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O CONSERVADORISMO MODERNO:

esboço para uma aproximação

The modern Conservatism: a sketch for an approach

Jamerson Murillo Anunciação de Souza1

Resumo: Procura-se apreender algumas determinações do pensamento conservador


moderno. O ponto de partida é o patamar acumulado de conhecimento e crítica ao
conservadorismo que a profissão de Serviço Social estabeleceu desde seu processo de
renovação. O objetivo é fazer uma aproximação teórica às novas características que o
sistema de ideias conservador adquire na atualidade.

Palavras-chave: Conservadorismo moderno. Serviço Social. Razão.

Abstract: We have tried to apprehend some determinations of the modern conservative


thinking. The starting point is the accumulated level of knowledge and the criticism of
Conservatism that the Social Work profession has established since its process of
renewal. The aim is to make a theoretical approximation to the new characteristics that the
conservative system of ideas has acquired nowadays.

Keywords: Modern Conservatism. Social Work. Reason.

1. INTRODUÇÃO

A abordagem do tema do conservadorismo moderno impõe questões e demanda


pressupostos. A relevância dele para o Serviço Social se expressa, entre outras
dimensões, no significativo acúmulo de estudos sobre as determinações políticas,
econômicas e culturais que lhe conferem substância2. Tais estudos respondem por uma
demanda objetiva, que é a defesa e consolidação da direção social estratégica inscrita no
chamado "projeto ético-político" do Serviço Social. Essa defesa, contraditória em relação
ao movimento histórico da sociedade burguesa, requisita a explicitação e a crítica, teórica
e política, do que se designa como conservadorismo, tanto em suas expressões sócio-
1
Professor assistente I do departamento de Serviço Social da Universidade Federal da Paraíba – UFPB.
Doutorando do programa de pós-graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco –
UFPE/ Recife, Brasil. E-mail: jamersonsouza@ymail.com.
2
Citando apenas alguns poucos fundadores, os escritos de Iamamoto (2011, 2012), José Paulo Netto
(2005, 2009) e Leila Escorsim Netto (2011).

1
históricas gerais, quanto em suas incidências e características particularmente
profissionais.

Uma das questões, referidas acima, diz respeito ao método de problematização e


exposição do conservadorismo na contemporaneidade. Dados os limites de espaço e a
complexidade que envolve a temática, são necessárias escolhas expositivas que
enfatizem o desenvolvimento histórico do conservadorismo como sistema de ideias.
Portanto, não é nosso objetivo abordar o conteúdo conservador (ou até mesmo
reacionário) de determinados fenômenos e movimentos de caráter político-cultural (com
raízes econômicas) que se intensificam na cena brasileira contemporânea, a exemplo de
manifestações aproximadas a ideias integralistas, fascistas, neonazistas, xenofóbicas,
racistas, entre outras, pois uma abordagem dessa natureza requisita espaço próprio.

Esse recorte de método, porém, não significa abstração dessas e de outras


dimensões propriamente políticas, culturais e econômicas. Elas decorrem,
prioritariamente, do acirramento das contradições entre as classes sociais fundamentais,
bem como entre estas e os demais segmentos assalariados e frações burguesas.
Todavia, parece-nos precipitado derivar, imediata e espontaneamente, do
conservadorismo (como sistema de ideias), clássico e moderno, a emergência de tais
fenômenos, que podemos designar, provisoriamente, como manifestações de "extrema-
direita".

Apesar de ser possível identificar alguns pontos de contato entre certas ideias do
conservadorismo moderno (principalmente econômicas e valorativas) com algumas
palavras de ordem presentes no discurso de movimentos de extrema-direita, por outro
lado, parece ser precipitado constituir uma identidade direta entre pensamento
conservador moderno e fenômenos políticos de "extrema direita" na contemporaneidade.
Estes últimos têm fundamento ontológico e material, no geral e resguardadas proporções
e mediações particulares, na ativação dos limites absolutos do capital (MÉSZÁROS,
2002). Dentre as consequências dessa ativação, que é constitutiva da crise estrutural
desde 1970, estão: a intensificação da exploração do trabalho pelo capital - na tentativa
de reverter a queda da taxa de lucro, o desemprego crônico e seus desdobramentos,
além da catastrófica crise ambiental. No que respeita a inspirações ideais, os fenômenos
de "extrema-direita" estão aproximados de tendências irracionalistas ou de convergências
decadentes da "miséria da razão" (COUTINHO, 2010). Isso significa um leque de

2
influências que não se resume ao pensamento conservador em sentido estrito,
concretizando uma cadeia causal complexa e multifacetária.

O conservadorismo clássico (NETTO, L, 2011), surgido no período moderno,


passou por transformações substantivas ao longo da história. Algumas de suas
características iniciais foram revertidas, outras, intensificadas, além daquelas que se
constituem como novas em relação ao período fundador. Essas transformações têm como
fundamento histórico o desenvolvimento das contradições do sistema do capital
(desenvolvimento das forças produtivas e relações de produção). Contradições que se
particularizam do período de consolidação dos monopólios e da atual crise estrutural, que
se arrasta insuperavelmente (MÉSZÁROS, 2002). Essa crise tem implicações conhecidas
para a luta de classes e para o terreno amplo das alienações e ideologias. Esse
fundamento histórico, explorado e antecipado por Marx3 e desenvolvido pela melhor
tradição marxista4, é pressuposto indispensável para o debate que objetiva atualizar
algumas determinações centrais do sistema de ideias conservador.

Outro pressuposto importante é o patamar de problematização já acumulado pelo


Serviço Social no Brasil acerca do conservadorismo. Sem prejuízo de outros enfoques, é
possível perceber certa concentração dos estudos em torno de quatro eixos prioritários.
Estabelecendo uma síntese, investigou-se o conservadorismo que incidiu na profissão a
partir: (i) do neotomismo e do estrutural-funcionalismo, cuja influência máxima se fez
sentir nos momentos de gênese e institucionalização do Serviço Social no Brasil 5, (ii) do
positivismo e da fenomenologia, que repercutiram com força em setores profissionais
durante o período da renovação e reconceituação6, (iii) do assim chamado
"neoconservadorismo" de corte genericamente designado como "pós-moderno", que tem
se robustecido nos últimos quarenta anos no campo da filosofia e das ciências sociais7
(históricos interlocutores do Serviço Social) e (iv) do chamado conservadorismo clássico8,
cujas influências sócio-históricas chegam ao Serviço Social através de matizes e
mediações que requisitam abordagem exclusiva, posto o corte sistêmico (por oposição ao
pensamento "pós-moderno") que atravessa algumas de suas formulações.

3
Especificamente, as categorias de concentração e centralização do capital, elaboradas no capítulo XXIII d'O Capital,
lançam as bases para o desvendamento do processo monopólico (MARX, 1985).
4
Entre outros, com algumas distinções teóricas que não infirmam a concepção crítica da sociedade burguesa: Mészáros
(2002), Hobsbawm (1995), Duménil e Lévy (2014), Mandel (1982) e Harvey (2013).
5
Os estudos de Iamamoto (2011) e Iamamoto e Carvalho (2012) são representativos desse enfoque.
6
Esse é o terreno no qual vão se mover algumas reflexões de Netto (2005).
7
Entre outros, o livro de Santos (2007), apresenta essa preocupação.
8
Estudo de Leila Escorsim Netto (2011), onde o conservadorismo clássico é tomado como objeto de estudo a partir de
seu momento moderno e fundador: período pós-Revolução Francesa.
3
Situadas essas questões e indicados os pressupostos, nosso objetivo é tão
somente tracejar algumas das propriedades que o sistema de ideias do conservadorismo
adquire na atualidade, indicando alguns pontos históricos e teóricos de inflexão, de um
lado e, de outro, seu contato com outras correntes e tradições de pensamento, igualmente
fundadas na modernidade, a exemplo do liberalismo/liberismo, do utilitarismo e do
pragmatismo.

2. O conservadorismo moderno: esboço para uma caracterização

O conservadorismo clássico, em sua gênese pós-1789, constituiu-se como sistema


de ideias e posições políticas marcadamente antimodernas, antirrepublicanas e
antiliberais. Em síntese: antiburguesas. É possível caracterizá-lo como uma reação
ideológica e política aos avanços da modernidade. Avanços esses identificados, naquele
momento, no desenvolvimento das forças produtivas e nas transformações das relações
de produção, que implicaram profundas mudanças sócio-institucionais e culturais.

Em geral, o raio de ação política dos conservadores girava em torno da defesa de


determinadas características institucionais do Antigo Regime (NISBET, 1987),
principalmente aquelas relacionadas com o princípio da autoridade constituída. Apesar de
negarem, no discurso, filiações ideológicas claras, o resultado e o conteúdo histórico de
suas objetivações, teóricas e políticas, estiveram a serviço das forças da reação.

O pensamento conservador surge e se desenvolve no contexto da moderna


sociedade de classes, marcado por seu dinamismo, por suas múltiplas e
sucessivas transições; como função dessa sociedade, não é um sistema fechado
e pronto, mas sim um modo de pensar em contínuo processo de desenvolvimento
[...] Estruturado como reação ao Iluminismo e às grandes transformações
impostas pela Revolução Francesa e pela Revolução Industrial, o
conservadorismo valoriza formas de vida e de organização social passadas, cujas
raízes se situam na Idade Média. É comum entre os conservadores a importância
dada à religião; a valorização das associações intermediárias situadas entre o
Estado e os indivíduos (família, aldeia tradicional, corporação) e a correlata crítica
à centralização estatal e ao individualismo moderno; o apreço às hierarquias e a
aversão ao igualitarismo em suas várias manifestações; o espectro da
desorganização social visto como consequência das mudanças vividas pela
sociedade ocidental (FERREIRA, BOTELHO, 2010, p. 11, 12).

É nesse contexto que estão situadas, ressalvadas especificidades que não são
centrais para nosso debate, as formulações de Edmund Burke (1729-1797), Joseph de
Maistre (1753-1821), Klemens Von Metternich (1773-1859), Benjamim Disraeli (1804-
1881) e Alexis de Tocqueville (1805-1859). Ainda que alguns conservadores
contemporâneos, como João Pereira Coutinho (2014), afirmem que as raízes da tradição
conservadora inglesa remontam ao século XVI, é possível considerar esse conjunto de
pensadores como fundadores do conservadorismo clássico, com destaque para Edmund
4
Burke. Nesse primeiro momento histórico, uma característica marcante é a unidade do
pensamento filosófico, político e econômico, pois a fragmentação acadêmica dos saberes
ainda não havia se completado inteiramente.

Certos princípios do conservadorismo clássico vão ganhar dimensão "científica"


com as sociologias de August Comte (1798-1857), Hebert Spencer (1820-1903) e Émile
Durkheim (1858-1917). Ao receber a chancela da “ciência social”, valores da tradição
conservadora são elevados a conceitos. Ideias conservadoras clássicas acerca das
relações entre indivíduo, Estado e sociedade, passam a receber o anteparo da
solidariedade orgânica, da harmonia e da coesão social.

O positivismo impulsionou o sistema de ideias conservador, ao mesmo tempo em


que o modificou, pois estabeleceu sua reconciliação com a sociedade capitalista
consolidada e sua institucionalidade. Realinhou o foco das disputas políticas dos
conservantistas9, de posições antiburguesas para posições antiproletárias e, por
derivação, contrarrevolucionárias. A Sociologia como disciplina e “ciência” específica
passa a vocalizar certas aspirações conservadoras clássicas, principalmente aquelas em
defesa das instituições estabelecidas. Opera essa vocalização por meio de "métodos
científicos" que esvaziam a produção de conhecimento sobre a sociedade de suas
mediações econômicas e políticas. Esse fôlego renovado que valores conservadores
centrais recebem das "ciências sociais" é repleto de consequências históricas.

Para efeitos de uma periodização metodológica e provisória, o conservadorismo


clássico pode ser identificado entre 1789 e 1914. Esse período histórico coincide com o
intervalo entre dois grandes marcos: vai da Revolução Francesa até o início da primeira
guerra mundial. Seu fôlego final converge no desfecho do pensamento de Émile
Durkheim. 10

A partir de finais da década de 1910 até 1960-70 seria admissível supor como
período de formação do pensamento conservador moderno. A partir daí, mudanças
sensíveis ocorrem. Expoentes de distintas áreas do saber elaboram sistemas totalizantes
de explicação da vida social. Ora enfatizando a política, ora a cultura, o interacionismo, a
burocracia, a institucionalidade, a moral ou a filosofia, intelectuais de distintas áreas do

9
Os termos conservadorismo e conservantismo são tomados como sinônimos nesse artigo.
10
Os estudos de Leila Escorsim Netto (2011) concentram-se nesse intervalo.
5
saber reformulam, ampliam ou universalizam determinados temas centrais da tradição
conservadora11.

Entretanto, frequentemente essa genealogia não é explicitada ou assumida


abertamente. Na maior parte das vezes, essas intervenções preferem apresentar-se como
relativas à moderna democracia política (burguesa). Tais sistemas imprimem, até a
contemporaneidade, concepções de história e ciência antagônicas às que foram
formuladas por Marx e pela melhor tradição marxista. Algumas delas foram
conscientemente construídas para subsidiar alternativas teóricas ao marxismo.

Como se pode notar, uma geração intelectual após as últimas lições de Émile
Durkheim, observa-se o surgimento de uma pluralidade importante de saberes,
ampliadora dos alicerces (concepção de mundo e fundamentos para ação política) do
conservadorismo.

Com essa referência, sinalizamos que o pensamento conservador realiza mais um


giro em seu eixo. Na sequencia de sua incorporação pela nascente sociologia positivista,
aproxima-se também do liberalismo, seu antigo antagonista. É uma aproximação que não
se realiza irrestritamente. Os conservadores preservam suas tradicionais ressalvas à
estruturação de valores que possam ser universalizados, como o individualismo da
tradição liberal, por exemplo. Isso porque, no seu entender, tais valores tendem a
subestimar a “complexidade” das possibilidades humanas (COUTINHO, 2014).

Todavia, cerram fileiras quanto à tendência mais abrangente de reprodução da


sociedade vigente. As consequências dessas mudanças são inteligíveis quando se pauta
o processo histórico que permitiu ao conservadorismo transpassar de reação à
modernidade para posições supostamente progressistas na contemporaneidade. Trata-se
da consolidação do estágio monopolista de reprodução do capital. Esse é o cenário
histórico (real) de contradições que requisita, dos "neoconservadores" de então, novas
bases ídeo-políticas. Destaque (dentre outros) cabe ser feito à contribuição que a
apropriação do conceito de "totalitarismo", de Hannah Arendt (1989), significou para o
conservadorismo moderno. O nivelamento das experiências fascistas e socialistas, sob o

11
Resguardadas as proporções e diferenças teóricas, políticas e de método, assim como de objeto de investigação, as
quais não podem ser tematizadas aqui, é possível identificar, genericamente, alguns expoentes que representam essa
tendência, em um ou outro ponto de sua obra: Martin Heidegger (2013), Karl Popper (1980, 1987, 2013), Norberto
Bobbio (2000, 2004, 2006, 2011), Raymond Aron (1980, 2008), Hannah Arendt (1989, 2011), Talcott Parsons (2010a,
2010b), Friedrich von Hayek (2013), entre outros.
6
conceito de “totalitarismo”, ofereceu uma chave mestra conceitual para o pensamento
conservador.

O conservadorismo moderno incorporou o conceito de “totalitarismo” nesses


termos niveladores e, com ele, elaborou uma concepção de mundo que encastela o
significado ontológico do tempo presente, esvaziando-o do devir histórico. Realiza esse
encastelamento através, de um lado, da blindagem do presente em relação às “utopias”
revolucionárias, que desejam transformar radicalmente a sociedade vigente. De outro,
projetando-se contrários às “utopias” reacionárias, aferradas que são às formas do
passado. Com essa blindagem "presentista" (nem passado - reacionário, nem futuro -
revolucionário, somente o presente importa), o conservadorismo moderno acredita estar
se movendo em bases “progressistas”, uma vez que rejeita, equalizando, tanto as
"utopias" revolucionárias, quanto reacionárias, ambas concebidas, pejorativamente, como
idealizações potencialmente "totalitárias".

Os conservadores modernos, munidos com esse conceito, reclamam-se como


prudentes defensores do presente democrático (burguês) contra as “perigosas e violentas
utopias” (fascismo e comunismo) que, além de partilharem bucólicas concepções de
natureza humana, costumam não poupar vidas humanas em busca de sua idealizada
“perfeição humana” (COUTINHO, 2014). Em síntese, desde que veio à tona na metade do
século XX, o conceito de “totalitarismo” tem servido como uma das pedras angulares da
tradição conservadora moderna.

O “presentismo”12 opera um traço fundamental da decadência ideológica que


permeia o pensamento burguês: a desistoricização do tempo presente 13. Outro elemento
que concorre para essa desistoricização é o aprisionamento da razão aos variados
modelos formais e abstratos, exemplificados com as elaborações do positivismo lógico.
Como consequência lógica e histórica desse “presentismo”, o conservadorismo moderno
cancela a possibilidade de construção de qualquer projeto societário alternativo à
sociabilidade vigente. E esse cancelamento é apoiado com o argumento de que
“sacrificar” uma geração no presente em nome da construção ("incerta") de um futuro
formulado sobre princípios revolucionários (encarados como “utópicos” e “totalitários”) é
uma decisão contrária ao princípio da prudência. Outro princípio que afasta os

12
É sintomático que a epígrafe escolhida por Hannah Arendt (1989), para abrir seu livro As origens do totalitarismo,
seja uma frase de Karl Jaspers que afirma: “Não almejar nem os que passaram nem os que virão. Importa ser de seu
próprio tempo”.
13
György Lukács (2012, p. 192) oferece uma contribuição valorosa acerca da concepção de tempo histórico em termos
ontológicos, isto é, do significado dessa dimensão para o ser social.
7
conservadores dessas posições “totalitárias” é o da “humildade”, que decorre da
constatação da “imperfeição (intelectual) humana” (COUTINHO, 2014).

O conservadorismo de nosso tempo pretende, portanto, ser um terceiro termo entre


as propostas revolucionárias e as revanches reacionárias. Nem sempre é possível
estabelecer uma identidade teórica e política entre conservadores, para os quais é caro o
princípio da prudência na política, e reacionários. Esse é um elo importante que abre
passagem para que os conservadores atuais apareçam como progressistas. Afirmando
diretamente: quando o antagonista político é reacionário, um conservador pode aparecer
como elemento de avanço, porque valoriza o dado imediato instituído, em desfavor de
mudanças potencialmente regressivas14. No entanto, essa aparência demanda a crítica e
a desmistificação dos setores comprometidos com a emancipação humana.

O pensamento conservador contemporâneo se particulariza também sob outros


pontos de vista. Adquiriu contornos específicos no contexto da divisão social internacional
do trabalho e dos mercados, sem prejuízo de sua estruturação em totalidade. Na França,
na Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, entre outros, a forma e o conteúdo do
conservadorismo, mantidas as variantes acima esboçadas, adquiriram influências e
características conjunturais. No Brasil, congrega propriedades europeias e norte-
americanas. Sofre também mutações desde dentro, recombinando, ecleticamente,
propostas, valores e ideais com a nossa realidade concreta, desde finais do século XIX. O
resultado - considerando as condições de inserção subordinada de nossa formação social
no circuito de capital mundial monopolizado, além das contradições tipicamente
decorrentes da passagem brasileira à modernização capitalista - é a intensificação das
tonalidades mais à direita do conservadorismo, aproximando-o de ideias ao sabor dos
reacionários.

Essa recombinação incide sobre as grandes concepções orientadoras do ideário


das classes dominantes no Brasil. É daí que extraem parte de suas ideias sobre o papel
do Estado, das liberdades civis e políticas, dos mercados, dos grandes proprietários como
sujeitos políticos, da família, da propriedade e assim por diante. As linhas de
desenvolvimento dessa apropriação desdobram-se em muitas outras tendências
intelectuais e forças políticas singulares, subdividida em frações e segmentos, mas
unificada em projeto de sociedade. “Em suma: quando o pensamento brasileiro 'importa'
uma ideologia universal, isso é prova de que determinada classe ou camada social de

14
A questão do “trabalho escravo”, na contemporaneidade, poderia exemplificar bem essas distinções.
8
nosso país encontrou (ou julgou encontrar) nessa ideologia a expressão de seus próprios
interesses brasileiros de classe” (COUTINHO, 2011 (a), p. 41, grifo do autor).15

Outra particularidade do conservadorismo moderno está relacionada à formação de


sua autoimagem. Isto é, à representação que os sujeitos conservadores elaboram acerca
de si mesmos e de seu significado social e histórico. Segundo as indicações inferidas da
literatura, essa autoimagem é construída sobre uma espécie de “existencialismo
conservador”, com tonalidades irracionalistas. A importância de decifrar e fazer a crítica
da autoimagem conservadora reside na perspectiva de superação dessa visão
mistificadora. Superação que depende, sobretudo, da perspectiva do método dialético em
relação às mediações complexas entre produção e reprodução social. Tais relações
constituem o momento predominante a partir do qual os sistemas de ideias, e de saber,
tanto surgem quanto se desenvolvem.

Não são raras as produções que atribuem o conservadorismo a determinados


“traços de personalidade”. Segundo elas, trata-se de tendências subjetivas, típicas dos
indivíduos e grupos que são cautelosos e apegados à situação social vigente, tal como se
apresenta no aqui e agora. Outras caracterizações qualificam o conservadorismo como
“forma de ser”, uma “atitude mental” que se inclina à crítica de mudanças substantivas.
Nesse tipo de análise, psicologizante, é conservador aquele que resiste às mudanças
“arriscadas”, que se apega a formas estabelecidas, institucionalizadas e fortalecidas pela
tradição.

Ao reduzir o conservadorismo a “traços de personalidade”, tende-se a se subtrair o


conteúdo e o significado histórico, específico e contraditório, dessa corrente de
pensamento e ação em relação à totalidade social. É assim que Quintin Hogg (1947),
Fossey Hearnshaw (1933) e Hugh Cecil (1912), vão oferecer descrições irracionalistas do
conservadorismo. Seus termos vão variar entre “força interior”, “temperamento”, “fé”,
“espírito”, “instinto”, “disposição”, “inclinação pura e natural da mente humana”, entre
outros.

Com esse tipo de definição, qualquer debate é abortado em princípio. Isso porque
o conservadorismo é elevado à “condição humana”. É também universalizado, na medida

15
Leandro Konder antecipou essa determinação em 1979, quando escreveu no Jornal da República, do estado de São
Paulo: “O pluralismo da ideologia da direita pressupõe uma unidade substancial profunda, inabalável: todas as correntes
conservadoras, religiosas ou leigas, otimistas ou pessimistas, metafísicas ou sociológicas, cientificistas ou místicas,
concordam em um determinado ponto essencial. Isto é: impedir que as massas populares se organizem, reivindiquem,
façam política e criem uma verdadeira democracia” (apud COUTINHO, 2011 (b), p. 50).

9
em que todos os indivíduos são apresentados como conservadores em alguma medida,
nem que seja na inclinação à preservação de si próprio, entes queridos ou círculo de
amizades. Resta então diluído o conteúdo do conservadorismo através da autoimagem
que os conservadores produzem.

Para exemplificar a sistemática desse tipo de elaboração, talvez seja útil resgatar
ao menos duas afirmações de dois grandes representantes modernos do
conservadorismo: Michael Oakeshott (1901-1990), caracterizado por Perry Anderson
(2012, p. 21) como um dos expoentes da “direita intransigente” inglesa, e Russel Kirk
(1918-1994).

Oakeshott, herdeiro do conservadorismo clássico, é um dos arautos da atual


tradição conservadora no mundo. Defende ele, agarrando-se à categoria da razão, tal
como a concebe o conservadorismo moderno, que:

(o conservadorismo, J.S.) não é uma crença nem uma doutrina, mas uma forma
de ser e estar. Ser conservador significa uma inclinação a pensar e a comportar-
se de determinada forma; é preferir certas formas de conduta e certas condições
das circunstâncias humanas a outras; é dispor-se a tomar determinadas decisões.
[...] Distinguir as características gerais desta atitude não é tarefa difícil, embora
elas tenham sido constantemente confundidas. Elas resumem-se a uma
propensão ao uso e gozo daquilo que se tem, em vez do desejo ou busca de outra
coisa, a aprazer-se mais com o presente do que com o passado ou o futuro. [...]
não existe nenhuma idolatria simples pelo que já passou ou já se foi. [...] Assim,
ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não
tentado, o facto ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo
ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade
presente à utópica. [...] Para além disso, ser conservador não é apenas ser avesso
à mudança [...] é também a forma de nos adaptarmos às mudanças, algo que foi
imposto a todos os homens. (2014, p. 4,5,6, grifos nossos).

Russel Kirk, cujas reflexões foram recentemente coligidas e publicadas no Brasil 16,
é outro alto signatário do conservadorismo moderno. Conhecido por suas contribuições ao
pensamento político norte-americano e estudioso de Edmund Burke, desenvolve em
termos similares uma concepção de conservadorismo:

Não sendo nem uma religião nem uma ideologia, o conjunto de opiniões
designado como conservadorismo não possui nem uma Escritura Sagrada, nem
um Das Kapital, como fonte de dogmas. [...] Talvez fosse adequado, na maioria
das vezes, utilizar a palavra 'conservador' mormente como adjetivo. Não existe um
modelo conservador, e o conservadorismo é a negação da ideologia: é um estado
de espírito, um tipo de caráter, um modo de ver a ordem civil e social. A posição
chamada conservadora se sustenta em um conjunto de sentimentos, e não em um
sistema de dogmas ideológicos. [...] Para a preservação de uma diversidade
saudável em qualquer civilização, devem remanescer ordens e classes, diferenças

16
Trata-se da obra: A política da prudência (2014), onde se encontra mais um aporte sistemático (e sistêmico) em favor
explícito do conservadorismo moderno.

10
na condição material e muitos tipos de desigualdade (2014, p.102-108, grifos
nossos).

De tais colocações, repletas de consequências sociais, ressaltamos aqui apenas


quatro pontos que ajudam a perceber mudanças significativas de posição do
conservadorismo moderno em relação ao conservadorismo clássico: (i) eles dificilmente
assumem uma filiação teórica ou tradição ideológica, considerada pejorativamente como
dogmas; (ii) diferentemente dos primeiros conservadores, os contemporâneos valorizam o
presente e não são nostálgicos de formas sociais passadas; (iii) aproximam-se do
pragmatismo, ou, no mínimo, de um acentuado empirismo, na medida em que valorizam
“o possível”, a situação dada tal como se apresenta; (iv) atualmente, conservadorismo
não significa oposição a qualquer tipo de mudança, mas a determinados tipos específicos
de mudança, a saber, aquelas que possam ser desencadeadas pelas classes
dominadas17.

Essa mudança de significado, ampliando o leque... aproximada às tendências do


pragmatismo, constrói a possibilidade para uma aproximação com o pensamento liberal.

Em matéria de conservação da ordem burguesa madura e consolidada, que é o


conteúdo objetivo e histórico do conservadorismo moderno da contemporaneidade,
poucas correntes de pensamento e ação são tão sólidas quanto o liberalismo.
A relação do conservadorismo moderno com a categoria da razão é peculiar e
merece atenção, uma vez que dela deriva as possibilidades de produção de
conhecimento a partir do ponto de vista conservador. Afirma-se a importância da razão
como elemento estruturante do processo de conhecimento e desenvolvimento da
sociedade. Por outro lado, não poupa críticas ao racionalismo, tomado como corrente de
pensamento. Para os conservadores, o racionalismo é uma subversão da razão, na
medida em que pretende construir uma sociabilidade segundo princípios de evolução que
conduziriam à “perfeição”, por intermédio da ideia-força das “possibilidades infinitas” -
ideia que teria servido de base para as promessas de progresso e desenvolvimento
humano no período moderno.

Os conservadores reconhecem a necessidade de aprimoramento das relações


humanas. Porém, qualificam como arrogantes e descabidas as tentativas de construção

17
Esses elementos se conjugam numa síntese aproximada ao comentário que Carlos Nelson Coutinho elaborou sobre os
liberais, algo que podemos estender amplamente aos conservadores: “O liberal defende a mudança que se tornou
necessária, valendo-se para tanto de formulações ideológicas progressistas; mas, ao mesmo tempo, recusa as
consequências últimas do progresso, por temor explícito da “anarquia” e do “caos” que vem “de baixo”, das forças
populares ainda “imaturas” (2011 (b), p. 50).
11
de relações sociais a partir dos princípios do racionalismo moderno. Isso porque, supõem
os conservadores, o racionalismo persegue a pueril ideia de “perfeição humana” e “não é
possível reduzir os problemas de uma comunidade a simples equações ou postulados
que a razão acabaria por resolver por si só” (COUTINHO, 2014, p. 36). Por outro lado,
também não abraçam abertamente o irracionalismo. O irracionalismo, extremo oposto da
razão, por sua vez, abriria espaço demasiado para arbitrariedades subjetivas em termos
de ação política e social.

Uma ideia avançada por Oakeshott (2014) deixa entrever qual é a concepção de
racionalidade a que aderem os conservadores. Segundo ele, o racionalismo entroniza o
saber técnico-teórico, em detrimento do saber prático. Para os conservadores, a
experiência, de onde provém o saber prático, fornece os melhores referenciais para
orientação da ação social. O saber teórico tenderia a deduzir os posicionamentos políticos
a partir de elaborações ideais, o que significaria fazer abstração das condições objetivas
de uma dada sociedade (essa conclusão, por parte dos conservadores, decorre da sua
visão reificada da relação teoria e prática).

Em nome do cálculo racional e das antecipações lógicas dos desdobramentos das


ações políticas, os revolucionários (entendidos sempre como “totalitários”) tendem a levar
a cabo suas doutrinas a qualquer custo. Nesse caso, segundo eles, haveria um hiato,
talvez de qualidade ética, entre as intenções formuladas teoricamente e a efetividade das
relações sociais, constatado no abismo entre os ideais “utópicos” dos revolucionários e a
objetividade sangrenta dos regimes tanto socialistas, quanto fascistas.

Como se pode notar, os conservadores procuram afastar-se do racionalismo,


associando-o ao “totalitarismo” da revolução. Seria precipitado equalizar, sem mediações,
a crítica conservadora e a crítica "pós-moderna" ao racionalismo. Contudo, resta intacto o
denominador comum da identificação da razão à formalização positivista, associada à
padronização e hierarquização. Essa definição acentua ao extremo algumas
características do racionalismo, fazendo-o parecer uma caricatura de si mesmo, ao passo
em que deixa de mencionar e problematizar outras dimensões dessa corrente de
pensamento e ação18. Além disso, sequer considera, no debate, a tradição racional que
tem origem na dialética19 de Hegel e se estende a Marx e aos melhores representantes do
marxismo.

18
Para uma introdução ao racionalismo, conferir: HUENEMANN (2012).
19
Alvo preferencial dos ataques do filósofo da ciência Karl Popper.
12
Em síntese, o racionalismo, é sabotado a priori pelo princípio conservador da
“imperfeição humana”. Esse princípio, apesar de certas semelhanças, não se identifica
diretamente com a formulação cristã. No conservantismo, ele significa o impedimento
(ontológico) de que a razão tenha êxito nas suas tentativas de controle e previsão
absolutas das ações políticas. Isso porque não é possível à razão, em função de sua
limitação, antecipar e manipular todas as possibilidades de desenvolvimento do real. O
elemento de acaso (tomado numa concepção afastada da ontologia de Marx e de Lukács)
interdita em germe a concretização do discurso racionalista.

Por outro lado, os conservadores procuram prevenir-se contra o fatalismo, que


aparece como possível desdobramento exponenciado do princípio da “imperfeição
humana”. Ou seja, não desqualificam a priori as possibilidades de desenvolvimento
humano, mas reivindicam certo ceticismo em relação à ação social, que talvez possa ser
aqui qualificado, provisoriamente, como “ceticismo metodológico”. Esse ceticismo tenta
preservar o princípio da prudência em relação aos conteúdos imprevisíveis, “desejáveis”
ou “indesejáveis”, da reprodução da sociedade (COUTINHO, 2014).

Para um conservador, a melhor imagem de ação social e política é aquela em que


o sujeito persegue o “meio termo”, a via media entre os extremos possíveis da razão e da
ação. Tanto melhor se esse sujeito tiver clareza de suas funções específicas na
sociedade e orientar-se racionalmente. Essa orientação racional, nesses termos, significa
a apropriação dos conhecimentos imprescindíveis para o exercício daquela função,
conhecimentos majoritariamente selecionados a partir do acúmulo das tradições e das
situações circunstanciais, ou seja, do saber prático. Os conservadores identificam a ação
racional à manipulação bem-sucedida de dados empíricos. Agir racionalmente, do ponto
de vista conservador, é manejar com destreza o “saber prático”.

São nítidas, nas raízes dessas formulações, as influências da sociologia


funcionalista de Émile Durkheim20, nominalmente no terreno conceitual da solidariedade
orgânica, uma vez que o ideal de ação descrito acima se estende às relações
institucionais. Do mesmo modo, está bem marcado um perímetro de aproximação com o
pragmatismo e com o empirismo, frente à valorização da experiência como momento
predominante do processo de conhecimento e ação. Todavia, caberia chamar a atenção à
ênfase dada pelas vertentes conservadoras à ideia de via media, dada a sua proximidade
com as propostas de “Terceira Via” (“nem neoliberalismo”, “nem comunismo”, tidos como
20
“[...] a ideologia conservadora tende sempre a olhar para a sociedade como um organismo vivo.” (COUTINHO, 2014,
p. 70).
13
os extremos contemporâneos). Tais propostas, formuladas à luz do conceito de
“modernização reflexiva”, receberam fôlego com as sociologias de Anthony Giddens
(1991) e Ulrich Beck (2010).

A importância da empiria cotidiana para os conservadores, designada por eles


como “circunstâncias”, não pode ser abstraída. As "circunstâncias" são o dado elementar
da ação. O imediato conjunto de condições objetivas com que se defronta o sujeito
conservador. “São as circunstâncias que rodeiam o agente a informar o tipo de ação a
seguir” (COUTINHO, 2014, p. 44). É com base nelas, ante as quais não cabem
questionamentos sobre sua causalidade, que os conservadores devem orientar a ação.

Essa orientação previne a transposição “autoritária”, para a prática, de valores


formulados em teoria. Com frequência, os conservadores denominam essa orientação
pragmática como “realista”. O “realismo”, nessa acepção, está resumido à adoção de
práticas baseadas na reiteração do cotidiano. Para eles, o “realismo” conservador abre
espaço à preservação e incentivo das singularidades subjetivas, uma vez que não tem
como objetivo universalizar ou impor valores, tal como as demais ideologias e seus
respectivos programas. Essa qualidade confere plasticidade e capacidade de antecipação
tática, conciliatória, ao conservadorismo.

Quanto às acusações de que o conservadorismo, à medida que equaliza todos os


valores, poderia incorrer em relativismo cultural, os conservadores recorrem a
ferramentas irracionais para defender-se. Essas ferramentas variam e apresentam
características subjetivistas. Vão desde “sentimentos naturais” que se inquietam contra a
“iniquidade” e a “injustiça”, “valores primários” incutidos pela “providência”, “decências
fundamentais da vida”, até as “obrigações de justiça” (COUTINHO, 2014). Seriam essas
as unidades morais últimas, imprescindíveis para o estabelecimento de qualquer
sociedade “civilizada” e únicas a serem defendidas como prioritárias.

Estruturas basilares, elas não são prescritivas, mas negativas, dizem respeito às
restrições relativas às variadas formas de violência, isto é, consistem num sistema
normativo mínimo. Essa determinação negativa fornece a solução para desfazer a
aparente antinomia entre a recusa conservadora da universalização de valores abstratos
e a necessidade de cristalização de um patamar moral básico, garantidor da reprodução
coesa da sociedade.

14
Essas estruturas dão forma ao conjunto de circunstâncias que devem ser evitadas,
um patamar moral a ser preservado, no caso de mudanças sócio-políticas serem fizerem
necessárias. Fornecendo conteúdo social a esse patamar, estão: a injustiça, o crime, a
pobreza, a guerra, compreendidos como “males primários” porque despertam
“naturalmente” o “desgosto moral” de qualquer sociedade (COUTINHO, 2014), impedindo
que muitos sujeitos acessem os avanços civilizatórios. Não é difícil capturar a forma
abstrata e reificada pela qual o conservadorismo aborda essas expressões das
contradições da sociabilidade capitalista. A consequência dessa abordagem é a proposta
de “soluções” correspondentemente reificadas, expressadas, entre outras dimensões, nas
variadas propostas regressivas endereçadas ao Estado e sua institucionalidade.

A referida capacidade de antecipação “realista” é a pedra de toque do “pluralismo


político”, ideia central do conservadorismo moderno e que não se confunde com o
relativismo. Para este último, é preciso “respeitar” as diferenças, até mesmo quando elas
forem irreconciliáveis. Essa dimensão é que permite evitar a “falácia agregadora”
(COUTINHO, 2014 p. 48) das “cartilhas ideológicas”, que tendem a hipostasiar seus
valores exclusivos. O conservadorismo se entende afastado da equalização (por baixo)
operada pelas ideologias utópicas e seus valores supostamente universais. Sua crítica às
ideologias consiste na inferida simplificação esquemática realizada por elas (KIRK, 2014).
Essa simplificação não leva em consideração a complexidade do “real”, segundo o
conservadorismo.

A autoimagem do conservadorismo moderno o apresenta como via especial para o


aprofundamento das liberdades individuais (valor caro aos liberais) e para a expansão das
capacidades dos indivíduos (ideia cara à tradição marxista). Em qualquer das correntes e
a depender da conjuntura, o conservantismo tenta aparecer como o canal mais prudente
e seguro para a condução das mudanças sócio-políticas (estritamente) necessárias. No
mesmo sentido, parece corporificar as melhores balizas para a razão, entronizando
princípios valorativos como: a prudência, o “realismo”, a “humildade” e o “ceticismo
metodológico”.

Quanto ao processo de individuação, ideia mestra para qualquer sistema de saber


que teorize sobre a sociedade, o conservadorismo situa a centralidade das tradições
(tradicionalismo). Para os conservadores, as tradições, incluindo as rituais e institucionais,
oferecem os elementos imprescindíveis para a inserção do indivíduo na sociedade. A
função pedagógica que as tradições exercem sobre os sujeitos é reconhecida e

15
valorizada pelo conservadorismo moderno. É por essa mediação que valores são
produzidos, difundidos e incorporados como uma espécie de “segunda natureza”,
passando a orientar os comportamentos de uma maneira (quase) espontânea, pois
tendem a se transformar em hábitos e costumes (COUTINHO, 2014).

Para os conservadores, se uma tradição está viva e atuante, esta evidência


empírica serve como fundamento para preservá-la. Isso porque a condição de
sobrevivência histórica de uma tradição é sua capacidade de fornecer subsídios úteis à
reprodução das sociedades. É por intermédio das tradições que os indivíduos adquirem a
“gramática” necessária ao desempenho bem-sucedido (racional, na concepção
conservadora) de suas funções na sociedade. “[...] ao indivíduo cabe receber o que foi
preservado; desfrutar dessa herança como fiel depositário; e passá-la às gerações
vindouras em uma cadeia que se percebe como invisível e interminável” (COUTINHO,
2014, p. 61). Esta concepção de individuação do conservadorismo, expressa em termos
“jurídicos”, faz abstração da complexa teia categorial mobilizada em todo processo dessa
natureza. Nesta acepção, a individuação é descrita como reiteração de um patrimônio
construído por gerações passadas.

O conservadorismo moderno valoriza os “preconceitos”. Para essa corrente, os


"preconceitos" são tomados como sistema de valores acumulados. Longe do sentido
comum que os debates cotidianos fornecem ao termo “preconceito”, geralmente
associado a algum tipo de discriminação, no entender do conservadorismo, eles são
balizas seguras para a orientação da ação social (e política) racional (COUTINHO, 2014)
porque representam o conjunto de saberes adquiridos com o passar do tempo.
Constituem, igualmente, o arco de ação das reformas sociais possíveis. Reformas que
aprimorem, preservando, a tradição, já devidamente testada e experimentada
empiricamente.

No léxico conservador, as reformas constituem pequenas mudanças nos estritos


limites do tradicionalismo e funcionam como importantes estratégias de prevenção de
situações revolucionárias. São mudanças localizadas, específicas, transitórias, pontuais,
paulatinas, absolutamente necessárias para evitar a degradação de algum traço da
tradição. Uma concepção de reforma, como se pode notar, contraposta àquela produzida
pela melhor tradição marxista.

As relações do conservadorismo com o capitalismo constituem outro elemento


central para uma problematização dessa temática na contemporaneidade. Elas sintetizam
16
as demais dimensões esboçadas acima: produção de conhecimento, tradicionalismo (que
envolve a preservação das instituições) e individuação, fundamentos para a ação social e
política.

São conhecidos os conflitos entre o conservadorismo, no seu momento fundador, e


o capitalismo. Conflitos advindos, prioritariamente, das mudanças relativamente rápidas e
profundas que o capitalismo imprime nas tradições sociais, políticas, culturais e
econômicas do antigo regime. A primeira geração de conservadores captou essa
determinação, mas sob uma perspectiva reificada, não ontológica. Suas críticas giraram
em torno de condenações morais ao capitalismo, tal como os socialistas utópicos, em
outro diapasão. Seus argumentos apontavam, sobretudo, para os riscos de decadência
moral decorrentes da racionalidade contábil capitalista. Os conservadores modernos
trataram, no entanto, desde a década de 1970, de resgatar na tradição conservadora
clássica os indícios conciliatórios com a tradição liberal.

Esse conflito aparente entre as constantes mudanças (institucionais inclusive)


imanentes ao capitalismo e os princípios do conservadorismo ganhou outra dimensão,
para os conservadores, com as posições polêmicas de Margaret Thatcher à frente do
Reino Unido (COUTINHO, 2014). Figura expoente do conservadorismo, causou alvoroço,
no primeiro momento, ao assumir explicitamente a necessidade de implementação da
agenda neoliberal. Essa agenda, repleta de medidas de longo alcance, significou
alterações substantivas nas instituições estabelecidas.

Ao final de sua administração, esse é o ponto que nos interessa, os conservadores


pareciam menos reativos às mudanças institucionais no interior do capitalismo. Saiu
fortalecido o argumento de que, se o capitalismo expressa a natureza comercial nos
homens, as reformas que servirem à ampliação das liberdades de mercado estarão de
acordo com essa natureza (COUTINHO, 2014). Isso implica: desregulamentação,
liberalização, privatizações e reformas tributária, fiscal, monetária, trabalhistas, entre
outros encaminhamentos político-institucionais. Dessa maneira, a primeira conciliação do
conservadorismo com o capitalismo, encontrada na sociologia de funcional-positivista, foi
complementada com a composição (neoliberal) política e institucional de Thatcher. Desta
feita, para preservar o sistema estabelecido, há de serem assumidas as reformas
(institucionais) necessárias.

Desde então, na pauta teórica do conservadorismo, não são mais estranhas


algumas concepções fundantes do liberalismo/liberismo. Entre outras, toma assento a
17
ideia do capitalismo como universalização natural das relações de troca e intercâmbio,
desdobramento do homo economicus. As ideias sobre as funções do Estado, dos
mercados, do individualismo (autodeterminação pelo mercado), também deixaram de
causar desconforto aos ("neo") conservadores.

A reconciliação do conservadorismo com o liberalismo completou-se na


incorporação da ideia de que o lucro é a mediação fundamental do desenvolvimento,
individual e coletivo. Daí em diante, o mercado livre passa a ser visto como portador e
fundador das possibilidades de explicitação das capacidades humanas. Os ("neo")
conservadores se adiantaram, desde então, ao trabalho de recuperar na tradição
conservadora clássica, todos os indícios que poderiam aproximar Edmund Burke a Adam
Smith. Realizada essa tarefa, tornou-se possível reclamar os princípios liberais com a
rubrica da tradição conservadora, acrescida da força da tradição liberal.

Essa reconciliação, em síntese, aparece com os seguintes termos: o capitalismo


“[...] é a concepção menos romântica de ordem pública que uma mente humana já
concebeu” (KRISTOL, Irving. apud COUTINHO, 2014, p. 88). Ou, nas palavras do
historiador conservador português João Pereira Coutinho, “o capitalismo não parece
despertar o mesmo fervor que outros ideais econômicos ou éticos [...] um conservador
deve começar por valorizar uma ‘sociedade comercial’” (2014, p. 88).

Evidentemente, os fundamentos da acumulação do capital, que supõem a


exploração do trabalho como determinação ontológica e mediante a qual se produz e
valoriza o valor, sequer acenam nesse terreno e o modo de produção capitalista é
encarado, reificadamente, como se fosse apenas a universalização (natural e
espontânea) das trocas mercantis. Segundo a visão conservadora, reconciliada com os
preceitos liberais, trata-se, apenas, de zelar pelas qualidades morais necessárias à sadia
permanência dos indivíduos dos mercados.

Em poucas palavras, Samuel Gregg reúne determinações centrais que farão parte
das preocupações teóricas e políticas dos “neoconservadores”: “A vida comercial exige,
por exemplo, que os indivíduos corram riscos prudentes, confiem nos outros e sejam
diligentes, industriosos e confiáveis.” (apud COUTINHO, 2014, p. 93, grifos nossos). Essa
nova agenda conservadora, que envolve a centralidade e a universalização dos riscos,
bem como a necessidade de resgatar a confiança, nos indivíduos e instituições, passa a
ser parte importante, também, de algumas correntes teóricas da sociologia
contemporânea.
18
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Construindo uma síntese, é possível afirmar que o conservadorismo moderno, em


linhas gerais: (i) opera a desistoricização do tempo presente, baseada numa concepção
de mundo "presentista"; (ii) há uma aproximação entre o sistema de ideias conservador e
outras tradições de pensamento da burguesia: o liberalismo, o pragmatismo e o
empirismo; (iii) o conservadorismo moderno também hiperdimensiona e hipostasia o
saber prático; (iv) faz uma dura crítica ao racionalismo e procura distância do
irracionalismo, entronizando uma concepção de razão extraída das formulações
positivistas; (v) valoriza a função das tradições no processo de individuação; (vi) engrossa
a fileira da defesa de reformas sociais que não afetem a estrutura da sociedade vigente e,
nesse sentido, coloca-se como o veículo prudente para conduzir as "mudanças
necessárias", sem recair nas variadas formas de "totalitarismo".

As anotações aqui registradas têm caráter aproximativo e provisório. Com essa


característica, sinalizamos a necessidade de maior concretização de algumas
determinações, a exemplo das relações entre a crise estrutural do capital e as tendências
do cenário ideológico da burguesia. Do mesmo modo, são necessários avanços no
sentido de qualificar melhor a recepção do conservadorismo clássico pelo pensamento
social brasileiro, clareando suas relações com a nossa passagem sui generis à
modernização capitalista. Essa assimilação, que avança até o conservadorismo moderno,
dá indícios de desenvolvimento que podem ser designados, parafraseando Roberto
Schwarz (2014), como "as ideias em seu devido lugar", uma vez que, aqui, os traços que
se acentuam do sistema de ideias conservador são, precisamente, aqueles mais à direita.

Recebido em 7/1/15 Aprovado em 10/3/15

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Errata:

No artigo O conservadorismo moderno: esboço para uma aproximação, de autoria de Jamerson


Murillo Anunciação de Souza, publicado no periódico Revista Serviço Social & Sociedade nº 122,
edição de abr-jun/2015,

Onde se lia:

Essa mudança de significado, ampliando o leque... aproximada às tendências do pragmatismo,


constrói a possibilidade para uma aproximação com o pensamento liberal.

Leia-se:

Essa mudança de significado, ampliando o leque de possibilidades teóricas e políticas, apoiada


também sobre uma concepção “presentista”, aproximada às tendências do pragmatismo, constrói
a possibilidade para uma aproximação com o pensamento liberal.

22
¿Qué es el neodesarrollismo?
Una visión crítica. Argentina y Brasil
What is neo-developmentism? A critical view. Argentina and Brazil

Claudio Katz*

Resumen: El ensayo neodesarrollista de Argentina ha quedado


afectado por la renuncia a una mayor apropiación estatal de la renta y
por los subsidios improductivos a los capitalistas. Se reforzaron los
perfiles extractivos y los desequilibrios industriales. Brasil no afrontó
crisis y rebeliones de la misma envergadura y su política económica
ha sido más conservadora. El neodesarrollismo es un programa de
economías medianas afectadas por agroexportaciones, que disuaden
la inversión fabril. Se intenta reorientar ese excedente pero se retroce‑
de frente a los conflictos que suscita.
Palabras claves: Modelos económicos. Crisis. Capitalismo. América
Latina

Abstract: Argentina´s neo-developmental trial was affected by the renunciation of a larger state
appropriation of the income and by the unproductive subsidies to capitalists. Both the extractive profiles
and the industrial imbalances were reinforced. Brazil did not face crises and rebellions on the same
scale, and its economic policy has been more conservative. Neo-developmentism is a program of
medium economies affected by agro-exports that deter the industrial investment. It aims at reorienting
that surplus, but it moves backwards when it is faced with the conflicts raised.
Keywords: Economic models. Crisis. Capitalism. Latin America.

* Licenciado en Economía, Universidad de Buenos Aires, Argentina. Doctor de la Universidad de Buenos


Aires. Facultad de Filosofía y Letras, área Geografía, e-mail: <claudiokatz1@gmail.com>.

224 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.021
E
n Argentina se implementó el principal ensayo del ­neodesarrollista
de la última década. El país volvió a encabezar los virajes econó‑
micos de la región, como ya ocurrió en los años 50-60 con la
sustitución de importaciones y en los 90 con el neoliberalismo
extremo. Reafirmó su papel de experimentador de mutaciones significativas
en América Latina. Este rol de adelantado es reivindicado por los autores que
ponderan el modelo, en comparación a los esquemas ortodoxos de otras
economías.1

Un corto ensayo
El esquema intentado en Argentina logró cierta efectividad en la fase
inicial del gobierno kirchnerista. Durante ese período (2003-2007) se reunieron
las condiciones para lograr alto crecimiento, con baja inflación y recuperación
del empleo.
Las políticas neodesarrollistas aportaron un tercer ingrediente a los fun‑
damentos objetivos de este ciclo. El primer determinante fue la depreciación de
los salarios y la consiguiente recomposición de la rentabilidad que legó el
derrumbe del 2001. El segundo motor de la expansión fue la valorización inter­
nacional de las agroexportaciones.
Las iniciativas neodesarrollistas introdujeron cambios en la ­administración
del estado y un nuevo arbitraje entre los grupos dominantes. Pero este curso
mantuvo muchos vasos comunicantes con el esquema precedente. Subordinó
la meta de reindustrializar a la continuidad de exportaciones primarizadas y
apuntaló a los sectores empresarios más internacionalizados.
El modelo limitó inicialmente la valorización financiera y adaptó el rumbo
de la economía a la nueva relación social de fuerzas impuesta por la rebelión del
2001. Hubo contemporización con las demandas populares y se recurrió a una
mayor escala de asistencialismo.

1. Bresser Pereira, Luiz Carlos. Globalización y competencia. Buenos Aires: Siglo XXI, 2010. p. 129,
141-142.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 225
Durante cuatro años se pudo gestionar la economía con los parámetros del
modelo Bresser-Ferrer. Hubo superávit fiscal primario, alto tipo de cambio,
bajas tasas de interés y expansión del consumo. Pero la acelerada disipación de
esta coyuntura anticipó el escaso margen existente para mantener ese curso.
En el 2007-2010 comenzó la inflación y se frenó el crecimiento. El mode‑
lo persistió con los nuevos impulsos aportados por la introducción de un ingre‑
so universal asistencial y la estatización de los fondos de pensión. Con esas
medidas se intentó sostener un esquema ya amenazado por el deterioro de sus
principales variables.
Esos desequilibrios emergieron con fuerza a partir del 2011. La inflación
se intensificó, la producción se estancó, el déficit fiscal reapareció y fallaron
todas las iniciativas implementadas para revertir el declive. El control de cam‑
bios, la pesificación y la expansión de la emisión no atenuaron el resquebraja‑
miento del modelo.
A comienzo del 2014 resurgieron finalmente las tensiones clásicas de la
economía argentina que condujeron a las repetidas debacles del pasado. La
reiteración de esos colapsos se encuentra actualmente contrarrestada por el li‑
mitado nivel de endeudamiento público y privado, la solvencia de los bancos y
la continuada valorización de las exportaciones. Por esta razón el PBI se contrae,
pero con apuestas a un rebote ulterior. Numerosos capitales internacionales ya
preparan su arribo para adquirir empresas.2
Sin embargo, la continuidad del proceso neodesarrollista ha quedado se‑
veramente afectada por el debilitamiento político-electoral del kirchnerismo.
Es muy probable que en los próximos años, Argentina atraviese un giro políti‑
co semejante al observado al final de los grandes ciclos de las últimas décadas.
Ya ocurrió a mitad de los 70, durante los 80 y en el 2001-03. En los tres casos
el peronismo registró una convulsión mayúscula y pudo reconstituirse, pero sin
recuperar la fidelidad popular que rodeó a su gestación. Ha sobrevivido más
que otras fuerzas semejantes de América Latina transitando por una amplia

2. Nuestra visión general en: Katz, Claudio. La economía desde la izquierda I. coyuntura y ciclo, II.
Modelo y propuestas. Argenpress, 29 nov. 2013. Disponible en: <http://www.argenpress.info/2013/11/la‑
-economia-desde-la-izquierda-i.html>.

226 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
gama de variantes, que incluyeron el nacionalismo inicial, la radicalidad popu‑
lar, el giro represivo y el neoliberalismo.
A diferencia de sus antecesores, el kirchnerismo encabezó una adminis‑
tración con fisonomía centro-izquierdista y retórica progresista. Restauró el
sistema político, otorgó importantes concesiones democráticas y sociales e
improvisó un proyecto diferenciado del peronismo tradicional. Pero no logró
generar una identidad política sustituta.3
Este período concluye con un giro conservador de adaptación a las de‑
mandas del establishment. Este viraje incluye una gran devaluación y acha‑
tamientos de los salarios. A la luz de los enormes desequilibrios acumulados
durante los últimos años es muy dudosa la persistencia del curso económico
actual.

Múltiples desajustes
La elevada tasa de inflación es la principal manifestación de las tensiones
generadas por el modelo. Ese incremento de los precios supera en los últimos
seis años la media global o latinoamericana y se ha estabilizado en torno al
25-30% anual. No decae en las coyunturas recesivas y su porcentaje real fue
desconocido durante largo tiempo por la manipulación oficial de las estadísti‑
cas. La gestión cotidiana de la economía quedó afectada por esta distorsión de
un indicador clave.
El incremento de los precios obedeció inicialmente al reducido nivel de
inversión frente a una demanda recompuesta. Ese cuello de botella se reforzó
posteriormente por el manejo concentrado de numerosos sectores. La remarca‑
ción permitió mantener el nivel general de las ganancias una vez disipada la
capacidad ociosa.4

3. Nuestro enfoque en: Katz, Claudio. Nuevo escenario, nuevas posibilidades. La Página de Claudio
Katz. Textos de Ciencias Sociales, 22 mayo 2014. Disponible en: <http://katz.lahaine.org/?p=230>.
4. Schorr, Martín; Manzanelli, Pablo. Inflación oligopólica. Disponible en: <www.pagina12.com.ar>,
24-3. Inflación… Página12, Suplementos Cash, 10 mar. 2013. Disponible en: <http://www.pagina12.com.ar/
diario/suplementos/cash/17-6669-2013-03-10.html>.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 227
Algunos economistas cuestionan este diagnóstico de “inflación por oligo‑
polio”, estimando que la carestía deriva de una “puja distributiva” entre empre‑
sarios y trabajadores. Argumentan que en otros países la misma concentración
de los negocios no se traduce en inflación.5
Pero tampoco la disputa social por el ingreso genera allí el mismo incre‑
mento de los precios. En esos países los mismos desequilibrios desembocan en
otro tipo de tensiones, puesto que el recurso inflacionario no está incorporado
al manejo corriente de la actividad. Por simple experiencia, los capitalistas ar‑
gentinos apelan más a la remarcación que sus pares de otros países. Es una
conducta muy asociada con la elevada expatriación de capitales y el manejo de
inversiones dolarizadas.
Los rebrotes inflacionarios obedecen, además, a la preeminencia de una
estructura exportadora de alimentos que encarece todos los costos agrarios, al
compás de la valorización internacional de esos productos. Finalmente, en los
últimos años la inflación se intensificó por la decisión oficial de sostener el
consumo a través de una intensa emisión. Este ritmo de creación de moneda
quedó divorciado del respaldo en divisas y de los montos requeridos para la
producción. Por esta razón se acentuó la depreciación del peso.
El déficit fiscal constituye el segundo punto crítico del modelo. Ya se
aproxima al 3% del PBI y afecta duramente a las provincias, que destinan la
mitad de sus presupuestos al pago de salarios. Ante la ausencia de financiación
el gobierno promueve recortes a los subsidios del transporte y la energía para
calmar las presiones del establishment.
El tercer campo de turbulencia ha sido la caldera cambiaria que estalló a fin
del 2013. El gobierno implementó la devaluación que pretendía evitar. Intentó
contener la estampida cambiaria vendiendo reservas, pero terminó generando una
hemorragia que redujo peligrosamente el respaldo de los pesos en circulación.
También se introdujeron formas de control cambiario que los neoliberales
cuestionaron a viva voz, culpando al intervencionismo estatal por la “inestabi‑

5. Crespo, Eduardo; Fiorito, Alejandro. Es la puja distributiva”. Disponible en: <www.pagina12.com.


ar>, 17/03. “Es la puja… Página12, suplementos Cash, 17 mar. 2013. Disponible en: <http://www.pagina12.
com.ar/diario/suplementos/cash/17-6669-2013-03-10.html>.

228 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
lidad de los mercados”.6 Pero esa injerencia fue muy acotada y sólo buscó de‑
tener las presiones devaluatorias. Como Argentina no fabrica los dólares que
utiliza para solventar sus compras externas, necesita algún tipo de regulación
estatal cuando las divisas comienzan a escasear.
El gobierno intentó contrapesar el “mercado libre” que manejan los ban‑
cos y los exportadores. No violó ninguna ley de la naturaleza, ni tampoco los
principios de una economía sana. El control de cambios fue introducido en
forma tardía y se manejó con total arbitrariedad. En lugar de penalizar a los
especuladores, los funcionarios toleraron la apropiación bancaria de los men‑
guantes dólares.
Después de transitar por todos los rumbos posibles, el gobierno se embar‑
có en un ajuste que cuestiona todos los principios neodesarrollistas. Elevó
drásticamente las tasas de interés y forzó un encarecimiento del crédito que
asfixia el consumo. De un estancamiento en la creación de puestos de trabajo
se pasó a una coyuntura de menor empleo, en un marco de alta informalidad
laboral. Este contexto se ubica muy lejos de la depresión del 2001, pero el
modelo se ha quedado sin combustible.
Lo más traumático son las medidas de restricción salarial que convierten
a los ingresos populares en la variable de ajuste. La inflación licúa los salarios,
las jubilaciones y los programas de gasto social. El gobierno oculta las cifras
de pobreza e indigencia para no transparentar que su promedio actual se ase‑
meja a los decenios anteriores. Nadie puede exhibir como un logro de la “dé‑
cada ganada”, que la pobreza afecte hoy al trabajador y no al desocupado, o que
el asistencialismo evite las situaciones de extrema hambruna.
Argentina ha vivido muchas veces estas coyunturas críticas. Pero las
condiciones actuales difieren significativamente en el plano político y econó‑
mico de los antecedentes traumáticos legados por el “rodrigazo” (1975), la
hiperinflación (1989) o el colapso general (2001). La tensión actual no tiene

6. Esta postura difunden economistas ortodoxos como: Melconian, Carlos. Faltan dólares, sobran pesos...
Y seguiremos así. La Nación, Economía, 04 ago. 2013. Disponible en: http://www.lanacion.com.ar/1607100‑
-faltan-dolares-sobran-pesos-y-seguiremos-asi>. Ferreres, Orlando (2013). “Cómo salir del camino de la
decadencia”. La Nación, Opinión, 05 jul. 2013. Disponible en: <http://www.lanacion.com.ar/1598171-como‑
-salir-del-camino-de-la-decadencia>.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 229
el alcance del pasado, pero ilustra la impotencia de la receta neodesarrollista
para evitar los temblores que atormentan a la economía.

Crisis global y demanda


Los problemas del esquema ensayado en Argentina son reconocidos por
sus propios promotores. Suelen atribuir esas fallas al impacto de la crisis global
que irrumpió en el 2008. Afirman que el modelo permitió contrarrestar las
consecuencias más dramáticas de esa convulsión, pero sin neutralizar todos sus
efectos. Establecen comparaciones con Europa y remarcan las virtudes del
crecimiento nacional frente al resto de Sudamérica.7
Pero la crisis mundial afecta en forma muy diferente a cada región o país.
Basta comparar la prosperidad de China con el derrumbe de Grecia para notar
esas disparidades. El contraste que se establece entre Argentina y Europa del
Sur olvida que la primera economía soportó en el 2001, el vendaval que actu‑
almente sacude al Viejo Continente. Los ciclos de prosperidad y depresión
global no están sincronizados.
Ciertamente el divorcio del mercado financiero internacional y la prioridad
asignada al consumo, diferencian al modelo argentino de la apertura neoliberal,
imperante en otros países de Sudamérica. Pero el impacto de la crisis mundial
ha sido limitado y semejante en ambos casos, dada la afluencia común de divisas
que generó la apreciación de las exportaciones. Los precios récord de la soja y
los ingresos aportados por la agroexportación durante la última década, supera‑
ron en cinco veces el promedio de los 90 y en diez veces la media de los 80.
Los principales desequilibrios del experimento neodesarrollista radican
en el propio modelo. Ese esquema supuso que bastaba con alentar la demanda
para incentivar el despegue de un círculo virtuoso de inversión y crecimiento.
Inspirados en la heterodoxia keynesiana, sus promotores imaginaron que el
simple aliento al consumo impulsaría a toda la economía hacia un sendero de

7. Feletti, Roberto. La crisis global y el futuro de la región. La Nación, Economía, 10 jun. 2013. Dis‑
ponible en: <http://www.lanacion.com.ar/1596613-la-crisis-global-y-el-futuro-de-la-region>.

230 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
crecimiento auto sostenido. Pero lo que funcionó en el 2003-2007 perdió con‑
sistencia en el 2008-2010 y se tornó inviable desde el 2011.
Bajo el capitalismo los empresarios no sólo se interesan por el comporta‑
miento de las ventas. Priorizan las ganancias y evalúan los costos. El empuje
del consumo es reactivador en ciertas coyunturas, pero obstruye la rentabilidad
en otras circunstancias.
Los heterodoxos suelen cometer una ingenuidad simétrica al ideario neo‑
clásico, al imaginar grandes expansiones de la oferta productiva por el mero
repunte de la demanda. Esperan una reacción inviablemente positiva de los
empresarios frente a esa mejora, olvidando la gravitación de otras variables
como el riesgo o el beneficio. Su idealización del capitalismo les impide perci‑
bir las contradicciones de este sistema.
Con esas ilusiones apostaron una y otra vez a la autocorrección del mode‑
lo, mediante sencillos empujes de la demanda que terminaron generando im‑
pulsos inflacionarios, solventados con elevado gasto público y alta emisión. Lo
que funcionó durante la salida de la convertibilidad por la existencia de impor‑
tantes recursos ociosos, perdió viabilidad en la coyuntura posterior.
Esas políticas permitieron incluso ciertos resultados de corto plazo frente
a la recesión del 2009. Aprovecharon la subsistencia de un gran colchón de
fondos públicos para reanimar la economía. Pero ese excedente se disipó pos‑
teriormente. Cuando en el 2013-2014 desapareció el margen para posponer
ajustes, el gobierno recurrió a las políticas ortodoxas de contracción de la de‑
manda, que el neodesarrollismo suele objetar enfáticamente.

La renta convalidada
El ensayo neodesarrollista ha fallado por la incapacidad del gobierno para
incrementar la apropiación estatal de la renta de la soja. Esta medida es una
condición insoslayable para estabilizar un modelo de expansión productiva y
mejoras sociales. El kirchnerismo pretendió aumentar la captación pública de
ese excedente subiendo los impuestos a las exportaciones de la soja (retenciones).
Pero fue derrotado en la confrontación del 2008 con el agronegocio y desde ese
momento abandonó todo intento de retomar la iniciativa en este campo.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 231
Ese desenlace marcó un punto de inflexión. No le impidió al gobierno
preservar (y recrear) su hegemonía política, pero le quitó al estado los recursos
necesarios para la reindustrialización. Persistió cierto crecimiento, pero con los
motores del desarrollo totalmente apagados.
Argentina es una economía agroexportadora asentada en la extraordinaria
fertilidad de la tierra. Ese ventajoso acervo de recursos naturales constituye
una maldición bajo el capitalismo, puesto que establece un alto piso de renta
comparativa para cualquier otra inversión. Ninguna actividad ofrece un nivel
de rendimiento semejante al agro. Esta asimetría históricamente determinó la
preeminencia inicial de la ganadería y los cereales y su reemplazo actual por
la soja.
La industria no pudo competir durante la centuria pasada con el latifundio
terrateniente y no logra rivalizar en la actualidad con los Pools de Siembra. Un
sector primario que ofrecía escasas ofertas de trabajo a los chacareros, ya no
crea empleo en la era de la siembra directa. La aglomeración en villas miserias
que generaba el éxodo rural del interior ha devenido en informalidad laboral
masiva, a partir del deterioro de la industria.
Los distintos proyectos de industrialización que se implementaron desde
la segunda mitad del siglo XX apuntaron a contrarrestar esta tendencia a la
primarización estructural. Pero todos afrontaron el mismo límite que impone la
elevada renta agroexportadora al estrecho beneficio fabril. Como la fertilidad
natural de la tierra asegura costos muy inferiores al promedio mundial, la vieja
tentación de privilegiar el agro (o a su extensión agroindustrial) ­invariablemente
se renueva.
Esa primacía agroexportadora reapareció con fuerza en las últimas décadas
de modernización de la producción agrícola (modificaciones genéticas, agroquí‑
micos, maquinaria de última generación) y aumento de la demanda internacional
(por especulación financiera, compras de China-India y agrocombustibles).
Este escenario volvió a disuadir el tibio intento oficial de sostener la ac‑
tividad fabril, más allá de alguna sustitución de importaciones. Los capitalistas
de la soja mantuvieron su renta y el estado se quedó sin los ingresos necesarios
para desenvolver un modelo productivo. En estas condiciones el gobierno

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archivó su proyecto y se resignó a gestionar el status quo de una economía sin
dinamismo industrial.
Algunos autores extraen otro balance del conflicto con los agrosojeros.
Estiman que ese choque derivó en una radicalización progresista del oficialismo
e incentivó medidas favorables al modelo neodesarrollista (como la estatización
de los fondos de pensión y la asignación universal).8
Pero esta caracterización invierte lo ocurrido y no explica los desequilibrios
que finalmente empujaron al kirchnerismo al ajuste. Ignora que al renunciar a un
manejo mayor de la renta el gobierno perdió el rumbo y se diluyó su proyecto.
Existió otra posibilidad para retomar el control de la renta durante la crisis
cambiaria de principios del 2014 que requería especial voluntad política. El
gobierno podía intentar en ese momento la nacionalización del comercio exte‑
rior, para obligar a los exportadores y financistas a liquidar los dólares acapa‑
rados. Pero optó por el libreto convencional.
El control estatal sobre las divisas es imprescindible para superar el status
de Argentina como agroexportador de productos básicos. Únicamente el mo‑
nopolio estatal del comercio exterior asegura la comercialización centralizada
de los enormes recursos que tiene el país. Otras instituciones que ya existieron
en el pasado — como el IAPI (Instituto Argentino de Promoción del Intercam‑
bio) — podrían complementar esta labor, negociando los precios y financiando
la siembra o la cosecha. Esas entidades permitirían desvincular los precios lo‑
cales de las cotizaciones internacionales y contribuirían a contrarrestar la infla‑
ción generada por la exportación de alimentos.
El ensayo neodesarrollista socavó su propio despunte al renunciar al úni‑
co instrumento eficaz para cortar la especulación cambiaria y la facturación
fraudulenta de las exportaciones. Eludió comenzar la desprivatización de un
ingreso que pertenece a todo el país y que permitiría remodelar la producción

8. Varesi, Gastón. Argentina 2002-2011: neo-desarrollismo y radicalización progresista. Realidad Eco-


nómica, n. 264, nov.-dic. 2011. Disponible en: <http://pt.scribd.com/doc/99054275/Varesi-Gaston-2011-
Argentina-2002-2011-Neo-desarrollismo-y-radicalizacion-progresista-en-Realidad-Economica-n‑
-264#scribd>.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 233
agropecuaria, frenar la expansión de la frontera sojera, recuperar la ganadería
y recrear la vitalidad de los cereales y los cultivos regionales.

Burguesía e inoperancia
El neodesarrollismo apostó por enésima vez al comportamiento produc‑
tivo de la burguesía, olvidando los reflejos que ha perfeccionado este sector
para fugar capitales, remarcar precios y desinvertir. Las expectativas que todos
los gobiernos depositaron en esa franja siempre concluyeron en estruendosas
decepciones.
Esa conducta de los capitalistas argentinos obedece a numerosas razones.
Ha influido la formación histórica de un sector muy dependiente de la financia‑
ción estatal, tradicionalmente débil frente a la oligarquía y muy temeroso de la
clase obrera. También incide la frustrada experiencia con la sustitución de im‑
portaciones y la pérdida de posiciones frente a Brasil.
Muchos autores suelen constatar periódicamente estos fenómenos, sin
extraer ninguna conclusión. A los sumo sugieren que el estado debe ampliar su
presencia económica para sustituir esa deserción. Pero ese reforzamiento tam‑
bién generaría tensiones y no podría atravesar ciertos límites, puesto que un
modelo de “capitalismo estatal sin capitalistas” carecería de sentido.9
La frustración actual es proporcional a las expectativas depositadas en la
burguesía local. El kirchnerismo ponderó a ese sector y lo benefició con cuan‑
tiosos recursos del estado esperando mayores inversiones. Pero esos subsidios
volvieron a engrosar el patrimonio de los amigos del poder, sin ningún rédito
productivo para el conjunto de la economía. Cada vez que ese uso parasitario
salió a la superficie, el gobierno reemplazó a un favorecido por otro. Todos los
grupos privilegiados aumentaron su riqueza a costa del erario público y prote‑
gieron su dinero en el exterior.

9. Un reciente ejemplo de estos problemas en: Zaiat, Alfredo. Mariachi, burguesía y el estado. Página12,
Economía, 17 nov. 2013. Disponible en: <http://www.pagina12.com.ar/diario/economia/2-233771- 2013-11-
17.html>.

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La burguesía local participó en los negocios más rentables que le ofreció
el kirchnerismo y se retiró cuando debía aportar capital propio. En lugar de
“enterrar capital” en inversiones de largo plazo ha preferido embarcarse en
operaciones de alta rentabilidad inmediata. Con esa conducta participó en las
privatizaciones en los 90 y ahora observa con atención el posible regreso de los
fondos de inversión para la reestructuración de las empresas.
El neodesarrollismo no sólo falló por su expectativa en los capitalistas. La
última década estuvo signada también por una impotencia mayúscula en el
terreno cambiario, impositivo y financiero.
Con el manejo de dólar se experimentaron todas las alternativas de intro‑
ducción y eliminación de controles. En lugar de forjar un sistema protección de
las divisas para las actividades prioritarias, se terminó armando un barroco
dispositivo de medidas inútiles.
En el plano impositivo quedó nuevamente congelada la reforma progresi‑
va discutida en incontables oportunidades. Las propuestas para gravar la renta
financiera, el juego y las actividades minero-extractivas han sido tan numerosas,
como los proyectos para reintroducir los aportes patronales en la previsión
social. Se habló hasta el cansancio de estos temas sin ningún correlato en defi‑
niciones prácticas.
El colmo de las contradicciones oficiales ha sido la orgullosa política de
cancelar deuda externa utilizando reservas del Banco Central. Rifaron el prin‑
cipal resguardo que tiene la economía, para exhibir al gobierno como “pagador
serial”, a la espera de una respuesta amigable del mercado. Supusieron que los
banqueros reingresarían las divisas que les entregaban los funcionarios y se
abonó puntualmente una deuda pública resultante de infinitos canjes, sin inves‑
tigar su origen y legitimidad.
Esta sucesión de fracasos ha sido coronada en el 2014 con el giro hacia la
recreación del endeudamiento externo. Con ese objetivo se pagan las sentencias
que emitió el tribunal del Banco Mundial (CIADI), a favor de cinco empresas
afectadas por la pesificación que sucedió a la convertibilidad. También se reabrió
por tercera vez el canje de títulos externos en litigio, para ofrecer un nuevo
acuerdo a los fondos buitres. Estos financistas adquirieron por moneditas las

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acreencias argentinas desvalorizadas y ahora aguardan su pago integro en los
tribunales de Nueva York.10
Por el simple arreglo de los litigios pendientes, la deuda externa volverá
a crecer en forma muy significativa. La relación con el FMI es cada vez más
cordial, desde que el gobierno aceptó la supervisión del organismo en la elabo‑
ración un nuevo índice de precios. Con el Club de Paris se llegó a un acuerdo
de pago de las deudas contraídas durante la dictadura, se incrementaron sustan‑
cialmente los montos a cancelar y se reconocieron inadmisibles comisiones y
punitorios.
El gobierno busca créditos externos luego de varios años de desembolsos
que afectaron seriamente a las reservas. Presentó como un acto de “soberanía
financiera” ese gran traspaso de fondos a los acreedores. Ahora intenta reiniciar
un nuevo ciclo de endeudamiento de los entes estatales y provinciales. No sería
la primera vez que con el lema de “financiar obras de infraestructura” se utilizan
esos capitales para solventar los gastos corrientes.
Con el mismo objetivo de retomar el endeudamiento externo se ha indemni­
zado a Repsol, desconociendo la promesa de auditar el saqueo que consumó
esa compañía. Algunos economistas describen esa capitulación como un logro,
argumentando que el país necesita inversiones para recuperar el faltante ener‑
gético. Pero olvidan que hasta hace pocos años Argentina exportaba ­combustible,
mientras las reservas de petróleo y gas se desplomaban, generando el actual
bache de importaciones. Este déficit no obedece al crecimiento de la economía.
Simplemente hubo permisividad oficial frente a todos los incumplimientos de
las compañías petroleras.

Las fallas estructurales


En las áreas más estratégicas hubo muchos discursos a favor de la industria‑
lización, pero el modelo mantuvo intacto la creciente gravitación del extractivismo

10. Nuestra visión en: Katz, Claudio. ¿Cuántos buitres acosan a la Argentina? Argenpress, 01 jul. 2014.
Disponible en: <http://www.argenpress.info/2014/07/cuantos-buitres-acosan-la-argentina.html>.

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minero-petrolero. Se impulsó especialmente un tipo de minería a cielo abierto
que genera efectos devastadores sobre la Cordillera. Las empresas dinamitan
montañas disolviendo rocas con materiales químicos contaminantes. Esta activi‑
dad destruye el medio ambiente sin crear empleo, ni generar desarrollo. Engrosa
las ganancias de corporaciones internacionales que tributan bajos gravámenes.
Los defensores del modelo que reconocen estos problemas, pero argumen‑
tan que la reindustrialización ha sido el dato descollante. Remarcan no sólo esta
recuperación frente a la liberalización financiera de los 90, sino también ante
el resto de la región.11
Pero esta caracterización se basa en una repetida comparación con la
depresión del 2001. Como pocas economías padecieron un colapso tan agudo,
resulta muy sencillo demostrar la inédita envergadura de la recomposición
fabril que tuvo Argentina. Se olvida que una vez repuestos los niveles tradi‑
cionales de producción y empleo, quedó reinstalada la misma estructura in‑
dustrial dependiente y vulnerable del pasado. Por eso reapareció la elevada
importación de insumos y la escasez de divisas para solventarlos. El déficit
comercial del sector se expandió, al compás de crecientes compras externas
de bienes y equipos.
La recuperación cíclica de la última década reforzó, además, la concen‑
tración y extranjerización de la industria. Como se mantuvo una ley de inver‑
siones extranjeras que otorga total libertad para remitir utilidades, el grueso de
las ganancias fueron giradas a las casas matrices.
Las empresas trasnacionales controlan la mayor parte de la actividad in‑
dustrial y no realizan transferencias de tecnologías. Como el mercado argentino
es marginal a sus estrategias globales, el nivel de reinversión local es muy bajo.
El gobierno no sólo convalidó este escenario, sino que promovió un innecesario
boom automotriz. El contraste entre esa expansión y el desplome del sistema ferro‑
viario retrata hasta qué punto estuvieron invertidas las prioridades del desarrollo.
La reindustrialización quedó adicionalmente bloqueada por la consolida‑
ción de un sistema financiero pro-consumo y anti-inversión. Las pocas regu‑

11. Kestelboim, Mariano. Reindustrialización. Página12, suplementos Cash, 28 abr. 2013. Disponible
en: <http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/cash/17-6771-2013-04-28.html>.

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laciones heterodoxas que se introdujeron para ordenar el mercado de capitales
o actualizar la Carta Orgánica del BCRA, no alteraron la carencia de préstamos
de largo plazo. Sólo multiplicaron la liquidez que manejan los bancos para
motorizar la demanda.
El ocaso del ensayo neodesarrollista está reavivando en Argentina las
convocatorias neoliberales a imitar las políticas de apertura y privatización de
los gobiernos conservadores. Como ya se les pasó la euforia con España o Ir‑
landa, ahora elogian a Perú y Colombia, exhibiendo sesgados indicadores de
crecimiento o inversión. Nunca hablan de la vulnerabilidad financiera, que
afrontan todos los modelos abiertos al ingreso y salida de capitales especulati‑
vos. Tampoco mencionan las dramáticas consecuencias del extractivismo que
sufren las economías minero-exportadoras.
Los neoliberales auguran una lluvia de dólares cuando se “recupere la
confianza en un buen gobierno”, sin aclarar quién lucrará con esas divisas y
cuánto costará su repago. También proponen extirpar el “populismo económico”
y erradicar la perversa “intervención del estado”.12
Pero suelen desconocer el intenso estatismo que caracterizó a todos los
gobiernos pro-mercado. El gasto público nunca se redujo significativamente
bajo esas administraciones. También ellos utilizaron los recursos del estado para
subsidiar a los empresarios afines.
Al cabo de una década el neodesarrollismo tambalea. El modelo se distanció
inicialmente del neoliberalismo, pero sin incluir las medidas requeridas para llevar
a cabo la redistribución real del ingreso y el cambio de la matriz productiva. No
modificó los pilares de una economía dependiente con gran desigualdad social.

Tres interpretaciones en Brasil


En Brasil existe un intenso debate sobre el neodesarrollismo y su grado de
aplicabilidad al gobierno del PT (Partido de los Trabajadores). Esta controver‑

12. Cortés Conde, Roberto. Acumular desequilibrios, la causa de las crisis recurrentes del país. La
Nación, Economía, 15 sept. 2013. Disponible en: <http://www.lanacion.com.ar/1619871-acumular-desequi‑
librios-la-gran-causa-de-las-crisis-recurrentes-en-el-pais>.

238 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
sia ilustra cuán discutible es la presencia de un modelo de ese tipo en la princi‑
pal economía sudamericana.
Estas reservas provienen de la evidente continuidad que mantuvo el primer
mandato de Lula con la política económica precedente. Allí estuvo totalmente
ausente la ruptura que introdujo en Argentina el derrumbe de la convertibilidad.
La gestión inicial del sucesor de Fernando Henrique Cardoso sorprendió
por la sintonía que mantuvo con su antecesor. La nueva gravitación social alcan‑
zada por los trabajadores, no se plasmó en un proyecto diferenciado de las tra‑
diciones dominantes. El PT llegó al gobierno con la explícita aprobación de los
grandes grupos capitalistas. No irrumpió en forma imprevista como Kirchner y
adoptó desde el inicio una postura extremadamente conformista.13
Por esta razón muchos autores utilizaron denominaciones complementarias
del neoliberalismo (social-liberalismo, neoliberalismo atenuado) para caracte‑
rizar el primer período de Lula. En ese debut no se avizoraron elementos de
giro neodesarrollista. Pero en el mandato posterior y en la administración de
Dilma aparecieron ingredientes de un viraje que han suscitado tres caracteriza‑
ciones distintas.
Un primer enfoque considera que en estos períodos se consumó el pasaje
hacia el neodesarrollismo. Estima que el recetario ortodoxo fue desechado y
que Lula debió otorgar concesiones al gran capital (altas tasas de interés, siste‑
ma impositivo regresivo, preeminencia del agronegocio), para reintroducir la
política industrial. Este curso es visto como una variante conservadora, que
igualmente alentó la inversión pública y estimuló el consumo, mediante aumen‑
tos de la ayuda social y del salario mínimo.14
La segunda caracterización remarca el continuismo y la ausencia de
rupturas con el neoliberalismo. Estima que el PT se amoldó al “Consenso
Pos-Washington” con políticas económicas que estabilizaron el mismo curso
de las últimas décadas. Sólo se introdujeron ciertas regulaciones en las priva‑

13. Arcary, Valerio. Brasil dez anos de governos de coalizão dirigidos pelo PT, uma análise em pers‑
pectiva histórica. Adital, 27 mar. 2013. Disponible en: <http://site.adital.com.br/site/noticia.
php?lang=PT&cod=74381>.
14. Pomar, Valter. Notas sobre a política internacional do PT. São Paulo: Secretaria de Relações Inter‑
nacionais do PT, 2013. p. 23, 60-62, 79-92. (Textos para debate, v. 7.)

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 239
tizaciones, algún control en la liberalización financiera y acotados límites a
la apertura comercial.
Esta visión rechaza cualquier identificación del modelo de Lula con el
neodesarrollismo, señalando que esta última tradición implica liderazgo de la
burguesía industrial, sustitución de importaciones y posturas nacionalistas.
Estima que ese legado contrasta con la primacía asignada a la exportación y a
la liberalización comercial, en un marco de apertura al capital extranjero, des‑
nacionalización y dependencia tecnológica.15. Otras variantes de este enfoque
resaltan la continuada vulnerabilidad de la economía y de políticas ortodoxas
encubiertas.16
Finalmente existe un tercer planteo intermedio. Señala que la experiencia
gubernamental ha desmentido tanto a los aprobadores, como a los opositores
del rumbo imperante. Estima que las corrientes neodesarrollistas al interior del
gobierno fueron ganando posiciones frente a las vertientes monetaristas, hasta
imponer correctivos a la etapa inicial. Estos cambios se plasmaron en nuevas
políticas fiscales de estímulo productivo, inversión pública y expansión del
Programa “Bolsa Familia”.
Este giro se conceptualiza como una política híbrida, que permitió cierto
crecimiento sin generar un programa coherente. La estrategia macroeconómica
neoliberal del comienzo quedó entrelazada con iniciativas posteriores de cuño
neodesarrollista.17
Esta caracterización destaca que en el segundo mandato Lula modificó la
primacía inicial de los bancos a favor de la industria. Estima que consumó un
viraje de altas tasas de interés y políticas de libre ingreso de capitales, a orien‑
taciones que privilegian la actividad fabril, con subsidios financiados por la
previsión social. Considera que el Lulismo tomó partido por las fracciones de

15. Gonçalves, Reinaldo. Novo desenvolvimentismo e liberalismo enraizado. Serviço Social & Socie-
dade, São Paulo. n. 112, out.-dez. 2012.
16. Sampaio, Plínio de Arruda. Brasil. Hechos y mitos de los gobiernos. Diario Vive, 30 oct. 2012.
Disponible en: <http://www.dariovive.org/?p=4439>.
17. Saad Filho, Alfredo; Morais, Lecio. Da economia política à política econômica: o novo desenvol‑
vimentismo e o governo Lula. Revista de Economia Política, v. 31, n. 4, out.-dez. 2011.

240 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
la burguesía que disputan con el capital financiero, resisten la desnacionaliza‑
ción y propician la protección del estado frente a sus rivales extranjeros.18

Comparación entre dos países


Las tres posturas en el debate brasileño divergen sobre el grado de incor‑
poración de elementos neodesarrollistas al modelo económico del PT. Pero
todas las posturas reconocen la gran distancia existente con la experiencia
argentina.19
En ningún momento se insinuaron en Brasil medidas comparables a la
nacionalización de los fondos de pensión o conflictos equivalentes al choque
que opuso al gobierno argentino con el agronegocio. En los dos países hubo
impulso al consumo, asistencialismo, políticas contracíclicas y fomento parcial
a la reindustrialización. Pero el lulismo nunca introdujo las iniciativas neode‑
sarrollistas que caracterizaron al kirchnersimo.
Esta diferencia obedece a la disparidad de escenarios político-sociales que
han imperado en ambas naciones. El lulismo y el kirchnerismo constituyen dos
variantes de las mismas administraciones de centro-izquierda. Pero se han de‑
senvuelto en contextos muy distintos.
Mientras que el gobierno de Brasil acentuó durante su gestión la desmo‑
vilización social, el legado de la rebelión del 2001 obligó a sus pares del Cono
Sur a gobernar con un ojo puesto en la reacción de los oprimidos. Recompusie‑
ron en Argentina el poder de los privilegiados, otorgando importantes conce‑
siones democráticas y sociales al grueso de la población.
Lula no estuvo sometido a las presiones desde abajo que forzaron a los
Kirchner a actuar en un tembladeral. El matrimonio K reconstruyó un estado
colapsado por el desmoronamiento de la convertibilidad, frente a un PT que
mantuvo casi intacta la estructura transferida por Cardoso.

18. Boito Jr., Armando. A economia capitalista está em crise e as contradições tendem a se aguçar.
Brasil de Fato, São Paulo, n. 475, p. 5, 7 abr. 2012.
19. Una comparación en: Crespo, Eduardo (2013). “Es un mito...”. Página12, suplementos Cash, 20
ene. 2013. Disponible en: <http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/cash/17-6552-2013-01-20.html>.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 241
Esta diferencia explica la divergente incidencia del neodesarrollismo. En
Argentina se ensayó un esquema con creciente regulación estatal, para recom‑
poner un mercado interno devastado. En Brasil la continuidad socio-liberal
inicial fue pausadamente sustituida por medidas de intervención, para con‑
trarrestar la erosión generada por la ortodoxia monetarista. Condiciones po‑
líticas disímiles determinaron orientaciones económicas distintas.
Tal como ocurrió en Argentina desde el 2003, los indicadores económicos
de Brasil comenzaron a mejorar a partir del 2006, provocando cierto descon‑
cierto entre quiénes auguraban un rápido eclipse. El crecimiento de las reservas
internacionales, la mejora de la posición externa de Brasil, la reducción de la
pobreza absoluta y el aumento del crédito de consumo sorprendieron a muchos
analistas.
Al igual que en Argentina este resultado obedeció a una combinación de
condiciones externas favorables (bajas tasas de interés, afluencia de capital,
mejora de los términos de intercambio) y políticas internas de apuntalamiento
de la demanda. La escala de la recuperación económica fue inferior en Brasil,
porque ese país no atravesó un desplome comparable al padecido por Argenti‑
na, ni contó con el rebote que generan esos colapsos.
Pero una vez concluido el ciclo ascendente, en ambos países afloran las
mismas contradicciones de modelos que impulsan la demanda, sin remover las
obstrucciones estructurales al desarrollo.
En el caso brasileño la tasa de crecimiento 2006-2013 ha sido muy baja
en comparación a períodos precedentes y estuvo sostenida en esquemas de
endeudamiento para expandir el consumo. La tasa de inversión (17-20% del
PBI) fue inferior a la media histórica y el pago de intereses de la deuda (40-45%
de la recaudación fiscal) continúa agobiando a la economía.20
El ascenso geopolítico que registra Brasil no se traduce en una expansión
económica equivalente. Encabeza el bloque sudamericano, auspiciando p­ olíticas
autónomas de regionalismo capitalista y se ha consolidado como subpotencia

20. Lucena, Eleonora de. Dilma precisa de coragem para colocar em prática o que fala, diz Carlos
Lessa. Folha de S.Paulo, caderno Mercado, 14 jan. 2013. Disponible en: <http://www1.folha.uol.com.
br/mercado/2013/01/1213859-dilma-precisa-de-coragem-para-colocar-em-pratica-o-que-fala-diz-carlos-
lessa.shtml>.

242 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
hemisférica. Pero su influencia es reducida en comparación a otras economías
intermedias de Asia o Europa, que ganan espacio en el escenario global.
Un proyecto neodesarrollista industrializador choca en Brasil con la prio‑
ridad asignada a la agroexportación, en desmedro del desenvolvimiento manu‑
facturero. El país depende cada vez más del agronegocio y esta limitación es
incluso reconocida por las visiones más afines al modelo actual.21
El freno al desenvolvimiento industrial se verifica en la pérdida de com‑
petitividad y en la fuerte gravitación del denominado “costo Brasil”. Esa obs‑
trucción se corrobora, además, en el estancamiento tecnológico y en la obso‑
lescencia de la infraestructura. Si en la segunda etapa del PT ganó espacio el
lobby industrial, esa incidencia no ha generado una recuperación fabril signifi‑
cativa. Una gran distancia separa los esbozos actuales de neodesarrollismo de
los viejos modelos centrados en la prioridad industrial.22

¿Se masifica la clase media?

Algunos pensadores estiman que los efectos benéficos del neodesarrollis‑


mo no se verifican en la estructura económica de Brasil, pero ya se corroboran
en la expansión de la clase media. Destacan la consolidación de un nuevo seg‑
mento intermedio que reconfigura la fisonomía social del país.23
Pero esta caracterización sobredimensiona el ascenso del nuevo sector
utilizando los mismos criterios que difunde el Banco Mundial. Este organismo
postula que “la extensión de la clase media transforma a Latinoamérica”, a
partir de un inédito aumento de ese sector (30%) entre el 2003 y el 2009.

21. Serrano, Franklin. Brasil debe ser la locomotora. Página12, El País, entrevista de Franklin Serrano
a Javier Lewkowicz, 16 abr. 2013. Disponible en: <http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-218827-2013-
04-26.html>.
22. Carneiro, Ricardo de Medeiros. Velhos e novos desenvolvimentismos. Economia e Sociedade,
Campinas,  v. 21, dez. Disponible en: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
06182012000400003>.
23. García, Marco Aurelio. El nuevo desarrollismo. Revista Socialista, 31 oct. 2010. Disponible en:
<http://www.revistasocialista.com.ar/taxonomy/term/26>.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 243
Estos cálculos se basan en estimaciones inconsistentes que ubican en la
clase media a cualquier trabajador que gane 10 dólares por día, más allá de las
desigualdades imperantes en la sociedad. La pertenencia a una clase no se de‑
fine en comparación a otros grupos, sino en función de la simple tenencia de
cierto ingreso. Quiénes alcanzan ese piso quedan automáticamente ubicados
fuera del universo de los humildes.
Con ese enfoque supone que la clase media se expande junto al aumento
de la polarización social. La ampliación de ese segmento ya no atempera las
brechas entre ricos y pobres, pero es igualmente retratada como un colchón
intermedio.24
El discurso de crecimiento de la clase media se generalizó en Brasil a
partir de las mejoras registradas en el salario mínimo. Se incluyó dentro del
nuevo estrato a todos los trabajadores que obtienen un ingreso per cápita entre
141 y 500 dólares mensuales. Con ese cálculo se afirma que el 54% de la po‑
blación pertenece a la clase media. Pero esta conclusión es poco realista en un
país que ocupa la posición 84 en el índice mundial de desarrollo humano.25
Ciertamente hubo mejoras sociales reales en la última década. La recupe‑
ración de los salarios más postergados, los incrementos obtenidos en las nego‑
ciaciones de las convenciones colectivas y el mayor financiamiento educativo
retratan esos desahogos. Los beneficiarios del Programa Bolsa Familia obtu‑
vieron una importante tajada de estos avances.
Pero el grueso de los campesinos quedó afectado por la concentración de
la tierra y la disminución de la desigualdad fue muy limitada, en un país donde
el 10% de la población posee el 75% de la riqueza del país. Además, la tasa de
explotación se mantuvo invariable y se profundizó la precarización mediante

24. Adamovsky, Ezequiel. El mito del aumento de la clase media. Clarín, Opinión, 26 dic. 2012. Dis‑
ponible en: <http://www.clarin.com/opinion/mito-aumento-clase-media-global_0_835716476.html>. Gan‑
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site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=PT&cod=72805>.
25. Berterretche, Luis. Los tramposos delirios de los tecnócratas del Banco Mundial. Argenpress, 10
abr. 2013. Disponible en: <http://www.argenpress.info/2013/04/los-tramposos-delirios-de-los.html>. Pasa‑
rinho, Paulo (2012). “El milagro propagandístico de la explosión de la clase media”, 06 ago. 2012. Disponi‑
ble en: <http://www.vientosur.info/spip.php?article7023>.

244 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
distintas formas de subcontratación. Un tercio de los nuevos empleos del pe‑
ríodo fueron absorbidos por los trabajadores terciarizados.26
La expansión de la clase media es frecuentemente identificada con la
simple modernización del consumo. No se toma en cuenta que ese incremento
de los volúmenes de compra se concretó con formas de crédito y tasas de inte‑
rés poco sustentables. La persistencia de 30 millones de pobres cuestiona se‑
riamente la presentación de Brasil como un país de segmentos medios. Se ha
creado un nuevo círculo de ese sector, pero en un escenario de continuada
segmentación social y convalidación del asistencialismo.

Denominaciones y proyectos
La caracterización del neodesarrollismo como un proyecto económico
diferenciado del desarrollismo clásico y del neoliberalismo suscita fuertes con‑
troversias. Algunos autores cuestionan la especificidad de esta corriente, esti‑
mando que su nombre oculta meras intenciones y proyectos no realizados.
Consideran que no existen logros acordes a los objetivos enunciados en el
terreno de industrialización o el desenvolvimiento.27
Pero es muy frecuente la aparición de términos que aluden a ciertas metas
sin guardar sintonía con su concreción. Como esta situación se verifica actual‑
mente con el neodesarrollismo, conviene discutir el contenido del proyecto,
evitando discusiones sobre la legitimidad de su nombre.
Si la validez del término asumido por cada enfoque estuviera determinada
por el grado de cumplimiento del programa invocado, resultaría imposible
cualquier clasificación. Nadie podría referenciarse en el socialismo (puesto que
no existen sociedades igualitarias) o en el liberalismo (ante la ausencia de eco‑
nomías gobernadas por la pureza del mercado).

26. Sampaio, Plínio de Arruda (2012). Brasil. Hechos y mitos de los gobiernos. Diario Vive, 30 oct.
2012. Disponible en: <http://www.dariovive.org/?p=4439>.
27. Cantamutto, Francisco J.; Costantino, Agostina (2013) Neodesarrollismo: ¿cuánto hay de nuevo?
Revista Herramienta web 14, oct. 2013. Disponible en: <http://www.herramienta.com.ar/herramienta-web-14/
neodesarrollismo-cuanto-hay-de-nuevo>.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 245
Al igual que cualquier otro concepto político o económico, el neodesarrollis‑
mo pretende singularizar un proyecto representativo de ciertos sectores sociales.
Es un error ignorarlo o descalificarlo por su distancia con el desarrollismo clásico.
Sus propios promotores asumen esas diferencias, cuando utilizan el prefijo “neo”
o el complemento “nuevo”.
La crítica a esta corriente no debe recaer en la veneración del viejo desarro­
llismo, olvidando que tampoco ese antecesor cumplió con sus metas. El frustrado
proceso de reindustrialización actual prolonga las dificultades que enfrentó la
versión fallida de los años 1950-1960. Las contradicciones con la primera expe‑
riencia anticiparon los problemas que vuelven a emerger en la actualidad.
El principal debate entre los intérpretes del neodesarrollismo opone a
quienes elogian y critican los propósitos (o resultados) de esa experiencia. En
el caso de Argentina la postura favorable que asumen ciertos pensadores (Ba‑
sualdo, Rinesi) contrasta con la mirada polémica que adoptan otros (Féliz).
Nuestro enfoque se ubica en este segundo campo.28
Esta última visión busca comprender y cuestionar los cambios de modelos
y políticas económicas, que se han registrado en América Latina en los últimos
años. Estas modificaciones se procesan al interior de un mismo patrón de re‑
producción de exportaciones básicas. La complejidad del fenómeno justamen‑
te radica en la multiplicidad de vertientes que actúan dentro de la misma etapa
del capitalismo.

Maldiciones y repeticiones
Es importante distinguir al neodesarrollismo del neoliberalismo, para
notar cómo las diferencias en el plano económico se proyectan a la esfera

28. Basualdo, Eduardo (2011) Sistema político y modelo de acumulación: tres ensayos sobre la Argentina
actual. Buenos Aires: Atuel. Rinesi, Eduardo (2011). Notas para una caracterización del kirchnerismo. Debates
y Combates. Disponible en: <http://pt.calameo.com/read/00097706107c83b4bbc4c>. Féliz, Mariano (2013) “El
neo-desarrollismo y la trampa de la renta extraordinaria. El caso de Argentina 2002-2012”, Contrapunto, n. 2,
jun., Montevideo. Katz, Claudio (2010) “Los nuevos desequilibrios de la economía argentina”, Batalla de Ideas,
n. 1, año 1, sept., Buenos Aires. Disponible en: <http://www.argenpress.info/2014_07_18_archive.html>.

246 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
política, en afinidades hacia gobiernos de centroizquierda o administraciones
derechistas.
El neodesarrollismo no es una simple bandera demagógica de presidentes
con discursos progresistas. Constituye la modalidad actual de los proyectos que
periódicamente adoptan las elites, las altas burocracias o los grupos capitalistas
de los países semiperiféricos. No es un programa en debate dentro Estados
Unidos u Honduras. Irrumpe cíclicamente en el escenario político de Brasil,
México o Argentina.
Este tipo de economías medianas necesitan retomar la industrialización.
Cuentan con importantes mercados internos y masas de asalariados, pero sin el
pilar que sostiene a esas estructuras en las potencias centrales. Han concluido
hace mucho tiempo sus procesos de acumulación primitiva, pero enfrentan
severas trabas periódicas para la acumulación de capital.
La consolidación internacional de una nueva gama de economías interme‑
dias acentúa esta necesidad de recuperar el peso fabril. Pero este mismo esce‑
nario afecta las posibilidades de concreción de esa meta. Los países latinoame‑
ricanos que desenvolvieron su industrialización con cierto nivel de salarios, no
pueden emular a los modelos asiáticos que expandieron la exportación manu‑
facturera, a partir de mercados internos estrechos y carencias de recursos natu‑
rales. Las economías de la región necesitan expandirse aceleradamente, pero
enfrentan espacios internacionales reducidos para materializar ese crecimiento.
Esta contradicción es muy severa para las naciones sudamericanas más
afectadas que beneficiadas por la abundancia de recursos naturales. Ese exce‑
dente genera una altísima renta para bienes producidos a un costo inferior al
promedio internacional. Este lucro se acrecienta cuando repunta el precio mun‑
dial de las materias primas, incentivando un rendimiento superior a la ganancia
industrial.
Todos los programas desarrollistas han debido lidiar con esta contradicción,
que induce a los capitalistas a evitar una actividad fabril de mayor riesgo y
menor retorno que el negocio primarizado. Intentan revertir esta tendencia,
canalizando porciones significativas de la renta hacia los emprendimientos
industriales rehuidos por las clases dominantes. Implementan esta política me‑
diante impuestos a las agroexportaciones y subsidios a los industriales.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 247
Las iniciativas neodesarrollistas resurgen periódicamente frente a las con‑
secuencias de la perpetuación rentista. Si los grupos dominantes se resignan al
status tradicional de sus países como exportadores de materias primas, la eco‑
nomía queda sujeta al vaivén internacional de los precios de esos productos, no
genera empleo y sufre el ensanchamiento de las fracturas sociales. Es lo que
ocurrió durante el neoliberalismo extremo de los años 1990.
Pero cuando los propios sectores dirigentes reaccionan con intervenciones
estatales para utilizar la renta en procesos de industrialización, deben afrontar
serios conflictos con los propietarios de ese excedente. Si pierden esa disputa
se generan grandes crisis, que inducen al establishment a exigir un retorno a la
situación precedente. Es lo que sucedió en Argentina en última década.
Esta oscilación histórica se ha repetido en numerosas oportunidades y
por esta razón el neodesarrollismo actual reitera frustraciones ya conocidas.
Pero como persiste el desequilibrio estructural que empuja a retomar el inten‑
to, ninguna decepción elimina la tendencia a volver una y otra vez sobre los
mismos pasos.
La definición del desarrollismo como una “religión de la periferia capita‑
lista” ilustra esta peculiar tendencia a la reiteración. Al concluir una experiencia
fallida emerge la amnesia social que hace olvidar ese fracaso, pero al mismo
tiempo se preparan las condiciones para repetir el experimento.29
Sólo otro proyecto con metas igualitarias, liderado por clases populares,
y encarado con dinámicas de lucha consecuente podría ofrecer una salida a esa
encerrona.

04 de julio de 2014.

Recebido em: 25/11/2014  ■  Aprovado em: 10/3/2015

29. Ouriques, Nildo (2012). Desarrollismo y dependencia en Brasil. Revista Pueblos, n. 51, 3 jun. 2012.
Disponible en: <http://www.revistapueblos.org/?p=2443>.

248 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015
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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 224-249, abr./jun. 2015 249
A privatização das águas no contexto da
contrarreforma do Estado brasileiro
The privatization of water in the context
of the counter-reform of the Brazilian State

Josiane Soares Santos*


Yanne Angelim Acioly**

Resumo: O artigo problematiza a chamada reforma aquária no


Brasil, proposta pelo governo federal destacando suas dimensões so‑
cioeconômicas e ambientais. Tal proposta pretende alterar as formas
de controle do acesso à água com vistas à sua privatização já que este
é um recurso natural que, além de essencial à preservação da vida,
integra todos os processos de produção. Em função disso afirma-se
que a reforma aquária se caracteriza como uma das ações da contrar‑
reforma do Estado brasileiro conforme os interesses dominantes em
busca da superação da atual crise do capital.
Palavras-chave: Crise do capital. Contrarreforma do Estado. Reforma
aquária.

Abstract: The article brings forward the so-called water reform in Brazil, as it was proposed by the
federal government. It highlights its social, economic and environmental dimensions. Such a proposal
intends to change the ways of controlling the access to water, in view of its privatization, as water is a
natural resource that integrates every process of production, besides the fact that it is essential to preserve
life. Because of that, the water reform is considered one of the actions of the counter-reform of the
Brazilian state, according to the dominant interests in search of getting over the present crisis of capital.
Keywords: Crisis of capital. Counter-reform of the state. Water reform.

* Graduada em Serviço Social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), professora adjunta do
curso de graduação e da pós-graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Ara‑
caju (SE), Brasil, mestre e doutora em Serviço Social (UFRJ). E-mail: josisoares@hotmail.com.
** Graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (Uece), professora assistente do
curso de graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Aracaju/SE, Brasil. Mes‑
tre em Políticas Públicas e Sociedade (Uece). E-mail: yanneufs@gmail.com.

250 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.022
Introdução

A
constatação do descompasso entre a exploração dos recursos da
natureza e o tempo necessário à sua recomposição tem sido
objeto de debate recorrente entre diversos atores, entre os quais,
pesquisadores, movimentos sociais, Estado, setor empresarial e
organizações internacionais, uma vez que põe em questão a possibilidade de
manutenção da vida no planeta.
Nesses termos, diferentes discursos se apresentam no cenário nacional e
internacional afirmando preocupação com os destinos da vida planetária diante
da “questão ambiental” no interior dos quais tem se revelado hegemônico o que
trata a “questão ambiental” como equivalente à “crise ambiental”, identificando
suas raízes no desperdício e/ou no limite dos recursos naturais, na produtividade
e consumo em alta escala. Nessa medida, as “saídas” propostas têm em comum
a preocupação de garantir a manutenção dos processos de valorização do capital
articulada à necessária minimização dos danos à natureza. Articulam-se a essas
interpretações as propostas de uso de “tecnologias limpas”, “economia verde”,
“consumo consciente” como formas de enfrentamento aos chamados problemas
ambientais no contexto de apelo ao “desenvolvimento sustentável”.
Nessa perspectiva de desenvolvimento econômico combinado à preserva‑
ção ambiental vem se destacando, em nível nacional, a proposta apresentada
pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) sob o signo de reforma aquária.
Com a justificativa de promover a “democratização do acesso a água para cria‑
ção de pescados” no território nacional e de inserir o país no conjunto dos
maiores produtores de pescado do mundo, o Estado apresenta mais um dos seus
“grandes projetos de desenvolvimento” em curso no Brasil. No entanto, uma
observação crítica dessa proposta aponta que a mesma se articula com a priva‑
tização, enquanto ideário clássico do neoliberalismo e, nesse sentido, sua in‑
tencionalidade é marcada muito mais pelos compromissos com o subsídio di‑
reto à aquicultura — enquanto nova modalidade do ramo da pesca industrial
— do que com a suposta “sustentabilidade” do setor pesqueiro. Depreende-se
dessa última assertiva que nossa abordagem parte de uma perspectiva analítica
que se contrapõe ao discurso hegemônico, ao entender que a “questão ­ambiental”

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se vincula intimamente à ordem burguesa, estando a essa última interditada a
possibilidade de promover qualquer iniciativa séria de sustentabilidade ambien‑
tal. Dito de outro modo, a “questão ambiental” e o modo capitalista de produção
conformam uma unidade, não havendo, portanto, compatibilidade entre capi‑
talismo e preservação ambiental.
Tendo isso por suposto, este artigo se propõe a problematizar a reforma
aquária mediante duas afirmações centrais: 1) a reforma aquária se expressa
como uma das ações da contrarreforma do Estado brasileiro em tempos de
crise do capital e, ao fazê-lo, 2) se articula diretamente à política econômica
recomendada por organismos internacionais que busca reconfigurar a divisão
internacional do trabalho, por meio da reprimarização das economias periféri‑
cas — movimento no interior do qual a apropriação privada dos recursos na‑
turais é central.

1. Contextualizando elementos fundantes: crise do capital, “questão ambiental”


e a contrarreforma do Estado
Para abordar a reforma aquária proposta no Brasil sem desconectá-la de
suas determinações é fundamental situá-la no interior do debate sobre a atual
crise do capital e alguns de seus desdobramentos que se apresentam essenciais
a uma contextualização do tema.
Desde sua gênese o sistema capitalista é marcado pela ocorrência alterna‑
da de momentos de crises e de fases de expansão, cujas alterações ocorrem em
relação ao período histórico e ao grau de desenvolvimento das forças produtivas.
Essas crises expressam o caráter contraditório desse sistema e lhes são ineren‑
tes, além de funcionais, na medida em que criam as condições para a emergên‑
cia de uma nova fase de expansão (Braz e Netto, 2011). Nesse sentido, crise
não representa possibilidade de extinção do capitalismo. Afinal, “crises de in‑
tensidade e duração variadas são o modo natural de existência do capital: são
maneiras de progredir para além de suas barreiras imediatas e, desse modo,
estender com dinamismo cruel sua esfera de operação e dominação” (Mészáros,
2011, p. 795).

252 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
Especialmente a crise que vem se aprofundando desde os anos 1970 guar‑
da particularidades, não sendo equivalente à chamada crise cíclica. Entendemos
que não cabe aqui, por razões de espaço, uma abordagem mais detalhada do
tema que é, aliás, objeto de ampla e conhecida literatura, mas devemos, ao
menos, situar seus aspectos fundamentais, considerando que esta crise é deter‑
minante de todas as variáveis presentes nas reflexões que se seguem.
Mészáros (2011) denomina a crise atual de “crise estrutural do capital” e
evidencia seus principais aspectos que nos auxiliam a pensar sua “novidade
histórica”, quais sejam: o caráter universal (não se restringe a determinada
esfera e/ou ramo particular de produção); o alcance global (atinge vários
países, tem abrangência planetária); a escala de tempo permanente; seu modo
de se desdobrar denominado rastejante (uma vez que não há momentos espe‑
cíficos de ápice).
Já nos termos de Mandel (1985), trata-se de uma “onda longa recessiva”,
cujos fundamentos se devem à crescente elevação da produtividade capitalista
obtida com a mudança na base técnica da produção em meio aos chamados “30
anos gloriosos”. Dessa vez a crise de superprodução foi provocada pelo adven‑
to da microeletrônica associada a outros componentes do capital constante que
vão ampliar seu peso em relação ao capital variável na “composição orgânica
do capital” (Marx, 2001). Sendo esse movimento inerente à busca dos superlu‑
cros, ao se generalizar para o conjunto dos grupos monopolistas, a partir do
final dos anos 1960, vai gestar exatamente seu contrário: a queda tendencial na
taxa de lucros — problema que atinge, em cheio, as possibilidades de valoriza‑
ção ampliada do capital até o presente momento.
Pensando-se na sociedade, de um modo mais amplo, muitos são os pro‑
blemas oriundos dessa crise. O crescimento mundial dos índices de desem‑
prego é, sem dúvida, um dos mais visíveis, por ser a expressão mais direta da
redução do capital variável empregado na produção capitalista. O desempre‑
go estrutural é, ao mesmo tempo, fator determinante da insuperabilidade da
crise nos termos do próprio capital, já que esse fenômeno responde pela sig‑
nificativa redução do mercado consumidor e, portanto, pela queda nas taxas
de lucro. Entretanto, esse problema é inerente às crises cíclicas e já esteve
presente, com outras proporções, nas crises anteriores vivenciadas pelo ­capital

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015 253
nos séculos XIX e XX. Mas existe um elemento singular associado à crise
atual: a sua dimensão ambiental.
É preciso dizer que a questão ambiental (ou, para alguns, crise ambiental)
aparece, como tal, exatamente nos anos 1970 quando, “coincidentemente”, tem
início a atual onda longa recessiva.1 Essa coincidência é apenas aparente, pois
qualquer observador mais atento do quadro gestado pelos “trinta anos gloriosos”
verá que o aumento constante da produtividade sob as bases fordistas ampliou,
em muito, a apropriação privada da natureza para fins de reprodução ampliada
do capital. Ou seja, o capitalismo lidou historicamente com a natureza do mes‑
mo modo predatório que tem lidado com a força de trabalho: o crescente grau
de intensidade da apropriação privada da natureza como parte das matérias‑
-primas que ingressam no processo produtivo não permite que decorra o tempo
necessário à sua reprodução/reposição. Em decorrência disso entra em cena a
escassez e, em alguns casos, a iminente finitude dos recursos naturais, enquan‑
to fatores que condicionam, profundamente, as atuais alternativas debatidas
para superação da crise.
Essas têm se plasmado, por parte do capital, em várias e simultâneas di‑
reções, podendo, para fins didáticos, ser reunidas em dois grandes grupos: as
mudanças no chamado “regime de acumulação” e as que dizem respeito ao
“modo de regulação” (Aranha, 1999), estando respectivamente referidas ao
mundo da produção e ao Estado.
As alterações no regime de acumulação delineiam a chamada acumulação
flexível (ou reestruturação produtiva). Como se sabe, em função das inúmeras
pesquisas já disponíveis sobre o assunto, esta implica o oposto da “produção
em massa” fordista, possibilitando ajustes na produção que minimizam os pro‑
blemas postos na realização da mais-valia e se associa a padrões de exploração
da força de trabalho que reeditam modalidades do capitalismo concorrencial2
revestidas de aparente modernidade.

1. É praticamente unânime, entre os estudiosos do tema, o marco da Conferência de 1972 para indicar
a importância assumida por essa questão no interior das sociedades capitalistas, especialmente dos países
cêntricos.
2. Referimo-nos, por exemplo, à associação entre trabalho escravo, pagamento por peça, amplas jorna‑
das de trabalho e outros mecanismos que em seu conjunto, compõem a precarização do trabalho contempo‑
râneo.

254 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
Ainda situando a reestruturação produtiva, não podemos deixar de mencio‑
nar o peso da variável ambiental em seu interior. Isso significa dizer que, asso‑
ciado às iniciativas de produção flexível, o capital adota uma série de medidas
no trato com a natureza que pretendem refletir o ideário da sustentabilidade.

No que diz respeito à escassez de recursos naturais, o capital investe na pesquisa


de novas matérias-primas, na recomposição da base de fornecimento em caso de
recursos renováveis (reflorestamento, por exemplo) além de alterações nas regras
mercantis. A ciência econômica incorpora os custos ambientais a seus cálculos,
atribuindo valor aos elementos antes gratuitos (o ar, os oceanos, a água)3 à me‑
dida que desenvolve o conceito de internalização das (antes consideradas) exter-
nalidades. [...] Diante dessa realidade, os economistas ecológicos propõem polí‑
ticas econômicas que tenham como finalidades: 1) orientar a utilização mais
eficiente dos recursos ambientais; 2) a substituição de recursos não renováveis
por recursos renováveis; e, por fim, 3) a redução de processos contaminantes que
estão alterando os ciclos biogeoquímicos de muitos ecossistemas [...]. (Silva, 2010,
p. 118, 120)

Em decorrência dessas medidas de reestruturação produtiva, o Estado


também passa por transformações em seu papel de regulador da economia,
assumindo novas e liberais tarefas para impulsionar a retomada da acumulação
capitalista. No contraponto ao formato de regulação do período fordista, o Es‑
tado “recicla-se”, sob o neoliberalismo, iniciando um amplo processo de des-
regulamentação para viabilizar muitas das necessidades postas pela reestrutu‑
ração produtiva.
A desregulamentação responde, concretamente, pela tendência de recuo
ou redução das legislações dos Estados nacionais em relação a vários aspectos
importantes para a mobilidade do capital “globalizado”. Responde, portanto,
pela falácia ideológica do “fim dos Estados nacionais” e do mito da “aldeia
global”, já que nem sempre esse movimento é globalmente seguido e restringe‑
-se, em seus aspectos mais deletérios, aos países de capitalismo periférico. Os
exemplos mais ilustrativos dessa tendência são vistos na regulação do trabalho,

3. Mais adiante veremos como esses elementos comparecem na proposta de reforma aquária.

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amplamente flexibilizada para possibilitar a precarização das relações trabalhis‑
tas nos níveis que se observa atualmente4 e tornar a exploração da força de
trabalho nestes países ainda mais barata do que sempre foi (Santos, 2012). No
contraponto a isso, observe-se como o protecionismo econômico permanece
forte nos países de capitalismo central — tanto no que se refere à circulação de
mercadorias, como à circulação de trabalhadores, estimulando fortemente a
xenofobia.
Esse processo assumiu contornos dramáticos, no caso brasileiro, em de‑
corrência do que Behring (2008) caracterizou como contrarreforma do Estado,
implementada, de modo mais sistemático e explícito, a partir dos governos FHC
e ainda em curso (com novas nuances) até os dias atuais. Estamos inteiramen‑
te de acordo com a razão, bastante conhecida, pela qual a autora renomeia como
contrarreforma este processo, originalmente chamado pelos governos de refor-
ma do Estado. O teor destas medidas não tem absolutamente nada a ver com as
reformas em seu sentido clássico, qual seja, o das propostas defendidas pelo
movimento operário socialista no início do século XX, cujo sentido, marcado
pela busca da equidade, é totalmente descaracterizado neste caso, indicando um
“profundo retrocesso social em benefício de poucos” (Behring, 2008, p. 22;
grifos originais).
O polo irradiador dessas ideias são os organismos internacionais. Logo, o
receituário, adquire particularidades no interior dos diferentes países periféricos,
mas não guarda nenhuma originalidade em sua essência. Antes de prosseguirmos,
cabe aqui uma nova advertência: assim como no caso da crise capitalista, nos‑
sa abordagem sobre a contrarreforma do Estado no Brasil será também pano‑
râmica, sinalizando, em seu interior, alguns pontos bastante precisos.
Entre as muitas medidas identificáveis nesse grande “pacote” nos interes‑
sa, mais de perto, destacar como a desregulamentação — rapidamente definida

4. As mudanças adotadas no Brasil no contexto internacional de reestruturação do capital e apresentadas


sob o caráter de reforma do Estado se configuram em desmonte sistemático da estrutura estatal, fortaleci‑
mento do mercado, aprofundamento da precarização do trabalho, regressão de direitos historicamente con‑
quistados e assinalados na Constituição Federal de 1998, principalmente os direitos sociais. No Brasil, com
o fortalecimento do projeto neoliberal nos anos 1990, o Estado passou por um intenso processo de redução
de suas respostas às demandas do trabalho mediante minimização de sua atuação na operacionalização das
políticas sociais, mas mantendo uma forte e funcional atuação em prol dos interesses do capital.

256 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
acima enquanto traço essencial do novo modo de regulação, requerido pelo
capital em crise — se associa à privatização, delineando uma política econô‑
mica para países periféricos que têm uma clara intencionalidade: reorganizar a
divisão internacional do trabalho, reservando a esses países um lugar determi‑
nado pelo que tem sido chamado de “reprimarização” (Gonçalves, 2012) das
suas economias.
Tendo por suposta a compreensão do quadro histórico de extrema hete‑
ronomia (Fernandes, 2006) das decisões sobre o desenvolvimento de nosso
país, o que se passa no momento atual pode ser visto como sua atualização,
em patamares ainda mais regressivos, se comparado ao que se passou no pe‑
ríodo da igualmente subordinada política de “modernização conservadora”,
implementada sob os auspícios dos governos militares. É o que Tavares (1999,
apud Behring, 2008) chamará de “caráter destrutivo não criador e conservador”
da contrarreforma, em oposição à modernização conservadora ocorrida no
pós-1964.
Naquela quadra histórica, o fluxo dos Investimentos Externos Diretos
(IEDs) atraídos para o Brasil levou a uma diversificação do potencial produtivo,
incorporando, ainda que de modo associado e dependente, componentes tecno‑
lógicos da produção industrial. No entanto, o início da crise capitalista e o vi‑
sível refluxo dos IEDs na produção levaram à “crise desse padrão de desenvol‑
vimento” (Santos, 2012) e, já a partir dos anos 1980, à destruição de parcela
importante do recém-montado parque industrial brasileiro. Isso conduziu,
progressivamente, os

Estados nacionais [a] dificuldades em desenvolver políticas industriais, restrin‑


gindo-se a tornar os territórios nacionais mais atrativos às inversões estrangeiras.
[...] uma das funções econômicas do Estado — a qual Mandel caracteriza como
sendo de assegurar as condições gerais de produção — passou a ser garantia
dessa atratividade, a partir de novas relações entre este e grupos mundiais, onde
o primeiro tem lugar cada vez mais subordinado. Dentro disso, os Estados nacio‑
nais restringem-se a: cobrir o custo de algumas infraestruturas (sobre as quais não
há interesse de investimento privado), aplicar incentivos fiscais, garantir escoa‑
mentos suficientes e institucionalizar processos de liberalização e desregulamen‑
tação em nome da competitividade. (Behring, 2008, p. 59)

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015 257
Nesse contexto, o Brasil é levado a reorientar “a parte mais competitiva
da economia para a exportação (o que implica [...] um largo processo de desin‑
dustralização5 e volta a certas ‘vocações naturais’)” (Behring, 2008, p. 61).
Estes são os termos que definem a reprimarização: o retorno à economia essen‑
cialmente baseada na produção de produtos primários, agroexportáveis ou, no
máximo, de baixa tecnologia agregada. Numa análise da estrutura das exporta‑
ções de produtos industriais, segundo a intensidade tecnológica, Gonçalves
(2012, p. 9) expõe que

A participação (média móvel 04 anos) dos produtos altamente intensivos em


tecnologia reduz-se 13,1% em 2002 para 8,8% em 2006 e 8,1% em 2010, enquan‑
to a participação de produtos das indústrias de médio-baixa tecnologia aumenta
de 21,7% em 2002 para 24,2% em 2006 e 25,1% em 2010.

Entretanto, é importante deixar claro que o retorno às “vocações naturais”


não se confunde com qualquer perspectiva nacionalista. O perfil dos IEDs no
Brasil atualmente está longe de se caracterizar apenas sob a forma de capital
especulativo, como tem sido mais recorrentemente sinalizado pelos autores de
orientação crítica. São evidentes, nos últimos censos do IED no Brasil,6 as
tendências ao seu crescimento também nos setores produtivos primários volta‑
dos à exportação, com as correspondentes vantagens concedidas ao setor pro‑
dutivo de um modo geral em termos de incentivos fiscais, favores e concessões
tributárias — exemplos de desregulamentação do Estado em busca de se tornar
“atrativo”. Esse censo mostra que no período 2000 a 2009 o estoque de IEDs
concentrado no setor primário passou de 2,3% para 15,4% (Gonçalves, 2012).

5. “A desindustrialização pode ser definida como a tendência de queda da relação entre o valor adicio‑
nado na indústria de transformação e o PIB. Nos países em desenvolvimento, a desindustrialização é prema‑
tura e resulta do viés de deslocamento da fronteira de produção na direção dos produtos intensivos em recur‑
sos naturais. Este deslocamento ocorre, principalmente, na fase ascendente dos preços das commodities no
mercado mundial” (Gonçalves, 2012, p. 7).
6. O censo dos investimentos estrangeiros no país é realizado pelo Instituto de Estudos para o Desen‑
volvimento Industrial (IEDI), que classifica os tipos de estratégias exercidas pelas filiais de empresas estran‑
geiras no Brasil, segundo as atividades econômicas e a propensão das empresas a exportar e importar
(Campos e Fernandes, 2008).

258 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
Somente compreendendo esse movimento da economia brasileira em meio
à crise capitalista recente é que se torna possível situar os interesses em jogo
quando FHC retoma, em níveis mais agressivos do que os possíveis aos gover‑
nos democráticos que lhe antecederam, as medidas de privatização de setores
produtivos estatais extremamente importantes. Referimo-nos, mais especifica‑
mente, à privatização do setor petrolífero e de mineração, não por acaso situa‑
dos estrategicamente como parte da extração de riquezas naturais — razão pela
qual a dimensão ambiental da crise não pode ser menosprezada em sua com‑
preensão. Não é preciso nos estender para explicar o quanto ampliar o domínio
privado sob a natureza é decisivo para a lucratividade do capital nos dias
atuais e, estando esse domínio associado a uma política econômica que bara-
teia os custos de produção com a desregulamentação, sem dúvida não há
perspectiva mais favorável para tais investidores.
Esse panorama é fundamental para ressaltar como a reforma aquária
conjuga todos os elementos abordados até aqui: 1) está inserida nas iniciativas
de desregulamentação e privatização postas pela contrarreforma do Estado
como resposta à crise do capital; 2) reflete a perspectiva de “internalização de
externalidades” ambientais aos custos de produção; 3) indica uma expressão
particular do movimento de reprimarização da economia brasileira, por meio
do favorecimento da psicultura/aquicultura voltada para a exportação, como
veremos a seguir.

2. O “canto da sereia”: o significado socioeconômico e ambiental


da reforma aquária no Brasil
O Brasil conta com 12% da água doce do mundo e um litoral com mais de 8 mil
quilômetros de extensão. Em um hectare de lâmina d´água, na aquicultura, pode‑
mos produzir cem toneladas de pescado. Temos todas as oportunidades para nos
tornarmos os maiores produtores de peixe do mundo. (MPA, 2013)7

7. Disponível em: <http://www.mpa.gov.br/index.php/topicos/1499-ministro-defende>. Acesso em:


2 jun. 2014.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015 259
O discurso supracitado do então ministro da Pesca e Aquicultura, Marce‑
lo Crivella, ao defender a reforma aquária no Brasil, tende a seduzir os expec‑
tadores menos atentos, quando na verdade trata-se de autorizar o uso de águas
de domínio da União para aquicultura. Isso significa dizer que o Ministério da
Pesca e Aquicultura (MPA) defende o fortalecimento da aquicultura mediante
exploração de águas de domínio da União por pessoa física ou jurídica, por
intermédio de licitações na modalidade “Concorrência”, para autorização/
cessão de uso. Pretende-se alavancar a instauração de parques e áreas aquíco‑
las nessas águas para ampliar a produção de pescado no país e a conquista de
mercados internacionais.
Esse risco de sedução se aprofunda e pode se estender aos otimistas ingê‑
nuos quando o referido ex-ministro, ao receber em seu gabinete algumas lide‑
ranças do Movimento Nacional dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, des‑
tacou a pesca artesanal como uma prioridade do governo federal, além do
reconhecimento de sua relevância social e econômica no país. Para traduzir tal
prioridade, explicou:

[O] governo federal pretende democratizar o acesso a água para a criação de


pescados, promovendo a “reforma aquária” e evitando que os grandes reservató‑
rios de hidrelétricas fiquem ociosos ou nas mãos das companhias geradoras de
energia. [...]. Não estamos privatizando as águas. Estamos trabalhando para que
os 0,5% desses espaços ajudem a gerar emprego e renda no nosso país, garantin‑
do pescado de qualidade para a nossa população. Não podemos aceitar que com
todo o nosso potencial e oferta de água, o país tenha que importar US$ 1 bilhão
em pescados por ano. (MPA, 2013)8

O discurso propalado pelo então ministro Crivella sugere que a defesa da


reforma aquária se sustenta na perspectiva de garantir a “democratização do
acesso a água no Brasil” e, com isto, a geração de emprego, renda e crescimen‑
to econômico. No intuito de ir um pouco além do indicado pela aparência fe‑
nomênica e tangenciar o sentido fundamental da proposta em exame, convém

8. Disponível em: <http://www.mpa.gov.br/index.php/topicos/2224-ministro-crivella>. Acesso em:


2 jun. 2014.

260 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
oferecer mais elementos para a análise. Nessa direção, seguem alguns trechos
de um texto de Crivella, veiculado pelo jornal Folha de S.Paulo:

A consciência crítica e o inconformismo com o atraso e a miséria, marcas do


governo da presidenta Dilma, garantem ao povo brasileiro o direito de ser o­ timista.
O que queremos ser e seremos é um país cuja indústria pesqueira alcance o
mesmo desenvolvimento que a avícola ou a bovina.
O processo começou: o Plano Safra da Pesca e Aquicultura9 e a desoneração
tributária, ao se incluir o pescado na cesta básica, foram os primeiros passos.
Agora, a presidenta determinou que o Ministério da Pesca e Aquicultura e o Mi‑
nistério do Meio Ambiente apresentem proposta para simplificação de licencia-
mento ambiental para a aquicultura nas águas da União.
A ideia é o desenvolvimento da aquicultura de zero impacto ambiental. Consiste,
basicamente, na dispensa do licenciamento ambiental nos parques e áreas aquí-
colas em águas da União, em até meio por cento do reservatório, barragem,
açude etc., a ser instalada de maneira gradual e com monitoramento ambiental.
Ao primeiro sinal de comprometimento dos parâmetros do uso múltiplo da água,
interrompe-se a instalação. (Crivella, 2013; grifos nossos)

É importante reter aqui alguns elementos desse discurso, conectando-os


às análises precedentes. Na medida em que crescem as tendências de reprima‑
rização, enquanto estratégia de sustentação da economia do país, crescem os
investimentos de capital estrangeiro em setores voltados para a exportação e,
segundo Campos e Fernandes (2008, p. 492) é, “de esperar que nesse grupo
predominem as empresas voltadas para a exploração de setores primários ou
industriais que utilizem intensivamente recursos naturais e que apresentem
valores elevados para a exportação e pequenos para a importação”.
Este parece ser, precisamente, o caso da aquicultura, que, segundo preten‑
sões do ex-ministro, pode alcançar com a privatização das águas e a desregu‑

9. O Plano Safra da Pesca e Aquicultura é um programa do governo federal que tem o objetivo de
“estimular o desenvolvimento do setor por meio de linhas de crédito para o aumento da produção e a geração
de emprego e renda. [...] O crédito será concedido pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES), Banco do Nordeste, Banco do Brasil, Banco da Amazônia, Caixa Econômica Federal e
Cooperativas de crédito.” Disponível em: <http://www.mpa.gov.br/safra/>. Acesso em: 2 jun. 2014.

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lamentação de seu uso — concretamente traduzida pela simplificação do licen‑
ciamento ambiental10 — “o mesmo desenvolvimento das [atividades] avícola
ou a bovina”. A comparação não poderia ser mais ilustrativa para demarcar o
padrão de produção a ser estimulado: a pesca industrial. Trata-se da pesca que
é “praticada por pessoa física ou jurídica e [envolve] pescadores profissionais,
empregados ou em regime de parceria por cotas-partes, utilizando embarcações
de pequeno, médio ou grande porte, com finalidade comercial” (Brasil, 2009).
Nesse momento cabe uma pequena incursão para destacar elementos do
que tem sido historicamente a intervenção pública no setor pesqueiro e sua
diversidade. O Estado brasileiro investiu, prioritariamente, no segmento in‑
dustrial da pesca, o que significa dizer que este não é o único segmento exis‑
tente em seu interior. A atividade pesqueira no Brasil é bastante antiga e pra‑
ticada, originalmente, por trabalhadores residentes em regiões costeiras e/ou
ribeirinhas, com uma cultura e modo de vida considerado “tradicional”. Estes
trabalhadores, chamados de pescadores artesanais, buscam, por meio dessa
atividade, a subsistência familiar e alguma renda. A pesca artesanal é definida
atualmente, de acordo com o artigo 8º da Lei n. 11.959/2009 como sendo
“praticada diretamente por pescador profissional, de forma autônoma ou em
regime de economia familiar, com meios de produção próprios ou mediante
contrato de parceria, desembarcado, podendo utilizar embarcações de pequeno
porte” (Brasil, 2009).
Conforme já mencionamos, a modernização conservadora do pós-1964
atuou fortemente no sentido de “modernizar” a produção industrial, mas isso
não ocorreu somente nas indústrias stricto sensu. Essa diretriz também impac‑
tou atividades de natureza rural, como a agricultura (por meio dos processos de
mecanização e quimificação, estímulos à monocultura de natureza agroindustrial
etc.) e a pesca. No mesmo movimento de criação da Sudene (Superintendência
do Desenvolvimento do Nordeste) e da Sudam (Superintendência do Desenvol‑

10. “O licenciamento ambiental é o procedimento administrativo pelo qual o órgão ambiental autoriza
a localização, instalação, ampliação e operação de empreendimentos e atividades utilizadoras de recursos
ambientais, consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou daquelas que, sob qualquer forma, possam
causar degradação ambiental”. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/governanca-ambiental/portal-na‑
cional-de-licenciamento-ambiental/licenciamento-ambiental>. Acesso em: 2 jul. 2014.

262 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
vimento da Amazônia), foi criada a Sudepe (Superintendência do Desenvolvi‑
mento da Pesca). Sua funcionalidade foi clara: subsidiar, pela via de políticas
de crédito (mas não só), a “modernização” do setor pesqueiro, o que implicava
o estímulo à pesca industrial em detrimento da pesca artesanal.
A intensa exploração dos recursos pesqueiros favorecida pelo crescimento
da pesca industrial estimulada pela legislação vigente no período provocou,
entretanto, a diminuição da produção, a partir da década de 1980, fazendo com
que o setor entrasse em crise. Cardoso aponta duas razões explicativas deste fato:

A primeira diz respeito à total ausência de planejamento que acompanhou os in‑


vestimentos da SUDEPE e que no oportunismo da maré dos incentivos fiscais
levou à criação de estruturas de terra para beneficiamento do setor pesqueiro,
muitas vezes inoperantes, ociosas e de vida curta marcada por escândalos finan‑
ceiros e administrativos. A segunda remete às análises estruturais da atividade
pesqueira [e ao consequente exaurimento do estoque em função da sobrepesca].
O fato da pesca basear-se na captura de recursos não totalmente controlados, não
permite que a racionalidade capitalista se imponha, em especial no setor da pro‑
dução. (Cardoso, 2009, p. 6-7)

Isso para ficar nos aspectos macroeconômicos dessa crise, porque ainda
poderiam ser expostos aqui outros ângulos relacionados às consequências so‑
cioambientais deste modelo de exploração da pesca, como o crescente desem‑
prego e assalariamento dos pescadores artesanais, submetidos a relações de
trabalho bastante precárias nas indústrias pesqueiras. O fato é que o exaurimen‑
to, inclusive estrutural, das possibilidades de continuidade da indústria pesquei‑
ra naqueles moldes fez refluir a importância econômica da atividade no conjun‑
to da balança comercial brasileira. Esse mesmo fator aprofundou a crise de
“sustentabilidade” da pesca artesanal, que hoje enfrenta sérias dificuldades para
se manter como tal após esse aumento predatório do esforço de pesca, origina‑
do pela política da modernização conservadora.

A sobrepesca de algumas espécies, a pesca predatória de outras tantas e a destrui‑


ção de ecossistemas de alta produtividade são algumas das consequências que
acompanharam o desenrolar do projeto de modernização do setor pesqueiro,

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contribuindo para a redução do pescado situado junto à costa. Ainda junto à cos‑
ta, nas áreas de atuação da pesca artesanal, verificou-se um aumento da disputa
pelo pescado. Parte da frota industrial atuando com técnicas predatórias para
baixas as profundidades próximas à costa acarretaram a diminuição da oferta de
pescados para pescadores artesanais, cujos meios de produção não lhes possibi‑
litam um deslocamento mais amplo, acirrando disputas pela apropriação destes
espaços e do pescado neles contido. (Cardoso, 2001, p. 28)

Considerar esse passado recente e suas consequências contemporâneas é


parte significativa do que chamamos atenção como imperativo para penetrar a
aparente inquestionabilidade da reforma aquária. É parte significativa, portanto,
de nossa argumentação crítica a essa ideia, pois parece evidente se tratar de uma
nova tentativa para beneficiar o capital empregado no setor pesqueiro, agora com
métodos de produção que independem do tempo de reprodução natural das es‑
pécies, ou seja, a criação das “fazendas de peixe”,11 por meio da aquicultura.
Esse setor tem sido positivamente avaliado como um dos que mais crescem
em se tratando do comércio mundial, o que torna a sua expansão quase um
imperativo — ideia, aliás, compatível com o “espírito” da ortodoxia do pensa‑
mento único que “reina” no campo das diretrizes macroeconômicas desde FHC.
A própria FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricul‑
tura) reconhece o decréscimo do potencial da pesca extrativa diante da intensi‑
va exploração a que foi submetido o estoque pesqueiro natural, apostando
“seriamente nas potencialidades do Brasil em ser um grande exportador nos
próximos anos e décadas, por ser um país privilegiado em possuir as condições
indispensáveis para a expansão da atividade” (Malafaia Júnior, 2010, p. 15).
No período 2003-07, o crescimento médio da produção da pesca e aquicultura
no Brasil foi de 2% anuais. A partir de 2007, registram-se crescimentos na casa
dos 7%, e as projeções do MPA para 2011 eram de 15,3%. A expectativa pro‑
jetada chegou perto de se realizar, pois os dados de 2011 indicam que a produ‑
ção cresceu 13,2% a mais do que em 2010.12

11. Essa é a denominação usualmente adotada para designar os criatórios de peixes na aquicultura.
12. Disponível em: <http://www.mpa.gov.br/index.php/imprensa/noticias/2140-mpa-lanca-boletim-
estatistico-da-pesca-e-aquicultura-2011>. Acesso em: 3 ago. 2014.

264 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
Analisando-se esse quadro, não pode haver dúvida sobre duas questões.
Primeiramente, sobre o fato de esse crescimento estar associado à existência de
um ministério específico (criado em 2003) e, portanto, ao forte papel do Estado
no incremento à aquicultura entre as prioridades governamentais. Para tanto,
basta observar os incentivos e políticas previstos nos Planos Safra Pesca e
Aquicultura, em que vemos que o peso dessa última é incomparavelmente maior
do que o da pesca artesanal.
A permanência desta tendência como parte das diretrizes do atual governo
do PT também foi enfatizada entre as prioridades do ministro da Pesca e Aqui‑
cultura Eduardo Lopes, empossado pela presidente Dilma Rousseff em março
de 2014:

Eu quero ver efetivamente o que foi realizado até agora no Plano Safra e trabalhar
para que a gente consiga atingir um bom resultado. A produção no ano passado
cresceu quase que 70% comparada ao ano anterior. A meta é manter a mesma
média, o que colocaria o Brasil produzindo 4 milhões de toneladas. (MPA, 2014)13

Em segundo lugar, é inegável a funcionalidade da privatização das águas da


União para o crescimento da aquicultura: elas fazem parte do cálculo que envolve
as “condições favoráveis” dessa atividade no Brasil e só se tornarão efetivamente
favoráveis se os custos para a exploração desse recurso forem os mais baixos
possível, conforme opera a lógica do capital em qualquer campo de sua produção.
Por essa razão, a reforma aquária envolve iniciativas de desregulamentação do
licenciamento ambiental no referido setor. Podem ser citados, a título de exem‑
plo dessas ações, editais de licitação lançados a partir de 2009, na modalidade
“Concorrência” (dos tipos “maior lance ou oferta” para cessão onerosa; “seleção
não onerosa por tempo determinado”) com vistas à obtenção, por pessoa física
ou jurídica de direito privado, de autorização/cessão de uso de espaços físicos em
corpo d’água de domínio da União na modalidade de área aquícola.14

13. Disponível em: <http://www.mpa.gov.br/index.php/imprensa/noticias/2599-dilma-empossa-eduar‑


do-lopes-como-novo-ministro-da-pesca-e-aquicultura>. Acesso em: 25 jul. 2014.
14. Esses editais de licitação estão disponíveis para consulta no endereço virtual: Disponível em: <http://
www.mpa.gov.br/index.php/aquiculturampa/licitacoes-de-areas-aquicolas/2009>. Acesso em: 22 jun. 2014.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015 265
Nessa articulação entre a contrarreforma do Estado e o ideário da susten‑
tabilidade, Silva (2010, p. 119) esclarece que, como parte da lógica de interna‑
lizar as externalidades, a economia ambiental propõe efetivamente a privatiza‑
ção dos “recursos” naturais escassos e não mercantis (ar, água).

De acordo com [estes] pressupostos [...] a única forma de gerenciar adequada‑


mente os recursos naturais seria privatizando-os, o que implica uma drástica,
porém planejada, redução dos bens públicos. Trata-se, neste caso, de [...] estabe‑
lecer ou fixar preços para os bens públicos em conformidade com a lógica de
mercado. [...] Neste sentido, fixar cotas de contaminação, por exemplo, é uma
forma de privatizar um elemento natural público, o que tende a abonar a culpa do
poluidor privado: uma vez pagando pelo que contamina, transfere para o espaço
público — camada de ozônio, mares, atmosfera, entre outros — os problemas
ambientais por ele gerados.

Avançando na problematização da proposta de reforma aquária no Brasil,


outros argumentos para sua sustentação, além do propalado “desenvolvimento
sustentável”, são o apelo ao nacionalismo e à superação do “atraso”, mediante
expansão econômica que seria promovida pelas “novas tecnologias” associadas
à cadeia produtiva da psicultura. Ainda conforme expresso no mesmo texto do
ex-ministro:

Estamos determinados e confiantes de que, com trabalho e pesquisa, iremos nos


redimir das amarras que ancoram o nosso progresso e promover o desenvolvimen-
to sustentável da indústria pesqueira.
Com o plano [Safra], a Embrapa Pesca e Aquicultura ganha nova força para de‑
senvolver pacotes tecnológicos. O seu presidente lembra que, em um hectare de
terra, o melhor pecuarista brasileiro consegue produzir uma tonelada de carne
bovina por ano, enquanto, no mesmo tempo, em um hectare de água, pode-se
produzir 200 toneladas de peixe. (Crivella, 2013; grifos nossos)

Este argumento só esquece de mencionar quem são os principais benefi‑


ciários desse “desenvolvimento”, uma vez que a produção sob esse sistema
envolve uma série de custos que aumentam o chamado “valor agregado” do
pescado, pois sua cadeia produtiva é extremamente complexa. Logo, nem o

266 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
pequeno produtor se beneficiará — pois está distante do acesso às condições de
produção desse tipo de mercado —, tampouco o consumidor brasileiro, que
deverá ter pescado cada vez mais caro nos mercados.
A chamada cadeia produtiva do pescado compreende, por exemplo, “des‑
de os fornecedores de insumos e responsáveis pelo processamento dos peixes,
até a utilização de canais de marketing que tornarão o produto disponível ao
consumidor final” (Malafaia Júnior, 2010, p. 13). Isso implica falar, concreta‑
mente, das indústrias produtoras de ração (utilizada na alimentação dos peixes)
e de equipamentos (tanques-rede, aeradores, bombas e aparelhos de monitora‑
mento da qualidade da água), além dos investimentos em atividades laboratoriais.
Em todos esses casos, que envolvem pesquisa e tecnologia, Malafaia Júnior
(2010) indica que já são registrados investimentos de capital estrangeiro e, em
alguns deles, como o dos equipamentos, o Brasil continuará dependendo de
importações, pois “uma tendência relevante é que apesar de criações em vivei‑
ros escavados prometerem grande crescimento, o aumento da piscicultura em
tanques-rede deverá ser superior e responsável por grande percentual na pro‑
dução de peixes do futuro” (Idem, p. 13-14).
Fica claro, portanto, quem irá “ganhar” com o desenvolvimento intensivo
da psicultura no Brasil a partir da reforma aquária: o grande capital aplicado
na indústria pesqueira nacional, mas, principalmente, internacional que verá
perspectivas de expansão dos seus negócios nos termos vantajosos já tratados
aqui na seção precedente. Enquanto isso são reconhecidos os baixos índices de
consumo de pescado no mercado interno. Dados oficiais de 2008 indicam
6,48 kg/per capita/ano no contraponto a 36,9 kg de carne bovina e 52,7 kg/per
capita de outras carnes (Malafaia Júnior, 2010). Sem dúvida os preços pratica‑
dos no mercado pesqueiro jogam papel decisivo nesse comportamento alimen‑
tar, que, a nosso ver, só tende a se agudizar com o tipo de produção que se quer
estimular e cujo destino não será a “mesa dos brasileiros”, conforme quer fazer
crer o ex-ministro:

Assim, o governo oferece alternativa produtiva melhor para os vultosos inves‑


timentos economicamente estéreis na especulação financeira. Nossos empresá-
rios são chamados a investir na produção de pescado para fazer do Brasil um
dos maiores produtores do mundo. São chamados para suas empresas crescerem

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015 267
com um trabalho rentável e fascinante, mas também sublime, por ajudar no
combate à fome.
Mas o mais importante é que centenas de milhares de famílias de pescadores e
ribeirinhos poderão obter um lote aquícola e acrescentar ao patrimônio da nossa
geração uma riqueza em proteína animal cujo potencial o BNDES comparou a
um novo pré-sal. (Crivella, 2013; grifos nossos)

Não é surpresa que o trabalho do ex-ministro de Pesca e Aquicultura tenha


recebido o reconhecimento de empresários brasileiros, a exemplo da premiação
que lhe fora concedida pela Bolsa de Gêneros Alimentícios do estado do Rio
de Janeiro como “personalidade estadual de 2013” — um troféu que homenageia
empresas e líderes que contribuíram com o setor alimentício naquele estado.
Assim, cabe indagar de qual “democratização do acesso a água” está se
tratando? Em que medida tornar o Brasil um dos maiores produtores de pesca‑
do do mundo trará melhores condições de vida à população brasileira e, espe‑
cialmente aos pescadores e pescadoras artesanais, além do “direito de ser oti‑
mista” destacado pelo ex-ministro? Embora se apresente como democratização
das águas, da propriedade capitalista (vide o chamamento a pequenos aquicul‑
tores a obterem um “lote aquícola”), e como uma “reforma” para beneficiar a
todos os brasileiros com os pretensos ganhos econômicos articulados à preser‑
vação ambiental e ao combate à fome, já temos elementos para indicar as razões
de esse discurso ser chamado aqui de “canto da sereia”.
A reforma aquária se mostra essencialmente como um modo de desre‑
gulamentar a exploração dos recursos naturais, facilitando a expansão/diver‑
sificação de investimentos do capital. Portanto, traduz-se em mais uma estra‑
tégia para obter “mais do mesmo”: expansão de nichos de mercado em tempos
de crise do capital. Com essa proposta, o Estado brasileiro fortalece a lógica
que reverte um bem comum (a água) ao caráter de mercadoria — um movi‑
mento que favorece a expansão do hidronegócio que significa, “‘literalmente,
o negócio da água’. É assim que o verbete do Dicionário da Educação do
Campo (Fiocruz e Movimentos Sociais) define toda atividade econômica que
tem a água como sua principal mercadoria” (Malvezzi, 2012). O hidronegócio,
entretanto, está longe de se restringir à psicultura. O mesmo autor chama a
atenção para o fato de que a “agricultura industrial consome 70% da água

268 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
doce utilizada no mundo, portanto, é a principal atividade econômica interes‑
sada na água”.15
Isso dá a exata dimensão do sentido da reforma aquária e do peso dos
interesses econômicos que concorrem para sua viabilização. Sua configuração
pode tornar realidade a privatização da água — um recurso natural que, além
de essencial à preservação da vida, integra todos os processos de produção.
Nestes termos, desvendar o “canto da sereia” implica evidenciar a importância
econômica da água como “recurso”, mas, sobretudo, o seu pertencimento à
dimensão ambiental dos direitos humanos, o que torna também evidente que a
reforma aquária prioriza interesses de mercado em detrimento de direitos fun‑
damentais da população brasileira.

3. Considerações finais
O debate em torno da reforma aquária, embora relativamente desconhe‑
cido no interior do Serviço Social, tem uma importância significativa para o
conjunto da sociedade brasileira. Nele estão imbricados diversos desdobramen‑
tos que, caso não sejam elucidados criticamente, podem esconder os impactos
sociais, econômicos, políticos e ambientais que este processo terá em curtíssimo
prazo. As reflexões aqui esboçadas objetivaram evidenciar os fundamentos
dessa proposta e alguns de seus impactos sublinhando um campo fértil para
outros estudos e pesquisas que aprofundem investigações a respeito. Conside‑
ramos essencial a ampliação do acervo crítico de conhecimentos disponíveis
sobre a reforma aquária, principalmente em face da necessária resistência que
deve ser socialmente protagonizada em sentido contrário. É fundamental, por‑
tanto, para finalizar este artigo, apontar duas questões que informam parcial‑
mente contornos atuais do seu andamento.
A primeira delas é um panorama, ainda que embrionário, sobre o estágio
de sua implementação. Em pesquisas para elaboração do presente artigo, não
vislumbramos ainda uma alteração significativa no aparato legal do licencia‑

15. Idem.

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mento para aquicultura. Está em vigência a resolução do Conselho Nacional de
Meio Ambiente (Conama) n. 413, de 2009, recentemente alterada pela Resolu‑
ção n. 459 de 2013. Esta última inclui a classificação de empreendimentos
aquícolas quanto ao porte (pequeno, médio, grande) e potencial de severidade
das espécies, cabendo ao órgão licenciador, mediante uso de critérios definidos,
decidir pelo licenciamento simplificado ou não de empreendimentos conside‑
rados de pequeno e médio porte.
Sobre o licenciamento simplificado, a secretária de Planejamento e Orde‑
namento da Aquicultura Maria Fernanda Nince afirmou que a “resolução deixa
mais ágil o processo de licenciamento pelo fato de trabalhar com uma licença
única. Antes eram necessárias as licenças prévias, de instalação e de operação”.16
Outra alteração se refere à possibilidade de emissão de “licença ambiental úni‑
ca”, por meio de “procedimento simplificado”, para os parques aquícolas situa‑
dos em reservatórios artificiais. Dado o caráter recente dessas alterações, ainda
não se pode apontar seu real significado no interior dos possíveis encaminha‑
mentos para efetivação da reforma aquária proposta. Entretanto, já considera‑
mos digno de nota a redução do tempo e dos procedimentos para obtenção da
chamada licença simplificada, que precisa ser melhor observada em sua imple‑
mentação para fornecer indícios empíricos das medidas desregulamentadoras.
A esse quadro acresce-se, no entanto, algo bastante concreto: a ocorrência
sistemática de editais de licitação na modalidade “Concorrência”, nos termos
mencionados aqui (cf. item 2). São inúmeros os editais existentes no site do
MPA a partir de 2009 que possibilitam o estabelecimento de concessões sim‑
plificadas de águas da União. Tal processo parece ter sido legalmente antecipa‑
do por meio do Decreto n. 4.895/2003, que, ao tratar da autorização do uso de
águas de domínio da União para fins de aquicultura, em seu artigo 14 prevê a
realização de processo seletivo público como parte dos requisitos à obtenção
da autorização de direito de uso.17 Portanto, nos parece que a reforma aquária

16. Conama aprova licenciamento ambiental para aquicultura. Disponível em: <http://memoria.ebc.
com.br/agenciabrasil/noticia/2013-09-14/conama-aprova-licenciamento-ambiental-para-aquicultura>. ­Acesso
em: 2 jul. 2014.
17. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2003/D4895.htm>. Acesso em: 2 jul.
2014.

270 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
tem se viabilizado por meio de ações que “diluem” a percepção social de sua
operacionalização, enquanto não se flexibilizam, explicitamente, os critérios
oficiais de licenciamento.
A outra questão a ser levantada como parte dos contornos atuais sobre o
tema tem a ver com as formas de resistência a mais essa iniciativa de contrar‑
reforma do Estado no Brasil. É o caso das denúncias protagonizadas pelo Mo‑
vimento de Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP). Em debate realizado
em 2012 pela Fundação Joaquim Nabuco, a pescadora Cícera Estevão Barbosa,
representante do MPP, destacou como a carcinicultura (uma das modalidades
da aquicultura, dedicada à criação de camarões em viveiros) “vem destruindo
os manguezais e poluindo a água e a terra [...], pois utiliza veneno”,18 ou seja,
antibióticos e pesticidas que, ao serem despejados no ambiente após a lavagem
dos tanques, são extremamente prejudiciais a qualquer tipo de vida naqueles
ecossistemas.
O “direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida”, constitucionalmente
vigente segundo o artigo 225, estabelece, para sua efetividade, que se imponha
“ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações” (Brasil, 1988). Consideramos que a reforma
aquária coloca o Estado na contramão desse papel de preservação do meio
ambiente, pois a privatização das águas da União para fins de estímulo à aqui‑
cultura, além de toda a funcionalidade econômica para o grande capital, ante‑
riormente assinalada, também possui impactos socioambientais que já estão
sendo sentidos pelas “presentes gerações”.
Nessa direção, o MPP vem fazendo o que estabelece o artigo 225, como
parte da “coletividade” que também deve defender e preservar o meio ambien‑
te. Nele temos parte importante da resistência, não só à reforma aquária, mas
também ao conjunto de ações do governo brasileiro, que agravam conflitos
socioambientais em territórios tradicionalmente ocupados por comunidades

18. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=128


3:seminario-debate-territorio-pesqueiro-biodiversidade-cultura-e-soberania-alimentar&catid=44:sala-de-
impressa&Itemid=183>. Acesso em: 2 jul. 2014.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015 271
ribeirinhas, tais como a “Campanha Nacional pela Regularização do Território
das Comunidades Tradicionais Pesqueiras”.19
Entretanto, sabemos que o eco dessas vozes é extremamente frágil dian‑
te do poderio econômico do hidronegócio, razão pela qual destacamos a ne‑
cessidade do conhecimento ampliado das consequências da reforma aquária.
Se colocado a favor dessa e de outras formas de resistência, este conhecimen‑
to poderá expor as inverdades da sustentabilidade ambiental da aquicultura e,
sobretudo, evidenciar a extensão dos níveis de mercantilização existentes
nesta sociedade.

Recebido em: 7/7/2014  ■   Aprovado em: 10/3/2015

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19. Sobre isso, vale consultar o blog do MPP. Disponível em: <http://campanhaterritorio.blogspot.com.br/>.
Acesso em: 2 jul. 2014.

272 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 250-274, abr./jun. 2015
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A ditadura civil-militar de 1964:
os impactos de longa duração nos
direitos trabalhistas e sociais no Brasil
1964’s civil-military dictatorship: the lasting
effects on labor and social rights in Brazil

Ricardo Lara*
Mauri Antônio da Silva**

Resumo: O artigo apresenta abordagem sócio-histórica dos impac‑


tos da ditadura civil-militar nos direitos trabalhistas e sociais no Brasil.
O declínio dos direitos sociais e o avanço do poder político e econô‑
mico das classes dominantes serão analisados de acordo com o con‑
texto histórico, no qual se localizam três períodos nos últimos quaren‑
ta anos. Pretendemos demonstrar que a flexibilização e a degradação
das condições de trabalho e vida dos trabalhadores foram reforçadas
após o golpe civil-militar de 1964 e se estende até a atualidade, sendo
extremamente funcional às necessidades da acumulação capitalista.
Palavras-chave: Trabalho. Direitos sociais. Ditadura.

Abstract: The article presents a social-historical approach to the effects of the civil-military
dictatorship on labor and social rights in Brazil. The decline of the social rights and the progress of the
ruling classes’ political and economic power will be analyzed according to the historical context, in

* Professor do departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC),


Florianópolis (SC), Brasil. Coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas (NEPTQSAL), estágio pós‑
-doutoral no Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa (2015), bolsista da Capes.
E-mail: ricbrotas@ig.com.br.
** Graduado em História (Udesc), mestre em Sociologia Política (UFSC), doutorando do programa de
pós-graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Florianópolis (SC),
Brasil. Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas: Trabalho, Questão Social e América Latina (NEPTQSAL),
bolsista da Capes.

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http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.023
which three periods can be found in the last 40 years. We intend to show that the easing and the
degradation of the workers’ labor conditions and lives were reinforced after the civil-military coup in
1964, and they extend to the present, for they are extremely functional to the necessities of the capitalist
accumulation.
Keywords: Labor. Social rights. Dictatorship.

Introdução

A
s refrações das dinâmicas conflituosas da luta de classes na vida
do trabalhador brasileiro se evidenciam com os avanços e recuos
na legislação do trabalho de 1964 aos dias atuais. Nesta perspecti‑
va, é de fundamental importância compreender a atual e intensa
desregulamentação dos direitos do trabalho em consonância com as dinâmicas
de desenvolvimento da economia capitalista mundial, principalmente sua rela‑
ção com as economias capitalistas dependentes, como é o caso brasileiro.
A importância da análise dos impactos da ditadura civil-militar nos direi‑
tos trabalhistas e sociais no Brasil reside na ênfase da ação coletiva dos traba‑
lhadores na conjuntura que levou ao golpe de 31 de março/1º de abril de 1964.
Abordaremos a ditadura civil-militar através das várias formas de resistência
da classe trabalhadora, bem como a dinâmica dos conflitos sociais para o en‑
tendimento dos fenômenos políticos e econômicos relacionados às conjunturas
internas e externas.
O declínio dos direitos trabalhistas e sociais e o avanço do poder e do lucro
capitalistas serão observados de acordo com o contexto histórico, no qual se
localizam três períodos nos últimos quarenta anos: o de reação (1964-78); o de
avanço (1979-89); e o de retirada (1990-2000). Pretendemos demonstrar que a
flexibilização e a degradação das condições de trabalho e vida dos trabalhadores
foram reforçadas após o golpe civil-militar de 1964, sendo extremamente fun‑
cional às necessidades de acumulação do capital. O último período referido por
Petras (1999), de acordo com nossa análise, tem continuidade até a presente
conjuntura histórica, pois o que houve nos últimos governos eleitos pelos crité‑
rios da democracia liberal foi uma reciclagem do capitalismo dependente brasi‑
leiro, ampliando sua subordinação aos países capitalistas hegemônicos.

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1. A ditadura civil-militar e as ofensivas ao trabalho
Os direitos trabalhistas e sociais sofreram retrocessos com a implantação
da ditadura civil-militar no Brasil em 1964. O golpe de 1º de abril, apoiado pelo
imperialismo norte-americano, pelos setores conservadores da alta hierarquia
da Igreja Católica, pela burguesia internacional e nacional (industrial e finan‑
ceira, os grandes proprietários de terras),1 conteve o avanço das forças popu‑
lares que vinham num crescente nível de organização e mobilização em torno
das lutas pelas reformas de base.
O presidente João Goulart (PTB) desenvolvia um governo voltado para a
promoção da justiça social e da soberania nacional. Sua política de valorização
dos direitos trabalhistas, de defesa das reformas de base — agrária, tributária,
urbana, educacional e eleitoral2 — e de independência nas relações exteriores,
juntamente com a tentativa de limitar a remessa dos lucros do capital estrangei‑
ro para fora do país, desagradou aos interesses da burguesia brasileira associa‑
da ao capital imperialista.
O golpe civil-militar foi a resistência capitalista às possibilidades de re‑
formas e avanços sociais. Por meio da violência, os setores reacionários atuaram
com prisões de lideranças, torturas, assassinatos, expulsão de líderes esquerdis‑

1. Para Netto (2014, p. 74): “O regime derivado do golpe do 1º de abril sempre haverá de contar, ao
longo da sua vigência, com a tutela militar; mas constitui um grave erro caracterizá-la tão somente como uma
ditadura militar — se esta tutela é indiscutível, constituindo mesmo um de seus traços peculiares, é inega‑
velmente indiscutível que a ditadura instaurada no 1º de abril foi o regime político que melhor atendia os
interesses do grande capital: por isto, deve ser entendido como uma forma de autocracia burguesa (na inter‑
pretação de Florestan Fernandes) ou, ainda, como ditadura do grande capital (conforme a análise de Octávio
Ianni). O golpe não foi puramente um golpe militar, à moda de tantas quarteladas latino-americanas [...] — foi
um golpe civil-militar e o regime dele derivado, com a instrumentalização das Forças Armadas pelo grande
capital e pelo latifúndio, conferiu a solução que, para a crise do capitalismo no Brasil à época, interessava
aos maiores empresários e banqueiros, aos latifundiários e às empresas estrangeiras (e seus agentes, ‘gringos’
e brasileiros)”.
2. Destacamos, entre as principais, a reforma agrária, que possibilitava a quebra do monopólio oligár‑
quico da terra expresso nos grandes latifúndios, aumentava a oferta alimentar e travava o êxodo rural; a re-
forma tributária e fiscal, que assegurava a racionalização das principais fontes do fundo público; a reforma
urbana, que regulamentava socialmente o uso dos espaços das cidades; a reforma bancária, que constituía
um sistema de crédito capaz de subsidiar o financiamento da industrialização e possibilitava o mercado fi‑
nanceiro compatível.

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tas do país e intervenção em sindicatos.3 Sob o contexto da Guerra Fria e em
nome do anticomunismo, as forças reacionárias do país instituíra uma ditadura
civil-militar que objetivou promover a internacionalização da economia e a
reconcentração de renda, poder e propriedade nas mãos de corporações trans‑
nacionais, monopólios estatais e privados e grandes latifundiários, aprofundan‑
do sua integração com o mercado mundial e suas ligações com o capital finan‑
ceiro e industrial internacionais (Petras, 1999).
Ao tomar posse, o ditador marechal Castelo Branco estabeleceu um regi‑
me de completa arbitrariedade. Só nos dois primeiros meses de presidência,
com base nos poderes que lhe conferia o artigo 10 do Ato Institucional n. 1, “ele
cassou os direitos políticos de 37 pessoas, entre as quais três ex-presidentes,
seis governadores estaduais e 55 membros do Congresso Nacional. Dez mil
funcionários públicos foram demitidos e cerca de 5 mil inquéritos sumários que
envolveram 40 mil pessoas foram abertos” (Guisoni, 2014, p. 28).
A ditadura civil-militar atuou radicalmente para barrar as pretensões de
conquistas econômicas e sociais do governo João Goulart. A primeira medida
do governo de Castelo Branco foi revogar a Lei de Remessa de Lucros, que
impedia as empresas estrangeiras de fazer remessa de lucros exageradas para o
exterior. Ele estabeleceu o arrocho salarial, revogou o decreto que desapropria‑
va terra às margens das estradas para a reforma agrária, revogou a nacionaliza‑
ção das refinarias particulares e o decreto que congelava os aluguéis, restringiu
o crédito às pequenas e médias empresas, deu as mais amplas garantias ao ca‑
pital estadunidense que foram estabelecidas pelo Acordo de Garantia dos In‑
vestimentos Norte-Americanos no Brasil.
No campo trabalhista houve grande retrocesso, com o fim da lei que ga‑
rantia estabilidade aos trabalhadores após dez anos de trabalho na mesma em‑
presa. Ela foi substituída pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS),
criado pela Lei n. 5.107, de 1966, que estimulava a rotatividade da força de
trabalho. Os recursos arrecadados foram aplicados no sistema habitacional, que
seria financiado pelo Banco Nacional da Habitação (BNH). O trabalhador, ao

3. Sobre a participação dos empresários na organização do golpe civil-militar de 1964, ver Dreifuss
(1981), e sobre a repressão que se abateu sobre os militantes sindicais, ver Guisoni (2014).

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ser demitido sem justa causa, passava a receber uma indenização sobre o saldo
do fundo que é composto por depósitos mensais efetivados pelo empregador,
equivalentes a 8% do salário pago ao empregado, acrescido de correção mone‑
tária e juros.
O FGTS foi uma das primeiras flexibilizações do direito do trabalho bra‑
sileiro que vinha se ampliando desde a década de 1940 com a Consolidação das
Leis do Trabalho (CLT). Quanto à política de reajustes salariais, limitou-se à
revisão anual com base na média do salário dos 24 meses anteriores, acrescido
do “resíduo inflacionário” projetado para os próximos doze meses e da produ‑
tividade do ano anterior.
O arrocho salarial foi a política efetivada pelo ciclo ditatorial. O caráter
de classe do regime ditatorial pode ser percebido como o Executivo federal
tratou os reajustes salariais. A fixação dos reajustes foi utilizada como instru‑
mento de maximização da exploração da força de trabalho, um meio para rea‑
lizar a “acumulação predatória” (pagamento de salários abaixo do valor da
força de trabalho). “Tratou-se de uma política salarial dirigida abertamente
contra a massa da classe trabalhadora, em especial a classe operária, sobre a
qual se descarregou o custo decisivo da ‘estabilização econômica’: com o ar-
rocho, garantiu a superexploração dos trabalhadores4 para a multiplicação dos
lucros capitalistas” (Netto, 2014, p. 92).
Para manter a política do arrocho, o caminho legislativo encontrado foi a
lei antigreve. A lei de greve de 1º de julho de 1964 (Lei n. 4.330) proibiu a
greve no serviço público, nas empresas estatais e nos serviços essenciais. A
greve só seria considerada legal quando os empregadores atrasassem o paga‑
mento ou quando não pagassem salários conforme as decisões judiciais.
As medidas tomadas pela ditadura civil-militar relatadas acima foram
algumas das ações providenciadas pelo regime ditatorial para atuar na explora‑
ção e repressão de classe no Brasil, repercutindo diretamente nos direitos do
trabalho e nas condições de vida dos trabalhadores.

4. “A superexploração dos trabalhadores revela-se com inteira clareza se se considera o tempo de tra‑
balho necessário para a aquisição da ração alimentar (definida em 1938, quando da criação do salário mínimo):
se, para comprá-la em 1963, o trabalhador que recebesse o salário mínimo devia laborar por 98 horas e 20
minutos, para fazê-lo em 1967 teria que laborar por 105 horas e 16 minutos” (Netto, 2014, p. 93).

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2. A retomada do sindicalismo classista
Assassinatos, exílios, desaparecimentos, muito sofrimento para a socieda‑
de brasileira estiveram presentes na história do Brasil durante a ditadura civil‑
-militar. Fatos e acontecimentos trágicos marcantes dos anos 1964-84 ainda
necessitam ser esclarecidos e apurados com as devidas doses de justiça política,
social e ética.
No âmbito do trabalho e dos direitos sociais, as principais consequências
foram as medidas que resultaram no arrocho salarial, mas em fins dos anos 1970
o movimento sindical toma novo fôlego no ABC paulista. Foi o momento da
retomada do sindicalismo classista que se encoraja para enfrentar o regime
ditatorial.
Com o ressurgimento do movimento sindical combativo, principalmente
em São Bernardo do Campo, na região da Grande São Paulo, onde se desen‑
volveu o parque automobilístico brasileiro, forma-se uma nova classe operária
que passa a contestar o modelo econômico concentrador de renda da ditadura
civil-militar e a lutar por liberdades democráticas e direitos sociais.
Os sindicalistas passam a exigir autonomia e liberdade sindical, fim do
arrocho salarial e melhores condições de vida. Propicia assim no refluxo da
ditadura, um novo avanço dos trabalhadores entre os anos 1979 e 1989. Esse
avanço ocorre em duas fases: um avanço social baseado nas lutas pela terra,
pelas greves massivas de sindicatos, e lutas urbanas, em organização e ação
entre 1979 e 1985, e um período subsequente de avanço político e econômico
(1986-89), com progressos na legislação social através da Constituição Federal
de 1988 e aumento do poder eleitoral dos trabalhadores por intermédio do Par‑
tido dos Trabalhadores (PT).
As principais conquistas dos trabalhadores foram: o reconhecimento da
liberdade de organização sindical que, no entanto, ainda ficou limitada pela
unicidade sindical, diminuição da jornada de trabalho em turnos ininterruptos
para seis horas diárias; redução da jornada de trabalho de 48 para 44 horas;
elevação do adicional de horas extras para o mínimo de 50%; aumento em 1/3
da remuneração das férias; ampliação da licença-maternidade para 120 dias;
criação da licença-paternidade de cinco dias; elevação da idade mínima para

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admissão no emprego para catorze anos; instituição da figura do representante
dos trabalhadores nas empresas com mais de duzentos empregados; estabilida‑
de de dirigentes sindicais, membros de Comissões Internas de Acidentes do
Trabalho (Cipas) e das trabalhadoras gestantes (Brasil, 2000).
Na década de 1980, o sindicalismo brasileiro vive um momento de ascen‑
são das lutas sociais do trabalho, com o avanço das greves, a criação da Central
Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983, as tentativas de organizar os traba‑
lhadores nos locais de trabalho, o avanço do sindicalismo rural e do sindicalis‑
mo no setor público, o aumento da sindicalização em contratendência ao mo‑
vimento de dessindicalização que vinha ocorrendo em nível internacional
(Antunes, 1991). Assim mesmo, as taxas de sindicalização no Brasil continua‑
vam baixas se comparadas com outros países.
Enquanto nos países europeus o movimento sindical apresenta declínio, o
movimento sindical brasileiro na década de 1980 vive um dos maiores ascensos
da sua história. São criadas centenas de sindicatos oficiais e associações livres
do funcionalismo público; os trabalhadores das classes médias urbanas e os
trabalhadores agrícolas são incorporados e demonstram grande capacidade de
luta e mobilização. Esse processo fica evidente pelo crescente número de greves
ocorridas.

Quadro 1 — Greves e grevistas nos anos 1980

Ano Greves Grevistas

1982 147 695.930

1983 330 3.187.130

1984 443 1.616.790

1985 676 6.071.214

1986 1.267 8.254.140

1987 1.052 12.047.000

1988 849 8.213.899

1989 1.548 10.082.330

Fonte: Araújo, 1993, p. 119.

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Do ponto de vista das reivindicações e greves, os principais motivos são
a centralidade da luta contra a exploração do trabalho e a reposição das perdas
salariais.

Quadro 2 — Percentual das principais reivindicações dos movimentos grevistas em relação


ao total de greves. Brasil, região urbana (1978-86)

Percentual (%)

Reajuste salarial 63,4

Não cumprimento de leis e acordos 23,3

Situação funcional 19,9

Condições de trabalho 17,3

Adicionais e abonos 13,7

Poder sindical 8,9

Bem-estar na empresa 5,5

Fonte: Antunes, 1991, p. 34.

Antunes (1991) avalia que apesar dessa causalidade econômica, motiva‑


dora desse enorme volume de greves desencadeadas no período, elas são
permeadas pela dimensão política, anticapitalista na medida em que ao reivin‑
dicar melhores condições de salário e trabalho, bem como o fim do arrocho,
assume uma forma de confronto com as bases da política econômica a serviço
do capital.
No final desse período, a luta dos trabalhadores desloca-se do plano das
lutas diretas e de classes para o terreno da luta eleitoral, que é hegemonicamen‑
te controlado pela burguesia através do poder econômico e da mídia. O candi‑
dato operário Lula da Silva, do PT, é derrotado por Fernando Collor de Mello,
do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), o candidato da burguesia, nas
primeiras eleições diretas desde o golpe de 1964.

282 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 275-293, abr./jun. 2015
3. O movimento grevista nos anos 1990
A partir de 1989, com a eleição do presidente Collor, iniciou-se um perío‑
do de retrocessos sociais com altíssimas taxas de desemprego. A hegemonia
burguesa se manteve com o apoio internacional do capital, a desmobilização
interna dos trabalhadores, a separação entre lutas eleitorais e as lutas urbanas
de massa, e a liderança política e vontade da burguesia liberal para quebrar
decisivamente o contrato social dos anos 1980, primeiramente com Collor, que
acabou sendo deposto por um vasto movimento social e político de massas,
desencadeado ao longo de 1992, e mais tarde, de forma mais contundente, com
Cardoso, em seus oito anos de neoliberalismo (Petras, 1997; Matos, 2010;
Antunes, 2011).
Quanto aos sindicatos, estes foram envolvidos pelas políticas de pacto com
as elites, não sendo capazes de contra-atacar. Na CUT, isso ficou evidenciado
pela postura de seu presidente Vicentinho, quando, em janeiro de 1996, negociou
acordo de reforma da Previdência com o governo Cardoso, retirando direito
histórico dos trabalhadores, trocando a aposentadoria por tempo de serviço pela
aposentadoria por tempo de contribuição. Outras políticas nesse sentido foram
desenvolvidas, como as câmaras setoriais com participação tripartite entre
empresários, governo e sindicalistas, e as políticas de formação profissional do
governo em conjunto com as centrais sindicais.
Para Antunes (1995), os setores hegemônicos do sindicalismo brasileiro
ingressavam em uma fase defensiva, marcada pela postura participacionista e de
negociação, abandonando o sindicalismo de classe dos anos 1960-80. As pers‑
pectivas emancipatórias, a luta pelo socialismo e pela emancipação do gênero
humano entravam numa onda de aceitação acrítica da social-democratização.
Após o impedimento de Collor por corrupção em 1992, seguiu-se a posse
de Itamar Franco, que, tendo Fernando Henrique Cardoso à frente do Ministé‑
rio das Relações Exteriores e em seguida do Ministério da Fazenda, concluiu
acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) que previa pagamento ri‑
goroso dos juros da dívida externa e interna, nos termos do Plano Brady, para
a qual foi necessário rigoroso ajuste fiscal junto com o compromisso de venda
das empresas públicas (Chossudowsky, 1999; Petras, 2001).

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Fernando Henrique Cardoso, no seu governo, congelou o salário dos ser‑
vidores públicos, cortou direitos trabalhistas e diminuiu a participação dos salá‑
rios no Produto Interno Bruto (PIB), que caiu de 45% em 1992 para 36% no
final da década de 1990, aumentando a participação do lucro das empresas, que
passou de 35% para 44% nesae período. A concentração de riqueza aumentou
ainda mais, agravando a “questão social” no país. O resultado final desse gover‑
no foi uma enorme diminuição do número de empregos, miséria crescente, ar‑
rocho salarial, desindustrialização e desnacionalização da economia (Cano, 2000).
Os processos de terceirização, flexibilização, cooperativização, informa‑
lização, entre outras estratégias de precarização das relações de trabalho, en‑
contraram eco na política governamental com a quebra da estabilidade dos
servidores públicos, permitindo-se a demissão por “excesso de despesas”.
Dentre as principais ofensivas ao trabalho e aos direitos sociais, destacam-se:
o projeto de lei de contratação temporária de dois anos com redução de encargos
sociais; a livre negociação salarial, que entrega os trabalhadores às garras do
capital, dispensando-se a proteção do Estado ao poder de compra dos salários;
a revogação da Convenção n. 158 da Organização Internacional do Trabalho
(OIT), que garantia fatores inibidores da demissão sem justa causa; a criação
do banco de horas extras; a flexibilização da legislação em ataque aos direitos
estabelecidos na Consolidação das Leis do Trabalho; e a criação do Fator Pre‑
videnciário (Cano, 2000).5
Com a introdução dos planos de estabilização a partir dos governos Collor,
Itamar e Cardoso, ocorre redirecionamento da ação sindical diante da nova
realidade econômica e política de profundas mudanças marcadas por dois fato‑
res centrais: o fim da inflação e a elevação das taxas de desemprego. Em perío‑
dos de recessão econômica e crise ideológica do movimento sindical, as ban‑
deiras de luta são mais voltadas para a realidade imediata. Conforme análise do
Dieese (1999): “Apesar de o número de greves total continuar elevado (e até

5. Em 1999, Fernando Henrique Cardoso acabou com o direito de o trabalhador se aposentar com sa‑
lário integral cumprindo 35 anos de contribuição ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e insti‑
tuiu o fator previdenciário. Por este fator, o cálculo da aposentadoria leva em conta o tempo de contribuição,
a idade e a expectativa de sobrevida após a aposentadoria. Por essa fórmula chega-se a reduzir até pela me‑
tade o valor do benefício do trabalhador quando ele se aposenta, a não ser que ele trabalhe muito mais.

284 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 275-293, abr./jun. 2015
crescente) até 1996, a enorme alta nos níveis de inadimplência das empresas e
a crescente taxa de desemprego já indicavam dificuldades para a mobilização
dos trabalhadores, retratada pelo aumento na luta pelo cumprimento de direitos”.

Quadro 3 — Número de greves, grevistas, média de trabalhadores por greve e reivindicações


(em números absolutos)

Anos Greves Grevistas Média

1992 557 2.562.385 4.600

1993 653 3.595.770 5.507

1994 1.034 2.755.619 2.665

1995 1.056 2.277.894 2.157

1996 1.258 2.795.175 2.222

1997 630 808.925 1.284

Distribuição das reivindicações (em %)

Motivos 1993 1994 1995 1996 1997

Remuneração 61,5 76,8 49,3 40,1 32,4

Direito 23,7 18,6 36,8 42,2 43,0

Emprego 11,6 9,7 10,2 9,8 14,4

Part. lucro n/d n/d 9,2 17,7 15,1

Condição de trab. 11,8 8,6 9,6 9,8 11,6

Sindical 5,4 8,2 7,4 2,8 4,5

Protesto 6,3 2,9 4,4 0,7 3,2

Jornada 3,4 3,3 4,5 11,5 7,6

Fonte: Dieese, 1999, p. 4.

Os anos 1990 são marcados por lutas imediatas e poucas conquistas subs‑
tantivas que travassem os processos de flexibilização e precarização do trabalho.
As contrarreformas nas políticas sociais (retiradas de direitos históricos, como
no caso da Previdência) e a privatização do patrimônio público foram as prin‑
cipais causas que colocaram o movimento sindical na defensiva.

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4. A reciclagem do capitalismo dependente com Lula e Dilma
Com o desgaste do governo Cardoso em função das baixas taxas de cres‑
cimento da economia mundial e brasileira, nas eleições de 2002 foi eleito o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, despertando a esperança do povo brasi‑
leiro por mudanças. No entanto, entre suas primeiras medidas destacam-se a
retirada de direitos previdenciários dos servidores públicos exigida pelo Banco
Mundial, instituindo a cobrança de contribuição para servidores aposentados,
estabelecendo o teto do regime geral da Previdência para as aposentadorias e a
criação de um fundo privado de pensão para os futuros servidores que quiserem
complementar sua aposentadoria, além da continuidade da política macroeco‑
nômica conservadora com base nos mesmos pressupostos neoliberais de Collor
e Cardoso.
A estratégia acomodatícia aos limites do capitalismo foi consolidada com
a chegada ao poder do presidente Lula, vinculado historicamente à criação da
Central Única dos Trabalhadores. Lula e o PT aliaram-se ao capital para vencer
as eleições e adotaram na campanha um discurso de compromisso com o Fun‑
do Monetário Internacional (FMI) na intitulada Carta ao Povo Brasileiro, que
na verdade era uma Carta aos Banqueiros. O colaboracionismo com o capital
foi consagrado com a participação das centrais sindicais no Conselho de De‑
senvolvimento Econômico e Social (Codes), um organismo consultivo de po‑
líticas públicas com representantes do empresariado, de personalidades da so‑
ciedade civil, das centrais sindicais de trabalhadores e do governo.
A política econômica de Lula da Silva foi de incentivo ao grande capital
financeiro e produtivo. Com nova ascensão da economia mundial, a partir de
2004 houve no Brasil a retomada do crescimento com melhoria na distribuição
de renda, incremento real do salário mínimo e ampliação de empregos, dando
assim sólida base de apoio social a Lula para reeleger-se em 2006 e em 2010
eleger sua sucessora, Dilma Rousseff. Foi dada continuidade à política que
combinava rigoroso equilíbrio fiscal nos moldes preconizados pelo FMI com
políticas sociais compensatórias para aliviar a pobreza. Quanto à distribuição
de renda, o Dieese afirma que houve queda no índice de Gini de 0,596, em 2001,
para 0,593, em 2009, e que a partir de 2003 a melhoria da distribuição de renda

286 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 275-293, abr./jun. 2015
foi acompanhada de elevação da renda média dos brasileiros, porém o Brasil
continua a ter elevada concentração de renda (Dieese, 2012b, p. 332).
A parceria do trabalho com o capital não rompeu com a histórica explora‑
ção dos trabalhadores do campo e da cidade. A superexploração da força de
trabalho continua presente como traço estrutural da formação capitalista depen‑
dente brasileira (Fernandes, 2006; Marini, 2000), apesar do anúncio de melho‑
rias pelo governo federal. Nas conjunturas de recuperação econômica que
ocorrem a partir de 2004 até 2008, um estudo do Departamento Intersindical
de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) afirma que houve conquis‑
ta de ganhos salariais acima da inflação para a maior parte das categorias,
embora em grande parte do período analisado os indicadores sejam bastante
modestos: de 0,01 a 1% acima do INPC-IBGE (Dieese, 2012b, p. 294). Em
estudo mais recente sobre as negociações de 2011, verifica-se aumento real
médio de 1,68%, em 2010, e 1,38%, em 2011 (Dieese, 2012a, p. 26).
Um fator que demonstra a permanência da precariedade do trabalho no
Brasil é a alta taxa de rotatividade no mercado de trabalho. De acordo com o
Dieese, na primeira década deste século, a rotatividade apresentou taxas que
variaram entre 43,6%, em 2004, e 52,5%, em 2008, chegando em 2010 a 53,8%
(DIEESE, 2012b, p. 284).
Quanto à positiva retomada de geração de empregos na última década,
cabe ressaltar que o maior saldo líquido das novas ocupações abertas concentram‑
-se na faixa dos 1,5 salário mínimo: “Dos 2,1 milhões de vagas abertas anual‑
mente, em média 2 milhões encontram-se na faixa de até 1,5 salário mínimo
mensal” (Pochmann, 2012, p. 22).
Outro fator que rebateu sobre as relações de trabalho foi a tentativa de
flexibilizar os direitos trabalhistas assegurando que o negociado prevaleça sobre
o legislado iniciado com o PL n. 5.483/2001, durante o governo Cardoso, so‑
frendo forte oposição das centrais sindicais, principalmente da Central Única
dos Trabalhadores (CUT). Em 2003, o presidente Lula solicitou ao Senado a
retirada e o arquivamento do projeto. Eis que dez anos depois surge a proposta
do Acordo Coletivo de Trabalho com Propósito Específico (ACE), forjado no
Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, o berço da Central
Única dos Trabalhadores (CUT), que flexibiliza direitos trabalhistas, autorizan‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 275-293, abr./jun. 2015 287
do que o acordado entre patrões e empregados prevaleça sobre o legislado
(Druck, 2013).
Para agravar a situação, a Confederação Nacional da Indústria (CNI)
apresentou ainda no final do ano de 2012, em Brasília, documento intitulado
“101 propostas para modernização trabalhista”, que prevê nova rodada de ata‑
ques aos direitos do trabalho. Os empresários informam que há 52 milhões de
trabalhadores informais no país, brandindo o argumento de que há excesso de
leis trabalhistas que aumentam o “custo Brasil”, impedindo-os de formalizar as
contratações e ter competitividade no mercado mundial. A argumentação dos
empresários é falaciosa, pois o custo da força de trabalho no Brasil é dos me‑
nores no mundo. De acordo com o Dieese (2009), o custo da hora-salário nas
indústrias estadunidenses em valores de 2007 era de 24,59 dólares, enquanto
no Brasil era de 5,96 dólares.
Entre as propostas, podemos destacar o fim das férias integrais, podendo
ser esta parcelada ao longo do ano; o fim do turno de seis horas nas fábricas que
funcionam ininterruptamente; o banco de horas passa a ser negociado com o
sindicato da categoria hegemônica na empresa; a adoção de negociações indi‑
viduais com cargos de direção e gerência; o fim da hora noturna de 52,5 minu‑
tos; não computação do deslocamento do trabalhador entre o cartão de ponto e
o posto de trabalho como tempo de trabalho; o fim da ultratividade das normas
do contrato coletivo enquanto não se firma novo acordo por meio de negociações;
o fim dos salários mínimos regionais etc. (CNI, 2012).
Para Druck (2013), “a ideologia empresarial brasileira, herdeira da expe‑
riência escravocrata no país, fez de sua resistência e desobediência à legislação
trabalhista um fato que se reproduz na história do país”. A autora destaca que
foi assim antes de 1930, após a promulgação da CLT, em 1943, e continua nos
dias de hoje marcados pela ascensão do neoliberalismo.
Neste momento histórico, a ideologia do “negociado sobre o legislado”
passou a ser predominante e vem se expressando nas práticas da maioria dos
sindicatos e centrais sindicais, nas instituições do direito do trabalho e no em‑
presariado brasileiro, que orientam sua atuação em defesa da negociação como
recurso primeiro e principal, quando não quase exclusivo, das disputas entre
capital e trabalho.

288 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 275-293, abr./jun. 2015
Além dessa ofensiva da CNI, o Departamento Intersindical de Assessoria
Parlamentar (Diap) informou que existem cerca de quarenta projetos de lei em
tramitação no Congresso Nacional com tentativas de retirada de direitos. No
caso daqueles que trabalham no setor privado, há proposta de regulamentação
da terceirização em bases precarizantes (PL n. 4.330/2004), propostas de revi‑
são da CLT (PL n. 1.463), projeto que impede reclamatória trabalhista exceto
para as parcelas expressamente ressalvadas na quitação da rescisão (PL
n. 948/2011), entre outros (Diap, 2013).
Para os trabalhadores, a agenda positiva inclui desde a regulamentação da
Convenção 151 da OIT, em elaboração pelo Poder Executivo; a redução da jor‑
nada para 40 horas, sob exame da Câmara, e o fim da contribuição dos inativos,
além do projeto de lei que ameniza os efeitos perversos do fator previdenciário.
O fato de as organizações sindicais e partidárias de esquerda terem adota‑
do a linha de menor resistência durante a época neoliberal significou derrotas
significativas para a alternativa socialista. Símbolos da classe trabalhadora,
como a CUT e o PT, foram abalados por serem incapazes de romper com a
dominação do capital sobre o Estado brasileiro.6
O aprofundamento da crise obriga os trabalhadores a se organizarem sin‑
dicalmente para defender seus direitos. Funcionários públicos lutam por me‑
lhores salários e planos de carreira; trabalhadores da iniciativa privada lutam
por mais direitos, por garantia de manutenção das cláusulas dos acordos cole‑
tivos e contra a retirada de direitos, somando um total de 518 greves em 2009
e 446 em 2010 (Dieese, 2012c). Em 2012, ocorreram 873 greves no Brasil, num
aumento de 58% em relação a 2011, e o maior número desde o ano de 1997
(Dieese, 2013).7 Uma grande onda de manifestações populares por direito à

6. Restou uma postura crítica em relação ao governo federal e às políticas do grande capital proclama‑
da pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), e a oposição pelos pequenos partidos de
esquerda, pelas várias alternativas sindicais de esquerda que saíram da CUT para reorganizar o movimento
classista, entre as quais destacamos a Central Sindical e Popular — Conlutas e a Intersindical — Central das
Classes Trabalhadoras, além de pequenos grupos que no interior da CUT tentam pressionar o governo fede‑
ral por uma mudança de postura.
7. As principais motivações das greves desse período foram reajuste salarial (41%); introdução, manu‑
tenção ou melhoria do auxílio-alimentação (27%); cumprimento, implantação e/ou reformulação de Plano
de Cargos e Salários (23%) e paralisações relativas à Participação nos Lucros ou Resultados (19%). Do total
de greves 18% delas foram motivadas por atraso no pagamento de salários (Dieese, 2013).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 275-293, abr./jun. 2015 289
moradia, à saúde, à educação e aos transportes públicos de qualidade eclodiu
em junho de 2013, demonstrando que as insatisfações dos trabalhadores não
foram silenciadas pelas negociações de cúpulas realizadas entre as centrais
governistas, governo e empresários (Maricato, 2013). Empurradas pelo movi‑
mento das ruas, as centrais sindicais foram obrigadas a convocar um Dia Na‑
cional de Mobilizações, Paralisações e Greves em 11 de julho de 2013, em
defesa de uma plataforma de lutas trabalhistas e sociais: reduzir o preço e
melhorar a qualidade dos transportes públicos; mais investimentos na saúde e
educação pública; fim do fator previdenciário e aumento das aposentadorias;
redução da jornada de trabalho; fim dos leilões das reservas de petróleo; contra
o PL n. 4.330 da terceirização; reforma agrária.
Para Antunes (2014), o crescimento das greves que vem sendo registrado
nos últimos anos pelo Dieese se relaciona a três movimentos que caminhavam
em paralelo e se entrecruzaram, produzindo um choque social e político pro‑
fundo. Em primeiro lugar, as lutas globais do trabalho contra o capital vêm
crescendo desde 2008; em segundo, um novo impulso a partir das jornadas de
junho de 2013 que questionou o modelo econômico que mantém a degradação
do trabalho e a precarização das políticas públicas, e, em terceiro, o desconten‑
tamento popular com os gastos exorbitantes da Copa do Mundo.

Considerações finais
A trajetória dos direitos trabalhistas no Brasil, a partir de 1964, passou por
momentos de retirada, avanço e recuo. As primeiras medidas flexibilizadoras
começaram com a ditadura civil-militar, passaram pelo período de resistência
nas lutas classistas do novo sindicalismo nos finais dos anos 1970 e durante os
1980, mas nos anos 1990 e 2000 foram retomadas na era neoliberal com os
presidentes Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luiz I­ nácio
Lula da Silva e Dilma Rousseff.
A reciclagem do capitalismo dependente no interior da transição lenta,
gradual e segura gestada pelos ideólogos do regime ditatorial manteve a superex‑
ploração do trabalho no Brasil que se estende até os dias de hoje. A ressurgência
de greves e manifestações das classes trabalhadoras na atualidade é bastante

290 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 275-293, abr./jun. 2015
animadora para o movimento sindical classista que se ancora na perspectiva da
transformação social, pois as conquistas da economia política do trabalho possi‑
bilitam o processo de avanços substantivos dos trabalhadores.
Parece-nos que diante da mundialização do capital está ocorrendo uma
mundialização das lutas sociais, mas muitas reivindicações são para garantir
conquistas históricas dos trabalhadores que estão em processos de perdas e
retiradas, ou seja, os direitos sociais estão em subtração. As conquistas do tra‑
balho ao longo do século XX que se configuraram em verdadeiras reformas
estão sofrendo ataques e, na conjuntura das primeiras décadas do século XXI,
os movimentos sociais estão na defensiva e lutam para preservar direitos sociais,
com poucas conquistas inéditas.

Recebido em: 2/10/2014  ■   Aprovado em: 9/3/2015

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Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 275-293, abr./jun. 2015 293
A particularidade da dimensão
investigativa na formação e prática
profissional do assistente social
The peculiarity of the investigative dimension in the
social worker’s formation and professional practice

Carlos Antonio de Souza Moraes*

Resumo: O artigo problematiza “como” a dimensão investigativa


tem sido construída nos cursos de graduação em Serviço Social na
atualidade, bem como se os discursos críticos vinculados à investiga‑
ção e edificados na academia têm conseguido alimentar a ação profis‑
sional. Para tanto, recorre à pesquisa bibliográfica e de campo. Os
resultados preliminares indicam que a precarização do ensino superior,
da formação profissional, das condições de trabalho docente e do as‑
sistente social, bem como sua condição assalariada e o compromisso
com a qualidade dos serviços e com a formação intelectual são centrais
para análise do tema.
Palavras-chave: Serviço Social. Formação profissional. Prática pro‑
fissional. Dimensão investigativa.

Abstract: The article brings forward two questions: “how” the investigative dimension has been
built up in the graduation courses of Social Work nowadays, and “if” the critical discourses that are
linked to investigation and built up in the university can foster the professional action. To do so, both
bibliography and field research were undertaken. The preliminary results show that the precariousness
of university courses, professional formation, teaching conditions, social workers’ working conditions,
as well as their salaried condition and the commitment with the quality of the work and the intellectual
formation are central to the analysis of the theme.
Keywords: Social Work. Professional formation. Professional practice. Investigative dimension.

* Bacharel em Serviço Social pela UFF/Campos (RJ), mestre em Políticas Sociais pela Uenf, doutoran‑
do em Serviço Social pela PUC-SP, professor assistente na Universidade Federal Fluminense, Rio de Janei‑
ro (RJ), Brasil, pesquisador do Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisa em Cotidiano e Saúde (Gripes).
E-mail: as.carlosmoraes@gmail.com.

294 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.024
1. Reflexões introdutórias
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que
parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como
coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de
arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer na‑
tural, nada deve parecer impossível de mudar. Bertolt Brecht.

E
ntre assistentes sociais ainda circulam algumas compreensões do
“estágio supervisionado em Serviço Social como ‘treino’ da prática
profissional” e de que “na prática a teoria é outra”, portanto, “muitas
vezes, é preciso esquecer o que se aprendeu na academia para so‑
breviver enquanto trabalhador assalariado, inserido no mercado de trabalho
através de contratos de trabalho precarizados”.
Não por acaso, as principais análises teóricas referentes ao trabalho/exer‑
cício/prática1 profissional ainda tem identificado o assistente social como o
profissional que “faz tudo”, priorizando requisições e interesses institucionais,
colocando-se como aquele que, embora tenha um discurso que, aparentemente,
se aproxima dos usuários, na prática se distancia ao tentar manter a ordem e o
controle institucionais, reproduzindo práticas imediatas, gestadas e determina‑
das pela instituição empregadora.
A esse respeito, a hipótese de Vasconcelos (2010-2011, p. 11) é de que

no que se refere à prática direta com os usuários, é quase nula a diferença que
separa o presente do passado na prática do Serviço Social no país, com a maioria
dos assistentes sociais priorizando as requisições, interesses institucionais e con‑
sentindo, ainda que seja um consentimento não intencionado — que, na atenção
aos usuários, impere formas históricas de mando e obediência, ainda que reatua‑
lizadas e/ou “resignificadas”.

1. Este artigo aborda prática profissional, exercício profissional e trabalho profissional como sinônimos,
ao compreendê-los tendo por base as dimensões da competência profissional. Isto é, defendemos que a defi‑
nição desses conceitos é, necessariamente, constituída pelas dimensões teórico-metodológica, ético-política
e técnico-operativa. Para aprofundar a discussão, ver Moraes, 2014.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015 295
Na tentativa de, conforme sugerido por Brecht, desconfiar, examinar e
analisar essa situação presente no interior do Serviço Social, a Associação
Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (Abepss) e demais intelectuais
dessa área de conhecimento têm defendido veementemente que o debate da
prática/exercício/trabalho profissional não pode ser desvinculado do debate da
formação profissional e nem o contrário.
No que se refere à formação profissional, é consenso entre os autores que
têm se debruçado sobre o tema que temos sofrido diretamente com a expansão
da política de educação do ensino superior através de uma larga escala de ex‑
pansão universitária mercantil, que aprofunda a privatização interna das uni‑
versidades públicas e amplia a privatização da educação superior presencial e
à distância (Dahmer, 2008), contribuindo para omitir a intensificação da des‑
qualificação da formação profissional, sob aparência de ampliação do acesso
ao “ensino” superior (Lima, 2008).
Mota (2011), ao analisar as atuais tendências da política de educação supe‑
rior entre 2000 e 2010, indica que há a adoção, pelo governo Lula, de uma peda‑
gogia que tem a capacidade de obter consensos junto à sociedade, posto que era
permeada de apelos populistas e de usos transformistas de conceitos e reivindi‑
cações que foram tecidos no campo da esquerda combativa e dos trabalhadores
organizados. Para a autora, houve atendimento de algumas demandas processadas
no campo da esquerda, mas destituídas de sua base original. São exemplos:

[...] o direito à educação, transformado em acesso aos serviços educacionais através


do mercado; a ampliação de vagas atendida através da expansão de instituições
privadas mercantis e do ensino à distância; a qualidade do ensino que passa a ser
tratada como uma questão de eficiência e eficácia; a relação entre público e privado
como esferas complementares. Além disso, procuraram suprimir as tensões e os
projetos de uma formação superior laica, pública e socialmente referenciada através
do marketing social, via política de cotas, financiamento das mensalidades do en‑
sino privado e da abertura desmedida de novos cursos, através do Reuni e da inte‑
riorização de novas Instituições de Ensino Superior (IES). (Mota, 2011, p. 60-61)

No que se refere ao governo Dilma Rousseff, dados recentes indicam que


essa política continua em curso, quando as autorizações para funcionamento já

296 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
chegam a 567 cursos aprovados pelo MEC (embora nem todos estejam em
funcionamento) (Abreu, 2013).
Esses dados possibilitam recorrer a Mészáros (2005) ao afirmar que a
educação tem se evidenciado como elemento preponderante para a efetivação
do capital, a ampliação do processo de superexploração do trabalho, promovi‑
da pela reestruturação produtiva, que tem o objetivo de transformar os proces‑
sos de produção, circulação e consumo de mercadorias, mais ágeis e intensivos.
Nesse contexto, a educação configura-se como estratégia de manutenção
da hegemonia do capital, frente à crise de acumulação. Como política e como
direito social, suas medidas têm sido cada vez mais regressivas, sendo ofertada
de maneira minimalista para aumentar timidamente os salários e dinamizar o
mercado de consumo. Marcas da mercantilização se fazem presentes em todos
os níveis educacionais, em especial no ensino superior (Pereira e Almeida, 2012).
Diante disso, é possível afirmar que a contrarreforma do ensino superior
no Brasil é questão central para o Serviço Social, já que o crescimento mercan‑
til das vagas em cursos privados e na modalidade à distância pode redefinir, em
curto prazo, o perfil profissional, pronto a atender acriticamente as demandas
imediatas do capital, formando um exército social de reserva (Iamamoto, 2008).
Assim, a defesa do projeto de formação profissional construído e explicitado
nas Diretrizes Curriculares da Abepss de 1996 tem se colocado como inadiável
para o Serviço Social, pois desta tarefa também imprescinde a reafirmação do
projeto ético-político profissional, que tem como um dos seus componentes
centrais a formação profissional.
Em termos quantitativos, o Serviço Social brasileiro, no ano de 2011,
possuía 358 cursos de graduação autorizados pelo Ministério da Educação
(MEC), sendo 340 de ensino presencial e dezoito do ensino à distância. No
entanto, os cursos de ensino à distância ofertaram, no ano de 2011, 68.742
vagas, enquanto o ensino presencial ofertou 39.290 (Iamamoto, 2014, informa‑
ção verbal).
Isto demonstra que os dezoito cursos de ensino à distância ofertaram, no
período de 2011, quase o dobro dos 340 cursos presenciais. A esse quadro alia‑
-se o quantitativo de assistentes sociais ativos no Brasil. Segundo o Conselho
Federal de Serviço Social (CFESS, 2013), temos 135 mil profissionais, sendo

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015 297
o segundo país no mundo com maior contingente profissional (Iamamoto, 2014,
informação verbal).
Mediante a concepção de educação “acrítica” e os dados ora apresentados,
torna-se possível evidenciar as seguintes questões em confronto com o projeto
de formação profissional do Serviço Social atual: privatização do ensino supe‑
rior; crescimento do ensino à distância; precarização das condições de trabalho
e do trabalho docente; exacerbado produtivismo acadêmico; adoecimento de
docentes e discentes como fruto destes processos; aumento de vagas para uma
formação rápida; baixa qualidade da educação; falta de incentivo e condições
de construção de propostas de pesquisa e extensão articuladas ao ensino;
compreensão do estágio supervisionado em Serviço Social como “treino” da
prática profissional, sem articulação entre seus supervisores, mediante número
excessivo de demandas e problemas na captação de vagas de estágio.
Além desses fatores, Iamamoto (2014) acrescenta a ampliação do acesso
da juventude trabalhadora ao ensino superior, através de financiamento do Es‑
tado ao empresariado da educação. Para autora, a busca pelo ensino superior
está vinculada a ascensão social e elevação de status no seio familiar. Ainda faz
referência à influência da religiosidade, com destaque para o protestantismo,
nos dias atuais (com a defesa da fraternidade e prosperidade econômica capi‑
talista). Religiosidade amplamente afinada com a ascensão social nos moldes
capitalistas (informação verbal).
Esses aspectos alteram a condição de classe do segmento profissional. Para
Iamamoto (2014), há uma redução da distância social entre a categoria profis‑
sional e o público atendido, e essas transformações, que merecem ser estudadas
e analisadas de forma cuidadosa, produzem implicações para o universo cultu‑
ral dos estudantes.
Diante disso, torna-se possível afirmar que vivemos, na atualidade, um
processo de precarização na formação de assistentes sociais, que incide na
qualidade do ensino e no aligeiramento da pesquisa e da capacidade de cons‑
trução do conhecimento de forma crítica e autônoma, além de maior preocupa‑
ção com o treinamento dos graduandos, voltando-se para demandas flexíveis
do mercado, que reforçam os mecanismos ideológicos de submissão dos pro‑
fissionais, o que pode provocar um imenso processo de despolitização da cate‑
goria profissional (Iamamoto, 2014; informação verbal).

298 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
Por outro lado, a categoria profissional tem se mobilizado na problemati‑
zação, análise e debates referentes a esse modelo mercantil e privatizante e seus
rebatimentos na formação dos assistentes sociais. Grande expressão desses
debates é a campanha realizada pelo Conselho Federal de Serviço Social e
Conselhos Regionais de Serviço Social, a Associação Brasileira de Ensino e
Pesquisa em Serviço Social, e a Executiva Nacional de Estudantes de Serviço
Social, denominada “Educação não é fast-food”, que contou com o apoio do
Andes — Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior
— e várias entidades de defesa da educação como direito. Além disso, essa
problemática tem sido discutida nos encontros e congressos da categoria pro‑
fissional, bem como tem sido alvo de debates nos cursos Abepss itinerante.
Ao particularizar a dimensão investigativa na formação e prática profissio‑
nal do assistente social, tendo por base a compreensão e análise da política de
educação do ensino superior no contexto atual e confrontando com a defesa do
projeto de formação profissional do Serviço Social brasileiro contemporâneo,
este artigo tem como proposta problematizar o “lugar” que a dimensão investi‑
gativa tem construído na formação e prática profissional do assistente social.
Assim, objetiva compreender e analisar “como” essa dimensão tem sido cons‑
truída e trabalhada nos cursos de graduação em Serviço Social na atualidade,
bem como se os discursos críticos que tem se tentado edificar na academia
(ainda que se considere os elementos analíticos anteriormente) conseguem ali‑
mentar as ações profissionais, tendo por objeto central a dimensão investigativa.
Para construção destas análises, partimos da compreensão e defesa de que
as dimensões investigativa e interventiva devem ser estabelecidas “como prin‑
cípios formativos e condição central da formação profissional e da relação
teoria e realidade”, defendendo, portanto, a unidade entre o pensar e o agir
(Abepss, 1996, p. 6).
Neste sentido, há uma defesa da construção dessas problematizações ten‑
do por base o legado do Movimento de Reconceituação do Serviço Social no
Brasil e a construção de um novo projeto ético-político profissional.2 Entende

2. Este projeto tem em seu núcleo o reconhecimento da liberdade como valor central — a liberdade
concebida historicamente, como possibilidade de escolha entre alternativas concretas; daí um compromisso
com a autonomia, a emancipação e a plena expansão dos indivíduos sociais. Consequentemente, esse ­projeto

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015 299
que a defesa desse projeto de profissão pontua a necessidade de aproximação
crítica com diversas temáticas3 vinculadas à formação e à prática profissional
do assistente social.
Assim, reconhecemos, conforme analisa Mészáros (2005), o caráter dúbio
da educação: como um dos momentos fundamentais da produção das condições
objetivas de manutenção da ordem social do capital, pois é o meio pelo qual os
indivíduos “internalizam” as perspectivas, os valores e a moral do sistema do
capital, legitimando-a. Por outro lado, também é necessária para se pensar em
uma estratégia de transição para outra forma de sociabilidade, que esteja para
além do capital, sendo concebida como emancipadora.
Esse entendimento nos desafia a analisar a formação profissional do assis‑
tente social — particularizando a dimensão investigativa — determinada pelas
engrenagens capitalistas atuais em confronto com um grupo de profissionais
insistentes na resistência e crítica a esses processos e defensores do projeto de
formação profissional atual.
Diante disso, o artigo é dividido em duas sessões. Na primeira, problema‑
tiza, a partir de entrevista realizada com a atual presidente da Abepss (gestão
2013-14), a dimensão investigativa na formação profissional do assistente social,
a fim de discutir “onde” e “como” ela vem sendo trabalhada na graduação em
Serviço Social. Nessa sessão, aponta três ângulos que precisam ser estudados
e enfrentados no âmbito da formação profissional em Serviço Social. Na segun‑
da sessão, constrói algumas reflexões referentes ao “lugar” que a dimensão
investigativa tem assumido na prática profissional do assistente social. Tais
reflexões são resultados preliminares de pesquisa realizada com assistentes
sociais supervisores de estágio na área da saúde e cadastrados na Universidade
Federal Fluminense em Campos dos Goytacazes (RJ). Tais profissionais rea‑
lizam suas atividades nas regiões norte e noroeste fluminense. Os resultados
analisados nesse item indicam que a precariedade do ensino superior e da

profissional se vincula a um projeto societário que propõe a construção de uma nova ordem social, sem
exploração/dominação de classe, etnia e gênero. A partir dessas opções que o fundamentam, tal projeto
afirma a defesa intransigente dos direitos humanos e o repúdio do arbítrio e dos preconceitos, contemplando
positivamente o pluralismo, tanto na sociedade como no exercício profissional (Netto, 2005).
3. Que serão identificadas e problematizadas ao longo das duas sessões de discussão do tema.

300 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
formação profissional, além das condições de trabalho — tipo de instituição,
rotina e dinâmica de trabalho —, e o fato de ser trabalhador assalariado, bem
como o compromisso com a qualidade dos serviços prestados e com o aprimo‑
ramento intelectual, tem sido determinantes da (não) construção da postura
investigativa na prática profissional do assistente social.

2. O lugar da dimensão investigativa na formação profissional


do assistente social
Refletir acerca do lugar que a dimensão investigativa tem assumido na
formação profissional tendo por base as Diretrizes Gerais para o Curso de Ser‑
viço Social (1996), significa tentar construir enfrentamentos, calcados pelos
valores edificados a partir do Movimento de Reconceituação, via projeto ético‑
-político profissional, que objetivem analisar as amarras arquitetadas pela
contrarreforma do ensino superior no Brasil e tecer reflexões referentes a estra‑
tégias de confronto e superação.
Essa não é uma tarefa simples. Como vimos, a educação vinculada ao
mercado, o aligeiramento da pesquisa e da descoberta científica na formação
profissional, o treinamento dos graduandos e o reforço dos mecanismos ideo‑
lógicos de submissão dos profissionais de Serviço Social, além da falta de
condições de trabalho docentes, que tem contribuído para o processo de adoe‑
cimento dos mesmos, pode estar impulsionando a construção de um movimen‑
to de despolitização da categoria profissional.
Para enfrentar esse complexo quadro precisamos, a princípio, não nos
rendermos exclusivamente à rotina das instituições acadêmicas, que, por conta
de altos índices de produtividade, orientações de trabalhos, atividades adminis‑
trativas e investimento pessoal no desenvolvimento de pesquisas, acabam es‑
gotando, muitas vezes, as possibilidades de construção de análises e enfrenta‑
mentos coletivos (através da articulação com estudantes, docentes de outros
departamentos, movimentos sociais, sindicatos da categoria etc.) referentes a
esse processo de precarização do ensino superior e da atual concepção de edu‑
cação disseminada pelo Estado.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015 301
Ou seja, estamos tecendo considerações referentes a duas defesas comple‑
mentares e indissolúveis. A primeira se vincula entre os atores da educação
superior e seus posicionamentos e enfretamentos éticos e políticos no campo
da sociedade, das instituições, da política e em sua relação com o Estado. A
outra é referente aos atores da educação superior e a defesa do projeto de for‑
mação profissional no interior de suas instituições, se debruçando sobre estra‑
tégias que viabilizem a formação profissional em Serviço Social com base nas
Diretrizes Gerais.
No que se refere mais especificamente à segunda defesa (não desconside‑
rando a unidade que possui com a primeira), compreendemos a necessidade de
criação de espaços, ao longo da formação profissional, para o pensar crítico,
para construção de debates, a exposição de dúvidas, através do estabelecimen‑
to das dimensões investigativa e interventiva como condição central de pensa‑
mento, crítica e abordagem do real (Abepss, 1996).
Neste sentido, há a defesa tanto da indissociabilidade entre ensino, pes‑
quisa e extensão, quanto entre estágio, supervisão acadêmica e profissional,
capazes de contribuir para a apreensão do significado social da profissão, das
demandas, visando construir propostas de respostas profissionais que potenciem
o enfrentamento da questão social, o que implica a capacitação teórico-meto‑
dológica, ético-política e técnico-operativa.
Ao longo das Diretrizes Gerais (1996), produto de um amplo e sistemáti‑
co debate realizado pelas unidades de ensino a partir de 1994, é enfatizado a
unidade entre o pensar e o agir.

Com base na análise do Serviço Social, historicamente construída e teoricamente


fundada, é que se poderá discutir as estratégias e técnicas de intervenção a partir
de quatro questões fundamentais: o que fazer, por que fazer, como fazer e para
que fazer. Não se trata apenas da construção operacional do fazer (organização
técnica do trabalho), mas, sobretudo, da dimensão intelectiva e ontológica do
trabalho, considerando aquilo que é específico ao trabalho do assistente social em
seu campo de intervenção. (Abepss, 1996, p. 14)

Diante disso, torna-se possível afirmar que, a partir de meados de 1990,


a dimensão investigativa passou a ser requisitada com maior ênfase, como

302 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
exigência para construção da prática profissional. A esse respeito, Guerra (2009,
p. 712) destaca que

a investigação é inerente à natureza de grande parte das competências profissionais:


compreender o significado social da profissão e de seu desenvolvimento histórico,
identificar as demandas presentes na sociedade, realizar pesquisas que subsidiem a
formulação de políticas e ações profissionais, realizar visitas, perícias técnicas,
laudos, informações e pareceres sobre a matéria de Serviço Social, identificar re‑
cursos. Essas competências referem-se diretamente ao ato de investigar, de modo
que, de postura a ser construída pela via da formação e capacitação profissional
permanente (cuja importância é inquestionável), a investigação para o Serviço
Social ganha o estatuto de elemento constitutivo da própria intervenção profissional.

Essa abordagem contribui significativamente para pensarmos que a dimen‑


são investigativa não se constitui apenas por uma postura profissional, mas
integra grande parte das competências e atribuições profissionais. No entanto,
se não se constrói essa postura investigativa, referenciada pelos valores ético‑
-políticos do atual projeto profissional, as visitas, os laudos e pareceres terão
apenas significados burocráticos, o que reduz, consideravelmente, as possibili‑
dades de garantir os direitos dos usuários.
Essa compreensão nos remete à seguinte questão como objeto de pro‑
blematização: “Onde a dimensão investigativa vem sendo trabalhada na for‑
mação profissional atual do assistente social?” (depoimento, presidente da
Abepss, 2013).
Essa pergunta não nega a defesa de que ela deve ser constituinte de tal
formação. E não só: entendemos e defendemos que ela deve ser trabalhada como
dimensão interventiva, capaz de contribuir para a construção de um conheci‑
mento qualificadamente crítico da realidade, impulsionador das ações profis‑
sionais e capaz de sustentar os debates e estratégias dos assistentes sociais na
tentativa de garantir os direitos dos usuários.
No entanto, analisar essa proposta envolve reflexões que, tendo por norte
seu “dever ser”, identifique, compreenda e problematize se ela tem se operacio‑
nalizado nos dias atuais e, caso positivo, em que circunstâncias e com qual(is)
objetivo(s).

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015 303
Na tentativa de iniciar esse processo de construção de reflexões, optamos
por eleger três ângulos que precisam ser estudados e enfrentados no âmbito da
formação profissional em Serviço Social, mediante o complexo desafio proposto.
1. O primeiro envolve a análise da sociedade capitalista atual, as implica‑
ções para o ensino superior e as determinações nas condições de trabalho dos
docentes.
Essa primeira dimensão é fundamental, já que, segundo Netto (2005), a
principal conquista do Movimento de Reconceituação do Serviço Social está
relacionada ao estatuto intelectual do assistente social, isto é, a capacidade de
reivindicar atividades de planejamento para além dos níveis de intervenção
microssocial. Isso significa que a reconceituação assentou as bases para forma‑
ção profissional continuada. “Mas quais as condições de vida e trabalho que os
docentes dispõem para fazer da academia um lugar de formação intelectual?”
(depoimento, presidente da Abepss, 2013).
Há indicativos de que estamos passando por processos de precarização do
ensino superior, como sinalizamos, e, além disso, são crescentes as cobranças
e pressões por produtivismo, paralelamente a um trabalho docente intenso,
inclusive em fins de semana e feriados. Provavelmente, isso tem contribuído
para formação de acadêmicos em Serviço Social, e não de intelectuais, o que,
embora tenha importância, não seja suficiente mediante o projeto profissional
atual (depoimento, presidente da Abepss, 2013).
2. Um segundo ângulo que nos desafia na atualidade está vinculado ao
lugar que a dimensão investigativa tem ocupado na formação profissional do
assistente social e como isso tem sido construído nos cursos de graduação em
Serviço Social.
A esse respeito, o Serviço Social tem ampliado suas produções científicas
e, hegemonicamente, sinalizado que a dimensão investigativa é constituinte da
formação profissional do assistente social. Desta forma, é necessário que seja
garantida sua horizontalidade ao longo de tal formação. As produções de Iama‑
moto (1998), Guerra (2009), Martinelli (1999), Mota (2011), Dahmer (2008),
Santos (2013), dentre outros, são fundamentais para tal compreensão, além da
revista Temporalis (v. 1, n. 25, 2013), com artigos de grande contribuição para
o debate da formação profissional.

304 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
No entanto, quando se pensa e se aproxima concretamente da formação
profissional atual, torna-se possível identificar uma série de propostas que mais
se distanciam do que se aproximam das diretrizes gerais de 1996. Ainda é pos‑
sível observar a construção de disciplinas de pesquisa que se propõem a ensinar
os discentes a se tornar pesquisadores, muitas vezes direcionadas a construção
de propostas de trabalho de conclusão de curso. Isso tem contribuído para man‑
ter uma cisão instrumental entre construção do conhecimento (desenvolvido na
academia) e intervenção profissional (vinculada aos profissionais caracterizados
como da “ponta”) (depoimento, presidente da Abepss, 2013).
Quando se fala em dimensão investigativa, reporta-se a ela como um “es‑
pírito” que o assistente social precisa “encarnar” e, deste modo, realiza-se uma
discussão que contribui para o conhecimento acerca de que essa dimensão deve
fazer parte do trabalho do assistente social. Mas como essa dimensão deve ser
construída? “Por que” e “para quê” o assistente social precisa ter uma postura
investigativa?
De forma geral, a tradução das dimensões teórica, ética, política e técnica‑
-operativa como base da dimensão investigativa não tem se processado na
formação profissional em Serviço Social. Portanto, o acadêmico em Serviço
Social, embora muitas vezes entenda que é preciso ter uma postura investiga‑
tiva, não tem sido instrumentalizado para sua apropriação como dimensão
constitutiva da intervenção profissional.
Neste sentido, ao compreender que a dimensão investigativa deve ser
estratégia de conhecimento e intervenção, torna-se urgente que a formação
profissional se redirecione para formar assistentes sociais que se apropriem e
tenham clareza do “por que”, “para quê” e “como” conhecer e, neste caso, não
há sobreposição de uma questão em relação à outra.
3. O terceiro ângulo que também precisa ser objeto de estudo e novas
problematizações, envolve a necessidade de pensar e propor estratégias de
trabalhar a investigação não apenas em relação a uma disciplina específica, mas
ao longo de todo o processo de formação profissional do assistente social.
Ao realizar a legítima e insubstituível defesa anterior, não desconsideramos
aspectos particulares deste processo. Nesse caso, não podemos negar que o Serviço
Social necessita redirecionar seu olhar para os dados numéricos, muitas vezes
trabalhados na graduação em disciplina vinculada a estatística. Sabemos e defen‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015 305
demos que a identificação de dados estatísticos não é suficiente, mas precisamos
qualificar e trabalhar dados quantitativos no contexto do projeto profissional atual.
Isso significa dizer que ao investigar, sistematizar e produzir dados compro‑
metidos com a realidade e com o projeto de profissão, o assistente social passa a
ter a possibilidade de objetivar sua prática profissional e “alimentar práticas pro‑
fissionais comprometidas com processos emancipatórios” (Bourguignon, 2008,
p. 302-303). Ou seja, ele passa a ter, junto à gestão e à instituição de modo geral,
um discurso não mais genérico, capaz de conquistar espaço e vencer disputas na
defesa dos direitos dos usuários.
Portanto, precisamos, ao longo da formação profissional em Serviço Social,
construir estratégias de aproximação do conhecimento e da realidade, descon‑
fiando, questionando, refletindo e problematizando. Neste sentido, entendemos
a dimensão investigativa como um processo que precisa ser aguçado e desen‑
volvido na graduação em Serviço Social, e esse é um compromisso que deve
ser assumido, sobretudo, pelos docentes, que mesmo vivenciando diariamente
a precarização de suas condições de trabalho, devem assumir e se responsabi‑
lizar por esse compromisso teórico, metodológico, ético, político, técnico e
operativo na formação de assistentes sociais, seja através de disciplinas minis‑
tradas em sala de aula, seja por meio da organização de eventos de cunho
científico, bem como de espaços de debates e reflexões críticas.
Caso o discente não desenvolva uma postura inquieta, curiosa, estando
disposto a aprender e compreender o inesperado, aquilo que extrapola suas
referências e o leva a ir além do absolutamente óbvio, poderá haver uma “cris‑
talização das informações, a estagnação do aprendizado profissional, o que,
consequentemente, comprometerá o compromisso do assistente social com a
qualidade dos serviços prestados à população usuária” (Fraga, 2010, p. 7). É a
respeito dessas questões vinculadas à dimensão investigativa na prática profis‑
sional do assistente social que discutiremos na próxima sessão.

3. O lugar da dimensão investigativa na prática profissional do assistente social


A leitura inicial que fazemos dos dados e depoimentos coletados através
de pesquisa realizada com assistentes sociais supervisores de estágio na área da

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saúde em instituições situadas nas regiões norte e noroeste do estado do Rio de
Janeiro indicam que, assim como na formação profissional, pensar o “lugar”
que a dimensão investigativa tem construído na prática profissional do assis‑
tente social exige a compreensão da instituição e de suas condições, rotina e
dinâmica de trabalho, embora o discurso referente à importância da dimensão
investigativa seja hegemônico entre os assistentes sociais entrevistados.
Desta forma, uma primeira indicação geral, independente da instituição
de atuação do assistente social, é que a dimensão investigativa proporciona a
construção de “subsídios para o profissional pensar e repensar a atuação profis‑
sional dele” (assistente social, 2014).
Isso significa que há um discurso crítico, colocado em xeque no contexto
de mercantilização da educação superior, mas que tem conseguido sobreviver
no interior de algumas universidades e vem sendo reproduzido, majoritariamen‑
te, entre os assistentes sociais trabalhadores em diferentes instituições. Assim,
foi possível identificar a dimensão investigativa como constitutiva da interven‑
ção profissional de um grupo de assistentes sociais, por intermédio dos seguin‑
tes depoimentos dos profissionais entrevistados:

[...] se a gente não conseguir sistematizar as informações, a gente não consegue


trabalhar com o paciente. A gente precisa mesmo dos dados, né. Elaborar esses
dados, analisar esses dados pra poder a gente ter uma ação, porque se a gente não
fizer isso, a gente fica muito no senso comum. Fulano falou isso, ah é e tal, mas
eu quero investigar, quero pesquisar, entender o que ele ta querendo dizer. (De‑
poimento de assistente social, 2014)

No ano de 2013, por exemplo, 30% dos casos não passaram pelo Serviço Social.
O que está acontecendo? Isso é um exemplo prático. Ou levantar lá: ocorreram
tantos óbitos esse ano e a maioria foi atendido pelo profissional tal, isso tem al‑
guma relação? Não tem? O que tá acontecendo? E fora os dados que podem estar
sendo colocados a nível municipal, estadual para que possam ser pensadas polí‑
ticas de intervenção. (Depoimento de assistente social, 2014)

Esses depoimentos demonstram a tentativa de construção da dimensão


investigativa na prática profissional do assistente social. Esses profissionais
realizam seus trabalhos em serviços especializados (CAPS AD e Vigilância

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Epidemiológica do Programa Municipal DST/Aids) através de concurso públi‑
co, e ora desempenham suas atividades exclusivamente na instituição, ora
possuem vínculos empregatícios com outras instituições. Em um desses casos,
a dinâmica institucional demanda a produção desses dados para alimentar a
política local e/ou estadual, o que é fundamental para sua construção.
No entanto, preliminarmente, ousamos afirmar que, em diversas circuns‑
tâncias, esse discurso não se materializa ao longo das intervenções profissionais,
o que contribui para construção de práticas com características conservadoras.
Essa afirmação pode ser evidenciada ao nos aproximar da realidade hospitalar,
caracterizada pelo plantão social, que indicou o distanciamento da dimensão
investigativa como dimensão interventiva. Isso não significa que a instituição
de trabalho do assistente social seja o único fator determinante da dimensão
investigativa como constitutiva da prática profissional.
A esse respeito, é fundamental compreender que a realidade de trabalho
profissional é determinada por múltiplas forças e expressões, frutos do ideário,
das ações e ataques neoliberais que, muitas vezes, aprisionam os profissionais
em suas amarras. Enfrentar o caos expresso na microrrealidade em que se en‑
contra o assistente social vai exigir não apenas um arsenal teórico-metodológi‑
co, mas também resistência aos ataques a sua própria intelectualidade e critici‑
dade, bem como, as limitações (re)construídas diariamente pela realidade
capitalista, que o desafia a não ser crítico, propositivo e comprometido.
A trama dessa realidade tem contribuído para a falta de protagonismo
profissional. Deveria ser o contrário. No entanto, com uma atuação que tem se
colocado limitada a políticas e programas sociais precários, o assistente social
não tem conquistado notáveis avanços articulados ao projeto ético e político
profissional. Mesmo fazendo parte do discurso de muitos assistentes sociais, é
possível afirmar que há dúvidas do projeto que esses profissionais têm configu‑
rado como “seu” em suas ações.
Vasconcelos (2010-2011, p. 6), acrescenta que estamos falando em pro‑
fissionais que, ao identificar as demandas presentes na sociedade e refletir a
respeito das possibilidades de ação, não estão construindo respostas profis‑
sionais capazes de favorecer o protagonismo de diferentes segmentos da
classe trabalhadora.

308 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
Portanto, a análise da prática profissional tem indicado uma tensão entre
o que se deseja construir com base nas Diretrizes Gerais de 1996 e o que tem
se processado na realidade, com justificativas aparentemente associadas a, so‑
bretudo, três elementos: 1) Precarização da formação profissional; 2) Precari‑
zação das condições de trabalho; 3) Condição de trabalhador assalariado.
No entanto, ao longo da pesquisa de campo, foi possível identificar um
outro elemento presente na fala dos assistentes sociais ao analisarem a realida‑
de do Serviço Social contemporâneo: o não compromisso com a qualidade dos
serviços prestados, na perspectiva ético-política profissional atual. Em alguns
casos, os depoimentos foram incisivos na falta desse comprometimento, deter‑
minado, sobretudo, pela falta de aprimoramento intelectual, na perspectiva da
competência profissional (um dos princípios fundamentais do Código de Ética
Profissional do Assistente Social, 1993). A esse respeito é preciso destacar:

Encontrei um Serviço Social com a estima no chão. Contribuição muita dos pro‑
fissionais que permitiram [...]. Profissionais (assistentes sociais) que não se pre‑
pararam. 90% não estão com capacitação para trabalhar como assistentes sociais.
(Depoimento de assistente social, coordenadora do Serviço Social de um hospital
público, 2014)

Eu acho que Serviço Social deveria se respeitar mais [...]. Eu acho que não leva
a sério a profissão. Não é só Serviço Social. É ter um canudo e ponto final [...]. E
eu acho que as pessoas não tem essa corresponsabilidade e acaba isso influencian‑
do na prática. E não vão ter respeito ao usuário. Eu vejo muitos profissionais que
não respeitam o usuário, pensam que o Serviço Social é um serviço assistencia‑
lista, burocrático, que não vai muito além. Por exemplo, muitas pessoas aceitam
— “você vai fazer isso, isso e isso” — não querem desafiar, ir além, não quer
provocar no sentido de reflexões. (Depoimento de assistente social, 2014)

Como pontuamos no início deste artigo, a educação, na era do capital, é


vinculada ao mercado, de forma a atender aos interesses de sua reprodução, sem
crítica e reflexão. Desta forma, não se pode negar que, em um contexto de
precarização da formação profissional e sérias dificuldades para apropriação e
interiorização de criticidade, além de um acesso ao Serviço Social na tentativa,
muitas vezes exclusiva, de melhor inserção no mercado de trabalho, muitos

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valores ético-políticos, construídos a partir da “intenção de ruptura” durante o
Movimento de Reconceituação, têm perdido a centralidade na prática profis‑
sional do assistente social, que de forma geral continua priorizando ações
imediatas e fragmentadas, tendo por justificativa predominante sua condição de
trabalhador assalariado.
Embora essa condição de assalariado, conforme Iamamoto (2009), esta‑
beleça através das instituições empregadoras, as condições em que esse traba‑
lho se realiza (intensidade, jornada, salário, controle do trabalho, índices de
produtividade etc.), é fundamental que o assistente social mantenha uma dupla
vinculação no cotidiano de sua prática: com as instâncias mandatárias institu‑
cionais e com a população usuária.
E isso requer competência teórico-metodológica para leitura de realidade.
Competência fruto da atualização profissional constante e do comprometimen‑
to com a prática que se realiza. Esta afirmativa configura um grande desafio
interposto aos assistentes sociais, visto que a possível construção do conheci‑
mento no decorrer da prática profissional deve ser acompanhada por reflexões
e intervenções capazes de materializar os princípios norteadores do projeto
ético e político profissional. E essa proposta vai exigir não apenas o conheci‑
mento de tal projeto, mas também a habilidade do profissional, pois ao deixar
de ser um instrumento da instituição empregadora e se colocar na condição de
sujeito de suas ações, o profissional rompe com uma “zona de conforto” que
vai lhe demandar posicionamentos críticos direcionados a mobilização e ao
acesso, com qualidade, dos usuários aos serviços, através das políticas, mas
também, a manutenção de seu contrato de trabalho, enquanto trabalhador assa‑
lariado (grifo do autor).
Isto significa que, ao optar pela ruptura com práticas conservadoras e
tentar ultrapassar o lugar histórico assumido pelo Serviço Social ainda nos dias
atuais (o de “instrumento” da instituição empregadora para controlar e manter
a ordem institucional), o assistente social faz a opção por uma prática que vai
exigir o enfrentamento em um espaço que tem se complexificado e se tornado,
a partir das transformações societárias, cada vez mais arenoso, mas que, ao ter
consciência da intenção social e ético-política de sua ação, suas bases serão
mantidas de forma sólida.

310 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
Estes são desafios complexos, que exigem a mobilização da categoria
profissional. Portanto, além de crer e reproduzir, com consciência, o discurso
profissional, o assistente social precisa estar mobilizado para transformar a sua
prática para além de seu produto. No entanto, essa competência pode estar
perdendo espaço para a solução dos problemas como uma solução técnica,
profissional e apolítica, referendada por uma concepção de eficácia profissional
que se vincula ao número de pessoas atendidas e a solução imediata, aparente
e individualizadora das demandas.
A superação desta configuração do trabalho determinado por processos
precarizados de inserção profissional no mercado de trabalho, pela configuração
das políticas e instituições sociais, condições precárias de trabalho e condição
de trabalhador assalariado, supõe o acesso a uma educação para além de fins
utilitários, capaz de ser “vivida” plenamente pelos indivíduos (Mészáros, 2005)
e, por isso, também capaz de possibilitar a análise “consciente dos processos
sociais”, a partir de suas determinações sociais, políticas, econômicas e culturais,
fundamentais para compreensão da “condição prática” do fenômeno em pro‑
cesso de conhecimento e para a criação de estratégias qualificadas de ação.
Aliados a estes elementos, é fundamental que este processo seja motivado pelo
comprometimento ético e político profissional, pautado no atual projeto do
Serviço Social e projetado pelo sentimento de autorrealização, a partir das
novas descobertas e possibilidades de intervenção.
Portanto, assinalamos a possibilidade de aproximação com uma concepção
de educação mais ampla e que pode ser estratégica quando desenvolvida na
perspectiva emancipadora, quando refinada aos atuais valores ético-políticos
do projeto profissional do Serviço Social, não se colocando determinada auto‑
maticamente pelos interesses dominantes.
Mediante as considerações apresentadas, finalizamos destacando que,
em um contexto de precarização do ensino superior e, consequentemente, da
formação profissional do assistente social, além da condição de trabalhador
assalariado, que sujeita o profissional de Serviço Social a exigências impostas
pelos distintos empregadores, é fundamental que se reforce, no seio da cate‑
goria profissional, um movimento de luta e defesa de seu projeto de formação
profissional, seja através de suas entidades representativas, com destaque para

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Abepss (Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social), seja
entre os próprios profissionais ao atuar em sua microrrealidade. E esse pro‑
cesso de defesa e construção coletiva não poderá se desenvolver sem o cons‑
tante aprimoramento intelectual e o comprometimento com os serviços
prestados a população.

4. Considerações finais
Ao longo deste artigo, defendemos uma compreensão de educação am‑
pliada, que se direcione para a capacidade de conhecer, ter ciência do real e
transformá-lo de forma consciente. No entanto, também identificamos a incon‑
trolabilidade imanente ao sistema do capital, isto é, a incorrigível necessidade
de autoexpansão e de acumulação para a qual se deve produzir e reproduzir
continuamente as condições objetivas de sua conservação (Mészáros, 2005).
Mediante essa compreensão e ao ter por base as Diretrizes Gerais de 1996
e construir as problematizações vinculadas à formação profissional, a primeira
sessão do artigo identificou três ângulos que desafiam o Serviço Social na
atualidade e que, portanto, merecem ser colocados no centro dos debates.
Ainda em relação à formação profissional em Serviço Social atual, indi‑
camos a necessidade de aprofundar as seguintes questões:
1. Qualificar nossos estudos referentes aos processos atuais de precarização
do ensino superior e condição de vida e saúde dos discentes e docentes.
2. Redirecionar nossas análises para o ensino à distância, se aproximando
de sua metodologia de trabalho.
3. Desenvolver e estreitar as análises referentes à mídia e ao Serviço Social.
Isto é, de que forma os discentes e assistentes sociais têm trabalhado com as
diversificadas informações processadas, em curto tempo, pela mídia (através
do acesso às redes sociais, jornais, televisão e internet de modo geral)? A mídia
é utilizada como instrumento de trabalho? Há cariz educativo e político-crítico
nas interpretações, análises e uso da mídia como instrumento de trabalho?
Essas análises, na perspectiva crítica, são fundamentais para repensar o
lugar da dimensão investigativa na formação profissional em Serviço Social.

312 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
No que se refere à dimensão investigativa na prática profissional, sinali‑
zamos a partir de resultados preliminares de pesquisa que o discurso crítico
vinculado à dimensão investigativa e sobrevivente no cenário atual não tem
conseguido se traduzir na prática profissional do assistente social que, segundo
Vasconcelos (2010-2011), continua mantendo características conservadoras.
Além disso, identificamos, a partir de análise teórica e empírica, que essa situa‑
ção tem sido determinada por quatro elementos centrais.
Ainda em relação à prática profissional de forma ampliada, reforçamos a
necessidade de aprofundar os estudos referentes aos seguintes elementos:

1. Investir em estudos e pesquisas que busquem desvendar e aprofundar as aná‑


lises vinculadas aos determinantes da prática profissional caracterizada como
conservadora nos dias atuais;
2. Investir na aproximação do cotidiano de trabalho do assistente social nos dife‑
rentes espaços de atuação, de maneira contínua, superando pesquisas e estudos
baseados em técnicas pontuais de conhecimento da realidade;
3. Investir no estágio supervisionado em Serviço Social como um espaço capaz
de possibilitar uma relação de troca entre supervisores/aluno, supervisores/super‑
visores, que deverá contribuir para formação do discente, a análise de realidade,
reflexão e problematização da prática profissional, capazes de embasar a constru‑
ção e reconstrução diária de tal prática, através da educação permanente;
4. Investir na universidade enquanto espaço aberto para o debate sobre a prática
profissional, por meio de cursos, palestras que superem uma relação de poder
entre quem transmite e aquele que recebe informações/conhecimento, mas espa‑
ço que garanta a construção coletiva;
5. Colocar-se aberto para o debate teórico-metodológico e ético-político existen‑
te no interior da categoria profissional na atualidade. É através da garantia de
espaços democráticos de debates, escuta, troca de experiências que se poderá
reforçar, no interior da categoria, os valores de sociedade que queremos. (Moraes,
2014, p. 15)

Mais que isso: precisamos voltar a estudar a prática profissional do assis‑


tente social, compreendendo-a em uma estreita relação com a formação profis‑
sional. Diante disso, sinalizamos que mais que um artigo que constrói respostas

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015 313
referentes às problemáticas analisadas, ele demonstra a inquietação e a neces‑
sidade de aproximação com diferentes variáveis inerentes à dimensão investi‑
gativa na formação e prática profissional do assistente social, tentando aguçar
o leitor a análises dessa situação no cenário brasileiro e na particularidade de
sua instituição de trabalho.
Por ora, finalizamos o artigo com a seguinte conclusão preliminar: há in‑
dicativos de que a dimensão investigativa se faz presente em parte do trabalho
construído por alguns assistentes sociais, no entanto, sem a compreensão da
complexidade vinculada à individualidade, sendo restrita a tentativa de abor‑
dagem da situação singular e a construção de estratégias de ação imediatas e
individualizadas.

Recebido em: 14/8/2014  ■  Aprovado em: 10/3/2015

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316 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 294-316, abr./jun. 2015
Educação, “neodesenvolvimentismo”
e Serviço Social:
os IFs em questão
Education, “neo-developmentism” and Social
Work: the Federal Institutes (FI’s) in focus

Evelyne Medeiros Pereira*


Denise de Araújo Silva Holanda**
Raí Vieira Soares***
Samilly Elise de Souza Silva****

Resumo: Este texto tem como escopo analisar a experiência do


curso de Serviço Social no Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Ceará (IFCE) em meio às transformações contemporâ‑
neas, particularmente da realidade brasileira, atentando para o debate
em torno do “neodesenvolvimentismo” e suas inflexões no Serviço
Social. A contradição entre acesso e precarização que caracteriza a
educação superior hoje demanda refletir sobre os desafios postos para
a formação profissional e a construção de estratégias coletivas que
venham a garantir conquistas não apenas para a profissão, mas para o
conjunto da classe trabalhadora.
Palavras-chave: Educação. Formação profissional. Serviço Social.
Neodesenvolvimentismo. Institutos Federais (IFs).

* Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Fortaleza (CE),
Brasil, líder e pesquisadora do Núcleo de Educação, Políticas Públicas e Serviço Social (NEPPSS/IFCE);
doutoranda em Serviço Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E-mail: evelyne.mp2913@
gmail.com.
** Bacharel em Serviço Social pelo IFCE; Fortaleza (CE), Brasil. E-mail: denisinhasilva@hotmail.com.
*** Estudante de Serviço Social do IFCE; Fortaleza (CE), Brasil, membro da Coordenação Regional
da Executiva Nacional dos Estudantes de Serviço Social (Enesso) e do Núcleo de Educação, Políticas Públi‑
cas e Serviço Social (NEPPSS/IFCE). E-mail: raivieiracmpb@hotmail.com.
**** Estudante de Serviço Social do IFCE; Fortaleza/CE, Brasil, membro da Coordenação Regional
da Enesso. E-mail: samillyelise@hotmail.com.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 317
http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.025
Abstract: The aim of this article is to analyze the experience related to the graduation course of
Social Work at Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) — Federal Institute
of Education. Science and Technology of Ceará (FICE) — amid contemporary changes, particularly
in the Brazilian reality, focusing on the discussion about “neodevelopmentism” and its inflections in
Social Work. The contradiction between access and precariousness — and such a contradiction
characterizes the university education nowadays — requires thinking over the challenges raised about
the professional formation and the construction of collective strategies to ensure conquests not only
for the profession, but also for the set of the working class.
Keywords: Education. Professional formation. Social Work. Neo-developmentism. Federal Institutes
(FI’s).

1. Introdução

A
trajetória do Serviço Social no Brasil apresenta particularidades
históricas que permitiram alcançar passos mais largos na sua le‑
gitimidade, em seu projeto e estatuto profissional. Todavia, a
marca do conservadorismo ainda perdura tendo como expressão
a dificuldade de romper com a “lógica do passado” que caracteriza a profissão
no âmbito estrito da execução terminal das políticas sociais mediante uma for‑
mação técnica especializada voltada exclusivamente para a prática da assistên‑
cia, pretensamente neutra, e manutenção do status quo. Esse processo, vale
lembrar, não pode ser compreendido à parte de um conjunto de transformações
que configuram a realidade contemporânea.
Nesse sentido, na última década, caracterizada pela ascensão de um mo‑
delo de desenvolvimento no país que, de um lado, aponta para a retomada do
nível de intervenção estatal e dos índices de crescimento econômico e, de outro,
revela o predomínio de tendências condizentes com o atual processo de rees‑
truturação produtiva e financeirização do capital, vem se conformando um
verdadeiro pêndulo entre acesso e precarização que passa a atravessar, entre
outras, a política de educação superior. No âmbito do Serviço Social, esse pro‑
cesso implica diretamente a formação de profissionais com novas exigências e
competências.
No estado do Ceará, conforme dados do Conselho Regional de Serviço
Social (Cress), nos últimos seis anos ampliou-se em mais de 600% o número
de bacharéis em Serviço Social com registro profissional no Cress, advindos

318 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
especialmente da esfera privada nas modalidades presencial e à distância (Cress,
2014). Se por um lado essa expansão passa a ser identificada como acesso ao
ensino superior, por outro é acompanhada pelo adensamento dos diversos pro‑
blemas na profissão, a exemplo do aligeiramento dos conteúdos e do rebaixa‑
mento acadêmico que tendencialmente implica um perfil profissional mais
pragmático, apresentando profundas divergências com os princípios que orien‑
tam o projeto ético-político da profissão, fruto de um esforço coletivo que tem
impulsionado o processo de “renovação da profissão” na “intenção de ruptura”
(Netto, 2011) com o conservadorismo.
Em meio a tais circunstâncias, chamamos a atenção para a criação em 2010
do curso de Serviço Social no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecno‑
logia do Ceará (IFCE), campus Iguatu, configurando-se como o primeiro curso
da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica no país,
sendo o segundo presencial e público no Ceará. Essa experiência, apesar de
inédita, nos oferece um conjunto de subsídios para melhor entendermos as
tendências, contradições e desafios postos hoje para a educação superior e a
formação profissional no Brasil no contexto do “neodesenvolvimentismo”.
Vale destacar que o presente artigo é fruto de uma pesquisa realizada a
partir do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) do
IFCE entre 2012 e 2013, sendo o texto final redigido no primeiro semestre de
2014. Como metodologia, foi priorizada a pesquisa bibliográfica, a análise
documental, a observação de campo, além da realização de entrevistas e ques‑
tionários junto aos estudantes, docentes, gestores e entidades representativas da
profissão, respeitando os parâmetros éticos da pesquisa com seres humanos,
conforme Resolução n. 466/2012. Esse caminho nos permitiu analisar o pro‑
cesso de implantação do curso em questão sem perder de vista a compreensão
da totalidade social.

2. A política educacional no Brasil e suas inflexões sobre o Serviço Social


A educação no Brasil é atravessada por uma formação sócio-histórica
peculiar pautada na dinâmica da “modernização conservadora” (Fernandes,
2006) e marcada por “arranjos de cúpula, de cima para baixo” (Ianni, 2004,

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 319
p. 231). Esse lastro é central na conformação do capitalismo brasileiro e de suas
classes fundamentais. A burguesia no Brasil vem assumindo, em sua natureza,
o caráter de dependência ao capital estrangeiro, consolidando-se no poder fun‑
damentalmente pela combinação de práticas paternalistas e repressoras. É,
portanto, sob essa marca que a educação no país tem se desenvolvido.
No caso específico do ensino superior, a instituição, por excelência, criada
para tal finalidade foi a universidade, que surge no Brasil tardiamente em rela‑
ção a outros países da América Latina, como uma demanda da elite no país.
Assim, o processo de constituição da educação pública como um direito foi e
ainda é atravessado por conflitos de classes pautados, de um lado, pela recons‑
trução de estratégias de segregação e, mais recentemente, de privatização e
mercantilização; de outro, pela possibilidade de democratização efetiva da
educação pública brasileira, tão presente, por exemplo, enquanto bandeira his‑
tórica de reivindicação do movimento estudantil pela Reforma Universitária.
É sob essa tensão, influenciada pela dinâmica mundial, que, especialmente
a partir dos anos 1990, a educação vira uma peça importante do circuito neoli‑
beral em meio a um processo de contrarreforma do Estado (Behring, 2008)
guiado por um “intenso programa de ajuste estrutural, privatizações e alta con‑
centração de renda” (Gentili e Oliveira, 2013, p. 254), pela manutenção das altas
taxas de juros e pela reestruturação produtiva com a ascensão de novas modali‑
dades de subemprego, polivalência, intensificação da dupla jornada de trabalho
das mulheres, utilização de mão de obra infantil, migrante e, até mesmo, o au‑
mento de condições de ocupações análogas ao trabalho escravo (Antunes, 2003).
Nesse contexto, a intensa expansão privada e aligeirada (presencial e à
distância/EaD), a precarização e o sucateamento do ensino público, sendo con‑
dicionado ao “produtivismo acadêmico” e a parceria público-privada, além das
dificuldades relativas à garantia do tripé ensino, pesquisa e extensão e a políti‑
ca de assistência estudantil são aspectos que constituem a realidade da educação
pública superior.
A introdução da EaD, respaldada na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de
acordo com Lima (2008), se configura como uma falsa ideia de democratização
da educação superior sob a aparência de uma política de educação “inclusiva”
que garante, de forma mínima, o acesso de uma parcela pauperizada de países
periféricos, como o Brasil, a educação superior. Nessa modalidade, os cursos das

320 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
Ciências Humanas passam a ser os mais visados, pois estes supostamente não
demandariam maiores investimentos. Ainda sobre isso, Dahmer (2008) destaca
que na modalidade EaD o professor transforma-se em “tutor”, impossibilitando
a relação professor-aluno e discussões relevantes no processo formativo, além de
impedir ao estudante desenvolver experiências acadêmicas e políticas, suscitando
maior criticidade e ampliação da “visão de mundo” (Gramsci, 2007).
Essa lógica atinge contundentemente a formação profissional em Serviço
Social fundamentada no “rigoroso trato teórico, histórico e metodológico da
realidade social”, na “adoção de uma teoria social crítica que possibilite a
apreensão da totalidade social” e inviabilize a fragmentação de conteúdos, na
articulação entre as dimensões investigativa e interventiva, na indissociabilida‑
de tanto entre as dimensões de ensino, pesquisa e extensão como entre o estágio
e a supervisão acadêmica e profissional (Abepss, 1996). Tais parâmetros con‑
jugados ao exercício de uma deontologia respaldada em condutas e em valores
sociais, como liberdade, democracia, cidadania, igualdade, justiça social e
respeito à diversidade, com garantias do resguardo e cumprimento dos direitos
individuais e sociais, na prática junto as instituições ou na relação com o
usuário, contrasta com as reconfigurações do Estado, dos processos de trabalho
e do padrão “ideológico-científico”1 vigente que exigem cada vez mais um
profissional estéreo de projetos coletivos.
Esse cenário, porém, apresenta novas configurações, especialmente na
última década, o que tem diferenciado, em certa medida, o atual período em
relação aos anos 1990.

2.1 O “neodesenvolvimentismo” e a formação profissional em Serviço Social

Para alguns autores, como Boito Jr. (2012), os últimos dez anos são caracte­
rizados pela conformação de um governo de “composição de classes”, caracteri­

1. Segundo Harvey (2010, p. 19), “há algum tipo de relação necessária entre a ascensão de formas
culturais pós-modernas, a emergência de modos mais flexíveis de acumulação do capital e um novo ciclo de
‘compressão do tempo-espaço’ na organização do capitalismo [...]. A fragmentação, a indeterminação e a
intensa desconfiança de todos os discursos universais são um marco do pensamento pós-moderno”.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 321
zado por uma ampla aliança dirigida pela burguesia interna,2 muito embora seja
policlassista, ou seja, envolva também alguns segmentos de trabalhadores.
Contudo, todo esse processo não pode ser compreendido sem a decisiva inter‑
ferência das relações internacionais sobre a política interna. Estaríamos falando,
portanto, de uma política de desenvolvimento possível nos marcos da hegemo‑
nia neoliberal. Isso tendo em vista as diferenças significativas entre o “desen‑
volvimentismo” do período de 1930 a 1980 e o “neodesenvolvimestismo”
atual. Neste, o crescimento é bem mais modesto, embora consideravelmente
maior do que o verificado na década de 1990, além da menor capacidade dis‑
tributiva da renda (Boito Jr., 2012, p. 6).
Ainda segundo o autor, as frações de trabalhadores que compõem essa
frente, parte do segmento mais precarizado no mundo do trabalho, localizado
principalmente nas periferias dos grandes centros urbanos do país, são atraídas
passivamente, desorganizadamente e de forma despolitizada pelas políticas de
transferência de renda. Assim, a acentuada atenção dada a essas ações, somada
à falta de investimento em políticas mais estruturantes, imprimindo um teor
liberalizante a algumas, a exemplo da saúde, dos aeroportos e, mais recente‑
mente, dos portos, são outras características da atual conjuntura brasileira.
Contraditoriamente, todo esse processo, em especial a partir da implementação
da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) e do Sistema Único da As‑
sistência Social (Suas), em 2004, vem demandando um amplo e diversificado
mercado de trabalho para assistentes sociais, além de consolidar os serviços de
assistência social como uma política, fato este que contribuiu decisivamente
para a ampliação dos cursos superiores de Serviço Social e dos desafios que a
profissão passa a enfrentar nos últimos anos.
Além disso, a recomposição da classe trabalhadora com a ascensão de um
ciclo econômico de redução de desemprego e da extrema pobreza,3 além da

2. “A grande burguesia interna encontra-se distribuída por diversos setores da economia — mineração,
construção, agronegócio, a indústria de transformação e, em certa medida, os grandes bancos privados e
estatais de capital predominantemente nacional. O que unifica essas grandes empresas é a reivindicação de
favorecimento e de proteção do Estado na concorrência que elas empreendem com o capital estrangeiro [...].
Um fato importante nessa área foi [...] o fortalecimento do Mercosul” (Boito Jr., 2012, p. 7-8).
3. Conforme o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), “o governo federal alcança uma marca
histórica: a retirada de 22 milhões de brasileiros da extrema pobreza, do ponto de vista da renda, nos últimos
dois anos”. Disponível em: <www.mds.gov.br>. Acesso em: 3 mar. 2013.

322 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
abertura de novos concursos; a inserção de jovens, na maioria das vezes de
forma precarizada, no mundo do trabalho e na educação superior, constituindo
um “novo” segmento social denominado por Ruy Braga (2012) de “precariado”;
a debilidade de servições públicos como saúde e transporte coletivo, somado
ao congelamento salarial de setores médios da classe trabalhadora, à conturba‑
da vida urbana nos grandes centros e ao acirramento das contradições da “fren‑
te neodesenvolvimentista” (Boito Jr., 2012), um cenário de lutas, manifestações
e greves caracterizam a realidade mais recente do país. Esses sujeitos, para
Alves (2013), apresentam os limites radicais do projeto de desenvolvimento em
curso, em processo de esgotamento, incapaz de dar resposta às necessidades
sociais dos trabalhadores, razão pela qual as reformas estruturais continuam
sem avanço, tais como as reformas agrária, urbana e política.
No âmbito da educação superior, Gentili e Oliveira (2013) apresentam
alguns aspectos que compõem o “balanço do quadro geral” das políticas edu‑
cacionais desenvolvidas na última década, como: a considerável ampliação das
matrículas no ensino público e privado a partir dos programas Universidade
para Todos (ProUni) e o de apoio a planos de Reestruturação e Expansão das
Universidades Federais (ReUni); a criação da Rede Federal de Educação Pro‑
fissional, Científica e Tecnológica juntamente aos Institutos Federais de Edu‑
cação, Ciência e Tecnologia (IFs); a consolidação e ampliação do Fundo de
Financiamento Estudantil (Fies); a implantação das cotas sociais e raciais nas
Instituições de Ensino Superior (IES) federais; a consolidação do Exame Na‑
cional do Ensino Médio (Enem) em substituição do vestibular, além da grande
abertura de cursos de graduação à distância.
Conforme análise dos dados mais recentes do Instituto Nacional de Estu‑
dos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira/Inep (2010), em relação ao ensi‑
no superior, ocorreu um aumento exponencial do número de matrículas em
todas as redes e modalidades (presencial e à distância). No sistema público
(federal, estadual e municipal) passamos de 251.239 matrículas em 2001 para
475.884 em 2010. Um aumento de 89,4% das vagas. Já a proporção para a rede
privada sofre um aumento ainda mais elevado. De 792.069 matrículas em 2001
chegamos a 1.706.345 em 2010. Um aumento de 115,4% das vagas. Portanto,
o total de números de matrículas em todas as redes mais que duplicou nesse
período de dez anos. Vale ressaltar que a expansão do número de matrículas

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 323
também foi acompanhada por um aumento do número de docentes nas IES que,
no entanto, não supre a carência em toda a rede de ensino.4.
Em 2010, havia 2.378 IES, das quais 88,3% são privadas e 11,7% públicas,
sendo 4,5% estaduais, 4,2% federais e 3% municipais. Registra-se, também,
que as maiores concentrações de matrícula por instituição estão nas categorias
federal e estadual. Além disso, observando-se a organização acadêmica, a maior
parte das matrículas continua concentrada nas universidades (54,3%). No que
se refere ao número de IES por organização acadêmica, predominam as facul‑
dades (85,2% das IES).
Ainda sobre a expansão da educação superior, vale destacar um aspecto
que, apesar de mais recente, vem cumprindo um papel central nesse processo:
a instituição da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológi‑
ca junto à criação dos IFs, que passam a ter também como objetivo e finalidade
a educação superior em várias áreas, como também pós-graduação lato sensu
e sricto sensu, embora com ênfase na formação tecnológica (Brasil, 2008).
Sobre isso, em termos de expansão de universidades federais, de 2002 a 2010
foram criados 126 novos campi, totalizando 274 em 230 municípios. Isso com
a perspectiva de até 2014 obter um total de 321 campi em 275 municípios. Já
em relação aos IFs, observa-se que de 2002 a 2010 foram criados 214 campi
em 201 novos municípios antes não atendidos, totalizando 354 campi. A previ‑
são do governo federal é que até 2014 sejam 562 campi em 512 municípios, ou
seja, 241 campi a mais que o previsto para as universidades (MEC, 2013).
Diante desse contexto, houve uma relativa reconfiguração do perfil de
estudante, mesmo que persista um déficit histórico longe de ser correspondido
pelas atuais iniciativas na política educacional. A condição de “estudante-tra‑
balhador” tem sido cada vez mais comum, o que põe desafios enormes ao
modelo de educação superior ainda vigente. Isso diante de um público com
tempo muitas vezes escasso para participar de qualquer outra atividade acadê‑
mica além do ensino, sendo um aspecto relevante para a qualidade na formação.

4. “[...] enquanto o número de vagas ofertadas pelas universidades federais cresceu 111% entre 2003 e
2011, a quantidade de novos professores cresceu apenas 44% até 2012 [...]. A relação aluno-professor passou
de 1/15 para 1/28”. Disponível em: <portal.andes.org.br/imprensa/documentos/imp-doc-1904651914.pdf>.
Acesso em: 12 maio 2013.

324 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
Por outro lado, é certo que, mesmo sob circunstâncias adversas, possibilitar a
vivência universitária — e, quem sabe, político-organizativa através do movi‑
mento estudantil, — a uma camada da população que antes não tinha acesso à
educação superior é, sem dúvida, um fator ímpar que, inclusive, poderá influen‑
ciar, a partir de suas insatisfações, no alcance de maiores conquistas no campo
da educação pública aos trabalhadores. Isso tendo em vista que, em muitos
casos, trata-se da primeira geração familiar a ter formação superior. Essa relação
também pode ser feita do ponto de vista dos trabalhadores da educação que
passam a se deparar com a tão sonhada estabilidade, mas em circunstâncias
muitas vezes precárias, demandando, por parte do sindicalismo brasileiro, novos
mecanismos de organização e luta política.
A chegada de instituições públicas de ensino superior, uma realidade ain‑
da recente em muitas localidades, é, também, um fator que merece atenção,
especialmente diante da histórica desigualdade regional que caracteriza o país.
Isso tendo em vista que, com todas as dificuldades encontradas em termos de
infraestrutura e qualidade em geral, a interiorização dessas instituições é acom‑
panhada por um processo mais amplo caracterizado por um conjunto de fatores,
como: formação das “cidades médias”, reorganização territorial da economia
através dos Arranjos Produtivos Locais (APLs) e da criação de polos industriais,
mudanças nos fluxos migratórios, descentralização dos serviços, entre outros.
Sobre isso, vale observar a criação de algumas universidades federais nas cida‑
des do interior do Nordeste brasileiro, como: Universidade de Integração Inter‑
nacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Universidade Federal da Região
do Cariri (UFCA), Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufoba) e Univer‑
sidade Federal do Sul da Bahia (Ufesba).
Outro importante aspecto a ser considerado é a formação de uma massa
de jovens recém-graduados em determinadas áreas onde tem sido mais viável
a expansão, almejando uma ascensão social com base em uma carreira profis‑
sional promissora, mas com uma inserção precária nas relações de trabalho e
na vida social.
No caso do Serviço Social, podemos relacionar ao fenômeno caracteriza‑
do por Iamamoto (2009) como “exército assistencial de reserva”. Para entender
tal processo, é preciso lembrar alguns aspectos centrais que caracterizam a
trajetória da formação de assistentes sociais no Brasil na “perspectiva histórico‑

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 325
-crítica” (Montaño, 2009), como: a inscrição da formação no âmbito universi‑
tário, o avanço da produção de conhecimentos e pesquisa junto à expansão da
pós-graduação, a interlocução com a teoria social crítica, novas demandas e
competências no âmbito das políticas sociais, as revisões curriculares e a apro‑
vação das Diretrizes Curriculares da Abepss (1996) em sintonia com os princí‑
pios e disposições gerais do Código de Ética Profissional (1993). Além disso,
o estágio supervisionado passa a constituir-se como central para o aprendizado
teórico-prático do trabalho profissional, devendo corresponder à carga horária
mínima de 15% do curso. Vale destacar a construção da Política Nacional de
Estágio (PNE) da Abepss (2008), que passa a dar mais subsídios para as IES
regulamentarem e supervisionarem o estágio em Serviço Social.
Dessa forma, diante do atual quadro em que se apresenta a política de
expansão da educação superior, especialmente via ensino privado e à distância,
existem várias dificuldades e impasses postos para a formação profissional, tal
como expressa os documentos das entidades do Serviço Social (Abepss, 2008).
Em relação à realidade cearense, segundo dados do Cress/CE (2014), o estado
possui hoje 24 instituições que oferecem cursos de Serviço Social. Destas,
somente a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e o IFCE ofertam cursos
públicos, presenciais e gratuitos; os demais são implementados pela iniciativa
privada, muitos na modalidade à distância, e criados a partir de 2005 em mais
de vinte cidades do interior do Ceará. Diante desse quadro, o número de assis‑
tentes sociais inscritos no Cress quase dobrou nos últimos seis anos. Em 2013,
a quantidade de profissionais formados no estado pela EaD era de 45,5%; já
aqueles formados pelo ensino privado presencial correspondiam a 40,9%, sen‑
do apenas 11,2% dos inscritos advindos do ensino público presencial, pela Uece.
Iamamoto (2007) alerta sobre as consequências da expansão desordenada,
aligeirada e precarizada de cursos de Serviço Social, distante de uma relação
com os parâmetros nacionais de qualidade, mesmo sob a avaliação do MEC em
uma lógica questionável de ranqueamento dos cursos, podendo intensificar os
seguintes aspectos: rebaixamento salarial, precarização e insegurança no traba‑
lho; despolitização da categoria, dificultando a sua organização; inexistência de
vivências estudantis, o que poderá comprometer decisivamente a direção social
do projeto profissional. Tal realidade vem fomentando por parte da categoria a
discussão acerca de uma suposta “crise do projeto ético-político profissional”.

326 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
3. Os IFs, a realidade cearense e o curso de Serviço Social
A expansão e interiorização da educação superior nos últimos dez anos
toma materialidade no Ceará especialmente através das universidades, facul‑
dades e, mais recentemente, dos IFs, o que vem corroborando para a referên‑
cia do estado no âmbito da expansão da Rede Federal de Educação Profissio‑
nal, Científica e Tecnológica, por meio do IFCE — mediante integração dos
Centros Federais de Educação Tecnológica do Ceará (Cefets) e das Escolas
Agrotécnicas Federais (EAFs). Em termos numéricos, até 2014 o planejamen‑
to é para 29 campi do IFCE, quando até 2002 existiam apenas cinco (MEC,
2014). Com esses números, a expansão da Rede no estado é considerada a
maior do Brasil.
Nesse cenário, o IFCE, presente em todas as regiões do Ceará, oferece
cursos superiores tecnológicos, licenciaturas, bacharelados, além de pós-gra‑
duações. Entretanto, a expansão no interior é acompanhada também por um
conjunto de impasses de várias ordens, desde a falta de infraestrutura física e
recursos de gestão a dificuldade de contratação de um número suficiente de
professores para suprir a demanda através de concurso público, implicando as
condições de trabalho docente. Para entender melhor o papel que o IFCE vem
tendo no estado em termos de educação superior, é importante destacar, entre
outros aspectos, os seguintes:
Primeiro, trata-se de uma instituição com histórico voltado para formação,
qualificação e especialização técnica e tecnológica de trabalhadores, marcado
por mudanças que vão desde a criação da Escola de Aprendizes e Artífices e do
Liceu Industrial do Ceará, na primeira metade do século XX, até a constituição
das Escolas Técnicas e Agrotécnicas e, posteriormente, dos Cefets na década
de 1990. Essas mudanças são concebidas, em geral, nos depoimentos dos ges‑
tores do IFCE, como um processo contraditório que, de um lado, amplia as
possibilidades e sinaliza avanços no âmbito da oferta e diversificação de cursos
(inclusive das áreas das ciências humanas), viabiliza maior captação de recursos,
além de uma ampliação da autonomia institucional; por outro lado, por uma
dificuldade de adesão especialmente por parte das instituições que deixaram de
existir e passaram a congregar o IFCE, o que promoveu um verdadeiro “choque”
de comportamentos, valores, concepções entre os servidores antigos e novos,

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 327
em decorrência de uma “identidade institucional” ainda não consolidada. Assim,
é uma instituição

que tem uma vocação bem maior daquilo que ela foi criada [...] a gente já tem o
tripé próprio da universidade, os institutos também se apropriaram do ensino, da
pesquisa e da extensão [...] e eu acredito que isso melhorou muito em termos da
questão técnica, que era muito tecnicista [sic] as escolas profissionais, as antigas
agrotécnicas, os Cefets, e hoje com essa roupagem de instituto avançou muito na
questão também de formar as pessoas com uma visão mais critica. (Entrevistado 3)

O segundo aspecto importante sobre o IFCE, assim como os outros IFs, é


a sua atual natureza jurídica de autarquia, detentora de autonomia “administra‑
tiva, patrimonial, financeira, didático-pedagógica e disciplinar” (Brasil, 2008).
Nesse sentido,

a maior característica de criação dos institutos é a autonomia de abrir e fechar


cursos inclusive de graduação e pós-graduação lato e stricto sensu [...] eu vejo
que essa instituição ainda está precisando consolidar uma nova identidade [...]
pelo menos está no discurso, devemos tentar nos tornar uma universidade tecno‑
lógica. (Entrevistado 1)

O terceiro aspecto é a relação entre ensino, pesquisa e extensão, de natu‑


reza pública e gratuita, que, no decorrer das mudanças que houve na Rede,
passa a se configurar como um pilar nos IFs. Tal aspecto é acompanhado por
uma política continuada de qualificação de servidores, prevista em Lei Federal
n. 8.112/1990. Dessa forma, os IFs equiparam-se às universidades federais “em
termos de funcionamento, de fomento à pesquisa e da prática de ações de ex‑
tensão [...] foram também dotados de autonomia para gerenciar orçamento de
custeio, alterar oferta de cursos, registrar diplomas e certificar competências
profissionais”.5
Em meio a tais circunstâncias, o curso de bacharelado em Serviço Social
do IFCE, campus Iguatu, é criado em 2010, apresentando-se, a priori, como

5. Disponível em: <http://ifce.edu.br/instituicao/sobre-nos.html>. Acesso em: 12 dez. 2013.

328 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
uma excepcionalidade no país. Trata-se de um curso presencial, público e gra‑
tuito que possui duração de quatro anos, com oito semestres letivos,6 sendo o
segundo curso presencial público do Ceará, após a graduação oferecida pela
UECE há mais de sessenta anos.
A graduação possui em seu quadro docente na área de Serviço Social um
total de quatro professoras efetivas e quatro docentes na condição de substituto
ou temporário,7 além dos professores das áreas afins (Filosofia, Psicologia,
Sociologia etc.). Em relação à formação acadêmica, os docentes, em geral, fi‑
zeram graduação e pós-graduação em instituições públicas. Chamamos a aten‑
ção para o considerável número de docentes da área específica em doutoramen‑
to (três professoras, sendo duas oficialmente afastadas) e com o título de mestre
(quatro efetivas e uma substituta).
Levando em conta a condição de professor do Ensino Básico, Técnico e
Tecnológico (EBTT) e a verticalização do ensino (Brasil, 2008), os docentes
dos IFs em geral perpassam outros níveis de ensino (integrado, subsequente e/
ou superior), especialmente os das áreas afins. Esse aspecto foi, inclusive, con‑
forme documentos internos, uma das principais motivações de contestação das
docentes da área de Serviço Social junto a gestão do IFCE.8
Já com relação aos estudantes, que, em suma, ingressaram no curso por
intermédio do Enem e são advindos de escolas públicas, possuem o seguinte

6. O curso oferta, semestralmente, 35 vagas e incorpora, em média, outros 10 alunos por transferência
externa e/ou interna e cinco por admissão de graduados. Atualmente, a graduação estipula 3 mil horas de
disciplinas, sendo 2.840 horas de disciplinas obrigatórias e 160 de disciplinas eletivas. Isso além das 450
horas de estágio supervisionado e 160 horas de atividades complementares (IFCE, 2013).
7. Tal quadro está passível a mudanças em curto prazo, tendo em vista o concurso público em vigência
para três vagas de docentes efetivos na área de Serviço Social com a previsão de serem convocados até 2015
o total de quatro docentes divididos em duas subáreas: Fundamentos do Serviço Social e Política Social e
Sociedade. Disponível em: <http://qselecao.ifce.edu.br/concurso.aspx?cod_concurso=2510>. Acesso em:
2 maio 2014.
8. Torna-se necessário acrescentar que, em muitos casos, a condição de docente EBTT, abre margem
para que docentes de áreas específicas lecionem disciplinas de áreas afins, o que, somado algumas vezes à
falta de recursos humanos suficientes para suprir a demanda existente, torna mais suscetível as condições de
trabalho à precarização e a polivalência. Isso além da construção de “arranjos temporários”, devidamente
regulamentados, para suprir as necessidades mais imediatas, como a condição de “colaborador eventual” ou
de “professor voluntário”. Sobre o Plano de Cargos e Carreiras do Magistério EBTT, ver a Lei n. 12.772, de
28/12/2012.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 329
perfil: faixa etária de 18 a 24 anos; majoritariamente mulheres, refletindo o
traço histórico da profissão; apoiam ou participam do movimento estudantil9
e/ou de outros movimentos sociais de juventude, como o Levante Popular da
Juventude;10 em torno de 40% são provenientes de outras cidades menores e,
em geral, da zona rural, muito embora também haja a atração de estudantes de
cidades maiores e até da capital do estado, daí a alta demanda por ações no
âmbito da política de assistência estudantil; cerca de 16% estão inseridos em
programas sociais, dentre os quais o Bolsa Família; a maioria trabalha e/ou
possui algum tipo de renda mensal familiar, sendo de um a dois salários mínimos,
o que implica tanto a grande procura de cursos superiores noturnos como na
dificuldade que muitos apresentam em acompanhar os conteúdos; cerca de 26%
participam de ações vinculadas a pesquisa, extensão e de apoio ao ensino; há
um alto índice de envolvimento nas ações do curso ou mesmo em outras insti‑
tuições (eventos, encontros, reuniões), inclusive com recursos muitas vezes
subsidiados pela instituição.
Diante dessa realidade, o curso em questão vem se conformando e ganhan‑
do notoriedade por seu caráter público e gratuito, além de ser uma clara expres‑
são das recentes transformações dos IFs. Isso, entretanto, não isentou o proces‑
so de abertura e consolidação da graduação de uma série de impasses, tensões
e dificuldades que vão desde o confronto de ideias sobre formação e gestão
educacional até a insuficiência de recursos humanos e infraestrutura adequada.
Tais condições tomam maior proporção diante da condição inédita do bachare‑
lado nos IFs.
Contudo, é possível observar por parte dos entrevistados em geral uma
percepção otimista sobre o curso que, inclusive, passou por uma profunda re‑
formulação curricular iniciada em 2012 e finalizada em 2013.11 A graduação é

9. Sobre esse assunto, sinalizamos a repercussão política da mobilização estudantil em 2014. Disponí‑
vel em: <http://www.cress-ce.org.br/noticias/informes/nota-de-apoio-%C3%A0-paraliza%C3%A7%C3%
A3o-dosas-estudantes-de-servi%C3%A7o-social-do-ifce> e <http://executivamess.wordpress.com/
2014/01/22/nota-de-apoio-da-enesso-a-paralisacao-dxs-estudantes-de-servico-social-do-ifce-iguatu/>. ­Acesso
em: 8 maio 2014.
10. Disponível em: <http://levante.org.br/>. Acesso em: 2 mar. 2014.
11. Nesse processo merece destaque o fortalecimento das instâncias coletivas (Colegiados, Coordenação
do Curso, Núcleo Docente Estruturante/NDE) e a reconfiguração da organização curricular e dos conteúdos

330 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
associada, por parte da gestão, a uma forma de a instituição “dialogar” melhor
com a comunidade, fazendo cumprir a “função social”; ao desenvolvimento de
uma postura crítica na formação; a um grande diferencial em relação aos demais
cursos ofertados no IFCE, em especial no interior do estado; e, consequente‑
mente, a muitos desafios. Por outro lado, é possível observar a vigência, pelo
menos inicialmente, de um “senso comum institucional” pautado no “desen‑
volvimento social” e “empreendedorismo”, reflexo do que ainda predomina na
sociedade como um todo e tem o reforço dos discursos e ideologias de desres‑
ponsabilização do Estado e culpabilização do indivíduos por questões de ordem
estrutural, favorecendo a “refilantropização” (Iamamoto, 2004) e a “assisten‑
cialização da seguridade social” (Mota, 1995). Essa lógica atravessa, em geral,
as instituições como um todo e repõe no cotidiano profissional ameaças que
implicam a “imagem social” (Ortiz, 2010) do Serviço Social que tendem a
associar o profissional a um “agente da assistência, do desenvolvimento e da
inclusão social”, em vez de fortalecer a perspectiva dos direitos sociais.
Outro aspecto presente nos depoimentos é a referência feita a uma supos‑
ta incompatibilidade entre o perfil dos alunos e professores do curso com a
estrutura organizativa da instituição, já que o Serviço Social possui uma direção
voltada para um perfil questionador, de reivindicação e luta por direitos, desde
a formação ao exercício profissional. Nesse sentido, seria um diferencial em
relação ao perfil dos cursos predominantemente ofertados no IFCE de cunho
tecnológico. Tal concepção, ao mesmo tempo, se contradiz quando aponta para
uma “lógica institucional” passível de mudanças, não engessada, que tende a
trabalhar com uma perspectiva mais ampla do que se possa entender por “tec‑
nologia”. Sobre isso, basta atentarmos para a história recente dos IFs e das
modificações já ocorridas na “cultura institucional” que, hoje, é pautada por
princípios como o “compromisso com a justiça social, equidade, cidadania,
ética, [...] transparência e gestão democrática [...] natureza pública e gratuita do
ensino” (IFCE, 2008). Tais princípios, inclusive, muito se aproximam daqueles
considerados fundamentais no Código de Ética do/a Assistentes Social (Brasil,
1993). Cabe ressaltar mais uma vez que esses impasses, pautados por uma

das disciplinas, atentando para a flexibilização do currículo, articulação da teoria com a realidade, interdis‑
ciplinaridade, pluralismo e ética na profissional.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 331
relação aparentemente paradoxal entre a “lógica institucional” e o “projeto
profissional do Serviço Social” não estão presentes apenas nos IFs, mas nas
instituições como um todo, revelando um conjunto de contradições que permeiam
as relações sociais, expressas no constante embate de ideias, projetos de forma‑
ção e de sociedade.
Levando em consideração tais ponderações, observamos também que o
curso de Serviço Social no IFCE tem sido associado a mudanças na dinâmica
institucional. Para muitos, o curso vem demandando modificações e poderá
contribuir nos processos que dizem respeito à gestão coletiva e democratização
interna, com o fortalecimento dos colegiados, além da construção de novos
parâmetros de formação, de pesquisa e extensão. Sobre isto, a graduação vem
se destacando no desenvolvimento de atividades interdisciplinares de apoio ao
ensino (a exemplo da monitoria acadêmica e dos grupos de estudos), pesquisa
e extensão junto à gestão pública municipal e aos movimentos sociais que via‑
bilizaram a criação e certificação do Núcleo de Educação, Políticas Públicas e
Serviço Social (Neppss). Já quanto ao estágio supervisionado, as ações para sua
implementação tiveram início no primeiro semestre de 2013, o que requer a
construção da Política de Estágio Supervisionado em Serviço Social do IFCE,
com referência na PNE da Abepss (2008), que ainda requer algumas mudanças
inclusive no organograma da instituição, a exemplo da criação da Coordenação
de Estágio Supervisionado em Serviço Social.
Outro fator importante a ser considerado na nossa análise é o alto nível de
participação e envolvimento dos estudantes e professores do curso, expresso
por meio de alguns aspectos, como: a criação, em 2011, do Centro Acadêmico
de Serviço Social (Cass); a organização e realização das Semanas de Serviço
Social do IFCE, que já está na sua quarta edição; a participação em importantes
iniciativas da categoria estudantil e profissional, como os Encontros Nacionais
e Regionais de Estudantes de Serviço Social (Eress/Eness), o Encontro Nacio‑
nal de Pesquisadores em Serviço Social (Enpess), o Congresso Brasileiro de
Assistentes Sociais (CBAS), as Oficinas Regionais e Nacionais da Abepss, o
Projeto Abepss Itinerante, entre outros; a realização, nas dependências do IFCE,
do Conselho Regional de Entidades Estudantis de Serviço Social (Coress), em
2012, e do Seminário Regional de Formação Profissional e Movimento Estu‑
dantil em Serviço Social (SRFPMESS), em 2014; a participação direta de

332 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
estudantes na atual representação regional da Executiva Nacional de Estudantes
de Serviço Social (Enesso), bem como a inserção de uma das professoras do
curso na diretoria do Cress-3ª Região.
A realidade demonstra um reconhecimento progressivo do curso, que já é
um dos mais procurados no IFCE,12 com a perspectiva de ser avaliado pelo MEC
em 2014, além de condições favoráveis à captação de recursos públicos através
de incentivo à participação em eventos acadêmicos de docentes e discentes e o
fomento à pesquisa, extensão e atividades de apoio ao ensino. Esse aspecto é
central no processo de atração e formação de profissionais qualificados, espe‑
cialmente diante de um cenário tão adverso para a garantia dos parâmetros de
formação em Serviço Social.
A pesquisa nos possibilitou também compreender o atual Projeto Político‑
-Pedagógico do Curso (PPC) como expressão do esforço e compromisso cole‑
tivo de servidores e estudantes na busca da consolidação e legitimação do
curso na instituição em consonância com as Diretrizes da Abepss, levando em
conta as particularidades tanto regionais como institucionais.
Diante dessa realidade, mediante um diálogo junto às representações da
categoria (Abepss, Enesso, CFESS e Cress), observamos que, em geral, muito
em virtude do desconhecimento ou mesmo da condição inédita da experiência
no IFCE, predomina nos depoimentos a ponderação, de um lado, sobre o receio
da expansão do curso de Serviço Social via IFs, tendo em vista o perfil históri‑
co da instituição e sua possível incompatibilidade com a formação de assisten‑
tes sociais; de outro, a demonstração de interesse pelo tema e otimismo pelo
fato de ser uma formação pública e gratuita, o que abre um leque de possibili‑
dades frente à falta de conquistas maiores e efetivas em relação aos problemas
enfrentados hoje na profissão.

O curso de Serviço Social no IFCE representou uma conquista muito importante


da profissão no Ceará [...] para a classe trabalhadora, ao garantir um curso públi‑
co, gratuito, e que a gente espera que seja de qualidade [...] no nosso planejamen‑
to estratégico está como diretriz o fortalecimento dos cursos públicos de Serviço

12. Disponível em: <http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2014/01/07/noticiafortaleza,3187141/


confira-as-notas-de-corte-desta-terca-dos-curso-do-ifce.shtml>. Acesso em: 20 abr. 2014.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 333
Social, há o fortalecimento dessa parceria, e isso vem se dando a partir da parti‑
cipação do IFCE nos GTs de trabalho e de formação profissional, a realização de
alguns eventos, como a Semana do Assistente Social, que acontece em maio, além
desse apoio político. (Entrevistada 6)

No que se refere à expansão do curso para outros IFs, as representações


do Cress e da Abepss especialmente consideram importante tal iniciativa, apon‑
tando para a necessidade de garantir mais cursos públicos, já que historicamen‑
te é uma bandeira de luta das entidades. Porém há também ponderações no que
diz respeito a esse processo, considerando, por vezes, ideal a abertura em uni‑
versidades e o fortalecimento do curso já existente no IFCE para que este sirva
como “projeto-piloto”.

Não temos uma posição formal da Abepss em relação aos IFs, o que essa pesqui‑
sa nos chama a fazê-lo. Enquanto significar o avanço do ensino superior, público
e presencial, devemos apoiar, especialmente por adensar [...] uma alternativa à
expansão da mercantilização da educação e do EaD. (Entrevistada 8)

As entidades, em sua maioria, demonstram desconhecimento do projeto


de formação e das diretrizes que orientam o curso no IFCE, não possuindo,
portanto, ações concretas para a proposta de expansão, mas somente perspecti‑
va de planejamento para pautar em reuniões futuras. Essa realidade, no entanto,
vem tomando novos contornos. Sobre isso, segundo o Relatório Final do 42º En‑
contro Nacional CFESS-Cress (2013), esfera máxima de discussão e delibera‑
ção coletiva da categoria, foi pautada a necessidade de aprofundar o debate
sobre a expansão de cursos de Serviço Social em IES públicas, sendo aprovada
a seguinte deliberação: “realizar estudos e debates sobre a criação de cursos de
Serviço Social na Rede de Educação Profissional e Tecnológica, considerando
o curso de Serviço Social do IFCE como projeto-piloto” (CFESS e Cress, 2013,
p. 32). Tal fato, somado aos demais aspectos que já brevemente apresentamos,
demanda maior empenho dos trabalhadores da educação e estudantes, em cons‑
tante articulação com as organizações políticas e profissionais, na consolidação
de iniciativas e construção de bandeiras unitárias que efetivamente represente
uma entre tantas outras conquistas no âmbito da formação profissional, em
particular no Serviço Social.

334 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
5. Considerações finais
A aproximação da realidade e das suas diversas dimensões nos ensina que,
no movimento complexo e dinâmico que constitui a sociedade contemporânea,
o “pessimismo fatalista” e o “otimismo vazio de concretude” dificultam alçar‑
mos passos mais largos no enfrentamento à mercantilização da vida social,
particularmente no âmbito da educação, que venham a ampliar o direito a uma
formação profissional pública, gratuita e de qualidade. Tal concepção acompa‑
nhou a trajetória da nossa pesquisa, entendendo que, apesar dos limites e per‑
calços, há um caminho aberto para possibilidades que a história nos possa
apresentar.
Chamamos novamente a atenção ao fato de o curso de Serviço Social do
IFCE ainda representar uma experiência recente, o que nos impede de termos
maiores subsídios que viabilizem uma análise mais aprofundada sobre seus
reflexos na formação de assistentes sociais no estado e nas políticas públicas
em âmbito regional. Entretanto, a realidade da graduação, como podemos
observar, apesar de inédita, não é simples. Envolve um conjunto de mediações
que exigem de nós extrapolar a esfera local, o imediatismo, e compreender o
que está em jogo no projeto de desenvolvimento em curso.
A profissão, em matéria de formação profissional, vivencia os reflexos de
um complexo e contraditório pêndulo entre o acesso e a precarização, caracte‑
rístico do “neodesenvolvimentismo”, partícipe da trajetória de um país de ca‑
pitalismo periférico e dependente em meio às transformações contemporâneas
notadamente atravessadas pela financeirização da economia e reestruturação
produtiva. Os reflexos desse processo logo se apresentam para a profissão como
solo propício, de um lado, para a atualização do conservadorismo, a exemplo
do aligeiramento dos conteúdos e do rebaixamento acadêmico, que tendencial‑
mente implica um perfil profissional mais pragmático, acrítico e assistencialis‑
ta; de outro, para condições renovadas do ponto de vista da luta política que
incidam sob as contradições do contexto atual e viabilizem conquistas no âm‑
bito da educação pública, entre outras.
No seio dessa conjuntura nasce o bacharelado em Serviço Social no IFCE.
A princípio, poderíamos conceber esse aspecto somente como uma demanda

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 335
do capital, uma forma de precarizar a educação superior, expandindo o ensino
na perspectiva técnica e tecnológica, a baixo custo, sem a garantia do tripé
ensino, pesquisa e extensão, frente às novas configurações do mercado de tra‑
balho. A partir daí, assegurar que esse processo contribui para um rebaixamen‑
to da formação profissional, tendo em vista que a experiência universitária foi
fundamental para a “intenção de ruptura” (Netto, 2011) e que a expansão do
curso de Serviço Social pelos IFs é simplesmente uma ameaça, um retorno ao
tecnicismo e a outras formas renovadas do conservadorismo, tão presente na
gênese da profissão. Entretanto, apenas chegarmos a tais afirmações não nos
basta, simplesmente porque, a nosso ver, não dá conta do movimento do real,
histórico, dinâmico e contraditório, constituído não apenas por determinantes
e circunstâncias no âmbito econômico, como também por aspectos no plano da
política, da “relação de forças sociais” (Gramsci, 2007).
É preciso entender, portanto, que a realidade dos IFs, e particularmente do
curso de Serviço Social, não é isolada e engessada, mas relacionada à dinâmica
de crescimento exponencial de formas de ensino extremamente precarizadas,
ao histórico déficit educacional e à desigualdade regional, às mudanças ocorri‑
das na última década no Brasil e na própria “natureza” dos IFs etc. Todo esse
processo vem viabilizando, portanto, no seio das adversidades encontradas hoje
no âmbito da educação superior que, inclusive, extrapolam a realidades dos IFs,
a implementação do curso em questão respaldado nas Diretrizes Curriculares
da Abepss e no Projeto Ético-político Profissional, levando em consideração as
particularidades regionais e institucionais. A graduação em questão vem se
referenciando no estado em meio à proliferação de cursos — em geral sem
qualquer parâmetro de qualidade —, de cursos por intermédio de instituições
privadas e/ou de caráter filantrópico.
Não obstante, desde sua criação, o curso em questão vem enfrentando
dificuldades e apresentando potenciais que se configuram como verdadeiros
desafios. Dentre esses podemos situar a “cultura institucional”, que, mesmo
com reconfigurações mais recentes, não possui tradição em cursos das áreas das
Ciências Humanas e Sociais. A condição de professor de EBTT, em vez da
carreira de magistério superior, que demanda maior esforço coletivo para a
edificação e o fortalecimento de uma formação respaldada nas Diretrizes Na‑
cionais da ABEPSS.

336 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
Assim como nas universidades, algumas dificuldades vêm acompanhan‑
do o curso desde sua criação até hoje, a exemplo da falta de professores e de
infraestrutura necessária e adequada. Tais circunstâncias implicam também as
condições de trabalho docente, que adensam os contratempos relativos a de‑
dicação às atividades de apoio ao ensino, de pesquisa e extensão. Outros im‑
passes revelam a necessidade de adequar o curso à reformulação do PPC,
viabilizando a integralização curricular, bem como a demanda por demais
condições previstas na Política de Estágio Supervisionado Curricular em Ser‑
viço Social (IFCE, 2013).
Contudo, é importante observar que o processo de interiorização das ins‑
tituições e dos cursos públicos representa também a possibilidade de incidir sob
a dinâmica local e regional, especialmente no âmbito das políticas sociais,
através de ações no âmbito do estágio supervisionado (Fóruns de Supervisores
de Estágio, Capacitações para Supervisores etc.), bem como da extensão, pes‑
quisa e dos fluxos migratórios, viabilizando o acesso a um conjunto de profis‑
sionais e estudantes que passam a demandar melhorias no âmbito da política de
assistência estudantil, das condições de trabalho docente, entre outras.
Outro aspecto a ser considerado nesse processo é a condição pública e
federal da instituição, que vem possibilitando espaços de debates e de articula‑
ção direta com as organizações da profissão, de formação crítica que concebe
educação como direito, que viabiliza a atração de docentes concursados e qua‑
lificados para o interior do estado.
Portanto, estamos diante do desafio que nos acompanha cotidianamente
frente ao atual quadro de expansão da educação superior: formar profissionais
competentes, críticos e comprometidos, com capacidade teórico-metodológica,
ético-política e técnico-operativa. Isso, no entanto, só é possível a partir de uma
leitura aprofundada da realidade e da profissão, dos seus fundamentos, articula‑
da à capacidade de instrumentalizá-la, a partir também do conhecimento e da
habilidade operativa e instrumental no âmbito das políticas sociais. Caso con‑
trário, serão reforçados equívocos históricos, a exemplo do tecnicismo/pragma‑
tismo e do teoricismo/academicismo.
Assim, o fortalecimento político-organizativo dos profissionais e estudan‑
tes junto à ampliação da esfera pública é fundamental, sendo o curso de S­ erviço

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015 337
Social do IFCE uma importante experiência que, sem dúvida, contribuirá para
ampliar nossas reflexões e ações na construção de estratégias coletivas de en‑
frentamento à precarização e ao conservadorismo que venham a garantir con‑
quistas concretas não apenas para o Serviço Social, mas para o conjunto da
classe trabalhadora.

Recebido em: 14/8/2014  ■  Aprovado em: 10/3/2015

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340 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 317-340, abr./jun. 2015
Plano Individual de Atendimento (PIA) na
perspectiva dos técnicos da semiliberdade
The Individual Plan of Care (IPC) from the point of
view of technicians who deal with semi-liberty

Jacqueline de Oliveira Moreira*


Bruna Simões de Albuquerque**
Bianca Ferreira Rocha***
Paula Melgaço da Rocha****
Maria Aparecida Marques Vasconcelos*****

Resumo: Este artigo apresenta uma leitura do trabalho das equipes


técnicas com o Plano Individual de Atendimento (PIA). Contextualiza
o PIA no cenário das medidas socioeducativas, que teve início como
projeto de vida e se formalizou enquanto dispositivo previsto na Lei
n. 12.594/2012. Discute-se a importância do instrumento, bem como
os impasses do seu uso a partir da concepção das equipes das Casas
de semiliberdade, considerando as especificidades presentes no cum‑
primento desta determinação judicial. Por fim, expõem-se reflexões
sobre o trabalho com o PIA, propondo recursos para garantir, além da
formalização, a individualização da medida do adolescente.
Palavras-chave: Medidas socioeducativas. Plano Individual de Aten‑
dimento (PIA). Semiliberdade. Sinase.

* Doutora em Psicologia Clínica, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUC‑


-Minas, Belo Horizonte (MG), Brasil. E-mail: jackdrawin@yahoo.com.br.
** Psicóloga, mestre em Psicologia — Psicopatologia e Estudos Psicanalíticos pela Université de
Strasbourg, França.
*** Psicóloga, mestre em Psicologia pela UFMG/Belo Horizonte (MG), Brasil.
**** Psicóloga, especialista em Relações Internacionais, especialista em Psicanálise com Crianças e
Adolescentes, mestranda em Psicologia pela PUC-Minas/Belo Horizonte (MG), Brasil.
***** Psicóloga, mestranda em Psicologia pela PUC-Minas/Belo Horizonte (MG), Brasil.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015 341
http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.026
Abstract: This article is an analysis of the work accomplished by the technical teams working with
the Plano Individual de Atendimento (PIA) — Individual Plan of Care (IPC). It contextualizes IPC in
the scenario of Social and Educational Procedures. IPC started as a life project, and it was formalized
as a provision in Law 12.594/2012. The importance of the instrument is discussed, as well as the
impasses to its use from the conceptions of the teams working at Casas de semiliberdade (Semi-liberty
Houses). The specificities to abide by that judicial determination are considered. Finally, there are some
thoughts about the work with IPC, and resources are proposed in order to ensure not only the
formalization, but also the individualization of the teenager procedure.
Keywords: Social and educational procedures. Individual Plan of Care (IPC). Semi-liberty. Sinase.

Medidas Socioeducativas e Sinase

A
s medidas socioeducativas expressam a posição do Estado diante
de um ato infracional cometido por um adolescente e decorrem da
doutrina de proteção integral à criança e ao adolescente consagra‑
da na Constituição brasileira de 1988 e regulamentada no Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA — Lei Federal n. 8.069/1990). As medidas
são de natureza jurídica porque estabelecem sanções, que podem ser entendidas
como penalizações que aparecem como consequências oficiais de atos infracio‑
nais. Entretanto, acrescentam-se às sanções o projeto de proteção à garantia de
direitos, a inserção social, a responsabilização e a implicação com a própria vida.
Neste sentido, como o próprio nome indica, as medidas socioeducativas não se
restringem ao campo da sanção. Surge, então, um desafio: como garantir, no
cotidiano da aplicação das medidas, a proteção, a inserção social e a implicação
com a própria vida? Veronse e Lima (2009, p. 37) questionam:

A proposta da responsabilização estatutária mediante a inserção de práticas peda‑


gógicas em detrimento das punitivas — violadoras dos direitos humanos dos
adolescentes — é um grande desafio proposto aos operadores do sistema de ga‑
rantia de direitos da criança e do adolescente. É possível fazer com que esse
ideal de responsabilização não se constitua em letra morta? Como fazer cumprir
essa nova proposta pedagógica?

Os autores supracitados compartilham de nossa dúvida: qual o caminho


ou método possível para garantir a realização de intervenções que promovam

342 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015
a cidadania? De que forma conter ações que podem cristalizar as medidas como
práticas punitivas que violam os direitos das crianças e dos adolescentes? Como
resposta a essa indagação, em 2004 a Secretaria Especial de Direitos Humanos
(SEDH) e o Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente (Co‑
nanda), com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef),
apresentaram o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase).
Veronese e Lima (2009) entendem o Sinase como um instrumento jurídico-
-político que possibilita a concretização dos direitos dos adolescentes autores
de ato infracional, pois, segundo os autores, as medidas socioeducativas devem
se guiar pelo trinômio “liberdade, respeito e dignidade”. Assim, o Sinase tenta
garantir que na execução da medida prevaleça o elemento pedagógico em de‑
trimento do punitivo.
Não podemos negar que a criação do Sinase é mais um passo que se con‑
figura como um avanço nas políticas públicas de atenção aos adolescentes e às
crianças, mas é necessário manter a posição crítica frente às conquistas para
fortalecer o movimento por um maior desenvolvimento das políticas. Nessa
perspectiva, Jimenez et al. (2012) ponderam que é preciso discutir sobre “o
lugar da lei como estratégia de conformação do campo técnico para o funcio‑
namento do sistema socioeducativo” e que, “com a adoção da lei do Sinase,
mais uma vez, no Brasil, foram depositadas amplas esperanças no recurso legal
como elemento decisivo para assegurar direitos” (Jimenez et al., 2012, p. 1-2).
Poderíamos depositar na conformação da lei a resolução de problemas que se
inscrevem no cotidiano? Jimenez et al. (2012) revelam, ainda, que o texto do
documento apresenta alguns espaços de silêncio que precisam de resposta; por
exemplo: como garantir a participação dos adolescentes e familiares no Plano
Individual de Atendimento (PIA)? Interessa-nos refletir sobre esses espaços de
silêncio, mas faz-se necessário ressaltar as conquistas.

O PIA na Medida Socioeducativa de semiliberdade


A medida socioeducativa de semiliberdade se constitui como uma das seis
previstas no artigo 112 do Estatuto da Criança e do Adolescente, caracterizada
pela restrição de liberdade, que deve ser compreendida como uma modalidade

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015 343
menos gravosa em relação à medida de internação. No que concerne ao regime
de semiliberdade, o artigo 120 do ECA descreve-o da seguinte forma: “O regi‑
me de semiliberdade pode ser determinado desde o início, ou como forma de
transição para o meio aberto, possibilitada a realização de atividades externas,
independentemente de autorização judicial” (Brasil, 1990, p. 100).
O movimento na semiliberdade gira em torno de uma rotina em que o
dentro e o fora se complementam. A medida prevê as atividades externas, como
as idas à escola e aos cursos profissionalizantes, além da participação em ofici‑
nas e atividades de esporte, cultura e lazer. A semiliberdade restringe a liberda‑
de, mas não priva o adolescente de outros direitos, fazendo com que as práticas
socioeducativas integrem a rede de atendimento, promovendo o acesso a saúde,
educação, profissionalização, trabalho e cultura.
O PIA, em sua constituição, a partir da lei do Sinase, inaugura a importân‑
cia de se pensar em um plano de atendimento individualizado que considere as
especificidades de cada adolescente, principalmente no que diz respeito a sua
condição peculiar de desenvolvimento. Podem-se considerar duas funções pri‑
mordiais para ele: assegurar o acesso aos direitos fundamentais preconizados no
ECA e promover, para cada adolescente, a individualização da medida. Na
perspectiva da cidadania, as unidades de semiliberdade devem manter uma am‑
pla articulação com os programas e serviços sociais e/ou formativos no âmbito
externo ao cumprimento da medida, sendo nesse arranjo institucional que se
articula concretamente a vida dos adolescentes com o mundo público dos direi‑
tos. Como individualizador da medida socioeducativa, o PIA abre espaço para
o adolescente se posicionar frente a sua própria história, traçando conjuntamen‑
te suas perspectivas para o futuro. Frassetto et al. (2012, p. 38) apontam:

Essa determinação legal de se estabelecerem metas e intenções dos sujeitos para


o cumprimento da medida organiza e acelera um procedimento técnico que já
vinha sendo aplicado desde a aprovação do ECA por algumas equipes profissionais
que conseguiram avançar na oferta de um atendimento que prosseguia para além
da elaboração de avaliações e diagnósticos e estabelecia um plano personalizado
de intervenção, percebendo a relevância de uma ação educativa singularizada para
apoiar a realização das expectativas em relação ao processo de desenvolvimento
do adolescente e a sua inserção social.

344 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015
Os autores citados ainda contribuem para o debate colocando alguns
parâmetros referentes à caracterização do instrumento. A partir disso, é preci‑
so considerar que o PIA não é um instrumento diagnóstico e nem burocrático,
devendo ser considerado um estudo de caso que pode ser revisto continuamen‑
te. Deve também prever estratégias de escuta, cuidado e educação que tenham
a participação efetiva do adolescente e da sua família. No que diz respeito à
instituição, o PIA deve refletir o projeto político-pedagógico desta e propor
intervenções individuais e grupais que promovam a integração social e comu‑
nitária do adolescente. E, por fim, deve ser um instrumento que singularize o
adolescente e contribua para a construção de uma subjetividade expressiva e
criativa.
A lei do Sinase (2012) propõe como um dos princípios para o cumprimen‑
to da medida socioeducativa a individualização, considerando a idade, as capa‑
cidades e circunstâncias de foro pessoal dos adolescentes. Para que seja consi‑
derada a individualização da medida, o PIA deve ser um documento que
contemple a efetiva participação do adolescente na construção das propostas de
trabalho a ele direcionadas. Desse modo, o PIA não deve se tornar uma lista de
tarefas dos técnicos, burocrática e feita para o adolescente, dissociada dos
desejos e escolhas deste, sendo possível trabalhar a implicação, responsabili‑
zação e reparação das consequências lesivas do ato infracional necessárias ao
processo socioeducativo.
Saraiva (2014) considera o PIA o maior avanço atual nas políticas públicas
que norteiam a intervenção com o adolescente autor de ato infracional, porque
o instrumento limita a intervenção do Estado na esfera da liberdade individual
do adolescente, “saudando-se como aquele que talvez seja o maior avanço da
lei, a fixação do Plano Individual de Atendimento, adotada a sentença como
parâmetro máximo para definir o grau de intervenção do Estado na esfera da
liberdade individual do adolescente (Saraiva, 2014, [s. p.]).
O PIA apresenta a possibilidade de uma intervenção individualizada da
sanção e, assim, torna-se mais fácil acompanhar se a garantia dos direitos está
sendo efetivada. Segundo Saraiva (2014, [s. p.]):

Tomada a individualização da pena como uma garantia constitucional da cidada‑


nia, compreendendo a medida socioeducativa como uma resposta do Estado ao

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015 345
ato infracional, conduta típica descrita na lei como crime ou contravenção, não
há como deixar de afirmar que a individualização da medida aplicável ao adoles‑
cente contemple um regramento expresso e explícito, devidamente motivado.

Desse modo, pode-se concluir que o PIA se apresenta então como uma
proposta de individualização da medida socioeducativa prevista no Sinase, que
visa ao mesmo tempo garantir os direitos dos adolescentes considerando a sua
singularidade e favorecer o processo de tomada de responsabilidade pelo ato
infracional cometido. No campo da socioeducação, o PIA tem a tarefa funda‑
mental de articular os eixos da medida para cada um dos adolescentes, sendo,
portanto, norteador de seu cumprimento.
Especificamente no contexto das medidas socioeducativas de semiliber‑
dade e internação em Minas Gerais e, de acordo com a Metodologia da ­Suase
(2012), o PIA se apresenta como um instrumento metodológico de planeja‑
mento, construção e acompanhamento individual do cumprimento da medida
socioeducativa. Uma das funções do PIA seria destacar as prioridades para a
medida de cada adolescente: tanto as prioridades de trabalho das equipes
quanto aquelas que o próprio jovem aponta para sua vida. Assim, o PIA de‑
veria funcionar como um parecer inicial do que o adolescente apresentou nos
primeiros atendimentos técnicos, ou seja, no discurso sobre si mesmo e na
sua relação com o outro, nos diversos espaços de convívio social, nas infor‑
mações obtidas com a família e com a rede de atendimento pela qual o ado‑
lescente passou. Esse parecer inicial teria por objetivo dar lugar às primeiras
perspectivas para o cumprimento da medida do adolescente e ainda às ações
que a instituição deve realizar para efetivar o planejamento. Além disso, o
PIA, na especificidade das medidas mais gravosas em Minas, coloca em des‑
taque o estudo e a construção do caso enquanto espaço de planejamento,
orientação, acompanhamento e avaliação do cumprimento da medida de cada
adolescente.
Entretanto, na prática das equipes socioeducativas sabemos que a implan‑
tação e a execução da metodologia do PIA enfrenta inúmeros desafios que
merecem ser levados em consideração. Para Jimenez et al., o PIA “é uma ini‑
ciativa interessante para singularizar a medida de acordo com as demandas

346 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015
efetivas dos indivíduos e das demandas de políticas públicas que deveriam
amparar os programas socioeducativos” (2012, p. 8). Mas os autores alertam
para o risco de o instrumento, quando submetido a uma lógica da racionalidade
técnica, se tornar um instrumento de dominação, normatização e controle sobre
os sujeitos, jovens e técnicos.

Um dos impasses da utilização do PIA é ele acabar por compor um regime bio‑
político, em que os adolescentes em conflito com a lei são submetidos a uma
racionalidade normativa — tecnologias que servem para isolar anomalias e
normatizá-las por meio de procedimentos corretivos e terapêuticos. (Jimenez et
al., 2012, p. 10)

Desse modo, é importante tecer reflexões acerca da elaboração desse ins‑


trumento e das dificuldades enfrentadas pelas equipes para garantir sua funcio‑
nalidade. Entendemos que tais impasses no uso do PIA, que se expressam
muitas vezes por uma resistência a ele, acabam por revelar desafios mais amplos
inerentes à própria execução da medida de semiliberdade.
Levantamos algumas hipóteses relativas às questões que perpassam a re‑
lação das equipes com o dispositivo. Em primeiro lugar, destacamos as múltiplas
competências e habilidades exigidas para utilização do PIA: para isso, os téc‑
nicos precisam escutar, pensar, intervir, distanciar-se, refletir, sintetizar, trans‑
mitir e inventar, o que torna delicada e complexa a tarefa. Em seguida, destaca‑
-se a dificuldade de se conciliar minimamente o tempo do adolescente com o
tempo do instrumento, na medida em que o tempo de cada adolescente e de seu
processo não necessariamente acompanha aquilo que foi previsto temporalmen‑
te como resultados esperados no PIA e tampouco, em última instância, o prazo
legal de 45 dias. Além disso, frequentemente não há coincidência entre os
objetivos da equipes para o caso e os objetivos do próprio adolescente para sua
vida. Há ainda a dificuldade de se promover uma inclusão efetiva do adoles‑
cente e de sua família, ou seja, de se criar espaços de construção conjunta
efetiva nos quais família e adolescente não figurem apenas como objeto da ação
das instituições. Reconhecidas as conquistas que o PIA inaugura e apontados
alguns impasses, interessa-nos saber como o técnico da medida de semiliber‑
dade apreende e compreende o PIA.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015 347
O PIA na concepção e na prática das equipes da semiliberdade
A partir de uma coleta informal de pequenos comentários e desabafos no
cotidiano da aplicação das medidas nas casas de semiliberdade, notou-se uma
constante queixa dos técnicos acerca do caráter burocrático do PIA e das exi‑
gências de preenchimento do documento delimitadas por prazos exíguos. Não
podemos negar que o efeito de formalização de uma prática e a fixação a um
formulário é o da delimitação forçosa dos afetos, desejos, expectativas, ou seja,
a formalização produz certa mortificação do mundo da vida.
Os formulários podem ser entendidos como produtos de uma racionalida‑
de técnica-instrumental, sendo que a razão instrumental opera com eficiência,
mas não deixa espaço para as manifestações da subjetividade. Talvez uma
forma de aparição da subjetividade frente à “camisa de força” do instrumento
técnico-científico seja o não preenchimento do formulário ou a subversão no
ato do preenchimento. E, ainda mais, a formalização pode transformar um
trabalho em tarefa, que pode ser entendida como uma imposição na qual o
profissional perde sua dimensão subjetiva, produzindo, pois, mal-estar. Segun‑
do Heloani e Capitão (2003, p. 106), “grande parte do sofrimento mental do
trabalhador é consequência direta dessa organização, isto é, da divisão do tra‑
balho, do conteúdo da tarefa, do sistema hierárquico, das modalidades de co‑
mando, das relações de poder etc.”. Seguindo a trilha do raciocínio de Dejours
(1992), os autores afirmam que a execução de uma tarefa e seu envolvimento
material demandam um esforço maior, ponto de tensão que pode localizar um
mal-estar. Por fim, não podemos esquecer que existe uma diferença entre o
trabalho prescrito, ou seja, a concepção do trabalho, e o trabalho, real, as pos‑
sibilidades concretas de efetivação do trabalho (Santos, 1997).
Assim, essa escuta informal nos mobilizou para organizar uma roda de
conversa (Afonso e Abade, 2008) com os técnicos da semiliberdade com o
objetivo de captar as modalidades de mal-estar que os mesmos apresentam em
relação ao PIA. As rodas de conversas permitem a realização de um diálogo
aberto com os sujeitos envolvidos nos processos, revelando suas definições,
dilemas e perspectiva, porque uma roda de conversa “deve se dar em um con‑
texto onde as pessoas podem se expressar sem medo de punição social ou

348 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015
institucional” (Afonso e Abade, 2008, p. 24), já que um espaço de circulação
da palavra possibilita uma rica troca entre os diferentes agentes presentes na
roda. Segundo Afonso e Abade (2008. p. 19):

Uma roda de conversa é uma forma de se trabalhar incentivando a participação e


a reflexão. Para tal, buscamos construir condições para um diálogo entre os par‑
ticipantes através de uma postura de escuta e circulação da palavra, bem como
com o uso de técnicas de dinamização de grupo. É um tipo de metodologia par‑
ticipativa que pode ser utilizada em diversos contextos para promover uma cul‑
tura de reflexão sobre os direitos humanos.

A roda de conversa com os técnicos da semiliberdade nos possibilitou


localizar alguns embaraços em relação ao preenchimento do PIA e às percepções
acerca da importância do instrumento para diferentes atores do campo das me‑
didas socioeducativas.
Podemos organizar a descrição do PIA em relação três grupos: o PIA e sua
função para o adolescente e a família; o lugar do instrumento na equipe; o uso
do formulário no Judiciário.
Os técnicos apontaram que o PIA pode ser usado como um instrumento de
fiscalização por parte do Judiciário, porque a partir da leitura do formulário é
possível acompanhar o trabalho da equipe da casa de semiliberdade, sendo in‑
clusive avisado aos adolescentes que esse documento será avaliado pelo Judi‑
ciário “como forma de dar uma resposta ao trabalho que tem sido feito” (técnico
na roda de conversa). Contudo, nesse ponto se localizam dois embaraços:
— O primeiro se refere ao sigilo. O que se deve escrever no PIA e nos
outros relatórios? Como trabalhar com o adolescente sem expô-los aos íntimos
da sua história? Como manter o pacto com o adolescente se por vezes o PIA se
transforma em um instrumento que registra seus atos infracionais? Estas per‑
guntas se colocam sobretudo quando o juiz lê o documento em voz alta, o que
pode produzir constrangimentos para o adolescente e os técnicos. Um dos
técnicos aponta a necessidade de avaliar qual informação é do âmbito do aten‑
dimento, e merece sigilo, e qual informação é do serviço e deve ser transmitida
para garantir a continuidade do trabalho.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015 349
— O segundo é próprio de todos os formulários, documentos que se asse‑
melham a um retrato do momento, não conseguindo acompanhar a vida social
e processual dos adolescentes, sobretudo na semiliberdade, que é uma medida
essencialmente dinâmica. No íncio da roda de conversa, alguns técnicos falam
sobre essa cristalização, que se expressa por meio de “informações enrijecidas”
e dizem que “o PIA poderia ser um pouco mais dinâmico”.
Ao longo da roda de conversa, o PIA vai se configurando na fala dos téc‑
nicos como um retrato inicial que é continuamente atualizado pelos estudos de
casos e pelos relatórios trimestrais. Assim, o grupo ressalta a importância do
PIA para a equipe como um espaço de transmissão (inclusive para outras equi‑
pes), mas chamam a atenção para as altas expectativas em relação à qualidade
do texto no instrumento. Nas palavras de um dos técnicos, “o PIA é um instru‑
mento inicial, mas a gente espera que ele seja altamente qualificado”, uma vez
que “uma informação mais qualificada, um acompanhamento com a família
aparece nos relatórios trimestrais”, mas a equipe “se baseia no PIA para compor
os relatórios trimestrais”, reconhecendo-se, assim, a relevância do documento.
Contudo, a grande dificuldade para a equipe é a questão do tempo deter‑
minado para protocolar o PIA, que é de 45 dias após admissão do adolescente
na unidade. Considerando a complexidade do documento e o número de ado‑
lescentes em cada casa, todos os técnicos apontam esse fator como um elemen‑
to gerador de angústias, dificuldades e, por vezes, de produção de PIAs pouco
qualificados ou burocráticos. Alguns acreditam que o PIA é cristalizado para o
Judiciário, tendo em vista que é protocolado uma única vez. Nesse sentido,
sugerem a construção de um PIA virtual, digital, que possa ser constantemente
atualizado. Assim, fica evidente o caráter de retrato inicial do PIA, enquanto os
relatórios trimestrais parecem ocupar lugar de destaque entre os instrumentos
metodológicos dentro das equipes.
Outro embaraço que aparece paralelamente ao tema do tempo é a pergun‑
ta sobre como implicar o adolescente no PIA. A pergunta surge: “Como traba‑
lhar o instrumento para o adolescente?”, ou ainda: “Onde o adolescente entra
no PIA?”. Sua função para a equipe é clara, mas como localizar a função para
o adolescente e torná-la efetiva? Nesse ponto, o grupo relata algumas experiên‑
cias, como o convite ao adolescente para que preencham juntos a parte inicial

350 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015
do PIA, perguntando-se a ele o que deseja colocar: “O que escrevo aqui sobre
sua relação com a escola?”. Outra equipe decidiu trabalhar o PIA com o ado‑
lescente como uma forma de estabelecer uma autoavaliação, estratégia que, para
alguns, produz efeitos. Um dos técnicos entende que para muitos adolescentes,
fazer o PIA de forma conjunta permite “materializar o compromisso dele com
a medida”.
O questionamento acerca de como tornar o PIA importante para o adoles‑
cente parece ser muito atual e significativo para as equipes. Foi relatada, ainda,
a experiência da construção do PIA junto com o adolescente através de uma
metodologia de jogo, em que os objetivos poderiam representar avanços ou
“campos minados”, o que atinge bons resultados com alguns adolescentes,
porém não funciona com outros. Um aspecto interessante que se evidencia é o
modo como os adolescentes acabam cobrando da equipe aquilo que é valoriza‑
do pela própria instituição, ou seja, aquilo que a equipe demonstra que tem
valor para si. Foi relatado que os adolescentes não se cansavam de repetir “E o
meu relatório?”, e que atualmente alguns começam a dizer “E o meu PIA?”,
devido à entrada do PIA no discurso e no cotidiano dos técnicos.
Independentemente das estratégias, as equipes enfatizam a importância de
trabalhar a construção do PIA junto ao adolescente e à família, de forma que o
instrumento não se transforme em “uma coisa da equipe”. Pode se falar do PIA
na visita da família, na pactuação com o adolescente, todavia o grupo destaca
as dificuldades de se incluir concretamente o adolescente na construção do PIA:
ainda que o formulário seja sempre preenchido a partir de informações que a
equipe colhe junto ao adolescente e aos familiares, esse procedimento não ga‑
rante a presença concreta do adolescente.
Nesse momento surge uma pergunta fundamental: para quem se escreve
o PIA? O convite da burocratização é preencher o PIA para o Judiciário e,
assim, respeitar os prazos. Mas todos concordam que o PIA é para o adoles‑
cente, ressaltando, inclusive, a importância do documento para limitar as ações
da instituição em relação à vida do jovem: para os participantes, o formulário
coloca “limites na demanda da instituição para o adolescente, porque antes, às
vezes, a instituição exigia sempre mais do jovem [...], coloca os objetivos e
metas para o adolescente e junto com ele, que determinam seu desligamento

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015 351
da medida”, protegendo-o, assim, dos caprichos da instituição. Afirmando que
“o PIA pode nortear muitas coisas”, um técnico relembra um tempo em que o
adolescente ficava submetido à instituição sem saber o que fazer para ser des‑
ligado: “É importante ele saber o que tem de fazer para cumprir medida e ver
também o que ele está fazendo, do jeito dele, mas que não seja para ele sair
dali perfeito”. Entende-se que o PIA dá um direcionamento e que sem essa
direção o adolescente também fica no lugar de objeto. Acrescenta-se que se
trata de um formulário individual, de forma que cada adolescente tem seu
plano. Este ponto precisa ser enfatizado junto ao Judiciário, que, às vezes,
espera que todos os adolescentes cumpram todos os eixos igualmente, exigên‑
cia e expectativa que contradizem a proposta do plano, que individualiza os
adolescentes. As duas afirmações do grupo se encontram em total consonância
com a reflexão jurídica sobre o PIA. Na concepção das equipes, esse plano
orienta as escolhas dos adolescentes e ajuda a entender os caminhos necessários
para realizá-las.
No entanto, é válido enfatizar uma reflexão do grupo sobre a função do
PIA para o adolescente, que sugere que o plano é a possibilidade dele construir
um conhecimento sobre ele mesmo, isto é, uma chave, porque contribui para a
relação dele com a medida e com sua própria vida. O plano traz a possibilidade
de se montar o quebra-cabeça da vida do jovem, de se reconstruir a vida dele
até ali, ou, ainda, de resgatar sua história. Nesse sentido, o PIA permite que o
adolescente participe das decisões em relação a si mesmo e se responsabilize
por elas, e que na sua história possam ser identificados elementos e situações
que o levaram a cometer atos infracionais. O grupo reconhece o risco da obje‑
tivação presente no preenchimento do formulário, mas ressalta a possibilidade
de o PIA oferecer ao adolescente maior apropriação de si, permitindo-lhe en‑
tender sua posição na medida e na vida. Por isso, é decisiva a participação do
adolescente na construção do PIA, sendo este, inclusive, comparado por um dos
técnicos a um “livro da vida” do adolescente.
Neste ponto surge outra questão: quais são os efeitos da medida nas esco‑
lhas de vida do adolescente? Como trabalhar com um jovem que responde com
eficiência aos eixos da medida, como educação, trabalho, saúde e família, mas
continua com as atuações infracionais? A equipe frisou o fato de que é fácil

352 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015
construir critérios para avaliar as respostas aos eixos escola, trabalho, família,
mas como avaliar a evolução da relação com a infração? Se, por um lado, a
expectativa última da medida é desligar o adolescente da criminalidade, por
outro, ela se relaciona com um ato infracional específico. O que esperamos do
adolescente? Que ele se responsabilize pela medida, pelo ato infracional, pelo
seu envolvimento com a criminalidade ou por sua vida? A resposta não é fácil,
e seria interessante realizar uma operação que produzisse um efeito de quebra
da relação do adolescente com a criminalidade, mas este não pode ser um
objetivo direto da medida.
Essas perguntas levantam o tema da responsabilização jurídica e da res‑
ponsabilização subjetiva. Entendemos que o sujeito está presente no ato de
responder juridicamente pela infração, mas essa resposta não produz, necessa‑
riamente, um efeito de reposicionamento subjetivo frente à existência. No en‑
tanto, é preciso continuar apostando e insistindo.
Parece-nos fundamental sublinhar que o PIA pode ser uma possibilidade
de dar voz ao adolescente, de oferecer um lugar de sujeito de sua história, sen‑
do inclusive revelado pela equipe da semiliberdade feminina que cada menina
compõe o seu PIA com a equipe e que para elas esse é um precioso momento
de reconhecimento, um momento em que alguém volta o olhar para elas: “Fi‑
nalmente sou alguém”. Dessa forma, o PIA representa, do ponto de vista legal,
institucional e cotidiano, o respeito à subjetividade e uma possibilidade de re‑
conhecimento, ou seja, uma garantia da subjetividade na própria lei.
Contudo, outra dúvida se apresenta: o adolescente pode ter acesso irres‑
trito ao seu PIA? Embora o instrumento possa oferecer para o adolescente a
construção de sua história e a dimensão dos avanços no cumprimento da medi‑
da, alguns dados técnicos são de interesse da equipe.
Por fim, perguntamos sobre as diferentes relações dos adolescentes com
o PIA, e a equipe revelou que alguns jovens o veem como uma possibilidade;
outros, como obrigação; e outros não se interessam pelo instrumento.
Assim, o PIA apresenta embaraços para a equipe em relação ao tempo
exigido para o preenchimento, aos desafios para integrar o adolescente, à dúvi‑
da concernente ao limite de acesso do jovem ao seu PIA, ao receio do uso do
documento pelo Judiciário e aos efeitos do documento na vida do adolescente.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015 353
Por outro lado, ficam claras as funções do PIA como um instrumento para a
equipe, que norteia o trabalho de todos os operadores das medidas; e também,
e não menos importante, como uma possibilidade de o adolescente construir
sua história e cuidar melhor de sua vida. Além disso, o PIA pode ser um mate‑
rial para fiscalização por parte do Judiciário e de autoavaliação dos avanços no
cumprimento da medida.

Considerações finais
São muitos os sujeitos e, portanto, muitas as expectativas em relação ao
PIA: há expectativa do Judiciário em relação ao adolescente e às equipes, ex‑
pectativas da equipe em relação ao jovem, e a expectativa do próprio adoles‑
cente. Todas elas são, frequentemente, pouco conciliáveis e exigirão um traba‑
lho delicado de atar os fios possíveis para construir a viabilidade de
cumprimento e de desligamento de cada adolescente. Ao longo da roda de
conversa, vimos como são múltiplas as funções do PIA, sendo possível afirmar
que “é muita função para um só instrumento”: transmissão entre equipes, fis‑
calização da unidade e do adolescente, reconstrução da história do adolescente,
construção de um conhecimento sobre si mesmo, mobilização da família, au‑
toavaliação do adolescente, e avaliação da evolução da medida (caminho das
pedras para o desligamento da medida socioeducativa), momento de reconhe‑
cimento e de construção de oportunidade para a vida e para a medida.
O PIA deve se apresentar nesse contexto como uma possibilidade de dar
“voz” ao adolescente, de oportunizar a ele um espaço para dizer dos seus
objetivos e perspectivas frente à medida que lhe foi imposta. Muitos técnicos
chamam a atenção para o caráter inicial do PIA, e, devido ao tempo curto que
têm para realizar essa construção, o instrumento se torna pouco qualificado,
porém reconhecem que ele direcionará as ações da equipe na execução da me‑
dida do adolescente. Assim, ainda que haja pontos positivos nesse instrumento,
há muitos embaraços relacionados à sua construção, como o tempo do adoles‑
cente e o tempo do PIA, bem como a responsabilização e a participação mais
efetiva do adolescente. E a questão que permeia esta discussão é: como não
mortificar o adolescente na instituição?

354 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015
Neste ponto nos deparamos com o paradoxo que o PIA pode gerar, pois um
instrumento criado para possibilitar a participação do adolescente no cumpri‑
mento da sua medida acaba por vezes servindo como uma ferramenta de trabalho
da equipe que impõe tarefas a serem seguidas pelos adolescentes, dando pouco
espaço para sua fala, para a expressão e consideração de seus desejos e perspec‑
tivas. Assim sendo, propomos a seguinte reflexão: Para quem é o PIA? A quem
ele deve atender? O adolescente é de fato ouvido nesse processo?
Muitas são as questões e impasses que ainda perpassam a prática dos
técnicos da medida de semiliberdade na elaboração do PIA com o adolescente.
Entretanto, muitos avanços também já foram sinalizados, pois este instrumen‑
to abre a possibilidade de colocar os adolescentes como sujeitos da sua história,
tecendo suas escolhas ante a restrição de liberdade.

Recebido em: 21/10/2014  ■   Aprovado em: 10/3/2015

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356 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 341-356, abr./jun. 2015
Consultoria social nas empresas:
entre a inovação e a precarização silenciosa do Serviço Social
Social consultancy in business: between innovation
and silent precariousness in Social Work

Márcia Regina Botão Gomes*

Resumo: Este texto baseia-se em resultados parciais da dissertação


de mestrado elaborada em 2010 na UFRJ e também da tese de douto‑
rado, em fase de elaboração na UERJ. Em continuidade as nossas
pesquisas iniciadas na primeira década do século XXI, priorizamos
quatro objetivos: identificar até que ponto a inserção nas consultorias
reatualiza a herança conservadora no Serviço Social; desvendar os
impactos desses processos de precarização do trabalho profissional;
verificar se o exercício da consultoria obstaculiza a autonomia relativa
dos assistentes sociais e identificar se, no conjunto das ações profis‑
sionais, há possibilidades para um exercício crítico da profissão.
Palavras-chave: Consultoria. Empresa. Serviço Social.

Abstract: This text is based on partial results of the dissertation prepared in 2010 at UFRJ and also
the doctoral thesis in preparation at UERJ. Continuing our research began in the first decade of this
century, we prioritize four objectives: to identify the extent to which the inclusion in consulting renews
the conservative heritage in Social Work; unraveling the impacts of precarious professional work
processes; verify that the exercise of consulting hinders the relative autonomy of social workers and
identify whether, in all professional actions, there are possibilities for a critical exercise of the profession.
Keywords: Consultancy. Company. Social Work.

* Mestre em Serviço Social pela UFRJ, Rio de Janeiro (RJ), Brasil. E-mail: mrbotao@yahoo.com.br.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015 357
http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.027
Introdução

E
ste texto se propõe a uma reflexão sobre as configurações das con‑
sultorias de Serviço Social em empresas. Para abordar este assunto,
partimos do pressuposto de que o Serviço Social, de um modo geral,
vem sofrendo mudanças na sua forma de atuação profissional, de‑
correntes das crises do capital, responsáveis por desencadear um conjunto de
novas estratégias de estruturação, vínculos e demandas de trabalho. Nessas
mudanças é instaurado o processo de reestruturação produtiva de corte neoli‑
beral, que modificam as formas de gestão e consumo da força de trabalho, a
proteção social dos trabalhadores, as perspectivas ideológicas e culturais, entre
outros aspectos que alteram a dinâmica da sociedade.
A profissão de assistente social, inserida nesse contexto de transformações
societárias e empresariais, sofre impactos de diversas formas, seja nos vínculos
e condições para sua atuação, seja na elaboração de propostas, tendo como uma
das consequências possíveis a ampliação das dificuldades para o seu exercício.
Essas questões condicionam a qualidade dos serviços prestados, bem como a
efetivação dos avanços adquiridos pela categoria profissional, expressos no
projeto ético-político e hegemônico, sobretudo no âmbito dos órgãos de forma‑
ção e representação profissional.
Nesse contexto de reestruturação neoliberal, as pequenas empresas presta‑
doras de serviços sociais, conhecidas no mercado de trabalho como “consultorias”,
apresentam crescimento. Em nossas pesquisas de mestrado e também de douto‑
rado, temos priorizado duas modalidades de consultoria predominantes nas
empresas. As “consultorias” especializadas em Serviço Social e as especializadas
em Programas de Assistência ao Empregado, conhecidos no Brasil com PAE.1
Empresas de diferentes ramos de atuação têm contratado assistentes sociais
com a função de “consultor”, com formas de atuação profissional que com‑
preendem limites e algumas possibilidades. Diante desses fatos, uma das ques‑
tões centrais propostas nesta reflexão é a seguinte: existem reais possibilidades

1. Ao utilizarmos os termos “consultor” e “consultoria” entre aspas, supomos tratar-se de um processo


contrário ao sentido original dessas expressões, obscurecendo o processo de subcontratação, “terceirização”,
“quarteirização”, nelas embutidos, tornado assim distorcido o sentido original das consultorias.

358 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015
de uma intervenção crítica do Serviço Social nesses espaços com funções sócio‑
-ocupacionais mais restritos? Essa questão, entre outras, é decorrente de nossas
análises sobre as configurações das denominadas “consultorias” de Serviço
Social na área empresarial, realizada na pesquisa que originou a dissertação de
mestrado com o título As condições de trabalho, propostas profissionais e de-
safios para o Serviço Social nas empresas de consultoria, concluída em 2010.
Após termos identificado o predomínio de propostas conservadoras e
neoconservadoras nas “consultorias” empresariais, observamos que este espaço
sócio-ocupacional é constituído de diversidades. Portanto, homogeneizá-lo
significa desprezar as contradições existentes. É preciso aprofundar esse estudo,
problematizando esse tema, para melhor apropriação de seus fundamentos na
dinâmica da realidade, conforme sugere o método de Marx. Com esse objetivo,
é fundamental conhecer os caminhos que a profissão vem trilhando e identificar
se eles apontam para a consolidação do projeto ético-político profissional pela
categoria ou se estão contribuindo para afastá-lo desse projeto, diante das con‑
dições de trabalho e dos aspectos políticos culturais que permeiam o espaço
sócio-ocupacional nas empresas, sobretudo na forma de “consultoria”.
Ao buscarmos uma análise teórica crítica, consideramos a crise capitalis‑
ta ocorrida a partir da década de 1970 nos países desenvolvidos e seus desdo‑
bramentos nos anos 2000, assim como as estratégias de superação de tais crises
utilizadas pelo capital e suas conexões com as particularidades do Serviço
Social nas empresas.
Sendo assim, a discussão que vem sendo travada sobre o Serviço Social
no quadro das transformações societárias nos fornece elementos de análise
essenciais para compreender o estágio atual da profissão e seus desdobramentos
na particularidade empresarial. Pesquisadores mostram a necessidade de maior
entendimento sobre o mundo contemporâneo, seus reflexos na profissão, desa‑
fios e necessidade de definir prioridades profissionais, que incluem a manuten‑
ção de postos de trabalho, mas não se resume a essa necessidade, conforme
alerta Netto (1996).
O desenvolvimento deste artigo é organizado em três momentos principais.
O primeiro aborda a crise contemporânea do capital, suas contradições e con‑
sequências para o Serviço Social. O segundo apresenta uma síntese de algumas

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015 359
interpretações do conceito de consultoria, objetivos e configurações nas empre‑
sas. Por fim, apresenta algumas tendências para o Serviço Social nas empresas.

1. A crise contemporânea do capital, suas contradições e consequências


para o Serviço Social
Há uma tendência, um tanto frequente, de se referir à temática da crise do
capitalismo e seus reflexos sob o véu da naturalização dos fatos ou como uma
questão administrativa governamental. O escamoteamento da realidade tem sido
uma prática comum nos meios de comunicação e de outros veículos com capa‑
cidade de influência político-ideológica, quando o tema é a crise capitalista.
Muitas vezes, tal prática se torna imperceptível pelo conjunto da sociedade
devido ao envolvimento dos sujeitos sociais com a lógica da ordem burguesa
vigente. Trata-se do chamado “senso comum”, que não é asséptico, mas orien‑
tado por um projeto político específico, que é o de dominação burguesa. É
imersa nessa racionalidade que a profissão do Serviço Social, assim como as
demais, se encontra.
Desde o período pós-Segunda Guerra Mundial até a década de 1970, o
padrão tecnológico fordista-keynesiano representava as condições necessárias
para a manutenção da acumulação, com alguns ganhos para os trabalhadores
com relação às responsabilidades estatais nas áreas sociais e nas políticas de
pleno emprego nos países desenvolvidos, mas não se manteve intacto, devido
aos limites e contradições2 do modo de produção capitalista. Mesmo quando
ocorrem melhorias das condições de trabalho, no marco do capitalismo, as
formas de subordinação do trabalho não são eliminadas, porque o caráter do
trabalho nessa sociedade é de ser essencialmente mercadoria e, como tal, fonte
de estranhamento e subordinação do trabalhador. O enfraquecimento do padrão
fordista keynesiano, de fato, apresenta-se como uma “expressão fenomênica”
da crise do capital em âmbito internacional, não sendo a causa da crise em si.

2. Mandel (1990) com base em Marx, desenvolve uma reflexão sobre as contradições capitalistas que
originam crises cíclicas no capitalismo. Netto e Braz (2007), seguindo esses autores, esclarecem que apesar
das crises, o capitalismo se mantém fortalecido, pois, para superá-lo é necessário um projeto societário.

360 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015
A necessidade capitalista de reorganizar a gestão e o consumo da força de tra‑
balho, assim como de reconfigurar o Estado reduzindo os seus investimentos
sociais, tem por base o padrão produtivo toyotista. Este supõe uma produção
flexível capaz de ampliar os meios de exploração das classes trabalhadoras com
novos mecanismos de extração de mais-valia. As mudanças ocorridas na orga‑
nização do trabalho, fundamentadas nesse padrão, foram decorrentes de um
conjunto de ações que configuraram a reestruturação produtiva. Esse conjunto
ultrapassa o espaço fabril, sendo disseminado em diversos setores da sociedade,
incluindo o de serviços.
Ao criticar o processo de reestruturação do capital, seguindo as análises
de Mészáros, Antunes (1999) aponta dois elementos fundamentais do debate
sobre o processo de acumulação flexível. O primeiro refere-se à lógica da “qua‑
lidade total”, que possui um caráter falacioso, padronizando determinados as‑
pectos, investindo na aparência das mercadorias, mas reduzindo o tempo de
vida dos produtos, tornando-os obsoletos mais rapidamente, aumentando a
rotatividade da circulação do capital, favorecendo o seu processo de valorização,
além dos impactos ambientais causados por essa qualidade semidescartável.
O segundo elemento refere-se à liofilização das organizações e do trabalho
na fábrica toyotizada, que pressupõe uma empresa mais “enxuta” e flexível, tan‑
to do ponto de vista da organização do trabalho, como das formas de contratação
diversificadas, compondo um conjunto heterogêneo de trabalhadores terceirizados,
contratados por serviços específicos, pontuais e muitas vezes sem vínculo formal
de trabalho. Nesses processos estão presentes elementos de continuidade e de
ruptura, tornando o padrão de acumulação flexível, assim denominado por Harvey
(1992), relativamente diferente do fordismo keynesiano.
Na abordagem da realidade brasileira, Antunes (2006) afirma que, a partir
da década de 1990, o Brasil vivenciou uma grande onda de desregulamentação
do trabalho, atendendo aos pressupostos do Consenso de Washington, havendo
também um processo de territorialização e desterritorialização da produção. O
país não ficou alheio às mudanças estruturais, apesar do seu traço sócio-histó‑
rico, de ser um país com formação capitalista tardia, incompleta.
Segundo o autor citado, os primeiros impulsos para a reestruturação pro‑
dutiva no Brasil foram iniciados com métodos participativos e de qualidade

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015 361
total, produção baseada no team work, ou seja, trabalhos organizados em equi‑
pes com a presença da microeletrônica. Destaca como principais determinantes
a necessidade de as empresas brasileiras se prepararem para a fase de compe‑
titividade internacional e de responderem ao sindicalismo. O modo de acumu‑
lação flexível disseminado no Brasil também originou diversas formas de
precarização do trabalho, derivando daí outras perdas que envolvem a vida
humana. Em pesquisa feita por Druck (2013), observa-se que apesar de a pre‑
carização do trabalho não ser uma característica nova em nosso país, ocorreram
retrocessos dos direitos sociais dos trabalhadores, como, por exemplo, os direi‑
tos incorporados na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). A autora iden‑
tifica a continuidade de mudanças que geram regressões em vários âmbitos, e
comparando o período atual à década de 1990, destaca:

Seu caráter, abrangente, generalizado e central: 1) atinge tanto as regiões mais


desenvolvidas do país (por exemplo São Paulo) quanto as regiões mais tradicio‑
nalmente marcadas pela precariedade; 2) está presente tanto nos setores mais
dinâmicos e modernos do país (indústria de ponta) quanto nas formas mais tradi‑
cionais de trabalho informal (trabalho por conta própria, autônomo etc.); 3)
atinge tanto os trabalhadores mais qualificados quanto os menos qualificados.
(Druck, 2013, p. 61)

No início do século XXI continuam e se aprofundam as formas de preca‑


rização do trabalho no Brasil resultantes dos impactos da crise do capital e
consequentemente dos processos de reestruturação produtiva no Brasil nas
décadas anteriores. Tais transformações impactaram também os aspectos cul‑
turais e as formas de organização política. Para compreensão do momento
atual, os resgates dos acontecimentos da década de 1990 fornecem elementos
explicativos.
Sobre o aspecto cultural, a análise desenvolvida por Mota (1995) é impor‑
tante, sobretudo para a compreensão dos mecanismos utilizados pelos capita‑
listas para manter-se na condição de classe dominante no país. As estratégias
internacionais foram preferencialmente de natureza cultural e política, objeti‑
vando um mínimo de conflito possível, negando inclusive a sua existência.
Segundo Mota (1995), a ideia de que o enfrentamento da crise deve ser um

362 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015
esforço de todos, sustenta, portanto, as bases do discurso de colaboração indi‑
ferenciado. Com isso, um projeto de classe anticapitalista torna-se mais distan‑
te, e a inserção do Brasil na economia internacional mantém-se de forma su‑
bordinada e vulnerável aos acontecimentos econômicos nos países líderes. A
crise de 2008 é um exemplo dessa relação subordinada, que teve como resul‑
tante um declínio nas taxas de emprego brasileiras.3
Dessa forma, permanecem os traços estruturais do modo de produção
capitalista: o desemprego, a precarização do trabalho de diversas formas e (des)
proteção social ou proteção mínima. Nas décadas iniciais do século XXI, o que
se pode observar no Brasil são aprofundamentos da crise do capital desde 2008-
2009, com “soluções” capitalistas que têm buscado acessar os recursos e direi‑
tos dos trabalhadores. Sobre o lugar do setor e fundo público, por exemplo,
Behring (2010) identifica uma redefinição de suas funções “no contexto dos
ajustes contrarreformistas e que implicaram o crescimento do seu lugar estru‑
tural no processo in flux de produção e reprodução das relações sociais” (Behring,
2010, p. 26).
Ao mesmo tempo, as redefinições do trabalho, do papel do Estado e de
todo o conjunto ideocultural influenciam também na organização dos movimen‑
tos sociais. Muitos deles passaram a propor alianças de classes amparadas na
ideologia da solidariedade, ocorrendo também a proliferação de organizações
não governamentais (ONGs), ocasionando o que Harvey (2008), ao analisar o
neoliberalismo em vários países, denominou de tendência à onguização como
fenômeno mundial. Esse movimento, em princípio, promove iniciativas consi‑
deradas “autônomas”, com funcionamento por fora do governo. Mas, na reali‑
dade, a pesquisa de Montaño (2002) sobre o chamado “terceiro setor”, ­conceito

3. “[...] após a crise desencadeada em outubro de 2008, notamos a vulnerabilidade do emprego no


Brasil e a dificuldade para superar os altos níveis de desemprego, decorrentes das formas de inserção do país
na globalização. Entre outubro de 2008 e março de 2009, ou seja, em apenas seis meses, os desocupados
cresceram 19%, passando de 1.743.000 para 2.082, igualando-se ao mesmo percentual de recuperação do
desemprego em cinco anos, quando caiu de um total de 2.082.000 desocupados em 2003 para 2.100.000
em 2007 (PME/IBGE, 2008). A taxa de desocupação aumentou de 7,5% em outubro de 2008 para 9% em
março de 2009. O setor industrial (extrativo, de transformação e outros) atingiu, em abril de 2009, 5,9% de
desocupação, voltando ao patamar de 2003, ano em que a desocupação atingiu as mais altas taxas de toda
década de 2000” (Druck, 2013, p. 64).

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que inclui várias instituições, entre elas as ONGs, indica existir uma autonomia
restrita e dependente de recursos financeiros e materiais de instituições públicas
e privadas.
Por sua vez, o referido padrão de enfrentamento da questão social tem
apresentado uma estratégia de redução dos investimentos nas políticas sociais
universais por parte do Estado, que passa a atuar minimamente em políticas
focalizadas na extrema pobreza, transferindo uma parcela de suas responsabi‑
lidades a setores privados institucionais e até mesmo a iniciativas individuais.
O “terceiro setor”, também imbuído de uma cultura política com orientação
neoliberal, se conforma como um conceito que omite a real situação das diver‑
sas formas de proteção social brasileira.
Outro recurso utilizado pelo capital para a desqualificação dos serviços
prestados pelo Estado e disseminação da ideologia privatista são os chamados
programas de responsabilidade social empresarial. Estes são considerados pelas
empresas uma liberalidade por se tratar de ações “espontâneas”, não previstas
em lei.4 As relações sociais nas empresas indicam contradições, o que nos leva
a entender que as mediações captadas e utilizadas pelo Serviço Social se dão
num universo complexo. Portanto, as condições reais, as opções teórico-meto‑
dológicas e ético-políticas dos agentes em questão são fundamentais no exer‑
cício profissional.
Sobre a relação entre a empresa e a sociedade capitalista, Mota (1995)
aponta que a “vontade corporativa” tem por base, sobretudo, o fracasso das
experiências coletivistas do socialismo real e uma ilusória democratização do
capital, não mais no espaço público, como ocorria no Welfare State, mas no
âmbito das corporações capitalistas. Nesse sentido, o programa de privatização
é mais que a transferência de atividades e recursos dos setores públicos para os
setores privados. É a constituição de determinado sujeito político, o cidadão
consumidor. Com um Estado mínimo no sentido da redução dos recursos pú‑
blicos para políticas de interesse coletivo e a redução de postos de trabalho
formais há um favorecimento do que Antunes (2013) chama de nova ­morfologia

4. Uma interpretação crítica, que considera a dimensão cultural da crise especificamente nesses progra‑
mas, encontra-se em Cesar (2008).

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do trabalho que passa a compreender os mais diversos modos de ser da infor‑
malidade, ampliando o universo do trabalho invisibilizado, tal como identifica‑
mos nas consultorias sociais externas. Esse processo potencializa a economia
com os gastos do trabalho e cria novos caminhos para a geração de valor,
mesmo que a sua aparência seja de não valor ou até mesmo de autonomia.
Nesse sentido, os assistentes sociais terceirizados, com vínculo ou sem vínculo
de trabalho nas chamadas consultorias, são expressão dessa nova morfologia,
ainda que sejam profissionais qualificados. Pois os diversos formatos de preca‑
rização têm afetado os trabalhadores de vários segmentos, entre outras formas,
pela apropriação por parte do capital das consultorias, configurando uma forma
distorcida que oculta os processos de terceirização e quarteirização.

2. Consultorias: interpretações, objetivos e configurações nas empresas


O debate sobre a atuação do Serviço Social na forma de consultoria é ne‑
cessário a profissão, pois é um tema de estudo complexo, não muito trabalhado
pela categoria, embora existam publicações importantes elaboradas recentemen‑
te. Entre estas, a de Matos (2006), segundo o qual a produção bibliográfica do
Serviço Social sobre assessoria é parca e marcada por diferentes concepções
teóricas e políticas, e, apesar de não se tratar de um tema totalmente novo, a
produção teórica no Serviço Social se adensou na década de 1990 devido ao
amadurecimento do atual projeto de profissão conhecido como ético-político.
Nesse sentido, há um avanço na profissão, que deve ser valorizado, ainda
que não seja uma realidade apropriada por toda a categoria profissional e que
o cenário sócio-histórico aponte para uma direção oposta a essas conquistas. As
referências utilizadas para interpretação dos conceitos e análises das consulto‑
rias em nossas pesquisas são de Vasconcelos (1998), Bravo e Matos (2006),
Matos (2009) e Freire (2006), autores vinculados à perspectiva marxista, orien‑
tados pelos princípios do projeto ético-político da profissão. Sobre os termos
consultoria e assessoria, apesar das semelhanças, não são idênticos cabendo
apresentar resumidamente a interpretação de Vasconcelos (1998), segundo a
qual consultoria e assessoria são processos imbricados, mas possuem pequenas
diferenças. De acordo com a autora:

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015 365
Nos processos de consultoria, um assistente social ou uma equipe geralmente
procura um expert para que dê o parecer sobre caminhos que a equipe escolheu
e/ou encaminhamentos que está realizando por exemplo: indicar bibliografia sobre
temas específicos; dar o parecer sobre projetos de pesquisa e/ou avaliar encami‑
nhamento de levantamentos e pesquisas em andamento; indicar ou realizar cursos
sobre temas específicos da área de atuação profissional etc. Este processo ou
surge de uma solicitação da própria equipe, ou por indicação, por exemplo, do
professor da disciplina de estágio supervisionado, de um conferencista ou de um
outro assistente social etc. [...] Os processos de assessoria são também solicitados
tanto por uma equipe como por indicação externa, mas neles nos deparamos com
uma realidade diferente. As assessorias são solicitadas ou indicadas, na maioria
das vezes, com o objetivo de possibilitar a articulação e a preparação de uma
equipe para a construção de seu projeto de prática por meio de um expert que
venha assisti-la teórica e tecnicamente. (Vasconcelos, 1998, p. 128-129)

Matos (2006) concorda com Vasconcelos (1998) sobre a existência de


diferenças entre os processos de consultoria e assessoria. Para o autor, o ato de
prestar consultoria está relacionado à ação de fornecer conselhos, pareceres
sobre sua especialidade e o de assessorar está relacionado a um auxílio ou uma
ajuda a outros profissionais.
Os autores citados entendem que a consultoria consiste em uma prestação
de serviço mais pontual e que a equipe que contrata possui um conhecimento
prévio sobre o assunto. No caso da assessoria, o processo desenvolvido é mais
complexo e, consequentemente, tende a ser mais demorado. Matos (2006) es‑
clarece também o aspecto que se refere à vinculação teórico-metodológica, pois
as consultorias podem ter objetivos variados e até mesmo contraditórios. Esta
reflexão é importante para que não seja feita uma análise parcial dessa forma
de intervenção profissional.
O que propõe Matos (2006) é a adesão pelo fortalecimento do projeto
ético-político do Serviço Social a partir da criação de um espaço de interlocução
profissional e aperfeiçoamento contínuo que objetivem a garantia de direitos.
Nesse sentido, não há espaço para a neutralidade. Ao contrário, a utilização da
consultoria ou assessoria tem por finalidade contribuir para um exercício pro‑
fissional mais qualificado no sentido de luta por direitos das classes trabalha‑

366 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015
doras ou de incentivo à busca desses direitos por parte dos trabalhadores. É
evidente, entretanto, a existência de interesses contraditórios que perpassam a
demanda de consultoria e de assessoria ao Serviço Social. Contudo, a sua im‑
portância para a profissão está na possibilidade de esse espaço se concretizar
como um potencial contribuinte na efetivação do atual projeto hegemônico de
profissão da categoria, tornando a inclusão do debate deste tema relevante para
a profissão.
Durante as nossas pesquisas, optamos pela utilização do termo consultoria
em sua análise nas empresas, por se tratar de prestação de serviços predomi‑
nantemente pontuais, o que será mantido neste artigo. Este termo também é
utilizado pelas empresas, embora a pesquisa tenha nos revelado, na operacio‑
nalidade da função, um mix de prestação de serviços, onde são incluídas práti‑
cas de terceirização e de quarteirização do Serviço Social com e sem vínculo
empregatício, dependendo da “consultoria” pesquisada.
O Serviço Social pode vincular-se profissionalmente em várias instituições
para o desenvolvimento de atividades de consultoria, e sua prestação de ser‑
viços pode ser variada de acordo com a instituição e seus usuários. Em prin‑
cípio, não há restrição entre os profissionais de Serviço Social para o desen‑
volvimento dessas atividades, podendo ser prestadas por profissionais
vinculados às universidades, centro de pesquisas e a setores públicos e priva‑
dos, ONGs, entre outros espaços sócio-ocupacionais. Porém, é fundamental
que o profissional seja qualificado e comprometido técnica e teoricamente,
conforme Matos (2006). Faz-se necessário precisar melhor o que se entende
como qualificação profissional, sobretudo pela expansão dos cursos de gradua‑
ção e pós-graduação, principalmente, mas não exclusivamente, nas universi‑
dades particulares brasileiras, nas quais o ensino tornou-se mercadoria, inci‑
dindo na formação de um perfil profissional mais técnico, no sentido
instrumental do termo, e menos crítico.
Nesse conjunto diverso estão incluídas as consultorias empresariais exter‑
nas que pesquisamos. São organizadas como pessoas jurídicas prestadoras de
serviços a outras empresas. Em geral são de pequeno porte e caracterizadas
como empresas familiares, mas também vinculadas a grupos internacionais com
estruturas e organizações mais complexas.

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015 367
Sobre as consultorias empresariais, Freire (2006) menciona algumas pos‑
sibilidades para o assistente social assessor/consultor considerando os limites
institucionais existentes. A autora faz referência às consultorias que prestam
serviços não só para dirigentes e profissionais, mas também aos usuários do
Serviço Social e apresenta três modalidades de consultoria, indagando:

Por que se assessoram apenas os dominantes (gestores, dirigentes, gerentes) e os


pares apenas se ‘orienta’ e educa? Não estaria camuflada, nessa diferença, um
preconceito, uma admissão a priori de incapacidade, de minoridade, de inferio‑
ridade e, consequentemente, de necessidade de tutela? (Freire, 2006, p. 184).

A autora utiliza o termo assessoria para todos os sujeitos atendidos pelo


Serviço Social. Nessa primeira modalidade está se referindo à competência que
o assistente social possui de prestar assessoria, mas ao lidar com atendimentos
a pessoas que não são os dirigentes das empresas, os termos empregados são
outros.
A segunda modalidade a que Freire se refere é a expansão da assessoria e
consultoria internas, demandadas principalmente, a partir da década de 1990,
por empresas de grande porte, com objetivo segundo a autora, neoconservador,
mas com possibilidades de adotar outros rumos devido ao caráter contraditório.
Ela aponta para a importância de reconhecer as contradições presentes nesses
espaços nos quais os assistentes sociais são contratados com um objetivo, mas
ao exercer sua profissão pode identificar a viabilidade para a realização de
outros objetivos mais condizentes com o projeto ético-político da profissão.

Portanto, nessa segunda modalidade, existem as demandas de assessoria: a geren‑


tes isoladamente, a trabalhadores isoladamente, ou ao conjunto de gerentes ou
representantes da empresa e trabalhadores, como na Cipa. Podem ocorrer também
demandas temporárias, na introdução de novos projetos e em reestruturações, com
grandes pesquisas, para obter adesão de trabalhadores ou um controle diferencia‑
do (muitas vezes, apenas na aparência de que existe um controle social de fato).
Este espaço na área do trabalho é sempre um espaço contraditório — passível de
conflitos de interesses e também de consensos, onde o profissional que coordena
o trabalho tem uma relativa autonomia, limitada e muitas vezes pequena, que

368 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015
poderá ser utilizada no sentido de favorecer mais os trabalhadores ou somente os
empresários, em dependência do seu saber teórico-metodológico, de suas habili‑
dades técnico operacionais e de sua postura ético-política [...]. (Freire, 2006, p.187)

A segunda modalidade apresenta-se como uma variável que tem se am‑


pliado — a assessoria a comunidades vizinhas às empresas, os programas de
“responsabilidade social” —, que tem se constituído como um espaço diferen‑
te do enfoque trabalhado na década de 1960 que, em geral, valorizava mais a
participação comunitária. Nesse caso, as contradições também se mantêm,
porque atendem determinados interesses das comunidades e favorecem a ima‑
gem da empresa.
Sobre a terceira modalidade de assessoria e consultoria, Freire (2006)
sugere a atuação em órgãos de participação e representação dos trabalhadores,
como sindicatos, conselhos e também a gestores de programas públicos com o
objetivo de incentivar a participação dos trabalhadores organizados no contro‑
le social democrático. Um exemplo citado pela autora são os conselhos de
política e de direitos.

Em uma terceira modalidade, por atingirem dimensão societária, também pode


ser incluída a assessoria a conjuntos de sindicatos e de gestores, demanda por
programas públicos com controle social por trabalhadores organizados. Um
exemplo que vem sendo cada vez mais analisado é o que integra esses traba‑
lhadores em conselhos de política e de direitos. Alguns desses conselhos par‑
ticipam ainda de ações de vigilância sobre condições de trabalho que afetam a
saúde do trabalhador, conforme o Conselho Estadual de Saúde do Trabalhador
do Rio de Janeiro (Consest-RJ), analisado em Freire (1998, p. 74 e 78-86).
(Freire, 2006, p. 189)

No conjunto de autores apresentados neste trabalho, foram priorizados os


que realizam um debate vinculado à perspectiva teórico-metodológica marxis‑
ta. Existem outros autores vinculados a projetos societários distintos e opostos
a essa perspectiva. Entre eles situamos Block (2001), Crocco e Guttmann (2005),
que defendem a utilização dos processos de consultoria para efetivar mudanças
organizacionais na estrutura das empresas em diversos aspectos, entre os quais

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015 369
os culturais e os tecnológicos, favorecendo o conjunto de ações reestruturado‑
ras que priorizam o aumento da lucratividade. Essas análises que sobrepõem a
lucratividade aos demais objetivos apresentam algumas definições e classifica‑
ções a respeito das modalidades de consultorias existentes nas empresas, que
podem ser utilizadas por nós para uma organização didática, como a ideia do
consultor interno e externo à empresa, especializado ou generalista. Porém o
que está em questão são suas perspectivas políticas. O problema fundamental
não está nas classificações apresentadas pelos autores e nem pela interpretação
mais ampla do conceito, que possui poucas variações. O que de fato faz a dife‑
rença são os objetivos institucionais e profissionais da utilização da modalida‑
de “consultoria”.
Com base nas análises do conjunto de autores apresentados, entendemos
que a consultoria é uma habilidade presente em várias profissões e o Serviço
Social é uma das capacitadas a exercer essa função. Pressupõe um compromis‑
so de estudo e atualização profissional constantes, podendo ser utilizadas para
a melhoria de um projeto institucional existente ou para a criação de novos,
privilegiando a participação dos grupos de trabalhadores. Contudo, se essa
participação não for garantida devido aos limites institucionais, devemos prio‑
rizar e indicar propostas profissionais que sejam transformadas em conquistas
para as classes trabalhadoras, mesmo com a ausência direta do grupo de traba‑
lhadores. As consultorias podem ser prestadas aos gerentes das empresas, aos
assistentes sociais, aos profissionais de mesmo nível hierárquico com outras
formações, que tenham interesse na troca de conhecimentos, assim como a
outros grupos de trabalhadores. Contudo, não se propõe a substituir as tarefas
de outros profissionais contratados. Quando ocorre a contratação de um assis‑
tente social para a realização de atividades contínuas por prazo indeterminado,
é um processo de terceirização do serviço e não de consultoria.
Matos (2009) contribui para o esclarecimento de possíveis dúvidas sobre
o que significa consultoria, apresentando uma síntese com algumas expressões
e práticas que podem confundir a interpretação do termo com consequências
na execução das atividades profissionais. Com base em Vieira, afirma que as‑
sessoria não é sinônimo de supervisão, porque segundo a autora, supervisão
teria poder de “mando”, quando na relação entre assessor e assessorado supõem‑
-se uma liberdade maior. O termo também não deve se confundir com nenhuma

370 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015
atividade extensionista. Apesar de a universidade ser um espaço privilegiado
para o exercício de assessorias, outras atividades como cursos externos não são
a mesma coisa. Mas, antes de tudo, assessoria não deve se confundir com um
trabalho precário ou temporário. Essa observação é fundamental para a reflexão
proposta, pois as relações de trabalho na área empresarial têm assumido carac‑
terísticas de externalização, informalização e precarização das condições de
trabalho e dos serviços prestados sob a justificativa de “consultoria”.
Pensar sobre essas interpretações de consultoria e criar proposições efeti‑
vas é uma tarefa indispensável aos assistentes sociais que trabalham com con‑
sultorias e assessorias, mas também para aqueles que pretendem ser orientados
por um consultor ou assessor com vistas a uma qualificação do projeto profis‑
sional. Os profissionais que buscam esses serviços devem refletir sobre os cri‑
térios para a escolha de um consultor. Não é suficiente ter um título de pós‑
-graduação e alguns anos de experiência profissional. É preciso saber suas
competências teórico-metodológicas, ético-políticas e técnico-operativas e
identificar se o consultor possui conhecimento aprofundado sobre a profissão
do Serviço Social e conhecimentos específicos sobre a área de atuação deman‑
dante, com capacidade de desenvolver e apresentar suas propostas de forma
democrática, considerando e valorizando o conhecimento de quem o contratou.
Dessa forma será possível estabelecer um processo de troca de conhecimentos
com chances de melhorias dos projetos profissionais no interior das instituições,
com base na realidade, considerando os limites e possibilidades institucionais.
Reduzir as consultorias a um conjunto de atividades rotineiras ou pontuais
desempenhadas por profissionais terceirizados significa uma distorção do
sentido original das consultorias, que é de oferecer um serviço qualificado e
diferenciado daqueles desempenhados no cotidiano profissional. Algumas
“consultorias” defendem a ideia de que a sua função é o exercício de serviços
que o Serviço Social não pode desempenhar e que o consultor seria um “braço”
do profissional interno ou uma extensão de suas funções, por isso suas propos‑
tas profissionais são complementares. Então questionamos: Quais seriam essas
tarefas? Por que o Serviço Social não pode desempenhá-las? A empresa for‑
nece condições para esse exercício? Ou o assistente social não deseja desem‑
penhar essa função por alguma causa? Qual seria essa causa? Essas questões
importantes precisam ser problematizadas para que as justificativas para a

Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015 371
contratação dos consultores seja uma real demanda dessa função, e não apenas
uma forma naturalizada de substituição de assistentes sociais contratados por
outros de vínculo e condições de trabalhos precários, para trabalhos excessivos
ou não desejados.
O conjunto que compõe o universo das “consultorias” é heterogêneo, é
composto por pessoa física autônoma, pessoa jurídica que trabalha individual‑
mente, pequenas empresas e empresas de grande porte vinculadas a grupos
internacionais. Para efeito de nossas análises, consideramos duas modalidades
de consultorias externas: as especialistas em Serviço Social e as especialistas
em Programas de Assistência ao Empregado (PAE), na qual o Serviço Social
se insere como uma das modalidades dos atendimentos prestados aos trabalha‑
dores. Em ambos os casos, o assistente social presta serviço para uma empresa
formalizada, considerada pessoa jurídica, mas o profissional pode se vincular
de diversas formas, com ou sem carteira de trabalho assinada.
Na primeira modalidade, o Serviço Social é uma das “especialidades de
atendimento” no conjunto de opções oferecidas. Os Programas de Assistência
ao Empregado são organizados por módulos de atendimentos focais, realizados
por especialistas em diversas áreas do conhecimento, contratados pela consul‑
toria. Neles as empresas que compram esses serviços escolhem quais modali‑
dades irão compor o seu programa. O termo “focal” ou breve se refere ao
atendimento direcionado a determinado “problema” em questão. No caso do
PAE, refere-se também ao tempo utilizado nos atendimentos, uma vez que o
serviço limita o número de atendimentos por questão a ser solucionada. Nessa
modalidade o trabalhador não dispõe de tempo indeterminado para o atendi‑
mento de suas necessidades, o que conduz às seguintes perguntas. Como são
encaminhados os casos de atendimento a pacientes com patologias crônicas? A
saúde será tratada em fragmentos? O alcoolismo seria desconectado das condi‑
ções de trabalho? Os acidentes seriam focalizados na conduta do trabalhador
descontextualizada? Essas são algumas das questões fundamentais para pensar
esse trabalho, mas não se encerram nelas. Nessas abordagens há determinada
aproximação com o Serviço Social de orientação clínica, com questões que
parecem girar em torno do próprio indivíduo e de seu núcleo familiar, sem
articulação com o universo do trabalho. Nessa modalidade de consultoria, que
inclui o Serviço Social nos Programas de Assistência ao Empregado (PAE),

372 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015
há um risco de retorno, por parte de alguns assistentes sociais, às práticas in‑
fluenciadas pelo modelo de assistência norte-americano com orientação funcio‑
nalista, porém, adaptadas pelas novas demandas do mercado de trabalho no
século XXI.
A segunda modalidade que são as consultorias externas especializadas em
Serviço Social, presta serviços relacionados às habilidades e funções da profis‑
são Serviço Social e não inclui outras áreas profissionais, exceto a psicologia e
o direito residualmente. Seus programas e projetos são elaborados conforme a
demanda das empresas, mas não são predefinidos totalmente, apresentando
maior flexibilidade em comparação à modalidade anterior. Incluem formas
tradicionais de terceirização e também modos mais flexíveis e informais de
trabalho, contratados por serviços. Nessas consultorias não há nenhum vínculo
institucional internacional que determine diretrizes das ações profissionais, sua
forma de atuação não é focal e nem limitada a determinado número de atendi‑
mentos, como ocorre com a consultoria mencionada anteriormente.
Contudo, essas modalidades não são tipos puros. Em alguns casos elas se
encontram e entrecruzam, compondo um mosaico de serviços para serem com‑
petitivas e atenderem às demandas do mercado. Na segunda década dos anos
2000 ocorreram fusões, aquisições, parcerias institucionais, tanto para a com‑
posição dos serviços oferecidos como para a sua comercialização, incluindo
empresas de seguros importantes no mercado, que passam a divulgar e vender
esses serviços como faz tradicionalmente com os planos de saúde, tíquete-ali‑
mentação etc. Então, as consultorias de Programas de Apoio ao Empregado se
articulam com algumas especialistas em Serviço Social para compor o seu
“produto”, apontando para uma tendência de precarização aguda do trabalho
do Serviço Social, que se amplia constante e silenciosamente desde a década
de 1990. Apesar de sua aparente inovação e criatividade, seus processos são
parte e expressão da realidade social mais ampla.
Não é possível afirmar que as “consultorias” nas empresas apresentam
somente perdas profissionais, assim como não significam apenas ganhos. Há
uma hierarquização das condições de trabalho e diferenças significativas nas
propostas de atuação profissional, dificuldades e desafios múltiplos, que se acir‑
ram conforme a complexificação dos processos de informalização das relações

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de trabalho. Suas configurações são distintas, organizam-se a partir de motiva‑
ções diferentes, com perspectivas teórico-metodológicas, condições e propostas
de trabalho também heterogêneas. A aparente inovação das consultorias está
presente nos discursos de profissionais entrevistados por Botão Gomes (2010),
independentemente da modalidade de consultoria. O caráter dinâmico do exer‑
cício profissional, a ênfase na questão ética entendida como mero sinônimo de
sigilo dos atendimentos e a supervalorização de diferentes formas de mensura‑
ção dos resultados dos serviços prestados são aspectos comuns nos relatos
feitos durante a pesquisa.5
As atividades profissionais são consideradas dinâmicas, diversificadas,
criativas, segundo os assistentes sociais “consultores”, que prestam serviços a
empresas de vários ramos de atuação. Por isso essa experiência de trabalho tem
sido considerado por alguns uma oportunidade de ampliar conhecimentos pro‑
fissionais. Porém esses conhecimentos importantes, adquiridos na experiência
empírica, situam-se sobretudo no nível técnico-operacional das atribuições
demandadas aos assistentes sociais consultores por seus contratantes.
A análise superficial da realidade tem se revelado como um facilitador da
assimilação da “cultura do envolvimento” e da lógica competitiva nesses espa‑
ços sócio-ocupacionais. Os laços fortalecidos nessas frágeis relações de traba‑
lho, decorrentes dos processos de reestruturação produtiva, supõem, entre outras
coisas, a flexibilidade dos contratos de trabalho, dispensando, muitas vezes,
garantias e direitos contratuais. Nesses casos, os compromissos entre capital e
trabalho têm sido mantidos por um “pacto moral” em que os assistentes sociais
foram considerados os mais “parceiros” pelas consultorias pesquisadas, com‑
parados aos demais profissionais.
Dentre outras ponderações não conclusivas destacamos a questão ética,
que tem sido valorizada pelos consultores, focada na valorização do sigilo
profissional no atendimento ao trabalhador. Contudo, ela foi tratada como algo
quase exclusivo de quem presta serviço externamente, quando é de uma obri‑
gação profissional prevista em código de ética, não sendo exclusividade dos

5. Na pesquisa de mestrado, além do estudo bibliográfico e pesquisas em sites oficiais de empresas de


consultoria, foram entrevistados cinco profissionais de empresas distintas: uma especialista em Programas
de Apoio ao Empregado, uma contratante desse serviço e três especialistas em Serviço Social.

374 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015
profissionais externos às empresas. Esse argumento frequente nos discursos dos
consultores, e materiais institucionais têm sido apresentados como uma vanta‑
gem para o trabalhador e como sinônimo de segurança e confiança.6
É positivo e necessário que os assistentes sociais que trabalhem em “con‑
sultorias” estejam preocupados com o sigilo profissional, mas isso não deve se
confundir com a garantia maior do sigilo com relação aos assistentes sociais
“internos”. O fato de ser um profissional externo às empresas poderia causar
essa impressão aos trabalhadores ou ser utilizado como vantagem. Contudo, o
sigilo profissional é previsto no Código de Ética dos assistentes sociais inde‑
pendentemente do local de trabalho, e isso deve ser esclarecido aos usuários do
serviço, e não ser reproduzido de forma diferente pelos assistentes sociais.
Outro equívoco que se relaciona ao argumento do sigilo é a ilusão de que exis‑
te uma neutralidade profissional por parte dos profissionais das consultorias
externas, reforçando a ideia de que o fato de não pertencerem aos quadros
profissionais das empresas os tornam mais isentos, com maior possibilidade de
contribuição para os trabalhadores.
Os resultados dos serviços prestados por essas consultorias têm sido de‑
monstrados, sempre que possível, de forma quantitativa, por meio de recursos
tecnológicos, sistemas de informática capazes de apresentar às empresas con‑
tratantes o número de atendimentos feitos mensal, semestral e anualmente. Além
disso, as consultorias recorrem a outros mecanismos para comprovar os resul‑
tados de seus trabalhos, como, por exemplo, a elaboração de registros fotográ‑
ficos e relatórios. Essas ferramentas de quantificação entregues aos gerentes são
formas de materialização dos resultados dos serviços prestados.

6. Sobre essa questão, o capítulo V do Código de Ética Profissional em vigor é claro para toda catego‑
ria profissional: Artigo 15. Constitui direito do/a assistente social manter o sigilo profissional. Artigo 16. O
sigilo protegerá o/a usuário/a em tudo aquilo de que o/a assistente social tome conhecimento, como decor‑
rência do exercício da atividade profissional. Parágrafo único: Em trabalho multidisciplinar poderão ser
prestadas informações dentro dos limites do estritamente necessário. Artigo 17. É vedado ao/à assistente
social revelar sigilo profissional. Artigo 18. A quebra do sigilo só é admissível quando se tratarem de situações
cuja gravidade possa, envolvendo ou não fato delituoso, trazer prejuízo aos interesses do/a usuário/a, de
terceiros/as e da coletividade. Parágrafo único: A revelação será feita dentro do estritamente necessário, quer
em relação ao assunto revelado, quer ao grau e número de pessoas que dele devam tomar conhecimento.

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O Serviço Social “interno” também pode recorrer — e muitas vezes re‑
corre — à tecnologia para o registro e o aprimoramento de suas atividades.
Atualmente, diversas formas de tecnologia são utilizadas pelos assistentes sociais
na área de empresas. Sistemas de atendimento, recursos visuais de comunicação
institucional interna e externa são ferramentas frequentes e quase indispensáveis
às empresas, podendo ser um aliado do trabalho ou apenas um instrumento de
controle. Os recursos tecnológicos, quando utilizados adequadamente, podem
dar visibilidade ao trabalho do Serviço Social, não sendo totalmente negativos
à profissão, mas a qualidade do exercício profissional não pode ser resumida a
códigos numéricos ou ao volume de serviços prestados. Os resultados devem
estar na efetividade dos atendimentos prestados, dos programas elaborados, e
devem ser mecanismos de ampliação de direitos, e não somente de controle
empresarial.
Em síntese, destacamos três grupos de características valorizadas por
profissionais que atuam em “consultorias”: 1) autonomia, dinamicidade, ino‑
vação e criatividade, 2) ética entendida como sinônimo de sigilo profissional e
suposta neutralidade, 3) capacidade de quantificação dos serviços prestados.
Essas aparentes inovações das “consultorias”, entre outros aspectos, têm reve‑
lado nas empresas o oposto dos seus reais objetivos, tornando-se obscurecedo‑
res da precarização silenciosa do trabalho do assistente social via trabalho
terceirizado e por vezes informal com status de um trabalho moderno.
Por outro lado, as exigências feitas aos profissionais para os resultados
dos trabalhos nas duas modalidades de consultoria têm sido semelhantes in‑
dependentemente da relação contratual, boa qualificação profissional, priori‑
zando a contratação de trabalhadores com experiência, especialização, agili‑
dade e compromisso, ainda que sejam com prioridade técnica-operacional.
Essas exigências coincidem com as análises de Druck (2013) sobre a preca‑
rização do trabalho nas primeiras décadas do século XXI. Elas que não se
concentram mais exclusivamente nos trabalhos considerados desqualificados,
sem exigência de formação acadêmica, mas se ampliam para profissionais
também graduados, sendo o Serviço Social integrante desse conjunto, expres‑
são particular de uma categoria profissional que se conecta a uma realidade
mais ampla.

376 Serv. Soc. Soc., São Paulo, n. 122, p. 357-380, abr./jun. 2015
3. Considerações finais
Diante do exposto, destacaremos três tendências para o Serviço Social nas
empresas, não exclusivas: 1) A ampliação do Serviço Social externo; 2) O au‑
mento da informalidade do contrato de trabalho com possíveis reduções salariais
e incerteza da contratação dos serviços, que se confunde com um aumento da
autonomia profissional, mas na realidade constitui na dependência para a ob‑
tenção de novos contratos; 3) A mercantilização da assistência ao trabalhador,
tornando esse direito uma mercadoria regida por uma lógica securitária e de
benefício social opcional para o empresariado.
A ampliação do Serviço Social externo remete inevitavelmente às condições
de trabalho do Serviço Social. Nesses espaços com aparente autonomia profis‑
sional e relações de “parceria” envolvem muitos elementos. Este texto aponta‑
mos três: 1) o tipo de contrato profissional estabelecido entre consultores e
empresas; 2) formas de remuneração; 3) possibilidades institucionais, como
acesso às gerências e diretorias para negociação de programas e projetos con‑
siderando a relativa autonomia para o exercício profissional.
Quando o prestador de serviços trabalha totalmente externo à empresa,
desempenha suas funções longe do conjunto dos demais trabalhadores e também
das gerências das organizações reduzindo suas possibilidades de elaboração de
propostas profissionais, programas e projetos novos. Essas relações, que parecem
claras para uma análise baseada em pressupostos críticos marxistas que supõem
as relações de trabalho da sociedade capitalista subordinada e desumanizada,
no cotidiano profissional não são tão visíveis pela maioria dos profissionais de
Serviço Social que desempenham esses serviços. Apenas uma profissional in‑
serida numa empresa especializada em Programas de Apoio ao Empregado,
entrevistada em 2014, durante nossa pesquisa de campo para a tese de douto‑
rado, apresentou uma visão crítica sobre esse trabalho, reconhecendo os limites
institucionais, a importância do serviço prestado para os trabalhadores atendidos,
mas destacou sua preocupação com o futuro do Serviço Social nas empresas,
pois observou no cotidiano profissional a substituição de assistentes sociais
contratados pela consultoria onde trabalhava. Apesar de ter uma experiência de
trabalho com carteira assinada e com oportunidades de qualificar um pouco

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mais as suas tarefas, tinha consciência dos problemas existentes nesse formato
de trabalho.
As análises da racionalidade das estruturas da rede de atendimentos, das
propostas profissionais das consultorias e das formas de remuneração indicam
relações de antagonismos no lugar de “parcerias”. Isto especialmente quando
os trabalhadores se tornam prestadores de serviço externos e não são mais su‑
bordinados de forma tradicional com jornada de trabalho e local fixo para o
desenvolvimento de suas funções profissionais. Esse entendimento equivocado,
porém dependente de aprovação das demandas para novos trabalhos, vem
ocorrendo apoiado, entre outros argumentos políticos e ideológicos, no discur‑
so do empreendedorismo, aparentando uma liberdade profissional.
O Serviço Social com atendimentos fragmentados e individualizados não
depende de estruturas físicas complexas para o exercício profissional, mas
apenas de algumas tecnologias, como computador, telefone, um espaço físico
pequeno, com mesas e cadeiras, além dos materiais de escritório. Muitas vezes
esses consultores realizam tarefas em seus domicílios e se disponibilizam 24
horas para o atendimento por telefone. Essa estrutura austera para um atendi‑
mento austero — e em alguns casos — breve segue uma orientação liberal da
assistência ao trabalhador, que no lugar da conquista de um direito passa a ter
um “benefício” cedido pelo empregador aos trabalhadores.

Recebido em: 29/1/2015  ■  Aprovado em: 16/3/2015

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RESENHA

Jean Ziegler e a hemisfério sul são os perdedores. Exemplo


gritante são as mais de 500 mil mulheres que

geopolítica da fome morrem anualmente ao realizarem o parto, a


maioria pela falta prolongada de alimentos
durante a gravidez. As sobreviventes não têm
Jean Ziegler and hunger geopolitics como alimentar seus filhos, nem condições
para comprar alimentos que substituam o
Katia Hale* 7
leite materno.
A contagem de famélicos realizada
pela FAO/ONU apresenta falhas, segundo
Destruição em massa — geopolítica da estudiosos citados pelo autor. Bernard
fome é o mais novo livro de Jean Ziegler lan‑ Maire e Francis Delpeuch são dois dos
çado no Brasil, traduzido e prefaciado pelo autores que apresentam críticas pertinentes
professor José Paulo Netto. Embasado em quanto ao modelo de cálculo utilizado pela
experiências durante seu trabalho na relatoria FAO/ONU. As estatísticas determinam os
do direito à alimentação da ONU entre 2000
déficits em termos de calorias (proteínas,
e 2008, como sua atuação no Conselho de
glicídios e lipídios), ou seja, os alimentos
Direitos Humanos da mesma instituição, o
que fornecem energia, não considerando a
autor discorre sobre a geopolítica da fome e
deficiência da população no que se refere
a devastação causada pelo fenômeno. Con‑
aos micronutrientes (carência de vitaminas,
tumaz estudioso, pesquisador e militante no
minerais e oligoelementos). Nessa direção,
combate à fome, nos traz à lembrança Josué
afirma o autor, de Destruição em massa —
de Castro, intelectual e militante brasileiro
geopolítica da fome: “a ausência de iodo,
cujo pensamento é resgatado na obra em
ferro, vitaminas A e C, entre outros, são
questão. No livro, dividido em seis partes, o
indispensáveis à saúde e sua ausência gera
autor analisa, denuncia e sugere alternativas
cegueira, mutilações e a morte de milhões
para a destruição em massa pela fome.
de pessoas”. Outra crítica que procede em
Na primeira parte, o pensador suíço relação ao método é a confiabilidade dos
descreve a extensão da destruição em massa
dados fornecidos pelos Estados nacionais,
pela fome, culminando na subalimentação
já que incontáveis países do hemisfério sul
de homens, mulheres e crianças em todo o
não dispõem de método científico adequado
mundo. Na geopolítica da fome, os países do
para a contagem da população, sendo que
as vítimas da fome, em sua maioria, lá se
* Assistente social, professora no curso de encontram. Acrescentamos que os dados ofi‑
Serviço Social das Faculdades Metropolitanas Uni‑ ciais de países que possuem caminhos para
das (FMU), mestre em Serviço Social pelo programa
verificar a realidade são questionáveis, já
de ensino pós-graduado em Serviço Social na PUC‑
-SP, São Paulo (SP), Brasil, doutoranda no mesmo que o aferimento de dados verdadeiros a res‑
programa. E-mail: katiahale@gmail.com. peito dessa realidade compromete governos,

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http://dx.doi.org/10.1590/0101-6628.028
eleições e o repasse de verba por organismos que qualquer medida seja tomada. Esses
internacionais. A ideologia tecnocrata do trabalhadores estão, de forma planejada,
Estado burguês transforma a realidade em invisíveis aos olhos do Estado e das elites
quantidade, não fazendo análises qualita‑ nacionais. Exemplifica o autor com o número
tivas, nem as mediações necessárias para de mortos na Guatemala em 2005: 4.793 as‑
compreensão da realidade. Dessa forma, sassinatos. Tanto na América Central quanto
dependendo do momento e dos interesses na América do Sul, na Índia, no Paquistão
de cada Estado, os números oscilam para e em Bangladesh, a luta para se manter
mais ou para menos. Em relação ao número num pedaço de chão ou para saciar a fome
de famintos fica a questão: quantos são os é motivo de chacinas e torturas: “A dor do
que sofrem com a fome subalimentar e a má vazio no estômago é calada com um tiro à
alimentação (fome de micronutrientes) em queima-roupa”.
todo o mundo? Na geopolítica da fome, o hemisfério sul
A maioria dos seres humanos que não foi o mais prejudicado na sequência da crise
têm o suficiente para comer, segundo o autor, econômica de 2008. Falências, fechamento
localiza-se nas comunidades rurais pobres de fábricas e ondas de desemprego. Menores
dos países do hemisfério sul. É histórica investimentos em políticas sociais e injeção
a condição de miséria e fome dos campo‑ de recursos para “socorrer banqueiros de‑
neses e, atualmente, eles correspondem a linquentes”, na apropriada expressão usada
aproximadamente 500 milhões vivendo em por Ziegler. Em 2009, o Banco Mundial
condição de extrema pobreza. A miséria anunciou: o número de pessoas vivendo na
de agricultores, criadores e pescadores se extrema pobreza aumentaria em mais 89
apresenta por três razões: frequentemente milhões, e a quantidade de pobres cresceria
são trabalhadores migrantes arrendatários, em mais 120 milhões.
superexplorados pelos proprietários, ou O despertar das consciências é o tema da
ainda, a dimensão e a qualidade da terra são segunda parte da obra. Nela é demonstrada
insuficientes para alimentar a sua família. a fome como fatalidade sob a errônea visão
Para superar o problema, o Banco Mundial de Malthus, um mal necessário propalado
sugere a reforma agrária assistida, ou seja, o em 1798 e que ainda se mantém. Resgata o
latifundiário abre mão de parte de suas terras, pensamento de Josué de Castro, afirmando
mas o trabalhador rural deve comprar a sua que fora quebrado, logo após a Segunda
parcela com o financiamento do referido Guerra Mundial, o tabu da fome. Fez-se
banco, proposta que se constitui numa “piada ouvir o grito dos famintos na luta do médico
de mau gosto”. pernambucano, declara. Lançando mão da
A violência é endêmica em alguns geografia humana, Castro localiza a fome
países. Não bastasse a destruição pela fome como problema provocado pelo homem,
do homem do campo, na tentativa de lutar não existindo obstáculos “naturais” para
por um pedaço de terra, ele é morto sem se acabar com ela. O progresso desejado

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n­ aquele período da história dependeria so‑ transcontinentais argumentarem que a fome
mente da intervenção planejada do Estado e é uma tragédia cuja responsabilidade é da
da cooperação dos “homens de boa vontade”. produtividade insuficiente da agricultura
As análises de Castro encontram eco na mundial. O discurso se dirige a incrementar
Europa devastada do pós-guerra, no entanto, a produtividade por meio da industrialização
a ONU e, posteriormente, a FAO, fundadas levada ao limite, afirma o autor, com inves‑
no período, não apresentaram os resultados timento de capital e de novas tecnologias, o
esperados. Atualmente, denuncia o autor, que equivale inserir as sementes transgênicas
mais de 40% dos homens, mulheres e crian‑ na produção, assim como os pesticidas, eli‑
ças do Recife vivem nas sórdidas favelas que minando a “improdutiva” agricultura fami‑
margeiam o Capibaribe. Mais de 1 milhão liar e de víveres e seguindo a liberalização o
de pessoas moram ali, sem fossas sépticas, mais completa possível do mercado mundial.
esgotos, água corrente e eletricidade. “O Nesse sentido, afirma que “há mais de duas
homem caranguejo continua sobrevivendo.” décadas as privatizações, a liberalização
Na terceira parte da obra, o sociólogo em dos movimentos das mercadorias, serviços,
tela denuncia os grupos econômicos do setor capitais e patentes, avançaram assombrosa‑
agrícola. As duzentas maiores empresas que mente”. Os Estados pobres do Sul perderam
controlam cerca de um quarto da produção sua soberania, as fronteiras desapareceram
mundial com lucros astronômicos dominam e as políticas públicas foram privatizadas.
não apenas a formação dos preços e o comér‑ Eis o neoliberalismo orquestrado pela OMC,
cio de alimentos, mas os setores essenciais pelo FMI e pelo Banco Mundial, com total
da agroindústria, quais sejam: sementes, apoio dos Estados. Resultado: desemprego,
adubos, pesticidas, estocagem, transportes aumento das vítimas da subalimentação e
etc. Entre as dez sociedades que controlam da fome.
um terço do mercado de sementes estão a A ruína do Programa de Alimentação
Aventis, a Monsanto, a Pioneer e a Syngenta, Mundial (PAM) e a impotência da FAO é
setores que movimentam aproximadamente assunto da quarta parte do livro. O PAM
23 bilhões de dólares por ano e 80% do tem como missão levar ajuda humanitária de
mercado mundial de pesticidas, gerando um urgência, e em 2010 contava com 90 milhões
volume estimado em 28 bilhões de dólares. de famintos em sua lista. Os Estados Uni‑
A Cargill está entre as dez sociedades que dos forneciam aproximadamente 60% das
controlam o mercado varejista em todo o contribuições do PAM, porém, as doações
mundo, 57% das vendas e 37% das receitas em espécie reduziram-se quase 80% “em
das cem maiores sociedades fabricantes de função da produção em larguíssima escala
produtos alimentícios e de bebidas. Somente de agrocarburantes, atividade sustentada por
seis empresas detêm 77% do mercado de bilhões de dólares de subsídios públicos”.
adubos: Bayer, Syngenta, Basf, Cargill, Aponta nessa observação o ciclo perverso e
DuPont e Monsanto. É comum as sociedades contraditório do qual depende a missão do

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PAM para sua realização. Inegável a neces‑ o presidente da Nestlé quem diz: “Com os
sidade do trabalho desenvolvido pelo PAM, biocarburantes, jogamos na pobreza mais
mas observa-se que o programa alimenta extrema centenas de milhares de seres
seres humanos vivendo em países ou regiões humanos”. Os mais poderosos produtores
que sofreram catástrofes que poderiam ser de biocarburantes do mundo são de origem
evitadas. Ziegler dirige críticas a FAO/ONU, norte-americana.
mas defende sua importância e a forma como É dedicada atenção à maldição da
operava quando fundada. Certo é que as cana-de-açúcar, tomando como exemplo o
ambiciosas atribuições da FAO nunca foram Brasil, não sem motivos. No papel de rela‑
levadas a cabo. Se as sociedades transnacio‑ tor especial sobre o direito à alimentação,
nais privadas se posicionam contra a FAO Ziegler combateu o Proálcool e, na ocasião,
hoje, também no passado o capitalismo o então ministro Vannuchi e o presidente
monopolista não permitiu que a instituição Lula usaram argumentos de que a cana não
cumprisse seu papel. No discurso de despe‑ era comestível e que, ao contrário dos Es‑
dida da FAO, Josué de Castro, desiludido tados Unidos, os brasileiros não queimam
com o que se poderia chamar de “indústria milho e trigo. Hipocrisia. A implementação
da fome”, denunciou o complô dos países do Proálcool tem transformado a geografia
mais ricos contra os mais pobres e confessou agrária, a começar pela concentração de ter‑
a sua decepção frente à inoperância daquele ras. Publicação da Rede Social de Justiça e
organismo. Direitos Humanos de março/2012 revela que
O autor discorre sobre os abutres do 45% do etanol produzido em escala mundial
“ouro verde” na quinta parte do livro, afir‑ sai do Brasil. Das 435 usinas instaladas no
mando ser falso o argumento das sociedades país, a corporação Raízen, formada a partir
transcontinentais, produtoras de agrocarbu‑ da fusão Cosan-Shell, é a maior produtora
rante, de que a energia vegetal seria a arma de etanol e uma das cinco maiores empresas
milagrosa contra a degradação do clima. Ele que aqui operam. As empresas têm acesso
nos alerta: se cerca de 500 milhões de hecta‑ privilegiado a créditos e diversas formas de
res de terras aráveis africanas têm seu solo subsídios estatais. A insegurança alimentar
degradado, se a destruição do ecossistema na qual vive grande parte da população
e a degradação da zona agrícola em todo o brasileira, afirma o autor, tem como respon‑
mundo arrastam os emigrantes do meio am- sável o Proálcool. O autor conclui afirmando
biente para as favelas das grandes metrópo‑ que as práticas da escravidão persistem e
les, os produtores de agrocarburantes são os que as crianças subalimentadas do Vale do
responsáveis. Tal produção demanda água, Capibaribe e os desdentados cortadores de
causando ainda maiores prejuízos aos que cana não têm qualquer chance de vencer o
sofriam com falta de água potável, energia poderoso bioetanol. A violenta recolonização
e a utilização de pesticidas, que contaminam se estende a países da Ásia, América Latina
rios e matam crianças em todo o mundo. É e África, e para a aquisição de terras, os

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monopólios contam com financiamento de voltada para o mercado imobiliário rural, e
bancos públicos. seu objetivo é adquirir imóveis potencial‑
Os especuladores e a forma como ope‑ mente valorizáveis. Eles compram terras e,
ram é o tema da sexta e última parte do livro. posteriormente, arrendam ou utilizam para
É recente a migração dos especuladores que própria produção, operando, dessa forma,
operavam no mercado financeiro para o grande especulação e aumento no preço da
mercado de matérias-primas, especialmente propriedade. Controlam grandes áreas agri‑
o agroalimentar, que inclui a especulação do cultáveis, haja vista seu modelo de produção.
preço dos alimentos e da terra arável. No Além da cana-de-açúcar, controlam proprie‑
jogo do aumento dos preços dos alimentos, dades destinadas ao cultivo de soja, milho e
o arroz, o milho e o trigo, alimentos de eucalipto. A consequência social última é a
base, milhares de pessoas são atiradas na miséria e a fome. “Especulando a terra, espe‑
fome, como ocorrido em 2008, durante a culam com a morte.” O autor destaca ainda
crise econômica. A exploração dos preços o Banco Mundial como um dos cúmplices
em 2011 também colocou na situação de dessa tragédia: “O Banco Mundial, de fato,
fome 44 milhões de crianças, mulheres e financia o roubo de terras aráveis na África,
homens. Não haveria crise alimentar sem na Ásia e na América Latina”. E acrescenta:
especulação, declara Olivier Shutter, suces‑ “[...] tem o peso do Evangelho no Conselho
sor de Ziegler no cargo de relator especial de Direitos do Homem das Nações Unidas”.
das Nações Unidas sobre a alimentação. A análise realizada pelo autor para
Marc Roche, citado pelo autor, associa o a destruição em massa pela fome revela
combate contra a especulação e a luta contra inúmeros e verdadeiros determinantes, mas
os paraísos fiscais. O autor denuncia a Suíça, a porta de saída para sua superação não se
apontando que 27% de todos os patrimônios encontra nos instrumentos da democracia
offshore do mundo são geridos naquele país. política, não se encontra na vontade política
Os especuladores, após a crise alimentar do Estado, como quer crer o autor. Infeliz‑
de 2008 e 2011, avançaram em direção à mente, o discurso que se generalizou após
compra de terras, fazendo crescer de modo a queda do Muro de Berlim e o fracasso da
acelerado tais investimentos. O autor revela experiência soviética — entendido como
indicadores de açambarcamento de terras a impossibilidade do socialismo real e da
no hemisfério sul do globo, evidenciando o inviabilidade prática do comunismo — ca‑
continente africano, que, em 2010, vendeu minha na mesma esteira. É comum, inclusive
ou arrendou 41 milhões de hectares de terras entre grupos de esquerda, a defesa de injetar
aráveis com o envolvimento, para tanto, dos democracia no capitalismo e de compatibi‑
bancos e fundos de investimentos suíços. Tais lizar a teoria de Marx à defesa dos direitos
investidores têm como parceiro a Cosan, men‑ humanos, acreditando que serão garantidos
cionada anteriormente. Uma das subsidiárias pelo Estado. Tanto assim, que qualquer
da Cosan, Radar Propriedades Agrícolas, está crítica aos direitos humanos soa como uma

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heresia totalitária. Dessa forma solucionam deve fazer parte da biblioteca contemporânea
um falso problema, que só nasceria da dos estudos sociais sobre o fenômeno da
desconsideração do sentido específico da fome no Brasil e no mundo.
critica de Marx da política, em geral e dos
direitos humanos em particular. O direito,
em Marx, não possui uma história própria, Recebido em: 8/9/2014
não se fundamenta em uma vontade livre. Ao

contrário, está enraizado nas relações mate‑
riais de produção, mais especificamente nas
Aprovado em: 9/3/2015
relações de propriedade privada dos meios
de produção. Esse nos parece ser o limite da
crítica social: o Estado perdeu seu caráter de
Referências bibliográficas
classe, e o problema central do capitalismo
deixa de ser ele próprio e suas contradições,
voltando-se para o problema das grandes ZIEGLER, Jean. Destruição em massa:
corporações e de sua apropriação do espaço geopolítica da fome. São Paulo: Cortez,
político dos centros de decisão, como que, 2013.
se exterminadas, avançaríamos rumo a um XAVIER, Carlos V.; PITTA, Fábio T.; MEN‑
capitalismo humanizado, o que por si só é DONÇA, Maria Luisa. Monopólio da pro-
uma contradição. dução de Etanol no Brasil: a fusão Cosan‑
Entendemos, dessa forma, que o texto de Shell. Publicação da Rede Social de Justiça
Jean Ziegler é uma obra de referência para as e Direitos Humanos. São Paulo: Outras
ciências sociais e áreas afins e, certamente, Expressões, 2012.

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