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CADEIRA DE DIREITO ADMINISTRATIVO – DIREITO – 2º ANO - 2018

Direito Administrativo
Aula 1 e 2
Data: 20.02.2018

Introdução

Para falarmos do Direito Administrativo, é imprescindível, a priori, falar da Administração


Pública.

Administrar é tomar decisões e efectuar operações ou actividades com vista a satisfação das
necessidades de uma colectividade ou de um individuo. Assim, a Administração pode ser Privada
ou Pública.

Cabe-nos neste fórum falar da Administração Pública que constitui o prato base do nosso curso.

1. Administração Pública
i. Conceito
O conceito da Administração Pública é nos apresentado em 2 sentidos:
- Sentido Material ou Objectivo: conjunto de actividades da função pública tendentes a satisfação
imediata dos interesses da colectividade (segurança, cultura e bem-estar).
- Sentido Orgânico ou Subjectivo: conjunto complexo de órgãos que exercem aquelas
actividades (actividades tendentes a satisfação das necessidades colectivas).

Em suma, a Administração Pública é o conjunto complexo de actividades e organismos


tendentes a efectuar operações com vista a satisfação das necessidades de uma colectividade
(segurança, cultura e bem-estar).

ii. A Administração Pública e a Administração Privada


Suas diferenças:
- Quanto ao objecto de incidência:
A Administração Publica cuida das necessidades colectivas assumidas como tarefas e
responsabilidades da colectividade.

A Administração Privada, diferentemente da Administração Pública, trata de necessidades


individuais desde que não atinjam a generalidade de uma sociedade política.

Contudo, vezes há em que estamos face a uma aparência aparente entre necessidades colectivas e
particulares. É o que acontece entre o empresário, proprietário de uma padaria e a comunidade.

- Quanto ao fim que se prossegue:


Administração Pública prossegue o interesse público como único fim.
A Administração Privada prossegue fins pessoais ou particulares que são de várias espécies,
nomeadamente:
a) fim lucrativo
b) fim político
c) fim humanitário

Há casos de coincidência de utilidades das formas sociais da actividade pública e as formas de


actividades privadas. Porém, a coincidência não retira nem altera o fim essencial da actividade.

- Quanto aos meios empregados:


Para a satisfação do interesse da colectividade a Administração Pública utiliza o seu “jus
imperii”- poder de autoridade. vg.: Para garantir a segurança na via pública, a Administração
Pública estabeleceu regras segundo as quais, face ao sinal vermelho do semáforo, o
automobilista deve parar; isto é uma obrigação, o seu não cumprimento implica uma sanção.

Diferentemente da Administração Pública, na Administração Privada os meios caracterizam-se


pela igualdade entre as partes. Aqui vigora o contrato ou simplesmente acordo entre as partes.

Há situações em que, a Administração tem de, necessariamente, celebrar contratos


administrativos por via de acordos bilaterais,. Mas o processo característico da administração
pública é em especial o comando unilateral, quer nos actos normativos quer sob forma de
decisões concretas.

iii. A Administração Pública e as Funções do Estado


Suas diferenças:
 Função Política e a Administração Pública
A política, enquanto actividade pública do Estado, tem um fim específico, o de definir o interesse
geral da colectividade. E a Administração Pública visa, por sua vez, prosseguir o interesse geral
definido pela função política.

 A Função Legislativa e a Administração Pública


A função legislativa do Estado visa estabelecer limites de actuação da Administração Pública
através de leis por si criadas. Isto é, a Administração Pública ao prosseguir ou executar os
interesses da colectividade definidos pela política, não o faz a seu belo prazer, mas sim, em
obediência à Lei. Está aqui subjacente o princípio da legalidade.

 A Administração Pública e a Justiça


Tanto a Administração como a Justiça, são funções secundárias, executivas e subordinam-se à
lei. Porém, a Justiça visa acautelar a observância da lei na prossecução do interesse colectivo.

FIM
CADEIRA DE DIREITO ADMINISTRATIVO – DIREITO – 2º ANO - 2018

Direito Administrativo
Aula 3 e 4
Data: 23.02.2018

Sumário: Sistemas Administrativos

A palavra sistema dá-nos a entender, a priori, um conjunto de órgãos devidamente organizados e


que funcionam para o alcance do fim comum.
E então, o que será um sistema administrativo?

O sistema administrativo não deixa de ser um conjunto de órgãos juridicamente organizados e


que funcionam para a prossecução do interesse da colectividade. Esta organização e
funcionamento não é a mesma em todas épocas e em todos os países, daí que se fala em
Sistemas Administrativos.

Assim, temos o Sistema Tradicional que vigorou até o séc. XVII e os Sistemas Modernos que
vigoraram a partir do Séc. XVIII, nomeadamente o Sistema Britânico ou de Administração
Judiciária e o Sistema Francês ou de Administração Executiva (AMARAL, 1996).

i. Sistema Administrativo Tradicional


Este sistema administrativo foi usado pela Monarquia Tradicional, onde o Rei era
simultaneamente o supremo administrador, supremo juiz e, caracteriza-se por:
a) Indiferença entre as funções administrativa e jurisdicional e consequentemente
inexistência de uma separação rigorosa entre o poder executivo e judicial.

b) Não subordinação da Administração Pública ao princípio da legalidade o que põe em


causa as garantias jurídicas dos particulares face à administração.

Embora o rei concentrasse em si todos os poderes, judicial e administrativo, existiam normas de


carácter jurídico que vinculavam a administração pública.

Porém, tratava-se de regras avulsas que não constituíam um sistema e podiam ser afastadas por
razões de conveniência administrativa ou de utilidade política. O soberano podia a seu bel-
prazer, dispensar a quem quisesse dos deveres gerais de imposto ou atribuir direitos especiais a
determinadas pessoas ou entidades conferindo-lhes privilégios (AMARAL, 1996). O que quer
dizer que não havia Estado de Direito.

Este cenário foi alterado nos finais do séc. XVII com a grande revolução inglesa e princípios do
séc. XVIII com a Revolução Francesa. Com estas revoluções, consagrou-se a separação de
poderes e nasceu o Estado de Direito onde se proclamaram os direitos do homem como direitos
naturais anteriores e superiores ao Estado ou do poder político.
Estamos aqui face aos Sistemas Administrativos Modernos baseados na separação de poderes e
no Estado de Direito.

ii. Sistema Administrativo Britânico ou de Administração Judiciária

Para falarmos deste sistema há que termos em conta determinados aspectos fundamentais: o
costume como fonte de direito; a função primacial dos tribunais na definição do direito vigente;
vinculação às regras do precedente; independência dos juízes e forte prestígio do poder judicial.

São características deste sistema:


a) Separação de poderes: o Rei já não concentrava em si todos os poderes, foi impedido de
resolver questões de natureza contenciosa, e proibido de dar ordens aos juízes.

b) Estado de Direito: os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos foram consagrados no


Bill of Right. O Rei passou a subordinar-se ao Direito Consuetudinário resultante das
sentenças dos tribunais; o Bill of Rights determinou que o direito comum seria aplicável a
todos os ingleses.

c) Descentralização: autonomia das autarquias locais face a uma intervenção central.

d) Sujeição da administração aos tribunais comuns: havendo litígio entre a administração


e os particulares, este não tem um tribunal especial é dirimido nos tribunais comuns.

e) Subordinação da Administração ao direito comum: O direito aplicável à


Administração Pública é o mesmo aplicável às pessoas particulares.

f) Execução judicial das decisões administrativas: as decisões da Administração Pública


não são executórias sem uma prévia intervenção do poder judicial, isto é, a administração
pública não tem meios coactivos para fazer valer as suas decisões, podendo assim o
particular acatar ou não até que o tribunal decida.

g) Garantias jurídicas dos particulares: os particulares dispõem de garantias face aos


abusos e ilegalidades da administração pública, isto é, o particular cujos direitos tenham
sido violados pode recorrer a um tribunal para que se faça ou deixe de fazer alguma
coisa. Os tribunais comuns gozam de plena jurisdição face à Administração Pública
(idem, AMARAL, 1996).

iii. Sistema administrativo do tipo francês


Caracteriza-se pela:
a) Separação de Poderes: com a declaração de 1789 foi consagrado o princípio da
separação de poderes, a administração ficou separada da justiça, isto é, poder executivo
por um lado e poder judicial por outro.

b) Estado de Direito: verifica-se uma enunciação solene dos direitos subjectivos públicos
evocados pelo indivíduo contra o Estado.
c) Centralização: para impor as novas ideias e implementar todas as reformas políticas,
económicas e sociais foi centralizado o poder e a administração foi organizada de uma
forma hierárquica.

d) Sujeição da administração aos tribunais administrativo: os tribunais administrativos


criados após a revolução cabe-lhes fiscalizar a legalidade dos actos da administração e
dirimir os conflitos que surgirem durante a sua acção administrativa.

e) Subordinação da administração pública ao direito administrativo: os órgãos e


agentes administrativos não estão na mesma posição que os particulares, exercem funções
de interesse público e utilidade geral, e devem por isso, dispor de poder de autoridade que
lhe permite impor as suas decisões aos particulares, e de privilégios ou de imunidades
pessoais.

f) Privilegio de execução prévia: permite a Administração Pública executar as suas


decisões por autoridade própria, quer dizer, as decisões dos órgãos e agentes da
administração pública são unilaterais com força executória própria e de cumprimento
obrigatório. A administração pode impor as suas decisões pela coação previamente à
qualquer intervenção do poder judicial.

g) Garantias jurídicas dos administrados: por estar acente no Estado de Direito, a


Administração Publica oferece aos particulares um conjunto de garantias jurídicas contra
os abusos e ilegalidades dos seus agentes. Estas garantias são efectivadas pelos tribunais
judiciais.

Quer dizer, havendo um acórdão que anula um acto ilegal, não pode declarar as
consequências dessa anulação, nem proibir de proceder de determinada maneira, nem
condená-la a tomar certa decisão ou a adoptar certo comportamento.

iv. Confronto entre os sistemas administrativos do tipo britânico e frances

 Quanto à organização administrativa - um é descentralizado o outro é centralizado;

 Quanto ao controlo jurisdicional da administração – o primeiro entrega aos tribunais


comuns e só a estes (unidade de jurisdição), o segundo aos tribunais administrativos
e comuns (dualidade de jurisdição);

 Quanto ao direito regulador da administração - primeiro é regulado pelo direito


comum que basicamente é direito comum e o segundo é regulado pelo direito
administrativo;

 Quanto à execução das decisões administrativas: no primeiro as decisões não são


executórias e para tal dependem da Sentença do Tribunal Judicial enquanto que no
segundo as decisões são executórias e dispensam a intervenção prévia de qualquer
tribunal;
 Quanto às garantias jurídicas dos administrados: o primeiro confere aos poderes
comuns poderes de injunção face à administração pública que lhes fica subordinada
como qualquer cidadão, enquanto a francesa, só os tribunais administrativos podem
anular as decisões administrativas, ficando a administração independente do poder
judicial.

FIM