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Editorial

Este número 114 da revista Serviço Social & Sociedade apresenta um conjun‑ to de artigos que problematizam demandas e desafios que se colocam para a profissão, quer do ponto de vista da pesquisa e do aprofundamento de conhecimentos que se colocam como fundamento do trabalho do assistente social, quer do ponto de vista de temáticas que estão presentes no exercício profissional cotidiano. Nes‑ se sentido, os textos aqui reunidos abarcam conteúdos relevantes para a pesquisa, para a intervenção profissional e também para o questionamento do significado das atuais políticas que incentivam a privatização de serviços.

Abrindo este número, dois artigos trazem elementos teóricos que enriquecem a apreensão do legado lukacsiano e a pesquisa no exercício profissional. O texto Os 40 anos sem Lukács e o debate contemporâneo nas Ciências Humanas faz uma reflexão muito pertinente às Ciências Sociais, mas especialmente ao Serviço Social. Mostra a relação entre o que denomina de “desprezo ao espólio lukacsiano” por parte das Ciências Sociais como um processo que decorre exatamente da potência crítica desse referencial, especialmente de sua capacidade de apreensão ontológica da realidade social. É uma contribuição que reafirma elementos fundamentais para o Serviço Social à medida que evidencia a naturalização das relações sociais insti‑ tuídas e a historicidade dos processos sociais.

O outro artigo discute a pesquisa na formação e prática profissional. No pri‑ meiro momento, realiza uma descrição histórica referente à pesquisa e produção do conhecimento no Serviço Social, buscando identificar as “mudanças” ético‑po‑ lítica e teórico‑metodológica vivenciadas pela disciplina de pesquisa. Em seguida, problematiza a relação da pesquisa com a prática profissional do Serviço Social na atualidade.

Um outro bloco, composto de três artigos, problematiza questões referentes ao exercício profissional em diferentes esferas: nas empresas de consultorias e assessorias, em instituições de internação de jovens e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O primeiro destaca a atuação do Serviço Social em empresas privadas, descreve o trabalho profissional e evidencia a condição de trabalhador terceirizado e o processo de flexibilização e precarização de trabalho a que esses profissionais estão submetidos. No artigo subsequente, o foco é a percepção do racismo institucional por parte do profissional de Serviço Social. Com base em

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considerações importantes sobre a temática do racismo e sua presença nas relações sociais instituídas, a autora demonstra as dificuldades de percepção da questão étnico‑racial e a necessidade de avançarmos nesse debate no âmbito da formação e no exercício profissional. O último artigo deste bloco discute o desafio de apre‑ ensão da condição de classe daqueles que sofrem de transtornos mentais.

Fecha o conjunto de artigos que compõem este número dois textos que trazem

o debate internacional com foco em duas áreas: a descriminalização das drogas e

questão de gênero. O primeiro traz a experiência de Portugal no combate às drogas,

a instauração de políticas públicas de descriminalização e os resultados obtidos.

Um tema polêmico e que muito pode contribuir com o serviço social brasileiro num contexto como o atual em que o combate à droga tem servido muito mais para a criminalização da pobreza do que realmente para a instauração de políticas públicas efetivas. O outro texto, proveniente da Colômbia, aborda o processo de luta pela construção política da cidadania das mulheres nesse país.

Na seção Comunicação de Pesquisa, dois artigos trazem temas atuais e que têm sido alvo de debate no Serviço Social: a criação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH); e a experiência do trabalho com comunidade desenvolvida na área da saúde em Fortaleza. Embora ambos tenham focos diferen‑ ciados, têm em comum o fato de revelarem experiências que problematizam a formação profissional e a universidade: seu papel, seu posicionamento diante da realidade e seu vínculo com a sociedade. O debate sobre a EBSERH tem envolvido diversos segmentos sociais, em especial aqueles que defendem os princípios da reforma sanitária e do SUS, daí a importância de trazer para o Serviço Social esse debate político assim como a retomada da proposição dos princípios da educação popular pode ser de grande valia numa conjuntura como a atual em que o trabalho socioeducativo do Serviço Social está na pauta do dia.

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Os 40 anos sem Lukács e o debate contemporâneonasciênciashumanas* 1

The 40 years without Lukács and the contemporarydiscussioninhumanities

without Lukács and the contemporarydiscussioninhumanities Rogério Castro** 2 Resumo: Após quatro décadas de sua

Rogério Castro** 2

Resumo: Após quatro décadas de sua morte, o filósofo marxista húngaro György Lukács tem sido um exilado da cultura contemporâ‑ nea. O objetivo deste artigo é entender as causas de esse autor de tão densa envergadura ter a verdadeira fortuna crítica que constitui o seu espólio desprezada nos debates ora em curso nas ciências humanas.

Palavras‑chave: Lukács. Ontologia do ser social. Trabalho. Pós‑mo‑ dernidade.

Abstract: After four decades of his death, the Hungarian Marxist philosopher György Lukács has been an exile from contemporary culture. The aim of this paper is to understand the causes of this author of so dense scale have true wealth which constitutes his estate overlooked in discussions now underway in the humanities.

Keywords: Lukács. Ontology of social being. Work. Postmodernity.

* Artigo submetido ao Programa de Pós‑graduação em Serviço Social da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ESS/UFRJ) como requisito de ingresso no curso de Doutorado, no processo seletivo do ano de 2012. Para esta versão que ora vem a público, nosso agradecimento especial ao professor emérito José Paulo Netto (ESS/UFRJ) pelas correções e pelas cuidadosas observações.

** Doutorando em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro‑UFRJ, Brasil; mestre em Serviço Social pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Em 2009 foi aluno externo do Programa de Pós‑graduação em Serviço Social da ESS/UFRJ por intermédio do Programa Nacional de Cooperação Acadêmica (Procad/Capes). E‑mail: rogeriocastrouesb@hotmail.com.

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Introdução

H á exatos quarenta e dois anos, nos deixava talvez o espírito mais con‑ troverso que a tradição marxista viu passar “no breve século XX”: o filósofo húngaro György Lukács. 1 Nascido em Budapeste, Hungria, no dia 13 de abril de 1885, Lukács dedicou grande parte de suas oito

décadas de vida ao intenso trabalho filosófico. Leu e conviveu com nomes conso‑ lidados na cultura europeia moderna, como Simmel e Max Weber. Ainda em sua juventude, adotou a perspectiva kantiana, rompendo em seguida com esta por in‑ fluência de Hegel. Lia a emergente sociologia alemã e interessou‑se, desde cedo, por crítica literária. São da primeira década do século que se iniciava as suas pri‑ meiras obras que iriam lhe dar certa projeção na cultura da época: A teoria do ro‑ mance, A alma e as formas, A evolução do drama moderno. Mas o episódio mais significativo para a sua última grande virada filosófica veio da Rússia, no ano de 1917. Apesar de no primeiro momento rejeitar o bolchevismo por “um problema moral”, um ano após ter estourado o Outubro Vermelho Lukács adere ao Partido Comunista da Hungria. É nele, inclusive, que vai revolucionar a cultura — na condição de comissário do povo — durante os pouco mais de quatro meses de vida da Comuna Húngara.

Após a vitória da contrarrevolução, Lukács vai se dedicar intensamente ao trabalho teórico e militante. Após publicar Tática e ética, Lukács vai lançar — no ano de 1923 — uma coletânea de ensaios que vinham sendo produzidos desde a derrota da Comuna Húngara em uma obra que iria ter grande impacto e logo em seguida passaria a integrar a lista dos livros malditos segundo o entendimento da Internacional Comunista (IC): História e consciência de classe. O nome de Lukács voltaria ao centro da polêmica seis anos mais tarde, quando vêm a público as fa‑ mosas teses do camarada Blum (pseudônimo adotado por ele no PC húngaro). Forçado a renegar o conteúdo delas, de modo insincero conforme o mesmo irá admitir mais tarde, é durante seu primeiro exílio na URSS, entre os anos de 1930 e 1931, que ele irá fazer grandes descobertas e iniciar os primeiros passos que um estudioso seu, Guido Oldrini, chamaria de “virada ontológica”. A partir daí que Lukács vai começar a romper com o seu marxismo abstrato, passar a ler Hegel com outros olhos, com a lupa de quem lera os escritos marxianos de juventude e os

1. Lukács faleceu exatamente no dia 4 de junho de 1971 (Netto, 1983).

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Cadernos filosóficos, de Lenin. Ao longo de toda sua trajetória daí para a frente, ele vai acompanhar, com certa preocupação, os rumos da URSS sob o efeito de graves deturpações do pensamento de Marx. E é, em grande medida, empenhado em cor‑ rigir tais erros, que o autor húngaro se lançará na monumental tarefa de redigir Ontologia do ser social, após, inclusive, ter acabado outro enorme empreendimen‑ to, a sua Estética.

Projetada para ser uma introdução a sua Ética, a Ontologia do ser social — que chega ao público brasileiro em seu primeiro volume 2 — não tivera seus traços definitivos pelo fato de o autor vir a óbito antes do seu término. Segundo nos con‑ tam seus biógrafos, ele interrompera os trabalhos de acabamento para escrever os Prolegômenos para uma ontologia do ser social, uma espécie de obra introdutória, que recentemente também fora lançada no Brasil. 3 Não obstante todos os percalços, estudiosos desta que seria a sua derradeira grande obra assinalam ser ela uma pre‑ ciosa fonte de entendimento da tese marxiana do trabalho como momento fundan‑ te do ser social. Um dos mais atentos desses estudiosos, Sérgio Lessa afirma que por ter conseguido resgatar tal tese, com clareza e consistência inigualáveis, a Ontologia se constitui numa poderosa arma, nos dias atuais, para o combate às teses que falam do fim do trabalho, bem como aquelas que, ao tratar a essência humana como a‑histórica, elevam a essência do homem burguês à essência burgue‑ sa do homem, como nos diz ele parafraseando Marx.

Apesar de nela estarem sedimentados de modo sistemático os principais com‑ plexos problemáticos tratados em vida por Marx (trabalho, reprodução, ideologia e alienação), mais especificamente no seu segundo volume, a proposta de renovação do marxismo, que conforme Nicolas Tertulian não sucumbiu aos escombros do muro de Berlim, quarenta anos após a morte de seu autor, não vingou. As razões para o esquecimento, ou como dirá José Paulo Netto, para Lukács se tornar um exilado na cultura contemporânea, um estranho no ninho, são muitas. Aqui, neste artigo, tentaremos expor de modo breve apenas algumas das várias que fazem com que seu nome seja sequer mencionado e sua imponente obra sequer referida. As transformações provocadas com o advento da era da informática; os estudos que apontam para uma abrupta diminuição do número de trabalhadores em atividades secundárias e o aumento progressivo no setor de serviços (terciário); os impactos

2. Lukács, G. Por uma ontologia do ser social I. São Paulo: Boitempo, 2012.

3. Lukács, G. Prolegômenos para uma ontologia do ser social: questões de princípios para uma ontologia

hoje tornada possível. São Paulo: Boitempo, 2010.

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das interpretações do texto de Marx à luz de Althusser (e outros), aquilo que Lean‑ dro Konder chama de “Marx de segunda mão”; as influências que as descobertas dos psicanalistas Freud e Lacan a respeito da inconsciência tiveram no meio aca‑ dêmico; o tratamento da sociedade não mais como estrutura e sim como rede, não mais sólida e sim “líquida”, entre várias outras.

O que procuraremos, por fim, nas linhas que se seguem, é tentar relacionar alguns conteúdos das teses de Lukács, contidos na sua Ontologia, com algumas das teses em voga hoje nas ciências humanas. Como a grande maioria delas entra em colisão com o núcleo fundamental do raciocínio lukacsiano, buscaremos, na medi‑ da do possível, apontar os pontos divergentes entre elas e o pensamento do autor húngaro, bem como, de algum modo, tentaremos proceder uma crítica que busque demonstrar as possíveis raízes dos seus equívocos.

1. A perspectiva ontológica do ser e a reprodução da sociedade

A primeira coisa que nos tem a dizer Lukács sobre a consideração do ser enquanto ser é que ele — diferente da velha ontologia escolástica — deve ser hie‑ rarquizado em graus, em conformidade como ele mesmo se apresenta como ser em geral, adequando‑se à essência da realidade. Logo, a pergunta que deve ser posta é:

qual grau do ser existe sem que sua existência dependa de outro? E ainda: qual grau para existir pressupõe a existência de outro? Estabelecendo o problema dessa forma, Lukács pôde afirmar que a natureza inorgânica é o grau de ser que existe independente da natureza orgânica e da própria sociedade. A natureza orgânica, ao contrário, só existe tendo como sua base de ser a natureza inorgânica, que constitui a base de ser inferior. Já o ser social depende desses dois graus que, juntos, perfazem o ser natural. A sua existência pressupõe a existência dos outros dois como sua base de ser.

Toda essa caracterização geral, conforme nos assegura o próprio autor, não está relacionada a propósitos valorativos; ela se resume simplesmente à constatação de um fato. Dessa hierarquização, Lukács pode então ordenar o ser segundo três aspectos que são referentes ao ser em geral: o problema da prioridade ontológica, da independência e dependência ontológica. 4 Mas, então, o que diferenciaria cada grau do ser ou cada uma dessas esferas ontológicas? De acordo com o filósofo

4. Lukács, 1981, p. 166.

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húngaro, por não existir uma continuidade na natureza inorgânica diferente do “tornar‑se outro”, a reprodução seria o critério de distinção entre essa esfera e as outras duas superiores, a natureza orgânica e a social. Mas o que distinguiria a natureza orgânica do ser social? Numa palavra, a posição teleológica do trabalho, que é, segundo o autor, “a causa determinante desta diferença”, 5 não possui nenhu‑ ma analogia na natureza; é peculiar ao ser social.

A reprodução do ser biológico seria caracterizada por “relações relativamen‑ te estáveis” pelas quais, genericamente, poderíamos dizer que “eles reproduzem simplesmente a si mesmos”, isto é, “seres viventes com a mesma constituição biológica”. 6 Por não constituir em sua interação com o mundo circunjacente com‑ plexos parciais mediadores, e por isso sua interação com o mesmo ser mínima, a reprodução do ser vivente na natureza orgânica coincide com a reprodução filoge‑ nética; dessa identidade imediata se elucida o mutismo do seu gênero. 7

Ao tratar da analogia entre o biológico e o social, de o fato do traço comum à ambas as esferas ser a reprodução, Lukács nos mostra de que forma a esfera biológica tem como momento decisivo, do ponto de vista do desenvolvimento, a subjugação de categorias pertencentes a graus de ser inferiores.

Sem descer a detalhes, apenas observemos que o mundo vegetal se reproduz ainda mediante uma troca direta com a natureza inorgânica, enquanto o mundo animal já usa como alimento outros organismos; que, além disso, nas inter‑relações dos animais com o seu ambiente as reações diretas e exclusivamente biofísicas e bioquímicas são substituídas por outras reações sempre mais complexamente mediadas (sistema ner‑ voso, consciência). (Lukács, 1981, p. 147)

Apesar de inserida em novos nexos, a legalidade da esfera fundante não é inteiramente suprimida. Nas suas relações recíprocas com a esfera dependente, esta constitui categorias qualitativamente novas, com leis autônomas em relação àque‑ las da esfera fundante; mas é exatamente em sua novidade e autonomia que esta última é pressuposta em tudo pela esfera dependente. Disso pode se afirmar que nenhuma esfera dependente atinge sua conformação específica de um só golpe. Esta antes de atingir seus contornos mais definitivos, é resultado de um processo histó

5. Ibidem, p. 147.

6. Ibidem, p. 147.

7. Castro, 2011, p. 41.

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rico através do qual “a perene reprodução das novas formas de ser produz, em um

nível cada vez mais desenvolvido, autônomo [ ficamente características destas formas”. 8

O ser social compartilha com o biológico o fato de, do ponto de vista bioló‑ gico, possuir características vitais, como nascer, viver, morrer, fases que não têm analogia com o ser inorgânico. Ele tem por base o homem, como base insuprimível enquanto ser vivente. Assim, a reprodução do ser social pressupõe, por um momen‑ to, a reprodução da sua base ineliminável — o homem. Só por um momento, porque a forma como essa reprodução da sua base biológica se dá é condicionada social‑ mente, pois “pela combinação da atividade social dos homens na reprodução da

própria vida [

modificam também a reprodução biológica da vida humana”. 9 Lukács cita um exemplo dado por Marx nos Grundrisse 10 para ilustrar tal situação. Segundo ele, a alimentação se constitui num fato inevitável para a reprodução humana; mas a fome que é saciada com carne crua, devorada por mãos, unhas e dentes, é diferente da‑ quela que é satisfeita com garfo e faca; as formas de sua satisfação, portanto, são funções do desenvolvimento econômico‑social.

Em outro setor da vida biológica, o da sexualidade, Lukács observa uma si‑ tuação semelhante. Apesar de a atração entre os sexos não perder jamais o caráter biológico caracterizado pelos instintos, estes últimos, ao acolherem em si um nú‑ mero crescente de conteúdos advindos da intensificação das categorias sociais, mas sem com isso deixar de sintetizar‑se organicamente com a atração física, possuem um caráter humano social que é diverso em relação a ela 11 (a atração física). “[ as suas formas fenomênicas [do desenvolvimento social] incidem profundamente até nos aspectos corporais e, da maneira de vestir à cosmética, influenciam de ma‑ neira decisiva o funcionamento dos instintos erótico‑sexuais”. 12

]

as categorias, as leis etc. especi‑

]

]

nascem categorias e relações completamente novas [

]

que

8. Lukács, op. cit., p. 166‑67.

9. Ibidem, p. 146.

10. Esse texto também já se encontra disponível ao público brasileiro graças à inédita tradução

organizada pela editora Boitempo em parceria com a Editora UFRJ. Ver: M arx , K. Grundrisse: manuscritos econômicos de 1857‑1858: esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro:

Ed. UFRJ, 2011.

11. Dessa distinção, por exemplo, do caráter de socialidade das relações humano‑sociais, do

condicionamento social das mesmas, é que se pode concluir, por exemplo, que a essência do homem não é a‑histórica, nem imutável.

12. Lukács, op. cit., p. 151.

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O ser social tem de específico a sua origem com o ato de trabalho. Por provo‑ car mudanças externas e também internas, a reprodução do ser social assim se di‑ ferencia da reprodução da vida orgânica. De acordo com Lukács, o trabalho reme‑ te seus resultados para além de si mesmos. O que se desdobra necessariamente do seu ato é a fabricação de instrumentos, a exploração das forças naturais etc. Ao longo do seu processo reprodutivo, vão se verificando mudanças qualitativas no modo de realizá‑lo, decorrendo disso aqueles pontos nodais “que transformam qualitativamente a estrutura e a dinâmica das sociedades singulares”, 13 que em certos casos irão significar verdadeiros saltos. Segundo o autor húngaro, o que vai possibilitar essas mudanças, do ponto de vista ontológico objetivo, é o fato de o trabalho teleologicamente, conscientemente posto, conter em si a possibilidade (dynamis) de produzir mais do que o necessário para a reprodução daquele que realiza o processo de trabalho.

Esta capacidade do trabalho de ir com seus resultados além da reprodução do seu executor cria a base objetiva da escravidão, antes da qual apenas existia a alternativa de matar ou adotar o inimigo feito prisioneiro. Daqui o caminho leva, através de várias etapas, ao capitalismo, onde este valor de uso da força de trabalho se torna a base de todo o sistema. (Idem, p. 136)

A divisão do trabalho é o produto orgânico necessário do trabalho. A coope‑ ração, que surge em períodos ainda primitivos, é um tipo de divisão do trabalho. Segundo Lukács, a simples existência dessa divisão faz surgir a comunicação entre os homens — a linguagem. De acordo com ele, a linguagem “é um instrumento para fixar os conhecimentos e exprimir a essência dos objetos em‑si através de pontos de vistas que se fazem sempre mais verdadeiros”. 14

No seu início, a divisão do trabalho é apenas ocasional, consistindo “num mero agir tecnicamente em comum no caso de determinadas operações ou cooperações”. 15 Conforme analisa o filósofo húngaro, é provável que se tenha de‑ corrido um tempo relativamente longo até que a divisão do trabalho viesse a se consolidar em profissões e a se tornar uma estrutura social específica pondo‑se diante dos indivíduos como uma forma já autônoma do ser social. Mas é somente

13. Ibidem, p. 136.

14. Ibidem, p. 136.

15. Ibidem, p. 154.

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na manufatura que há uma divisão do trabalho envolvendo as operações singulares, uma subdivisão do processo de trabalho enquanto tal, ainda que a motivação fosse provocada por um virtuosismo excepcional. Apenas com o advento da máquina é que surge uma subdivisão por ela determinada, dando início “à verdadeira e própria divisão do trabalho determinada pela tecnologia”. 16 Dessa forma, pode‑se concluir que a divisão técnica do trabalho, que nos estágios superiores se apresenta de ma‑ neira tão evidente, é antes de tudo um efeito, e não uma causa. Ela se desenvolve daquela divisão de tarefas baseada na diferenciação biológica do gênero humano, que com o fato de o ser social se tornar cada vez mais puramente social, vai pondo em segundo plano o critério biológico desse princípio de diferenciação.

Engels revela que o lugar da mulher na vida social (matriarcado etc.) depende do fato de que o aumento da riqueza atribua às funções econômicas do homem um peso maior em relação àquelas da mulher, enquanto no estágio precedente a coisa estava inverti‑ da. (Idem, p. 138)

Dessa maneira, revela‑se que uma relação tão elementar como a sexual acaba sendo, em última análise, determinada pela estrutura social em questão.

Uma das consequências da divisão do trabalho é o fato de ela ocasionar o surgimento de relações e ações puramente sociais. As posições que visam suscitar em alguém a vontade de operar determinadas posições teleológicas — as posições teleológicas de segundo tipo — são um exemplo (As posições teleológicas “pri‑ márias” são aquelas que visam a transformar um dado da natureza segundo fina‑ lidades humanas). O desenvolvimento da divisão do trabalho, segundo Lukács, por sua própria dinâmica espontânea, na linha desse processo de sobreposição do biológico pelo social, traz à luz cada vez mais categorias sociais puras, como o valor de troca. Conforme a necessidade com que a divisão do trabalho conduz a troca de mercadorias, o valor vai assumindo papel central na regulação da ativi‑ dade econômica.

o fato da troca, mesmo se, como Marx demonstra, se trata no início de uma troca

— mais ou menos ocasional — entre pequenas comunidades e não entre os membros singulares, significa que já, de um lado, determinados valores de uso são produzidos em quantidade superior à necessidade imediata de seus produtores; e, por outro lado,

] [

16. Ibidem, p. 140.

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que estes últimos têm necessidade de bens que eles não estão em condições de se abster por si com o próprio trabalho (Ibidem, p. 140).

Não tendo nenhuma relação com o ser físico, químico ou biológico, o valor

de troca possui um caráter social puro. Por outro lado, mesmo sendo uma categoria

social pura, o valor de troca apenas pode existir em associação com um valor de uso; 17 a sua generalização na sociedade põe em relevo o tempo socialmente neces‑

sário como medida de sua grandeza concreta. Segundo Marx, diz o autor húngaro,

o tempo de trabalho como regulador da produção é uma característica da reprodu‑

ção em geral, apesar de na formação social capitalista assumir uma forma reificada.

Ele se apresenta de modo diferenciado nas diversas formações, “nos diferentes níveis de consciência parcial ou de mera espontaneidade” 18 . Citando o exemplo de Robinson, segundo o autor, Marx teria escrito: “Precisamente a necessidade o

constrange a distribuir exatamente o próprio tempo entre as suas diferentes funções”, que ainda segundo Marx, seriam apenas “modos diferentes de trabalho humano”. 19 Numa família autossuficiente no quadro de uma economia feudal, também a corveia

é medida com o tempo, da mesma forma como o trabalho produtor de mercadorias.

O tempo de trabalho também desempenharia o seu papel no socialismo. Ele seria

distribuído segundo um plano, e essa sua distribuição regularia “a proporção exata das diferentes funções do trabalho com as diferentes necessidades”. E ainda seria medida de participação individual do produtor no trabalho comum. 20

A divisão do trabalho se desenvolve do processo reprodutivo do trabalho. De acordo com Lukács, é um efeito do desenvolvimento das forças produtivas, o qual,

17. “O valor de troca é uma categoria social pura, sabemos, porém, que somente pode se tornar real em

indissociável relação com o valor de uso. Este último, pelo contrário, é um dado da natureza socialmente transformado” (Lukács, p. 142). A ideia, como desenvolvida em Marx na sua teoria do valor‑trabalho, de o valor das coisas não ser imanente a elas, e sim ser determinado socialmente, é o que se encontra de modo latente por detrás dessa fala de Lukács. O exemplo utilizado em O capital, de o ouro ter seu valor (e sua importância) associado ao tempo de trabalho socialmente necessário para ser obtido, o que lhe dá o status de pedra preciosa, talvez sirva aqui para ilustrar a situação. Ver: Castro, R. Notas preliminares sobre a teoria do valor. In: Costa, G.; Prédes, R.; souza, R. (Orgs.). Crise contemporânea e serviço social. Maceió: Edufal, 2010.

18. Lukács, op. cit., p. 144.

19. A afirmação estaria n’O capital. In: M arx , K. O capital: crítica da economia política. São Paulo:

Abril Cultural, 1983. v. I, t. I., p. 73‑74. Há, também, uma nova edição dessa obra organizada pela Editora Boitempo.

20. Para mais informações, cf.: Ibidem, p. 75; e, também, o texto “Crítica ao Programa de Gotha”. In:

a ntunes , R. (Org.). A dialética do trabalho. São Paulo: Expressão Popular, 2004. p. 101‑124.

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por sua vez, “constitui um ponto de partida para um desenvolvimento ulterior”. Nesse desenvolvimento, o processo de trabalho descobre e realiza coisas novas, novas necessidades e novas formas de satisfazê‑las, mas também provoca na socie‑ dade “uma divisão de trabalho não simplesmente técnica, mas também social” 21 . Mesmo tendo origem nos seus atos de trabalho, a divisão do trabalho, uma vez que exista, se coloca diante dos indivíduos como “potência social”, assumindo um ca‑ ráter autônomo de ser. O filósofo húngaro está se referindo a dois complexos que diferenciam fortemente a sociedade originalmente unitária: a divisão entre trabalho intelectual e físico (körperlicher Arbeit) e a divisão entre campo e cidade. O primei‑ ro deles está contido em germe desde o início da divisão do trabalho, porque, como as posições teleológicas são de dois tipos, isto é, primárias e secundárias — as pri‑ meiras visam transformar um dado natural (objeto) com finalidades humanas e as segundas visam induzir outros homens a realizar uma posição teleológica que se quer que se realize —, quanto mais se desenvolve a divisão do trabalho, mais autô‑ nomas se tornam as posições de segundo tipo e “mais podem se desenvolver em um complexo por si da divisão do trabalho”. 22 Essa divisão entre trabalho intelectual e físico é potencializada quando, a partir de certo ponto, se verifica a divisão entre campo e cidade. Esta última, por concentrar a atividade industrial, passa a centrali‑ zar mais as tarefas ligadas ao trabalho intelectual, enquanto o campo é relegado dos progressos da cultura. “A humanidade, portanto, vai cada vez mais decisivamente se distanciando da sua situação de partida, quando a troca orgânica direta com a natureza imediatamente circundante envolvia, por inteiro, o trabalho de todos”. 23

Tais formas de divisão do trabalho se entrecruzam, no seu desenvolvimento, com a que do ponto de vista histórico é a mais importante: a da diferenciação das classes. A origem dessa diferenciação está no fato de o valor de uso da força de trabalho poder produzir mais do quanto necessita para reproduzir a si mesma. Logo, é o desenvolvimento da produção que vai determinar, ainda que em termos de in‑ teração, o tipo de diferenciação, da função e perspectiva social das classes.

As condições econômicas haviam primeiro transformado a massa da população do país em trabalhadores. A dominação do capital criou uma situação comum, interesses comuns para esta massa. Desta forma, esta massa já é uma classe nos confrontos do

21. Lukács, op. cit., p. 154‑55.

22. Ibidem, p. 155.

23. Ibidem, p. 157.

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capital, mas não ainda por si mesma. Na luta

classe por si mesma. (Marx, K. A miséria da filosofia, apud Lukács, 1981, p. 159)

esta massa se reúne, se constitui em

Lukács nos diz que com a primeira divisão em classes na sociedade levada a cabo pela escravidão, junto com a qual além dos antagonismos entre escravos e senhores surgem também aqueles entre credores e devedores etc., os conflitos que daqui surgiram, junto com os advindos da circulação de mercadorias, do comércio, tiveram de ser regulamentados socialmente por meio de uma jurisdição conscien‑ temente posta, não mais apenas tradicional. O autor húngaro observa que simulta‑ neamente ao aparecimento da esfera jurídica na vida social, se verifica o surgimen‑ to de um grupo de pessoas que recebe o mandato social de impor por intermédio da força os objetivos desse complexo. Surge, então, uma força pública que organi‑ za a si mesma como poder armado, não coincidindo mais diretamente com a popu‑ lação. Apesar de vir no primeiro plano aquela luta de classe que vem das formas fundamentais de apropriação do trabalho excedente, Lukács afirma que não devem ser desprezados os antagonismos de classe de outro tipo, surgidos pelo trâmite das mediações econômicas. Quando os antagonismos sociais já adquiriram formas mais mediadas, diz o autor, reduzir, entretanto, a regulamentação do agir “ao puro uso da força significaria chegar, sem mais, à destruição da sociedade” 24 . Entra em cena, então, aquela complicada unidade entre força explícita e força disfarçada, revestida com os trajes da lei, cuja expressão é a forma jurídica.

Os homens armados engelsianos cedem o lugar à eventualidade weberiana de que em caso de conflito venham homens com armas na mão, o que diz claramente como, não obstante todas as variações de alguma forma absolutamente irrelevantes, a estrutura aqui indicada se reproduz substancialmente tal e qual ao longo da história. (Idem, 243)

O sujeito do dever de julgar os vários resultados da práxis humanas, isto é, de estabelecer se estes são lícitos ou delituosos, é o Estado. Este além de possuir o monopólio desse juízo, detém ainda o monopólio “legítimo e exclusivo da força física”. Lukács afirma, no entanto, que este poder de decisão seria “um reflexo inadequado do processo social”. Segundo ele, como tem que ter necessariamente um caráter prático, todo estabelecimento jurídico possui um duplo caráter. Por ter que ser uma fixação ideal, não acolhedora de contradições, detentora de univoci

24. Ibidem, p. 207.

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dade lógica, tal “sistema, de fato, não se desenvolve como reflexo desta [do terre‑ no da realidade], mas como manipulação que a homogeniza em termos abstra‑ to‑ideais”. 25 Por outro lado, do ponto de vista do sistema, a ausência de contradições “decretada oficialmente” é mera aparência. Contudo, se vista segundo o ponto de vista da ontologia do ser social, essa forma de regulamentação é, no concreto, socialmente necessária, “pertence ao ser‑precisamente‑assim da sociedade na qual opera”. 26 Por conta disso, a sua compacticidade sistemática é ilusória, pois o esta‑ belecimento do que é lícito ou não e o seu ordenamento em um sistema não está ancorado na realidade em si, mas “na vontade da classe dominante em ordenar a práxis social segundo os próprios desígnios”. 27

Conforme nos assegura o filósofo húngaro, toda tentativa de “sonho de justi‑ ça” não pode se situar, na verdade, nunca para além de uma concepção econômica de igualdade. Isto quer dizer que como só é possível igualar trabalhos concretamen‑ te distintos entre si apenas no plano abstrato, o critério utilizado para igualar tais trabalhos diversos a uma grandeza comum (ou equivalente) é o tempo de trabalho socialmente necessário. Dizendo de outro modo: como o que determina o valor das grandezas de duas mercadorias é o tempo de trabalho social médio, como este é o critério que as iguala, fazem‑nas ter o mesmo valor, podemos afirmar que essa igualdade realizada na circulação de mercadorias só pode ser obtida quando dois produtos que no concreto são diversos são reduzidos a trabalho indiferenciado, isto é, a um mesmo quantum de trabalho (abstrato), que é medido pelo tempo. 28 É des‑ sa compreensão geral que Marx vai afirmar, segundo Lukács, que o direito, também no socialismo, é um direito da desigualdade, como todo direito. Ele considera como igual, reduz a uma medida comum, o que no concreto é desigual (as capacidades individuais de rendimento); logo, não pode deixar de ser este direito igual um di‑ reito desigual para trabalho desigual — a diferença aqui é que todos seriam consi‑ derados segundo um único ponto de vista, o de todos serem operários. Por conta disso é que a única possibilidade de superação desse dilema no concreto 29 , e o di‑

25. Ibidem, p. 215.

26. Ibidem, p. 215.

27. Ibidem, p. 215.

28. Vale salientar que esse tempo social médio surge como categoria econômica espontaneamente no

devir da sociedade. Ver mais sobre a teoria do valor‑trabalho em Castro (2010a).

29. Segundo Lukács (1981), “a discrepância entre o conceito jurídico de igualdade e a desigualdade da

individualidade humana” (p. 219).

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reito tal como conhecemos assim conhecer a sua perspectiva de extinção, seria quando a sociedade (comunista), já totalmente reestruturada, se organizasse segun‑ do o lema: “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”. 30

O autor da Ontologia afirma que o complexo jurídico é um fenômeno depen‑ dente do desenvolvimento econômico. Contudo, pode atingir uma relativa autono‑ mia em relação ao regime então dominante, a ponto inclusive de ser considerado “uma espécie de Estado no Estado” (teoria da divisão dos poderes). Apesar disso, esta autonomia nunca pode concretamente se desvencilhar dos limites oriundos das concretas relações econômicas.

O fato de que os espaços que de tal modo são criados repousem, por sua vez, sobre

relações reais de força entre as classes, não impede que o direito permaneça uma es‑

pécie de Estado no Estado, mas simplesmente determina concretamente o caráter e os limites de tal relação. (Lukács, 1981, p. 222)

Outro ponto destacado é com relação às tarefas especiais que são criadas com

a expansão quantitativa e qualitativa da divisão social do trabalho. Tais deveres teriam a função particular de serem formas de mediação específicas entre comple‑ xos singulares, assumindo, com isso, uma peculiar estrutura interna. Contudo, de acordo com o autor, como as necessidades do processo enquanto complexo conser‑

das

vam a sua prioridade ontológica, estas “determinam tipo, essência, direção funções exercidas por tais complexos ontológicos mediadores”. 31

Mas, justamente porque o funcionamento correto num nível superior do complexo total atribui ao complexo mediador funções parciais específicas, este assume certa autonomia — que surge por necessidade objetiva —, um certo modo autônomo e

específico de reagir e agir, do qual, exatamente por esta sua especificidade, a totalida

de não pode prescindir na sua reprodução (Lukács, 1981, p. 223).

30. Tal discussão se encontra em Marx no texto “Crítica ao Programa de Gotha” (op. cit.), p. 105‑111.

31. Estas colocações de Lukács talvez ajudem a iluminar o debate existente no Serviço Social acerca da “relativa autonomia” no exercício da atividade desse profissional. Uma das animadoras dessa ideia, Marilda Iamamoto, defende esta tese no seu A prática como trabalho e a inserção do assistente social em processos de trabalho. (2004) e também em Serviço Social em tempo de capital fetiche. Capital financeiro, trabalho e questão social. São Paulo: Cortez, 2007; a citação de Lukács (op. cit.) se encontra na pág. 223.

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O complexo social do direito, portanto, seria, segundo Lukács, um complexo conscientemente posto, que surge junto com a sociedade de classes. Para se re‑ produzir, esse complexo vai exigir na divisão social do trabalho uma figura própria com a função de regular o complexo de problemas advindo da luta em torno da posse do trabalho excedente: os jurisperitos. De natureza diversa, outro complexo analisado pelo autor é o da linguagem. Surgido de modo espontâneo desde quando a necessidade de se comunicar tornou‑se imperativa, o complexo da linguagem é universal e a sua reprodução não depende — necessariamente — de um grupo de especialistas que ditem as regras de como esse complexo deva se reproduzir.

Só com a descoberta e a produção do novo, daquilo que até aquele momento era ig‑ norado, no processo de trabalho, na utilização de seus produtos etc., se apresentam na consciência conteúdos novos e multiformes que exigem, taxativamente, uma comu‑ nicação. (Idem, p. 192)

A linguagem é, segundo Lukács, o instrumento social que serve para dar curso às posições teleológicas de segundo tipo. A sua finalidade última é a ação genérica do trabalho. Ao fazê‑la nascer pelo novo por ele produzido, o homem cria um médium para o contato inter‑humano que se encontra no nível da sua generali‑ dade. A tendência objetiva que vai advir do caráter genérico do homem vai se re‑ percutir na linguagem. De acordo com o autor, desde o início nela atua uma inten‑ ção objetiva da parte do sujeito rumo à legalidade do objeto que se quer designar. De modo que cada palavra irá exprimir sempre “a generalidade do objeto, o gêne‑ ro, a espécie, não o exemplar singular”. 32 Por outro lado, uma tendência na direção oposta, isto é, de aproximação do caso singular, também será verificada. “A expres‑ são ‘tu és um vigarista’ pode querer indicar, em algumas circunstâncias, um juízo positivo, do mesmo modo pelo qual ‘fez novamente uma bela coisa’ pode significar censura”. 33 Apesar disto, desses matizes, reservas etc., a estrutura de fundo pela qual a ação particular e o seu autor são enquadrados em determinada classe de comportamento permanece mantida.

De acordo com Lukács, a linguagem é sempre, em essência, ao mesmo tempo, “cópia e expressão daquilo que o gênero, na sua autorrealização, alcançou, de fato, a

32. Lukács, op. cit., p. 192.

33. Ibidem, p. 195.

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cada vez”. 34 O seu caráter espontâneo não anula o fato de ela ter origem nas posições teleológicas individuais. A legalidade que rege o ser social, explica ele, teria uma dupla face: por um lado, há uma lei irrefreável que o conduz a graus de sociabilidade cada vez mais puros; por outro, as tendências que nele operam, apesar de se originar nas posições teleológicas individuais, não têm um caráter teleológico. Isso se expli‑ caria pelo fato de a síntese social realizar mais do que estava contido originalmente

em cada posição individual. “[

mento cadeias causais que são mais numerosas e diversas do quanto se desejava com

aquela posição, a síntese social vai além de todas as posições singulares”. 35

Como todos os verdadeiros complexos no interior do complexo do ser social,

a linguagem tem um desenvolvimento autolegal. Contudo, a “autolegalidade possui

um caráter histórico‑social variado”. Segundo o autor, a linguagem dependeria das transformações da vida social, mas, ao mesmo tempo, o seu desenvolvimento seria determinado por sua própria autolegalidade. “O desenvolvimento da linguagem procede por leis próprias, mas em uma articulação contínua, quanto aos seus con‑ teúdos e às suas formas, com a sociedade de cuja consciência ela é órgão”. 36 O que

a princípio parece um desvio da legalidade, diz ele, mais tarde pode ser o germe de

uma nova legalidade, ou a modificação daquela precedente. Essa dupla determina‑ ção, no plano do ser, por parte das esferas da vida heterogêneas entre si, é, portan‑ to, para a linguagem, a base real do seu ser e devir.

Na real transformação ontológica do em‑si mudo da natureza orgânica no para‑si não mais mudo do ser social, Lukács afirma que o entendimento desse contraste é algo mais abrangente do que “a contraposição psicológica ou gnosioló‑ gica entre consciente e não consciente”. 37 Ele diz que partindo do ato originário da sociedade — o trabalho —, a diferença qualitativa entre as duas esferas ontológicas se faz nítida. Apesar de no seu início não ser plenamente consciente, o ato de tra‑

balho — nos seus primórdios — não é totalmente não consciente: “[

] o trabalho

é impossível sem consciência, mas essa no início não ilumina além do ato de tra‑

balho singular”. A posição teleológica do trabalho não é consciente do ponto de vista do gênero. De acordo com o autor, o fato de o trabalho encarnar a generali‑ dade do homem não quer dizer que nos atos de trabalho haja consciência do nexo

já que toda posição teleológica coloca em movi‑

]

34. Ibidem, p. 199.

35. Ibidem, p. 150.

36. Ibidem, p. 201.

37. Ibidem, p. 182.

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real, apesar de ele ser, já como ato do indivíduo, por essência, social. É por meio do trabalho que se realiza a autogeneralização social do homem, “a elevação obje‑ tiva do homem particular à generidade”. 38

A caracterização da consciência, portanto, só pode ser corretamente feita se a

sua apreensão se der na processualidade do processo, isto é, se o seu surgimento e

o seu desenvolvimento forem considerados como algo processual, gradual e con‑ tinuativo, e não como surgidos de um só golpe.

A razão pela qual tal caminho seria errado não está na consciência enquanto tal, mas no seu objeto, no processo objetivo, do qual a consciência é produto e, ao mesmo tempo, expressão realizada. (Ibidem, p. 184)

A consciência não surge no ser social sem correlação com o processo objeti‑

vo; ela é o órgão dessa nova forma de continuidade. Ora, como a consciência é “produto e expressão realizada” do processo objetivo e como ela é o veículo sem o qual essa nova forma de continuidade não pode existir, pode‑se afirmar que entre consciência e objetividade social há uma relação de mútua exclusão ou de interde‑ pendência. No entanto, afirmar isto não significa dizer que haja uma relação de identidade entre sujeito e objeto; ao contrário, conforme afirma Lukács, a realidade objetiva, inclusive a social, existe independente da consciência dos homens.

] [

— no imediato a realidade social se manifesta no indivíduo —, todavia estas ações, para se realizarem, se inserem, por força das coisas, em complexos relacionais entre homens, os quais, uma vez alcançados, possuem uma determinada dinâmica própria, isto é, não só existem, se reproduzem, operam na sociedade independente da cons‑ ciência dos indivíduos, mas dão também impulsos mais ou menos, diretamente ou indiretamente, determinantes às decisões alternativas. (Idem, p. 156)

se a reprodução social, em última análise, se realiza nas ações dos indivíduos

O papel da consciência como órgão da continuidade é conservar em si o pata‑

mar atingido e servir de plataforma — ou ponto de apoio — em direção a objetiva‑

ções futuras. Como ela representa determinado estágio de desenvolvimento do ser

e, por conseguinte, os limites deste representam seus próprios limites, ela só pode

] no momento

em que a consciência surge como médium, como portadora e depositária da conti‑ nuidade, este [o ser social] alcança a um ser‑para‑si que não existe nas outras

objetivar — em última análise — em observância a tal estágio. “[

38. Ibidem, p. 182.

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esferas”. 39 Esta seria —, portanto, uma função ontológica da consciência, através da qual a peculiaridade do ser social em relação às outras formas de ser é manifestada.

De acordo com Lukács, toda reprodução filogenética requer, primariamente, a reprodução ontogenética dos exemplares singulares, que em sentido imediato encar‑ nam o ser. Seja no âmbito de um processo de permanência e mutações de espécies, seja no âmbito de um complexo de complexos constituído pela práxis humana, a reprodução ontogenética do singular possui prioridade ontológica no que tange a outras manifestações da esfera de ser de que se fala. 40 E afirmar isso de novo, se resume estritamente à verificação de um fato, e não uma tomada de posição valorativa.

Na sociedade, o complexo da reprodução ontogenética surgido com a progres‑ siva sociabilização da existência humano‑biológica é a economia. Com o recuo das barreiras naturais e com as atividades humanas assumindo cada vez mais uma feição social, a resistência intelectual em reconhecer a prioridade ontológica da esfera econômica frente às outras aumenta.

Ainda pior é quando são colocadas em jogo, por exemplo, motivações psicológicas. Pois é sem mais evidente que quanto mais são complexas, mediadas, as estruturas sociais que colocam em movimento a produção e o consumo, através dos quais se realiza a reprodução ontogenética de qualquer indivíduo singular, tanto menos está presente a consciência de tal reprodução e da sua prioridade ontológica, frente a todas as outras manifestações vitais. (Idem, p. 234)

O autor nos diz que, a exemplo da esfera jurídica, na dependência última da economia enquanto complexo da reprodução primária, seria impossível um com‑ plexo, para se tornar útil, se desenvolver sem criar nele mesmo métodos próprios de funcionamento e de organização. Contudo, afirmar isso, conforme ele categori‑ camente nos assinala, não é dar por certo que um complexo parcial possa se desen‑ volver de maneira “independente da estrutura e da dinâmica evolutiva do respecti‑ vo estágio da sociedade”. O fetichismo da técnica — que segundo nos diz ele passa a não ser entendida como um momento parcial do desenvolvimento econô‑ mico — advém do fato de ela ser considerada, especialmente hoje,* como fato

39. Ibidem, p. 186. 40. “A fim de que todas aquelas complicadíssimas manifestações vitais, que no seu complexo constituem

o ser social, se tornem realidade, antes de tudo o ser vivente homem deve poder reproduzir biologicamente

a sua existência biológica” (Ibidem, p. 233).

* A referência aos dias de hoje deve ser relacionada ao período em que a Ontologia foi escrita, nos anos 1960.

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autônomo, insuperável, da época moderna, semelhante à crença dos cidadãos da pólis na época do ouro de um poder fatal da natureza sobre os homens.

Para Lukács, o caráter da economia enquanto momento predominante nos confrontos com os demais complexos sociais significa que as variadas formas de apropriação do trabalho excedente ao longo da história — produzidas pelo desen‑ volvimento econômico — constituem, no particular, a característica decisiva de cada grande época. “Aquilo que neste desenvolvimento desigual e contraditório se conserva como sua substância na perene mudança se reduz ao fato da apropriação”, diz ele. A diferença do socialismo em relação às formações precedentes se resume ao fato de que nele é a sociedade no seu todo o único sujeito da apropriação. Assim, portanto, ele distingue tal entendimento daqueles que afirmam existir uma indepen‑ dência total dos complexos singulares para com a economia.

A representação idealística‑fetichizante, tão frequente nas ciências históricas e sociais, de uma independência absoluta dos complexos singulares, de um lado parte de uma representação restrita e reificada do econômico; as suas rigorosas legalidades, efetivamente presentes, à luz desta reificação fazem esquecer que ele não constitui uma realidade somente objetiva, indiferente para com a nossa existência, como por exem‑ plo, a natureza inorgânica, que, ao invés, ele é a síntese legal daqueles atos teleológi‑ cos que cada um de nós realiza continuamente e continuamente deve realizar — sob pena da ruína física — ao longo de toda a sua vida. (Idem, p. 245)

O autor reconhece os efeitos devastadores da renúncia dos postulados dialé‑ ticos realmente existentes na realidade social pelo marxismo vulgar e a substituição da dependência do processo complexivo do desenvolvimento econômico por uma dependência mecânica, fato que o fizera incorrer no campo da gnosiologia. No entanto, a impostação lukacsiana diante deste propõe‑se a ser um tertium datur.

2. O debate contemporâneo nas ciências humanas

Uma das contraposições mais bem elaboradas, nas visões de Sérgio Lessa e Carlos Nelson Coutinho 41 , à tese do ser social fundado pelo trabalho defendida

41. Lessa em Mundo dos homens: trabalho e ser social (São Paulo: Boitempo, 2002) e Carlos Nelson em Intervenções: o marxismo na batalha das ideias (São Paulo: Cortez, 2006).

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por Lukács, e cuja recorrência no debate atual é bastante comum, é a de Habermas na sua Teoria do agir comunicativo. De acordo com Lessa, partindo da conside‑ ração de que o ato de trabalho já existe nos hominídeos, Habermas refuta o fato de ser este o diferenciador decisivo da relação entre natureza e sociedade, e diz que o que distingue uma da outra é a articulação entre trabalho e linguagem 42 . Para Coutinho, o equívoco de Habermas reside no fato de ele inverter a relação de “os homens se comunicam porque trabalham” para “os homens trabalham porque se comunicam”.

O professor André Lemos diz que para Habermas a parte instrumental que dominou a razão na vida moderna precisaria ser superada em seus excessos. Con‑ vergindo com Lessa, Lemos afirma que o caminho apontado por Habermas seria o de por meio da razão comunicativa se chegar ao consenso e corrigir então “o pro‑ cesso filosófico da modernidade”. 43 O problema deixaria de ser localizado e solu‑ cionado a partir do concreto e ganharia uma dimensão resolutiva exclusivamente subjetiva. Segundo Lemos, teria dito o filósofo alemão: “no lugar de renunciar à modernidade e a seu projeto, deveríamos tirar lições dos desvios que marcaram esse projeto e dos erros cometidos por abusivos programas de superação”. 44

Habermas buscou descobrir a “lógica própria” (ou as regras) através da qual, segundo ele, o agir comunicativo se processava. Na visão apresentada em Para a reconstrução do materialismo histórico, as “estruturas da intersubjetividade pro‑ duzidas linguisticamente” são constitutivas para “os sistemas de sociedade”, de modo que formam o “tecido de ações comunicativas”. 45 De acordo com Lessa, como seriam as estruturas intersubjetivas a base para as ações comunicativas, a referência ontológico‑objetiva no trabalho deixa de ter centralidade, dando lugar ao conceito que será empregado na sua Teoria da ação comunicativa de “mundo da vida”. Este conceito, e não mais a relação fala/trabalho defendida anteriormente, é que será agora o momento fundante da sociabilidade, nas palavras de Lessa. Nesse último texto, a racionalidade de uma emissão depende da confiabilidade do saber que encarna, uma vez que a racionalidade estaria, segundo Habermas, mais ligada à

42. Esta visão seria defendida pelo autor num ensaio publicado numa coletânea que circulou pelo Brasil

sob o título Para a reconstrução do materialismo histórico.

43. Le M os , A. Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea. 3. ed. Porto Alegre:

Sulina. 2007. p. 61‑2.

44.

Esta fala, segundo Lemos, estaria no texto “Modernité: um projet inachevé”. Critique, Paris, n. 413.

45.

Segundo Lessa, essa coletânea foi publicada pela editora Brasiliense, em 1990. O excerto se encontra

na p. 14.

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forma com que os sujeitos capazes de linguagem e ação fazem uso do conhecimen‑ to. Vinculando suas manifestações à crítica, cada juízo dos sujeitos agentes para ter validade objetiva deverá necessariamente passar por “via de uma pretensão tran‑ subjetiva de validade”, onde deverá ter o mesmo significado tanto para o observador como para o agente. “A verdade ou a eficácia são pretensões deste tipo”, 46 diz ele. A racionalidade comunicativa, portanto, refere‑se à capacidade de se gerar consensos através da fala argumentativa. Sem nenhum nódulo concreto a ser des‑ feito, o debate habermesiano ganha uma dimensão unicamente subjetiva, semelhan‑ te à do cidadão‑abstrato. 47

O sociólogo brasileiro Renato Ortiz, no seu Mundialização e cultura, traz uma visão muito difundida nas ciências sociais a respeito da tese sobre a economia enquanto complexo primário da reprodução social. Segundo esse autor, esse pen‑ samento, apesar de fazer avançar na compreensão do world‑system, é marcado por um acentuado viés economicista. De acordo com ele, como “a base econômica constitui a unidade privilegiada de análise, as manifestações políticas e culturais surgem como seu reflexo imediato”. 48 Ainda segundo Ortiz, essa forma de se com‑ preender os fenômenos sociais traria consigo um raciocínio (para ele) já conhecido:

“A sociedade seria formada de uma infraestrutura econômica e de uma superestru‑ tura ideológica. O material do piso compreenderia e determinaria a parte superior dessa construção arquitetônica”. 49 Outro influente pensador atual, o francês Pierre Lévy, na sua proposta de ecologia cognitiva (“para além do sujeito e do objeto”), não deixa de salientar que, apesar de ter sido o pioneiro no trato mais analítico do funcionamento coletivo, Marx teria dado uma interpretação “bastante grosseira” a esse fenômeno histórico, “recorrendo ao interesse de classe e usando a metáfora do reflexo da infraestrutura na superestrutura”. 50

46. Cf. apud. Lessa, 2002, p. 228‑29.

47. Em Educação, cidadania e emancipação humana, Ivo Tonet (2005) retoma a discussão feita por

Marx nas Glosas. O cidadão moderno se encontra cindido, diz Marx; se por um lado, ele ganhou a liberdade política consubstanciada na forma jurídica; por outro ele se encontra limitado em suas condições de se prover por si. Daí a clássica frase de a liberdade da sociedade civil moderna ser a liberdade do cidadão burguês, detentor exclusivo dessas condições (e por meio das quais constitui o capital pela exploração do trabalho alheio). Dela também se explica o porquê de a forma ser jurídico‑abstrata, isto é, por não ser efetiva na prática (a igualdade), do ponto de vista concreto (p. 116‑21); sobre o duplo caráter do direito, ver supra. Ver também:

Castro (2010b).

48. Ortiz, 1996, p. 22.

49. Ibidem, p. 22.

50. Lévy, 1993, p. 140.

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Ora, conforme assinalado no tópico anterior, para esses dois autores ser e posição de valor são a mesma coisa. Isto é, análise ontológica e posição dentro de uma hierarquia de valor, a diferença crucial entre elas posta por Lukács na sua Ontologia, são desconsideradas. É como se Marx — por vontade própria, de ma‑ neira arbitrária — “privilegiasse” a esfera econômica, impusesse à realidade social uma determinação férrea e, com isso, “recorresse ao interesse de classe” com o intuito de fazer da “luta de classes o motor da história”. 51 Em suma: é como se ele se antecipasse aos fatos da realidade com a intenção de forçá‑los a fornecer para sua análise as respostas previamente desejadas. Ora, como nos diz Lukács na sua Ontologia, é exatamente a operação inversa que Marx faz. Partindo da realidade objetiva — do ser hierarquizado em graus conforme a essência da realidade, segun‑ do os critérios de prioridade ontológica, dependência e independência ontológica que ordenam as esferas de ser —, do mundo exterior real e existente independente da consciência dos indivíduos, que surgem junto com a esfera ontológica do ser social após a posição teleológica do trabalho, Marx teria descoberto o fundamento último a partir do qual a sociedade se estrutura. Isto é, a partir da generalidade do ato de trabalho, da capacidade de ele ir com seus resultados para além de si mesmos, de o seu executor imediato poder produzir mais do quanto necessita para se repro‑ duzir, enfim, do seu processo reprodutivo, surge o excedente de produção e da luta em torno da sua posse a sociedade vai conhecer a sua primeira diferenciação de classes: escravos e senhores. Daqui, como dito anteriormente, vai surgir a necessi‑ dade de uma jurisdição conscientemente posta, não mais transmitida, a força pú‑ blica que não mais coincide diretamente com a população e o sujeito do dever de julgar se são lícitos ou não os vários resultados da práxis humana — o Estado. Desse valor de uso da força de trabalho é que, através de várias fases, vai se chegar ao sistema capitalista, onde agora o mecanismo de exploração do trabalho alheio assume outra conotação, com o capitalista comprando o valor de uso da mão de obra “livre”. Portanto, é dessa forma que o desenvolvimento da sociedade — ob‑ jetivamente — ocorrera até aqui. Por exemplo: a gênese das classes não são desig‑ nações arbitrárias. Estas surgem na sociedade a partir do momento em que aparece objetivamente o excedente de produção e a luta em torno da propriedade deste, antes do que existia o dilema de atacar o inimigo ou ser feito prisioneiro por ele, marca o aparecimento da divisão em classes — escravos e senhores —, bem como de outros antagonismos (credores e devedores etc.). Se o homem, junto com a sua

51. Ibidem, p. 137.

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base biológica, para poder se reproduzir em sociedade (isto é, fazer todas as mani‑ festações que são peculiares ao seu gênero) precisa antes de tudo reproduzir a sua condição de existência — ou seja, a sua base biológica —, não é essa uma impos‑ tação subjetiva, mas sim uma condição ontológica, que não teria nada que ver com posição de valor; resumiria‑se apenas à constatação de um fato. Seria nisso, por‑ tanto, nessa determinação objetiva, que estaria fundada a tese marxiana segundo a qual o complexo da reprodução ontogenética do homem surgido com a progressiva sociabilização da sua existência humano‑biológica, isto é, a economia, detém prio‑ ridade ontológica frente às outras manifestações da vida humana, aos outros com‑ plexos sociais.

Diferente em tudo dessas interpretações — que reconhecem de forma correta inclusive que tais caminhos conduzem a um reducionismo, mas se contentam equi‑ vocadamente em reduzir o legado ontológico marxiano a ele —, alguns complexos sociais, como dito, para funcionar em termos ótimos atingem relativa autonomia da qual, exatamente por fazer funcioná‑los de forma útil, a totalidade não pode prescindir. Logo, estaria fora de propósito, à luz de Marx, considerar que a “esfera da política seria assim a mera extensão do nível infraestrutural”. 52 Aliás, Lukács ainda fala que não é o mesmo, sempre e em toda parte, o peso concreto do momento predominante, podendo variar também a cota de eficácia exercida pelos complexos numa dada interação, condenando, com isso, posturas niveladoras ideais. Vejamos como ele se refere ao peso da luta de classes na história, posto por Lévy com asso‑ berbada convicção irônica:

as classes, e a sua luta no curso do desenvolvimento econômico, modificam este

último muito mais incisivamente que a interação com qualquer outro complexo. Se‑ gue‑se, certamente, que é o desenvolvimento econômico que determina, em última análise, as relações de força entre as classes e, portanto, também o êxito das suas lutas, mas só em última análise porque — como veremos mais à frente — quanto mais desenvolvidas, em sentido social, são as classes, quanto mais o seu ser social afastou as barreiras naturais, tanto maior é o papel do fator subjetivo nas suas lutas, a trans‑ formação da classe em‑si em uma classe para si, e isto não diz respeito somente ao seu grau de desenvolvimento geral, mas também, aos aspectos singulares, até das personalidades dirigentes, cuja característica, segundo Marx, depende de cada caso. (Lukács, 1981, p. 246)

] [

52. Ortiz, 1996, p. 23.

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Como mostra o excerto, parecem muito mais complexos, e menos reducio‑ nistas, os aspectos gerais da reprodução social em Marx, de modo que reduzir o seu entendimento de mundo a um determinismo forçado não condiz, pelo menos de acordo com os termos ontológicos assinalados por Lukács, com o seu autêntico pensamento.

Pois bem, apesar de não negar em absoluto uma interação com a “dimensão econômica”, Ortiz considera totalmente fora de propósito afirmar que “as relações que se estabelecem” no âmbito cultural guardam qualquer tipo de “determinação em última instância”, 53 segundo ele. Apoiando‑se em Braudel, o autor diz que “as estruturas do cotidiano” possuem um ritmo e uma condição diferenciada em re‑ lação às trocas dos mercados regionais e às transações comerciais internacionais. Segundo Ortiz, o fator preponderante que fez com que a sociedade entre os sé‑ culos XV e XVIII comportasse um nível lento de mudanças, preservasse a con‑ tinuidade, estaria ligado “a uma relativa permanência da esfera propriamente cultural”. Diz ele: “Hábitos alimentares, maneira de se vestir, crenças, enfim, os costumes fazem um contrapeso à mobilidade mercantil, confinada ao domínio das trocas internacionais”. 54 Dessa forma, a correlação entre cultura e economia não se faria de maneira imediata (nas palavras dele); a história cultural das so‑ ciedades capitalistas, portanto, não se confundiria com as estruturas permanentes do capitalismo. A esfera da cultura se desenvolveria de modo paralelo ou autô‑ nomo ao processo econômico, sem depender dele. Se a pós‑modernidade hoje se impõe, diz ele, é exatamente pelo fato de que no âmago desse mundo descrito como capitalista surgem “outras configurações irredutíveis ao processo econômico”. 55

Ao tratar da determinação social na forma de se alimentar (e mostrar diferen‑ tes formas de satisfação da fome ao longo da história), Lukács nos diz que o mer‑ cado mundial é o fator objetivo determinante para o desenvolvimento do homem enquanto gênero. Como este não é uma categoria abstratamente geral, muda, mas ao contrário, uma categoria que se torna consciente na sociedade, é somente com a intensificação do mercado mundial que o problema do gênero, como realidade da espécie humana, ascende à ordem do dia como problema universal. “Ora, este processo aparece com muita evidência, diz Lukács, na evolução do modo de pre‑

53. Ibidem, p. 23.

54. Ibidem, p. 24.

55. Ibidem, p. 24.

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parar o alimento: o seu caráter é localístico e se integra em unidade lentamente, e em termos muito relativos, até no plano nacional”. 56 É por meio do mercado mun‑ dial que o modo de preparar o alimento estrangeiro vai perdendo aquela repugnân‑ cia inicial verificada e as “cozinhas” de um modo geral vão se internacionalizando, diz ele. Desse modo, seria muito mais amplo o ângulo de análise da conservação e da integração entre as diferentes formas de se preparar o alimento, que, através do mercado mundial, demonstra o grau da incidência que a sociabilidade exerce sobre as diversas formas de se alimentar dos indivíduos.

A problemática cultural, ponto a partir do qual Ortiz se propõe a analisar a realidade mundial, teria em Herder um precursor de uma maneira nova de pensar. Crítico da filosofia de sua época, conta Ortiz, Herder rechaça o “universal”, a “hu‑ manidade”, optando pelas “identidades particulares”. Apesar de não dizer como o

referido autor chega a tais conclusões, isto é, quais são as bases metodológicas que

o fazem concluir inexistir uma “malha histórica global”, Ortiz nos diz que as so‑

ciedades seriam, dessa maneira, análogas aos organismos vivos, centrados sobre si mesmos. “Cultura existiria apenas no plural, enfoque antagônico à visão abrangen‑

te do iluminismo”, 57 diz ele. Ainda segundo esse pensador brasileiro, essa dimensão

pluralista permeará a tradição antropológica. “Os estudos comparativos realizados no século XIX, como os de Tylor, tentam mostrar como a mentalidade primitiva difere da do homem moderno”, assinala. Nesse sentido, até mesmo o método de observação participante reconhece esse distanciamento e buscará na sua aplicação eliminar tal problema. “Como o observador é um estrangeiro, se encontra ‘fora’ do ambiente que lhe interessa captar, ele deve dele se aproximar, ‘fazer‑se nativo’ para apreendê‑lo de maneira convincente”. 58

Em primeiro lugar, na Ontologia, Lukács afirma que o gênero humano é um gênero em explicitação. O salto para além da animalidade advindo com o ato de trabalho o fez um gênero não mais mudo em um estágio de manifestação ainda mudo; o ser‑para‑si do homem no estágio do seu mero ser‑em‑si. Este paradoxo, para o qual o filósofo húngaro chama a atenção, de acordo com ele só soa dessa forma para aqueles que buscam nas fases do desenvolvimento, e não no processo, captar um movimento que é por essência dinâmico. A diferença dessa argumentação para a anterior, portanto, se evidencia no fato de que as diferenças entre as épocas

56. Lukács, 1981, p. 149.

57. Ortiz, op. cit., p. 20.

58. Ibidem, p. 21.

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que realmente compreendem a história humana fazem parte exatamente do proces‑ so pelo qual se explicita o gênero humano.

A junção entre o início e o fim constitui a história mundial da humanidade, a plena explicitação do ser‑para‑si do gênero humano. Ser‑para‑si este que só pode se realizar, em termos adequados a si mesmo, de forma consciente: o gênero humano não mais mudo deve, enquanto tal, estar presente também na consciência dos homens. (Lukács, 1981, p. 183)

A respeito dos nexos e dos contrates entre a natureza orgânica e o ser social, Lukács nos diz que a reprodução é comum a ambos. O mutismo da primeira estaria explicado pelo fato de esta não constituir complexos parciais mediadores perma‑ nentes entre os seres viventes singulares e o ambiente e, com isso, a interação com este último ser mínima. Disso se explicaria a identidade imediata entre a reprodução ontogenética dos exemplares singulares com a reprodução filogenética. Na socie‑ dade, contudo, a situação é diferente. Por ser fundado a partir da posição teleoló‑ gica do trabalho, inexistente na natureza, o ser social submete o ambiente a trans‑ formações conscientes e desejadas. Nessa interação com o mundo circundante, são constituídos complexos sociais mediadores. A interação com a realidade exterior, portanto, em vez de direta, tem os efeitos retroagidos sobre os indivíduos mediados socialmente. O médium iniludível dessa mediação entre homem e natureza é a sociedade. Ora, como pode então haver certo tipo de “analogia” entre sociedade e organismos vivos se a interação da primeira com o mundo é diferente da segunda, ocorre por meio de complexos sociais mediadores? A concepção de “identidades particulares” também se choca com as diversidades que se verificam no interior do ser social entre aparência e essência. Essas diversidades que separariam a es‑ sência do fenômeno, bem como lhes colocariam em forte contradição, na referida leitura estariam totalmente fora de propósito. Citando uma polêmica entre Engels e Feuerbach, Lukács chama a atenção para essa importante distinção entre essên‑ cia e fenômeno na vida social. Segundo ele, teria replicado Engels a Feuerbach o seguinte sobre uma fala deste último que dizia que somente em casos “anormais”, “desgraçados”, o ser se separa da essência:

Um belo elogio da situação existente. Exceto casos contra a natureza, poucos casos,

anormais, há sete anos, voluntariamente, o porteiro trabalha numa mina de carvão, de

É

a tua “essência”, a de ser submetido a um ramo de trabalho. (Lukács, 1981, p. 233)

sol a sol, catorze horas por dia, e porque este é o teu ser, é também a tua essência

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Na proposta de ecologia cognitiva, o influente pensador contemporâneo Pierre Lévy vai propor um caminho totalmente diverso do tradicional: o da ar‑ ticulação entre elementos heterogêneos — o pensamento individual, as institui‑ ções sociais e as técnicas de comunicação — que formariam, segundo ele, cole‑ tividades pensantes homens‑coisas. Lévy nos diz que a variabilidade e a multiplicidade advinda da pesquisa histórica não conduzirão a uma pura e simples contingência das formas de conhecer, bem como a um relativismo ab‑ soluto. Segundo ele, fundado nos estudos sobre as articulações entre os módulos do sistema cognitivo humano e os diversos sistemas semióticos provindos das culturas, é possível delinear como surgem certos tipos de racionalidade. De acor‑ do com ele, como toda ecologia cognitiva se interessa pelas misturas e pelos encaixes fractais de subjetividade e objetividade, esta difere portanto da aborda‑ gem kantiana, bem como da proposta por Heidegger. Apesar de não se opor ao questionamento deste último do sujeito consciente, racional e voluntário, Lévy afirma que ao descartar o terreno da metafísica, em vez de substituí‑lo por um caminho “vertical”, prefere traçar “um percurso em zigue‑zague, saltando de uma escala a outra, hipertextual, rizomático”, segundo ele, “tão heterogêneo, múltiplo e multicolorido quanto o próprio real”. 59 Sem se preocupar em explicar as pre‑ missas metodológicas que o conduziram a tal conclusão (a tal ponto de partida), Lévy assinala então ter conseguido uma metodologia adequada “para prevenir os dualismos maciços” que, em sua opinião, tantas vezes nos dispensam de pensar, inclusive de pensar o próprio pensamento.

espírito e matéria, sujeito e objeto, homem e técnica, indivíduo e sociedade etc. Propomos que estas oposições grosseiras entre essências pretensamente universais sejam substituídas por análises moleculares e a cada vez singulares em termos de redes de interfaces. (Lévy, 1993, p. 134)

[

]

Apoiado em pesquisas da psicologia cognitiva, Lévy sustenta a sua argumen‑ tação no fato apontado por ela de o sistema cognitivo humano ser composto por múltiplas partes de todos os tamanhos e de todos os tipos, o que retrataria uma figura da mente estilhaçada. Somando‑se isso ao fato de parcela significativa dos atos humanos serem automáticos, não passarem pela vontade deliberada, a consciência seria simplesmente “uma das interfaces importantes entre o organismo e seu meio

59. Lévy, 1993, p. 134.

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ambiente”. 60 Para o autor, como o pensamento se dá numa rede na qual “neurônios, módulos cognitivos, humanos, instituições de ensino, línguas, sistemas de escrita, livros e computadores se interconectam, transformam e traduzem as representações”, não há mais sujeito ou substância pensante, nem material, nem espiritual. A “novi‑ dade” da colocação de Lévy vai perdendo consistência à medida que ele prossegue apresentando o material no qual apoia sua posição. Uma das suas fontes, o autor Michel Serres, por exemplo, ao tentar expor num dos seus livros, conforme assina‑ la Lévy, as relações recíprocas entre sujeitos e objetos, escreve: “[Serres] Mostra como, através da múmia, do cadáver e dos ossos, o objeto nasce do sujeito”. 61 A dissolução (puramente abstrata) da cortina de ferro ontológica, conforme assinala duas autoras citadas por Lévy, estaria sendo confirmada por diversas correntes científicas contemporâneas, que estariam incluindo as “noções de singularidade, de evento, de interpretação e de história” nos desenvolvimentos das ciências físicas. Destarte, baseado nos rizomas de Deleuze e Guattari, na recusa da substância por Latour, vão deixar de existir (novamente: abstratamente) as distinções entre coisas e pessoas, sujeitos pensantes e objetos pensados, inerte e vivo. De modo que para Lévy tudo que for capaz de produzir uma diferença numa rede deve ser considera‑ do como um ator; de maneira que a relação dispositivo técnico e homem deve então dessa forma ser pensada:

As máquinas são feitas por homens, elas contribuem para formar e estruturar o funcio‑ namento das sociedades e as aptidões das pessoas, elas muitas vezes efetuam um tra‑ balho que poderia ser feito por pessoas como você ou eu. Os dispositivos técnicos são portanto realmente atores por completo em uma coletividade que já não podemos dizer puramente humana, mas cuja fronteira está em permanente redefinição. (Idem, p. 137)

A ecologia cognitiva seria, então, o estudo das dimensões técnicas e coletivas da cognição, segundo Lévy. O sociólogo Zygmunt Bauman fala que saímos da fase “sólida” da modernidade e adentramos na fase “líquida”. Uma fase em que, segun‑ do ele, as organizações sociais responsáveis por assegurar padrões de comporta‑ mento aceitáveis não podem mais manter sua forma por muito tempo pelo fato de se decomporem mais rápido que o tempo necessário para se estabelecerem. Vista cada dia mais como uma “rede”, e não como uma “estrutura” (ou uma “totalidade

60. Ibidem, p. 135.

61. Ibidem, p. 136.

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sólida”), a sociedade é “percebida e encarada como uma matriz de conexões e desconexões aleatórias e de um volume essencialmente infinito de permutações possíveis” 62 (um enigma!, R. C.). A sociedade “aberta” de agora é uma sociedade exposta aos golpes do “destino”, aos efeitos da chamada “globalização negativa”;

ela é constituída de indivíduos que vivem horrorizados por sua própria vulnerabi‑ lidade. A redução das políticas de seguro contra “os infortúnios individuais”, rele‑ gando as pessoas a “autorresponsabilidade individual”, põe a sociedade exposta à rapacidade das forças que não controla. Na busca então por uma “legitimidade alternativa” para a sua autoridade, o Estado se encontra em condições de oferecer não mais do que proteção pessoal aos cidadãos (das ameaças de um pedófilo à solta, um serial killer, um terrorista, um imigrante ilegal etc.). Bauman apresenta números que apontam que 49% dos países mais pobres recebem apenas 0,5% do produto global, 90% da riqueza se concentra nas mãos de 1% dos habitantes do planeta, assinala que as ações do governo americano e de seus satélites (OMC, FMI

e

Banco Mundial) geraram, obliquamente, o nacionalismo, o fanatismo religioso,

o

terrorismo. Ele diz que as políticas antiterror aplicadas nos EUA e na Europa ti‑

veram como função latente mudar a localização da autoridade do Estado (cita de um pesquisador que a Al Qaeda até 2001 sequer tinha um nome) e aponta que, diante dessa desastrada política antiterror, ganham crédito as teses de que interesses comercias estariam dando o tom da propagação do medo e do seu combate (cita inclusive documentação que comprovaria o aumento do lucro dos produtores e comerciantes norte‑americanos com produtos e dispositivos de autodefesa).

Outro autor influente no debate contemporâneo é o sociólogo Stuart Hall. Ele sustenta que após ter surgido junto com a modernidade o chamado sujeito “centra‑ do”, a fase que compreende a segunda metade do século XX — a modernidade tardia — é marcada pelo descentramento do sujeito moderno. Ou seja, antes de se

tornarem deslocadas, as identidades eram “unificadas e coerentes”. Tendo libertado os indivíduos de seus apoios estáveis nas tradições, as transformações associadas

à modernidade trouxeram consigo o nascimento do “indivíduo soberano”, concep‑

ção que teria sido fortalecida com os movimentos da reforma e do protestantismo,

do humanismo renascentista, do iluminismo. A ênfase no indivíduo, ratificada com

o sujeito cartesiano de Descartes — a capacidade para raciocinar e pensar do su‑

jeito individual — e pela definição de identidade contínua de Locke ligada à expe‑ riência pessoal, só viria a se atenuar com o advento das ciências sociais, que pas‑

62. Bauman, 2007, p. 9.

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saram a situar esse cidadão individual no interior das grandes estruturas sustentadoras da sociedade moderna. O descentramento final do sujeito cartesiano na segunda metade do século XX seria, portanto, decorrência de alguns avanços na teoria social. A leitura de Althusser sobre Marx seria um destes. Ele poderia ter até alguma razão quando afirmou que Marx não se valeu de uma noção abstrata de homem, ou mesmo desfez o mito do indivíduo como “sujeito da economia clássica”, mas para Hall a negativa de uma essência humana universal (na leitura feita por Althusser) teve fortes repercussões. Porém o dano maior às “noções” de sujeito e identidade “fixos” e “estáveis” talvez venha da descoberta do inconsciente por Freud e dos estudos psicanalíticos de Lacan. De acordo com Hall, a formação de nossas identidades, da estrutura dos nossos desejos, para Freud, são baseadas em processos psíquicos e simbólicos do inconsciente, e funcionam segundo uma “lógica” muito diferente daquela da razão. A formação do eu no “olhar” do outro, segundo Lacan, que inicia a relação da criança com os sistemas simbólicos fora dela mesma, 63 na primeira infância, é uma fase marcada por sentimentos contraditórios e não resol‑ vidos, aspectos‑chave da “formação inconsciente do sujeito”, que irão permanecer com a pessoa por toda a vida. Apesar de partido, o sujeito vivencia sua identidade como se tivesse unificada, “como resultado da fantasia de si mesmo como uma ‘pessoa’ unificada” 64 formada na fase do espelho (essa seria a origem contraditória da identidade). Já que existe sempre algo fantasiado sobre sua unidade, a identida‑ de permanece sempre incompleta, “está sempre ‘em processo’”. Como os processos inconscientes não são facilmente postos à prova, eles têm sido objeto de muitos questionamentos. Mas, apesar disto, segundo Hall, seu impacto sobre as formas modernas de pensamento são indiscutíveis.

Conclusão

As mudanças no mundo contemporâneo, inclusive as descobertas no meio científico, têm impulsionado novos rumos, como vimos, ao pensamento social

63. De acordo com Lacan, naquilo que ele chama de “fase do espelho”, a criança que ainda não tem

nenhuma autoimagem como uma pessoa “inteira”, “se vê ou se ‘imagina’ a si própria refletida — seja literalmente, no espelho, seja figurativamente, no ‘espelho’ do olhar do outro — como uma ‘pessoa inteira’” (Hall, 2000, p. 37).

64. Ibidem, p. 38.

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moderno. A razão para a emergência daquilo que tem se chamado pós‑modernida‑ de está associada a uma série de fatores. O professor André Lemos, por exemplo, aponta o aparecimento da ideia de pós‑modernidade para a segunda metade do século XX, momento em que ganham força os mass media e a sociedade de con‑

sumo. O declínio das grandes ideologias modernas, também assinalado por Bauman,

e de ideias como a de “progresso” terão profundas repercussões nos campos da

economia, ciência, tecnologia etc. O colapso do pensamento, do planejamento e da ação a longo prazo e o desaparecimento das estruturas nas quais estes poderiam ser

traçados com antecedência têm levado a um desmembramento da história política

e das vidas individuais em uma série de episódios de curto prazo. “Uma vida assim

fragmentada estimula orientações ‘laterais’, mais que ‘verticais’”, diz Bauman. O

aparecimento duma nova ordem econômica, segundo Lemos, denominada pós‑in‑ dustrialismo, seria um desses marcos do processo de mudança social e cultural denominado pós‑modernidade.

O pós‑industrialismo corresponderia, por um lado, à diminuição dos traba‑ lhadores no setor secundário da economia e, por outro, ao acréscimo destes no setor de serviços. Na fase pós‑industrial da sociedade de consumo, a produção de bens e serviços (ligados a grandes consumos de energia) seria modificada conforme as novas tecnologias da informação. Contudo, ela não representaria uma ruptura com a dinâmica monopolista de capitalismo, mas uma radicalização do desenvolvimento de sua lógica. Já Ortiz argumenta que a sociedade pós‑in‑

dustrial seria constituída pelo conjunto tecnocientífico formado pela microeletrô‑ nica, pela engenharia genética e pela energia nuclear. A recorrência ao “pós” estaria ligada ao fato de a compreensão dessa nova configuração social estar em aberto. Todas essas tentativas de entendimento teriam em comum a ênfase nas tecnologias de ponta no processo de organização da produção fabril. As unidades dispersas de produção deveriam sua existência a essas tecnologias, que seriam as responsáveis por um “novo modo de industrialização”, distinto do fundado pelo vapor, petróleo. Nessa nova articulação social, portanto, o consumo, o poder, a produção e as relações sociais se encontrariam cada vez mais descentralizados.

É preciso que se diga que há pesquisas que encaram essas transformações de

outra forma, como a de D. Harvey, R. Antunes, L. Vasapollo, a do próprio ex‑as‑ sistente de Lukács, I. Mészáros, bem como muitas outras associadas à sociologia do trabalho.

De modo geral, o que tem se percebido na forma de analisar as transforma‑ ções em curso é a perda do paradigma ontológico do trabalho, ou da centralidade

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do trabalho, como referência no exame de tais eventos. A opção pelos estudos “dos sistemas semióticos fornecidos pela cultura”, pelo entendimento de todo processo como interfaceamento, pelos estudos culturais e pelo multiculturalismo, tem se sobressaído e orientado a maioria das pesquisas. Carlos Nelson Coutinho (2006) afirma que a recusa em compreender a totalidade pelo pós‑modernismo revela um caráter irracionalista, enquanto o fetichismo da técnica hoje tão em moda revela uma razão posta a serviço da instrumentalidade. Junto com o neoli‑ beralismo, se volta para a despolitização geral da sociedade e, por conseguinte, da cultura; para o pós‑modernismo, os “grandes relatos” estão superados, não têm mais sentido e levam ao totalitarismo, e, em vez de as lutas serem travadas em

prol de valores universais, estas devem se voltar para a afirmação das identidades

e das diferenças. 65

Dentre as tendências apresentadas na abordagem aqui desenvolvida, podería‑ mos destacar, por exemplo, a absoluta negação das diferentes legalidades das esfe‑ ras do ser em geral, isto é, que a continuidade na natureza inorgânica se caracteriza pelo “tornar‑se outro”, a natureza orgânica pela “troca” com a natureza inorgânica (independente ontologicamente das outras) e o ser social pela posição teleológica do trabalho, inexistente no ser natural. Lévy acusa as grandes dicotomias, como a de sujeito e objeto, de nos impedir de reconhecer que “todos os agenciamentos cognitivos concretos” são, para ele, constituídos por “ligas, redes, concreções pro‑ visórias de interfaces” e que, por conta disso, pertencem aos dois lados “das fron‑

teiras ontológicas tradicionais”. A questão da “troca orgânica”, colocada por Lukács,

é totalmente desconsiderada e, em certo sentido, vulgarizada. A dialética entre “vontade consciente” e o que vem nos homens “produzido espontaneamente pelo

desenvolvimento” deve, indubitavelmente, ser levada em conta nas análises sobre

o inconsciente freudiano e os estudos psicanalíticos de Lacan. O não entendimento

da técnica como momento parcial do desenvolvimento, e sim como fato autônomo, que culmina no seu fetiche, faz com que leituras como “conectar computadores ao cérebro” deixem de ser entendidas exclusivamente como recuo das barreiras natu‑ rais. Por fim, não se pode deixar de considerar que a modernidade, cuja caracteri‑ zação passa antes de tudo pelas relações de assalariamento, antes de ser superada,

65. Num texto seminal e considerado clássico na literatura brasileira, O estruturalismo e miséria da razão, Carlos Nelson Coutinho analisa, à luz de Lukács, a trajetória da filosofia burguesa nas suas variantes do irracionalismo e da “miséria da razão”. Tal texto ganhou uma nova edição pela Editora Expressão Popular, São Paulo, ano 2010.

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precisa resolver o nódulo concreto que ainda faz do valor de uso da força de traba‑ lho, em muito negado pelo pós‑industrialismo, a base do sistema, de apropriação, direta e indireta, do excedente produtivo.

Recebido em 17/7/2012

Aprovado em 11/3/2013

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A “viagemde volta”:* 66

significados da pesquisa na formação e prática profissional do Assistente Social

The “return”: mean of research both in the training andintheprofessional practiceinSocial Work

in the training andintheprofessional practiceinSocial Work Carlos Antonio de Souza Moraes** 67 Resumo: O artigo

Carlos Antonio de Souza Moraes** 67

Resumo: O artigo discute a pesquisa na formação e prática profis‑ sional. No primeiro momento, realiza uma descrição histórica referen‑ te à pesquisa e produção do conhecimento no Serviço Social, buscan‑ do identificar as “mudanças” ético‑política e teórico‑metodológica vivenciadas pela disciplina de pesquisa. Em seguida, problematiza a relação da pesquisa com a prática profissional do Serviço Social na atualidade. Por fim, indica a necessidade de se aprofundar essa discussão a partir de um mergulho analítico e atual referente às principais tendên‑ cias da sociedade capitalista e suas repercussões no campo da pesquisa na formação e prática profissional em Serviço Social.

Palavras‑chave: Pesquisa. Serviço Social. Prática profissional. Formação profissional.

* O título (“A viagem de volta”) e seus desdobramentos são frutos de indicações detectadas por Marilda Iamamoto no livro Serviço Social em tempo de capital fetiche. Nele, a autora identifica que o tema referente à formação profissional em Serviço Social (fundamentos e exercícios da profissão) não alcança o merecido destaque na pós‑graduação strictu sensu em Serviço Social.

Apesar de avanços concernentes à discussão, que permitiram romper com qualquer endogenia na leitura da profissão, “parece ainda ser necessária realizar a ‘viagem de volta’ para apreensão do exercício e da

formação profissionais em suas múltiplas determinações e relações no cenário atual”. Neste caso, é necessário identificar, extrair e analisar as incidências da dinâmica societária (relações e contradições sociais) “nos

fundamentos e processamento de trabalho profissional, retomando, [ sob novas luzes, o Serviço Social” (Iamamoto, 2008, p. 44).

** Mestre em Políticas Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense; doutorando em Serviço Social pela PUC/SP‑Brasil; membro do Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisa em Cotidiano e Saúde (Gripes); professor assistente do departamento de Serviço Social de Campos/Universidade Federal Fluminense — Rio de Janeiro, Brasil. E‑mail: as.carlosmoraes@gmail.com.

]

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Abstract: The article discusses research on training and professional practice. At first, performs a historical overview on the research and production of knowledge in social work, seeking to identify the “changes” ethical‑political and theoretical and methodological experienced by research discipline. Then discusses the relationship of research to professional practice of social work today, identifying some of its main directions. Defend the meaning of knowledge production as “a constitutive element of professional action” (Nogueira, 2010, p. 1). Finally, it indicates the need to deepen this discussion from a dive and current analytical regarding the main trends of capitalist society and its impact on research in the field of training and professional practice in Social Work.

Keywords: Research. Social Services. Professional practice. Training.

I. Introdução

A rigor, cada viajante abre seu caminho, não só quando desbrava o desconhecido, mas inclusive quando redesenha o conhecido. (Ianni, 2000, apud Bourguignon, 2005, p. 10)

D ebates em torno de pesquisa e intervenção são conhecidos no Serviço Social, sobretudo, a partir da configuração das últimas “diretrizes gerais para o curso de Serviço Social”, em que a pesquisa é proposta como princípio e condição da formação profissional. Portanto, a for

mação permanente de uma postura investigativa deve ser inerente a todo o proces‑ so de formação profissional.

Isto significa que o Serviço Social, a partir de sua organização acadêmico‑política, tem se preocupado em formar profissionais capazes de realizar pesquisas que subsidiem a formulação de políticas e ações profissionais.

Assim, o pressuposto é de que a pesquisa deva consistir em um rigoroso trato teórico, histórico e metodológico da realidade social e do Serviço Social, de ma‑ neira que se construa a compreensão dos problemas sociais e os desafios do uni‑ verso da produção e reprodução da vida social (Pastor e Marques, 2010).

Essas preocupações no campo profissional têm demonstrado, segundo Bour‑ guignon (2008), avanços quanto às consistências das produções acadêmicas no âmbito das ciências sociais aplicadas. Por outro lado, alguns desafios se colocam e ampliam na formação e exercício da pesquisa no Serviço Social. Tais desafios estão, sobretudo, direcionados para as unidades de ensino no Brasil e aos assistentes sociais.

De maneira geral, são precárias as condições objetivas para o enfrentamento desses desafios e o cumprimento dessas exigências. Em relação às unidades de

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ensino, é possível perceber os impactos das políticas neoliberais do Estado brasi‑ leiro na redução de recursos para as atividades de pesquisa, na ampliação das universidades públicas sem investimento na qualidade do ensino, da pesquisa e extensão, na privatização interna dessas universidades, comprometendo sua auto‑ nomia e gestão democrática, no aumento dos cursos de graduação à distância, além do crescimento de universidades particulares sem compromisso com a qualidade do ensino e sem preocupação com a implementação de atividades de pesquisa e extensão, entre outros fatores.

Em relação aos profissionais de Serviço Social, é possível identificar, não raras vezes, que o discurso de valorização da pesquisa nem sempre alcança a prá‑

tica. As justificativas são muitas: falta de tempo, excesso de atribuições, pouca

disponibilidade de pessoal, ausência de recursos

nos deparamos com situações em que a pesquisa é incorporada ao trabalho do profissional, sobretudo por motivo de cursos de especializações. Nesses casos, é vinculada a ideia de que a pesquisa está estritamente relacionada a normas, prazos e obrigações a ser cumpridas, aprisionando uma prática que deveria ter ousadia, desafiar, investigar e gerar prazer com as novas descobertas e possibilidades de ação (Moraes, Juncá e Santos, 2010).

Diante disso, é possível perceber que, apesar de o Serviço Social plasmar a centralidade da pesquisa na formação e no exercício profissional, existem desafios que precisam ser enfrentados no âmbito acadêmico e no exercício profissional. Desafios que tem descaracterizado a universidade brasileira enquanto instituição pública a serviço da população e tem contribuído para que a pesquisa não seja construída com as projeções desejadas na prática profissional, o que pode estar comprometendo a construção da criticidade no cotidiano de trabalho e, consequen‑ temente, a capacidade de desvelamento das contradições estruturais, bem como o trabalho em apoio às classes subalternas.

Diante desses indicativos e do reconhecimento da particularidade da pesqui‑ sa no Serviço Social, este artigo tem por objetivos identificar a trajetória da pesquisa como tema e disciplina na formação profissional do Serviço Social, bem como discutir elementos que afirmam em que sentido(s) a pesquisa subsidia o exercício da profissão na contemporaneidade.

Para atingir tais objetivos, este artigo de revisão foi construído a partir de leitura e análise de livros, teses e outros artigos publicados em revistas científicas, bem como nos encontros e congressos de pesquisa em Serviço Social que discutem

Mesmo com essas restrições,

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o tema em questão. Nesses materiais, foi possível identificar a construção de uma política de pesquisa em contextos particulares (na Universidade Federal do Mara‑ nhão, por exemplo, por meio de estudo realizado por Brandão, 2010) ou no cenário brasileiro de maneira geral (por meio de discussões travadas por autores como:

Sposati, 2007; Bourguignon, 2008; Nogueira, 2010, entre outros).

Ao reunir de forma complementar essas discussões e construir uma série de problematizações tendo por base as transformações sociopolíticas da sociedade brasileira na era de mundialização do capital, este artigo demonstra sua relevância científica e originalidade. Esta última pode ser identificada na medida em que essas discussões nem sempre são travadas em conjunto pela bibliografia pesquisada (apesar de demonstrarem que se complementam): ora se privilegiam os sentidos da pesquisa na formação profissional, ora na prática profissional.

Por outro lado, é possível destacar sua relevância social a partir de possíveis contribuições para o encaminhamento da pesquisa nos espaços acadêmicos e pro‑ fissionais de maneira geral.

Diante disso, a proposta ora descrita se subdivide em dois momentos centrais:

no primeiro, serão descritos e compreendidos, de maneira ampliada, os aspectos históricos relacionados à pesquisa e à formação profissional em Serviço Social, para em seguida (segundo momento) problematizar seus sentidos vinculados à prática profissional na atualidade. Além disso, serão apontadas algumas indicações finais com base no que foi discutido ao longo do corpo do trabalho, bem como apresentadas questões que avaliamos ser importantes para o desenvolvimento de eventuais estudos que tenham por objetivo mapear o “estado da arte” na pesquisa no Serviço Social.

II. Trajetória da pesquisa como tema e disciplina na formação profissional do Serviço Social

Este item aborda a produção do conhecimento em Serviço Social a partir de uma dupla relação: com a profissão e com a formação profissional. 1 A partir de uma

1. Na presente análise, em conformidade com Cardoso (1998), compreende‑se a formação profissional do assistente social como um amplo processo determinado socialmente, de um lado pelas relações mais gerais

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abordagem histórica, serão identificadas as “mudanças” ético‑política e teórico‑me‑ todológica vivenciadas pela disciplina de pesquisa. Além disso, há aqui a defesa do significado da produção de conhecimento como “elemento constitutivo da ação profissional” (Nogueira, 2010, p. 1).

A preocupação com a pesquisa/dimensão investigativa/produção de conheci‑ mento deve ser antecedida por uma apreensão de seu real significado para a profis‑ são que tem razão de ser na intervenção. No entanto, o papel, a “funcionalidade da pesquisa no exercício profissional”, bem como, seu trato na formação, “são distin‑ tos na trajetória do Serviço Social, variando a centralidade dos objetos de estudo e os métodos para sua análise” (Nogueira, 2010, p. 3).

É sabido (Yazbek, 2004; Martinelli, 2009; Iamamoto, 1982; Ortiz, 2010) que, no Brasil, a origem do Serviço Social está localizada em um complexo quadro conjuntural que caracterizava o país naquele momento. Isto é, na emergente socie‑ dade urbana industrial (anos 1930), em uma conjuntura peculiar do desenvolvimen‑ to capitalista, marcada pelo movimento do operariado e seu amadurecimento polí‑ tico (conflitos de classe) em suas lutas contra exploração do trabalho e defesa dos direitos de cidadania (Yazbek, Raichelis e Martinelli, 2008).

Nesse cenário, o Serviço Social se gesta e desenvolve a partir de requisições do Estado (que legitima e enquadra juridicamente a “questão social”) e da classe dominante como um de seus recursos (com suporte da Igreja católica) na perspec‑ tiva de regulação e enfrentamento da “questão social”. Esta que é matéria‑prima do Serviço Social e justifica sua constituição na divisão sociotécnica do trabalho (Martinelli, 2009).

Sob influência da Igreja católica e/ou a partir de uma mesclagem entre as visões francesas e belga, o Serviço Social inicia um trabalho fundamentado em suas perspectivas ética, social e técnica da formação profissional. Trabalho que voltava para adaptação do indivíduo ao meio e do meio ao indivíduo, na perspec‑ tiva de restaurar e normalizar a vida social. Sua contribuição incidia sob valores e comportamentos de seus “clientes” na busca de sua integração às relações sociais

de determinada formação social e, de outro, pela universidade enquanto instituição diretamente responsável pela formação básica do profissional. Assim definida, a formação profissional é um projeto complexo que inclui na sua estrutura, além do ensino acadêmico, da graduação e pós‑graduação, a capacitação de profissionais docentes e não docentes, a prática profissional e organizativa e a pesquisa como importante instrumento na definição e redefinição desse projeto.

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vigentes. Tratava‑se de um enfoque psicologizante e moralizador da “questão so‑ cial”, centrado no indivíduo e na família.

A esse respeito Martinelli (2009) identifica que as práticas do Serviço Social expressavam‑se como um mecanismo de reprodução das relações sociais de pro‑ dução capitalista — como estratégia de garantir a expansão do capital, ou seja, uma identidade que era atribuída pela classe dominante e pelo Estado no desenvolvi‑ mento de seu trabalho concreto, dotado de qualidade determinada (Iamamoto, 2008).

A partir da década de 1940 há a criação e o desenvolvimento de instituições assistenciais estatais, que amplia o mercado de trabalho do Serviço Social e diver‑ sifica o perfil dos profissionais, visto que aumentavam os interesses particulares

(qualificação, melhores salários na escolha da profissão (Martinelli, 2009).

)

Nesse processo, o Serviço Social vai se aproximar da abordagem norte‑ame‑ ricana, articulando‑a ao conservadorismo católico, o que Iamamoto (2008) vai denominar de “arranjo teórico doutrinário”.

Martinelli (2009) ressalta que, nesse período, os assistentes sociais estavam apossados pelo “fetiche da prática”, por meio de um agir imediato, espontâneo, alienado e alienante, roubando qualquer possibilidade de reflexão e crítica, o que fortalecia a “identidade atribuída” da profissão.

Particularmente, a orientação funcionalista é absorvida pelo Serviço Social, configurando propostas de trabalho ajustadoras e um perfil manipulatório, voltado para o aperfeiçoamento dos instrumentos e técnicas para a intervenção, com as metodologias de ação, busca de eficiência, sofisticação dos modelos de análise, diagnóstico e planejamento, enfim, uma tecnificação da ação profissional que é acompanhada de crescente burocratização das atividades institucionais. Essa pers‑ pectiva busca ajuste e conservação em relação aos sujeitos na ordem estabelecida (Yazbek, 2009). Nesse sentido, o Serviço Social assume a execução de políticas sociais, o que lhe proporciona, por intermédio do Estado, a profissionalização e da ampliação do mercado de trabalho.

Assim, com base na natureza eminentemente interventiva da profissão nesse período, a Lei n. 1.889/53 define os objetivos do ensino do Serviço Social, a partir do estudo de disciplinas organizadas, segundo Nogueira (2010, p. 3), em três eixos:

I — eixo do conhecimento da realidade social, econômica, psicológica e ética geral e profissional;

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II

— eixo da introdução e dos fundamentos do Serviço Social: Métodos do Serviço

Social; Serviço Social de Casos — de Grupo — Organização Social da Comunidade:

Serviço Social em suas especializações; Família — Menores — Trabalho — Médico;

III — o eixo da Pesquisa Social.

Além disso, a autora ressalta que o programa de pesquisa social estava desti‑ nado, com base em procedimentos da pesquisa científica, a subsidiar a intervenção. Sua ementa continha os seguintes itens:

conceituação [da pesquisa social], sua posição face às Ciências Sociais, relações com

o Serviço Social, problemática da pesquisa, peculiaridades, condições que afetam a

objetividade, condições ambientais e condições do pesquisador e do pesquisado; métodos indutivo e dedutivo, método estatístico, geográfico e sociológico, antropoló‑ gico; observação em massa e participante, método comparativo e experimental. (Nogueira, 2010, p. 3)

Diante dessa ementa, torna‑se perceptível a preocupação da disciplina em subsidiar a intervenção a partir de procedimentos de pesquisa científica, tendo por foco a apropriação positiva da realidade, com objetivo de, por meio do método científico, obter informações para a intervenção. “A preocupação com a cientifici‑ dade se manifestava na ênfase dos procedimentos metodológicos quanto ao trato da empiria, e reduzíssima ênfase na perspectiva analítica” (Nogueira, 2010, p. 4).

Nesse contexto (década de 1950‑60), o Serviço Social, ao possuir relativa autonomia técnica e sendo legalmente reconhecido, tem, segundo Martinelli (2009), um salto quantitativo e qualitativo por meio do aumento no número de escolas; interiorização para as prefeituras de cidades pequenas e médias; abertura para o campo industrial; incorporação de novas funções, como coordenação, planejamen‑ to e administração de programas sociais, o que revelava o alcance de maior siste‑ matização teórica e prática.

Na subsequente revisão curricular (realizada em 1962), Nogueira (2010) destaca que o ensino da pesquisa manteve a direção anterior. Posteriormente, em virtude da realidade brasileira e da hegemonia do pensamento sociológico nor‑ te‑americano, a pesquisa realizada pelo Serviço Social passou a contribuir de ma‑ neira significativa para o protagonismo e o reconhecimento profissional, ao eviden‑ ciar as situações de pobreza e marginalização de grupos e segmentos populacionais e servir para o direcionamento de ações institucionais.

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Por outro lado, a reforma universitária realizada em 1968 e implementada por grupos e setores que buscavam a consolidação do modelo desenvolvimentista, focados na formação de sujeitos para o mercado de trabalho, traduziu graves con‑ sequências para o ensino superior no Brasil.

No Serviço Social, conforme indica Setúbal (2007), pela primeira vez, a pesquisa é excluída do currículo da graduação como uma disciplina, sendo substituída pela “ati‑ tude investigativa”, relacionada estritamente à extensão universitária e consolidando o saber resgatado do fazer como critério para a eficiência e produtividade. (Nogueira, 2010, p. 4)

Diante deste quadro de reforma, é possível identificar que nesse período, houve a ampliação da rede de serviços sociais, o que conduziu a profissão a um efetivo avanço nas esferas acadêmicas, organizativa e institucional, nos âmbitos público e privado.

Isso contribuiu para que a profissão questionasse seus referenciais e assumis‑ se inquietações e insatisfações de uma conjuntura histórica de intenso movimento político‑cultural que reuniu profissionais, trabalhadores, segmentos médios e das classes populares em torno da luta anti‑imperialista na defesa de projetos de trans‑ formação social (Yazbek, Raichelis e Martinelli, 2008).

Nesse contexto, desencadeia na América Latina um amplo movimento de renovação profissional em diferentes níveis — teórico, metodológico, técnico/ operativo e ideopolítico — o qual impõe ao Serviço Social a necessidade de negar o aparente e, mais que isso, construir um projeto profissional comprometido com as demandas e interesses dos trabalhadores e das camadas populares, usuárias das políticas sociais.

Segundo Netto (2001), no bojo desse movimento e em seus desdobramentos históricos, são definidas e confrontadas diferentes tendências que incidiram em seus fundamentos teóricos e metodológicos e na direção social de sua intervenção. Este autor ressalta as seguintes vertentes de análise:

1) Vertente modernizadora: caracterizada pela incorporação de abordagens funcionalistas, estruturalistas, e mais tarde, sistêmicas (matriz positivista), voltadas para uma modernização do desenvolvimento social e do enfrentamento da margi‑ nalidade e da pobreza na perspectiva de integração da sociedade.

2) Vertente inspirada na fenomenologia: dirige‑se ao vivido humano, aos sujeitos em suas vivências, colocando para o Serviço Social a tarefa de auxiliar na

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abertura desse sujeito existente, singular, em relação aos outros, ao mundo das pessoas. Nessa tendência, o Serviço Social brasileiro vai priorizar as concepções de pessoa, diálogo e transformação social (dos sujeitos). Ela é analisada por Netto (2001) como uma forma de reatualização do conservadorismo presente no pensa‑ mento inicial da profissão.

3) A vertente marxista: remete à profissão a consciência de sua inserção na sociedade de classes e que no Brasil se configura no primeiro momento em um marxismo sem Marx.

No curso desse movimento, o profissional passa a buscar paulatinamente a compreensão da análise e contradição como princípio explicativo do real. Além disso, passa a perceber o caráter conservador de sua prática, o que não aconteceu de forma homogênea.

Diante disso, é possível ressaltar que a consciência crítica colocava a neces‑ sidade de luta por novas superações dialéticas, pela consciência política da catego‑ ria, pela ampliação de espaços de produção do novo. Isto é, buscou‑se criar uma proposta de profissão identificada com as classes populares.

Segundo Martinelli (2009) a partir de 1970‑80 tornou‑se possível identificar a categoria como um grupo portador de um projeto profissional comum. A identidade profissional passou a ser construída de maneira incessante e coletiva, como força viva. A prática profissional e política passou a estabelecer alianças com a classe trabalhadora.

Ainda na década de 1970, concomitante ao movimento de reconceituação do Serviço Social, é possível destacar um avanço na produção teórica da profissão no país, a partir da criação e expansão de cursos de pós‑graduação, enquanto elemen‑ to fundamental para produção de bibliografias consistentes e continuadas do Ser‑ viço Social (Kameyama, 1998; Iamamoto, 1998; Pastor e Marques, 2010).

Durante esse processo, a Abess encaminha uma revisão curricular iniciada em meados dos anos 1970 e aprovada em 1979 em Natal e pelo MEC, em 1982 (Bran‑ dão, 2010). Esse novo currículo assinala um rompimento com a tradição teórica discutida e implementada nos currículos anteriores, que influenciava a construção do fazer e a formação profissional até então. Em relação à pesquisa, essa nova apreensão da profissão apresenta, segundo Nogueira (2010), dois vetores: 1) a relação intrínseca entre prática profissional e produção do conhecimento, isto é, a relação teoria e prática ainda não trabalhada de forma unitária; 2) a introdução de uma perspectiva crítica de análise na construção do saber profissional.

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A aprovação dessa proposta curricular (de maneira geral) foi uma vitória da luta coletiva da Abess, inclusive com a disciplina de pesquisa que, conforme Sposati (2007), passa a ser obrigatória na formação dos assistentes sociais a par‑ tir de 1982. Nesse contexto, Nogueira (2010) destaca alguns elementos para análise do papel da pesquisa na formação profissional:

a preocupação com a produção de conhecimento de forma mais sistemá‑ tica, a partir da integração de cursos confessionais de Serviço Social para o espaço universitário federal. Além da interlocução da profissão com o campo das ciências sociais e a realização de encontros de pesquisa em âmbito nacional;

2) a inclusão do Serviço Social como área de conhecimento nas agências de financiamento (Capes, CNPq etc.), conferindo‑lhe status acadêmico;

3) a criação do Centro de Documentação e Pesquisa em Políticas Sociais e Serviço Social (Cedepss), órgão acadêmico vinculado à Abess (que em 1998 passa a se chamar Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social — Abepss). Sua criação tinha por objetivo incentivar e estimular a construção de pesquisas nesta área, bem como documentar tais produções;

4) o conhecimento produzido até esse período histórico referenciava os elementos vinculados exclusivamente à ação profissional, não trabalhan‑ do com análises de realidade com base em um quadro explicativo mais denso.

1)

Desta situação deriva um aspecto delicado para a relação entre a pesquisa/ profissão/formação profissional. Na medida em a prática conservadora foi sendo

desqualificada, com toda a razão, não se investiu em análises sobre o fazer profissional e nem se gestaram formas inovadoras de ação profissional, compatíveis com

o perfil estabelecido pelo novo currículo, sendo a preocupação maior, entre os do

centes/pesquisadores, se apropriar do novo marco teórico indicado pelo currículo

de 1982. (Nogueira, 2010, p. 5)

A esse respeito, convém recordar que a partir da década de 1980‑90 é destaca‑

do o protagonismo do Serviço Social crítico. Ou seja, a teoria social de Marx passa

a ser articulada de maneira mais efetiva com a profissão, por intermédio, inicialmen

te, das análises de Iamamoto em 1982 no livro Relações sociais e Serviço Social no Brasil, teoria que apreende o ser social a partir de mediações. Portanto, os fatos e

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dados passam a ser vistos como indicadores, e não como fundamentos do horizonte analítico. Isto é, as relações sociais são sempre mediatizadas por situações, institui‑ ções que ao mesmo tempo revelam/ocultam as relações sociais imediatas.

Trata‑se, portanto, de um conhecimento que apreende a realidade de forma dialética em seu movimento contraditório. Movimento em que se engendram como totalidade as relações sociais que configuram a sociedade capitalista (Yazbek, Rai‑ chelis e Martinelli, 2008).

Esse referencial ganha visibilidade e imprime nova qualidade ao processo de recriação da profissão, além de ser substancial na busca de avanços na produção do conhecimento e no rompimento com o histórico conservadorismo no campo pro‑ fissional.

Portanto, o Serviço Social brasileiro, nesse período, passa por um processo de maturação, rompendo com seu conservadorismo, embora não o tenha superado como lembra Netto (2001).

Assim, o Serviço Social também passa a assumir novas posições no mercado de trabalho, destacando‑se o fato de desenvolver ações de planejamento e gestão de políticas sociais. No entanto, essas políticas sociais passam por um reordena‑ mento, tornando‑se cada vez mais seletivas e focalizadas. Além disso, há o apelo por parte da opção neoliberal, pela filantropia e à solidariedade da sociedade civil, o que traz novas questões ao Serviço Social do ponto de vista interventivo e da construção de seu corpo de conhecimentos.

Essa profissão, na década de 1990, se vê desafiada a compreender e intervir nas novas configurações e manifestações da “questão social”, visto que há o aprofundamento da precarização do trabalho e, consequentemente, o agravo das condições de vida dos trabalhadores. Enfrenta processos e dinâmicas que trazem para a profissão novas temáticas, novos (e os de sempre) sujeitos sociais, por meio de questões vinculadas ao desemprego estrutural, trabalho infantil, violência doméstica, discriminação de gênero e etnia, entre outros (Yazbek, Raichelis e Martinelli, 2008).

Diante disso, torna‑se um desafio decifrar as lógicas do capitalismo contem‑ porâneo, sobretudo no que se refere às mudanças no mundo do trabalho e à deses‑ truturação dos sistemas de proteção social e das políticas sociais de forma ampliada. Lógicas capazes de despolitizar a questão social, além de reiterar a desigualdade, na medida em que também penaliza os trabalhadores por sua condição de precariedade na sociedade atual (Iamamoto, 2008; Yazbek, 2009).

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No entanto, o Serviço Social, a partir do avanço na produção do conhecimen‑ to, da busca de romper com seu histórico conservadorismo, dos debates sobre a formação profissional, das revisões curriculares, entre outros elementos, constrói um projeto profissional 2 (a partir do movimento de reconceituação) com princípios que vão nortear a materialização de suas ações.

Os princípios éticos norteadores do projeto possuem como questão central a liberdade do ser social. Esta que é compromissada com valores que dizem respeito a determinadas projeções sociais e que tem protagonistas histórico‑sociais efetivos.

Segundo Barroco (2009), a efetivação desses princípios remete a luta, no campo democrático popular, pela construção de uma nova ordem societária. Prin‑ cípios que, ao se materializarem no cotidiano, indicam um novo modo de operar o trabalho profissional, balizando as expressões da categoria profissional de forma geral e no que se refere às condições e relações de trabalho.

Nesse cenário, Nogueira (2010) ressalta que a Abess, em sua gestão 1992‑94, inicia um novo processo de revisão curricular a partir do “Relatório‑síntese dos impasses e tensões da formação profissional”, produzidos após a realização de várias oficinas regionais concluídas em 1995. Esse relatório aponta equívocos na implementação curricular que impactaram

a produção e a transmissão de conhecimentos, como o ecletismo teórico; o formalis‑

mo na apropriação da teoria crítica, a superficialidade na apropriação dos paradigmas

e a distância entre apreensão da realidade e a intervenção. (Nogueira, 2010, p. 6)

Após a revisão, foi estruturada uma nova proposta curricular aprovada em 1996 pela Abess. Essa proposta teve por base os seguintes pressupostos: 1) Serviço Social como profissão interventiva no âmbito da questão social no capitalismo monopolista; 2) A necessidade de compreensão dos processos sociais e de uma perspectiva teórico‑metodológica para isso. A partir dessa proposta, são destacados pela Abess (1996) três princípios básicos para avaliação da pesquisa:

— Rigoroso trato teórico, histórico e metodológico da realidade social e do Serviço Social que possibilite a compreensão dos problemas e desafios com os quais o profissional se defronta no universo da produção e reprodução da vida social;

2. Projeto pautado na lei de regulamentação da profissão, no código de ética profissional e nas diretrizes curriculares.

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— Adoção de uma teoria social crítica que possibilite a apreensão da totalidade social em suas dimensões de universalidade, particularidade e singularidade;

— Estabelecimento das dimensões investigativas e interventivas como princípios formativos e condição central da formação profissional e da relação teoria e realidade.

É necessário sinalizar que as diretrizes curriculares indicam, através dos prin‑

cípios de orientação da ação profissional, a necessidade de capacitação teórico‑me‑ todológica, ético‑política e técnico‑operativa nas seguintes direções (Abess, 1996):

— apreensão crítica do processo histórico,

— a investigação sobre a nossa formação histórica e os processos sociais contem‑ porâneos vivenciados pela sociedade brasileira,

— a apreensão do significado social da profissão, desvelando as possibilidades de ação contidas na realidade, apreensão das demandas — consolidadas e emergen‑ tes — visando formular respostas profissionais,

— exercício profissional cumprindo as competências e atribuições previstas na legislação profissional em vigor.

A partir desses princípios, é possível destacar a relevância da pesquisa em

Serviço Social. Na mesma proposta é apresentado o seguinte conteúdo:

Natureza, método e processo de construção do conhecimento: o debate teórico‑meto‑ dológico. A elaboração e análise de indicadores socioeconômicos. A investigação como dimensão constitutiva do trabalho do assistente social e como subsídio para a produ‑ ção do conhecimento sobre processos sociais e reconstrução do objeto da ação pro‑ fissional. (Abess, 1997, p. 71)

A avaliação encaminhada pela Abepss em 2007 e concluída em 2008 apre‑

senta significativas contribuições. De acordo com Abreu (2008), é possível visua‑ lizar três tendências: 1) Ênfase nos aspectos técnico‑operativos da disciplina, conforme ementa do MEC; 2) Abordagem relativa aos aspectos teórico‑metodoló‑ gicos, particularizando o debate em torno da produção do conhecimento no Servi‑ ço Social; 3) Inclusão dos aspectos anteriores em articulação a atividades práticas de exercício da pesquisa e o desenvolvimento do espírito investigativo.

Diante disso, concordamos com Abreu (2008) e Nogueira (2010) de que é reposto nesse currículo a debilidade avaliada no de 1982: o alheamento entre pes‑

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quisa e ação profissional. Além disso, é possível apresentar outros aspectos pouco problematizados em relação à pesquisa na formação profissional, como: o fato de sua construção ser a partir da curiosidade científica em relação ao já vivido na busca de ampliar o leque de questões teóricas mais abstratas; a forma como o mé‑ todo crítico vem sendo apropriado e usado como ferramenta analítica; a banalização da pesquisa; e a dificuldade de articulação entre a disciplina de pesquisa e as demais disciplinas no curso de graduação em Serviço Social (Nogueira, 2010).

Por outro lado, outras questões se tornam relevantes nesse processo, como por exemplo, o fato de a universidade ser encarada como um grande negócio na atualidade, havendo uma descaracterização de seus princípios mais caros como a

autonomia e a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, fundamentais

à universidade pública. Nesse contexto, e considerando essas questões, torna‑se

fundamental uma futura reflexão em relação ao papel e à importância da pesquisa, particularmente da pesquisa social, na universidade pública (Brandão, 2010). Ou seja, esta reflexão deve considerar o tipo de formação que está sendo pautada nas universidades diante da desvalorização e da descaracterização da pesquisa.

No caso do Serviço Social, esse debate é fundamental, visto que algumas indicações profissionais atuais caracterizam‑se por vincular a pesquisa à ação do

assistente social. No entanto, se durante o processo de formação profissional o discente não tem acesso a disciplinas de pesquisa que trabalhem articuladas a outras disciplinas do currículo e vice‑versa; se essas disciplinas não abordam a particula‑ ridade da produção do conhecimento no Serviço Social articulando teoria e prática de forma unitária; se o discente não tem oportunidade de participar de projetos e grupos de pesquisa, além de não ter acesso a bolsas de iniciação científica por exemplo, torna‑se complexo plasmar a pesquisa na prática profissional, pois além das naturais dificuldades vinculadas à operacionalização da proposta de pesquisa na prática profissional, existem questões (da formação profissional) que vinculam

a falta de bagagem teórica, metodológica, ética e política para que essa atividade seja desenvolvida com qualidade pela universidade e rompa os muros acadêmicos.

Na sociedade atual, esses processos têm se tornado ainda mais contraditórios com o aumento dos cursos de graduação à distância e dos cursos de Serviço Social particulares, em que princípios 3 (da universidade) não são incorporados no proces‑

3. De acordo com Faria (2005, p. 22), podemos destacar os seguintes princípios da universidade:

“indissociabilidade entre a produção e a transmissão do conhecimento; o da autonomia plena com relação

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so de formação profissional, pois o vínculo dessas instituições é exclusivo para o mercado.

Diante destas reflexões, construímos a seguinte questão: que elementos sub‑ sidiam a pesquisa no exercício do Serviço Social na contemporaneidade? É acerca desta questão que o próximo item será desenvolvido.

III. Desdobramentos da pesquisa para o exercício da profissão

Desigualdade, pobreza, desmonte das políticas de proteção social, envelheci‑ mento populacional, famílias chefiadas por mulheres, trabalho infantil são alguns dos traços que marcam a sociedade contemporânea (Yazbek, Raichelis e Martinelli, 2008).

Nesse cenário, é possível identificar que análises referenciam a chamada “mundialização do capital” e as discussões relacionadas ao “capital fetiche” (Ia‑ mamoto, 2007) como alguns dos elementos impulsionadores da realidade brasi‑ leira atual. Neste caso, o Estado, ao ser “capturado” pelas políticas econômicas globais, com base no ideário neoliberal, desenvolve um processo de “contrarre‑ forma”, preconizado por uma mínima atuação na área social (Yazbek, Raichellis e Martinelli, 2008).

Assim, há o desmonte do Sistema de Seguridade Social brasileiro, e as polí‑ ticas sociais de maneira geral se tornam cada vez mais focalizadas, seletivas, frag‑ mentadas e direcionadas aos miseráveis, que são incluídos através do “mérito da necessidade” (Sposati, 1993).

Nessa lógica, há o aumento das parcerias entre público‑privado e o crescimen‑ to do “terceiro setor”, vinculando a cidadania ao mercado e desenvolvendo traços conservadores em relação à “questão social” e aos movimentos sociais, na medida em que se constrói um trato refilantropizador e despolitizador da questão social (com claros chamamentos à sociedade civil), numa perspectiva moralizadora.

As repercussões desses rearranjos políticos, econômicos e sociais vão incidir diretamente na vida dos trabalhadores. Segundo Antunes (2005), nunca se viu um quantitativo de desemprego tão elevado, além do crescimento da informalidade, da

aos seus órgãos mantenedores; o da qualidade acadêmica; o da manutenção e da ampliação das formas democráticas de ação; o de atendimento das necessidades da sociedade por meio da defesa da pluralidade do conhecimento e da cidadania”.

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precarização do trabalho, da subcontratação, da terceirização, entre outros fatores, que criam novos padrões de discriminação (por sexo, idade, etnia) e contribuem para que haja substituição (não eliminação) do trabalho vivo pelo “trabalho morto” (nos termos de Marx). Por outro lado, Iamamoto (2008) ressalta que há o objetivo de “cooptar” os trabalhadores como parceiros do grande capital. A esse respeito, o mesmo Antunes (2005) destaca que há a busca do envolvimento subjetivo e social do trabalhador pelas instituições empregadoras.

Esse processo contribui para que as políticas sejam trabalhadas de maneira focada no combate à pobreza, além de, segundo Iamamoto (2008), redimensionar a “questão social” na contemporaneidade. Para a autora, a “questão social” é mais que pobreza e desigualdade, expressa a banalização do humano, resultante da in‑ diferença frente à esfera da necessidade das grandes maiorias e dos direitos a ela atinentes.

Essa conjuntura vai influenciar diretamente o Serviço Social. Nesse sentido, Iamamoto (2007) ressalta a necessidade de um novo perfil profissional que tenha por base competência crítica. Esse profissional deve ser capaz de pensar, analisar, pesquisar e decifrar a realidade a partir de uma atitude investigativa que deve per‑ passar o seu cotidiano. Além disso, deve ser capaz de analisar os processos sociais, entendendo o presente e contribuindo para a construção do futuro.

Essas características são fundamentais para analisar, compreender e intervir na realidade social. Visto que o próprio assistente social vai sofrer as incidências dessas transformações societárias, seja no que se refere às suas condições e relações de trabalho, seja em relação ao tipo de demanda e as possibilidades de respostas profissionais.

A esse respeito, é possível destacar, de acordo com Iamamoto (2008) e Ortiz (2010) que o debate em torno da condição de assalariamento do assistente social e a natureza das requisições profissionais tem sido preocupação por parte da categoria, visto que o exercício da profissão é tensionado pela compra e venda de sua força de trabalho especializada, enquanto trabalhador assalariado, determinante fundamental na autonomia profissional.

Esta condição envolve a incorporação de parâmetros institucionais e traba‑ lhistas que regulam as relações de trabalho, consubstanciadas no contrato de traba‑ lho, estabelecendo as condições em que o mesmo se realiza. Oferecem os recursos indispensáveis a sua objetivação e recortam as expressões da “questão social” que podem se tornar matéria‑prima do trabalho profissional.

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Assim, o profissional sofre dois vetores de demandas na realização de seu trabalho: 1) o vetor institucional a partir das exigências impostas pelos distintos empregadores; e 2) as necessidades sociais dos cidadãos que se tornam demandas dos usuários. É nesse terreno denso de tensões e contradições sociais que se situa o protagonismo profissional (Iamamoto, 2007).

Esse processo atual requer do profissional competência teórico‑metodológica para leitura da realidade, bem como a incorporação da pesquisa e do conhecimen‑ to do modo de vida, de trabalho e expressões culturais desses sujeitos sociais, como requisitos essenciais do desempenho profissional, além de sensibilidade e vontade política que movem a ação.

Nesse caso, é perceptível que a pesquisa se torna um importante instrumento

para a prática profissional 4 (Iamamoto, 2008; Neto, 1990). No entanto, é possível identificar, não raras vezes, que esse discurso pode não alcançar a prática. 5 As jus‑ tificativas por parte dos assistentes sociais são muitas: falta de tempo, excesso de

atribuições, pouca disponibilidade de pessoal, ausência de recursos

essas restrições, nos deparamos com situações em que a pesquisa é incorporada ao trabalho do profissional, sobretudo por motivo de cursos de especializações. Nesses casos, é vinculada a ideia de que a pesquisa está estritamente relacionada a normas, prazos e obrigação a ser cumprida, aprisionando uma prática que deveria ousar, desafiar, investigar e gerar prazer com as novas descobertas e possibilidades de ação (Moraes, Juncá e Santos, 2010).

Mesmo com

Não há aqui a defesa da banalização ou o enfraquecimento do rigor e critérios científicos. Há reconhecimento e valorização da relevância de projetos desenvolvidos pelas universidades. Porém é necessário refletir de maneira mais aprofundada acerca do sentido e do significado da prática da pesquisa para o cotidiano do assistente social e, além disso, é necessário ressaltar que (enquanto aspecto inter‑

4. Para Baptista (2009, p. 18) a prática profissional situada no âmbito das relações sociais concretas de cada sociedade, em sua configuração, sintetiza o seu movimento histórico. Não se confunde com outras práticas, apesar de constituir uma dimensão historicamente determinada da prática social que se manifesta concretamente em uma situação social específica (sendo expressão de classe).

5. Este estudo apresenta uma preocupação com a prática ancorado na abordagem de Battini (2009, p. 74): A preocupação com a prática tem duplo caráter: de investigação e de intervenção. “Esse duplo caráter exige do assistente social uma postura metodológica que lhe garanta unidade teoria/prática; que lhe conceda oportunidades de ampliação do limite dado; que lhe propicie clareza para sua introdução no concreto real, no sentido de melhor explicar as interconexões, criando as condições de apropriação teórico‑prática na particularidade dos fenômenos sociais”.

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ligado à pesquisa) a prática não sustentada pela postura investigativa 6 se torna li‑ mitada no que se refere ao pensar e ao agir, tendendo a confirmar a prática consti‑ tuída, sem criar condições para novas formas de apreender e agir sobre o objeto profissional, de maneira a reificar e confirmar o vigente (Battini, 2009).

Assim, há aqui a defesa por uma prática que deve ser “construída artesanalmen‑ te” (Mills, 1982, p. 211) desenhada de maneira apaixonada, vibrante e desafiadora.

Prática com fome de descobertas, combinando razão e sensibilidade, rigor e criativi‑ dade, ciência e arte, conhecimento e ação. Prática que comemora os “achados” do processo de investigação, mas que com ponderação e humildade desconfia destes “achados” e quer avançar sempre mais, valorizando os sujeitos com os quais se rela‑ ciona. (Moraes, Juncá e Santos, 2010, p. 434)

Se a pesquisa deve ser encarada com gosto (Eco, 1977), muitas questões precisam ser enfrentadas em sua prática no Serviço Social, já que é necessário garantir a unidade entre o saber e o fazer, o saber fazer e o refazer, ancorados na compreensão do tipo de sociedade que se almeja.

Ao se perguntar “pesquisa: para quê?” Rubem Alves (1989) problematiza a função social do conhecimento produzido e o resultado social das investigações dos pesquisadores. Isto é, a quem se destina este conhecimento e de que maneira esses sujeitos podem se apropriar do mesmo.

Outros fatores a considerar é o que Cynthia Crossen (1996) e Aquino (2001) problematizam: o uso indiscrimado do termo pesquisa, o modo como são produzi‑ dos os dados e o uso que se faz dos mesmos. Ou seja, qual a finalidade de produção de tantos dados? Como eles são produzidos?

Ao retomar o cotidiano profissional do Serviço Social, é possível perceber uma gama de informações a respeito dos usuários: sexo, ocupação, composições fami‑ liares, condições habitacionais, dentre outros. É certo que tais informações são re‑ levantes para a condução das atividades profissionais, no entanto, há necessidade de problematizá‑las (articulando suas dimensões singulares/particulares ao universal), buscando compreender suas causas e possíveis significados, ancorados na busca de alternativas à realidade dos mesmos, pautadas no projeto ético‑político profissional.

6. De acordo com a Abess (1996) a postura investigativa é um suposto para sistematização teórica e prática do exercício profissional, para definição de estratégias e instrumental técnico que busquem enfrentar a desigualdade social.

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Isto significa que é preciso pensar na ação política que tal processo pode en‑ volver, no protagonismo dos sujeitos, pesquisadores e pesquisados, em que “o desafio é tecer uma rede interpretativa onde o fenômeno estudado possa ser com‑ preendido como parte de um universo e, ao mesmo tempo, um universo à parte” (Barbiani, 2004, p. 1).

Admite‑se aqui o movimento que Morim (2001) ressalta: ordem‑desordem‑or‑ ganização, além do que Barbiani (2004) chama de a importância do entrecruzamen‑ to de múltiplas vozes, temporalidades e movimentos. Isto porque o conhecimento se configura do singular ao particular, 7 mediado pelo universal, imergindo numa realidade que se movimenta constantemente não possibilitando ter consciência, ao certo, de onde chegará.

Com tais considerações, queremos reforçar nossa concepção de pesquisa, onde há um lugar garantido para a indagação inacabada, para movimentos de aproximação suces‑ siva, onde teoria e dados dialogam, permanentemente, enfatizando, como Demo (1991), que não se trata apenas de busca de conhecimento, mas também de um fenômeno político. Cabe, portanto, reconhecer que estamos diante de um processo complexo, a ser conduzido de forma cuidadosa e criteriosa, comportando não só um olhar que indaga e quer saber, mas também aquele que se compromete e quer fazer algo, o que no caso do Serviço Social está afinado com a ultrapassagem do imediatismo e sacralização do exercício profissional, remetendo ao desafio de operacionalizar seu proje‑ to ético‑político. (Moraes, Juncá e Santos, 2010, p. 246‑47)

Diante dessas afirmações, é possível questionar: de que maneira, a possibili‑ dade do desenvolvimento da pesquisa contribui para o “estranhamento” no proces‑ so de produção do conhecimento? O que o profissional de Serviço Social vê e o que deixa de ver em seu cotidiano profissional? Que dimensões o “ver” deve assumir na prática profissional do assistente social?

Essas indagações têm por base o poema de Otto Lara Resende que ressalta:

“De tanto ver, a gente banaliza o olhar — vê

não — vendo”. Este poema, articula‑

do às nossas reflexões, nos possibilita afirmar a construção de um desafio concernente à prática profissional do assistente social, desafio que nem sempre se assu‑ me, por acreditar que a experiência profissional reiterada durante anos é capaz de

7. A compreensão de singularidade e particularidade aqui trabalhadas consideram às discussões de Barroco (2009) em relação aos “Fundamentos éticos do Serviço Social”.

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proporcionar respostas à realidade trabalhada. A relevância da experiência profissional é inquestionável. No entanto, ela também pode “cegar”, sendo capaz de dificultar análises mais críticas, limitando a reconstrução permanente da profissão.

No contexto da pesquisa, esse desafio deve ter por base a afirmação de Mar‑ tinelli (2005, p. 10): “pesquisar na perspectiva qualitativa, é sempre em articulação com a pesquisa quantitativa”, ou seja, “contemplar de modo pacientemente impa‑ ciente o que se pretende pesquisar”, exercitando “o olhar rigoroso, crítico, atento”, buscando “o desvendamento crítico da realidade em análise, com vistas a uma in‑ tervenção mais qualificada”.

Esta afirmação é corroborada por Bourguignon (2007) e Marsiglia (2006) ao afirmarem a pesquisa como instrumento estratégico na atuação profissional. Assim, ela se apresenta como possibilidade de objetivação da prática profissional e desafio para os profissionais que pretendem ser críticos e propositivos (Bouguignon, 2007). Ou seja, no caso do Serviço Social, um dos desafios que se coloca no terreno da pesquisa refere‑se ao fato de “alimentar práticas profissionais comprometidas com processos emancipatórios” (Bourguignon, 2008, p. 302‑303).

Para além desses desafios da pesquisa no campo do Serviço Social, Bourguignon (2008) indica que a centralidade dos sujeitos que participam de suas pesquisas en‑ quanto condição ontológica tem se apresentado como uma lacuna. Nesses casos, é necessário, por meio da pesquisa, desenvolver análises que permitam dar maior visi‑ bilidade aos usuários, valorizando sua experiência, conhecimento, história e vivência cotidiana. Essas análises devem situá‑los no contexto sócio‑histórico, articulado criticamente à dinamicidade da realidade.

No entanto, se essas concepções têm se tornado hegemônicas no debate aca‑ dêmico, deve‑se também tentar avaliar como elas têm sido correlacionadas à prá‑ tica profissional do assistente social. Há indicativos de que por vezes esse discurso, não tem atingido as ações profissionais de maneira veemente. Todavia, devem ser analisados quais são os fatores que estão colaborando para que ocorra tal aconte‑ cimento, se assim for identificado.

IV. Consideraçõesfinais

Ao identificar a trajetória da pesquisa como tema e disciplina na formação profissional do Serviço Social, pesaram no horizonte dessa discussão imensas dú

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vidas e poucas certezas sobre como encaminhar a sua articulação com a dimensão interventiva.

Visto que, de maneira geral, são precárias as condições objetivas para o en‑ frentamento desses desafios (que vinculam a pesquisa na formação e exercício da profissão) e o cumprimento dessas exigências.

Identificamos desafios referentes às unidades de ensino em que se encontram, segundo Yazbek, Raichelis e Martinelli (2008): 1) A mercantilização e precarização do ensino no âmbito da formação profissional, que pode atingir a identidade do Serviço Social, uma vez que há dificuldades concretas de se formar profissionais competentes e críticos neste quadro; 2) O ensino à distância que introduz mudanças drásticas e alteram o perfil da formação profissional no Brasil.

Isso significa que não é possível pensar a pesquisa (enquanto tema e disciplina) sem se preocupar, antes, com o real significado da profissão que tem razão de ser na intervenção. Isto é, essa temática exige que se desenvolva uma “viagem de volta”, compreendendo os principais determinantes (sociais, econômicos, políticos, culturais) que contribuíram para a construção do Serviço Social, suas dimensões teóricas, metodológicas, éticas, políticas, técnicas e operativas, bem como os sen‑ tidos da proposta da pesquisa na formação e prática profissional.

Neste caso, é fundamental fortalecer a reflexão referente ao papel e a impor‑ tância da pesquisa na Universidade pública na atualidade. Isto é, que tipo de for‑ mação está sendo pautada na universidade diante da desvalorização e descaracte‑ rização dos princípios da Universidade pública, bem como da própria pesquisa.

Por outro lado, é necessário que o assistente social desenvolva competência crítica para compreender a realidade e, neste caso, a pesquisa se apresenta como instrumento estratégico na atuação profissional, na medida em que pode garantir a unidade entre o saber e o fazer, ancorada em que tipo de sociedade que se almeja (ação política).

Diante disso, vale levantar as seguintes questões para o desenvolvimento de eventuais estudos que tenham por objetivo mapear o “estado da arte” na pesquisa no Serviço Social.

Historicamente, quais as dimensões assumidas pela pesquisa na formação profissional em Serviço Social? Qual o contexto sócio‑histórico de seu surgimento e desenvolvimento?

De que maneira a pesquisa é pensada e trabalhada pela graduação em Serviço Social na atualidade?

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Como a dicotomia 8 entre “prática profissional versus pesquisa científica” é enfrentada na atualidade por parte do Serviço Social?

• Quais os atuais sentidos da pesquisa para a prática profissional do assis‑ tente social?

A importância da pesquisa propagada no discurso acadêmico tem sido contemplada na prática profissional dos assistentes sociais?

Quais são as concepções dos assistentes sociais acerca de pesquisa?

A pesquisa tem sido operacionalizada pelos assistentes sociais em seu trabalho profissional? Caso sim, que dimensões ela vem assumindo em sua prática profissional?

A prática da pesquisa do Serviço Social tem se preocupado com a centra‑ lidade do sujeito, possibilitando‑lhe maior visibilidade, através da com‑ preensão de sua experiência e conhecimento? 9

Que possibilidades metodológicas podem ser pensadas e sugeridas para a pesquisa na prática profissional do assistente social?

Neste caso, é necessário identificar, extrair e analisar as incidências da dinâmi‑ ca societária (relações e contradições sociais) “nos fundamentos e processamento de trabalho profissional”, particularizando a pesquisa e produção de conhecimento. Estas análises possibilitarão retomar, “sob novas luzes, o Serviço Social” (Iamamoto, 2008, p. 44). Isto é, há aqui a indicação de se analisar de maneira aprofundada (em futuros estudos) a produção do conhecimento em Serviço Social e seus vínculos com a formação e prática profissional, sob uma perspectiva crítica, histórica e atual.

Recebido em 11/6/2012

Aprovado em 11/3/2013

8. A identificação dessa dicotomia é debatida por Bourguignon em A particularidade histórica da pesquisa no Serviço Social, 2007.

9. A esse respeito, Bourguignon (2007) ressalta que o grande desafio para o pesquisador assistente social, que se preocupa com a centralidade do sujeito enquanto condição ontológica e não como estratégia metodológica de pesquisa, é possibilitar através da pesquisa, maior visibilidade ao sujeito, a sua experiência e ao seu conhecimento, cuja natureza, se desvendada, poderá permitir desenvolver práticas cada vez mais comprometidas ética e politicamente com a realidade, buscando no coletivo e na troca de saberes alternativas de superação das condições de privação e exclusão social.

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Serviço Social emempresas:

consultoria e prestação de serviço* 10

Social Workinprivatecompanies: consultingandservice

10 Social Workinprivatecompanies: consultingandservice Maria Cristina Giampaoli** 11 Resumo: Este artigo

Maria Cristina Giampaoli** 11

Resumo: Este artigo apresenta o resultado de pesquisa qualitativa realizada com assistentes sociais, trabalhadores de consultorias em‑ presariais, cujas atividades são terceirizadas para empresas privadas. As consultorias apresentam‑se como um possível espaço ocupacional para o profissional, surgido a partir da reestruturação produtiva brasi‑ leira. No entanto, na condição de trabalhador terceirizado, ele vivencia o processo de flexibilização e precarização de trabalho.

Palavras‑chave: Serviço Social de empresa. Consultoria em Serviço Social. Consultoria. Terceirização.

Abstract: This article present the result of the qualitative research realized with social workers, business consultants, whose activities are outsourced to private companies. The consultancy firms presents itself as a possible occupational space to the professional, emerged from the brazilian produc‑ tive restructuring, however, in condition of outsourced worker, the same will experience the process of flexibilization and precariousness of work.

Keywords: Social work of company. Consulting in social work. Consulting. Outsourcing.

* Este artigo reproduz parte da dissertação aprovada em maio de 2012, com o título “Contingências no trabalho do assistente em empresas: o caso de consultorias empresariais”, no Programa de Estudos Pós‑graduados em Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação da professora doutora Aldaíza Sposati.

** Assistente social com experiência de 25 anos na atuação profissional em empresas privadas; mestre em Serviço Social pelo Programa de Estudos Pós‑graduados em Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo — Brasil. E‑mail: cristinaassistentesocial@hotmail.com.

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Introdução

A s análises contidas neste artigo resultam das principais ideias traba‑ lhadas em dissertação de mestrado desta pesquisadora, cujo objeti‑ vo foi conhecer o trabalho do assistente social realizado por meio de consultorias, um modo de terceirização da atividade profissional

em empresas privadas.

A pesquisa envolveu duas consultorias empresariais, 1 que, em seu escopo de serviços, terceirizam a atividade de assistentes sociais para empresas. Por meio de entrevistas com dois representantes legais, quatro assistentes sociais e consulta na internet em sites das respectivas consultorias, obteve‑se uma visão geral da cultura organizacional, missão, dos objetivos, e, principalmente, da dinâmica do trabalho estabelecida nesse espaço ocupacional, para e pelo assistente social.

Para as reflexões deste artigo, parte‑se da realidade social da prática profis‑ sional, mediada por questões da reestruturação produtiva do capital, amplamente discutida na literatura do Serviço Social, da qual se destacam os seguintes fatores:

a) o processo de reestruturação produtiva desencadeou mudanças nas ope‑ rações de diferentes setores da atividade econômica capitalista, alterando estruturas produtivas e, por consequência, o mercado de trabalho;

b) as alterações no mercado de trabalho são evidenciadas a partir de novas formas de contratação, inserção e manutenção do trabalho, além da re‑ dução dos postos e consequente desemprego;

c) os efeitos da reestruturação produtiva, conforme Amaral e Cesar (2009), expressam‑se pela flexibilização do trabalho e desregulamentação das leis trabalhistas, resultantes de um movimento mais geral da economia mundial que, entre outros efeitos, redirecionaram as estratégias empre‑ sariais, de forma a possibilitar uma cultura do trabalho adequada aos requerimentos de produtividade, competitividade e maior lucratividade;

d) nas empresas capitalistas, a partir da necessidade de atender a um mer‑ cado globalizado e altamente competitivo, estratégias como privatizações,

1. Em levantamento inicial com profissionais da área de recursos humanos, de 22 empresas, integrantes do Grupo Executivo de Administradores de Benefícios (Geab), foram identificadas cinco consultorias, que prestavam serviços para essas empresas. Priorizaram‑se os contatos com quatro consultorias, as sediadas na cidade de São Paulo, mas somente duas aceitaram o convite para participar da pesquisa.

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fusões de empresas, novas formas de produzir mercadorias, marcadas pelas exigências de produtividade, qualidade e rentabilidade, impulsio‑ naram a modernização tecnológica (gerenciais, instrumentais e técnicas), introduziram novas formas de gerenciamento da força de trabalho, novas políticas de administração dos recursos humanos e organização do tra‑ balho, com consequências diretas para o trabalhador.

O assistente social é um profissional assalariado e sua inserção no mercado

de trabalho perpassa por condições econômicas e sociais previamente determinadas.

Conforme Raichelis (2011), a reestruturação produtiva do capital atinge o mercado de trabalho do assistente social tanto no setor público quanto no privado.

O movimento nas empresas industriais é de mudança e/ou redução de postos de

trabalho, enquanto no setor público ocorre a ampliação devido à descentralização dos serviços sociais públicos.

Nas empresas, os postos de trabalho profissional são reduzidos, quer pela não substituição de trabalhadores desligados quer pela absorção das tarefas do profis‑ sional por elementos polivalentes, “quanto na transferência das atividades do as‑ sistente social para terceiros, na forma de consultoria” (Cesar, 2010, p. 135).

Esses fatores causaram inflexões nas condições de trabalho dos assistentes sociais e, também, reorientaram sua função social, já que novas demandas foram instituídas aos profissionais, incidindo sobre suas competências, atribuições e au‑ tonomia. A esse respeito, seguem ainda as seguintes ponderações:

a)

Serra (2010), em análise de resultados de sua pesquisa realizada em 1998, com relação ao setor empresarial, pontua que, além da tendência a pre‑ valecer um número reduzido de assistentes sociais por empresa — um e no máximo dois profissionais —, as demandas do Serviço Social sofreram alterações, pois foram centradas não somente na prestação e administra‑ ção de benefícios, mas também para os programas de formação e quali‑ ficação de mão de obra ou de qualidade total, que eram exigências de‑ correntes da reestruturação produtiva no Brasil, perpassadas por nova racionalidade técnica e ideopolítica;

b)

com relação às demandas do profissional, Amaral e Cesar (2009), recor‑ rem a Mota (1985) e descrevem que, nas empresas, o Serviço Social mantém o seu caráter “educativo”, voltado para mudanças de hábitos, atitudes e comportamentos do trabalhador, objetivando sua adequação ao

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processo produtivo. O profissional continua sendo requisitado para res‑ ponder às questões que interferem na produtividade — absenteísmo, insubordinação, acidentes, alcoolismo etc. —; a intervir sobre os aspec‑ tos da vida privada do trabalhador, que afetam seu desempenho — con‑ flitos familiares, dificuldades financeiras, doenças etc. — e a executar serviços sociais asseguradores da força de trabalho.

Esse “pano de fundo” fez‑se necessário para fundamentar algumas das impli‑ cações que a reestruturação produtiva imprimiu ao mercado trabalho e às condições de trabalho dos assistentes sociais em empresas, com consequências também veri‑ ficadas no trabalho dos profissionais das consultorias pesquisadas.

Considerando as mudanças ocorridas na forma de inserção desse profissional, por meio das consultorias, apreende‑se que, como “atividade‑meio” 2 na empresa, o Serviço Social estará (se já não estiver) cada vez mais próximo do processo de terceirização. O desafio que se apresenta ao profissional é o de estabelecer a forma pela qual pretende ingressar nesse espaço, em quais condições, e qual relação social estabelecerá com os demais trabalhadores, a partir dos elementos contidos no seu projeto profissional, na condição de trabalhador também subordinado à exploração pelo capital.

Consultorias empresariais: significados e implicações da função no âmbito da profissão na área do Serviço Social

O trabalho dos assistentes sociais nas consultorias empresariais passa a integrar o mercado de trabalho profissional a partir de meados dos anos 1990. Contudo, considerando estudos sobre as repercussões da reestruturação produtiva para a profissão, realizados nesse período, por Serra (2010), Mota e Amaral (2010) e Cesar (2010), induz‑se que isso se deu sem assegurar as condições e relações de trabalho defendidas pelo Serviço Social brasileiro.

2. As atividades‑meio são aquelas consideradas não essenciais à empresa, ou seja, as que têm a finalidade de dar suporte às atividades principais. As atividades‑fim são as consideradas principais e estão descritas na cláusula objeto do contrato social das empresas.

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Nas empresas, entre as condições de trabalho estabelecidas no contexto da reestruturação, sobressaem as citadas por Cesar (2010), que dizem respeito à ins‑ tabilidade e à insegurança sofridas pelos profissionais, devido à redução de postos de trabalho, e responsáveis pelos esquemas de subcontratação por meio da tercei‑ rização, ou do estabelecimento de vínculos precários e temporários, que se mani‑ festam também na precarização do trabalho, em termos salariais e de benefícios sociais.

Conforme a autora,

Para os assistentes sociais subcontratados, há uma clara diferenciação: salários mais baixos e [ausência de] benefícios sociais regulados pelo Estado. Para os assistentes sociais efetivos, há uma maior dependência dos benefícios oferecidos [pelas empre‑ sas] e os profissionais admitem que tais benefícios acabam prendendo‑os à empresa. (Cesar, 2010, p. 136)

Raichelis (2011), em artigo recente a respeito do assunto terceirização, 3 cha‑ ma a atenção para a influência nas condições de trabalho do assistente social, nos diferentes espaços institucionais, a partir da dinâmica flexibilização/precarização, que, para além do rebaixamento salarial e perda de benefícios sociais, ocasiona o seguinte:

intensificação do trabalho, aviltamento dos salários, pressão pelo aumento da

produtividade e de resultados imediatos, ausência de horizontes profissionais de mais longo prazo, falta de perspectivas de progressão e ascensão na carreira, ausência de políticas de capacitação profissional, entre outros. (p. 422)

[ ]

Boschetti (2011) também reconhece que os profissionais têm vivenciado, na atualidade, os percalços dos demais trabalhadores, como desemprego, terceirização, informalidade e prestação de serviços sem regulamentação.

Embora não se disponha de dados nacionais sobre as condições de trabalho de assis‑ tentes sociais, é óbvio que os efeitos da crise, que impacta de modo destrutivo a vida da classe trabalhadora, atinge igualmente os(as) assistentes sociais. (p. 561)

3. Na bibliografia, exclusiva, do Serviço Social, o assunto terceirização começa a despontar, associado à condição de trabalho do profissional, embora vários autores refiram‑se ao processo e às consequências para a classe trabalhadora em geral.

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Assinala que, de maneira geral, o Brasil registrou crescimento no emprego formal, no ano de 2010, de 6,9%, em relação a 2009, e, embora represente 50,7%

da população economicamente ativa (PEA) com carteira assinada, a condição de trabalho continua sendo de forte precarização e informalidade, representada por

49,3% da PEA sem contrato formal de trabalho e sem acesso aos direitos,

como previdência, seguro‑desemprego e os demais direitos dependentes do empre‑ go formal” (Boschetti, 2011, p. 561).

O trabalho do assistente social 4 enquadra‑se, de acordo com a literatura da economia, no setor de serviços. Embora seja um profissional liberal, inserindo‑se no conceito de profissões regulamentadas, são trabalhadores, que na grande maioria não dispõem dos meios próprios e instrumentos de trabalho. Podem exercer seu trabalho na qualidade de empregado ou prestador de serviço de forma autônoma.

Na condição de profissional autônomo, sem vínculo trabalhista, o assistente social é obrigado a ter inscrição profissional no Conselho Regional de Serviço Social (Cress). Também necessita inscrever‑se e atualizar seus dados no Cadastro de Contribuintes Mobiliários (CCM), na prefeitura do município em que exercerá suas atividades, pois esse tipo de contratação implica o pagamento do Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) ao município. Ainda sobre o assunto, o Cress posiciona‑se, para a categoria profissional, como não sendo o órgão competente para ditar exigências de âmbito contratual, e orienta os profissionais a ne‑ gociarem seus honorários com base na Tabela Referencial de Honorários de Servi‑ ço Social (TRHSS).

Quanto à inscrição de pessoa jurídica, visando prestar serviços em assesso‑ ria, consultoria, planejamento, capacitação e outros da mesma natureza em Ser‑ viço Social, o Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) estabelece a obriga‑ toriedade de registro da pessoa jurídica, assim como o pagamento de anuidade ao Cress.

A Lei n. 8.662, de 7 de junho de 1993, que regulamenta a profissão de assis‑ tente social, com relação a assessoria e consultoria, nos artigos 4 o e 5 o , refere‑se às competências e atribuições do profissional:

“[

]

4. O Serviço Social é regulamentado como uma profissão liberal, portanto seu exercício profissional necessita de regulação por meio dos conselhos. O Conselho Federal tem a atribuição de regular e fiscalizar o exercício profissional por meio da criação de normas e os conselhos regionais são responsável pela operacionalização da fiscalização em cada região.

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Art. 4 o Constituem competências do assistente social:

VIII — prestar assessoria e consultoria a órgãos da administração pública direta e

indireta, empresas privadas e outras entidades, com relação às matérias relacionadas

no

inciso II deste artigo;

IX

— prestar assessoria e apoio aos movimentos sociais em matéria relacionada às

políticas sociais, no exercício e na defesa dos direitos civis, políticos e sociais da

coletividade;

Art. 5 o Constituem atribuições privativas do assistente social:

III — assessoria e consultoria a órgãos da Administração Pública direta e indireta,

empresas privadas e outras entidades, em matéria de Serviço Social. (CFESS, 2011, p. 44‑46)

A respeito do tema consultoria, na bibliografia do Serviço Social, além de registrar referência recente, nota‑se que mais de um autor conjuga o termo consul‑ toria ao de assessoria. Para Matos (2010), a distinção entre ambos é considerada mínima, por isso ele se refere aos dois processos de forma indistinta. O autor define assessoria e consultoria como “aquela ação que é desenvolvida por um profis‑ sional com conhecimentos na área, que toma a realidade como objeto de estudo e detém uma intenção de alteração da realidade” (p. 31). Portanto, o assessor/consul‑ tor deve ser alguém permanentemente atualizado e com capacidades técnica e teó‑ rica de apresentar suas proposições.

Para Matos (2009), a assessoria e a consultoria, são atribuições dos assisten‑ tes sociais no conjunto das atividades que desenvolvem em seus locais de trabalho, embora seja na universidade que o profissional encontra seu espaço privilegiado.

Lúcia Freire, em artigo que integra o livro organizado por Bravo e Matos (2010), relata a experiência que talvez seja a única na bibliografia do Serviço Social, que se refere à assessoria e consultoria a empresas e aos seus gestores e trabalha‑ dores. Freire (2010), de início, reforça que esse tipo de assessoria e de consultoria é diferente do contratado pelas empresas — consultorias externas — empregadas exclusivamente para profissionais e dirigentes. Baseada nessa relação, a autora questiona, inclusive, por que se assessoram apenas os dominantes (gestores, diri‑ gentes, gerentes) e os pares (profissionais), e não os sujeitos usuários dos programas. A esses, apenas se “‘orienta’ e ‘educa’” (p. 171).

Justifica, ainda, no referido artigo, que tem utilizado a ação de assessorar para todos os sujeitos atendidos pelo Serviço Social,

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Em razão de expressar, de forma mais contundente, a perspectiva democrática de respeito à capacidade desses sujeitos de pensar sobre a sua realidade e elaborar seus planos de ação, nesta perspectiva, o verbo assessorar substitui os verbos as‑ sistir, atender, apoiar, encaminhar e a maioria dos compreendidos na ação profis‑ sional, na perspectiva de ruptura com o conservadorismo. (In: Freire, 2003, p. 137, nota 1)

A experiência relatada caracteriza‑se como assessoria e consultoria interna,

embora esclareça que, na década de 1990, o trabalho não era identificado dessa forma. As demandas de assessoria praticadas e mencionadas pela autora destina‑

ram‑se

a gerentes isoladamente, a trabalhadores isoladamente, ou ao conjunto de gerentes ou representantes da empresa e trabalhadores, como na [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes] Cipa. Podem ocorrer também demandas temporárias, na introdução de novos projetos e em reestruturações, com grandes pesquisas para obter a adesão de trabalhadores ou um controle diferenciado por eles (muitas vezes, apenas na aparência de que existe um controle social de fato). (Freire, 2010, p. 173)

Freire (2010) destaca que esse espaço na área do trabalho é contraditório, e nele se convive com conflitos de interesses, mas também com consensos. O profis‑ sional que coordena o trabalho “em dependência do seu saber teórico‑metodológi‑ co, de suas habilidades técnico‑operacionais e de sua postura ético‑político [ ]”

(p. 173), a partir de sua autonomia (limitada e restrita), poderá utilizá‑la no sentido de favorecer mais os trabalhadores ou somente os empresários. Considera que ambos ganham. O empresário e os gestores, por terem os trabalhadores satisfeitos

a partir de suas conquistas, produzindo melhor e prestando melhores serviços; e os

trabalhadores, pelo mérito no alcance das suas conquistas e, principalmente, pela prática do exercício político.

No entanto, concorda‑se com a autora, ao referir que somente os assistentes sociais com perfil qualificado, capacitado e atualizado apresentarão a vantagem de apreender a realidade, no seu cotidiano de trabalho, sem descartar os limites insti‑ tucionais, e muitas vezes os limites históricos, e contribuirão para constituir novos sujeitos políticos diante da classe trabalhadora.

Na bibliografia da área de administração, que concentra a maioria dos estudos

a respeito de consultorias empresariais, constata‑se que essa modalidade representa

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o resultado da busca de novas estratégias de gestão, impulsionadas pelas mudanças

constantes decorrentes da globalização, pelo avanço tecnológico, pelos novos mo‑ delos de competitividade, pela velocidade do processo de especialização, pelas exigências do consumidor, e maximização da qualidade e do lucro, e adentram cada vez mais nas empresas privadas.

Conforme Djalma Oliveira (2004), a consultoria empresarial é um dos seg‑ mentos de prestação de serviços que mais tem crescido no mundo, representando um dos campos de trabalho mais procurados por jovens graduados em universida‑ des europeias e americanas. Conforme pesquisa a respeito, a justificativa dada pelos jovens é que esse segmento representa

a possibilidade de maior rapidez na evolução de conhecimentos adquiridos e a per‑ cepção de um crescimento do negócio consultoria em relação a outros negócios, principalmente quando comparados aos segmentos da indústria e do comércio. (Oli‑ veira, 2004, p. 24)

Elizenda Orlickas (2001) descreve consultoria como sendo “o fornecimento de determinada prestação de serviço, em geral, por um profissional muito qualifi‑ cado e conhecedor do tema, provido de remuneração por hora ou projeto, para um determinado cliente” (p. 39).

Conforme a autora, a finalidade do trabalho de consultoria visa a mudança de uma realidade, demonstrando, desta forma, também a necessidade de o con‑ sultor estar qualificado por instrução superior e experiência específica. Conforme

consta,

Os trabalhos desenvolvidos pelo consultor de organização devem ser realizados vi‑ sando à introdução de inovações que objetivem auferir um melhor desempenho do cliente, transferindo‑lhes todos os conhecimentos necessários à perfeita continuidade do funcionamento dos serviços implantados, jamais retendo elementos ou mantendo reserva sobre conhecimentos que seriam importantes para que o cliente se torne inde‑ pendente em relação ao consultor. (Orlickas, 2001, p. 46)

Oliveira (2004) relaciona o aumento do número de empresas de consultorias

a algumas tendências, entre as quais se destaca o objetivo deste artigo, qual seja, o aumento da demanda de consultoria “como consequência dos processos de tercei‑ rização” (p. 26). O autor acrescenta que as empresas estão direcionando todos os

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esforços para o núcleo de seu negócio, e, nesse contexto, utilizam a terceirização como estratégia para facilitar o processo. Descreve a terceirização como

processo administrado de transferência, para terceiros, de atividades que não constituem a essência tecnológica dos produtos e serviços da empresa, pois envolvem tecnologias de pleno domínio do mercado e, por conseguinte não consolidam quaisquer vantagens competitivas, quer sejam tecnológicas ou comerciais, além de contribuírem para o aumento dos custos fixos da empresa. (Oliveira, 2004, p. 25‑26)

Cita ainda, como exemplos da elevada terceirização, os serviços de recursos humanos e de informática, os quais são transferidos para as consultorias, por repre‑ sentarem melhor qualidade e custos menores. E que, embora os serviços terceiri‑ zados, em sua maioria, não sejam considerados como de consultoria empresarial, existem algumas exceções em fase de crescimento, como é o caso da transferência para terceiros (consultores e empresas de consultoria), de algumas atividades que agreguem valor ao produto e serviço oferecidos pela empresa‑cliente. A empresa pode decidir “eliminar alguma atividade ou realizar esta situação de maneira indi‑ reta, por meio da terceirização” (Oliveira, 2004, p. 82).

As consultorias empresariais envolvidas neste estudo configuram, de manei‑ ra geral, a descrição acima feita pelo autor, na medida em que prestam parecer sobre assunto de sua especialidade às empresas contratantes e terceirizam a ativi‑ dade dos assistentes sociais.

Algumasnotassobreaterceirização: flexibilizaçãoeprecarização

Graça Druck e Tânia Franco (2008), a respeito da terceirização, referem‑se a Carelli (2003), que conceitua a palavra como uma criação brasileira, revelando o real conteúdo da prática, qual seja, o “repasse ou a transferência de uma atividade a um ‘terceiro’ ou um ‘outro’, que deveria se responsabilizar pela relação empre‑ gatícia e, portanto, pelos encargos e direitos trabalhistas. Essa transferência é rea‑ lizada por um ‘primeiro’” (p. 84). Como não se aborda quem seria o “segundo”, as autoras concluem que o termo indica posição periférica, e nos mais diversos setores em que a terceirização se realiza, aponta para uma desqualificação, em geral para uma condição mais baixa, precária, menos central e de subordinação aos “primeiros”.

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Conforme relatório técnico elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), 5 o que se terceiriza é a atividade,

e não a empresa ou o trabalhador. “A empresa terceira contrata o trabalhador, que não é terceirizado, mas faz parte do processo de terceirização” (p. 6).

Para Denise Motta Dau (2009), os principais objetivos das empresas, com o processo de terceirização, são custos reduzidos e maior flexibilidade da gestão da força de trabalho em termos de contratação e demissão, “o que para a classe traba‑ lhadora tem significado redução de direitos, maior instabilidade e condições de trabalho, de modo geral, adversas” (p. 169).

É importante destacar que, na visão da autora, as empresas terceirizam tudo

o que é possível, caminho apontado pelos empresários como para a modernidade,

quando, na realidade, a terceirização no Brasil apresenta pouca relação de moder‑ nidade, quando comparada ao modelo japonês, 6 já que não promove relação de parceria, de especialização, de aperfeiçoamento da qualidade, que orientaram a reorganização da produção e do trabalho no Japão. A prática econômica e a geren‑ cial, nas empresas e organizações em geral, combinadas com o ideário neoliberal, elege a terceirização como prática estratégica para reduzir custos em todos os se‑ tores produtivos. A “modernidade” “tem sido mera retórica para legitimar um novo padrão de produção que tem como núcleo a flexibilização e a precarização do tra‑ balho” (Dau, 2009, p. 170).

Na visão de empresários e consultores, a terceirização gera empregos e con‑ tribui para aumentar a especialização e a qualidade dos serviços. Na visão dos sindicalistas, é destruidora de empregos e de direitos, pois, quando uma empresa

terceiriza atividades e serviços, o faz para empresas cujo acordo coletivo (quando existente) é negociado em condições inferiores à da grande empresa, além do que

a renda, os benefícios e as condições de trabalho apresentam‑se superiores ao das pequenas empresas (Dau, 2009).

Graça Druck (1999), com base em informações do Dieese (1994), aborda a terceirização a partir de dois padrões: reestruturante e predatório. No primeiro, a

5. Consulta ao texto: O processo de terceirização e seus efeitos sobre os trabalhadores no Brasil. Disponível em: <htpp://www.mte.gov.br/observatorio/prod03_2007.pdf>. Acesso em: 10 dez. 2011.

6. A autora destaca como pontos comuns entre a realidade japonesa e a brasileira, resguardadas as devidas proporções, associados ao novo padrão de produção, a exigência de um novo trabalhador, “polivalente, intercambiável, descartável a qualquer tempo (daí a defesa de contratos flexíveis e a desvinculação de organizações sindicais fortes)” (Dau, 2009, p. 170).

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finalidade é a redução de custos, a partir de determinantes tecnológicos e organizacionais, já que a focalização possibilita ganhos de produtividade e eficiência, ao mesmo tempo que, ante a instabilidade do mercado, permite transferir os riscos para terceiros. Esse padrão estaria relacionado com a qualidade e a produtividade

e inserido, portanto, no novo paradigma tecnológico. O segundo padrão é reconhe‑

cido, pela autora, como o predominante no Brasil, e definido da seguinte forma:

caracteriza‑se pela redução de custos através da exploração de relações precárias

de trabalho. Essa terceirização recorre a todas as principais formas de trabalho precá‑ rio: a) subcontratação de mão de obra; b) contrato temporário; c) contratação de mão de obra por empreiteiras; d) trabalho a domicílio; e) trabalho por tempo parcial; f) trabalho sem registro em carteira. O que se observa, portanto, é uma flexibilização dos direitos trabalhistas, um mecanismo de tentar neutralizar a regulação estatal e a re‑ gulação sindical (p. 135‑36; grifos nossos)

] [

É certo que um dos processos para entender o que envolve a terceirização seja a “contratação, visto que é evidente o arbitramento na flexibilização dos contratos com terceiros. “A terceirização é uma das principais formas ou dimensões da fle‑ xibilização do trabalho, pois ela consegue reunir e sintetizar o grau de liberdade

que o capital dispõe para gerir, e, desta forma, dominar a força de trabalho” (Druck

e Franco, 2008, p. 84).

Quanto à legislação regulamentadora da terceirização, a polêmica e o debate são intensos e representam, para a classe trabalhadora, um dos maiores problemas, pela inexistência de legislação específica sobre a modalidade no Brasil. 7

Graça Druck (2009) reporta‑se à precarização do trabalho no Brasil como uma característica oriunda do trabalho escravo, e que perdurou até o trabalho assalaria‑ do, e do grau de informalidade do trabalho nas regiões de fraco desempenho indus‑ trial, como é o caso do Norte e Nordeste. Reconhece também que, em variados momentos históricos, houve conquistas dos trabalhadores, nas formas de proteção social e trabalhistas, identificando, em 1944, a edição da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o avanço da industrialização e o crescimento da classe operária brasileira.

7. Atualmente, cabe ao direito civil regular o contrato estabelecido entre a empresa contratante e a prestadora de serviço, e ao direito do trabalho regular a relação contratual entre esta última e o trabalhador por ela contratado.

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Assegura, no entanto, que há uma nova precarização social do trabalho, 8 que atinge tanto as regiões mais desenvolvidas do país quanto as mais tradicionalmen‑ te marcadas pela precariedade, e registrada nos setores mais dinâmicos e modernos, nas indústrias de ponta e também nas formas mais tradicionais do trabalho informal, por conta própria, autônomo etc., que atinge tanto os trabalhadores qualificados como os menos habilitados. Por fim, a autora destaca que essa precarização se es‑ tabelece e se institucionaliza fragilizando os vínculos e impondo perda “dos mais variados tipos (de direitos, do emprego, da saúde e da vida) para todos os que vi‑ vem‑do‑trabalho” (Druck, 2009, p. 10).

O caso de consultorias empresariais e os profissionais do Serviço Social

Identifica‑se que as consultorias (A e B) participantes da pesquisa qualitativa têm o perfil de consultoria empresarial, uma vez que fornecem determinada pres‑ tação de serviço, a especialização de seus consultores, para as empresas clientes. Os assistentes sociais que prestam serviços por meio das consultorias participantes são denominados de consultores em Serviço Social e consultores de atendimento. Para as empresas clientes, são considerados consultores externos, uma vez que não as integram legal e administrativamente.

Confirma‑se a tendência apontada no estudo nacional, realizado pelo CFESS (2005), a respeito das mudanças na nomenclatura dos cargos e funções exercidos pelos profissionais, que tendem a refletir mais as funções e competências do que a formação profissional original.

As consultorias têm características distintas, considerando‑se a forma e pres‑ tação dos principais serviços, desenvolvidos pelos assistentes sociais, e, por con‑ sequência, alteram‑se as relações sociais estabelecidas com os empregados das empresas clientes.

A Consultoria A foi constituída em 1998 e tem como característica principal a prestação de serviço especializado em Serviço Social, e, conforme a representan‑ te legal, os programas mais contratados pelas empresas são aqueles que envolvem

8. Conforme a autora, é “uma nova precarização” porque foi reconfigurada, ampliada e expressa uma regressão social em todos os seus tipos, e seu caráter atualmente é abrangente, generalizado e central (Druck, 2009).

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o atendimento social e emergencial, bem como o destinado ao acompanhamento de empregados em afastamentos previdenciários. Conforme site da consultoria, por meio desses programas, oferecem atendimento 24 horas para situações de emer‑ gência; entrevista social; visitas domiciliar e hospitalar; captação de recursos pú‑ blicos; suporte social aos gestores, funcionários e familiares; orientação em casos de falecimento, nos âmbitos nacional e internacional; apoio a incidente crítico (violência urbana, acidente de trabalho, entre outros); orientação e acompanhamen‑ to decorrentes de desequilíbrio orçamentário; e dependência química.

Para disponibilizar os serviços às empresas clientes, possui 25 profissionais, dos quais dezenove são formados em Serviço Social, ocupando, em novembro de 2011, os seguintes cargos: um diretor, um gerente, dois supervisores e quinze as‑ sistentes sociais. Desses, dez são autônomos, e revezam‑se na central de atendi‑ mento e também de forma presencial nas empresas clientes para a prestação de serviços, e cinco são contratados via CLT, para trabalhar em uma empresa que assim exigiu. Além desses profissionais, a consultoria tem uma rede credenciada composta por 3.500 assistentes sociais, 2 mil psicólogos e alguns advogados, todos autônomos, distribuídos em várias localidades no Brasil. 9

A Consultoria B foi constituída como empresa limitada, no ano de 2000, e trouxe para o Brasil o conceito de Employee Assistance Programs (EAP) ou, como também é conhecido, Programa de Assistência ao Empregado (PAE). De origem americana, surgido em 1940, inicialmente voltava‑se para programas ocupacionais de prevenção e tratamento do alcoolismo. Atualmente, abrange ampla variedade de problemas e consta em 90% das maiores empresas americanas.

É uma empresa pioneira no Brasil no conceito EAP, considerado um progra‑ ma que complementa o plano de benefícios sociais oferecidos pelas empresas de grande porte. Para o atendimento, a consultoria tem uma rede credenciada de pro‑ fissionais especialistas em dependência química, psicologia, psiquiatria, serviço social e direito. Para as questões do Serviço Social atualmente a rede é composta por duzentos assistentes sociais distribuídos no território latino‑americano, aciona‑ dos nas demandas. Todos esses profissionais prestam serviço para a consultoria de forma autônoma.

9. A rede credenciada é composta por profissionais que não atuam internamente na consultoria. Conforme consta no site da empresa, estão localizados nas seguintes cidades: Aracajú, Belém, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Goiás, Londrina, Piauí, Porto Alegre, São José, São Luís, São Paulo, Rio de Janeiro, Tocantins, Vitória. A representante da Consultoria A informa que mantém cadastro com três ou quatro profissionais em cada localidade.

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Como descrito no site da consultoria, o programa atende às seguintes deman‑ das: ansiedade, angústia, depressão, pânico e outros problemas emocionais; dificuldades de relacionamento pessoal e profissional; problemas no trabalho; situações de luto ou perda; estresse diário, situações críticas e emergências, como assaltos, sequestros, acidentes e desastres; envolvimento com álcool e drogas; convívio com idosos; crianças com problemas de aprendizagem ou necessidades especiais; dificuldades financeiras ou planejamento financeiro familiar; e orientações sobre questões legais.

A Consultoria B tem, ao todo, 65 profissionais, divididos entre os escritórios de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em São Paulo, a equipe da Consultoria B é com‑ posta por 35 profissionais e, desses, catorze têm formação em Serviço Social, ocupando os seguintes cargos: um gerente de operações, um executivo de contas, um gerente de rede credenciada, dez consultores de atendimento, que são assisten‑ tes sociais, e um estagiário de Serviço Social. Recentemente, todos os profissionais da consultoria de autônomos passaram a ser contratados celetistas.

O atendimento aos empregados (das empresas contratantes) que recorrem ao PAE, principal produto da consultoria, ocorre a partir de uma central de atendimen‑ to, por um consultor especializado, que são psicólogos e assistentes sociais, insta‑ lados internamente na consultoria. Esses profissionais não são responsáveis pelos atendimentos externos. A partir de sistema informatizado, é identificado o cliente,

o programa contratado, se o PAE, o número de sessões, que geralmente são seis,

para resolução do caso apresentado, que pode variar a cada ligação. Os consultores

fazem a triagem inicial, orientam ou encaminham para profissionais da rede credenciada e acompanham o caso até que seja finalizado.

Partindo do ano de constituição das consultorias — 1998 e 2000 —, constata‑se que ambas vêm suprir, para as grandes empresas, uma demanda iniciada nos anos 1980, relacionada à política gerencial de recursos humanos de extensa diversidade de planos de benefícios e serviços sociais. Esse período é marcado pelo avanço tecnológico nas empresas e necessidade de envolvimento dos empregados para o alcance da produtividade e da qualidade.

Paralelamente, outra tendência que se inicia, nesse período, é a terceirização, visando reduzir os quadros e setores de trabalho que não representassem as ativi‑ dades‑fim da empresa e que se expressam também como forma de aumentar a lu

cratividade. Com isso, várias áreas administrativas, muitas relacionadas a recursos humanos — campo da prática do profissional do Serviço Social —, são entregues

a terceiros, a consultorias especializadas.

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Os serviços oferecidos pelas Consultorias A e B, no campo do Serviço Social, referem‑se às “velhas demandas”, expressas em intervenções, e não em ações profissionais, 10 com os empregados das empresas contratantes, para situações pon‑ tuais, na maioria de caráter individual, com a finalidade de orientar sobre como obter bens ou acesso a serviços.

Evidenciam‑se também a manutenção de práticas vinculadas às relações de trabalho, já que os consultores são requisitados para atender problemas pessoais que interferem na produtividade. As questões de natureza psicossocial associam‑se aos atendimentos a problemas não relacionados diretamente com o processo de trabalho, mas a questões de caráter humanitário, função tradicional da profissão. Pode‑se inferir que os profissionais do Serviço Social, nas consultorias pesquisadas, desenvolvem atividades instituídas (pelas consultorias e empresas), e não são en‑ volvidos em demandas oriundas das novas tecnologias de gerenciamento, como, por exemplo, os programas de formação e qualificação da mão de obra, verificadas em estudos de Serra (2010) e Cesar (2010) sobre as demandas apresentadas ao Serviço Social advindas da reestruturação produtiva.

As duas consultorias oferecem às empresas clientes o esquema de trabalho por 24 horas, e isso significa que os consultores ficam de sobreaviso para atendimentos emergenciais aos empregados. O esquema exige, do profissional de plantão, disponibilidade após o expediente de trabalho (geralmente noite e madrugada) e nos fins de semana. O acionamento é feito por telefone móvel, e o consultor poderá resolver a situação à distância, ou acionar um profissional da rede credenciada para conduzir o caso. Na Consultoria A, o consultor poderá ainda comparecer ao local do fato, se estiver dentro da área de sua atuação.

O atendimento 24 horas disponibilizado às empresas exige dos profissionais das consultorias a flexibilidade das condições de trabalho para o atendimento a empregados da era globalizada, ocasionada a partir da abertura dos mercados. A abrangência oferecida pelas consultorias (várias localidades no Brasil e na Améri‑ ca Latina) evidenciam que as consultorias também flexibilizaram a sua mão de obra.

Sobre a relação estabelecida com o empregado atendido, as consultoras são unânimes em relatar que se cria uma relação de confiança, inclusive naqueles casos

10. A partir de Ana Vasconcelos (2010) verifica‑se que as demandas ao Serviço Social, em tempos de hegemonia do capital, não exigem, nas intervenções empreendidas, mais que um profissional que promova a “humanização” das relações pessoais e o acesso “eficiente” a um mínimo para a sobrevivência, por meio de escuta atenta e bom acolhimento.

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em que o atendimento não se dá pelo mesmo profissional, ou é feito apenas por telefone. Na Consultoria B, onde a totalidade dos casos é atendida a distância, re‑ lata‑se também a criação de vínculos. As entrevistadas revelam que a confidencialidade, confiabilidade e disponibilidade do serviço 24 horas são as principais van‑ tagens para os empregados. Lembrando que esse é o ponto de vista dos assistentes sociais, uma vez que a pesquisa não abrangeu os usuários dos serviços a respeito do assunto.

O tipo de atendimento prestado aos empregados das empresas contratantes é considerado como de caráter orientador pelas profissionais da Consultoria B, e orientador e educador pelos profissionais da Consultoria A, evidenciando que a determinação dos empregadores (no caso aqui consultoria e empresa) influencia a finalidade da função do Serviço Social nesse ambiente. Confirmam‑se as pondera‑ ções de Freire (2010), a respeito do caráter orientador e educativo, que adquire a intervenção do consultor externo, quando é dirigida ao empregado.

A confidencialidade dos dados do empregado é preservada. Para as empresas

existe estatística de atendimento por demanda, para identificar situações que me‑ reçam intervenções preventivas ou desenvolvimento de programa que visem à re‑ dução da incidência. Diante dessa realidade, as consultoras confirmam o que geral

mente acontece com a atuação profissional nas empresas privadas, ou seja, a autonomia relativa, numa margem limitada.

O relato de uma das entrevistadas da Consultoria B exemplifica o fato: “O

empregador recebe relatórios demográficos e por demanda, com o propósito de a empresa, a partir daí, desenvolver ações preventivas, mas não sabemos se desenvolve”.

Na Consultoria A, o relato foi similar, já que, eventualmente, se reúnem com os representantes das empresas clientes e, quando solicitado, podem propor ações. “A consultoria tem um programa para o cliente acessar as estatísticas de atendi‑ mento, através de senha própria. Com isso, pode fazer o monitoramento das de‑ mandas e custo mensal, e podemos, em conjunto, propor ações preventivas.”

Quanto à forma de contratação das assistentes sociais, especialmente as con‑ sultoras em Serviço Social, que são autônomas, nota‑se que as profissionais não se sentem desprotegidas pelo fato de serem subcontratadas pela consultoria, e verifi‑ cou‑se também que buscam alternativas como forma de se preparar para situações futuras de aposentadoria e desemprego. Não reconhecem, como forma de precari‑ zação do trabalho, o fato de não serem trabalhadoras com vínculo empregatício.

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Essa constatação remete às ponderações de Druck (2009), a respeito da insti‑ tucionalização da precarização do trabalho, e aqui as consultoras consideram natu‑ ral sua condição de profissional terceirizado.

É relevante o número de assistentes sociais prestadores de serviço na rede credenciada. Entre as duas consultorias contabilizam‑se, aproximadamente, 3.700 assistentes sociais, distribuídos em várias localidades (Brasil e América Latina) para atendimentos diversos, evidenciando que muitos desses profissionais têm mais de um vínculo empregatício, ou apenas esse trabalho de caráter eventual das con‑ sultorias. Conforme relato de uma das entrevistadas, da Consultoria A, “a maioria desses profissionais têm o seu trabalho, e prestam serviço para a consultoria quan‑ do acionados”.

Outro dado relevante, revelado a partir das características das consultorias, é que a maioria dos clientes que terceirizam as atividades de assistentes sociais é composta de empresas privadas. Essas empresas representam 95% dos clientes na Consultoria A e 98,5% a Consultoria B. Foi considerado o número de clientes in‑ formado pelas consultorias.

Considerando‑se que na Consultoria B, recentemente, as assistentes sociais, consultoras de atendimento, passaram de autônomas para celetistas, e que, na Con‑ sultoria A, as consultoras em Serviço Social são autônomas, 11 conclui‑se, a partir do levantamento, que essas consultorias representam uma tendência à informalida‑ de do trabalho do assistente social.

Com relação às características profissionais que os assistentes sociais consi‑ deram importantes para trabalhar na consultoria e, consequentemente, prestar serviços nas empresas, a pesquisadora elegeu doze itens para serem avaliados pelas profissionais entrevistadas, com nota de um a dez delas. Apenas o item confiança recebeu nota máxima das entrevistadas. Os outros, por ordem crescente, foram:

bom intermediador de relações, compreensível, com foco na humanização do local de trabalho, polivalente, conhecedor dos critérios para prestação de serviços sociais, bom interlocutor da empresa, com qualificação profissional, com perfil educador e orientador, assertividade no assessoramento à gerência, boa capacidade técnica e qualificação intelectual.

Confirma‑se, nas consultorias, assim como nas empresas privadas, que as novas modalidades de gestão da força de trabalho requerem, como característica

11. A Consultoria A tem quinze assistentes sociais, sendo cinco celetistas e dez autônomas.

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básica do assistente social, a confiabilidade e o bom relacionamento, para o envol‑ vimento com os objetivos da empresa. Evidencia‑se que não há requisitos com relação às características profissionais citadas no Código de Ética profissional, que dizem respeito ao “técnico competente teórica, técnica e politicamente” (p. 20).

As entrevistadas reconhecem o assistente social como um profissional estra‑ tégico na consultoria, capacitado para o atendimento, e acreditam no crescimento do número de empresas de consultoria com esse tipo de prestação de serviço, por‑ tanto, no aumento de vagas para os profissionais no mercado de trabalho.

Sobre as vantagens em trabalhar nas consultorias, são diversos os posiciona‑ mentos dos assistentes sociais, todos positivos, com relação à experiência que as relações de trabalho proporcionam ao profissional. Os destaques são para a expe‑ riência adquirida com a variedade de casos de atendimentos, o incentivo à capaci‑ tação demandada pelos atendimentos, a troca de experiências entre os profissionais, e também o conhecimento diversificado das realidades empresariais.

As representantes das consultorias destacam a importância da prestação de serviços para os empregadores (empresa) que têm equipes de empregados na área comercial, ou com um contingente de trabalhadores em atividades externas. O formato do serviço proporcionado pelas consultorias, cada qual com um nível de abrangência, 24 horas por dia, possibilita cobertura integral ao atendimento dos empregados e familiares em várias localidades, seja Brasil ou na América Latina.

Na opinião das assistentes sociais, as vantagens para os empregadores se es‑ tendem além das questões operacionais. Nos relatos, apontam questões financeiras, favoráveis às empresas contratantes, em terceirizar a atividade, e também vantagens oferecidas pela especialização do serviço, e formato na disponibilização — tempo, recursos e abrangência. Embora não mencionem o conceito flexibilização, é isso que se constata e remete a Graça Druck (2002) sobre as formas concretas que se difundem em todas as atividades e lugares.

Ainda sobre a dinâmica do trabalho das assistentes sociais nas consultorias, as entrevistadas foram questionadas se as atividades se constituíam em competên‑ cias e atribuições dos assistentes sociais. A questão não teve o objetivo de investi‑ gar o conhecimento dos profissionais acerca da legislação profissional. A pergunta iniciou‑se com a explicação sobre o conceito dos termos, ou seja, as atividades de competências como sendo aquelas que podem ser realizadas tanto pelo assistente social quanto por outros profissionais, e as atribuições privativas como sendo as atividades exclusivas dos assistentes sociais. As respostas foram 100% afirmativas

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para as duas questões, mas nota‑se que os profissionais confundem os termos com‑ petências e atribuições, o que pode acontecer levando‑se em conta o redimensio‑ namento dos espaços ocupacionais e das demandas que definem novas competências ao assistente social.

Iamamoto (2002), em artigo a respeito dos espaços ocupacionais e trabalho do assistente social na atualidade, alerta que as alterações nas demandas interferem nas funções dos assistentes sociais que passam a executá‑las, mas, “muitas vezes, não são por eles reconhecidos como atribuições privativas, tal como estabelecidas tradicionalmente” (p. 35).

Completando o pensamento a respeito das alterações que se processam nas demandas, com o qual esta pesquisadora concorda plenamente, a autora discorre que os espaços ocupacionais e as fronteiras profissionais sofrem significativas alterações, pois são resultantes históricos e, portanto, móveis e transitórias (Iamamoto, 2002).

Algumasconsideraçõesfinais

Conforme se demonstrou ao longo deste artigo, as consultorias empresariais apresentam‑se como contingente de trabalho profissional e, independentemente do vínculo empregatício — seja no regime celetista ou na condição de autônomo —, os assistentes sociais são contratados, não para trabalhos profissionais de assessoria/ consultoria, no sentido pleno da palavra, como estudado com Matos (2009, 2010) e Freire (2010), ou com a finalidade de transferir conhecimentos necessários à continuidade do funcionamento dos serviços implantados, conforme visto com Orlickas (2001). Pela descrição, nas entrevistas, os atendimentos prestados fazem parte das atividades específicas e especializadas do assistente social, visando aos objetivos empresariais tanto das consultorias quanto das empresas clientes, de melhoria da qualidade de vida e trabalho dos empregados e do clima organizacional, voltados para a produtividade e a lucratividade.

As características das consultorias permitem a reflexão de que os impactos da reestruturação produtiva nas empresas impulsionaram a constituição de prestadores de serviços, em que a hegemonia e a subordinação (ao grande empresariado) exis‑ tem, mesmo que de forma ocultada.

As consultorias, nas quais trabalham os assistentes sociais entrevistados, se constituíram no período 1998‑2000, no auge do toyotismo e da reestruturação

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produtiva brasileira, marcados, entre outros, pelo neoliberalismo intensificado no governo Fernando Henrique Cardoso, em que a austeridade no gasto público, as privatizações, a reestruturação das políticas sociais, a desregulamentação e a flexi‑ bilização das relações trabalhistas são algumas características marcantes.

O retardamento na implementação e na efetivação dos direitos sociais postos

pela Constituição federal de 1988, a protelação na efetivação das coberturas públi‑ cas, levam as empresas, a partir de seus interesses, a ampliar seus benefícios ocupa‑

cionais, práticas essas iniciadas nos anos 1980. Ao mesmo tempo, a lógica do mercado exige competitividade, produtividade, e lucratividade. Para isso, as empre‑ sas apoiam‑se na flexibilidade dos processos de trabalho, que, entre outros fatores, se expressam na terceirização.

As consultorias especializadas em gestão de pessoas surgem, para as empresas, num momento em que a ampliação das políticas de recursos humanos, principal‑ mente e não só, é caracterizada pela combinação de sistema de benefícios e serviços sociais como políticas de incentivo à produtividade do trabalho. Novas exigências são requeridas ao assistente social, na conjuntura atual. Competências e atribuições misturam‑se com intervenções tradicionais, em novos contextos, próprios da con‑ temporaneidade, como, por exemplo, intervenções nos casos provenientes de inci‑ dentes críticos, de sequestro, assaltos, desastres, acidentes etc.

Para atender às necessidades dos empregados, as consultorias informatizam‑se, requerem profissionais competentes, com aptidão para responder por vários assuntos, confiáveis, bem relacionados (no ambiente das consultorias e empresarial), dinâmicos, proativos, polivalentes, que tenham disponibilidade para o trabalho por 24 horas (quando nos sobreavisos) e de forma abrangente (rede credenciada). O esquema de trabalho para atender a um trabalhador globalizado requer disponibi‑ lidade de serviço durante 24 horas e amplo nível de abrangência (no caso do Brasil e América Latina) e, com isso, organização em rede e equipes internas enxutas.

A flexibilidade apresentada pelas consultorias atende ao formato exigido pelas empresas. A dinâmica de trabalho e o esquema montado para o atendimento aos empregados das empresas contratantes — a distância, presencial, pela central de atendimento — demonstram que não só as empresas flexibilizaram a sua produ‑ ção, mediante a desconcentração industrial ou a horizontalização produtiva, expres‑ sa na terceirização, mas as consultorias também.

O pressuposto de que, em empresas privadas, assim como nos serviços públi‑

cos, a prestação de serviços dos assistentes sociais, de forma terceirizada, interme‑

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diada pelas consultorias empresariais, era verificável, nas formas de trabalho autô‑ nomo, temporário, por projeto, por tarefa, pode ser constatada por meio do conhecimento da constituição dos recursos humanos das consultorias participantes do estudo.

Os assistentes sociais, na condição de profissionais autônomos, envolvidos direta e internamente em uma das consultorias, prestando serviços para as empresas, mais os assistentes sociais da rede credenciada das duas consultorias, somam apro‑ ximadamente 3.700 profissionais. Essa verificação permite deduzir que as consul‑ torias possivelmente sejam uma tendência de informalização do trabalho do assis‑ tente social, sob a aparência de prestação de serviços autônomos. Deve‑se lembrar que foram identificadas cinco consultorias e que, portanto, esse número tende a ser maior.

As condições de trabalho flexíveis, o domínio diversificado de informações,

o nível de abrangência do alcance para o atendimento, o trabalho part time são os

requisitos de empresas da era globalizada para essas consultorias, no atendimento

à reprodução da sua força de trabalho. A disponibilidade em tempo integral para

situações emergenciais, por demanda, remete ao modo just in time, característica amplamente difundida na reestruturação produtiva. Os atendimentos de caráter

individual, orientador, relacionados à busca por apoio, informação, encaminhamen‑ tos, aconselhamentos, para situações pontuais e emergenciais, condicionam a forma

e os resultados do trabalho do assistente social e reiteram que a prática se dê num setor que é contraditório, por envolver relações entre capital e trabalho.

Conclui‑se que, na gestão organizacional, as consultorias seguem o mesmo padrão adotado pelas empresas, ou seja, se apropriam dos processos de reestrutu‑ ração produtiva, na forma de organização e na obtenção de lucro. A centralidade está nos interesses dos processos produtivos das empresas clientes, tornando‑se secundária a perspectiva de ação do assistente social, com o empregado presente no projeto ético‑político profissional. Isso não deve ser considerado como crítica, uma vez que a incidência não está somente na esfera empresarial.

O desafio é para o profissional que, sem negar sua condição de trabalhador assalariado, deve reconhecer que “há espaço para a defesa do projeto profissional em qualquer local, público ou privado, em que o assistente social é requisitado a intervir” (Couto, 2009, p. 652).

Um bom começo, conforme cita a autora, é o profissional estabelecer o que a profissão tem a oferecer naquele espaço ocupacional, como subsídio para o atendi

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mento das demandas, de forma que possa manter o compromisso com os valores anunciados no Código de Ética e garantidos na lei de regulamentação profissional.

Recebido em 20/7/2012

Aprovado em 11/3/2013

Referênciasbibliográficas

AMARAL, Angela Santana de; CESAR, Mônica. O trabalho do assistente social nas em‑ presas capitalistas. In: CFESS/ABEPSS (Orgs.). Serviço social: direitos e competências profissionais. Brasília: CFESS/Abepss, 2009.

BOSCHETTI, Ivanete. Condições de trabalho e a luta dos(as) assistentes sociais pela jor‑ nada semanal de 30 horas. Serviço Social & Sociedade, São Paulo, n. 107, jul./set. 2011.