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no grupo: Serviço Social - Livros e Apostilas


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Editorial
A revista Serviço Social & Sociedade apresenta aqui importantes reflexões
sobre temas que permeiam o cotidiano do Serviço Social na área sociojurídica.
Doze anos após a Revista n. 67 ter inaugurado a série de números especiais, com
a reunião de artigos também sobre “temas sócio‑jurídicos”, o presente número re-
visita e avança no debate sobre questões que se colocam no âmbito da teoria e da
prática cotidiana de uma área que vem ampliando seus espaços sócio-ocupacionais
nos anos recentes.
O texto que abre este número e que ancora os demais artigos aborda se a
melhor denominação seria “campo” ou “área” sociojurídica e as principais deter-
minações do Serviço Social nessa área, tendo como base as contribuições do filó-
sofo marxista húngaro Georg Lukács para pensar o Direito.
Em seguida a essa fundamental contribuição, as tênues e incertas fronteiras
entre o legal e o ilegal são reveladas a partir de uma discussão, resultado de pes-
quisa, sobre o mundo urbano e as formas de produção e circulação de riquezas que
ativam a economia informal e o trabalho precário.
Avançando as reflexões sobre espaços sócio-ocupacionais que compõem a
área, a revista nos apresenta a inserção do Serviço Social no Ministério Público,
com as contradições que a atravessam, e reforça, dentre outros, seu potencial para
o diálogo com os movimentos sociais e o fomento e fiscalização das políticas pú-
blicas, respaldado no projeto ético‑político‑profissional.
Trazendo a necessária reflexão sobre o trabalho interdisciplinar, o artigo se-
guinte aborda a inquirição da vítima de violência sexual como afronta aos direitos
humanos da criança, e enfatiza a perícia realizada por profissionais de diversas
áreas como instrumento para garantia da dignidade e do respeito à vítima.
Enfocando o espaço de trabalho ocupado pelo assistente social no Judiciário,
outro artigo apresenta construções históricas e desafios colocados aí ao Serviço Social,
destacando particularidades teórico‑metodológicas e éticas presentes no exercício
profissional, e movimentos políticos da categoria na perspectiva dos direitos.
Em texto conciso, mas esclarecedor, é abordada também a construção histó-
rica dos direitos humanos da criança e do adolescente, os processos políticos em
que se inserem, e o uso do discurso em torno da defesa de direitos.

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A revista dá a conhecer ainda notável experiência de organização sindical e
política de trabalhadores sociais do Poder Judiciário da Argentina, revelando a
força do coletivo num contexto situado entre as tensões postas pela demanda pro-
vocada pela “questão social” e as respostas dadas pelo Estado via Judiciário.
Apresenta‑se aqui também, os resultados de pesquisa realizada com base em
sentenças judiciais e manifestações do Ministério Público, reveladoras de elemen-
tos ideológicos que fundamentam a criminalização de adolescentes trabalhadores
no tráfico de drogas.
Finalizando os textos/artigos, temos a oportunidade de conhecer significativo
relato de experiência na área judiciária, que demonstra a efetiva contribuição do
Serviço Social para a viabilização de direitos, especificamente a conquista, em
âmbito nacional, da licença/salário‑maternidade nos casos de adoção, independen-
temente da idade da criança.

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ARTIGOS

Para entender o Serviço Social


na área sociojurídica*
To understand Social Work in the socio‑legal sphere

Elisabete Borgianni**

Resumo: Tendo como base as contribuições de Lukács para pensar


o Direito, o artigo aborda as principais determinações do Serviço
Social na área sociojurídica e discute se a melhor denominação seria
“campo” ou “área” sociojurídica. Aponta ainda alguns dos desafios e
possibilidades de atuação que estão postos aos assistentes sociais que
trabalham nos espaços sócio‑ocupacionais próprios do universo jurí-
dico ou que com ele têm interfaces.
Palavras‑chaves: Serviço Social na área sociojurídica. Direito. Justi-
ciabilidade dos direitos sociais. Instituições do sociojurídico.

Abstract: Based on Lukács’s contributions for the analysis of Law, in the article we discuss both the
main characteristics of Social Work in the socio‑legal sphere, and the nuances between a socio‑legal
“area” and a socio‑legal “field”. Furthermore, we identify some of the challenges faced by social workers
engaged in socio‑occupational activities that are characteristic of or correlated with the judicial system.
Keywords: Social work in the socio‑legal sphere. Law. Justiciability of social rights. Socio‑legal
institutions.

* Recupero, neste texto, parte significativa (inclusive com reprodução literal de algumas passagens) das
reflexões que fiz no processo de assessoria ao Grupo de Trabalho do Campo Sociojurídico do Conjunto CFESS/
Cress, as quais estão registradas no texto não publicado intitulado “O Serviço Social no ‘campo sociojurídico’:
primeiras aproximações analíticas a partir de uma perspectiva crítico‑ontológica” (cf. Borgianni, 2013).
** Assistente social do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, mestre e doutora em Serviço Social
pela PUC‑SP, São Paulo, Brasil, presidente da Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal
de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ/SP), gestões 2009‑13 e 2013‑17. E‑mail: beteju@terra.com.br.

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Introdução

O
presente artigo pretende somar‑se ao esforço coletivo que vem sendo feito
para conhecer, apoiar e desenvolver, na direção do projeto ético‑político
do Serviço Social brasileiro, o trabalho realizado pelos assistentes sociais
nos diversos espaços sócio‑ocupacionais pertencentes ao até aqui cha-
mado “campo sociojurídico”. Digo “até aqui” porque após estudos recentes venho
desenvolvendo a compreensão de que a esfera do “jurídico”, antes de configurar‑se
como um campo específico configura‑se, para nós, assistentes sociais, como uma
área de atuação e também de produção de conhecimento (a área sociojurídica).
Minha pretensão neste artigo que, como poderá ser observado, está baseado
em estudos bastante preliminares, é apenas apontar alguns elementos fundamentais
para se pensar o significado da atuação do assistente social nessa área, não aden-
trando, por hora, nas especificidades de suas institucionalidades — como Tribunais
de Justiça, Sistema Prisional, Ministério Público, Defensorias etc.
Entendendo que a busca da particularidade dos espaços que conformam o
sociojurídico não pode prescindir de uma caracterização “geral”, proponho que
trabalhemos a partir da perspectiva crítico‑ontológica para a elucidação dos ele-
mentos centrais e comuns que comparecem à intervenção dos assistentes sociais
que aí atuam. Esse esforço haverá de ser completado com o trabalho urgente e
necessário de ir à busca das particularidades de cada uma das institucionalidades
que conformam a área — trabalho que já começa a ser realizado por alguns assis-
tentes sociais que estão atuando nas instituições do sociojurídico, o que certamen-
te contribuirá com o aperfeiçoamento do Serviço Social brasileiro.
Assim, o que estou buscando aqui é apenas e tão somente captar as mediações
históricas fundamentais que podem explicitar o significado social da profissão (tal
como originariamente formulado com precisão por Marilda Iamamoto), no rico e
problemático universo sociojurídico.

1. O uso da expressão “sociojurídico” no Serviço Social brasileiro:


como tudo começou
O termo “sociojurídico” foi vinculado pela primeira vez ao Serviço Social
brasileiro no momento de composição do número 67 da revista Serviço Social &

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Sociedade, editada em setembro de 2001, quando inaugurava‑se a série de Núme-
ros Especiais desse periódico. A elaboração do referido número ocorreu após soli-
citação do editor, José Xavier Cortez, de que a assessoria editorial da área (pela
qual eu já respondia na ocasião), fizesse um projeto para a edição de números es-
peciais da revista voltados especificamente para temas com os quais os assistentes
sociais estão confrontados diretamente em seu cotidiano profissional. Na época
(como até hoje), Cortez vinha recebendo várias solicitações de que os livros, bem
como o periódico editado por sua editora, contemplassem temas e demandas com
os quais os assistentes sociais viam‑se envolvidos em sua prática diária. E muitas
das solicitações partiam de assistentes sociais que atuavam na área sociojurídica.
Foi quando sugeri ao Conselho Editorial que analisasse a possibilidade de
iniciar a referida série com artigos relacionados à área penitenciária e judiciária,
atingindo, com essa publicação, tanto os assistentes sociais que fazem os laudos
periciais para juízes das Varas da Infância e Juventude (e que trabalham com casos
de adoção, violência contra crianças, ato infracional de adolescentes etc.) e também
das Varas de Família e Sucessões (casos de disputa de guarda de filhos, interdições
de idosos ou doentes mentais, entre outros), quanto aqueles que trabalham dentro
do sistema prisional. No momento da escolha para o melhor termo a compor o
chamado “olho de capa” do referido número, o Conselho Editorial fez várias su-
gestões, e a opção foi pela expressão “Temas Sociojurídicos”. Foi assim, portanto,
a primeira vez que ocorreu a vinculação do termo “sociojurídico” ao Serviço Social
brasileiro.1
Em seguida, ocorreria o 10º Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, no
Rio de Janeiro, e seus organizadores pensaram em criar naquele CBAS, pela primei-
ra vez na história de nossos congressos, uma seção temática, ou um painel específi-
co, para aglutinar os profissionais que trabalham no sistema penitenciário e no Ju-
diciário, e consultaram‑me sobre a expressão adequada para nomear a referida seção,
ao que sugeri que poderiam também utilizar o termo sociojurídico, para chamar a
atenção de todos os colegas que trabalham nos espaços sócio‑ocupacionais que têm
interface com o universo jurídico. Ali, no 10º CBAS, além de ter sido lançado o n.
67 da revista Serviço Social & Sociedade, elaborou‑se pela primeira vez uma agen-
da de compromissos que incluiriam ações relacionadas a essa área. A partir de 2002,

1. O Comitê Editorial do n. 67 era formado pelas professoras Andrea Almeida Torres, Eunice Teresinha
Fávero, Gizelda Morato Franzino, Sílvia Helena Pinho Chuairi, com colaboração especial de Maria Rachel
Tolosa Jorge. Todas com inserção e/ou experiência profissional na área.

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vários Conselhos Regionais de Serviço Social do Brasil começaram também a criar
suas Comissões Sociojurídicas que seriam, então, compostas por membros de dire-
ção e assistentes sociais que atuam no Tribunal de Justiça, no Ministério Público,
nas instituições de cumprimento de medidas socioeducativas e no sistema prisional.
O primeiro a fazê‑lo foi o Cress/7ª Região‑RJ, então presidido por Hilda Correa de
Oliveira, e tendo significativo protagonismo de colegas daquela gestão que traba-
lhavam (e ainda trabalham) na área, como Andreia C. A. Pequeno (Tribunal de
Justiça), Tânia Dahmer Pereira e Newvone Ferreira da Silva (Sistema Prisional).
Andreia Pequeno relata também que em novembro de 2003 foi realizada uma Ofi-
cina Temática no 2º Congresso Paranaense de Assistentes Sociais e, naquele mesmo
ano, “houve a incorporação, na grade curricular do curso de graduação da Faculda-
de de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, de uma discipli-
na sobre o campo sociojurídico” (Pequeno, 2004, p. 11). Depois disso, já estando na
direção do Conselho Federal de Serviço Social, compondo a gestão de 2002‑2005,
sob a lúcida presidência de Lea Braga, pude contribuir, juntamente com um grupo
de colegas do CFESS e do Cress/Paraná, com a organização do I Seminário Nacio-
nal do Serviço Social no Campo Sociojurídico, que ocorreu em 2004, em Curitiba.
A realização desse seminário havia sido uma deliberação do Encontro Nacional
CFESS/Cress realizado em Salvador, em 2003, a partir de uma proposta encaminha-
da ao CFESS pelo Cress/7ª Região (Pequeno, idem).
Anoto que foi talvez naquele momento de organização do I Seminário que se
utilizou pela primeira vez a expressão “Serviço Social no campo sociojurídico”.
Foge‑me totalmente à memória se a direção do CFESS chegou a debater ou não,
na ocasião, se a melhor expressão seria “campo” ou “área”. A proposta enviada pelo
Cress/7ª Região foi incorporada para ser levada ao Encontro Nacional, tendo sido
ali votada sem grandes questionamentos sobre a terminologia.
O que recordo com muita clareza é que, tanto nós do CFESS, quanto os colegas
do Cress/RJ tínhamos a preocupação de não incentivar nenhuma ideia de que haveria
um Serviço Social próprio dessa área, algo, por exemplo, como um “Serviço Social
Sociojurídico”. Ao contrário, tínhamos a firme convicção de que seria necessário
sempre explicitar o entendimento de que a profissão é uma só e atua em diferentes
espaços sócio‑ocupacionais, entre eles os que têm interface com o jurídico.
O I Seminário Nacional realizado em Curitiba, em 2004, foi então de grande
importância, não só por seu pioneirismo, mas pela qualidade da contribuição trazi-
da pelas reflexões de assistentes sociais da área e de palestrantes bastante próximos

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da temática. Porém o mais importante foi o conteúdo da agenda política ali delibe-
rada que, conforme relato de Eunice Fávero, recomendava, entre outros pontos:

que o Conjunto CFESS/Cress incorpore a denominação “campo das práticas socioju-


rídicas”; e fomente a articulação de comissões do campo sociojurídico em todas as
regiões” com o objetivo de “discutir e sistematizar as atribuições, competências e
aspectos éticos a partir do interior do projeto ético‑político, o que certamente incen-
tivaria a produção de conhecimentos a respeito das práticas desenvolvidas nas diver-
sas áreas. (Fávero, 2012, p. 123)

Fávero lembra ainda que:

O CBAS de 2001, mais os de 2004 e 2007, também definiram políticas para esse
campo, sendo que a Agenda do 12º, realizada em Foz do Iguaçu em 2007, explicitava
como compromissos:
“Discutir politicamente os temas das violências, visando superar a fragmentação das
práticas, a naturalização da barbárie, a eliminação e criminalização dos pobres; pensar
a indissociabilidade da discussão das violências do projeto ético‑político do Serviço
Social”; “promover a reflexão sobre a ampliação dos espaços de trabalho no campo
sociojurídico; refletir sobre o investimento no Estado Penal em detrimento do Estado
Social, e priorizar práticas de prevenção; explicitar a denominação Serviço Social no
Campo Sociojurídico e não Serviço Social Sociojurídico; compreender o estudo social
e a perícia social com objetivos de efetivação de direitos — avançar em sua constru-
ção interdisciplinar e na relação teoria x prática”; “lutar e agilizar gestões para con-
solidação da rede nacional de proteção especial (Creas). (Agenda, 12º CBAS, apud
Fávero, 2012, p. 124; grifos meus)

Foram os profissionais da área sociojurídica que estavam presentes no CBAS


de Foz do Iguaçu que solicitaram ao CFESS a organização de outro evento especí-
fico, o que redundou no II Seminário do Serviço Social Sociojurídico, realizado em
2009 em Cuiabá.2

2. Vale a pena recuperar o registro de Fávero (2012, p. 125): “[...] no 12º CBAS, de Foz do Iguaçu,
aproximadamente quarenta profissionais, de vários estados brasileiros, que estão na intervenção cotidiana ou
desenvolvendo estudos e pesquisas acadêmicas sobre esse campo, articularam‑se para discutir e solicitar do
CFESS a realização do II Encontro Sociojurídico. Na ocasião, a justificativa era a necessidade da continuidade
de articulação e premência dos debates em torno das questões teóricas, operacionais e ético‑políticas que se
impõem na realidade social contemporânea. Conforme a solicitação encaminhada ao CFESS, dez dos(as)

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Além desses fatos, penso ser pertinente também resgatar aqui a importância
de vários eventos realizados por colegas em diferentes pontos do Brasil, preocupa-
dos com a temática da atuação do assistente social nessa área. Entre eles destaco
um que ocorreu em Natal (RN), no ano de 2002, denominado Serviço Social e
Assistência Sociojurídica na Área da Criança e do Adolescente: Demandas e Fazer
Profissional, promovido pela base de pesquisa Trabalho Profissional e Proteção
Social, sob a coordenação da professora doutora Maria Célia Nicolau.
Destaco a importância daquele evento de Natal, entre tantas outras iniciativas,
pelo fato de os organizadores terem convidado a professora Marilda Iamamoto para
ali fazer uma conferência, que meses depois seria transformada pela autora em
valioso texto, publicado sob o título “Questão social, família e juventude: desafios
do assistente social na área sociojurídica”, como posfácio do livro Política Social,
família e juventude: uma questão de direitos, organizado por Mione Sales, Maurí-
lio C. de Matos e Maria Cristina Leal, publicado em 2004 pela Cortez Editora e
lançado por ocasião do I Seminário Nacional, de Curitiba. Ao que eu saiba esse foi
o primeiro texto de uma das principais pesquisadoras brasileiras do Serviço Social
dedicado a essa temática, embora Marilda nunca tenha atuado na área. Note‑se que
nesse texto a autora usará sempre a terminologia “área ou esfera sociojurídica”, e
não “campo”, porém sem entrar no mérito dessa questão terminológica (cf. Iama-
moto, 2004, p. 261‑314).3
Essa, digamos, “percepção” dos assistentes sociais brasileiros de que era
necessário olhar com mais cuidado e profundidade para os desafios que estão pos-
tos aos que atuam na área sociojurídica — à qual a revista Serviço Social & Socie-
dade, bem como o conjunto CFESS/Cress conseguiram captar e dar voz —, é tri-
butária do próprio movimento da história recente em nosso país, que engendrou
tanto uma crescente judicialização dos conflitos sociais, quanto a justiciabilidade
dos direitos sociais. Veremos isso com mais detalhes adiante, mas antes cabe refle-
tir sobre o que compõe essa área que tem interface com o direito e com o universo
jurídico.

profissionais daquele grupo foram escolhidos para compor uma Comissão Provisória, para as primeiras
tratativas sobre um possível segundo encontro. Havia colegas do Espírito Santo, Pará, Paraná, Minas Gerais,
Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, São Paulo, Distrito Federal, entre outros”.
3. Em 2005, Marilda Iamamoto daria também sua contribuição à área aceitando prefaciar a obra
O Serviço Social e a psicologia no judiciário: construindo saberes, conquistando direitos, organizada por
Eunice T. Fávero, Magda J. R. Melão e Maria Rachel Tolosa Jorge, e editada pela Cortez, em parceria com
a Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ/
SP) (ver Iamamoto, 2005).

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2. Serviço Social no “campo” ou na “área” sociojurídica? A partir de que
bases delimitar o que compõe essa área?
Quem primeiro trouxe‑nos uma tentativa de definição mais “arredondada” foi
Eunice Teresinha Fávero, quando colocou que “o campo (ou sistema) sociojurídico
diz respeito ao conjunto de áreas em que a ação social do Serviço Social articula‑se
a ações de natureza jurídica, como o sistema penitenciário, o sistema de segurança,
os sistemas de proteção e acolhimento, como abrigos, internatos, conselhos de di-
reitos, dentre outros” (Fávero, 2003, p. 10). Em outra ocasião, a mesma autora fez
elucidativa interpretação do papel social cumprido pelas instituições ou organizações
próprias do sociojurídico: “[...] organizações que desenvolvem ações, por meio das
quais aplicam sobretudo as medidas decorrentes de aparatos legais, civil e penal, e
onde se executam determinações deles derivadas” (Fávero, 2012, p. 122‑123). E a
mesma completou: “[...] nessas áreas, direta ou indiretamente, trabalhamos com
base normativa legal e em suas interpretações pelos operadores jurídicos” (Idem).
No II Seminário Nacional, procurei também dar uma contribuição no sentido
de definir melhor esse “campo” ou área e propus que o Serviço Social brasileiro o
perspectivasse de forma mais ampliada e profunda, avançando em relação ao que
todos vínhamos fazendo, que era pensá‑lo basicamente a partir das organizações
ou instituições que o compõem. Sugeri, na ocasião, que buscássemos compreender
melhor o que é esse “jurídico” de que tanto estávamos falando e recuperei uma das
ideias correntes no mundo jurídico que me parece muito elucidativa, segundo a qual
o jurídico é, antes de tudo, o lócus de resolução dos conflitos pela impositividade
do Estado. E ressaltei, naquele momento, que essa característica, por si só, já colo-
ca grandes desafios éticos e políticos para a intervenção do assistente social (Bor-
gianni, 2012, p. 167). Na oportunidade chamei a atenção para algo que marca
muito o trabalho de qualquer assistente social — ou de outro trabalhador que tenha
que desempenhar suas funções de “perito” nesse “campo” —, que são as determi-
nações complexas que emanam das polaridades antitéticas próprias da esfera jurí-
dica, por exemplo, aquelas que considero uma das mais marcantes: garantir direi-
tos em um espaço ou sistema que é também aquele onde se vai responsabilizar
civil ou criminalmente alguém (Idem, p. 167‑168).
Também naquele II Seminário, o promotor de Justiça Wanderlino Nogueira
Neto fez observações que nos ajudam a pensar nosso trabalho nessa área. São
pontuações com significativo conteúdo heurístico, principalmente porque feitas por

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alguém do universo jurídico. O dr. Wanderlino iniciou sua conferência colocando
que o tema para o qual havia sido convidado a falar interessaria tanto a seu coleti-
vo “na esfera da proteção jurídico‑social dos direitos humanos, quanto aos/às as-
sistentes sociais com atuação na esfera da proteção sociojurídica dos direitos so-
cioassistenciais”. E em seguida pontuou:

Aqui estou eu, um operador da Defesa dos Direitos Humanos, a falar para operadores/
as do Serviço Social: ambos/as a atuarem, cada qual a seu modo, na garantia do aces-
so ao Valor‑Justiça, tanto em sistemas de políticas públicas, quanto no sistema de
justiça. Isto é, a fazer do acesso a esses dois sistemas públicos, um “direito do cidadão
e um dever do Estado”. Essas definições dos nossos campos de ação — assemelhados
mas não iguais —, já balizam inicialmente nosso enfoque para tratar do sucesso, do
insucesso e das limitações ou possibilidades de enfrentamento da questão social, em
seu aspecto estrutural, via judicializações conjunturais e pontuais de conflitos de in-
teresses e de demandas, nas relações sociais. (Nogueira Neto, 2012, p. 23)

Temos então, até aqui, o registro das pouquíssimas tentativas de definição ou


de delimitação do que caracteriza a atuação do assistente social nesse campo ou
área que tem interface com o jurídico.
Avancemos, portanto, na reflexão utilizando‑nos das mesmas bases teórico‑me-
todológicas e históricas que dão sustentação ao projeto ético‑político do Serviço
Social brasileiro, ou seja, a perspectiva crítico‑ontológica com que Marx analisou
o mundo burguês e que restou tão bem explorada por Georg Lukács em suas refle-
xões a partir dos anos 1930 (essa perspectiva foi abordada em Borgianni, 1997).

2.1 “Campo jurídico” — um conceito pouco elucidativo

De forma sintética, podemos dizer que campo jurídico é um conceito que foi
formulado por Pierre Bourdieu, que o define como determinado espaço social no
qual os chamados “operadores do direito” — magistrados, promotores e advogados
— “concorrem pelo monopólio do direito de dizer o Direito” (Bourdieu, apud
Shiraishi Neto, 2008, p. 83; Gaglietti, 1999, p. 84‑85).
Essa é uma definição que, em sua imediaticidade, parece refletir de fato algo
que pode ser observado quando se trabalha nessa área: há um indiscutível e perma-
nente debate do cotidiano do universo jurídico, entre juízes, promotores e advoga-

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dos, que buscam os elementos que melhor permitam, a cada um, dizer o Direito,
diante das questões ou dos conflitos jurídicos com os quais se confrontam.
Isso até incita‑nos a levantar algumas perguntas: — Até que ponto esse é um
campo específico e/ou privado dos chamados “operadores do Direito?”, Qual seria
a peculiar contribuição do Serviço Social nesse campo jurídico, espaço onde se
disputa o direito de dizer o Direito?, O que teriam a aportar a esse espaço os assis-
tentes sociais que se querem coerentes com o projeto ético‑político da profissão?
São perguntas que tentarei responder mais adiante.
Contudo, para avançar um pouco mais, é preciso recuperar o significado
também do Direito e de universo jurídico que, à primeira vista, parecem construções
sociais que foram sendo erguidas no processo do desenvolvimento do ser humano
através da história. Construções que aparentemente teriam tido o escopo de afastar
os homens progressivamente de suas “barreiras naturais”, fazendo com que supe-
rassem seus “sentimentos inatos de vingança” e também as formas instintivas — e
por vezes bárbaras — de resolução de conflitos.
Sob essa perspectiva, que eu diria “ingênua”, o direito e o universo jurídico
teriam sido construídos como um conjunto de regras que objetivam deveres e prer-
rogativas, bem como delimitam quem deve garanti‑los (especialistas, magistrados,
promotores, advogados). Todo esse processo ocorreria ao longo de uma caminhada
linear e rumo à construção de um sistema de ordenações normativas em que um
ente superior aos interesses individuais e privados — o Estado — também teria
sido erguido com a responsabilidade de equilibrar ou “pacificar” relações confli-
tuosas entre os indivíduos.
É bastante comum ver análises “históricas” sobre a evolução do direito ou do
“estado de direito” que refletem esse tipo de visão simplista e mecanicista, segun-
do a qual a civilização teria marchado decididamente no curso da história no sen-
tido de implantar regras e normas que, ao fim e ao cabo, formariam o chamado
“império das leis”, a partir do qual as relações singulares e coletivas poderiam ser
reguladas. O Estado apareceria aí, então, como o elemento garantidor da chamada
“paz social” frente aos “naturais” conflitos de interesses de uma sociedade forma-
da por indivíduos que seriam iguais em termos das oportunidades que a sociedade
pode oferecer‑lhe e diferentes em suas capacidades de usufruí‑las. A partir dessa
visão idílica e falseadora do real, legalidade e legitimidade formariam os pressu-
postos formais do chamado estado de direito, segundo o qual “o homem” seria o
centro e a razão do “sistema social”.

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Essas são definições ou explicações que, algumas delas reais (no caso da de
Bourdieu, que citei anteriormente), ou mistificadoras neste segundo caso, parecem
levar‑nos apenas ao vestíbulo do conhecimento, não fornecendo a clareza sobre as
concretas determinações dessas esferas de objetivação do ser social que são o
universo jurídico e o direito.

2.2 A perspectiva lukacsiana para pensar o Direito e o universo jurídico

A aproximação mais fecunda com as questões próprias dessa esfera pode ser
alcançada se a análise partir dos fundamentos crítico‑analíticos ou teórico‑metodo-
lógicos que emanam da perspectiva crítico‑dialética e ontológica de Marx, aponta-
da com tanta profundidade por Georg Lukács.
Em obra sintética e esclarecedora, Vitor Bartoletti Sartori (2010) se propôs a
pensar o Direito a partir dessa perspectiva. Em virtude de sua clareza e fidelidade
à fonte lukacsiana é que utilizarei muitas passagens literais dessa obra, citando
somente as páginas de onde foram extraídas. Recorrerei também às análises feitas
por outros autores, como E. Pasukanis (1977), e R. Carli (2012), para demarcar
elementos centrais sobre o direito e a política como duas das importantes e centrais
objetivações do ser social.
Por tratar o Direito como parte de uma totalidade histórica, calçando suas
análises nas categorias fundamentais do método de Marx, é que Lukács consegue
avançar em relação a inúmeros autores que se debruçaram sobre esse tema nos
últimos dois séculos e que, por vezes, ficam aprisionados nos limites do idealismo
ou do positivismo.
Nessa direção, é pertinente resgatar, logo de início, que Lukács, ao tratar das
objetivações do homem no processo de sua constituição enquanto ser social, res-
salta que o mesmo desenvolve duas formas de pôr teleológico: aquela voltada di-
retamente para a transformação da natureza e aquela voltada para, digamos, o in-
fluenciar de outros homens. É o que ele denomina de teleologias primárias e
secundárias — ambas intimamente ligadas entre si. Assim, falando de modo resu-
mido, enquanto o trabalho em sentido estrito é uma posição teleológica primária
— e eternamente necessária —, pela qual os homens se apropriam dos elementos
da natureza para produzir os meios de sua subsistência, as posições secundárias são

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aquelas que visam “extrair um determinado comportamento coletivo” (cf. Carli,
2012, p. 9).4
No exemplo translúcido de Carli:

o trabalho significa a transformação de pedras e madeiras em instrumentos [...], já


outras esferas do ser social, como a política, por exemplo, não transformam a nature-
za; procuram agir sobre a sociedade. As posições secundárias não agem sobre a natu-
reza, mas sim sobre um grupo de homens. A ação política é uma posição teleológica
secundária precisamente porque procura extrair um determinado comportamento de
um coletivo. Um partido político procura, em suas ações, produzir uma reação espe-
cífica de indivíduos determinados, seja para a conservação da ordem estabelecida ou
para sua transformação (Idem).

E Carli recolhe de Lukács uma observação sobre a política que cabe também
para o direito:

Com o desenvolvimento histórico posterior, isto é, com o surgimento das sociedades


classistas, as posições teleológicas secundárias tornam‑se formas de ideologia, que
são as modalidades de comportamento através das quais os homens se fazem cons-
cientes dos conflitos postos e “neles se inserem mediante a luta” (p. 18).

Resumindo, tanto o direito como a política são vistos por Lukács como ex-
pressões das teleologias secundárias. Aquelas que, diferentemente dos atos teleo-
lógicos voltados para a transformação da natureza para obtenção dos meios de vida
— e que estão englobadas nas crescentemente complexas e mediadas relações
econômicas —, expressam as mediações que se criam e se institucionalizam a
partir de atos teleológicos secundários, dando as formas da totalidade social no
universo burguês.
Ressaltando que “secundário” nesse contexto não quer dizer menor ou de
menor importância, mas apenas o lugar que ocupa em meio à totalidade social,
Sartori aponta que o Direito é um complexo que não possui caráter fundante, mas
que não pode ser dissociado daquela esfera do ser social na qual ele produz seus
meios de vida — a esfera econômica (cf. Sartori, 2010, p. 94).

4. Ou nas próprias palavras do filósofo húngaro: “[...] as posições teleológicas necessárias são [...] de
duas formas: aquelas que visam transformar, com finalidades humanas, objetos naturais [...] e aquelas que
tencionam incidir sobre a consciência dos outros homens para impedi‑los de executar as posições desejadas”
(Lukács, apud Sartori, 2010, p. 54).

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Assim é que Lukács, ao se indagar sobre o “lugar” do Direito na práxis social,
observa que ele tem importante papel nas esferas relacionadas à reprodução social,
configurando‑se como uma mediação que é própria da sociedade burguesa — e que
somente aí se desenvolve enquanto tal com toda a sua completude. Ou seja, embo-
ra em tempos pretéritos tenham existido variadas formas de regulação dos conflitos
humanos, bem como de “reparação de danos”, e de responsabilização daqueles que
os causaram a alguém ou a alguma coisa,5 aquilo que realmente pode ser denomi-
nado com a expressão direito só surge em determinado estágio da trajetória do ser
social ao longo da historia e quando estão presentes outras determinações peculia-
res àquele estágio.
O que o filósofo magiar demarcará então, com muita precisão, assim como já
o fizera Marx, é que somente quando presentes categorias históricas como classe
social e Estado é que surge a ideia de direito como “conjunto de normas jurídicas
de acordo com as quais a sociedade se organiza com a finalidade de manter a ordem
e o convívio social” (Sartori, 2010, p. 9).
Assim, a aparência do direito como algo acima dos interesses antagônicos das
classes sociais, como um “sistema autossuficiente calcado na cientificidade dos
especialistas e na precisão do reflexo jurídico, supostamente capaz de captar as
necessidades sociais como um todo” (Sartori, 2010, p. 107), só se resolve em de-
terminada quadra histórica: justamente aquela que faz nascer também as reificadas
relações burguesas de produção, regidas pelo capital. Aliás, F. Engels já havia
mostrado como o surgimento de especialistas dessa área e a autonomia relativa que
o complexo jurídico vai adquirindo são produtos do desenvolvimento social. Se-
gundo o próprio Bourdieu, em “uma carta dirigida a Conrad Schmidt, Engels ob-
serva o aparecimento do direito enquanto tal, ou seja, como ‘esfera autônoma’,
acompanhando os progressos da divisão do trabalho que levam à constituição de
um corpo de juristas profissionais” (Bourdieu, 1999, p. 101).

5. Ranieri Carli mostra que Lawrence Krader estudou alguns povos comunitários e sua organização do
poder (e também da “justiça”, diria eu). [Krader] “verificou que entre os esquimós, por exemplo, era constituído
o seguinte arranjo de forças: ‘não possuem chefes, nem conselhos consultivos, nem assembleias deliberativas,
embora pratiquem uma forma de liderança econômica individual: na caça da baleia, o dono do barco tem
domínio sobre a tripulação, e o direito primordial sobre a presa’. As querelas eram resolvidas de modo peculiar:
por meio do ‘duelo cantado’. O queixoso e o acusado cantam canções alternadas em que relatam as suas
versões sobre o incidente. ‘O ofendido relata os danos a ele e busca reparação; o que se defende afirma a
inocência, defendendo‑se de outro modo. A decisão entre acusado e acusador é tomada pela comunidade’”
(Krader, apud Carli, op. cit., p. 12).

418 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
A relação da gênese do direito com o desenvolvimento das formas econômi-
cas mercantis, bem como, naturalmente, com as formas políticas que se erguem a
partir dessa base material — o Estado burguês que dá sustentação às profundas
desigualdades de classes que daí surgem, por exemplo —, é vista com clareza por
Lukács, assim como já estava presente na tese seminal de E. Pasukanis sobre o
significado do direito numa sociedade cujas relações fundamentais são baseadas
em processos nos quais os produtores do trabalho humano ficam igualados na for-
ma de mercadoria. De fato, como demonstrado genialmente por Marx, a forma
mercadoria “esconde” o real valor que tem o trabalho humano — enquanto produ-
tor de possibilidades novas diante da natureza e dos outros homens —, sob o man-
to alienante e fetichizante do valor de troca e das equivalências mistificadas que
esse processo metabólico produz.
Outrossim, deve‑se observar mais uma vez que a análise lukasciana, na estei-
ra de como procedera Marx na relação com seus objetos de estudo, não separa ar-
tificiosamente os elementos de uma totalidade concreta. Eles perspectivam o de-
senvolvimento do ser social burguês sempre como um processo unitário. Por isso,
para Lukács era impossível pensar o direito e suas categorias centrais sem resgatar
aquelas que fazem parte do desenvolvimento unitário — e contraditório — da so-
ciedade do capital, como propriedade privada, divisão social do trabalho, classes
sociais, Estado etc. Desse modo, tão ou mais importante do que apenas localizar a
gênese histórica do direito no surgimento da sociedade de classes é conseguir cap-
tar as forças contraditórias — ou as “negatividades” que lhe conferem o movimen-
to — que operam em seu interior, bem como os processos que as encobrem.
Nesse sentido, foi Pasukanis quem conseguiu, a partir das contribuições de
Marx, descrever um dos (senão o principal) vínculos problemáticos que se estabe-
lecem entre a forma jurídica e a mercantil:

Marx nos mostra a condição fundamental, enraizada na estrutura econômica da própria


sociedade, da existência da forma jurídica, isto é, da unificação dos diferentes rendi-
mentos do trabalho segundo o princípio da troca de equivalentes. Ele descobre, assim,
o profundo vínculo interno existente entre a forma jurídica e a forma mercantil. Uma
sociedade que é constrangida, pelo estado de suas forças produtivas, a manter uma
relação de equivalência entre o dispêndio de trabalho e a remuneração, sob uma
forma que lembra, mesmo de longe, a troca de valores‑mercadorias, será constran-
gida, igualmente, a manter a forma jurídica. Somente partindo desse momento fun-

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damental é que se pode compreender porque toda uma série de outras relações sociais
reveste a forma jurídica. (Pasukanis, apud Sartori, 2010, p. 109; grifos meus)

A partir de perspectiva semelhante, Lukács destacou como os processos de


circulação de mercadorias vieram a favorecer, ao longo da história do ser social
burguês, o surgimento de sistematizações e reflexões teóricas e doutrinárias abstra-
tas e gerais que serviram para a regulação das trocas comerciais e para a produção
capitalista em geral.
O filósofo húngaro consegue então capturar, pela análise, as contradições
fundamentais que se estabelecem no interior da economia — enquanto expressão
de teleologias primárias, como vimos — e do direito — expressão clara de teleo-
logias de tipo secundário — bem como na relação entre essas duas esferas de obje­
tivação do ser social. Nesse processo, o direito vai se revelando também como
elemento mistificador das reais formas antagônicas das relações sociais no mundo
burguês e até como indutor de novas mistificações. É do processo de equalização
de relações entre desiguais, que ocorre na troca mercantil, que Lukács, segundo
Sartori, extrai a ambiguidade do conceito de justiça no mundo burguês. O filósofo
húngaro capta toda a complexidade desse processo e, segundo Sartori, chega a
apontar o direito como um dos sustentáculos da desigualdade em qualquer socie-
dade que não rompa com a forma de propriedade privada (ou estatal) dos meios de
produção. O resgate da reflexão luckasciana contribui, portanto, para a desmistifi-
cação daquela visão segundo a qual o direito poderia ordenar e coordenar interesses
conflitantes que se manifestam na vida social. O que aparece, então, com todas as
suas nuances, é a característica que o direito e o ordenamento jurídico adquirem,
ao longo do desenvolvimento do ser social, de tornarem‑se escoras complexas de
uma ordem societária injusta — e ela mesma reprodutora de desigualdades —
fornecendo‑lhe uma aparência de igualdade.6

6. “[...] o Direito não é burguês simplesmente por servir aos interesses burgueses, mas sim por estar
indissociavelmente conectado com a gênese e com a manutenção da sociedade civil burguesa (e com a própria
forma mercantil). Sua configuração, com a correlata noção de igualdade jurídica, permanece nos limites
burgueses, ou seja, da sociedade civil‑burguesa, mesmo após a expropriação dos exploradores. Isso significa
que, mesmo na ‘transição ao modo de produção socialista’, haveria a configuração de desigualdade, pois o
direito perpetua sua forma após a mudança nominal de proprietário dos meios de produção, sendo, portanto,
como todo o direito, o direito de desigualdade. Configura‑se, assim, enorme engano entender‑se socialista
uma sociedade que transfere juridicamente (ou seja, ‘com os limites aqui enumerados’) a propriedade dos
meios de produção à coletividade” (Sartori, 2010, p. 114).

420 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Mas falar em reprodução das relações sociais na sociedade capitalista é falar
em contradições e antagonismos, o que nos leva, já de início, à consideração de
que o direito, também ele, é atravessado por essas negatividades e torna‑se repro-
dutor mesmo dessas relações. Por isso é muito importante resgatar como Lukács,
ao afirmar o conteúdo de classe do direito, não deixa de apontar o complexo de
processos contraditórios que, justamente por isso, esse direito carrega em seu inte-
rior, o que oportuniza a problematização de sua aparente neutralidade. O filósofo
húngaro reafirma, sobretudo, que nenhum desses processos decorre de qualquer
teleologia estranha ao mundo dos homens: antes resultam da práxis concreta do ser
social e por eles podem ser também transformados.
Nesse sentido, embora o direito seja um direito de classe — vale dizer, de
classe dominante —, esse conteúdo de classe não pode ser apartado do complexo
social total e das mediações que surgem permanentemente em seu interior, a partir
das negatividades que se impõem. E nosso autor faz notar, nesse processo, que as
abstrações próprias do direito garantem que princípios como liberdade, dignidade
etc., convivam com aqueles que são próprios da sociedade que é regida pelo valor
de troca e pelo trabalho assalariado — como competição e impessoalidade, por
exemplo.
Segurança jurídica e “imparcialidade” são valores muito caros à necessida-
de de reprodução da sociedade regida pelo capital. Cumprem um papel funda-
mental na construção de uma aparência fetichizada ou até reificada de relações
de desigualdade que não podem aparecer enquanto tais. E todos os intrincados
processos societários que subjazem ao direito e ao universo jurídico têm que ficar
subsumidos para que ele possa cumprir suas funções na sociedade e inserir‑se na
vida normal de todos os homens. O fato de aparentemente ser uma esfera autos-
suficiente, e que apenas especialistas podem dominar seus códigos e linguagem,
tem a ver precisamente com aquilo que Lukács identificou e nomeou como o
“novo fetichismo”:

O novo fetichismo [...] consiste no fato de que o Direito é tratado [...] como um cam-
po fixo, compacto, determinado com univocidade “lógica” e, desta forma, é objeto de
pura manipulação não somente na práxis, mas também na teoria, onde é entendido
como um complexo fechado na própria imanência, autossuficiência, acabado em si,
que apenas é possível manejar corretamente mediante a lógica jurídica. (Lukács, apud
Sartori, 2010, p. 96)

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Autonomia, especialistas e instituições que o sustentam também fazem parte
das requisições básicas para que o direito possa existir na sociedade de desiguais e
que produz cotidianamente a desigualdade.
O fato de o direito ter um caráter de classe e de ser sustentado por um Estado,
também ele dominado por interesses de classe majoritárias, tem as maiores conse-
quências na vida das pessoas, principalmente quando “julgadas” por algum “crime”,
ou por algum ato ilícito, pois elas estarão, no limite, à mercê dessa discricionarie-
dade de classe, ainda que isso se dê com muitas e complexas mediações.
Mas é importante reafirmar que o direito não é algo monolítico, constituído
por tendências unilineares que apontam em uma única direção de dominação clas-
sista; pelo contrário, é um processo social permeado de contradições — embora
pretendendo‑se isentas delas. Nas palavras de Lukács,

O funcionamento do Direito positivo se apoia [...] sobre o seguinte método: manipu-


lar um turbilhão de contradições de modo tal que dele surja um sistema, não só
unitário, mas também capaz de regular praticamente, tendendo ao ótimo, o contra-
ditório acontecer social, de sempre se mover com elasticidade entre polos antinômi-
cos [...], a fim de sempre reproduzir — no curso de contínuas alterações do equilíbrio
no interior de um domínio de classes em lenta ou rápida transformação — as decisões
e os estímulos às práticas sociais mais favoráveis àquela sociedade. (Lukács, apud
Sartori, 2010, p. 115; grifos meus)

Em outros termos, o direito é também permeável à atuação das forças que


pretendem nele incidir em busca de novos ordenamentos das relações sociais, e não
só à manutenção do estado de coisas. É o que abordaremos no item sobre a justi-
ciabilidade dos direitos sociais.
Mas antes é preciso responder à questão inicial: qual é, então, a melhor forma
para referirmo‑nos ao Serviço Social quando o assistente social atua na interface
com o jurídico e com o direito?

2.3 Afinal, Serviço Social no “campo” ou na “área” sociojurídica (ou “jurídico‑social”)?

À luz de toda a reflexão precedente, proponho que, em vez de “campo socio-


jurídico” ou “jurídico‑social”, adotemos a terminologia área sociojurídica.

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Justifico: em primeiro lugar, não seria “campo”, naquele sentido de Bourdieu,
porque não estamos disputando (corporativamente) com magistrados, promotores
ou advogados, nesse espaço ou nessa área, o direito de dizer o direito (ainda que
seja o direito social!). Antes, é preciso ver tais operadores ou especialistas do di-
reito como trabalhadores que, tal qual os assistentes sociais, psicólogos, educadores
etc., estão subordinados à mesma lógica do assalariamento de suas atividades,
ainda que com diferenças bastante acentuadas (que têm a ver com aquilo que Lukács
e Engels observaram sobre os “especialistas” do direito), que vale a pena a qualquer
momento aprofundar pela análise.
O que está dado como desafio e possibilidade aos assistentes sociais que
atuam nessa esfera em que o jurídico é a mediação principal — ou seja, nesse lócus
onde os conflitos se resolvem pela impositividade do Estado — é trazer aos autos
de um processo ou a uma decisão judicial os resultados de uma rica aproximação
à totalidade dos fatos que formam a tessitura contraditória das relações sociais
nessa sociedade, em que predominam os interesses privados e de acumulação,
buscando, a cada momento, revelar o real, que é expressão do movimento instau-
rado pelas negatividades intrínsecas e por processos contraditórios, mas que
aparece como “coleção de fenômenos” nos quais estão presentes as formas misti-
ficadoras e fetichizantes que operam também no universo jurídico no sentido de
obscurecer o que tensiona, de fato, a sociedade de classes.
A partir das expressões cotidianas mais singulares e aparentemente desprovi-
das de mediações sociais concretas é que os assistentes sociais que atuam nessa
área têm que operar e trabalhar para reverter a tendência reprodutora da dominação,
da culpabilização dos indivíduos e da vigilância de seus comportamentos.
Em resumo: se o direito — que só surge quando também se completam os
requisitos históricos para o surgimento da sociedade de classes — é um dos sus-
tentáculos de uma ordem produtora e reprodutora de desigualdades, ele também
tem em suas entranhas um incessante movimento de contrários. E para não esque-
cer as certeiras lições de Iamamoto a respeito do significado social de nossa profis-
são, é justamente por isso que o Serviço Social pode operar no universo jurídico,
optando por fortalecer um ou outro polo dessas contradições, tema do próximo item
de nossa reflexão.
Em segundo lugar, vejo que a prioridade ontológica aqui é do “social”, e não
do “jurídico”, uma vez que as teleologias primárias que põem a questão social como
expressão da luta de classes — ou, mais precisamente, as disputas permanentes do

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 423
capital contra o trabalho na busca de maior exploração, e do trabalho contra capital
na resistência a esse processo de exploração (e tudo que daí recorre) —, essa luta,
esse conflito é que põe ao ser social a necessidade da instituição de teleologias
secundárias, como o direito, o universo jurídico e a política, conforme já vimos.
Assim, sociojurídico expressa com mais precisão do que jurídico‑social o que
o Serviço Social quer nominar como espaço onde se põem demandas que têm uma
especificidade histórica em relação a outras áreas. Vale dizer: justamente porque a
questão social é a expressão da luta de classes, da alienação do trabalho, da neces-
sidade que o capital tem de manter a propriedade privada (que, essa sim, é uma
categoria jurídica) etc., e que gera o movimento da história e de todas as demais
objetivações do ser social no mundo burguês, ela tem prioridade ontológica em
relação às objetivações que se plasmam a partir de teleologias secundárias como o
direito e a política.
Por entender o “social” — ou essa partícula sócio — como expressão conden-
sada da questão social, e dela emanarem continuamente as necessidades que ense-
jarão a intervenção de juristas, especialistas do direito, de agentes políticos e seus
partidos etc., assim como, por ser espaço contraditório no qual os assistentes sociais
atuam — buscando defender tanto o projeto ético‑político da profissão como seus
direitos como trabalhadores — é que defendo que passemos a utilizar a expressão
Serviço Social na área sociojurídica.
Assim, em termos sintéticos e simples, pode‑se dizer que o trabalho do assis-
tente social na área sociojurídica é aquele que se desenvolve não só no interior das
instituições estatais que formam o sistema de justiça (Tribunais de Justiça, Minis-
tério Público e Defensorias), o aparato estatal militar e de segurança pública, bem
como o Ministério de Justiça e as Secretarias de Justiça dos estados, mas também
aquele que se desenvolve nas interfaces com os entes que formam o Sistema de
Garantias de Direitos (cf. Conanda, 2006) que, por força das demandas às quais
têm que dar respostas, confrontam‑se em algum momento de suas ações com a
necessidade de resolver um conflito de interesses (individuais ou coletivos) lançan-
do mão da impositividade do Estado, ou seja, recorrendo ao universo jurídico.
Nesse sentido, a existência da lide, que significa “pretensão resistida” (cf. Del-
fino, 2013) e de um processo judicial (seja ele civil, criminal, penal ou da área dos
direitos da infância e juventude e dos relativos aos direitos humanos e aos direitos
sociais) é um demarcador quase que obrigatório para considerarmos que se está em
face ou não do universo sociojurídico. Assim, tanto o assistente social que atua em
uma instituição de acolhimento de crianças e adolescentes, que estão sob a medida

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protetiva de acolhimento institucional (um abrigo), como aquele que atua em uma
Vara de Infância, ou em uma Defensoria Pública, estará atuando no universo socio-
jurídico ou na interface com ele. Isso é fácil de perceber.
Também os assistentes sociais que atuam como agentes fiscais nos Conselhos
de Fiscalização Profissional (conjunto CFESS/Cress) e em suas diretorias fazem
parte do universo sociojurídico, uma vez que os conselhos profissionais são tribunais
de ética e têm o poder de determinar juridicamente (ou seja, pela impositividade
do Estado) quem pode ou não exercer a profissão de assistente social ou se deve ter
esse exercício suspenso ou não por força de decisão emanada dos julgamentos
éticos, à luz das legislações pertinentes. Mais complexo é delimitar até que ponto
os assistentes sociais que estão atuando nos Centros de Referência em Assistência
Social (Cras) e/ou nos Centros Especializados de Referência em Assistência Social
(Creas) estariam atuando também nas fronteiras desse universo.
Pode‑se dizer, sem medo de errar, que dependerá de cada caso. Os casos que
são atendidos no âmbito da política de assistência social e até da saúde podem, sim,
ter interface com essa área. Basta pensar em um caso de violência doméstica ou
abuso sexual de criança que vai ser atendido por profissionais de toda a rede de
proteção de direitos, ou em um caso de proteção pela Lei Maria da Penha. Enquan-
to aquele caso estiver “judicializado”, ou constituir‑se em uma lide (“pretensão
resistida”, conforme vimos anteriormente), pertencerá ao universo sociojurídico.
Ou seja, sua resolutividade, além de todas as iniciativas de proteção social e psico-
lógica, também será tributária de uma decisão judicial.
Após ter demarcado minimamente essas fronteiras, cabe apontar, ainda que
brevemente, o potencial que está reservado aos assistentes sociais nessa área.

3. Judicialização das expressões da questão social e justiciabilidade dos


direitos sociais no Brasil: espaço importante para o trabalho de assistentes
sociais que atuam no sociojurídico

Vários autores têm se debruçado sobre a tendência, que vem se desenvolven-


do nos últimos anos no Brasil, de se levar ao Poder Judiciário, ou à área jurídica,
centenas e milhares de casos que poderiam, ou deveriam, ser respondidos no âm-
bito da esfera política.

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Alguns deles mostram que após as importantes conquistas trazidas pela
Constituição de 1988 (também ela fruto de grandes embates sociais, como sabemos),
instalou‑se uma forte tendência neoliberal de desmonte e contrarreformas do Esta-
do, fazendo com que as políticas não fossem capazes de atender às demandas so-
cietárias e aos quesitos de proteção de direitos sociais determinados pela Consti-
tuição. Tampouco o movimento social e os sindicatos, centrais sindicais e entidades
representativas dos trabalhadores tiveram força suficiente para fazer valer esses
direitos para amplas parcelas da população brasileira.
Tal panorama levou a que o Poder Judiciário passasse a ser o depositário das
demandas sociais dos segmentos mais fragilizados e subalternizados da sociedade,
na busca de fazer valer os direitos sociais trabalhistas, de proteção de crianças,
idosos etc. Ou seja, aquilo que pela pactuação política não está sendo possível
conquistar em nosso país, desde Collor, Fernando Henrique, passando por Lula e
agora Dilma — porque os interesses econômicos e financeiros das elites dominan-
tes determinam claramente os rumos do Estado brasileiro —, está se buscando no
Poder Judiciário, pois, sem muitas alternativas, a população não tem como reivin-
dicar fácil acesso a direitos básicos de cidadania.
José Paulo Netto, em 1999, já apontava, em lúcida análise sobre o governo
Collor, como o Estado estava sendo colocado a serviço dos reordenamentos impos-
tos pelo projeto político do grande capital internacional, “subvertendo e negando a
lógica constitucional de defesa de direitos” e levando a uma “inviabilização da
alternativa constitucional da construção de um Estado com amplas responsabilida-
des sociais, garantidor de direitos sociais universalizados” (cf. Netto, 1999).
E também como outros autores, Beatriz Aguinsky e Ecleia Huff de Alencastro
apontaram que, em todos os governos que vieram depois de Collor, as políticas
sociais passaram a ser fragmentadas, focalizadas e a ter sérios problemas de finan-
ciamento, o que acabou por impedir sua implementação objetiva (cf. Aguinsky e
Huff de Alencastro, 2006, p. 19‑26). Por isso, os autores citados podem afirmar que
ao mesmo tempo em que houve a ampliação dos direitos positivados na Constitui-
ção Federal de 1988, ocorreu sua negação em diferentes instâncias administrativas,
o que acabou por gerar esse fenômeno na esfera pública, que é o que alguns juristas
e cientistas sociais estão chamando de “judicialização dos conflitos sociais” ou,
ainda, “judicialização da política”.
Tal fenômeno, segundo Aguinsky e Huff de Alencastro (Idem), caracteriza‑se
pela transferência, para o Poder Judiciário, da responsabilidade de promover o
enfrentamento à questão social, na perspectiva de efetivação dos direitos humanos.

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Argumentam as autoras que a profunda e persistente deslegitimação do Estado como
esfera de proteção social dos mais subalternizados fez com que o Poder Judiciário
ou o sistema de justiça como um todo passasse a ser procurado por esses segmentos
para que os direitos e atributos de cidadania sejam efetivados. Alguns pesquisado-
res chegam a afirmar que o enfraquecimento da política e das esferas de resolução
pública dos conflitos e das reivindicações sociais, e o fato de o próprio Poder Exe-
cutivo muitas vezes se colocar como violador de direitos por seus atos ou omissões
perante a ganância do capital, fez com que a sociedade passasse a incumbir o Ju-
diciário da tarefa de possibilitar a efetivação dos direitos sociais.
Pertinente, então, parece ser a definição de judicialização, dada por Aguinsky
e Huff de Alencastro, como a “tendência em curso de transferir para um poder es-
tatal, no caso do Judiciário, a responsabilidade de atendimento, via de regra indi-
vidual, das demandas populares — coletivas e estruturais, nas quais se refratam as
mudanças do mundo do trabalho e as expressões do agravamento da questão social
— em vez de fortalecer a perspectiva de garantia de direitos positivados, [o que]
pode contribuir para a desresponsabilização do Estado, sobretudo dos poderes
Legislativo e Executivo, com a efetivação desses direitos, através de políticas pú-
blicas” (Aguinsky e Huff de Alencastro, 2006, p. 25).
Face perversa da judicialização dos conflitos da sociedade brasileira é também
a crescente onda de encarceramento de pessoas pertencentes aos extratos mais
vulnerabilizados da população (e cada vez mais jovens), bem como os apelos
midiáticos pelo recrudescimento das penas e pela transformação de delitos comuns
em crimes hediondos; isso para não falar da forte campanha pela redução da ida-
de penal. Alguém já denominou tal processo como próprio de uma era na qual
impera um “populismo punitivo”. Nunca como hoje as “prisões da miséria” (na
lúcida caracterização de Löic Wacquant) estiveram tão abarrotadas. E pior: desde
Washington, com sua política de tortura para obter confissões na luta “contra o
terrorismo”, e a administração forçada de alimentos a presos em greve de fome
em Guantânamo, até a criminalização dos movimentos sociais em várias partes do
mundo, assiste‑se a uma regressão brutal nas tentativas de implementação das
proteções lastreadas no direito dos direitos humanos.
Nesse passo de nossa reflexão é pertinente abordar também o fato de que
direito e lei não se confundem, sendo o primeiro sempre muito mais amplo e com-
plexo do que a própria lei ou do que as estruturas burocráticas que se formaram
para garantir seu cumprimento. Como bem coloca Wanderlino Nogueira Neto, o
direito origina‑se sempre nas relações sociais (ou “na rua”) e só posteriormente é

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que é objetivado em leis. Tal dinâmica supõe, inclusive, a possibilidade de ques-
tionamento do próprio direito que foi cristalizado em uma lei. Em outros termos, é
esse processo que possibilita a negação de vigência de uma lei, “colocando‑a como
contrária ao Direito” (Nogueira Neto, 2012, p. 30‑31).
Mas outro aspecto da judicialização das expressões da questão social que
também ganha bastante importância na atualidade é o chamado “controle judicial
das políticas públicas”. Essa tendência vem se desenvolvendo com força e diz
respeito às iniciativas da sociedade civil organizada para cobrar judicialmente que
o Poder Executivo cumpra com o seu dever de implementar ações previstas nas
legislações orçamentárias que destinam recursos às políticas sociais de proteção à
infância e adolescência, deficientes, velhice, contra a violência doméstica etc. Tal
alternativa é complexa porque envolve a chamada “separação dos poderes” e as
vedações constitucionais de interferência de um poder sobre outro, e vem ganhan-
do cada vez mais relevância em nossa sociedade, principalmente nessa quadra
histórica em que se está diante da omissão do Estado ou do não cumprimento de
preceitos constitucionais que dispõem sobre aspectos vitais à existência dos indi-
víduos e grupos vulnerabilizados. Nesse processo, verifica‑se que as cortes de
justiça têm sido cada vez mais pressionadas a se pronunciar sobre casos em que
governantes vetam artigos de leis ou praticam atos que ferem preceitos fundamen-
tais que garantiriam recursos financeiros mínimos às políticas sociais (saúde, edu-
cação etc.). É o que ocorre, por exemplo, quando governantes vetam leis orçamen-
tárias (cf. Nogueira Neto, 2012, p. 39‑41).
Assim, tem‑se, neste campo do controle jurisdicional das políticas públicas
— ou naquele que Piovesan e Vieira (2013) chamam de justiciabilidade dos direi-
tos sociais —, um enorme potencial de trabalho para os assistentes sociais, que
podem oferecer importantes subsídios às decisões dos tribunais de justiça para a
efetivação de direitos de amplas parcelas da população que foram alijadas do aces-
so aos bens produzidos socialmente ao longo de séculos de dominação burguesa
no País. Como bem coloca Wanderlino Nogueira Neto (2012, p. 45),

“[...] nessa fronteira com as políticas públicas sobressaem os hard cases, na expressão
de Ronald Dworkin, que pedem, para sua solução, argumentos firmados em paradigmas
ético‑políticos [...] e na alta sensibilidade judicial e no seu comprometimento com os di-
reitos humanos, com o desenvolvimento humano autossustentado e com a democracia”.

Como abordei linhas atrás, há uma enorme contradição no capitalismo entre


o sistema produtivo e a organização estatal e jurídica das relações sociais, gerando‑se

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no interior desta contradição inúmeras outras, que acabam sendo o húmus para o
trabalho de um assistente social quando este se coloca na direção ética e política
da ampliação e concretização de direitos, e não no fortalecimento do polo da “res-
ponsabilização criminal”. Em outros termos, o âmbito daquilo que Piovesan e
Vieira denominam de justiciabilidade dos direitos sociais pode ser considerado um
espaço privilegiado para a atuação do assistente social hoje. Basta observar, por
exemplo, o manancial de contradições que surgem no cenário jurídico a partir do
momento em que o movimento social fez insculpir no texto da Constituição Fede-
ral o famoso artigo 6º, que trata dos direitos sociais.7 De fato, esse é um dos artigos
mais importantes da Constituição para os assistentes sociais em seu trabalho coti-
diano, uma vez que é o que permite a exigibilidade daquilo que deve ser conside-
rado prioritário nas políticas públicas e que até oferece os argumentos concretos
sobre a necessidade de construção de uma nova organização societária.
Diferente do que ocorre com direitos civis e políticos, a arena da exigibilida-
de dos direitos sociais é aquela em que o universo jurídico tem que buscar soluções
políticas e administrativas que, ao fim e ao cabo, questionam as formas de acumu-
lação, bem como acirram as disputas pelo fundo público. É como se o artigo 6º
tivesse o potencial de deslocar os cidadãos que hoje se encontram na fila dos réus
(como devedores, ladrões de baixa periculosidade e pequenos traficantes etc.) para
a fila dos requerentes de direitos perante o Estado. É também o artigo que permite
aos assistentes sociais contribuírem com promotores de justiça e defensores públi-
cos para que estes façam, perante as cortes, a denúncia daquilo que Canotilho
chamou da “ditadura do caixa vazio”.
Em resumo, temos que com a Constituição de 1988, com o capítulo dos di-
reitos sociais e também das novas funções do Ministério Público, bem como com
a criação de novas ações jurídicas,8 o assistente social que atua nessa área ganha a
possibilidade de “dar os argumentos concretos e tangíveis àqueles que vão, no in-
terior do universo jurídico e no curso dos processos judiciais, “dizer o direito social”
(cf. Piovesan e Vieira, op. cit.).
A Constituição de 1988 trouxe também aos assistentes sociais da área socio-
jurídica a possibilidade de demonstrarem, com dados concretos extraídos de estudos
sobre a realidade de cada município onde vivem os cidadãos, das prisões onde estão

7. Os direitos sociais previstos no artigo 6º da Constituição Federal de 1988 são: educação, saúde,
alimentação, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância,
assistência aos desamparados.
8. Como a de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, por exemplo.

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encarcerados, ou das instituições que têm que defendê‑los — e, principalmente, do
contato cotidiano com a população que é alvo ou credora da Justiça —, como o não
cumprimento dos preceitos fundamentais da Constituição lesam a vida e os direitos
de parcelas significativas da sociedade. Mas para isso é preciso que haja assistentes
sociais conscientes de seu papel. Profissionais que sejam bem formados do ponto de
vista crítico analítico e que se disponham a perguntar insistentemente por que o
universo jurídico tende a ser mais eficaz e célere quando se trata de defender o di-
reito constitucional à propriedade e não apresenta a mesma celeridade e assertivi-
dade no que diz respeito ao direito à dignidade e à proteção física e moral de con-
denados, com relação à tortura e maus-tratos nas prisões, por exemplo? Afinal,
ambos — o direito à propriedade e o direito do cidadão de não ser agredido pelo
Estado que deveria proteger sua integridade quando sob sua custódia —, são iguais
na esfera dos direitos fundamentais consagrados no Capítulo 5 da Constituição.

4. Alguns desafios da intervenção dos assistentes sociais na interface com


o Direito e com o universo jurídico
O Serviço Social brasileiro construiu, nos últimos trinta anos, um projeto
profissional que o coloca em uma perspectiva de resistência à exploração capitalis-
ta. Um projeto que tem potencial para capacitar os profissionais para um desempe-
nho qualificado nos diversos campos onde atua, iluminando‑os para que articulem
suas ações cotidianas a sujeitos coletivos que também se mostrem empenhados
tanto no acesso a direitos como na busca da construção de outra ordem societária.
Esse projeto contém um conjunto de referências técnicas, teóricas, éticas e políticas
para o exercício profissional, e está lastreado na perspectiva crítica e ontológica de
análise da realidade social, tendo como pressuposto que a sociedade burguesa gera
limites intransponíveis para se alcançar a real emancipação do ser social.
Mas no interior desse mesmo projeto há o reconhecimento de que as lutas por
direitos e pela democratização radical das formas de exercício do poder político
têm considerável potencial para a resistência à barbarização imposta pelo capita-
lismo em sua fase atual, bem como podem contribuir para o avanço de propostas
coletivas que busquem uma nova organização societária.
A profissão viveu, nas três últimas décadas, um rico movimento teórico e po-
lítico que plasmou interpretações competentes e elucidativas acerca de inúmeros

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temas de interesse para a sociedade e para outras áreas de produção do conhecimen-
to próximas ao Serviço Social. É assim que ela tem hoje uma interlocução profícua
e instigante com a Psicologia, com as Ciências Sociais em geral, com a Educação,
e, notadamente, com o universo jurídico (principalmente no que tange às questões
de efetivação de direitos de crianças e adolescentes, idosos, mulheres etc.), bem
como com as várias profissões do campo da Saúde e da Assistência Social.
Um dos elementos propiciadores desses avanços (não o único, obviamente)
foi a elucidação do significado social da profissão no mundo burguês, por meio das
seminais análises de Marilda Iamamoto que, já à partida, advertia‑nos de que o
significado social da profissão só poderia ser profunda e verdadeiramente apreen-
dido se a análise fosse capaz de integrar e, ao mesmo tempo, ultrapassar os ele-
mentos internos do Serviço Social, ou seja — sua trajetória histórica, a ação dos
profissionais nos diversos campos de atuação, os parâmetros legais que construiu
etc. —, situando‑o no contexto da totalidade social e das relações mais amplas que
o condicionam. Segundo a autora, foram essas relações que, afinal, acabaram atri-
buindo ao Serviço Social particularidades em relação a outras profissões. Em outros
termos, Iamamoto mostrou‑nos que, para compreender o que é e como se desen-
volveu o Serviço Social enquanto profissão —, ou seja como atividade assalariada,
com competências específicas e atribuições privativas, e cujos profissionais são
requisitados por instituições, empresas ou organizações em geral —, era preciso
entender, primeiramente, como se dá o processo que Marx denomina produção e
reprodução das relações sociais no mundo burguês, uma vez que a profissão é
impensável sem a inserção nessas relações.
Foi assim, pois, que Marilda observou que, além de o movimento de reprodu-
ção do capital recriar continuamente a apropriação do trabalho excedente sob a
forma da mais‑valia, ele cria e reproduz, em escala ampliada, os antagonismos das
relações sociais por meio das quais efetiva‑se a produção. Nesse mesmo processo,
segundo Iamamoto,

[...] reproduz‑se a contradição entre igualdade jurídica de livres proprietários, e a desi-


gualdade econômica que envolve a produção social, contraposta à apropriação privada do
trabalho alheio, ou seja, recriam‑se os antagonismos dessas relações e o véu ideológico
que as envolve, encobrindo sua verdadeira natureza. (Iamamoto, 2007, p. 253)

Após ressaltar, então, que a criação de uma superpopulação trabalhadora —


sempre disponível para ser recrutada — faz parte da particularidade do regime

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capitalista e que os salários dos trabalhadores ficam à mercê da regulação desfavo-
rável a seus interesses (justamente em virtude da existência daqueles trabalhadores
sobrantes), Iamamoto mostra que é a partir dessa factualidade ontológica que se
consubstancia a questão social no mundo burguês.
Assim, uma parcela significativa dos assistentes sociais brasileiros desenvol-
veu a compreensão de que a questão social não é apenas a expressão da pauperi-
zação relativa da classe trabalhadora sob o domínio do capital, significando, prin-
cipalmente, o conjunto de reivindicações dos trabalhadores por seus direitos e pelo
seu reconhecimento enquanto classe. Ela é também a expressão da intermediação
do Estado nessas relações conflituosas que se estabelecem entre trabalhadores e
empresariado. Nesse cenário, como já colocado anteriormente, o Estado e suas
instituições que formam o Poder Judiciário, o Poder Executivo e o Legislativo
passa a ter um papel fundamental na regulação das relações sociais antagônicas
próprias do mundo burguês.9
É então, nesse complexo de determinações, em cujo centro opera a mediação
do Estado capturado pelo capitalismo monopolista, que Iamamoto localiza a gêne-
se e o significado do Serviço Social como uma profissão que — inscrita na divisão
social e técnica do trabalho, e tendo como “matéria‑prima” as expressões da ques-
tão social —, se integra “ao processo de criação das condições indispensáveis ao
funcionamento da força de trabalho e à extração da mais‑valia”, embora não parti-
cipe diretamente da produção de mercadorias e do valor (Iamamoto, 2007, p. 256).
Por estar inserido e por ser fruto mesmo dessas relações entre o capital e o
trabalho, e participar das respostas que o Estado e a sociedade têm que dar aos
antagonismos de classe, o Serviço Social também adquire um caráter eminente-
mente contraditório. E com essas análises Iamamoto alcançará todas as premissas
que lhe permitiram formular o que chamei, em outro lugar, de a Grande tese (ver
Borgianni, 2008):

Como as classes sociais só existem em relação, pela mútua mediação entre elas, a
atuação do assistente social é necessariamente polarizada pelos interesses de tais
classes, tendendo a ser cooptada por aqueles que têm uma posição dominante. R
­ eproduz,

9. Iamamoto descreveu esse processo de forma cristalina já no início dos anos 1980: “O Estado passa
a intervir diretamente nas relações entre empresariado e a classe trabalhadora, estabelecendo não só uma
regulamentação jurídica do mercado de trabalho, através da legislação social e trabalhista específicas, mas
gerindo a organização e a prestação dos serviços sociais, como um novo tipo de enfrentamento da questão
social” (In: Iamamoto e Carvaho, 1982, p. 77).

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também, pela mesma atividade, interesses contrapostos que convivem em tensão.
Responde tanto a demandas do capital como as do trabalho e só pode fortalecer um
ou outro polo, pela mediação de seu posto. Participa tanto dos mecanismos de domi-
nação e exploração como, ao mesmo tempo e pela mesma atividade, de respostas a
necessidades de sobrevivência da classe trabalhadora e de reprodução dos antago-
nismos desses interesses sociais, reforçando as contradições que constituem o móvel
da história. A partir dessa compreensão é que se pode estabelecer uma estratégia
profissional e política para fortalecer as metas do capital ou do trabalho, mas não se
pode excluí‑los do contexto da prática profissional, visto que as classes só existem
inter‑relacionadas. É isso inclusive que viabiliza a possibilidade do profissional colo-
car‑se no horizonte dos interesses das classes trabalhadoras. (Iamamoto, in Iamamoto
e Carvalho, 1982, p. 75; grifos meus)

Essa afirmação do caráter contraditório do exercício de qualquer assistente


social foi a contribuição maior à compreensão dos reais desafios que estão coloca-
dos aos profissionais em sua prática cotidiana. De fato, ela expressa um divisor de
águas em relação a análises que se fixam em unilateralidades ou em posições vo-
luntaristas. Essa constatação ontológica tem o potencial de mostrar a qualquer
profissional que sua ação pode tanto favorecer os interesses do capital quanto os
do trabalho, pode reforçar iniciativas conservadoras, porque coladas à imediatici-
dade das relações alienadas, ou buscar resistir e romper com as formas autoritárias,
desumanizadas e antidemocráticas que brotam continuamente do solo burguês, seja
em uma instituição, seja em uma organização não governamental, ou na assessoria
a movimentos sociais.
Daí também decorre o caráter essencialmente político da ação profissional,
“uma vez que ela se explica no âmbito das próprias relações de poder da sociedade”
(Yazbek, 1999, p. 91).
Naturalmente, a possibilidade de a profissão colocar‑se na perspectiva do
reforço dos interesses da população trabalhadora, com a qual atua, depende mais
de um projeto profissional coletivo do que da volição individual dos assistentes
sociais. É esse projeto que pode orientar permanentemente as ações dos profissionais
em seus diversos campos de trabalho.
Assim, pode‑se afirmar que a partir dessas contribuições que iluminam ou
fornecem os elementos fundamentais a partir dos quais os assistentes sociais podem
fazer a crítica ontológica das contradições sociais que se expressam em seu coti-
diano, é possível e necessário fazer a análise de como a profissão vem se desenvol-
vendo e delineando nos diversos espaços sócio‑ocupacionais, incluídos os que

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pertencem à área sociojurídica. Essa tarefa é urgente para todos nós que partilhamos
do projeto ético‑político da profissão e supõe enorme esforço teórico para captar
as complexas determinações que aí comparecem. Evidentemente, não tenho a me-
nor pretensão de aqui dar conta nem mesmo do começar essa tarefa. Alguns assis-
tentes sociais já iniciaram estudos que poderão potencializar muito nossos conhe-
cimentos das especificidades próprias desse espaço de intervenção profissional (ver,
especialmente, Fávero, 1990; Colmán, 2004; Alapanian, 2008; Torres, 2005;
Dahmer, 2012; Tejadas, 2012).
É necessário e urgente pesquisar a gênese e os processos de criação e repro-
dução do Serviço Social em todos os espaços sócio‑ocupacionais que formam o
universo sociojurídico (sistema prisional, ministério público, defensorias, sistema
socioeducativo, tribunais de justiça etc.), para conhecer, de fato, o que está se pas-
sando aí em seu interior e se possa avançar em propostas coerentes ou que expres-
sem nosso projeto ético‑político a partir da “análise concreta de situações concretas”.
Aqui, o que posso então é apenas apontar, à luz dos fundamentos precedentes,
alguns dos desafios cruciais com os quais os assistentes sociais se deparam nessa
área.
Inicialmente, destacaria o universo de questões que se põem aos profissionais
que atuam no interior das instituições do sociojurídico, pelo simples fato de, como
visto, o jurídico configurar‑se como a esfera de resolução dos conflitos pela impo-
sitividade do Estado. São questões de ordem ética e política que surgem nesse
universo e das quais não se pode “escapar”, sendo necessário enfrentá‑las com
coerência. Contribui para alargar esse desafio a crescente criminalização da pobre-
za e a judicialização das expressões da questão social. Tais determinações se impõem
hoje no cotidiano profissional nas prisões, nos tribunais, nas unidades de internação
de adolescentes, de forma avassaladora. Têm também expressão objetivada em todo
um novo marco legal de caris conservador e que é fruto de articulações de parte da
sociedade civil que vê no encarceramento, no recrudecimento das penas e na redu-
ção da idade penal, as formas reificadas e fetichizadas de reparação das vítimas da
crescente violência urbana que foi gerada no processo histórico de superexploração
do trabalho e concentração de poder e renda nas mãos de uma elite minoritária
numericamente, mas poderosíssima econômica e politicamente.
Já o aviltamento mercantil que atingiu o ensino superior no Brasil nas últimas
décadas pode provocar verdadeira tragédia profissional no desempenho que é exi-
gido dos assistentes sociais nessa área que lida diretamente com os destinos das

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vidas das pessoas. De fato, nessa área, decide‑se se alguém vai ser privado de li-
berdade, ou se vai perder a guarda de um filho, se vai poder ou não adotar uma
criança ou conviver com um idoso.
Essa é uma esfera muito diferente daquela que é própria da execução das
políticas sociais. A começar pelo fato de que na área sociojurídica não se trabalha
contando com a mediação dos benefícios socioassistenciais. A mediação, via de
regra, passa pelas interpretações que os profissionais fazem de problemas, situações
e conflitos que estão judicializados, portanto aguardando uma decisão judicial, e
não uma decisão ou um encaminhamento administrativo ou político. Nessas insti-
tuições do sociojurídico, como bem notou Colmán, o assistente social depara‑se
com demandas que “são apresentadas de forma individualizada, como conflitos
entre partes, com litígios, cabendo [ao Judiciário] aplicar as leis existentes, estabe-
lecendo as punições cabíveis e encaminhando soluções para as situações de confli-
to” (Alapanian, 2008, p. 16). E aqui já podemos demarcar uma primeira armadilha
ou desafio que se põe ao assistente social em seu cotidiano: superar a aparência
dos fenômenos com os quais vai trabalhar; tal aparência é a de problemas jurídicos,
pois, como vimos, na realidade também carregam conteúdos de cunho eminente-
mente político e social, e nessas outras esferas é que também deveriam ganhar sua
resolutividade.
Por isso, não se pode perder de vista, nem por um instante, nesse cotidiano
que tende a reiterar a aparência reificada da processualidade societária, que quem
atua na área sociojurídica está confrontando o tempo todo com as contradições que
surgem ou se renovam reiteradamente a partir da relação tensa entre as determina-
ções próprias da sociedade que é regida pelo capital e o buscar da “justiça”. Na
definição oficial, por exemplo, como exposta por Edson Sêda, o Poder Judiciário é
“um poder da República que só atua quando provocado em sua jurisdição, para
resolver conflitos de forma definitiva. Nas hipóteses em que um juiz se manifesta,
sua decisão deve ser cumprida, para que haja a estabilidade necessária à sociedade
organizada e ao bem comum” (Sêda, 2007, p. 53; grifos meus).
Ora, evidentemente isso é apenas a face imediata e aparente do Poder Judi-
ciário, aparência que se desvanece quando começamos a pesquisar seu real signi-
ficado na sociedade burguesa. O que o Poder Judiciário resolve “de forma defini-
tiva” não são os problemas das pessoas ou da sociedade em geral, mas problemas
e questões jurídicas, o que é muito diferente.
A chamada “tutela jurisdicional” protege bens jurídicos, que são mediações
criadas socialmente e representam aquilo que uma sociedade definiu que deve ser

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protegido pela lei e pela coercitividade do Estado. Por exemplo, assim como o
bem jurídico protegido pela criminalização do homicídio é a vida, o bem jurídico
protegido pela criminalização do roubo é a propriedade. E esses dois “bens” são
de naturezas essencialmente diferentes. Sem o primeiro, não há nenhuma relação
social, pois a vida, obviamente, tem prioridade sobre qualquer outra determinação
para o ser social; mas a segunda, a propriedade, é apenas e tão somente uma
criação humana, uma abstração jurídica. A propriedade é um bem jurídico do
mundo burguês.
Porém a “propriedade” não pode ser atingida ou fragilizada porque faz
parte da sustentação da ordem natural criada pelas relações burguesas de produ-
ção. Por isso é que a lei, no caso dos conflitos fundiários, ao fim e ao cabo, acaba
protegendo sempre a propriedade, e não necessariamente o proprietário. Isso
porque a propriedade aqui adquire um papel muito mais importante do que apenas
o de ser o direito de usufruto de um bem por alguém. Ela significa condição de
existência de uma relação social de exploração de homens sobre outros homens.
Mesmo que, em alguns casos, busque‑se até argumentar pela função social da
propriedade, será aquele outro sentido dela que prevalecerá sempre. Vê‑se isso
na maioria dos processos de desocupação de terrenos ocupados pela população
carente de moradia.
Tendo isso consciente, nenhum assistente social poderia ter dúvidas, por
exemplo, se fosse chamado a atuar em desocupações, de qual postura profissional
e ética deveria ter. A justiça ou o universo jurídico “deixados a si mesmos” atuarão
sempre nesse sentido: de restituir a “ordem das coisas”, embora, como vimos, uma
ordem produtora — e tendencialmente reprodutora de desigualdades. Se os homens
e mulheres que adquirem consciência desse processo não atuarem no sentido de
incrustar nele elementos de negatividade (resistências, oposições etc.), ele se mo-
verá sempre nessa direção, e as mediações que serão produzidas serão sempre
aquelas que servem à reiteração da ordem.
E aqui podemos apontar mais um dos desafios que estão postos para os assis-
tentes sociais que atuam nessa área: a tendência de incorporarem, como sendo
atribuição de sua profissão, ou de seu fazer profissional, os instrumentos de “aferi-
ção de verdades jurídicas”, como o são o exame criminológico ou a inquirição de
vítimas ou testemunhas, sob a eufemística ideia da “redução de danos”.
E aí, nesses espaços nos quais vem imperando a lógica da judicialização das
expressões da questão social e da criminalização das parcelas mais subalternizadas
da população, o que tem que ser defendido como sendo próprio de nossa interven-

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ção é o estudo social (ver Fávero, 2003). O que é próprio de nossa intervenção é o
estudo social, que, a partir de aproximações possíveis, deve buscar reproduzir as
determinações que constituem a totalidade sobre a qual somos chamados a emitir
um parecer técnico. Como já exposto, para essa reprodução ser o mais fiel possível,
devemos ser capazes de capturar, pela análise, as mediações fundamentais que dão
forma à realidade sobre a qual estamos pesquisando e as negatividades que lhe dão
o movimento.
Esse trabalho de pesquisa em nada se assemelha à reprodução imediata e
superficial do existente, ou à reprodução literal das palavras de um presidiário,
que está sendo entrevistado por nós, ou de um casal que está em litígio pela guar-
da de um filho em uma Vara de Família. Por ser‑nos demandado, nessa esfera, um
estudo de situações complexas, nosso trabalho, também ele, torna‑se de alta com-
plexidade, o que, a bem da verdade, nos impediria de fazer um laudo ou um parecer
a partir de um contato de vinte minutos com alguém. Mas em muitos locais é isso
que nos está sendo exigido.
A armadilha está em o assistente social ir se tornando prisioneiro do pos-
sibilismo mais ordinário: se só é possível fazer isso, então vamos fazer, pois,
caso contrário, o preso ficará sem um laudo e não poderá progredir de regime…
O assistente social passa a considerar que aquilo é uma forma de “redução de
danos”.
É o mesmo raciocínio que se usa para justificar a atuação junto a crianças
vítimas de violência sexual: para garantir que a criança não tenha que ser ouvida
várias vezes sobre a violência sofrida, passo a admitir que ela seja ouvida de uma
forma que também viola seus direitos e traz danos à sua vida psíquica, como vários
especialistas já apontaram. E pior: contribuo para reforçar a visão de que a saída
está no encarceramento dos pretensos agressores, em um cenário no qual a prisão
só tem servido para tornar homens e mulheres muito piores do que quando entraram
para o sistema prisional.
E aqui entramos em mais uma das armadilhas que estão postas no cotidiano
de quem trabalha na esfera do chamado sistema de justiça: nessa área há um risco
enorme de o assistente social deixar‑se envolver pela “força da autoridade” que
emana do poder de resolver as questões jurídicas pela impositividade, que é o que
marca o campo sociojurídico, e “encurtar” o panorama para onde deveria voltar‑se
sua visão de realidade, deixando repousar essa mirada na chamada lide, ou no
conflito judicializado propriamente dito; passando a agir como se fora o próprio
juiz, ou como um “terceiro imparcial”, mas cuja determinação irá afetar profunda-

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mente a vida de cada pessoa envolvida na lide. Por exemplo, em um processo em
que alguém está sendo acusado de negligência para com uma criança, seja o pai ou
a mãe: a decisão judicial buscará “recompor o direito da criança que foi violado”,
podendo, no limite, alijar ou esse pai ou essa mãe, ou ambos, do poder familiar
sobre essa criança. O assistente social, diferentemente de um juiz ou de um promo-
tor, diante de um caso assim, terá que olhar para a totalidade da problemática e suas
consequências, e não só para a proteção dos direitos da criança que, sem dúvida,
será o foco da atenção do juiz.
O mesmo ocorre quando estamos lidando com problemas relacionados a uma
denúncia de abuso sexual. Para um juiz da área criminal, o que estará em seu foco
de atenção será a reconstituição de uma verdade jurídica para a incriminação do
suposto abusador. Por isso, para ele são tão importantes as provas. Já o foco de
trabalho de um assistente social terá que ser muito mais amplo e profundo, para
que possa atuar visando a proteção de direitos de todos os envolvidos. Sobre isso
é importante ter contato com as pesquisas e a literatura especializada que já co-
meça a surgir sobre o tema, principalmente aquelas que vêm discutindo de forma
crítica os chamados depoimentos especiais, ou escutas especiais, de crianças víti-
mas de abuso sexual (ver AASPTJSP/Cress/9ª Região, 2012; Azambuja, 2011),
esta última uma importante promotora de Justiça que buscou seu doutoramento na
área de Serviço Social para abastecer‑se das reflexões realizadas em nossa área de
conhecimento.
Deve‑se chamar a atenção, ainda, para outro desafio que se põe no cotidiano
dos assistentes sociais: ao assumir para si as demandas e as práticas institucionais
sem questioná‑las, apenas reproduzindo respostas fiscalizadoras dos comportamen-
tos, e criminalizadoras dos sujeitos que são alvo da ação judicial, passam a não se
ver, eles mesmos, como trabalhadores, e não participam dos movimentos próprios
da classe trabalhadora, de seus sindicatos, de suas entidades representativas, de seus
fóruns de debates. É comum hoje vermos muitos e muitos profissionais afirmando
coisas do tipo: “não participo desse ou daquele movimento porque são movimentos
políticos, e minha atuação é técnica e não política…”. Tem‑se até a impressão de
que esses colegas se consideram como uma “elite” que não está sujeita aos mesmos
constrangimentos societários que a classe trabalhadora em geral sofre. E presas
fáceis dos processos de alienação, muitos assistentes sociais não conseguem dar o
passo seguinte, ou até simultâneo, às suas intervenções profissionais, que é o passo
da participação nos movimentos coletivos e organizados de sua classe.

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Para finalizar, é importante destacar que a atuação de um assistente social
nessa área não pode estar a serviço da culpabilização, da vigilância dos comporta-
mentos ou dos julgamentos morais. Tampouco pode servir ao engodo de grande
parte das instituições jurídicas que, em virtude da precarização e do desmonte que
em seu interior foi promovido, ficam apenas fazendo “os processos judiciais anda-
rem” com atos meramente burocráticos e burocratizantes.
Nosso trabalho tem que ser no sentido da oposição a esse estado de coisas, na
resistência às mais diferentes formas de alienação, questionando e adensando nos-
sos estudos sociais com os dados da realidade; levando para o interior dos autos
dos processos o direito que vem “da rua”, “dizendo o direito da rua” e dos movi-
mentos sociais que também exigem justiça.
Nosso papel não é o de “decidir”, mas o de criar conhecimentos desalienantes
a respeito da realidade sobre a qual vai se deliberar naquilo que se refere à vida de
pessoas. E há importantes espaços para isso no interior desse universo, uma vez
que até mesmo os juristas mais conservadores sabem que a situação de fato impe-
ra sobre qualquer direito.

Marx escreveu em algum lugar:

“Direito contra direito, vence a força…”

Ousamos parafrasear o mestre alemão:

Direito contra direito pode vencer a força dos que se juntam


na busca da real democratização das relações sociais,
para a ultrapassagem da ordem do capital.

Recebido em 3/6/2013  ■  Aprovado em 10/6/2013

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013 439
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442 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 407-442, jul./set. 2013
Jogos de poder nas dobras do legal e do ilegal:
anotações de um percurso de pesquisa
Games of Power between the lines of the legal and the illegal:
notes of a research

Vera Telles*

Resumo: O texto volta‑se para os jogos de poder que se processam


justamente nas dobras do legal e ilegal, formal e informal. Se é verda-
de que a transitividade de pessoas, bens e mercadorias nas fronteiras
incertas do legal e ilegal, formal e informal, constitui um fenômeno
transversal da experiência contemporânea e está no cerne dos proces-
sos de mundialização, argumenta‑se que nem por isso a passagem de
um lado a outro dessas fronteiras porosas é coisa simples. A questão
que se procura trabalhar nesse texto é que esses campos de força ofe-
recem uma via de entrada para entender o lugar e o papel do Estado
nos ordenamentos sociais, pondo em foco os modos de operação das
forças da lei e da ordem em contextos situados, sob a perspectiva do
que alguns autores vêm propondo nos termos de uma “antropologia
do Estado”.
Palavras‑chave: Práticas urbanas. Ilegalismos. Jogos de poder. Antro-
pologia do Estado.

Abstract: The article is about the games of power that exist between the lines of the legal and the
illegal, the formal and the informal. If it is true that the transitivity of people, goods and merchandise
on the uncertain borders between the legal and the illegal, the formal and the informal is a transversal
phenomenon of the contemporary experience and that it is in the center of the globalization processes,
that does not mean the passage from one side to the other one of those porous borders is simple. What
we discuss in this article is that those fields of force offer an entry to understand the importance and
the role of the State in the social planning, focusing the way the forces of law and order operate in
situated contexts, under the view of what some authors have been calling a “state anthropology”.
Keywords: Urban practices. Illegalism. Games of Power. State anthropology.

* Professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.


Pesquisadora e vice‑coordenadora do Laboratório de Pesquisa Social (USP). E‑mail: tellesvs@uol.com.br;
www.veratelles.net.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 443
E
ste texto trata dos jogos de poder inscritos na trama dos ilegalismos que
se alojam, hoje, no cerne da vida e da economia urbana, aqui e alhures.
O ponto de partida do que se pretende discutir diz respeito a um mundo
urbano alterado e redefinido por formas contemporâneas de produção e
circulação de riquezas, que ativam os circuitos da chamada economia informal, que
mobilizam as várias figuras do trabalho precário e se processam nas fronteiras in-
certas do formal e informal, legal e ilegal, também o ilícito. Tomo como referência
empírica a cidade de São Paulo, tendo em mira processos transnacionais que colo-
cam essas reconfigurações em ressonância com o que vem ocorrendo em outros
lugares. E é isso que coloca a questão de se entender o modo como esses desloca-
mentos e essas reconfigurações se processam nos circuitos urbanos de circulação
de riquezas e as relações de poder inscritas em seus pontos de interseção.
Essas são questões que tentei trabalhar em textos anteriores, apoiando‑me nos
percursos de uma pesquisa já de muitos anos em duas frentes articuladas de inves-
tigação: os mercados de consumo popular no centro da cidade e o varejo da droga
em um bairro da periferia de São Paulo. De forte conteúdo etnográfico, essas pes-
quisas nos permitiram seguir e descrever essa transitividade de pessoas, bens e
mercadorias entre o formal e o informal, o legal e ilegal, o lícito e o ilícito. Mais
ainda, o mais importante: essas pesquisas nos permitiram flagrar as fricções engen-
dradas nas passagens dessas fronteiras porosas. Fronteiras porosas, mas não vazias:
os espaços não são lisos, e sim estriados, para usar os termos de Deleuze e ­Guatarri,
e é justamente nesses estriamentos que se dão os agenciamentos políticos que con-
dicionam (permitem, bloqueiam, filtram, direcionam) essa circulação de pessoas,
bens e mercadorias nos espaços urbanos.
Em um primeiro momento, essas questões se apresentaram nas filigranas dos
percursos, que tratamos de reconstituir, de trabalhadores que lançavam mão de
forma descontínua e intermitente das oportunidades legais e ilegais que coexistem
e se superpõem nos mercados de trabalho: as “mobilidades laterais” entre o formal
e o informal, legal e ilegal, para usar os termos de Ruggiero e South (1997) ao
descreverem situações parecidas, alojadas, hoje, no coração das economias urbanas
também dos países do Norte. Ao seguirmos esses percursos, chamava‑nos a atenção
o modo como os indivíduos transitavam (e transitam) nas fronteiras porosas do
legal e do ilegal, fazendo uso dos códigos e repertórios de ambos os lados. Sobre-
tudo, chamava‑nos a atenção o exercício de algo como uma “arte do contornamen-
to” dos constrangimentos, ameaças e riscos (também riscos de morte) inscritos
nesses pontos de passagem: o pesado jogo de chantagem e extorsão de fiscais de

444 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
prefeitura e das forças da ordem; a violência da polícia sempre presente nesses
percursos; também os controles mafiosos de territórios e pontos de venda; bem
como a eventualidade de algum desarranjo nos acertos instáveis com os empresá-
rios do ilícito (não apenas dos negócios da droga). “Ardis de uma inteligência
prática”, essa noção trabalhada por Vernant e Detienne (1974) nos foi especial-
mente valiosa para entender o modo como os indivíduos lidam com as circunstân-
cias movediças nas fronteiras do legal‑ilegal e fazem, a cada situação, a negociação
dos “critérios de plausibilidade moral” de suas escolhas, para usar os termos de
Ruggiero e South ao caracterizar a lógica da “economia de bazar” que hoje se
instala no coração das economias urbanas: nos termos nativos, os critérios do
“certo” e do “errado” — “é preciso andar pelo certo” é a expressão que se ouve
nesses lugares. Também: o modo como, nesses pontos de fricção, os indivíduos
negociam os parâmetros do aceitável e os limites do tolerável nos jogos de poder
que se estruturam nesse seu encontro com as injunções da lei e da ordem (Telles e
Hirata, 2010; Telles, 2010a; Hirata, 2010).
Esses agenciamentos práticos nas dobras do legal e ilegal nos pareciam (e nos
parecem) estratégicos para entender os ordenamentos sociais que se processam nos
circuitos dos mercados informais e ilegais da cidade. Foi daí que partimos, desdo-
brando nossas questões de pesquisa na medida em que tratamos de entender a
mecânica desses agenciamentos. O que poderia ser visto como versão atualizada
da “viração” associada à cultura popular ou à “dialética da malandragem”, para
lembrar aqui o texto famoso de Antonio Candido, passava a ganhar outra fatura.
Muito longe das visões algo pacificadas do mundo social veiculadas por essas ex-
pressões, essas dobraduras do legal e ilegal pareciam circunscrever jogos de poder
e relações de força, campos de tensão e de conflito, que precisariam ser bem enten-
didos. Certamente, algo constitutivo da “economia de bazar,” para reter os termos
de Ruggiero e South e que, no caso de nossas cidades, carrega uma história de
longa data, acompanhando os percursos dos desde sempre expansivos mercados
informais, sempre próximos e tangentes aos mercados ilícitos, entrelaçados, ambos,
nos tempos, fatos e circunstâncias da história urbana. Mas esses agenciamentos nos
pareciam, sobretudo, estratégicos para entender as inflexões recentes desses mer-
cados por conta de suas conexões com os circuitos ilegais de economias transna-
cionais. No coração da modernidade globalizada da(s) cidade(s), esses mercados
mudaram de escala e ganharam outras configurações, acompanhando ritmos e
evoluções aceleradíssimos da abertura dos mercados e expansão de circuitos trans-
nacionais por onde circulam bens e mercadorias, transpassando fronteiras, regula-

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 445
mentações, restrições nacionais, de que o fenômeno maciço do contrabando e fal-
sificações é o registro visível nos centros urbanos dos países a norte e a sul, leste e
oeste do planeta. Em São Paulo, no mesmo período e mais intensamente a partir
dos anos 2000, o mercado varejista de droga se estruturou de forma mais ampla e
mais articuladas do que em décadas passadas. Mas isso também significa dizer que
a expansão da economia da droga e suas capilaridades no mundo urbano acompa-
nharam a aceleração dos fluxos de circulação de riquezas em uma cidade que, no
correr desses anos, também se firmou e se confirmou na potência econômica e fi-
nanceira própria de uma cidade globalizada (Telles, 2010b).
O fato é que essa ampla circulação de bens, produtos e populações que tran-
sitam nesses mercados depende, em grande medida, dos agenciamentos políticos
que se fazem justamente nas dobras do legal‑ilegal, formal‑informal: corrupção,
mercados de proteção e práticas de extorsão que variam conforme circunstâncias,
contextos e microconjuturas políticas e, sobretudo, dos níveis de tolerância ou in-
criminação que pesam sobre essas atividades. O que, em um primeiro momento,
aparecia nas filigranas das “histórias minúsculas” que recolhíamos em nosso tra-
balho de campo ganhava outra envergadura e delineava a face política desses
mercados. E era isso que nos parecia (e nos parece) importante de ser bem enten-
dido. Aqui, nesse registro, noção de mercadoria política proposta por Michel Mis-
se (2006) foi (e é) de especial importância para conferir inteligibilidade a esses
agenciamentos nas dobras do legal e do ilegal. É uma noção que opera efetivamen-
te como um operador analítico: desativa a categoria moral‑normativa de corrupção,
desloca a discussão do campo da avaliação moral dessas práticas e define um es-
paço conceitual a partir do qual é possível deslindar a dinâmica política desses
mercados, melhor dizendo: o lugar do Estado na formação e estruturação desses
mercados. O que está aqui sendo formulado como dobras do legal e ilegal qualifica‑se
e ganha em precisão. Nos termos de Misse, trata‑se da articulação desses mercados,
informais e ilícitos, como um outro mercado, um mercado político, também ilegal,
que passa por dentro dos aparatos legais oficiais e nos quais são transacionadas as
mercadorias políticas (acordos, suborno, compra de proteção, corrupção) dos quais
dependem o funcionamento desses mercados e que são constitutivos de seus modos
de regulação.
Nas páginas que seguem, gostaria de retomar e desdobrar algumas dessas
questões na tentativa de avançar o que pode ser entendido como pistas e hipóteses
de trabalho a serem experimentadas em nossas pesquisas.

446 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
A discussão que se segue organiza‑se em torno de duas ordens de questões:
Primeiro ponto: os campos de força que se estruturam nas dobras do legal e
ilegal. Isso me parece importante para conferir estatuto (e tirar consequências) à
dinâmica dos conflitos, disputas e tensões que se armam nesses pontos de fricção
com as forças da lei e da ordem, no jogo oscilante de práticas que transitam entre
tolerância, formas de negociação, dispositivos de controle e repressão. É por esse
prisma que se pode dizer que nesses campos de força se processa uma disputa pelos
sentidos de ordem e seu inverso, bem como dos critérios de legitimidade dos orde-
namentos sociais que vêm se engendrando nas fronteiras incertas — em disputa
— do legal e legal. Essa é uma hipótese lançada em textos anteriores (Kessler e
Telles, 2010a; Telles e Hirata, 2010; Telles, 2010) e que eu gostaria de retrabalhar
nas páginas que se seguem. Ainda: o lugar estratégico da transação das mercadorias
políticas na interface desses mercados com os poderes públicos nos permite avan-
çar uma segunda hipótese: são jogos de poder que se fazem nos pontos em que se
entrelaçam as redes urbanas de circulação de riquezas e as redes de poder em dis-
puta em torno dos modos de apropriação dessa riqueza circulante. É isso o que
parece estar em pauta nos conflitos e disputas instalados nos meandros urbanos do
comércio informal e ilegal.
Segundo ponto: o estatuto e o lugar das etnografias desses mercados, informais
e ilegais. Já aviso, de partida, que não se pretende entrar aqui na espinhosa polêmi-
ca, cara aos antropólogos, sobre a escrita etnográfica. Tampouco se pretende en-
frentar a também espinhosa discussão sobre os desafios teórico‑metodológicos
postos pelas dinâmicas transnacionais que redefinem por inteiro o campo empírico
do trabalho etnográfico. Essas são questões importantes, mas sua discussão ficará
para outro momento. Aqui, o ponto é outro e diz respeito ao conhecimento que se
pode produzir na descrição desses agenciamentos políticos, que nos interessa aqui
bem entender. Na verdade, é uma terceira hipótese que eu gostaria de experimentar,
uma hipótese teórico‑metodológica que diz respeito ao modo de tratar a presença
(e lugar) do estado e dos dispositivos legais nesses mercados e que remete ao que
alguns autores vêm propondo nos termos de uma antropologia do Estado visto pelo
ângulo de suas práticas em contextos situados ou, como propõem Das e Poole
(2004), a partir de suas “margens”. Nesse plano, a etnografia desses mercados
desdobra‑se em uma etnografia política, colocando em mira os jogos de poder e
relações de força que se processam nesses campos de disputa. Por essa via, podemos
entender algo das dimensões políticas envolvidas nesses mercados.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 447
Fronteiras da lei como campo de disputas

Antes de mais nada, será preciso se deter sobre essa transitividade entre o
formal e o informal, legal e ilegal, e também o ilícito, que está no centro das dinâ-
micas urbanas de nossas cidades. De partida, vale dizer que se trata de uma trama
intrincada de relações que torna inviável sustentar definições fixas, categoriais e
normativas dessas categorias. De um lado, ao longo das rotas transnacionais dos
circuitos informais, os produtos passam, como bem nota Rosana Pinheiro‑Macha-
do (2008), por verdadeiras metamorfoses legais, na própria medida em que os có-
digos formais e parâmetros legais variam de um país a outro, como também varia
o grau de tolerância das autoridades locais em relação a essas práticas mercantis.
Por outro lado, a etnografia desses mercados mostra uma composição variada de
procedimentos e expedientes formais e informais, legais e ilegais postos em ação
para a circulação e transação desses produtos: as mercadorias podem ter uma origem
formal legal, chegando ao consumidor pelas vias das práticas do comércio de rua,
da fraude fiscal nas lojas em que são negociadas, passando (ou não) pelos trajetos
do “contrabando de formiga” nas regiões de fronteira ou, então, pelos trajetos mais
obscuros e mais pesados dos empresários dos negócios ilegais que agenciam o
contrabando dos produtos que chegam pelos contêineres desembarcados nos prin-
cipais portos do país (cf. Freire, 2012). Os atores também transitam de um lado e
de outro das fronteiras porosas do legal e do ilegal: ambulantes em situação regu-
larizada pela Prefeitura, mas que se abastecem de produtos de origem incerta,
quase sempre indiscernível (contrabando, falsificações, “desvio”); pequenos co-
merciantes envolvidos nos negócios do contrabando, mas que cuidam de respeitar
(na medida do possível) os códigos legais na montagem de seus negócios. Ainda:
migrantes bolivianos em situação regularizada e que estão à frente (patrões) de
confecções de produtos falsificados, infringindo ao mesmo tempo códigos da le-
gislação do trabalho, além do emprego de migrantes em situação irregular (conter-
râneos e outros, como os paraguaios), tudo isso se compondo (mas nem sempre),
sob modulações variadas, em uma nebulosa de situações incertas entre o legal e o
ilegal que acompanham as extensas redes de subcontratação vinculadas ao pode-
roso e globalizado circuito da moda e das grifes famosas (Côrtes, 2013). Também:
empresários chineses bem estabelecidos, migração mais antiga, situação regulari-
zada e de posse de títulos da cidadania brasileira e que, como mostra a pesquisa de
Douglas Toledo Piza (2012), fazem uso dos recursos legais de que dispõem para se

448 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
lançar nos nebulosos negócios de importação (quer dizer: contrabando) e os negó-
cios imobiliários, também nebulosos, vinculados às galerias que se multiplicaram
nos últimos anos nos centros do comércio popular em São Paulo.
Quanto aos mercados de bens ilícitos, essa transitividade entre o formal e o
informal, legal e ilegal, processa‑se nos meandros da “economia de bazar” que
hoje se instala no coração dinâmico das economias urbanas. É questão que também
aparece nas filigranas das etnografias desses mercados: uma superposição de ati-
vidades informais e ilegais na qual os fluxos de dinheiro, de mercadorias, de bens
de origem ilícita e também as drogas se entrecruzam em um complexo sistema de
trocas, se inscrevem no jogo das relações sociais e passam a compor as dinâmicas
urbanas que transbordam amplamente o perímetro dos territórios da pobreza.
Mesmo quando se considera as atividades inequivocamente criminosas (quer dizer:
sujeitas aos processos de incriminação), como é o caso dos pontos de venda de
droga em um bairro de periferia, as situações perdem a nitidez suposta nessas
formas de tipificação quando seguimos os traços dos percursos de bens e pessoas
nas dinâmicas locais e do entorno imediato. Assim, por exemplo, na região em que
fazemos nossas pesquisas, temos o exemplo do traficante local, patrão da “biquei-
ra” instalada no bairro e que, preocupado com o seu futuro e o de sua família,
trata de abrir um pequeno empreendimento no entorno próximo, uma loja de
roupas ou, então, no caso de um gerente desse mesmo ponto de droga, uma
lan‑house intensamente frequentada pelos jovens da região. Um e outro, com a
expertise própria dos que sabem lidar com os meandros das atividades ilegais,
tratam de se precaver e evitar complicações com fiscais da Prefeitura, de tal modo
que seus empreendimentos, na contramaré do que acontece em todos os lugares,
são mais do que legais — produtos comprados em lojas, com nota fiscal, nada
pirateado, nada falsificado, tudo comprovado e tudo muito bem documentado em
registros formais legais. Ao mesmo tempo em que se tornam pequenos empreen-
dedores locais, são eles, junto com outros tantos de seus parceiros nos negócios
ilícitos, que fazem circular algo como os “excedentes” dos negócios da droga ao
promover melhorias nos campos de várzea, distribuir cestas básicas, organizar
festas juninas e, não poucas vezes, fazer a mediação e a negociação com órgãos
da Prefeitura responsáveis por esses assuntos locais. A descrição dessas situações
já foi feita em outras ocasiões e não é o caso de retomá‑las (cf. Telles e Hirata,
2007, 2010; Telles, 2009, 2010; Hirata, 2010).
Poderíamos multiplicar os exemplos. Por ora, importa salientar essa multipli-
cidade e heterogeneidade interna às situações de formalidade ou legalidade, tanto

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 449
quanto às situações informais e ilegais. Esta é a primeira questão a ser destacada:
as fronteiras do legal e do ilegal não são lineares, muito menos dicotômicas. Dis-
positivos (e práticas) formais e informais, legais e ilegais, operam como agencia-
mentos práticos, situados, fazendo a combinação de recursos e repertórios de um
lado e de outro; algo como marcadores e pontos de referência que fazem o traçado
de territórios rizomáticos transpassados por redes superpostas de coisas e pessoas,
transversais às várias situações de vida e trabalho e que se desdobram em outras
tantas situações e outras tantas teias de relações situadas em outros contextos pró-
ximos ou superpostos (cf. Chauvin, 2009; Fischer e Spire, 2009; Heyman, 1999).
No entanto, se há porosidade nas fronteiras do legal e do ilegal, formal e in-
formal, nem por isso a passagem de um lado a outro é coisa simples. Esse é o se-
gundo ponto a ser discutido, o mais importante: leis e códigos formais têm efeitos
de poder e condicionam o modo como esses mercados e essas atividades se estru-
turam. Circunscrevem campos de força e é em relação a eles que essa transitivida-
de de pessoas, bens e mercadorias precisa ser bem situada. E, a rigor, descrita. São
campos de força que se deslocam, se redefinem e se refazem conforme a vigência
de formas variadas de controle e também, ou sobretudo, os critérios e procedimen-
tos de incriminação dessas práticas e dessas atividades, oscilando entre a tolerância,
a transgressão consentida e a repressão.
Essas fronteiras, portanto, são politicamente sensíveis. E circunscrevem cam-
pos de disputa em que se combinam e se alternam a negociação, formas de contro-
le, tolerância e repressão. É por esse prisma que se pode dizer que nesses campos
de força se processa uma disputa surda ou aberta sobre os sentidos de ordem e o
seu inverso, bem como dos critérios de legitimidade dos ordenamentos sociais
(também em disputa) que vêm se engendrando nessas fronteiras incertas.

* * *

Se é verdade que essa transitividade entre o legal e ilegal, entre o formal e


informal vem sendo flagrada em inúmeras pesquisas e está no cerne das questões
discutidas por vários autores, também é verdade que as dimensões políticas dessas
práticas e dessas atividades nem sempre são problematizadas. E é isso que será
preciso entender. O fato é que se há porosidade nas fronteiras do legal e ilegal,
formal e informal, nem por isso a passagem de um lado a outro é coisa simples.
Esse o ponto a ser discutido: leis e códigos formais têm efeitos de poder e condi-
cionam o modo como esses mercados e essas atividades se estruturam. Circunscre-

450 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
vem campos de força e é em relação a eles que essa transitividade de pessoas, bens
e mercadorias precisa ser situada. E, a rigor, descrita. São campos de força que se
deslocam, se redefinem e se refazem conforme a vigência de formas variadas de
controle e também, ou sobretudo, os critérios e procedimentos de incriminação
dessas práticas e dessas atividades, oscilando entre a tolerância, a transgressão
consentida e a repressão conforme contextos, microconjunturas políticas e as rela-
ções de poder que se configuram em cada qual.
Essas fronteiras, portanto, são politicamente sensíveis. E isso significa dizer
que será importante colocar no foco da análise justamente os jogos de poder que
se processam nas dobras do legal e ilegal, do formal e informal. É por esse prisma
que se pode dizer que nesses campos de força se processa uma disputa surda ou
aberta sobre os sentidos de ordem e o seu inverso, bem como dos critérios de legi-
timidade dos ordenamentos sociais (também em disputa) que vêm se engendrando
nessas fronteiras incertas.

* * *

Para bem situar essas questões, permito‑me lançar mão de uma situação tra-
balhada por Maria Pita (2012) em Buenos Aires: é uma situação que nos interessa,
pois, no conflito aberto em torno dos ambulantes senegaleses, é possível apreender
o que parece estar em jogo nos campos de disputa que se armam nos centros de
comércio popular em São Paulo, quiçá em outros lugares. Migrantes recentes, em
sua maioria em situação irregular, desenvolviam um comércio de rua interditado
pelos códigos urbanos nos locais em que se instalaram. As denúncias se multipli-
caram: maus‑tratos por parte das forças policiais, violência, abuso de poder, discri-
minação racial, além da expropriação de bens e ganhos obtidos com o comércio
informal. Também, o mais importante: o escândalo da diferença de tratamento em
relação a outros ambulantes, com os quais prevaleciam os arreglos e transações em
troca da garantia de não serem molestados. A situação terminou por mobilizar ad-
vogados ativistas dos direitos humanos e desdobrou‑se nas instâncias judiciais para
resolver um litígio, no qual estavam em jogo os modos de aplicação da lei e os
modos de operação das forças da ordem. Este é o ponto que me interessa frisar: nas
cenas descritas por Maria Pita, os sinais do legal e ilegal se invertem, colocando
em foco as irregularidades, quando não a ilegalidade dos modos de operação das
forças da ordem. Quer dizer: os arreglos e a compra de proteção para uns; a vio-
lência extralegal para os outros, os senegaleses. Quanto a esses, a suposta ilegali-

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dade de suas atividades também foi colocada em questão em uma disputa de inter-
pretação da própria lei, dadas as ambivalências dos códigos urbanos que abriam
brechas pelas quais as atividades de sobrevivência que eles desenvolviam não
poderiam ser tipificadas como ilegais, nem crime, nem contravenção. No final, a
solução não foi favorável aos senegaleses: em nome da lei e da ordem, os poderes
de polícia foram reafirmados como modo de gestão e regulação desses territórios.
Muito concretamente, esse o outro ponto a ser enfatizado: o seu poder de aplicar
— ou não aplicar — a lei, sob a lógica própria de seu poder discricionário, autori-
zando uns e interditando outros, tipificando os delitos de uns e outros (crime,
contravenção), abrindo a uns (e não a outros) o ambivalente jogo de acordos, entre
chantagem e compra de proteção em troca da não aplicação da lei.
Essa cena aberta em torno dos senegaleses em Buenos Aires nos oferece, em
filigrana, o que parece estar contido nos campos de força estruturados nos mercados
informais de São Paulo. Assim, por exemplo: para contornar as formalidades legais
e ampliar o raio de ação no combate à pirataria, as forças policiais não hesitam em
lançar mão de outros modos de tipificação legal: crime contra as relações de con-
sumo; sonegação fiscal ou formação de quadrilhas (quer dizer: enquadramento na
definição de crime organizado). Ou, então, por desacato à autoridade no caso dos
incautos que não acatarem a voz de comando da Polícia Militar, que hoje está à
frente de um aberto e ofensivo “combate” aos ambulantes “irregulares”, por conta
de um muito controvertido acordo da Prefeitura de São Paulo e o governo do Es-
tado, a chamada “Operação Delegada”: a rigor, como diz Daniel Hirata (2012), uma
“gambiarra jurídica” que suspende as circunscrições legais que definem as atribui-
ções da Polícia Militar, de modo a ampliar o seu espaço de atuação nesse terreno
em que as funções de fiscalização e controle eram de responsabilidade de outras
instâncias políticas (fiscais da Prefeitura) e outros órgãos de polícia. Sob a lógica
muito moderna e muito contemporânea das “tecnologias securitárias como modo
de gestão do espaço urbano” (Hirata, 2012), processa‑se a simbiose entre ordem
pública e segurança urbana. Na prática, como enfatiza Hirata, uma legislação de
exceção que amplia os poderes discricionários da polícia na execução dessas ope-
rações, alterando as formas de controle e os modos de incriminação das transgres-
sões legais ou irregularidades urbanas do comércio de rua.
Trata‑se, certamente, de um endurecimento das formas de controle. Mas é
também importante notar o modo como as forças da ordem operam. É nesse plano
miúdo e cotidiano que se pode flagrar o poder discricionário de que dispõem as
forças policiais nos modos de aplicar (ou não aplicar) a lei e que se duplica e se

452 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
amplia na própria medida da imprecisão inscrita nos códigos legais, ainda mais
quando se referem a situações também elas muito embaralhadas e intrincadas
quanto ao estatuto das atividades desenvolvidas. Mas é nesse terreno que entram
em cena práticas nebulosas que oscilam entre acordos, corrupção, troca de favores,
compra de proteção — enfim, a transação das mercadorias políticas, sempre no
limiar da chantagem, da extorsão e também dos usos da violência extralegal.
Como mostra Carlos Freire (2012), esses dispositivos de controle acompanham
programas de intervenção urbana que redefinem regras, critérios e procedimentos
para a distribuição e a ocupação do comércio de rua nesses espaços, bem como a
atribuição de garantias a uns, a suspensão de autorização a outros ou, então, a in-
terdição das atividades a outros tantos. Ao mesmo tempo, novos dispositivos jurí-
dicos são colocados em ação, como exigência para a formalização dessas atividades,
introduzindo novas clivagens, as quais, na prática, deslocam e redefinem as próprias
fronteiras do que é considerado formal e informal, legal e ilegal. Na fina etnografia
que Carlos Freire faz das mutações recentes desses mercados, as regulações estatais
postas em operação poderiam ser vistas como “um conjunto de táticas que recriam
a informalidade, transformando‑a em governamentalidade” (Alsayyad e Roy, 2009),
táticas que combinam dispositivos políticos‑jurídicos (promoção do chamado
empreendedorismo, conversão dos ambulantes em microempreendedores), o uso
da coerção para impor as novas regras do jogo e a repressão aberta, quando não o
uso da violência extralegal justificada em nome do “combate à pirataria” e a “guer-
ra ao crime” agora associado ao comércio de rua nesses lugares. Há toda uma
cartografia política do comércio que se redefine, cujos contornos são cambiantes
tanto quanto as regras — em disputa — que regem o acesso e o funcionamento
desses mercados, ao mesmo tempo em que há legião de ambulantes que, desprovi-
dos do “credenciais” de reconhecimento, são expulsos, sujeitos às formas mais
agressivas de controle e repressão, espalhando‑se por outros cantos da cidade.
Essa conjugação entre formas de intervenção urbana e dispositivos de contro-
le terminaram por estruturar um acirrado campo de disputa justamente em torno
das regras de ocupação desses espaços. Regras cambiantes e incertas quanto aos
critérios que autorizam uns e não outros para o exercício de suas atividades e que
definem sua distribuição entre os lugares mais valorizados e os que ficam nas suas
fímbrias. Campos de tensão e de conflito que também se estruturam em torno das
taxas cobradas de uns e outros para o exercício das atividades; taxas de legalidade
duvidosa em alguns casos, de legitimidade contestada em outros, até porque é tudo
mesmo muito nebuloso: nunca se sabe ao certo se são dispositivos legais ou, então,

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formas quase institucionalizadas dos mercados de proteção ou acordos mafiosos
com as autoridades informais que fazem a gestão desses espaços ou, ainda, os
meandros intrincados da corrupção, mobilizando atores e suas redes de relações:
empresários dos negócios ilegais, forças policiais, políticos e suas máquinas parti-
dárias, gestores urbanos, funcionários de agências estatais, também empresas pri-
vadas envolvidas nos chamados projetos de recuperação urbana da região e nas
quais não faltam conexões transnacionais (fontes de financiamento, acionistas,
consultores). Nos meandros dessa cadeia de relações, processam‑se os agenciamen-
tos políticos igualmente nebulosos, acordos e negociações, conflitos, disputas e,
muito frequentemente, histórias de morte.
Tudo isso é matéria da fina etnografia desses mercados que os autores aqui
citados nos entregam. Por ora, essas rápidas (e incompletas) indicações são aqui
lançadas pelas questões que suscitam. Esses dois exemplos, ou melhor, essas duas
cenas urbanas, senegaleses em Buenos Aires, ambulantes em São Paulo, fazem ver
os modos operantes da lei e dos códigos formais, melhor dizendo: as práticas e os
agenciamentos situados pelos quais a presença do Estado deixa suas marcas im-
pressas na cartografia cambiante desses territórios. Nos termos de Veena Das (2007),
“assinaturas do Estado” impressas no modo como códigos, normas, leis circulam,
são agenciados, negociados, postos em ação nos contextos situados desses territó-
rios, redefinindo a distribuição do permitido, do tolerado e do reprimido, bem como
o jogo oscilante entre a repressão e os acordos negociados, entre o legal e o extra-
legal. Altera‑se a cartografia política, tanto quanto a distribuição dos lugares, das
posições, das hierarquias na ocupação desses espaços. É importante notar que as
“assinaturas do Estado” são o registro da presença do Estado, a sua face legal‑bu-
rocrática, com diz a autora, incorporada nas regras e regulações desses espaços e
dessas atividades, nos seus dispositivos, agentes e procedimentos pelos quais elas
se efetivam, operando como uma “força gravitacional” das práticas e modos como
os atores lidam com a situação, e seus pontos de fricção, os recursos mobilizados
para contornar, resistir, enfrentar e, no final das contas, sobreviver nesses lugares
(Das, 2007).
No caso dos mercados de bens ilícitos, Gabriel Feltran (2012) nos entrega
outras tantas situações que nos ajudam a pensar essas questões. Nas três “situações
etnográficas” trabalhadas por Feltran em um bairro da periferia da cidade de São
Paulo, as “assinaturas do Estado” também circulam no modo como “crime” e
“criminosos”, “trabalhadores” e “bandidos” são qualificados (ou não) como tais
no jogo interativo (e conflitivo) com a polícia no uso de seu poder discricionário

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para aplicar (flagrante, prisão) ou não a lei (acordos, transações). Mas as “assina-
turas do estado” também circulam conforme as “credenciais” dos indivíduos en-
volvidos e que condicionam o modo como a polícia arbitra essas situações, quer
dizer, condicionam os jogos estratégicos de poder nesses contextos situados: seja
a situação legal dos indivíduos — menores de idade e, portanto, amparados pelo
Estatuto da Criança e do Adolescente, garotos em situação de “liberdade assistida”,
sob tutela de entidades sociais locais ou, então, ex‑presidiários e indivíduos em
situação de liberdade condicional e que, por isso mesmo, tentam por todas as vias
contornar o flagrante (operação de registro legal) e a volta à prisão —; seja o modo
como uns e outros se situam no interior do “mundo do crime”: o preço do acordo
varia conforme a posição do indivíduo no mercado local de drogas e conforme sua
importância no interior da organização criminosa que controla os negócios ilícitos
na região; seja, finalmente, no modo como os acordos são feitos (ou não) confor-
me essas credenciais (legais e não legais) e a rede de relações que uns e outros são
capazes de mobilizar: a família e seus “conhecimentos” no mundo do crime e nas
esferas legais, a polícia, delegados e advogados que operam a transação entre a lei
e o “crime”, grupos criminosos que arcam (ou não) com os custos dos acordos e
que se declinam conforme os protocolos de suas relações com as forças da ordem
e da lei.
Colocadas lado a lado, essas microcenas que pontuam os mercados informais
e os mercados de bens ilícitos fazem ver os modos operantes da gestão diferencial
dos ilegalismos — algo que faz parte dos modos de funcionamento do poder.1 É
importante reter a questão: a noção de gestão diferencial dos ilegalismos define um
plano conceitual que permite situar o lugar da lei e dos dispositivos formais não
como referência normativa, mas como locus de ajustamentos variáveis das relações
de poder nos meandros desses mercados e dessas atividades das quais estamos aqui
tratando (Peralva, 2010; Telles, 2010). E isso tem consequências que seria preciso
explorar.
Primeiro: é esse um espaço conceitual que nos permite situar e conferir esta-
tuto a práticas e agenciamentos políticos que se fazem nas dobras do legal e do

1. Ao cunhar essa noção, Foucault desloca a discussão da tautológica e estéril binaridade legal‑ilegal,
para colocar no centro da investigação os modos como as leis operam, não para coibir ou suprimir os
ilegalismos, mas para diferenciá‑los internamente, “riscar os limites de tolerância, dar terreno para alguns,
fazer pressão sobre outros, excluir uma parte, tornar útil outra, neutralizar estes, tirar proveito daqueles
(Foucault, 1997, p. 227). A noção de ilegalismos e gestão diferencial de ilegalismos foi tratada por mim em
trabalhos anteriores. Cf. Telles, 2009, 2010.

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ilegal. As leis, diz Foucault, “não são feitas para impedir tal ou qual comportamen-
to, mas para diferenciar as maneiras de contornar a própria lei” (Foucault, 1994, p.
716). Mas é justamente nesses torneios da lei que as questões se configuram. É isso
o que está aqui sendo visado ao se chamar a atenção para o que acontece nas dobras
do legal‑ilegal.
Segundo: as microcenas rapidamente indicadas nas páginas anteriores também
fazem ver que a gestão diferencial dos ilegalismos se processa em contextos situa-
dos. E é por referência a essa dimensão contextual que se pode apreender os cam-
pos de força e de disputa que se instauram em torno dessas fricções com a lei e o
Estado, não como entidades formais abstratas, mas na lógica de seus modos de
operação nesses terrenos que se tecem em torno dos modos incertos e diferenciados
de aplicação (ou não aplicação) da lei. É aí que se instauram campos de força que
colocam em cena uma meada de atores distribuídos nas posições e hierarquias que
conformam a cartografia cambiante desses territórios. É o terreno do arbítrio, do
uso da violência e dos dispositivos de exceção constitutivos dos modos operantes,
práticos, da lei e das forças da ordem. Mas é esse também o campo de negociações,
acordos, disputas entre os atores envolvidos, também eles transitando entre dispo-
sitivos legais e ilegais.
Terceiro: nesses contextos situados, matéria da etnografia fina desses merca-
dos e dessas atividades, é que se pode apreender a face política dessa trama de
práticas informais e ilegais, na sua interface com as forças da lei e os dispositivos
políticos, também jurídicos, que circunscrevem, para usar os termos de Fischer e
Spire (2009), as arenas da gestão dos ilegalismos. É isso que será preciso ainda bem
entender e, por essa via, conferir estatuto — político, teórico — aos conflitos e
disputas inscritos nesses pontos de fricção com a lei e que acompanham a expansão
dos ilegalismos nas tramas urbanas.

Antropologia do Estado: apontamentos


Se é importante entender o lugar do Estado e da lei nesses ordenamentos,
isso nos coloca uma questão de ordem teórico‑metodológica: de partida, será
preciso se desvencilhar das “imagens verticais” do Estado (Ferguson e Gupta,
2002; Gupta, 2006) e das definições normativas da lei e do direito. Quer dizer: o
Estado e as leis tomados como entidades unitárias (ou típico‑ideais), pressuposto

456 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013
e axioma a partir do qual tudo o que ocorre no plano das práticas efetivas aparece
no registro da falta, da falha ou, então, no caso de nossas sociedades, das “heran-
ças malditas” legadas por uma história de longa duração (Das e Poole, 2004).
Exigência, portanto, de um deslocamento de perspectivas para perscrutar as rela-
ções de poder tal como elas se processam nos contextos situados de tempo e de
espaço (Misse, 2006, 2009).
Mais ainda: exigência de um deslocamento de perspectiva para dar conta das
redefinições dos jogos de poder nesses pontos de inflexão do mundo contemporâneo
e bem situar as interrogações (outras perguntas) acerca dos ordenamentos sociais
que vêm se desenhando nas últimas décadas. Como dizem Das e Poole (2004), é o
caso de se perguntar pela relação entre práticas extralegais e os modos de funcio-
namento do Estado, algo que se instala no interior de suas funções de ordenamen-
to. É isso, dizem as autoras, que pode nos dar uma chave para entender a própria
produção da ordem, rastreando os modos de operação dos dispositivos legais e das
agências estatais, seus tempos, seus procedimentos, suas técnicas e tecnologias de
ação, em contextos situados no tempo e no espaço. Mais ainda e mais fundamen-
talmente: em vez de partir da imagem consolidada do Estado como entidade polí-
tica e administrativa que tende a se debilitar ou a se desarticular nas suas margens
territoriais e sociais (os confins do Estado, vistos como zonas sem lei, territórios
do não direito), é o caso de deslocar o campo a partir do qual as questões podem
ser formuladas. Pois é o Estado que produz essas “margens” e, sendo assim, trata‑se,
então, de rastrear o modo como “as práticas e políticas da vida nessas áreas mode-
lam as práticas políticas de regulação e disciplinamento que constituem aquilo a
que chamamos “o Estado” (Das e Poole, 2004, p. 3). São nessas margens que “o
Estado está constantemente redefinindo seus modos de governar e legislar”, justa-
mente nesses pontos de fricção com práticas e outras formas de regulação inscritas
nas tramas da vida nesses lugares.
No centro dos debates contemporâneos, essas são, certamente, questões de
fronteira, aqui apenas muito rápida e toscamente indicadas. Nos limites destas
páginas, vale dizer e enfatizar: é nesse plano que o exercício etnográfico ganha toda
a sua importância para perscrutar os agenciamentos práticos dos dispositivos polí-
ticos postos em ação, suas técnicas, protocolos e modos de operação. Não por
acaso, os autores aqui citados (e outros) chamam a atenção justamente para isso: a
importância de uma antropologia do Estado. Na formulação de Das e Poole (2004),
trata‑se de tomar como perspectiva o que acontece nas suas “margens” e, por essa
via, entender a mecânica de funcionamento do próprio Estado ao rastrear as relações

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 457
que articulam internamente lei e exceção, direito e “vida nua”. Na versão de Fischer
e Spire (2009), o ponto de mira são as arenas de gestão diferencial dos ilegalismos,
que permitem rastrear as redefinições e deslocamentos da lei e do direito (e do lugar
da lei e do direito) que acompanham o atual recentramento das atividades do Esta-
do e seus operadores em torno dos dispositivos de governamentalidade (quer dizer,
gestão das populações). Na proposta de Heymna e Smart (1999), trata‑se de colocar
em foco as práticas e processos (e não regras e estruturas) e, por essa via, entender
os nexos que articulam o Estado e práticas ilegais, que perpassam os modos de
operação de suas agências, suas instâncias e seus postos burocráticos, e que podem
abrir um caminho para o entendimento dos modos de formação e a mecânica de
funcionamento das leis e do Estado. É sob essa perspectiva, dizem os autores, que
é possível se desvencilhar do cânone que postula o Estado como entidade unitária
e portador de uma única racionalidade. O Estado não é uma invenção da lei e da
ordem, dizem os autores, mas uma rede complexa do legal e do ilegal: as leis criam
inevitavelmente a sua contrapartida, zonas de ambiguidade e de ilegalidade, que
criam por sua vez todo um campo de práticas e agenciamentos que se ramificam
por vários lados, também mercados alternativos e oportunidades para bens e servi-
ços ilegais.
Esses autores, cada qual partindo de suas respectivas chaves teóricas e cam-
pos de problematização, tratam de colocar no foco do trabalho etnográfico os
nexos que articulam Estado e práticas ilegais, regulações estatais e não estatais, o
formal e o que escapa às suas codificações. Transversal a todas essas questões está
uma indagação de fundo sobre os processos pelos quais Estado, leis e ordem se
constituem e como operam em contextos situados. Esse é um registro interessan-
te para se apreender o sentido das transformações que abalaram, nos últimos
tempos, justamente as relações entre Estado, economia e sociedade, de tal forma
que essas categorias (Estado, leis, ordem) perdem sua autoevidência como refe-
rência normativa e axioma não refletido das categorias cognitivas (e normativas)
das ciências sociais. E é justamente nesses deslocamentos que, em vez do uso
normativo e pré‑codificado dessas categorias, estas assinalam o lugar de uma
questão, questão política, também questão ou questões de pesquisa — que precisa
ser problematizado.
Essa é uma discussão de fundo, que vai além do que se pretende e se tem
condições de fazer nos limites destas páginas. Mas é importante reter essas ques-
tões, pois elas ajudam a qualificar o campo de disputa que se estrutura nessas
fronteiras incertas, também elas em disputa, do formal e informal, do legal e

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ilegal. No que diz respeito aos mercados informais, seria possível dizer que, nas
filigranas das cenas descritivas comentadas páginas atrás, parece se explicitar um
campo de disputas em que as próprias fronteiras da economia estão se redefinin-
do nos meandros, também em disputa, desses mercados: campos de força e de
disputa que se estruturam em torno das regras e critérios que introduzem novas
clivagens, definem a cartografia política, sempre cambiante, desses lugares e
regem o acesso (e bloqueios) a esses mercados; disputas em torno dos modos
legais e extralegais de regulação desses mercados; disputas em torno dos meios
legais e extralegais de apropriação da riqueza circulante; disputas em torno dos
critérios de ordem e seu avesso. Seguindo Beatrice Hibou (1998), em outro con-
texto de discussão, mas com fortes ressonâncias com o que se está aqui discutin-
do, a incerteza quanto às fronteiras do legal e ilegal, bem como das regras do jogo
nesses campos de disputa, é também uma forma de governo e um instrumento de
poder. Mas, então, seria possível desdobrar a questão pois fica a sugestão de que
se trata de “modos de governar as fronteiras de criação de riquezas”, para usar os
termos de Jannet Roitman (2004), em um texto no qual essas linhas estão forte-
mente inspiradas.
No coração de nossas cidades (e outras), esses mercados podem ser tomados
como “fronteiras analíticas”, para usar a expressão de Saskia Sassen (2008), em
que as regras e os jogos de poder estão se redefinindo. Mas é por isso mesmo que
são um lócus privilegiado para entender os nexos que articulam lei e exceção, di-
reito e violência, contratos e força no próprio modo como os mercados são produ-
zidos. É em torno desses nexos que se estruturam os campos de força contidos nos
modos como ordenamentos sociais se fazem nas fronteiras incertas do legal e do
ilegal. Nas microcenas que pontilham esses mercados, temos as pistas para enten-
der o modo como os ordenamentos sociais são fabricados, engendrados em um
campo de disputa que desloca, faz e refaz a demarcação entre a lei e o extralegal,
entre justiça e força, entre acordos pactuados e a violência, entre a ordem e seu
avesso. Também os limites do tolerável e intolerável, esse ponto que estala nas
formas abertas de conflito e que também se pode ouvir nos “rumores da multidão”
(Thompson).

Recebido em 14/6/2013  ■   Aprovado em 20/6/2013

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 443-461, jul./set. 2013 461
Serviço Social e Ministério Público:
aproximações mediadas pela defesa
e garantia de direitos humanos*
Social Work and Department of Justice: approaches mediated
by the defense and guarantee of human rights

Silvia da Silva Tejadas**

Resumo: Este artigo aborda a emergência do Ministério Público


na esfera pública, balizado pela missão, ainda em disputa na instituição,
de defesa do regime democrático e dos direitos humanos. A inserção
do Serviço Social na Instituição é atravessada pelas contradições que
a permeiam e compartilha de propósitos convergentes à sua missão,
dado o projeto ético‑político‑profissional. Apresenta potencial para
contribuir no diálogo com os movimentos sociais e conselhos de di-
reitos, bem como no fomento e na fiscalização das políticas públicas,
fundamentado em um ideário emancipatório.
Palavras‑chave: Ministério Público. Serviço Social. Direitos humanos.

* Este artigo teve como ponto de partida a tese de doutorado da autora, publicada com o título O direito
humano à proteção social e sua exigibilidade: um estudo a partir do Ministério Público (2012), tendo sido o
texto original acrescido de dados atualizados sobre os encontros nacionais do Serviço Social no Ministério
Público, bem como de considerações sobre as atribuições da profissão na instituição em questão. A investigação,
de cunho qualitativo, fundamentou‑se no materialismo histórico e dialético, constituindo‑se em estudo de caso.
Para o estudo, utilizaram‑se as seguintes fontes: grupo focal com assistentes sociais; questionário com
coordenadores de Centros de Apoio de diversos estados; 234 artigos de promotores, procuradores de Justiça
e 45 artigos de assistentes sociais, apresentados em congressos e encontros do Ministério Público; documentos
e pesquisas sobre a instituição. O objetivo central do estudo foi analisar a atuação do Ministério Público estadual
na exigibilidade da proteção social brasileira após 1988, quando a Constituição Federal o incumbe da defesa
dos interesses sociais, individuais indisponíveis e do regime democrático.
** Doutora em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/
RS, Brasil. Especialista em Família pela Clínica Domus e em Educação de Jovens e Adultos, na Perspectiva
da Educação Popular pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde 2002 é assistente social do
Ministério Público do Rio Grande do Sul. E‑mail: silviast@mp.rs.gov.br.

462 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
Abstract: This article approaches the emergence of the Department of Justice in the public sphere.
Such emergence is oriented by the mission (which is still in dispute in the institution) of defending the
democratic regime and the human rights. The insertion of Social Work in the institution is crossed by
the contradictions that permeate it and share the purposes of the mission of the institution, given its
ethical‑political‑professional project. It shows potential to contribute to the dialogue with the social
movements and rights councils, as well as to the increase and inspection of public politics, as it is
marked by emancipatory ideas.

Keywords: Department of Justice. Social Work. Human Rights.

1. Introdução

O
presente artigo aborda o recente processo histórico de inserção do
Serviço Social no Ministério Público brasileiro, instituição incumbida
pela Constituição Federal de 1988 da defesa do regime democrático
e dos interesses individuais indisponíveis e sociais. A partir do final
de década de 1990, desencadeia‑se um movimento de contratação de assistentes
sociais na instituição, o que se acentuou na década de 2000. Tendo em vista per-
curso histórico tão recente, abrem‑se múltiplas possibilidades de qualificar e dire-
cionar o exercício profissional nesse espaço sócio‑ocupacional.
Inicialmente, situa‑se de modo breve o processo histórico do Ministério Pú-
blico até a assunção da missão insculpida no artigo 127 da Constituição Federal,
oferecendo, ainda, uma visão geral acerca da instituição e de seus desafios. Em
seguida, são discutidos os caminhos que o Serviço Social vem percorrendo na
instituição, as demandas, as requisições, a direção social que a profissão vem deli-
neando, seus principais limites e possibilidades.
São tecidas possibilidades para as atribuições do Serviço Social no Ministério
Público, à luz do projeto ético‑político‑profissional, que tenham potencial para
contribuir com as lutas sociais pela defesa e garantia dos direitos humanos. Ao final,
sinalizam‑se os desafios organizativos para a profissão e as alianças necessárias
para que o Serviço Social contribua na aproximação do Ministério Público aos
propósitos definidos pela Constituição Federal.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 463
2. A emergência do ministério público como instituição de
defesa de direitos
As origens da instituição Ministério Público revelam seu surgimento com o
advento da Revolução Francesa, em 1789, e da Declaração dos Direitos do Homem
e do Cidadão, quando os reis deixaram de realizar a justiça pessoalmente, dele-
gando tal função ao magistrado. Nessas circunstâncias, surgiu a necessidade de
um órgão fiscalizador ao juiz — o Ministério Público (Maia Neto, 1999). Seu
nascedouro o coloca no lugar de acusador, a princípio como representante do in-
teresse do monarca e, depois, especialmente a partir do século XVIII, com o libe-
ralismo, passou a representar os interesses da sociedade no papel acusatório
(Porto, 2006).
No Brasil, figura mais próxima ao representante do Ministério Público surgiu
no Brasil Colônia, nas disposições contidas nas Ordenações Filipinas. Naquele
período histórico, o Ministério Público não existia como instituição, os promotores
públicos da época eram nomeados e exonerados livremente pelos presidentes das
províncias e vinculavam‑se ao Poder Executivo (Maia Neto, 1999). A figura do
promotor público passou a existir com a Lei n. 261, de 3/12/1841 (reforma do
Código de Processo Criminal), mas a existência formal da instituição está vincula-
da ao Decreto Federal n. 1.030, de 1890, no início da República, no governo do
marechal Deodoro da Fonseca (Maia Neto, 1999).
Os apontamentos históricos acerca do processo de constituição do Ministério
Público permitem identificar correlações entre o papel destacado ou restrito e o
período histórico. Nesse sentido, nas ditaduras civil e militar, por exemplo, cons-
tata‑se uma restrição na atuação e importância social da instituição, observando‑se
o contrário nos períodos de maior abertura política.
A Constituição Federal de 1988 diferenciou‑se das demais por definir o Mi-
nistério Público com maior precisão: garantindo‑lhe autonomia funcional e admi-
nistrativa; estabelecendo critérios formais para a escolha do procurador‑geral da
República e dos estados; permitindo a exclusividade da promoção da ação penal,
bem como ampliando a titularidade para o inquérito civil e para a ação civil públi-
ca no que concerne aos interesses difusos e coletivos (Porto, 2006).
Assim, no decorrer do processo histórico, as funções do Ministério Público
foram se modificando, sendo hoje caracterizado como instituição voltada para a

464 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
defesa dos interesses da sociedade, no que diz respeito aos direitos difusos, indivi-
duais indisponíveis e sociais.1
Ritt (2002), ao analisar o papel do Ministério Público, constituído recente-
mente, ressalta que as garantias conquistadas pela instituição, como a indepen-
dência funcional, vitaliciedade, inamovibilidade e irredutibilidade de subsídios,
passando a ser considerada, por alguns, como poder de Estado, não vêm neces-
sariamente acompanhadas de um entendimento claro de sua missão institucional
e da consequente importância na realização de uma sociedade justa e igualitária.
Já para Porto (2006), o paradoxo vivido pelo Ministério Público reside na
assunção da missão de defesa dos interesses coletivos, ao mesmo tempo em que
conserva a condição de instituição estatal. Defende o referido autor que o Minis-
tério Público transitou da sociedade política para a sociedade civil, a partir da
visão gramsciana de Estado, por três razões: a social, devido à vocação de atuar
na defesa da sociedade; a política, pelo compromisso assumido na história de
defesa da democracia e de suas instituições; a jurídica, em razão das garantias
constitucionais.
As reflexões dos autores citados, sem dúvida, conferem relevo aos dilemas
contemporâneos da instituição, uma vez que ela passou a assumir importância para
o conjunto da sociedade, sem estar plenamente preparada para tanto. O papel de
zelar pelos direitos coletivos, ou seja, pelos interesses da maioria da sociedade e,
em especial, daqueles segmentos mais vulnerabilizados pela pobreza e por formas
variadas de discriminação, implica agregar novos conhecimentos sobre o sistema
de proteção social, sobre o funcionamento e a estrutura das políticas públicas, sobre
habilidades de negociação e de debate com distintos atores sociais. Isso leva a
concluir que a instituição passa a necessitar de promotores e procuradores de jus-
tiça e servidores com novas competências e habilidades que se coadunem com sua
missão institucional, o que, por certo, é um processo em construção.

1. Nessa seara, Mazzilli (1998) esclarece os interesses definidos legalmente, distinguindo‑os quanto à
disponibilidade e à titularidade. No primeiro caso, disponíveis são os interesses de maiores e capazes, como
os patrimoniais, e indisponíveis são direitos como os relativos à vida e à liberdade. Já com relação à
titularidade, têm‑se interesses: individuais; individuais homogêneos (grupo de pessoas que partilham de
prejuízos divisíveis decorrentes de uma mesma circunstância); coletivos no sentido estrito (grupo de pessoas
determináveis que partilham de prejuízos indivisíveis decorrentes de uma mesma relação jurídica); difusos
(grupo de pessoas indetermináveis com danos indivisíveis e reunidas pelas mesmas circunstâncias do fato);
interesse público em sentido estrito (Estado é o titular, se distingue do interesse privado); interesse público
em sentido lato.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 465
A autonomia e a independência funcional visam conferir à instituição, no
âmbito do estado democrático de direito, uma atuação não subjugada a interesses
de governos ou de qualquer outro dispositivo de poder presente na sociedade. Nes-
sa esteira, o Ministério Público tem o dever de agir quando os segmentos mais
vulnerabilizados e enfraquecidos na luta política apresentam necessidades não
supridas, como crianças e adolescentes, idosos, interditos, pessoas com deficiência,
entre outros, tendo um papel ativo na defesa de direitos.

O regime democrático exige dos agentes do Poder Público atuação em defesa dos
interesses gerais e indisponíveis dos cidadãos. A realização efetiva da Justiça é alvo
da instituição do Ministério Público. O promotor de Justiça, como seu representante,
é um verdadeiro justitie‑ombudsman, delegado permanente da coletividade, advogado
por excelência da sociedade, que vela pela correta aplicação da lei e funciona como
instância de tutela individual e coletiva de cidadania. (Maia Neto, 1999, p. 35)

Nesse contexto, há uma corrente percepção institucional de que é mais pro-


dutiva a intervenção em situações de não garantia de direitos no âmbito extrajudi-
cial, visto que a jurisdicionalização de causas pode se estender por longos períodos.
Rojo (2003, p. 25) ratifica tal assertiva quando refere que

a jurisdicionalização pode surtir o efeito contrário e transformar‑se em um mecanismo


que ajude a postergar as decisões. Com efeito, este recurso à lei e seus magistrados
pode permitir ao poder político criar uma aparência de tratamento do assunto, quando
em realidade o que ele consegue é suspender a resolução deslocando as demandas a
um espaço supostamente técnico onde os cidadãos teriam mais dificuldades para
controlar ou apressar sua evolução.

Dessa forma, a jurisdicionalização de conflitos é matéria controversa que, se


por um lado pode constituir‑se em meio de assegurar direitos, por outro pode mas-
carar negativas de direitos e, mais do que isso, institucionalizar possíveis lutas
sociais, que teriam maior êxito se desenvolvidas no contexto social no qual se
produzem.
Nesse diapasão, o Ministério Público está imerso em relações sociais, e sua
aproximação ou afastamento da missão atribuída constitucionalmente encontra
conexão com interesses, projetos políticos e relações que se estabelecem e que
estão em disputa. Entre relações e projetos, o Ministério Público emerge do texto
constitucional com a potência de criar novas hegemonias, em direção a uma socie-

466 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
dade mais igualitária, em que os frutos do desenvolvimento das forças produtivas
sejam compartilhados entre todos. Todavia, o novo emerge emaranhado ao velho.
O Ministério Público é incumbido de uma missão que não foi apropriada interna-
mente por todos os seus membros, evidenciando‑se a disputa pela hegemonia da
direção social da instituição.
A missão constitucional do Ministério Público se efetivará na medida em que
a instituição for capaz de dialogar com os diferentes atores que compõem a esfera
pública, portadores de interesses e projetos políticos distintos. Assim, não lhe bas-
ta a vontade de constituir‑se em um articulador da garantia dos direitos humanos,
pois esta é apenas parte; há, ainda, as circunstâncias (Nogueira, 2004). A explici-
tação de interesses e projetos, o desvendamento de sua essência, no claro‑escuro
do real, e a sua apreensão pelos agentes ministeriais são essenciais. A visão de to-
talidade, a conexão entre os fragmentos do real e a compreensão crítica da corre-
lação de forças é que dará qualidade política à intervenção do Ministério Público,
por meio de sua preparação para o diálogo entre os atores que interagem na esfera
pública. Isso desafia o Ministério Público a construir dispositivos analíticos dire-
cionados a essas realidades complexas, que permitam o dimensionamento de estra-
tégias e posicionamentos em favor daqueles interesses que se coadunam com os
direitos humanos a ser garantidos por meio das políticas públicas.
Ao atribuir‑se significado a essas relações percebe‑se que elas são atravessa-
das por contradições. Constata‑se que a instituição vive, nas suas relações com os
demais atores da esfera pública, uma tensão fundante entre a posição de fiscal e a
de parceiro, que acaba por se expressar na ambiguidade da identidade institucional.
A partir dessa ambiguidade, identificam‑se tendências distintas das relações esta-
belecidas, as quais podem ser agrupadas de forma reguladora e dialógica. A primei-
ra, amparada em perspectiva iluminista, coloca a instituição no lugar do saber,
portanto capaz de oferecer saídas, orientar, conduzir as relações ou de lançar mão
de mecanismos coercitivos. Essa tendência revela a dificuldade em transitar em
meio a uma dinâmica complexa de relações e interesses, vislumbrando como alter-
nativa o uso do lugar de autoridade da instituição. A segunda, que pode ser alinha-
da com uma ideia de direção político‑cultural, volta‑se para a construção de meca-
nismos educativos, com potencial para a indução de políticas públicas. Essas
tendências nem sempre se apresentam na realidade de modo límpido; por vezes
estão imbricadas nas experiências cotidianas.
É necessário reconhecer que a própria missão atribuída ao Ministério Público
na Constituição coloca‑o em lugar de centralidade. Esse lugar convida à postura

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 467
iluminista, ao caminho da arrogância e do messianismo. Por outro lado, essa missão
dá‑se no âmbito do estado democrático de direito, que tensiona para a construção
de direções hegemonicamente edificadas, ou seja, requer capacidade de dirigir
técnica e politicamente, de construir consensos (Nogueira, 2004) e “saídas” alicer-
çadas coletivamente. As situações, individuais e coletivas, que aportam ao Minis-
tério Público, são dotadas de complexidade, pois manifestam as ausências e as
negações de direitos. Esse contexto insta à oscilação entre a impotência e o mes-
sianismo, o que é um risco às relações e à atuação institucional, pois ambas as
posições podem conduzir à omissão e a comportamentos antidemocráticos.
No entanto, os achados da pesquisa realizada indicam que o reconhecimento
dos diferentes interesses e a capacidade de negociação, sem transigir nos direitos
a serem garantidos, podem auxiliar na convergência de direção social. Nessa
perspectiva, os caminhos escolhidos para a ação devem fortalecer a democracia e
a corresponsabilidade dos atores envolvidos, alcançando a pactuação de acordos
que conduzam à afirmação dos direitos. Assim, a atuação institucional na direção
das políticas públicas, capazes de disponibilizar os direitos assegurados no plano
legal é, sem dúvida, um caminho profícuo para a consecução da sua missão, mas
encontra, nas relações estabelecidas, a sua potência e a sua fraqueza.
Identificam‑se duas vertentes no que concerne às políticas públicas: a do fo-
mento e a da fiscalização. No caso do fomento, evidencia‑se que o guia para a ação
institucional são os direitos garantidos legalmente e ainda não efetivados, consti-
tuindo‑se numa agenda de direitos. A fiscalização das políticas públicas, por sua
vez, relaciona‑se com a qualidade da política pública, evidenciando que não basta
a oferta de programas, projetos e serviços correlacionados a direitos; é preciso
avaliar sua qualidade e correspondência aos direitos assegurados. Dessa forma, a
fiscalização é dotada de expressiva complexidade, pois conduz o Ministério Públi-
co ao âmago das políticas, à sua gestão, aos paradigmas que as definem, aos seus
processos cotidianos de trabalho.
Tanto a atuação rumo ao fomento das políticas públicas quanto a sua fiscali-
zação indicam a necessidade de que a instituição esteja devidamente apoiada por
equipes técnicas multidisciplinares, qualificadas quanto à concepção e ao funcio-
namento das políticas públicas, o que requer determinado arcabouço de conheci-
mentos técnicos. Além disso, pede o planejamento das ações institucionais, visto
que o fomento e a fiscalização são incompatíveis com ações voluntaristas e condi-
cionadas aleatoriamente às demandas externas, pois são atividades que requerem
especialização e direcionamentos claros dos trabalhos, em termos metodológicos

468 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
e de suas finalidades. É nesse contexto desafiador e complexo que o Serviço Social
vem atuando desde meados da década de 1990, sendo essa caminhada objeto de
análise do próximo item.

3. O processo de inserção do Serviço Social no Ministério Público


O Serviço Social é uma profissão com inserção recente no Ministério Público
e fruto do processo de mudança vivido pela instituição quanto à assunção da missão
de defesa dos direitos individuais indisponíveis e sociais. Identifica‑se a consonân-
cia entre a missão institucional quanto à garantia de direitos humanos e o projeto
ético‑político‑profissional, sendo aqui apontadas algumas das construções coletivas
da categoria no Ministério Público e, ainda, seus limites e desafios.
Inicia‑se pela discussão e apresentação da categoria demandas, pois estas
expressam a intencionalidade da instituição ao incorporar os assistentes sociais em
seus quadros. Identifica‑se que as demandas encaminhadas aos profissionais são as
mais diversas; porém, quanto ao âmbito da intervenção, é possível reuni‑las em
dois grupos: em situações individuais e em matérias de direito difuso e coletivo. O
primeiro grupo envolve o estudo social, subsidiando os promotores de justiça
quanto à condução de violações de direitos nesse âmbito; o outro, atividades rela-
tivas à exigibilidade de políticas públicas, tais como: fiscalização, fomento, acom-
panhamento, controle e avaliação; realização de estudos e pesquisas sobre deter-
minada realidade; articulação política relativa à promoção de diálogos, firmatura
de pactos, termos e parcerias para garantir direitos/cumprimento de políticas públi-
cas; vistorias em entidades com o fito de avaliar a qualidade do atendimento.
Os artigos apresentados no I, II, III e IV Encontro Nacional do Serviço Social
no Ministério Público (ENSSMP), realizados de 2006 a 2012, bianualmente, são
aqui considerados expressão das demandas trabalhadas pelos profissionais neste
espaço sócio‑ocupacional. Foram elaborados, no período, setenta artigos, entre os
quais o tema com maior destaque é a direção social do Serviço Social no Ministé-
rio Público, com 34,27% (24) das produções, sendo que muitos dos textos realizam
a apresentação das experiências profissionais, enfocando os avanços e dificuldades
na aproximação daquilo que consideram o direcionamento almejado pela categoria
na instituição. Em seguida, tem‑se a temática da fiscalização de entidades de aten-
dimento e políticas públicas que figura com 10% (7) do todo, o que encontra rela-

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 469
ção com a atuação no âmbito do direito coletivo e com a previsão em diversas le-
gislações de atribuições do Ministério Público na fiscalização das entidades de
atendimento e da defesa de direitos de modo geral, materializada por meio das
políticas públicas.
É interessante apontar, igualmente, a significância das produções em torno
dos novos sujeitos de direitos, ou seja, segmentos como o idoso, a pessoa com
deficiência, a mulher, que, juntos, contam com 25,71% (18) das produções. O in-
fantojuvenil, por sua vez, embora não apareça como tema central, consta em mui-
tos artigos como pano de fundo, em discussões cujo foco está deslocado para outros
temas: a estratégia metodológica do trabalho em rede ou do estudo de caso, a fis-
calização de entidades, a garantia do direito à convivência familiar, o disque 100
ou o ato infracional praticado por adolescente. O mesmo ocorre, em menor medida,
com o segmento idoso e pessoa com deficiência, quando o tema é a interdição.
A amplitude das demandas identificadas permite compreendê‑las como requi-
sições que estão impregnadas de visões de mundo, de concepções e de posições
políticas. Por exemplo, o primeiro grupo de demandas — as de cunho individual
— encontra relação com a tradição de atuação do Serviço Social no Poder Judiciá-
rio, na elaboração de estudos sociais relativos a situações familiares onde há vio-
lação de direitos ou litígios. Certamente, essa forma histórica de inserção marca o
ingresso do Serviço Social no Ministério Público, pois seus membros tinham como
referência essa atuação, demandando‑a em um primeiro momento. A atenção a
demandas de cunho individual é atravessada por contradições que, encharcadas da
vivência no mundo jurídico, assumem determinadas características, como a ten-
dência a serem desenraizadas de suas bases econômicas e sociais, para serem
abstraídas e respondidas de modo fragmentário. Nesse sentido, Aguinsky (2003),
pesquisadora sobre a inserção do Serviço Social no Poder Judiciário, explicita tais
características:

A moralidade implicada no ethos da sociedade liberal providencia uma análise e tra-


tamento da questão social delimitada na ótica de problemas isolados, fragmentando a
vida social que deixa de ser apreendida como totalidade, mas, antes, como um agre-
gado de partes autônomas. Essa moralidade, ao mesmo tempo em que pode ser pon-
derada como instrumento ideológico de ocultamento das bases materiais e estruturais
da questão social, dimensiona seu enfrentamento (da questão social) na perspectiva
da internalização social de normas e deveres que se constituem de modo despolitiza-
do — como que na fundamentação de uma expectativa social prevalente, na direção
de comportamentos desenraizados politicamente frente às expressões de desigualdade

470 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
na sociedade que, em verdade, traduzem demandas de direitos sociopolíticos, que
assim não são consideradas.

Aos argumentos expostos por Aguinsky (2003) quanto à abordagem da ques-


tão social nessa dimensão, cumpre acrescentar que o Ministério Público é institui-
ção distinta do Poder Judiciário, pois suas atribuições devem assumir a direção da
garantia dos direitos humanos no contexto judicial e extrajudicial. Assim, a refe-
rência do Serviço Social Judiciário pode conduzir a uma ênfase da atuação profis-
sional na esfera individual, assumindo facetas fragmentárias, pontuais, menos
abrangentes e descoladas da missão da instituição ministerial. Pode, também,
constituir‑se em espaço de garantia de direitos a sujeitos que os tiveram violados
ou sonegados. Por seu turno, o Serviço Social tem o potencial de descortinar na
instituição um leque de intervenções voltadas para a garantia de direitos de coleti-
vidades, em caráter mais abrangente e continuado, quando sua intervenção se
volta ao fomento de políticas públicas de Estado.
Os artigos apresentados pelos assistentes sociais nos encontros do Serviço
Social no Ministério Público retratam experiências de intervenção no âmbito das
coletividades, na fiscalização de entidades, no fomento de políticas públicas e, até
mesmo, na reflexão em torno de intervenções relativas às avaliações sociais, de
modo que o tema das políticas públicas se revela permanente. A tendência predo-
minante é a do debate em torno das políticas públicas da proteção social de modo
genérico, enfocando o papel do Estado na garantia dos direitos humanos, perfazen-
do 58,57% (41), sendo que apenas 18,57% (13) não abordavam o tema das políticas
públicas. Quanto à discussão específica das políticas, emergem dos materiais a
saúde, com 7,14% (5), a assistência social, com 5,72% (4), e a educação, com 4,28%
(3), dando‑se maior relevo à primeira, em torno das temáticas da saúde do traba-
lhador, da saúde em geral e da saúde mental.
Neste contexto de leitura das políticas públicas da proteção social, as duas
dimensões — individual e coletiva — chegam a ser dicotomizadas, contrapostas
nos textos analisados, muito embora, como já referido, a preocupação com a con-
textualização e a compreensão dos determinantes da vida social acompanhe o
conjunto das análises, mesmo as que se referem ao âmbito individual. Não se trata
de optar por uma dimensão de intervenção ou outra, mas de percebê‑las no movi-
mento contraditório do real, conectando a particularidade e a universalidade, isso
dentro de um processo de planejamento da atividade profissional que não permita
a captura pela alienação do cotidiano.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 471
Portanto, a questão das demandas sociais para o Serviço Social não é algo percebido
na visibilidade aparente dos problemas e necessidades sociais, mas é um processo que
requer um aprofundamento analítico na investigação da realidade social em suas várias
facetas, para que possam ser devidamente operadas as mediações teórico‑políticas
[...]. (Serra, 2000, p. 165)

No que diz respeito à direção social da atuação do Serviço Social no Minis-


tério Público, o I ENSSMP, promotor da primeira síntese coletiva sobre o tema,
concluiu ser

a atuação no campo da assessoria, subsidiando e propondo ao Ministério Público no


campo das políticas públicas e na garantia de direitos nas diversas áreas, buscando
coletivizar os casos individuais [...] fomentar a materialização dos direitos sociais em
políticas públicas. (Rio Grande do Sul, 2006, p. 26)

Nesse contexto, o objeto da intervenção do Serviço Social, compreendido


genericamente como a questão social, vai adquirir contornos específicos neste es-
paço sócio‑ocupacional. Como assinala Baptista (2002), a delimitação do objeto
da intervenção requer sucessivas aproximações, em um processo permanente de
reconstrução.
A direção social e o processo de delimitação do objeto confluem para o pro-
jeto ético‑político‑profissional. Evidencia‑se, nos materiais analisados, a percepção
de que há uma profunda relação entre a missão institucional do Ministério Público,
conferida na Constituição Federal de 1988, e o projeto ético‑político do Serviço
Social, especialmente quanto à defesa da democracia e dos direitos humanos,
conforme segue:

[...] antes de representar uma resposta técnico‑operativa às solicitações institucionais,


construídas majoritariamente pela ótica dos demandatários (promotores de Justiça),
visa atender originalmente às demandas dos usuários do Serviço Social, tendo como
fio condutor o referencial ético‑político construído historicamente pela profissão, e
expresso no atual Código de Ética Profissional. Este traz em seu bojo princípios que
reforçam a materialização de uma conduta aliada não apenas a um projeto profissional,
mas, sobretudo, a um projeto societário anticapitalista e antiburguês. Dentre tais
princípios, frisamos a defesa do aprofundamento da democracia, o posicionamento
em favor da equidade e da justiça social, a ampliação e consolidação da cidadania
e o compromisso com a qualidade dos serviços prestados. (Silva e Silva, 2006, p. 4)

472 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
Ramos (2002), docente em Serviço Social, discutindo o projeto ético‑político
da profissão e suas conexões com um projeto societário, delimita melhor os limites
e potencialidades do projeto profissional:

Do meu ponto de vista, a denominação ético‑político, presente no projeto profissional,


não se fundamenta em uma visão mecanicista, como se o projeto profissional tivesse
condições para ocupar o lugar de um projeto societário. O termo projeto ético‑políti-
co profissional expressa a existência, neste projeto coletivo, da nítida dimensão ética,
na medida em que convoca os profissionais de Serviço Social para refletir sobre os
valores e desvalores que orientam suas ações. Ao fazer isto, este projeto vincula‑se à
defesa de determinados valores e princípios éticos identificados com a busca da eman-
cipação humana. O termo projeto ético‑político apresenta, ainda, uma clara dimensão
política, que se constrói no bojo das relações sociais, no movimento das classes sociais,
considerando as opções políticas subjetivas e a construção de estratégias no campo
democrático‑popular, estabelecendo, no entanto, um conjunto de mediações no am-
biente profissional. (Ramos, 2002, p. 92)

Contudo, a assertiva de Silva e Silva (2006) contém outro elemento impor-


tante para a análise, além da afirmação do projeto ético‑político profissional. Ela
retrata certa contraposição entre as demandas instituintes e as dos usuários. Aliás,
essa disjunção é apresentada por autores do Serviço Social, como Serra (2000),
para a qual, no caso da profissão, há uma separação entre quem demanda e quem
recebe diretamente os serviços, sendo as demandas compreendidas como requisições
técnico‑operativas. Tal posicionamento permite introduzir um aspecto essencial
para a condução da intervenção profissional na instituição, ou seja, de que as de-
mandas institucionais são o ponto de partida do delineamento da intervenção pro-
fissional, como menciona Baptista (2002, p. 32):

Na prática, a (re)construção do objeto da ação profissional é um processo que envol-


ve operacionalização das demandas institucionais, das pressões dos usuários e das
decisões profissionais. Uma vez que a intervenção e o planejamento da ação do pro-
fissional se realizam primordialmente nas instituições, é a demanda institucional o
ponto de partida e o ponto de referência para essa construção e para o planejamento
da intervenção. Isso não implica a redução da decisão e da ação aos limites institucio-
nais, mas o reconhecimento de que essa demanda pode potencializar a abertura de
novos espaços para enfrentamento concreto da questão a ser trabalhada.

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Todavia, Iamamoto (2008), em recente obra que discute a profissão e seus
rumos frente ao capitalismo contemporâneo, discorre sobre o trânsito entre a aná-
lise da profissão e o seu efetivo exercício, ou seja, a autora parte da condição de
trabalho assalariado alienado e pontua seus condicionantes à efetivação da direção
social que se projeta. Sustenta ela:

Esta condição sintetiza tensões entre o direcionamento que o assistente social preten-
de imprimir ao seu trabalho concreto — afirmando sua dimensão teleológica e cria-
dora —, condizente com um projeto profissional coletivo e historicamente fundado;
e os constrangimentos inerentes ao trabalho alienado que se repõem na forma assa-
lariada do exercício profissional. (Iamamoto, 2008, p. 214)

Para essa autora, o significado social do trabalho do assistente social depende


das condições e relações estabelecidas com seus contratantes, no caso, do Ministé-
rio Público, agentes do Estado, administradores da instituição. Os empregadores
determinam as necessidades sociais a serem atendidas, a matéria sobre a qual inci-
de o trabalho (recortes das expressões da questão social), as suas condições (inten-
sidade, jornada, salário, controle do trabalho, produtividade e metas) e efeitos na
reprodução das relações sociais (Iamamoto, 2008).
No que tange às condições de trabalho, evidencia‑se um empenho da instituição
na disponibilização de recursos materiais para o exercício profissional (Dortas, 2006).
Apesar disso, as resoluções dos encontros nacionais (Rio Grande do Sul, 2006; Dis-
trito Federal, 2008) mencionam a necessidade de adequar as condições de trabalho
às normativas profissionais vigentes (Resolução CFESS n. 493/2006, de 21/8/2006),
assim como fazem referência à precarização do trabalho técnico com contratações
terceirizadas em alguns estados, criando dois quadros, um concursado e outro tercei-
rizado (Grupo Focal, P1). Nesse sentido, as agendas de lutas, são: criação do cargo
de assistente social onde não há; criação de adicional de periculosidade devido à
realização de visitas domiciliares em locais perigosos; nomeação de concursados;
abertura de concursos públicos; defesa do ingresso por meio exclusivo do concurso
público; fortalecimento do movimento de redução da carga horária, conforme Projeto
de Lei n. 1.897/2007. Em muitos Estados, o número insuficiente de profissionais já
vem resultando na demora do atendimento às demandas, assim como a excessiva
demanda individual dificulta a atenção às matérias coletivas (Grupo Focal, P7).
As condições de trabalho não estão apartadas da direção social que a inter-
venção venha a adquirir, pois o desenvolvimento da profissão guarda relação com

474 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
a (re)valorização da sua função social, perpassando aspectos concretos, como a
criação de novos postos de trabalho, constituição de novas demandas, diante de
novas necessidades sociais e pela valorização salarial. Todavia, todos esses aspec-
tos são determinados historicamente, sendo permeados pelos processos sociais da
realidade e pelos movimentos da própria categoria profissional (Serra, 2000).
É justamente nesse espaço tenso e contraditório que se situa o protagonismo
dos assistentes sociais. A atuação do profissional tem relativa autonomia, pois as
condições dadas pelo empregador condicionam os resultados do trabalho e, com
isso, o projeto profissional, como mencionado a seguir:

[...] a possibilidade de imprimir uma direção social ao exercício profissional do assis-


tente social — moldando o seu conteúdo e o modo de operá‑lo — decorre da relativa
autonomia de que ele dispõe, resguardada pela legislação profissional e passível de
reclamação judicial. A efetivação dessa autonomia é dependente da correlação de
forças econômica, política e cultural em nível societário e se expressa, de forma
particular, nos distintos espaços ocupacionais, que envolvem relações com sujeitos
sociais determinados: a instituição estatal (Poder Executivo e Ministério Público, Ju-
diciário e Legislativo); as empresas capitalistas; as organizações político‑sindicais; as
organizações privadas não lucrativas e as instâncias públicas de controle democrático
(Conselhos de Políticas e de Direitos, conferências, fóruns e ouvidorias), que sofrem
profundas metamorfoses sociais em tempo de capital fetiche. (Iamamoto, 2008, p. 220)

Dessa forma, foram identificadas nos textos analisados estratégias intracate-


gorias e gerais. As estratégias intracategorias assumem a faceta articuladora do
grupo profissional, no sentido de forjar a direção social da intervenção, fortalecer
a identidade, buscar legitimação e reconhecimento, obter as condições necessárias
ao seu trabalho e o aprimoramento profissional. As estratégias intracategorias são
aquelas construídas a partir do coletivo — categoria profissional no Ministério
Público.
As estratégias intracategorias denotam a percepção de que isoladamente os
profissionais perdem força nas suas demandas e proposições de trabalho, sendo a
aliança entre os pares um modo de dar visibilidade ao conjunto dos atores profis-
sionais e buscar alguma condição de protagonismo. Ramos (2002), ao discutir a
construção de projetos coletivos, tendo por base a produção de Agnes Heller, Karl
Marx e Gramsci, nomeia três elementos que contribuem para a viabilização/proje-
ção de projetos coletivos: a necessidade, a consciência e a vontade.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 475
As necessidades são construídas social e historicamente com mediação da
cultura. A busca por suprir as necessidades leva os indivíduos a se agruparem co-
letivamente com vistas à construção de um projeto societário que os satisfaça. A
formação da consciência humano‑genérica se dá como mediação para a ação cole-
tiva. Os grupos sociais, no desenvolvimento de suas lutas, consolidam alianças
voltadas para a superação do plano corporativo, na direção do universal e da uni-
dade que, em busca de uma nova hegemonia, materializa‑se em propostas políticas
e valores éticos. A vontade, por sua vez, distingue‑se do mero desejo, pois é per-
meada por relações sociais e tensões. Além disso, a realização da vontade coletiva
carece de previsão, de concepção de mundo, de querer e de paixão (Ramos, 2002).
No que diz respeito às estratégias gerais, ou seja, aquelas relativas à relação
profissional‑instituição, que vêm sendo construídas pelos assistentes sociais do
Ministério Público, no cotidiano de implantação e implementação de seu trabalho,
especialmente o documento final do I Encontro Nacional do Serviço Social no
Ministério Público foi profícuo quanto ao seu delineamento, pautando:

[...] definir e divulgar o papel do profissional de Serviço Social na instituição; distin-


guir atribuições periciais e de assessoramento técnico (incluindo a produção diferen-
ciada de documentos), definindo o papel do assistente social no Ministério Público
como de assessoramento técnico; obter o reconhecimento das atribuições e possibili-
dades do Serviço Social; atuar na perspectiva da interdisciplinaridade e intersetoria-
lidade; dar maior visibilidade ao projeto ético‑político do SS no cotidiano profissional;
apresentar‑se como uma profissão habilitada a atuar no campo das políticas públicas
(fiscalização, fomento, acompanhamento, controle e avaliação), não se limitando aos
casos individuais, de acordo com as atribuições do MP; deixar claro que o espaço
profissional do SS do MP não é campo de execução de políticas públicas; legitimar o
espaço de trabalho; pensar nas demandas do interior dos estados; criar espaços de
diálogo entre os integrantes do Ministério Público (membros e servidores). (Rio
Grande do Sul, 2006, p. 26)

Como se pode observar, as estratégias construídas pelos assistentes sociais


buscam alcançar o reconhecimento e a delimitação de atribuições, convergindo para
a sua visibilidade como uma área profissional capaz de contribuir na tarefa institu-
cional de defesa e garantia do direito à proteção social.
A coletivização das demandas individuais, buscando percebê‑las como direi-
tos universais, é uma das estratégias centrais do Serviço Social na instituição

476 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
(Grupo Focal, P8). Essa estratégia encontra consonância com as reflexões de Iama-
moto (2008) quanto ao desafio para o assistente social, no seu trabalho cotidiano,
de desentranhar das situações singulares de indivíduos, famílias, grupos e segmen-
tos, atravessadas por determinações de classe, as suas dimensões universais. Com
isso, propõe transitar da esfera privada para a cena pública onde se processa a luta
por direitos.
Todavia, no espaço do grupo focal, é pontuada a complexidade de transformar
demandas individuais em coletivas, pois exige um processo de mudança na insti-
tuição como um todo e do demandante de determinada ação, ou seja, os condicio-
nantes institucionais estão sempre presentes:

[...] porque antes de o promotor aceitar a nossa proposta de coletivizar aquilo que
aparece individualmente, ele tem que se sentir incomodado pela questão social e ele
não se sente, porque ele nunca visitou uma favela [...]. Ele vem naquela trajetória de
classe, e aí chega lá o instituído que está bem colocado porque quem não tem projeto
assume o projeto em vigor e o projeto em vigor das instituições é um projeto burguês,
todas as instituições estão atravessadas por ele. (Grupo Focal, P1)

As reflexões de Aguinsky (2003) acerca do Poder Judiciário podem auxiliar


a compreender as lógicas que operam no Sistema de Justiça e que dificultam a
ruptura com o lugar tradicional deste. Nesse diapasão, o direito apresenta‑se como
um dos instrumentos utilizados pelo Estado para gerir conflitos presentes nas rela-
ções sociais, na ótica de comportamentos socialmente admissíveis e desejáveis, que
não coloquem em risco os interesses do capital.
Assim, um estudo social construído a partir da ótica da garantia de direitos
foge ao lugar-comum do enquadramento das relações sociais. Ele traz novos prismas
interpretativos para as situações individuais que as conectam ao universal, às de-
terminações sociais, políticas, econômicas e culturais e, por isso, causa estranheza.
Contraditoriamente, a própria missão contemporânea do Ministério Público o
conduz ao encontro de visões mais abrangentes e contextualizadoras. Nessa con-
cepção, talvez alguns dos agentes ministeriais ainda não estejam plenamente pre-
parados para fazer a mediação particular‑universal, para transpor o individual ao
coletivo, para perceber a situação individual de modo menos criminalizante ou
culpabilizador.
Transparece, nos dados coletados, aquilo que as pesquisadoras em Serviço
Social Martinelli e Koumrouyan (1994) chamaram de “indicadores coletivamente

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 477
construídos”, representados por dois eixos: a efetividade das ações e o seu alcance
social. O primeiro, relativo à força política das ações desenvolvidas no que tange
à transformação social da realidade; o segundo, referente ao impacto junto à popu-
lação. Essa parece ser a questão que se coloca nos textos produzidos pelos assis-
tentes sociais do Ministério Público e das expressões verbais quanto ao desenvol-
vimento de ações que impactem a realidade social na direção da garantia dos
direitos humanos.

4. O direito difuso e coletivo como eixo da atuação do Serviço Social

Para que se possa incidir institucionalmente no direcionamento do trabalho


profissional, é relevante a perspectiva interdisciplinar, a qual figura entre as es-
tratégias mencionadas pelos profissionais, embora sem maior densidade na pro-
dução. É curiosa a baixa relevância da temática, pois a interdisciplinaridade re-
mete ao diálogo com o direito, área do conhecimento central na instituição, pois
de formação de seus membros. A esse propósito, Aguinsky (2003, p. 90) pontua
que “de nada adiantaria a atuação do assistente social, alcançando com sua com-
petência particular, o que a ótica do Direito não alcança se, ao final, não fosse
esta competência traduzida em outra — a da linguagem institucional, a linguagem
do Direito”.
Assim, coloca‑se, ao mesmo tempo, como possibilidade e desafio a constitui-
ção de processos dialógicos com os membros do Ministério Público. É por meio
das decisões tomadas por eles que as indicações do Serviço Social terão incidência
intrainstitucional e na atuação da instituição em face dos distintos atores da esfera
pública, implicados com a efetivação ou não dos direitos humanos.
A perspectiva interdisciplinar articula‑se à dimensão do planejamento. Sousa
(2008) realiza uma síntese das estratégias que devem ser implementadas pelo Ser-
viço Social no Ministério Público, articulando diferentes dimensões:

[...] o Serviço Social necessita apropriar‑se de seu lugar, impor seus limites, realizar
pesquisas, estudos e planejar melhor sua atuação para propor ações que somadas à
missão do Ministério Público contribuam efetivamente para a construção de uma nova
ordem societária. (Sousa, 2008, p. 7)

478 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
A questão que se coloca é a necessidade de superar o cotidiano e envidar
esforços no sentido de planejar e refletir acerca dele, sob pena de a intervenção
profissional submergir às demandas cotidianas que, tratadas de modo pontual,
muitas vezes se tornam empobrecedoras das possibilidades de contribuição do
Serviço Social no que diz respeito à garantia dos direitos humanos. Assim, o
planejamento

vem em oposição àquela em que as decisões são tomadas ao sabor das necessidades
emergentes, quando as atividades são informadas e decididas em razão do desenvol-
vimento natural de uma situação, sem uma consciência clara de sua importância no
espaço mais amplo, no qual se insere. (Baptista, 2002, p. 79)

Nesse viés, Baptista (2002), a partir de suas diversas produções na área do


planejamento, propõe dois critérios básicos para a eleição de prioridades de inter-
venção: a relevância e a viabilidade. A relevância diz respeito à percepção sobre o
impacto da ação, em que a questão em análise deve ser vista no seu conjunto, ve-
rificando a importância de cada variável com relação ao problema, suas determi-
nações, interação entre diferentes aspectos, consequências e processos emergentes.
Já a viabilidade relaciona‑se à avaliação da influência do planejador sobre os pro-
blemas objeto do planejamento. Ela exige a leitura da governabilidade de quem
planeja sobre o espectro da ação vislumbrada.
Avançando um pouco mais, a autora mencionada traz contribuições impor-
tantes para se pensar o processo de planejamento do Serviço Social no Ministério
Público. Propõe, para o estudo da viabilidade das prioridades, a análise dos seguin-
tes aspectos:

[...] o âmbito institucional, suas funções e responsabilidades; as possibilidades con-


cretas de intervenção em termos financeiros, de pessoal, de conhecimentos acumula-
dos, de técnicas e de prazos; a coerência com a política definida em outros níveis; a
compatibilidade com a situação social, econômica e política vigente; a oportunidade
política para agir sobre a causa identificada; o índice de possibilidade de aceitação,
por parte da população usuária. (Baptista, 2002, p. 76)

Tais contribuições são pertinentes, uma vez que oferecem elementos concre-
tos para o processo de planejamento. A direção social que se pretende imprimir à
intervenção do Serviço Social na instituição não se faz a partir do voluntarismo ou
do mero pensamento desejoso. Ela carece de processos de formulação que façam

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 479
uma apropriada análise da conjuntura institucional, das relações e dos projetos
políticos em disputa no espectro dos direitos humanos, que mapeie as forças apoia-
doras e opositoras dos processos de garantia de direitos e, sobretudo, indique a
composição das alianças necessárias, pois o assistente social isoladamente é incapaz
de conduzir e incidir em processos emancipatórios, visto que se constituem em
tarefa coletiva.
No que tange às possibilidades de contribuição, os materiais estudados con-
vergem para o eixo central da contribuição quanto ao acesso da população aos seus
direitos, no cenário da atuação extrajudicial. A atuação no âmbito coletivo é per-
cebida como privilegiada pelos profissionais, com base no entendimento de que sua
participação em matérias coletivas, que são ou precisam ser objeto da intervenção
da instituição, deve ocorrer na defesa, garantia e ampliação de direitos.
Foram apontadas, por membro da instituição, contribuições relativas à sensi-
bilidade para a identificação de necessidades sociais e quanto ao diálogo com dife-
rentes segmentos, sendo emblemática dessas possibilidades a seguinte assertiva:

Tem contribuído de forma consistente na aproximação das pessoas e dos segmentos


sociais em situação de vulnerabilidade em relação à instituição, no planejamento e na
execução de planos e projetos institucionais voltados à garantia dos direitos constitu-
cionais, na abertura de diálogos importantes na busca de soluções para as questões
apresentadas aos órgãos ministeriais e nos procedimentos voltados ao cumprimento
das funções atribuídas ao Ministério Público. (Questionário, 2)

Dentre as possibilidades de contribuição, destaca‑se, ainda, a de favorecer o


diálogo com a sociedade civil, especialmente os movimentos sociais organizados,
com os quais o assistente social poderá atuar como “ponte entre o promotor e a
sociedade” (Grupo Focal, P8). Na mesma perspectiva, outro profissional menciona,
à luz de seu espaço específico de intervenção, que a atuação do Serviço Social na
interlocução com os movimentos sociais já está sendo incorporada ao processo de
trabalho da instituição. É proposta, também, a atuação junto ao controle social das
políticas públicas, em comissões temáticas dos conselhos (Metzner e Pollis, 2006).
As deliberações do I Encontro Nacional do Serviço Social no Ministério Público
(Rio Grande do Sul, 2006, p. 29) da mesma forma apontavam para esse entendi-
mento: “promover, fomentar e fortalecer ações de articulação entre os atores da
rede social; — fortalecer o controle social em articulação com os movimentos sociais,
com vistas ao enfrentamento das questões coletivas”.

480 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
O eixo da intervenção, que se volta para o fortalecimento do controle social
e dos movimentos sociais, encontra sentido na perspectiva gramsciana no que
tange à construção da contra‑hegemonia. Esta diz respeito à possibilidade de supe-
ração da condição de subalternidade pelos grupos dominados, incidindo na cons-
trução de novos modos de pensar, que se refletem na concepção de mundo, a partir
da reflexão crítica que supera o senso comum (Simionatto, 2009).
A atuação por meio de redes sociais, as mediações com vários órgãos e atores
sociais e a gestão participativa (relação direita com os usuários, socialização de
conhecimentos, interdisciplinaridade, fortalecimento dos usuários) são eixos me-
todológicos percebidos como possíveis no exercício profissional no Ministério
Público (Metzner e Pollis, 2006). Foram mencionados, por assistente social parti-
cipante de grupo focal, além dos já mencionados, mecanismos concretos, com re-
lação aos quais o Serviço Social vem contribuindo no sentido da democratização
das relações entre o Ministério Público e a sociedade, bem como quanto à constru-
ção de movimentos contra‑hegemônicos, como a realização das audiências públicas
nas comunidades para captação de demandas de proteção social, ao lado da contri-
buição na mediação com os movimentos sociais e com os mecanismos de controle
social (Grupo Focal, P2). Tais contribuições requerem, sob o ponto de vista de
participante do grupo focal (P2), o desenvolvimento de metodologias que permitam
a articulação com os movimentos sociais e conselhos de direitos, bem como uma
ampliação da participação da comunidade.
Além dos eixos já mencionados, o do assessoramento técnico quanto à exigi-
bilidade de políticas públicas (fiscalização, fomento, acompanhamento e avaliação)
mostra‑se como uma possibilidade de compor as atribuições do Serviço Social, de
modo alinhado com a missão do Ministério Público. Esse âmbito de assessoria vem
revelando‑se mais eficaz e de grande importância para a população que vivencia o
não acesso a direitos, além de ter um impacto social maior, haja vista abranger
conjuntos populacionais expressivos e ter repercussões transgeracionais.
Em diversos textos produzidos por assistentes sociais, as políticas públicas
são destacadas como forma de efetivar os objetivos traçados na Constituição ­Federal,
competindo ao Ministério Público utilizar todos os meios jurídicos disponíveis para
tê‑las implementadas. “[...] evidencia‑se a importância e urgência da ação ministe-
rial no campo das políticas públicas, quanto ao seu fomento e qualificação. Esse
tipo de intervenção pode resultar em uma futura redução das demandas individuais
nas diversas áreas nas quais o Ministério Público atua” (Rey, Perin e Tejadas, 2008,
p. 5). A mesma ideia é compartilhada por membros do Ministério Público:

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013 481
Conclui‑se então que as políticas públicas são instrumentos imprescindíveis para que
os objetivos traçados pela Constituição de 1988 sejam efetivamente cumpridos, ca-
bendo ao Ministério Público utilizar instrumentos jurídicos dos quais dispõe para
vê‑las implementadas, garantindo, com isso, o desenvolvimento e a democracia,
pressupostos de uma sociedade livre, justa e igualitária. (Ramos, 2001, p. 26‑27)

A esse propósito, Gravronski (2006), incursionando o tema, destaca diversos


aspectos que envolvem a atuação do promotor de justiça na tutela de direitos cole-
tivos. Menciona o autor as peculiaridades extrajudiciais do assunto, a necessária
criatividade do membro da instituição, a articulação com a sociedade civil e com
órgãos públicos afins, a assessoria de servidores especializados, além do domínio
de instrumentos como o inquérito civil ou o procedimento administrativo, o com-
promisso de ajustamento de conduta, a recomendação e a ação civil pública.
Nesse contexto, a fiscalização de entidades de atendimento visa avaliar a
qualidade dos serviços que estão sendo oferecidos à população, tendo por base o
marco legal vigente, pesquisas e estudos sobre as políticas públicas em análise. O
conhecimento na área do Serviço Social situa o assistente social como profissional
especializado, habilitado para a realização de avaliações de programas de acolhi-
mento institucional para crianças e adolescentes, de unidades de internação, de
instituições de longa permanência para idosos, de escolas (infantis, ensino funda-
mental e médio), de instituições especializadas no atendimento a pessoas com de-
ficiência e a dependentes químicos, entre outras. A atribuição no campo da fiscali-
zação de entidades requer o uso de múltiplos instrumentos, como: estudo da
temática, estruturação de roteiros específicos, visita institucional, entrevistas com
dirigentes, técnicos, usuários dos serviços e, ainda, observação e coleta de imagens.
É importante destacar que, de modo geral, a atribuição de fiscalização não é
exclusiva do Ministério Público, mas também de competência de outros órgãos do
Sistema de Garantia de Direitos, inclusive conselhos de direitos. Nesse sentido,
impõe‑se a necessidade de processos de trabalho conjuntos, o que, sem dúvida,
aumenta as possibilidades de influência quanto à qualificação das políticas públicas,
o compartilhamento de saberes e a corresponsabilização.
A avaliação de projetos e/ou de políticas públicas, por sua vez, visa analisar
a pertinência, a adequação ao marco legal e ao acúmulo de conhecimentos acerca
das políticas públicas, por meio da análise de projetos apresentados pelo Poder
Público ou organizações não governamentais, envolvendo aspectos metodológicos,
de infraestrutura e de recursos humanos. São instrumentos para a avaliação de

482 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
projetos e/ou políticas públicas: estudo da temática; estruturação de roteiros espe-
cíficos; possibilidade de coleta de campo, com visita institucional, entrevista com
gestores, técnicos, usuários dos serviços, observação, imagens e/ou análise de
documentos, como planos, projetos e relatórios. Nesse caso, há a análise da polí-
tica pública como um todo, com seus múltiplos serviços, às vezes demandando
vistorias a diversos equipamentos.
Ainda no rol de atribuições no âmbito das matérias de direito difuso e coleti-
vo, o Serviço Social pode contribuir com a realização de estudos e pesquisas, re-
lacionados a temas de interesse das Promotorias de Justiça e a centros de apoio
operacionais, ou decorrentes da reiteração de determinadas demandas e da obser-
vação de tendências quanto a lacunas na execução de determinadas políticas e/ou
à necessidade de implementação de mudanças paradigmáticas. Nesse caso, além
do conjunto de conhecimentos oriundos da formação profissional, pode ser neces-
sária a consulta a especialistas nas áreas em análise, bem como o estudo de legis-
lações e a consulta a pesquisas das ciências sociais.
No processo de inserção do Serviço Social no Ministério Público, é funda-
mental que se atue no sentido de incidir nas atribuições da profissão, aproximando‑as
da intervenção no âmbito do direito difuso e coletivo, visto o potencial destes na
ampliação e garantia dos direitos humanos. Nessa contextura, o desafio está em
constituir processos de trabalho planejados que partam da interpretação crítica da
realidade, avaliando estratégias, alianças e proposições viáveis que considerem

o potencial de que dispõe para impulsionar a luta por direitos e a democracia em todos
os poros da vida social; potencial esse derivado das contradições presentes nas relações
sociais, do peso político dos interesses em jogo e do posicionamento teórico‑prático
dos sujeitos profissionais ante os projetos societários. (Iamamotto, 2008, p. 417)

Para tanto, a percepção dicotomizada entre condicionantes e possibilidades


conduz a vieses ora fatalistas, ora messiânicos. O primeiro percebe a lógica do
capital como intransponível, não identificando possibilidades de dar direção às
atividades, subsumindo aos comandos instituintes. O segundo subestima os deter-
minantes e superestima a vontade do coletivo profissional (Iamamotto, 2008). A
busca por caminhos coletivos pelo Serviço Social tem a potência de oferecer a
densidade política necessária à categoria para incidir na definição de suas atribuições,
pautada pela leitura da conjuntura institucional e das alianças capazes de fortalecer

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a direção social do Ministério Público em torno da defesa da democracia e dos
direitos humanos.

5. Considerações finais
É no contexto de reordenamento jurídico e institucional do Ministério Públi-
co que o Serviço Social se insere, sendo que, desde os primeiros momentos, vem
buscando constituir uma identidade e direção social hegemônica. No diferenciado
território nacional, a profissão trilha um caminho repleto de ambiguidades e con-
tradições, em que a direção social de sua intervenção, anunciada no projeto éti-
co‑político‑profissional, compartilha de propósitos convergentes com a missão da
instituição, conferida pela Constituição brasileira. Contudo, a materialização de
projetos que se interconectam dialeticamente oscila entre o devir e a concretude,
entre as possibilidades e os limites. Nesse diapasão, o Serviço Social é uma pro-
fissão das ciências sociais aplicadas, capacitada para atuar na transversalidade das
políticas públicas, compreendendo‑as como processo histórico de concessão‑con-
quista, por isso imersas em relações entre diferentes atores da esfera pública.
Nessa orientação, o Serviço Social pode e tem contribuído no diálogo com
os movimentos sociais, com os conselhos de direitos, perseguindo o propósito de
que o fomento de políticas públicas se faça de modo articulado às demais instân-
cias que atuam na defesa de direitos. Ao mesmo tempo, no âmbito da fiscalização
da qualidade das políticas públicas, tem contribuído para oferecer subsídios
quanto ao planejamento desses processos, calcado nos acúmulos técnicos dispo-
níveis. Considerando que o projeto de consolidação da democracia é coletivo e
não se restringe aos muros do Ministério Público, o Serviço Social vem se cons-
tituindo como uma área profissional que tem contribuições importantes a ofere-
cer em direção a um ideário emancipatório, no qual os direitos humanos sejam
realidade.

Recebido em 14/5/2013    Aprovado em 10/6/2013


484 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
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486 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 462-486, jul./set. 2013
A interdisciplinaridade na violência sexual*
The interdisciplinarity in sexual violence

Maria Regina Fay de Azambuja**

Resumo: O artigo aborda a inquirição da vítima de violência sexu-


al como afronta aos direitos humanos da criança, na medida em que
busca a obtenção da prova em detrimento da proteção da vítima.
Aponta a ação interdisciplinar como indispensável ao trabalho envol-
vendo violência sexual praticada contra a criança, dando ênfase à
perícia realizada por profissionais de diversas áreas (Serviço Social,
Psicologia, Pedagogia, Pediatra) como instrumento capaz de produzir
a prova e de garantir a dignidade e o respeito à vítima.
Palavras‑chave: Criança. Violência sexual. Inquirição. Direitos huma-
nos. Proteção integral

Abstract: The article is about the inquiry of the victim of sexual violence as an affront to children’s
human rights, because it searches to get evidence at the loss of the victim’s protection. It points out
that the interdisciplinary action is essential to the work involving the sexual violence against children,
and it emphasizes the examination accomplished by professionals from different areas (Social Work,
Psychology, Education, Pediatrics) as a way to produce evidence and to guarantee the victim’s digni-
ty and respect.
Keywords: Child. Sexual violence. Enquiry. Human rights. Full protection.

* O artigo trata de alguns aspectos do tema pesquisado na elaboração da tese de Doutorado em Serviço
Social realizado na PUC‑RS.
** Procuradora de Justiça, coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Infância, Juventude,
Educação, Família e Sucessões, especialista em violência doméstica pela Universidade de São Paulo (USP),
doutora em Serviço Social pela PUC‑RS, professora de Direito de Família e Direito da Criança e do Adolescente
na Faculdade de Direito da PUC‑RS, Porto Alegre, Brasil; voluntária no Programa de Proteção à Criança do
Hospital de Clínicas de Porto Alegre. E‑mail: mra.ez@terra.com.br.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 487
Introdução

D
ados da Organização Mundial da Saúde (OMS) denunciam que a vio-
lência é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. Em
nosso país, o Relatório da Secretaria de Direitos Humanos da Presi-
dência da República (SDH‑PR) revela que, em 2012, o serviço do
disque denúncia (100) recebeu mais de 40 mil denúncias, sendo 31.635 sobre
violência sexual e 8.160 mil sobre exploração sexual (Brasil, 2012).
Para o enfrentamento da violência, em especial a de natureza sexual, enten-
dida como fenômeno social, faz‑se necessário envolver a família e diferentes pro-
fissionais que costumam interagir com a criança, de professores, médicos, assisten-
tes sociais e psicólogos a advogados, promotores de justiça e magistrados. Nessa
tarefa, cada um deve exercer funções distintas, todas elas especializadas, uma vez
que o trabalho com vítimas de violência sexual requer uma proposta de atendimen-
to interdisciplinar.
O presente artigo aborda a violência sexual praticada contra a criança, apre-
sentando a ação interdisciplinar como essencial para a proteção dos direitos huma-
nos da criança.

1. A inquirição da criança: uma afronta aos direitos humanos


Embora não se trate de tema novo, uma vez que vem sendo enfrentado há
muitos anos pelo sistema de justiça, a concepção da criança como sujeito de direi-
tos humanos, que tem como matriz a Convenção das Nações Unidas sobre os Di-
reitos da Criança, passou a exigir mudanças na abordagem e nos encaminhamentos
dos casos de violência sexual, já que os marcos legais nacionais “deverão urgente-
mente se adequar de maneira radical, sem reservas que atinjam os princípios bási-
cos dessa normativa internacional” (Nogueira Neto, 2008, p. 3). Nesse sentido,
quando se fala em direitos humanos, quer‑se acentuar “a essencialidade humana de
crianças e adolescentes, ancorada nos princípios da dignidade, da liberdade e do
direito” (Idem, p. 10).
Na vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), partindo do
princípio de que a criança é prioridade absoluta, os profissionais, antes e depois
de acionarem a rede de proteção, devem proporcionar um espaço de “verdadeira

488 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
escuta”, com o mínimo de interferência, dispondo‑se a ouvir o que a criança tem
a falar. Escutar, como ensinam Fuziwara e Fávero (2011, p. 46), envolve

ouvir com os ouvidos, os olhos, a razão e os sentimentos, sem que estes últimos se
sobreponham à necessária interação profissional e humanizada, para que o impacto
que a revelação pode causar não supere o entendimento de que a criança é um ser em
formação e toda e qualquer ação e reação frente à violência sofrida vai afetá‑la de
alguma maneira.

Crianças vítimas de violência sexual, em especial de natureza intrafamiliar,


percorrem um longo e difícil caminho. As denúncias são mais frequentes na atua-
lidade do que há vinte anos, dando visibilidade às dificuldades que o Judiciário
enfrenta para esclarecer os fatos e afirmar, em última análise, se houve ou não a
violência noticiada. Quando a violência deixa marcas físicas, a solução se mostra
mais simples, pois, afinal, o perito aponta as lesões no corpo da vítima. Sabe‑se, no
entanto, que a maior parte dos casos levados ao Judiciário lá aporta sem exame
físico ou com resultado negativo, elevando a complexidade da tarefa do julgador.
O sistema de justiça não se encontra preparado para o enfrentamento do fenômeno
da violência sexual. Granjeiro (2008, p. 162‑163) afirma que esse despreparo re-
sulta “de uma crise decorrente do esgotamento do paradigma da cultura legalista
— a lei resolve tudo — e da própria formação acadêmica, que aliena o jurista e não
o afasta das pré‑noções ideológicas que moldaram a concepção jurídica de mundo,
esta insuficiente de dar conta”, nas palavras de Souza Júnior (2002, p. 146), “da
complexidade e das mutações das realidades sociais, políticas e morais numa con-
juntura de transição paradigmática”.
Com a Constituição Federal de 1988, os tratados de direitos humanos ratifica-
dos pelo Brasil tornam‑se inexequíveis sempre que o sistema de justiça optar pelo
“paradigma da positivação das normas e a separação do Direito de qualquer outra
área do conhecimento” (Granjeiro, 2008, p. 162). O Judiciário, dentro da visão de
que o processo não é fato social, mas um sistema de normas, deixa de indagar sobre
sua valorização ética e, desde décadas que antecederam a Constituição Federal de
1988, vem valorizando, de forma privilegiada, a inquirição da vítima como meio de
produzir a prova. Para esse fim, poderia ter valorizado iniciativas de cunho interdis-
ciplinar, já que conta, em seus quadros, com técnicos da área da Saúde e do Serviço
Social. Entretanto, optou por manter a prática de inquirição da criança com o intui-
to de extrair da vítima o relato da cena e a indicação do autor, fazendo recair sobre
ela a complexa incumbência de produzir a prova e, quiçá, levar o abusador à cadeia.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 489
Esse procedimento, face à condição de dependência que a criança tem da
família, acaba por se constituir num paradoxo, já que, a despeito da intenção pro-
tetiva, termina por expô‑la e até mesmo desrespeitá‑la como sujeito de direitos,
obrigando‑a a expor sua intimidade em uma situação constrangedora e formal. Do
relato da criança que é submetida à inquirição poderão derivar consequências ne-
fastas para si e para os demais familiares, considerando os possíveis efeitos desse
procedimento sobre a constituição familiar. Do mesmo modo, a lembrança das si-
tuações de violência, se não acompanhadas por profissionais especializados, pode
desencadear fantasias e sofrimento que também constituem desrespeito à sua
condição de sujeito de direitos humanos. Assim, o Depoimento Sem Dano ou o
Depoimento Especial, apresentado como solução para a inquirição da vítima:

Certamente diminui o dano aos operadores do Direito que, como cirurgiões, usam a
colocação do “campo cirúrgico” para conseguir realizar a “violência” de cortar o
paciente. Estabelecidos em outra sala, e tendo como porta‑voz um profissional da
saúde, ficam protegidos do impacto do relacionamento direto com a vítima. A criança
tem sua intimidade revelada, sua ferida tocada num ambiente mais hospitaleiro, mas
que não anestesia a violência da inquirição. Qualquer profissional da saúde sabe que
falar e reproduzir o trauma torna a dor aguda novamente. A presença de brinquedos e
de um técnico que supostamente possa “saber fazer perguntas adequadas” ou “tradu-
zir a linguagem dos operadores do Direito” não anestesia a dor. A anestesia, para que
a criança possa falar no trauma, só se instala num ambiente terapêutico e não avalia-
tivo ou inquiridor. (Ferreira, 2012, p. 195)

Em outras palavras, diante da incompetência do sistema para apurar os fatos,


recorre‑se, mais uma vez, à vítima, atribuindo‑lhe a árdua missão de produzir a
prova. Dessa forma, a criança passa da condição de vítima à de testemunha‑chave
da acusação, deixando‑se de lado a proteção que a lei lhe confere. Se antes da
Constituição Federal de 1988 a inquirição da criança vítima de violência sexual
vinha abraçada pelo manto da legalidade, na atualidade, choca‑se frontalmente com
os direitos humanos da criança e do adolescente.
Os crimes que deixam vestígios exigem a realização do exame de corpo de
delito por perito capacitado. Nesse sentido, ressalta França (1998, p. 7):

A finalidade da perícia é produzir a prova, e a prova não é outra coisa senão o elemen-
to demonstrativo do fato. Assim, tem ela a faculdade de contribuir com a revelação
da existência ou não de um fato contrário ao direito, dando ao magistrado a oportuni-
dade de se aperceber da verdade e de formar a sua convicção.

490 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
No âmbito do processo penal, “quando a infração deixar vestígios, será indis-
pensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri‑lo a
confissão do acusado” (artigo 158, CPP). “Os peritos elaborarão o laudo pericial,
onde descreverão minuciosamente o que examinarem, e responderão aos quesitos
formulados” (artigo 160, CPP). Nesse caso, por quesitos entendem‑se “as questões
formuladas sobre um assunto específico, que exigem como respostas opiniões ou
pareceres. Os quesitos podem ser oferecidos pela autoridade judicial e partes até o
ato de diligência” (artigo 176, CPP).
O depoimento da vítima, considerada por alguns autores como testemunha,
não se reveste de credibilidade absoluta. Suas declarações vêm impregnadas de
impressões pessoais, havendo “um certo coeficiente pessoal na percepção e na
evocação da memória, que torna, necessariamente, incompleta a recordação, de
forma que não há maior erro que considerar a testemunha como uma chapa foto-
gráfica” (Altavilla, 1982, p. 252). Diversos são os fatores a interferir na prova
testemunhal, como o interesse, a emoção, entre outros. O mesmo autor assinala que,
quanto mais intensa é uma concentração afetiva, mais facilidade existe para, decor-
rido algum tempo, haver o desvio da atenção do primeiro objeto para um objeto
diverso. E complementa: “a violenta ressonância emotiva, colorida de desagrado,
que em nós pode provocar um objeto, pode, particularmente, facilitar ou apressar
um desvio de atenção” (Idem, p. 253).
Torna‑se necessário, portanto, “conhecer com precisão a posição processual
de uma testemunha e as suas relações de interesse, de amizade ou de parentesco com
as partes” (Altavilla, 1982, p. 255), a fim de valorar com adequação o teor de seu
depoimento. A inquirição da vítima, nos crimes que envolvem violência sexual in-
trafamiliar, agrega elementos que decorrem da posição que o abusado ocupa na fa-
mília e no processo, porquanto, na maioria dos casos, além de o agressor manter
vínculos afetivos com a vítima, a criança é também a única testemunha. Para Furniss
(1993, p. 312), “o não das crianças, quando questionadas se sabiam do abuso, não
significa que não tenham estado envolvidas, que não tenham sabido ou que não te-
nham sido afetadas por ele; ele geralmente significa que elas estão assustadas demais
para falar”. Nesse sentido, não é de surpreender que as vítimas de violência sexual
considerem os julgamentos traumáticos, uma vez que passa a ser exigido delas que
se impliquem retrospectivamente na experiência. Relatos “apontam os julgamentos
como mais traumáticos que o próprio fato, levando‑as a recorrer, defensivamente, a
respostas evasivas” (Vilhena, 2001, p. 61). Também é preciso considerar que a
criança, “mesmo dizendo a verdade, é tão facilmente sugestionável que pode, com

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 491
facilidade, ser induzida a retratar‑se numa acareação, especialmente sendo‑lhe opos-
ta uma pessoa a quem tema e respeite” (Altavilla, 1982, p. 332).
Práticas recepcionadas pela velha Carta Constitucional, como a inquirição da
criança com o fim de produzir a prova da autoria e da materialidade, permanecem
sendo reproduzidas pela Justiça Criminal, que não se beneficia dos conhecimentos
desenvolvidos por outras áreas do saber. No processo penal inquisitivo, “não se
encontram exigências comunicacionais, pois o inquirido é tratado por seu inquisitor
como um objeto da investigação, e não como uma pessoa em processo de compre-
ensão recíproca, isto é, como sujeito de direitos [...]” (Potter, 2010, p. 51). Dessa
forma, a utilização do velho método da inquirição, além dos prejuízos emocionais
que pode causar à criança, dá ensejo a que o abusador ou outros familiares atribuam
a ela a responsabilidade pela prisão do autor dos fatos, levando a vítima a sentir‑se
responsável pelos prejuízos causados ao grupo familiar, além de contribuir para
mascarar o real motivo da condenação do abusador, ou seja, a prática de crime.
Se, diferentemente, houvesse a preocupação de ouvir a criança, provavelmente
muitas dessas consequências poderiam ser evitadas e, respeitada em seus direitos,
a criança abusada poderia colaborar com a justiça, sinalizando a melhor alternativa
de encaminhamento da questão sub judice sem carregar nenhuma culpa relacionada
ao ato de que foi vítima nem às consequências familiares que dele podem advir.
Qual a diferença entre inquirir e ouvir a criança? “Inquirir” significa pergun-
tar, indagar, fazer perguntas direcionadas, investigar, pesquisar. “Ouvir”, por sua
vez, significa escutar o que ela tem a dizer, dar ouvidos, dar atenção às palavras da
criança, o que pode vir expresso por intermédio do brinquedo, como valioso ins-
trumento utilizado por profissionais da saúde mental na avaliação da criança1.
Nesse sentido, Alves (1994) explica:

Escutar é complicado e sutil. [...] Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma. [...] A gente não aguenta ouvir o
que o outro diz sem logo dar um palpite melhor [...]. Sem misturar o que ele diz com
aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descan-

1. O brinquedo é uma forma ímpar de contar o ocorrido, uma vez que lida com a memória e o
comportamento implícitos. “Ao brincar, a criança desloca para o exterior seus medos, suas angústias e
problemas internos, dominando‑os pela ação [...]. Isso permite que ela domine a situação externa que vivencia,
tornando‑se ativa e não passiva.” No caso do abuso sexual, o brinquedo expresso em sessões de avaliação
ou de psicoterapia é um indicador privilegiado da ocorrência do fato e sua repercussão dentro da criança em
geral, assim como uma forma de alívio e caminho para elaboração (Ferreira et al., 2011, p. 151).

492 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
sada consideração [...] E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a
dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais cons-
tante e sutil de nossa arrogância e vaidade.

Quando o Estatuto da Criança e do Adolescente reconhece a peculiar condição


de pessoa em desenvolvimento da criança e do adolescente, está falando de sua
imaturidade ou, em outras palavras, de seu incompleto estágio de desenvolvimen-
to físico, mental e psicossocial, fato que os diferencia dos adultos. Recente altera-
ção, introduzida com a Nova Lei da Adoção (Lei n. 12.010/2009), demonstra a
necessidade de proteger a criança, recorrendo‑se, preferencialmente, a sua ouvida
por equipe interdisciplinar, respeitado o estágio de desenvolvimento e compreensão
sobre as implicações de suas manifestações. A nova lei, por outro lado, fixa o limi-
te de doze anos para a oitiva do adolescente em audiência, numa clara demonstra-
ção da importância de preservar a criança de situações que possam comprometer
seu desenvolvimento saudável (artigo 28, ECA). Considerar a fala da criança, como
prevê o artigo 12 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança
(ONU, 1989), não exige necessariamente o uso da palavra falada, porquanto o
sentido da norma é muito mais amplo, significando a necessidade de respeito in-
condicional à vítima, como pessoa em fase especial de desenvolvimento.
A prova da materialidade é a questão de fundo a justificar a inquirição da
criança por aqueles segmentos que sustentam a sua obrigatoriedade, independen-
temente de idade, nos feitos que envolvem a violência sexual. Inquirir a criança,
nos feitos criminais, não tem por finalidade saber como ela está se sentindo ou
mesmo propiciar a aplicação de medida de proteção (artigo 101, ECA), em que
pese “a assistência ao paciente vítima de abuso sexual” e o fato de esse método já
ter sido objeto “de importantes estudos quanto aos seus aspectos clínicos e de saú-
de mental” (Benfica e Souza, 2002, p. 173). A inquirição, como já se afirmou,
busca trazer aos autos a prova da materialidade, em especial nos casos em que a
violência não deixou vestígios físicos, em afronta aos direitos humanos inseridos
na Constituição Federal de 1988.
Procedimentos voltados a sobrecarregar a criança com a produção da prova
precisam ser repensados e reexaminados à luz dos direitos humanos, da proteção
integral e dos conhecimentos científicos disponíveis em diferentes áreas do saber.
Tem partido dos profissionais a necessidade de buscar outras formas de intervenção,
uma vez que o modelo tradicional, no qual as diferentes profissões não se comuni-
cam, não aponta bons índices de sucesso, levando‑os a recorrer, cada vez mais, às

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 493
propostas interdisciplinares que “permitem resultados novos que não seriam alcan-
çados sem esse esforço comum” (Paviani, 2008, p. 41).
Promotores, procuradores de justiça, juízes de direito, desembargadores, as-
sistentes sociais, psicólogos e demais técnicos, todos gostariam de poder afirmar ou
negar, com segurança, a ocorrência da violência sexual. Alguns segmentos, diante
da incerteza, apostam na inquirição da criança, como se fazia antes de ela ser reco-
nhecida como sujeito de direitos, período em que tais práticas não eram sequer
questionadas. Potter (2010, p. 51), referindo‑se às condutas utilizadas pelo processo
penal, afirma: “Os meios probatórios inquisitoriais no processo penal brasileiro
acabam por ofender tanto os direitos das vítimas quanto dos acusados por entender
ambos como objeto e fonte de verdade e não sujeitos de fala”. Prossegue a autora:

A equivocada abordagem dos operadores jurídicos às vítimas‑testemunhas infantoju-


venis para comprovar o fato criminoso é o inquisitorialismo inerente à estrutura
processual, que permite ampliação de poderes contra todos os que não ocupam espa-
ços de poder, como vítimas, acusados, testemunhas. (Idem)

Ademais, devido ao medo de represálias, à culpa associada com o ato de


aceitação da sedução e ao medo de dissolução da família, a inquirição da vítima de
violência sexual intrafamiliar pode fazer com que a criança retire a acusação, como
confirma a prática forense. E, ainda, “a criança pode não desejar discutir o(s)
incidente(s) novamente porque a recordação é dolorosa e os pais podem pertinen-
temente apoiar a criança nesta resistência” (Johnson, 1992, p. 301). Furniss chama
ainda a atenção para o fato de que as ameaças de violência e de desastre na família
levam a criança, em muitos casos, a mentir, o que ocorre com mais frequência
quando negam ter ocorrido o abuso. Para o autor, “as crianças mentem sobre o
abuso sexual porque estão com medo de serem castigadas, não acreditadas e não
protegidas” (1993, p. 31). Tais constatações, presentes no dia a dia dos profissionais
que atuam na área, contribuem para demonstrar a complexidade do tema, justifi-
cando o envolvimento dos diversos campos do conhecimento no estudo, na pesqui-
sa e na reflexão a seu respeito.

2. Ação interdisciplinar e a proteção à criança


O trabalho com famílias em que a violência sexual está presente “é incômodo,
tenso, permeado por desfiles de tragédias, de violências pessoais, sociais, institu-

494 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
cionais — explícitas ou simbólicas” (Fávero, 2006, p. 39), inviabilizando que um
único profissional dê conta da demanda. Nesse contexto, a interdisciplinaridade2
“parece consistir num movimento processual na efetivação de experiências espe-
cíficas e que surgem da necessidade e da contingência do próprio estatuto do co-
nhecimento” (Paviani, 2008, p. 14). A colaboração interdisciplinar se faz necessá-
ria em face da “rigidez, da artificialidade e da falsa autonomia das disciplinas, as
quais não permitem acompanhar as mudanças no processo pedagógico e a produção
de conhecimentos novos” (Idem). Propostas dessa natureza pressupõem o “aban-
dono de posições acadêmicas prepotentes, unidirecionais e não rigorosas, que fa-
talmente são restritivas, primitivas e tacanhas, impeditivas de aberturas novas,
camisas de força que acabam por restringir alguns olhares, tachando‑os de menores”
(Souza, 1999, p. 163).
Como bem assinala Iamamoto (2002, p. 41),

é necessário desmistificar a ideia de que uma equipe, ao desenvolver ações coordena-


das, cria uma identidade entre seus participantes que leva à diluição de suas particula­
ridades profissionais. São as diferenças de especializações que permitem atribuir
unidade à equipe, enriquecendo‑a e, ao mesmo tempo, preservando aquelas diferenças.

Desta forma, cabe ressaltar que o trabalho interdisciplinar “consiste num es-
forço de busca da visão global da realidade, como superação das impressões está-
ticas e do hábito de pensar fragmentador e simplificador da realidade” (Luck, 1994,
p. 72). É uma atividade que possibilita um enfoque globalizador frente a uma
realidade complexa. Para Japiassu (1976, p. 72),

interdisciplinaridade corresponde a uma evolução dos tempos atuais, resultante de um


caminho irreversível, vindo preencher os vazios deixados pelo saber proveniente das
áreas de especialidade do conhecimento, [e] constitui importante instrumento de re-
organização do meio científico, a partir da construção de um saber que toma por
empréstimo os saberes de outras disciplinas, integrando‑os num conhecimento de um

2. Em épocas passadas ocorreram importantes tentativas no mesmo sentido, sendo possível que “Platão
tenha sido um dos primeiros intelectuais a colocar a necessidade de uma ciência unificada, propondo que esta
tarefa fosse desempenhada pela filosofia” (Santomé, 1998, p. 46). A Escola de Alexandria, na Antiguidade,
pode ser considerada a instituição mais antiga a assumir um compromisso com a integração do conhecimento,
a partir de uma ótica filosófico‑religiosa, reunindo “sábios de todos os centros intelectuais do mundo helenístico;
as influências judias, egípcias e gregas misturavam‑se com outras mais distantes, trazidas por mercadores e
exploradores” (Idem).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 495
nível hierarquicamente superior, desencadeando uma transformação institucional mais
adequada ao bem da sociedade e do homem.

Também no campo da teoria jurídica, são observadas evidências da necessi-


dade de

romper definitivamente com as visões ingênuas do direito, que o colocam seja como
reflexo, seja como autônomo face à política, sem que os ditos críticos discutam, ao
menos, os diferentes sentidos que possuem as normas jurídicas ou se elas constituem,
por exemplo, um sistema aberto ou fechado, em relação à problemática político‑social
do “mundo da vida”. (Rocha, 2000, p. 152)

Em outras palavras, por ser a violência sexual intrafamiliar praticada contra


a criança um fenômeno multicausal, uma abordagem de atendimento que não con-
sidere todos os fatores intervenientes dificilmente atingirá as metas propostas, como
a minimização dos danos causados pela violência e a interrupção do seu ciclo
perpetuador, oferecendo à família a oportunidade de reconstrução dos seus vínculos
afetivos. Chaves, referindo‑se ao sistema de justiça, assinala que “o juiz se vale,
cada vez mais, de todo o quadro técnico que o auxilia e que, por vezes, até aponta
a solução adequada para casos sub judice, não sendo possível prescindir do estudo
social”, assim como de laudos elaborados por médicos e psicólogos, “dada a com-
plexidade extrema das situações trazidas a juízo, mormente aquelas que envolvem
abuso sexual” (2011, p. 349).
Os profissionais que trabalham com o abuso sexual praticado contra a criança,
no âmbito intrafamiliar, sabem que “a interdisciplinaridade é um objetivo nunca
completamente alcançado e por isso deve ser permanentemente buscado”, em es-
pecial por não se tratar apenas de uma proposta teórica. Sua perfectibilidade é rea-
lizada na prática, em experiências reais de trabalho em equipe, nas quais “exerci-
tam‑se suas potencialidades, problemas e limitações” (Santomé, 1998, p. 66), pois
mediante a comunicação que a troca acontece, permanecendo viva a individualida-
de dos envolvidos com a proposta.
Gomes, Silva e Njaine (1999, p. 179), em estudo bibliográfico que se propôs
a enfrentar a prevenção à violência contra a criança e o adolescente, sob a ótica da
saúde, assinalam que “todas as propostas [...] destacam a necessidade de se adotar
um trabalho interdisciplinar por parte dos profissionais”, evidenciando um consen-
so entre os estudiosos do tema. No entanto, é também da literatura que vem a

496 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
constatação de que, “apesar da crescente atenção por parte dos pesquisadores para
o tema do abuso sexual de crianças, o trabalho nesse campo é fragmentado, de-
sorganizado e, em geral, metodologicamente difuso” (Amazarray e Koller, 1998,
p. 561). Para vencer a fragmentação, “as disciplinas devem comunicar‑se umas
com as outras, confrontando e discutindo suas perspectivas”, como sinalizam
Quáglia, Marques e Pedebos (2011, p. 282). Para Mendes, Lewgoy e Silveira (2008,
p. 30) a complexidade da proposta de trabalho interdisciplinar “consiste justamen-
te na sua própria construção, que é impregnada por trocas e articulações mais
profundas entre os diferentes elementos participantes”.
Os estudos disponíveis já permitem afirmar que a criança exposta à violência
sexual, no âmbito da família, apresenta sinais não verbais, por meio de alterações
no comportamento, na maioria das vezes não decodificados pelos responsáveis.
Jung (2006, p. 27) salienta, referindo‑se às manifestações da criança:

Ela pode reagir com um estado de estresse emocional caracterizado por agitação, ou
pode reagir pelo choque e recuo, com anestesia afetiva seguida por terror, regressões
a comportamentos mais infantis e manifestações psicossomáticas. As queixas psicos-
somáticas são habituais, pois geralmente expressa suas dificuldades não na fala, mas
no corpo [...].

Além dos danos físicos, a violência sexual,

por ser uma experiência que está além dos limites da compreensão da criança e para
a qual ela não está fisicamente nem psicologicamente preparada, e por ser uma situa-
ção imposta numa atmosfera de coerção e abuso de poder, rompe o curso normal de
seu desenvolvimento psicossexual e, como consequência, diferentes tipos de sintomas
podem surgir. (Jung, 2006, p. 19)

Por vir acompanhada de particularidades capazes de elevar as dificuldades


dos profissionais que lidam com a criança vítima, a família e o abusador, a violên-
cia sexual intrafamiliar não pode ser enfrentada de forma fragmentada, sob pena
de tal intervenção não surtir efeitos benéficos. Em consequência, como se tem
sustentado, ela requer uma proposta de trabalho de cunho interdisciplinar por suas
múltiplas implicações no âmbito pessoal e familiar, social e legal.
Em razão das graves sequelas que as vítimas desse tipo de violência costumam
apresentar, não se admite que os órgãos de proteção, por despreparo e desconheci-

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 497
mento do tema, venham a reforçar, com condutas inadequadas, os danos que recaem
sobre a criança. Como assinala Fávero (2012, p. 182), a efetivação da proteção
integral da criança vítima de violência sexual exige

a formação e capacitação continuada, teórica técnica e ética — especialmente dos


agentes que atuam nas áreas de educação, saúde, assistência social e justiça — para
desenvolverem a capacidade de reconhecer os sinais da violência contra a criança e o
adolescente, denunciá‑la e enfrentá‑la, numa atitude coletiva e pró‑ativa de proteção.

Nesse sentido, o Projeto de Lei n. 8.045/2010 (origem 156/2009), atualmente


na Câmara dos Deputados, e que trata da alteração do Código de Processo Penal,
seguindo tendências contemporâneas, cria o Título V para tratar dos direitos da
vítima, a quem assegura, entre outros, o direito de ser tratada com dignidade e
respeito condizentes com sua situação e o direito de receber imediato atendimento
médico e atenção psicossocial.
Substituir métodos de trabalho utilizados no período anterior à Constituição
Federal de 1988, que não garantiam os direitos assegurados à criança, por uma
proposta interdisciplinar, que considera a criança como pessoa em fase especial de
desenvolvimento, investindo na interdisciplinaridade como instrumento capaz de
garantir a proteção integral à criança, é a proposta que se traz ao debate.
Face às particularidades do tema, nem sempre será possível obter uma res-
posta certa e segura sobre a existência da violência sexual anunciada. Em outras
palavras, nem sempre uma sentença condenatória corresponderá à verdade dos
fatos, assim como uma sentença absolutória nem sempre afasta a ocorrência do
abuso. A incerteza, que tanto angustia os profissionais, não pode anular a atenção
e o cuidado que a criança e a família envolvida merecem receber. Em todos os
casos, os profissionais terão que se debruçar com afinco, competência e preparo
técnico sobre a questão, sem abrir mão do compromisso com a dignidade humana
e com a proteção integral à criança.
Nesse contexto, a interdisciplinaridade é condição necessária para estabelecer
uma razão comunicativa de validade, uma vez que permite

a intersecção dos conhecimentos expressos pelas várias disciplinas, sendo necessário


estabelecer uma linguagem comum através de um sistema permeável, flexível, dialé-
tico; e onde os agentes sejam mediadores e harmonizadores, conhecedores do proces-
so e identificadores dos problemas, o que ensejará o compartilhamento de referenciais
teóricos [...]. (Giorgis, 2010, p. 34)

498 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
À luz do princípio da proteção integral assegurada à criança, práticas antigas
precisam ser revistas e repensadas sob a ótica do novo paradigma estabelecido pela
Constituição Federal. A mudança se torna mais difícil em virtude da posição de
objeto, reservada à criança no processo penal, que costuma estar marcada pela
falta de proteção, em total discrepância com sua condição de sujeito de direitos, há
mais de duas décadas anunciada nas disposições constitucionais. A situação de
desproteção vivenciada pela criança no ambiente familiar costuma ser reeditada
nas demais instâncias, inclusive no decorrer do processo penal. O que se espera é
que, no âmbito do sistema de justiça, os promotores de justiça, defensores públicos,
advogados, magistrados e técnicos imprimam uma conduta diferente daquela ex-
perimentada no âmbito familiar, vindo a adotar uma postura capaz de respeitar as
crianças, tratando‑as

como indivíduos autônomos e íntegros, dotados de personalidade e vontade próprias


que, na sua relação com o adulto, não podem ser tratados como seres passivos, subal-
ternos ou meros objetos, devendo participar das decisões que lhes dizem respeito,
sendo ouvidos e considerados em conformidade com suas capacidades e grau de de-
senvolvimento. (Brasil, 2006, p. 25)

Para que a criança, inserida nas diferentes relações familiares, possa ser con-
siderada sujeito de direitos, profissionais de várias áreas do conhecimento terão que
se envolver, buscando os fundamentos de sua ação numa atitude interdisciplinar
que, como assinala Fávero (2010, p. 201),

supõe complementaridade, não fragmentação — o que dispensaria o intérprete. Atuar


interdisciplinarmente implica reconhecer os óbvios limites da área de conhecimento,
o que, no caso, exige humildade intelectual, exige deixar de ser o centro da ação
processual ou, melhor dizendo, deixar a base positivista predominante na leitura e
interpretação da lei e do Direito para dispor‑se a entender o processo de conhecimen-
to como construção por um sujeito coletivo.

O conhecimento disponível na atualidade a respeito do desenvolvimento in-


fantil parece apontar para a importância de substituir a inquirição da criança por
perícia realizada por equipe interdisciplinar, composta por assistentes sociais, pe-
diatras, psicólogos e psiquiatras especializados no atendimento infantil.
Enquanto a inquirição renova o sofrimento da criança, sem garantir a credi-
bilidade esperada pelo sistema criminal, a perícia, nos moldes propostos, possibi-

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 499
lita conhecer a situação vivida pela criança e sua família, permitindo a busca de
medidas de proteção (artigo 101, ECA) ou de medidas a serem aplicadas aos pais
(artigo 129, ECA).
O sistema de justiça, ao lado de outros órgãos, ocupa papel relevante no
sistema de defesa, proteção e promoção de direitos previstos na normativa in-
ternacional e na legislação brasileira, devendo assumir‑se como integrante do
processo de desenvolvimento nacional, na busca da justiça social, da paz e da
ordem na sociedade. No entanto, alerta a Associação Brasileira de Magistrados,
Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude (ABMP)
(2008, p. 11):

As práticas do sistema de justiça nem sempre incorporaram a mudança de paradigmas


operada pelo ECA e pelas intervenções de outras áreas setoriais. Seria injusto atribuir
esta falta apenas aos operadores do direito, especificamente a magistrados, promo-
tores de Justiça e defensores públicos. Percebe‑se, pelo contrário, uma falta de reco-
nhecimento de prioridade do direito de crianças e adolescentes pelas instituições do
sistema de justiça, em manifesta afronta ao preceito constitucional do art. 227.

Para que se possa investir em ações de cunho interdisciplinar, urge que se


busque capacitar os profissionais do Serviço Social e da Saúde para avaliar a crian-
ça e elaborar o laudo. De outro lado, há que se capacitar os promotores de justiça,
advogados e magistrados para que reconheçam o valor científico de tais perícias,
retirando da criança a responsabilidade de provar os fatos e apontar o abusador,
tarefas que competem aos promotores de justiça e magistrados.
Alterações no currículo escolar, a começar pelo ensino fundamental, com a
inclusão de conteúdos do Estatuto da Criança e do Adolescente, como prevê a lei,
são urgentes. De igual forma, a matéria deve ser incluída nos currículos dos cur-
sos do ensino superior, favorecendo, a curto e médio prazo, maior qualificação
profissional.
As mudanças a serem operadas são apontadas com clareza na normativa in-
ternacional e na legislação brasileira. Resta, no entanto, a difícil tarefa de não es-
morecer na luta por efetivo acesso aos direitos da criança frente à lentidão com que
eles são realizados, de modo a evitar que se façam muitas vítimas de violência
sexual intrafamiliar antes que crianças e adolescentes sejam respeitados como su-
jeito de direitos, não só na letra fria da lei, mas também nas ações que interferem
na sua vida social.

500 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
3. A perícia interdisciplinar como meio de prova e garantia de direitos
humanos à criança
A perícia interdisciplinar, defendida por muitos, costuma ser desprezada pelos
defensores dos métodos de inquirição, em franca expansão no país.
Reafirmamos a defesa da utilização do trabalho interdisciplinar, com assisten-
tes sociais, pediatras e psicólogos, capacitados para o trabalho com crianças vítimas
de violência sexual. Laudos são meios de prova e como tal precisam ser reconhe-
cidos. Assim como as lesões físicas são apuradas por médico-legista, em perícia
realizada em consultório, sem a interferência de outro técnico e sem o acompanha-
mento em tempo real por magistrado, advogados e réu, a constatação dos danos
sociais e psíquicos há que ser apurada por assistentes sociais e psicólogos, cujos
laudos técnicos devem ser levados aos autos do processo, constituindo‑se prova da
materialidade.
O promotor de justiça Francisco Cembranelli, que trabalhou na acusação do
caso Isabella, em entrevista concedida ao jornal Zero Hora, em Porto Alegre, ao
ser questionado sobre as possibilidades de se obter a condenação do réu em crimes
que não contam com testemunhas presenciais, afirmou “existirem outros meios para
se provar o que a acusação alega; testemunhos, muitas vezes, são falhos; provas
científicas, não”. Para o promotor de justiça, “é importante evoluirmos e não ficar-
mos tentando conseguir condenações como se estivéssemos nos anos 1960 [...]”
(Zero Hora, 2010, p. 48).
A criança, como sujeito de direitos humanos, merece proteção em todas as
situações, especialmente quando se vê envolvida em processo judicial na condição
de vítima, não podendo o sistema de justiça se sobrepor ao sistema de garantias de
direitos enunciado na normativa internacional. Ao Poder Judiciário cabe dispensar
tratamento condizente com os princípios constitucionais da proteção integral e da
dignidade da pessoa humana, o que pressupõe conhecer o contexto de vida da
criança nas suas diversas facetas, investindo, cada vez mais, em ações cooperativas
de cunho interdisciplinar.
A prática de inquirir crianças vítimas de violência sexual, em virtude dos
novos paradigmas que norteiam a proteção da infância, a partir da década de 1980,
motivou a edição da Resolução n. 20/2005 do Conselho Econômico e Social das
Nações Unidas. Segundo o documento, milhões de crianças do mundo inteiro são

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 501
vítimas de violência provocada pela prática de crimes e de abuso de poder por
parte de adultos, podendo os danos ser agravados quando são chamadas a auxilia-
rem na instrução dos processos judiciais. A resolução assinala, ainda, que os direi-
tos humanos da criança devem ser considerados em primeiro lugar, incluindo‑se o
direito à proteção e à chance de um desenvolvimento harmonioso; o direito de
expressar livremente suas opiniões e crenças; o direito de ser informada sobre o
andamento de processo judicial que diga respeito a fatos de sua vida, bem como
sobre todos os seus possíveis desdobramentos (ONU, 2005).
Não estamos afirmando que a criança deve ser mantida à margem do proces-
so judicial, mas que o tratamento a ela dispensado precisa estar em consonância
com a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, sendo‑lhe
oportunizado ser levada à presença da autoridade judiciária sempre que desejar
revelar fatos e fazer pedidos, em respeito a sua condição de pessoa em fase especial
de desenvolvimento. Nesse sentido, o item XI da Resolução n. 20/2005 assegura a
participação da criança nas audiências e julgamentos desde que previamente pla-
nejada e assegurada a continuidade do seu relacionamento com os profissionais
com quem vem mantendo contato durante todo o desenrolar do processo. Direito
de participar e de ser ouvida são garantias da criança, o que não pode ser confun-
dido com o dever de ser inquirida com o fim de produzir a prova de fato em que
figura como vítima (ONU, 2005).
A mudança de concepção da criança no sistema jurídico brasileiro, fruto de um
longo debate que se iniciou em 1924, com a Declaração de Genebra, exige alterações
profundas nas condutas e práticas exercidas desde o início do século XX. Decorridos
vinte anos da edição do Estatuto da Criança e do Adolescente, ainda são tímidas as
iniciativas que valorizam a criança, respeitando sua condição de sujeito de direitos
humanos. Para isso, os cursos de Direito, assim como os de Serviço Social, de Pe-
dagogia, de Medicina, de Psicologia, precisam se tornar parceiros da criança, in-
cluindo essa discussão em seus currículos e possibilitando maior capacitação dos
profissionais para o reconhecimento da criança como sujeito de direitos.

Considerações finais
Reconhecer as dificuldades que existem na identificação da violência sexual
praticada contra a criança parece ser o primeiro passo para a valorização do traba-

502 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013
lho interdisciplinar. No entanto, não basta esse reconhecimento. É preciso ter claro
que a criança é detentora de direitos humanos, fato que impede a utilização de
práticas que coloquem em risco o direito ao respeito e ao desenvolvimento físico,
mental, moral, espiritual e social em condições de liberdade e de dignidade.
Embora a presença de técnicos do Serviço Social, da Psicologia e da Psiquia-
tria no sistema de justiça não constitua fato novo, há que se retomar o debate do
papel desses profissionais, valorizando seu conhecimento científico, reconhecendo
seus instrumentos de trabalho e possibilitando o verdadeiro exercício da atividade
interdisciplinar, caminho capaz de garantir os direitos humanos à criança vítima de
violência sexual. Não se pode, à luz dos princípios constitucionais, dissociar as
ações que visam a condenação do réu daquelas que buscam a garantia de direitos
humanos à criança e ao adolescente, como se fossem compartimentos diversos e
autônomos. Há que se trabalhar nas duas frentes com a clareza de que em hipótese
alguma a proteção da criança pode ser mitigada em nome de um resultado conde-
natório. Nisso, talvez, resida a maior dificuldade neste momento.

Recebido em 6/3/2013  ■  Aprovado em 10/6/2013

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 487-507, jul./set. 2013 507
O Serviço Social no Judiciário:
construções e desafios com base na realidade paulista*
The Social Work in the Judiciary: constructions and
challenges based on the reality of São Paulo State

Eunice Teresinha Fávero**

Resumo: Este artigo apresenta algumas construções históricas e


importantes desafios colocados ao Serviço Social no Judiciário. Para
isso, toma como base o cotidiano profissional no Tribunal de Justiça
do Estado de São Paulo, particularidades teórico‑metodológicas e
éticas que se fazem presentes no exercício profissional nessa área, e
movimentos políticos da categoria em direção ao acesso e à garantia
de direitos.
Palavras‑chave: Serviço Social. Campo sociojurídico. Cotidiano
profissional. Direitos.

Abstract: This article presents some historical constructions and important challenges for the
Social Work in the Judiciary. For so, it is based on the professional daily activity in the Supreme Court
of São Paulo State, on the theoretical‑methodological particularities and ethical principles of the pro-
fessional practice in this area, and on the category’s political movements aiming at the access and the
guarantee of rights.
Keywords: Social Work. Socio‑juridical field. Professional daily activity. Rights.

* Este artigo tem como base palestras proferidas no V Encontro Estadual dos Assistentes Sociais e
Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, ocorrido em dezembro de 2012, promovido pela
Associação dos Assistentes Sociais do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ‑SP), e no II
Seminário Nacional sobre o Serviço Social no Campo Sociojurídico, em outubro de 2009, promovido pelo
Conselho Federal de Serviço Social (CFESS).
** Assistente social/SP, com atuação e pesquisa na área judiciária; primeira secretária da AASPTJ‑SP
nas gestões 2001‑2005 e 2009/2011; mestre e doutora em Serviço Social pela PUCSP; docente na Universidade
Cruzeiro do Sul‑SP, São Paulo, Brasil. E‑mail: eunicetf@gmail.com.

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Introdução

E
ste texto apresenta reflexões sobre as construções históricas e os desafios
do Serviço Social no Judiciário, com base no cotidiano profissional do
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP). Reflexões e indaga-
ções a respeito do que tem sido construído e quais desafios estão postos
no dia a dia de trabalho — tanto em termos de questões teóricas, metodológicas e
éticas que permeiam o exercício profissional, como questões políticas presentes
nesse fazer.
As ideias aqui expostas partem da experiência de trabalho no Judiciário pau-
lista, da militância na Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal
de Justiça do Estado de São Paulo (AASPTJ/SP), e de pesquisas sobre a história
do Serviço Social nessa instituição, sobre condições de trabalho e sobre a realidade
social constatada no trabalho cotidiano com indivíduos que vivenciam expressões
da questão social, transformadas nesse espaço sócio‑ocupacional em demandas
judiciais — em especial nos âmbitos da Justiça da Infância e da Juventude e da
Justiça da Família.
O debate sobre a história do Serviço Social no campo sociojurídico1 a partir
do cotidiano profissional e, particularmente, as construções históricas dessa profis-
são no Judiciário paulista e seus desafios remetem à reflexão sobre a relação entre
demandas com as quais os profissionais se deparam diariamente, a precarização do
trabalho e a necessária organização coletiva para fazer frente às condições adversas
do labor cotidiano. E isso com o propósito de fortalecer o potencial que o Serviço
Social tem para contribuir com o acesso à Justiça e aos direitos humanos e, no seu
interior, os direitos sociais.

1. Neste texto, “campo sociojurídico” é utilizado como sendo aquele que reúne “o conjunto de áreas
em que a ação do Serviço Social articula‑se a ações de natureza jurídica, como o sistema judiciário, o sistema
penitenciário, o sistema de segurança, os sistemas de proteção e acolhimento como abrigos, internatos,
conselhos de direitos, entre outros. O termo sociojurídico, enquanto síntese dessas áreas, tem sido disseminado
no meio profissional do Serviço Social, em especial com a sua escolha como tema central da revista Serviço
Social & Sociedade n. 67 (Cortez Editora), pelo comitê que a organizou, tendo sido incorporado, a seguir,
como uma das sessões temáticas do X CBAS — Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais/2001” (Fávero,
2003, p. 10). Em trabalho que vem sendo realizado atualmente junto ao CFESS por Grupo de Trabalho
constituído para elaborar as diretrizes de atuação dos assistentes sociais nesse campo, os conceitos de “campo”
e de “área” estão sendo estudados (a partir de análises de Elizabete Borgianni), de maneira a ser definido o
mais apropriado para nominar esse espaço sócio‑ocupacional.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 509
Portanto, trata‑se de um debate que leva em conta a história do Serviço Social
no Judiciário, construída no cotidiano de trabalho pelos assistentes sociais e por
todos os sujeitos com os quais eles interagem no exercício profissional, direta ou
indiretamente. Então, história, cotidiano, trabalho, justiça e direitos se colocam
como centrais nessa reflexão, com vistas a desvelar o exercício profissional lá na
ponta, nas suas articulações com a realidade social e institucional.
Para caminhar até a história do tempo presente, quando os desafios estão
postos concretamente, são retomados alguns marcos da história do Serviço Social
no Brasil e no Judiciário paulista (com um flash sobre seu início e outro foco no
presente), em articulação com a ética e as competências profissionais — sintoniza-
das (ou não) com fundamentos teóricos, metodológicos e técnicos do Serviço Social
nos diferentes momentos. Nessa direção, vamos buscar também debater sobre como
nessa história e nesse cotidiano o poder‑saber profissional se põe frente às expres-
sões da questão social.

Marcos históricos: origem, prática profissional e ética

O Serviço Social no Brasil tem 77 anos de existência,2 e o Serviço Social no


Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo tem 65 anos,3 ainda que desde o início
da profissão neste país alguns assistentes sociais já realizassem trabalhos no então
denominado Juizado de Menores, sem remuneração e/ou integrando o antigo Co-
missariado de Menores.
Os pioneiros do Serviço Social no TJSP foram também pioneiros do Serviço
Social no Brasil, a exemplo da professora Helena Iracy Junqueira e do professor
José Pinheiro Cortez. Ambos compuseram o grupo de professores da Escola de
Serviço Social de São Paulo e militaram no Partido Democrata Cristão. Defendiam
concepções de justiça social e de direitos com base no doutrinarismo católico, com
um viés, ainda que embrionário, da social‑democracia, e tiveram participação de-
cisiva na implantação do Serviço Social no primeiro Juizado de Menores da capital,

2. Considerando como marco inicial da profissão no Brasil a criação da Escola de Serviço Social, em
1936, em São Paulo (SP).
3. Considerando como marco desse início a criação, em 1949, do Serviço de Colocação Familiar junto
ao Juízo de Menores, na capital paulista.

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em 1949, por meio do Serviço de Colocação Familiar,4 instituído pela Lei estadual
n. 500 — que ficou conhecida como Lei de Colocação Familiar.
Serviço este que, se utilizarmos denominação atual, pode ser considerado
como o primeiro programa de família de apoio ou família acolhedora, ou, ainda,
pode ser compreendido como o primeiro programa de transferência de renda de que
se tem notícia no Estado de São Paulo, na medida em que incluía repasse financei-
ro inicialmente às famílias de apoio e posteriormente às próprias famílias das
crianças e adolescentes cujos “casos” (como então se denominava) chegavam ao
Judiciário com demanda de acolhimento institucional.
Em depoimento concedido em 1993,5 o assistente social e professor José Pi-
nheiro Cortez afirma, em relação ao auxílio financeiro à família de origem, previs-
to por esse programa para evitar a “internação de menores” (como se denominava
então o acolhimento institucional de crianças e adolescentes), que:

A maior parte dos casos era de pobreza, que a gente tratando ou não tratando, continua
pobre e que se eu não der comida não come. [...]. Era um dinheiro necessário para
viver, mas não para tirar a condição de total dependência. Claro, a pessoa era estimu-
lada a trabalhar [por meio do acompanhamento realizado pelo assistente social], mas
dava‑se o mínimo necessário, porque se não se desse isso, a criança ia para a rua ou
para uma instituição e aí seria mais caro para o Estado e para a sociedade. (Fávero,
1999, p. 95)

Assim, respondendo às demandas colocadas pela ampliação das expressões


da questão social, esse trabalho foi uma forma de assistência social com o objetivo
de realização da justiça, vinculada ao ideário da doutrina social da Igreja Católica.
O que, naquele momento histórico, não implicava questionamentos da ordem social
burguesa que ditava a direção disciplinadora e controladora da ação profissional
frente aos então chamados “desajustamentos sociais” (Idem, p. 95), que poderiam
culminar no acolhimento institucional de uma criança ou adolescente.

4. A execução do Serviço de Colocação Familiar permaneceu sob a responsabilidade dos Juizados de


Menores da capital até 1985, quando passou a ser administrado pelo Instituto de Assuntos da Família (Iafam),
vinculado ao Poder Executivo estadual, vindo a ser extinto alguns anos depois.
5. Depoimento concedido para pesquisa de mestrado da autora deste texto. Tese publicada com o título
Serviço Social, práticas judiciárias, poder: implantação e implementação do Serviço Social no Juizado de
Menores de São Paulo, em 1999; e em 2005, com o título Serviço Social, práticas judiciárias, poder:
implantação e implementação do Serviço Social no Juizado da Infância e Juventude de São Paulo, pela Veras
Editora, São Paulo.

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O Serviço Social começa então, no Judiciário paulista, com uma direção mais
voltada para a proposição e o desenvolvimento de ações que assegurassem alguma
proteção social — ainda que com uma visão de justiça social direcionada pela
doutrina social da Igreja Católica, que naquele momento iluminava a formação
moral e ética dos estudantes de Serviço Social — e menos identificada com ações
focadas no controle social de comportamentos considerados “desviantes” do padrão
dominante burguês. Isso vai se dar com a criação e a formalização, em 1957, das
Secções de Informações e de Serviço Social, que ficaram conhecidas como Serviço
Social de Gabinete, trabalho que foi instituído em razão do aumento da demanda
de natureza social e pelas competências inerentes aos profissionais dessa área, que
detinham um saber específico sobre as relações sociais e familiares. Saber que
passa a ser sistematizado em informes, relatórios ou laudos, com a finalidade de
dar suporte à decisão judicial:

Então os relatórios eram assim: estudava‑se profundamente o pedido, o significado


do pedido, a situação familiar a respeito daquele problema que se apresentava ali —
digamos, orientando um pedido de internação: então vinha o significado da internação,
a situação da família, o trabalho que se tinha feito com a família no sentido de evitar
a internação, o entendimento feito com a escola para a criança frequentar escola.
Também se acertava, por exemplo: todo mês a família tinha que vir trazer para o as-
sistente social o boletim da criança ou a própria criança, ou havia um entendimento
direto com a escola... O caso era bem conduzido, era bem apresentado, inclusive [...],
quando você acabava de ler um relatório você tinha uma situação, um universo com-
pleto”. (Depoimento Borges, apud Fávero, 1999, p. 117)

Então, isso significa que há aproximadamente sessenta anos os assistentes


sociais têm como principais atribuições no Judiciário paulista: conhecer os sujeitos
que procuram ou são encaminhados a essa instituição, em especial nas áreas da
infância e juventude e família — sujeitos que, via de regra, vivem situações de
violação de direitos e de conflitos os mais diversos; sistematizar esse conhecimen-
to em informes, relatórios ou laudos, e encaminhar ao magistrado, de maneira a
contribuir para que ele forme um “juízo” sobre a situação e defina a sentença, que
poderá vir a ser definitiva na vida de indivíduos e famílias. Sentenças que desde
aquela época e até os dias de hoje determinam o acolhimento institucional de crian-
ças, as colocam em outras famílias, garantindo, em tese, sua proteção, aplicam
medidas socioeducativas — da advertência à internação —, destituem o poder fa-
miliar, definem ou redefinem a guarda de filhos, dão base em alguns casos, ainda

512 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
que indiretamente, à responsabilização penal de supostos violadores de direitos de
crianças, mulheres, idosos etc.
Mas que subsídios são esses que cabia — e cabe — ao assistente social ofe-
recer para contribuir com a decisão judicial? De que lugar profissional, institucio-
nal, político o assistente social falava e fala hoje? Por que o estudo social ou a
chamada perícia social, com características muitas vezes descritivas do relato dos
sujeitos atendidos e da demanda que apresentam, se tornou trabalho fundamental
no Judiciário em detrimento de um maior investimento em diagnósticos sociais
articulados com as amplas dimensões da realidade social e ações articuladas com
outras organizações sociais e, dessa maneira, com maior possibilidade de contri-
buição para o acesso aos direitos e à justiça? E, afinal, de que Justiça se fala e que
direitos são esses?
O assistente social foi e é chamado pelo Estado a fazer parte do Poder Ju-
diciário para contribuir com a aplicação da lei. O estudo que realizava e que
realiza, o parecer social que elabora com base nesse estudo, e que é registrado
em um relatório ou laudo, tem contribuído para flexibilizar ou para manter infle-
xível a lei? A lei “tem um poder formal de gerir e de ordenar a vida, implicando
em direitos e deveres”. Na sociedade brasileira, em que a lei é essencialmente
positivista, ela define, de acordo com Ewald (apud Fávero, 1999, p. 41), “um
espaço de liberdade, traça‑lhe os limites [...]; ela define uma partilha simples e
imperfeita entre o permitido e o proibido; estabelece uma igualdade entre os ci-
dadãos, que deixa na sua indistinção, pois é indiferente à sua existência singular”.
Dessa maneira, a lei generaliza e estabelece formalmente a igualdade entre os
cidadãos, ainda que opere com desigualdades, as quais, nessa perspectiva, não
são consideradas.
Assim, o estudo que o assistente social realizava e realiza contribui para des-
vendar a realidade em sua construção histórica e social, ou para ocultar — ou
justificar — essa construção? Nesse sentido, na realização desse estudo sob uma
perspectiva crítica, não se pode ignorar que a desigualdade e a exploração social
que permeiam a realidade social são inerentes ao padrão capitalista que rege a
economia e a política no Brasil.
Quando o Serviço Social tem início no Judiciário, o viés funcional positivis-
ta e o doutrinarismo social da Igreja Católica, aliados ao metodologismo do Servi-
ço Social de casos individuais, de matriz norte‑americana, eram referências para o
exercício profissional.

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Esse início do Serviço Social no Judiciário paulista praticamente coincide com
o estabelecimento do 1º Código de Ética Profissional do Assistente Social, de 1948,
fundamentado em pressupostos neotomistas e positivistas, em que

a ação profissional é claramente subordinada à intenção ético‑moral dos seus agentes,


entendida como uma decorrência natural da fé religiosa. A ética é concebida como a
“ciência dos princípios e das normas que se devem seguir para fazer o bem e evitar o
mal” (Abas, 1948, p. 40);6 sua importância é afirmada em face da atuação profissional
voltada às “pessoas humanas desajustadas ou empenhadas no desenvolvimento da
própria personalidade” (idem). (Barroco, 2001, p. 96)

A ética operava, portanto, de maneira prescritiva, traduzia na prática dogmas


cristãos, e buscava o aperfeiçoamento da personalidade das pessoas atendidas, de
maneira a que mantivessem “atitude habitual de acordo com as leis e os bons cos-
tumes da comunidade” (idem, p. 96, citando Abas, 1948).
As transformações sociais e culturais que ganham corpo particularmente no
mundo ocidental, e sobretudo a partir da década de 1960, ainda que tenham envol-
vido significativos setores da sociedade brasileira, não aparecem de maneira explí-
cita no Serviço Social naquele momento. Mesmo que tenham existido profissionais
que se envolveram na luta por transformações e pela liberdade social e política, isso
não vai refletir de forma clara nas normativas e na literatura da profissão, literatura
que praticamente inexistia então, na medida em que o Serviço Social nesse período
desenvolvia apenas uma dimensão interventiva e não investigativa, com bases
científicas.
Todavia, considerando a consciência possível à época — entendida, conforme
Goldmann, como o “máximo de possibilidade histórica que a consciência de um
grupo possa ter em um determinado momento” (apud Baptista, 1986, p. 63) — e
os limites teórico‑metodológicos decorrentes do embasamento no neotomismo, no
positivismo e no tecnicismo, nota‑se uma preocupação com a autonomia profissio-
nal e os princípios éticos decorrentes dessa direção social da profissão, concorde‑se
ou não com eles nos dias de hoje. Isto é revelado em depoimentos concedidos pelo
professor José Pinheiro Cortez e pela assistente social Zilnay Catão Borges, dois
dos pioneiros do Serviço Social no Judiciário paulista.

6. Referência conforme texto original.

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O professor Cortez, ao analisar o papel do Serviço Social no Judiciário em
suas primeiras décadas,7 afirma:

A ação do Serviço Social repousa muito mais na intencionalidade do próprio Serviço


Social do que nos fatos sobre os quais ele atua [...]. Importante é definir o papel do
Serviço Social na esfera do Judiciário. E esse papel não é uma definição só da lei nem
só do Poder Judiciário. É também, e fundamentalmente, nossa, dos assistentes sociais.
Então, vou trabalhar os Serviços Sociais junto ao Poder Judiciário a partir de uma
ótica específica e nossa, e que eu vou tentar convencer o Poder Judiciário, o juiz, o
legislador, seja quem for, a adotar essa ótica [...].
O problema da neutralidade do perito [...] existe, mas não deve existir; o indivíduo
não é totalmente neutro na problemática social [...]. Essa postura que o assistente
social condiciona o Serviço Social às instituições, inclusive à chamada Poder Judiciá-
rio, essa postura é que nós temos que questionar, não é correto. É um autossuicídio.
É aceitar as instituições do momento, e o Poder Judiciário é um poder político, no
sentido amplo da palavra político. (In: Fávero, 1999, p. 134‑135)

Zilnay Catão Borges, por sua vez, ao falar sobre o poder inerente ao trabalho
profissional no cotidiano, materializado em relatórios,8 afirma:

Nós tínhamos o direito, eu digo, de vida ou morte. Se você pegar os processos daque-
la época vai ver que eram relatórios grandes, até meio chatos para ler. Não chatos,
porque eram muito bem‑feitos, mas eram relatórios grandes, bons [...].
De jeito nenhum o assistente social alterava relatórios por exigência do juiz. Às vezes
ele podia não concordar [...]. É um direito que lhe cabia, como juiz [...]. Ficava o
nosso relatório, documentado, e o juiz colocava o parecer dele. Mas isso era raríssimo
acontecer. [...]
[...] dava um medo danado. O medo era uma das discussões que a gente vivia tendo:
gente, veja a responsabilidade que a gente está tendo, porque o juiz vê o que se escre-
ve no final e põe “de acordo”. Então, os casos não iam imediatamente para o juiz,
eram muito bem estudados pela chefia e refeitos se algum aspecto não estivesse
muito bem claro para justificar a medida final (idem, p. 116).

Ainda que outras marcas tenham sido importantes na história do Serviço


Social no Judiciário paulista — como algumas experiências com trabalhos comu-

7. Depoimento em 1993 sobre o início do Serviço Social no Judiciário paulista.


8. Depoimento em 1994 sobre o início do Serviço Social no Judiciário paulista.

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nitários nos anos 1960 e 1970, bem como trabalhos interdisciplinares, realizados
por profissionais significativos nessa história, e que fizeram diferença na ampliação
e na qualificação do trabalho no Judiciário9 —, até por volta dos anos 1980 a mar-
ca da tradição positivista e doutrinária foi expressiva no exercício profissional do
assistente social nessa instituição e, é possível afirmar, se faz presente em algumas
intervenções até hoje, mesmo que a partir dos anos 1990 um novo projeto ético e
político tenha passado a nortear a formação e a prática profissional do assistente
social. Um projeto que é hegemônico, o que não necessariamente significa que seja
de domínio e aceito por todos os profissionais na atualidade. Da mesma maneira
que não é possível afirmar com segurança que antes dessa década, entre os profis-
sionais que atuavam no Judiciário, não existissem vozes dissonantes do conserva-
dorismo e do doutrinarismo social cristão, e que indistintamente todos assumiram
integralmente uma perspectiva de trabalho apenas com vistas à adaptação dos in-
divíduos ao meio, que era característica do Serviço Social tradicional.

Projeto profissional, trabalho no cotidiano e desafios contemporâneos


A visita ao passado, em particular aos anos 1940‑1950, com a perspectiva de
conhecer um pouco da história e, como ensina o historiador italiano Alessandro
Portelli (1997), “aprendermos um pouquinho com ela”, é importante para avanços
na construção de transformações no presente e no futuro. Tais transformações de-
pendem de os profissionais se indagarem e se posicionarem em relação às ativida-
des que realizam no tempo presente e em que condições: em relação à ética profis-
sional, às condições e relações de trabalho, à judicialização e à criminalização de
expressões da questão social, às tentativas de uso desvirtuado do trabalho do assis-
tente social para obtenção de provas testemunhais com vistas à responsabilização
penal, e tantas outras questões e desafios com os quais os profissionais se deparam
lá na ponta do exercício cotidiano de trabalho.
Torna‑se importante a reflexão sobre como estão se posicionando e o que
fazem os assistentes sociais no tempo presente no dia a dia de trabalho, nos diver-
sos espaços que ocupam no Judiciário — alargando aqui o tempo presente desde o
início da década de 1990 até os dias atuais. Como acontece a atuação na Justiça da

9. Como Terezinha Davidovich, João Batista Aducci, Maria Antonieta Guerriero e tantos outros.

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Infância e da Juventude, na Justiça da Família e nos demais espaços que demandam
seu trabalho nessa instituição? Quais os referenciais teóricos e metodológicos que
guiam a intervenção? Quais os princípios éticos que iluminam a escuta que estabe-
lecem com os indivíduos, famílias e grupos com os quais trabalham, os relatórios
que elaboram e os pareceres que emitem? Como estão sendo apropriadas as legis-
lações sociais pós‑Constituição Federal de 1988 e como se inserem e se articulam
nesse trabalho as normativas e os programas sociais dela decorrentes? Como os
profissionais se organizam politicamente para fazer avançar o compromisso com a
efetivação da justiça social e dos direitos? E qual perspectiva de justiça social e de
direitos norteia esse fazer profissional?
Não é pretensão nem é possível descrever aqui respostas a todas essas e a
tantas outras questões que movem, ou que poderiam mover, os profissionais da área
comprometidos com a direção social posta pelo projeto profissional hegemônico
do Serviço Social na contemporaneidade. Mas são as perguntas à realidade que
instigam a construção de novos caminhos em busca de respostas efetivas.
A década de 1990 marca essa história pela significativa ampliação do quadro
de profissionais, tanto na capital (que já iniciara uma ampliação na década de 1980)
como em cidades do interior do estado de São Paulo. Isso em virtude do constante
aumento da demanda de trabalho, decorrente tanto da ampliação das expressões da
questão social que chegam ao Judiciário devido à desigualdade social e à ausência
ou insuficiência de políticas universais de proteção social, como das normativas
legais e institucionais que estabelecem mais claramente a proteção de direitos de
crianças, adolescentes, idosos, mulheres e famílias a partir da Constituição Federal
de 1988.
Não é por acaso que essa década — nominada aqui de década de organização
e de conquistas — marca a criação oficial da Equipe Técnica de Coordenação e
Desenvolvimento Profissional dos Assistentes Sociais e Psicólogos do TJSP, para o
planejamento e a execução das atividades de aprimoramento profissional. Marca
também o início da organização política formal dos assistentes sociais e psicólogos
do TJSP (que já vinham construindo um processo organizativo nos anos anteriores),
com a criação, em 1992, da Associação dos Assistentes Sociais e Psicólogos do
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo — AASPTJ‑SP, com o objetivo de tra-
balhar, sobretudo, na direção da defesa de direitos desses profissionais. É também a
partir da segunda metade dessa década que vários profissionais do Judiciário pau-
lista — a maior parte deles com alguma participação na organização política da
categoria — começam a desenvolver pesquisas no âmbito acadêmico sobre o traba-

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lho do assistente social no Judiciário e, portanto, a sistematizar conhecimentos com
base científica sobre seu trabalho, articulando o fazer cotidiano a análises teóricas.10
Essa década de conquistas no âmbito do Judiciário paulista é a mesma em que
o Serviço Social consolida as bases do atual projeto ético e político da profissão:
em 1993, após amplo debate entre segmentos da categoria profissional, é estabele-
cido o atual Código de Ética profissional e promulgada a Lei n. 8.662/1993, que
deu nova regulamentação à profissão, bem como, em 1996, são lançadas as atuais
diretrizes curriculares pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço
Social (Abepss). Documentos esses e diretrizes que marcam a ruptura do projeto
profissional com a direção conservadora, assumindo claramente uma direção social
no exercício profissional norteada pelos seguintes princípios:

Reconhecimento da liberdade como valor ético central, pela defesa intransigente dos
direitos humanos, pela ampliação e consolidação da cidadania, pela defesa do apro-
fundamento da democracia, o posicionamento em favor da equidade e justiça social,
pelo empenho na eliminação de todas as formas de preconceito, pela garantia do
pluralismo, pela opção por um projeto profissional vinculado ao processo de constru-
ção de uma nova ordem societária — sem dominação‑exploração de classe, etnia e
gênero, pela articulação com os movimentos de outras categorias, pelo compromisso
com a qualidade dos serviços prestados e pelo exercício do Serviço Social sem ser
discriminado nem discriminar. (CFESS, 2011)

Esses princípios éticos estão dispostos no atual Código de Ética Profissional


e se contrapõem radicalmente àqueles estabelecidos no Código de Ética Profissio-
nal de 1948, que levavam a traduzir na prática dogmas doutrinários cristãos, ações
na direção de ajustamentos de indivíduos à ordem social dominante, e valores
moralizantes relacionados ao agir conforme “os bons costumes”. Isto é, ao que a
moral burguesa, ditada pelos detentores dos meios de produção e do poder político,
definia que deveria ser o comportamento da população trabalhadora, a serviço dos
interesses do capital.

10. Entre as profissionais/pesquisadoras estão Ana Maria da Silveira, Rita de Cássia Silva Oliveira,
Abigail Franco, Selma Magalhães, Dalva Azevedo, Sílvia Alapanian, Dilza Silvestre Matias, Catarina Volic,
Leni Ribeiro, Áurea Fuziwara, Ester Gast, além da autora deste texto. É importante destacar que a maioria
dessas pesquisas foi acolhida e impulsionada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Criança e o
Adolescente da Pós‑Graduação em Serviço Social da PUC‑SP (NCA‑PUC‑SP), coordenado pela professora
Myrian Veras Baptista.

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Mas não se pode esquecer que essa mesma década de 1990 foi marcada pelo
avanço do neoliberalismo, da precarização do trabalho e pelo aumento considerável
dos indicadores de pobreza, miséria e violência no Brasil. E isso, no que se refere
à categoria dos assistentes sociais, vai se refletir mais explicitamente na década
seguinte.
Assim, se a década de 1990 foi de consolidação da organização e de algumas
conquistas, é possível afirmar que a primeira década do século XXI se torna a de
resistência ao avanço desenfreado da precarização e da exploração do trabalho em
geral, particularmente no que diz respeito ao Serviço Social, do trabalho do assis-
tente social, e de lutas pelos direitos desses profissionais bem como pelo acesso e
efetivação de direitos da população usuária dos serviços sociais.
Nesse contexto, no âmbito do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, é
extinta em 2001 a Equipe Técnica de Coordenação e Desenvolvimento Profissional
dos Assistentes Sociais e Psicólogos do TJSP, praticamente eliminando as ativida-
des de capacitação dos profissionais de Serviço Social e de Psicologia, sendo
criados, enquanto espaço de resistência, apenas os Grupos de Estudos11 sobre di-
versos temas relacionados ao trabalho cotidiano, que passam a realizar reuniões
mensais e são todos coordenados por assistentes sociais ou psicólogos do próprio
TJSP, “sem ônus” para essa instituição.12
A pesquisa realizada pela AASPTJ/SP sobre as condições de trabalho dos
assistentes sociais e psicólogos do TJSP, publicada com o título Serviço Social e
Psicologia no Judiciário, construindo saberes, conquistando direitos (Fávero,
Melão e Tolosa Jorge, 2005), revela claramente essa situação, demonstrada tanto
pela bárbara realidade social da população atendida no dia a dia de trabalho do
assistente social e do psicólogo (situações de extrema pobreza, violência interpes-
soal e intrafamiliar, não acesso à proteção social), como pelo sofrimento no traba-
lho vivido por muitos profissionais — pelas precárias condições materiais de tra-

11. Cabe aqui a lembrança de que entre as responsáveis pelo estabelecimento desses espaços de
resistências estão as psicólogas Magda Melão e Denise Alonso, e a assistente social Sílvia Sant’Anna, e que
por vários anos os encontros dos grupos aconteceram na sede da AASPTJ/SP, portanto, fora do espaço
institucional.
12. Conforme ressalvado nas publicações das datas dessas reuniões (que continuam), no Diário Oficial
da instituição. O que significa que os profissionais participantes são liberados do atendimento à população
no dia da reunião, todavia devem dar conta de todo o trabalho pelo qual são responsáveis no dia a dia, bem
como não recebem ajuda de custo para essa participação, e eventuais convidados para palestras não são
remunerados pela instituição.

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balho, e ainda, em muitos casos, pelas relações verticalizadas e autoritárias por
parte de superiores administrativos que ignoram e desrespeitam particularidades
do trabalho do profissional.
Entretanto, no interior do permanente movimento da história, ao mesmo
tempo também aparecem várias possibilidades e proposições de ações na direção
da resistência, denotando o compromisso com a qualidade no trabalho, com base
nas prerrogativas profissionais e nos direitos sociais.
Assim, nos primeiros anos da década de 2000 é que por fim os assistentes
sociais conseguem que sejam definidas oficialmente suas atribuições profissionais
(ainda que com cortes na proposta então encaminhada ao TJSP pela AASPTJ/SP).13
Também nessa década é que, por meio da AASPTJ‑SP, a categoria organizada
passa a estabelecer maior articulação com outras organizações sociais na busca da
efetivação de direitos, sobretudo no que se refere aos direitos da criança e do ado-
lescente. E que participa ativamente de movimentos de greve em conjunto com
demais trabalhadores do Judiciário, e mais recentemente — na atual gestão da
AASPTJ14 — inicia a caminhada em direção à maior articulação com profissionais
de outros espaços sócio‑ocupacionais do campo sociojurídico, visando ampliar e
fortalecer a organização política das categorias, em direção ao acesso à justiça e
aos direitos sociais.
Retomando as reflexões sobre a justiça e os direitos no cotidiano profissional,
no tempo presente, é importante indagar sobre como o Serviço Social no espaço do
Judiciário pode contribuir para o acesso à justiça e aos direitos em meio à barbárie
que permeia a realidade social e que chega nesse espaço sócio‑ocupacional fragmen-
tada, geralmente como demandas individuais. Tudo isso necessita ser pensado tendo
em perspectiva a apropriação das bandeiras da justiça e dos direitos enquanto meios
estratégicos em direção à possibilidade histórica da justiça social que implique equi-
dade, socialização da riqueza socialmente produzida, universalidade do acesso a bens
e serviços que possibilitem e garantam a dignidade do ser humano (Fávero, 2012).
Os direitos humanos — de natureza social, econômica e cultural, em sua
configuração moderna, como ensina Barroco (2009) — respaldam‑se em conquis-

13. A íntegra das atribuições elencadas então pela AASPTJ‑SP pode ser localizada anexa ao artigo
“Questão social, família e juventude: desafios do trabalho do assistente social na área sociojurídica”, de
Marilda V. Iamamoto, publicado no livro Política social, família e juventude, 2004.
14. Gestão 2009‑2013, que articulou ações com vistas à criação da Associação Nacional dos Assistentes
Sociais e Psicólogos da Área Sociojurídica — AaSP Brasil — em 2012.

520 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
tas não exclusivas da burguesia. Ainda que sejam limitados pela sua fundação
com base na democracia e na cidadania burguesas, representando, portanto, in-
teresses relacionados à defesa da propriedade privada e dos meios de produção
inerentes ao sistema capitalista conforme cada país e momento histórico, a luta
de classes possibilita que os trabalhadores incorporem a luta pelos direitos hu-
manos como forma de resistência à exploração e à desigualdade, o que se con-
cretiza em meados do século XX, com a agregação, nas declarações de direitos
humanos, dos direitos sociais, econômicos e culturais aos direitos civis e políticos
(Barroco, 2009, p. 57‑58).
Assim, entende‑se aqui que, mesmo nos limites da atuação cotidiana, uma das
formas de materializar a contribuição com a justiça e os direitos nessa perspectiva
pode se dar com o desvelamento e a interpretação crítica da demanda trazida e/ou
vivida pelos indivíduos sociais (seja na abordagem individual ou coletiva) atendidos
pelo assistente social.
No espaço de trabalho no Judiciário, o profissional encontra diversas situações
de violações de direitos, expressas por pessoas que vivem muitas vezes em condi-
ções de apartação social, que passam por experiências de violência social e inter-
pessoal, que estão por vezes em situações‑limite de degradação humana, com
vínculos sociais e familiares rompidos ou fragilizados, que vivenciam o sofrimen-
to social decorrente dessas rupturas e da ausência de acesso a direitos. Nesse con-
texto, se o profissional trabalha em consonância com a defesa e a garantia de direi-
tos, ele avançará nessa direção ao possibilitar um espaço de informação, de diálogo
e de escuta desses sujeitos, ao estimular a reflexão crítica a respeito dos problemas
e dilemas que vivenciam, ao agir, em conjunto com eles, para conhecer e estabele-
cer caminhos viáveis para o acesso a direitos.
Estabelecer o exercício profissional cotidiano com essa perspectiva exige o
entendimento de que os processos de trabalho dos quais o assistente social partici-
pa têm como objeto as expressões da questão social e que essas expressões expõem
violações de direitos, geralmente provocadas por situações estruturais e conjunturais
— entendimento que pressupõe a análise crítica das dimensões que constituem esse
processo de trabalho. Para isso, torna‑se fundamental imprimir ao trabalho cotidia-
no a dimensão investigativa crítica, efetivando o processo de conhecimento da
demanda que chega concretamente para o atendimento e a partir da qual a inter-
venção é desencadeada. E isso exige o domínio dos meios de trabalho, dos recursos
materiais e, em especial, dos recursos teóricos, metodológicos, técnicos e éticos;

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 521
exige processar o conhecimento da realidade social, seus movimentos, as correlações
de forças e as suas possibilidades, tendo clareza da finalidade do trabalho. Ou seja,
ter clareza do que é necessário conhecer, qual é a finalidade desse conhecimento,
no interior das competências técnica, política e ética inerentes à área profissional,
que revelam que profissão é essa e quem são os profissionais que a exercem.
Dessa maneira, ao realizar um estudo social por exemplo, que conteúdos
pertinentes ao Serviço Social o assistente social domina, investiga e sistematiza?
O que busca conhecer acerca de relações e de vínculos sociais presentes (ou ausen-
tes) na vida dos sujeitos, no que se refere ao trabalho, com a cidade e com o terri-
tório, com as políticas sociais? Como acontecem as relações com a família, qual
sua capacidade protetiva, com qual proteção social o indivíduo e/ou a família
conta? Como ensina a professora Aldaíza Sposati, vínculo em termos de proteção
social é algo muito simples, é “contar com”. O indivíduo ou a família conta com o
quê? A resposta, conforme essa autora, é diferente para cada família, e por isso se
faz necessário levar em conta sua condição objetiva.15
No exercício do trabalho cotidiano, a dimensão ética exclui qualquer possi-
bilidade de desvirtuamento de sua finalidade, como, por exemplo, o uso de um
laudo, de uma visita domiciliar ou de uma entrevista no espaço físico da instituição
com o objetivo de obter informações que venham a servir de provas para aplicação
de punição a um suposto violador de direitos de uma criança ou suposto autor de
outros crimes. O conteúdo expresso em um relatório ou laudo pode nessa área ju-
diciária ser considerado como mais uma “prova” em ações de responsabilização
penal, mas o objetivo, quando da sua construção, não é esse. O trabalho realizado
pelo assistente social ao comportar a dimensão investigativa tem como inerente a
produção do conhecimento sobre o cotidiano e seus sujeitos, de modo a explicar a
realidade social e contribuir com a efetivação de direitos, e não a construção de
provas que sirvam de base a ações de responsabilização na área criminal.
Nesse sentido, um dos desafios postos aos assistentes sociais que atuam no
Judiciário (mas não só nessa área) está em não fazer uso do saber‑poder, que é
inerente ao exercício profissional, em contraposição à ética profissional. O que, no
espaço do Judiciário, pode acontecer de maneira mais diluída, na medida em que
o poder decisório é inerente à “natureza” institucional. Nos processos de trabalho,

15. Anotações de conferência sobre “Vulnerabilidade e capacidade protetiva de territórios e famílias”,


realizada por Aldaíza Sposati em aula magna no mestrado em Políticas Sociais da Universidade Cruzeiro do
Sul/SP, em 10 de maio de 2012.

522 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
ao realizar entrevistas e registrá‑las em relatórios, o assistente social sistematiza
um saber a respeito dos indivíduos e grupos atendidos que, no âmbito do Judiciário,
pode ser tomado como “verdade” e interpretado em diferentes perspectivas. Esse
conhecimento produzido, para revelar‑se como ponto de vista do Serviço Social,
necessita ter como base fundamentos teóricos, metodológicos e éticos inerentes à
profissão, e ser expresso com clareza, concisão e consistência. Entretanto, ao ler
um laudo ou um relatório, qual é o ângulo de visão de um promotor, de um juiz, de
um gestor? Que leitura e interpretação podem fazer? Que direção social e profis-
sional guiará a decisão em relação à medida a ser tomada?
O relatório social, o laudo social e o parecer social podem ser vistos como
instrumentos de poder. Um poder‑saber que necessita ser viabilizado na direção da
garantia de direitos, em estreita articulação com o atual projeto profissional do
Serviço Social, e não como indicador de ações disciplinares, coercitivas e punitivas,
desvirtuando a finalidade do trabalho que cabe ao profissional da área. Para isso, é
essencial a investigação rigorosa da realidade social vivida pelos sujeitos e grupos
sociais envolvidos nas ações judiciais, desvelando a dimensão histórico‑social que
constrói as situações concretas atendidas no trabalho cotidiano.
Nessa linha de construções e de desafios, considera‑se necessário o investimen-
to na área de trabalho judiciária como espaço de investigação permanente, de ma-
neira que suas produções contribuam com a criação de resistências à desvalorização
do saber profissional, à criminalização da pobreza e à judicialização dos conflitos
familiares e das expressões da questão social. Assumir efetivamente a pesquisa
também como instrumento de trabalho, contribuindo para que o conhecimento dela
decorrente seja aplicado no dia a dia da intervenção e contribua com avaliações e
proposições de políticas sociais e institucionais, coloca‑se como importante desafio.
Para lidar com desafios e realizar investimentos em algumas frentes, no sen-
tido de contribuir com o acesso à justiça e aos direitos, ao fortalecimento da capa-
cidade argumentativa e consequente fortalecimento do projeto da profissão na
contemporaneidade, é necessário o estabelecimento de estratégias e a efetivação de
ações políticas organizadas.
Avanços nesse sentido possivelmente poderão ser alcançados se ações coletivas
forem viabilizadas. Entre tais ações considera‑se importante: construir parâmetros
que definam um número mínimo de profissionais em relação ao número de proces-
sos e situações atendidas em cada Vara e/ou Fórum — em articulação com outras
áreas do conhecimento e organizações políticas; manter a vigilância e articulações
para que o acesso a essa área de trabalho seja por meio de concursos públicos, para

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 523
os quais as organizações representativas da categoria devem ser chamadas a opinar
em termos de projeto de profissão e, inerente a isso, por exemplo, sobre a bibliogra-
fia‑base para esses concursos; organizar, nacionalmente, mobilização para que o
assistente social (e demais profissionais que compõem as equipes multiprofissionais)
não seja subordinado administrativamente ao magistrado titular da Vara onde atua.
Nesse sentido, considera‑se importante a elaboração de proposta para que as equipes
técnicas que atuam no Judiciário tenham coordenação própria, indicada pela cate-
goria organizada, prestando serviços no âmbito do sistema de justiça à população
que dele necessita, sem que os profissionais precisem, a cada dia, provar a que
vieram para cada superior hierárquico que chega a uma Vara de Família, Vara da
Infância, Vara Criminal, ou em outros espaços de trabalho da área — superiores
muitas vezes alienados da dimensão histórica e política da realidade social e do
trabalho que compete aos profissionais de Serviço Social.
Entende‑se como necessário o estabelecimento de estratégias para conquista
de autonomia administrativa porque, sem desconsiderar a existência de magistrados
ou gestores comprometidos com o respeito ao direito da população e aos direitos
dos trabalhadores na instituição, permanece ainda de maneira expressiva no Judi-
ciário, particularmente no paulista, situações de autoritarismo, reforçadas pela
posição hierárquica administrativa, que não raro invade a autonomia técnica, so-
bretudo no âmbito da Justiça da Infância e da Juventude. E essa realidade muitas
vezes tem como consequência o adoecimento dos profissionais, a alienação, quan-
do não a saída da instituição em busca de outro trabalho, ou a constante contagem
dos dias que faltam para a aposentadoria. E, é importante lembrar, tudo isso não
nos exime de considerar que como em todas as áreas, também podem existir pro-
fissionais do Serviço Social coniventes com o autoritarismo, com a banalização da
vida humana e com o desrespeito à ética.
É fundamental a valorização do trabalho interdisciplinar — porém mantendo
relações de horizontalidade, e não de subalternidade —, do próprio conhecimento
e de ações nele embasadas.
Estreitamente articulado a esse desafio e proposição, é importante organizar o
debate e encaminhamentos para a criação, na estrutura administrativa do Tribunal de
Justiça, de Secretaria de Serviço Social e de Psicologia (e/ou outras áreas do conhe-
cimento que integram ou venham a integrar a equipe multiprofissional), vinculada
diretamente à presidência do Tribunal, dirigida de direito e de fato por esses profis-
sionais. Uma secretaria com autonomia, poder decisório e dotação orçamentária para
desenvolvimento, entre outros, de projetos de formação continuada dos profissionais

524 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
e de assessoria a eles nas variadas particularidades do exercício profissional cotidia-
no, o que poderia ser viabilizado por meio de atividades de supervisão continuada.
Entre as estratégias necessárias para fazer frente aos desafios, coloca‑se a
ampliação da organização política16 e, vale reafirmar, o investimento na pesquisa,
na produção de conhecimentos com base nas demandas e nas atividades de trabalho
que os assistentes sociais realizam cotidianamente. Conforme já observado, é im-
prescindível a inserção dessa dimensão investigativa no trabalho cotidiano, ou seja,
inserir a pesquisa como parte dos processos de trabalho, socializar os seus resulta-
dos, de maneira a contribuir com avanços qualitativos no exercício profissional e
como suporte à luta política. Nesse sentido, é importante provocar a universidade
para que viabilize pesquisas e estudos críticos sobre essa área, ainda um tanto dis-
tante do debate acadêmico.
Uma estratégia que também poderá fortalecer essa área de trabalho está na
definição das competências e de parâmetros para a atuação dos assistentes sociais
no campo sociojurídico, que vem sendo desenvolvida pelo conjunto CFESS/Cress.
E que necessita avançar na busca da participação da categoria que está lá na ponta
do atendimento, para que se manifeste sobre o que faz e o que propõe, com base
na diversidade de experiências e realidades socioterritoriais do país.
São muitas as construções e maiores ainda os desafios postos aos assistentes
sociais como um todo, particularmente os do Judiciário, conforme tratado neste
texto. Não foi pretensão pontuar todos esses desafios, nem será possível avançar
na construção de respostas num curto prazo. São construções e desafios que não se
dão isoladamente no espaço local de trabalho, apartados da conjuntura social e
política nacional e mundial e sem articulações com outras organizações sociais e
políticas. São os desafios postos no cotidiano que movem a história, e esse movi-
mento necessita ser desvelado e influenciado pelos profissionais, tanto no dia a dia
da luta política como no dia a dia da intervenção profissional — com democracia,
sem preconceitos, respeitando a diversidade e as diferenças, e com compromisso
com a qualidade dos serviços prestados, como tão claramente alerta o Código de
Ética Profissional do assistente social.

Recebido em 31/5/2013  ■   Aprovado em 10/6/2013

16. O que, no estado de São Paulo, a AASPTJ/SP tem buscado levar à frente, com a luta pela ampliação
de seus quadros e áreas de abrangência.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013 525
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526 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 508-526, jul./set. 2013
Lutas Sociais e Direitos Humanos
da criança e do adolescente:
uma necessária articulação
Social struggles and children and adolescents’
Human Rights: a necessary articulation

Aurea Satomi Fuziwara*

Resumo: Este artigo problematiza os direitos humanos da criança


e do adolescente, com fundamento na teoria crítica, abordando a sua
construção histórica e os processos políticos em que se inserem. Pro-
blematizando dados sobre a situação da infância, reflete criticamente
sobre o uso do discurso em torno da defesa de direitos.
Palavras‑chave: Direitos humanos. Criança e adolescente. Lutas
sociais.

Abstract: In this article we discuss the children and the adolescents’ human rights. The discussion
is based on the Critical Theory, and it approaches their historical construction and political processes
in which they operate. While it discusses data related to the situation of childhood, it critically debates
about the use of discourse in the defense of rights.
Keywords: Human Rights. Child and adolescent. Social struggles.

* Assistente social, servidora do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, docente em pós‑graduação
lato sensu, doutoranda no Programa de Estudos Pós‑Graduados em Serviço Social da Faculdade de Ciências
Sociais na Pontifícia Universidade Católica (PUC‑SP), São Paulo, Brasil. pesquisadora do Núcleo de Pesquisa
sobre Ética e Direitos Humanos (NEPEDH) do mesmo programa. E‑mail: fuziwara.aurea@gmail.com.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 527
Introdução

O
presente artigo apresenta uma reflexão sobre o desafio de efetivarmos
os direitos humanos da criança e do adolescente, percorrendo algumas
questões fundamentais que problematizam o processo histórico, a cons-
trução da concepção de direitos e os desafios colocados cotidianamente.
A literatura técnica e científica tem abordado os direitos da criança e do ado-
lescente sob diferentes prismas, abordando seu desenvolvimento, suas demandas,
seus direitos, as políticas sociais públicas e privadas, as campanhas de promoção e
defesa de direitos etc. Ou seja, um grande volume de enfoques que fragmentam a
realidade pode obscurecer aspectos cruciais para compreender e enfrentar a violação
de direitos por ação e por omissão, seja da família, da sociedade e/ou do Estado.

A infância na história

Para problematizarmos a realidade vivida pelas crianças e adolescentes exi-


ge‑se sempre um olhar histórico. Philippe Ariès é um historiador ao qual pesquisa-
dores das mais diferentes perspectivas recorrem. É preciso salientar, em nossa
perspectiva, que a retirada da densidade das lutas históricas e do enfoque dos seus
protagonistas em geral propicia apenas uma descrição dos fenômenos, não possi-
bilitando aprofundar as contradições existentes.
Consideramos ser determinante para esta análise partirmos da compreensão
da construção dos direitos humanos no processo histórico, abarcando a infância
nesse processo. Assim como muitos autores, utilizávamos do termo “a história da
infância”, mas atentando para esta expressão, atualmente a consideramos inapro-
priada. Afinal, não há uma história da infância, mas existem complexas expressões
das ações humanas em relação à criança e ao adolescente no processo histórico.
Esta é uma primeira demarcação que pode nos auxiliar numa leitura mais apro-
fundada sobre o tema. Com essa perspectiva, torna‑se inerente refletir sobre as
lutas sociais em que esse segmento se fez presente, em geral vitimizado pela ne-
gação da sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Não por acaso, o
Estatuto da Criança e do Adolescente tem esse princípio que perpassa toda sua
fundamentação.

528 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Ainda nos atendo à situação da infância, Ariès é um autor fundamental, que
em sua análise traz elementos para o olhar atento ao cotidiano da sociedade, inves-
tigando as relações aparentemente triviais para a história. Este autor faz parte de
um leque de pesquisadores que passam a se preocupar com essas relações buscan-
do avançar na leitura da história. Por seu prisma de estudos, aponta a realidade da
criança em documentos, em telas que retrataram a vida das famílias, muitas vezes
verificando que em geral os pequenos apareciam quase ao acaso nas imagens. Os
pesquisadores e os documentos (oficiais ou não, como cartas familiares) nos for-
necem significativos elementos sobre formas de presença das crianças na vida dos
adultos. O mesmo autor nos informa que o termo infância decorre da palavra enfant,
que é literalmente “não falante”. Esta “fase” teria como indicador a idade de até
sete anos de vida, quando devido à aquisição ainda frágil da linguagem e da con-
dição biológica, por não ter a dentição completa, a criança não conseguiria se ex-
pressar com perfeição. Contudo, o historiador vai demarcar o lugar social de não
ser ouvido. Evidentemente, estamos aqui realizando um sobrevoo ligeiro em relação
à obra desse autor, fundamental para o debate sobre a infância.
A humanidade começou a efetivamente reconhecer a criança e o adolescente
em suas particularidades há menos de dois séculos, cabendo aos adultos preservar
seu pleno desenvolvimento por meio de cuidados privados e públicos. Nas obras
de Ariès (1978) e de Rizzini e Pilloti (2009) temos um vasto leque para aprofundar
as pesquisas sobre o atendimento à infância, que no caso brasileiro vai ter início
com a catequização das crianças indígenas e dos filhos oriundos das relações entre
homens europeus e mulheres indígenas e africanas. Essa é uma primeira marca
sobre o domínio que permanece contra o desenvolvimento das crianças e adoles-
centes no Brasil. Não podemos negar o quanto essa trajetória vai demarcar decisi-
vamente os rumos do trato a grande parcela da infância.

Direitos humanos
Para esta reflexão, buscaremos alguns elementos sobre o processo histórico
da construção dos direitos humanos, que perpassa pelas revoluções burguesas.
Estes processos históricos fundam a construção dos direitos civis e políticos cunha-
dos pelo ideário liberal. Os principais autores nos quais nos apoiamos são Trindade
(2003 e 2011a); Hobsbawm (2012 e 2008), Mészáros (2008) e Barroco (2010).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 529
Conforme estes e outros autores, os direitos humanos devem ser considerados
enquanto conjunto de direitos econômicos, políticos, civis, sociais, culturais e
ambientais, os quais são interdependentes e indivisíveis (ainda que limitado ao
aspecto jurídico‑formal). A trajetória de lutas e conquistas desses direitos é a refe-
rência histórica para compreendermos a busca da liberdade individual e da ruptura
com a dependência interpessoal, traço marcante da sociedade feudal, que ainda
mantinha resquícios naquele capitalismo nascente. Nesse sentido, o contrato entre
“pessoas livres” seria o elemento‑chave para o avanço da sociedade, que passaria
a ter novos proprietários (por aquisição, e não apenas por herança). Contudo, para
a elaboração de regras nessa nova forma de relação social, os burgueses liberais
também precisavam consolidar direitos políticos — de votar e de ser votado —,
para romper com o comando da nobreza e do clero. Era preciso construir uma nova
classe política e também era necessária a defesa da laicidade. Era preciso construir
uma nova classe política e também era necessária a defesa da laicidade. Neste
sentido, retirando

[...] os direitos humanos do campo da transcendência, evidenciou‑se sua inscrição na


práxis sócio‑histórica, [...] ao se apoiar em princípios e valores ético‑políticos racionais,
universais, dirigidos à liberdade e à justiça, a luta pelos direitos humanos incorporou
conquistas que não pertencem exclusivamente à burguesia, pois são parte da riqueza
humana produzida pelo gênero humano ao longo de seu desenvolvimento histórico,
desde a Antiguidade. (Barroco, 2010, p. 55)

É nesse processo que se consolida a concepção de igualdade liberal, pautada


na busca de uma pretensa e artificial equivalência jurídica (Trindade, 2011a). A
história demonstra que esses direitos nasceram do desejo da burguesia de tomar
para si privilégios restritos ao clero e à aristocracia. A possibilidade de pensar na
igualdade social exigiu que a classe trabalhadora tomasse para si a bandeira de luta
para que esses direitos fossem acessíveis a todos.
A Declaração dos Direitos Humanos de 1948 tem restrições, mas é importan-
te registrar que

[...] foi resultado daquela correlação mundial de forças. Sem a pressão dos países do
bloco soviético e sem a ascensão operária que se alastrava pelo mundo, seria inima-
ginável a inclusão dos direitos econômicos, sociais e culturais naquele documento,
assim como seria inimaginável a inclusão do direito de autodeterminação dos povos
sem as lutas de libertação nacional então em curso. (Trindade, 2011b)

530 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Portanto, a reivindicação era pelo direito de todos, mas provocada sempre pela
classe que vive do trabalho. Esse fato não decorre de uma luta entre “bons e maus”,
não se tratando de um atributo de caráter, mas da real necessidade do ser social que
se constrói em busca de respostas às suas questões diante da vida real:

Ora, a principal relação entre a história dos movimentos operários, que são um fenô-
meno bastante recente do ponto de vista histórico, e os direitos humanos reside no
fato de que os movimentos operários geralmente são compostos de pessoas que são
“subprivilegiadas”, na palavras de R. D. Roosevelt, e que se preocupam com seus
problemas. Isso quer dizer que eles se preocupam com pessoas que, segundo as defi-
nições de suas épocas, não têm os mesmos direitos, ou têm menos direitos do que
outras pessoas ou outros grupos. Ora, as pessoas raramente exigem direitos, lutam por
eles ou se preocupam com eles, a não ser que não os desfrutem suficientemente ou de
nenhuma forma ou, caso desfrutem deles, a não ser que sintam que esses direitos não
estão seguros. (Hobsbawm, 2008, p. 418)

Não pretendemos e nem temos condições de aprofundar a respeito das con-


tradições desse processo histórico, sendo imprescindível nos apoiarmos nos autores
citados para o devido estudo. Queremos neste breve artigo sinalizar que se os di-
reitos humanos são uma construção social recente, também assim o é o reconheci-
mento da categoria criança e adolescente.1 A forma como eram pouco consideradas
expressa parte do funcionamento da sociedade, em seus diversos processos. No
caso da sociedade brasileira, é imprescindível pensarmos a infância marcada por
uma violência de origem, que é a invasão, primeiramente de Portugal, às terras

1. Deve‑se registrar que é possível observar em textos inclusive acadêmicos o uso de termos “as crianças
e os adolescentes”, e não necessariamente adotando‑a como categoria “criança”, “adolescente”. Parece uma
observação preciosista, mas entendemos ser crucial para maior aproximação com a realidade. Não se trata de
seres sociais lançados a esmo na história: criança e adolescente são sujeitos em condição peculiar de
desenvolvimento, inseridos em classe, com origem de classe, de diversas etnias e, no Brasil, de uma
miscigenação étnico‑cultural etc. Neste sentido, parece‑nos importante que tenhamos sempre este cuidado:
defendemos uma sociedade justa, igualitária, com direitos diferenciados para situações desiguais etc., para
todas as crianças e adolescentes. Porém temos como premissa que há fatores determinantes que favorecem e/
ou prejudicam o pleno desenvolvimento desse sujeito. Não retiramos aqui as violências e as opressões às quais
a criança e o adolescente da chamada classe média alta vive, com suas agendas superlotadas de compromissos
que nem sempre lhes permite vivenciar seus desejos, sonhos e projetos. Há que se considerar, portanto, que
as opressões da sociedade capitalista recaem brutalmente sobre a criança e o adolescente que têm origem na
classe trabalhadora, mas também sobre aqueles oprimidos pelo ethos capitalista. Não se trata de “comparar”
quem “padece” mais ou menos, mas fazer a defesa intransigente de uma sociedade realmente livre.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 531
deste território. Os estudos arqueológicos asseguram que os indígenas povoam este
território há mais de 11 milhões de anos e que em 1500 havia cerca de 10 milhões
de habitantes, dos quais cerca de 5,6 milhões na bacia amazônica. Posteriormente,
sabemos das atrocidades que aconteceram sob o comando da Coroa portuguesa e
da Igreja Católica, pois conforme o desenvolvimento mercantil avançou, foram
sendo traçados novos “acordos”, entre eles o escravismo de africanos e posterior-
mente o “fim” dessa barbárie. Estas questões não são de menos importância; são
fundamentos da sociedade brasileira.
Afinal, como essa sociedade assistiu, sem grande repercussão, à recente mor-
te por atropelamento de uma criança indígena de quatro anos, membro da família
Guarani‑Kaiowá do acampamento de Tekoha Apyka’i? Segundo o movimento de
luta indígena, a criança é a quinta atropelada nos mesmos moldes de outras cinco
pessoas, sendo que a primeira foi o seu avô, um líder religioso.
Não podemos cair na explicação maniqueísta‑moralista para podermos avan-
çar na análise e no enfrentamento das questões que assumem características com-
plexas, mas que têm como fundamento a desigualdade social e a expropriação,
necessidades para o desenvolvimento do capitalismo. Para quem importa a defesa
dos direitos humanos?

Grupos especiais que esperam desfrutar de certas prerrogativas raramente se incomo-


dam em erigir o que eles já possuem. [...]
Entretanto, o historiador não pode ficar satisfeito com a observação óbvia. Pois os
movimentos operários europeus surgiram, e consequentemente começaram a influenciar
a luta pelos direitos humanos se por sua definição, numa época em que o próprio con-
ceito destes direitos estava passando por mudanças bastante profundas. (Hobsbawm,
2008, p. 419)

As lutas pelos direitos humanos, desencadeadas pela busca dos interesses de


indivíduos e o movimento operário (pelos direitos do trabalhador, por uma vida
digna e de forma mais ampla, pelo socialismo), contribuíram fundamentalmente para
reinvindicações estruturantes visando mudanças econômicas e sociais. Hobsbawm
(2008, p. 435) nos alerta ainda que a questão central não é o fato de indivíduos terem
direitos econômicos e sociais, mas “políticas de cobrar impostos aos ricos para criar
um fundo para pagamento aos pobres, aos desempregados e aos velhos, bem como
para custear a educação popular. Sem essas políticas, estes direitos humanos são
totalmente inúteis”.

532 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Parece‑nos que a questão‑chave é a sequência do raciocínio desse historiador:
“No desenvolvimento destas políticas, surgem inevitavelmente conflitos entre os
direitos individuais e os sociais” (Idem).
Nesse contexto de conflito de interesses a concepção liberal dos direitos hu-
manos se respalda no que Marx chamou de ilusão jurídica, não no sentido de ser
mera ilusão, mas no do mascaramento de interesses em leis teoricamente “justas”
e “neutras”. Ao se referir a conflito, estão sendo anunciadas divergências que podem
até ser pautas de “negociação”, mas em uma sociedade desigual essa relação já está
predeterminada.
Os direitos humanos liberais, ao retirar (ilusoriamente) as determinações
históricas, consideram os sujeitos e seus direitos como abstrações, ficções e impõem
o respeito “à sagrada propriedade privada” e aos indivíduos egoístas, protegidos
por um leque de instituições criadas para tal finalidade. Como explica Marx (2007,
p. 35): “A liberdade individual e esta aplicação sua constituem o fundamento da
sociedade burguesa. Sociedade que faz com que todo homem encontre noutros
homens não a realização de sua liberdade, pelo contrário, a limitação desta.”

Criança e adolescente e o desafio de se efetivar direitos humanos


A literatura especializada tem possibilitado maior divulgação da realidade
vivida pela criança e pelo adolescente. Se por um lado isso pode ser um indicador
importante sobre o reconhecimento das particularidades dessa fase de desenvolvi-
mento em toda sua complexidade, por outro, devido à cultura existente, ainda termos
a passividade da sociedade em relação às violações.
As discussões sobre a violação dos direitos da criança muitas vezes deixam
de articular as determinações macrossocietárias. Se a literatura científica vem
avançando nessa crítica, a mídia mantém a postura de enfocar os “pobres abando-
nados” e os “infratores”, colocando‑os na mesma perspectiva justificadora das
violações e mantendo a lógica menorista do Código de Menores. Muitas legislações
foram construídas com foco na criança abandonada. Maria Regina Fay Azambuja2
explica que

2. Disponível em: <http://www.mp.rs.gov.br/infancia/doutrina/id615.htm>. Acesso em: 29 maio 2013.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 533
A Declaração de Genebra, em 1924, afirmou “a necessidade de proclamar à criança
uma proteção especial”, abrindo caminho para conquistas importantes que foram
galgadas nas décadas seguintes. Em 1948, as Nações Unidas proclamaram o direito a
cuidados e à assistência especial à infância, através da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, considerada a maior prova histórica do consensus omnium gentifum
sobre um determinado sistema de valores. Os Pactos Internacionais de Direitos Hu-
manos, indiscutivelmente, proporcionaram a mudança de paradigmas experimentada
no final da década de oitenta e início dos anos noventa na área da proteção da infância.

A sociedade brasileira convive com as marcas da ditadura civil‑militar de


1964, e nos processos de lutas e resistências avançou para a “transição democrá-
tica”, mas, de acordo com Netto (2004), mantém, com particularidades, a históri-
ca “refuncionalização” das “formas socioeconômicas” existentes na formação
brasileira.
Salientamos, com essas rápidas notas, que é fundamental romper com o dis-
curso de que o debate sobre a família e a infância sejam voltados para conservado-
rismo ou que sejam acessórias. Para desconstruir esses discursos aparentemente
críticos nos é exigido rigor da análise histórica. Afinal, as lutas sociais expressam
as contradições profundas vividas pelo ser social que se constrói nessas relações
históricas. É inegável que, diante da barbárie que afeta segmentos como a popula-
ção infantojuvenil, há uma tendência de a luta se expressar mais em buscar “con-
servar” os direitos minimamente consensuais (à vida, à sobrevivência, à alimenta-
ção). Tão grave é a realidade de crianças diante dos conflitos gerados pelo
capitalismo vigente, que se apresentam os recuos com uma aparente agenda limi-
tada de reivindicações. É esse contexto de barbárie que deve nos alarmar, sendo
crucial a adoção de estratégias que se dirijam a outro projeto de sociedade.
Nesse sentido, é importante registrar que a United Nations Children’s Fund
(Unicef) lançou o relatório A situação mundial da infância em 2012, trazendo
elementos sobre os avanços e desafios com relação à criança num mundo cada vez
mais urbano.

As dificuldades enfrentadas pelas crianças em comunidades pobres frequentemente


são obscurecidas — e portanto, perpetuadas — pelas médias estatísticas que servem
de base para decisões sobre alocação de recursos. Uma vez que médias consideram
todos os dados em conjunto, a pobreza de alguns é mascarada pela riqueza de outros.
Como consequência, crianças que já são menos favorecidas ficam privadas de serviços
essenciais. (p. iv)

534 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
Esta é uma questão‑chave quanto à realização dos direitos humanos: atender
individual e coletivamente os diferentes segmentos, por meio de serviços que ga-
rantam a sua realização.
Não tratamos esta questão como algo simples ou mera carta de intenções ou
conciliação de interesses, posto que no capitalismo são antagônicos. Trindade traz
os elementos históricos que provam que a cada risco de a burguesia ter seu poder
abalado, a reação sempre foi sangrenta. No Brasil de 2013 as mortes decorrentes
desses conflitos têm sido matéria cotidiana, seja nas ocupações militares nas fave-
las, no confronto no direito à terra, no assassinato de jovens negros da periferia (que
autores vão definir como genocídio da juventude negra), no espancamento dos
estudantes e trabalhadores nas suas (nossas) manifestações por direitos etc.
Outro importante estudo que demonstra a imperiosa atenção que devemos ter
em relação à infância é o 5º Relatório Nacional sobre os Direitos Humanos no
Brasil (2001‑2010) publicado pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universida-
de de São Paulo (NEV‑USP). Na apresentação o coordenador do NEV, dr. Sérgio
Adorno, explicita que

Este relatório reafirma uma vez mais o imperativo de superar o estágio de “descon-
fiança”, que domina o que se poderia chamar de “opinião pública informada”, segun-
do a qual persistem sérios problemas de violações de direitos humanos no Brasil em
grande escala, ocorrendo diariamente em todo o país. Embora essa desconfiança
ainda seja sustentada pelos fatos cotidianos, impõe‑se ultrapassar esse estágio na di-
reção de uma fase de mapeamento das situações e elaboração de políticas públicas
informadas e eficientes. É evidente que gerar informações sobre violações de direitos
humanos são é uma tarefa simples, sobretudo para os governos. Assumir que essas
violações ocorrem cotidianamente e que envolvem a constante ameaça à vida e à in-
tegridade física das pessoas, muitas vezes causadas por agentes públicos, parece
ainda ser visto por muitos governantes como politicamente inconveniente, até porque
parte das graves violações de direitos humanos tem a ver com a omissão dos Estados
na proteção e promoção de direitos humanos. (NEV‑USP, 2012, p. 7)

Essa perspectiva de análise perpassa o relatório, que anuncia que nos dois
últimos relatórios (2006 e 2010) houve ênfase na abordagem dos direitos econômi-
cos, sociais e culturais. Em nossa leitura, observamos o grande volume de publica-
ções, sejam oficiais, da academia especificamente ou dos movimentos sociais e
outras organizações dos trabalhadores (associações populares, sindicatos etc.) que

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 535
têm se debruçado seriamente sobre o tema violação dos direitos humanos no Brasil.
Este é um indicador importante que expressa a provocação da realidade.
Os desafios colocados para os trabalhadores são imensos e nos parecem exigir
uma apropriação urgente e profunda sobre a não efetivação de direitos legalmente
constituídos e que exigem políticas públicas estatais para se materializar. O chama-
do Estado democrático de direito vem mobilizando sua “funcionalidade” impulsio-
nada por interesses privados, como autores de diversas perspectivas têm refletido
suas produções. Atualmente vivemos o avanço da política neoliberal, com as mo-
dalidades de privatização de serviços e/ou desenvolvimento das “parcerias públi-
co‑privadas” em que em geral o Estado transfere recursos públicos (estrutura,
equipamento e orçamento) para a área privada. Debatendo a política social na
atual conjuntura, Sales (2006, p. 210‑211) afirma que

É mister, portanto, compreender a situação da infância e adolescência como uma


expressão da questão social, logo em conexão com os demais desafios sociais do país,
e o papel do conjunto de atores sociais vinculados à luta pela garantia dos seus direi-
tos, assegurando‑lhe a centralidade e visibilidade devidas. Pois como diria Mendes,
“o que está em jogo, em última instância, é o tema da democracia e da cidadania [...].
Ninguém que fale da infância, do ponto de vista do paradigma da proteção integral,
deixa de falar em democracia. Mas são poucos aqueles que, falando de democracia,
falam de infância”.

O enfrentamento da violência contra a criança e o adolescente expressa a


defesa de diferentes projetos de sociedade, ainda que isso não se seja declarado. E
esta é uma questão muito cara aos processos políticos: qual a direção social dessas
lutas, suas estratégias, seus balanços críticos? Exige‑se uma avaliação permanente
do avanço político face às novas roupagens colocadas na “velha” questão social.
Expressão destas violências são apontadas no relatório do NEV, a­ nteriormente
citado: “Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 53.000 crianças entre
0 e 18 anos morreram vítimas de homicídio em 2002. Cerca de 150 milhões de
meninas e mais de 70 milhões de meninos foram submetidos a abusos sexuais de
toda ordem” (NEV‑USP, 2012, p. 222).
Poderíamos abrandar nossas “consciências” de cidadãos da sétima economia
mundial imaginando que o Brasil não faz parte dessa realidade. Contudo, o país
comete muitas violações dessa estatística, sendo o quarto país que mais comete
homicídios de suas crianças e adolescentes. Dados oficiais informam ainda que em

536 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
2009, no Brasil, entre as crianças de cinco a dezessete anos, 9,8% deles, ou seja,
4.250.401, encontravam‑se exercendo “trabalho”, sendo que o trabalho infantil é
vedado legalmente, sendo, que desse número, 1.380.489 tinham idades entre cinco
e catorze anos.
O 5º Relatório do NEV traz uma importante abordagem sobre adolescência e
violência, criticando a inexistência de pesquisas abrangentes sobre as medidas
socioeducativas em meio aberto, porém enfatizando debate da privação de liberda-
de dos adolescentes. Esta questão soma‑se a outros elementos que gravitam em
torno do agravamento penal na sociedade. Notadamente, o discurso distorce a
realidade, mobilizando a opinião pública a partir de fatos de grande impacto e co-
moção social. Contudo, tais fatos são deliberadamente escolhidos. Os dados sobre
o perfil do adolescente que se encontra cumprindo medida de internação ou mesmo
do jovem encarcerado explicita que os sujeitos encarcerados são aqueles perten-
centes à camada mais violada em seus direitos fundamentais. No estado de São
Paulo, de 2010 a 2013 houve um aumento de 32,5% de aumento de adolescentes
cumprindo medida socioeducativa de internação. O Conselho Nacional de Justiça3
realizou um levantamento envolvendo 340 unidades de internação no território
brasileiro mapeando as violações de direitos dos adolescentes internados. Há rei-
vindicações para a efetivação da resolução do CNJ para a contratação de equipes
interprofissionais nas Vara da Infância e da Juventude. A resolução foi um dos
desdobramentos da pesquisa do Ipea, que apontou a existência de 80 mil crianças
vivendo em instituições de acolhimento sem que estas cumprissem ao menos dis-
posições legais (para não dizer das pedagógicas etc.). Segundo dados do Ministério
da Justiça, por meio do Disque 100, mais de 128 mil crianças e adolescentes foram
vítimas de maus‑tratos e agressões. Deste total, 68% sofreram negligência; 49,20%,
violência psicológica; 46,70%, violência física; 29,20%, violência sexual; e 8,60%,
exploração do trabalho infantil. Atualmente, segundo dados do CNJ, 36.929 vivem
em instituições de acolhimento.
A sociedade atuou de forma decisiva para incluir o artigo 227 na Constituição,
bem como na elaboração e aprovação do ECA. Marcada pela luta pela redemo­
cratização, entendemos que o Estatuto é um marco ético‑político.4 Não pode ser

3. Conheça e pesquise no portal do Conselho Nacional de Justiça, em <www.cnj.jus.br>. A fiscalização


da aplicação das medidas socioeducativas é realizada também pelo Programa Justiça ao Jovem, do CNJ, e
pelos demais atores do Sistema de Garantia de Direitos Humanos da Criança e do Adolescente.
4. Expressão que definimos na nossa dissertação de mestrado (2006).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 537
tomado como o instrumento central, mas como uma referência que somente foi
possível conquistar num dado contexto ideopolítico em que foi disputado e apro-
vado. Ocorreram perdas nessas disputas, e o seu não cumprimento revela o quanto
a sociedade brasileira não rompeu com a cultura menorista, autoritária, centraliza-
dora, patriarcal‑machista‑patrimonialista. O reconhecimento da criança como su-
jeito de direitos exige, efetivamente, intensa mudança cultural. Neste sentido,
apesar de sabermos dos limites dos instrumentos legais, é importante registrar a
relevância da Resolução n. 113, de 19 de abril de 2006, publicada pelo Conselho
Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). Nela se explicita a
definição do chamado “Sistema de Garantia de Direitos”:

Art. 1º O Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente constitui‑se


na articulação e integração das instâncias públicas governamentais e da sociedade
civil, na aplicação de instrumentos normativos e no funcionamento dos mecanismos
de promoção, defesa e controle para a efetivação dos direitos humanos da criança e
do adolescente, nos níveis federal, estadual, distrital e municipal.
§ 1º Esse Sistema articular‑se‑á com todos os sistemas nacionais de operacionalização
de políticas públicas, especialmente nas áreas da saúde, educação, assistência social,
trabalho, segurança pública, planejamento, orçamentária, relações exteriores e pro-
moção da igualdade e valorização da diversidade. (Conanda, 2006)

Esta Resolução utiliza, não por acaso, o termo “direitos humanos” e em seu
teor trata inclusive da eleição dos membros da sociedade civil, situação esta deba-
tida intensamente com o protagonismo do Fórum Estadual dos Direitos da Criança
e do Adolescentes de São Paulo. As Resoluções ns. 105 e 106 do Conanda estabe-
leceram normas para a criação e o funcionamento desses Conselhos, inclusive que
a eleição dos representantes da sociedade civil seja realizada por meio de pleito
“em fórum próprio”, ou seja, sem a condução pelo poder governamental. Não cabe
aqui debater as relevantes questões sobre as sociedades civil e política, bem como
a avaliação do (mal) uso que se tem feito desses mecanismos de controle social.
Porém, deve‑se verificar a existência de um conjunto de instrumentos normativos
que ainda são negligenciados.
A exemplo dessas problematizações, temos as Regras de Bangcoc,5 estabele-
cida pela Resolução n. 2.010/16, de 22 de julho de 2010, e o Conselho Econômico

5. Veja a tradução não oficial realizada pela Pastoral Carcerária disponível em: <www.carceraria.org.
br> e outros documentos importantes em: <www.adital.com.br>. Acesso em: 20 jan. 2013.

538 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
e Social, que recomendou à Assembleia Geral a adoção das regras das Nações
Unidas para o tratamento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade
para mulheres infratoras. A resolução foi aprovada na 65ª Assembleia da Organi-
zação das Nações Unidas, enfatizando a importância do reconhecimento das par­
ticularidades do gênero feminino, visando, dentre diversas dimensões da questão,
“assegurar que a mulher infratora fosse tratada justa e igualmente durante a prisão,
processo, sentença e encarceramento, com atenção especial dedicada aos problemas
específicos enfrentados pelas mulheres infratoras, tais como gravidez e cuidados
com os filhos”.
Segundo a legislação brasileira, as unidades prisionais devem ter berçários
(art. 83, § 2º da Lei n. 7.210/1984, com as alterações da Lei n. 11.942/2009) e
creches para filhos entre seis meses e sete anos (art. 89 da Lei n. 7.210/1984, com
as alterações da Lei n. 11.942/2009). No Código de Processo Penal, em relação à
prisão domiciliar (perspectiva apontada também nas Regras de Tóquio sobre as
alternativas à prisão), temos que:

Art. 318. Poderá o juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar quando o agente
for: (Redação dada pela Lei n. 12.403, de 2011).
[...]
III — imprescindível aos cuidados especiais de pessoa menor de 6 (seis) anos de
idade ou com deficiência; (Incluído pela Lei n. 12.403, de 2011).
IV — gestante a partir do 7º (sétimo) mês de gravidez ou sendo esta de alto risco.
(Incluído pela Lei n. 12.403, de 2011).

A Lei de Execução Penal define que caso a unidade não garanta condições
para a amamentação e/ou convívio entra a genitora e a criança, deverá ser determi-
nada a prisão domiciliar.
Portanto, as legislações estabelecem direitos que não são respeitados e geram
outras violações. Ainda vivenciamos um discurso machista que está presente inclu-
sive na defesa de que a criança deve permanecer com a genitora somente no perío-
do de amamentação, ainda na perspectiva higienista e de controle do corpo da
mulher. Contudo, o direito à amamentação sequer é respeitado. São contradições
que perpassam pela lógica punitiva‑conservadora.
O texto legal acima pode ser tensionado ao se afirmar os direitos fundamen-
tais da criança e do adolescente, valendo‑se da defesa das penas alternativas para
reduzir os danos causados ao grupo familiar. Contudo, há pouca política propria-

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 539
mente dita nas políticas sociais (a segurança pública é uma delas). Vemos a baixa
institucionalidade no controle social e o discurso do senso comum sobre a falência
do Estado.
A prisão domiciliar que deveria ser determinada em substituição à prisão
preventiva quando o agente for “imprescindível aos cuidados especiais”, conforme
nossos argumentos no percurso desta reflexão, devem ser complementados com o
princípio do superior interesse da criança e do adolescente, que são sujeitos de
direitos e pessoas em condições peculiares de desenvolvimento. Portanto, enten-
demos que a substituição da prisão preventiva pela domiciliar deva ser aplicada
em todas as condições possíveis, independentemente da idade dos filhos. E abre‑se
a imperiosa necessidade de discutirmos as figuras parentais e os vínculos prote-
tivos — e não necessariamente a mãe biológica. A ciência demonstrou a relevân-
cia da presença materna na primeira infância, mas não se restringiu a ela. Estas
breves pontuações sobre o encarceramento de mulheres abrem muitas frentes, não
para aperfeiçoar o cárcere, o que consideramos ser um engodo, mas para proble-
matizar a função do sistema penal‑punitivo numa sociedade opressora que precisa
construir a todo momento novos depositários e “bodes expiatórios” para mascarar
suas contradições.

Considerações para debates


Enfrentar a questão da violação de direitos humanos da criança e do adoles-
cente requer, nesse sentido, uma profunda e sistemática articulação das análises
sobre a sociedade contemporânea, as perspectivas ideopolíticas que fundamentam
as decisões adotadas na elaboração e na execução das políticas públicas e o con-
fronto com a real mudança na vida da população.
A história também nos elucida os processos provocados pelos trabalhadores
e, aproximando‑as para a interpretação da conjuntura, podem favorecer nossa re-
flexão crítica:

Foi a herança histórica dos movimentos socialistas e operários, da tradição de racio-


nalismo esclarecido do século VII, que manteve esses instintos [xenofobia, racismo,
machismo, antissemitismo e inferiorização das mulheres] sob controle. Sem ela, eles
não teriam nem tentado, nem conseguido, tornar‑se foco para os direitos iguais e

540 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013
universais e para a emancipação universal do homem. Pois nem todos os movimentos
dos que exigiam direitos tinham esta intenção ou esta capacidade. [...]
Será que tudo isso ainda é verdadeiro? Provavelmente, só até um certo limite. A lin-
guagem dos direitos humanos ainda é falada, mas num cenário diferente daquele do
século XIX e do início do século XX. A luta por direitos humanos ainda é vista, em
diversos países, como parte de um programa geral pelo progresso da humanidade, em
nível individual e coletivo, na direção de um futuro melhor e mais genuíno para o
homem. (2000, p. 438)

O texto anterior, escrito originalmente em 1982, nos instiga a afirmar, como


Trindade (2011) que estamos vivendo um recuo imenso na agenda de direitos hu-
manos liberais! Estamos lutando pelo direito civil de participar criticamente (com
a reação violenta do Estado em defesa dos interesses privados), em que está des-
cartado o direito ao conflito de posições, que é base da democracia. Estamos exi-
gindo o fim da tortura! O Brasil engatinha com a Comissão da Verdade quando os
demais países já avançaram imensamente nesse processo. E recentemente volta‑se
a afirmar que a solução de todos os males brasileiros é a redução da maioridade
penal e que há “uma nova forma de fazer política” por meio das mobilizações
momentâneas/instantâneas (flash mob)6 para “expressar” as discordâncias e desa-
parecer também com a mesma rapidez, banalizando (desvalorizando) a política e
as formas tradicionais de luta (movimentos sociais, sindicatos e partidos).
É importante nos apropriarmos das conquistas normativo‑legais sem nos
iludirmos quanto aos fundamentos ontológicos do direito na lógica da sociedade
capitalista. São conquistas, mas conforme explicita Barroco, referindo‑se às Decla-
rações de Direitos Humanos:

[...] podem ser considerados como uma medida para evidenciar o grau de humaniza-
ção‑desumanização do ser social, e, uma forma de contribuição, ainda que limitada,
para a sua reprodução em patamares menos desumanizantes. [...]
Portanto, compreender essa contraditoriedade significa saber que a defesa dos Direi-
tos Humanos pode servir, por um lado, à apologia do capitalismo, contribuindo para
a legitimação ideológica de interesses de dominação e para o ocultamento das formas
de degradação da vida humana. Mas, se, ao mesmo tempo, o reconhecimento univer-

6. Essas manifestações vêm gerando o interesse de pesquisadores, tema que não temos propriedade
para debater neste artigo. Contudo, é um fato relevante para entendermos principalmente a forma particular
pela qual a juventude (adolescentes e jovens adultos) vem buscando se “expressar”.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 527-543, jul./set. 2013 541
sal da totalidade dos Direitos Humanos e o seu alargamento é um produto concreto
do conjunto das lutas sociais, embora limitado, ele representa uma estratégia de re-
sistência, no universo da luta de classes, no interior das lutas mais gerais dos traba-
lhadores e dos movimentos populares. (2010, grifos no original)

A presença da pauta dos direitos humanos não apenas na agenda dos órgãos
governamentais, internacionais, da mídia, dos trabalhadores, da academia e dos
movimentos populares, representa a disputa que está colocada e, principalmente, o
retrocesso nos patamares mínimos de convívio. Desenvolver nosso conhecimento
sobre as questões macrossocietárias e da sociabilidade no presente tem como nor-
te comum a proteção de toda a vida planetária. As propostas de conciliação e de
aperfeiçoamento do sistema em vigor são desnudadas ao confrontarmos a inexis-
tência de mudanças efetivas na vida da maioria da população. O Brasil dessa pri-
meira década do novo milênio teve êxito em garantir maior acúmulo de riquezas,
aprofundando‑se a distância entre os mais ricos e os mais pobres. Não se trata de
não valorizar as políticas sociais que minimizam o sofrimento humano, mas de
reconhecer seus limites.
A luta social propriamente dita tem como fundamento o processo de constru-
ção de uma lógica de sociedade, mesmo quando não se tem consciência disso.
Nesse sentido, defender os direitos humanos da criança e do adolescente é uma
estratégia que entendemos necessária para a perspectiva revolucionária e emanci-
patória, exigindo que possamos construir processos de sociabilidade que disputem
o ethos dominante burguês, mas com direção e projeto político.

Recebido em 11/6/2013    Aprovado em 17/6/2013


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Sociales en el Poder Judicial de Neuquén
Work conditions of the social workers from the Judiciary of Neuquén

Martha Valdevenito*

Resumen: El presente artículo se propone recuperar la experiencia


organizacional, sindical y política, de las Trabajadoras Sociales del
Poder Judicial de Neuquén. Este proceso de sindicalización del sector
se extiende hasta el año 2007. El análisis pone énfasis en las tensiones
que se producen entre la “cuestión social” y las formas de enfrenta-
miento que asume una institución del Estado como el Poder Judicial,
constituyendo a la profesión como un permanente campo de lucha.
Palabras Claves: Trabajo Social. Cuestión Social. Condiciones Labo-
rales. Sindicalización. Poder Judicial.

Abstract: This article aims at recovering the organizational, political and union experience of the
social workers from the Judiciary of Neuquén. Such a unionization process of the sector went on until
2007. The analysis emphasizes the tensions between the “social issue” and the ways the Judiciary
confronted it, which made the profession become a permanent field of struggles.
Keywords: Social work. Social issue. Work conditions. Unionization. Judiciary

* Licenciada en Servicio Social (UN Comahue), Especialista en Políticas Sociales y Derechos de la


Infancia, (Universidad Nacional Del Comahue, Unicef), Especialización en Estudios de las Mujeres y Género;
maestranda en Trabajo Social (Universidad Nacional de La Plata), Trabajadora Social del Gabinete
Interdisciplinario del Poder Judicial de Neuquén Capital, Argentina. E‑mail: mvaldevenito@yahoo.com.ar.

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Introducción

E
l presente artículo tiene la intención de recuperar la experiencia organi-
zacional, sindical y política de las Trabajadoras Sociales del Poder Ju-
dicial de la provincia de Neuquén que va a culminar con la Sindicaliza-
ción del Sector en el año 2007. La propuesta es hacer un recorrido
histórico desde la inserción de la profesión en este espacio socio ocupacional en el
año 1970 hasta el año 2010. La mirada se va a centrar en las formas de o­ rganización
del colectivo profesional en el contexto de las tensiones existentes entre la deman-
da que provoca la “cuestión social” y el enfrentamiento que realiza una de las
instituciones del Estado para dar respuesta.
Recuperar este proceso ha sido posible a partir de la relación con la academia
en instancias de formación posibilitando romper con la enajenación que caracteri-
za el proceso de trabajo, superando transitoriamente las expresiones del cotidiano:
fragmentación, pragmatismo, espontaneísmo, para incursionar en procesos de re-
flexión que posibilitaron apropiarnos de esa realidad caótica y descifrar sus cone-
xiones macroscópicas.
La sindicalización fue protagonizada por Trabajadoras Sociales y Psicólogos,
ambas profesiones han desarrollado históricamente alianzas y conformado un co-
lectivo para enfrentar las condiciones laborales de la institución. Este artículo re-
cupera las implicancias y transformaciones que ese proceso significó para la inter-
vención en el Trabajo Social y el desarrollo de otras experiencias ligadas a la
formación, a la relación con la Universidad y al Colegio de Profesional, posibili-
tando un intercambio que coloca a la profesión en relación con debates actuales de
la región.
Compartimos la concepción que nos aporta Marilda Iamamoto (1998) cuando
nos propone que la práctica profesional se inserta en el juego de relaciones sociales
y de sus mecanismos de poder económico, político y cultural preservando las par-
ticularidades de la profesión en tanto actividad inscripta en la división social y
técnica del trabajo.
El Trabajo Social en el ámbito judicial representa un espacio ocupacional
particular vinculado a la intervención de la “cuestión social” que se expresa en la
justicia como una institución más del Estado. La intervención profesional excede
la denominada “función pericial” y se vincula a las constantes transformaciones
societarias expresadas en los marcos legales. Representa un campo de tensiones

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donde el Trabajador Social vende su fuerza de trabajo (Iamamoto, 1992, p. 202),
recibe una demanda de la Institución judicial y va construyendo constantemente
estrategias para lograr el acceso al servicio de Justicia por parte de los usuarios.
La carta orgánica del Poder Judicial de Neuquén establece en el art. 111 que
“los profesionales auxiliares de la justicia son funcionarios del poder judicial”. Este
ordenamiento legal visualiza claramente al Estado como regulador y controlador
de la fuerza de trabajo. Tal definición ha constituido el fundamento histórico (1970
a 2007) para negar de manera sistemática derechos laborales, sindicales y políticos
al sector.
La crítica al cotidiano (Netto, 2012) posibilitó trascender la mirada del expe-
diente provocando reflexiones más allá de cada instrumento legal que conforma la
intervención del Trabajador Social, para centrar el análisis en los fundamentos de
la profesión en la institución justicia y la reconstrucción de la particularidad de la
intervención en ese ámbito.
Este proceso se colectivizó a partir de la puesta en marcha de las primeras
jornadas de capacitación: “El Trabajo Social en la Justicia desde una perspectiva
Histórico Crítica”,“El debate contemporáneo del Trabajo Social en el ámbito de la
Justicia”, dirigidas a Trabajadoras Sociales de Neuquén y Río Negro y del Minis-
terio de Desarrollo Social (MDS), organismo ejecutor de las leyes de violencia de
género y protección de la infancia. La experiencia ha resultado una de las conquis-
tas derivadas del proceso de sindicalización, en tanto, se modificaron las condicio-
nes laborales apremiantes del período posterior a la crisis del 2001, posibilitando
un nuevo contexto que plantea otras preocupaciones a resolver en el marco de las
instancias reflexivas y propositivas de los espacios del Trabajo Social.

Organización y condiciones formales de Trabajo en el Poder Judicial


Las Trabajadoras Sociales de la Justicia de la Provincia de Neuquén consti-
tuimos veinticinco profesionales distribuidas en las cinco circunscripciones que
abarcan el territorio. Se trata de Neuquén Capital que concentra la mayor parte de
las trabajadoras sociales, nucleadas en el Gabinete Interdisciplinario del fuero de

1. Decreto Ley n. 1.436, Carta orgánica del Poder Judicial de Neuquén.

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Familia que depende de Superintendencia del Tribunal Superior de Justicia (TSJ)
y otro grupo de compañeras/os ubicados en las Defensorías de Niñez y Adolescen-
cia dependiente de las Defensorías del Tribunal de Justicia.
Las otras cuatro circunscripciones tienen como cabeceras a Cutral Có, Zapa-
la, Junín de los Andes, Villa La Angostura y Chos Malal. Allí cada Juzgado Civil
y Defensorías de Niñez cuenta con Trabajadoras Sociales y Psicólogos.
Los ingresos a Justicia son a partir de concursos de antecedentes y oposición,
inclusión formal inmediata a partir de una categoría de ingresante, obra social,
vacaciones y aguinaldo garantizados por el acceso a la planta judicial.
Actualmente los tribunales evaluadores se encuentran conformados por Tra-
bajadoras Sociales y un abogado, veedores sindicales y del colegio de profesiona-
les. La conformación de los tribunales ha resultado un ámbito de tensión y disputa,
dado que, anterior al proceso de sindicalización, los evaluadores se encontraban
conformados por jueces magistrados, psiquiatras, médicos y/o psicólogos como
agentes legitimados por la institución para evaluar un cargo de Trabajador/a Social
omitiendo la figura de un Trabajador/a Social en este ámbito.
La planta del Poder Judicial para los Trabajador/as Sociales representa un
ámbito de ingreso formal al mercado de trabajo con todas las consecuencias de allí
derivadas. Las condiciones laborales de los contratos precarizados que tuvieron
vigencia en la década de 1990 conformaron parte del pliego de demandas del sec-
tor, siendo erradicados de la planta logrando de esta manera una inserción y per-
manencia ligada a la estabilidad y garantía de los derechos laborales.

Las tensiones entre las formas de enfrentamiento de la cuestión social


desde el Poder Judicial de Neuquén y la organización de los
Trabajadores Sociales
El Servicio Social se incorpora a los organismos del Poder Judicial en Ar-
gentina en el año 1930 (Oliva, 2007), en la provincia de Neuquén la inserción se
va a producir en el año 1970 siendo una de las primeras profesiones convocadas
desde el campo jurídico, que se inserta en el ámbito judicial. La profesión se ins-
cribe en un ámbito caracterizado por una organización patriarcal, donde la hege-
monía es el derecho. Esta profesión asume y define al resto de las y los profesio-

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nales no abogados como auxiliares de jueces y magistrados, como lo expresado
en la Carta Orgánica.
El Servicio Social como profesión ha recorrido un proceso histórico donde la
organización de los trabajadores está vinculada a las demandas sociales que plantea
la “cuestión social” (Guerra, 2001)2 producto de la expansión de la crisis capitalis-
ta y las formas de enfrentamiento que el Estado adopta desde uno de sus organismos,
tiene como función, la regulación del conflicto y mantención del orden dominante.
En este contexto hemos reconstruido que la profesión ha transitado tres momentos:
Período que va de 1970 hasta 1983 y recorre el proceso de dictadura militar
donde puede advertirse falta de representación sindical. Si bien la actividad sindical
se encontraba limitada por el contexto de dictadura, se evidencia también que des-
de el ámbito sindical no se asumía al sector como trabajadoras con demandas es-
pecíficas (Antunes, 2001).3
La estructura judicial es altamente estratificada, jueces y magistrados se
organizan en la Asociación de Magistrados que representa los intereses del sector,
los denominados “empleados” del TSJ se organizan en el Sindicato de Judiciales
de Neuquén (Sejun) y los denominados “profesionales auxiliares” aparecen en la
historia de la institución como una franja no reconocida por ambas organizacio-
nes, excluidos de cualquier tipo de representación que considere sus reclamos
particulares.
Para Alain Bihr (1991, p. 89), estas diversas categorías de trabajadores tienen
en común la precariedad del empleo y de la remuneración; desregulación de las
condiciones de trabajo, en relación con las normas legales vigentes y la consabida
regresión de los derechos sociales, así como la ausencia de protección y libertad
sindical, configurando una tendencia a la individualización extrema de la relación.
A partir de la década de 1980 se registran Trabajadoras Sociales agremiadas
al sindicato, con una representación formal individual y Trabajadoras Sociales
incluidas en la Asociación de Magistrados, evidenciándose en este punto la ­tensión

2. “En el capitalismo monopolista el Estado pasa a intervenir directamente en la cuestión social por lo
que desarrolla una modalidad de intervención tipificadas en políticas sociales que son tratadas como
problemáticas particulares” (Guerra, 2001, p. 2).
3. Las dimensiones de la crisis contemporánea del sindicalismo se manifiestan a través de la
fragmentación, heterogeneización y complejización de la clase que vive del trabajo, lo cual cuestiona de raíz
al sindicalismo tradicional y dificulta también la organización sindical de otros segmentos que integran la
clase trabajadora.

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no resuelta la tensión profesional‑trabajador que va a recorrer los distintos modos
de organización que van asumiendo las Trabajadoras Sociales a lo largo de la
historia.
Durante este período rigen los marcos legales basados en el Paradigma de la
Doctrina de la Situación Irregular, cuya Ley Nacional estaba representada por la
Ley de Patronato sancionada a principios del siglo XIX. La infancia, como expre-
sión de la “cuestión social”, comienza a ser regulada a partir de la estrategia del
Estado, cuyo fundamento sería la represión y reclusión de los sectores pauperizados.
La tarea profesional se dirige básicamente a determinar la “situación de ries-
go” de la población usuaria, que una vez detectada desde el juzgado se deriva a los
organismos ejecutores de la ley de infancia. Se trata básicamente de una estrategia
ligada a la reclusión e institucionalización de ese sector poblacional. Se evidencia,
la concepción de peligrosidad social (Daroqui; Guemeureman, 2000), la moraliza-
ción de la pobreza, la estigmatización y como resultado la construcción social de
los sectores peligrosos que requieren de una “acción efectiva del Estado”. Para
Daroqui y Guemureman (2000), el positivismo como pensamiento se instala en la
política dando respuestas, ya no solo con la interpretación de una realidad comple-
ja, sino brindando los instrumentos necesarios para operar sobre ella, de ahí su
aporte activo a fundar los marcos teóricos, no solo del servicio social, sino de la
psicología y psiquiatría.
La década de 1990 — expansión del neoliberalismo. El contexto socio eco-
nómico político se caracterizó por el desmantelamiento del Estado, regresión en
términos de derechos de los trabajadores, políticas de privatización y crecimiento
acelerado de la pobreza que comienza a expresarse en los márgenes de las grandes
ciudades. La capital de Neuquén va a iniciar un proceso de urbanización acelerado
en el oeste de la ciudad donde se va a ubicar la población más pobre de la provincia.
En materia de intervención, como consecuencias de las nuevas expresiones
de la “cuestión social”, el nuevo milenio inaugura instrumentos legales que provo-
can cambios paradigmáticos en materia de infancia y violencia de género4. Se
termina con un siglo de intervenciones basadas en la concepción minorizante de la
infancia y de las mujeres para dar lugar a la concepción de sujetos de derechos y
ciudadanía.

4. Convención Internacional del Niño/a y Adolescente, Convención Internacional sobre Eliminación


de todas las formas de discriminación hacia las mujeres y Tratados sobre violencia de género.

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El cambio de los marcos legales modificaron las estructuras institucionales,
los Juzgados de Menores se transforman en Juzgados de Familia, siendo cuatro en
la actualidad; la Defensoría del Menor pasó a ser Defensoría de Niñez y Adoles-
cencia. No se trató sólo del cambio de nominaciones, la institución judicial fue
adquiriendo modificaciones previstas en la sanción de las correspondientes leyes
que inauguraron nuevos servicios, requirieron espacios de formación, logrando en
diez años ir avanzando en la adecuación institucional en todas las circunscripciones
judiciales.
En este contexto y como forma de dar respuesta a la crisis, además de la mo-
dificación de la estructura el poder judicial, se convocó a profesionales especiali-
zados en violencia, nueva temática a ser abordada por la justicia. Se registra en este
momento condiciones laborales compatibles con la época histórica, el poder judicial
ofrece condiciones laborales en el marco de la precarización y flexibilización labo-
ral5 que se van a mantener casi una década.
En materia de reclamos de las condiciones laborales, los/las Trabajadores So-
ciales mantienen las reivindicaciones históricas referidas a la creación de la carrera
judicial, el escalafón etc. Se trata de una época en la que el reclamo del sector no es
asumido por ningún ámbito de representación. Durante este período comienzan a
colectivizarse las demandas, sin embargo se adopta una estrategia ligada a la lógica
burocrática dominante. Algunos/as compañeros/as inician juicios individuales al
TSJ ubicándose como funcionarios y esperan ser reconocidos en la tarea diferencial
promoviendo de esta manera promover la creación de la carrera judicial.
Período postcrisis de 2001. Se manifiesta la expresión de la crisis en la etapa
de expansión del capitalismo financiero a nivel mundial. En el país toman fuerza
las demandas de los movimientos sociales, de desocupados, de trabajadores orga-
nizados que van a culminar con la explosión de la crisis acontecida en el mes de
diciembre de ese año.
La región no es ajena a las diversas formas de organización y movimientos,
durante este período tiene vigencia dos mandatos consecutivos de Jorge Sobisch
en la provincia. Se trató de un período histórico de violencia, corrupción, per-
secución sindical, ataques manifiestos a la ley de infancia, cuestionamiento a la
independencia de poderes denunciados por distintos sectores y movimientos so-
ciales de la provincia.

5. Ver Diario Río Negro, mayo de 1999, llamado a concurso para asistente social.

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Los/las trabajadores/as sociales y psicólogos/as comienzan a agruparse, tal
como va aconteciendo en diversos espacios sociales, conformando hacia 2004 la
Asociación de Profesionales Auxiliares de la Justicia.
En marzo del mencionado año se obtiene la Personería Jurídica de la Asocia-
ción, siendo los objetivos: “Ejercer la representación de los Asociados en todos
aquellos aspectos que hagan a los intereses laborales como Profesionales Auxiliares
Permanentes del Poder Judicial; Propiciar y promover el intercambio científico,
académico, técnico y de actualización entre las distintas disciplinas que integran la
asociación con el fin de tener un desarrollo y enriquecimiento de la tarea profesio-
nal dentro del poder judicial”.
Se trata de la primera organización colectiva como grupo de trabajadores
asalariados de la justicia, con un potencial de 40 profesionales compuestos por
Trabajadores Sociales, Psicólogos y Médicas de toda la provincia.
Se inaugura una modalidad de organización social y política para llevar ade-
lante los reclamos históricos de la carrera judicial. Se trata de una asociación que
define la identidad de los/las trabajadores/as como profesionales recorriendo nue-
vamente el aspecto contradictorio de la tensión trabajador/profesional. Durante el
período se verifican para la profesión el contexto de mayor abuso y violación de
las incumbencias profesionales, dado que ante la emergencia de la crisis capitalis-
ta, la falta de respuesta de las políticas públicas a las expresiones de la “cuestión
social”, se produce la personalización más extrema del trabajo.
Ante la denuncia de las condiciones laborales6, acción que el colectivo reali-
za de manera pública a través de medios televisivos y radiales, aparece la respues-
ta de la institución desde su modalidad represiva depositando en el/la trabajador/a
social el incumplimiento de las Leyes de Violencia Familiar e Infancia y Adoles-
cencia. La sanción hacia los/las trabajadores/as, se constituye en la única salida
institucional para el cumplimiento de los requerimientos de los juzgados.
La sanción y el disciplinamiento a los trabajadores durante esa época se visua­
lizó en los distintos acuerdos, mecanismos de toma de decisiones de ese poder,
iniciando sumarios individuales y colectivos, sanciones y puesta en marcha de
auditorías. Se inicia una persecución hacia los profesionales del sector sin prece-
dentes en al historia del Poder Judicial de Neuquén. Un aspecto a destacar es que

6. Nota a la Secretaria de Gestión Humana con presentación del documento denominado “Colapso del
Gabinete Interdisciplinario”, Asociación de Profesionales de la Justicia Apajun (2006).

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la coordinación del Gabinete Interdisciplinario de Neuquén se encontraba a cargo
durante ese período de un médico psiquiatra denunciado por organismos de derechos
humanos7 por presunta participación en el período de terrorismo de Estado en Ar-
gentina. Se trata de un aspecto que visualizaba algunas continuidades del aparato
represivo estatal.
En materia de intervención el fuero de familia habilitó el dispositivo de guar-
dia emergente a partir de la sanción de la Ley n. 2.212 de violencia familiar para
todas las demandas que ingresaban a la institución. Se trataba del uso de un teléfo-
no celular que funciona las 24 horas, los 365 días del año, donde un abogado re-
cepcionaba la demanda legal e inmediatamente derivaba al servicio social sin
evaluación previa de la demanda, para que la trabajadora social concurriera al lugar,
incluyendo los horarios nocturnos y de madrugada, para producir un informe social.
La reconstrucción de la particularidad8 de la intervención de este período
visualizó que el dispositivo de guardias constituyó la respuesta que la institución
brindó a la “cuestión social” en un contexto postcrisis 2001 caracterizado por la
mayor expresión de desigualdad, ausencia de políticas sociales, desmantelamiento
de los escasos programas de atención, siendo las trabajadoras sociales del Poder
Judicial las primeras agentes de intervención ante la demanda social.
La intervención social constituía el espacio de mayor expresión del cotidiano,
se inscribía en el caos, la urgencia, la inmediatez, la improvisación trasformándose
en una respuesta burocrática despojada de evaluación de criterios de intervención,
de proceso, de dirección. En síntesis, un escenario donde la demanda caótica de la
institución implicó un escenario de violación a las incumbencias profesionales.
La reconstrucción cuantitativa de la tarea de ese período nos muestra datos
tales como: más del 50% de las urgencias eran vinculadas al requerimiento de
traslado de personas para entrevistas psicológicas, psiquiátricas y/o audiencias
judiciales. Desde el sector se abrió una fuerte crítica a las demandas de la judica-

7. Neuquén (AN). Por tercera vez se intentará hoy iniciar el juicio contra 27 policías acusados de
torturar a detenidos en la Unidad 11, la mayor cárcel de la provincia. La Asociación Zainuco, que actúa como
querellante, presentó un hábeas corpus para que se les brinde protección a 15 detenidos que declararán como
testigos ya que fueron víctimas de la represión, ocurrida en abril de 2004. El organismo también pidió que
se excluya de la lista de testigos al psiquiatra Ignacio López Proumen atento a su presunta participación en
los hechos de terrorismo de estado que fueran perpetrados durante la dictadura militar en los años 1976‑1983.
Diario Río Negro, 3/mayo/2010.
8. En sus estudios sobre la realidad en tanto totalidad concreta, Luckás realiza un importante análisis
de las categorías de particularidad, singularidad y generalidad (Mallardi, 2012, p. 59).

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tura, en tanto, determinados requerimientos no representaban incumbencias profe-
sionales sino acciones que conformaban parte de un ideario cultural e institucional
vinculado a la representación del rol del trabajo social negativamente asumido.
La crítica situación nos interpeló como colectivo profesional y nos vimos en
la tarea de generar instancias de reflexión, logrando apropiarnos de esa realidad
caótica y definir incumbencias, en principio para ejercer nuestra práctica en el
marco de la legislación profesional y el código de ética. Por otro lado, para no
asumir las lagunas institucionales y delimitar las intervenciones profesionales que
correspondían a la psicología, psiquiatría, medicina y/o abogacía.
En este período de crisis la “cuestión social” va a ser abordada desde nuevos
paradigmas en la era del derecho, aparece como marco legal la Doctrina de Pro-
tección Integral de la Infancia y Adolescencia cuya principal declamación es “la
infancia como sujetos de derecho”. Al Trabajador Social se va a encomendar la
intervención en el marco de los “derechos vulnerados” a diferencia de detectar la
“situación de riesgo”, estableciendo diagnósticos de vulneración de derechos
universales.
Como propuesta aparece en los distintos ámbitos, académicos, judiciales,
institucionales, sociales, escolares, políticos, el discurso hegemónico de la desju-
dicialización de la pobreza, la desinstitucionalización, desarticulando la estrategia
de reclusión e institucionalización que constituyo la base metodológica del control
de la población del periodo anterior. Se asume ahora como “la solución” de la
“cuestión social” por parte del Estado la restitución de derechos a los niños “ciu-
dadanos” y a las mujeres víctimas de la violencia.
En este marco se observa una creciente judicialización de derechos, ausencia
de las obligaciones del Estado que deben materializarse en políticas públicas, cre-
ciente incorporación del tercer sector y creciente desarrollo de tecnicaturas que
comienzan a proliferar en condiciones de extrema precariedad para abordar la cada
vez mayor complejidad de la “cuestión social”. El Estado provincial adopta la es-
trategia de descentralización, asignando la competencia a los municipios, quienes
no contaron con la partida presupuestaria para hacer frente a las demandas y en un
proceso acelerado debieron organizarse para abordar las situaciones delegadas.
Se ha verificado en este tiempo que la descentralización significó ausencia de
la intervención del estado para asumir la “cuestión social”, precarización extrema
de los trabajadores y des‑profesionalización del campo psicosocial, predominando
técnicos y agentes denominados “operadores”, figuras en quienes han delegado la

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intervención en la materia. Los nuevos paradigmas dejan en evidencia que el Esta-
do, lejos de garantizar esos derechos proclamados en esta era, por un lado, registra
la mayor ausencia de políticas públicas para abordar la “cuestión social” y por otro,
pone en evidencia que la relación capital/trabajo está generando, en este período
histórico, una de las mayores expresiones de deshumanización.
En materia de organización de las trabajadoras se destaca en el año 2006 un
espacio de organización colectiva intradisciplinaria que surge como consecuencia
de las condiciones socio ocupacionales vigentes. La intención inicial era generar
un dispositivo de reflexión para problematizar la condición de género considerando
las implicancias de una profesión femeneizada en un ámbito patriarcal y la condi-
ción de clase dada nuestra condición de asalariadas.
Posteriormente la propuesta se inscribió en un proyecto de extensión de la
Universidad Nacional del Comahue, coordinado por la Lic. Silvia Mansilla, docen-
te a cargo de la cátedra paralela “Seminario de Servicio Social con residencia
Institucional”. Este proceso constituyó un espacio fundante, pues se trató del primer
ámbito intradisciplinario colectivo y organizado, donde las Trabajadoras Sociales
nos reunimos durante varios meses interrumpiendo el cotidiano que desbordaba,
para instituir un espacio que, sumado a los procesos que se venían gestando histó-
ricamente, va a motorizar una organización superior en la historia de los trabajado-
res de la justicia, la inclusión como sector específico al sindicato judicial.
El espacio de supervisión se desarrolló en el ámbito laboral, nos apropiamos
del tiempo y lugar para suspender la tarea cotidiana. Si bien, reconociendo la hete-
rogeneidad del colectivo profesional, integraron este espacio colegas con quienes
habíamos desarrollado un vínculo de confianza, dado el carácter hostil y represivo
de la institución. Se trata de un ámbito que fortaleció personal y políticamente al
grupo, promoviendo y reorientando un proyecto profesional que se venía gestando
históricamente.
Período 2007 a 2010 — Sindicalización de los Trabajadores Sociales. El
contexto más represivo y de mayor expresión de las consecuencias de la crisis de
2001 posibilitó que se inaugurara un período trascendental, la sindicalización de
los/las trabajadores sociales. Durante este período se incorpora a los reclamos
históricos, carrera judicial y escalafón, la Aprobación de Incumbencias Profesio-
nales del Servicio Social, construcción colectiva que surge a partir del período de
mayor tensión y conflicto producto de la crisis y las manifestaciones creciente de
la “cuestión social”.

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Algunas de las estrategias que el colectivo adoptó para la acción política
sindical fueron sostener la organización colectiva que el conjunto construyó en otros
periodos históricos, asumir una dimensión política de la práctica, superar la dimen-
sión profesional para asumirse como trabajadoras asalariadas con un trabajo espe-
cífico en el marco de la división social y técnica del trabajo. Superar el aislamien-
to e integrarnos con las compañeras del interior de la provincia, dotó al reclamo un
carácter más abarcativo, la asamblea es el espacio donde construimos el pliego de
reclamos del sector y esbozamos la carrera judicial.
Mantuvimos la unidad y organización frente a la represión institucional en un
conflicto que se mantuvo por más de ocho meses donde realizamos las siguientes
medidas de fuerza: paro, quite de colaboración, asambleas en los lugares de traba-
jo y en distintos organismos manifestando la problemática del sector, pegatina y
escarches.
Adoptamos acciones sindicales directas, esta estrategia la desplegamos en la
ejecución de los concursos informando a los/las participantes que los mismos ca-
recían de legitimidad y eran pasibles de ser impugnados por el sector, en tanto,
presentaban irregularidad por la conformación del tribunal examinador, por la au-
sencia de veedores del colegio o sindicales. Nos asociamos con actores sociales
como los colegios profesionales y la universidad, aspecto clave para deslegitimar,
por ejemplo, los requerimientos que no constituían incumbencias profesionales,
dando el colegio la legitimidad al reclamo. Además, constituyó una forma de ubicar
el conflicto en la dimensión pública implicando un amparo social trascendente.
Realizamos denuncias públicas en medios radiales y televisivos, escarches,
dado que durante el periodo postcrisis 2001 se implementaron pasantías laborales
que además de constituir una profundización de la precarización laboral, los usua-
rios eran asistidos por estudiantes de psicología violando el derechos a la asistencia
profesional además del riesgo que implica la atención preprofesional en materia de
violencia de genero, maltrato infantil.
La institución baso su estrategia en acciones de represión, sanción y per-
secución9 a los reclamos y organización de las trabajadoras. El TSJ crea el primer

9. 2010 Testimonio Acuerdo 4517 (21 de abril 2010)


11º Equipo Interdisciplinario sobre informe de la Secretaría de Superintendencia.
Visto: Informe de medidas de quite de colaboración del Equipo Interdisciplinario informada y ratificada
por la entidad gremial [...]. Que no resulta posible permitir que no ser brinde el servicio de manera adecuada,

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antecedente de sumarios colectivos a un sector, aspecto sin precedentes en la his-
toria del Poder Judicial de Neuquén. Utiliza la estrategia de amedrentamiento
individual sumariando a colegas,10 interpelando abiertamente las evaluaciones
profesionales emitidas en los dictámenes. Estos sumarios constituyeron una de las
mayores expresiones a la invasión a la Autonomía Profesional y nos afianzaron en
la lucha por las incumbencias del Trabajo Social.
Mantuvo históricamente la negación como sujetos políticos siendo una de sus
principales estrategias, basada en la definición del Artículo 11 de la Carta Orgánica,
se nos prohibía cualquier tipo de medidas de fuerza:11 paros, quite de colaboración,
asambleas. Estrategias que, por otro lado, fueron trascendetales para conquistar el
espacio del sindicato.
Otra de las estrategias institucionales fue la fragmentación,12 separación físi-
ca y distribución por distintos organismos, juzgados y defensorías de los trabaja-
dores sociales y psicólogos enunciando taxativamente la “tabicación” como forma
de ordenamiento espacial.

por que no existe fundamento jurídico válido que justifique el incumplimiento tratándose de Funcionarios
que tienen competencias muy específicas asignadas por al legislación vigente y reglamentación interna,
evalúe la correspondencia de la aplicación de sanciones si correspondiera. Ello sin perjuicio de continuar
trabajando con las inquietudes que el grupo de profesionales tenga, en relación con el establecimiento de
escalafones, protocoles de intervención o cualquier otra propuesta que deseen expresar y que podrá luego
ser evaluada por el cuerpo.
Resuelve:
Disponer la realización de una Auditoría en el Equipo Interdisciplinario del Fuero de Familia de
Neuquén Capital, a fin de determinar si existe incumplimiento de los deberes propios del cargo y propios de
las funciones asignadas por la legislación y reglamentación vigente, y en caso por parte de quien, alcance
y detalle del mismo, con el respaldo documental correspondiente.
3) Notifíquese, cúmplase______.
10. S/Sumario Administrativo: Asistentes sociales.
11. XII. Secretaría de Superintendencia sobre Informe de Medidas de Fuerza Profesionales Auxiliares.
Visto y Considerando: Que tal lo que surge de los informes elaborados por el jefe del Gabinete
Interdisciplinario, los funcionarios que se desempeñan como psicólogos y asistentes sociales del organismo
han realizado medidas de fuerzas consistentes en paros y quite de colaboración. Que teniendo en cuenta que
se trata de Funcionarios de este Poder, la situación implicaría una irregularidad en el ejercicio de las funciones
propias, se impone un estudio profundo de los antecedentes a fin de evaluar si corresponde que se tome alguna
medida al respecto. Por lo que de conformidad Fiscal, se resuelve:
1) Pasar a estudio de los vocales los antecedentes referidos;
12. 2008 Acuerdo 4310 Cuerpo de Profesionales Auxiliares de la Justicia Sobre Reestructuración y
Recategorización, se determina la desarticulación del equipo de Trajadoras Sociales y Psicólogos.

556 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
Utilizaron la evaluación de desempeño, se calificó en forma oculta a los pro-
fesionales en sus legajos personales, medida arbitraria y discrecional con alto nivel
de impunidad dado que el evaluador era un psiquiatra, dejando en evidencia la
continuidad y vigencia de históricas hegemonías profesionales.
En relación a las conquistas sindicales del sector logramos constituirnos como
actores políticos legítimos representados por el SINDICATO, pudiendo ser inter-
locutores válidos para el TSJ. Se deja atrás la argumentación histórica que opero
para negar este derecho, es decir, la concepción del TSJ de que los “profesionales
auxiliares” somos funcionarios. Se produjo la modificación del Estatuto del Sindi-
cato que va a promover el ingreso de los profesionales, no sólo trabajadores ­sociales
y psicólogos sino también abogados que no forman parte del Consejo de la Magis-
tratura, o sea, el amplio sector subalterno de los jueces y magistrados. Si bien esta
era una de las líneas políticas de la conducción de ese momento celebramos haber
inaugurado, este espacio, pues representa una conquista para los trabajadores en su
conjunto.
Se rompe con una de las ideas más sedimentadas en la cultura institucional13
basada en que los “profesionales” no podemos hacer huelga, paro o cualquier otro
tipo de medidas de fuerza. Esta idea aparece en la historia del Poder Judicial de
Neuquén tanto en magistrados y funcionarios como en compañeros administrativos
y los mismos trabajadores sociales.
Se logra un espacio profesional como actor relevante en los tribunales de con-
cursos, ahora son integrados por Trabajadores Sociales revirtiendo la práctica insti-
tucional que negaba este espacio. Se desplaza la hegemonía del derecho, médicos,
psiquiatras o psicólogos para seleccionar trabajadoras sociales, incorporando vee-
dores sindicales y de colegios de profesionales. Se suspendió el servicio de guardia
para toda demanda legal y se propone un ámbito de dialogo y reflexión mediante los
lineamientos profesionales, que si bien aún no se han aprobado, hemos logrado
desterrar intervenciones que no constituían incumbencias socioprofesionales.
Logramos una recategorización14 ante la demanda de reconocimiento a la
postergación histórica por la falta de carrera y escalafón. La misma fue discrecional

13. 2010 Testimonio Acuerdo 4517 (21 de Abril 2010).


II. Equipo Interdisciplinario sobre informe de la Secretaría de Superintendencia.
14. 2008 Acuerdo 4310 Cuerpo de Profesionales Auxiliares de la Justicia Sobre Reestructuración y
Recategorización.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 557
pero representó un reconocimiento explícito a la postergación denunciada por los
trabajadores y el primer movimiento en relación a las categorías profesionales. Esta
recategorización fue producto de la propuesta asamblearia conformada por más de
300 judiciales. Representó para el sector un doble reconocimiento, de la asamblea
y el reconocimiento por parte del TSJ, dado que finalmente responde al reclamo
asumiendo que somos sujetos con representatividad.
Conquistas sindicales: implicancias en la práctica socio profesional. Amplia-
mos el grado de autonomía profesional, el fuerte cuestionamiento a las demandas de
otros efectores que definían prácticas en relación a la profesión va posibilitando que
las trabajadoras sociales pongan límites y definan las incumbencias profesionales.
Desterramos prácticas que no constituían incumbencias profesionales, tales como
traslado de personas a sede judicial para audiencia o entrevistas médicas y psicoló-
gicas, intervención en crisis psiquiátricas, adicciones, notificaciones de audiencias.
Se problematiza la idea de intervenciones coactivas del Trabajo Social, des-
tacamos la relevancia de tensionar las acciones coativas en el contexto judicial,
dado que es asumida como parte de la identidad de la institución. Ha constituido
un debate que puso en relieve discusiones hacia el interior del colectivo profesional
acerca de las implicancias éticas de este tipo de intervenciones.
Logramos un encuadre de intervención básico para la supervisión de régimen
visitas y restitución de niños con sus padres, destacando la importancia de que
estas intervenciones se desarrollen en un contexto institucional que contribuya al
proceso de revinculación socio familiar. Mantuvimos alto clima de cohesión y
construcción colectiva, para definir los lineamientos profesionales, construir pautas
de intervención en los distintos marcos legales, instituir un espacio semanal de
encuentro intradisciplinar.
Pusimos en crisis la concepción de auxiliaridad histórica del Trabajo Social15
respecto del Derecho como profesión hegemónica, abriendo el debate de las impli-
cancias de una profesión feminizada en un contexto patriarcal. Hay un proceso de
crítica y revisión de los valores dominantes históricos en relación al género en el
binomio mujer‑asistente social.
Entendemos que los logros alcanzados no son inamovibles, el proceso histó-
rico da cuenta de cómo las demandas hacia el Trabajo Social se encuentran profun-

15. “El médico y posteriormente el abogado, poseedores del saber y del poder, encontraron en la asistente
social, su auxiliar eficaz de cumplir con el mayor tino y delicadeza sus indicaciones” (Grassi, 1989, p. 98).

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damente ligadas al movimiento social y las respuestas que deban dar las institucio-
nes. Hay una tendencia que la institución mantiene respecto de las respuestas a las
demandas de las trabajadoras, éstas son parciales, fragmentadas, no atienden el
reclamo general, no hemos logrado aún la aprobación de la carrera judicial y el
escalafón pero vamos conquistando espacios trascendentales para la profesión en
el ámbito del Poder Judicial de Neuquén.

Conclusiones
La lucha de las trabajadoras sociales y psicólogos/as se desenvuelve en un
contexto contradictorio, donde la identidad de los mismos se manifiesta de manera
central e histórica evidenciando las determinaciones de naturaleza material, obje-
tiva y de naturaleza subjetiva que poseen las profesiones. Hay una tendencia a la
proletarización que ubica a los trabajadores obligadamente a darse una respuesta
para sí.
El Estado como instrumento extra económico, garantiza del orden burgués,
administra la cuestión social ampliando y modificando las estructuras, exacerbando
los mecanismos represivos y disciplinadores hacia a los trabajadores y de esta
manera controlar el nivel de amenaza y tensión que expresa la cuestión social.
La historia de lucha de las Trabajadoras Sociales y el tratamiento de la “cues-
tión social” por parte del Estado nos remite a la naturaleza misma de la profesión,
emergente de la división social y técnica del trabajo resultando el Estado el merca-
do donde vendemos la fuerza de trabajo, por lo tanto, un escenario plagado de in-
tereses contradictorio donde el Trabajador Social debe construir un proyecto que
contemple soluciones colectivas.
El devenir de este proceso histórico puso en crisis las posiciones de las traba-
jadoras sociales, en tanto, nos ha colocado a nosotras mismas confrontadas con la
tarea cotidiana, nos ha exigido posiciones que han tenido expresiones diversas tal
como lo constituye un colectivo profesional.
En la actualidad continuamos con las demandas históricas y las que se van
gestando, el cambio de conducción sindical impacto en la percepción y acción
política respecto del sector, se trata de un perfil ligado al mutualismo, a la burocra-
cia sindical resultando un frente de lucha colocar nuestras demandas, no obstante
logran alianza para los procesos de capacitación que proponen desde el espacio

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013 559
intradisciplinar. Mantenemos la organización colectiva y el espacio asamblearia
como principal estrategia para nuestros reclamos.

Recebido em 20/2/2013    Aprovado em 10/6/2013


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560 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 544-560, jul./set. 2013
Proibicionismo e a criminalização de
adolescentes pobres por tráfico de drogas*
Prohibitionism and the criminalization of poor adolescents for drug traffic

Andréa Pires Rocha**

Resumo: O proibicionismo, a “guerra às drogas” e a criminalização


da pobreza são elementos situados no âmbito político e ideológico, se
materializam na luta de classes e são utilizados para o controle social.
Mostramos a partir de alguns trechos de sentenças judiciais e manifes-
tação do Ministério Público, o quanto os discursos ideologizados
justificam a criminalização de adolescentes pobres por tráfico de
drogas, colocando‑os como inimigos sociais sem considerar as con-
tradições e riscos que são submetidos cotidianamente.
Palavras‑chave: Proibicionismo. Adolescentes. Tráfico de drogas.
Criminalização da pobreza. ECA. Lei Antidrogas (Sisnad).

Abstract: The prohibitionism, the “war against drugs” and the criminalization of poverty are
elements in the political and ideological context, they have materialized themselves in the class
struggle and they are used for social control. From excerpts taken from court decisions and manifes-
tations of the Department of Justice, we show how much the ideologized discourses justify the cri-
minalization of poor adolescents for drug traffic and place them as social enemies. Such discourses
do not consider the contradictions and risks to which such adolescents are submitted daily.
Keywords: Prohibitionism. Adolescents. Drug traffic. Criminalization of poverty. ECA. Antidrug Law
(SISNAD).

* Este artigo é parte das reflexões desenvolvidas na tese de doutorado Trajetórias de adolescentes
apreendidos como “mulas” do transporte de drogas na região da fronteira (Paraná) Brasil — Paraguai:
exploração de força de trabalho e criminalização da pobreza, na qual tivemos como objeto, a “análise das
trajetórias e contradições que determinam o cotidiano de adolescentes que são explorados como ‘mulas’ na
rota internacional do tráfico de drogas existente no Estado do Paraná, região de fronteira entre Brasil‑Paraguai”.
** Doutora em Serviço Social pela Unesp‑Franca, São Paulo, Brasil; mestre em Educação pela
Universidade Estadual de Maringá (UEM)/Paraná, Brasil. Graduada em Serviço Social pela Unesp‑Franca.
E‑mail: drea_rocha@yahoo.com.br.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013 561
1. Drogas, proibicionismo e controle dos pobres

E
ntendemos que os discursos ideologizados com base no proibicionismo
fazem com que os adolescentes trabalhadores do tráfico de drogas1
ganhem status de traficantes perigosos e recebam o estigma de inimigos
sociais, justificando a criminalização da juventude pobre e a efetivação
do estado penal. Por isso, inverteremos o trivial e iniciaremos esta seção com a
apresentação de dois fatos concretos, portanto anteciparemos fragmentos de nos-
sa pesquisa de campo trazendo alguns exemplos de como a combinação “proibi-
cionismo‑criminalização da pobreza” ainda subsidia decisões do Ministério Pú-
blico, do Poder Judiciário e de equipes técnicas, incluindo profissionais de
Serviço Social. Talvez o verossímil dos argumentos abaixo justifique o debate que
utilizaremos no decorrer do artigo.
Apresentaremos um trecho da manifestação do Tribunal de Justiça, que “jus-
tifica” a determinação da privação de liberdade de adolescente explorado pelo
narcotráfico que foi apreendido em ônibus interestadual com quatro tabletes de
maconha, totalizando 4.430 kg. Vejamos,

A sensação generalizada da população, especialmente a de menor grau de cultura, ou


seja, a absoluta maioria, é que o Brasil é uma terra sem lei e sem justiça, onde a cor-
rupção, a bandalheira e a impunidade reinam soberanas. Para outros segmentos da
população, um pouco mais esclarecidos, é a de que, no Brasil, a legislação é de uma
frouxidão irritante, em que a lei só existe para favorecer quem comete irregularidade,
barbaridade ou crimes. Diz‑se, à boca pequena, que matar, roubar, estuprar ou traficar
podem causar penas relativamente graves, mas que, com toda certeza, não serão
cumpridas, pois é uma tal de progressão de regime, de remissão de pena, de livramen-
to condicional, que, para alguém ser segregado, mesmo depois de condenado, só se
for pobre ou marginalizado. A sensação da população é a de que o Brasil não tem mais
jeito! As brechas na lei são muitas e sempre bem exploradas, bastando, para tanto, ter
bons advogados, o que, evidentemente, uma boa conta bancária sempre consegue. Isto
é triste. Chegou‑se a uma tal situação que o homem honesto, como já afirmava o
sempre lembrado Rui Barbosa, chega a ter vergonha de ser bom. Mas isso há de mu-
dar! Esta é a esperança. Esperança é a profissão do brasileiro.

1. Nos pautamos no Decreto n. 3.597, de 12 de setembro de 2000 (Brasil, 2000), que promulga a
Convenção 182 e a Recomendação 190 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) a qual considera o
tráfico de entorpecentes uma das piores formas de trabalho infantil.

562 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
Em [nome da cidade], a sensação não é diferente, e as pessoas, nas ruas, nas escolas,
nos bares, nas igrejas, em casa, na imprensa, parodiando Cícero, nas Catilinárias e se
dirigindo aos poderes da República, estão a perguntar: até quando, autoridades, abu-
sareis de nossa paciência? Este clamor da comunidade é traduzido por um silogismo
elementar: quem erra deve ser punido e quem erra gravemente deve ser punido seve-
ramente, o crime é um erro grave, logo, os criminosos devem ser severamente punidos.
[...]. (Sentença 1)

No trecho acima o juiz desenvolve um discurso penalista muito claro, dando,


a nosso ver, demasiado peso ao ato infracional, o discurso ideologizado mostra nas
entrelinhas um moralismo exacerbado e extrema ausência de historicidade para a
compreensão das raízes da criminalidade como um fenômeno que deve ser enten-
dido a partir da contextualização sócio‑histórica. É contraditório, pois ao mesmo
tempo em que o magistrado profere a existência da impunidade para aqueles que
possuem “dinheiro”, julga de maneira voraz e culpabilizatória um adolescente
pobre. Vejamos a continuidade da sentença,

[...] Nestes conceitos populares de crime e de punição, também se incluem os adoles-


centes. Na atual quadra da civilização, em pleno século XXI, quando os meios de
comunicação e a internet penetram em todas as casas, quando o próprio Supremo
Tribunal Federal tem entendido, por exemplo, que a presunção de violência para
menores de 14 anos, nos crimes sexuais, já não é absoluta, porque uma pessoa de 13
ou 12 anos já não pode se dizer desconhecedora das coisas de sexo, a população se
indaga: é inexperiente e absolutamente desinformada uma pessoa de 15, 16 ou 17 anos
que trafica, que mata, que rouba, que seqüestra, que estupra? Se for vítima, ela não é
inexperiente ou desinformada, mas é se for autor? [...] (Sentença 1)

O documento apresenta uma sequência de afirmações preconceituosas, crimi-


nalizatórias e contra a garantia dos direitos humanos de crianças e adolescentes.
Reproduz o discurso do senso comum, que, via de regra é utilizado para a defesa
da “redução da maioridade penal”, criminalizando adolescentes e fortalecendo a
ideia errônea de que a maioria dos adolescentes infratores comete ato infracional
grave. Ao final aborda a questão do tráfico de drogas colocando que,

[...] O tráfico de entorpecentes, seja como crime, seja como ato infracional, é condu-
ta gravíssima. O que poderá lhe fazer quem entregou a droga ou quem dele iria rece-
bê‑la? Assim, havendo indícios suficientes da autoria e materialidade, mantém‑se a

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013 563
internação provisória do paciente, uma vez demonstrada a sua necessidade imperio-
sa ante a extrema gravidade do ato infracional (tráfico de entorpecentes) e, ainda,
como garantia da ordem pública (parágrafo único do art. 108 c/c art. 174 do ECA),
no intuito de proteger o adolescente, é necessário que ele fique custodiado, a fim de
que possa ser acompanhado por profissionais que o orientem.
Isto posto, diante do clamor público, que traduz o anseio da sociedade em garantir a
ordem pública e no intuito de proteger o adolescente, visto que não se sabe o que
poderá ocorrer com ele, da parte de quem lhe entregou a droga, caso ele seja libera-
do agora, decreto a custódia provisória de […] na inicial, pelo prazo de 45 dias!
(Sentença 1).

Contrapondo “bem e mal”, o juiz reproduz o discurso da “guerra às drogas”,


colocando que “[…] o tráfico de entorpecentes, seja como crime, seja como ato
infracional, é conduta gravíssima.” Porém, ao final do documento, coloca que irá
manter o adolescente privado de liberdade para protegê‑lo de seus contratantes,
materializando outra vertente do discurso penalizatório que vincula encarceramento
com “proteção”. Como explica Loïc Wacquant (2010), no neoliberalismo as políti-
cas sociais são desmontadas e as políticas penais fortalecidas, submetendo o prole-
tariado a uma dupla regulação que envolve o setor assistencial e penal. Além disso,
enfatiza que a polícia, os tribunais e as prisões (o que chamamos de Sistemas de
Segurança e Justiça) são instituições de controle voltadas principalmente para as
categorias de sujeitos em situação de vulnerabilidade social. Vejamos outro exemplo,

[...] É importante salientar que a adolescência é o período de desenvolvimento do ser


humano, assim, é primordial a imposição de regras de conduta para convivência na
sociedade. É preciso estabelecer limites para a formação da pessoa com princípios e
consciência que os atos praticados de forma errônea acarretarão consequências em
seu desfavor. Ressalta‑se que o objetivo da aplicação de medida socioeducativa é
garantir o caráter pedagógico e ressocializante, haja vista o adolescente ser sujeito de
direitos e pessoa em situação peculiar de desenvolvimento, sendo primordial a impo-
sição de regras de conduta para que o adolescente viva harmoniosamente em socie-
dade, e que tenha referência, apoio e segurança. Isto posto, JULGO PROCEDENTE
a representação em face do representado […] pela prática de ato infracional tipificado
como crime no artigo 33, caput da Lei n. 11.343/06, e aplico ao mesmo a medida
socioeducativa prevista no artigo 112, inciso VI (internação), do ECA, devendo ser
reavaliada no máximo a cada seis meses, conforme artigo 12 §2º., do mesmo diploma
legal. Considerando que o representado foi apreendido em flagrante e foi determinada
a sua internação provisória, bem como se expõe em situações de risco face suas con-

564 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
dutas sem regras e sem limites socialmente aceitos, aliado ao fato de possuir antece-
dentes infracionais, nego‑lhe o direito de apelar em liberdade, motivo pelo qual de-
termino a sua imediata internação [...]. (Sentença 2).

É fácil constatarmos nos trechos acima a dupla regulação, porém, este tipo de
encaminhamento não é exceção, pois a pesquisa mostrou que via de regra os juízes
penalizam os adolescentes trabalhadores do tráfico com medidas socioeducativas
privativas ou restritivas de liberdade, pautando‑se no ECA — Estatuto da Criança
e do Adolescente, afirmando que irão “protegê‑los”, punindo‑os, o que chamamos
na tese de “contra‑proteção”.
Vejamos agora um terceiro exemplo, que é a manifestação do Ministério
Público em situação de adolescente do sexo feminino de 16 anos, moradora de
região próxima da capital paulista, apreendida com um adulto em uma viagem de
automóvel da região da fronteira para o estado de São Paulo, onde transportavam
trinta e quatro quilos de maconha,
De acordo com os elementos carreados no caderno investigatório, no dia […],
a adolescente foi flagrada, quando, na companhia de maior imputável, transportava
larga quantidade de “maconha” para o Estado de São Paulo.
Na delegacia de polícia manteve‑se calada […] No Ministério Público, relatou
que mantinha relacionamento extraconjugal com o coautor, o qual havia feito con-
vite, que ela acreditava tratar‑se de viagem de cunho romântico para Foz do Iguaçu.
Ao retornar, usaram veículo, que ele disse ter sido arrematada em Leilão da Receita,
no qual, sem ela saber, a droga era transportada. [O homem] buscou o carro no
­Paraguai e não deixou a representada acompanhá‑lo e, no caminho, depois de ligar
o ar, ela sentiu o cheiro característico da maconha, mas optou pelo silêncio, assen-
tindo com a conduta. Há depoimento dos policiais militares que surpreenderam a
representada e o maior e, diante do nervosismo, resolveu vasculhar o veículo, encon-
trando a droga. […] A materialidade deflui do auto de prisão em flagrante delito e
apreensão por ato infracional de […], em especial do auto de constatação provisória
de substâncias entorpecentes […] e os indícios de autoria residem no flagrante ocor-
rido e nos depoimentos colhidos nos autos, como já analisado, justificando, assim, o
recebimento da representação. […] (Manifestação do Ministério Público 1)
A situação acima difere‑se da relatada anteriormente, pois a quantidade de
maconha é considerada razoável. Todavia, o documento demonstra a ausência de
preocupação com a adolescente, pois o promotor apenas a culpabiliza colocando‑a
no mesmo patamar do adulto, não considerando a hipótese da mesma ter sido

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013 565
realmente enganada e coagida. Além disso, reforça o discurso proibicionista, jus-
tificando a denúncia e sugerindo medida de internação,

[...] Outrossim, é de se alarmar que pessoa tão jovem como a representada esteja tão
profundamente envolvida com a mercancia ilegal, sendo imperativa a intervenção
repressiva do Estado, por meio de internação. Ademais, o reclamo da ordem pública,
em situações como a presente, justifica a tomada desta medida, agindo de forma a
coibir a repudiosa prática de traficância. Por derradeiro, ela já é mãe, vivia em união
estável e não hesitou em deixar os filhos e empreender viagem com pessoa que mal
conhecia, para cidade fronteiriça. (Manifestação do Ministéiro Público 1).

Vemos que a situação da adolescente é de alto risco, pois aparentemente foi


usada pelo adulto como álibi para viagem. Estava a mil quilômetros de sua residên-
cia, já é mãe, dentre outras questões, mas a preocupação foi somente com relação
à “repudiosa prática de traficância”. Que repúdio é este? De onde vem este repúdio
à traficância? Será que essa repugnância sempre existiu? O uso de todas as drogas/
substâncias psicoativas é repudioso? Ou somente o uso de substâncias que são
normativamente proibidas?
É a partir da expressão “repúdio” que continuaremos o debate proposto, pois
pretendemos mostrar o quanto os valores e ideologias que constroem o pensamen-
to proibicionista levam à criminalização e ao controle de pessoas, em especial jovens
pobres. Para isso é essencial que mostremos pelo menos uma definição do que é
droga. Optamos, portanto, pela explicação de Escohotado (2004, p. 9): “uma subs-
tância que, em vez de ‘ser vencida’ pelo corpo (e assimilada como simples nutrien-
te), é capaz de ‘vencê‑lo’, provocando — em doses insignificantemente pequenas
quando comparadas com as de outros alimentos — grandes alterações orgânicas,
anímicas ou de ambos os tipos”. Enfatiza que:

A particular história das drogas ilumina a história geral da humanidade com uma luz
própria, como quando abrimos a janela até então fechada pelo horizonte, e aparecem
as mesmas coisas sob uma perspectiva nova. (Escohotado, 2004, p. 7)

Sabemos, portanto, que historicamente as substâncias psicoativas satisfazem


necessidades que podem ser físicas, culturais, religiosas, ritualísticas etc. ou seja,
essas substâncias acompanham a história do homem. Neste contexto, o autor Hen-
rique Carneiro (2002, p. 116‑117) enfatiza que

566 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
A primeira questão a se definir é a de que as drogas são necessidades humanas. Seu
uso milenar em quase todas as culturas humanas corresponde a necessidades médicas,
religiosas e gregárias. Não apenas o álcool, mas quase todas as drogas são parte in-
dispensável dos ritos de sociabilidade, cura, devoção, consolo e prazer. Por isso, as
drogas foram divinizadas em inúmeras sociedades.

A droga como produto desenvolve um papel social e cultural na história da


humanidade, extrapolando épocas e tempos. Entretanto, historicamente, a droga,
que poderia ser reconhecida apenas como um produto advindo de métodos naturais
e/ou artesanais, com valor de uso particularizado, ganha novas significações na
sociedade burguesa, transformando‑se em droga‑mercadoria, passando a ter, por-
tanto, valor de troca. Koutouzis (1997) coordenou a construção do Atlas Mondial
des Drogues, desenvolvido pelo Observatoire Géopolitique des Drogues, e logo na
introdução aponta que a partir do século XIX o uso e a produção de drogas sofreram
grandes transformações, que fazem parte do processo da Revolução Industrial,
sendo transformadas quimicamente para consumo indistinto e maciço em formas
quase idênticas (pó, líquido, comprimidos). Além disso, às vezes têm sido substi-
tuídas por drogas sintéticas.
Nesse contexto, as drogas (proibidas ou não) são mercantilizadas, produzidas
e distribuídas a partir das relações estabelecidas no modo de produção capitalista.
A produção em larga escala, modificada técnica e cientificamente, explora mais‑va-
lia do trabalho humano2, tornando‑se um lucrativo negócio. Estabelece‑se, dessa
maneira, uma forma particular de trabalho, o qual se materializa na produção,
distribuição e venda da droga‑mercadoria. Ressaltamos, portanto, que há uma
imensa diferença no entendimento histórico da droga‑produto, que possuía apenas
valor de uso, em relação a droga‑mercadoria, que possui, antes de tudo, valor de
troca. É essencial considerarmos que a droga‑mercadoria só ganha status de mer-
cadoria na sociabilidade burguesa por ser um objeto suscetível à mercantilização,
que de uma maneira ou outra satisfaz necessidades de alguns sujeitos, ou seja,
aqueles capazes de pagar um preço por ela.
Entender as drogas como mercadorias é entender que são produzidas justa-
mente para a satisfação de necessidades de necessidades humanas, pois, como nos
explica Marx (1988, p. 42),

2. Refletiremos sobre o significado do trabalho nas relações de produção, circulação e venda de substâncias
psicoativas proibidas na segunda seção deste capítulo.

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A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas pro-
priedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas,
provenham do estômago ou da fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz
a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência, objeto de consumo,
ou indiretamente, como meio de produção.

Destaquemos a afirmação de Marx: “satisfaz necessidades humanas, seja qual


for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia”, pois nes-
te caso, o padrão moral ou de legalidade não é determinante. E se a necessidade do
uso de drogas não pode ser satisfeita por meios legais, os homens buscarão novas
maneiras de satisfazê‑la. Portanto, todo o discurso ideologizado que demoniza as
drogas, bem como os fundamentos religiosos e as ações proibicionistas não fazem
com que as substâncias psicoativas deixem de existir. Por isso a proibição de algu-
mas drogas não garante diminuição ou fim do uso; ao contrário, a proibição torna
o negócio mais lucrativo, como aponta Thiago Rodrigues (2003, p. 12),

[…] os produtos comercializados [...] são substâncias amplamente desejadas e que


são hoje ilegais. Tal ilegalidade significa que o circuito de produção e venda de inú-
meros compostos químicos é proibido de existir segundo leis específicas […] essas
leis, no entanto, não bastam para erradicar a procura por tais substâncias, fato que
impulsiona um rentável negócio clandestino que se dedica a fazer chegar ao consu-
midor sua droga preferida.

Enfim, a qualificação das drogas que podem ou não ser usadas e a construção
de políticas repressivas geram efeitos contrários aos que o discurso proibicionista
defende, e por mais que se proíba, o uso não cessa. Fernandez (1997, p. 120) apon-
ta que o proibicionismo cria novas questões associadas ao uso de substâncias psi-
coativas e, especialmente, agrega valor à mercadoria. Segundo ele, “as drogas são
mercadorias, cuja proibição vem possibilitando lucros extraordinários e consoli-
dando uma poderosa economia ilegal […]. O proibicionismo e a política de guerra
se mostraram um fracasso como política de controle de drogas”. Já Carneiro (2002,
p. 127) ao tratar a questão do lucro, traz o debate para a questão do “controle esta-
tal” pois, segundo ele,

A noção de um Estado investido do poder de polícia mental e comportamental, que


legisla sobre os meios botânicos e químicos de que os cidadãos se utilizam para in-
terferir em seus estados de humor e de consciência e que pune os que desobedecem é

568 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
um pressuposto necessário para a hipertrofia do lucro obtido no tráfico. Em outras
palavras, a proibição gera o superlucro. Por essas razões, a reivindicação da descri-
minação das drogas choca‑se tanto com os interesses dos grandes traficantes assim
como com os do Estado policial.

São muitos os autores que compartilham da tese de Carneiro (2002), haja


vista que a manutenção da proibição sofre múltiplas determinações. A questão da
ilegalidade do uso de algumas substâncias psicoativas decorre de normativas de-
terminadas por diversos elementos, os quais, dependendo da conjuntura econômi-
ca, social e histórica, pendem para o “lado” da proibição ou da permissão. Como
destaca Passetti (1991, p. 37), “a legalidade/ilegalidade das drogas é uma resultan-
te histórica do Estado moderno: conjunto de verdades sustentando o poder calcado
em relações econômicas e políticas”. Em síntese, podemos refletir que a determi-
nação do que pode ser “livre” ou não é conjuntural e sofre múltiplas determinações.
Segundo Rodrigues (2003, p. 25), muitos se surpreendem ao saber que no
século passado era possível a compra de cocaína e seus derivados em farmácias,
até mesmo nos Estados Unidos, país que no século XX assumiu a vanguarda da
cruzada antidrogas. Explica que depois da Guerra Civil norte‑americana (1861‑65),
alguns grupos, envolvidos com igrejas e instituições protestantes, passaram a exigir
ações severas do governo para conter a produção, venda e consumo de substâncias
psicoativas. Nesse contexto, constroem‑se movimentos proibicionistas, pautados
na tradição puritana do protestantismo calvinista, os quais conquistaram espaços e
garantiram legislações naquele país e, paulatinamente, foram impondo o proibicio-
nismo para o restante do mundo. De acordo com Delmanto (2010, p. 35), o grande
foco do combate foi o álcool e as substâncias consumidas por diversos setores da
população dos EUA, eram associados de maneira criminalizatória contra as

minorias e grupos imigrantes: o ópio aos chineses, a maconha aos mexicanos e a


cocaína aos negros. Desde seu princípio, a estratégia de modelo penal no trato de
substâncias psicoativas teve como alvo setores da população que o Estado desejava
controlar. (Delmanto, 2010, p. 35)

Vemos o quanto a “guerra às drogas” é utilizada como instrumento legitima-


dor para a perseguição aos pobres. É uma guerra contra as pessoas, exacerbando a
violência do poder punitivo. Como explica Karam (2012), o paradigma da “guerra”
é utilizado para construir o “inimigo” que deve ser eliminado:

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013 569
A “guerra às drogas”, como quaisquer outras guerras, é nociva, insana e sanguinária.
A “guerra às drogas” não se dirige propriamente contra as drogas. Dirige‑se, sim, como
quaisquer outras guerras, contra pessoas — os produtores, comerciantes e consumi-
dores das substâncias proibidas, especialmente os mais vulneráveis dentre eles, os
mais pobres, marginalizados, desprovidos de poder, que são as maiores vítimas da
violência causada pela irracional insistência na proibição das selecionadas substâncias
psicoativas tornadas ilícitas.

Neste sentido, é essencial observarmos o quanto a ideologia proibicionista


influencia a consciência que se tem a respeito das “drogas ilícitas” e da política de
combate, fazendo com que coloquemos a questão das “drogas” no âmbito da Se-
gurança Pública, não permitindo que pensemos a questão a partir do âmbito da li-
berdade, nos afastando da percepção de que o controle social está por trás disso,
pois na maioria das vezes, quando se trata de ações voltadas a jovens e adolescen-
tes envolvidos direta ou indiretamente com drogas, aos jovens pobres é atribuído
o status de traficantes perigosos, que devem ser detidos e aos de classe média e alta,
o status de usuários que devem ser protegidos.3

2. “Lei Antidrogas” brasileira (SISNAD) utilizada como instrumento para


penalização de adolescentes pobres
A regulamentação e a proibição do uso de algumas substâncias psicoativas no
Brasil é bem recente, ganhando força no século XX, a partir da influência de polí-
ticas proibicionistas dos EUA, as quais foram impostas como modelos a serem
seguidos por todo o mundo. Rita de Cássia Lima (2009), explica que na década de
1910 a imprensa brasileira passa a difundir medidas repressivas ao “risco” do uso
lúdico e descontrolado das drogas. Segundo ela, as áreas da medicina (psiquiatria)
e do direito penal, a partir de vertentes criminalizadoras às drogas, tornam‑se os
principais agentes para construção de legislações e políticas públicas proibicionis-
tas. Até então, segundo Tiago Rodrigues (2003), as drogas eram utilizadas apenas
pelas elites brasileiras, porém,

3. E quando os usuários são pobres, devem ser retirados de circulação à força, como temos visto nas
políticas construídas para o “combate ao crack”.

570 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
[...] a perseguição aos venenos chics cresce quando essas drogas deixaram de ser tão
exclusivas. O pequeno aumento do uso de cocaína e heroína registrado entre prosti-
tutas, cafetões e pequenos marginais, acrescido do preconceito há muito consolidado
contra o uso de maconha (vista como droga de negros), auxiliou na produção de um
ambiente favorável ao controle desses psicoativos. [...]. (Rodrigues, 2003, p. 77)

A primeira lei antidrogas do país promulgada em 1921 criminaliza o vendedor


ilegal e vitimiza o usuário, materializando no Brasil os princípios da Lei Harrisson
Narcotic Act, de 1914 dos EUA.4 Nessa perspectiva, o usuário é considerado
doente, necessitando de reabilitação para a vida social. Por outro lado há o agrava-
mento da criminalização dos vendedores ilegais, os quais são considerados,

em sua maioria, a “ralé” social e moral de então: cafetões, prostitutas, cafetinas, es-
trangeiros e profissionais da saúde “corrompidos pela cobiça”. Em uma palavra, estão
isolados numa categoria controlável e identificável — segmentos cuja atividade lu-
crativa e influente era subversiva à ordem social vigente. Provindos de classes baixas
e praticando atividades consideradas imorais por tal ordem, estes estratos são, pela lei
de 1921, enquadrados num campo de ilegalidade que os vulnerabiliza ante um Estado
que agora está dotado de recursos legais para reprimir não só o tráfico de drogas como
também essas outras “ocupações degeneradas” a ele estritamente vinculadas. (Rodri-
gues, 2003, p. 136)

O pesquisador aponta que o decreto‑lei de 1921 reproduz juízos morais e


sociais contra as drogas, os quais se deslocaram do nível religioso para o técni-
co‑ético, sanitário e de segurança pública estatais. Vemos, portanto, que historica-
mente sempre houve a distinção entre usuário e traficante, materializando, desta
forma, distinção de classe social, pois, via de regra, atribui‑se aos jovens perten-
centes às classes socioeconômicas mais favorecidas o status de usuário e aos jovens
de classes socioeconômicas vulneráveis, o status de traficantes.
Com o passar do tempo, as legislações de controle do uso de drogas no país
sofreram algumas modificações, porém a essência do princípio vitimização do
usuário X criminalização do traficante continuou presente em todas elas. Em 2002

4. Tiago Rodrigues (2003, p. 30) explica que “o texto citava as figuras do traficante e do viciado,
respectivamente aquele que produz e comercializa drogas psicoativas irregularmente e aquele que consome
sem permissão médica. O traficante deveria ser perseguido e encarcerado; o usuário, considerado doente,
deveria ser tratado (mesmo que compulsoriamente)”.

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há a promulgação da Lei n. 10.409 (Brasil, 2002) que, segundo Rodrigues (2003,
p. 78) “institui definitivamente as figuras do traficante, criminoso que deve ser
punido com rigidez e do usuário, indivíduo incapaz que deve ser encaminhado para
tratamento”. Vera Malaguti Batista (2003) já estava problematizando a questão da
lei de 2002, apontando que a questão de descriminalizar o usuário e aumentar a
criminalização do traficante é perversa, pois a “descriminalização” é voltada para
o usuário da classe média, que já é “descriminalizado”. Nas palavras dela:
Por onde a questão das drogas sangra literalmente é no tráfico. Então, você
tem isso de descriminalizar o usuário mas manter a criminalização do traficante.
Que virou uma categoria fantasmática, o traficante é o demônio, ele não tem casa,
não tem mãe; [...]. A descriminalização do usuário poderia ser o começo de uma
legislação geral, mas como eles estão legislando para o Posto Nove,5 fica uma
coisa perversa, porque quem já está descriminalizado será descriminalizado e onde
está sangrando, que é na periferia, aumenta‑se a hemorragia. (Batista, 2003, p. 30)
A síntese da socióloga levanta inúmeras questões a respeito da lei de 2002 e
dos problemas que viriam a seguir e persistem até hoje, pois em 23 de agosto de
2006 foi revogada a Lei n. 10.409, de 11/1/2002, e foi instituída a Lei n. 11.343,
que constitui o Sisnad — Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas
(Brasil, 2006) que “prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e
reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelece normas para re-
pressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas; define crimes e dá
outras providências”, conhecida como a “nova lei antidrogas”. Esta lei tem grande
repercussão, pois abranda as sanções para os usuários de drogas (tratamento, pres-
tação de serviço comunitário) e torna mais rígidas as penas direcionadas aos trafi-
cantes (reclusão de cinco a quinze anos), mantendo, portanto, a lógica das legisla-
ções anteriores. Entretanto, a lei deixa para os juízes identificarem, com base na
denúncia e nas provas contidas nos processos se a quantidade apreendida pode ser
considerada para o consumo ou tráfico. Vejamos:

Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo,
para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação
legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I — advertência sobre os efeitos das drogas;

5. Posto na praia de Ipanema, onde se concentram os usuários de drogas proibidas, pertencentes à


classe média e alta.

572 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
II — prestação de serviços à comunidade;
III — medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
§ 1º Às mesmas medidas submete‑se quem, para seu consumo pessoal, semeia, culti-
va ou colhe plantas destinadas à preparação de pequena quantidade de substância ou
produto capaz de causar dependência física ou psíquica.
§ 2º Para determinar se a droga destinava‑se a consumo pessoal, o juiz atenderá à
natureza e à quantidade da substância apreendida, ao local e às condições em que se
desenvolveu a ação, às circunstâncias sociais e pessoais, bem como à conduta e aos
antecedentes do agente.
§ 3º As penas previstas nos incisos II e III do caput deste artigo serão aplicadas pelo
prazo máximo de 5 (cinco) meses.

O artigo acima é eminentemente destinado aos usuários de substâncias psico-


ativas. Não há a determinação de uma quantidade de drogas, havendo inclusive a
menção de que o juiz considerará a natureza e a quantidade a partir do “local e às
condições em que se desenvolveu a ação, as circunstâncias sociais e pessoais”.
Desta forma, podemos constatar a subjetividade em que a materialidade do “crime”
é determinada. Agora vejamos outro artigo da mesma lei:

Art. 33. Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender,
expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescre-
ver, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem
autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar:
Pena — reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a
1.500 (mil e quinhentos) dias‑multa.
§ 1º Nas mesmas penas incorre quem:
I — importa, exporta, remete, produz, fabrica, adquire, vende, expõe à venda, oferece,
fornece, tem em depósito, transporta, traz consigo ou guarda, ainda que gratuitamen-
te, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar, maté-
ria‑prima, insumo ou produto químico destinado à preparação de drogas;
II — semeia, cultiva ou faz a colheita, sem autorização ou em desacordo com deter-
minação legal ou regulamentar, de plantas que se constituam em matéria‑prima para
a preparação de drogas;
III — utiliza local ou bem de qualquer natureza de que tem a propriedade, posse,
administração, guarda ou vigilância, ou consente que outrem dele se utilize, ainda que
gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regula-
mentar, para o tráfico ilícito de drogas.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013 573
Já esse artigo é destinado aos “traficantes”, pois se inclui na descrição do
crime os verbos, “fabricar”, “vender”, “oferecer”, “transportar”, os quais traduzem
ações “dignas” de punição mais severa. Todavia, ao refletirmos sobre os dois artigos,
não vemos uma diferença que perpassa a questão que temos discutido até então
neste texto: a demonização do traficante e a vulnerabilização do usuário. Pois se a
quantidade não é a única prova que determina a materialidade do crime de tráfico
de drogas, supomos que o fator determinante da materialidade é a condição subje-
tiva da apreensão. Ou seja, a determinação fica a cargo da leitura dos primeiros que
se deparam com a situação, que são, via de regra, policiais e delegados, os quais
irão descrever o boletim de ocorrência conduzindo para um lado ou outro.
Será que quando ocorre uma apreensão de substância psicoativa ilegal em um
barraco de periferia considera‑se a hipótese de que aquela pessoa é usuária? Será
que em uma apreensão ocorrida em uma casa de classe média/alta a pessoa poderá
ser considerada traficante? Claro que de acordo com o compromisso ético dos
componentes do Sistema de Segurança e Justiça, os elementos estereotipados não
podem ser determinantes, mas infelizmente a Lei Antidrogas conta prioritariamen-
te com o “olhar” dos agentes de segurança e com o “bom‑senso” do juiz, e isso é
demasiadamente subjetivo. Neste contexto, Maronna (2006) reflete que “a nova lei
de drogas representa mais do mesmo: a opção pelo modelo proibicionista e sua
política criminal bélica, com derramamento de sangue”, alertando que “o alardea-
do abrandamento do tratamento dado ao porte para consumo pessoal é, na verdade,
uma cortina de fumaça com o objetivo de contrabalançar o agravamento da punição
ao tráfico” (Maronna, 2006, p. 2).
Quem são usuários? Quem são traficantes? É neste ponto que justificamos o
porquê de todo este debate, pois a diferença no tratamento entre traficante e usuário
abre brechas para a criminalização dos jovens pobres. Como temos discutido desde
o início deste artigo, a “guerra às drogas” é um instrumento para o controle social,
pois, como enfatiza Labrousse (2010, p. 13):

A guerra às drogas envolve Estados e grupos não estatais que circulam pelo plane-
ta, mas que também se fixam em favelas, becos, morros, selvas. Nessa guerra, há
soldados de colarinho‑branco e computadores e, também, soldados de chinelos e
metralhadoras.

É uma guerra difusa, desleal e desigual. De um lado, controle de opções in-


dividuais, pois as pessoas deveriam ter a liberdade de se entorpecer; do outro lado,

574 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
o controle das classes chamadas “perigosas”. Certamente, os fundamentos ideoló-
gicos que se constroem acerca do tráfico de drogas criminalizam a pobreza. As
chamadas políticas de combate ao tráfico de drogas desenvolvem‑se a partir da
prisão de pessoas que estão, via de regra, vivendo em morros e bairros periféricos
dos centros urbanos e deixando sem penalização pessoas e grupos que estão na
ponta das redes e/ou realizam crimes e ações ilegais de outras espécies. De forma
bem interessante, o autor D’Elia Filho (2008, p. 115), mostra que

No Brasil, a “guerra contra as drogas” é o carro‑chefe da criminalização da pobreza,


através dos discursos de lei e ordem disseminados pelo pânico. Bala perdida, roubo
de veículos, queima de ônibus e até o comércio de produtos por camelôs são diferen-
tes prática ilícitas imputadas aos “traficantes”.

Essa realidade também se materializa na questão dos adolescentes trabalha-


dores do tráfico de drogas, tendo em vista que estes são tratados como traficantes,
não havendo a consideração de que na maioria das vezes são usuários de substâncias
psicoativas, estão em risco e têm sua força de trabalho explorada. Finalizaremos o
artigo com mais um exemplo de criminalização de jovem pobre por tráfico. A si-
tuação foi vivenciada por um adolescente que se descolou de sua cidade e foi até a
região da fronteira com o Paraguai buscar maconha, tendo sido apreendido em uma
rodoviária da região com 826 g de Cannabis sativa. Antecipamos que a sentença
em questão apresenta um conjunto de elementos que comprovam o quanto o ado-
lescente é culpabilizado por uma série de questões que independem dele e, em
consequência disso, perde o direito à liberdade. Observemos,

[…] Insta salientar que o representado afirmou que não trabalha e não quis informar
de que forma adquire dinheiro para manter‑se e ainda afirmou que a droga apreendida
seria para consumo próprio, no prazo de cinco meses, a qual lhe custou a quantia de
R$ 80,00. Imperioso salientar que, em que pese o representado ter alegado que a
droga apreendida era para uso próprio, o mesmo tentou se eximir das consequências
de seus atos, haja vista que um cigarro de maconha pesa em média de 0,5 g a 1,0 g da
planta. Assim, considerando que o tablete, da substância Cannabis sativa, vulgarmen-
te conhecida por maconha, que contém tetraidrocanabinol, apreendido em poder do
adolescente pesava aproximadamente 0,826 (oitocentos e vinte e seis gramas), po-
der‑se‑ia fazer 826 a 1.652 cigarros, sendo esta tese incapaz de afastar sua culpabili-
dade, revelando desta forma que o representado está envolvido com o mundo ilícito,
motivo pelo qual necessita de intervenção imediata. Assim sendo, [...] é de se julgar

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013 575
procedente a representação com aplicação de medida socioeducativa, posto que o
representado agiu com dolo, isto é, com livre vontade e consciência de praticar ato
infracional tipificado no artigo 33, caput, da Lei n. 11.343/2006, trazendo consigo,
dolosamente, substância entorpecente capaz de causar dependência física e psíquica,
para comercialização a terceiros, sem autorização ou em desacordo com determinação
legal ou regulamentar. [...] (Sentença 2).

O primeiro ponto a ser destacado se refere a quantidade de maconha transpor-


tada, ou seja, 0,820 gramas, quantidade que o adolescente alegou ser para uso
próprio. Todavia, o Poder Judiciário não entendeu desta maneira, fazendo inclusive
cálculos de quantos cigarros de maconha poderiam ser feitos com aquela quantida-
de, enquadrando‑o no artigo 33. do SISNAD, afirmando que a compra da droga
seria para a comercialização a terceiros. Neste contexto o representante do Minis-
tério Público sugere medida de internação, porém, a defensora sugeriu medida
socioeducativa de Liberdade Assistida e outras medidas protetivas, especialmente
“inclusão de programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao
adolescente e inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação
e tratamento a alcoólatras e toxicômanos” (Sentença 2), o que foi desconsiderado
pelo Juiz.
Ao mencionar o “Relatório Informativo”, o magistrado destaca que,

[…] demonstra que o representado faz uso abusivo de maconha e não está interessado
em fazer tratamento contra drogadição; não está matriculado em rede de ensino; não
está inserido em programas sociais, tampouco profissionalizante. Consta ainda que,
quando o adolescente tinha três anos de idade, sua genitora abandonou o lar, ficando
a educação daquele a cargo do genitor. Durante o período em que permanece no Cen-
se, o adolescente mantém comportamento estável, não sendo necessária a aplicação
de medida disciplinar. Por fim, a equipe técnica não se manifestou acerca da aplicação
de medida socioeducativa [...] (Sentença 2).

Não foi levado em conta o fato de a equipe técnica (aqui se inclui um pro-
fissional de Serviço Social) do Centro de Socioeducação ter mencionado no re-
latório que o adolescente “faz uso abusivo de maconha”. O relatório produzido
pela equipe técnica também informou que o adolescente teve os direitos funda-
mentais negados, mas esta negação depõe contra ele. Além disso, há o relato de
que ele foi abandonado pela mãe quando tinha três anos de idade e estava sob os
cuidados do pai e o entendimento do juiz foi de que a família é “desestruturada”,

576 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
usando, mais uma vez, a realidade do adolescente contra ele. Ressaltamos ainda
que o Juiz apontou que a equipe técnica não sugeriu medida, portanto, se omitiu
quando poderia problematizar todas as contradições vivenciadas pelo jovem e,
mais que isso, sugerir intervenções diferentes da privação de liberdade. Este
ponto é também crucial para refletir sobre questão do adolescente autor de ato
infracional.
Ao final, o magistrado utiliza como argumento os antecedentes infracionais
ocorridos em outra Comarca para justificar a aplicação de medida socioeducativa
em meio fechado, reforçando a questão do envolvimento com o tráfico de drogas
e o comprometimento com o “mundo ilícito”, vejamos,

[...] Com efeito, verifica‑se que o representado está comprometido com o mundo
ilícito, eis que transportava, dolosamente, substância entorpecente capaz de causar
dependência física e psíquica, para comercialização a terceiros, sem autorização ou
em desacordo com determinação legal ou regulamentar, constatando‑se desta forma
que está efetivamente envolvido com o mundo ilícito, bem como não possui inter-
nalizadas as normas socialmente aceitas, demonstrando seu descaso com a justiça.
Portanto, constata‑se a necessidade da aplicação da medida socioeducativa em meio
fechado, eis que estão presentes os requisitos previstos no artigo 122, inciso I, do
ECA, para aplicação da medida socioeducativa prevista no artigo 112, inciso VI
(internação), do mesmo diploma legal, corroborado pelo princípio da proteção inte-
gral, que objetiva a intervenção psicopedagógica, a orientação ao convívio social, a
internalização de valores e conceitos de respeito as leis, à vida, ao patrimônio e à
sociedade. […] (Sentença 2)

Vemos enfim que a sentença acima sintetiza diversos aspectos que tratamos
no artigo, pois com base no discurso proibicionista priva um adolescente pobre
de sua liberdade. Será que o transporte de 0,820 gramas de maconha poderia ser
considerado como elemento que justifica a privação de liberdade de um ado­
lescente? Vemos, portanto, que para este adolescente a “Lei Anti‑Drogas” (Lei
n. 11.343/2006) foi instrumento utilizado para justificar a sua apreensão, mate-
rializando a dicotomia usuário X traficante. É visível que o adolescente em ques-
tão faz parte de grupos vulneráveis socialmente, portanto, podemos verificar que
a motivação ao encarceramento também se traduz na questão de classe. Argu-
mentos semelhantes se repetem em várias sentenças que analisamos comprovan-
do a tese de Löic Wacquant e outros autores que problematizam a questão da
criminalização da pobreza a partir da negação de direitos e, pior que isso, são

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013 577
argumentos que comprovam o quanto a “guerra as drogas” é uma guerra que
penaliza e encarcera a juventude pobre.

3. Alguns elementos para continuidade da reflexão


Crianças vitimadas por ausências de direitos, logo, adolescentes vitimados
pelas mesmas ausências, como nos confirmam as sentenças anteriores e outras com
as quais nos deparamos no desenvolvimento da pesquisa. Esta situação se repete
incansavelmente, mostrando que alguns adolescentes que antes foram crianças em
situação de vulnerabilidade social, agora ganham visibilidade, pois, de uma forma
ou outra, são considerados, pelos discursos ideologizados, como mais algozes que
vítimas. Lembremos que essa forma de olhar mostra‑se a partir de fragmentações
maniqueístas que distinguem, sem mediação, bem e mal, algoz e vítima.
A situação se agrava ainda mais quando se trata do narcotráfico e da constru-
ção ideológica do traficante como inimigo social. É evidente que há uma distinção
de classe na atribuição do status de traficante perigoso para adolescentes em situa-
ção de vulnerabilidade social, sem a consideração de que estes são trabalhadores
de um dos negócios mais lucrativos mundialmente. Um negócio que se sustenta na
proibição, fazendo com que as mercadorias comercializadas tenham valor agrega-
do. A reflexão acerca das drogas e do narcotráfico deve sair do âmbito da Seguran-
ça Pública e adentrar outros universos, pois, como mostramos no debate citado
anteriormente, a “guerra às drogas” só tem razão de existir para o controle político
e social de grupos socialmente “marginalizados”.
Este debate se faz essencial para que profissionais do Serviço Social estejam
(re)construindo olhares e estratégias de intervenção, garantindo desta forma a efe-
tivação dos princípios éticos da profissão. A atuação nas diferentes áreas, princi-
palmente, no campo sociojurídico, exige que o profissional tenha um olhar crítico
a respeito da realidade dos adolescentes envolvidos com a criminalidade, especial-
mente, daqueles que têm sua força de trabalho explorada pelo narcotráfico. É es-
sencial que as equipes técnicas, que via de regra envolvem Assistentes Sociais e
Psicólogos, estejam atentas para o significado da privação de liberdade e tenham
consciência do papel que os “Relatórios” e “Pareceres” desempenham em toda essa
lógica penalizadora. E, principalmente, considerem que os meninos e meninas
trabalhadores do tráfico de drogas estão inseridos em processos imensamente con-

578 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
traditórios, pois por um lado são vitimados pelas demandas da questão social e,
certamente, sofrem cotidianamente a pressão do envolvimento em atividades ilegais,
sendo ameaçados, explorados e violentados, por outro, esses jovens recebem o
status de traficantes e são demonizados por discursos moralistas. Enfim, os adoles-
centes trabalhadores do tráfico de drogas proibidas são apenas a ponta do iceberg
e precisam de proteção, não de prisão.

Recebido em 3/6/2013  ■  Aprovado em 12/6/2013

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580 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 561-580, jul./set. 2013
RELATO DE
EXPERIÊNCIA

Serviço Social e Abstract: The statutory maternity pay and


leave are benefits provided by the social security,

viabilização de direitos:
and they are part of the public policy for social
security. They apply to pregnant women and
working mothers because of motherhood, regard­
a licença/salário‑maternidade less the fact that the motherhood is biological or
adoptive. It so happens that the 120‑day‑period
nos casos de adoção of maternity leave, without any loss to the job or
wage, has been granted only in cases of biological
parentage, and it has been granted split into parts
Social Work and the viability of rights: the to adoptive mothers according to the child’s age.
statutory maternity pay and leave in This article reports this evident inequality, and it
is an important record of the performance and
cases of adoption contribution of Social Work (specifically in its
socio‑legal practice) to the protection and viabi-
lity of two important social rights that are insepa-
Andreia Segalin* rable: the right to statutory maternity pay and
leave for adoptive mothers (maternity protection)
and the right to family and community life for
Resumo: A licença e o salário‑maternidade children and adolescents (childhood protection).
são benefícios previstos no âmbito da seguridade
Keywords: Maternity leave. Adoption. Social
social, integrantes da política pública de Previ-
Work.
dência Social que se aplicam às gestantes e às
mães trabalhadoras em razão da maternidade,
independente da filiação biológica ou adotiva.
Ocorre que o período de licença‑maternidade
estabelecido em 120 dias, sem prejuízo do em-
prego e do salário, tem sido concedido apenas nos
Contextualizando a adoção para
casos de filiação biológica, sendo fracionado a compreender a importância da
sua concessão em relação às mães adotivas con-
forme a idade da criança adotada. Diante dessa
licença‑maternidade
evidente desigualdade, constitui o presente relato
um importante registro acerca da atuação e con- A adoção é filiação que se dá por laços
tribuição do Serviço Social, especificamente em
afetivos, socioculturais e jurídicos quando
sua prática sociojurídica, com a defesa e viabili-
zação de dois importantes direitos sociais indis- esgotadas as possibilidades de convivência
sociáveis: o direito à licença/salário‑maternidade de uma criança ou adolescente no seio de
das mães adotivas (proteção à maternidade) e o sua família de origem, por motivos que
direito à convivência familiar e comunitária das
ensejaram a perda do poder familiar1 dos
crianças e adolescentes (proteção à infância).
Palavras‑chave: Licença‑maternidade. Adoção.
Serviço Social. 1. Conforme estabelece a Lei n. 10.406, de 10 de
janeiro de 2002, art. 1.638: “Perderá por ato judicial o
poder familiar o pai ou a mãe que: I — castigar imo-
* Assistente Social do Poder Judiciário de Santa deradamente o filho; II — deixar o filho em abandono;
Catarina lotada na Comarca de Maravilha, mestre em III — praticar atos contrários à moral e aos bons cos-
Serviço Social pela Universidade Federal de Santa Ca- tumes; IV — incidir, reiteradamente, nas faltas previs-
tarina/SC, Brasil. E‑mail: andreiasin@yahoo.com.br. tas no artigo antecedente”.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 581-594, jul./set. 2013 581
pais biológicos. Desta forma, inexistindo a parentais, novos arranjos na rotina, adap-
consanguinidade, o vínculo parental se es- tações do espaço físico, do orçamento,
tabelece pelo afeto entre os protagonistas entre outros.
da relação familiar, estes que se reconhe- Nesse sentido, o elemento TEMPO
cem como pais e filhos respectivamente. torna‑se fundamental aos pais, para que
Diferente da filiação biológica, que todas essas mudanças sejam processadas
vem precedida de uma gestação com e, na adoção, para que a criança ou ado-
período predeterminado, a filiação adotiva lescente inserido como filho possa ser
acontece repentinamente, precedida de um devidamente acompanhado em sua fase
desejo e uma decisão de pessoas adultas de adaptação e vinculação à nova família.
em serem pais por adoção. Esses preten- Ressalta‑se que a cultura hodierna
dentes, uma vez habilitados, vivenciam
conserva padrões familiares que ainda
um tempo de espera não determinado;
atribuem à figura feminina identificada
tornam‑se contingentes que poderão ser
no papel de mãe o predomínio do cuidado
acionados pelo Estado para acolher em
e educação dos filhos, em detrimento do
adoção uma criança ou adolescente como
papel exercido pela figura masculina do
filho, quando esse foi impossibilitado de
pai, prioritariamente identificado como
continuar a viver no âmbito de sua família
provedor principal da família.
biológica.
É importante perceber que o objetivo Entretanto, a mulher trabalhadora
da adoção é encontrar uma família para torna‑se sobrecarregada ao conciliar a vida
uma criança em detrimento dos adultos doméstica dos afazeres da casa e cuidado
que se inscrevem como postulantes à dos filhos com o trabalho profissional
adoção com o desejo de que seja para eles externo ao lar. Dessa forma, a licença e
encontrado um filho. Entretanto, quando a o salário‑maternidade, previstos como
adoção acontece, ambas as expectativas se benefícios à mulher/mãe trabalhadora,
compatibilizam em prol da garantia do di- sobretudo na fase inicial de sua materni-
reito à convivência familiar e comunitária dade torna‑se fundamental. Independente
de um ser humano em condição peculiar da filiação biológica ou adotiva, o período
de desenvolvimento. inicial da maternidade, demanda adapta-
Nesse contexto, ressalta‑se que a inser- ção recíproca entre pais e filhos, relação
ção de um novo membro na família, seja mediada pela figura materna. Na adoção,
o nascimento de um filho ou a chegada esta presença física da mãe torna‑se
de uma criança por adoção, é sempre um extremamente importante e necessária,
grande marco na vida das pessoas. É um pois se torna contingente às necessidades
fato significativo que gera oportunidades circunstanciais de uma criança inserida
de crescimento, desenvolvimento e mu- repentinamente no âmbito de uma nova
dança, por isso, demanda reorganização do família, com diferentes valores, cultura e
núcleo familiar em torno de novos papéis rotina. A criança recebida em adoção ge-

582 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 581-594, jul./set. 2013
ralmente vivenciou abandono e sofrimento Tal benefício em sua origem pretendia
no seio de sua família biológica, com his- assegurar a permanência da mãe com seu
tórico de institucionalização (acolhimento) filho após o nascimento pelo período míni-
e sente a necessidade de pertencimento, mo de 120 dias, sem prejuízo do emprego e
de segurança emocional, de afeto, de um do salário — tendo como critérios para sua
pai e uma mãe que lhe sejam referenciais concessão a comprovação da requerente
positivos de família. acerca da ocorrência da maternidade e de
Para corresponder às expectativas e sua condição de segurada (contribuição
necessidades dessa criança recebida como previdenciária).
filho, a presença física dos pais é impres- Registra‑se que entre os anos de 1988
cindível. E, no caso da mãe trabalhadora, a 2002 a licença e o salário‑maternidade
a licença‑maternidade é um dispositivo de contemplavam somente as mães biológi-
direito que lhe garante essa permanência cas em razão do nascimento de seu filho.
com seu filho sem prejuízo do emprego e Com a aprovação da Lei n. 10.421, de 15
do salário. de abril de 2002, foi possível a inclusão
Ocorre que a concessão da licença e das mães adotivas, porém o período de
salário‑maternidade tem sido aplicada 120 dias tinha sua aplicação fracionada
de forma diferenciada na maternidade conforme a idade da criança adotada.
biológica em detrimento da adotiva. Por A referida lei que estendeu a licen-
isso, faz‑se necessário uma compreensão ça‑maternidade às mães adotivas estabe-
abrangente acerca da questão à luz das lecia que
normativas nacionais reguladoras da apli-
cação do referido direito. à segurada da Previdência Social que
adotasse ou obtivesse guarda judicial para
fins de adoção de criança era devido salá-
rio‑maternidade pelo período de 120
Entraves jurídicos e sociais à ampliação (cento e vinte) dias, se a criança tiver até
1 (um) ano de idade, de 60 (sessenta) dias,
do direito à licença‑maternidade se a criança tiver entre 1 (um) e 4 (quatro)
anos de idade, e de 30 (trinta) dias, se a
O direito a licença e salário‑materni- criança tiver de 4 (quatro) a 8 (oito) anos
dade representam uma conquista histórica de idade.
em benefício da mulher trabalhadora. As-
segurado prioritariamente na Constituição Esta gradação foi incluída na CLT e na
Federal de 1988 e detalhado em outras leis Lei dos Benefícios Previdenciários como
ordinárias, sobretudo na CLT (Decreto‑ forma de regular a aplicação do direito a
-lei n. 5.452, de 1º de maio de 1943) e na licença e ao salário‑maternidade.
Lei dos Benefícios Previdenciários (Lei Em 2009, com a aprovação da Lei
n. 8.213, de 24 de julho de 1991). n. 12.010, conhecida como Lei da Convi-

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 581-594, jul./set. 2013 583
vência Familiar e Comunitária ou Nova no enquadramento de novos pedidos re-
Lei da Adoção houve alteração das nor- queridos pelas mães adotivas.
mativas anteriores que faziam referência Na tendência comparativa entre as
à licença‑maternidade, especificamente necessidades de um bebê recém‑nascido
no que tange ao fracionamento do período oriundo da maternidade biológica e uma
de licença. criança a partir de um ano de idade inse-
A referida lei menciona em seu rida numa família na forma de adoção,
artigo 8º a revogação dos dispositivos identifica‑se o segundo entrave que im-
da CLT que previam o fracionamento pedia a extensão do direito à licença e ao
da licença conforme a idade da criança salário‑maternidade das mães adotivas.
adotada (§§ 1º a 3º do artigo 392‑A da Esse entrave de ordem social e cultural
Lei n. 5.452/1943). Porém não men- mantinha‑se no discurso de que a mãe
cionou expressamente a revogação da biológica necessita de um tempo de afas-
gradação constante na Lei dos Benefícios tamento do trabalho, justificável pela ne-
Previdenciários (Lei n. 8.213, de 24 de cessidade de recuperação pós‑parto, além
julho de 1991) — fato que levava o INSS da dependência exclusiva do nascituro
a continuar aplicando o benefício de for- em relação à presença materna, sobretudo
ma diferenciada entre mães biológicas para atendimento às suas necessidades
e adotivas. A autarquia previdenciária basicamente fisiológicas: choro, fome/
(INSS) alegava a impossibilidade da amamentação, asseio pessoal/troca de fral-
concessão do período integral da licença das e banho, variação de temperatura (frio,
para todos os casos, quando não havia calor)... das quais o bebê não consegue
menção expressa sobre a inaplicabilida- satisfazer sozinho. A restrição no período
de dos critérios fracionários constantes de licença pauta‑se na alegação de que
na Lei dos Benefícios Previdenciários, tais necessidades não eram evidentes na
ainda que se tratasse de redação derivada maternidade e filiação adotiva. Entretanto,
da CLT em seus dispositivos revogados. verifica‑se que na adoção as necessidades
Essa divergência normativa representou das crianças e/ou adolescentes são dife-
o primeiro e mais significativo entrave renciadas e de ordem mais complexas: de
para a garantia do direito à licença e ao natureza afetiva, emocional, circunstancial
salário‑maternidade das mães adotivas. — não menos importantes do que aquelas
A partir de 2009, tendo identificado apresentadas por um bebê.
a inconsistência normativa e a conse- De maneira geral, na adoção, as crian-
quente restrição no acesso ao direito ças “testam” a nova família e “desafiam”
referido, inicia‑se o debate em defesa da os pais para ter certeza de que serão aceitas
licença e do salário‑maternidade na sua e amadas do jeito que são. Desta forma,
integralidade também para os casos de diz‑se que a adoção é recíproca, uma vez
adoção, questionando‑se o INSS sobre a que as crianças também precisam aprender
continuidade de sua aplicação fracionada a ser filhos, a ter pais, irmãos, tios, avós,

584 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 581-594, jul./set. 2013
primos e padrinhos, saber se o amor que normas e valores específicos que passam
irão receber é forte suficiente para resistir a ser constituinte da sua subjetividade.
às adversidades da vida. Trata‑se de um Também podem expressar receio de se-
ambiente absolutamente novo para as rem novamente abandonadas, devolvidas.
crianças e uma experiência absolutamente Desta forma, será importante respeitar o
nova para ambos, pais e filhos. tempo de passagem e adaptação da criança
Desta forma, a presença física dos pais ao novo ambiente, às novas pessoas que
postulantes à adoção, como referência de se agregam na convivência e aos valores
adaptação cotidiana e segurança afetiva, daquele núcleo familiar para que a apro-
é imprescindível — tarefa impossível de priação do novo lar e família seja tranquila,
confiar a outrem. Torna‑se fundamental no segura e perene.
percurso do processo adotivo a capacidade Quanto mais idade, mais evidentes são
dos pais de atenderem às necessidades de os desafios de adaptação e necessidades
seus filhos, sobretudo diante das condutas circunstanciais da criança adotada. É a
regressivas, as quais podem se manifestar peculiaridade da adoção tardia, entendida
nessa fase. aquela realizada a partir dos dois anos de
idade da criança, quando se torna parti-
Por conta da busca de integração no grupo cipativa no processo de adoção, faz suas
familiar, a criança vive um sentimento de escolhas, contra‑argumenta, aceita, nega,
inadequação por não se perceber com negocia; possui opinião, compreende o
raízes comuns com as pessoas que a cer- que está acontecendo com ela. Sobressaem
cam. Isso explica, em parte, comporta- as necessidades de afeto, de acolhimento
mentos opostos ou contraditórios que de sua história, de aprendizado de novos
encontramos nos filhos adotivos: rebeldia valores familiares... Também pode haver
e agressividade; isolamento ou depressão. dificuldade de vinculação potencializada
Enquanto não diminuir a distância psico- na adoção tardia, quando a criança apre-
lógica da ligação afetiva entre a criança e senta histórico de dolorosas experiências
sua nova família, ela desenvolverá uma de rompimentos e abandono anteriores —
dinâmica de crise. (Schettini Filho, 2005,
questão que demanda atenção redobrada
p. 165)
dos pais e o devido acompanhamento.
Para a criança ou adolescente coloca-
Educar uma criança recebida com mais
da em adoção, a passagem do ambiente
idade é como arrumar pedras irregulares
anterior para a criação de novos vínculos em uma caixa: quadradas, redondas, gran-
demandam tempo: geralmente a criança/ des e pequenas. É preciso ter paciência,
adolescente vivenciou longo período de bom humor, bom senso, constância e
institucionalização na forma de acolhi- acreditar que é possível. Ao mesmo tempo,
mento institucional ou familiar e aprendeu é preciso desmistificar a ideia de que a
a se reconhecer nessa instituição ou famí- adoção só dá certo se for realizada com
lia acolhedora com seu sistema de regras, recém‑nascidos. (Souza, 2008, p. 59)

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 581-594, jul./set. 2013 585
Nesse contexto de análise, entende‑se êxito de uma relação de filiação, seja ela
que ambas as formas de filiação, seja ela biológica ou adotiva.
biológica ou adotiva, conservam peculiari- Desta forma, a ocorrência do fra-
dades e necessidades que requerem tempo cionamento ou restrição ao período de
e dedicação dos pais, sobretudo da mãe, licença‑maternidade nos casos de ado-
para a qual a licença e o salário‑materni- ção constituía uma violação do direito
dade contribuem positivamente. das mães e, sobretudo das crianças e
O período da licença parametrizado adolescentes sob o enfoque do seu di-
pela lei em quatro meses constitui um reito prioritário à convivência familiar e
tempo significativo, que permite o con- comunitária.
vívio integral da mãe com seu filho em Portanto, a questão merece especial
estágio de convivência para fins de adoção. atenção e proteção do Estado para que
Esse período que antecede a sentença de a concessão da licença‑maternidade seja
adoção constitui um tempo necessário de em tempo integral, ou seja de no mínimo
vinculação afetiva e adaptação recíproca 120 dias, para todos os casos de adoção,
entre pais e filhos. É evidente que se tratan- independente da idade do adotando.
do de relações humanas e subjetividades,
Com certeza, essa dinâmica temporal
esse tempo poderá variar em cada família
favorece a consolidação dos laços de afeto,
e, segundo pesquisadores, na adoção, a
de pertencimento, de segurança psicológi-
adaptação pode levar até 2 anos. Porém um
ca, emocional recíproca entre pais e filhos
tempo mínimo de quatro meses de convi-
da relação socioafetiva, permitindo que a
vência (parâmetro da licença‑maternidade)
adoção aconteça com maior tranquilidade
torna‑se indicador satisfatório.
e seja exitosa, sem risco de devolução.
Ressalta‑se que o sucesso da vincula-
ção adotiva está amplamente relacionado
com a disponibilidade de tempo das mães
adotivas — elemento imprescindível no A prática profissional do Serviço Social
período do estágio de convivência. O ele- na adoção e o acesso a licença/
mento tempo é fundamental não somente
em quantidade, mas em qualidade. E
salário‑maternidade das mães adotivas:
tempo de qualidade implica disponibili- estudo de caso na comarca de Maravilha
dade afetiva, vontade, esforço, paciência,
diálogo, contato físico, convivência... Minha prática profissional cotidiana
Contudo, o tempo da mãe em estar com e atuação enquanto a assistente social
seu filho é indicador fundamental que forense vinculada à área sociojurídica
favorece e estimula o afeto, o carinho, no âmbito do Poder Judiciário permitiu
o cuidado, a proteção, o atendimento identificar e atuar frente à necessidade de
às necessidades de um ser humano em ampliação de direitos em duplo sentido:
desenvolvimento (seu filho) — para o o direito a licença‑maternidade das mães

586 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 581-594, jul./set. 2013
adotivas e o direito a convivência familiar Social, que requereram o direito a licença
e comunitária das crianças e adolescentes e salário‑maternidade em virtude da fi-
em situação de acolhimento. liação adotiva. Porém todas tiveram seu
Dentre as atividades e demandas so- direito fracionado conforme a idade da
ciojurídicas pertinentes ao Serviço Social criança adotada sob o pretexto da grada-
Forense enfatizamos neste estudo a inter- ção normatizada pela Lei n. 8.213/1991
venção do assistente social nos procedi- que dispõe sobre os Planos de Benefícios
mentos de adoção que tramitam no âmbito da Previdência Social, artigo 71‑A que,
da justiça. Abordaremos especificamente estabelecia que “à segurada da Previdência
quatro casos de adoção realizados no ano Social que adotar ou obtiver guarda judi-
de 2011, na comarca de Maravilha, juris- cial para fins de adoção de criança é devido
dição de atuação desta profissional, que salário‑maternidade pelo período de 120
envolveram cinco crianças com idades (cento e vinte) dias, se a criança tiver até
entre dois, três, quatro, cinco e sete anos 1 (um) ano de idade, de 60 (sessenta) dias,
respectivamente. Todos os casos foram se a criança tiver entre 1 (um) e 4 (quatro)
categorizados como adoção tardia,2 que é anos de idade, e de 30 (trinta) dias, se a
mais difícil de efetivar, tendo em vista que criança tiver de 4 (quatro) a 8 (oito) anos
os postulantes preferem bebês, recém‑nas- de idade”.
cidos até no máximo dois anos de idade, A dificuldade apontada pelas famílias
saudáveis, prioritariamente meninas — atendidas na Comarca de Maravilha em
preferências alicerçadas em motivações acompanhamento dessa profissional nos
pessoais pautadas em idealismos, mitos processos de adoção foi a restrição no
e preconceitos que circundam o tema da direito à licença‑maternidade das mães
filiação adotiva. adotivas. Em todos os quatro casos acom-
Não obstante o indicador de idade panhados verificou‑se que as mães eram
das crianças, observou‑se na intervenção trabalhadoras seguradas da Previdência
a condição das mães adotivas: ambas Social e tiveram obstáculos para a conces-
trabalhadoras, seguradas da Previdência são da licença‑maternidade tendo em vista
o fracionamento por idade. As mães das
crianças entre dois a quatro anos consegui-
2. A maioria das crianças disponíveis para adoção
apresenta idade superior a três anos, muitos já adoles- ram sessenta dias de licença‑maternidade;
centes. Em contrapartida, a maioria dos pretendentes à a mãe da criança com cinco anos, apenas
adoção procura crianças até três anos de idade. Nota‑se trinta dias. E apenas uma delas conseguiu
que são indicadores contrapostos: muitas crianças e
adolescentes permanecem sob tutela do Estado, nas
permanecer em gozo do benefício durante
instituições de acolhimento, esperando e sonhando com 120 dias, após recurso administrativo junto
uma família; e um número infinitamente maior de pre- ao poder público municipal — essa que
tendentes permanece esperando por seu filho — duas
era funcionária pública. Observou‑se na
realidades que se compatibilizam no desejo subjetivo de
constituir família por filiação e paternidade socioafetiva, intervenção a angústia dessas famílias com
mas que na prática estão dissociadas. o término da licença‑maternidade frente a

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 115, p. 581-594, jul./set. 2013 587
uma relação parental constituída por ado- de adoção referidos, esta profissional
ção e que ainda não era sólida, pois estava presenciou a angústia de muitos pais,
no primeiro, segundo mês de convivência. em especial das mães, pela ocorrência da
É importante destacar que a filiação por restrição à licença‑maternidade requerida
adoção não é uma vinculação imediata, junto ao seu empregador e/ou autarquia
mas uma construção socioafetiva cotidiana previdenciária (INSS). Em ambos os ca-
que se estabelece a partir da convivência sos, as mães relataram a preocupação em
entre os adotantes e os adotandos, que virtude de não dispor de tempo integral
passam a se reconhecer como pais e filhos. para estar com seus filhos.
Desta forma, constatou‑se a desigual- Ressalta‑se que para uma mãe que
dade na concessão da licença e salário‑ma- repentinamente assume a maternidade
ternidade às mães adotivas em relação à pela filiação adotiva, o fato de não poder
filiação biológica, além de sua aplicação permanecer com seu filho é frustrante e
absolutamente restritiva, pois é de forma angustiante, sobretudo nos meses iniciais
proporcional à idade da criança, até o li- de adaptação à nova dinâmica familiar,
mite de oito anos do adotando. Tornou‑se que foi ampliada pela inserção de um
flagrante a constatação de que o período novo membro.
integral de 120 dias acabava beneficiando
É relevante exemplificar o relato de
somente as mães biológicas ou as que
uma mãe adotiva, requerente da adoção
adotassem crianças até um ano de idade
de um menino com cinco anos de idade na
(realidade da minoria das adoções).
Comarca de Maravilha, acerca dos desa-
A partir do acompanhamento3 do está- fios do período de adaptação (pré‑adoção).
gio de convivência (artigo 46 do ECA, Lei Essa mãe adotiva conseguiu o deferimento
n. 8.069/1990), no âmbito dos processos de apenas 30 dias de licença‑maternidade
e a criança passou a apresentar dificulda-
3. Na maioria dos casos de adoção, o acompanha- des de vinculação e adaptação a seguir
mento, atendimento e suporte durante o estágio de retratadas:
convivência e pós‑adoção são fundamentais. Os casos
que demandam maior atenção e cautela estão majorita-
riamente relacionados à adoção de grupo de irmãos, às O Paulinho agora está em sua casa. En-
situações de adotandos com problemas de saúde e/ou volve‑me com seus abraços, me chama
deficiência, os casos de crianças e/ou adolescentes que de mãe com a maior naturalidade... reação
vivenciaram devoluções em tentativa anterior de adoção,
que começou pelo mês de outubro […]
os casos de adoção tardia. Essas situações e particulari-
dades na adoção requerem o acompanhamento oportuno Estou com processo para requerer os três
e fundamental prevenindo riscos de devolução e favo- meses restantes da licença‑maternidade
recendo a formação dos vínculos em respeito ao tempo pelo INSS. Tenho um advogado que está
necessário de adaptação. Ressalta Souza (2008, p. 58‑59) cuidando disso e até agora nada de res-
que “a adaptação total poderá levar até dois anos [...]
depende de muito esforço dos pais [...] além de muito
posta. Meu filho estava com uma tosse
amor e paciência, muitas vezes torna‑se conveniente seca e o levamos ao médico e ele diag-
dispor de ajuda terapêutica”. nosticou bronquite. Como o médico não

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sabe seu quadro anterior, vamos ver como latamos que na Bíblia há histórias de
fica. De início ele está muito bem. Fez pessoas que foram adotadas e criadas
seções de nebulização com alguns remé- como filhos verdadeiros; que ele era
dios. Logo que ele veio já o levamos no adotivo, mas o amávamos como se tives-
médico e também ao dentista. Sobre os se saído da barriga e de que nunca o
dentes, já tem a “janelinha” fechada. Em deixaremos. Explicamos que morávamos
julho ele estava com 21,8 kg e agora está em uma grande casa que o papai cons-
com 26 kg. Come muito bem, e seus ali- truiu, depois veio eu (mãe), depois o Tobi
mentos preferidos são saladas, macarrão (cachorrinho) e agora a família está com-
e feijão com arroz. Aprendeu, aqui a co- pleta com ele. Falamos também que se
mer linguiça. Como se delicia... ele e seu alguém o maltratasse ou o deixasse triste,
pai. […] Está muito bom o relacionamen- que era para nos dizer que iríamos resol-
to com minha família […] com os meus ver sua dor. […] hoje fazem seis meses
sogros há um clima superlegal. Paulinho que temos o nosso filho. Foi uma cami-
veio alegrá‑los [...] se gostam muito. Na nhada marcante. Tempo de aprendizado...
escola sua avaliação foi muito boa. Em aprendemos muito com o Paulinho e re-
fevereiro reiniciam as seções da fono e passamos nosso modo de viver de acordo
psico. Sempre que tem seção vamos os com o que Deus espera de nós. Tem horas
três. No início ele praticava muitos atos que nos vemos em situações que nos
de violência conosco... (tipo dar pontapé, causam espantos; em outras, alegria e
pancada) o que não faz mais agora. […] também emoções.4
Tenho procurado filmes educativos e ele
tem gostado. […] Já começou a brincar A maioria das mães refere preocupação
sozinho, pois antes era só comigo. […]
frente à necessidade de confiar seu filho,
até participou da apresentação de Natal,
logo após o “nascimento afetivo5 no seio
onde em conjunto com outras crianças
cantou músicas natalinas […] Faço‑o da família adotiva” para uma terceira
adormecer e depois vou ao meu quarto. pessoa, seja uma babá, algum parente,
[...] Com relação a sua história passada, uma instituição... já que em razão do
tem algumas perguntas e se fosse possível
gostaria da resposta para um dia poder
4. Relato de uma mãe encaminhado em janeiro de
relatar a ele […]. Estamos muito tranqui- 2012 acerca das impressões da convivência com seu
los em nossa relação com ele. Essas dú- filho, decorridos seis meses do estágio de convivência
vidas vêm em decorrência do que ele nos iniciado em julho de 2011. A nominação dos atores é
relata. Vemos que se um dia ele nos pedir fictícia para preservar a identidade das pessoas e o sigi-
lo do processo.
alguma informação, queremos falar, pois
5. Segundo Schettini Filho (2006, p. 157‑159), “a
nossa relação é muito clara. […]. A pro- criança adotada vive a passagem de um [...] um novo
fessora nos relatou que em sala de aula nascimento. Na sua interioridade, a figura de mãe passa
Paulinho verbalizou para ela de que era da morte para a vida com o surgimento da mãe adotiva
[...] as dores do nascimento do filho adotivo são o mer-
adotivo […] não sei de que forma ele
gulho em uma nova história, para a qual ele leva todo
ouviu esta palavra. […] Refletimos sobre um acervo, consciente e inconsciente, das ligações pa-
isto e decidimos conversar com ele. Re- rentais anteriores”.

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compromisso com o trabalho ficariam estágio de convivência (período de efetivo
impossibilitadas de exercer diretamente convívio entre adotantes e adotando, que
seu cuidado. antecede a sentença de adoção) não refe-
Com certeza, se uma mãe trabalhadora rir prazo, sendo variável para cada caso
não tem tempo para estar com seu filho e mediante decisão da autoridade judiciária,
por consequência, terá que delegar esses acredita‑se que os 120 dias referenciais da
cuidados para outras pessoas já a partir do licença‑maternidade é tempo oportuno e
primeiro dia de convivência ou trinta dias relevante, que contribui para uma adaptação
depois... a formação do vínculo parental recíproca entre pais e filhos na relação
será mais demorada (não impossível — adotiva, e consequentemente, favorece a
pois as famílias são criativas, desenvolvem solidez dos vínculos da relação socioafeti-
outras redes de apoio e solidariedade...). va, pressupondo o êxito da adoção.
Porém dificuldades na formação do vín-
culo, dificuldades de lidar com as crises e [...] o aprofundamento das ligações entre
conflitos inerentes à mudança familiar com as pessoas acontece pelo conhecimento
a inserção de um novo membro (o filho) entre elas e, na relação pais e filhos, essa
verdade cresce de importância porque, de
poderão resultar no fracasso da adoção
início, a vida do filho dependerá, em mui-
— que é quando ocorre a devolução da
tos aspectos, do conhecimento que o pai
criança durante o estágio de convivência e mãe vão acumular a respeito dele e de
— propriamente quando os pais não supor- seu processo de desenvolvimento. (Schet-
tam a fase inicial de adaptação, com seus tini Filho, 2006, p. 85)
desafios, e desistem da criança. Quando a
devolução acontece, revive‑se a perda, o É nesse movimento de convívio e
abandono e configura‑se nova violação de conhecimento recíproco entre pais e fi-
direito na vida dessas crianças. lhos que se desenvolve a habilidade da
Não obstante, identificou‑se no acom- mulher e do homem em serem pais, no
panhamento das adoções a insegurança vi- exercício da maternidade e paternidade
venciada também pelas crianças inseridas de seu filho nascido do afeto pela decisão
no âmbito da família adotiva, uma vez que da adoção. É uma relação construída no
eram estranhas a novas pessoas, culturas, dia a dia da convivência. Não é algo dado,
valores, papéis parentais... carentes de estabelecido imediatamente pelo novo vín-
acolhimento, afeto, proteção. culo jurídico entre as partes. Portanto, os
Em ambas as situações vivenciadas pe- vínculos parentais não são imediatos, mas
los pais e filhos na adoção, a licença‑mater- nutridos, e reconhecer‑se e sentir‑se pai,
nidade tornava‑se imperiosa, uma vez que mãe e filho não é resultado de uma relação
possibilitaria às mães o tempo necessário consanguínea, mas sobretudo resultado
para estar com seus filhos e exercer o papel de uma relação afetiva, que se constrói
afetivo referencial para o êxito da adaptação na convivência. E convivência pressupõe
necessária à relação socioafetiva. Embora o tempo, dedicação, proximidade, esforço,

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trabalho... envolvimento com a pessoa do contraditório e cambiante de pessoas com
seu relacionamento, nesse caso a criança sua própria individualidade; referência de
ou adolescente inserida em uma nova fa- afeto, proteção e cuidado em que signifi-
mília pela adoção. Portanto, a construção cados, crenças, mitos, regras e valores são
dos novos vínculos afetivos é gradual tanto construídos, negociados e modificados,
para pais quanto para filhos. contribuindo para a constituição da subje-
tividade de cada membro e a capacidade
O filho é uma conquista que se incorpora para se relacionar em que obrigações,
à vida de seus pais, modificando sua tra- limites, deveres e direitos são circunscritos
jetória de vida, interferindo na sua histó- e papéis são exercidos.
ria pessoal. Como consequência, a vida
É sabido que a ligação consanguínea
do filho é também modificada por seus
pais, segundo a forma e a qualidade da não assegura a perenidade da família,
relação afetiva. [...] o crescimento e o que em muitos casos é dissolvida com a
desenvolvimento do filho dependem da perda do poder familiar. A ligação afe-
boa organização do grupo familiar. Duas tiva, portanto, é que garante e consolida
condições [...] são indispensáveis para a a vinculação familiar, e para que ela se
formação da personalidade sadia: de constitua é necessário vontade, desejo de
início, é necessário proteção e aconchego; ser pai ou mãe por adoção. São necessários
em fases posteriores, é preciso autonomia tempo, esforço, dedicação, disponibilidade
e independência. A harmonia entre esses
afetiva e material (presença física) para
elementos, que se completam entre si,
construir esse vínculo socioafetivo.
produzirá a pessoa emocionalmente ama-
durecida. (Schettini Filho, 2005, p. 73‑74)

O resultado dessa matemática pai+ Agir profissional em favor da proteção à


mãe+filho é a família, lócus privilegiado
de formação do ser humano e cidadão.
maternidade e à infância: compromisso
Entretanto, a família possui um duplo com a defesa e viabilização dos direitos
viés: apresenta‑se como um lugar pri- sociais
vilegiado de proteção e pertencimento
versus espaço possível de conflitos e Tendo em vista a constatação da
contradições. desigualdade na aplicação da licença‑ma-
Nesse sentido, o Plano Nacional de ternidade no âmbito da filiação adotiva e
Convivência Familiar e Comunitária ciente das consequências dessa restrição
(PNCF) apresenta uma definição ampliada para as mulheres (mães) trabalhadoras e
de família, como um grupo de pessoas que para os filhos (crianças e adolescentes) no
são unidas por laços de consanguinidade, âmbito do direito à convivência familiar
de aliança e de afinidade — que implicam e comunitária, fundamentou‑se nessa
obrigações mútuas; um conjunto vivo, evidência as bases para o agir dessa pro-

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fissional em prol da defesa e viabilização tura de ação civil pública também pela
dos direitos sociais. Neste sentido, essa Procuradoria da República do Estado,7
profissional formalizou em relatório a ingressando com ação junto ao Juízo da
descrição dos casos de adoção realizados capital do estado de Santa Catarina.
na Comarca de Maravilha, no ano de Ressalta‑se na instância estadual a
2011, informando sobre a situação das contribuição subsidiária de um segundo
mães adotivas em relação a licença‑ma- relatório circunstanciado encaminhado
ternidade requerida e encaminhando ao pelo Serviço Social da capital a pedido
Ministério Público Federal para tomada do procurador da República do Estado,
de providências. acerca das adoções realizadas naquela
Após a entrega do relatório circuns- jurisdição. A elaboração desse documento
tanciado protocolado em outubro de 2011, foi realizada pela assistente social forense
sucedeu o ingresso da Ação Civil Pública Danúbia Rocha Vieira, no qual se consta-
(ACP) contra o INSS pelo Ministério Pú- tou a ocorrência de situação semelhante à
blico Federal, no âmbito da Justiça Federal da comarca de Maravilha no que se refere
— Subseção de São Miguel do Oeste.6 O ao fracionamento da licença‑maternidade
pedido referia‑se à extensão do direito às concedida às mães adotivas.
mães adotivas à licença‑maternidade pelo Sucederam aproximadamente oito me-
período integral de 120 dias, independente ses a partir do envio do relatório circuns-
da idade do adotando. tanciado e ingresso com a ACP regional
Ressalta‑se que o relatório circuns- e estadual. Em meados de maio de 2012,
tanciado elaborado pelo Serviço Social a ação estadual foi julgada procedente,
Forense serviu para objetivar a proposi- sendo proferida a sentença da Justiça
tura do MPF, primeiro como denúncia e Federal de Santa Catarina favorável ao
informe acerca da ocorrência da suposta pedido formulado pelo Ministério Público,
ilegalidade (identificação da demanda e a fim de assegurar o período integral de
necessidade imperiosa de agir) e depois 120 dias de licença‑maternidade às mães
como subsídio para o ingresso com a ação adotivas, independente da idade da criança
competente. adotada. A decisão da Justiça Federal em
Tendo em vista que a demanda refe- Santa Catarina gerou efeito em âmbito
ria‑se a um pedido abrangente no tocante nacional para todos os novos pedidos de
ao direito de uma extensa coletividade licença e salário‑maternidade nos casos de
ocorreu o encaminhamento do pedido para adoção, inclusive aqueles em usufruto na
a esfera estadual, onde houve a proposi- data da sentença. Houve ampla divulgação

6. Ação Civil Pública n. 5002103‑58.2011.404.7210/ 7. Ação Civil Pública n. 5019632‑23.2011.404.7200/


SC, proposta pela procuradora da República Maria SC, proposta pelo procurador da República Maurício
Rezende Capucci — Ministério Público Federal — sub- Pessutto — Ministério Público Federal — Procuradoria
seção de São Miguel do Oeste. Regional dos Direitos do Cidadão.

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nos meios de comunicação acerca da am- filiação biológica e adotiva, promovendo
pliação do direito à licença‑maternidade, a ruptura com preconceitos que ainda
com repercussão nacional, o que gerou circundam o tema da adoção. Também
visibilidade social para as questões afetas o salário‑maternidade é importante em
às temáticas da adoção, maternidade e termos de benefício socioeconômico, pois
infância. assegura à mãe trabalhadora a manutenção
Entretanto, deve‑se ressaltar que dos seus rendimentos, contribuindo para
a decisão da Justiça Federal em Santa atender satisfatoriamente às necessidades
Catarina representou o primeiro passo na básicas do grupo familiar, repentinamen-
defesa do referido direito, pois faltava a te ampliado pela inserção de um novo
devida alteração da lei. Ou seja, a sentença membro.
apenas suspendeu a aplicação do disposto O tempo referencial de 120 dias é
no artigo 71‑A da Lei n. 8.213/91, que exemplificativo da importância do conví-
aplicava o fracionamento no período da vio fraterno entre pais e filhos da relação
licença‑maternidade conforme a idade do socioafetiva. Significa tempo oportuno,
adotado. Tornava‑se imperativo e urgente
sobretudo para a mãe (culturalmente
a necessidade do reconhecimento do Poder
compreendida como rainha do lar), para
Legislativo quanto à necessidade de mu-
dedicar‑se a maternagem de seu filho
dança da normatização nacional regulado-
nascido do afeto, do desejo de ser família
ra da aplicação do benefício previdenciário
para um ser humano em desenvolvimento.
de salário‑maternidade. Esse movimento
legislativo se efetivou cerca de um ano Deve‑se ressaltar que a licença e o
depois da decisão judicial, quando em 6 salário‑maternidade às mães adotivas
de junho de 2013 foi aprovada a Medida pelo período integral de 120 dias é uma
Provisória n. 619 que alterou a Lei n. conquista histórica que traz intrínseca
8.213/91, revogando o artigo 71‑A, que a importante contribuição do assistente
atualmente passa a vigorar com a seguinte social enquanto profissional empenhado
redação: “À segurada da Previdência So- na defesa e a viabilização dos direitos
cial que adotar ou obtiver guarda judicial sociais dos usuários — registra‑se aqui
para fins de adoção de criança é devido com orgulho o mérito de minha atuação.
salário‑maternidade pelo período de 120 Conclui‑se o presente relato de expe-
dias”. Nota‑se que foi suprimido os parâ- riência reafirmando o pressuposto teórico
metros de fracionamento anteriores que de que a prática profissional é intrinse-
determinavam períodos equivalentes à ida- camente propulsora de conhecimento.
de do adotando, pondo fim às divergências Porém o saber implícito na prática só terá
normativas acerca da temática. condições de emergir a partir do olhar
A efetivação do direito integral à crítico e investigativo do profissional da
licença‑maternidade nos casos de adoção intervenção. Este é o desafio lançado a
contribui para a igualdade de direitos entre todos os profissionais: produzir conhe-

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cimento por meio da prática em prol da ______. Lei n. 10.421, de 15 de abril de 2002.
defesa e viabilização de direitos. Estende à mãe adotiva o direito à licença-ma-
ternidade e ao salário-maternidade. Brasília,
2002.
______. Lei n. 12.010, de 3 de agosto de 2009.
Recebido em 14/6/2013 Dispõe sobre adoção [...] e dá outras providên-
■ cias. Brasília, 2009.
Aprovado em 20/6/2013
______. Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991.
Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Pre-
vidência Social e dá outras providências.
Referências bibliográficas Brasília, 1991.
SCHETTINI FILHO, Luiz. Compreendendo
os pais adotivos. Recife: Bagaço. 2005.
BRASIL. Plano Nacional de Convivência
Familiar e Comunitária (PNCFC). Brasília, SCHETTINI FILHO, Luiz. Compreendendo o
2006. filho adotivo. 3. ed. Recife: Bagaço. 2006.
______. Decreto-lei n. 5.452, de 1º de maio de SOUZA, Hália Pauliv de. Adoção: exercício
1943. Aprova a Consolidação das Leis do da fertilidade afetiva. São Paulo: Paulinas,
Trabalho. Rio de Janeiro, 1943. 2008.

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