em detrimento da contratação da força de trabalho livre de crianças e mulheres. Esse fenômeno acarretava o fortalecimento dos donos das fábricas, que, ao receberem solicitações de aumento de demanda de força de trabalho no mercado, posicionavam‑se como capitalistas para ampliar a mais‑valia. 34 Pressionados pelo processo de concorrência já sedimentado no

34. Enquanto os capitalistas ampliam o acúmulo de mais‑valia, nas famílias dos trabalhadores as esta‑ tísticas de mortes de crianças aumentam diariamente, principalmente devido ao fato de as crianças permane‑ cerem em suas casas sem os cuidados básicos necessários das suas mães. Essas, para poderem sobreviver e contribuir com a renda familiar, são obrigadas a vincular-se aos trabalhos fabris. Ao mesmo tempo, verifica‑ ‑se o aumento de crianças que são abandonadas. Ocorrem ainda registros que acusam o uso de medicamen‑ tos em crianças que precisam de maiores cuidados, com a finalidade de tranquilizá-las do incômodo que manifestam. Certifica-se ainda, a céu aberto, a presença do aumento da prostituição infantil. Esse fato con‑ creto atinge em sua raiz a questão moral burguesa.

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interior do próprio sistema produtivo do mercado de trabalho, os trabalhadores disputavam entre si um lugar para trabalhar, sujeitando‑se a realizar atividades precárias em diferentes níveis: na relação de vínculo empregatício, reduzindo salário ou aceitando outras formas de pagamento despóticas; nas condições em que desenvolviam suas atividades nos espaços físicos das fábricas, não ques‑ tionavam as condições insalubres e a carga horária excessiva no trabalho diário, aceitando trabalhar em situações muito parecidas com as dos animais. Traba‑ lhando em condições aviltantes, perderam força política na esfera organizativa coletiva; fragilizando suas forças de poder de negociação, de avanço no campo dos direitos, postaram suas ações em atitude de recuo, e, para manter‑se vivos buscavam, a qualquer custo, garantir o próprio emprego. 35

Ao mesmo tempo, a classe burguesa também tinha que enfrentar suas dificuldades de posicionamento de classe. Ocorria na esfera do mercado uma guerra de interesses entre os próprios capitalistas em suas diferentes posições de classe, produtiva ou reprodutiva. Aqueles que conseguiam obter maior vantagem permaneciam no mercado e, em casos particulares, deixavam o lugar ocupado de capitalista na dinâmica geral e ganhavam posições de poder no mercado, transformando seus investimentos acumulados em monopólios e/ou oligopólios.

Mas as grandes diferenças eram demarcadas no chão das fábricas. Naque‑ le espaço, a contradição, presente na relação estabelecida entre capital/trabalho, fora colocada em movimento. Um número expressivo de trabalhadores perma‑ necia junto durante a jornada de trabalho; os trabalhadores conversavam, dis‑ cutiam a opressão que os instrumentos exerciam sobre o trabalho humano, o valor ínfimo do salário que recebiam e as condições insalubres dos espaços físicos de trabalho os envolviam diariamente. Os trabalhadores, movidos por proposições de mudança, organizavam‑se em associações, agremiações e sin‑ dicatos com a proposição de ampliar suas forças políticas, garantindo a manu‑ tenção de direitos já conquistados ou reivindicando novos.

35. Essa situação real, concreta, demarca nos anais da história da classe trabalhadora um momento de perdas na esfera da organização e dos direitos sociais. Quebrava‑se a resistência do trabalho masculino. Esse fato aumentou a força e o poder dos donos das fábricas, momento em que registramos o aumento do despo‑ tismo na relação capital/trabalho. Ressaltamos que em período de crise econômica, na esteira do modo de produção capitalista, a relação capital/trabalho se enraíza, prejudicando profundamente os trabalhadores e seus familiares (Engels, 1985).

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Os donos das fábricas também se movimentavam, criando suas entidades representativas para que, de forma direta e/ou mediada pelo Estado, se instau‑ rassem processos de negociações. Criaram mecanismos para que esse movi‑ mento interno do chão das fábricas fosse contido e, se possível, destruído ou incorporado à política empresarial. De imediato, enquanto os trabalhos regis‑ travam em pautas reivindicativas seus interesses e os apresentavam à classe patronal, esta criou mecanismos na esfera da organização do trabalho, bem como por meio de alterações técnicas e/ou científicas para manter a ordem e o con‑ trole no chão da fábrica.

Com o propósito direto de ampliar o controle sobre o físico e o psicológico dos trabalhadores na esfera da organização do trabalho, instituíram‑se em núme‑ ro expressivo a figura do chefe, do supervisor e, em seguida, a do gerente da fábrica. Constituíram figuras que, na condição de trabalhadores especializados, eram responsáveis por ampliar a produção da mais‑valia absoluta e relativa e, ao mesmo tempo, conter as inquietações das manifestações individuais e/ou coletivas dos trabalhadores no interior das fábricas. 36 Esses personagens tinham o papel de garantir o aumento da produtividade, da redução dos custos, princi‑ palmente no uso da matéria‑prima, e conservar os instrumentos de trabalho, simples e complexos. Era também papel daqueles trabalhadores, a serviço do capitalista industrial, consciente ou não: introduzir conteúdos teleológicos no campo subjetivo de cada trabalhador, impostos pelo capitalista, que expressassem ser o sucesso individual e coletivo a ser alcançado na fábrica oriundo de resul‑ tados positivos; criarem condições concretas para que os trabalhadores incorpo‑ rassem a cultura da fábrica — produtiva e reprodutiva —, exercitando‑a nos espaços de trabalho e fora da fábrica, estendendo‑a particularmente para os membros da família e para os círculos de amizade.

Além desse mecanismo criado na esfera organizacional, ocorreu, progres‑ sivamente, o investimento dos donos das fábricas e do Estado para desenvolver o campo técnico e científico. A conjugação de mudanças e ajustes na esfera da organização do trabalho e do desenvolvimento revolucionário nas instâncias da técnica e da ciência contribuiu, decisivamente, para que o capitalista ampliasse

36. Quando as ações dos trabalhadores, organizados ou não, saiam do controle, os donos das fábricas acionavam a força repressiva cedida pelo Estado ou de ordem particular. As leis sempre estiveram a serviço da classe dominante, pois foram criadas por representantes que aderiram ao projeto burguês em desenvolvimento.

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a acumulação de capital. Ao mesmo tempo, cresceu o poder de domínio em

relação à força de trabalho por meio das entidades que as representavam. Quan‑ do a força de trabalho, em movimento, tinha dificuldades para executar suas

atividades, pois não conseguia acompanhar o ritmo das máquinas, os donos das

fábricas, por meio dos seus gerentes e supervisores, promoviam rapidamente a substituição de trabalhadores. Afinal, o contingente de força de trabalho (simples

e complexa) presente no mercado, na condição de trabalhadores pertencentes

ao exército de reserva à espera de uma vaga, era imenso. Deve‑se salientar ainda que, em períodos de crise do modo de produção capitalista, o contingen‑ te de desempregados aumentava de forma exponencial em quantidade e quali‑ dade, principalmente quando a crise desenvolvia‑se na estrutura da base que sustentava o projeto burguês de produção e reprodução social.

A relação estabelecida entre os gerentes e supervisores com os trabalha‑ dores demitidos não apresentava nenhum sinal de preocupação, de arrependi‑ mento ou, no mínimo, humanista. Nesse cenário, a máquina, resultado dos processos científicos, ao ser colocada em movimento a serviço do capital, ampliava o campo de negação do trabalho humano. O aviltamento da força de trabalho enfraquecia cada vez mais a organização dos trabalhadores. Naquele momento, sem conseguir expressar resistência com conteúdos revolucionários, os donos das fábricas ganhavam força e conseguiam separar o objeto de traba‑ lho do próprio trabalhador.

Esse processo avançava, criava campos de especialização na fábrica, e a totalidade dos trabalhadores, historicamente constituídos, em seus diferentes tempos e espaços, fora negada, restando apenas duas dimensões em ação com o posicionamento invertido: de um lado, o objeto que se transformava em sujeito parcial — a máquina —; do outro, um sujeito que se transformava em objeto — força de trabalho humana especializada em profundo grau de reificação.

Outras dimensões expressivas da manifestação da “questão social” eram reveladas em todas as ruas, ruelas, casas e casebres, espaços em que circulam

e em que viviam os trabalhadores e seus familiares (Engels, 1985; Castel, 1998; Lefebvre, 1999). Num primeiro momento, os mecanismos repressivos tentaram conter e controlar as manifestações mais expressivas. Mas, com o passar do tempo, o Estado também foi requisitado para cumprir o papel de reparador

material e espiritual, pois a miséria, a pobreza e doenças de abrangência física

e psíquica atingiam a maioria da classe trabalhadora. Os desdobramentos

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ocasionados pelo descompasso existente na relação capital/trabalho assustavam diariamente os trabalhadores e seus familiares, mas atingia individual e cole‑ tivamente todos os membros da sociedade. A classe burguesa entrou em de‑ sespero. Esse fato concreto obrigou o Estado a iniciar encaminhamentos na esfera das políticas sociais, apesar de tímidos, para responder às inúmeras manifestações da “questão social.” O avanço ou não do papel do Estado para responder às demandas colocadas diariamente pela classe trabalhadora e seus familiares aumentava ou diminuía conforme os movimentos sociais expressa‑ vam, concretamente, suas forças historicamente determinadas (Vieira, 1992). No entanto, era sabido que as contradições presentes não podiam ser superadas enquanto a lógica produtiva e reprodutiva estivesse sob a condução do proje‑ to de sociabilidade criado e em desenvolvimento pela classe burguesa.

A maquinaria moderna movida a vapor avançava, mas não conseguia con‑ ter os processos de trabalho criado, desenvolvido e efetivado durante o século XX. O modelo de produção pautado no taylorismo/fordismo e o toyotismo, frutos da segunda e terceira Revolução Industrial, respectivamente, fincaram raízes em países diferenciados (Estados Unidos e Japão) e espalharam‑se em todos os continentes em diferentes tempos e espaços. No entanto, a produção fundada e desenvolvida no ramo têxtil deixou de ser dominante, porém não deixou de criar, ampliar e/ou sofisticar seus instrumentos até os dias atuais, adaptando sua forma de ser aos novos modelos de produção. Para compreender, apreender e analisar criticamente esses novos modelos da relação capital/traba‑ lho enquanto avanços e retrocessos, fazem‑se necessários nos debruçarmos sobre as literaturas clássicas e contemporâneas sem tirar o pé da realidade.

Consideraçõesfinais

As formas de objetivação do trabalho humano presentes desde o modelo de produção artesanal até a maquinaria moderna permitiram explicitar momen‑ tos de diferenciações no que tange o campo de possibilidade em materializar o avanço do ser singular em direção ao ser genérico.

As formas de objetivação em que o trabalho humano efetivou‑se a partir da criação e do desenvolvimento do processo de trabalho fundado na produção

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artesanal permitiu-nos apreender expressões significativas de conteúdos de li‑ berdade presentes em cada trabalhador. Na condição de trabalhadores autônomos, as atividades eram desenvolvidas todos os dias, sem a interferência de nenhum outro personagem dominante na época. Suas ações materiais, concretas, possi‑ bilitavam dominar o processo de trabalho em todas as fases, e o trabalho mar‑ cado pela destreza individual culminava com a apropriação do resultado final — novo objeto produzido — pelo próprio artesão. No entanto, se por um lado

a emancipação em relacionar‑se com a natureza avançava, o mesmo não ocor‑

ria no campo da consciência. Esses trabalhadores, na condição de categoria profissional, ainda não eram portadores de elementos constitutivos de classe social trabalhadora, mas sim alimentavam desejos e efetivavam comportamen‑ tos no campo da legalidade, direcionando sua forma de ser e de existir para tornar‑se capitalistas industriais. Esse desejo não conseguiu efetivar‑se.

A partir do momento em que os artesãos, na condição de trabalhadores autônomos, ameaçavam o poder econômico e político dominante sob a direção dos senhores feudais, reis, príncipes e comerciantes não tardaram para que

deixassem essa condição e se transformassem em assalariados livres. A partir de então, o espaço denominado processo de trabalho fundado sob a direção da cooperação simples, da manufatura e posteriormente da maquinaria moderna,

o ser singular — trabalhador assalariado livre — começa a relacionar‑se com a natureza e com os próprios homens de forma dependente, quando comparado com o trabalhador do artesão.

Na condição de assalariado, reduziu‑se o leque de possibilidade de eman‑ cipar‑se política e humanamente. As relações econômicas e políticas aprofun‑ daram suas determinações particulares e universais, criando novas e inovadas relações de poder. A partir do processo de trabalho de cooperação simples, o capitalista industrial iniciou seus investimentos para retirar de todos os traba‑ lhadores o que era de mais precioso em sua existência: seu conhecimento e suas habilidades individuais e coletivas. Os trabalhadores, em sua maioria assalaria‑ dos, deixaram de dominar a totalidade dos movimentos realizados durante os processos de trabalho e, aos poucos, tornaram‑se, na condição de assalariados, propriedades dos capitalistas industriais por um tempo determinado de trabalho diário. Parceladas as atividades no interior da fábrica, não tardou para que, no processo de trabalho pautado na maquinaria, a individualidade também fosse fragmentada, esfacelada, destruída. Igual aos animais, não restava aos trabalha‑

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dores e seus familiares outras condições de existência a não ser: comer, beber, dormir e procriar (Marx, 2009b). O distanciamento das condições objetivo/ subjetivas do seu ser singular em direção à condição de ser genérico era cada vez mais emblemático. A condição de ser humano, portanto social e político, foi negada, e a maioria dos mortais passou a ser reconhecida, consciente ou não, no interior dos processos de trabalho, enquanto coisa. A condição de sujeito coisificado tornou-se a expressão máxima da negação do humano.

Recebido em 28/11/2013

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Aprovado em 17/3/2014

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Crise do capital, precarização do trabalho e impactos no Serviço Social

Capital crisis, work precariousness and impacts on Social Service

crisis, work precariousness and impacts on Social Service George Francisco Ceolin* Resumo: O artigo analisa alguns

George Francisco Ceolin*

Resumo: O artigo analisa alguns impactos das transformações societárias em curso no período histórico de transição dos séculos XX e XXI na particularidade da profissão Serviço Social. A análise agrega um complexo de mediações essenciais para elucidar o significado das determinações da alienação do trabalho no exercício profissional, enquanto partícipe da divisão social do trabalho coletivo no processo de reprodução das relações sociais. O conteúdo apreende as particula‑ ridades das formas de precarização do trabalho e das manifestações da questão social enquanto expressões da alienação e fetichismo em tempos de crise do capital.

Palavras‑chave: Crise do capital. Precarização. Serviço Social.

Abstract: The article analyses some of the impacts of the transformations in society on Social Service during the historical period of transition of both the twentieth and the nineteenth centuries. The analysis aggregates some essential mediation to explain the meaning of the determination of work alienation in the professional practice, as it participates in the social division of collective work in the process of reproduction of social relationships. The contents elucidate the details of the forms of work precariousness and of the manifestations of the social issue as expressions of alienation and fetishism in times of capital crisis.

Keywords: Capital crisis. Precariousness. Social Service.

* Professor no curso de Serviço Social da Universidade Federal de Goiás (UFG), Goiânia/GO, Brasil, mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC‑Goiás), doutoran‑ do em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre os Fundamentos do Serviço Social na Contemporaneidade (NEFSSC). E‑mail:

georgeceolin@yahoo.com.br.

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1. Introdução

A s transformações no mundo do trabalho e seus impactos nos diver‑ sos campos profissionais têm constituído pauta central do debate contemporâneo.

A reestruturação do capital mundializado, que no Brasil in‑ tensificou-se nas últimas décadas do século XX, provocou mudanças qualitati‑ vas na organização e na gestão da força de trabalho e na relação de classes, interferindo fortemente nos trabalhos profissionais das diversas categorias, suas áreas de intervenção e seus suportes de conhecimento e de implementação, conforme José Paulo Netto (1996).

O presente artigo tem por objetivo analisar algumas implicações do im‑

pacto dessas transformações na particularidade do Serviço Social. As sucessivas aproximações com o objeto investigado remeteu sua análise às mediações da precarização do trabalho e das demandas postas à profissão, nesse período de intensas transformações societárias.

Ainda, conforme Netto (1996), o problema teórico‑analítico reside em explicitar e compreender como, na particularidade prático‑social de cada pro‑ fissão, traduz-se o impacto das transformações societárias, determinando as mediações que conectam as profissões particulares àquelas transformações.

A análise do impacto dessas transformações no âmbito do exercício pro‑

fissional agrega um complexo de determinações e mediações essenciais para elucidar seu significado no processo de produção e reprodução das relações sociais, configurado “enquanto exercício profissional especializado que se realiza por meio do trabalho assalariado alienado” (Iamamoto, 2007, p. 214; grifos do original).

Mészáros (2006, p. 80‑81), contribui na análise entre trabalho capitalista e alienação. 1

1. Na análise dos Manuscritos econômicos-filosóficos de Marx, Meszáros (2006, p. 18) esclarece: “o ponto de convergência dos aspectos heterogêneos da alienação é a noção de ‘trabalho’ (Arbeit). Nos Manus‑ critos, de 1844,o trabalho é considerado tanto em sua acepção geral — como ‘atividade produtiva’: a determinação ontológica fundamental da ‘humanidade’ (‘menschliches Dasein’, isto é, o modo realmente humano de existência) — como em sua acepção particular, na forma da ‘divisão do trabalho’ capitalista. É nesta última forma — a atividade estruturada nos moldes capitalista — que o ‘trabalho’ é a base de toda a alienação”.

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A atividade produtiva na forma dominada pelo isolamento capitalista — em que “os homens produzem como átomos dispersos sem consciência de sua espécie” — não pode realizar adequadamente a função de mediação entre o homem e a natureza, porque “reifica” o homem e suas relações e o reduz ao estado da natu

reza animal. Em lugar da “consciência da espécie” do homem, encontramos o culto da privacidade e a idealização do indivíduo abstrato. Assim, identificando a essência humana com a mera individualidade, a natureza biológica do homem

é confundida com sua própria natureza, especificamente humana. [ A atividade

produtiva é, então, atividade alienada quando se afasta de sua função apropriada de mediar humanamente a relação sujeito‑objeto entre homem e natureza, e ten‑ de, em vez disso, a levar o indivíduo isolado e reificado a ser absorvido pela “natureza”. (Grifos do original)

]

As análises dos dilemas do exercício profissional exige a compreensão das determinações objetivas das relações capitalistas sobre a profissão. O processo de trabalho capitalista é presidido pela inversão do domínio do trabalho morto sobre o trabalho vivo. Seguindo a análise de Marx, a “dominação do capitalista sobre o trabalhador é, consequentemente a da coisa sobre o homem, do trabalho morto sobre o trabalho vivo, do produto sobre o produtor” (Marx, 1978, p. 20).

Conforme Iamamoto (2007, p. 214), a condição assalariada de inserção profissional no efetivo exercício, mediada pelas demandas e requisições do mercado de trabalho, sintetiza tensões entre o direcionamento que a profissão pretende imprimir em seu trabalho concreto e as determinações do trabalho abstrato, inerente ao trabalho capitalista.

A condição assalariada do exercício profissional pressupõe a mediação do mercado de trabalho. Assim, as exigências impostas pelos distintos emprega‑ dores materializam demandas, estabelecem funções e atribuições, impõem re‑ gulamentações específicas a serem empreendidos no âmbito do trabalho cole‑ tivo. Além disso, normas contratuais condicionam o conteúdo e estabelecem limites e possibilidades às condições de realização da ação profissional (Iamamoto, 2007, p. 218-219). Aqui se identifica um campo de tensão que exige densas investigações na apreensão do significado das determinações do trabalho alienado na particularidade do Serviço Social.

Apreender a particularidade histórica da profissão e de sua prática social exige investigar e examinar o complexo processo e o movimento que caracterizam

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as singularidades do efetivo exercício da profissão e suas mediações no âmbito dos processos e relações de trabalho inserido na divisão social do trabalho.

2. Capitalismo monopolista e as condições sócio-históricas de emergência do Serviço Social

O Serviço Social está diretamente vinculado às demandas construídas no complexo das contradições produzidas pelo conjunto das relações sociais de produção e reprodução da sociedade capitalista em sua fase monopolista. O enfrentamento das expressões da questão social 2 é assumido pelo Estado, como resposta à necessidade de controle da força de trabalho e de legitimação da instância estatal como força garantidora da expansão do modelo de reprodução, no período histórico de trânsito para a fase monopolista do capitalismo em seu estágio maduro (Netto, 2006b, p. 18).

A produção e a reprodução das relações sociais capitalistas não se restringem à relação capital e trabalho nas condições objetivas de produção e reprodução da vida material, mas englobam um complexo mais amplo, envolvendo a totalidade da vida social e de suas formas de consciência social e expressões culturais.

Marx e Engels (2009, p. 31) expõem:

A produção das ideias, das representações, da consciência, está em princípio dire‑ tamente entrelaçada com a atividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparece aqui ainda como direta exsudação do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de um povo. Os homens são os produtores das suas representações, ideias etc., e precisamente os homens condicionados pelo modo de produção da sua vida material, pelo seu intercâmbio material e o seu desenvolvimento posterior na estrutura social e política.

2. Usa‑se a expressão questão social para expressar o conjunto das expressões políticas, sociais e eco‑ nômicas vinculadas ao conflito entre o capital e o trabalho, impostos pelo surgimento da classe operária e seu ingresso no cenário político no curso da constituição da sociedade capitalista (Netto, 2006b, p. 17).

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Assim, a reprodução das relações sociais é a reprodução da processuali‑ dade da vida social em sua totalidade, portanto, de determinado modo de vida. A reprodução das relações sociais atinge a totalidade da vida em suas determi‑ nações universalizantes e singulares, em suas tendências históricas e em suas manifestações cotidianas.

A compreensão do significado do Serviço Social só é possível ser desve

lada se inserida no complexo processo de produção e reprodução das relações sociais historicamente determinadas, bem como das correlações de forças sociais em disputa quando de sua legitimação como profissão. A legitimidade da prá‑ tica do Serviço Social institucionalizada e legalmente reconhecida como pro‑ fissão é resultado do movimento processual de desenvolvimento da sociedade capitalista e da exacerbação das contradições a ela inerentes, materializada e expressa na questão social.

O Serviço Social constituiu-se enquanto área profissional pelas necessi

dades de respostas das classes dominantes às expressões da questão social, e suas conexões genéticas se entretecem com as suas peculiaridades no âmbito da sociedade burguesa em sua fase monopolista. 3

A organização monopolista do capital teve seu início nas últimas décadas do século XIX (Mandel, 1985; Sweezy e Baran, 1986; Braverman, 1987). Nes‑ se período, a concentração e centralização de capitais, em formas de trustes, cartéis e outras maneiras de combinação, começaram a firmar-se, e a estrutura moderna da indústria e das finanças capitalistas passaram a tomar forma. A moderna era imperialista inaugurava-se, ao mesmo tempo, pelos conflitos armados pela divisão do globo em colônias ou em esferas de influência ou hege‑ monia econômica (Braverman, 1987, p. 215).

A idade do monopólio alterou significativamente a dinâmica da sociedade

burguesa. Ao mesmo tempo em que potencializou as contradições fundamentais do capitalismo já explicitadas no estágio concorrencial, elas foram combinadas com novas contradições e antagonismos que tornaram mais complexos os sis‑ temas de mediações que garantem a dinâmica societária burguesa (Netto, 2006b, p. 19‑20).

3. Essa tese de interpretação sobre a gênese do Serviço Social é denominada por Montaño de perspecti‑ va histórico‑crítica (Montaño, 2007, p. 30).

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O capitalismo monopolista é responsável pela introdução na dinâmica da

economia capitalista de um conjunto de fenômenos. Segundo Sweezy (1977), os preços das mercadorias e serviços tendem a crescer progressivamente; as taxas de lucros são mais elevadas; acentua‑se a taxa de acumulação e a tendên‑ cia decrescente da taxa média de lucro e do subconsumo; concentram‑se inves‑ timentos nos setores de maior concorrência; cresce a tendência de diminuir o uso da força de trabalho pela introdução de mudanças nos processos da produ‑ ção e do trabalho assalariado, tendo por aliadas a maquinaria e as novas tecno‑ logias; os custos de venda aumentam.

O alvo central da fase monopólica é a criação do mercado universal. Para

atingi‑lo, o sistema do capital busca a conquista de toda a produção de bens e de uma gama crescente de serviços em forma de mercadorias e inventa um novo ciclo de produtos e serviços. Muitos deles tornam‑se indispensáveis à medida

que a vida moderna vai mudando e destruindo as alternativas existentes.

O capitalismo monopolista faz surgir, ainda, uma força inteiramente nova,

o crédito. Ele coloca à disposição dos capitalistas, isolados ou associados, os meios financeiros dispersos pela sociedade e se transforma em um imenso me‑ canismo de centralização de capitais.

A estrutura modificada das empresas capitalistas monopolistas aglomera‑ ‑se em imensas unidades, em virtude da concentração e da centralização de capital. A complexificação do controle operacional e o gerenciamento das empresas monopolistas exige cada vez mais um processo de trabalho especia‑

lizado, provocando nova textura na divisão social do trabalho e personificando

o capital na forma institucional, sob controle de uma camada especializada da classe capitalista (Braverman, 1987, p. 220‑223).

O objetivo primário da nova estrutura da empresa monopolista moderna

é o acréscimo dos lucros capitalistas pelo controle dos mercados (Sweezy e

Baran, 1986). A transformação de toda a sociedade em um gigantesco mercado

é uma chave fundamental para a compreensão da história social recente (Bra‑ verman, 1987, p. 231).

No estágio mais primitivo do capitalismo industrial, havia uma quanti‑ dade limitada de mercadorias em circulação normal, e a organização familiar permanecia fundamental para os processos produtivos da sociedade. Pratica‑ mente todas as necessidades da família eram atendidas por seus membros.

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A produção de alimentos, a produção domiciliar de roupas e a fabricação de produtos de uso cotidiano da família eram realizadas pela unidade econômica familiar. O papel do capital industrial era limitado pela demanda de seu mer‑ cado consumidor.

Durante o período de trânsito do capital concorrencial ao monopolista, o capital industrial altera a dinâmica da vida familiar, transformando‑a de unida‑ de produtora em, cada vez mais, unidade consumidora de mercadorias. Com a expansão do processo de urbanização e civilização, as relações de mercado se tornam a única forma possível de atendimento às necessidades sociais. 4

Dessa forma, com o desenvolvimento das relações sociais capitalistas, a organização familiar, de núcleo de produção e consumo da vida social, portan‑ to de determinado modo de vida, transforma‑se em instância de consumo de padrões e valores artificialmente criados como necessidades.

A mercadorização das relações sociais faz surgir novos ramos de produção

para preencher as lacunas resultantes, e à medida que novos serviços e merca‑ dorias ocupam os espaços nas relações humanas sob a forma de relações de mercado, a vida e social é ainda mais mercantilizada.

O movimento do capital sobre as relações sociais liga‑se a seu impulso expansionista (Mészáros, 2002) de inovar produtos e serviços na busca de sua reprodução ampliada.

A universalização da etapa de desenvolvimento capitalista monopólica

intensifica e generaliza não só o produto do trabalho, mas também a relação de compra e venda da força de trabalho, à forma mercadoria, subsumindo o modo de produzir e reproduzir a vida material e social à forma capitalista, quase que excluindo outras possibilidades de produção dos meios necessários da vida social.

O assalariamento do trabalho se expande e se generaliza, constituindo um

novo modo de vida social. A propriedade privada dos meios de produção, ao separar os produtores dos instrumentos necessários à produção, impõe aos vendedores da força de trabalho a produção de um valor que não lhe pertencem

4. Uma abordagem da maneira pelo qual ocorre essa intensificação da subordinação do modo de vida e das necessidades sociais ao mercado pode ser encontrada no capítulo 13, “O mercado universal”, da obra de Braverman (1987, p. 231‑241).

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e que não visa satisfazer suas necessidades. Pela alienação de sua capacidade

de trabalho por determinado tempo, o trabalhador recebe um salário para re‑ constituir e manter sua capacidade produtiva, garantindo assim a continuidade

da oferta da força de trabalho quando o capital dela demandar.

A forma do “trabalho livre” do sistema do capital, fundado na separação

do ser que trabalha de suas condições de trabalho, condição sine qua non para que o produtor tenha que vender sua força de trabalho, torna o ser que trabalha

a mais miserável das mercadorias.

O trabalhador, não dispondo das condições objetivas, sua capacidade de

trabalho só pode ser objetivada quando demandada pelo capitalista. Assim, a

obtenção de suas condições de vida depende de mediações do mercado de tra‑ balho, externas à sua vontade.

Aumentando e acelerando os efeitos da acumulação, a centralização do capital amplia e acelera ao mesmo tempo as transformações qualitativas na com‑ posição técnica do capital. Ocorre crescente acréscimo de sua parte constante em relação à sua parte variável, reduzindo assim a demanda relativa de trabalho.

A acumulação capitalista sempre produz, na proporção de sua expansão,

uma população trabalhadora relativamente supérflua, que ultrapassa as neces

sidades médias da expansão do capital. Dessa forma,

com a magnitude do capital social já em funcionamento e seu grau de crescimen‑ to, com a ampliação da escala de produção e da massa de trabalhadores mobili‑ zados, com o desenvolvimento da produtividade do trabalho, com o fluxo mais vasto e mais completo dos mananciais da riqueza, amplia‑se a escala em que a atração maior dos trabalhadores pelo capital está ligada à maior repulsão deles. Além disso, aumenta a velocidade das mudanças na composição orgânica do capital e na sua forma técnica, e número crescente de ramos de produção é atin‑ gido, simultânea ou alternativamente, por essas mudanças. Por isso, a população trabalhadora, ao produzir a acumulação do capital, produz, em proporções cres‑ centes, os meios que fazem dela, relativamente, uma população supérflua. (Marx, 1968, p. 732)

Uma população trabalhadora excedente, não só produto e alavanca da acumulação capitalista, mas também condição de existência do modo de pro‑ dução fundado no capital (Marx, 1968, p. 733).

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Ocorre ainda que a dinâmica de reprodução do capital exige uma apro‑ priação da parte do valor novo produzido necessário à manutenção da força de trabalho. Ao apropriar‑se não apenas do trabalho excedente, mas também de parte do trabalho necessário à reprodução da força de trabalho, o capital submete o trabalho às condições de precarização e de não atendimento das necessidades humanas da classe trabalhadora. Portanto, a proletarização como resultado do desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social é uma especificidade do modo de produção capitalista (Iamamoto, 2007, p. 159). A expansão do mundo urbano/industrial e a decorrente agudização da relação antagônica capital e trabalho assalariado expressam‑se na precarização do tra‑ balho e no desemprego.

As formas de manifestação do processo de proletarização decorrentes da expansão do capitalismo dão um novo ímpeto às contradições das relações de classes. A classe operária, impulsionada pela organização e luta por melhores condições de vida de trabalho, impõe‑se como sujeito político coletivo, exigin‑ do seu reconhecimento pelo empresariado e pelo Estado.

O papel do Estado nos condicionamentos das relações sociais e da dis‑ tribuição, cada vez mais desigual, da propriedade privada é grandemente ampliado e assume formas mais complexas. O amadurecimento das várias tendências do capitalismo monopolista exige a expansão da intervenção das atividades do Estado na economia e na regulação da vida social (Braverman, 1987, p. 242‑244).

Segundo Netto (2006b, p. 26), o Estado funcional ao capitalismo mono‑ polista deve garantir o conjunto de condições necessárias à acumulação e à valorização do capital monopolista. O autor continua:

a preservação e o controle contínuos da força de trabalho, ocupada e exceden‑

te, é uma função estatal de primeira ordem [

articulação das funções econômicas e políticas do Estado burguês no capitalis‑

mo monopolista [ ele deve legitimar-se politicamente incorporando outros

protagonistas sociopolíticos. O alargamento de sua base de sustentação e legi‑ timação sociopolítica, mediante a generalização e a institucionalização de di‑ reitos e garantias cívicas e sociais, permite‑lhe organizar um consenso que as‑ segura o seu desempenho. (Netto, 2006b, p. 26‑27; grifos do original)

Justamente neste nível dá-se a

].

]

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Justamente quando as classes dominantes e o Estado precisam responder de modo mais qualificado às demandas impostas pelo movimento da classe operária, a questão social ganha status e passa a exigir respostas mais elabora‑ das e sistematizadas, que não apenas a repressão.

O Serviço Social é, então, demandado enquanto partícipe do conjunto

de profissões justificadas pelas necessidades de controle da força de trabalho e de legitimação da ordem societária burguesa, bem como das instituições e

do próprio Estado, como mediadores das classes e projetos em disputa na sociedade.

O Estado, ao buscar legitimação política, torna‑se permeável a demandas

da classe trabalhadora, que podem nele fazer incidir seus interesses e suas rei‑ vindicações imediatas. Nessas condições, as expressões da questão social podem

tornar‑se objeto de uma intervenção contínua e sistemática do Estado, tornando‑ ‑se alvo de políticas sociais (Netto, 2006b, p. 29).

A necessidade de compatibilizar as questões relativas aos interesses da

industrialização e acumulação capitalista à legitimação do sistema com as ne‑ cessidades das classes trabalhadoras são demandas que requererem e legitimam socialmente a profissão, enquanto partícipe da divisão social do trabalho capi‑ talista em sua fase monopólica.

As particularidades desse processo, no Brasil, evidenciam que o Serviço Social se institucionalizou e se legitimou profissionalmente como um dos re‑ cursos mobilizados pelo Estado e pelo empresariado, com o suporte da Igreja Católica, na perspectiva de enfrentamento e regulação da chamada questão social, quando a intensidade e a extensão de suas manifestações no cotidiano da vida social adquirem expressão política (Iamamoto e Carvalho, 1986).

O Serviço Social, no Brasil, afirmou-se como profissão requisitada pelo setor público, face à progressiva ampliação da função reguladora do Estado, e vinculada a organizações patronais privadas, de caráter empresarial, dedicadas às atividades produtivas e a prestação de serviços sociais (Iamamoto e Carvalho, 1986, p. 79).

A interpretação do Serviço Social no conjunto das relações de produção e reprodução da sociedade burguesa exige a apreensão das particularidades his‑ tóricas que configuram as relações entre as classes sociais e destas com o Estado. Nessa perspectiva, diferentes análises buscam afirmar a profissão nas par

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ticularidades que reconfiguram as expressões da questão social e dos padrões de regulação com que se defrontam as políticas sociais. 5

3. Crise de acumulação, questão social e Serviço Social

A mundialização do capital (Chesnais, 1996), sob a hegemonia das finan‑ ças, redimensiona o trabalho e a sociabilidade na sociedade contemporânea. Trata‑se de um período caracterizado pela crise do modelo de expansão do ca‑ pital (Chesnais, 1996) e pelo processo de reestruturação produtiva como tenta‑ tiva de resposta (Antunes, 1999, p. 35‑36). Suas manifestações localizam‑se nos primeiros anos na década de 1970 (Harvey, 1998, p. 134), se estende e aprofun‑ da-se até os tempos atuais. No Brasil, esse processo intensifica-se no início dos anos 1990 (Alves, 2000), como resultado da integração do país ao mercado globalizado, no estágio de acumulação flexível do capital 6 (Harvey, 1998).

A crise de acumulação do capital caracteriza‑se como crise endêmica e crônica, com a perspectiva de uma profunda crise estrutural (Mészáros, 2009). Sua expressão fenomênica é a crise do modelo de acumulação fordista‑keyne‑ siano e a consequente reestruturação do capital, cujos impactos não se restringem à esfera produtiva, incidindo fortemente sobre o conjunto da vida social.

O padrão de crescimento fordista‑keynesiano, que, desde o segundo pós‑ ‑guerra, sustentara um modelo de desenvolvimento responsável pelas décadas de glória do capitalismo, deu sinais de seus limites na primeira metade da dé‑ cada de 1970. Para responder a esse novo quadro, o capital monopolista empe‑ nhou‑se em uma série de reajustes e reconversões que constrói a contextuali‑ dade em que se desenvolvem autênticas transformações societárias (Antunes, 1998; Harvey, 1998).

5. Iamamoto e Carvalho (1986), Netto (2006a, 2006b), Martinelli (1989), Faleiros (1980, 1981, 1987, 1999), Santos (1982), Yazbek (1993), Costa (1985, 1995), Simionato (1995), Abreu (2002).

6. Segundo Harvey (1998), acumulação flexível “se apoia na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza‑se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação comercial, tecnológica e organizacional” (p. 140).

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A crise do padrão taylorista/fordista/keynesiano era, de fato, a expressão

fenomênica de uma crise estrutural do capital, em sua lógica destrutiva e incon‑ trolável (Mészáros, 2002).

Essa nova dinâmica do capital obscurece como nunca o universo do tra‑ balho, atestando o caráter radical da alienação.

A fetichização das relações sociais alcançou seu ápice na hegemonia do

capital financeiro, obscurecendo e subvertendo a leitura das desigualdades sociais.

As transformações no mundo do trabalho têm alterado as relações entre Estado e sociedade, redefinindo o papel dos Estados nacionais e alterando os parâmetros de constituição de seu sistema de proteção social, com ampla e profunda repercussão na órbita das políticas públicas, com suas conhecidas diretrizes de focalização, descentralização, desfinanciamento e regressão dos direitos sociais.

Nas novas condições sócio‑históricas de crise do padrão de acumulação do capital, a intensificação da tendência decrescente da taxa de lucro (Mandel, 1985; Chesnais, 1996) exige como resposta do capital o aceleramento do cres‑ cimento e o predomínio do capital constante sobre o capital variável. Altera‑se significativamente a composição orgânica do capital, expressando mais profun‑ damente a totalidade das contradições da ordem burguesa.

O capitalismo monopolista, para enfrentar suas contradições imanentes,

em um contínuo crescimento de prevalência do trabalho morto sobre o trabalho vivo, recorre a um padrão de acumulação flexível, que, conforme Netto (1996), implica necessariamente um correspondente modo de regulação social.

A visibilidade das transformações que perpassam os processos sociais de

produção e reprodução social vai ocorrendo de maneira progressiva. O capital se vê compelido a encontrar alternativas para a crise que o ameaça na segunda metade da década de 1970, mais precisamente quando explodiu a primeira recessão generalizada da economia capitalista internacional desde a Segunda Guerra Mundial (Mandel, 1985). Esse foi um período de intensas transformações no modo de produção e reprodução social, que se estende até os tempos atuais, e metamorfoseia as relações no mundo do trabalho (Oliveira, 1996; Antunes, 1998; Harvey, 1998; Hobsbawm, 1995). As transformações do capitalismo global, que culminaram no processo de reestruturação do capital, caracterizado pela introdução de novas tecnologias na produção, e pela precarização das

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relações de trabalho, intensifica a substituição de trabalho vivo por trabalho morto e desencadearam o desemprego estrutural.

As novas dimensões e expressões do mundo do trabalho na sociedade capitalista contemporânea têm sido caracterizadas por um múltiplo e contradi‑ tório processo de desconstrução da classe proletária fabril — desproletarização do trabalho industrial (Antunes, 1998). Ocorre uma expressiva diminuição da classe operária industrial tradicional, notadamente a partir dos anos 1980 e 1990 (Hobsbawm, 1995), acompanhada de uma acentuada mudança em seu perfil, da crescente subproletarização de um imenso contingente de trabalhadores e da proliferação do desemprego estrutural.

A reestruturação do capital complexifica a relação capital-trabalho, intensifica a fragmentação do proletariado e aprimora o controle de sua subjetivida‑ de pela burguesia, enfraquecendo sobremaneira os trabalhadores na perspectiva de classe social (Antunes, 1998; Harvey, 1998; Alves, 2000).

Esse processo teve como marca decisiva uma generalizada ofensiva da burguesia e do Estado contra a classe trabalhadora e suas conquistas do período após 1945.

As transformações no universo do trabalho no capitalismo contemporâneo produz múltipla processualidade nas condições de vida e trabalho da classe trabalhadora, desproletariza o trabalho industrial fabril e amplia expressivamen‑ te o assalariamento no setor de serviços. Generaliza‑se a subproletarização do trabalho, nas formas de trabalho precário, parcial, temporário, subcontratado, terceirizado, doméstico e informal. Verifica-se na atualidade uma significativa heterogeneização do trabalho, expresso, sobretudo, pela crescente incorporação do contingente feminino no mundo operário, mas também pela incorporação do trabalho infantil e pela presença significativa de força da mão de obra mi‑ grante, acompanhado de formas contemporâneas de degradação do trabalho, além da desespecialização ou desqualificação do operário industrial e da criação dos trabalhadores multifuncionais (Antunes, 1998, 1999).

Para esse autor, ocorre a “heterogeneização, fragmentação e complexifi‑ cação da classe trabalhadora”. O resultado mais brutal dessas transformações é a expansão, sem precedentes na era moderna, do desemprego estrutural, que atinge o mundo em escala global. A repercussão dessas transformações no movimento dos trabalhadores provoca uma nítida tendência de diminuição das

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taxas de sindicalização, bem como da crescente burocratização e instituciona‑ lização das entidades representativas de classe.

No contexto de esgotamento do padrão fordista/keynesiano, emergem o toyotismo e o padrão de acumulação flexível, do qual são características a di‑ visão global do mercado e do trabalho, o desemprego estrutural, o capital vo‑ látil, o fechamento de unidades, a hegemonia financeira e a revolução tecnoló‑ gica, conforme Harvey (1998). Trata‑se de tentativa do capital de recuperar seu ciclo de produção e repor seu projeto de dominação societal.

As novas condições sócio‑históricas metamorfoseiam a questão social inerente ao processo de acumulação capitalista, adensando‑a de novas mediações.

A reestruturação do capital, subordinado à lógica do capital mundializado,

desenvolve como nunca a internacionalização da produção e dos mercados, redefine os papéis dos Estados nacionais, requer políticas de ajustes estruturais, reconduz suas formas de intervenção na questão social e altera os parâmetros de constituição dos sistemas de proteção social. Um mundo internacionalizado requer um Estado dócil aos influxos neoliberais e, ao mesmo tempo, forte para traduzir essas demandas em políticas nacionais (Petras, 2002).

O neoliberalismo é expressão da reestruturação política e ideológica con‑

servadora do capital em resposta à perda da rentabilidade e da governabilidade, que enfrentou durante a década de 1970 (Soares, 2003). O projeto neoliberal se expressa na naturalização do ordenamento capitalista e das desigualdades sociais, bem como no desmonte das conquistas sociais da classe trabalhadora, consubs‑ tanciados nos direitos sociais, que têm no Estado uma mediação fundamental. As conquistas sociais são transformadas em impeditivos para o desenvolvimen‑ to e a liquidez financeira do Estado, sendo apontadas como a principal causa de sua crise fiscal.

O desmonte do sistema público de proteção social consiste na expressão

política 7 das respostas construídas pelo capital mundializado no enfrentamento de sua crise de acumulação.

7. A mundialização financeira unifica, em um mesmo movimento, a reforma do Estado, tida como específica da área política; a reestruturação produtiva, referente às atividades econômicas empresariais e à esfera do trabalho; a questão social, reduzida aos chamados processos de exclusão e integração social; a ideologia neoliberal e as concepções pós‑modernas (Iamamoto, 2007, p. 114).

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A exigência na esfera da produção é reduzir custos e ampliar as taxas de

lucratividade para enfrentar a tendência de queda da taxa média de lucro, inten‑ sificada pelo rápido crescimento do capital constante na composição orgânica

do capital.

A economia é movida em uma relação dinâmica e contraditória entre a

reestruturação de seu parque produtivo e a destruição de parte significativa de seu aparato industrial. Os investimentos especulativos são favorecidos em de‑

trimento da produção, raiz do agravamento das expressões da questão social, da redução dos níveis de emprego e da regressão das políticas sociais públicas (Behring, 2003).

O Estado torna‑se objeto de uma reformatação para se adequar à lógica do

capital mundializado, por meio de um abrangente processo de reformas (Behring

e Boschetti, 2006).

Dessa forma, o neoliberalismo difunde a ideia de que o bem‑estar social pertence ao foro privado dos indivíduos e seus grupos sociais. Deslocam‑se as respostas às manifestações da questão social da esfera do Estado para a do mercado e a sociedade civil. A ideologia liberal estimula um vasto empreendi‑ mento de refilantropização do social, não admitindo os direitos sociais como função estatal e operando, assim, uma profunda despolitização da questão social, ao desqualificá-la como questão pública.

Soares (2003, p. 12) reafirma:

A filantropia substitui o direito social. Os pobres substituem os cidadãos. A ajuda individual substitui a solidariedade coletiva. O emergencial e o provisório subs‑ tituem o permanente. As microssituações substituem as políticas públicas. O local substitui o regional e o nacional. É o reinado minimalismo do social para enfren‑ tar a globalização da economia. Globalização só para o grande capital. Do traba‑ lho e da pobreza cada um cuida do seu como puder. De preferência, um Estado forte para sustentar o sistema financeiro e falido para cuidar do social.

A redução dos gastos sociais e o desmantelamento do sistema público de

seguridade social têm suas expressões na privatização, descentralização, foca‑ lização e programas assistenciais emergenciais. À precarização das relações de trabalho e ao desemprego estrutural, resultantes do processo de reestruturação

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do capital, somam‑se mudanças regressivas na relação entre o Estado e a socie‑ dade quando a referência é a proteção social como direito do cidadão. As con‑ dições de trabalho e relações sociais em que se inscrevem o Serviço Social são indissociáveis da contrarreforma do Estado (Behring, 2003).

As expressões da precarização do trabalho e das relações de emprego na contemporaneidade configuram-se como um traço da universalidade do modo de produção capitalista em tempo de crise estrutural da composição técnica e orgânica do capital e de seu padrão de acumulação.

As expressões da questão social, fundadas na contradição inerente à pro‑ dução coletiva e apropriação privada da riqueza social na sociabilidade burgue‑ sa, são radicalizadas em tempos de hegemonia do capital financeiro, acentuando a concentração e a centralização do capital. O padrão de acumulação flexível, ao acelerar a predominância do trabalho morto na composição técnica do capi‑ tal, provoca alterações qualitativas na organização e relações da produção, bem como nas estruturas e significados das profissões.

A incorporação de conquistas tecnológicas na globalidade do processo de

produção, intensificado como nunca com a reestruturação do capital, acelera a produtividade do trabalho e a rotação do capital, permitindo maior concentração e centralização de capitais, que, impulsionadas ainda pelo capital financeiro, ampliam a escala da produção. O avanço da produtividade do trabalho forja um decréscimo do capital variável inverso ao crescimento absoluto da população trabalhadora.

O processo da dinâmica do modo de reprodução capitalista, sob a predo‑

minância do capital financeiro, produz uma massa de trabalhadores supérfluos às necessidades do aparato reprodutivo do capital, provocando um verdadeiro desastre social (Soares, 2003). Decifrar as novas mediações pelas quais se ex‑ pressa à questão social em tempos de padrão flexível de acumulação significa apreender as várias expressões que as desigualdades sociais assumem na atualidade, os processos de sua produção e reprodução, bem como projetar e forjar as estratégias para seu enfrentamento.

Segundo Iamamoto (2007, p. 164), quando as múltiplas e diferenciadas expressões da questão social são desvinculadas de sua fundamentação comum, desconsiderando os processos sociais em sua dimensão de totalidade, pulverizam

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e fragmentam as diversas expressões da questão social, resultando na autono‑ mização de suas múltiplas expressões, transformando‑as em problemas sociais, despolitizando e individualizando o seu enfrentamento, tendo como foco de responsabilidade os indivíduos e suas famílias. A pulverização da questão social camufla a sua origem imanente ao sistema capitalista maduro.

A questão social expressa desigualdades econômicas, políticas e culturais das classes sociais, mediadas por disparidades nas relações de gênero, caracte‑ rísticas étnico‑raciais e formações regionais, colocando amplos segmentos da

sociedade em situação de marginalidade em relação aos bens materiais e espi‑ rituais civilizatórios. As lutas dos proletários conquistaram seu reconhecimen‑

to como sujeitos políticos, rompendo o domínio das relações entre capital e

trabalho no âmbito privado e extrapolando a questão social para a esfera públi‑ ca, exigindo a interferência do Estado no reconhecimento e na legalização de direitos sociais da classe trabalhadora (Iamamoto, 2007, p. 160).

A questão social é expressão de um conjunto multifacetado das expressões das desigualdades sociais engendradas na sociedade capitalista em sua fase monopolista, impensáveis sem a intermediação do Estado. Objeto de um vio‑ lento processo de criminalização, que atinge as classes subalternas (Ianni, 1992), acompanhado da tentativa de naturalização da questão social, suas manifestações são transformadas em objeto de programas assistenciais foca‑ lizados de combate a pobreza ou em expressões de violência dos pobres, cuja resposta é a repressão.

Inscrita na própria natureza das relações sociais capitalistas, a questão

social, nas condições sócio‑históricas contemporâneas, apresenta‑se com novas roupagens, aprofundando e recolocando suas contradições em outros patamares.

O desmonte do sistema público de proteção social transfere responsabilidades

da esfera estatal para a esfera de interesses privados, muitas vezes revestidos de ajuda, caridade e voluntarismo, na forma de execução das políticas sociais. Vive‑se uma tensão entre a defesa dos direitos sociais universais e a mercanti‑ lização e refilantropização do atendimento às necessidades sociais, com claras implicações nas condições e relações de trabalho dos assistentes sociais (Iama‑ moto, 2007).

Os múltiplos processos que envolvem a reestruturação do capital em sua inserção à lógica do mercado mundial, bem como seus impactos no mundo do

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trabalho e nas relações sociais, determinam modificações na estrutura das profissões e no seu significado social.

Conforme Netto (1996, p. 89),

as alterações profissionais, assim, derivam da intricada interação que se processa entre as transformações societárias, com seu rebatimento na divisão sociotécnica do trabalho, e o complexo (teórico, prático, político e, em sentido largo, cultural) que é constitutivo de cada profissão.

A apreensão do Serviço Social na totalidade da dinâmica da vida social como condição para identificar o significado social da profissão no processo de produção e reprodução das relações sociais reporta, em sua mediaticidade, tanto ao objeto de intervenção quanto às suas condições e relações de trabalho.

As condições de trabalho dos assistentes sociais são profundamente atingidas pelas determinações da precarização do trabalho e sua autonomia socioprofissional, limitada quanto ao seu direcionamento ético-político, seja pelo crescente domínio de uma tecnologia propiciada pelas condições de desenvolvimento da sociabilidade burguesa e pela generalizada burocratização da vida social (Netto, 1996), seja pela redução e cortes orçamentários no atendimento às demandas apresentadas na relação com os sujeitos do exercí‑ cio profissional.

As manifestações de precarização do trabalho, convertidas em objeto de intervenção profissional e em condições de trabalho dos assistentes sociais, como trabalhadores assalariados, são expressões da condição de precariedade do trabalho, no tempo histórico de crise estrutural do capital.

4. A instrumentalidade do Serviço Social

O Serviço Social caracteriza‑se por ser uma área interventiva, inscrita na divisão social do trabalho da sociabilidade burguesa. Segundo Pontes (2002), seu caráter interventivo exige que, além de conhecer a realidade na sua com‑ plexidade, crie mecanismos para transformá‑la na direção de determinado

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projeto socioprofissional. Esse desafio requer uma instrumentalidade que contenha um suporte teórico‑metodológico à altura da complexidade da dinâ‑ mica social. Nesse aspecto, a categoria de mediação 8 constitui‑se em uma re‑ quisição indispensável ao desvelamento dos fenômenos sociais e à intervenção profissional.

A competência profissional está diretamente vinculada à reconstrução de seu objeto de intervenção e ao entendimento do espaço de intervenção do as‑ sistente social como um campo de mediações que se estrutura sobre determi‑ nantes históricos constitutivos dos complexos sociais.

O objeto de intervenção profissional, em sua imediaticidade, apresentado unilateralmente como demanda institucional, conduz a uma mera adequação do exercício profissional às requisições do mercado de trabalho. O assistente social, em seu exercício socioprofissional, transforma as necessidades sociais em demandas profissionais, realizando esse movimento de reconstrução do objeto de intervenção profissional na conjugação de categorias ontológicas e intelectivas com observações e dados empíricos. Com base no conhecimento da realidade de sua intervenção profissional, desvelam-se as mediações ocultas na aparição cotidiana, projetando os dados empíricos no plano das determina‑ ções universais.

Desta forma, o assistente social, com seu conhecimento especializado, compreende os fenômenos sociais como complexos sociais, e não mais como fatos sociais em si mesmos. O movimento que resulta dessa processualidade sócio‑histórica cria determinada legalidade social. O assistente social, ao iden‑ tificar as mediações presentes entre a singularidade dos sujeitos de sua ação profissional e a universalidade de suas determinações sociais, apreende essa legalidade social. A mediação inscreve‑se como complexo categorial responsá‑ vel pelas relações moventes que se operam no interior de cada complexo rela‑ tivamente total e das articulações dinâmicas e contraditórias entre as estruturas sócio‑históricas (Pontes, 2002, p. 81).

8. A mediação é compreendida como uma categoria objetiva, ontológica, que está presente em qualquer realidade, independentemente do conhecimento do sujeito. Tem uma dimensão que pertence ao real (ontoló‑ gica) e outra que é elaborada pela razão (reflexiva). O campo privilegiado da mediação é a particularidade, na qual os fatos singulares se vitalizam com a legalidade da universalidade e, dialeticamente, as leis univer‑ sais saturam‑se de realidade (Pontes, 2002, p. 76‑88).

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Os vários aspectos da realidade apresentam-se ao profissional no plano da singularidade, como fatos isolados, e considerando que o profissional se encon‑ tra em um contexto institucionalizado, sua aproximação aos fatos se dá media‑ tizada por determinada demanda institucional. Essas demandas aparecem ao Serviço Social como um fim em si mesmo, despida de mediações que lhe conferem um sentido mais totalizante; revestidas de objetivos técnico‑operati‑ vos e de metas, organizadas em programas e projetos voltadas para uma área de atuação específica. Aparecem em sua dimensão imediata, reduzindo-se à manifestação fenomênica e fragmentadora do real.

Desse modo, os objetivos e finalidades norteadores da ação profissional reportam‑se ao projeto ético‑político e teórico‑metodológico construído histo‑ ricamente pela profissão, tensionado pelos determinantes institucionais.

A elaboração reflexiva das demandas que se apresentam à ação profissio

nal do assistente social em suas mediações ontológicas constitui condição para

a ultrapassagem dos fatos em sua imediaticidade. O objeto de intervenção

profissional como demanda exclusivamente institucional restringe-se ao ângu‑ lo da singularidade. A aproximação com as dimensões universais da realidade

e com a sua legalidade social é necessária para apreender como se constitui o campo das mediações da intervenção profissional.

A particularidade é espaço privilegiado de sínteses de determinações em que o sujeito, ao superar a aparência, processa o nível do concreto pensado e penetra em um amplo campo de mediações. Segundo Pontes (2002, p. 46), “a particularidade é o espaço reflexivo ontológico onde a legalidade universal se singulariza e a imediaticidade do singular se universaliza”.

A particularização de um campo de mediações possui um enorme potencial heurístico para a prática profissional do assistente social. Todo um conjunto de determinações e mediações, dissolvidas e ocultas na imediaticidade, ganha objetividade e significado, possibilitando que se reconfigure as demandas apresentadas pela instituição à intervenção profissional.

Sem que haja a apreensão intelectiva e ontológica desses sistemas com‑ plexos, a configuração das demandas sociais para a intervenção profissional torna‑se efetivamente empobrecida, o que afeta a reconstrução do objeto de intervenção profissional e, consequentemente, o resultado que a intervenção profissional pode alcançar.

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Esse movimento que o sujeito opera, articulando conhecimento intelecti‑ vo e observações empíricas, articulando as categorias histórico‑sociais mais amplas e saturadas de determinações históricas, permite a reconstrução do objeto de intervenção profissional. O objeto da intervenção reconfigurado manifesta‑se como um complexo relativamente total, rico em determinações histórico‑sociais particularizadas. A compreensão e a apreensão das legítimas demandas sociais expressam‑se na particularização dos vários sistemas de me‑ diações presentes.

Esse conjunto de complexos que a razão apreende do real, mediante apro‑ ximações sucessivas, possibilita uma visão mais ampla e profunda da realidade social, na qual se inscreve a ação profissional. Esse movimento permite potencializar a intervenção profissional, que, ainda que não se esgote na reconstrução do objeto, encontra sua definição teleológica fundamental nessa construção lógica‑ontológica e vincula‑se a uma instrumentalidade 9 profissional que ex‑ presse uma competência teórico‑metodológica e técnico‑operativa determinada por uma direção social ético‑política.

A apreensão dos elementos estruturais da realidade social, articulados com os elementos conjunturais, conjugados pelas mediações entre as dimensões universais e singulares, permite ao assistente social traduzir os dilemas contem‑ porâneos em particularidades profissionais.

Um contexto sócio‑histórico de refração de direitos sociais requer dos assistentes sociais uma competência sociopolítica capaz de acumular forças na construção de novas estratégias de enfrentamento das expressões da contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e das relações sociais de produ‑ ção. Requer construção de estratégias que acumulem forças na luta pelo acesso universal aos direitos civis, políticos e sociais bem como o aprofundamento da democracia como socialização da participação política e da riqueza socialmen‑ te produzida, em uma perspectiva de autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais (CFESS, 1996).

9. Instrumentalidade é compreendida como determinada capacidade ou propriedade que a profissão adquire no confronto entre as condições objetivas e subjetivas do exercício profissional, no intervir das rela‑ ções sociais, construídas e reconstruídas no processo histórico. Como uma propriedade sócio‑histórica da profissão, a instrumentalidade constitui-se em possibilidade concreta de reconhecimento do significado social da profissão (Guerra, 1995, p. 201-205).

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Consideraçõesfinais

O movimento do capital mundializado em resposta à crise do padrão de

acumulação recoloca em outros patamares as contradições e antagonismos da ordem burguesa, como afirmam Chesnais (1996) e Harvey (1998).

A reprodução ampliada da acumulação capitalista pela introdução de novas

tecnologias aumenta as forças produtivas do trabalho social, modificando a composição orgânica do capital. O capital variável torna‑se cada vez menor em relação ao capital constante, refletindo-se na composição do valor do capital e aprofundando a tendência de queda da taxa média de lucro (Marx, 1968).

As transformações no mundo do trabalho, geradoras de uma contextuali‑ dade em que se desenvolvem autênticas transformações societárias, como afirmam Hobsbawm (1995), Oliveira (1996), Antunes (1998) e Harvey (1998), decorrem das respostas do capitalismo monopolista ao quadro crítico de acumulação de capital, marcado por um desenvolvimento lento e por uma superprodução endê‑ mica em uma longa onda com tonalidade recessiva, conforme Mandel (1985) e Chesnais (1996).

A constituição de um novo padrão de acumulação flexível (Harvey, 1998)

tem sido caracterizada pela intensificação da precarização do trabalho e pela proliferação do desemprego estrutural. Essas condições históricas incidem nas relações entre o Estado e a sociedade, redefinem o papel dos Estados e alteram os padrões de regulação social.

O conjunto de modificações na esfera produtiva incide sobre as formas de

gestão das forças de trabalho e, consequentemente, sobre as políticas sociais. As manifestações da precarização no objeto e nas condições de trabalho dos assistentes sociais são expressões da precariedade do trabalho característico do padrão de acumulação em tempos de crise estrutural do capital.

A agudização das expressões da questão social aponta uma nova configu

ração da reposição da factualidade alienada (Netto, 1981) com que o sistema produtor de mercadorias mistifica as relações sociais em todas as instâncias e níveis sociais. As expressões das contradições e antagonismos da dinâmica do capital, em seu novo padrão de acumulação, exige que sejam priorizadas as mediações que conectam as expressões da precarização do trabalho à condição de trabalhador assalariado dos assistentes sociais.

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O exercício profissional dos assistentes sociais está sendo diretamente

atingido pela precarização das condições e relações de trabalho. Os assistentes sociais estão exercendo suas atribuições e competências profissionais submeti

dos a contratos temporários, terceirizados, subcontratados, de modo que sua autonomia e estratégias profissionais têm sido comprometidas pelas condições objetivas de sua inserção no mercado de trabalho. Trata‑se da materialidade das atuais condições históricas de inserção dos assistentes sociais na condição de trabalhador assalariado, bem como dessa determinação histórica na agudização das expressões da questão social.

As demandas apresentadas ao Serviço Social, em tempo de hegemonia do capital financeiro e do padrão flexível, são manifestações fenomênicas das contradições e antagonismos da sociedade burguesa, repostas em outro patamar. As novas expressões da questão social interferem não só na condição de traba‑ lhador do assistente social, como redesenha seu próprio objeto de intervenção profissional. No enfrentamento da recomposição do valor, o novo padrão de acumulação cria novos padrões de regulação.

Trata‑se de um contexto de regressão de direitos e de desmonte do sistema público de proteção social, desafiando os assistentes sociais em seus princípios e diretrizes construídos na dinâmica da trajetória de ruptura com o conservado‑ rismo na profissão, bem como de consolidação de um projeto ético-político profissional comprometido com a universalidade de direitos e com a emanci‑ pação do sujeito social.

As condições sócio-históricas atuais exigem uma competência profissional

sociopolítica, alicerçada em um referencial teórico que permita a apreensão das mediações presentes entre a singularidade dos sujeitos e a universalidade de suas determinações, e a construção de uma instrumentalidade que potencialize o exercício profissional em direção aos princípios e diretrizes expressos no processo histórico de construção do projeto ético-político profissional e na or‑ ganização da categoria e de suas entidades representativas.

A análise das contradições constituintes do efetivo exercício profissional

agrega um complexo de determinações e mediações que possibilite a apreensão de seu significado social no conjunto das relações sociais de produção e reprodução do capital. Essa investigação exige articular o projeto profissional construído pela categoria com as condições de sua realização mediada pelo trabalho assalariado.

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O desafio é a apreensão dos determinantes inerentes ao trabalho alienado, implícito no trabalho assalariado, e suas implicações no exercício profissional em sua relação com as múltiplas expressões da questão social, bem como dos diversos segmentos da classe trabalhadora, sujeitos e usuários das ações e ser‑ viços no exercício profissional.

A dinâmica do exercício profissional, reveladora das contradições e desafios que expresse o significado da prática socioprofissional do Serviço Social, inserida na materialidade da divisão social e técnica do trabalho sob a forma de assalariamento, é objeto de pesquisa ainda a ser desenvolvida.

Recebido em 9/12/2013

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Aprovado em 17/3/2014

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A questão dos intelectuais emGramsci*

Theintellectuals’issueinGramsci

intelectuais emGramsci* Theintellectuals’issueinGramsci Maria Lúcia Duriguetto** Resumo: O artigo trata do

Maria Lúcia Duriguetto**

Resumo: O artigo trata do desenvolvimento da análise do marxis‑ ta italiano Antonio Gramsci contida nos Cadernos do cárcere acerca do conceito e da função dos intelectuais. Nosso objetivo é apresentar os principais elementos que conformam a função dos intelectuais no exercício e manutenção dos projetos hegemônicos de classe no capi‑ talismo, bem como os processos que tornam possíveis uma atividade intelectual voltada para a construção de um novo projeto de hegemo‑ nia das classes subalternas. Aqui, vêm à tona os conceitos de senso comum, bom‑senso, reforma intelectual e moral e, especialmente, a relação entre intelectuais e partido.

Palavras‑chave: Intelectual. Pensamento Gramsciano. Hegemonia.

Abstract: The article is about the development of the analysis of the concept and role of the intellectuals by the Italian Marxist Antonio Gramsci in Prison notebooks. Our aim is to present the main elements that arrange the intellectuals’ role in the exercise and maintenance of the social classes’ hegemony processes in the capitalism, as well as the processes that make it possible the intellectual activity towards the building up of a new hegemony project of the lower classes. At this point the concepts of common sense, judgement, intellectual and moral reform and, mainly, the relationship between intellectuals and parties arise.

Keywords: Intellectuals. Gramsci’s thoughts. Hegemony.

* Este texto apresenta um dos resultados da pesquisa de pós‑doutorado realizado no Departamento de Filosofia da Universidade da Calábria, Itália, sob orientação do prof. Guido Liguori. O estágio pós-doutoral foi realizado no período de setembro de 2012 a fevereiro de 2013, com bolsa de estágio sênior da Capes. Dedico o conteúdo deste texto ao prof. Carlos Nelson Coutinho.

** Professora da Faculdade de Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora, mestrado e doutorado em Serviço Social pela UFRJ, Rio de Janeiro/RJ, Brasil. E‑mail: maluduriguetto@gmail.com.

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Introdução

O desenvolvimento das reflexões do marxista italiano Antônio Gramsci acerca da questão dos intelectuais foi aqui realizado nos escritos contidos nos Cadernos do cárcere. Realizamos uma filologia nos escritos carcerários publicados na edição crítica, 1 o que nos possi‑

bilitou acompanhar “o ritmo do pensamento em desenvolvimento” — como assim se referia Gramsci 2 — para a apreensão do significado e da função dos intelectuais. Trata‑se, em suma, de mergulharmos nas páginas produzidas no cárcere sobre a questão dos intelectuais, 3 cuja centralidade está nas páginas de‑ senvolvidas no Caderno 4 (“Apontamentos de filosofia I” — caderno miscelâneo) e no Caderno 12 (“Apontamentos e notas esparsas para um grupo de ensaios sobre a história dos intelectuais e da cultura na Itália” — caderno especial). 4 Nessa direção, nosso objetivo é delinear a origem do desenvolvimento da ques‑ tão do intelectual: sua evolução, sua função, suas implicações e rebatimentos no sistema conceitual mais geral desenvolvido por Gramsci.

1. Segundo Coutinho, a edição crítica (1975), internacionalmente conhecida como edição Gerratana,

“tornou‑se, desde a sua publicação, absolutamente imprescindível para todos os que queiram estudar com maior profundidade o pensamento de Gramsci; ela nos permite ver, por assim dizer, o ‘laboratório’ no qual o pensador italiano desenvolveu suas pesquisas” (Coutinho, 2001, p. 29). Na edição crítica, os cadernos são numerados cronologicamente de 1 a 29, seguindo a ordem dos manuscritos integrais escritos por Gramsci, o que nos traz o ritmo de desenvolvimento da sua investigação através da primeira redação das notas registra‑ das em cadernos miscelâneos — que são aqueles que contêm notas esparsas sobre diversos temas (volumes

1 a 9, 14, 15 e 17) —; depois retomadas, e em alguns casos, desenvolvidas na segunda redação dos cadernos especiais (volumes 10 a 13, 16, 18 e 19, 20‑29). Essa edição também dividiu os parágrafos em textos A, presentes nos cadernos miscelâneos e reescritos, com ou sem modificações, nos cadernos especiais como texto C; e textos B, de redação única, presentes em grande parte nos cadernos miscelâneos. Para uma des‑ crição da disposição temática e dos critérios para a elaboração das publicações dos cadernos — especialmen‑ te na Itália e no Brasil — ver Gerratana (1969, 1975); Coutinho (2001, p. 7‑45); Liguori (1999, p. 217 ss). Para o debate acerca da crítica à edição Gerratana e a necessidade ou não da publicação de uma nova edição dos cadernos. Ver Liguori (2012, p. 336‑343).

2. Caderno 16, § 2, p. 1841.

3. Eventuais referimentos também serão explicitados aos escritos pré‑carcerários e às cartas escritas por

Gramsci à cunhada.

4. O Caderno 12 está reproduzido integralmente na edição brasileira Cadernos do cárcere (2000, v. 2,

p. 15‑53). Esse caderno reúne textos de segunda redação presentes no Caderno 4. Na edição brasileira, foram publicados os “cadernos especiais”, tal como se encontram na edição crítica. Na edição brasileira, não está incluída os textos A da edição Gerratana, que foram transcritos ou reescritos por Gramsci nos cadernos especiais.

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A questão dos intelectuais ocupa uma posição estratégica nos escritos do comunista sardo. Ela é tratada, no desenvolvimento de suas análises, em relação aos processos de formação da hegemonia e ao conceito de Estado. Em Gramsci, os intelectuais e sua função no âmbito da vida social não são conceituados como sujeitos e ações distantes das determinações do mundo real, como um grupo “autônomo e independente”. Em contraposição às teorias que, na sua época, separavam a política da ciência (Weber, 1993) ou que concebiam os intelectuais como uma camada social independente (Mannheim, 1986), Gramsci desenvolve uma interpretação original da função dos intelectuais nos processos de formação de uma consciência crítica por parte dos subalternos e na organização de suas lutas e ações políticas.

Sintonizado com o enunciado na 11 — tese sobre Feuerbach, “os filósofos não fizeram, senão, interpretar o mundo de diversos modos, o que importa é mudá‑lo” —, Gramsci explicita e aprofunda essa inseparável relação dialética entre intelectual e mundo circunstante, dotando os intelectuais orgânicos aos interesses das classes subalternas de uma função central nos processos e lutas de formação de uma contra‑hegemonia contrária aos interesses do capital e dos seus intelectuais tradicionais e orgânicos. O que interessa ao sardo marxista na reflexão acerca da questão dos intelectuais é a ampliação da formação e da ação dos intelectuais orgânicos das classes subalternas na construção de uma socie‑ dade regulada pelos interesses e necessidades do trabalho, que Marx belissima‑ mente nomeou de emancipação humana.

1. Os intelectuais e a função de mediação entre as classes sociais eoEstado

Aquilo que Gramsci denomina como [a “questão política dos intelectuais”] (C 11, § 12, p. 1386/v. 1, p. 104) terá uma importância estratégica fundamental no conjunto das suas reflexões sobre a constituição de projetos hegemônicos de classe. 5 Seu interesse de estudo dos intelectuais se desenvolve em várias direções

5. Remeterei o leitor às páginas dos cadernos da edição crítica e suas correspondentes páginas na edição brasileira, que serão identificadas pelo volume e página.

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e articulações. Explicitaremos essas direções e articulações na ordem em que aparecem nos escritos gramscianos presentes na edição crítica.

No Caderno 1, 6 Gramsci inicia o desenvolvimento de uma reflexão sobre

a necessidade da formação de uma consciência crítica e de uma nova concepção

de mundo dos grupos subalternos. É nesse campo reflexivo que já inicia o tra

tamento da questão dos intelectuais. 7

Gramsci nos anuncia que cada região ou país (e no caso, a Itália) os grupos sociais são organizados a partir das tradições locais e das ideologias às quais se encontram envolvidos. Nesse sentido, para Gramsci, a difusão de um modo de pensar e de operar homogêneos — de uma consciência coletiva — na realidade das formações sócio‑históricas, necessitaria de condições e iniciativas múltiplas, sendo um equívoco pensar que cada estrato social elaboraria de igual forma, com os mesmos métodos, sua consciência e sua cultura. Gramsci evidencia que um pensar e operar homogêneo são uma especialidade própria dos intelectuais profissionais. Não é, assim, um dado do senso comum”. 8 Explicita que é uma ilusão pensar que uma ideia ou conceito amplamente difundidos sejam incor‑ porados nas diversas consciências com os mesmos efeitos organizativos. O trabalho educativo‑formativo, que envolve a elaboração de uma consciência

6. As reflexões contidas no Caderno 1 (caderno miscelâneo, redigido entre 1929 e 1930) foram retoma‑ das por Gramsci no Caderno 19 (caderno especial, redigido entre 1934 e 1935). Trabalharemos com a reda‑ ção presente no caderno especial, publicado na edição brasileira. Mas é importante registrar que existem diferenças de redação dos temas tratados nesses cadernos. Identificaremos as referências das reflexões aqui tratadas nos dois cadernos, mas alertamos o leitor da necessidade de cotejar as redações de um e de outro para uma fiel apreensão do trato gramsciano das questões tratadas nesses cadernos. Exemplo é o tratamento de um dos conceitos-chave das reflexões gramscianas, como o de hegemonia, tratado no Caderno 1 e expos‑ to, com um conteúdo e redações diferentes, no Caderno 19.

7. A questão dos intelectuais está presente no conjunto da reflexão de Gramsci pré-cárcere e em todos os diferentes planos feitos por ele para os escritos carcerários. Nesses, o tema dos intelectuais comparece na carta à cunhada Tania de 19 de março de 1927. Nela, Gramsci havia feito referência a propósito de “uma pesquisa sobre os intelectuais italianos, as suas origens, seus agrupamentos segundo as correntes da cultura, os seus diversos modos de pensar etc.” (Lettere dal carcere, 1996, p. 55‑56). Também na carta de fevereiro de 1929, expressa a decisão de ocupar‑se de três argumentos, sendo o primeiro a história italiana no século XIX, com especial atenção acerca da formação e do desenvolvimento dos grupos intelectuais (Idem, p. 248). No Caderno 1, iniciado em 8 de fevereiro de 1929, a discussão dos intelectuais é evidenciada na terceira nota intitulada “Formação dos grupos intelectuais italianos: desempenho, atitudes” (C 1, p. 5).

8. O conceito de “senso comum” será desenvolvido por Gramsci especialmente no Caderno 11. Trata‑ remos de seu conteúdo na relação com a questão dos intelectuais no próximo item.

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crítica a partir das premissas concretas de determinada realidade, não pode li‑ mitar‑se a simples enunciações teóricas de princípios. O trabalho não deve ser de “modo abstrato, e sim concreto, com base no real e na experiência efetiva” (C 1, § 43, p. 33/C 24, p. 2268/v. 2, p. 206).

Gramsci trata, nesse caderno, das diversas estruturas e origens das cama‑ das dos intelectuais. Recupera as reflexões já feitas no célebre ensaio sobre a A questão meridional escrito antes da prisão, em 1926, em que analisa a relação cidade/campo e as alianças de classe na sociedade italiana das primeiras déca‑ das do século. Nesse ensaio, Gramsci concebe os intelectuais, particularmente da pequena e média burguesia rural, como sujeitos do Estado que exercitavam

a função de intermediação entre os cidadãos e a administração em geral e evi‑ dencia a mudança na posição e na função dos intelectuais com o desenvolvi‑ mento do capitalismo.

Em todos os países, o estrato dos intelectuais foi radicalmente modificado pelo desenvolvimento do capitalismo. O velho tipo de intelectual era o elemento or‑ ganizador de uma sociedade de base predominantemente camponesa e artesã; para organizar o Estado e o comércio, a classe dominante treinava um tipo específico

de intelectual. A indústria introduziu um novo tipo de intelectual: o organizador técnico, o especialista da ciência aplicada. Nas sociedades em que as forças eco‑ nômicas se desenvolveram em sentido capitalista, até absorver a maior parte da

atividade nacional, predominou este segundo tipo de intelectual [ Ao contrário,

nos países em que a agricultura exerce ainda um papel muito importante ou mes‑ mo predominante, continua a prevalecer o velho tipo, que fornece a maior parte dos funcionários estatais; mesmo na esfera local, na vila e na cidadezinha rural,

este tipo exerce a função de intermediário entre o camponês e a administração em geral. (Gramsci, 2004, p. 424)

].

O marxista italiano retoma no Caderno 1 essa reflexão, evidenciando que no Mezzogiorno — região do Sul da Itália — ainda predomina o tipo do “ba‑ charel”, que põe em contato a massa dos camponeses com a dos proprietários e com o aparelho estatal; já no Norte dominaria o tipo do ‘técnico’ de fábrica, que serve de ligação entre a massa operária e os empresários: “a ligação entre

a massa operária e o Estado era realizada pelas organizações sindicais e partidos

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políticos, isto é, por uma camada intelectual completamente nova” (C 1, § 43, p. 35/v. 5, p. 35).

Gramsci já explicita, aqui, a função decisiva dos intelectuais — seja dos técnicos, diretamente inseridos na produção, seja os que exercem atividades tradicionais ou funções administrativas estatais — na relação com as classes fundamentais e com o Estado. É com essa percepção do caráter mediador dos intelectuais entre as classes sociais e o Estado que explicita sua compreensão dos intelectuais e de suas funções na vida social.

Por intelectuais, deve-se entender [ todo o estrato social que exerce funções

organizativas em sentido lato, seja no campo da produção, seja no da cultura e no político-administrativo [ Para analisar a função político-social dos intelectuais,

é preciso investigar e examinar sua atitude psicológica em relação às classes fundamentais que eles põem em contato nos diversos campos: têm uma atitude “paternalista” para com as classes instrumentais ou se consideram uma expressão orgânica destas classes? Têm uma atitude “servil” para com as classes dirigentes ou se consideram, eles próprios, dirigentes, parte integrante das classes dirigentes? (Idem, p. 37; C 19, § 26, p. 2041/v. 5, p. 93)

]

].

Essa definição dos intelectuais e de suas funções é desenvolvida pela análise histórica concreta das correntes políticas partidárias presentes no desen‑ volvimento do Risorgimento italiano — o Partido da Ação e o Partido dos Moderados — e de suas relações com as classes e frações de classes.

Os Moderados eram intelectuais que tinham relações orgânicas com as frações das classes economicamente dominantes. Essa relação era fundada pelo próprio pertencimento de classe, pois eram grandes agricultores ou administra‑ dores das propriedades rurais, empresários, comerciais e industriais e, ao mes‑ mo tempo, organizavam e davam direção política aos seus interesses de classe. Em contraposição a essa organicidade dos Moderados, 9 os intelectuais do Partido da Ação não se apoiavam em nenhuma classe e tinham uma atitude

9. Devido a esta “concentração orgânica”, os intelectuais do partido dos Moderados “exerciam uma poderosa atração, de modo ‘espontâneo’, sobre toda a massa de intelectuais de todo nível que existiam [ ] em estado ‘difuso’, ‘molecular’, em função das necessidades, ainda que satisfeitas de modo elementar, da instrução e da administração” (C 1, § 44, p. 41‑2/C 19, § 24, p. 2012/v. 5, p. 64).

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“paternalista” para com as massas, não as pondo em contato com o Estado, e seus dirigentes eram facilmente guiados pelos Moderados e pelos seus interes‑ ses (C1, § 44, p. 41‑2/C 19, § 24, p. 2012/v. 5, p. 64).

A direção política que os Moderados realizaram sobre o Partido de Ação se deu pelo que Gramsci denominou de “transformismo”, ou seja: “pela elabo‑

ração de uma classe dirigente cada vez mais ampla, nos quadros fixados pelos

moderados [ com a absorção gradual, mas contínua, e obtida com métodos de

variada eficácia, dos elementos ativos surgidos dos grupos aliados e mesmo dos adversários e que pareciam irreconciliavelmente inimigos”. Assim, o transfor‑ mismo “foi a expressão parlamentar desta ação hegemônica intelectual, moral e política”. Em outras palavras, o transformismo foi a expressão política dessa ação de direção. É com essa análise da política dos Moderados que Gramsci elucida que “pode e deve haver uma atividade hegemônica mesmo antes da ida ao poder e que não se deve contar apenas com a força material que o poder confere para exercer uma direção eficaz”. Para Gramsci, são esses os processos que caracterizaram o Risorgimento como uma revolução passiva 10 (Idem, p. 41;

Idem, p. 2010‑1/v. 5, p. 63).

Nesse contexto, a hegemonia intelectual, moral e política foi conquistada por meio “da iniciativa individual, ‘molecular’, ‘privada’ (ou seja, não por um programa de partido elaborado e constituído segundo um plano anterior à ação

prática e organizativa) [ É no esteio dessa reflexão sobre a função intelec

tual diretiva dos Moderados que o marxista italiano afirma que uma classe é dirigente das classes aliadas e dominante das adversárias:

]

]”.

] [

e como “direção intelectual e moral”. Um grupo social domina os grupos adver‑ sários, que visa a “liquidar” ou a submeter inclusive com a força armada, e dirige

a supremacia de um grupo social se manifesta de dois modos, como “domínio”

os grupos afins e aliados. Um grupo social pode e, aliás, deve ser dirigente já antes de conquistar o poder governamental (esta é uma das condições principais

10. Em termos gramscianos, uma revolução passiva expressa a presença de dois momentos: reação das classes dominantes à possibilidade de uma transformação efetiva de “baixo para cima”, reação que acaba por “restaurar” o equilíbrio precedente, ao mesmo tempo em que “renova” suas práticas sociais, antecipando‑se a ou incorporando e controlando “por cima” certas demandas populares com o que aumenta seu poder de controle e cooptação (Coutinho, 1991, p. 119‑136).

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para a própria conquista do poder); depois, quando exerce o poder e mesmo se o mantém fortemente nas mãos torna‑se dominante mas deve continuar a ser também “dirigente”. 11 (C 19, p. 2010‑1/v. 5, p. 62‑63)

É com essa constatação que Gramsci afirma que “não existe uma classe independente de intelectuais, mas todo grupo social tem uma própria camada de intelectuais ou tende a formar uma para si”. Entretanto, os intelectuais da classe historicamente progressista (a classe que faz avançar a sociedade pela contínua inovação e ocupação de atividades econômico‑produtivas) desenvolvem um poder de atração que a eles subordinam os intelectuais dos outros grupos sociais, criando “um sistema de solidariedade entre todos os intelectuais com laços de ordem psicológica (vaidade etc.) e, muitas vezes, de casta (técnico‑jurídicos, corporativos etc.)”. Mas quando o “grupo social dominante esgota sua função, o bloco ideológico tende a fragmentar-se e, então, a ‘coerção’ pode substituir a ‘espontaneidade’ sob formas cada vez menos disfarçadas e indiretas, até as medidas propriamente policiais e os golpes de Estado” (C1, p. 41‑2/C19, p. 2012/v. 5, p. 64).

Nos Cadernos 3 e 5 encontram‑se notas sobre o caráter cosmopolita e não nacional dos intelectuais italianos. Nesses cadernos é tratado o longo período da história da península e da pré‑história da nação italiana para apreender o processo de sua formação moderna. É com esse fio de análise que Gramsci percorre a história italiana da última fase do Império Romano ao Risorgimento. [O que interessa a Gramsci é o estudo dos intelectuais italianos e do processo de construção e desenvolvimento de seus reagrupamentos.] Intenciona apreen‑ der o fracasso dos intelectuais no processo de catalisação das forças progres‑

11. No Caderno 1 (§ 44, p. 41) esta passagem é assim exposta: [ uma classe é dominante em dois

modos, isto é, ‘dirigente’ e ‘dominante’. É dirigente das classes aliadas, é dominante das classes adversárias. Por isso uma classe já antes de conquistar o poder deve ser ‘dirigente’, quando exerce o poder transforma-se em classe dominante mas continua a ser também dirigente”. Tradução nossa. É no campo desta reflexão, já posta no Caderno 1, que a questão dos intelectuais será analisada no Caderno 12 como, também, constitutiva das funções de direção que compõe o fenômeno de “ampliação” do Estado no processo histórico de desen‑ volvimento dos países ocidentais. “Foi justamente a percepção dessa incorporação das funções de direção ao Estado que colocou o tema dos intelectuais em primeiro plano no pensamento gramsciano. A discussão dos intelectuais pode ser traduzida em uma análise da relação entre dirigentes e dirigidos, dominantes e domina‑ dos ou, em outras palavras, em um estudo sobre a construção da supremacia de uma classe ou fração de classe sobre o conjunto da sociedade” (Bianchi, 2008, p. 75).

]

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sistas na Itália na pré-unificação, de modo a unificá-las, dotá-las de consciência acerca de sua função nacional e colocá‑las em condições de promover e realizar, em tempos adequados, a revolução burguesa. O tema é, assim, da relação entre intelectuais e burguesia nas fases precedentes da constituição do Estado unitá‑ rio (Burgio, 2007, p. 55).

No Caderno 4, Gramsci inicia seu programa de pesquisa filosófica, que foi desenvolvido nos Cadernos 7 e 8. Tais escritos, em sua grande parte, foram reorganizados e desenvolvidos nos Cadernos especiais 10 e 11. 12 A questão aqui

tratada é a afirmação do materialismo histórico em oposição à filosofia idealis

ta de Benedetto Croce e ao marxismo vulgar (como o contido nas reflexões do

texto Ensaio popular, de Bukharin) e o diálogo positivo com as reflexões de Antonio Labriola. 13 Nesses cadernos estão teorizações fundamentais para o entendimento da função dos intelectuais nos processos de formação de uma nova consciência, de uma nova forma de pensar e agir na vida social por parte das classes subalternas.

2. Os intelectuais e sua função na “reforma intelectual e moral”

Gramsci explicita a necessidade da desconstrução de uma visão de que

a filosofia é uma atividade intelectual própria de determinada camada de

cientistas ou filósofos profissionais. Para ele, “todos os homens são ‘filósofos’”, mas define como limites e características dessa “filosofia” que nominará como “espontânea”, a que está contida na linguagem (em que está presente uma

concepção de mundo) 14 no senso comum e no bom senso (neste, em menor

12. O Caderno 4 foi redigido entre 1930 e 1932; o Caderno 7, entre 1930‑1931 e o Caderno 8, entre

1931 e 1932. O Caderno especial 10 foi redigido entre 1932 e 1935, e o 11, entre 1932 e 1933.

13. Para um mapeamento das principais polêmicas travadas por Gramsci em relação a Croce e a Bukharin,

consultar Bianchi (2008, p. 55‑120).

14. A expressão “concepção de mundo” é usada por Gramsci para indicar os graus diversos de capaci‑

dade de elaboração do sujeito para interpretar a realidade (Liguori, 2009, p. 148). Segundo Gramsci, “pela própria concepção de mundo, pertencemos sempre a um determinado grupo, precisamente o de todos os elementos sociais que compartilham um mesmo modo de pensar e de agir. Somos conformistas de algum

conformismo [ Quando a concepção do mundo não é crítica e coerente, mas ocasional e desagregada,

pertencemos simultaneamente a uma multiplicidade de (homens‑massa) nossa própria personalidade é

]

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grau) 15 e na religião. 16 Esse conjunto de manifestações “espontâneas” da filosofia — sistema de crenças, opiniões, modos de ver e agir — se condensariam no “folclore”. 17 Interessa a Gramsci problematizar e apontar criticamente os elementos que conformam os conteúdos dessa “filosofia espontânea”, objeti‑ vando a criação de processos pedagógicos que contribuam para a formação de conteúdos novos, portanto, de uma nova filosofia. É com essa preocupação que indaga:

] [

sagregada e ocasional, isto é, “participar” de uma concepção de mundo “impos‑ ta” mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por um dos muitos grupos

é preferível “pensar” sem disto ter consciência crítica, de uma maneira de

sociais nos quais todos estão automaticamente envolvidos [ ou é preferível

]

compósita, de uma maneira bizarra. [ O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é real

mente, isto é, um ‘conhece-te a ti mesmo’ como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa aná‑ lise” (C 11, § 12, p. 1376/v. 1, p. 94). Todos participam de uma concepção de mundo, como exemplo, pela utilização de um certo tipo de linguagem: “Se é verdade que cada linguagem contém os elementos de uma concepção de mundo e de uma cultura, será igualmente verdade que, a partir da linguagem de cada um, é possível julgar a maior ou menor complexidade da sua concepção do mundo” (Idem, p. 1377/Idem, p. 95).

15. Filosofia do senso comum é a “filosofia dos não-filósofos”, isto é, “a concepção do mundo absor‑ vida acriticamente pelos vários ambientes sociais e culturais nos quais se desenvolve a individualidade moral do homem médio”. O senso comum não é uma concepção única, idêntica no tempo e no espaço “mas é um produto e um devir histórico”. O senso comum “apresenta‑se em inumeráveis formas; seu traço fun‑

damental e mais característico é o de ser uma concepção [ desagregada, incoerente, inconsequente,

conforme a posição social e cultural das multidões das quais ele é a filosofia. Quando na história se elabora um grupo social homogêneo, elabora-se também, contra o senso comum, uma filosofia homogênea, isto é,

coerente e sistemática”. O uso que Gramsci faz do termo bom senso é em modo alternativo ao senso comum (C 11, § 13, p. 1396/v. 1, p. 114). Um estudo minucioso da tematização do senso comum e do bom senso está em [Liguori (2007, p. 99-128)].

16. Para Gramsci, “os elementos principais do senso comum são fornecidos pelas religiões e, conse‑

quentemente, a relação entre senso comum e religião é muito mais íntima do que a relação entre senso comum

e sistemas filosóficos dos intelectuais” (C 11, § 13, p. 1396-1397/v. 1, p. 115). “A religião é um elemento do

senso comum [ A filosofia é a crítica e a superação da religião e do senso comum e, nesse sentido, coincide com o ‘bom senso’, que se contrapõe ao senso comum” (C 11, § 12, p. 1388 /v. 1, p. 96).

17. A característica fundamental do folclore “é de ser uma concepção de mundo desagregada, incoeren‑

te”. O senso comum é o “folclore” da filosofia. “O senso comum cria o folclore, isto é, uma fase relativa‑ mente enrijecida dos conhecimentos populares de uma certa época e lugar (C 8, § 173, p. 1045/v. 2, p. 209). Em Gramsci, os conteúdos de concepção de mundo, senso comum, filosofia, religião, folclore constituem uma “família de conceitos” em torno do tema da “ideologia”. Para uma tematização da questão da ideologia em Gramsci. Ver Liguori (2007, p. 77‑98).

]

]

].

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elaborar a própria concepção do mundo de uma maneira consciente e crítica [ ]? (C 11, § 12, p. 1375/v. 1; p. 93‑94)

A alternativa defendida é que o indivíduo social desenvolva a elaboração de uma concepção de mundo de forma ativa, crítica e consciente e por meio dela se vincule a um grupo social que lhe permita “participar ativamente na produção da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não mais aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da própria personalidade” (Idem, p. 1376/Idem, p. 94). Identifica a recorrência de uma contradição entre o fato intelectual (a teoria) e a ação. Questiona em que âmbito podemos identificar a verdadeira concepção de mundo, se no âmbito da teoria ou a que está implíci‑ ta na atividade de cada um. E conclui: “já que a ação é sempre uma ação polí‑ tica, não se pode dizer que a verdadeira filosofia de cada um se acha inteiramente contida na sua política?”. O que Gramsci identifica é a existência de uma recorrente tensão entre a consciência e o agir, entre a teoria (ou concepção de mundo) e a prática (ação). A explicação desse contraste entre o pensar e a ação é de natureza histórico‑social e está relacionada ao fato de um grupo social, por razões de submissão e subordinação intelectual, incorporar como sua uma concepção de mundo de outro grupo social. É por isso que “não se pode sepa‑ rar a filosofia da política; ao contrário, pode-se demonstrar que a escolha e a crítica de uma concepção do mundo são, também elas, fatos políticos” (Idem, p. 1379/Idem, p. 97).

Nessa direção, uma das funções dos intelectuais é a de atuar nos processos de formação de uma consciência crítica e de construção de uma concepção de mundo unitária e coerente dos “simples”. Ou seja, que se estabeleça uma rela‑ ção “orgânica” entre eles, condição essa necessária para a superação da natu‑ reza acrítica do senso comum e pela potencialização da capacidade intelectual e da eficácia da atividade política dos “simples”. É do contato e das observações das visões de mundo, das experiências, das ações e comportamentos dos “sim‑ ples”, que os intelectuais devem se alimentar para suas formulações teóricas e ações prático-políticas. É com essa perspectiva que afirma:

um movimento filosófico só merece este nome na medida em que busca de

senvolver uma cultura especializada para restritos grupos de intelectuais ou, ao contrário, merece‑o na medida em que, no trabalho de elaboração de um pensa‑

] [

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mento superior ao senso comum e cientificamente coerente, jamais se esquece de permanecer em contato com os “simples” e, [ encontra neste contato a fonte dos problemas que devem ser estudados e resolvidos? (Idem, p. 1382/Idem, p. 100)

]

A formação de um “senso comum renovado”, portador de fundamentos filosóficos críticos, “não pode ocorrer se não se sente, permanentemente, a exigência do contato cultural com os ‘simples’” (Idem, Idem). Aos intelectuais caberia a função de operar para a “organicidade de pensamento” dos grupos sociais subalternos, ou seja, contribuir para uma relação coerente entre teoria (concepção de mundo) e ação. A possibilidade da construção coerente dessa relação estaria em um atuar “orgânico” dos intelectuais nesses grupos, ou seja, de elaborarem e tornarem coerentes os princípios e os problemas que os “sim‑ ples” colocam com a sua atividade prática. É dessa relação orgânica entre os intelectuais e os “simples” que nasce a elaboração de uma concepção de vida superior ao senso comum, uma elaboração superior dos grupos subalternos da própria concepção do real.

Assim, é necessário ressaltar que ao afirmar que “todos são filósofos”, Gramsci não intenciona diluir os conteúdos de uma “filosofia espontânea” pre‑ sentes no senso comum, na religião, no folclore — que são elementos de con‑ cepção e de visão de mundo presentes em todos os indivíduos sociais —, como o próprio conteúdo da filosofia e, portanto, de quem a porta. A filosofia é defi‑ nida como uma “ordem intelectual”, metodicamente elaborada, portanto “crí‑ tica e coerente”, ao contrário de uma “concepção ocasional e desagregada”, própria do que compõe a “filosofia espontânea”.

Uma filosofia da práxis 18 só pode apresentar‑se, inicialmente, em atitude polêmica e crítica, como superação da maneira de pensar precedente e do pensamento con‑ creto existente (ou mundo cultural existente). E, portanto, antes de tudo, como crítica do “senso comum” (e isto após basear‑se sobre o senso comum para de‑ monstrar que “todos” são filósofos e que não se trata de introduzir ex novo uma

18. É na transcrição das notas dos cadernos miscelâneos para os especiais que Gramsci substituiu, na maioria das vezes, a expressão materialismo histórico por filosofia da práxis. Essa substituição foi tanto para escapar da censura como também para indicar o que, para o sardo comunista, caracteriza a filosofia de Marx (cf. Frosini, 2003 e 2004).

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ciência na vida individual de “todos”, mas de inovar e tornar “crítica” uma ativi‑ dade já existente); e, posteriormente, como crítica da filosofia dos intelectuais, que deu origem à história da filosofia e que, enquanto individual (e, de fato, ela se desenvolve essencialmente na atividade de indivíduos singulares particularmente dotados), pode ser considerada como “culminâncias” de progresso do senso comum, pelo menos do senso comum dos estratos mais cultos da sociedade e, através des‑ ses, também do senso comum popular. 19 (C 11, § 12, p. 1383/v. 1, p. 101)

É com essa compreensão que, para Gramsci, “a relação entre filosofia

“superior” [dos intelectuais] e senso comum é assegurada pela ‘política’”. Ou seja, a dimensão política da filosofia da práxis, nesse contexto da reflexão gramsciana da relação entre os intelectuais e os “simples”, não é manter estes na filosofia primitiva do senso comum. Ao contrário, busca “conduzi-los a uma

concepção de vida superior”. O contato entre os intelectuais e os simples “não é para limitar a atividade científica e para manter uma unidade no nível inferior

das massas, mas [ forjar um bloco intelectual-moral que torne politicamen

te possível um progresso intelectual de massa e não apenas de pequenos grupos intelectuais” (Idem, p. 1384‑1385/v. 1, p. 103). 20

É no campo dessa reflexão que reafirma que o “homem ativo de massa”

não teria uma clara consciência teórica de seu agir, podendo mesmo acontecer uma contradição, uma oposição entre sua consciência teórica e a sua ação. Seria possível, assim, afirmar que ele teria duas consciências “uma, implícita na sua ação, e que realmente o une a todos os seus colaboradores na transfor‑ mação prática da realidade; e outra, superficialmente explícita ou verbal, que

]

19. Bianchi (2008, p. 72-73) explicita que essa afirmação “apresentava a filosofia da práxis como uma

filosofia de combate. Como tal, ela deveria cruzar armas com a filosofia de sua época e a apropriação desta pelo senso comum, apresentando-se, por meio da crítica, como a superação filosófica desta filosofia e do senso comum, e a superação prática da separação existente entre o filósofo profissional (o intelectual) e o

‘filósofo’ espontâneo [ A crítica ao senso comum deve ser também uma crítica à filosofia dos intelectuais

porque estes assimilam a filosofia da época como seu horizonte intelectual, como senso comum [ Essa

difusão da filosofia sob a forma de senso comum conforma, também, aquela concepção de mundo popular que deita suas raízes no ‘ambiente externo’”.

20. “O fato de que uma multidão de homens seja conduzida a pensar coerentemente e de maneira uni‑ tária a realidade presente é um fato ‘filosófico’ bem mais importante e ‘original’ do que a descoberta, por parte de um ‘gênio’ filosófico, de uma nova verdade que permaneça como patrimônio de pequenos grupos intelectuais” (C 11, § 12, p. 1378/v. 1, p. 96).

].

].

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ele herdou do passado e acolheu sem crítica” (Idem, p. 1385/Idem, p. 103). Para

o marxista sardo, seria essa concepção “verbal” a que ligaria o indivíduo a um

grupo social determinado, que influiria na [sua conduta moral], na direção da

sua vontade, até o ponto “no qual a contraditoriedade da consciência não per‑ mita nenhuma ação, nenhuma escolha e produza um estado de passividade moral e política” (Idem, p. 1386/Idem, p. 103).

Para Gramsci, a unidade entre a teoria e a prática (entre a concepção de mundo e a ação no mundo) não é mecânica, mas processual. “A consciência de

fazer parte de determinada força hegemônica (isto é, a consciência política) é

a primeira fase de uma ulterior e progressiva autoconsciência, na qual teoria e

prática, finalmente, se unificam.” É essa formação de uma consciência política

e da unidade entre teoria e prática que fortalecem “o desenvolvimento político

do conceito de hegemonia”, conceito que representa, para além do progresso político-prático, um grande progresso filosófico, por implicar e supor “uma unidade intelectual e uma ética adequada a uma concepção do real que superou

o senso comum e tornou‑se crítica, mesmo que dentro de limites ainda restritos”

(Idem, p. 1385‑1386/Idem, p. 103‑104; grifos nossos). Ou seja, um dos elementos que possibilitaria a criação de uma ação política criadora de uma nova hegemo‑ nia está na construção de uma identidade filosófica de um grupo social e a constituição de seus intelectuais.

Nesses termos, a questão da relação entre teoria e prática é, para Gramsci, um “aspecto da questão política dos intelectuais”. A formação de uma “auto‑ consciência crítica significa, histórica e politicamente, criação de uma elite de intelectuais”, ou seja,

] [

sem organizar‑se (em sentido lato); e não existe organização sem intelectuais,

isto é, sem organizadores e dirigentes, ou seja, sem que o aspecto teórico da li‑ gação teoria‑prática se distinga concretamente em um estrato de pessoas “espe‑ cializadas” na elaboração conceitual e filosófica. Mas esse processo de criação dos intelectuais é longo, difícil, cheio de contradições, de avanços e de recuos

[ (C 11, p. 1386/v. 1, p. 104)

uma massa humana não se “distingue” e não se torna independente “para si”

O processo de criação quantitativo e qualitativo do estrato dos intelectuais está ligado a “um movimento análogo da massa dos simples, que se eleva em

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níveis superiores de cultura e amplia simultaneamente o seu círculo de influên‑ cia, com a passagem de indivíduos, ou mesmo de grupos mais ou menos im‑ portantes, para o estrato dos intelectuais especializados”. Esse processo de criação dos intelectuais é marcado por avanços e recuos, que podem expressar a permanência ou o retorno a fases de consciência ainda econômico‑corporati‑ va. É por identificar esses recuos no processo de formação da consciência na relação intelectuais-massa que Gramsci explicita a importância e o significado dos partidos políticos “na elaboração e difusão das concepções do mundo, na medida em que elaboram essencialmente a ética e a política adequadas a elas, isto é, em que funcionam quase como ‘experimentadores’ históricos de tais concepções” 21 (Idem, p. 1387/Idem, p. 105).

Nesse trabalho pedagógico dos intelectuais com as massas para o proces‑ so de difusão de uma nova concepção de mundo, processo (“que é, simultanea‑ mente, de substituição do velho e, muito frequentemente, de combinação entre o novo e o velho)”, são destacados por Gramsci alguns elementos, como a forma em que a nova concepção é exposta e apresentada; o reconhecimento da autoridade e das referências teóricas do intelectual bem como sua participação na organização que defende a nova concepção. Esses são alguns elementos importantes na relação intelectuais‑massa — tanto em indivíduos singulares como em grupos numerosos — para a formação de uma nova concepção de

mundo, embora não decisivos. Ou seja, para Gramsci, a legitimidade do inte‑ lectual e a organização na qual participa são importantes, embora não decisivos para a incorporação de uma nova concepção de mundo por parte das massas populares. Essas, segundo Gramsci, são as “que mais dificilmente mudam de

concepção e que [ jamais a mudam aceitando a nova concepção em sua forma

]

21. “Os partidos selecionam individualmente a massa atuante, e esta seleção opera‑se simultaneamente nos campos prático e teórico, com uma relação tão mais estrita entre teoria e prática quanto mais seja a concepção vitalmente e radicalmente inovadora e antagônica aos antigos modos de pensar. Por isso, pode‑se dizer que os partidos são os elaboradores das novas intelectualidades integrais e totalitárias, isto é, o crisol da unificação de teoria e prática entendida como processo histórico real; e compreende-se, assim, como seja necessária que a sua formação se realize através da adesão individual, e não ao modo ‘laborista’, já que — se se trata de dirigir organicamente ‘toda a massa economicamente ativa’ — deve-se dirigi-la não segundo velhos esquemas, mas inovando; e esta inovação só pode tornar‑se de massa, em seus primeiros estágios, por inter‑ médio de uma elite na qual a concepção explícita na atividade humana já se tenha tornado, em certa medida, consciência atual coerente e sistemática e vontade precisa e decidida (C 11, § 12, p. 1387/v. 1, p. 105). A questão do partido como intelectual será particularmente tratada no próximo item.

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‘pura’ [ mas [ como combinação mais ou menos heteróclita e bizarra”.

]

]

Gramsci exemplifica essa apreensão na seguinte reflexão: “[ quando determi

nada pessoa já se encontra em crise intelectual, oscila entre o velho e o novo,

perdeu a confiança no velho e ainda não se decidiu pelo novo [ (Idem, p. 1390/

Idem, p. 108).

Segundo Gramsci, todo “movimento cultural que pretenda substituir o senso comum e as velhas concepções do mundo” — que podemos apreender

como sendo elementos de conteúdo da ação dos intelectuais — deve desenvol‑ ver a necessidade de “não se cansar de repetir os próprios argumentos (varian‑ do a sua forma): a repetição é o meio didático mais eficaz para agir sobre a mentalidade popular”; trabalhar “para elevar intelectualmente camadas popu‑

lares cada vez mais vastas [ para a criação de elites de intelectuais de novo

tipo, que surjam diretamente da massa e que permaneçam em contato com ela para se tornarem seus ‘espartilhos’”. É essa ação que “modifica o ‘panorama ideológico’ de uma época” 22 (Idem, p. 1392/Idem, p. 110). Gramsci explicita que os intelectuais necessitam se libertar daquilo que chama de “erro do inte‑ lectual” que consiste em crer “que se possa saber sem compreender e especial‑ mente sem sentir e estar apaixonado”. Trata‑se, em suas palavras, de um movi‑ mento que se expressa na

]

]”

],

Passagem do saber ao compreender, ao sentir, e, vice‑versa, do sentir ao com‑ preender, ao saber. O elemento popular “sente”, mas nem sempre compreende ou sabe; o elemento intelectual “sabe”, mas nem sempre compreende e, menos

ainda, “sente”. [ O erro do intelectual consiste em acreditar que se possa saber

sem compreender e, principalmente, sem sentir e estar apaixonado. [ [O inte

lectual] deve sentir as paixões elementares do povo, compreendendo-as e, portanto, explicando-as e justificando-as em determinada situação histórica, bem como relacionando‑as dialeticamente com as leis da história, com uma concepção do mundo superior, científica e coerentemente elaborada, com o “saber”; não se faz política‑história sem essa paixão, isto é, sem esta conexão sentimental entre intelectuais e povo‑nação. Na ausência deste nexo, as relações do intelectual com o povo‑nação são, ou se reduzem, a relações de natureza puramente burocrática

]

]

22. Para Gramsci, “a adesão ou não adesão de massas a uma ideologia é o modo pelo qual se verifica a crítica real da racionalidade e historicidade dos modos de pensar” (C 11, p. 1393/v. 1, p. 111).

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e formal; os intelectuais se tornam uma casta ou um sacerdócio [ (C 11, § 67, p. 1505/v. 1, p. 221‑222)

].

Os elementos que compõem o conteúdo da questão dos intelectuais em Gramsci até aqui expostos adquirem, na redação dos Cadernos 4 e 12, 23 um tratamento mais amplo e sistemático. Passaremos, agora, a explicitá‑los.

3. Intelectuais orgânicos e intelectuais tradicionais: a questão da hegemonia

Os Cadernos 4 e 12 são atravessados por duas interrogações conectadas:

a primeira é se os intelectuais constituem um grupo social autônomo e indepen‑ dente ou se cada grupo social tem a sua própria categoria de intelectuais; a segunda indaga como definir os limites máximos da acepção de “intelectual” (C 12, § 1, p. 1513 e 1516/v. 2, p. 15 e 18).

Em relação à primeira interrogação, Gramsci desenvolve uma das mais importantes reflexões acerca da questão dos intelectuais. Explicita que

cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e político. 24 (Idem, p. 1513/Idem, p. 15; grifos nossos)

23. Trabalharei o conteúdo contido nesses dois cadernos de forma simultânea. Reitero que o Caderno

4 é uma caderno miscelâneo e seu conteúdo foi, na quase sua totalidade, recuperado no Caderno 12, que é um caderno especial. O Caderno 4 foi redigido entre 1930 e 1932, e o 12, em 1932. As referências ao texto serão do Caderno 12 por estar traduzido na edição brasileira dos Cadernos do cárcere. Serão sublinhadas as eventuais supressões ou acréscimos de conteúdo presentes no Caderno 12 em relação ao Caderno 4.

24. No Caderno 4 (§ 49, p. 474‑475), o exercício da direção dos intelectuais é restrita ao ambiente

econômico: “Todo grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no mundo da pro‑ dução econômica, cria para si, ao mesmo tempo, organicamente, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, no campo econômico” (tradução nossa). No Cader‑ no 12, essa função é ampliada para a esfera social e política.

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O que Gramsci afirma é que todo grupo social necessita da criação de intelectuais para a legitimação de sua posição de classe. É nesse sentido que “o empresário capitalista cria consigo o técnico da indústria, o cientista da econo‑ mia política, o organizador de uma nova cultura, de um novo direito” etc. E também atua diretamente no espaço econômico e estatal para referendar seu projeto societário:

o empresário representa uma elaboração social superior, já caracterizada por

uma certa capacidade dirigente e técnica (isto é, intelectual): ele deve possuir uma certa capacidade técnica, não somente na esfera restrita da sua atividade e de sua iniciativa, mas também em outras esferas, pelo menos nas mais próximas da produção econômica (deve ser um organizador de massa de homens, deve ser um organizador da “confiança” dos que investem em sua empresa, dos compradores de sua mercadoria etc.). Senão todos os empresários, pelo menos uma elite deles deve possuir a capacidade de organizar a sociedade em geral, em todo o seu complexo organismo de serviços, até o organismo estatal, tendo em vista a neces‑ sidade de criar as condições mais favoráveis à expansão da própria classe [ (Idem, p. 1513/Idem, p. 15)

] [

É nesse contexto de sua reflexão que aparece a expressão intelectual orgânico: 25 “os intelectuais ‘orgânicos’ que cada nova classe cria consigo e elabora em seu desenvolvimento progressivo são, na maioria dos casos, ‘espe‑ cializações’ de aspectos parciais da atividade primitiva do tipo social novo que a nova classe deu à luz”. É também, nesse contexto, que define os “intelectuais tradicionais” como sendo os intelectuais vinculados aos grupos sociais domi‑ nantes nos contextos socioeconômicos específicos do desenvolvimento histó‑ rico. 26 Elucida Gramsci que

todo grupo “essencial” [ emergindo na história a partir da estrutura econômica anterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou [ ]

]

25. A expressão intelectual orgânico não aparece na redação do Caderno 4.

26. A atenção para as particularidades do desenvolvimento histórico na conformação das relações entre os intelectuais tradicionais e as classes dominantes já está presente no ensaio A questão meridional, como visto.

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categorias intelectuais preexistentes, as quais apareciam, aliás, como representan‑ tes de uma continuidade histórica que não foi interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas. A mais típica destas categorias é a dos eclesiásticos, que monopolizaram durante muito

tempo [ alguns serviços importantes: a ideologia religiosa, isto é, a filosofia e

a ciência da época, com a escola, a instrução, a moral, a justiça, a beneficência, a

assistência etc. A categoria dos eclesiásticos pode ser considerada como a cate‑ goria intelectual organicamente ligada à aristocracia fundiária [ (Idem, p. 1514/ Idem, p. 16)

]

].

Outras categorias de intelectuais tradicionais — além dos eclesiásticos — são formados em disputa com os interesses e os privilégios dos eclesiásticos:

a camada de administradores, cientistas, teóricos, filósofos não eclesiásticos etc. vinculados ao absolutismo. Para Gramsci, essas várias categorias de inte‑ lectuais tradicionais “se põem a si mesmos como autônomos e independentes do grupo social dominante” dada a sua “qualificação” e sua “continuidade histórica”. Argumenta que essa posição assumida pelos intelectuais tradicionais é ancorada numa postura idealista, 27 na medida em que os “intelectuais [tradicionais] acreditam ser ‘independentes’, autônomos, dotados de características próprias etc.” (Idem, p. 1515/Idem, p. 17).

É com essa reflexão sobre a relação “orgânica” que tantos os intelectuais tradicionais quanto os orgânicos tem com o mundo da produção e com os in‑ teresses de classes a que estão vinculados, 28 que Gramsci explicita a sua defi‑ nição de intelectual. Ou seja, o núcleo de reflexão da primeira interrogação é

27. É importante registrar uma passagem em que Gramsci explicita a falsa ideia deste “distanciamento”

dos interesses de classe assumido pelos intelectuais tradicionais. Afirma que as concepções de mundo — dos intelectuais e a religião do alto clero — “são desconhecidas pelas massas, não tendo eficácia direta sobre seus modos de pensar e de agir”. Mas não são desprovidas de eficácia histórica, uma vez que influem sobre as massas “como força política externa, como elemento de força coesiva das classes dirigentes, e, portanto, como elemento de subordinação a uma hegemonia exterior, que limita o pensamento original das massas populares de uma maneira negativa, sem influir positivamente sobre elas, como fermento vital de transfor‑ mação interna do que as massas pensam, embrionária e caoticamente, sobre o mundo e a vida” (C 11, § 13, p. 1396/v. 1, p. 114‑115).

28. Segundo Coutinho (1990, p. 37), para Gramsci, “o intelectual orgânico é elaborado pela classe no

seu desenvolvimento, e pode tanto ser burguês quanto proletário”. Como também “pode haver o intelectual tradicional conservador e o intelectual tradicional revolucionário”.

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aclarado com a resposta que Gramsci oferece à segunda interrogação acerca dos limites que definem a noção de intelectual.

O comunista sardo questiona se é possível definir um critério para carac‑ terizar as diversas atividades intelectuais e também para distingui‑las dos outros agrupamentos sociais. Afirma que a definição de intelectual não está inscrita nas características intrínsecas das atividades intelectuais, ou seja, nas suas qualidades específicas e, assim, nas diferenças e nos graus diversos de tal qua‑ lidade. Defende que esse critério está “no conjunto do sistema de relações no qual estas atividades [intelectuais] (e, portanto, os grupos que a personificam) se encontram no conjunto geral das relações sociais” (C 12, § 1, p. 1516/v. 2, p. 18). Com essa apreensão, Gramsci não considera os intelectuais de maneira abstrata ou como uma casta separada, mas os apresenta como parte integrante das relações sociais, como pertencentes a uma classe social e com a função de representar os interesses dessa classe no conjunto da vida social.

Na reflexão gramsciana, a dimensão intelectual está presente em todas as atividades profissionais: “[ em qualquer trabalho físico [ existe um mínimo

de qualificação técnica, isto é, um mínimo de atividade intelectual criadora”. Mas o exercício da atividade intelectual tem um limite advindo da própria fun‑ ção, do próprio tipo de trabalho que é exercido. É nessa direção que afirma que

]

]

todos os homens são intelectuais, mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais (assim, o fato de que alguém possa, em determinado mo‑ mento, fritar dois ovos ou costurar um rasgão no paletó não significa que todos sejam cozinheiros ou alfaiates). Formam‑se assim, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual; formam‑se em conexão com todos os grupos sociais, mas sobretudo em conexão com os grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante. 29 (Idem, p. 1516‑1517/Idem, p. 18‑19)

Em Gramsci, a distinção entre intelectuais e não intelectuais refere‑se “à imediata função social da categoria profissional dos intelectuais, isto é, leva-se em conta a direção sobre a qual incide o peso maior da atividade profissional

29. Esta passagem não está no Caderno 4.

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específica, se na elaboração intelectual ou se no esforço muscular-nervoso”. Isso significa que inexiste não intelectuais, mas “existem graus diversos de atividade especificamente intelectual” e define os elementos essenciais do que denomina de “novo tipo de intelectual”, que se define por uma “inserção ativa na vida prática, como construtor, organizador, ‘persuador permanente’ [ ] ‘dirigente’” (C 12, § 3, p. 150-151/v. 2, p. 52-53).

Gramsci explicita que o desenvolvimento das instituições escolares ao longo dos processos históricos conferiu grande importância às categorias e às funções intelectuais, multiplicando as especializações e aperfeiçoando‑as 30 . Essa passagem da formação dos intelectuais mediada pelas instituições escolares inicia a reflexão de Gramsci de que “a relação entre os intelectuais e o mundo da produção não é imediata, como ocorre no caso dos grupos sociais fundamen‑

tais, mas é ‘mediatizada’ [ pelo conjunto das superestruturas, do qual os in

telectuais são precisamente os ‘funcionários’” (Idem, § 1, p. 1518/ Idem, p. 20).

Os elementos definidores da extensão e das gradações das funções orga‑ nizativas e conectivas dos diversos grupos intelectuais com os grupos sociais fundamentais podem ser definidos “da base estrutural para o alto” — ou seja, da estrutura para a superestrutura. Para Gramsci, a superestrutura é definida pela

]

“sociedade civil” (isto é, o conjunto de organismos designados vulgarmente como “privados”) e o da “sociedade política ou Estado”, planos que correspondem, respectivamente, à função de “hegemonia” que o grupo dominante exerce em toda sociedade e àquela de “domínio direto” ou de comando, que se expressa no Esta‑ do e no governo “jurídico”. Estas funções são precisamente organizativas e co‑ nectivas. (Idem, p. 1518‑1519/Idem, p. 20‑21)

É na esfera da superestrutura — no campo da sociedade civil e da socie‑ dade política — que Gramsci situa a função dos intelectuais: “os intelectuais

30. “A escola é o instrumento para elaborar os intelectuais de diversos níveis. A complexidade da função intelectual nos vários Estados pode ser objetivamente medida pela quantidade das escolas especia‑ lizadas e pela sua hierarquização: quanto mais extensa for a ‘área’ escolar e quanto mais numerosos forem os ‘graus’ ‘verticais’ da escola, tão mais complexo será o mundo cultural, a civilização, de um determinado Estado” (C 12, § 1, p. 1517/v. 2, p. 19). A relação entre a questão escolar e a formação dos intelectuais não é tratada no Caderno 4. Um acurado estudo acerca da escola e do princípio educativo no pensamento de Gramsci pode ser encontrado em Manacorda (1990).

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são os ‘prepostos’ do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político”, ou seja:

1) do consenso “espontâneo” dado pelas grandes massas da população à orienta‑ ção impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social, consenso que nasce “historicamente” do prestígio (e, portanto, da confiança) obtida pelo grupo dominante por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção); 2) do aparelho de coerção estatal que assegura “legalmente” a disciplina dos grupos que não “consentem”, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído para toda a sociedade na previsão dos momentos de crise no comando e na direção, nos quais desaparece o consenso espontâneo. 31 (C 12, § 1, p. 1519/v. 2, p. 21)

Está aqui uma questão fundamental: para Gramsci, trata‑se de compreen‑ der as funções organizativas e conectivas que os intelectuais desenvolvem, de forma peculiar e historicamente determinada, nos processos de produção da hegemonia 32 (Liguori e Voza, 2009, p. 431). Essa passagem nos permite eluci‑ dar que essas funções organizativas e conectivas se materializam tanto na esfe‑ ra da sociedade civil quanto na esfera da sociedade política. Em outras palavras, as funções de direção e de dominação — das quais os intelectuais são os agentes são concebidas como unidade‑diferenciação e exercidas tanto no

31. Essa busca do consenso dos intelectuais orgânicos junto às classes subalternas também é buscada

junto aos intelectuais tradicionais: “Uma das características mais marcantes de todo grupo que se desenvol‑ ve no sentido do domínio é sua luta pela assimilação e pela conquista ‘ideológica’ dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão for capaz de elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos” (C 12, § 1, p. 1517/v. 2, p. 19).

32. No Caderno 4, esta passagem está assim expressa: “A relação entre os intelectuais e a produção não

é imediata, como ocorre no caso dos grupos sociais fundamentais, mas é mediatizada por dois tipos de orga‑ nizações sociais: a) da sociedade civil, isto é, do conjunto das organizações privadas da sociedade, b) do Estado. Os intelectuais têm uma função na ‘hegemonia’ que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e no ‘domínio’ que se encarna no Estado e esta função é precisamente ‘organizativa’ ou conectiva: os inte‑ lectuais têm a função de organizar a hegemonia social de um grupo e o seu domínio estatal, isto é, o consen‑ so dado do prestígio da função no mundo produtivo e o aparato de coerção para aqueles grupos que não ‘consentem’, nem ativa nem passivamente ou para aqueles momentos de crise de comando e de direção em que o consenso espontâneo sofre uma crise. Desta análise resulta uma extensão muito grande do conceito de intelectual, mas só assim me parece que seja possível alcançar uma aproximação concreta da realidade” (C 4, § 49, p. 476). Como exposto, a redação da função dos intelectuais na relação com a questão da hegemonia no campo da sociedade civil e da sociedade política é pouco desenvolvida. É no caderno 12 que a questão é retomada de forma mais ampla.

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campo da sociedade civil quanto no campo da sociedade política. O exercício da função de domínio e direção dos intelectuais nos aparatos do “Estado integral” está na direção da interpretação de Liguori (2007, p. 16) de que, em Gramsci, há uma distinção “não orgânica”, e sim dialética (de unidade‑distinção) entre sociedade política e sociedade civil. 33

A ampliação das funções dos intelectuais no aparato estatal 34 comportaria gradações qualitativas — de direção e de organização —; pois o exercício da

função organizativa da hegemonia social e do domínio estatal também seria marcado pela divisão do trabalho e pelos níveis de qualificação dos intelectuais:

“no mais alto grau, devem ser postos os criadores das várias ciências, da filosofia, da arte etc.; no mais baixo, os mais modestos ‘administradores’ e divul

gadores da riqueza intelectual já existente, tradicional, acumulada [ Gradação semelhante também é posta para os aparatos militares com seus oficiais superiores e subalternos” (Idem, p. 1519‑1520/ Idem, p. 21‑22).

No compasso dessa reflexão, nosso autor também diferencia dois tipos de intelectuais, os de “tipo urbano” e os de “tipo rural”. Os intelectuais de “tipo urbano” são aqui referidos aos técnicos de fábrica que tiveram no crescimento das indústrias o seu desenvolvimento e, em geral, não possuem iniciativa autô‑ noma na elaboração de planos de produção, mas elaboram sua execução imedia‑ ta estabelecida pela indústria. Eles não exercem função política. Os intelectuais de “tipo rural” (padre, advogado, professor, médico etc.) “são, em grande parte, ‘tradicionais’”, isto é, ligados ao campo, às cidades menores e à pequena burguesia.

].

33. Afirma o autor: “Não me parece que desse modo se perca a especificidade da teoria gramsciana da

hegemonia, baseada no consenso [ mas somente que se desminta uma interpretação da mesma em que

exista unicamente o consenso, só os ‘aparelhos hegemônicos’. A complexidade do papel do Estado (‘integral’) reside no fato de reunir força e consenso num nexo dialético, de unidade‑distinção, no qual, em geral, no ‘ocidente’ o elemento do consenso é o que predomina, sem que evidentemente a ‘força’ desapareça. Tal como o demonstram até mesmo os casos extremos do fascismo e do nazismo” (Liguori, 2007, p. 16‑17; grifo do autor). Uma filologia do conceito de Estado nos Cadernos do cárcere é exposta em Liguori (2007, p. 13‑38).

34. Segundo Gramsci, a categoria dos intelectuais foi ampliada enormemente pelo Estado no mundo moderno pelas necessidades políticas de direção do grupo fundamental dominante no conjunto da vida social. Como explicita Bianchi (2008, p. 74‑75): “O lugar ocupado pelos intelectuais na sociedade moderna era definido pelo desenvolvimento histórico do Estado e por sua ‘ampliação’. A ampliação do Estado deve ser entendida não como um dado, mas como um processo histórico no qual ocorre a incorporação das funções de direção e dos aparelhos de hegemonia próprios dessas funções”. Processo esse que é próprio “de um conjunto de países que a partir do final do século passado protagonizam um complexo processo de transfor‑ mações econômicas, sociais e políticas conhecido como a fase imperialista do capitalismo”.

],

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Os intelectuais de tipo rural relacionam os camponeses à administração estatal, e isso tem “uma grande função político-social, já que a mediação profissional dificilmente se separa da mediação política” (Idem, p. 1520-1521/v. 2, p. 223).

É com a distinção entre intelectual como categoria orgânica de cada grupo social e intelectual como categoria tradicional 35 que Gramsci analisa a impor‑ tância da função do partido político em relação à questão dos intelectuais. Desenvolve que, para alguns grupos sociais, o “partido é o próprio modo de elaborar sua categoria de intelectuais orgânicos”. 36 Já para todos os grupos sociais, o partido constitui o instrumento que, na sociedade civil, produz e realiza a “saldatura” entre intelectuais orgânicos e intelectuais tradicionais para transformá-los em “intelectuais políticos qualificados, dirigentes, organizadores de todas as atividades e funções inerentes ao desenvolvimento orgânico de uma sociedade integral, civil, política”. Essa função é conexa com a função mais geral do partido, que para Gramsci, consiste em elevar o nível econômico‑ ‑corporativo ao ético‑político (Idem, p. 1522/Idem, p. 24).

Caberia ao partido operar a superação dos momentos econômico‑corpo‑ rativos dos grupos sociais (que encontram nos sindicatos as suas expressões) e se tornarem “agentes de atividades gerais, de caráter nacional e internacional”. Todos os membros de um partido político são considerados intelectuais, mas o significado forte é para aqueles que exercem uma função que é “diretiva e or‑ ganizativa, isto é educativa, isto é, intelectual” (Idem, p. 1523/Idem, p. 25).

Nesse campo de discussão sobre a função dos intelectuais, especialmente de determinada função intelectual, a do partido, nos processos de formação de uma consciência ético‑política que supere a mera apreensão e ação corporativa, é pertinente destacarmos uma importante nota intitulada “Relações entre estrutura

35. Gramsci descreve em alguns cadernos o desenvolvimento histórico dos intelectuais tradicionais e

dos intelectuais orgânicos em diversos países como Itália, Inglaterra, França, Alemanha e EUA. Por exemplo, na Inglaterra, o desenvolvimento dos intelectuais orgânicos é diverso da França. Escreve Gramsci: “O novo agrupamento social nascido sobre a base do industrialismo” avançou no desenvolvimento econômico‑cor‑ porativo, mas não no campo intelectual‑político. “É muito ampla a categoria dos intelectuais orgânicos, isto é, dos intelectuais nascidos no terreno industrial do grupo econômico; porém, na esfera mais elevada, encon‑ tramos conservada a posição de quase monopólio da velha classe agrária, que perde supremacia econômica mas conserva por muito tempo uma supremacia político-intelectual, sendo assimilada como ‘intelectuais tradicionais’ e como estrato dirigente pelo novo grupo que ocupa o poder. A velha aristocracia fundiária se une aos intelectuais através de um tipo de sutura que, em outros países, é precisamente aquele que une os intelectuais tradicionais às novas classes dominantes” (C 12, § 1, p. 1526/v. 2, p. 28).

36. Passagem ausente no Caderno 4

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e superestrutura”, presente no Caderno 4, § 38, e reposta no Caderno 13, § 17, com o título “Análises das situações: relações de força”. 37 Nela, Gramsci exami‑ na os diversos “momentos” ou “graus” em que se articulam as relações de forças entre as classes sociais, objetivando identificar as situações que “sugerem as operações táticas imediatas, indicam a melhor maneira de empreender uma campanha de agitação política, a linguagem que será mais bem compreendida pelas multidões etc.” (C 13, § 17, p. 1588/v. 3, p. 19). O primeiro nível de aná‑ lise que examina as relações de força é o econômico, ou seja, é aquele ligado à estrutura objetiva, do grau de desenvolvimento das forças materiais de produção em que se tem os agrupamentos sociais e suas funções e posições na divisão social do trabalho. 38 Trata‑se da base objetiva na qual se estabelece, com realis‑ mo, a análise da relação e a situação política das forças sociais. É nesse segundo nível — o das “relações das forças políticas” —, que se estabelece a identificação do grau de homogeneidade, de organização e consciência ideopolítica alcançado pelos vários grupos sociais: o primeiro é o momento econômico‑corporativo, no qual o grupo profissional toma consciência dos seus interesses e do dever de organizá‑los, mas não desenvolveu ainda unidade com o grupo social mais am‑ plo; o segundo é o momento sindicalista, “em que se atinge a consciência da solidariedade de interesses entre todos os membros do grupo social, mas ainda no campo meramente econômico”. A questão do Estado é posta nesse momento “apenas no terreno da obtenção de uma igualdade político‑jurídica com os gru‑ pos dominantes, já que se reivindica o direito de participar da legislação e da administração e mesmo de modificá-las, de reformá-las, mas nos quadros fun‑ damentais existentes”.

O terceiro momento marca a

fase mais estritamente política, que assinala a passagem nítida da estrutura para a esfera das superestruturas complexas; é a fase em que as ideologias geradas

37. O Caderno 13, intitulado “Notas sobre Maquiavel”, redigido entre 1932 e 1934 contém notas que

foram reescritas, em sua maioria, do Caderno 8 — redigido entre 1931‑1932. Uma discussão da relação entre estrutura e superestrutura nos cadernos pode ser encontrada em Bianchi (2008, p. 121‑142; 157‑172); Liguori e Voza (2009, p. 830‑834); e Cospito (2004, p. 227‑246).

38. Passagem fundamental na explicitação da centralidade ontológica da estrutura em face da superes‑

trutura tal como estabelecido por Marx e Engels. Um mapeamento descritivo de um conjunto de produções acadêmicas de intérpretes de Gramsci — de verniz liberal e culturalista — que renegam essa determinação estrutural presente nos seus escritos está em Liguori (2012).

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anteriormente se transformam em “partido”, entram em confrontação e lutam até que uma delas, ou pelo menos uma única combinação delas, tenda a prevalecer, a se impor, a se irradiar por toda a área social, determinando, além da unicidade dos fins econômicos e políticos, também a unidade intelectual e moral, pondo todas as questões em torno das quais ferve a luta não no plano corporativo, mas num plano “universal”, criando assim a hegemonia de um grupo social fundamen‑ tal sobre uma série de grupos subordinados. (Idem, p. 1583‑1584/ Idem, p. 40‑41)

É nesse terceiro momento, interno às relações das forças políticas, que se pode identificar a formação de uma consciência ético‑política de classe e em que está posta a questão da hegemonia. 39 Ou seja, é nessa passagem para o momento “ético‑político” que esta a fundação de uma nova hegemonia de classe.

Como explicita Coutinho (1991, p. 105‑106), para Gramsci, a possibilida‑ de da construção de uma nova hegemonia está na capacidade de formação de uma vontade coletiva revolucionária dirigida pela classe operária. Nessa cons‑ trução, o gramsciano brasileiro chama a atenção para a centralidade das observações do marxista sardo acerca da necessidade da superação dos movi‑ mentos espontâneos pela direção política consciente, ou seja, por “uma síntese político‑intelectual que supere os elementos de corporativismo e transforme tais movimentos em algo homogêneo, universalizante, capaz de ação eficaz e dura‑ doura”. Para Gramsci, os “sentimentos espontâneos” das massas, prossegue

Coutinho, devem ser “educados”, “orientados” e é da “unidade da espontanei‑ dade” com a “direção consciente” que se deve desenvolver a ação política das classes subalternas. Essa função de síntese e de mediação caberia aos intelectuais orgânicos do partido, ao “moderno príncipe”. No C 4 (§ 46, p. 473), encontramos a seguinte afirmação: “Da fase corporativa à fase de hegemonia na sociedade

civil (ou de luta pela hegemonia) [ correspondem atividades intelectuais de

terminadas, que não se pode improvisar arbitrariamente”. Tradução nossa. Gra‑

msci, aqui, está conferindo uma função particular à mediação do partido como instrumento político da passagem do momento corporativo ao ético‑político.

]

39. A análise das relações de forças é completada por um terceiro nível, identificado por Gramsci como relação de forças militares. A interpretação do significado desse nível de análise das relações de forças abre uma polêmica sobre a estratégia revolucionária defendida por Gramsci, cuja discussão central está no que denominou de “guerra de posição” e “guerra de movimento”. Dado os limites deste artigo, não trataremos dessa questão aqui.

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Também elucida Coutinho (1991, p. 106) que a “formação de uma vontade co‑

letiva liga-se organicamente ao que Gramsci chama [ de ‘reforma intelectual

e moral’”. O moderno príncipe deve ser “ao mesmo tempo o organizador e ex‑

pressão ativa e operante” dessa vontade e trabalhar por uma “reforma intelectual

e moral” (C 13, § 1, p. 1561/v. 3, p. 18), condição necessária para o processo de criação de uma contra‑hegemonia das classes subalternas e pela consequente criação da nova sociedade “regulada”, termo usado por Gramsci para se referir

à criação do “autogoverno dos produtores associados”. A função dirigente e

organizativa que os intelectuais exercem atuando no partido também nos possi‑ bilita afirmar, em acordo com Coutinho (Idem, p. 107), que “o intelectual tem funções similares às de um partido político”, ou seja, há um “estreito vínculo entre a função intelectual e a função político‑partidária”. Intelectual e partido são definidos mais por esta função — a de elevação das consciências sindical e

corporativa à universal, de classe, ético‑política. Entretanto, cabe particularmen‑

te aos intelectuais, na atuação por meio do partido, essa função da criação de

processos de elevação da consciência corporativa à ético‑política, à consciência de classe. Em outros espaços de atuação e outras formas de organização, como, por exemplo, o sistema educacional, meios de comunicação, movimentos sociais, atividades profissionais — em que atuam os intelectuais —, essa função também pode estar presente, mas tende a se centrar no operar dos processos de passagem

do “senso comum” ao “bom senso”, de uma consciência imediata a formas de

pensar e agir críticas, em outras palavras. Em um campo de mediações de for‑ mação de um saber e de um operar que podem fomentar e induzir à formação de uma consciência de classe. Contudo, a centralidade dessa formação em Grams‑

ci está na função do intelectual que atua por meio do partido.