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Responsável pelo Conteúdo:

Profª. Ms. Pascoal Fernando Ferrari

Revisão Textual:
Profª. Essp Vera Lidia de Sa Cicaroni
Pensamento, linguagem e o
desenvolvimento da criança

Nessa unidade, vamos tratar do tema “Pensamento,


linguagem e o desenvolvimento da criança”. A princípio
faremos uma reflexão a respeito do pensamento e da
linguagem humana sob o ponto de vista do desenvolvimento
humano. O desenvolvimento humano será estudado nos
aspectos orgânico e mental.
Também faremos uma reflexão a respeito do desenvolvimento
da criança, sobre o olhar dos pensadores Henry Wallon e
Jean Piaget, com destaque para a teoria dos estágios ou
períodos do desenvolvimento da criança.

Atenção

Para um bom aproveitamento do curso, leia o material teórico atentamente antes de realizar
as atividades. É importante também respeitar os prazos estabelecidos no cronograma.
Contextualização

Para o momento de contextualização, sugerimos que você assista aos vídeos da revista
Nova escola. São três vídeos sobre a linguagem infantil.

Primeiro vídeo: “A conversa com bebês e crianças pequenas”. O vídeo apresenta


observações sobre o modo como os educadores devem conversar com seus alunos. Destaca o
estimulo à comunicação oral.

Você pode acessar o vídeo no seguinte endereço eletrônico:

http://www.youtube.com/watch?v=_UxEqkQwq_M&list=PL361C00903B38C3EA
&feature=plpp_play_all

Segundo vídeo: “As formas de estimular a oralidade”. O vídeo traz sugestões para o
professor trabalhar, na escola, a oralidade e a linguagem da criança.

Você pode acessar o vídeo no seguinte endereço eletrônico:

http://www.youtube.com/watch?v=w9WDRa7OjfY&feature=BFa&list=PL361C00903B38C3
EA

Terceiro vídeo: “O educador e o desenvolvimento da oralidade” O vídeo discute o


papel do educador no desenvolvimento da oralidade da criança.

Você pode acessar o vídeo no seguinte endereço eletrônico:

http://www.youtube.com/watch?v=K4OWtF9SYe4&feature=BFa&list=PL361C00903B38C3
EA

Esperamos que os vídeos tragam boas reflexões sobre o trabalho do professor com
crianças pequenas.
Material Teórico

Caro aluno, nesta unidade trataremos do pensamento e da linguagem, relacionando


esses dois aspectos humanos com o desenvolvimento infantil. Abordaremos a temática sob
uma visão interacionista e com um aporte da psicologia enquanto ciência. Para tanto, apoiar-
nos-emos, principalmente, na obra de Henry Wallon, à qual daremos destaque, e de Jean
Piaget, já visto na unidade I.

Esta opção de fundamentação teórica para o assunto desta unidade baseia-se no fato
de que os dois pensadores entendem o desenvolvimento humano através de períodos ou
estágios. Por intermédio da análise desses estágios, compreenderemos, mais detalhada e
criticamente, o desenvolvimento da criança.

Faremos alguns apontamentos a respeito da temática, analisaremos quais as influências


que o pensamento e a linguagem exercem no desenvolvimento do indivíduo e como
pensamento e linguagem influenciam-se mutuamente em seu próprio desenvolvimento.

Sabemos da importância de desvelarmos os caminhos do pensamento e da linguagem


para melhor entendermos o desenvolvimento humano. Certamente, conhecer o
desenvolvimento humano contribuirá para a melhoria do exercício da profissão de pedagogo,
ou seja, acreditamos que esse conhecimento seja essencial para melhorar a prática educativa
na escola.

A ação educativa, de forma crítica, não pode abrir mão da comunicação nesse
processo, pois é através da comunicação humana que informações são veiculadas e o
conhecimento é construído. Uma ação educativa, para atingir seu fim, ancora-se no processo
de comunicação. O desenvolvimento cognitivo de um educando também se apoia na ação
educativa do professor.

Vamos iniciar nosso estudo, explorando mais profundamente o pensamento humano e,


em seguida, a linguagem humana.

O pensamento humano
O pensamento é um fenômeno exclusivamente humano. Por meio dele, podemos
planejar o futuro, relembrar o passado ou entender o presente. O pensamento permite-nos
antecipar nossas ações, deliberar e agir intencionalmente. É também, por meio do
pensamento, que podemos entrar na dimensão da imaginação e do simbólico.

Sem negar o empirismo, o ato de pensar pode nos levar a construir conhecimentos
conceituais ou científicos. O pensamento, que atua por estágios, por um encadeamento ou
conexão de ideias e formação de juízos, baseia-se em raciocínios que nos conduzem à
determinada conclusão em um processo de construção de conhecimento.
Existem, basicamente, dois tipos de pensamento. O pensamento concreto e o
pensamento abstrato. O pensamento concreto constitui-se por meio da percepção, através
dos órgãos dos sentidos, sendo uma representação de objetos reais que estão no campo de
nossa percepção. Já o pensamento abstrato é fruto de um processo mental de abstração, de
desligamento do real e que só existe enquanto ideia. O pensamento abstrato estabelece
relações entre as coisas; com ele, podemos construir conceitos e noções gerais e abstratas.
Esse tipo de pensamento precisa da mediação da linguagem para ser construído.

A escola, que tem como uma de suas funções contribuir para que a criança trabalhe e
amplie esses tipos de pensamento, por meio de suas ações educativas, deve incentivar a
criança para que se distinga do meio em que vive e, vagarosamente, perceba o que é
imaginação e o que é real, até atingir o conhecimento objetivo.

O ambiente escolar é fundamental para o desenvolvimento do pensamento da criança,


oferecendo a ela desafios constantes. A escola é um ambiente para conhecer, investigar e
dominar o meio. A linguagem facilita todo o processo educacional.

A linguagem humana
Quando abordamos o tema linguagem, alguns aspectos devem ser ressaltados. O
primeiro deles refere-se ao tipo de linguagem, que pode ser verbal ou não-verbal. A
linguagem verbal é aquela que se apropria da palavra, falada ou escrita, para existir, e a não-
verbal é aquela linguagem que se apropria de outros signos para existir, como o desenho, a
imagem, o gesto ou a expressão facial, por exemplo. Um exemplo desta é a linguagem da
criança que ainda não desenvolveu a fala e utiliza a linguagem corporal.

Morin (1975), quando tenta aclarar o processo de hominização dos indivíduos,


identifica, entre outros fatores, a linguagem como elemento fundamental nesse processo, que,
certamente, levou alguns milhões de anos até chegar ao estágio atual. Presume-se que os
Antropóides surgiram há 10 milhões de anos, mas que a linguagem humana surgiu apenas
com o aparecimento do Homo Sapiens, por volta de 100 a 50 mil anos a. C.

Veja como o autor relaciona o tamanho do cérebro humano ao seu desenvolvimento e


ao processo de hominização, que se dá com a influência da linguagem e da cultura:

A carteira de identidade do homem turva-se. Faber? Socius? O australantropo com o


crânio de 6003 e o “Man 1470” com o crânio de 800 cm3 já o são. Resta-lhe a
linguagem, a cultura? Conforme veremos, a linguagem e a cultura devem,
cronologicamente, preceder sapiens e logicamente, condicionar a evolução biológica
final que resulta no seu cérebro de 1.500 cm3. (Morin, 1975, p. 59).
Para o autor, o processo de hominização é complexo, sem que seja possível determinar
uma data para seu início, que pode ser localizado antes, durante e depois do surgimento do
Homo Sapiens. Ele continua seus argumentos sobre o tema, afirmando que, além do tempo,
fatores genéticos e cerebrais, e outros, como a socialização, o ecossistema e a práxis dos
indivíduos - principalmente a caça, por necessitar do grupo, no caso de animais grandes - são
influências recebidas nesse processo de transformação dos indivíduos em homens.

Observe, a seguir, o esquema gráfico que Morin (1975, p. 61) propõe para explicar o
complexo processo de hominização dos indivíduos:

Sistema genético Sistema cerebral

Práxis

Ecossistema Sociedade-cultura

Morin observa a questão do ponto de vista antropológico e considera complexo esse


processo por existirem diversos fatores que influenciam o desenvolvimento humano. Observe,
também, como os fatores influenciam-se mutuamente. A linguagem, certamente está inserida,
no quadro Sociedade-cultura, como fator determinante do desenvolvimento humano.

A linguagem na criança surge por volta dos dois anos de idade e depende da
maturação dos órgãos da fala, da intensidade e quantidade de estímulos que recebe. Devemos
considerar que, no estágio anterior, de nomear objetos e pessoas de seu relacionamento, a
fala da criança ainda está, na dimensão da fala humana, sem articulação entre várias palavras
e incapaz de construir frases.

Outra consideração importante a fazer é que a comunicação independe da linguagem,


acontece desde o ventre materno e intensifica-se a partir do nascimento, com os recursos dos
órgãos dos sentidos: visão, audição, paladar, olfato e tato. A comunicação acontece a partir
da interação entre a criança e seu cuidador ou outros indivíduos do seu meio.
O Desenvolvimento humano

O desenvolvimento, portanto, é uma equilibração progressiva, uma passagem contínua


de um estado de menor equilíbrio para um estado de equilíbrio superior.
(Piaget, 1972).

Piaget (1972) busca explicar o desenvolvimento cognitivo humano através da ideia de


equilíbrio ou equilibração. Nas páginas iniciais de seu trabalho, ele afirma:

Quanto ao desenvolvimento orgânico ou físico:

Da mesma maneira que um corpo está em evolução até atingir um nível relativamente
estável, - caracterizado pela conclusão do crescimento e pela maturidade dos órgãos.
(p.11).

E continua...

A acuidade visual, por exemplo, atinge um máximo no fim da infância, diminuindo em


seguida; muitas comparações perceptivas são também regidas por esta mesma lei. (p.
11 e 12).

Quanto ao desenvolvimento cognitivo ou mental:

É, portanto, em termos de equilíbrio que vamos descrever a evolução da criança e do


adolescente. Deste ponto de vista, o desenvolvimento mental é uma construção
contínua, comparável à edificação de um grande prédio que, à medida que se
acrescenta algo, ficará mais sólido, ou à montagem de um mecanismo delicado, cujas
fases gradativas de ajustamento conduziriam a uma flexibilidade e uma mobilidade das
peças tanto maiores quanto mais estável se tornasse o equilíbrio. (p. 12)

Observamos, nas citações apresentadas, a defesa da ideia de que o ser humano se


desenvolve na construção de estruturas mentais ou orgânicas que buscam o processo de
equilíbrio entre forças. É importante ressaltar que esse desenvolvimento está envolto em duas
dimensões: uma mais flexível e móvel e outra mais sólida.

Logo após o nascimento, a vida mental restringe-se à tentativa de organização


sensório-motora com fundo hereditário e instintivo da própria manutenção do organismo,
como, por exemplo, o comportamento de sucção dos recém-nascidos, a nutrição e o sono.
Em seguida, acontece o desenvolvimento de uma inteligência prática ou sensório-motora,
quando a criança se relaciona com os objetos ao seu redor, pois já domina certos movimentos
corporais em função da maturação neurofisiológica em curso. Por volta dos dois anos, a
linguagem é a grande diferença da fase de desenvolvimento em que a criança se encontra.
Entretanto, em relação ao desenvolvimento mental ou orgânico dos indivíduos,
devemos considerar, ainda, mais dois fatores importantes: a afetividade e as influências
socioculturais que os indivíduos sofrem durante o seu desenvolvimento.

Wallon e o desenvolvimento da criança


Henri Wallon nasceu na França em 1879 e morreu em 1962.
Médico, psicólogo e político francês, tinha o marxismo como
convicção. Participou da Primeira e da Segunda Guerra
Mundial como médico. Wallon foi, também, professor na
Universidade Sorbonne, em Paris. Atuou como médico de
instituições psiquiátricas, demostrando interesse pela psicologia
infantil.

Apesar de seu vínculo com a medicina e com a psicologia, sua


teoria foi apropriada pela área educacional e é fundamento de
inúmeras reflexões e práticas educacionais na atualidade. A visão interacionista da educação
tem como um de seus pilares as contribuições de Wallon.

Wallon entendeu o desenvolvimento infantil em estágios que se estabelecem não de


forma estanque, mas que se complementam sucessivamente, ou seja, o fim de um estágio
acontece paralelamente ao início de outro, momento em que notamos, ao mesmo tempo,
características de um e de outro estágio na mesma criança.

Para Wallon, o surgimento de um novo estágio não suprime o estágio anterior, apenas
o modifica. O desenvolvimento humano não acontece de forma linear e passa por avanços e
retrocessos de forma dialética.

Observe o elemento gráfico a seguir:


O desenvolvimento humano acontece em uma progressão dialética dos estágios.
Segundo Wallon, nesses estágios ora predominam aspectos cognitivos ora, aspectos afetivos, o
que detalharemos a seguir. Antes vejamos o que a psicóloga e professora especialista em
educação infantil Adrianne Ogêda Guedes pensa a respeito do desenvolvimento da criança:

O desenvolvimento da pessoa se dá numa construção progressiva em que se sucedem


fases em que ora predominam aspectos afetivos, ora cognitivos. A essa tendência a
predomínio de um aspecto sobre o outro Wallon dá o nome de “predominância
funcional”. Tal predomínio é orientado pelo princípio de alternância funcional. Cada
fase tem suas peculiaridades, delineadas pela predominância de um tipo de atividade.
Tais predominâncias estão ligadas aos recursos de que a criança dispõe para interagir
com o ambiente. (Guedes, s/d. p. 6, grifo do autor)

Segundo Guedes (s/d), Wallon identifica como predominância funcional o


predomínio de um aspecto sobre o outro. A autora continua com seus argumentos:

Cada um desses estágios traz novas conquistas realizadas pela etapa anterior,
construindo-se reciprocamente num processo de integração e diferenciação. O fato de
haver o predomínio do aspecto afetivo em determinada fase, como, por exemplo, na
impulsiva-emocional, não quer dizer que aspectos afetivos não estarão presentes na
próxima etapa (ainda que não sejam os predominantes) (Guedes, s/d. p. 6, parênteses
do autor).

A predominância atual não extingue, por completo, a predominância anterior.


Determinados aspectos permanecem, de forma dialética, no desenvolvimento humano, e isso
se refere ao desenvolvimento mental e orgânico dos indivíduos.

A seguir, detalharemos, um pouco mais, os estágios de desenvolvimento propostos por


Wallon.

Estágio impulsivo-emocional
Este estágio ocorre do nascimento até o primeiro ano de vida, período em que a
criança se mostra extremamente dependente do adulto. É um estágio com o predomínio do
aspecto afetivo; nele, as emoções e sentimentos são os principais instrumentos de interação
com o meio e são traduzidos em movimentos e expressões. A relação da criança com o
ambiente ainda é confusa e seus gestos e expressões são desordenados, pois dependem de
uma maturação neurofisiológica.

Wallon caracteriza dois momentos neste estágio. No primeiro momento a


impulsividade da criança está voltada a questões motoras; seus movimentos são descontínuos
e reflexos apenas. No segundo momento, a impulsividade da criança volta-se para as questões
emocionais. Sua relação com o meio se efetiva, surgindo as interações sociais como elemento
para o desenvolvimento humano. É o início da vida psíquica, quando surgem as primeiras
imagens mentais.
Estágio sensório-motor e projetivo
Neste estágio, aparecem os movimentos exploratórios, e a criança passa a conhecer o
mundo a sua volta através da manipulação de objetos. É um estágio de grandes
transformações e dois novos fenômenos marcam este período: o andar, que dará maior
autonomia para exploração do mundo pela criança, e a linguagem, que facilitará a nomeação
das coisas e objetos e possibilitará a formação dos signos culturais.

O desenvolvimento da inteligência está dividida em duas extensões: uma inteligência


prática, advinda da interação entre a criança e os objetos com os quais ela tem contato, e uma
inteligência discursiva, advinda do domínio da linguagem. Neste período existe um
predomínio dos aspectos cognitivos.

Estágio do personalismo
Como o próprio nome indica, este é um estágio em que a personalidade será formada.
Com o desenvolvimento da linguagem, as interações sociais são intensificadas e estabelecem-
se como a base do desenvolvimento humano, predominando o aspecto afetivo.

Neste período a criança, por estar imersa em um mundo cultural, que prevê simbologia
e formação de signos, já é capaz de representar. O objeto não precisa estar presente para a
criança se referir a ele, podendo, então, desenhá-lo ou, mais tarde, escrever a palavra que
represente esse objeto.

Estágio categorial
Neste estágio, a criança inicia o desenvolvimento da memória, da atenção voluntária e
da abstração. É uma fase em que o pensamento simbólico se estabiliza, transformando-se em
mais um instrumento cognitivo.

Há predominância dos aspectos cognitivos em detrimento dos aspectos afetivos. Dessa


maneira a criança capacita-se para ler, escrever e abstrair no universo dos números e da
matemática. É quando entendemos que a criança já está em idade escolar, pois, neste
período, a criança é capaz de formar categorias mentais ou conceitos abstratos.

Wallon identifica neste estágio um pensamento pré-categorial, que é marcado pelo


sincretismo do pensamento da criança.

Segundo Almeida e Mahoney (2003, p. 53): “Nesse momento emerge o pensamento


categorial, que juntamente com o pré-categorial caracteriza a inteligência discursiva.”
Estágio da adolescência
A puberdade traz com ela diversas transformações físicas, psicológicas e afetivas. Esta é
uma fase predominantemente afetiva e repleta de conflitos internos e externos advindos da
busca de autoafirmação pelo adolescente.

As interações sociais dentro do grupo a que pertencem são mais fortes do que na
família e a escola torna-se não só um lugar de aprendizagem, mas também de socialização. As
características da sexualidade efetivam-se e são um fator de grande influência no
comportamento desse adolescente.

Os estágios de desenvolvimento físico e cognitivo não se encerram com a adolescência,


pois ainda existem a vida adulta e a velhice para serem vividas. O processo dialético de
desenvolvimento jamais se encerra.

Wallon e o pensamento da criança


Wallon, em sua teoria, aponta dois tipos de pensamento no desenvolvimento infantil: o
pensamento sincrético e o pensamento categorial. Se conversarmos com crianças
pequenas, veremos que, por vezes, deparamo-nos com frases inusitadas, como “amanhã você
vai lá hoje” ou “desliga a chuva”. Parece sem lógica? Uma lógica adulta, talvez!

Ao lermos a obra de Wallon, entendemos que a criança tem uma lógica própria, que
permite a reunião de diferentes verdades, um pensamento singular e de difícil compreensão
pela sua complexidade, pela mistura de realidade e fantasia. Entretanto é um pensamento que
impulsiona a criança a entrar no mundo da brincadeira, no mundo do faz-de-conta,
fundamental para o ser criança.

O pensamento sincrético:

Este tipo de pensamento refere-se à fusão de diversos elementos, permitindo diferentes


configurações na acomodação entre esses elementos. A criança tem a tendência a fundir
realidade e fantasia; ela combina, aleatoriamente, as informações que recebe do meio, as
experiências pessoais, com sua percepção própria. O pensamento sincrético corresponde a um
momento do desenvolvimento humano.

Sincretizar significa reunir. Quando a criança é desafiada a resolver um problema


qualquer, sua resolução ou resposta é um misto de realidade e fantasia sem discernimento,
com uma visão generalizada e de forma global.

O resultado desse combinado de influências recebidas, como suas vivências, fantasias,


cultura, conhecimentos escolares, torna-se a principal característica do pensamento infantil.
Esta característica, que possui uma lógica própria, difere do pensamento lógico encontrado na
fase adulta, que é marcada pela característica da categorização.
O pensamento categorial:

Nos primeiros meses de vida, a percepção do bebê ainda não é clara. À medida que
novas vivências e informações vão acontecendo, o pensamento da criança vai se
aprimorando. O desenvolvimento do pensamento acontece partindo do pensamento
sincrético e passando para o pensamento categorial.

Com o pensamento categorial, a criança já é capaz de definir e classificar elementos,


discernindo semelhanças e diferenças entre os objetos e pessoas. Na fase do pensamento
categorial, a criança é capaz de fazer a representação das coisas e também já consegue
explicar a realidade à sua volta, caminhando para uma lógica adulta de explicação do mundo.

Almeida e Mahoney (2003) contribuem para aclarar a questão:

Entre os 6 e os 9 anos, transformações progressivas no pensamento e no


comportamento assinalam a redução do sincretismo, mas só a partir da emergência do
pensamento categorial será possível a criança operar com um sistema de relações
(Almeida e Mahoney, 2003, p. 56).

O desenvolvimento do pensamento da criança ocorre em um movimento evolutivo que


vai do pensamento sincrético ao pensamento categorial, permitindo uma reelaboração da sua
percepção do mundo. Se pensarmos na educação escolar, este período é aquele em que a
criança está cursando o Ensino Fundamental I e tem plenas condições de construir os
conhecimentos científicos, característicos da aprendizagem adquirida na escola.

Jean Piaget e o desenvolvimento da criança


Piaget (1896-1980) destaca-se como grande pensador da matriz do
conhecimento denominada interacionismo. Ele entende o
desenvolvimento humano, orgânico ou mental em estágios que se
sucedem durante a vida. Segundo Piaget, o pensamento humano é
influenciado por fatores referentes à sua capacidade cognitiva e às
influências que recebe do meio em que o indivíduo vive.

Em sua teoria do desenvolvimento cognitivo humano, os períodos de desenvolvimento


que o ser humano experimenta, apesar de ocorrerem em uma determinada ordem, não
seguem uma norma rigorosa para acontecerem ou se esgotarem. Bock, Furtado e Teixeira
(1991) argumentam sobre a passagem dos períodos de desenvolvimento que propõe Piaget:
Segundo Piaget, cada período é caracterizado por aquilo que de melhor o indivíduo
consegue fazer nessas faixas etárias. Todos os indivíduos passam por todas essas fases
ou períodos, nessa sequência, porém o início e o término de cada uma delas dependem
das características biológicas do indivíduo e de fatores educacionais, sociais. Portanto, a
divisão nessas faixas etárias é uma referência e não uma norma rígida (Bock, Furtado e
Teixeira, 1991, p.76).

Ao lermos a obra de Piaget, compreendemos que a periodização e as idades referentes


a um determinado período são referenciais e não fixas; o tempo de duração dos períodos
depende de fatores genéticos e sociais. A vida escolar de uma criança, suas relações
educacionais e a próprio conhecimento, certamente, influenciam o tempo de duração de cada
período.

Agora, observe o elemento gráfico a seguir, para compreendermos melhor o


desenvolvimento humano para Piaget:

Piaget propôs quatro estágios ou períodos de desenvolvimento da criança no campo


cognitivo. A seguir, vamos fazer algumas considerações sobre o desenvolvimento do
pensamento e da linguagem humana em cada um desses estágios.

Período Sensório-motor:
Neste estágio, a criança busca ampliar o controle motor e conhecer os objetos que a
rodeiam. Seu desenvolvimento físico e mental acelerado é a garantia de novas conquistas e
novas percepções do ambiente que a cerca. A criança parte de movimentos reflexos, de fundo
hereditário, para depois alcançar o movimento consciente e intencional.

Ao final do período, devido à maturação neurológica e motora, a criança é capaz de se


locomover, ganhando autonomia para melhor explorar o mundo e interagir com os objetos. A
aquisição da linguagem é iniciada, chegando a nominar objetos e fenômenos, e se aprimora
até chegar à construção de frases simples.
Período Pré-Operatório
Nesta fase, o surgimento da linguagem acarreta inúmeras transformações nos aspectos
afetivo, cognitivo e social da criança. Com o domínio da linguagem, a criança é capaz de
desenvolver o pensamento simbólico, das representações e das imitações.

A criança, neste período, apresenta uma forma de pensar egocêntrica, que tende a ter
uma visão única e singular. Ao final deste período, a estrutura física e sensorial já
desenvolvida garante à criança todos os requisitos básicos para uma plena aprendizagem
escolar.

Período das Operações Concretas


Superando o pensamento egocêntrico predominante no estágio anterior, a criança
experimenta o pensamento lógico. A abstração oferece para a criança a capacidade de utilizar
a matemática, pois ela já possui a habilidade da abstração, não necessitando da presença do
objeto para representá-lo.

Nesta fase, a criança consegue entender regras, consequentemente poderá


compreender seus próprios erros. Ao final deste período a criança terá a habilidade para
solucionar problemas de forma concreta, desenvolvendo análises lógicas sobre os desafios a
ela apresentados. A cooperação entre seus pares desenvolve-se, propiciando o trabalho em
grupo.

Período das Operações Formais


Uma característica peculiar desta fase é a passagem do pensamento concreto para o
pensamento formal e abstrato. Através do pensamento abstrato, o adolescente é capaz de
realizar operações no plano das ideias, construindo conceitos como liberdade, democracia,
justiça.

É um período em que os valores sociais e morais são questionados, em que o


adolescente faz profundas reflexões sobre a sua existência, fazendo perguntas como: Quem
sou eu? O que serei no futuro? O grupo de amigos é sua mais importante referência; dentro
dele realiza novas experiências estimuladas pelo grupo. Quanto à questão afetiva, o
desenvolvimento da sexualidade é bastante presente. Ao final do período, o adolescente está
apto para adentrar o universo adulto.
Considerações finais da unidade

Chegamos ao final da unidade conhecendo as contribuições de Piaget e Wallon para a


melhor compreensão do desenvolvimento humano, principalmente do desenvolvimento
infantil, ao qual deram um destaque especial. Suas teorias serviram de base para a construção
de muitas outras teorias educacionais.

Através de suas teorias, compreendemos como a criança formula suas hipóteses de


pensamento e podemos constatar o desenvolvimento das capacidades simbológica e
linguística nos pequenos. Com esse conhecimento, enquanto profissionais da educação,
poderemos melhorar o planejamento da ação pedagógica que vamos desenvolver em nossa
prática educativa, adequando os conteúdos a serem trabalhados aos objetivos, que devem
atender às capacidades próprias de cada período do desenvolvimento do aprendiz.

O aporte da visão interacionista, nos estudos a respeito do desenvolvimento humano,


garante uma visão crítica e uma abordagem mais global do indivíduo, o que é fundamental no
processo educacional. Ao analisarmos as interações sociais, dentro do contexto específico do
processo de ensino/aprendizagem, compreendemos que conhecer o desenvolvimento
cognitivo e orgânico das crianças permite uma melhor compreensão do sujeito de nossa ação
pedagógica.
Material Complementar

Para a complementação de seus estudos, sugerimos a leitura de artigos da Revista


Nova Escola, uma importante publicação sobre a educação. Solicitamos que acesse o site
apresentado abaixo. Nele você encontrará quatro reportagens sobre Henry Wallon a respeito
da sua teoria do desenvolvimento humano. É importante que leia todos os textos: “Henri
Wallon, o educador integral”, “Afetividade”, “Movimento” e “Biografia e contexto histórico”.

Explore
O site está no seguinte endereço eletrônico:
http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/educador-integral-423298.shtml

Leia com atenção os artigos, a fim de complementar seus estudos sobre o tema tratado nesta
unidade.
Referências

ALMEIDA L. R. e MAHONEY A. O. Henri Wallon – Psicologia e Educação. 3ª edição. São


Paulo: Edições Loyola, 2003.

BOCK, Ana M. B.; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes T. Psicologias: uma
introdução ao estudo de psicologia. 4º ed. São Paulo: Saraiva, 1991.

GUEDES, A. O. Psicogênese da pessoa completa de Henri Wallon: Desenvolvimento


da comunicação humana nos seus primórdios. Museu da Infância. Disponível em:
http://www.museudainfancia.unesc.net/memoria/expo_escolares/GUEDES_psicogenese.pdf.
Acesso em: 26/07/2012.

MORIN, E. O enigma do Homem: Para uma nova antropologia. Trad. Fernando de


Castro Ferro. Rio de Janeiro: Zahar Editores. 1975.

PIAGET J. Seis estudos de Psicologia. Trad. Maria Alice M. D’Amorim e Paulo Sérgio L.
Silva. Coleção culturas em debate. Rio de Janeiro: Ed. Forense. 1972.
Anotações

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